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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00358

Full Text




DEZEMBRO
DE 2010essoa
2 QUINZENA

A AGENDA AMAZONICA DE LOCIO FLAVIO PINTO


No 479
ANO XXIV
R$ 3,00


GOVERNADOR


0 fator Jatene

Em 2002 Simdo Jatene era um trao nas pesquisas eleitorais. 0 uso da mdquina piblica o
tornou governador Agora, quatro anos depois dofim do mandate, ele estd de volta. Com uma
perspective inWdita: ser governadorpela terceira vez atraves do voto. Um grande desafio.


j imao Jatene entrou no dia 1 para
seleto grupo dos politicos que
Aconseguiram ser eleitos duas ve-
zes para o governor do Pard. Dos vi-
vos, s6 Alacid Nunes, Jader Barbalho
e Almir Gabriel o ombreiam. Em rela-
cio ao passado mais remote, o nime-
ro 6 ainda menor. Essa faqanha tern
ainda dois components que a distin-
guem das demais. Jatene nunca tinha
sido candidate a um cargo eletivo quan-
do se apresentou para disputar o go-
verno pela primeira vez, em 2002. Foi,
durante os oito anos anteriores, o mais
poderoso dos secretarios do m6dico Al-
mir Gabriel, o primeiro governador a
se beneficiary do institute da reeleicgo


no Pard (1995/2002). Mesmo assim,
quando a campanha eleitoral comegou,
o candidate do PSDB era apenas um
traco nas pesquisas de votos.
O resultado estava coerente com a
forma de proceder de Jatene como o ho-
mem forte da administragao estadual. Os
politicos reclamavam de nao serem re-
cebidos pelo secretdrio, que controlava
as verbas piblicas. Quando recebidos,
tinham que esperar na fila, As vezes por
long tempo. E nem sempre safam com
uma decisdo do gabinete cujo titular nao
primava pela convicqco sobre o que fa-
zer ou a rapidez na execucgo das deli-
beraq6es. Dizia-se que era mais um ho-
mem do process do que do produto.


Desde que comegou na vida pdbli-
ca, como secretirio de planejamento
no primeiro governor de Jader Barba-
Iho (1983/86), Jatene seguiu o model
da tecnocracia, que tinha prevengao
pelos politicos, refratirios aos ajustes
t6cnicos e As diretrizes programiticas.
Fora at6 entao professor de economic
da Universidade Federal do Pard, com
mestrado na Unicamp, em Campinas.
Antes, circulava pelas noites, com um
violdo na mdo e composiq6es debaixo
do brago, cantando com sua entao es-
posa, Heliana. Naquele tempo, nenhum
dos seus amigos e companheiros de
boemia poderia imaginar que ele se tor-
coNTINfiA 'NAii P


1 LB AL A A Aa


A HISOI DA ALN T Ja 5a


41







CONTINUAVAO DACAPA
naria politico algum dia. Muito menos
goverador.
Para que Jatene se tornasse seu su-
cessor, o governador Almir Gabriel usou
e abusou da mAquina pdblica, exceden-
do o limited da responsabilidade. E foi uma
vit6ria dificil. Talvez por isso, Almir achou
que Jatene, Ihe devendo tudo, se subme-
teria a todas as suas vontades. Nao he-
sitou em atropelar o direito que o correli-
gionArio tinha de concorrer a um segun-
do mandate, como fizera seu anteces-
sor; se apresentou de novo como candi-
dato tucano em 2006, quando as sonda-
gens mostravam que seu substitute tinha
agora mais popularidade do que ele.
Conforme o seu estilo, Jatene evitou
o confront corn o padrinho e recuou. A
dispute terminou como se delineou a par-
tir do moment em que o ex-govemador
e nao o govemador no cargo foi ofi-
cializado como o candidate tucano: Al-
mir, jA muito desgastado, tomou possivel
a vit6ria da candidate do PT, Ana Jdlia
Carepa, at6 entao considerada inviAvel.
Nem os petistas apostavam nela.
Seu grupo, a Democracia Socialista,
nao s6 era minoritArio no partido. Era
tamb6m o mais sectArio, com menos trin-
sito com outros partidos. Seu capital de
voto praticamente se reduzia A pr6pria
Ana Jdlia, gragas a sua principal virtude:
ser"palanqueira", simpitica, extroverti-
da e de linguagem adequada as ruas.
Para Almir, entretanto, mais do que o
enfraquecimento do seu nome, o que
decidiu sua derrota foi a omissao de Ja-
tene, que nao retribuiu ao apoio que re-
cebeu em 2002 do entao goverador.
A volta de Simao ao govemo, depois
de quatro anos de afastamento do poder,
e nao atrav6s de reeleigio, 6 outra ca-
racterfstica especial desse segundo man-
dato. Da mesma forma que Ana Jdlia
nao queria ser candidate ao governor em
2006, ele nao manifestava disposiqio
para uma nova eleicqo quando 2010 co-
meqou. Seu nome foi se fortalecendo a
media que altemativas de outros parti-
dos se enfraqueciam ou eram logo des-
cartadas. Afinal, o PT conseguira for-
mar a maior de todas as coligaq6es para
uma eleigao em muitos anos no Para,
agrupando 14 partidos. E a propaganda
official dizia que o governor Ana Jdlia ti-
nha a adesao popular.
Contra ela acabaram restando ape-
nas duas forcas, praticamente sozinhas:
o PSDB e o PMDB. Jader Barbalho
apresentou seu candidate, o deputado
estadual Domingos Juvenil. Como Jos6
Priante anteriormente, Juvenil se dispu-
nha ao sacrificio de ficar sem mandate,


caso nao fosse eleito, em troca de uma
compensacgo a altura. Quem poderia
oferec8-la?
Jatene, 6 claro. Ja entao ele era o
favorite, mesmo tendo contra si a mi-
quina do govemo e, a principio, sem dis-
por de recursos para uma campanha a
altura de uma eleicqo majoritiria. Con-
tava, por6m, com o p6ssimo govemo do
PT, que nao conseguia fazer a rejeiqo a
Ana Jdlia baixar a um patamar aceitAvel
(abaixo de 50%), sem o qual, mesmo que
tivesse circunstincias favorAveis, dificil-
mente venceria. E com o suporte de Ja-
der Barbalho nos bastidores, sobretudo
quando, resistindo as presses do Pala-
cio do Planalto, ele se recusou a passar
para o lado petista.

Opeso do lider do
PMDB na vit6ria de
Jatene se traduz
agora, pela entrega de cin-
co secretaries a um parti-
do que nao apoiou oficial-
mente o candidate do PSDB.
Nenhum outro partido recebeu tanto. Ja-
tene teve ainda que dividir parte do seu
poder com outras correntes political, que
contribuiram, com maior 8nfase no interi-
or, para se contrapor ao forte esquema
de compra de voto do PT. Daf o seu se-
cretariado se apresentar como algo fla-
grantemente hibrido, partilhado entire po-
liticos e t6cnicos, multifacetado e poroso.
O novo govemador sabe que a he-
ranga 6 pesada. Tao dificil que ele assu-
me sem um program, sem sequer deli-
near perspectives para o Estado. Pare-
ce mais interessado de imediato em
acertar as contas e estruturar a aqao
para s6 depois decidir o que irA fazer.
Os lugares-chave, a espinha dorsal da
administraqao pdblica, foram ocupados
por t6cnicos, com enfase nas areas fa-
zendaria, planejamento, seguranga, sad-
de e meio ambiente (que se notabilizou
mais pelo acompanhamento constant da
Policia Federal do que por suas realiza-
q6es). As outras posiq6es foram preen-
chidas de acordo com crit6rios mistos ou
simplesmente politicos.
E uma composiqao inevitAvel porque
o Estado 6 grande e sua representaqao
polftica rarefeita, com pouca expressao
doutrinAria, guiada pelo compadrio e o
fisiologismo. E precise garantir a maio-
ria naAssembl6ia Legislativa, onde o que
menos conta 6 o interesses pdblico. Mas
esse hibridismo aguado nao deixa de
frustrar as expectativas dos que imagi-
navam que Jatene, livre das amarras a
Almir Gabriel e com potential de auto-
nomia, pudesse former um govemo de


melhor presenqa. Capaz de acabar com
uma caracteristica da hist6ria recent do
Para: qualquer que seja o partido ou a
pessoa no governor, o Estado nao deixa
de crescer e ele se empobrecer ao mes-
mo tempo, nao aproveitando o que hi de
melhor nesse process econ8mico.
No v6rtice dessa contradiqdo esti
uma personagem de grandeza tal que
se toma impossivel fazer alguma coisa
no Pard sem passar por ela: a antiga
Companhia Vale do Rio Doce. Em 2010
ela deve ter faturado 10 vezes mais do
que o Estado, devolvendo-lhe, na for-
ma de imposto, menos de 1% do que o
Estado arrecadou. Essas contas refle-
tem, ao mesmo tempo, a grandeza e a
pobreza do Pard em fungio de certo pa-
rasitismo de uma dnica empresa em seu
territ6rio, cor um peso sem igual em
qualquer outro Estado.
O que disse Jatene sobre a Vale du-
rante a campanha? O que de mais grave
foi apregoado a respeito saiu da boca do
seu ex-companheiro de partido. Almir
Gabriel acusou o pupilo de ter-se tornado
empregado da Vale depois que deixou o
govemo e estar comprometido com a
empresa. Mas nao apresentou qualquer
prova. Ainda assim, pelo tom incisive das
suas afirmativas, elas ficaram ecoando.
Criam uma expectativa sobre o procedi-
mento de Jatene em relacgo a minerado-
ra. Outros ji a confrontaram, as vezes de
forma rude. Mas nao foram inteligentes
nessa posiqao, nao trouxeram vantagens
para o Estado nem corrigiram os rumos
de um process flagrantemente colonial.
O que farA Jatene durante o novo
mandate? O que se pode esperar que
faga de substantial com a equipe que
formou? Conseguira preservar a inte-
gridade, a transparencia e a eficicia do
n6cleo t6cnico do seu govemo? Talvez
esse secretariado seja apenas para co-
mecar, mudando em seguida. Depen-
dendo do moment dessa segunda eta-
pa, 6 de se duvidar que seja para me-
lhor. Porque ja entao estard na hora de
pensar no segundo mandate. E para
Jatene se abrird a perspective dnica de
ser o primeiro politico a conseguir ser
eleito tr6s vezes govemador.
Como a maioria dos seus anteces-
sores, ele poderi se concentrar na cos-
tura political dos apoios para obter vo-
tos. Se fizer assim, conquistard uma vi-
t6ria de Pirro, como foi a de Ana Jdlia
Carepa. Se levar a s6rio o desafio de
interromper a rotina esquizofrenica que
combine crescimento corn pobreza, po-
deri at6 nao chegar ao cobigado ter-
ceiro mandate, mas garantird ao segun-
do a perenidade na hist6ria.


SJornal Pessoal DEZEMBRO DE 2010 2LQUINZENA








Destino de Jader ja esta tragado?


Jader Barbalho disp6e de ar-
gumentos t6cnicos para defender
sua eleicgo para o Senado ou a
realizagdo de uma nova eleigqo,
que seus advogados usaram em
diversos recursos judiciais. Mas
lhe falta um element fundamen-
tal para reverter a sua dificil si-
tuaqio: autoridade moral. Tudo
indica que ele foi escolhido como
sfmbolo de uma nova era de cos-
tumes politicos, da qual os fichas
sujas serao exclufdos, gracas a
lei aprovada neste ano (e que
entrou em vigor imediatamente,
cor efeito retroativo), passando
a exigir curriculos mais alvejados,
mesmo que ao atropelo das for-
malidades legais.
O ex-deputado federal se tor-
nou um simbolo national do po-
litico que enriquece ilicitamen-
te,.se valendo dos cargos piblicos para
os quais 6 eleito ou que preenche. Acu-
saoqes foram se avolumando e resul-
taram em mais de duas dezenas de
processes judiciais, que acabaram ba-
tendo nas instancias superiores do po-
derjudicidrio. A maioria j foi arquiva-
da e os que sobraram ainda nao resul-
taram em comprovacgo fitica, com o
estabelecimento do nexo causal entire
o desvio de recursos e a evolugqo pa-
trimonial do ex-governador. Mas pa-
rece prevalecer, nesse labirinto proces-
sual, decifrivel apenas pelos iniciados,
a convicqao de que as ilicitudes do r6u
se tornaram ptblicas e not6rias, dis-
pensando as provas.
Ha virios anos Jader trava o com-
bate legal nos tribunais, contraditando
as dendncias. Mas nunca travou um
debate pdblico sobre a formagdo da sua
riqueza, integrada por diversos im6veis
e uma grande rede de comunicago, que
s6 nao 6 do mesmo porte do seu maior
concorrente, o grupo Liberal, porque os
Maioranas tnm o suporte da Rede Glo-
bo de Televisio, fonte de desequilibrio
nesse segment da mfdia. Jader pare-
cia apostar no efeito anestesiante do
tempo, mas a enxurrada de acusaqges
sem contradita se beneficiou da mdxi-
ma popular: quem cala, consent.
Apesar da mrn fama espalhada pelo
pafs, o maior lider politico do Pard des-
de a redemocratizagdo continue a ser
considerado o parlamentar mais influ-


ente do Estado no Congresso Nacional,
na classificaqio do Diap, o 6rgao de
assessoria dos sindicatos. t tamb6m
interlocutor certo dos presidents da
repdblica, do "neocollorido" Itamar
Franco, passando pelo tucano Fernan-
do Henrique Cardoso e permanecendo
com Lula. Mas em conversas de basti-
dores, sem apariqo pdblica. Os inter-
locutores, evidentemente, temiam o des-
gaste de ficar ao lado de personalidade
tao controvertida.

J ader tera a mesma
utilidade para a nova
president, corn a
qual no tern a proximida-
de cultivada corn os seus
antecessores? Segundo o calcu-
lo de quem esti com seu lugar garanti-
do na nova estrutura de poder, o que 6
mais rentAvel: livrar-se de Jader ou con-
tribuir para que ele volte a circular pe-
los corredores do parlamento e por suas
extens6es?
Para Lula, aparentemente, a melhor
opcqo parece ter sido a primeira. Jader
nao apoiou Ana Jdlia Carepa no 20 tur-
no da eleigao para o governor do Esta-
do, como queria o president. Como
represalia (ou pela forga do acaso), os
dois acabaram nao se encontrando em
Brasflia, por suposto desencontro de
agendas. Sem explicaqes posteriores.
Mas haveria um indicio de que rom-
pimento propriamente nao hd: o Supre-


mo Tribunal Federal parece
aguardar pelo preenchimento da
sua 11a cadeira para apreciar o
caso do deputado federal Paulo
Rocha, do PT, que esti A espera
de julgamento na pauta. A situa-
do 6 a mesma do enquadramen-
to de Jader na lei da ficha limpa,
que terminou corn um empate de
5 a 5. O desempate na nova apre-
ciagqo, em favor do deputado fe-
deral do PT, ji nao o beneficiaria
porque ele teve apenas a terceira
votagqo para o Senado, abaixo do
peemedebista e do tucano Flexa
S Ribeiro. Mas poderia favorecer
Jader, pela revisdo do seu caso.
Ha uma questio, por6m: quem
tomaria tal decisdo logo ao assu-
mir um lugar na corte supreme,
contraiiando a maioria da opinion
pdblica national e se colocando
ao lado de um espantalho national? A
manutencqo da punicao a Jader consa-
graria a nova regra da elegibilidade de
candidates e faria esquecer a proteqco
a nomes tio ou mais condenaveis, como
o do deputado federal Paulo Maluf.
Todas as raz6es legais de Jader nao
seriam suficientes para superar seu es-
tigma moral. Ele j estaria condenado e
assim deveria prosseguir.
Nesse caso, 6 o seu fim politico. Os
cinco lugares no secretariado que o go-
vemador Simao Jatene Ihe reservou
nao sugerem nenhum epitAfio. Como
os outros lideres, Jatene ainda nao po-
sou com Jader, mas a importancia que
Ihe deu confirm os entendimentos que
mantiveram durante a campanha elei-
toral e que foram um dos motives da
vit6ria do candidate tucano. Al6m dis-
so, Jader fez bancadas parlamentares
de peso e continue a comandar com
mao de ferro o PMDB. Jatene nao
parece disposto a fazer o jogo do faz
de conta de Ana Jdlia. Sabe qual 6 o
resultado.
Sem mandate politico e ainda sem
presence na nova administraqgo fede-
ral, onde Jader ird buscar a fonte de
poder para continuar a impor o seu co-
mando e influencia? Ele ji passou por
dois exilios. O primeiro, entire sua said
do minist6rio de Jos6 Sarney e a candi-
datura ao Senado. O segundo, quando
renunciou ao mandate de senador at6


DEZEMBRO DE 2010 21QUINZENA Journal Pessoal al







CONCLUAio Dna daG 3
se apresentar novamente como candi-
dato a Camara Federal.
A duraq~o do novo inverno nao se-
ria maior do que os anteriores se ele
tivesse uma eleigio de maior expres-
sao logo. Mas em 2012 a dispute sera
municipal. Certamente ele nio ird que-
rer voltar ao inicio da carreira, por um
lugar na Camara Municipal de Bel6m,
que conquistou em 1966. Nem 6 provd-
vel que se apresente como candidate a
prefeitura da capital, com um risco de
ser derrotado tio grande ou maior -
do que para o governor do Estado. Ir
para o interior seria a admissao de di-
minuigio do seu porte, a nao ser que
fosse criado o Estado de CarajAs, em
cujos municipios tem expressao. Mas,
por enquanto, essa hip6tese nao passa
de especulaqao.
Se nao ha lugar adequado para ele
na nova eleicio, a said seria encontrar
um successor transit6rio ou definitive.
Seu filho, prefeito de Ananindeua, seria
o mais cotado para assumir a posigdo,
mas seu desempenho nao da seguran-
9a de que seja um candidate com chan-
ce real de vit6ria em Bel6m. Uma nova
derrota seria muito desgastante para o
jaderismo.
HA alternatives. As principals seri-
am a ex-mulher, Elcione Barbalho, a
mais votada para a Camara Federal, e
o primo, Jos6 Priante. Ambos tern apre-
sentado desempenho declinante na ca-
pital, mas ainda sdo os nomes mais for-
tes dentre mais uns poucos de menor
expresso, como a deputada estadual
Simone Morgado. Qualquer que venha
a ser a hip6tese adotada, podera signifi-
car certo enfraquecimento de Jader na
political paraense. Mas nao tanto que ji
possa ser considerado cachorro morto.
0 Liberal bem que parece conside-
rA-lo dessa forma. Durante dias segui-
dos ou sucessivos ojornal dedicou edi-
toriais e notas na sua principal coluna, o
Rep6rter 70, batendo na associaao de
Jader a corrupdo. O objetivo, de afas-
tA-lo do governor Jatene, nio foi alcan-
gado. Claro que o novo governador re-
cebeu os recados e os levou em consi-
deraqao. Mas o realismo politico o im-
pediu de seguir a recomendago, as
vezes dita em tom de ameaga. Ira pa-
gar caro por isso? Certamente, mas 6
bem provAvel que quite a divida em
moeda sonante, fazendo-a chegar aos
caixas do grupo Liberal atrav6s de pu-
blicidade official generosa.


O grupo Liberal, o
mais poderoso forma-
dor de opinido no
Para, nao esta satis-
feito com o governor
Jatene. As manifes-
taq6es desse desa-
grado ji foram mui-
tas. Comeqaram corn
a abertura de espago
para as critics da governadora Ana
Jdlia Carepa ao seu successor. Prosse-
guiram com a reduqao da cobertura
dada a posse de Simao Jatene, que fi-
cou ao largdo das fotografias, e notas
venenosas nas colunas. Culminaram, no
dia seguinte a solenidade de posse, corn
um artigo de Ronaldo Maiorana, dire-
tor-editor-corporativo dojornal, na edi-
q~o de domingo de O Liberal.
Jatene ainda nem havia concluido a
sua equipe e Ronaldo jA se antecipava
para proclamar que se o novo govemo
vier a ter a fama de trabalhador, deve-
ra esse titulo ao PAC (o Programa de
Aceleraqdo de Crescimento), conce-
bido pela dupla Lula-Dilma e executa-
do no Para por Ana Jilia. "A verdade
6 que todos os projetos foram elabora-
dos e aprovados durante o govemo Ana
Jdlia e o dinheiro que financiara as
obras sera heranca de Lula", assinou
o editor do journal. Se for bem, Jatene
sera um produto do PT. Se for ruim,
sera criaq~o pr6pria.
A afirmativa contraria o entendimen-
to dominant e os fatos. Parte conside-
rAvel dos projetos do PAC estA com o
cronograma atrasado. Outra parte foi
contratada e ainda nao foi iniciada. HA


A verdade 6 que a presenga de Ja-
der Barbalho na political paraense tern
sido tao forte e ampla que sua said ou
seu enfraquecimento criam tal vacuo
que os sucessores aliados on inimigos
- preferem sondar o terreno antes de
arriscar um confront aberto. Mais do
que nunca se tornaram flagrantes as li-
mitag6es do cacique do PMDB e sua
crescente vulnerabilidade.
Aos editorials durissimos dojornal
inimigo, o Didrio do Pard reagiu corn
maledicencias incriveis sobre a matri-


ainda as obras sem
previslo de fonte de
recursos. E outras,
em andamento ou jA
realizadas, tamb6m
n~o foram criadio do
PT, que as herdou de
administrag6es pas-
sadas, com o m6rito
de concluir algumas,
de grande porte, que se arrastavam hA
d6cadas, como as eclusas de Tucuruf.
Cometer6 um erro quem deduzir
dessa evidence ma vontade dos Maio-
ranas que mantenham fidelidade ao go-
verno que passou, pr6digo em verbas
de propaganda. Tamb6m ndo sera in-
terpretacio satisfat6ria achar que 6
apenas mais um capitulo do jogo de
pressao por novas e abundantes ver-
bas oficiais, embora esse component
seja quase automatico na political edi-
torial da casa.
A fonte imediata da reacqo dos Mai-
oranas ao novo govero 6 o desagrado
por nao terem sido consultados sobre a
formaio dos seus integrantes e nao te-
rem podido exercer o veto sobre alguns
nomes, que consideram como sendo seus
inimigos ou desafetos, ou sobre a aproxi-
maqao do PSDB com o PMDB, do de-
testAvel Jader Barbalho. Pelo menos de
inicio, parece que Jatene ignorou os re-
cados e fez a selegeo sem a participa-
q9o daqueles que se atribuem muito mais
do que o poder que tnm. Para consolidar
sua decision tera que mostrar firmeza e
independ8ncia, atributos que trn faltado
a quase todos que sobem ao poder no
Pard diante do grupo Liberal.


arca do cla, D6a Maiorana, revolven-
do seu passado. Na 6poca do "baratis-
mo", que constitui a origem das duas
families hoje inimigas, esse tipo de re-
presalia conseguia intimidar a outra
parte. Hoje, serve mais para denegrir
o acusador. Como dono de um imp6rio
de comunicagqo, se nao reage com
fatos de interesse pdblico, 6 porque
Jader nao tem o que dizer em seu
favor e contra o seu maior inimigo. Nao
6 um bom sinal em moment tao im-
portante quanto o atual.


l Jornal Pessoal DEZEMBRO DE 2010 2QUINZENA


Os donos do poder

ficaram a margem?








0 sucesso da Alunorte

beneficia mesmo o Para?


Poucos belenenses se dao conta de que
a 50 quil6metros da capital paraense fun-
ciona a maior fibrica de alumina do mun-
do, produto intermedidrio entire o min6rio,
a bauxita, e o metal, o aluminio. AAlunorte
esta em operacao ha 15 anos, ao lado da-
quela que devia ser sua irma g8mea, aAl-
br~s, que estA entire as 10 maiores meta-
16rgicas de aluminio do mundo e 6 a maior
do continent sul-americano.
No m8s passado a Alunorte lanqou um
album para comemorar seu aniversrio de
15 anos: Alunorte, uma hist6ria de su-
cesso, escrito por seu mais antigo funcio-
nario ainda em atividade, Vict6rio Siqueira
(183 pAginas ricamente ilustradas). A au-
xilid-lo esteve Romeu Teixeira, autor de um
album semelhante sobre os 25 anos daAl-
bras, tamb6m comemorados em 2010.
Romeu 6 ex-presidente das duas empre-
sas e mem6ria viva de suas hist6rias.
Sio duas obras importantes e uteis.
Elas nao sdo apenas propaganda e rela-
96es plblicas. Seus autores transforma-
ram em vantagem o que costuma ser um
fator de inibiqao: eles fizeram a hist6ria
que agora relatam. Por isso sabem do que
estdo falando e dominam o tema, sem que
essa intimidade impossibilite uma aborda-
gem objetiva e at6 critical.
Embora seja possivel e at6 deseji-
vel fazer reparos a algum enfoque ou
lamentar a falta de certas informaqges,
ou o context social e politico no qual os
empreendimentos se desenrolaram, os
dois Albuns sao fontes indispensiveis de
consult sobre a implantag~o do p6lo de
aluminio naAmaz6nia. E que hist6ria!
Quando ela comegou, em meados dos
anos 1970, a produqgo national de alu-
mina nao chegava a 500 mil toneladas
por ano, equivalent a 1% da producgo
mundial. Hoje, o Brasil (cor maior des-
taque o Pard) 6 responsivel por 12% da
producao mundial, sendo o terceiro do
ranking interacional. S6 aAlunorte res-
ponde por mais da metade da produgao
brasileira. O pafs 6 tamb6m o 30 maior
produtor de bauxita do mundo, cor 26
milh6es de toneladas.
Nos pr6ximos cinco anos esses nime-
ros praticamente dobrarAo. A produgqo
de bauxita passarA de 50 milh6es de to-
neladas e a de alumina ficara perto de 20
milh6es. O Pard se consolidara como o
lider disparado nesses dois segments,
al6m de ser o primeiro em aluminio. A
Alunorte contribui com um bilhdo de d6-
lares anuais para o pais, exportando 5,5
milh6es de toneladas.


Em 2013 a CAP (Companhia de Alu-
mina do Pard) entrard em producqo, de-
vendo superar sua vizinha no distrito in-
dustrial de Barcarena e contribuir para que
s6 dali saia um terqo da produgao mundi-
al. Al6m de proporcionar divisas, a Alu-
norte tamb6m contribui para que o Brasil
deixe de gastar outro bilhdo de d6lares ao
fornecer 870 mil toneladas por ano para a
Albras transformar em metal, sem preci-
sar importar alumina.
Esses resultados e todos os feitos rela-
tados por Vict6rio Siqueira garantiriam o
titulo do seu livro: uma hist6ria de sucesso.
Mas se a sucessdo de faganhas realmente
impression, por transformar um projeto
que parecia condenado a morrer no nas-
cedouro na maior e melhor fabrica de alu-
mina que existe, o seu percurso acidenta-
do e o seu desfecho atual levam a conclu-
soes nio s6 distintas, mas antagOnicas.
Parecia mesmo que a Alunorte nunca
sairia da casca. O prego do aluminio, que
estava acima de US$ 1.500 a tonelada,
baixou para mil d6lares na 6poca da ava-
liaqso da viabilidade. A alumina australia-
na passou a ser comercializada por US$
170/180, quando os estudos de viabilida-
de daAlunorte previam pregos entire US$
224/234, uma diferenqa de quase 30%.
Com o excess de alumina no mercado,
seu preco chegou a US$ 50/70.
As negociaq6es para a definido da
Albras e aAlunorte demoraram tr8s anos,
de 1978 a 1982. Havia "muitas duvidas e
desconfiancas, principalmente dos s6cios
privados japoneses, quanto ao custo e a
viabilidade fisica de implantaiao do pro-
jeto", diz o autor. Foram 15 anos at6 a
fabrica entrar em operacao: quatro anos
de implantacao em ritmo lento, seis anos
de paralisanio e cinco de ritmo normal.
Pelo roteiro original da hist6ria, aAlu-
norte devia ter comecado a funcionar vA-
rios meses antes daAlbras parapoder acu-
mular a alumina que seria usada na trans-
formaqao em metal (duas toneladas de
alumina para cada tonelada de aluminio).
Mas a Alunorte s6 entrou em funciona-
mento 10 anos depois da partida da Al-
brAs, emjulho de 1995.
Durante todo esse perfodo, a AlbrAs
teve que funcionar com alumina importa-
da, As vezes mais cara e de qualidade infe-
rior, embora a Mineracqo Rio do Norte ti-
vesse comecado a produzir bauxita no
Trombetas seis anos antes. O ParA expor-
tava min6rio e importava alumina. O pre-
juizo por essa transacgo quase equivaleu
ao valor inicial do projeto daAlunorte.


Por que ficou faltando o elo da cadeia?
Em primeiro lugar, por causa do jogo de
interesses praticado pelo principal s6cio
no empreendimento, o Japio, autor do en-
redo. Um mes depois do primeiro choque
do petr6leo, que inviabilizou o Japao de
produziralumfnio (o produto industrial mais
intensive em energia) em seu pr6prio ter-
rit6rio, os produtoresjaponeses assinaram
com a entdo estatal Companhia Vale do
Rio Doce, em T6quio, um acordo para ana-
lisar a viabilidade de produzir aluminio na
Amaz6nia. Aprimeira reunido do pr6-es-
tudo de viabilidade foi realizada em mar-
go do ano seguinte, ainda em T6quio. Os
japoneses procuravam uma said para a
crise em que foram langados pela sdbita
quadruplicaq~o do preco do petr6leo.
A principio, o empreendimento pare-
cia inviAvel. Mas quando o govemo bra-
sileiro decidiu assumir o custo de toda in-
fraestrutura, inclusive da energia, cujo in-
vestimento superava algumas vezes o
custo das fabricas, o neg6cio se tomou
rentAvel. Para os japoneses, o que inte-
ressava era receber o alumfnio primorio
para processi-lo em seu territ6rio, sem a
enorme demand por energia e o 6nus
ecol6gico da lavagem da bauxita para
transforma-la em alumina. O process
produtivo para tras devia ficar restrito ao
ponto de origem.
Por isso, o projeto da alumina s6 lhes
importava enquanto insumo indispensavel
da metalurgia, que precisava ser garanti-
do. Mas nao queriam investircapital de risco
nesse neg6cio. Estavam dispostos a finan-
cia-lo, o quefizeram, com ganhos excepci-
onais em funigo da vinculagao do iene ao
d61ar. Por causa desse dispositivo cambial,
extremamente oneroso ao Brasil, ganha-
ram emjuros o equivalent a 35% do cus-
to da primeira etapa da Alunorte.
A Vale nio teve conviccao ou disposi-
9o (e, durante certo perfodo, nem dinhei-
ro) parabancar a produco de alumina, que
era estrat6gica. Quase sucumbiu a mano-
bra da Alcoa, maior produtora mundial de
alumina, empenhada em no deixar que a
Alunorte surgisse e se tomasse sua com-
petidora. Afinal, gracas a consistencia do
projeto original de engenharia, Apersisten-
cia da equipe principal e A sua capacidade
inventivae de improvisaqao, o patinho feio
se metamorfoseou em cisne.
Quando parecia que, superando to-
dos os desafios, podia-se ter a esperan-
9a de que, depois de um quarto de s6cu-
lo, o p61o de aluminio daAmaz6nia final-


DEZEMBRO DE 2010 2'QUINZENA Jornal Pessoal a







N-00 CONCLU AsO DA PA 5
mente daria um pass A frente na trans-
formaq~o industrial, livrando-se da sua
argola colonial, a Vale -jj agora privada
o desnacionalizou completamente, ce-
dendo o control de todo process A no-
rueguesa Norsk Hydro. Era o arremate
da involuqdo: depois da desestatizago,
a desnacionalizacqo.
Especializada na etapa seguinte da ca-
deia produtiva, agora a multinational no-
rueguesa estA plenamente verticalizada,
com sua base industrial em seu pais e todo
process anterior no Para. Talvez a Vale
tenha feito um bom neg6cio privado, ao
trocar o control acionario daAlbris, CAP,
Alunorte e mina de bauxita de Paragomi-
nas por 22% das a6es globais da Hydro.
Mas para a AmazOnia e o Brasil foi um
desastre. Uma regressAo na hist6ria.
O livro de Siqueira e Teixeira 6 rico
em informag6es e atinge uma profundi-
dade raramente encontrada nesse tipo de
publicacgo. Mas a hist6ria do ciclo do
alumfnio naAmaz6nia, que ainda nao tem
meio s6culo, esta por ser integralmente
contada. Envolve mist6rios e obscurida-
des que desafiam a capacidade elucida-
tiva. Principalmente por falta de infor-
maq6es e reflexes contextualizadas em
escala mundial.
Uma das quest6es 6 a participacgo
daAlcan nessa saga. A multinational ca-
nadense foi pioneira na produgao de alu-
minio no Brasil, na d6cada de 50. O pafs
at6 entdo s6 ia at6 a fase da alumina.
Em 1967 a Alcan descobriu as grandes
reserves de bauxita do Trombetas, com
500 milh6es de toneladas, no oeste do
ParA. Mas seu projeto era modesto: um
milhdo de toneladas.
O govemo military pressionou e a em-
presa acabou aceitando dobrar a escala
de producgo para dois milh6es de tone-
ladas. A mina devia entrar em operacAo
emjaneiro de 1975, mas emjulho de 1972
aAlcan decidiu suspender sua implanta-
cao. Alegou que a crise do mercado in-
temacional de alumfnio tirara a rentabili-
dade do neg6cio.
Para possibilitar a continuidade, a Mi-
nerago Rio do Norte foi reorganizada,
em julho de 1974. A canadense cedeu o
control acionirio A Vale, que ficou com
41%. ACBA, do grupo Ermfrio de Mora-
es, manteve outros 10%, garantindo a na-
cionalizagao do empreendimento.
Seis multinacionais entrariam no proje-
to, cada uma com 5%, inclusive a norue-
guesa Norsk Hydro. As outras eram a INI,
RTZ, ASV e Billiton, algumas das quais
participavam do cartel das seiss irmas". A
escala passou para 3,4 milh6es de tonela-
das (que hoje 6 de 18 milh6es). Em 1976
as obras, que mal haviam sido iniciadas pela
Alcan, quando proprietAria exclusive, fo-
ram retomadas. No dia 13 de agosto de


1979 o primeiro navio desatracou de Porto
Trombetas carregado de bauxita.
Mesmo abrindo mao do control do
neg6cio, a Alcan sempre apoiou a MRN.
Parecia que o interesse da empresa era
apenas encontrar uma fonte substitute de
suprimento de min6rio depois que sua mina
de bauxita na Guiana foi estatizada pelo
governor local. Nio era mais essencial ter
o dominio societArio, attitude que se repe-
tiu em relaio A alumina.
O interesse da Alcan em participar da
Alunorte, depois de anos de um namoro
sempre inconcluso, chegou ao fim quan-
do a empresa foi aceita no projeto da Al-
coa no Maranhao, a Alumar. Parece ter
sido uma compensago pela attitude da
Alcan, que, depois de certa resistencia,
concordou em que a multinational ameri-
cana entrasse na mineragdo de bauxita
do Trombetas. A Alcoa ameagava iniciar
a exploraao de uma mina vizinha e do
mesmo porte, em Cruz Alta, provocando
queda no preqo da mat6ria prima, caso
nao pudesse participar da MRN.
O que o autor do livro estranha 6 a op-
qo feita pela Alcan, favorivel A Alumar,
em Slo Luis do Maranhao. "Essa partici-
pa~io, de apenas 10% e restrita A plant
de alumina, 6 muito pouco se comparado
ao que ela poderia ter tido na Alunorte, se
tivesse sido arrojada e apoiado o projeto
quando a Vale realmente precisava de seu
apoio", observa Vict6rio Siqueira.
Embora talvez estranha, a estrat6gia da
Alcan no deixou de ser eficiente: sem pre-
cisar lantar mao do seu capital, ela encon-
travacaminhos -ainda que tortuosos -para
fazer parte do neg6cio. Tinha e ainda
temr- metade das a6es dajaponesa NLM,
que possufa 6% das aNes do cons6rcio
niponico NAAC, que, por sua vez, integrou
tanto a Albnis quanto a Alunorte.

utra questao crucial
que tambm precise de
um esclarecimento
mais amplo 6 o da participa-
9ao japonesa. Em setembro de 1973
uma misso japonesa chefiada por Isao Ka-
waguchi, entio president da Mitsui Alu-
minium, visitou o Trombetas. Nesse mes-
mo mes foi criada a Eletronorte corn a mis-
sao de construir a hidrel6trica de Tucuruf.
Era evidence que o sonho, acalentado
por tantos anos na Amaz6nia, de ter uma
base energ6tica s61ida para fomentar ati-
vidades produtivas, estava se materializan-
do por decisdo tomada do outro lado do
oceano, nao propriamente pelo Brasil.
0 Japdo tinhaplenaconsci8nciadeque
a era de produgo pr6pria de aluminio, que
somava 1,5 milhao de toneladas quando
ocorreu o primeiro choque do petr6leo,
chegara ao fim. O pafs tinha diante de si
dois enormes desafios: transferir essa pro-
ducqo pr6pria para centros que passari-


am a fomecer o metal, com pregos favo-
rnveis, e livrar-se dos grandes exportado-
res mundiais, o cartel das seiss irmas",
dominado por Alcoa, Alcan, Alussuisse
(incorporada a Alcan/RTZ), Kaiser, Pe-
chiney e Billiton.
Os japoneses, como admite Siqueira,
"nao estavam interessados em produzir
para venda no mercado". A ess8ncia do
projeto, para eles, "era somente a garan-
tia de suprimento do metal". Mais do que
um projeto de empresa, era uma estrat6-
gia do governor japon8s, que subscreveu
40% do capital da Nalco (depois NAAC),
fundada em 1977, enquanto os restantes
60% foram partilhados por 30 empresas.
O primeiro estudo de viabilidade deu
negative por causa do peso da infraes-
trutura de apoio As duas fibricas. Os pro-
jetos foram entdo desonerados desses
pesados gastos, sobretudo com a ener-
gia. Mas o subsidio tarifirio concedido
por ordem do principal interlocutor nas
negociag6es, o nissei Shigeaki Ueki, mi-
nistro das minas e energia, foi conside-
rado alto demais.
A coincid8ncia de ter um descenden-
te dejaponeses do outro lado da mesa de
negociagdo n~o se restringiu a Ueki.
Akihiro Ikeda, secretirio-geral do minis-
tro Delfim Neto no govemo do general
Joao Figueiredo, que comegou em margo
de 1979, teve forte influ8ncia nos enten-
dimentos sobre aAlbrns-Alunorte. Antes
dele, a presenga marcante foi de outro
"Delfim boy", Eduardo Carvalho, que
"chegou a assumir attitudes ousadas, assi-
nando protocolos no Japdo sem a formal
aprovado da administragCo da Vale".
A Eletronorte -informa Siqueira- "in-
sistia na revised da formula de precos".
Queria elevar o piso de oito mil6simos de
d6lar por kW/hora, acertado com Ueki,
para 11,70 mills, "com o que osjaponeses
nao concordavam". No contrato, assina-
do em 1980, ficou definido um valor m6-
dio: 10,5 mills. Esse subsidio representa-
ria valor equivalent ao de uma nova fa-
brica de alumfnio. Prejufzo ainda mais
agravado pela elevagdo descontrolada do
custo da hidrel6trica de Tucuruf.
Com o agravante, para o Pard, de que
grande parte da energia gerada em seu
territ6rio acabaria sendo desviada para
outros Estados. No inicio o projeto daAlu-
norte nao previa a cogeramao (geraAo pr6-
pria) porque se esperava por grandes so-
bras da produgo de energia em Tucuruf.
A empresa comprou tres caldeiras
el6tricas, com capacidade para 150 MW
(quase metade da potencia de uma tur-
bina de Tucurui). O objetivo era "apro-
veitar as possiveis sobras de energia do
Sistema Norte durante o perfodo de chei-
as", diz Siqueira.
Mas na hora da partida a Eletronor-
te nao tinha energia para as caldeiras


a Jornal Pessoal DEZEMBRO DE 2010. 2IQUINZENA







el6tricas. Em 1998, com integraqao da
rede da Eletronorte ao sul do pais, a
oferta local ficou mais restrita e os pre-
gos mais altos. Felizmente, por um bu-
rocratismo sem explicaggo pela 16gica,
a Alunorte teve que comprar uma cal-
deira a 61eo diesel com capacidade se-
melhante A das el6tricas. Foi essa cal-
deira que entrou em operaqao. Do con-
trdrio, a fabrica ficaria sem energia su-
ficiente. A geragao teve que ser feita
usando o carvao.
Neste ano, a matriz energ6tica daAlu-
norte sera totalmente convertida para o
carvao, "o que, aliado ao seu baixo indi-
ce de consume, significard um dos mais
baixos custos de energia do mundo", ga-
rante Vict6rio. Ele tamb6m assegura que
sera um process muito menos poluente
do que o com 61eo. Embora haja um in-
cremento de di6xido de carbon no ar
(cinco milh6es de toneladas de particu-
lados), haverd menos di6xido de enxo-
fre, que 6 mais agressivo.
Os japoneses nio tinham, pela alumi-
na, o mesmo interesse que para eles re-
presentava o aluminio. Assim, o projeto
daAlunorte "ficou fragilizado e foi exaus-
tivamente atacado pelaAlcoa, que nao de-
sejavadisputas naAmaz6nia, com um pro-
duto em que ela era lider mundial. Isso
atrasou e encareceu a implantag~ o daAlu-
norte", diz Siqueira.
Era para a Alunorte entrar em opera-
qao em 1985, bem antes do t6rmino da
fabrica de aluminio. Haveria uma sobra
de 2 milh6es de toneladas de alumina en-
tre 1985 e 1990, o que daria prejuizo de
US$ 200 milhoes a Vale, em funcqo da
obrigatoriedade de comprar sua cota, de
41%, por um preqo superior ao que obte-
ria na sua comercializaao.
Em agosto de 1982 Eliezer Batista, en-
tao na presid8ncia da Vale, foi ao Japao e
manifestou o desejo da estatal brasileira
em retardar a implantago da Alunorte.
"Os japoneses se surpreenderam com a
intempestiva proposta da Vale, pois, em
1981, apenas um ano antes, tinham sido,
com veem8ncia, pressionados para deci-
dir o infcio da implantago dos projetos",
registra Vict6rio.
Logo em seguida a Alcoa americana
se comprometeu com a Vale a fornecer
bauxita durante 10 anos ao prego de US$
180 a tonelada. Era "uma surpreendente
proposta", j6 que a Vale estava constru-
indo um projeto semelhante e que iria con-
correr com o projeto da pr6priaAlcoa em
Sao Luis do Maranhao. A proposta "en-
volvia uma estrat6gia de long prazo que
inviabilizaria o projeto da construcgo da
refinaria de alumina da Alunorte". Erani
propostas "abusivas" e "despropositadas".
Mas aAlunorte conseguiria sobreviver "a
esse furacao" e resistir "ao ataque da mai-
or multinational de aluminio".


A Alcoa voltaria ao alvo quando da
privatizaCgo da Vale, em 1997. Nessa oca-
siao o valor da Alunorte era negative em
US$ 150 milh6es, por causa da divida com
os financiadores japoneses. A multinacio-
nal props US$ 160 milh6es paraficar com
a empresa. Mais uma vez, nao levou.
"A Vale enfatizou os riscos politicos
de uma paralisagao total da implantaco,
principalmente em relagao ao BNDES,
que criticara o acordo de acionistas e nao
aceitaria uma said injustificada da
NAAC. Tamb6m a Eletronorte via o fe-
chamento da alumina como uma mudan-
qa conceitual do projeto integrado de alu-
mfnio na Amaz6nia e nao aceitava man-
ter tarifas favoriveis somente para pro-
cessar alumina importada", observa Si-
queira. O risco da perda da tarifa privile-
giada de energia foi o argumento decisi-
vo para os japoneses".
Durante os 10 anos em que aAlunorte
ficou parada e a Albris teve que comprar
alumina no exterior, a perda de divisas com
a importaqao de 5 milh6es de toneladas de
alumina causou uma sangria de US$ 700
milhoes, quase o valor da fabrica.
Os japoneses nao queriam entrar com
capital de risco, s6 com financiamentos
do seu Eximbank, al6m do BNDES, que
relutava por achar que o conglomerado
nao tinha efetivo control national, ape-
nas formal. Seria precise vender a alumi-
na a US$ 149 e a taxa de retomo seria de
apenas 1%.
S6 era neg6cio para a Albris comprar
alumina da Alunorte se tivesse desconto
de 20% em relago ao preqo do mercado
intemacional, o suficiente para cobrir os
17% de ICMS mais o Imposto de Impor-
taco, por ser operaqo intema e nao de
exportacao, s6 esta isenta de tributes.

D os US$ 273 milh6es que
foram gastos na Alu-
norte ate 1989, 35% fo-
ram consumidos pelos juros.
A variaq~o cambial do d6lar em rela-
cao ao iene, imposta pelos japoneses,
custou aAlunorte US$ 140 milh6es en-
tre 1982 e 1986. O custo financeiro to-
tal at6 a inauguragao da fabrica foi de
US$ 340 milh6es.
"E important ressaltar o grande peso
financeiro resultante dos juros dos finan-
ciamentos em moeda japonesa, provo-
cado pela enorme valorizaqo do iene a
partir de 1985", garante o autor.
Quando houve um impasse societArio
e o cons6rcio japones se recusou a pagar
sua parte das despesas iniciais daAlunor-
te, "a Vale, em represAlia, passou a exigir
que a expansao do d6bito em ienes, resul-
tante da valorizago do iene frente ao d6-
lar, fosse tamb6m incluida na conta". A
NAAC achou entao melhor pagar. De-
pois, os acr6scimos foram perdoados.


Ap6s percurso tao atropelado, final-
mente, em 2000, a Alunorte se livrou da
pesada divida e teve o primeiro ano de
lucro liquid, cinco anos depois de ter en-
trado em operaao. A partir daf, suas am-
pliag6es foram sucessivas, bem feitas, ri-
pidas e com custo decrescente, at6 che-
gar A lideranga mundial, cor 6,2 milh6es
de toneladas e um investimento acumula-
do de 3,2 bilhoes de d61ares.
A empresa se firmara no mercado
mundial cor um produto de alta quali-
dade e processes industrials inovadores,
que a levaram a construir o primeiro mi-
neroduto de bauxita do mundo, cor 240
quil6metros de extensao, entire Parago-
minas e Barcarena. Em menos de tr8s
anos essa transformacao se tinha pro-
cessado e o p61o de aluminio parecia
em condig6es de se expandir.
O plano estrat6gico de 2001 da Vale
para a area de aluminio previa absor-
ver 31% das novas demands de bau-
xita no mundo e 28% das de aluminio
at6 2015; em associacao cor outras
empresas, as metas seriam de 47% e
46%, respectivamente.
Invertendo essa tendencia, por6m, a
Vale surpreendeu a opiniao pdblica no
infcio do ano, ao passar todo o p6lo para
a Norsk Hydro. A empresa norueguesa
comegou a negociar sua participagao
em 1999 e no ano seguinte entrou para
a Alunorte, ficando cor 25,25% das
suas ac6es.
Com a transaco deste ano, a Hydro
passou a ter 91% da Alunorte (o que so-
brou ficou dividido entire a CBA e os ja-
poneses), o control da Albrns e da CAP,
mais 60% da mineragio de bauxita de Pa-
ragominas (cor a possibilidade de ficar
cor os 40% que ficaram cor a Vale em
cinco anos). Em troca, cedeu a brasileira
22% de suas ac6es.
Se foi um bom neg6cio financeiro
para a dnica multinational brasileira, cer-
tamente foi p6ssimo para o Brasil e o
Pard, que sequer tomaram conhecimen-
to da operacao: ou por nao terem sido
comunicados, ou por nao se interessa-
rem em cobrar satisfag6es.
0 Pard contribuiu decisivamente para
viabilizar a Alunorte quando concede
deferimento no pagamento do ICMS, em
1993, a cadeia produtiva do aluminio ele-
vando sua rentabilidade, que era de 1%.
Em 2000 a lei foi renovada, cor a ex-
tensao dos beneficios a outros min6rios,
como o ferro e o manganes, e estari em
vigor at6 2015.
Mas na hora de alienar o patrimonio,
a grande mineradora esqueceu esse "de-
talhe", que faz a diferenga nessa hist6ria.
Nela, na escrita da Vale, o Pari nao par-
ticipa do sucesso em que realmente aAlu-
norte se transformou, para melhor usu-
fruto de estrangeiros.


DEZEMBRO DE 2010 2*QUINZENA Jornal Pessoal U


















POLITICOS
Apesar de dizerem que co-
locam acima das diferenqas
pessoais os mais altos interes-
ses pdblicos, os lideres politi-
cos no Pard tnm enormes di-
ficuldades de colocar em prA-
tica sua ret6rica.
A cr6nica hist6rica mostra
que as rivalidades costumam
pesar mais do que os progra-
mas porque o alvo mais vi-
sado 6 o control do poder.
Os grupos que se digladiam


nessa luta buscam a hege-
monia absolute, fi6is ao dita-
do popular de que farinha
pouca, meu pirdo primeiro.
Os encontros eventuais ou
ocasionais entire os inimigos
costumam ser tensos e peri-
gosos. Como o que, no final
de 1957, colocou no mesmo
ambiente o todo poderoso
governador Magalhaes Ba-
rata, do PSD (Partido Social
DemocrAtico), e o m6dico
Lopo de Castro, que se ele-


PROPAGANDA

Viagem sem interrupgao
Mal Brasilia foi inaugurada, em 1960, jd havia voo direto


gera prefeito de Bel6m pela
oposi~io. Foi na abertura da
V Confer8ncia Rural, no Te-
atro da Paz (que abrigava
todo tipo de acontecimento).
O prefeito chegou primei-
ro e ficou isolado quando
uma avalanche de gente se
deslocou para o governador.
Cada parte guardou distan-
cia da outra at6 que os dois
foram chamados para com-
por a mesa que presidiria a
solenidade. Ao puxar a ca-
deira para se sentar ao lado
do governador, que ja esta-
va bem posto, o prefeito
cumprimentou-o com um
seco "boa noite". Barata
nada disse: limitou-se a fa-
zer um movimento de retri-
buigio com a cabega. E vi-
rou-se imediatamente para
o lado contrario, passando a
conversar com seu compa-
nheiro de mesa.
Depois dos discursos,
cada um tomou direcio
opostas para nao haver o
risco de novo cumprimento.
O prefeito, que atraiu pou-
ca gente, foi embora primei-
ro. S6 entao o governador
saiu. Lopo sofreria depois
um acidente de carro e Ba-
rata se manifestaria a res-
peito. Ja o governador pa-
deceria as does de um can-
cer, que haveria de matd-lo
um ano e meio depois do pri-
meiro encontro com o ad-
versario, que tamb6m ex-
pressaria sua solidariedade.


de Beldm para a nova


capital federal, "sem interrupado", pela Real Aerovias (jd incorporando ao seu
nome o titulo de Brasilia). A empresa prometia ao client a viagem mais econ6mica:
"Voce ndo tem despesas extras, com hospedagem e alimenta~ao, pois (a viagem) sai e
chega no mesmo dia". A sede da Real era num ponto chique de entdo: a hoje maltra-
tada avenida Presidente Vargas.


aJornal Pessoal DEZEMBRO DE 2010 2'QUINZENA


BRASILIA
LIGA(AO DIRETA...
SEM INTERRUPqAO DO
v6o01
A vagpm mats econ6mica pars Br ..
alli 6 a que Ihe o(edmc a su Real.
VoA tlo temr despew extrs, eom
aspedagem .e alnmentalo, pos asi
e chbeg no memo di.




par Bragii
Ss* Me
~II am. a


VOOS
O movimento de avioes no
aeroporto de Bel6m em uma
quinta-feira de novembro de
1959 mostra uma quantidade
e diversidade de origens.e
destinos que deve surpreen-
der o passageiro de hoje. A
Cruzeiro do Sul (que a Varig
absorveria), por exemplo, ti-
nha seis v6os que chegavam
de Santar6m e Macapi, As
duas da manhn; de Sao Pau-
lo, Rio, Vit6ria, Caravelas,
Salvador, Petrolina, Teresina
e Sao Lufs, As nove da ma-
nhl; de Fortaleza, Parnafba,
Brejo, Teresina, Floriano e
Balsas, ao meio-dia; de Ge-
orgetown (na Guiana ex-in-
glesa), Boa Vista, Manaus e
Santar6m, As tres da tarde;
do Rio, Recife, Fortaleza e
Sao Luis As sete da noite.
Jd a Panair (extinta arbitra-
riamente no primeiro govemo
military depois do golpe de
1964, o do marechal Castelo
Branco) tinha v6os chegando
de S~o Paulo, Vit6ria, Cara-
velas, Canavieiras, Salvador,
Aracaju, Macei6, Recife, Joao
pessoal, Natal, Fortaleza, Mos-
sor6, Pamaiba e Sao Luis, As
10 da manhn; e de Sao Paulo,
Rio Vit6ria, Caravelas, Salva-
dor, Petrolina e Sio Luis, As
sete da noite.
De saida, a Cruzeiro tinha
v6o para Sao Luis, Fortaleza,
Recife e Rio, As 4 e 20 da
manhn; Santar6m, Manaus e
Boa Vista, As 8 horas; para
Montes Claros, Belo Horizon-
te e Rio, as 9,30; e Santar6m,
Manaus, Boa Vista e George-
town As 15 horas. Era da Pan
American o v6o para Caiena,
Paramaribo, Georgetown, Por-
to of Spain, Barbados, Anti-
gua, San Juan e Nova York,
As 4 da manhn. E do L6ide
Adreo para Slo Luis, Fortale-
za e Recife, e para Santar6m
e Manaus, no mesmo horirio:
meio-dia e meia.
Algumas dessas viagens
eram verdadeiras maratonas,
mas havia mais altemativas e,
proporcionalmente a popula-
9qo, maior movimento.







,1 .. -,^s -t '- -



I --


FOTOGRAFIA

Enredo politico
Documento de valor hist6rico: numa recepcdo, realizada em novembro de 1963, na residencia official do governor
do Estado, conversam o governador Aurelio do Carmo, o coronel Jarbas Passarinho (do Estado-Maior do
Comando Militar da AmazOnia), os jornalistas Ivan Maranhdo (que dirigia o semandrio Flash), Romulo Maiorana
(que tinha a coluna social Sempre aos Domingos na Folha do Norte) e o deputado federal Epilogo de Campos. Um
ano depois Aurdlio seria deposto do governor e cassado pelos militares. Passarinho assumiria seu lugar,
encerrando o ciclo dos "baratistas" no poder. Dos cinco, apenas os dois continuam vivos. A foto foi publicada na
coluna de Romulo, que, depois, compraria e fecharia a Folha dos Maranhdo.


VEREADORES
Gongalo Duarte, o folcl6ri-
co lider politico do bairro do
Jurunas (onde 6 nome de uma
discreta passagem, foi o ve-
reador mais votado na eleicgo
de 1962, a dltima antes do gol-
pe military que p6s fim A IV
Repdblica no Brasil: teve
2.343 votos pelo PL (Partido
Libertador). O segundo mais
votado foi Irawaldir Rocha, da
UDN (Uniao DemocrAtica
Nacional), com 2.422 votos,
gragas A sua atuaao como
combative liderestudantil (que
o iria complicar depois, jd
como vice-prefeito em pleno
regime military. Em seguida,
Jos6 de Ribamar Soares, do
PSP (o Partido Social Progres-
sista, de Ademar de Barros),
com 1.870 votos, e Vicente
Queiroz, do PSD (o Partido
Social Democritico, dos bara-
tistas), que teve 1.713 votos.
Dos 15 vereadores, o PSD
fez 4, o PSP 3, a UDN (Uniao


Democr~tica Nacional), o PTB
(PartidoTrabalhistaBrasileiro)
e o PR, 2 cada. PL e CDP (Co-
ligacao Democritica Paraen-
se), apenas um vereador cada.

PENSAO
Emdezembrode 1965 aPen-
sio Nossa Senhora de Nazar6,
instalada junto ao cinema Mo-
demo, napracaJusto Chermont,
encerrou suas atividades e co-
locoutudo avendaemleilaoco-
mandado pelaAg8ncia Olivei-
ra. Havia peas preciosas,
como uma pinha antiga, fabri-
cada no Porto, em Portugal,
por J. P. Valente, em tamanho
grande, m6veis caracterfsticos
da 6poca (como penteadeiras
comJimina de cristal, guarda-
roupas em pau marfim comn la-
mina em cristal bisot6 frances,
cadeiras austriacas) e um im-
plemento indispensAvel na Be-
16m da 6poca: mosquiteiros.
Hoje ji nAo se usa tanto, mas
ndo por falta de motivagco.


OVO
Um leitor da coluna Vo-
zes da Rua, da Folha Ves-
pertina, que dizia nao po-
der passar "sem dois ovos
quentes no desjejum e dois
mexidos ao almogo", quei-
xava-se, em 1965, de s6
encontrar A venda ovos de
granja, "cuja gema tem a
brancura das cdtis claras".
Acreditava que o colorido
"empresta ao produto mai-
or valor alimenticio".
Professoral, o redator da
coluna tranqiiilizou o leitor
papa-ovo: "A corda gema
nao diminui o vigor nutriti-
vo, nem Ihe desfigura o gos-
to. A cor da gema corre por
conta da raqgo e do 'pedi-
gree' do plumitivo", senten-
ciou com vasto conhecimen-
to de causa.

LOJA
Ningu6m comemorou, mas
a Paris n'Am6rica chegou a


140 anos de existdncia em
2010. A loja foi fundada pelo
comerciante portugu8s Fran-
cisco Castro. O pr6dio atu-
al, no melhor estilo art-nou-
veau, que tanto encanta os
visitantes (mas nao tanto os
residentss, foi construfdo
em 1908. Para que o belo
edificio fosse levantado, com
peas importadas da Euro-
pa, a traditional loja de te-
cidos se transferiu proviso-
riamente para a esquina
fronteira, na rua Santo An-
t6nio, onde em seguida se
estabeleceria a firma A.
Monteiro da Silva, tamb6m
um armaz6m de tecidos.
Com novo proprietdrio, a
Paris n'Am6rica resisted
como um dos mais antigos
estabelecimentos comerciais
de Bel6m, mesmo sem o bri-
lho de outrora. Que tenha
vida eterna, 6 o que melhor
se pode desejar em come-
moragdo ao aniversArio.


DEZEMBRO DE 2010 2AQUINZENA Journal Pessoal U










[L'a) LJL1

AO: EDITOR R'


FICIHA
Aproveito para te desejar
boas festas e que 2011 repre-
sente uma inflexao positive no
cendrio dramatico da political
paraense.
Como teu leitor assiduo nio
poderia deixar de apontar algo
que julgo ser um equivoco nas
andlises que fizestes nas 61ti-
mas edig6es do Jornal Pessoal
(0 golpe de Jader n0 475 e Fi-
chas diversas, n2 478), especi-
ficamente sobre a suposta
emenda de autoria do deputa-
do (e future ministry) Jose
Eduardo Cardozo (PT-SP) intro-
duzindo a hip6tese de inele-
gibilidade decorrente de re-
nincia para fugir da cassagio
de mandate.
Virou, creio, uma lenda poli-
tica, repetida centenas de ve-
zes, por figures como Roriz, Ja-
der e Gilmar Mendes, ganhan-
do status de verdade absolu-
ta, sendo, isto sim, uma versao
apenas convenient para os
interesses dos que foram, ao
fim e ao cabo, flagrados em
desacordo com os preceitos da
Lei Complementar 135/2010.
De fato, esse dispositivo,
que virou a famosa alinea k, jd
constava do projeto original de
iniciativa popular, tendo sobre-
vivido a todas as fases do pro-
cesso legislative. E isto 6 facil-
mente comprovivel, bastando
revisar as diversas verses que
estao disponiveis na CAmara
dos Deputados. Foi o que foi
feito, alids, pela reportagem
do Estaddo.
No projeto de Lei Comple-
mentar (PLP 518/2009), assina-
do pelo deputado Antonio Car-
los Biscaia (PT-RJ) e outros,
constava o seguinte item:
I) o Presidente da Republi-
ca, o Governador de Estado e
do DistritoFederal, o Prefeito,
os membros do Congresso Na-
cional, das Assembleias Legis-
lativas, da Clmara Legislativa,
das Camaras Municipais, que
renunciarem a seus mandates
ap6s a apresentaglo de repre-
sentag5o ou noticia formal ca-
paz de autorizar a abertura de
process disciplinary por infrin-
gencia a dispositivo da Consti-
tuig5o Federal, da Constituigco
Estadual, da Lei Organica do
Distrito Federal ou da Lei Or-
ganica do Municipio, para as
eleigSes que se realizarem


durante o period remanescen- dos politicos profissionais que
te do mandate para o qual fo- habitam a nossa Camara, a di-
ram eleitos e nos 8 (oito) anos recgo de Secretarias Munici-
subseqientes ao tdrmino da pais, segments do judicidrio e
legislature"; do empresariado belenense, e
Fago essa ressalva apenas nio embarcam mais nesta can-
para limpar o terreno, jd que tilena do "desenvolvimento" a
os aspects polemicos da lei qualquer custo. Nio podemos
nio se limitam e nem estio esquecer que ao long de dez
condicionados ao fato de um anos os moradores resistiram
certo artigo ter sido introduzi- As sucessivas ameagas da Pre-
do ou nao por este ou aquele feitura de retificar a rua e redu-
deputado. zir seu canteiro central, at6 que
AldenorJr. em 2009 encontrou-se uma f6r-
mula quase perfeita: a Justiga
MINHA BESPOSTA entra com uma agio estrategi-
Aldenortemrazaol:tambemfui camente compartilhada entire
induzido ao erro. 0 projeto origi- os tres poderes e determine a
nal e do deputado Biscaia, do PT intervengio, criando um fato
carioca, aprovadopeloparecerdo consumado, a destruicgo dos
novo ministry da justiga, do PTdo redutores de velocidade que a
Distrito Federal, endossado por rua abrigava.
parlamentares de v6rios partidos Ao long destes dez anos,
e do legislative federal, que ndo notadamente em 2005, quando
se aperceberam dos aspectss a ameaga esteve mais presen-
polemicos da lei"l como o pr6prio te, vdrios intelectuais e miiitan-
Aldenor ressalta. Aspectos que tes a favor da preservagio des-
geraram interpretag~esdiversase ta rua-bosque, manifestaram-
permitiram que outros fichas su- se argumentando acerca dos
jas se salvassem, alum de envol- equivocos de tal interveng5o e
ver questoes tecnicas controver- tamb6m de sua ilegalidade,
sas, pelo impulse moral.mais for- tanto do ponto de vista social
te do que ofundamento legal. como ecol6gico e est6tico, a
exemplo de Mariano Klautau,
AVENIDA Paraguassu Eleres, Elias Pinto,
Com relagio A mudanga pesquisadores do Imazon A
abrupta de nome da 25 de Se- frente do projeto "Belem Sus-
tembro, mat6ria do ultimo n6- tentivel", dentre outros.
mero do JP, gostaria de dizer Klautau declarou a epoca que
que duvido muito que esta a "25" deveria servir de modelo
mudanga tenha aprovag5o da para Belem, por ser "uma rua
maioria de seus moradores, de arvoredos, de microclima
nao tanto pelo fato simb6lico agradabilissimo e ventilagio
em si, mas exatamente pelo extraordindria". Eleres chegou
pacote intervencionista que mesmo a citar, um por um, os
ele represent e que sinaliza dispositivos legais que seriam
a morte derradeira desta rua- contrariados com a derrubada
bosque: a promessa (mais de suas arvores para ceder es-
uma!) do governor Duciomar pago ao asfalto. Mas na retifi-
Costa de transformI-la de uma cagio em 2009 vdrias arvores
vez por todas em mais uma foram derrubadas, contrarian-
Almirante Barroso, ou seja, do tais dispositivos. E a ilegali-
uma via express para trAnsi- dade nio para por al. Tramita
to veloz, com alguma maquia- na Fundagio Cultural do Muni-
gem verde, satisfazendo as- cipio de Bel6m-FUMBEL o pro-
sim, mais uma vez, o ego e as cesso n 2765, de 11 de setem-
vontades de uma minoria mui- bro de 2006, no qual moradores
to mal acostumada a ver aten- solicitam o tombamento da rua.
didos os seus interesses imo- Ora, considerando que o artigo
biliarios, empresariais, comer- 10 do Cap. III da lei 7709 de 18
ciais e, por conseguinte, seus de maio de 1994 diz textualmen-
ideals de transport individu- te que "com a abertura do pro-
al motorizado para agilizar cesso de tombamento o bern
seus neg6cios e suas mobili- em exame tera o mesmo regi-
dades privadas. me de preservacgo de bern
Esta intengio estd patente na tombado, atd decisio final do
velha e desgastada palavra- Conselho Municipal de Patri-
chave que marcou os discursos m6nio", vemos que tanto a re-
politicos dos idealizadores e tificagio quanto a mudanga de
apoiadores da mudanga: "de- nome estio literalmente fora
senvolvimento"! Felizmente, a da leill!
"25" ainda abriga moradores e Enfim, para nio me alongar,
cidadios cor mentalidades creio que a Camara perdeu uma
muito mais evoluidas do que a boa oportunidade de fazer a


coisa certa. Em vez de sair por
af mudando o nome de logra-
douros piblicos, talvez o mais
acertado fosse primeiro resti-
tuir a comunidade da "25" es-
pacos publicos deteriorados e
destruidos pela agio da pr6pria
Prefeitura, a exemplo do escan-
daloso caso da quadra de es-
portes situada na esquina da
"25" com a Humait6. A parte la-
teral direita foi completamen-
te "rasgada" de ponta a ponta
pelo trator da empresa que
presta servings de limpeza a
Prefeitura levando abaixo todo
o muro de proteglo da quadra,
e desde entio, Id se vio uns
quatro ou cinco meses, trans-
formou-se o que era quadra de
esportes da juventude em um
lixio a c6u aberto.
Do outro lado, a empresa Li-
der Magazan fez da quadra, um
espago public, uma extensao
de seu dominion privado. Isso
tudo a alguns metros da CA-
mara Municipal de Bel6m... I
verdade que ali, uma quadra
jd nao faz muito sentido e os
moradores ter o direito garan-
tido pelo Estatuto da Cidade de
decidir coletivamente o desti-
no do espago. Que falta nos faz
um Enrique Penalosa, para
quem uma boa cidade 6 aque-
la onde as pessoas preferem
estar fora, na rua, em parques,
pragas e calgadas, em dreas de
convivincia coletiva e nao nas
casas. Para ele, que foi alcai-
de de Bogota, uma boa cidade
e uma cidade que 6 boa para
as criangas, os idosos, os por-
tadores de necessidades espe-
ciais e se for boa para eles
serd boa para todos n6s. En-
fim 6 aquela onde o interesse
publico prevalece sobre o in-
teresse particular.
Marly Silva



Silencio
Por forga de um retraimento
quase patol6gico dos seus prin-
cipais personagens, o espago
pdblico encurtou dramatica-
mente em Bel6m. Avidos por
notoriedade, os stores da cena
ptblica procuram o caminho
facil do entretenimento e da no-
toriedade comprada. Mas nao
se arriscam quando a situaIao
envolve a necessidade de en-
carar o poder. Para usar o jar-
gao, querem o bonus, nao o
onus. A opinido piblica virou
tambor furado, sem eco. Nada
de sdrio repercute.


Jomal Pessoal

Editor: Lujcio FlAvio Pinto


Contato: Rua Aristides Lobo, 871 CEP: 66.053-020 Fones: (091) 3241-7626
E-mail: lfpjor@uol.com.br jornal@amazon.com.br Site: www.jornalpessoal.com.br
Diagramagio e ilustrag6es: Luiz Antonio de Faria Pinto
luizpe54@hotmail.com chargesdojornalpessoal.blogspot.com blogdoluizpe.blogspot.com


Sjornal Pessoal DEZEMBRO DE 2010 2-QUINZENA








Journal nao e quitanda. 0 PIG 6 uma fantasia


A expresso PIG (Partido da Im-
prensa Golpista), inventada pelo joma-
lista Paulo Henrique Amorim, circula hi
meses como dogma da verdade pela
rede mundial de computadores. Seu
efeito deve ter sido significativo. Nao
entire pessoas mais maduras e mais bem
informadas, mas entire os jovens e de-
savisados. Se muitos desses destinati-
rios da mensagem ainda pensavam em
ler jornais da grande imprensa, devem
ter desistido. Os que continuam a fre-
qiientar suas p6ginas devem 18-las ago-
ra com total ceticismo. Os critics e
adversarios das empresas jornalisticas
radicalizaram suas posiqbes.
Numa 6poca em que a imprensa es-
crita conventional sofre a concorren-
cia de midias mais ripidas e acessiveis,
o dano pode ser profundo, agravando o
prejuizo econ6mico (os anunciantes dos
Estados Unidos pela primeira vez, nes-
te ano, colocaram mais dinheiro na in-
ternet do que nos impresses). A perda
maior 6 para a formacqo da opiniio
pdblica, para a maior circulaaio de in-
formaq6es com qualidade para funda-
mentar posiq9es p6blicas e gerar ver-
dadeiros cidadios.
Mesmo jornais ruins devem ser li-
dos. Estimular ou induzir que sejam ig-
norados 6 desservir a democracia, a
pretexto de fomentar a critical e com-
bater as elites. A sociedade esta cada
vez mais repleta de critics, que nao
vacilam quando expressam opini6es ou
emitem juizos definitivos, verdadeiras
sentenqas. Mas que nao sabem expli-
car por que sao contra. Principalmente
por desconhecerem o conteddo do que
critical ou rejeitam. Sao personagens
pat6ticos de Oswald. de Andrade: nao
leram e nao gostaram.
Para que se interessar pelo autor fu-
lano de tal se ele 6 reaciondrio? Por que
dar atenqao ao jomal de sicrano se ele
represent a burguesia? Como crer nes-
ses veiculos de expresso se seus donos
estdo comprometidos com a perverse
classes dominant, da qual fazem parte -
e parte extremamente ativa? Sao os ini-
migos do povo, como os que Lenin estig-
matizou num panfleto famoso.
Desde os bancos escolares, graqas
a nova geografia, h nova sociologia e
outras formas reducionistas do saber,
novas geraq6es se tornam auto-sufici-
entes graqas ao estoque de conceitos


fechados que Ihes sao repassados, so-
bretudo os professors progressistas.
T8m definicqes para cada situagao ou
personagem, rapidamente rotulado de
reacionario ou de revoluciondrio, de ele-
mento do progress ou do status quo,
de bisonho ou instigante.
O r6tulo 6 afixado sem a necessida-
de de se conhecer o produto. E como
se uma iman8ncia superficial dissesse
tudo sobre o que esti por dentro da
pessoa ou do acontecimento prescin-
dindo a penetraqco no estofo da coisa.
Esse antiintelectualismo, forjado
como sendo a pedra de toque da verda-
de, 6 erigido em nome da hist6ria. Na
verdade, por6m, 6 a complexidade da
hist6ria, enquanto sucessdo de events,
e dos homes como realidades especi-
ficas, complexes e inesgotiveis, o que
esse novo milenarismo nega.
O conceito de PIG se insere nessa
onda de barbarie intellectual com apa-
rencia de causa just e her6ica. Por
quase toda vida tenho sido jornalista.
Passei por algumas das maiores empre-
sas joralisticas do pais. Nunca fui de-
mitido. Sai de todas voluntariamente.
Em todas armei confusio, briguei, fiz
inimizades, sai, voltei. At6 1989 sempre
houve espaco para esses conflitos e
para a volta.
Naquele ano decidi que o espago que
me cabia na grande imprensaji ndo me
satisfazia, depois de 21 anos de traba-
lho contfnuo nos ditosjornal6es. Armei
minha trincheira neste jornalzito, de
onde miro na direqio das empresasjor-
nalisticas, mostrando seus bastidores, os
biombos invisiveis dos seus interesses,
as hist6rias que nao contam, manipulam
ou ocultam. Mas continue lendo com
algum prazer e bastante proveito o que
produzem. Sem essa produqCo o meu
conhecimento se empobreceria. E eu
me veria privado de um dos temas que
me 6 mais caro.
Al1m dos saldrios quase sempre bai-
xos (embora, pessoalmente, a partir de
certo moment, nao tivesse mais do que
me queixar), o maior problema com que
me defrontei nas empresas joralisticas
era a interfer8ncia dos donos, uma in-
conveni8ncia que persiste. Este 6 um
ponto critic e grave, sobre o qual to-
das as luzes sao necessarias. Houve
uma degeneresc8ncia no comando das
organizag5es jomalisticas.


No caso das empresas familiares,
quase por conta da gen6tica. O suces-
sor do fundador, ou do filho do fundador,
sucede-o por conta da genealogia, mas
nem sempre estA preparado para assu-
mir a funcgo ou nao tem a menor afini-
dade com ojomalismo. Alguns nem mes-
mo sabem se expressar, torando-se in-
teligiveis por escrito ou oralmente.
Para eles, a questio editorial 6 um
neg6cio como outro qualquer. Estdo dis-
postos a vender opinido como se vende
salsicha, ou banana. Aos seus olhos,
uma redagdo nao 6 mais do que uma
quitanda. Nao se pode esperar deles que
tenham uma attitude compativel com o
carAter muito especial do empreendi-
mento que chefiam. Por isso, devem ser
muito bem rastreados.
Sempre que se desviarem da fungao
que lhes cabe na sociedade ou sujeita-
rem a natureza da atividade editorial ao
neg6cio commercial, a conveni8ncia poli-
tica ou ao interesse meramente pesso-
al, devem ser submetidos A controv6r-
sia. E o que eles mais temem e rejei-
tam: ter que se explicar, ser expostos
em praga pdblica, descer do pedestal,
tomar consci8ncia de que seu poder nao
6 absolute nem seu umbigo 6 o v6rtice
do mundo.
Quando decai minha crenga na im-
portAncia do journal impresso, mesmo na
sociedade digital do nosso tempo, reme-
xo os arquivos em busca de moments
que criaram essa conviccqo mais inti-
ma na forga da palavra bem escrita, no
seu estilo e no seu conteddo. Algumas
peas do passado continual a servir de
inspiragqo para nossos atos de hoje.
Em qual journal encontrarfamos, por
exemplo, esta nota, publicada no Cor-
reio da Manha de 1957:
"Solicitado pelo Correio da Manhl,
por telefone, para dar informaqao so-
bre assunto da Petrobrds, o cel. Janari
Nunes responded ao reporter em ter-
mos possesses. Gerente dos dinheiros
p6blicos, como president que 6 de uma
companhia estatal, em grande parte ali-
mentada por capital subscrito compul-
soriamente, o Sr. Janari Nunes tem obri-
gaqao de responder ao que lhe pergun-
tar a imprensa, e responder como ho-
mem pdblico. Vamos processA-lo por
injdria e caldnia. Esperamos que o pte.
da Petrobris repita em juizo para em
100111 .P-I ....


DEZEMBRO DE 2010 2AQUINZENA Journal Pessoal







CONCLoSA na PA I 11


seguida provA-las as infAmias que dis-
se ao reporter do Correio da Manhl".
Antes, em 1949 (no mesmo ano em
que vim ao mundo), o dono do Cor-
reio, Paulo Bittencourt, teve que de-
mitir Carlos Lacerda, que escrevia
uma coluna de grande apelo, a Tribu-
na da Imprensa (titulo que o future
governador da Guanabara levaria para
seu pr6prio journal O filho do funda-
dor do journal, Edmundo Bittencourt,
descansava em Araxd (uma das es-
tancias minerals preferidas dos ricos),
quando leu duas colunas de Lacerda
denunciando o favorecimento da fa-
milia Soares Sampaio pelo president
Dutra. Paulo vetou a continuacgo dos
artigos porque Sampaio era seu ami-
go intimo de longa data. Lacerda nao
concordou em interromper a s6rie e
se demitiu.
Quantas vezes isso nao ocorre numa
redagdo? S6 que no Correio da Ma-
nha mesmo a vontade do dono nao era
absolute. Ele devia dar explicaq6es ao
leitor e ao jornalista atingido. Carlos
Lacerda pediu que o journal publicasse
uma nota no dia seguinte e Paulo Bit-
tencourt o atendeu. A nota comega
anunciando: "MA noticia: Carlos Lacer-
da deixou de colaborar nestejomal. Que
nos fard falta sua colaboragio arden-
te, pessoal, um pouco romintica e sub-
jetiva, mas sempre corajosa e honest
- n~o ha divida".
O dono do journal informava que de-
cidira suspender a s6rie de artigos de
Lacerda porque prejudicavam "amigos
meus que eram descritos nas colunas
do meu journal de um modo inteiramente
oposto ao juizo que eu pessoalmente
faqo deles. Justo? Injusto? Nao sei e
nao importa. Carlos Lacerda magoou-
se comigo, e dentro do seu ponto de vis-
ta, nao lhe nego razao. Ele, por6m, no
meu lugar, faria o mesmo. Perdemos
ambos, creio eu".
Bittencourt exerceu a sua condigao
de dono do journal, mas levou na devida
consideragqo o fato de que o Correio
da Manhd era um journal e dos me-
lhores que ja houve no Brasil, o mais
influence de 1901, quando surgiu, at6
poucos anos antes de ser assassinado,
em 1974 e nao uma quitanda. Imp6s
a sua vontade, mas pagou a prenda: di-
vidiu o assunto com os leitores.
Lembro o epis6dio para que os justi-
ceiros do PIG tenham uma referencia
melhor sobre ojornalismo do que a rea-
lidade que combatem agora.


Fim de ano


Agradeqo e retribuo as mensagens
de fim de ano de S6rgio Martins Pan-
dolfo, Eduardo Daher, Bruno Liberatti,
Marcelo Castelo Branco, Helder Bar-
balho, Armando Avellar, Roberto Gama
e Silva, Rui Leite, Rodrigo Mesquita,
Joao Salame, Anderson Medeiros,
Ag8ncia Fapesp, Neto Soares, Compa-
nhiaAthl6tica, Edivaldo Nogueira, Vera
e Fernando Castro, Brickmann & As-
sociados, Alcoa Aluminio, C6sar Maia,
Maria Alda Brito, Marluce Revoredo,
Bethania Vinagre, Aline Brandio, Luiz
Imbiriba, Instituto Socioambiental, Jos6
Nery, Cesupa, Luciane Dourado, Jos6
Megale, Rose Silveira, Ademir Braz,
Tatiane Sa, Paulo Faria, assessoria de
comunicagqo social do Museu Goeldi,
Editora Literacidade, Ricardo Conduri,
Elf Galeria, Guilherme Cardoso, Gui-


lherme Zagallo, Amazon, Armando Cor-
deiro, equipe Peabirus, Conselho Regi-
onal de Servigo Social, Conservacqo In-
ternacional, H61io Mairata, FAbio Cebo-
lao, Cerpa, Plurale, Elcione Barbalho,
Flexa Ribeiro, Fernando Scaff, Luciene
Fidza, Charle Coimbra, Salomao Men-
des, Jorge Morgado, loja Elvira Matil-
de, Andrei Mantovani, Henrique e Ma-
nuela Lobo, Luciano Guedes, Leandro
Ferreira, Aspisia Camargo, Jos6 Wil-
son Malheiros, Ademar Amaral, Luiz
Egypto, Cristovam Sena, Marly Silva,
Breno Yared, Jaelta Souza, Andr6 Cos-
ta Nunes, Dulce Rosa Rocque, Paulo
Oliveira e Andrea Assis, Emane Mala-
to, Luiz Lima Barreiros, Marcos Klau-
tau, Silvia Sales, Augusto Emilio Bara-
ta, Joao Meirelles, Robert Goodland,
Adelina Bragl]a.


Memoria do Cotidiano 3
Jd estd a venda nas bancas e livrarias da cidade o terceiro volume
da colegdo emformato de livro da Memdria do Cotidiano, a segdo
fixa destejornal. Com diagramagdo mais leve e limpa, para
permitir a melhor leitura e o maiorprazer dos leitores. Agora, e ir
atrds e comprar 0 editor agradece.


II I---~ I ~s --- ----