Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00357

Full Text



DEZEMBRO
DE 2010
IPQUINZENA
_A rAGEA alM Pessoal
~___ A AGENDA AMAZ6NICA DE LjCIO FLAVIO PINTO


No 478
ANO XXIV
R$ 3,00


JUSTICE


Quando a lei fede

Umajuiza do Pard obrigou o Conselho Nacional de JustiFa a avanvar sobre sua competencia e
pela primeira vez interferir numa deciso judicial. 0 caso era muito grave e exigia providencia
energica e imediata. Podia resultar num rombo de R$ 2,3 bilhles ao Banco do Brasil.


QO Conselho Nacional de Justiga
oi criado hA cinco anos e meio
% como um 6rgao de control
administrative do poderjudiciario, nio
podendo interferir em decis6es judici-
ais. Mas na semana passada a entida-
de decidiu abrir a primeira exceqao: a
corregedora, Eliana Calmon, suspended
liminarmente decisao dajufza da 5' vara
cfvel de Bel6m, Vera Araijo de Souza.
De forma tamb6m liminar (isto 6, sem
consultar a parte contrAria), a juiza pa-
raense havia decretado o bloqueio de
nada menos do que 2,3 bilh6es de reais
no Banco do Brasil, a pretexto de ga-


rantir o direito de saque de um detentor
de duas contas cor esse valor.
Todo o desenrolar do process, sub-
metido ao CNJ pelo banco, foi suficien-
te para que a corregedora national de
justiga suspendesse os efeitos da sen-
tenca antes que viesse a se consumer o
maior golpe individual jA praticado con-
tra o principal banco do pafs. Para fun-
damentar a intervencgo no ato jurisdici-
onal monocritico (ou seja, de compe-
t8ncia individual), a ministry Eliana Cal-
mon argumentou que a decisao extra-
vasara "as raias da normalidade e se
configurou como manifesta ilegalidade,


ferindo o c6digo de 6tica da magistra-
tura". Logo, ajuiza se tomou suscetivel
de censura disciplinary, o que 6 atribui-
cao do conselho.
A interpretaqao 6 elastica demais
para caber numa leitura estrita das nor-
mas do CNJ e das regras do process
judicial, mas a corregedora nio teve
ddvida em extrapolar seus limits for-
mais para alcanqar um objetivo nobre:
evitar o saque indevido de um valor fan-
tAstico, que seria feito com base em ra-
z6es nao s6 frigeis como inverossimeis.
Atrav6s de Juarez Correa dos San-
tos, que 6 seu representante legal, Fran-
icobiIuA iiii' Pii


&I A A R ANo E ES


... TRN ICA AO ND II V6/





CONrINMUACo DACAPA___________
cisco Nunes Pereira tentou primeiro
aplicar o mesmo golpe na justiga do
Distrito Federal. Logo ficou provada a
falsidade dos documents que apresen-
tou como prova de que teria R$ 2,3 bi-
lh6es em duas contas pessoais no Ban-
co do Brasil. O process foi extinto sem
consideragio sequer pelo m6rito.
No dia 4 de novembro a mesma aco
(um ins61ito "usucapiAo especial consti-
tucional", desviado da busca pela con-
firmaqAo da posse de uma hrea de ter-
ras para o dominio sobre contas banci-
rias, f6rmula esperta, embora inusitada)
foi proposta em Bel6m e distribuida para
a 5" vara civel. Quatro dias depois, numa
tramitaqio de rapidez rara e surpreen-
dente para os procedimento padrao nes-
se caso, ajuiza Vera Aradjo expediu um
memorando para que o Banco do Bra-
sil "se abstenha de realizar qualquer
movimentaio" no valor de R$ 2,3 bi-
lhWes, "que se encontra depositado em
contas junto a este banco" em nome do
autor da ac~o, "at6 ulterior decisao".
Fixou em R$ 2 mil ao dia a multa em
caso de descumprimento.
Ajuiza nao aceitou reconsiderar sua
decisao quando procurada por represen-
tante do Banco do Brasil, que Ihe apre-
sentou laudos e a decisao da justiga do
DF, que comprovando a fraude. O por-
ta-voz do banco argumentou ainda que
o saque e a transferencia dos recursos
favoreceriam uma quadrilha interesta-
dual especializada em golpes contra ins-
tituiqCes financeiras. Corn base na mes-
ma exposiq o, a corregedora national
de justiqa determinou de imediato a sus-
pensio da decisao.
Ao ser questionada pelo banco, se-
gundo a nota que a assessoria de co-
municagio do CNJ distribuiu, "a juiza
alegou que nao encontrava os pap6is
relatives ao process e que 'sofreu
presses de cima', sem esclarecer de
quem e por que motivo". O process
teria sido extraviado.
Sem conseguir demover a juiza, o
banco recorreu da decisao para o tribu-
nal. O agravo foi distribuido para a de-
sembargadora Gleide Pereira de Mou-
ra, da "a Camara Civel Isolada, mas ela
jurou suspeiqao. Por sorteio, o proces-
so foi, no dia 7, para a desembargadora
Marneide Merabet, que, dois dias de-
pois, indeferiu o pedido do banco para,
atrav6s de liminar, suspender os efeitos
da decisao de 1 grau, mantendo a deli-
beraaio dajuiza Vera Aradjo. S6 ent~o,


no dia 13 a magistrada pediu informa-
96es a sua colega da instincia inferior.
0 que o banco questionou e a minis-
tra Eliana Calmon acolheu foi um dos
principios dajustiga, a prudencia. Sem
instruir o process, sem ouvir a outra
parte, por meio de liminar, numa trami-
tacgo velocissima, tanto a juiza quanto
a desembargadora criaram a possibili-
dade de um saque bilionArio em pleno
perfodo de recesso forense, iniciado no
dia 20. Corn a ordem judicial, os R$ 2,3
bilh6es poderiam ser sacados e sumir,
"at6 ulterior deliberagao".

L mals de tres anos,
quando a trauma foi
revelada, suspeita-se
de que por tras dessa agAo
esta uma quadrilha audaci-
osa, embora ainda nio
identifleada. O personagem prin-
cipal, Francisco Nunes Pereira, 6 um
home de 47 anos, desempregado hd
varios anos, que mora em Tatuf, no in-
terior de Sio Paulo, cor um padrao de
vida que em nada faz supor seja deten-
tor de tanto dinheiro, capaz de transfor-
mA-lo num dos 20 homes mais ricos
do pafs. Ele seria o ardiloso criador da
fraude ou apenas o "laranja" A frente
dos verdadeiros autores.
O espantoso 6 que, passado tanto
tempo, a possibilidade de um golpe corn
tal alcance nio tenha motivado as au-
toridades pdblicas competentes a dedi-
car um pouco do seu escasso tempo
nara de.ve.ndnr n migstrio Nm mes-


mo depois que a primeira aqio foi ex-
tinta na justiqa do Distrito Federal. S6
agora as investigaCqes serdo iniciadas,
cor a remessa dos autos pela Corre-
gedoria do CNJ para a Policia Federal
e o Minist6rio piblico Federal.
Se for provada a hip6tese at6 agora
mais provavel, da tentative de sacar ili-
citamente um valor que equivale a 20%
de todo o orqamento do Estado do Pard
para o pr6ximo ano, qual a participacao
dos magistrados paraenses na trama?
Erro por ingenuidade ou conivencia?
Grave erro de oficio ou cumplicidade
em algum tipo de fraude, com crime de
peculato ou qualquer outro? Pela primei-
ra vez um magistrado do Para aparece-
rd diante do pdblico algemado?
De qualquer forma, mais um escan-
dalo national envolvendo a justiga do
Pard. S6 que, desta vez, o ambito da
apurado nao seri mais estadual, no
qual as puniq6es sao brandas, quando
sao aplicadas. Desde a comprovagio
dos saques que a entdo juiza Ana Tere-
za Murrieta praticava nas contas judi-
ciais sob sua guard, os sucessivos ca-
sos de irregularidades e ilegalidades po-
diam ser tomados como alertas de uma
tendencia de agravamento. No entan-
to, ajuiza foi promovida a desembarga-
dora por merecimento. Quando aposen-
tada, foi para casa cor salario milioni-
rio. E mesmo condenada, continue sol-
ta, recorrendo em liberdade.
O CNJ jA aposentou compulsoria-
mente ajuiza Clarice Andrade, respon-
sabilizando-a pela permanencia com
uma menor em cArcere coletivo de ho-
mens, onde foi submetida a violencias.
JA a juiza Maria Edwiges de Miranda
Lobato, que, no ano passado, mandou
soltar um perigoso traficante de drogas
dois dias depois que outro juiz, Eric Pei-
xoto, negou a liberdade do r6u, preso
pela policia depois de longas diligenci-
as, recebeu apenas censura por escri-
to. O process contra a juiza criminal
Sarah Castelo Branco, que foi ao presi-
dio soltar um preso, tamb6m avanqa por
gravidade, se avanca.
Sob questionamento de colegas, a
titular da 16' vara penal de Bel6m, es-
pecializada em crimes de imprensa, pe-
diu contagem de tempo e foi apresenta-
da no topo das mais antigas magistra-
das, ao ladojustamente de Vera Aratjo
de Souza. Nio se sabe se para pedir
aposentadoria ou tentar subir ao desem-
bargo, seguindo o exemplo da colega
Tereza Mumeta.


U Jornal Pessoal DEZEMBRO DE2010. 1QUINZENA -






Maiorana: parceiro da Policia Federal


A associacqo e o sindicato dos poli-
ciais federais do Pard concederam, no
dia 11, medalha de honra ao m6rito a
Romulo Maiorana Jdnior, president
executive das Organizaq6es Romulo
Maiorana. A concessio da honraria fez
parte das comemoraq6es pelos 20 anos
do sindicato, que alegou nao poder "dei-
xar de homenagear uma das personali-
dades que mais colaborou corn a 'famf-
lia policia federal'".
O president do sindicato, Roger Bar-
ros Rezegue, disse que nessas duas d6-
cadas de existencia da entidade repre-
sentativa dos PFs, Romulo Jdnior tem
prestado "relevantes serviqos" A cate-
goria, como "a produq~o de oficinas de
corte e costura, e o incentive A nataqao
e ao futebol". O sindicato e as ORM
prestam atendimento a 12 comunidades,
numa parceria que o dirigente sindical
desejou que fosse "para sempre".
Como de praxe, Romulo Jr. n~o apa-
receu para receber o diploma e abrilhan-
tar ainda mais a festa, que contou corn
sorteio "de pr8mios simb6licos para os
convidados". Como de regra, despachou
o director de relacqes plblicas do grupo
de comunicaqo, Guarany Jdnior, que
tamb6m o representara na sanqao da lei
que mudou o nome da avenida 25 de
Setembro para Romulo Maiorana, o pai.
Roger Rezegue certamente tem po-
deres para falar em nome da familiara
policia federal": desde 1995, quando o
sindicato tinha apenas cinco anos de
fundado, ele jfi se reelegeu seis vezes.
Nesse perfodo de 15 anos, s6 nao foi
president da entidade entire 2003 e
2005. Mant6m a lideranqa da catego-
ria, mesmo jA estando aposentado, vo-
luntariamente, desde 2007. Como famf-
lia, os PFs tem seus motives para con-
decorar o dirigente do grupo Liberal.
Mas deviam levar em consideraiao o
significado pdblico da Policia Federal e
da homenagem que prestaram.
Estd para ser sentenciada pelo juiz
da 4' vara federal de Bel6m, Antonio
Campelo, uma aCio contra o mesmo
Romulo Maiorana Jdnior, por crimes
contra o sistema financeiro national. Ele
foi denunciado pelo Minist6rio Publico
Federal, cor base na chamada lei do
colarinho branco (7.492/96), por "obter
mediante fraude financiamento em ins-
tituigco financeira". A pena prevista para
a condenaGao varia entire 2 e 6 anos de


prisdo, mais multa. Numa situaqdo ex-
trema, a PF podia at6 ter que ser acio-
nada contra o cidadAo que acaba justa-
mente de distinguir.
Romulo Jr. e seus acompanhantes na
aq~o receberam financiamento da Su-
dam fraudando a contrapartida para os
incentives fiscais liberados em favor do
seu projeto. O process 6 de 2001, mas
s6 chegou justiqa em 2008, depois de
desvios e protelaqces, quando as pro-
vas da infraqao ao artigo 19 da lei con-
tra os crimes financeiros jB estavam
reunidas, depois de medidas investiga-
t6rias sobre a organizaqco criminosa.
Ojuiz Campelo procurou dar celeri-
dade a este process, mas as audienci-
as de instrucqo e julgamento "vem sen-
do postergadas por raz6es diversas a
pedido dos r6us", conforme sua tiltima
anotacqo. Mesmo assim, parece que
agora a aqio seri julgada. O advogado
de defesa de Romulo Jr. 6 o ex-juiz fe-
deral no Pard Edison Messias de Almei-
da, o mesmo que, por uma dessas ironi-
as da hist6ria, defended o ex-deputado
federal Jader Barbalho, condenado e
preso acusado de ter participado de es-
quemas que acabaram por favorecer
empresarios, como o seu arquiinimigo.
Ha outras nove aq6es que rolam pela
7a vara dajustica federal, nas quais o exe-
cutivo do grupo Liberal aparece em vAri-
as companhias e relacionado a diversas
empresas, desde Delta Publicidade e Delta
Dados at6 a Roma Veiculos e o late Clu-
be. Sao execuqoes fiscais promovidas
pela falta de pagamento das contribuiq6es
previdenciarias ou recolhimento de FGTS,
o fundo de garantia dos trabalhadores.
Algumas so remotas, como a de 1999,
mas ha tamb6m processes instaurados
neste ano. Nenhum deles foi concluido at6
agora. Um dos motives das protelaqces 6
a suspensao para que se promova a con-
vencqo entire as parties, que acaba nao
acontecendo. E assim as ages perduram
indefinidamente.
Esse hist6rico devia acautelar a re-
presentaqao da "famflia policia federal"
para a repercusso de iniciativas que,
tomadas entire seus membros, numa
confraria, acabam tendo repercussto
junto opinido p6blica. Romulo Maio-
rana Jdnior continue a ser r6u primArio,
nada havendo legalmente que o colo-
que em condiq~o equivalent A dos "fi-
chas sujas", mas conv6m atentar para


a natureza dos delitos pelos quais ter
sido seguidamente acusado. Nao s6 na
justica federal: tamb6m na estadual.
Num dos varios processes, perante a
Ia vara do juizado especial criminal do
Jurunas, o executive foi denunciado por
desacato a uma menor, identificada ape-
nas pela inicial J, fato ocorrido no ano pas-
sado. Conforme 6 sua prAtica rotineira,
Romulo Jr. nao compareceu a nenhuma
das duas audiEncias realizadas para ten-
tativa de conciliaao entire as parties. Uma
nova audiencia foi remarcada para 22 de
fevereiro do pr6ximo ano.
A ausencia dos Maiorana a todos os
atos designados por magistrados para
instruir os processes, nos quais (exceto
os meus) eles aparecem como r6us,
al6m de representar desprezo ou desa-
tencao pelo poderjudiciArio, tem o pro-
p6sito de alcanqar a prescriqco da aq~o.
Mas alguns magistrados tem adotado
medidas mais energicas para impedir a
extinqio da pretenso punitive.
Foi o que aconteceu na 1a vara civel
de Ananindeua, onde Romulo Jr. foi
condenado a pagar todas as taxas ven-
cidas ou vincendas devidas ao Condo-
minio Lago Azul, um dos mais cars da
Area metropolitan da capital. O presi-
dente do grupo Liberal props a aq~o
alegando que o condominio nao tinha
personalidadejuridica e ele, por nao uti-
lizar os serviqos condominiais, nao era
obrigado a pagar as taxas. O juiz Oti-
vio dos Santos Albuquerque decidiu exa-
tamente o contrArio.
Al6m das raz6es juridicas, bastou
uma inspeqCo A mansdo do empresArio,
uma das mais luxuosas de Bel6m, que
ocupa 10 lotes do Lago Azul, com cin-
co mil metros quadrados, dos quais mil
de Area construida. Romulo entra e sai
diariamente pelo portio do condominio,
que Ihe dd apoio. O valor da causa, de
158 mil reais, seria reajustado quando
do acordo entire as parties para encer-
rar a demand. Mas o empresario ain-
da teria que pagar honorArios de 20%
(o mAximo legal) sobre esse valor.
Num moment em que alguns in-
tegrantes da justiqa parecem abando-
nar o procedimento anterior, de se sub-
meter aos dos poderosos donos do
maior grupo de comunicaqCo do Pard,
a iniciativa dos 6rgios de representa-
qio da Policia Federal vem na con-
tramdo da hist6ria.


DEZEMBRO DE 2010. lQUINZENA Jornal Pessoal






Cony: o her6i que nao foi


A melhor coisado iltimo livro de Car-
los Heitor Cony 6 o titulo: Eu, aos peda-
fos (Leya, 253 pfginas, 2010). O subtitu-
lo Mem6rias foi que me fez vencer a
indecisao do prego caro e comprar. Cons-
tatei na leitura a felicidade do titulo, pr6-
prio de um copidesque ao velho estilo: ao
inv6s de um texto integral de reminiscen-
cias, o livro 6 composto de parties, peda-
9osjA publicados, nada de novo. Um livro
indtil, que eu podiajogar fora.
Durante os anos dajuventude eu com-
prava os livros de Cony mal eles apare-
ciam e os lia de ura s6 vez, As vezes
num inico dia. Poucos escrevem tao bern
dentre n6s quanto ele. Sua ficqao 6 ini-
ca, penetrando no mundo da classes m6-
dia brasileira contemporanea inacessivel
ou inexplorado por outros escritores. Os
anos de seminirio, a lidar cor latim e
16gica, teologia e metafisica, Ihe deram
um superior refinamento e um humor
sutil. Mas tamb6m acuidade e sensibili-
dade para a alma humana. Le-lo propor-
cionava prazer e aprendizado.
Esse Cony moralista, num estilo ur-
banizado e atualizado, foi interrompido
pelo golpe military de 1964. A cr6nica que
ele escreveu no dia 1 de abril daquele
ano foi a primeira e uma das mais
arrasadoras sAtiras ao movimento mi-
litar, que ele testemunhou em Copaca-
bana, onde morava. Foi sua primeira
manifestagao explicitamente political.
Antecipou e ajudou a mudanqa de posi-
9qo do Correio da Manha, que ainda
era o journal de maior influencia political
no pais. Depois de apoiar a deposicao
do president Joao Goulart cor dois edi-
toriais flamejantes (Basta e Fora, es-
critos por Edmundo Mo-
niz, que era de esquerda),
o Correio comegou a de-
nunciar os desmandos
dos novos donos do po-
der at6 se imcompatibili-
zar corn eles.
Quando pegava meu
exemplar do Correio, ia
direto A cr6nica de Cony
no 2 caderno. Depois,
aos livros que reuniam
sua produco dessa 6po-
ca, Da Arte de Falar
Mal, 0 Ato e o Fato e
Posto Seis, dos melhores al
ji publicados em lingua
portuguesa.


A progressAo da s4tira chegou ao
paroxismo quando Cony criou sua ver-
sao do Ato Institucional e acarretou ain-
da mais problems ao Correio. Ele en-
tao se demitiu e Ant6nio Callado, que
acabara de assumir o cargo de redator-
chefe do joral, o acompanhou.
O gesto parecia her6ico e temerfrio:
ele respondia a process instaurado a pe-
dido do todo-poderoso ministry da Guerra
(o iltimo corn esse titulo), marechal Cos-
ta e Silva, que viria a suceder ao mare-
chal Castelo Branco na presid8ncia. O en-
quadramento na terrivel Lei de Seguran-
9a Nacional caiu, mas ojomalista foi con-
denado pela Lei de Imprensa.
Parecia que seguiria a partir dai
rumo ao ostracismo quando Adolpho
Bloch o adotou na Manchete e ele se
tornou o principal redator do empresA-
rio. Era o retrato de Bloch, ao lado de
sua cadela de estimagio, que aparecia
decorando seu artigo semanal na revis-
ta. Mas quem o escrevia era Cony. Ele
foi assumindo a condiAo de escritor de
aluguel, o que correspondeu, no seu in-
timo, a vender a alma. Sua literature se
evaporou e suas qualidades pareciam
congeladas, enquanto ele viajava, cir-
culava e aparecia ao lado de celebrida-
des. Era o eterno acompanhante de
Adolpho Bloch. Deixei de le-lo at6 Qua-
se Mem6ria, que nos devolveu ao que
ele tem de melhor
S6 mesmo a admira o remanescen-
te pelo escritor me fez voltar a ler Cony
depois que ele reivindicou (e conseguiu)
uma indenizaAo milionaria do governor,
mais uma sinecura mensal at6 o fim dos
seus dias, como vitima de perseguiAio


polftica durante a ditadura. Sou, em ge-
ral, contra essa "bolsa ditadura", que
enriqueceu muita gente. Mas particu-
larmente em relaqAo a Cony ela 6 ab-
solutamente indevida.
E claro que ele teve sua cota de so-
frimento causado pela perseguiqao que
sofreu logo depois do golpe por conta
do que escreveu. Mas escrevia como
um professional, escalado para aquela
funqao por contrato e sob remuneraqao.
Vivia bern. Durante a transiCqo entire a
saida do Correio e a incorporaao A nan
de Bloch, ele deve ter amargado priva-
56es. Mas depois passou a ter dinheiro
como nunca antes. Aceitou deixar de
lado a consagragqo como escritor pela
condiqao de jornalista influence em
Manchete. A perseguiqao, a partir daf,
ao inv6s de prejudici-lo, o favoreceu.
Ele vendeu por bom preco o seu passe
valorizado de her6i.
As viagens ao redor do mundo, que
ele fez depois de ter se livrado da con-
diqao de perseguido, teriam sido possf-
veis se ele tivesse continuado como re-
dator dejornal, cargo que ocupava quan-
do comeCou a se entestar com os cen-
turi6es da nova ordem? Poderia estar
flanando em Milao, vestido corn o Ros-
setti Yacht que Bloch lhe deu?
No livro, colcha de retalhos amarfa-
nhados, Cony admite que, ao final de
outubro de 1964, "dei por encerrada mi-
nha participaio na luta contra o golpe
de abril". Por coerencia, devia devol-
ver o dinheiro que o povo Ihe paga pelo
que nao fez. Mas em 2004, culminando
um process que tramitou aceleradissi-
mo, o ministry Marcio Thomaz Bastos
mandou pagar ao escritor
1,4 milhao de reais a titulo
de "reparaq~o econ6mica
de carAter indenizat6rio" e
uma pensao mensal de R$
23 mil. Esse dinheiro faz
falta aos que nao podem ou
nao sabem contar uma his-
t6ria bonita para se fazer
her6i, mesmo o her6i com-
pungido, como Carlos Hei-
tor Cony. Ele aparece na
capa desse seu livro des-
cartivel sugerindo uma hu-
mildade que 6 o inverso do
que sua biografia mais re-
cente apregoa ao mundo.
Um her6i de Liliput.


l Journal Pessoal DEZEMBRO DE 2010 I'QUINZENA






Guimaraes Rosa e o pai: correspondencia inedita


A dedicat6ria, datada de 1965, do Rio
de Janeiro, revela o quanto Joao Guima-
ries Rosa gostava da nossa Eneida de
Moraes, uma das maiores escritoras pa-
raenses e animadora da cultural brasilei-
ra. Ele Ihe dedicou a terceira edicio de
Noites do Sertdo, daquele mesmo ano,
livro extraido como obra aut6noma do
volume maior, Corpo de Baile, cuja 1"
edigdo saiu em 1956, 10 anos depois do
inaugural Sagarana (sem contar o livro
de poemas Magma, que o autor rejeitou).
Rosa escreveu o nome de Eneida em
mai6sculas, acrescentando: "querida, que-
rida, querida, e o (gato) JOSE". Colocou
dois pontos e fez o desenho de um gato
de costas e de uma estrela, acrescentan-
do: "homenagem do grato, grato, grato
(gato) Guimaries Rosa". E uma dedica-
t6ria cor est6tica e carinho, especial. O
gato era uma obsessao do escritor. Por
isso a reproduzo. Um document valioso,
que encontrei por acaso num sebo.
Quando Guimaraes Rosa morreu, em
1967, dediquei-lhe duas piginas no su-
plemento dominical que entUo editava em
A Provincia do Pard. Desde entao, tra-
cei virios projetos sobre o mais criativo
dos ficcionistas brasileiros. Nao conclui
nenhum. Mas em 1992 fui ao Instituto
de Estudos Brasileiros da Universidade de
Sio Paulo para pesquisar no arquivo do
autor de Grande Sertdo: Veredas um as-
pecto do seu trabalho pouco realgado: a
participacqo do seu pai, Floduardo Pinto
Rosa, um nome bem roseano.
Sempre achei que o pai influiu bas-
tante na obra do filho, a quem, na cor-
respond8ncia depositada no IEB, trata
por Joaozito. Acredito que sua impor-
tancia equivale ou, quem sabe, supera
- a do famoso vaqueiro Manuelzao, que
abriu caminho pelas gerais mineiras para
o escritor, passando de companheiro a
personagem.
Floduardo dava informaq6es, conta-
va casos, noticiava e comentava atenden-
do a pedidos do filho, que tinha cor o
sertao como corn a pr6pria vida uma
rela o mais intellectual (talvez metaffsi-
ca) do que vivencial. Ele nao sabia mon-
tar e tinha medo de subir no cavalo. Nao
sabia tirar leite de vaca. Mas andava sem-
pre cor um caderinho para anotar tudo.
Colocou o sertao dentro desses caderni-
nhos de anotaq6es.
Como acho incrivel que as cartas en-
tre pai e filho continue praticamente in6-
ditas, ou ao menos nio vi ainda o apro-
veitamento que elas merecem, resolvi di-
vulgar parte do material que coligi na pes-
quisa no excelente institute da USP. An-
tes que o perca, como ja aconteceu corn
muita coisa dos meus arquivos.


1'- _

s swc -. "
no


Essa correspond8ncia mostra a ter-
nura que havia entire pai e filho, e o ins-
tinto do velho sertanejo para as altas cri-
aqces de Guimaries Rosa. Numa das car-
tas Floduardo diz a Joiozito: "Peco a Deus
pelo seu bem estar, e de todos os nossos
que estAo por af [no Rio de Janeiro]. Por
aqui, passamos gragas a Deus sem novi-
dade. Estive em B. Hte. [Belo Horizon-
te], 1 fiquei sabendo que desta vez voc8
seria candidate na vaga existente naAca-
demia [Brasileira de Letras: Rosafoi elei-
to em 1963, masprotelouporquatm anos
a posse por temer a emogdo; morreu tres
dias depois da solenidade, de um ataque
cardiacofulminante]; li mesmo no Glo-
bo que voc8 foi o primeiro a se apresen-
tar. Gostei muito, e pego a Deus pelo seu
borm xito.
Vou te mandar com esta uma carta,
que me mandou cor o no de 'Man-
chete' o Dr. Colombo (...) ele 6 gran-
de admirador seu, ja de muito tempo.
JA fomos vizinhos, sendo ele uma pes-
soa distinta.
Gostei muito de que as j6ias de D.
Araci [segunda esposa de Guimardes
Rosa] Ihe fossem devolvidas, que peri-
go!... 6 precise muito cuidado, ainda
mais na 6poca present. (...)".
Sobre esta carta, datada de 17 deju-
nho, sem indicar o ano (mas deve ser
de 1963), Rosa anotou: "o peso da ve-
Ihice a chegar".
Em outra carta, do mes seguinte, o
pai varia no tratamento: agora 6 Joiosith.
E diz: Deus te abenqoe e proteja sempre.
"E por meio desta que te envio du-
plos abragos e parab6ns. Em primeiro
lugar por ser hoje a data muito querida e
sempre lembrada do teu natalicio: 48 pri-
maveras, 4 d6zias... que Deus faca so-
brar e triplicar os teus janeiros, sempre


feliz, 6 o meu desejo. Em segundo, com
agradecimentos; pelo recebimento dos
velos volumes do Corpo de Baile e de Sa-
garana cor uma roupa nova.
Tenho gostado muito do novo livro,
do Buriti Bom, do Buriti Grande, ape-
sar de que voc8 nao falou do Buriti das
Mulatas, etc. Voc8 escreveu muito, bo-
tou bastante malagueta no guisado, Frei
Floduardo, etc.
Eu ando muito preguicoso para ler.
Depois, os dias agora sao muito peque-
nos, eu al6m de me levantar tarde, deito
muito cedo; e al6m do que a luz daqui
nio anda convidando para se ler durante
a noite, e sendo que eu pass grande parte
da noite acordo, o frio por aqui esta de
amargar. Acordo, faqo funcionar a lim-
pada, remexo e conserto a cama, a beca
e o cobertor, sendo que por cima ainda
coloco aquele formidavel capote que voc8
me mandou, apago a luz e torno a rever
o passado, a me lembrar de tudo e de
todos, com saudade dos nossos vivos e
dos mortos queridos... a pedir a Deus
pelos vivos e pelos mortos! depois, aca-
bo pensando que nem 6 bom lembrar de
que aqui, a bem pouco, serdo os outros
que se lembrario de n6s, se lembrarem!...
Sua mae, hA mais de cinco meses esta
la pela capital. Unicamente foi para ficar
com a Marisa, mas teve que correr com
o Mauricio doente para a casa da Dora.
Mais tarde retornou A casa da Marisa".
Espero que, depois da publicaIao da
maravilhosa correspondencia de Guima-
rles Rosa com seus tradutores para o
alemdo, o ingl8s e o italiano, as cartas
cor o pai saiam do anonimato. No IEB
hA outros documents interessantes e
in6ditos, como uma entrevista que o es-
critor deu a alunos do curso clAssico do
Col6gio Brasileiro de Almeida. Na con-
versa ele diz que seu texto preferido 6
Campo Geral, a primeira novela de Cor-
po de Baile: "Toda vez que releio esta
hist6ria, enchem-me os olhos de lAgri-
mas. Ela 6 assim mais forte do que eu,
pois comove-me".
Seus livros preferidos: O Cortifo, de
Aluisio de Azevedo; Dom Casmurro, de
Machado de Assis; A Divina Comedia,
de Dante Alighieri; Os Irmaos Karama-
zov, de Dostoievski; A Ilha do Tesouro,
de Robert Louis Stevenson; MacBeth, de
Shakespeare; Dom Quixote, de Cervan-
tes; Os Miserdveis, de Victor Hugo; A
Reliquia, de Ega de Queiroz; A Religio-
sa, de Diderot; Contos, de Andersen.
Os personagens que criou dos quais
mais gosta: Maria da Gl6ria, Miguilim e
Manuelzio, de Corpo de Baile; Zebe-
lo, de Grande Sertao, e Manuel Ful6,
de Sagarana.


DEZEMBRO DE 2010 1QUINZENA Journal Pessoal







As transig6es critics:


Em 1991 H6lio Gueiros nao trans-
mitiu a faixa de govemador ao seu su-
cessor, Jader Barbalho. Enquanto o ex-
aliado tomava posse, em 15 de margo
de 1991, para o seu segundo mandate,
o caixa da agencia da avenida Senador
Lemos do Banco do Estado do Pardi
funcionava para pagar empresas privi-
legias do esquema de apoio polftico de
Gueiros, que, na forma da lei, ji nao era
mais o chefe do poder executive para-
ense. Como a lei sempre foi considera-
da potoca pelos herdeiros do caudilho
Magalhies Barata, quando contrariava
os seus interesses, o governador que
safa nem se importou. E ficou em casa,
ao inv6s de ir ao palacio Lauro Sodr6
passar o cargo a Jader, que venceu o
candidate de Gueiros, o atual vereador
Sahid Xerfan.
Esta talvez tenha sido a pior transi-
cao no govemo do Pari desde a rede-
mocratizag~o do pafs. Nenhuma outra
chegou a esse nivel de hostilidade, im-
previsivel quando o pr6prio Gueiros re-
cebeu a faixa das mios do governador
Jader Barbalho, em 1987. De amigos e
correligionArios, passariam a inimigos
mortais, travando uma das mais violen-
tas batalhas eleitorais da hist6ria. O que
nao os impediu de se reconciliar depois,
ignorando tudo o que cada um disse do
outro durante varios meses seguidos.
A transicgo entire Ana Jdlia Carepa,
do PT, e Simao Jatene, do PSDB, nio 6
nem uma palida reedigao de outras su-
cess6es conflituosas, mas tamb6m nao
6 pacifica. Sobretudo, nao result de um
entendimento de alto nivel entire as duas
principals autoridades p6blicas do Es-
tado. Uma devia contribuir para que a
outra assuma da melhor maneira possi-
vel, o que requer, antes de mais nada,
lealdade e verdade, na forma de infor-
magaes exatas e contas abertas.
Os tucanos, por6m, jA sabem que
herdardo um cavalo de Tr6ia, em cujo
venture haveri muitas surpresas, infeliz-
mente para eles (e para n6s) desagra-
daveis. Queixam-se de nao receber to-
das as informag6es solicitadas e as que
lhes foram fornecidas estarem incom-
pletas, nao permitindo ter um quadro
verdadeiro da engrenagem estatal que
irWo receber. Mas desconfiam que, at6
o dltimo dia do seu mandate, a equipe
de Ana Jdlia trabalharA para tapar bu-


racos.e utilizard todos os recursos fi-
nanceiros disponiveis ou mesmo avan-
gard sobre o orgamento seguinte, de
2011, por ela enviado ao legislative.
De certa forma, por6m, os petistas
estarao quase repetindo o que os tuca-
nos fizeram em 2007. Um dia antes da
posse do successor em 31 de dezem-
bro, o governor Jatene disparou atos e
providencias que afetariam a gestao de
Ana Jdlia, dentre os quais um autenti-
co present de grego: a prorrogagao
do escandaloso "convenio" (na verda-
de, um contrato) entire a Funtelpa e a
TV Liberal, iniciado na administraqCo
Almir Gabriel.
Tamb6m os pessedebistas nao de-
ram informag6es sobre a quantidade de
assessores especiais contratados pelo
gabinete do governador, um dado de di-
vulgaqdo obrigat6ria que permaneceu
sigiloso durante o quatrianio de Jatene.
Neste aspect, o PT nao inovou. S6
agora, por forca da pressio da equipe
de transicgo, sabe-se que o ndmero foi
parar em 1.800 assessores, um record
que o PT conseguiu tirar de Jader Bar-
balho, o que parecia impossivel.
Por trAs da tentative de manter as
aparsncias de cordialidade entire o go-
verno que sai e o que entra, as bicadas
que tucanos e petistas tnm travado dei-
xam a mostra as descontinuidades na
administragdo pdblica no Para. 0 go-
vemo que encerra o seu mandate es-
conde informagoes e tenta criar dificul-
dades para o successor, enquanto este
se recusa a partilhar o que pensa e pre-
tende fazer depois que assumir o co-
mando do poder executive.
0 revezamento se toma ainda mais
complicado quando o chefe da nova
equipe ji exerceu o cargo de governa-
dor, como 6 o caso de Simao Jatene.
Nao lhe falta a consciencia de que, ao
passar o bastdo, manteve debaixo do
tapete situag6es que haveriam de reper-
cutir negativamente depois. A lealdade
seria um element fundamental para dar
coerencia e continuidade ao process
de sucessio. Na diversidade e altemin-
cia pr6prias da democracia, garantiria
o principal: a defesa do interesse pdbli-
co. Quando os apetites pessoais de po-
der prevalecem, o que devia ser funda-
mental se toma secundario, quando che-
ga a ser lembrado.


Na esgrima entire os principals exe-
cutores da transiq~o do PT ao PSDB, o
secretario de govemo, Edilson Martins,
tem razao ao reclamar da inexistencia
de um program de govemo por parte
dos tucanos. E uma crftica que ele po-
dia fazer retroceder quatro anos: Ana
Julia tamb6m assumiu sem qualquer
program de governor. Limitou-se a la-
dainha do orgamento program, da par-
ticipagdo popular nas audiencias pdbli-
cas e outros axiomas do catecismo pe-
tista. Mas nada fez de concrete para
cumprir a promessa, que Ihe proporcio-
nou a vit6ria na eleiqio de 2006, de
mudar o Pari.
O Pard de 2010, no que dependeu
da agqo public esta-
dual, s6 nao 6 exata-
mente o mesmo por-
que, neste quesito,
estd um tanto pior do
que em 2002. O Pard
que avangou e mudou,
talvez tamb6m para
uma situaqao estrutu-
ralmente pior, porque
dependent ainda
mais do extrativismo
mineral e seus elos
coloniais, viveu A re-
velia do Estado ou
contra ele, quando blo-
queou seus caminhos.
O iltimo governor
que planejou o que fa-
zer foi o de Aloysio
Chaves (1975/79).
Seu maior m6rito foi
o de ter buscado maior grau de autono-
mia para o Estado. Seu maior fracasso
foi o de nao ter conseguido alcanqar
essa meta: o president que tornou pos-
sfvel sua ascensdo, o prussiano general
Emesto Geisel, esmagou as pretens6es
de independencia. O domfnio da Uniao
se tomou esmagador. A autonomia vi-
rou velemento decorative num cerrado
planejamento unittrio, que s6 nao era
bolchevique nos fins.
De 1 para c& os governor estaduais
se encarregam de fazer decoraq6es no
cendrio, tender as clientelas e, a partir
da instituicgo da reeleigdo, procurar
uma forma eficiente de permanecer no
poder por mais um mandate. Almir Ga-
briel foi o primeiro a conseguir o objeti-


SJornal Pessoal DEZEMBRO DE 2010. 1QUINZENA






lo nada a lugar algum


vo e tamb6m fazer o seu successor. Si-
mao Jatene chegou ao final do seu man-
dato como favorite A reeleig~o. Nem
mesmo um candidate & altura se ofere-
cia no horizonte, quando l1 Almir surgiu
de novo, atropelando um projeto que
permitiria ao PSDB realizar no Para o
sonho que se frustrou no pais porque
Fernando Henrique Cardoso chegou
com grande impopularidade ao fim do
seu mandate.
A intrusao de Almir acabou cor o
discurso do PSDB paraense de que a
defesa de um projeto para o Estado es-
tava acima de qualquer pretensao pes-
soal dos seus integrantes. A nova can-
didatura de Almir, depois dos oito anos
em que ele frustrou
as melhores expec-
S tativas em torno do
seu passado, nao
S passava de um pro-
&9 jeto pessoal de po-
5 der. Esperto, Jader
*- Barbalho colocou
,.. AAna Julia no ringue e
mandou o ex-gover-
nador para a lona.
Achava que assim
punha fim A hegemo-
nia dos tucanos, que
ameagava prolongar-
se perigosamente.
S6 nao podia ima-
ginar que a sua alia-
da faria um govemo
tao desastroso, che-
gando literalmente ao
fim em meio a tantos
e tao desconcertantes escandalos quan-
to no seu comego. Como em outros
Estados e municipios em que comegou
mal, o PT do Para nao conseguiu o voto
de confianga para tentar outra vez. Fi-
cou em 2" 6poca.e foi reprovado. O prin-
cipal efeito do desempenho mediocre foi
tirar Simao Jatene do poleiro da apo-
sentadoria e das embaragantes linhas
de pesca para a condiiao de favorite,
que quase venceu no 1 turno, o que sig-
nificaria a culminincia do desastre, tor-
nado absolute, complete.
Os risos, apertos de mios e tapinhas
nas costas entire vencedores e venci-
dos depois da batalha, chegaram a pro-
vocar interpretag6es quanto a uma pos-
sivel composigao entire o PSDB e o PT,


evaporaram no avangar da transigao,
quando foi instalada uma guerra de
guerrillas. Os tucanos estao convenci-
dos de que herdarao uma terra arrasa-
da e nao poderao ter um inventArio da
situaio real senao quando assumirem
oficialmente o govemo.
Os petistas, temendo sofrer nas
maos dos tucanos o padecimento que
Ihes tentaram impor quando conduziram
a investigation da Auditoria Geral ape-
nas para o passado (e tiveram uma das
suas mais desagradAveis surpresas
quando a auditora-chefe colocou o pr6-
prio governor do PT na linha de tiro, an-
tes de pular fora do barco ademante),
trataram de empurrar tudo que fosse
indesejivel para tapetes e armarios, la-
crar os postas restantes e consumer os
acertos que deviam ser arrematados no
govemo seguinte, na hip6tese da vit6ria
de Ana Jdlia.
O tom pat6tico da entrevista de Edil-
son Rodrigues ao Didrio do Pard re-
sulta da tentative de um t6cnico capaci-
tado de tangenciar as quest6es graves
e controversas e ignorar as falhas que
ele pr6prio apontaria se nIo Ihes fosse
o autor. Em alguns moments, ele for-
nece municao contra si. Na questao -
de moral negativa- dos servidores tem-
poririos, admite que, obrigado pelo Mi-
nistrio Pdblico, Jatene reduziu o qua-
dro de 22 mil para 16 mil integrantes.
O PT quase extinguiu esse remanes-
cente, deixando-o em 700. Mas nomeou
outros 11,3 mil, contingent que devol-
vera a Jatene, prosseguindo-se essa
novela de gato e rato em torno da mo-
ralidade e do interesse pdblico, enquan-
to os concursados se mantem em longa
fila de espera.
As manobras em torno dos ndme-
ros do orgamento nao camuflam uma
realidade escancarada para quem con-
segue ver atrav6s das rubricas: a ca-
pacidade de investimento do Estado
pelos pr6ximos anos sera minima. As
despesas de custeio e de pessoal cres-
ceram tanto que avangaram sobre o
capital. Resta a alternative aos novos
dirigentes de recorrer a empr6stimos
porque a capacidade de endividamen-
to 6 alta. Alta nao por falta de desejo
de usa-la, mas de competencia para
obt6-la. Parece que os agents finan-
ceiros nao acreditam muito na capaci-


dade de gestao dos atuais governan-
tes. Terao essa confianca nos novos?
Ter ficado quatro anos A margem
do poder poderia dar a Simao Jatene
uma nova capacidade de visao e refle-
xao, um distanciamento favorAvel ao
t6cnico, permitindo-lhe corrigir os er-
ros do primeiro mandate e adensar-lhe
as qualidades. Mas seu retorno ao go-
verno parecia tao improvivel que sua
viabilizaqio exigiu compromissos e
amarras polfticas e econ6micas tais
que o vicuo dos quatro anos pode ser-
vir mais para enfraquecer a sua nao
muito elogiAvel capacidade de coman-
do, resultando num hibridismo sem di-
reiao coerente.
A emergencia do PMDB num go-
verno do qual nao foi aliado e do qual,
ao inicio do process eleitoral, era ad-
versArio, desnuda a importancia que
Jader Barbalho teve nos bastidores,
em favor do tucano, a partir do rom-
pimento com o PT paraense (mas nao
com o PT national, ao menos at6 a
und6cima hora). A eterna litania em
tomo de fidelidade e traigao a com-
promissos nao escritos de campanha
vai ser revivida nos primeiros meses
do governor Jatene.
O teste tamb6m se aplicari ao gru-
po Liberal, que acompanhou o movimen-
to pendular do seu maior inimigo, o mes-
mo Jader Barbalho, na desatracaqio da
frota petista A media que seus rombos
se exibiam, antecipando o naufrigio
anunciado. Como Simio Jatene atendera
seus antag6nicos companheiros de meio
de caminho e se protegerA (ou se livra-
rA) de seus tiros a esmo?
O gosto que essas quest6es deixa 6
de prato requentado inumeras vezes -
e que ji nao era satisfat6rio quando do
primeiro cozimento. Essa simetria foi
bem assinalada pelo future super-secre-
tario tucano, S6rgio Leao. Responden-
do A entrevista do dia anterior de Edil-
son Rodrigues, ele disse ao Didrio do
Pard que o PT da transicao de 2010
repetia o PSDB na passage de 2006:
"Quando, na transiqao passada, [os pe-
tistas] pediram informaqses das contas
do Estado, dissemos que entregariamos
no dia 31 de dezembro. N6s pedimos a
mesma coisa para eles e deram, agora,
a mesma resposta para a gente".
Santa sinceridade. Macabra realidade.


DEZEMBRO DE 2010 1AQUINZENA Journal Pessoal







CAMPEAO
Rocky Marciano era o cam-
peao de todos os pesos e um
dos maiores lutadores da his-
t6ria do boxe quando amanhe-
ceu em Bel6m, em marco de
1956. Vinha dos Estados Uni-
dos e ia se apresentar em vai-
rias cidades brasileiras (mas
nao em Bel6m, que seria ape- lugar
nas escala na viagem, como que e
acontecia na maioria dos v6os trazel
internacionais para o Brasil). esses
Ia exibir sua t6cnica apura- sfveis
da, que o mantinha invicto em podel
49 lutas (com 43 nocautes) e Ha'
o rosto inteiramente limpo, incon
sem marcas. Aparada seguin- meril
te do quadrimotor do Cons6r- pagar
cio RealAerovias seria no Rio e os i
de Janeiro, sete horas depois, cobra
sem escala. O mundo ainda gocia
era enorme. croni=
tem is
CONTRABANDO A
Theodoro Brazao e Silva "trem
admitiu ter hesitado em escre- "sobr
ver na Folha do Norte, no ao int
final de 1957, sobre "o desti- lhar p
no negro desses laboriosos autori
homes do com6rcio que o
povo apelidou de contraban-
distas". Corn ironia, dizia ser
precise fazer justiga a essas
pessoas, que iam "Caiena,
Paramaribo, Miami, New
York, Lisboa, Porto e outros



PROPAGANDA

Feras na selva
0 antlncio de tratores, como este,
de 1964, era marcante no inicio da
era do rodoviarismo, que Jusceli-
no Kubitscheck incrementara no
seu mandate, na segunda metade
dos anos 50. Grandes estradas de
integracdo national comecavam a
ser rasgadas, a partir de Brasilia,
na direcao do Acre e do Pard, em
dois sentidos distintos.Para abrir
caminho, era precise ter muitas
mdquinas, como os ainda peque-
nos (para os padres de hoje ) D4
da Caterpillar, vendidos pela Ci-
treq (Cia. Importadora de Tratores
e Equipamentos), que tinha sua
loja na rua Santo AntOnio, entire a
President Vargas e o Coldgio San-
to AntOnio, ainda um ponto nobre
do comdrcio.


es distantes comprar o
xiste de melhor, a fim de
r para Bel6m, vendendo
artigos por pregos aces-
, que os 'tubar6es' ndo
m anunciar".
via apenas um detalhe
veniente: esses bene-
tos "se esquecem de
os direitos de entrada
mpostos que o Estado
Spara quem deseja ne-
r". Mas reconhecia o
sta "que importincia
so para quem compra?"
uestao era que uma
enda ameaca" surgia
e essa gente dedicada
eresse coletivo, a traba-
ela humanidade". Uma
dade no Rio de Janeiro


anunciara guerra de morte ao
contrabando, dispondo-se a
mandar para o Para uma lan-
cha veloz, capaz decorrer
mais rapidamente do que
qualquer outra (ao menos no
papel), "armada de metralha-
dora e mais guards aduanei-
ros". Com isso, nunca mais
chegariam as margens para-
enses "os barcos audaciosos
que partem dessas guianas".
Haveria tamb6m outros
efeitos, talvez nio percebi-
dos, a revelarem a profundi-
dade da penetraqdo do con-
trabando na vida local: "Os
avi6es internacionais esco-
lherdo outro pouso. O que
adiante tocar em Val-de-
C~es se nao podem deixar


as suas muambas? ? Have-
rA mesmo, talvez, uma revol-
ta das tripulagqes de cabo-
tagem. O que compensarA o
sacrificio de virem at6 aqui,
se n~o conduzirio, na volta,
algumas caixas de whisky e
algumas esp6cimes de arti-
gos de nylon ou frascos de
perfumes franceses? Adeus
o bacalhau e o azeite doce,
puro de oliveira, que v8m,
juntamente com os vinhos,
naquelas areas tradicionais,
nos navios ingleses que to-
cam em Portugal".
Um mundo de ontem, como
devem lembrar os mais anti-
gos, mas que parece, hoje,
nunca ter existido.

CAnvAo
Em 1953 a borracha e a
castanha eram as dnicas ati-
vidades econ6micas no vas-
to vale do Xingu, no Parn.
Mas o seringalistaAssad Curi
anunciou nesse ano que iria
empreender uma nova ativi-
dade, que nio deixava de ser
extrativa, s6 que mineral: ele
pretendia explorer umajazi-
da de carvio de pedra que
aflorava no igarap6 Trairio.
no alto curso do rio. Traria o
min6rio pelo Xingu ate Alta-
mira, faria o transbordo por
terra para Porto Vit6ria e daf
embarcaria o produto para
Bel6m em navios dos SNA-
PP, autarquia federal. Des-
de que conseguisse "isengao
de tributes do governor, ao
menos no principio, enquan-
to slo problemAticas as pos-
sibilidades de 8xito".
O aproveitamento do car-
vao mineral do Xingu perma-
nece problemitico at6 hoje.
Segundo a versio corrente,
por nio ser adequado para a
siderurgia, que seria (ao me-
nos na visao da 6poca) o seu
uso mais nobre. A siderurgia


a Jornal Pessoal DEZEMBRO DE 2010 laQUINZENA


Econ6mleo nos grndes Irabahos
Inlguallivl ass tareas midias
Produtiw om Idaes a operW6
0 4 Mks 0 sWpne a melh" mM q4* 0e uIC ank metM
*vneapa da CakWptWllt Po4a -oli. Aom,. 6 vrsdl oomo os
od eos a anoRl ami. Nto n l M. Dom mo. Ve w no.
m. deSWsm.. eme n mo e ma e. pm s. meuwgaf,.
pw We de on- M narotwleMo. AlMum: Adigio de um
6t." p*iMpsl. los* do n N8 M "M mom l Uidor. CWWWGi"
.SWtr d* Bizgm d o olnite a m tamlano. Reltnre do
ca mdo tilWl I p DuO-Com. I mues oareo ponwo miahoradmo
tuoe pea m dum"d ... a m@ Inwo. So a6 H.P. o. 00 .
prowtnM pa met arm a O.


L kftfar m Tralm I EWNIB 3M-
SCI
CaIpulAr 0 Wo aD r@'tradas da Caurpiar Tractor





FOTOGRAFIA

Os cutias antes do leillo
Um ano e meio antes do artigo de Theodoro Brazdo e Silva, a foto de dois cadillacs (ou cutias, por
chegarem pelos rios e ficarem escondidos na mata) apreendidos na porta da Alfdndega, no Boulevard


saiu, ao menos na sua confi-
guraqdo de menor valor e
mais poluente (em todos os
sentidos), mas o carvio, nao.

URUCUBACA
Bianor Penalber dedicou
um artigo caustico na Folha
do Norte de 1953 para pro-
var que a "principal predes-
tinaqAo" de Magalhaes Ba-
rata, o home mais podero-
so no ParA entire 1930 e 1959,
cor intervalos de enfraque-
cimento, nao era "opor-se a
gramatica, tornando-se um
terrivel homicide dos prono-
mes, de bancar o jogo do bi-
cho e de dar choices com mo-
tivo ou sem motivo". A prin-
cipal predestinaq o do che-
fe do baratismo "6 para dar
azar, que o povo, na giria,
chama de urucubaca".
Bianor arrola exemplos da
mA sorte que Barata teria e
espalharia sobre pessoas que
dele se aproximavam. Um
dos exemplos acrescenta um
detalhe humoristico ao famo-
so epis6dio da derrota de Ba-
rata em 1935, quando era con-
siderada certa a sua eleigio,
pela Assembl6ia Legislativa,


para o governor, mas ele aca-
bou derrotado porque sete in-
tegrantes do seu partido se
bandearam para a oposiAo.
Garante Penalber que o en-
tdo interventor federal estava
t~o certo da sua vit6ria "que
mandou confeccionar uma
farda de official do Ex6rcito, ao
qual tanto desserviu, corn bo-
t6es de ouro do Gurupi". Na
v6spera da sessdo do legisla-
tivo para a escolha, o unifor-
me de fala teria sido colocado
em exposiqio na vitrine de um
alfaiate. Com a derrota, po-
r6m, "o pobre do alfaiate, que
cedera a sua vitrine, perdeu os
fregueses e faliu".
Se ndo foi verdade, a ver-
sAo 6 tipica do ambiente de
disputes political acirradas
da 6poca.

CASA
O que compunha uma casa
de famflia, das mais bem do-
tadas, em 1953. Um leildo
realizado pela Agencia Frei-
tas (que ficava na Frutuoso
Guimaries), a "grande casa
de leiloes", dava uma id6ia.
Seriam oferecidos aos arre-
matantes (o contumaz Fer-


nando Torres ainda nio tinha
idade para responder presen-
te) conjunto para sala de jan-
tar em macacadba trabalha-
da, com guarnices de mar-
more e cristais, corn
cristaleira,m buffet, etager,
mesa elAstica e seis cadei-
ras; piano com mocho; dor-
mit6rio para casal composto
de guarda-roupa com espe-
Iho de cristal, penteadeira,
c6moda com pedra, cama e
mesa de cabeceira; grupo
estofado para sala com seis
peas; fogdo a querosene
paterno; camas patente para
casal e solteiro; mesa para
radio (nio havia television, 6
claro); Congoleun; guarda-
roupas; eletrola (correspon-
dente ao aparelho de som
atual), com pick-up automa-
tico; maquina para capinar
grama; vitrine de centro; pra-
tos de parede;prensa de fer-
ro para copiar; cabide de
entrada; estate para mdsi-
ca; CARROCA DE MAO
PERFEITA (assim mesmo,
escrita com letras maidscu-
las) e muitos etcetereas mais.
Quem se senate em casa
com a descricgo?


Castilhos Franga (ao
lado da igreja das
Merces), pouco antes de
serem recolhidos ao
depdsito para virem a ser
leiloados. Geralmente
quem arrematava tinha
em seu poder uma peFa
vital do veiculo, retirada
antes da apreensao,
frequentemente
denunciada pelo pr6prio
contrabandista e assim
possibilitar sua
legalizafdo, com custo
bem menor do que
atraves da importaado
legal. Foi assim que
Bel6m conseguiu former
uma aprecidvel frota de
automdveis americanos.


PADARIAS
Os grandes moinhos de tri-
go podiam misturar a f6cula
de mandioca ao trigo. As
padarias, ndo. A partir de
denlncia, feita em 1964
(6poca de muitas dentncias
e repressdo) de que as pa-
darias do Tel6grafo Sem Fio
estavam fazendo pdo corn a
mistura, o delegado da Eco-
nomia Popular, o muito co-
nhecido Heliomar Gongal-
ves de Matos, fez uma "in-
certa" na Area.
Garantiu que os comerci-
antes foram realmente sur-
preendidos. Mas nenhum
foi flagrado usando f6cula
de mandioca. S6 o gerente
da "Ledo do Norte" (na rua
Soares Carneiro) foi adver-
tido; o padeiro-chefe foi
encontrado pelos fiscais
"completamente alcooliza-
do e deitado sobre uma das
mesas usadas para prepa-
rar o produto".
As outras padarias do
bairro eram a Sao Jodo, Pre-
ferida, Palmeirinha (que era
famosa) e Santa Izabel. Al-
guma sobreviveu at6 os nos-
sos dias?


DEZEMBRO DE 2010 1QUINZENA Jornal Pessoal n













LIVBOS
Muito obrigada pela leitura
refinada, criteriosa e genero-
sa do meu livro, Hist6rias In-
visiveis do Teatro da Paz, no JP
n 477. Nao 6 f6cil enfrentar
um leitor do seu calibre, mas
e necessdrio e salutar que
essa interlocu5io exista e per-
mita 6 obra ser vista e com-
preendida muy lejos do umbi-
go do seu autor.
Faco apenas duas ressalvas
no seu comentario a fim de
esciarecer os pontos levanta-
dos por voc6: 1) o primeiro or-
gamento da construcio do tea-
tro foi organizado por um en-
genheiro da Provincia, Guilher-
me Francisco Cruz, e nlo por um
mestre de obras; e 2) a palavra
"n'omal" no texto do critic Jos6
Verissimo, ao referir-se a qua-
lidade das cadeiras do teatro,
e um erro do original mesmo
que, por pudor, mantive, e tal-
vez merecesse um "sic".
Aproveito a oportunidade
tamb6m para agradecer-lhe
por outro comentario: o da edi-
glo n 476, sobre o livro Jos6
M6rcio Ayres: Guardido do Ama-
zdnia, tamb6m de minha auto-
ria, o que muito me honrou.
No mais, espero que sua cri-
tica se faCa sempre.
Rose Silveira
Jornolisto e historiodoro

TEATRO
No ultimo numero do Jornal
Pessoal encontrei uma breve
refernncia ao Teatro do Estu-
dante do Para, no qual fui um
dos colaboradores. Lembro-me
do trabalho do MArio Couto em
adaptar para o teatro o conto
Tristio do grande romancista
alemlo Thomas Mann.
Ap6s mais de 60 anos torna-
se dificil obter os textos do TEP
nas suas duas fases de exis-
tencia. Como sugestio, consul-
te a Maria Silvia Nunes, pois,
sua irmi Angelita era uma
grande colaboradora da Prof a
Margarida, participando, inclu-
sive, da selego das peas.
0 economist Antonio Pan-
toja foi colega de trabalho da
filha adotiva da Guida e se
interessou em fazer uma pes-
quisa para publicaglo de um
CD-rOM e um livro que nio se
concretizaram por falta de
apoio das autoridades liga-
das 6 cultural. Lamentamos


que nada tenha sido feito
para registrar a presence do
TEP na Hist6ria do Teatro do
Estudante do Para, o qual foi
sucedido quase uma ddcada
depois, pelo Norte Teatro Es-
cola, cuja existencia est6 mui-
to bem apresentada no livro
Teatro de Vanguarda, de Para-
guassu Elleres.
Henrique Lobo

POLITICOS
Sem entrar no m6rito das dis-
cuss6es que se seguiram corn
a cassavgo de dois paraenses
eleitos pelo "voto popular", e
defenestrados cor base na Lei
da Ficha Limpa e outros pre-
ceitos legais, expostos na ma-
teria cor o titulo "0 golpe de
Jader", publicada no Jornal Pes-
soal n. 475 da segunda quin-
zena de novembro/10, entendo
que eles, de certo modo den-
tre tantas prevaricac6es regis-
tradas no mundo politico fo-
ram punidos para servirem de
exemplo. Houve injustica! Cla-
mam pronunciamentos espon-
thneos e arranjados, nos vei-
culos de comunicagao, propri-
edades de um dos "prejudica-
dos". Alids, esse pr6prio JP,
entire pr6s e contras dispostos
no texto sob report, no meu
entendimento, posiciona-se
cor discreta leni6ncia ao ator
principal da peca.
No mundo das transgres-
sBes, sejam elas de quaisquer
natureza, alguns sio surpre-
endidos e pegos por delitos
menores. No poderoso Estados
Unidos da America do Norte, os
mafiosos foram flagrados e
encafuados por sonegaggo de
imposto de renda. O Sr. Paulo
Rocha, depois da renincia si-
lenciosa, nio teve a hombrida-
de de explicar ao seu imenso
eleitorado, a sua participaglo
no "mensallo" e as raz6es da
"fuga"; entretanto, candidatou-
se no pleito seguinte e elegeu-
se cor consider6vel nrmero
de votos. At6 hoje mant6m-se
calado. 0 Sr. Jader Barbalho, de
igual modo ganhou um novo
mandate de Deputado Federal,


dono de um soberbo imperio
de comunicalo, estd gastan-
do uma imensa fortune (publi-
cac6es di6rias de mensagens,
fotografias cintilantes, apari-
g6es na TV, artigos de simpati-
zantes, etc), numa campanha
fren6tica tentando provar que
ele, nao 6 ele mesmo. Tudo isso
para apresentA-lo ao mundo
eleitoral como 6nica vitima do
sistema, acusando o judici6rio
de ser o seu algoz e da pr6pria
populagio que o elegeu (1,8
milhio de votos).
A vitimizago de que se quei-
xa o candidate 6 do tipo "sacri-
ficar-se cor entusiasmo" e
"imolar-se a si mesmo", que
nada mais sio que cliches de
sua pr6pria indole, por6m, na
realidade, o "sacrificio" e a
"imolaglo", sio s6 na aparen-
cia, um verniz fr6gil que se des-
faz no moment oportuno.
Numa outra roupagem, esta
image que estes lideres pas-


Corregao
O padre Guido Tonelotto, que foi director do Col6gio do
Carmo, morreu em outubro de 2009 e nao do ano passado,
como anunciei na edigao anterior. Minha fonte confundiu e
me fez confundir as datas. Mas o erro nao passou pela lupa
do Fernando Jares, ex-aluno salesiano sob a batuta do padre
Guido no mesmo period em que por lh passed (em turma
diferente da dele), Mas a surpresa foi a mesma, apesar do
fato ser mais antigo. Como nosso mdtuo lamento.


sam para o Z6 povio 6 do tipo
da que o editor e redator desse
JP gosta de citar: um fato ou um
conceito falso firmado em cima
da conduta de um determina-
do lider, se repetido centenas
de vezes, acaba se tornando um
consenso ou a verdade absolu-
ta. Eis a razto, talvez, dos 1,8
milhao de eleitores cativos. A
sociologia pode explicar melhor
esta tend6ncia.
0 moment 6 oportuno para
os dois, que foram atingidos
pela norma, informarem cor
detalhes aos seus eleitores a
razto de suas punig6es. No
caso do petista, Paulo Rocha,
relatar as minudencias do
"mensalio", origens e destiny
do dinheiro. No caso do pee-
medebista, cabe informar por-
que 22 processes com acusa-
c6es diversas sobre suas ativi-
dades foram parar no STF. Di-
ante desse cen6rio constran-
gedor, consider que a socie-
dade brasileira est6 social-
mente enferma, e precisa de
um trabalho de reabilitacgo ur-
gente, pois ao votar maciCa-
mente em candidates que nio
exibem sequer requisitos acei-
t6veis com os padres de usos
e costumes tradicionais, deno-
ta um claro sinai de degene-
rescencia. Contudo, nao creio
que estejamos beirando o ci-
clo fatal da "morte", como al-
guns autores consideram a
vida da sociedade.


Jomal Pessoal

Editor: Licio FlAvio Pinto


Contato: Rua Aristides Lobo, 871 CEP: 66.053-020 Fones: (091) 3241-7626
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Diagrama9io e ilustrac es: Luiz Antonio de Faria Pinto
luizpe54@hotmail.com chargesdojornalpessoal.blogspot.com blogdoluizpe.blogspot.com


M Jornal Pessoal DEZEMBRO DE 2010. IaQUINZENA


Mem6ria do Cotidiano 3

Jd estd a venda
nas bancas e
livrarias da
cidade o terceiro
volume da
coleado em
format de livro
da Memdria do
Cotidiano, a
seVdo fixa deste
journal. Com
diagramapdo
mais leve e
limpa, para
permitir a
melhor leitura e
o maior prazer dos leitores. Agora, e ir atrds e
comprar 0 editor agradece.






A Amazonia que more


Eclusas limitadas


Fui um crftico constant da hidrel6-
trica de Tucuruf durante sua construg~o,
de 1975 a 1984, ano em que a usina,
instalada sobre o leito do rio Tocantins,
foi inaugurada, como a quarta maior do
mundo. Mas nio era um crftico a dis-
tancia: estava sempre na obra. E, por
incrfvel que parega, conversando com
os "barrageiros", que me atendiam. O
dialogo parecia entfo mais facil do que
agora, talvez porque tinha um tom mais
marcadamente t6cnico.
Certa vez, um deles, para me de-
monstrar que todos ganhariam com a
hidrel6trica, me levou para percorrer
as novas cidades. Elas estavam sendo
preparadas para receber a populagio
que seria remanejada da beira do rio
para a formaqAo do reservat6rio. O
future lago artificial, o segundo maior
do Brasil, alagaria uma Area de tres
mil quil6metros quadrados (mais de
duas vezes o tama-
nho de Bel6m, com
seus 1,4 milho de
habitantes).
O engenheiro ti-
nha todos os moti-
vos mas os seus
motives para
achar que os ribei-
rinhos viveriam
muito melhor nas
novas cidades. LA
eles teriam casas
de alvenaria, ruas
pavimentadas,
Agua, luz e todos os
servigos basicos, que nao existiam na
margem do rio. Mas eu nao tinha diivi-
da de que os remanejados nao iam par-
tilhar a convicq~o do t6cnico.
E claro que eles estariam em me-
Ihores condiq6es materials num ndcleo
urban planejado. Mas Ihes faltaria no
novo domicilio algo que todas essas
vantagens nao seriam capazes de com-
pensar: o pr6prio rio.
O Tocantins era sua rua, sua fonte
de Agua, de alimento, de trabalho, de
vida. Depois de tantas geraq6es se
sucedendo na margem do vasto curso
d'Agua, tirar dele as vantagens, mini-
mizando os prejuizos eventuais, era o
grande patrim6nio dessa populag~o.
Um aprendizado de s6culos. Conhe-
cimento experimental, empirico, sofri-
do, valioso, inico.


Subitamente, sao remanejados ri-
gorosamente manu military (o primeiro
president da Eletronorte, subsidiAria
da Eletrobras responsAvel pela hidre-
16trica, foi um coronel-engenheiro do
Ex6rcito, Raul Garcia Llano). O lega-
do de s6culos no trato com o ciclo das
Aguas, subindo e descendo por turns
semestrais, se tornou indtil na terra fir-
me, long do rio, em ambiente pouco
conhecido.
Pelos crit6rios quantitativos, o en-
genheiro podia provar matematicamen-
te que a mudanca foi positive. Por essa
r6gua, tamb6m 6 superavitArio o ba-
lango da transformaqio que ocorreu na
Amaz6nia no ldtimo meio s6culo, prin-
cipalmente em funqgo de "grandes pro-
jetos", como o de Tucuruf, que repre-
sentou investimento superior a 10 bi-
lh6es de d61ares.
Mas o triunfalismo da hist6ria ofici-
al se vale da ausen-
cia de um indice ca-
paz de medir e tra-
duzir numericamen-
te a felicidade. Se
houvesse esse indi-
cador de satisfaq~o,
ele revelaria a tris-
teza do home obri-
gado a trocar o rio a
sua porta pela casa
de alvenaria no
meio da mata que,
alias, desapareceu.
O home da
AmazOnia 6 detalhe
ou enfeite no "modelo" (que nada tern
de modelar) de integracao forqada da
regido ao pafs e ao mundo. Modelo
definido a partir de fora para fazer a
vontade do migrant, seja ele pessoa
fisica ou empresa, Jodo da Silva ou
Vale do Rio Doce, nascido no pais ou
vindo do exterior (quanto mais distan-
te, mais poderoso).
Para a "modernizagdo" compuls6ria
pouco importa que o native esteja ou
nio feliz. Seu mundo estA condenado a
desaparecer. Tudo que 6 considerado
primitive, atrasado e isolado serA pro-
gressivamente esmagado pela maquina
que produz mercadoria, a media que
ela vai avancando sobre as novas Are-
as. Seu r6tulo 6 a inica fonte valida de
valor, do que interessa ao mercado. O
mais 6 descartAvel, initil.


Mesmo depois de solenemente inau-
gurado pelo president Lula e a presi-
dente eleita Dilma Rousseff, o sistema
de transposiq~o da barragem de Tucu-
ruf ainda nao iniciou sua operaao co-
mercial. As eclusas s6 voltaram a fun-
cionar para permitir a passage de bal-
sas que transportaram peas fabrica-
das no CearA para um flutuador que
serA instalado na eclusa um, de mon-
tante. Ele servira para a ancoragem das
balsas que formario comboios para atra-
vessar o canal intermediario e sair na
eclusa de jusante, voltando a navegar
pelo rio Tocantins.
Mas nenhuma embarcago de ter-
ceiros ou clients fez esse percurso.
Nem as autoridades que participaram
da inauguragqo completaram todo tra-
jeto, de cinco quil6metros e meio, at6 a
saida, em frente A cidade de Tucuruf. O
president Lula quis prosseguir, mas os
t6cnicos explicaram que a Eletronorte
nao tinha elaborado um piano de segu-
ranga para permitir a viagem complete.
Seis usinas de gusa (uma paraen-
se e cinco maranhenses) decidiram
usar a ferrovia de CarajAs para esco-
ar 145 mil toneladas de gusa at6 o
porto da Ponta da Madeira e nao as
eclusas. A Vale Ihes ofereceu vanta-
gens para fazerem essa opqAo. A fer-
rovia e o porto sdo concess6es pdbli-
cas da empresa, que tamb6m fornece
o min6rio de ferro.


Aritm6tica
0 journal Amazonia alcancou sua
edigqo 3.882 no domingo, 12. Ele esta
no ano X, o que quer dizer que esta
circulando ha nove anos, completando
uma d6cada quando chegar ao dia do
seu langamento (qualquer publicaqao
comega no ano I). Como nao sei a data
exata, vou arredondar para 10 anos,
mesmo que na realidade seja uma d6-
cada incomplete. Nesse caso seriam
388 edigqes por ano, que, infelizmente,
s6 ter 365 dias em m6dia. Estao so-
brando 23 ediq6es a cada ano, em tese
(na prAtica, sao mais). Mais de 200 a
mais at6 agora. O Amazonia segue a
matemitica do irmio mais velho, O Li-
beral, que, no mesmo dia, atingiu a edi-
9do 33.051 no ano LXV (na verdade,
completados 64 anos). O que da qua-
se 512 edic6es por ano.
Um espanto.


DEZEMBRO DE 2010. 1 QUINZENA Journal Pessoal L







Capital: ainda capital?


Bel6m ainda possui o maior Produ-
to Intemo Bruto do Pard, que em 2007
era de quase 14 bilh6es de reais. Mas
o PIB de Barcarena ji represent qua-
se um quarto da riqueza existente na
capital, ou R$ 3,6 bilh6es. Nunca um
municipio do interior ocupou posiCqo
tAo expressive. A correlagao se inver-
te quando a avaliaqdo 6 feita pelo PIB/
per capital: o de Barcarena (R$ 43 mil)
6 mais de quatro vezes superior ao de
Bel6m (de menos de R$ 10 mil). A
posicao de Bel6m no ranking por esse
crit6rio 6 a 10b, depois de Bar-
carena, em primeiro lugar, se-
guindo-se pela ordem Canad dos
CarajAs, Tucuruf, Parauapebas,
MarabB, Almeirim, OriximinA,
Benevides e Xinguara.
Dos 10 maiores PIBs per ca-
pita do Estado, sete so de muni-
cfpios que abrigam grandes pro-
jetos de mineraqIo e de energia '!
(eles so metade dos 10 maiores
PIBs). Isto significa que mesmo
n~o tendo os rendimentos que a


maior transformaio industrial propor-
cionaria e privados de receita tributaria
pela Lei Kandir, que isenta de ICMS a
exportag~o de matdrias primas e semi-
elaborados, eles continue os municf-
pios privilegiados pelo Angulo da renda
gerada nos seus limits atrav6s dos
empreendimentos de grande porte.
Pelos pr6ximos anos a tendencia ain-
da sera a de que esses municfpios con-
tinuem a fortalecer suas posig6es, ab-
sorvendo poder que antes se concen-
trava na capital e incrementando a in-


^SS ^ '^ "'^-' '.. *'.' -. &.
11 c IC


teriorizaqio do desenvolvimento. VAo
defender cada vez menos de Belem e
se sentirio em condiq6es de reivindicar
mais autonomia, at6 que possa amadu-
recer de vez a luta pela emancipaqAo
polftica.
NAo significa que esses municipios
estejam em condiq6es de obter mais dos
grandes projetos que abrigam. Pode
acontecer o inverso: de eles se acomo-
darem cor o que ji recebem, de gran-
de significaAo para os padres para-
enses, mas apenas uma compensagao
diante do valor da producgo des-
ses empreendimentos. E af que
Bel6m poderd se situar, assumin-
do uma posiq~o de lideranqa e
vanguard para que o interior
Scresca ainda mais, tornando-se
ltil e acatada. Talvez redefinin-
Sdo o seu papel numa nova ordem
espacial, que, de outra maneira,
tenderA a excluf-la.
Um tema para reflexao na
perspective dos 400 anos de San-
ta Maria de Bel6m do GrAo Para.


Fichas diversas


Mariano de luta


Nao ha crime sem lei que o defina. Nenhuma lei pode retro-
agir, ainda mais se for para prejudicar o r6u. Nenhuma lei eleito-
ral pode entrar em vigor no ano em que houver dispute eleitoral.
A emenda popular, com 1,3 milhao de assinaturas a referen-
da-la, nao colidia com nenhum desses principios juridicos, com
tutela constitutional e amparo no direito universal dos povos. Mas
passou a ser, no minimo, controversy, quando foi emendada pelo
deputado federal petista Jos6 Eduardo Cardozo (indicado para
ser ministry da justiga de Dilma Rousseff), com um prop6sito
especifico: impedir que o ex-governador Joaquim Roriz voltasse
ao comando do Distrito Federal, que disputaria cor um candida-
to do pr6prio PT.
O casufsmo que modificou o texto integro do projeto de lei
da ficha limpa (ou suja, conforme o angulo) abriu um campo
enorme A subjetividade, que conduz a interesses pessoais, ne-
gociacqes de bastidores e todos os tipos de manipulag6es pelo
bem comum atrAs dos quais podem estar atores nada benem6-
ritos. O resultado foi uma sucessao de acontecimentos que pro-
vocaram, dentre outros efeitos, o aprofundamento da desmora-
lizacAo da corte supreme da justiga brasileira, no expurgo de
figures malfficas da vida pdblica brasileira, como Jader Barba-
Iho, mas na manutengio de outras de igual estatura, como o ex-
governador paulista Salim Maluf e o matogrossense Pedro
Henry, um dos vortices do "mensaldo", ambos diplomados de-
putados federais.
O caminho teria sido reto e expressaria a vontade popular se
o texto original nio tivesse recebido a virgula colocada pelo ho-
mem que, daqui a alguns dias, sera responsAvel pelos assuntos
najustica no governor da primeira mulher a assumir a presidencia
da repdblica no Brasil, um pais que nio faz revolugio e nao con-
segue executar reforms s6rias.


Os militants do PSDB ainda se agrupavam na calqa-
da em frente & residencia dajomalista Ana Diniz, naquele
sAbado, 31 de julho de 1992, quando chegou o principal
personagem da reunio, convocada para discutir a candi-
datura do partido A prefeitura de Bel6m. O senador Almir
Gabriel desceu do carro e passou a cumprimentar as pes-
soas que o esperavam. Quando chegou em Jos6 Mariano
Klautau de Aradjo teve que parar e ouvir algumas criti-
cas ao seu procedimento
Os dois discutiram, Almir voltou para o carro e foi
embora. Nesse mesmo dia foi para Brasflia e de lA para
uma fazenda nos arredores da capital federal, onde se
isolou por complete. NIo sem antes mandar uma carta
comunicando sua rentncia a candidatura. A Alianqa Po-
pular, coligagqo de sete partidos que o iria apoiar, teve
que recorrer A dltima hora a Socorro Gomes, do Partido
Comunista do Brasil, que foi derrotada por HWlio Gueiros.
O epis6dio 6 praticamente a dltima intervenq~o politi-
ca de Mariano e diz tudo sobre como ele era: franco e
destemido. Dizia as coisas que julgava necessario dizer
sem se preocupar com suscetibilidades ou conseqiienci-
as. Mas em political ha todo um teatro a seguir, um jogo
de conveniencias e oportunidades, que nio cafa bem ao
estilo de Mariano, embora ele fosse, acima de tudo, um
animal politico no modelo aristotelico.
Desiludido da political e dos politicos do Para, ele pas-
sou a se dedicar as causes ecol6gicas e A mudanqa das
mentalidades, depois de uma longa militfncia como ho-
mem de esquerda, tdcnico e pequeno empresirio. Mor-
reu no dia 9 do mes passado, aos 74 anos, deixando como
legado a coerencia da sua vida.