Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00356

Full Text




NOVEMBRO orna Pessoa
DE 2010AVIO PIN
A AGENDA AMAZ7NICA DE LLCIO FLAVIO PINTO


ELEI(jAO


A derrota anunciada

Os marqueteiros, cor seus egos inflados, duelam entire si atrds de culpados pela derrota
de Ana Jilia Carepa. Mas se hd um responsdvel pelo resultado desastroso da eleiC~ o
para o PT no Pard a pr6pria governadora. Ela encerra um ciclo que nem comerou.


S^na fogueira esta ardendo em
Bel6m muito antes da quadra
junina: 6 a fogueira das vaida-
des. Marqueteiros politicos trocam alfine-
tadas e espalham brasa ardente para o
lado de concorrentes e adversirios. Um
aponta o outro como responsAvel pela der-
rota da govemadora Ana Jilia Carepa,
Embora partam da mesma premissa, de
que o marketing 6 important, mas ndo
elege ningu6m, chegam a conclus6es di-
ferentes e contradit6rias, como se a mA-
gica, A maneira das bruxas, nas quais nao
se acredita, mas 6 melhor nao mexer com
elas, pudesse ter produzido no Pard o mi-
lagre desacreditado nos outros lugares.


Dezenove governadores tentaram a
reeleigao neste ano. Dez deles conse-
guiram esse objetivo jA no 1* turo, su-
perando a marca maior, de 9 reeleitos,
de 2006, desde que a pegonhenta ree-
leigdo foi introduzida na vida polftica
national pela constituiqCo federal de
1988. Dois dos governadores preferiram
apoiar candidates dos seus partidos e
venceram. Quatro foram derrotados ji
no 1 turno. E quatro perderam a reelei-
qdo no 2 turno, dentre os quais Ana Jdlia
era a inica governadora do PT, partido
que reelegeu os dois outros governado-
res da legend que disputaram a elei-
cao, no 10 tumo (Bahia e Sergipe). A


governadora do Pard foi a maior derro-
tada do PT em todo pafs. Terminou como
comegou: em meio a escindalos, As
vezes pequenos, mas simb6licos, e sem
conquistar a aprovagdo da maioria dos
habitantes do Estado.
Esse destiny estava contido no ele-
vado indice de rejeiiAo de Ana Jdlia, que
s6 obteve avaliaqao superior A de qua-
tro outros governadores, todos eles der-
rotados. Essa alta rejeigao resistiu a tra-
tamentos de choque aplicados As v6s-
peras das eleic6es de 1 e 2 turno pe-
los marqueteiros trazidos da Bahia. Mas
para a p6ssima avaliagqo deram sua
CONTiNA .Na 'PAG'S


I 1 RECR3 F II


~rn


7RI A A 3gIll


No 476
ANO XXIV
R$ 3,00


2D1







coMNMagNO DA cAp
contribuiaio os marqueteiros do Pard,
que serviram a administraio estadual
durante os tres anos anteriores.
HA muito tempo os govemadores
paraenses acham que podem compen-
sar suas deficiencias e insuficiencias
com propaganda massive, que tem como
alvo o eleitor, embora nem sempre de
forma direta. Tomou-se prAtica contu-
maz tentar convence-lo atrav6s da gran-
de imprensa, cujo apoio pendular depen-
de do peso das ofertas que Ihe sdo ofe-
recidas. Compra-se tudo. Menos, ain-
da, a realidade. O espelho continue a
mostrar a nudez do rei para quem qui-
ser ou puder ve-la.
Um dos elements da rejeigao foi
justamente o contrast entire a propa-
ganda official abundante e vazia de
conteddo e a realidade, que mant6m
o Pard no rabo da fila (e crescendo
como rabo de cavalo, para baixo) das
unidades federativas brasileiras. O go-
verno que cuida das pessoas, que faz o
Pard acelerar, que mudou o horizonte
do Estado, que tem comando fire, s6
existiu na ret6rica do discurso publicitA-
rio. Depois de ter sido embromado e
manipulado durante tres anos, o povo
perdeu a confianca no govemo do PT e
se tomou refratirio e impermeAvel as
suas promessas, at6 mesmo as obras
concretas que iniciou, a maioria delas
depois da und6cima hora.
Qualquer observador podia consta-
tar o fato, mesmo que nao dispusesse
das pesquisas qualitativas pelas quais os
partidos, os politicos e os empresbrios
se orientam. Nio precisava ser apren-
diz de feiticeiro, como se apresentam
determinados marqueteiros, embora
sem trajar os devidos paramentos. Qual-
quer um que representasse o oposto de
Ana Jdlia a derrotaria. N~o qualquer um:
"aquele um", como diz o caboco.
O predestinado havia de ser Simdo
Jatene, injustiqado em 2006, quando
era candidate natural do PSDB A re-
eleigao e foi atropelado pelo reserve
do time, o ex-governador Almir Ga-
briel, que ja se dizia recolhido a apo-
sentadoria nos metafisicos jardins de
orquideas da sua periclitante imagina-
C5o. O povo ligou o efeito reverse e
retornou a quatro anos atrAs para ten-
tar refazer a hist6ria, como se fosse
possivel. O enredo que se seguiu a
eleigao de 2006 o desagradou. Foram
quatro anos quase inteiramente per-
didos na hist6ria do Pard.


O previsivel naquela 6poca e diante
do context national e local que se
constituiria, era a vit6ria e nio a frago-
rosa derrota de Ana Jdlia, que, por cir-
cunstAncias, nao aconteceu j no 1 tur-
no. Ela erado partido do president mais
popular que a repdblica brasileirajd teve.
O Estado era um dos principals desti-
nos dos investimentos federais e empre-
sariais do pais.

i o forte Ana Jfilia se
apresentava em Bra-
9silia que dispensou a
renovagao da alianga com o
seu principal parceiro na vi-
t6ria de quatro anos atras,
o PMDB de Jader Barbalho.
Formou o maior arco de ali-
angas partidarias da federa-
gao, superior a do PT no
piano federal. Seus maiores ad-
versirios ou estavam isolados, como o
PMDB, ou cor uma coligagao frigil,
como o PSDB (acrescido do PPS e do
DEM, este depois da defenestragqo do
casal Pires Franco). Lula veio mais ao
Pard do que a Estados com col6gios
eleitorais maiores. Dilma, idem.
Dilma Rousseff teve 343 mil vo-
tos a mais do que a governadora no
2 turno. Observe-se que a vantage
imposta por Jatene a Ana Jdlia no 1
turno (12,87%) teve ligeira diminui-
q9o no 20 turno (11,48%), mas o mo-
vimento foi inverso na dispute presi-
dencial: Dilma subiu de 47,92% para
53,05%, mas a evolugdo de Serra foi
maior: de 37,7% para 48,35%, encur-
tando bastante a diferenca, que foi
muito menor do que no plano nacio-
nal. Mais um pouco de gestdo petis-
ta e talvez o tucano fosse o vitorioso
no Pard.
Um dado expressive 6 que a vo-
tagdo alcanqada pela candidate do PT
A presid8ncia da repdblica no Pard
foi inferior A m6dia que obteve no
pais (56,05%), enquanto a parte do
candidate do PSDB no Estado supe-
rou a sua votaCgo national (de
43,95%). Outro ndmero sugestivo 6
a exist8ncia de 9 mil votos brancos e
20 mil votos nulos a mais na dispute
governmental sobre a presidential,
o que indica que o eleitor teve inte-
resse ligeiramente maior por Dilma
e Serra do que por Jatene e Ana. Pu-
dera: nao sai da gangorra das lide-
rangas no Pard, que se alternam sem
larger a rapadura.


Esses ndmeros mostram que tudo foi
feito, at6 a bltima hora, para tentar le-
vantar a governadora, mas esse esfor-
qo acabou por prejudicar a campanha
presidential do PT, contaminada pela
rejeicqo a Ana Jdlia. Nem o carisma do
PT e a mdquina official conseguiram
enquadrd-la numa margem que permi-
tisse maior area de manobra pelo ma-
rketing politico. O que a govemadora
nao fez em tres anos, a maioria do povo
paraense nao acreditou que ela pudes-
se fazer na fraqco final do seu manda-
to. Tendo sido sempre uma eficiente
palanqueira, ela cometeu o erro fatal de
nao descer para a conduq~o eficiente
da administraqdo pdblica. Talvez por
nao saber como se conduzir na chefia
do executive. Nao lhe faltaram disposi-
9do e boa vontade. A escassez foi mes-
mo de virtudes pessoais.
Os indicios sdo de que a hist6ria tra-
tarA de apagar a mem6ria dos anos ru-
ins em que Ana Julia Carepa governor
o Para. Mas a pr6pria personagem pa-
rece bem distant de se convencer desse
vaticinio. Continue a acreditar, embala-
da pela maquilagem publicitAria, que sua
administraqo foi um divisor de aguas e
que algum quinhao lhe cabe da hip6rbo-
le presidential do "nunca antes".
A corte, Ana Jdlia tem manifesta-
do a esperanqa de que ainda venha a
ser realizada uma nova eleiqao para o
Senado e ela possa se apresentar
como candidate a voltar a ocupar um
lugar na camara alta. Se essa hip6te-
se vier a se concretizar, Paulo Rocha,
estarA impedido de participar da dis-
puta, fulminado pelo prazo da inelegi-
bilidade de oito anos, a contar da data
da sua rendncia, em 2005, para fugir
a process de cassagao na Camara
Federal, como um dos envolvidos no
escandalo do "mensaldo".
Desfeita essa hip6tese, pendente
do pronunciamento do Supremo Tri-
bunal Federal, Ana Jdlia teria a alter-
nativa da dispute pela prefeitura de
Bel6m, em 2012, nao sem antes pro-
curar abrigo em algum 6rgao federal
para se preservar do anonimato. A
ddvida que hoje se suscita 6 quanto
ao seu peso especifico no PT: ela con-
tinuarA a ser uma grande lideranga no
partido ou sera reduzida a comandar
uma das suas facq6es minoritArias, a
Democracia Socialista?
As parcelas petistas majoritArias
tem muitas queixas da governadora e
do seu s6quito. Aproveitarao a derro-


2 Jornal Pessoal NOVEMBRO DE 2010. la QUINZENA







ta para um ajuste de contas ou, a fal-
ta de opg6es, refario os compromis-
sos para sair das cinzas da fogueira e
voltar a brilhar na polftica paraense,
como uma brasa reavivada? Hd real-
mente essa possibilidade?
Mal esta eleigio foi encerrada, os
politicos ji tratam de preparar a nova,
que teri uma importancia particular:
o novo prefeito da capital estari no
cargo quando Bel6m completari 400
anos, em 2016. A coincid8ncia seri um
capital a sacar para permanecer na
hist6ria. Por isso, jd hi pr6-candida-
tos: o deputado federal eleito Amaldo
Jordy, o deputado estadual eleito Ed-
milson Rodrigues, o quase-secretario
Paulo Chaves e alguns outros menos
explicitos.
Mas com que roupa se apresenta-
rio os novos candidates? Esta 6 outra
questdo. Como a derrota de Ana Jdlia
ji estava espelhada nas estrelas (bas-
taria ouvi-las, como fez o poeta Olavo
Bilac), o governador eleito Simio Jate-
ne nao se armou de um verdadeiro pro-
grama. Limitou-se a enfileirar obras ff-
sicas, desdobramentos de iniciativas em
curso, ressurreiqio das que foram dei-
xadas para trAs e outras quinquilharias,
sempre onerosas aos cofres pdblicos e
de limitados efeitos sociais.
Jatene retomard um Pard que mu-
dou pouco em relagio ao Estado cujo
comando ele mesmo transmitiu. Talvez
um tanto piorado, mas seguindo na mes-
ma bitola do descompasso entire o que
poderia ter e ser e o que 6 e tem.
Um rico pobre. Rico de recursos. Po-
bre de liderangas.



Final

Assim como Alacid Nunes, que dor-
miu deputado federal e amanheceu su-
plente, derrotado pelo novato Vic Pires
Franco, o deputado Gerson Peres che-
gou ao fim de uma longuissima carreira
polftica de 50 anos sob o cutelo dos ne-
6fitos do PT. O politico cametaense nao
fez justiga a sua proverbial perspicAcia
ao colocar o seu PP a servigo de um
partido que nenhuma identidade tinha
com ele. As proximidades dos 80 anos,
nio voltard A Camara Federal, onde es-
teve durante 27 anos, em seis legislatu-
ras. Nio 6 o final que sua biografia in-
dicava, mas esta coerente com suas de-
cis6es mais recentes.


Irracionalidade e a destruigao


Conheci Sao F6lix do Xingu em
1976. Fiquei hospedado numa pensao
na sede municipal, que nao tinha hotel.
Dividia o quarto com tres pessoas. To-
das usavam redes. Um dos homes,
sem se mexer, cuspia para o alto duran-
te a noite. Eu acordava enojado pelo
barulho. Mas que jeito? Nao havia para
onde ir na cidade. Melhorou quando fi-
zemos uma longa excursdo de "voadei-
ra" pelo rio Fresco, a partir do igarap6
CarapanW at6 suas nascentes, na divisa
do Pari com Mato Grosso. Foi uma das
minhas melhores viagens. O lugar era
pouco menos do que um paraiso.
Voltei a Bel6m
ainda mais convic-
to da minha posi-
gdo, contrdria A
continuagqo da
PA-279, que liga- -
ria Xinguara a So --
F61ix. Ela levaria o
caos do Araguaia
ao Xingu, impedin-
do uma forma
mais inteligente de
uso da terra. Gra-
gas ao debate que
se suscitou, as
obras ficaram pa-
radas por algum
tempo. Mas logo
as mdquinas volta-
ram A ativa e a estrada foi rasgada. A
irracionalidade, que tanto mal causou
ao Araguaia/Tocantins, fez pousada no
Xingu. Sua principal atividade econO-
mica, a pecuaria, era impensavel tres
d6cadas atrAs. Parece que andamos
para trds.
No auge do verao deste ano, em
agosto, 30% dos quase 65 mil focos de
calor registrados pelo sat6lite do Siste-
ma de Detecqio de Desmatamento em
Tempo Real (Deter), do Inpe (Instituto
National de Pesquisas Espaciais), es-
tavam localizados em Sao F61ix. Quase
16 mil hectares de floresta densa fo-
ram postos abaixo e em seu lugar plan-
tado capim para os bois pastarem os
animals irracionais e seus donos, a eles
equivalentes. S6 um ser irracional pode
ainda achar que trocar floresta por pas-
tagens 6 lucrative ou mesmo natural.
As imagens do sat6lite revelaram
que de agosto de 2009 a agosto de 2010
foram destruidos 16 mil hectares de flo-


restas primirias em Sao F61ix do Xin-
gu, grande parte delas substituidas por
pastagens. Em 15 dias, entire 21 de ou-
tubro e 5 de novembro, t6cnicos do
Ibama constataram que 1,9 mil hecta-
res de florestas nativas foram derru-
bados com a mesma finalidade. Os
transgressores foram multados em 12,3
milh6es de reais.
Numa outra drea, de 590 hectares,
o crime ambiental caracterizado foi a
queima de lavouras e pastagens para a
realizagao de novos plantios. Quase um
quarto dos fazendeiros estabelecidos na
regido toca fogo na mata que sobrevive
ao desmatamento
ou nas rocas e pas-
tos degradados. A
multa para esses
casos foi de R$ 66
milh6es.
Observa-se que
a multa para a der-
rubada da floresta
original foi de R$
6,5 mil por cada
S hectare desmata-
.4 do. Para as lavou-
ras ou pastagens
queimadas, a san-
gao foi de R$ 1,13
milh2o. A razao, a
vista do "modelo"
(nada modelar) de
ocupago daAmaz6nia, 6 evidence: pas-
tos e lavouras sgo benfeitorias, com
maior valor agregado. JA a floresta, ge-
rada atrav6s de process natural, nao
tem incorporagao de valor, que s6 6
conferido pelo home.
Por isso, a punigAo a quem a destr6i
6 mais branda (admitindo-se que as
multas venham um dia a ser pagas).
Inversdo total de valores, 6 claro, mas
de acordo com a irracionalidade que
preside os atos humans na dltima gran-
de fronteira da Terra. Apesar de todas
as campanhas de conscientizaqgo e das
medidas de repressdo e punigCo, ainda
parece muito distant de ser alcancado
um objetivo primArio, que instauraria a
civilizado humana na Amaz6nia: a abo-
ligdo do fogo como ferramenta para o
trato da terra. Esse conhecimento, uni-
versalizado no meio t6cnico, nio con-
segue passar dos gabinetes e laborat6-
rios para as priticas usuais.
Delenda Amaz6nia.


NOVEMBRO DE 2010 1' QUINZENA Journal Pessoal 8








Destruigao dos rios: ameaga 6 crescente


Desde as primeiras letras aprende-
mos que a bacia do rio Amazonas 6 a
maior do mundo. Ningu6m nunca duvi-
dou que ele era o mais caudaloso do pla-
neta, mas se questionava essa primazia
quanto ao seu comprimento. Hoje a con-
trov6rsia estA esclarecida: com 6.937
quil6metros de extensio, o Amazonas
supera em 140 quil6metros o Nilo, que
perdeu essa lideranga multissecular.
Qualquer ndmero em relago ao "rio-
mar" (ou o "mar doce" dos espanh6is,
os primeiros europeus a navegA-lo) 6
grandiose. Ele langa, em m6dia, 170 mi-
lh6es de litros de agua por segundo no
Oceano Atlantico. Suas Aguas barrentas
podem avancar 100 quil6metros al6m da
barreira de Aguas salgadas e projetar
seus sedimentos em suspensdo no rumo
norte, at6 o litoral da Fl6rida, nos Esta-
dos Unidos. Sao milh6es de toneladas de
nutrients, arrastados desde a cordilhei-
ra dos Andes, onde nasce o grande rio, e
engrossados por seus afluentes, que tam-
b6m se posicionam entire os maiores cur-
sos d'Agua que existem.
Essas grandezas t8m servido de ins-
pirado para o ufanismo national, mas
nao para tratar melhor os nossos gigan-
tes aquiticos. Nenhum brasileiro ou
mesmo o native da ao Amazonas a
importancia que os egfpcios conferem
ao Nilo. O Egito nao existiria sem a fa-
ina incansdvel do seu grande rio, a fer-
tilizar suas margens, cercadas por de-
sertos hostis, e civilizar o pais. Por isso,
6 considerado sagrado.
Os brasileiros parecem acreditar
que, por ser monumental, abrangendo 7
milh6es de quil6metros quadrados do
continent sul-americano (quase dois
tergos em territ6rio brasileiro), a bacia
amazOnica foi blindada pela mae natu-
reza contra as hostilidades do home.
Ja esta na hora de se p6r fim a essa
ilusao, acabando corn a insensibilidade
geral, que se alimenta do desconheci-
mento e da desinformagio. O Amazo-
nas esta sob ameaga.
NZo uma, mas vdrias. Um dos capi-
tulos mais recentes esta sendo travado
diante da maior cidade da Amaz6nia,
Manaus, a capital do Estado do Ama-
zonas, cor seus 1,7 milhao de habitan-
tes (2 milh6es com as duas cidades vi-
zinhas). No dia 5, o Iphan (Instituto do
Patrim6nio Hist6rico e Artistico Nacio-
nal) decretou o tombamento do encon-


tro das Aguas do Amazonas com o Ne-
gro, um dos seus principals tributirios
da margem esquerda.
O desavisado pode at6 achar que o
ato 6 de significado museol6gico, para
efeito academico. O process do tom-
bamento, por6m, se arrastou durante
dois anos. Deveria ser simples: a area
de 30 quil6metros quadrados, o poligo-
no de terra e agua onde ocorre ajungao
dos dois enormes rios, 6 cenArio para o
maior de todos se encontrar com o maior
rio de Aguas negras do mundo. Na mar-
gem direita, o barrento Solim6es pressi-
ona o rio ao lado, que ganhou seu nome
pela inusitada cor das suas Aguas, num
entrevero que pode se estender por 10
quilometros lineares nas duas direcqes.

um encontro eiel6pi-
co. A vazAo do Soli
m6es nesse ponto
(onde justamente muda
pela ultima vez de nome,
passando a ser Amazonas)
6 de 135 milh6es de litros
de agua por segundo. A do
Negro, que chega ao fim do seu per-
curso de 1.700 quil8metros, a partir da
Venezuela, 6 de 50 milh6es de litros.
Encorpado, o Amazonas segue em fren-
te at6 a foz, dois mil quil6metros abai-
xo. Ndo sem antes oferecer o espeti-
culo das duas cores liquidas em parale-
lo ou em fusio tumultuada, para a ad-
miragqo ou o espanto de uma crescen-
te legido de turistas.
O problema 6 que no ponto de en-
contro dos rios estA Manaus, com 60%
da populacgo e 90% da riqueza de todo
Estado do Amazonas, o maior do Bra-
sil, com 20% do territ6rio national. Des-
de quase meio s6culo atrAs, Manaus
deixou de ser o produto do Amazonas
para ser o efeito da Zona Franca, um
entreposto commercial e um nicleo indus-
trial que s6 se tornaram possiveis pela
rendncia da Unido a recolher o imposto
sobre a importag~o das empresas ins-
taladas na remota paragem.
Hoje, Manaus 6 a origem do maior
fluxo de conteineres do pais. Motoci-
cletas, computadores, geladeiras e mui-
tos outros produtos sdo mandados para
o sul do pais, principalmente Sao Paulo,
e espalhados para outros destinos. O
velho porto flutuante, que os ingleses
construfram no inicio do s6culo XX para


tender a exportag~o de borracha (que
chegou a ser responsive por 40% do
com6rcio exterior brasileiro), nao serve
para essa demand nova.
A pressed 6 tdo forte que alguns ter-
minais privados, legais ou nao, surgiram
na orla da cidade. 0 maior deles, o Porto
Chibatao, foi parcialmente arrastado, no
mes passado, pelas Aguas do Negro, a
apenas tres quil6metros do seu encon-
tro cor o Amazonas, com mortes e a
perda de diversos conteineres. Qualquer
ribeirinho sabia que o local era contra-
indicado para o fluxo de carga que o
precario terminal movimentava.
Um novo, muito maior e mais adequa-
do, estA sendo projetado para uma area
de 100 mil metros quadrados, na qual po-
derdo ser estocados 250 mil conteineres.
Antes desse mega-terminal, por6m, uma
subsidiiria da mineradora Vale (o nome
privatizado da Companhia Vale do Rio
Doce, quando estatal) comecou a cons-
truir seu pr6prio porto, cor investimento
de 220 milh6es de reais. Nele deveri ope-
rar seu novo navio cargueiro, com capa-
cidade para 1.500 conteineres, e outros
cinco ji encomendados, por algo como
meio bilhdo de reais, multiplicando sua
capacidade de transport.
Esses numeros pareciam muito mais
importantes do que a localizagdo do
porto, na provincia paleontol6gica das
Lages, pr6ximo de uma tomada de Agua
para 300 mil habitantes da cidade e de
um lago, o dltimo do rio Negro, impor-
tante para milhares de moradores de um
bairro que se formou em torno dele.
O process que levou ao desmoro-
namento do Porto Chibatao seguiria sua
16gica malsd se nao tivesse surgido a
iniciativa de tombar o encontro das
Aguas. Ningu6m se aventura a dizer-se
contra o tombamento, mas ele provo-
cou uma batalha judicial que chegou a
Brasilia, com vit6rias e derrotas, prote-
laq6es e presses, at6 que, no dia 5, fi-
nalmente o Iphan assumiu a tutela so-
bre o encontro das Aguas.
Qualquer novo projeto que a partir
de agora se fixe na area do poligono
terA de ser submetido ao institute, al6m
de obter a licenqa ambiental. Certamen-
te haverA quem se indigne com o fato:
o raciocinio automitico 6 de que a ra-
zdo (ou anti-razdo) econ8mica prevale-
9a sobre qualquer outro tipo de consi-
po~p-100


4 Jornal Pessoal NOVEMBRO DE 2010. 1 QUINZENA










Para escapar a condiq~o colonial
que Ihe imprem, o habitante da Amaz6-
nia tem que se esforgar ao maximo para
aproximar dois tempos: o da conscian-
cia e o da realidade. Como as decis6es
fundamentals, aquelas que mudam para
valer a trajet6ria dos fatos, sao toma-
das de fora para dentro, corn base em
interesses complexes e profundos, ter
ci8ncia imediata dos acontecimentos 6
indispensivel. S6 assim o povo local
pode ter participagio ativa no enredo.
Raros povos coloniais conquistaram
esse poder. Mas s6 ele nio 6 suficiente:
6 necessArio se antecipar aos fatos para
que tenha um efeito favoravel a n6s. Isso
6 quase impossivel aqui, como foi impos-
sivel em muitos pauses da Africa e da
Asia sujeitos ao colonizador, ao bwana,
mais "esperto", mais poderoso.
Temos, hoje, uma arma que faltou
as nacqes coloniais do passado: a pos-
sibilidade de acesso As informaq6es mais
protegidas, mais escondidas e sonega-
das, poderosas armas de preservagao
do poder estabelecido. Para obt8-las,
por6m, 6 precise travar uma guerra pe-
sada. Esse combat exige aten9go per-
manente, busca incessante, capacida-
de de captar, analisar e interpreter os
dados obtidos. Al6m de condicao de
transformi-los em ferramentas para a
aCo por parte dos que, nesses grandes
acontecimentos, sao tomados como es-
pectadores ou paisagem.
Este journal existe porque persegue
com a tenacidade possivel essa meta:
preencher a agenda dos seus leitores
com as informac6es que Ihes permitam
ser contemporfneos da pr6pria hist6ria.



coNCLvuSAo mA PAG 4

deraqgo e sempre com vantagens
para o inyestidor.
A decisdo do Iphan, que ainda vai
sofrer questionamento judicial, nio blo-
queia a evolugdo dos empreendimentos
produtivos na regiao, mas talvez ajude o
pais a se dar conta de que destruindo os
recursos naturais, em especial aqueles
que representam uma grandeza inica, 6
a AmazOnia que estao destruindo. Subs-
tituem a galinha dos ovos de ouro por
um cavalo de Tr6ia. Na mitologia ou na
realidade, sabemos qual seri o desfecho.


Condigao colonial

t dos efeitos mais perversos e tam-
b6m mais eficazes do colonialismo
fazer o colonizado pensar pela cabega
do colonizador, fazendo-lhe sua vonta-
de e colocando-o a merc8 dos seus jo-
gos de interesses. Sem as informag6es
adequadas, o colonizado 6 como o bur-
ro diante da cathedral. Esta no centro da
hist6ria, mas nao tem a sua dimensio.
Pensa que tudo 6 corriqueiro e rotinei-
ro, como se a roda dos fatos o dispen-
sasse para se mover.
Nao 6 mais assim, mas pode continu-
ar a ser exatamente assim se os coloni-
zados se submeterem a essa 16gica des-
truidora, renunciando A faculdade que os
tempos atuais Ihes permitem de ser real-
mente contemporfneos da hist6ria em
mutaqAo naAmazOnia. Pode ser que nao
se consiga inudar o tragado da realidade
ao maximo necessario, mas esta ao nos-
so alcance mudd-lo substancialmente.
Ter as informa6es 6 indispensivel para
adquirir essa condigdo de consci8ncia.
Segue por in6rcia.

E m alguns moments
este journal consegue
star atualizado ao que de
mais recent acontece na
Amaz6nia, quando os fatos ainda
nao estdo consumados, In8s estA viva e
o leite nio foi derramado. Se outro m6-
rito nao tivesse, o JP teria ao menos
um: procurar uma posig~o de vanguar-
da, lidando com fatos ainda em progres-
so ou mesmo embrionArios. E um jogo
arriscado, que pode destruir reputaq6es.
As vezes percebe-se o novo como
se fosse a luz de um relampago, intense
e rdpida, um clarao de lucidez que pode
se desfazer de modo tao imediato quanto
surgiu. Nem sempre se estA habilitado
a delinear o perfil daquele raio que cor-
tou o c6u. Erros ji foram cometidos por
este journal no esforqo de registrar ou
entender fatos que ainda nao foram
mediados pelo saber acumulado local-
mente e sobre os quais ningu6m se pro-
nunciou na arena pdblica (e ha cada vez
menos pessoas dispostas a se pronun-
ciar). Mas, como diz o povo, quem nao
arrisca nao petisca. Quando nao ha sa-
ida, deve-se insistir no ensaio e erro.
0 jomalista americano Lany Rohter,
durante varios anos correspondent do
New York limes no Brasil, registrou no
seu livro sobre a saga brasileira (Deu no


New York limes) que este jomal foi o
primeiro a detectar a importincia da pe-
netraqio chinesa naAmaz6nia, em 2001.
Nove anos depois, na ediqAo anterior, aqui
se mostrou a extensao desse avanqo.
Imaginava-se que a manchete, destacan-
do Carajas como sendo uma possessao
mineral da China, pudesse atrair a aten-
9do da opiniao pdblica e provocar reper-
cussao e reaqAo. Para desinimo nosso,
seguiu-se o silencio, caracteristico da im-
potencia criativa dos colonizados.
Enquanto dormimos no ponto, a Chi-
na (como o legendario Jorge Age na
Bel6m de antes) age. Ela montou uma
estrat6gia que lhe garante o fluxo de
matdrias primas de que precisa e das
quais nao tem auto-sufici8ncia, a prego
favorAvel. Quando o suprimento encon-
tra obstAculo e nao consegue remov8-
lo, instala-se no ponto de origem. Pode
ser como simples extratora de recursos
naturais, mas tamb6m como beneficia-
dora. E quando 6 sua a commodity,
manobra para elevar-lhe o prego ou
obriga o importador a transferir seu cen-
tro de industrializagqo para a pr6pria
China, como estd ocorrendo no momen-
to com as estrat6gicas terras raras (17
metals inicos, de enorme valor no mer-
cado e vitais para certas inddstrias,
como a b6lica e de informatica). A Chi-
na possui 97% das reserves e absorve
60% da produgao mundial. Carajas nao
chega a tanto. Mas 6 quase tanto. Tal-
vez, em funcgo de seu volume, mais.
Apesar da indiferenga, volta-se a
insistir no tema. Ainda hi capitulos a
escrever antes do desfecho da hist6ria.
Tentemos aproveitar.


Mem6ria
O Grupo Lider lembrou, com andn-
cio fdnebre e missa, o 20 ano do faleci-
mento "do nosso advogado" Jos6 Fran-
cisco Vieira, assassinado com tres ti-
ros, aos 47 anos. Ele era genro de Os-
car Rodrigues, o comandante da rede
de supermercados, a quem era muito
ligado. Dois anos depois do crime, a
divida que persiste 6 a de saber se so-
brou algum integrante do bando que in-
vadiu a residencia de Vieira e o matou
quando ele resistiu ao assalto. Dois ou
tres deles foram mortos na cagada que
se seguiu ao traumAtico epis6dio. Ou-
tros acabam condenados.


NOVEMBRO DE 2010 1' QUINZENA Jornal Pessoal 5








O guardiao da Amaz6nia


"Jose Mdrcio Ayres, Guardido da AmazOnia" (EdiFdo
da Autora, Sdo Paulo, 144 pdginas) d um livro raro.
Bonito como produto grdfico, sua rica iconografia
mostra o personagem em atividade, ora pesquisando,
ora fotografando. Suas fotos sdo lindas e os fotos que
fizeram dele, no meio de pessoas e macacos, selvas e
cidades, emocionantes. 0 texto, da jornalista e
historiadora Rose Silveira, conduz o leitor pela
trajetdria movimentada do bidlogo paraense Jose
Mdrcio, desde seus estudos iniciais sobre primatas ate
desembocar numa nova visdo da convivencia do
home cor a natureza na AmazOnia.


A um trabalho sentimental e rigoroso, na media do
biografado, home cheio de sentiments e exigente no
seu oficio. Um dos herdis da AmazOnia dos nossos
dias, cor seus dias encurtados pela selvageria da
doenga que o atacou, sem ihe dar a possibilidade de
vit6ria. Jose Mdrcio perdeu a batalha pela vida, mas
seu pai, o mddico Manuel Ayres, e sua prima, Ana Rita
Alves, devolveram-lhe os trunfos e o reconhecimento
pdblico com este livro. Para ser lido e guardado na
estate e no coraCao.
Como parte da homenagem a Jose Mdrcio, reproduzo o
prefdcio que escrevi para o livro.


Oprimeiro dos "grandes proje-
tos", de um ciclo que mudou
em profundidade e em definiti-
vo a feigqo da Amaz6nia, mantida em
seus traqos bAsicos at6 entao, entrou em
operaqAo em Oriximind, no extreme oeste
do ParA, em 1979. Nesse ano comecou
ali a extragqo de bauxita pela Minera-
gio Rio do Norte, empresa formada pela
entao estatal Companhia Vale do Rio
Doce em sociedade com um grupo de
multinacionais do cartel do aluminio.
Para que a MRN, hoje uma das maiores
produtoras mundiais; se estabelecesse
com suas minas enormes, foi criada uma
reserve biol6gica do outro lado do rio
Trombetas, onde a mineradora instalou
seu terminal portudrio. Era a contrafa-
cqo aos danos ambientais que a compa-
nhia praticaria, como quase destruir o
belo lago Batata com os rejeitos de bau-
xita e langar no espago o p6 vermelho
da secagem do min6rio.
A reserve protegeria a tartaruga, que
integrava entao uma lista de animals ame-
agados de extingo naAmaz6nia. O IBDF
(atual Ibama) manteria fiscalizago per-
manente sobre as praias nas quais o ani-
mal procriava, enquanto estimularia a subs-
tituiqao da pesca indiscriminada e preda-
t6ria pela criaqio racional. Manteria os
hibitos de consume da popula~io sem por
em risco a esp6cie. Para que o empreen-
dimento fosse aprovado, por6m, Brasilia
exigiu que todas as pessoas que moras-
sem no interior da reserve fossem rema-
nejadas. Nio importava que o local fosse
habitado hA dezenas de anos (mais de um
s6culo) por descendentes dos escravos
negros, fugidos do cativeiro para former
os seus quilombos. Nem que eles, mes-
mo pescando tartarugas para vender ou
comer, estivessem perfeitamente integra-
dos ao ambiente. O radicalismo era total,
a pureza ecol6gica absolute. Ou era para


afastar qualquer forqa de resistencia e
contrast ao "grande projeto" que se
estabelecia na region?
A manutencgo dos quilombolas exigiu
uma luta de vfrios anos e a demonstra-
cqo de que sua presenqa era compativel
com a unidade de conservagdo. Mesmo
assim, os danos jd haviam sido causados
e certo desvio cientificista se consolidara;
de que a natureza s6 seria mantida, em
sua exuberincia original, se o home fos-
se colocado a distfncia. Um purismo es-
colistico que causa ainda prejufzos aos
esforgos para harmonizar a presenga hu-
mana nos dominios da natureza.
Jos6 Marcio Ayres, o personagem
deste livro, se consolidou como um dos
mais importantes cientistas ji nascidos
no Para (e na AmazOnia) sem nunca pa-
decer desse mal. Ele parecia seguir a car-
reira conventional do pesquisador que se
dedica obsessivamente a um tema e o
aprofunda a minud8ncias rococ6s, desli-
gando-se do mundo em volta. Ele, pelo
contrario, sempre esteve com os olhos
abertos para tudo que tivesse vida ao seu
redor, sobretudo para os outros huma-
nos. Sua vocagao para a observaao, o
estudo, a pesquisa e, sobretudo, a pes-
quisa de campo se manifestaram logo
cedo como vocago, fecundada no dte-
ro de uma familiar de inteligencias privi-
legiadas e alta sensibilidade humana.
Nele, esse acervo familiar se multiplicou
e se adensou de tal forma que, ao con-
centrar o foco do seu interesse acad8-
mico numa esp6cie de primata, depois
de ter lidado cor vdrios tipos de maca-
cos, ele descobriu que podia favorecer o
animal e o home. A ambos cederia o
conhecimento elaborado e refinado que
acumulou em alguns dos principals cen-
tros de formaqdo cientffica, numa parti-
lha natural e fratema, com um objetivo
inico: manter a rica diversidade de vida


daAmaz6nia, com seus cinco milh6es de
series vivos (20% do total que existe so-
bre a Terra), incluindo a esplcie mais com-
plexa dessa rede, o home, que nio se-
ria nunca mandado embora.
Marcio serviu de exemplo para outros
pesquisadores que chegaram a Mamiraud,
no Amazonas, com residues (ou pedagos
inteiros) de arrogincia, que costuma mar-
car aqueles que sabem mais ou tem mais
titulos (nem sempre as duas coisas an-
dam juntas). Ele ensinou muito, mas
aprendeu ainda mais no contato com os
nativos, cujo conhecimento resultou nao
de centros urbanos de saber ou de alguns
anos de aprendizado e observagio, mas
de d6cadas e d6cadas de existencia, de
geraqGes e geraq6es passadas. Com seu
jeito simples, vivo e solidario, Marcio con-
seguiu a dificil confianca dessa gente iso-
lada- e geralmente maltratada. Mais ain-
da: demonstrou-lhes que a existencia de
uma unidade de conservagao em seu re-
duto nao os inibiria nem provocaria mal-
dades, como aquela que sofreram os qui-
lombolas do Trombetas. Eles ganhariam
se juntassem suas priticas empiricas as
observa6es e sugest6es dos cientistas.
Ganhariam mais, inclusive, em dinheiro e
na ampliano do principal dos estoques
de recursos naturals que Ihes garante a
existencia, o peixe.
A hist6ria da criaco das duas unida-
des de conservagdo, Mamiraud e Anamd,
com 3,4 milh6es de hectares, gestadas no
corpo do governor federal e nascidas na
administraao estadual amazonense, esta
contada neste livro. E uma hist6ria mode-
lar, exemplar, inspiradora. Com paci8ncia
e jeito, mas tamb6m com a determinaqao
daqueles que sabem o que fazem (e o bem
que fazem), Jos6Mrcio criou o maior- e,
a rigor, o tnico corridor ecol6gico ama-
z6nico em Mamirau, que se tomou o me-


6 Jornal Pessoal NOVEMBRO DE 2010 1 QUINZENA








0 record falso de 0 Liberal


A edicao de aniversirio de O Libe-
ral circulou no domingo, 14, um dia an-
tes de ojomal completar 64 anos de exis-
t6ncia, 44 dos quais sob o comando da
famflia Maiorana. O Rep6rter 70, a prin-
cipal coluna do jomal, considerou a "ti-
ragem" dessa edigco "um marco na his-
t6ria da imprensa brasileira", por con-
ter 410 piginas em 23 cademos.
"Menas" verdade. Em primeiro lu-
gar, nao se trata de tiragem, que 6 a
quantidade de exemplares impresses,
mas do ndmero de piginas. Impressio-
na a confusao em relagao a detalhe tio
primdrio entire profissionais da impren-
sa. Quanto A tiragem, ha muito O Libe-
ral nao a informa aos seus leitores. O
silencio comegou quando ojomal fugiu
do IVC (Instituto Verificador de Circu-
lagdo), porter fraudado os numeros que
apresentava sob juramento. A circula-
9o real era, na melhor das hip6teses,
100% inferior ao declarado, inclusive na
publicidade veiculada pela empresa.
Ao contrArio do que proclamou o R-
70, a edicao dos 64 anos nao foi recorde
no Norte, Nordeste e no Pais". Ela nao
tem410 pginas, mas 20% menos, ou 344
paginas. Mais uma vez, ojoral dos Mai-
orana mentiu aos seus leitores, ao com-
putar como paginas convencionais, de for-
mato padrao, os suplementos encartados,
que tem format tabl6ide (metade do ta-
manho das piginas convencionais).
Feita a conversao dos cinco cader-
nos em format menor (Troppo, Mulher,
C & D, Revista da TV e Liberalzinho),
as 368 piginas arroladas pelo jomal se
transformam em 332, o que seria a "tira-
gem" correta. E como O Liberal decla-
ra 410 paginas? Porque incluiu na sua
aritm6tica migica as 24 piginas da Re-


vista Lider, um encarte commercial. Como
o cademo tem o format tabl6ide, a con-
ta fica em 344 paginas, incluindo as 12
piginas standards. Cor a ressalva de
que o procedimento correto 6 nao com-
putar encarte commercial, por nao ser de
responsabilidade editorial dojornal.
Mas ainda que a edicao contivesse
410 piginas, nao seria o alegado "recor-
de no Norte, Nordeste e no Pais". Se os
Maioranas da segunda geraqo se de-
rem ao trabalho de consultar no arquivo
as edig6es de aniversario das d6cadas
de 70 e 80 do pr6prio jomal, verificarao
que, sob o comando do pai, 0 Liberal j
circulou mais macudo do que neste ano.
E sem alquimias bobas, como tomar por
pigina inteira o que 6 meia pagina e dar
como seu o que 6 encarte de terceiros.
Em que fonte os Maioranas se ba-
searam para dizer que a edigao dos 64
anos bateu record national? Com tal
declara~io passaram para o perigoso
terreno da galhofa. Nas d6cadas de 60
e 70, O Estado de S. Paulo ia as ruas
com mais de 300 paginas s6 de classifi-
cados. Ficou famosa a aparicao na te-
levisao, em 1961, do entao president
Janio Quadros. Ele exibiu uma enorme
ediq~o dominical do Estaddo para jus-
tificar a instrugqo 204 da Sumoc, que
acabou com o subsidio estatal a impor-
tag~o de papel de imprensa (e ao enri-
quecimento da plutocracia paulista, di-
zia o home da vassoura, com a qual
limparia a corrmpqo national, mas que
utilizou para fugir depois da sua desas-
trada tentative de golpe branco).
O grupo Liberal perdeu por complete
os parnimetros da realidade e da respon-
sabilidade editorial. Diz o que quer, como
se sua vontade tivesse o condo de fa-


zer a hist6ria a revelia dos fatos, da ver-
dade. A capa do jomal continue a circu-
lar corn a numeraao falsa, que os Mai-
oranas, alertados diversas vezes, se re-
cusam a corrigir, embora a fraude seja
grotesca. Como podem querer ter credi-
bilidade se nao se inibem em falsear quan-
do a mentira serve aos seus prop6sitos?
Perderam at6 o senso das medidas.
Um leitor menos desavisado que con-
frontasse a "recordista" ediqgo de O Li-
beral dos 64 anos com a edicao normal
do Didrio do Pard do mesmo domingo
verificaria que, aceita a contagem infla-
cionada dos dois jornais, o dos Barba-
lhos teria 224 piginas, mais da metade
da volumetria aniversariante do concor-
rente (numa contagem exata, apenas 166
piginas, ji que o Didrio possui mais en-
cartes do que O Liberal).
Para ajustar o tom operistico da im-
prensa local, sugiro aos estudantes dos
cursos de comunicacgo social um levan-
tamento rigoroso sobre as ediq6es co-
memorativas de aniversario dos dois mai-
ores jomais locais. A pesquisa devia co-
megar em 1983, quando comeqou a dis-
puta,. O resultado devia ser enviado para
a redagao de O Liberal. Pelo menos
para checar o que diz o editorial come-
morativo, garantindo que ojomal "esco-
lheu fazer da informacqo a mat6ria pri-
ma essencial e insubstituivel para fazer
do jomalismo a voz que nao apenas re-
gistra os fatos, mas os interpreta".
Se publicar a integra da pesquisa, O
Liberal estimulard os futures joralis-
tas a fazer outra investigagCo para ten-
tar encontrar, na secgo de cartas dos
leitores, ao menos uma com critics ao
jomal. Se tiverem sucesso na busca, af,
sim, seri caso de record verdadeiro.


lhor local para viver para aqueles que jA l
viviam. Nao se trata apenas de um titulo,
de um experiment ou de uma utopia: 6
um centro de vida que difere das frentes
pioneiras abertas naAmaz6niapara saque-
ar a Amaz6nia, enclaves de um bem que,
transformado em mercadoria, 6 langado
al6m-mar, deixando aqui apenas as sobras
do banquet.
Na Amaz6nia Central MArcio langou
sementes t1o boas que elas continuaram
a germinar enquanto ele padecia as dores
do cancer, durante uma enfermidade de


dois anos que o manteve distant da sua
base fisica, e nao foram interrompidas por
sua morte, em 2003, aos 49 anos de ida-
de. MamirauA continuou a crescer, a ven-
cer desafios, a avangar na escritura de
uma hist6ria mais favordvel A harmonia
entire home e natureza, sem a qual a
devastagao colonial, que se expand fe-
roz, nao pararA de transferir para fora o
melhor da riqueza explorada (e dissipada
para sempre). MArcio deixou uma novi-
dade benfazeja para todos aqueles que
acreditam que ha lugar para o home na


Amaz6nia, desde que ele descubra (usan-
do ci8ncia de ponta, inclusive estrangeira,
sem medo ou preconceito, e o empirismo
native, sem egocentrismo e arrogancia) o
que Ihe cabe fazer nesse lugar para nio
fazh-lo desaparecer, dessa maneira elimi-
nando a fonte da riqueza.
Mais do que um guardiao da Amaz6-
nia, Jos6 MArcio Ayres foi um patrono da
Amaz6nia que, ao inv6s de humilhar e en-
vergonhar a civilizagio, Ihe d8 o valor de
bem do planet com marca brasileira dig-
na e boa, como foi este grande amaz6nida.


NOVEMBRO DE 2010 1" QUINZENA Jornal Pessoal 7


-dL~IPiO~Uite~l I i' --~-UC-Y-I







AVIOES
A partir de 1 de abril de 1947 os v6os
da Pan American (World Airways) sa-
idos de Nova York deixaram de per-
noitar em Bel6m, como vinham fazen-
do, na rota para a entAo capital da re-
piblica, o Rio de Janeiro. Apenas os
avi6es cargueiros continuariam a fa-
zer a escala. Bel6m passaria a ter liga-
gqo para o sul e o norte do pais atrav6s
dos DC-4 da PanAm. Ja a Panair do
Brasil, filial brasileira da gigante da
aviaAo americana (que depois se na-
cionalizaria), faria seus voos com um
avido menor, o famoso DC-3.
Mudanqas que tinham como causa o
fim da Segunda Guerra Mundial e a me-
nor presenqa americana na capital pa-
raense, que fora uma das suas princi-
pais bases militares no Brasil.


CERVEJARIA
Em 1947 a Cervejaria Brahma comprou o acervo da Companhia
de Cerveja Paraense, a primeira instalada no Estado, ji entao inati-
va e com seu patrim6nio assumido pelo governor. A transag~o de-
morou a ser consumada. Primeiro por causa do prego: a adminis-
traqao do coronel Moura Carvalho successorr de Magalhles Bara-
ta) queria 1,7 milhao de cruzeiros, mas a empresa paulista s6 queria
pagar 1,6 milhlo. O acerto quanto ao prego foi possivel porque o
governor ficou com todo maquindrio, avaliado em 300 mil cruzeiros,
e o comprador com o grande terreno, na atual avenida Magalhles
Barata, entire Alcindo Cacela e 14 de Marco (onde estA o Jardim
Independ8ncia).
Na verdade, por6m, o maior impasse era quanto a exigencia feita
pelo govemo para que a Brahma instalasse uma nova fibrica de
cerveja dentro de determinado prazo, mas a lider do mercado naci-
onal tinha outros plans. Por fim, o governor aceitou ndo estabelecer
prazo e a cervejaria se comprometeu a pensar no projeto para mais
adiante. Adiante que nunca chegou. Depois da pioneira, veio a Cer-
pa e, mais recentemente, a Schincariol, para tender a sede de cer-
veja do paraense.


TEATRO
Algu6m tem id6ia de onde foi parar a pega "Tristfo", que o jomalista e escritor Mario Couto
adaptou de um texto de Thomas Mann para ser encenado em 1947 pelo Teatro do Estudante do
Pard? A temporada desse ano seria intense, a comegar pela encenaqao de "O bobo do rei", do
muito popular Joracy Camargo, incluindo ainda duas peas de Oscar Wilde. Quem animava a
troupe era a professor Margarida Schivazappa (at6 segunda ordem, 6 como seu nome aparece
grafado). Nesse ano o TEP passou a ter dois novos departamentos: o cultural, comandado por
Expedito Pinheiro da Silva, e o Cultural, pelo future engenheiro Otavio Pires.

PROPAGANDA
PARA DEPUTADO ESTADUAL
Politico audacioso GERALA D
Geraldo Palmeira fez fama
no jornalismo e na political P A LM E RA
paraense. Sua semelhanga
com Janio Quadros era
tanto fisica quanto de
estilo: agressivo, poldmico,
passional. Para avalizar
sua candidatura a
deputado estadual, na -
eleigdo de 1954, usou
trecho do manifesto "dos
jornalistas profissionais do
sul do Pats". Foi da
oposiao, mas acabou se
enquadrando sob o regime
military de 1964, tendo sido MELHOR OUE PROMETER
dirigente do Banco
Nacional da Habitagdo, REALIZAR
OERAULO PALUMIRA poe wo ost=n =r pla bea
nos seus primdrdios. MON p.. uS .s.,..wm, maw a r cn no ,, r,,,,ie
Aquietado, mas ndo do** a *dik"Oi a., P"" Ud FAvhddxes o am a do s.ue,
domado. 0 andncio ter *'M a. "m6 o p o. do A.-
estilo para a ipoca. aD ~ mangn d I s-W* do d1o ri)


ASSUSTADO
A "nova grande estrela
do Radio", a poderosa
Lana Bittencourt, abri-
lhantou o baile de abertu-
ra, denominado "assusta-
do elegante, da tempora-
da carnavalesca da As-
sembl6ia Paraense, em
1955. A cantora foi "es-
pecialmente indicada pelo
cons6cio Victor Costa,
com a finalidade de lan-
gar o carnaval carioca em
nossos saless, explicava
a diretoria do clube. Em
nota official, pedia aos as-
sociados para cooperarem
"na manutencao da sele-
gAo na referida festa,
apresentando-se munidos,
A entrada, de seus ingres-
sos de quitagio referente
ao m8s de fevereiro",
como se exigia de uma
confraria exclusivista.
A festa comecaria as
10 da noite e exigia-se o
traje passeio ou fantasia.
O toque musical era da
orquestra do maestro Gui-
des de Barros, a mesma
de todos os outros "assus-
tados elegantes".


Jomal Pessoal
Editor: Licio Flvio Pinto


Contato: Rua Aristides Lobo, 871 CEP: 66.053-020 Fones: (091) 3241-7626
E-mail: Ifpjor@uol.com.br jornal@amazon.com.br Site: www.jornalpessoal.com.br
Diagramagio e ilustrag9es: L. A. de Faria Pinto luizpe54@hotmail.com *
chargesdojornalpessoal.blogspot.com blogdoluizpe.blogspoit.com


8 Jornal Pessoal NOVEMBRO DE 2010 P1 QUINZENA







FOTOGRAFIA


Remo de respeito
Para alegrar o torcedor remista, a linha media do Clube do Remo em 1956: Sessenta,
Jambo e Baiano. Ao fundo da fotografia, um dos chalks ttpicos dos subdrbios de Belim,
que circundavam o estddio de futebol na drea de expansao da cidade atraves da avenida
Tito Franco (hoje Almirante Barroso).


RAINHAS
A Folha do Norte, lider do
mercado de jomais no Norte
e Nordeste (de verdade, nao
de fancaria), era quem pro-
movia os concursos de bele-
za no Pari, de grande pres-
tigio na sociedade. Em 1961,
metade da primeira pigina do
didrio da famflia Maranhao
foi ocupada pelas candidates.
Ao Rainha das Rainhas do
Carnaval concorriam Rosa
Figueiredo de Andrade (da
Tuna), Maria Jos6 Pereira
(Clube do Remo), Regina
Novais (Bancr6vea), Sflvia
Braga (Pard Clube), Maria
de Nazar6 Nassar (AABB),
Ruth Macedo (Autom6vel
Clube) e Maria da Graga
Dantas Ribeiro (Assembl6ia
Paraense).


Para Rainha das Rainhas
dos Brotinhos estavam no
pareo: Zindla Lobato (As-
sembl6ia), Ana Margarida
Calumby (Tuna), Ana Levy
Serfaty (Autom6vel Clube),
Tinia Maria Guedes Botelho
(Remo), Maria de Nazar6
Santos Paes de Carvalho
(Bancr6vea), Clara Pinto
(Gr8mio Azul e Branco) e
Maria Alice Moura Carvalho
(Pard Clube).
A fina flor da jeunesse
dorde paraense, como diria
um colunista social de entao.

CARNAVAL
0 "Reinado de Lucifer" era
um dos bailes carnavalescos
mais quentes do calenddrio de
Bel6m. Talvez por isso fosse
realizado no dltimo andar do


edificio Palacio do Radio,
sede do Autom6vel Clube
(que nunca patrocinou uma
dnica corrida de carros, mas
funcionava a toda). Em 1963,
Edna Azevedo tinha a melhor
fantasia, com sua baiana es-
tilizada, enquanto lolita Mei-
reles, com sua fantasia de
cadete, foi considerada a mais
animada. O Bloco dos Dem6-
nios foi escolhido o melhor no
genero. Quem responded
present entao?

CRIAN;AS
As distintas senhoras da
Rede Feminina de Combate
ao Cancer promoveram um
concorrido chd no Grande
Hotel (que era o melhor da
cidade), em 1963, para an-
gariar funds para suas ini-


ciativas. O encontro come-
gou com o menino C6sar
Augusto Meira desfilando
cor seu traje de cal1dozinho
de malha e chapeuzinho es-
portivo, e terminou com Ar-
mandinho Morelli Acatauas-
su, metido em macacaozinho
azul e branco claro, de tric8,
dentro de um carrinho em-
purrado pela sua prima, tao
suavemente que o mini-mo-
delo, de quatro meses, dor-
miu durante o desfile. JA Ana
Carolina Bitar, cor pouco
mais de um ano, "muito gor-
dinha, muito tufadinha no seu
vestido e muito senhora de
si na passarela", relatou a
colunista social, em aborda-
gem que, hoje, seria tido co-
mopri lI de deselegante.
6 tempo!6 mores!


NOVEMBRO DE 2010 1I QUINZENA Jonal Pessoal 9








Journal dos Maiorana de novo condenado


Sobre uma foto de tres rapazes den-
tro de um 6nibus, O Liberal abriu man-
chete numa edig~o do seu sanguinolen-
to caderno de policia, em 2005: "Fla-
grante: tr8s jovens assaltantes sao pre-
sos ap6s assalto em 6nibus". O proble-
ma 6 que os jovens nio estavam pre-
sentes aquele assalto: eles tinham sido
fotografados pelo jomal alguns dias an-
tes para alguma reportagem sobre o
precirio transport coletivo de Bel6m.
Na confusio, pessoas inocentes foram
transformadas em bandidos.
No dia 8, a 1I Camara Civel Isolada
do Tribunal de Justiga do Estado confir-
mou a condenagdo imposta em 1 grau
ao journal, para o pagamento de 20 mil
reais como indenizagdo pelo dano mo-
ral causado a Alexandre dos Santos
Reis, uma das vitimas do erro de infor-
macqo, al6m de ter que pagar honoriri-
os de 20% sobre o valor da causa e as
custas processuais. O autor solicitara
500 salarios minimos (ou 225 mil reais).
Na sua apelaqco, o journal pediu que,
caso seu recurso venha a ser rejeitado,
pelo menos o valor da indenizaqao (10%
do requerido) seja reduzido.
Os desembargadores tamb6m intima-
ram Delta Publicidade, empresa respon-
sivel pelo jomal da familiar Maiorana, a
"publicar retrataqdo cabal dos fatos noti-
ciados e com publicaqio de fotografia do
autor, em seujomal diario, com o mesmo
tipo, tamanho e com igual destaque, no
mesmo caderno da noticia questionada".
Se nao cumprir a ordem, estar, sujeita a
multa digria de 500 reais, em beneficio do
autor, at6 o limited de R$ 10 mil.
A empresa se defended alegando que
a publicaqio trocada da foto foi um equi-
voco, cometido sem md f6, nao caracteri-
zando dolo ou ato ilicito. O efeito teria sido
apenas "um leve aborrecimento gerando
no miximo dissabores ou mal-estar" ao
autor da aqo. Nesse caso, nao lhe asse-
guraria "o direito de postular a reparaqgo
por danos morals, sob o argument de que
o fato deu causa a sua demissao". Lem-
brou que retificou o erro (embora de for-
ma tio discreta que poucos a devem ter
percebido). Al6m da inexistencia do dano
moral apontado, a sentence teria exorbi-
tado o pedido inicial quando impos multa
diaria A empresa dos Maioranas, defen-
deram-se eles.
No seu voto, o desembargador Leo-
nardo Tavares de Noronha disse que O


Liberal, "ao divulgar a noticia, sem a
devida cautela ou qualquer averiguagao,
assumiu o risco correspondent quan-
do estampou no citado jomal a fotogra-
fia do autor" imputando-lhe falsamente
a autoria de um crime. O relator consi-
derou "indiscutivel" que o jomal cau-
sou prejuizo moral ao autor, quando di-
vulgou sua fotografia "acompanhando
fato falso ao conhecimento do grande
pdblico, imputando-lhe a pritica de um
delito que este nao cometeu".
Argumentou: "Muito embora os jor-
nalistas e as empresas de comunicagqo
assim nao entendam, a honra, a privaci-
dade e outros atributos da personalidade
do individuo, sao direitos eminentemente
individuals, personalissimos, um direito
subjetivo inalienAvel, entendo, nao cede
ante o direito de informar, um direito pd-
blico, coletivo. O exercicio regular de um
direito, in casu, o de informar, passa a ser
irregular, e, por isso, ilicito, quando nio
veraz, quando causador de danos a ter-
ceiros", como aconteceu com O Liberal.
Ajuiza Teresinha Nunes Moura con-
cluiu seujulgamento na instincia inferior
reconhecendo que ojomal "foi negligente
ao deixar de confirmar, antes da publica-
cao, que os individuos retratados realmente
seriam os criminosos responsaveis pelo
crime noticiado, fato de gravissima res-
ponsabilidade, face A grande penetrado
no meio social que o veiculo de imprensa
r6u, possui no Estado do Pard".
Assim, teria violado "os mais elemen-
tares principios da responsabilidade 6ti-
ca a reportagem que identifica como cri-
minosa pessoa totalmente alheia ao deli-
to, situagdo agravada ainda mais pelo
fato de ter o requerido [O Liberal] tira-
do proveito econ6mico da utilizagdo da
image, sem o consentimento do autor,
incorrendo o r6u, portanto, na macula de
locupletamento ilicito a custa do prejuizo
alheio". Por causa da noticia, quatro
meses depois Alexandre foi demitido da
empresa onde trabalhava.
Quanto ao dano moral alegado pelo
autor da ago, sentenciou ajuiza, "6 ine-
gdvel que o fato de ter sua foto publica-
da em reportagem policial, com a iden-
tificagdo de assaltante de onibus, causa
em qualquer pessoa intense, frustragqo,
revolta e sentiment de impotencia, aba-
los psicol6gicos de monta que configu-
ram, inescapavelmente, verdadeiro dano
morai indenizavel. HA de se perguntar:


Afinal, quem de n6s gostaria de ser ta-
chado de criminoso?"
O fato de que o journal extrapolou
os limits do permitido. Sao frequentes
os epis6dios nos quais as empresas jor-
nalisticas, no afa de se anteciparem a
concorr8ncia ou de publicarem noticias
que garantam a venda, levam ao conhe-
cimento piblico fatos que, posterior-
mente, s2o tidos como inveridicos as-
sinalou ainda a magistrada.
Para O Liberal, que nunca gosta de
admitir seus constantes erros (nem to-
dos de boa f6 ou produto de "equivo-
cos"), quando os prejudicados sao os
outros, nao hi dano. Ou se hi, deve ser
esquecido, debitado na larga conta da
tolerancia. Ja quando se senate ofendi-
do, com ou sem razdo, de boa ou de md
fM, o jomal consider o fato crime de
lesa-majestade e clama por punigio
exemplar, rigorosa e implacivel. Ai da
justiga se nio se curve aos seus capri-
chos e suscetibilidades.
Mesmo num caso de ilicitude eviden-
te, pdblica e not6ria, na qual 6 r6u con-
fesso, porque publicou uma nota admi-
tindo o erro da fotografia, o journal ainda
quer desconto da pena que deve pagar
para reparar o dano causado, embora a
taxagdo pela justiga seja inferior a 10%
do que pediu a vftima. A reiterada prAti-
ca arrogante e insensivel de O Liberal
talvez, quem sabe, esteja fazendo ajusti-
ga paraense perquirir por seus brios e
defender os injustigados pelo poderoso
jomal que nao sao poucos.


Picaretagem social

A legend da foto na coluna social
tinha apenas quatro linhas. O espago s6
deu para dar o nome da jovem que fazia
15 anos e dos seus pais, em pouco mais
de uma linha. As outras tres linhas e meia
de texto traziam o nome do restaurant
onde foi realizada a receppqo, do deco-
rador, da modista, do cerimonial e do fo-
t6grafo. A picaretagem nas colunas so-
ciais de Bel6m, com singular excecgo,
se tornou explicit e total. No meio de
quem realmente 6 noticia, uma legiao de
an6nimos tornados VIPs gracas a mi-
lhares de arguments sonantes.
Para piorar a situagao, as colunas
sociais se multiplicam como amebas na
imprensa local. Viraram epidemia.


1Qlornal Pessoal NOVEMBRO DE 2010 *. 1 QUINZENA













Algumas impresses do Baixo Amazonas


Um v6o quase panorAmico sobre
Santar6m me deu a convic9ao de nun-
ca ter visto uma seca do Tapaj6s como
a deste ano. E impressao forte de quern
ji viu muitas vezes o rio subir e descer.
Nao s6 o Tapaj6s, mas tamb6m o Ama-
zonas. O nfvel que ele atingiu no en-
contro com o Negro, defronte de Ma-
naus, 6 o mais baixo desde que as me-
dic6es comecaram a ser feitas naquele
ponto, em 1902.
Isto 6 fato, mesmo se sujeito a al-
gum ajuste. N~o hd muitos nem eles sao
tao amplos, como se esperaria da ferti-
lidade de ferramentas cientificas e tec-
nol6gicas disponiveis atualmente, sobre-
tudo os sat6lites. Mas 6 inegivel: as
secas se tornam mais rigorosas e fre-
qiientes. Vao se tornando acontecimen-
to de presenga tao marcante como
eram as cheias.
O encolhimento das Aguas do Tapa-
j6s deixou A mostra suas longas e belas
praias, como talvez nao existam iguais
em nenhum outro rio do Brasil (e do
mundo?). Mas tamb6m mostrou as mar-
cas da agressao humana, preocupantes
mesmo em Alter-do-Chao, que foi con-
siderada a melhor praia do mundo, e em
frente A cidade. E enorme e preocupante
o volume de lixo, que as Aguas antes
escondiam. Mas as Aguas voltarao a
subir e as autoridades pdblicas nao de-
verao aproveitar a oportunidade que a
natureza Ihes ofereceu de atacar o pro-
blema. Alguns comegam a temer pela
integridade future de Alter-do-Chao.
Toda sua fama nao parece suficiente
para prevenir sua crescente poluicao.
Outra situagao que impression 6 o
descompasso entire o crescimento da
cidade de Santar6m e a prestagao dos
servigos pdblicos. Como, felizmente,
ainda hi poucos pr6dios, a cidade cres-
ce horizontalmente. E uma diretriz que
deve ser consolidada e institucionali-
zada. Mas ela s6 se tornari saudivel
se o poder pdblico fizer a sua parte:
criando a infraestrutura corresponden-
te, ordenando, supervisionando, fisca-
lizando e disciplinando esse crescimen-
to explosive. Sua caracteristica 6 o
caos, mesmo quando as condiqces fa-
voreciam o planejamento.


t o caso da area do aeroporto velho
(o novo, aliAs, que era tempordrio, se tor-
nou definitive e incapaz de tender a de-
manda atual). Apista de aterrissagem vi-
rou uma avenida, mas a urbanizagao foi
tao irracional quanto em todas as areas
perif6ricas da cidade. Prevalece a lei do
mais forte ou do mais esperto, que re-
dunda em problems cada vez mais gra-
ves. HA crise constant no abastecimento
de Agua, que falta quase todos os dias
em varios pontos. AintermitEncia no for-
necimento de energia 6 tal que os maio-
res consumidores precisaram comprar
geradores. Eles se tornaram indispensi-
veis para manter as empresas em funci-
onamento. JA a telefonia (e todos os seus
derivatives) atormentam cotidianamen-
te os moradores, impotentes para fazer
valer os seus direitos.
A ausencia do poder pdblico como
gestor urban 6 uma das faces de uma
moeda um tanto misteriosa do outro lado.
Do que vive Santar6m? Salta aos olhos
o comrrcio, que atende a todo o Baixo
Amazonas e, agora, com 6nfase maior,
a Manaus (a relaao com o vizinho Ama-
zonas evolui mais do que com o pr6prio
Pard, reforcando a campanha pela cria-
9ao do novo Estado). O servigo pdblico
6 outra important fonte de renda para a
populado. Mais recentemente, tamb6m
a educagdo superior (hi seis universida-
des instaladas). O grande desafio, por6m,
6 a atividade produtiva.
Raras sao as inddstrias de porte sig-
nificativo. Sua funcao, por6m, 6 relevan-
te. Neste mis uma fibrica de gelo foi
fechada por causar poluiqao sonora.
Mas ela 6 responsAvel pelo abasteci-
mento de 80% dos pescadores da re-
giao. O efeito foi imediato: o prego da
saca de gelo aumentou 300% (al6m de
o produto se tornar escasso) e o pesca-
do tamb6m. Em alguns stores as alter-
nativas sao poucas ou inexistentes.
Apesar do desamparo, produtores
conseguem se manter nas virzeas e di-
versificam sua produqao, alcangando
mercados mais distantes. Algumas co-
munidades ribeirinhas se organizaram
para isso, mas a assistencia official 6
defeituosa. Sua principal falha deriva de
uma visao distorcida sobre o aproveita-


mento das vArzeas e um desconheci-
mento bAsico da relagao do home com
a natureza. O Incra, por exemplo, deci-
diu construir 100 casas com total incom-
patibilidade ecol6gica, concebidas para
outros ambientes, nao para a beira de
rio. VAo se tornar fomos humans, como
as que ji existem em areas ribeirinhas.
A realidade 6 mais rica e diverse do
que se costume pensar. Numa viagem
ripida que fiz a Santar6m, registrei al-
guns fatos que podem dar uma visao pa-
noramica, ainda que caleidosc6pica, do
que acontece na regiao. Para informar
a populagio metropolitan, em geral
desatenta do que acontece no interior
do Estado. (Veja na pdgina seguinte)


Farmcias originals

Quando Pedro Lazera criou a Imi-
farma, 50 anos atris, os distribuidores
de rem6dios atuavam apenas no ataca-
do, mantendo-se A distAncia do varejo.
Meio s6culo depois, a Imifarma, nas
m2os da segunda geragao, sob o coman-
do de Paulo, filho de Pedro, tem a se-
gunda rede de farm6cias do Estado, a
cadeia Extra-Farma, que dispute o mer-
cado com a Big-Ben. E uma das maio-
res batalhas comerciais do Pard, com
essa singularidade em relagdo a outros
Estados brasileiros: os dois grupos co-
megaram exclusivamente no setor de
atacado de medicamentos.
Quem primeiro rompeu essa tradigAo
foi a Big-Ben, em 1994, com Raul Agui-
lera e seu irmao, Roberto. Por isso, as-
sumiu o topo do setor, espraiando-se sem
parar, enquanto farmicias isoladas qua-
se sumiam. A Extra-Farma seguiu o ca-
minho depois, mas foi reduzindo a dis-
tancia que a separa do lider, que ainda 6
grande: s6 em Bel6m a Big-Ben tem 68
lojas, contra 35 da Extra-Farma.
A data do cinqiientendrio da corpo-
radao dos Lazera, familia de origem ita-
liana que se estabeleceu no Nordeste,
em concorr8ncia direta com outra fa-
milia, de imigrantes da Argentina, podia
servir de mote para uma boa pesquisa
sobre esse traCado original do mercado
de produtos farmac8uticos no Pard.


NOVEMBRO DE 2010 19 QUINZENA Jornal Pessoal 11








CONFLITO
A multinational america-
na Alcoa, maior produtora
mundial de alumfnio, confir-
ma em meio a conflitos a sua
presenqa na regiao. Depois
de conseguir superar as re-
sistencias em Juruti A implan-
tacdo da sua mina de bauxi-
ta, agora comeqa novo capi-
tulo em Santar6m. A empre-
sa detectou a extensao do
min6rio no municipio vizinho,
mas teve que buscar na jus-
tiga protegio legal para rea-
lizar pesquisa geol6gica.
Aparentemente, a ativi-
dade esta legalizadajunto ao
DNPM, representantes dos
direitos exclusivos da Uniao
quanto ao subsolo, que se
distinguem dos direitos so-
bre a superficie do solo. Mas
os integrantes da Federagao
das Associac6es e Comuni-
dades do Assentamento
Agroextrativista do Lago
Grande interditaram os ser-
vigos da mineradora.
Como o nivel da ativida-
de ainda 6 de pesquisa, nao
ter base legal a alegaqAo da
federaao, de que 6 precise
autorizaqao dos detentores
dos direitos sobre o solo para
que prossiga a prospecqao no
subsolo. Por isso ojuiz fede-
ral de Santar6m autorizou a
Alcoa a ingressar na area,
localizada no rio Arapiuns.
Mas esta posto o conflito
entire a legalidade e a legiti-
midade, entire a nova ativida-
de econ6mica e a pratica
anterior da populagao, entire
os dominios da natureza e a
presenca humana.

FORDLANDIA
A mais antiga das duas
possesses de Henry Ford no
Tapaj6s, Fordlindia, comple-
tou 82 anos. Esta de volta A
agenda com um livro, escri-
to por um americano, e um
belo documentArio, realizado
por um nordestino, dois p6-
los da sua rica hist6ria. Se a
mem6ria social saiu ganhan-
do, nAo ha muito o que co-
memorar no pr6prio local -
e em Belterra, que surgiu


Barulho e silencio
Quarenta institui96es religiosas, dizendo representar 1.500
igrejas evang6licas que funcionam em Bel6m, repudiaram o
manifesto da OAB do Para "em defesa do Estado laico".
Usaram adjetivos fortes e numerosos para qualifica-lo:
duvidoso, grosseiro, desrespeitoso, acusat6rio, tendencioso,
discriminat6rio, preconceituoso, ignorante e afrontoso. Re-
clamam da falta de identificacqo dos que assinaram o docu-
mento, divulgado quando quest6es morais e religiosas (legiti-
maqAo ou ndo do abordo e da unido "homoafetiva") se toma-
vam o tema dominant na passage do 1 para o 20 turno da
eleicqo presidential, deslocando do eixo os temas propria-
mente politicos e civis.
As entidades evang6licas arrematam sua nota de repidio,
veiculada como mat6ria paga na imprensa local, consideran-
do o manifesto dos advogados "afrontoso A religiosidade da
sociedade paraense, porque publicada em outubro, mes do
Cirio de Nazar6, e quando a Assembl6ia de Deus igreja
fundada aqui em Bel6m prepara-se para celebrar o seu
Centenario de fundagio".
Divergencias e confrontos A parte, a manifestacgo ex-
pressa a forga das igrejas evang6licas, com uma Wnfase mui-
to especial em Bel6m. Talvez nenhuma cidade tenha propor-
cionalmente (ou at6 em terms absolutos?) tantas delas, va-
rias nascidas na capital paraense. Enquanto a pioneira As-
sembl6ia de Deus chega aos 100 anos, a que mais se tern
expandido nos iltimos anos, a Igreja do Evangelho Quadran-
gular, neste m8s complete 37 anos. E devera inaugurar uma
sede tao espl8ndida quanto a da Assembl6ia.
Todas devem ser respeitadas e devem ter motives para
comemorar, al6m de defender seu credo. A democracia exis-
te para que as diverg8ncias e a pluralidade subsistam num
ambiente de tolerancia. Mas da mesma maneira como 6 com-
preensivel a reaqao imediata e um tanto desmedida das insti-
tuiq6es religiosas, 6 destoante o seu silencio diante de tantos
e tao seguidos malfeitos dos seus pastores, sobretudo daque-
les em ndmero cada vez maior que se langam A polftica,
nela praticando um fisiologismo sem qualquer inspiragao bi-
blica. O sil8ncio, em certas ocasi6es, 6 mais barulhento do
que a gritaria.


depois. Mas a lembranga
pode estimular alguma men-
te mais atilada a perceber o
valor do patrim6nio deixado
pelo miliondrio americano e
tratar de utiliza-lo para atrair
visitantes e melhorar a vida
dos moradores que subsistem
na area.

AVIAO
Um teco-teco Navajo bi-
motor foi obrigado a fazer
pouso de emerg8ncia no lei-
to de uma das praias do rio
Trombetas, em Oriximina.
Seus dois ocupantes safram
ilesos do acidente. Eles fazi-


am fotos areas a serem uti-
lizadas na confeccao de ma-
pas. Que mapas? Nada lhes
foi perguntado a respeito. E
nada disseram.

AGUA
O aqiiffero Alter-do-
Chao, o maior do mundo, se
estende por uma area de 45
mil quil6metros quadrados,
na calha do rio Amazonas.
Calcula-se que tenha mais
de 86 bilh6es de metros c6-
bicos (ou 86 trilh6es de li-
tros) de agua, o dobro do
segundo maior aqiiffero, o
Guarani, no sul do pais. Em


Manaus. O aqiiifero ja ga-
rante o abastecimento de
700 mil pessoas atrav6s de
10 mil pogos particulares e
130 da rede pdblica. Quan-
do essa providencia per-
correra os 700 quilometros
que separam Manaus de
Santar6m?

POPULA0Ao
Com 272 mil habitantes,
segundo os dados do recen-
seamento deste ano, divulga-
dos pelo IBGE, Santar6m ain-
da 6 o municipio mais popu-
loso dos 25 que integral o
projetado Estado do Tapaj6s,
que ultrapassou um milhao de
habitantes (15% do total do
Para). O segundo, com um
tergo da populagao, 6 Itaitu-
ba, onde o IBGE registrou 96
mil moradores residents.
Mas o terceiro municipio,
Altamira, corn 83 mil habitan-
tes, esta fora do ambito tra-
dicional do Baixo Amazonas,
integrando outra unidade cul-
tural, agora sob a forte influ-
encia da estrada e da coloni-
zagao.
Seguem-se, pela ordem
de habitantes: Monte Alegre
(66 mil), Uruard (55 mil),
Oriximind (52 mil), Obidos
(48 mil), Alenquer (40 mil),
Juruti (35,4 mil), Novo Pro-
gresso (35,1 mil), Almeirim
(34 mil), Jacareacanga (31
mil), Prainha (30 mil), Porto
de Moz (28 mil), Rur6polis
(27 mil), Medicilandia (22
mil), Brasil Novo (20 mil),
Aveiro (17 mil), Trairio (16,8
mil), Belterra (16,7 mil), Ter-
ra Santa (16,6 mil), Placas
(14 mil), Faro (13 mil), Vit6-
ria do Xingu (10 mil) e Cu-
rua (9 mil).
Verifica-se que 17 muni-
cipios do eventual novo Es-
tado estariam na 6rbita de
Santar6m, com 844 mil ha-
bitantes, e sete gravitando
em torno de Altamira, cor
252 mil habitantes. Haveria
mesmo uma unidade ou
identidade entire essas duas
metades que evitasse o sur-
gimento de um Estado desi-
gual ou desconforme?