Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00353

Full Text



OUTUBRO
DE 2010
AaQUINZENA ornal Pessoal

A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO


No 474
ANO XXIV
R$ 3,00


1"~s fI VA ,


ELEICAO


Sem novos lideres

0 Pard continuard a ser um desert de liderangas, mesmo corn o surgimento de novas
caras depois da eleiado de 3 de outubro. Quem podia mudar esse panorama ndo se
apresenta a dispute. E quem vence acaba abandonando os compromissos de antes.


Ser preparado e ter propostas:
sao estas as duas condiq6es
impostas pelo chamado voto
consciente aos pretendentes a cargos
eletivos. Atendidos os dois requisitos, os
candidates t8m A sua disposigao o voto
mais barato do mercado. Ndo precisam
comprar o eleitor nem lhe oferecer van-
tagens pessoais: basta que tenham uma
mensagem corn conteddo e inspirem
credibilidade. 0 cidaddo ihes dard a
oportunidade de colocarem em pritica
as promessas e os projetos apresenta-
dos durante a campanha.
Mas a cada nova eleigdo hd poucos
candidates preparados e corn propos-


tas. Os que podiam concorrer se afas-
tam do process eleitoral por conside-
ri-lo viciado. Os que entram na danqa
para vencer e nao apenas para fazer
a figure olfimpica do concorrente "pela
causa" costumam trair as expectati-
vas por eles mesmos geradas. Deixam
o preparo e o conteddo na ante-sala do
poder que passam a ocupar. Por isso
mesmo, quando mudam os nomes numa
eleiqao, nada muda de substantive.
0 Para estA assim ha d6cadas. Pes-
soas que podiam melhorar o padrao da
vida pdblica preferem ficar bem long
da corrida ao poder, convencidas de que
sacrificardo sua formaqAo (cuja quali-


dade um ou mais diplomas atestam) e
seus ideais (expostos atrav6s de nume-
rosos atos pdblicos, de conferencias a
encontros informais). A poliftica 6 tao
fisiol6gica e dependent do governor e
dos grupos de pressdo que imp6e o rito
da adesdo As priticas e costumes com-
prometidos, caudatArios dos interesses
de grupos e facq6es.
A prova dos nove desse baixo nfvel
seria a mudanga que ocorre quando uma
dessas figures ptblicas preparadas e
corn propostas ganha uma eleigdo. t
raro que deva a vit6ria ao tal voto cons-
ciente. Na hora da apuraqdo, 6 muito
orIA iA iAGi


II O AI D i S"


I I A I A A II 1






pequena a proporqio dos votos consci-
entes numa sociedade de precaria edu-
caoo political e lamentAvel instrugiio
formal. As vezes 6 suficiente apenas
para eleger um vereador. Raramente,
um deputado estadual.
Sea personalidade impoluta foi al6m
desse limited, quase sempre 6 porque
usou sua boa imagem para atrair o voto
consciente e utilizA-lo como cartaz lu-
minoso. Por trAs da boa imagem, o que
provocou o efeito gravitacional de mi-
lhares de votos foi a mdquina pdblica
ou algum mecenas, que se manteve
num estrat6gico anonimato. A partir da
eleiqio, o candidate vitorioso se aproxi-
mard cada vez mais desses parceiros e
ird se distanciando do eleitor e da bi-
ografia anterior.
Nessa progressio, que poderA ser
um pouco mais lenta ou rapidissima, o
idealista se transform num politico
igual a todos aqueles em relaqo aos
quais se apresentou ao distinto pdblico
como alternative. Os interesses pode-
rosos de sempre prevalecerio sobre as
causes pdblicas. E a representaqo po-
lftica da sociedade se mostrarA inca-
paz de responder aos desafios do coti-
diano e da hist6ria.
Tivemos no primeiro turno da elei-
9ao deste ano alguns exemplos desse
enredo. Um deles foi o de Arnaldo Jor-
dy, do PPS. Seu passado lhe permitiu
usar o titulo de ficha limpa, que adqui-
riu grande valorizagio no mercado do
votobiesta eleiqo, corn as puniq6es aos
fichas sujas. Ndo ha crime eleitoral (ou
de outra ordem) desabonador a Jordy.
E at6 a eleigio de dois anos atrAs os
seus eleitores portavam o voto consci-
ente: optavam por ele de graga, por-
que era preparado e tinha propostas.
As sucessivas eleigoes de Jordy, sem-
pre na Camara Municipal de Bel6m,
at6, finalmente, passar a deputado es-
tadual, foram sempre precarias, corn
votagdo que s6 Ihe dava o iltimo ou os
dltimos postos.
Em 2008 ele declarou seu voto a
Jos6 Priante, o candidate a prefeito de
Bel6m (e primo) de Jader Barbalho, sur-
preendendo, chocando e revoltando seus
eleitores tradicionais. Seu procedimen-
to foi criticado neste journal. Jordy rea-
giu se explicando e contra-argumentan-
do. Ainda tinha esperanga de manter sua
credibilidade, mas jA se tornara eviden-
te o sentido ziguezagueante da sua tra-
jet6ria political. Jordy queria subir muito


mais do que Ihe possibilitava o voto
consciente. Por isso, armou um esque-
ma mais s61ido... e fisiol6gico.
Apareceu agora ao lado do PSDB
de Simio Jatene e, diga-se, a bem da
verdade (mas nao necessariamente da
moral), desde a primeira hora. Teve uma
votaqao consagradora para deputado
federal, que o colocou na inimaginAvel
terceira posigao. Nenhum candidate de
esquerda conseguiu tanto. 0 problema
6: Jordy ainda 6 um politico de esquer-
da, qualquer que seja o significado (mes-
mo o esfarrapado) dessa expressao?
Nao sei se ele ainda mandarin uma
carta a este journal replicando a anAlise,
mas, no fundo (ele, o leitor e eu), sabe-
mos que nWo precisa mais se explicar.
Nem mesmo prestar contas aos seus
eleitores, dentre os quais eu e muitos
outros leitores deste journal nio nos
inclufmos mais. Jordy abriu caminho
para uma important carreira na vida
political do Para a partir deste future
mandato. Teri, no entanto, que deixar
na soleira do parlamento a confianga e
a esperanga que um dia provocou nos
ditos detentores do voto conscience. Dis-
sociaqao que diz muito sobre as raz6es
do sucesso politico e a falancia da polf-
tica no Pard.

O utro exemplo des-
sa trajet6ria foi
dado por ClAudio
Puty, do PT. Se tivesse de-
eidido coneorrer numa
eleigao saindo diretamen-
te da Universidade Fede-
ral do Par, da qual 6 pro-
fessor, para as rinhas dos
votos, proavelmente nem
vereador o brilhante eco-
nomista conseguiria ser.
Teria que lamentar a mala suerte pu-
xando do bolso o extenso curriculo
(Lattes, claro) academico que lhe da
status. Nio levaria o diploma conferi-
do pela preferencia popular, mas re-
gressaria ao campus corn a image
intellectual preservada.
No entanto, na sua primeira experi-
ancia eleitoral, Puty conquistou logo umrn
mandato de deputado federal, com vo-
tagao apenas inferior a do traquejado
Jordy. Caiu de pdra-quedas, dirao os
invejosos, por ter ocupado a casa civil
do governor, ser da mesma tendencia (a
Democracia Socialista) da governado-


ra Ana Jdlia Carepa e o seu queridinho.
Fartou-se de usar a maquina p6blica ou
desfrutar o seu calor, a sua como se
diria no campus sinergia.
Mas e se Ana Jdlia nao for reeleita
e Dilma Rousseff nao depenar o tuca-
no Jos6 Serra, o grande salto de Puty
nao acabar6 alcanqando o vAcuo, ao
inv6s de a posteridade? A hist6ria pode
exibir casos de bi6nicos politicos, como
Puty, que se consolidaram pelo exercf-
cio do poder, mas a regra a estas mfni-
mas exceo6es 6 de que esses perso-
nagens usam pernas-de-pau para ad-
quirir a grandeza que exibem sobre a
camuflagem inconvincente. Retiradas
as bases de apoio no poder pdblico,
desabam para o nivel que Ihes 6 devi-
do: r6s-do-chdo.
Exemplo magnifico deste perfil foi o
de Aloysio da Costa Chaves. Profes-
sor, director de faculdade, juiz do traba-
lho, reitor universitario, ele se tornou
governador por obra e graca da eleiqao
indireta instituida pelo regime military de
1964. 0 partido do governor, a Arena
(depois, o PDS), o colocou no Palacio
Lauro Sodr6, em substituigio ao enge-
nheiro Fernando Guilhon, que tamb6m
seguira pela mesma rota. Mas Aloysio
tinha muitos m6ritos, dentre os quais o
de se cercar de gente de qualidade (des-
de que tornado como pressuposto sua
condig9o de chefia). Saiu do governor
para o senado por eleigao direta.
Na eleiqo seguinte viu que s6 tinha
votos para deputado federal e nao foi
al6m. Passados quatro anos, nao mais
se apresentou. Descer ao parlamento
estadual estava aqu6m do que Aloysio
estava disposto a aceitar. Retirou-se da
vida pdblica, A qual estava voltando (na
inimaginAvel articulaqao de Jader Bar-
balho), quando o cancer o vitimou.
Aloysio Chaves 6 um dos raros
exemplos de intellectual (ao menos no
sentido t6cnico da expressao, metaffsi-
cas A parte) que passou para a seara
polftica e deu certo. Corn todos os er-
ros e desalinhos que praticou, sua ad-
ministraqao (1975/79) foi inovadora. S6
nao foi mais long porque o regime de
excegao, no piano federal, conteve seus
impulses. Se nao chegava a ser um de-
mocrata tout-court, Aloysio foi um d6s-
pota esclarecido, algo a saudar numa
terra em que quem tern um olho para
ver pode reivindicar o titulo de rei.
Quando nao, de genio.
E diferente a situacio de Ana Julia
Carepa. Ela s6 se tornou governadora


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em 2006 porque o candidate do PSDB
foi Almir Gabriel e nao Simo Jatene. E
porque Jader Barbalho, percebendo a
besteira cometida pelo seu inimigo fi-
gadal (e hoje amigo de infancia), fez
Lula convencer a senadora Ana Julia a
concorrer. Sem essas duas circunstan-
cias, para as quais nada fez, ela jamais
chegaria tao long (e por isso esta ame-
agada de voltar de tao longe.
Mas Ana tinha hist6ria e se fez por
seus m6ritos, de vereadora a senado-
ra. Pena que nio tenha tido o 16cido
realismo de Aloysio Chaves para per-
ceber que, palanqueira, militant e cor-
religiondria, como sempre foi, nao ti-
nha o talho para ser executive. Tinha
que permanecer como parlamentar -
de preferencia, na oposiqao (cujo mai-
or m6rito 6 contar bravatas, disse Lula,
jA do outro lado do balcio). Suas fra-
quezas no comando (ou nio-comando)
do governor criaram esse quase-mila-
gre da perspective de volta de Simao
Jatene ao posto.
Como Puty, mas nao exatamente
como ele, porque tem de acr6scimo A
condiqao universitaria a veia artfstica,
Jatene se circunscrevia ao cfrculo aca-
d8mico ou, melhor dizendo, t6cnico.
Nio teria sido eleito governador em
2002 se Almir Gabriel nao tivesse abu-
sado ao paroxismo das r6deas da mA-
quina do Estado. 0 funcionamento sem
pejo das engrenagens estatais conseguiu
superar os excesses praticados para que
o pr6prioAlmir se reelegesse, em 2000,
superando Jader Barbalho no 2 turn.
0 tristemente famoso "convenio"
entire a Funtelpa e a TV Liberal, atra-
v6s do qual a primeira pagou para ser-
vir a segunda, dA uma id6ia das artima-
nhas criadas para a vit6ria do doutor
Almir. E ele contava com a aprovagio
da maioria da populaAgo ao seu primei-
ro quatrienio como governador. Corn
tudo que fez (e mais o que imagine ter
feito), nao teria derrotado Jader Barba-
lho se estivesse fora do governor. 0 tu-
xaua do PMDB teria repetido a faga-
nha de 1990, quando ganhou de Sahid
Xerfan, Hlio Gueiros & Cia. Ltda.
Uma vez atropelado pelo seu amigo,
padrinho e antecessor, Simio Jatene
desistiu da reeleigao, frustrando sua
equipe e a parcela possivelmente majo-
ritaria do eleitorado paraense. Ele nega,
mas, no intimo, deve ter se convencido
de que sua 6poca acabara. Ele nio te-
ria mais a mAquina pdblica desbraga-
damente a sua disposigio para gerar vo-


Eleiqao: os numerous


Simao Jatene venceu em 96 mu-
nicfpios do Para, Ana Jdlia Carepa
em 45 e Domingos Juvenil em ape-
nas dois (Santa Maria do Pard e
UruarA). Mas superou Ana Jdlia em
Santar6m Novo, Sao Geraldo do
Araguaia, Tailindia e Vigia, sua ter-
ra natal (onde perdeu para Simao
Jatene).
Os maiores indices alcangados
por Jatene foram em Sio Caetano
de Odivelas (71,32%), Mojuf dos
Campos (69,12), Tailindia (66,67),
Sao Miguel do GuamA (66,12), Pa-
ragominas (64,74), Castanhal (64,67),
Melgago (64,45), Marapanim (63,73)
Mae do Rio (63,15) Anajas (61,48),
Salin6polis (60,84), Sao Francisco do
ParA (60,77) e Capitao Pogo (60,06).


tos. 0 que viabilizou seu surpreendente
retorno foi a desastrada gestio de Ana
Jdlia.
Um governor um pouco melhor teria
tornado vio o projeto tucano de recon-
quista do poder e com a mesma men-
sagem que o colocara para fora em
2006: a promessa de mudanga. Menos
de quatro anos de gestao petista edul-
corou o rejeitado "tucanismo" de qua-
tro anos atrAs. Todos esqueceram os
seus males e passaram a dar atengao


JA as maiores votaq6es de Ana Julia
foram em Viseu (61,46) e Obidos
(60,94). Nenhum desses col6gios 6
de maior expressao
Nos 17 principals col6gios eleito-
rais paraenses, com mais de 50 mil
eleitores, Jatene ganhou em 17 e
Ana Jdlia em apenas tres. 0 candi-
dato do PSDB teve 976 mil votos,
enquanto Ana somou 594 mil. A pe-
tista perdeu em dois dos mais impor-
tantes municipios, onde seu partido
ocupa a prefeitura: Santarem (o 3*
maior) e Parauapebas (o 60). Em
Santar6m, a prefeita Maria do Car-
mo Martins nio conseguiu eleger o
irmao deputado.
Os resultados nesses col6gios fo-
ram os seguintes:


apenas aos seus bens. 0 balanco, em
2006, foi negative. Agora, nio interes-
sa mais: os petistas apagaram a mem6-
ria coletiva corn sua incompetencia.
Se as previs6es de vit6ria de Jatene
no 2* turno se concretizarem, ainda as-
sim 6 questionivel a maldiqao dos pe-
tistas de que o povo estarA decidindo
pela regressao a um passado que ji
devia estar superado. De fato, nao de-
verA haver mudangas substantivas no


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pr6ximo quatrianio: o economist que
podia aspirar ao voto consciente em
2002 (e nio se eleger) nao tem mais
preparo nem proposta, exceto as que
Ihes sdo pespegadas pelo marketing
oportunista. Mas alguma coisa mudard
no Para a partir de janeiro.
Mesmo que Jader Barbalho venha a
optar por Jatene (hip6tese que ji foi
mais factivel do que agora), o candida-
to do PSDB nao terd um d6bito signifi-
cativo para corn ele. A votacgo que al-
cangou no 1 turno provocou a meta-
morfose de Ana Jdlia, de favorite a ze-
bra. Logo, a mudanqa foi fundamental,
quase decisive para a sorte do 2 turn,
sem contar com os favors do PMDB.
E se a impugnaqao da candidatura se-
natorial de Jader Barbalho for mantida
pelo Supremo Tribunal Federal (a deci-
sdo sobre Paulo Rocha se tornou irrele-
vante quando ele ficou s6 em 30 lugar,
tirando a motivagao do PT national para
arrancar uma decisdo favorAvel do
STF), deixard de haver uma figure he-
gemrnica na political do ParA. A dnica,
atualmente, 6 a do pr6prio Jader.
Com essa alteracqo na correlagao
de forgas, aumentario as possibilidades
dos lideres intermediirios, que influirio
com peso maior sobre os atos das prin-
cipais liderangas estaduais. 0 poder na
pr6xima eleiqAo, a de 2012, que seri
municipal, mais pr6xima do eleitor, es-
tard mais pulverizado. PoderA ser um
novo teste para a bionicidade de fact6i-
des e a organicidade de polfticos dota-
dos de votacgo pr6pria.
Ana Jdlia, mesmo que venha a ser
derrotada, estarA entire essas lideranqas
m6dias que poderao se apresentar da-
qui a dois anos para ocupar novos luga-
res (no caso dela, de volta ao ponto de
partida na carreira), A semelhanga de
Edmilson Rodrigues, Jordy, Puty e, quem
sabe, a pr6pria Elcione, que ja nao de-
verd tanto ao sobrenome que ostenta e
ja nao 6 mais dela. Mas, pra fins politi-
cos, 6 acompanhante necessdrio.
Nomes novos, alguns impensAveis,
outros represados pelo peso de lideres
maiores, podero emergir num terreno
viciado, repetitive, cansado. Mas corn
proposta e preparo? 0 eleitor consci-
ente que decide. Se puder.

0 artigo jd estava pronto quando Jader
liberou o PMDB para votar como quiser. 0
pr6prio Jader nao revelou em quem votard,
mas o segredo se tornou de polichinelo quan-
do ele declarou que ndo votard em Ana Julia.


Quando tinha 48% de rejeigao po-
pular, a governadora Ana Jdlia Carepa
se aliou ao prefeito Duciomar Costa,
cujo indice negative era de 73%. A uni-
ca razao para essa composigao seria o
tempo do PTB no horario eleitoral gra-
tuito. Considerado o pior prefeito que
Bel6m ja teve, Duciomar nao poderia
assegurar a fidelidade dos seus correli-
gionArios, que nao comanda (e que,
mesmo corn a coligacgo formal, passa-
ram a apoiar Simao Jatene no 20 turno).
Se 6 que aderiu com sinceridade A can-
didatura da governadora.
Obtido o acordo para que o Estado
repasse A prefeitura da capital a parte
do ICMS retida na administragdo do
PSDB, para prejudicar o entdo prefeito
do PT, Edmilson Rodrigues, o
alcaide se desinteressou por
complete da campanha.
Mesmo porque nao po-
deria exercer qualquer
efeito positive sobre ela, s6 L
o negative. Quanto ao
tempo de televisao que
proporcionou, pouco va-
leu: falar ao telespectador nao esti en-
tre as qualidades da governadora. Mui-
to pelo contrario. Ela s6 di resultados
quando brada sobre um palanque a au-
dit6rios ensurdecidos.
Ana Jdlia cometeu mais um grave
erro na sua estrat6gia ao receber corn
muita alegria aparente e nenhum cons-
trangimento evidence a adesdo do ex-
govemador Almir Gabriel. Desta vez, a
unica explicaqo para a ins61ita e cho-
cante alianga 6 o sentiment que domi-
na os dois personagens da polftica pa-
raense. Em Ana Jdlia, o desespero pelo
risco cada vez maior de nao alcangar a
reeleig~o na dispute do 2 turno. Em
Almir, a obsessdo jd em alto grau de
patologia- de atingir seu ex-correligio-
nario, afilhado e amigo Simao Jatene.
Se ainda pudesse agir sob o coman-
do da razao, a candidate do PT verifi-
caria que a incorporacao tamb6m sur-
preendente do ex-governador do
PSDB A candidatura de Domingos Ju-
venil, do PMDB, nao rendeu votos que
tivessem expressed. Tanto que a pre-
senga entusiasmada de Almir Gabriel foi
dispensada no meio da campanha, quan-
do suas apariq6es foram suspensas e
ele se restringiu a alardear a candidatu-
ra a deputado estadual de um emprei-


teiro, muito bem servido durante os oito
anos do m6dico tucano.
Mais do que nao agregar votos, Al-
mir pode at6 ter contribufdo para des-
favorecer a anemica candidatura de
Juvenil. Nao acontecerd o mesmo, ou
talvez pior, com sua adesao ao PT, de
maior impact do que aparecer aos
abraqos e risos com o arquiinimigo Ja-
der Barbalho?
JA o ex-govemador, se suas faculda-
des analiticas nao estivessem comprome-
tidas, poderia se dar conta de que seu atual
inimigo figadal foi ressuscitado pela in-
compet8ncia da nova aliada. Todos in-
clusive o pr6prio previam apenas boas
pescarias, sess6es musicais e series lite-
rarios no horizonte de Simao Jatene quan-
/ do ele nao p6de disputar
a reeleigdo, em 2006,
atropelado por Almir Ga-
briel. Confirmava-se a pre-
visdo de que Jatene nao en-
,. trava em bola dividida ou era
preguiqoso, como o classifica
agora justamente aquele que o
transformou de "poste eleitoral"
em govemador, para tanto colocando a
mAquina pdblica nas ruas.
0 desgaste do governor do PT fez
rebrotar o que restava da semente do
nome de Jatene. Quanto mais crescia a
rejeicao a Ana Jdlia, mais se fortalecia
a opqao pelo ex-govemador, que dei-
xou o cargo corn indice de popularida-
de positive e foi poupado do desgaste
da derrota tucana pela tresloucada
aventura narcisista de Almir. Foi o que
provocou o seu crescimento acelerado,
mesmo contra a mdquina estadual, que
ultrapassou o nfvel de irresponsabilida-
de do PSDB (em 2000, para permitir a
Almir derrotar Jader Barbalho, e em
2004, para dar tutano eleitoral ao refra-
tario Simao) e assim tornou possivel o
2 turno, quando a vit6ria do adversirio
parecia inevitAvel.
Assim, ao inv6s de contribuir para a
punigio do seu ex-pupilo, a quem trata
como o mais s6rdido dos traidores, ob-
cecado pelos impetos de vinganga e
rancor, o m6dico Almir Gabriel, ji sem
legend e sem bandeira, pode ter atira-
do a ultima pA de terra sobre a pr6pria
biografia, arrastando consigo a desnor-
teada arquiteta Ana Jdlia Carepa. Uma
unido tardia e equivocada para deter-
minar o fim de ambos.


4 Jornal Pessoal OUTUBRO DE 2010 1IQUINZENA


Almir e Ana: os naufragos






Jader Barbalho: agora, o ocaso?


Jader Barbalho esperava passar dos
dois milh6es de votos como candidate a
senador. Essa votagqo o consagraria no
retorno A convivencia dos seus pares
na cimara alta, da qual foi president e
da qual, meses depois, saiu pelas portas
dos funds, renunciando para nao ser
cassado. Nao chegou, por6m, aos 1,8
milhao obtidos pelo empresario Flexa
Ribeiro, o mais votado de todos, consi-
derado como sem chances quando a
campanha eleitoral comeqou. Jader
teve apenas um pouco mais de votos
do que Paulo Rocha, do PT, ambos na
faixa dos 1,7 milhao.
Antes da apuragqo dos votos, esse
quadro era considerado, se nao impos-
sivel, pelo menos improvavel. 0 re-
sultado indica o inicio do ocaso do
maior lfder politico que o Pard teve
desde o final do baratismo, a principal
fonte de poder entire os anos 1930 e
1960? A resposta nao 6 tdo simples
quanto parece.
A perda de mais de 200 mil votos
entire a realidade e a sua expectativa
deve-se nao diretamente a qualquer
abalo na lideranqa pessoal de Jader
Barbalho, mas A noticia de que seus
votos seriam anulados porque o Tribu-
nal Superior Eleitoral mantivera a im-
pugnagdo A sua candidatura, por ser
ficha suja. Uma das coisas que o elei-
tor brasileiro mais teme e menos dese-
ja 6 perder o voto. Este costuma ser o
maior patrim6nio material (e mesmo
material) para a maioria da populagqo
e ha sacrificios a superar at6 o momen-
to de exercer esse direito. Milhares de
votos migraram de Jader para os ou-
tros candidates.
A esmagadora maioria, seguramen-
te, nao para Paulo Rocha, antipoda do
PMDB (apesar das relacqes mais do
que amistosas entire o petista e Jader).
Esses votos foram para Flexa Ribeiro,
gragas a um mecanismo colocado em
funcionamento pela primeira vez na dis-
puta senatorial no Pard: os principals
partidos apresentaram apenas um can-
didato, mesmo estando em jogo duas
vagas. Flexa, que chegou ao senado
como suplente de Duciomar Costa, su-
bindo quando o titular deixou o cargo
para assumir a prefeitura de Bel6m, se
apresentou como a melhor op1o para
o eleitor do PSDB e como o segundo
nome para o do PMDB. Fez dobradi-


nha virtual com Jader Barbalho, al6m
de aproveitar a onda em favor de Si-
mio Jatene. JA o eleitor petista, que vo-
tou em Paulo Rocha para uma das ca-
deiras, descarregou em favor de Mari-
nor Brito como segunda opcqo, ao in-
v6s de seguir a orientagao de Ana Jdlia
em favor de Jader, dada mais para in-
gles ver do que para petista aceitar.
Mais important do que a perda dos
mais de 200 mil votos que tinha em sua
conta antes da campanha desencadeada
pelo jomal 0 Liberal pelo voto dtil, sus-
tentando em seguidas manchetes de pri-
meira pigina que quem votasse em Jader
teria seu voto anulado, foi o fato de o lider
peemedebista ainda conseguir ser o se-
gundo mais votado. Corn esse desempe-
nho, deixou de fora um dos candidates a
senador pelo PT que
mais o president
Lulaapoiounopais.
Mas se um analis-
ta isento 6 capaz de
perceber essa cir-
cunstincia, para o
eleitor o que importa '
6 que Jader nao 6
mais o mimero um,
nem voltou a ser o
imbativel em que se
tornara depois da der-
rota de 1998. Essa
aura, de grande valor
simb61ico, ele a per-
deu. E um prejuizo considerfvel.
0 ex-governador poderia recuperar
esse dano funcionando mais uma vez
como o fiel da balanga na dispute pelo
governor do Estado no 2 turno. Os vo-
tos do PMDB serao, de fato, decisivos
para confirmnar a vit6ria de Jatene ou a
- cada vez mais dificil recuperagao
de Ana Jdlia. Desta vez Jader sabe que
saiu enfraquecido do 1 tumrno e que es-
perar s6 o desfavorecerf. Por isso,
embora nao assumindo a decisao, man-
dou logo anunciar por correligionbrio
e pelo seu jomal, o Didrio do Pard -
que a tendencia 6 de nao apoiar nenhum
dos candidates. Mas nao falou em Ja-
tene. Mandou dizer, por ora, que nao
apoiara Ana Jdlia. Porque talvez acabe,
se nao apoiando Jatene, manifestando
simpatia pelo tucano. [No domingo, 17,
liberou os pmdebistas]
Isto se o que jA parece definitive
de fato se concretizar de direito: a


manutengAo da sua impugnagqo pelo
Supremo Tribunal Federal. Essa pers-
pectiva se tornou mais forte quando o
ministry Joaquim Barbosa foi escolhi-
do para relatar o recurso de Jader
contra a decisao do Tribunal Superior
Eleitoral. t dado como certo o voto
de Barbosa contra Jader (o que indu-
ziria a posicqo tamb6m contra Paulo
Rocha). 0 STF estaria disposto a con-
trariar a vontade da opiniao pdblica,
mesmo em defesa do mais ortodoxo
entendimento sobre a vig8ncia da lei
da ficha limpa ji na eleicgo deste ano
e a retroatividade dos seus efeitos?
Parece que nao. Uma decisao con-
traria sera uma complete surpresa.
Jaderjfi ficou dois anos sem qual-
quer mandate e sem poder institucio-
nal e nao s6 so-
breviveu, como vol-
tou ao control de
'- um terqo dos votos
no Para. Ningu6m
duvida, nem seus
piores inimigos, que
) mesmo nessa cir-
cunstincia, agra-
vada por nao con-
tar mais com um
'aliado no Palacio
do Planalto (onde o
apoio de Lula se
esvaneceu e o de
Dilma ou de Ser-
ra nao existe), Jader poderia voltar
a se eleger deputado federal na pr6-
xima dispute que haverA.
Mas provavelmente sem a condigqo
que hoje a distingue de todos os demais
politicos em atividade, colocando-o no
isolamento de uma posiqao superior. E
o que acontecera se sua presenga do-
minante deixar de ser entrave para o
avanqo de outras liderangas, inclusive
as que foram mantidas encolhidas den-
tro do PMDB. Mas, talvez, nao aquela
na qual Jader mais aposta e da qual mais
precisa: a do filho, H61der Barbalho,
prefeito de Ananindeua, o segundo mais
populoso municfpio do Estado. LA, Ja-
tene teve quase 45% dos votos, Ana
Jdlia menos de 30% e Domingos Juve-
nil menos de 16%. Sem comando sobre
seus pr6prios dominios administrativos,
H61der nao tem a dimensao polftica do
pai. E Jader Fontenele Barbalho jd nem
6 mais o mesmo.


OUTUBRO DE 2010. QUINZENA Jornal Pessoal 5







E a Terra continue a girar


No mesmo dia em que anunciavam
o resultado da eleigao geral realizada
na v6spera, gragas a uma apuraqio ul-
tramoderna, praticamente conclufda
apenas seis horas depois do fim da vo-
taqao, os jornais da segunda-feira se-
guinte dividiam o espaqo da cobertura
poliftica com notifcias que pareciam se
referir a outro pafs.
Era como se houvesse um muro in-
visfvel mas efetivo separando o
mundo das representag6es do universe
material. As criaq6es simb61icas de um
lado e a realidade concrete e viva do
outro. A dissociagio entire a political e a
sociedade. Entre o aparato institutional,
que regular e normatiza as relaq6es so-
ciais, e a vida cotidiana das pessoas.
Entre poder e povo. Entre governantes
e governados. Entre elite e massa.
A separaqao em si nao 6 patol6gica
nem privativa do Brasil: faz parte da
natureza humana. 0 tamanho da distan-
cia entire os que estao no alto da pira-
mide social e aqueles que mal os divi-
sam, a partir da base, de onde raramen-
te conseguem sair, 6 que constitui a prin-
cipal marca do Brasil. Marca negative.
De um dos pauses mais desiguais que
ha. Apesar de toda a ascensao social
promovida nos iltimos oito anos pelo
governor Lula, entire o nfvel da mis6ria e
o estrato inferior da classes m6dia.
Ojogo democrAtico do dia 3 foi prati-
cado, os eleitores compareceram As suas
seN6es, onde poucos foram os inciden-
tes, proporcionalmente ao tamanho do
pafs e ao volume da sua populagao, e os
votos digitalizados foram rapidamente
totalizados (ainda sem a prova material
do voto impresso, inovacao simples, mas
de efeito poderoso para afastar os recei-
os quanto A manipulaqao dos programs
da urna eletr6nica). Antes que o domin-
go se encerrasse jA se sabiam dos no-
mes de quase todos os eleitos ou daque-
les que ainda se defrontarao num 2* tur-
no, no dia 31. Poucas naq6es podem re-
alizar um espetAculo desse porte.
No entanto, fica a sensaago de que
a substancia das coisas n-o foi alcan-
gada pela manifestaago dos 111 mi-
lh6es de eleitores brasileiros que vota-
ram. Nem mesmo as formalidades do
process, conforme os parametros uni-
versais da democracia. A corte supre-
ma deixou pendentes definiq6es essen-
ciais sobre a legitimidade da votaq o e
a pr6pria lisura da tutela jurisdicional
do Estado.


O ziguezague das decis6es sugeriu
ao cidadao atento que o simbolo dajus-
tiga, aquela dama que decide com os
olhos vedados para nao distinguir os ju-
risdicionados, ministrando-lhes o direito
sem favorecimentos, se tomou figure de
ret6rica. Tantas esquinas, desvios e ata-
Ihos pelo caminho acabaram por pro-
duzir o bizarro: A iltima hora, o tiftulo
eleitoral se tornou figure decorative, su-
p6rflua, no process eleitoral. Indispen-
sAvel para a obtenqgo de passaporte ou
admissio no servigo pdblico, ele deixou
de servir A finalidade da sua criaqio:
ser o instrument do voto.
A ret6rica continuou a ser a marca
dos discursos, pautados pelos marque-
teiros, esses esteticistas cosm6ticos. Os
candidates dizem o que seus conselhei-
ros Ihes recomendam. Os assessores,
por sua vez, selecionam temas e pala-
vras conforme os indicadores de prefe-
rancia resultantes das pesquisas. A con-
seqii8ncia 6 os discursos se distingui-
rem apenas por matizes, uma ou outra
ideia mais extravagant, certo projeto
desligado de qualquer elo corn a reali-
dade ou a factibilidade, apenas para pro-
vocar impact e atrair expectativas fa-
voriveis. Tudo conduzido com muita
cautela para nao contrariar a ideia que
se tem do desejo do eleitor.
A maior surpresa na chegada ao dia
da votacao foi a suposta "onda verde" da
candidate do PV, Marina Silva. A mensa-
gem ecol6gica da senadora do Acre, po-
r6m, ji antes exaurirao seu potential sem
chegar aos 10% das preferencias. Suas
idaias eram conhecidas e se encaixavam
num quadro consolidado. A novidade fo-
ram as desastradas (ao menos da pers-
pectiva dos marqueteiros) declaraq6es
sobre moral e religiao da candidate do PT,
Dilma Rousseff.
Nesse moment parece ter-se esta-
belecido na mente dos eleitores, por con-
traste quase automAtico, a image de
Marina. Como evang6lica, ela se tomou
referencia segura para aqueles que se
move por esses impulses e repudiam o
aborto e outros costumes em mutacgo na
sociedade brasileira, ainda h procura de
uma acomodaqco no receitudrio legal do
pais, que ji nao casa corn a realidade.
A duplicaqco da votag~o de Marina a
partir dos dias imediatamente anteriores
a eleiqAo deve-se A migraiao de parte do
eleitorado de Dilma, por motivaqao moral
ou religiosa. Nada teve a ver com Jos6
Serra, do PSDB. Pouca relagio foi de-


tectada com os indecisos ou os que iri-
am votar em branco ou anular delibera-
damente seu voto. Nem corn o reconhe-
cimento, A 61tima hora, de que as ques-
t6es ambientais sao sdrias e precisam
ocupar lugar prioritArio na agenda do
governor federal. Ou a exig8ncia de que
sempre que um projeto apoiado pelo po-
der pdblico tiver impact sobre a nature-
za e as populacges locais, 6 necessdrio
dar tanta atengao aos custos economi-
cos quanto aos ambientais e sociais.
Essa equidade inexiste. Tanto na
agao em curso quanto nas promessas e
compromissos dos candidates. Tudo o
que eles disseram sobre essas quest6es
6 variaqao ao redor dos mesmos pon-
tos. 0 que os difere 6 a Wnfase que dao
a um projeto em detrimento de outro. A
pauta nao contdm inovag6es. A hist6ria
real continuarA no seu rumo como se
em 3 de outubro nada houvesse muda-
do. Nem mudard no pr6ximo dia 31.
Enquanto noticiavam as alteragoes
formais na representaqao political, os
jornais do dia 4 prosseguiam a sua roti-
na de acompanhamento de situaq6es
que ficaram ao largo das pautas dos
candidates. E que se desenvolverio in-
dependentemente de quem venha a ocu-
par o PalAcio do Planalto.
E assim que segue o cronograma dos
dois maiores projetos em vias de implan-
taqao no pais, ambos na Amaz6nia.
Antes de o m8s terminar, teri sido ins-
talado o canteiro de obras da hidrel6tri-
ca de Belo Monte, no rio Xingu, no Pard,
corn o licenciamento esperado do Iba-
ma (Instituto Brasileiro do Meio Ambi-
ente e dos Recursos Naturais Renovd-
veis). A empresa vencedora da licita-
9ao espera comecar a construir o porto
e alargar as estradas vicinais de acesso
ao canteiro. Antes do final do ano, es-
pera dar partida A engenharia civil da
usina de energia propriamente dita.
Como quem estA falando do 6bvio,
simples e inquestiondvel, a Norte Energia
anunciou que o custo de Belo Monte foi
reduzido (ao menos nas planilhas oficiais)
de 19,6 bilh6eg de reais para R$ 14,5 bi-
lh6es. Essa economia- nada insignifican-
te de R$ 5 bilh6es foi possivel porque,
ao inv6s de dois canais concretados de
desvio do rio, para levar a agua direta-
mente a casa de mquinas, 50 quil6me-
tros abaixo, seri construido apenas um
canal. Significa 70 milh6es de metros cfi-
bicos a menos de escavac~o. Assim, Belo
Monte jA nao movimentard mais rocha do


6 Jornal Pessoal OUTUBRO DE 2010 1 QUINZENA





, que o que foi registrado na constru5o do
canal do Panami.
A empresa nao explicou como che-
gou a essa mudanqa no projeto aprovado
nem lhe foram cobradas as informaq6es
sobre essa surpreendente modificaaio.
Apenas o Minist6rio Pdblico Federal ad-
vertiu o Ibama que, antes de licenciar a
obra, precisa obrigar os responsAveis a
cumprir as condiq6es previamente esta-
belecidas em relaqAo aos indios que mo-
ram na regiao. Sern isso, nada de licenqa
ambiental. Aengenharia civil e financeira
do projeto nao foi abordada.
0 mesmo Ibama recebeu simultanea-
mente os estudos ambientais da hidrel6-
trica de Teles Pires, uma das cinco usinas
que o govemo pretend construir na ba-
cia do rio Tapaj6s, comegando pelo aflu-
ente em Mato Grosso. 0 institute ficou
de se manifestar ate dezembro sobre esse
EIA-Rima, relative a uma hidrel6trica de
grande porte, com capacidade para 1,8
mil megawatts, para que o govemo faga
logo a licitagAo. Se as outras quatro fo-
rem constrnidas, o Tapaj6s fomecerA mais
energia do que Belo Monte, no Xingu.
ParA e Mato Grosso, que tem uma
longa e polemica divisa em linha seca,
jA estao acostumados (e, de certa for-
ma, anestesiados) por conflitos decor-
rentes de grandes projetos. 0 Amazo-
nas, o maior Estado da federagao, 6 que
vai comegar a se defrontar com esses
problems. Exatamente quando o seu
ex-governador, Eduardo Braga, que
conquistou ate fama international corn
sua "Zona Franca Verde", se elege se-
nador e faz o seu successor no executi-
vo amazonense, ja no 1 turn.
Os jornais do dia 4 denunciaram que
um garimpo clandestine esta devastan-
do floresta no sul do Estado, em area de
um quilOmetro quadrado, e degradando
muito mais do que isso, causando erosao
do solo, poluigio da Agua por mercuirio e
assoreamento das drenagens. A situaqio
vai piorar porque 10 mil garimpeiros ja
estao no local e as notfcias de ouro se
espalham. Muitos outros aparecerao.
"Terra da floresta", corn seus 1,5 mi-
lhao de quilOmetros quadrados ainda pou-
co tocados, o Amazonas ja esta na mira
do olho do satelite. 0 garimpo do Juma
estA em um dos 10 municipios do Estado
com crescentes areas desmatadas por
extratores de madeira, criadores de gado,
assentados e garimpeiros, segundo o sa-
telite. A litania da destruigio no Pard,
Mato Grosso e Rondonia comega a se
fazer present na maior area continue
de floresta tropical da Terra.
Como os brasileiros e os seus repre-
sentantes politicos acham que 6 assim


Ronaldo Maiorana perdeu em 1
grau a aqco de indenizaqio que mo-
veu contra o Didrio do Pard. 0 dono
do grupo Liberal nao conseguiu de-
monstrar os danos que alegou ter so-
frido (moral, A image e material)
pela publicagao no journal de Jader
Barbalho, em 2007, de notfcia que
considerou ofensiva. 0 director de 0
Liberal disse que o incident abor-
dado pela mat6ria aconteceu quando
reclamou pela demora para o seu
atendimento no posto de urgencia e
emergencia da Unimed na Doca de
Souza Franco.
Passados 15 minutes de espera,
ele foi reclamar da demora, "solici-
tando mais agilidade a uma atenden-
te". Nesse moment, "o m6dico
plantonista se aborreceu com sua
solicitagco", tentou agredi-lo e em
seguida "teria solicitado ao seguran-
ca do hospital que o retirasse da-
quele local, conjuntamente com um
amigo", sem ser atendido. 0 dire-
tor do grupo Liberal costuma andar
com amigos musculosos e agressi-
vos. Um deles me agrediu, junto
com seu amigo. Depois, descobriu-
se que era da Policia Militar, fora
do servigo.
0 Didrio do Pard noticiou o fato
como se fosse um "barraco", que Ro-
naldo Maiorana teria provocado, "ten-
tando se prevalecer de seu sobreno-
me e de sua situaaqo financeira para
passar A frente dos demais pacientes
que tamb6m estavam aguardando
atendimento no hospital", nem mes-
mo o ouvindo a respeito, para que ele
apresentasse sua versio. 0 objetivo
do jomal seria "criar uma situaqio de
antipatia" entire Ronaldo e os leitores,
"atacando a sua honra pessoal". Por
isso, o Didrio lhe devia indenizaiio
a titulo de danos morais e materials.


porque tern que ser mesmo assim, nio
ligamos para o que acontece alem dos
nossos narizes e da viseira dos discur-
sos. Talvez por isso o pafs nao tenha
visto qualquer utilidade em mandar re-
presentante para o encontro encerrado
dois dias antes das nossas eleig6es, em
Roterdam, o maior porto do mundo.
Nesse encontro, Estados Unidos,
Holanda, Egito, Indonesia e Vietna as-
sinaram a "Alianga Delta". Comprome-


Ajuiza Vera Aradjo de Souza, da 5"
vara civel de Bel6m, por6m, entendeu
que ele "nao se desincumbiu do 6nus
que lhes 6 imposto em lei para demons-
trar tal perda patrimonial, tendo em face
que nao carreou aos autos qualquer
document comprobat6rio do prejufzo
patrimonial efetivamente sofrido com a
veiculaqgo da noticia jornalfstica em
questao". 0 Onus da prova "quanto ao
fato constitutivo do seu direito" cabe
ao autor da ado, Ao r6u, a "existencia
de fato impeditivo, modificativo ou ex-
tintivo do direito do autor".
Para chegar a essa conclusio, a
juiza verificou que o inimo dojornal
foi o de narrar, nao se configurando o
excess no exercfcio da liberdade de
imprensa em relagio A tutela dos di-
reitos da personalidade (honra, ima-
gem e vida privada). A materia publi-
cada nao causou dano extrapatrimo-
nial a Ronaldo Maiorana, por se tra-
tar de fato pdblico e not6rio. 0 que a
reportagem Ihe provocou foi simpless
incomodo ou desconforto pela expo-
siqao do lado negative da figure pli-
blica" Nao houve, portanto, o que in-
denizar. Assim, em decision tomada no
dia 21 do mes passado, ela extinguiu
o process corn julgamento de m6rito
e condenou o director de 0 Liberal ao
pagamento de honorarios advocatici-
os de dois mil reais.
Decisio correta. Pena que outros
magistrados, ao examiner aq6es exa-
tamente iguais propostas pelos Maio-
rana contra mim, acabem por me con-
denar a indenizA-los, Numa dessas
aq6es estou ameaqado de sofrer as
penas da lei por ter publicado nestejor-
nal que fui espancado por Ronaldo
Maiorana, em janeiro de 2005. O0 agres-
sor disse que menti, o ofendi e preciso
reparar o ilicito cometido. Na verdade,
segundo ele, fui "apenas agredido".


tem-se a prevenir e combater os pro-
blemas que surgirem corn o aumento do
nivel do mar e o aquecimento global. 0
Brasil tern, na Amaz6nia, o maior delta
do globo, na foz do rio Amazonas, por
onde slo descarregados 8% de toda a
Agua doce superficial.
Mas enquanto o mundo gira e a Lu-
sitana roda, isso nao passa de detalhe.
O gigante adormecido nio se deixa atra-
ir por detalhes assim.


OUTUBRO DE 2010 1A QUINZENA Journal Pessoal 7


Maiorana perde























GOVERNADOR
A Associaqco Comercial do
Pard fez um banquet para
homenagear o general Za-
carias de Assuncgo, que
acabara de deixar o gover-
no do Estado, em 1956. 0
president, Ant6nio Martins
Jdnior, se referiu A gratidao
dos comerciantes porque o
governador "nos respeitou e
sempre nos proporcionou a
liberdade a que temos direi-
to". Al6m disso, "sempre
pagou o funcionalismo em
dia, e os fornecedores do
governor, s6 nao recebendo
quem nao quis". Se o suces-
sor procedesse como o an-
tecessor, receberia tamb6m
"as homenagens de reco-
nhecimento" do com6rcio.
0 successor era o caudilho
MagalhfesBarata, que vol-
tava ao poder depois da der-
rota para o mesmo Assun-
9qo, em 1950.

FUTURE
A Escola T6cnica Radio Te-
legrifica Rui Barbosa (mas
que funcionava na rua Ben-
jamin Constant) garantia que
mais de dois tergos dos alu-
nos que diplomou consegui-
ram emprego, "espalhados
por varios Estados do Brasil,
colocados no Departamento
dos Correios e Tel6grafos,
companhias de navega qo
area e maritima, bern como
na Aeroniutica, Ex6rcito e
Marinha". 0 diploma de ra-
dio-telegrafista era garantia
de present e de future, pro-
pagandeava a escola.


DEMOCRACIA
Em fevereiro de 1974 Ro-
mulo Maiorana tinha muitos
motivos para comemorar.
No ano anterior conseguira,
finalmente, a concessio de
um canal de televised em
Bel6m, o 7, depois de enfren-
tar a reagqo do SNI, o prin-
cipal 6rgao de informagio do
governor federal, que se opu-
sera A outorga por associar
seu passado ao contrabando.
Implantara o modern siste-
ma de impressed a frio, um
dos primeiros no Brasil a in-
corporar essa tecnologia, que
melhorou consideravelmente
a produgho de jornais.
Romulo dispunha naquele
moment de dois jornais dii-
rios: al6m de 0 Liberal, que
ji era o primeiro do merca-
do, a Folha do Norte teve
nesse ano uma das suas fa-
ses de circulagco (para que
Romulo nao perdesse o tftu-
lo do poderoso journal de Pau-
lo Maranhdo, morto oito anos
antes, que comprara da fa-
milia). E recebera daAssem-
bl6ia Legislativa o titulo de
cidadio paraense.
Para tantas comemoragoes,
convidou todos os deputados
para uma visit ao "palacio
da comunicaq&o", como cha-
mava a antiga sede da Fo-
lha depois de uma grande
reform. Era o inicio do dlti-
mo period da legislature,
naquele ano. Em nome da
oposigdo, o jovem Jader Bar-
balho louvou a iniciativa de
Romulo, cujosjornais "nun-
ca negaram A oposicqo a
oportunidade de que nossos
discursos cheguem ao povo,
porque se tal ocorresse, de
nada valeria o legislative,
pois nossas palavras morre-
riam nas quatro paredes do
palAcio".
JA o empresirio declarou que
falar em democracia "sem o
funcionamento das tribunas
parlamentares ou sem uma
imprensa livre e atuante, 6
falar em democracia restrita
ou inexistente. Ambos se
completam, e nos f6runs de


debates, que sdo os conse-
ihos legislativos e os jornais,
se forja o verdadeiro siste-
ma democrAtico".

JORNAIS
A visit dos deputados ocu-
pou quase toda a primeira
pigina dos doisjomais diari-
os que Romulo entdo pos-
suia. 0 Liberal circulou nes-
se dia (ja em off-set) com 24
pAginas em dois cadernos. A
a Folha do Norte teve 20
paginas em dois cadernos.
Era menor e ainda carrega-
va herangas dos dltimos e
nada gloriosos tempos, ja
sem Paulo Maranhao, que
morreu em 1966. Mas tinha
muito mais colunas e era
mais bem editada, o que deve
ter influfdo no seu desapare-
cimento. Nao podia ofuscar
o 6rgio-lider.
Nesse dia 0 Liberal esta-
va na sua ediqao 7.713, em
27 anos de exist8ncia, o
que dava pouco menos de


PROPAGANDA

Lojas RM
Ainda na fase
apenas de
empresdrio do
comercio, Romulo
Maiorana
inaugurou, em
dezembro de
1959, a terceira
loja da sua rede
de magazines:
depois de dois
pontos de venda
de confeccoes na
rua Jodo Alfredo,
o magazine na
avenida
President Vargas.
Sete anos depois
trocou o comdrcio
pela imprensa.


10 mil dias de circulacqo.
O ndmero da edigio esta-
va coerente corn o tempo
de vida da publicaqdo, que
nao circulou aos domingos
durante bastante tempo e
teve interrupq6es. A frau-
de na numeraqco (que ul-
trapassou 25 mil ediq6es
nos 61timos 36 anos) nao era
dessa 6poca e 6 provavel
que nem da gestdo de RM.
A Folha contava entdo com
as colunas de Lauro SabbS,
Joaquim Antunes, Odacyl
Cattete, Guaracy de Nrito,
Isaac Soares, Alexandrino
Moreira, Jodo de Jesus Paes
Loureiro, Edyr Proenqa e
Osvaldo Monteiro, al6m do
Informe FN, de H61io Guei-
ros e Newton Miranda. 0
Liberal s6 dispunha da Re-
portagem Social, de Vera
Cardoso Santos (hoje, Cas-
tro) e do Rep6rter 70, ainda
sem o "Em poucas linhas".
Apesar de tudo, a Folha ain-
da era melhor.


8 Jornal Pessoal OUTUBRO DE 2010 1J QUINZENA


pitr coaipletr sue eleglacfl I


INAUGURICAO
10 de Dezembro ,
Av. Pmrideni Vargm, 208 *
t34 L W-


_II


, 1 0 1













































FOTOGRAFIA

Imagem da hist6ria
0 registro da visit dos deputados a sede de 0 Liberal, no moment em que o lider do MDB, faz uma das trgs
saudafoes dos parlamentares ao dono do journal, que retribuiu. No sentido hordrio: Arnaldo Prado, Jader
Barbalho, Osvaldo Melo, Brabo de Carvalho, Romulo Maiorana, Ubaldo Correa, Gerson Peres (ao fundo, a
unica mulher no parlamento estadual: Ester Rossy) e Alvaro Paz do Nascimento. Estiveram ainda na visit Alfredo
Gantuss, Antonio Amaral, Victor Paz, Celio Sampaio, Antonio Teixeira, Lauro Sabbd, Josd Emin, Lourengo Lemos,
Carlos Costa, Carlos Vinagre, Jose Maria Chaves, Massud Ruffeil e Paulo Ronaldo. Paulo Lisboa e Haroldo
Tavares estavam viajando na ocasido. Fernando Brasil se encontrava doente. A Assembliia Legislativa tinha 23
deputados: 16 da Arena, o partido do governor, e sete do MDB.


ACIONISTAS
Nessa epoca, Romulo Mai-
orana tinha 8.500 das 10 mil
aq6es de Delta Publicidade,
a empresa que edita 0 Li-
beral. Control absolute das
decis6es, portanto. A distri-
buicgo das outras acoes de-


via-se A exig8ncia da lei das
sociedades an6nimas, mas
revelava o circulo mais pr6-
ximo ao empresario. 0 se-
gundo maior acionista era
Carlos Alcantarino, comr 350
aq6es. Sua esposa, Lucid6a,
tinha 195 aq5es. Oswaldo


Melo e Eladio Ribeiro (secre-
tario do jomal) possufam 88.
Newton Miranda, 52. Ti-
nham 35 aq6es cada: Alcyr
Meira, Joio Paulo Mendes,
Haroldo Pinheiro, Pedro de
Castro Lazera, Pedro Ren-
da, Vandevelde Pereira e


Rosita Ribeiro. E Manuel
Pinto da Silva Jr., Santana
Marques, Paulo Dias, Oda-
cyl Catete, Mario Rubens
Martins, Vinicius Bahury de
Oliveira, Jos6 Pingarilho e
Fernando Margal, 10 acoes,
mas preferenciais apenas.


Jomal Pessoal
Editor: Luscio FIlvio Pinto


Contato: RuaAristides Lobo, 871 CEP: 66.053-020 Fones: (091) 3241-7626
E-mail: lfpjor@uol.com.br jomal@amazon.com.br Site: www.jornalpessoal.com.br
DIagramagio e IIustrag6es: L. A. de Faria Pinto* E-mail: luizpe54@hotmail.com


OUTUBRO DE2010. 1 Q1UINZENA Journal PeSSOal 9







Sem op Ao

valida,

rest anular

o voto

Nunca faltei a uma eleiqgo sequer em 43
anos como cidadao na plenitude dos meus
direitos politicos. Sempre procurei um can-
didato para os meus votos, exceto em uma
eleigio, no period mais negro do regime
military. Com varios amigos, em Sao Paulo,
anulamos nosso voto, em protest, e pro-
pagandeamos o voto nulo. Em plena 6poca
de "milagre econ6mico", pordm, no gover-
no do general Garrastazu M&dici, raros nos
ouviram. 0 que a esmagadora maioria que-
ria era comprar seu carro, a televisao colori-
da ou jogar na loteria esportiva.
0 ambiente nao era exatamente como o
de hoje, mas cabe muito bem a correlagao.
O crescimento exponencial da economic
brasileira, comandada pelo todo-poderoso
ministry Delfim Netto (hoje, um dos conse-
Iheiros informais do president Lula), se
devia nao A nossa poupanga real nem As
nossas exportag es, mas ao maior endivi-
damento em moeda estrangeira de todos os
tempos e dos maiores do mundo.
Quando a conta chegou, foi um arraso.
Para nossa infelicidade, o general JoAo Fi-
gueiredo estava no comando do pais, semr
aptidao (e muito menos competencia e ape-
tencia) para o exercicio desse cargo. Delfim
continuava no poder, mas sem a forga de
antes. Seu reduto, o ministdrio da agricultu-
ra, s6 Ihe permitia cuidar de abobrinhas e
mandiocas. Nem ele deve ter-se empenhado


em ir al6m. Afinal, o pepino que plantou nas
contas nacionais estava estourando naque-
le moment como um gigantesco abacaxi.
Hoje, o valor das exportagoes atingiu pa-
tamar como "nunca antes". Esta hip6rbole Lula
pode utilizar, corn toda razAo. Nosso presi-
dente ficari nesse lado da moeda, como de
costume, sem olhar para o outro lado. Ou por
nAo querer ver, ou por nAo saber. Embora nos-
sas vendas externas tenham alcangado 126
bilhOes de d61lares at6 agosto (e quase US$ 12
bilh6es de saldo), 6 valor sem expressao no
conjunto das relaq6es de troca internacionais.
Nao s6 isso. t valor muito inferior ao potenci-
al dos recursos brasileiros.
Nosso guia nao comemora outra faga-
nha da sua gestao: o Brasil regrediu meio
sdculo quando, em 2008, na nossa pauta de
exportag6es voltaram a pesar mais as mat6ri-
as primas e os semimanufaturados. A dltima
vez em que isso ocorreu foi em 1958. O pior
que dos cinco principals produtos, tries sao
recursos naturais: mindrio de ferro, soja e
came. 0 primeiro, o de maior peso, nao 6
renovavel. Min6rio, como se sabe, nMo da
duas safras. Outro component perverso
dessa configuragio 6 a alta dependencia de
um dinico comprador, a China. Nem quando
estavamos sob a batuta dos Estados Uni-
dos fomos tAo dependents assim.
O resultado dessa composiqao 6 que o
Brasil fatura pouco e fatura mal, mesmo re-
gistrando, em valores nominais, records
de exportagqes, ano ap6s ano da era Lula,
"como nunca antes". 0 governor, que alar-
deia essas marcas in6ditas e se diz fomen-
tador do com6rcio exterior, 6 o mesmo que
sabota as vendas do Brasil ao mundo atra-
v6s dos juros altos que pratica corn os seus
papdis.
Os especuladores, estao desviando os
d6lares que tem para aplicagao em renda


fixa nos tftulos do governor brasileiro. Nao
ha aplicagio mais rentvel em todo merca-
do financeiro international. A enxurrada de
moeda estrangeira que penetra no pais va-
loriza artificialmente o real, tira a competiti-
vidade do produto brasileiro e corr6i os lu-
cros do exportador, que sustenta suas van-
tagens pelo volume do que produz e por
uma sdrie de mecanismos lfcitos ou nao.
Esses ganhos responded pelo enriqueci-
mento no alto da pirimide social, muito
maior do que a reduqAo da faixa da mis6ria e
a ascensAo dos pobres ao primeiro estrato
da classes m6dia.
0 principal veio, no entanto, 6 o finan-
ceiro. Corn juros reais que sao duas, tres,
quatro ou mais vezes superiores aos que
os de qualquer outro pais, os especulado-
res encheram os cofres do Banco Central
de dinheiro. Essa fortune vai parar nos bol-
sos de uma elite cada vez mais endinheira-
da: os brasileiros sao agora freqiientadores
habituais das listas dos homes mais ricos
do planet, o que mais uma vez "nunca
houve antes".
Tamb6m virou investimento h larga, em-
bora nem sempre bem lastreado, muito ao
contrrio, como deu mostras o BNDES ao
long deste ano, embolsando R$ 150 bilh6es
do tesouro national, a mais dos seus recur-
sos pr6prios e ganhos operacionais. De fato,
financiou empresas nacionais, mas tambem
deu cr6dito As estrangeiras e foi parceiro na
acelerada desnacionalizagao da economic
brasileira (Lula nega que isso ocorra, mas
como foi que a Portugal Telecom se tornou
dona da Oi, enchendo os bolsos da Andrade
Gutierrez e de Carlos Jereissatti?).
Esse excess de liquidez se transform
igualmente em cr6dito, que financial nao a
formaqao de poupanqa real, mas, sobretudo,
o consumismo, de varejo e atacado. Um ter-


CARTASAODEMTtO


VEKDADB
Foi cornm profunda decep5io
que li a edig o de numero 471
do seu Jornal Pessoal. NIo pode-
ria imaginar que, atravds das
pginas de um journal que acre-
ditei ser progressista, um journal
que pensei ser de combat aos
poderes arcaicos que dominam
o pals nos iltimos 100 anos, fos-
se capaz de publicar um texto
tao carregado de chav~es que a
grande midia conservadora ado-
ra vomitar quando se refere ao
popular Governo do atual Presi-
dente do Brasil.
Talvez o texto possa passar
pelos incautos e incultos, que
poderlo, de uma forma aluci-
nada, enxergar num governor
democraticamente eleito e re-
eleito (regra essa colocada
pelo seu antecessor), algo que
lembre Bonaparte, Hitler e
Mussolini. t preciso muito, mas
muito mesmo, o desconheci-


mento da Hist6ria para fazer
qualquer tipo de ilaglo entire
o atual moment do Pais cornm
o passado das Nag0es inferi-
das aos citados lideres.
Outra desinformago (sera
intencional ou 6 desconheci-
mento mesmo?), que se tornou
uma "cantilena enfadonha"
(como diria certa candidate das
Oltimas eleig5es presidenclais)
na mfdia conservadora, L atribuir
todo o m6rito do Piano Real ao
ex President Fernando Henri-
que Cardoso, num total desres-
peito para cornm quem tomou a
decislo political em sua implan-
tagio, o ex Presidente Itamar
Franco. Conforme ia lendo, me
vinha a impressio que estava
corn uma revista Veja nas mros,
o que me obriga a deixar de ler
o seu journal (serd um desejo
oculto em ser colunista dela?).
Me desculpe, mas essa edi-
cgo terd o destino certo da lata


do lixo. No local onde guard
alguns nOmeros anteriores, co-
locarei um adesivo: "aqui jaz
um jornalista que acreditei ser
progressista".
Carlos Valente

MINHARESPOSTA
Ndo 6 raro que a verdadeira his-
t6ria tenha de ser resgatoda de
latas de lixo, nas quais foram ati-
radas par aquelas pessoas que ti-
veram suas opini5es contrariadas,
mesmo quando sem sustentagoo
nos fatos (o Piano Real foi conce-
bido no governor Itamar Franco,
mas s6 a partir do moment em
que FHC trocou o Ministdrio do
Exterior pela Fazenda, atendendo
a uma convocago feita pelo pre-
sidente sem direito a negative,
conforme j6 d pdblico e not6rio).
Acho que este d o caso.
A maolr qualidade do demo-
cracia brasileira (e do pr6prio
pals), ao menos neste momen-


to, em que se vive a mais long
perlodo de democracia de todo
o repdblica, d que poderosos do-
tados de impulses autoritdrios,
personalistas, eg6latras e de um
populismo oportunista, como
Lula, tiveram que se sujeitor a
uma reagdo do povo contrdria
aos seus desejos. Foi a maior
conquista do 19 turn do elei-
cao, que diminuiu a expressed
do 29 turn.

JOURNAL
Acabei de ler seu texto Lula:
o bom ditador e escrevo no ca-
lor da hora. JA repliquei e di-
vulguei para todos os amigos.
Obrigada por compartilhar
corn a gente sua anAlise idci-
da e precisa. E s6 para reto-
mar tamb6m um pouco da his-
t6ria. S6 ela nos dird se Dilma
serA para Lula o que o Dutra
foi para o Vargas.
Concel;io Globovante


10 Jornal Pessoal OUTUBRO DE 2010 1 QUINZENA






go da riqueza national 6, hoje, cr6dito, "como
nunca antes". Mas e isso 6 certissimo, sem
precisar de pesquisas de opiniao ou perqui-
riqao academica a hora do acerto vai che-
gar, como chegou na ressaca do "milagre
econ6mico" dos militares. Provavelmente as
primeiras contas serao apresentadas para o
successor de Luiz InAcio Lula da Silva.
0 tempo avanqa contra a manutencao
do clima de euforia e otimismo, razao de Lula
ter decidido eleger um "poste eleitoral"
como successor, de olho em 2014, quando
teria nos quadros do PT candidates (como
Jacques Wagner, reeleito corn tranquilida-
de governador na Bahia) mais fAceis de le-
var, corn maior coerencia partidaria e menos
suscetifveis a uma campanha como a que
provocou o 2* turno, contra todos os prog-
n6sticos de decisao imediata e que, agora,
ameaga a vit6ria de Dilma Rousseff.
Lula deve ter considerado os nimeros
da sua gestao arma mais do que suficiente
para lhe permitir eleger quem quisesse. A
prova dos nove seria os 80% de aprovacgo
popular ao seu governor. A aprovagao 6 real,
a satisfagio 6 evidence, os motivos para a
vit6ria do PT consistentes, mas tudo isso
baseado numa percepqao superficial da re-
alidade, na falta de informaq6es mais repre-
sentativas ou na incapacidade de analish-
las em seu significado mais profundo.
Fernando Henrique Cardoso transfor-
mou a sua presid6ncia, que comecou corn
um merecido alto nfvel de aprovagao e res-
peito, numa aventura danosa ao pais a par-
tir do moment, ainda no primeiro mandate,
em que comegaram as armaq6es de todos
os tipos para violar a Constituigao e intro-
duzir o nefando institute da reeleiqao. Os
erros, os vicios, os acertos e as improbida-
des viraram caldo de cultural dos arranjos
feitos para que ele tivesse mais quatro anos


de mandate. 0 castigo foi sair do Palacio
do Planalto sem a aura de estadista e o es-
teio de popularidade com que chegou.
Lula nao precisou brigar por essa pren-
da. 0 que tratou foi de utilizar seu carisma,
sua estrela e a identidade at6 fisica com o
brasileiro m6dio para criar e usar um poder
pessoal "como nunca houve igual". Todas
as circunstancias conjunturais (e algumas
estruturais) o favoreceram, inclusive a medi-
ocridade generalizada dos politicos em ativi-
dade no pais, partilhada com destaque pe-
los oposicionistas. Como transcended a ma-
nipulaglo dos marqueteiros, corn suas pes-
quisas e cinto das mil utilidades, a marca Lula
se imp8s a todos e os nivelou bem por baixo.
Viraram clones do politico mais bern sucedi-
do da hist6ria national (o que nio quer dizer
o melhor nem o mais important, ao contrA-
rio do que pensa o presidente.
Como nAo ve-lo corn os melhores olhos
se as exporta96es nos seus dois mandates
passaram de um trilhAo de d61ares acumu-
lados, deixando um saldo commercial (abati-
dos os US$ 812 bilh6es de importaqces) de
US$ 251 bilh6es? I uma fananha realmente.
O problema 6 que o balango na conta de
serviqos (puxada pelo pagamento de US$
142 bilhoes de lucros e dividends remeti-
dos pelas empresas estrangeiras, mais US$
82 bilh6es de juros liquidos retirados pelos
aplicadores) foi negative em US$ 315 bi-
lhoes. Como conseqUiencia, o deficit nas
transag6es correntes em 94 meses de Lula
alcanqou US$ 37 bilh6es.
0 balanco de pagamentos do Brasil ain-
da 6 positive, em US$ 203 bilh6es graqas ao
investimento Ifquido e novos empr6stimos
e financiamentos. As reserves monetirias
no caixa do Banco Central somam impressi-
onantes US$ 280 bilh6es, mas o deficit nas
transagces correntes evolui rapidamente. S6


neste ano, at6 agosto, ele ji era de US$ 31
bilh6es. Deverd chegar pr6ximo de US$ 50
bilh6es at6 o final do ano.
Talvez o dano seja suportAvel, se os apli-
cadores nio retirarem de silbito o seu di-
nheiro, por algum fator aleat6rio ou em fun-
qao da persistencia da crise financeira inter-
nacional. Ou se o governor reduzir os juros,
diminuindo a rentabilidade notdvel desses
especuladores, para tentar fortalecer a eco-
nomia national, impedindo que ela entire na
fase descendente do ciclo de prosperidade.
TerA vontade, folego e capacidade para tal?
Do meu ponto de vista, 6 duvidoso. Mas
essa fraqueza nao se deve a Lula. Ele ape-
nas a manteve, mantendo toda a estrutura
financeira herdada de Fernando Henrique
Cardoso. Esta 6 a razao do seu sucesso,
energizado pela maior repartiqIo social do
bolo do enriquecimento, que nao teria cres-
cido se sua ascensio nao tivesse sido an-
tecedida pelas polfticas de estabilizaqio mo-
netAria. 0 problema sio os outros compo-
nentes, que ameagam tornar efemeras as
conquistas obtidas ou proporcionadas -
nos iltimos anos.
Lula 6, por essa 6tica, uma extensao de
FHC, assim como Dilma 6 apenas o antago-
nismo de Jos6 Serra, ambos fazendo suas
evoluq6es sobre o pano de fundo que vem
sendo tecido desde Fernando Collor de
Mello (quando comegaram de fato as priva-
tizag6es) e nio cessou seu cerzimento at6
hoje. No piano national e tamb6m no regio-
nal e no estadual.
Por isso, e por mais coisas, voltarei A
excegio que abri A minha rotina de eleitor
durante o "milagre econ6mico" do regime
military: votarei nulo. E, com sincero pesar,
recomendo aos meus leitores que faqam o
mesmo, se suas consciencias Ihes impuse-
rem tal attitude. NAo etemos candidate que
valha a pena.


-II IIIO-III


dBlIO
Pelo que escutei na Radio
Cultura na entrevista dada por
seus dirigentes, o Arraial do
Pavulagem tern por objetivo,
juntar o resgate cultural dos
folguedos amaz6nicos e edu-
cavgo ambiental, a criangas e
families em situag5es de risco
social.
t uma pretenslo louvAvel,
para uma regilio que vem sen-
do perturbada em sua essen-
cia original ao long de qui-
nhentos anos, e mais violen-
tamente nos 6ltimos quaren-
ta, quando comeCava a experi-
mentar uma normalizacgo ja
miscigenada.
Acreditamos, entretanto, que
para resgatar e ou conservar 6
preciso cautela.
Uma coisa que nio condiz
com a tradigio amaz6nica e
brasileira 6 a cultural de quem
grita mais forte, imposta a n6s


pela culturala das micaretas"
nada amaz6nica.
Sabemos porem, que micare-
ta L micareta, tern quem goste
e por isso em nome de um con-
vivio democritico e da toleran-
cia ao "novo" as aceitamos.
JA o Cirio de Nazard em sua
tradiClo de muitos fogos e de-
vido As inevit6veis mudangas
forCadas pelo tempo, 4 um
event com muito barulho, mas
sempre voltado para a Virgem
de Nazar6.
A chegada do Cirio Fluvial nio
poderia ser diferente. Buzinas
de navios, fogos, bandas, mill-
tares, motocicletas mil e prin-
cipalmente os helic6pteros.
Nesse meio, escutava-se
tamb6m o rufar dos tambores
do Arraial, o que pode ser acei-
to como just homenagem A
padroeira dos paraenses.
0 que seria dispensdvel,
era a gritaria vinda do carro


som dos puxadores do cordio
do Pavulagem, disputando
corn a Santa a atenaio dos
presents.
A inserCio desse "novo" ruido
no event, visivelmente desa-
gradava a quem pretendia se
concentrar no desembarque da
Virgem.
Qual a necessidade e o objetivo
dessa "demonstracio de forCa"?
Para quem tern a pretensio
de unir tradicio A educaclo
ambiental e levar uma nova
mentalidade a pessoas em si-
tuac;o de risco social, 6 um
equlvoco de principios.
Seria bom que isso fosse revisto.
Creio que a educacgo amblen-
tal, a cultural amaz6nica e o bom
senso, ficariam agradecidos.
Alonso Edler Uns

AWIVhsAO
Receba meus mais sinceros
e agradecidos parabdns pelos


23 anos do JP. Sua persist&ncia
e coragem merecem todas as
honras sempre nao s6 nos
aniversArios, mas a data 6 opor-
tuna para lembrar. Vida ainda
mais longa ao JP e ao seu edi-
tor, que mesmo cansado, 6
muito necessario.
Charle Coimbra

FIAIAR
N6s filhos e a esposa do sau-
doso Joseph Farah, gostariamos
de agradecer a homenagem
prestada por voc6 na ediaio nQ
473 do Jornal Pessoal. Ficamos
felizes e contents, pois nosso
pai era um cara muito bacana e
brincalhAo. Espero que em sua
nova morada ele encontre a paz
celestial e Nossa Senhora de
Nazare o cubra cornm seu manto
maternal e interceda junto a seu
filho Jesus Cristo por um novo
cristio que acaba de subir.
Patrice Farah e Familia


OUTUBRO DE 2010 12QUINZENA Journal Pessoal 11







As cenas no Chile e as nossas minas


Um bilhlo de pessoas em todo mun-
do acompanharam, na semana passa-
da, o resgate de 33 mineiros na mina de
San Jos6, no desert de Atacama, no
Chile. Alguns milhares de pessoas fize-
ram esse acompanhamento corn mais
atenqao aos detalhes. A16m de estarem
interessadas na sorte dos trabalhadores,
que ficaram press numa das galerias,
a 700 metros de profundidade, tentavamrn
aproveitar as liq6es da situagdo para
usA-las em causa pr6pria.
Foi o caso dos chineses. A cada ano,
entire dois mil e tr8s mil mineradores
morrem nas lavras subterrineas, nao de
cobre, como no Chile, maior produtor
mundial do min6rio, mas de carvdo mi-
neral, que mant6m em funcionamento
as termel6tricas, das quais saem 80%
da energia consumida por 1,3 bilhao de
habitantes da naqao mais populosa da
Terra. E muito mais do que a m6dia de
30 a 50 mortes anuais que acontecem
no Chile, na busca pelo cobre, produto
responsAvel por 60% do com6rcio ex-
terior do pais. Ou nos Estados Unidos,
onde o drama de Atacama tamb6m teve
grande audiencia.
A conclusdo geral 6 de que sdo pre-
cArias as condiq6es de seguranqa nessa
important atividade econ6mica. 0 Chi-
le nem assinou a convencgo internacio-
nal da OIT sobre sadde e seguranga na
mineraqo. Por sorte, o acidente acon-
teceu numa grande mina organizada. Se
fosse em alguma das minas informais,
que funcionam A margem das mais ele-
mentares regras de operagqo, o final di-
ficilmente seria feliz. Mesmo o sucesso
do salvamento dos mineiros de San Jos6
nao conseguiu esconder a escandalosa


precariedade do trabalho em minas. Umrn
dos mineiros resgatados, mal saiu do bu-
raco, fez a cobranqa direta e firme -
ao president Sebastian Pifiera, que o es-
perava com ares de salvador.
O epis6dio tamb6m podia ser obser-
vado com proveito no ParA, que jA tern
varias grandes minas em funcionamen-
to. Todas corn uma diferenqa substanci-
al em relacgo ao que ocorreu no Chile:
sao jazidas tdo ricas A superficie que
permitem a lavra a c6u aberto, sem a
necessidade de aprofundar a extraqAo.
E chocante, para quem viu a paisagem
antes do inicio da mineracqo, contempla-
la depois que tudo virou um buraco ou 6
uma sucessao de plataformas. Mas os
acidentes sao minimos.
O que impression (mais em CarajAs
do que em qualquer outra mina) sao as
mAquinas gigantescas, operadas com fa-
cilidade por trabalhadores bem treinados,
gragas aos recursos tecnol6gicos de que
disp6em. Como esses equipamentos re-
presentam um alto investimento de capi-
tal e tecnologia, seus proprietArios tern
que resguarda-los atrav6s da melhor ca-
pacitagao dos operadores. E de control
e supervisor superpostos.
Se ainda hA acidentes (e hi numa fre-
qiiencia maior do que a que se podia es-
perar), como o que vitimou um cidaddo
marabaense em 2007, esmagado pelo
maior caminhio de carga que existe
(corn capacidade para 240 toneladas), 6
por negligencia dos responsAveis pela
programaqdo das atividades. A questAo
de maior relevbncia 6 o desrespeito aos
direitos trabalhistas. Por isso, as duas
juntas do trabalho de Parauapebas sao
das mais congestionadas do pafs.


Compra de jornais


A apenas uma semana do 1 tur-
no da eleigdo, o governor do Estado
resolve gastar quase 1,7 milhAo de
reais comprando assinaturas dos jor-
nais dos Maiorana e dos Barbalho.
O pretexto foi a distribuiqao de
exemplares do Didrio do Pard e de
0 Liberal (e talvez tamb6m do Ama-
zonia) As "unidades escolares da
rede estadual de ensino pdiblico". A
contrataqAo foi realizada sem con-
correncia pliblica, considerada ine-
xigfvel. 0 contrato entrou em vigor
no dia 24 de setembro, perdurando
at6 23 de setembro do pr6ximo ano.


A iniciativa 6 supostamente de
cunho pedag6gico, mas seu signifi-
cado eleitoral 6 evidence. Instruir os
estudantes 6 o pretexto. Seduzir a
grande imprensa diaria paraense, o
objetivo verdadeiro. Afinal, o con-
trato entrou em vigor no perfodo fi-
nal do ano letivo e persistira sem in-
terruppdo at6 setembro de 2011.
Para onde irao os exemplares du-
rante as f6rias escolares? Quem irA
controlar a distribuigqo dos exem-
plares dos jornais?
Corn a palavra, o Minist6rio
Piblico.


Esse indice exagerado de demands
deve-se ao fato de que, dos 15 mil tra-
balhadores na mina de ferro de Carajis
(a mais important do mundo), 12 mil
sao terceirizados. A Companhia Vale do
Rio Doce privatizada conseguiu mudar
a relacqo que havia entire funcionarios
da estatal e os empregados das tercei-
rizados: a posigqo destacada dos primei-
ros era cobiqada pelos segundos, cuja
maior ambiqdo era se tomarem contra-
tados da CVRD.
Hoje, o pessoal de nfvel inferior da
Vale quer passar para as empreiteiras,
onde podem ganhar melhor, a despeito
da inseguranqa na continuidade no em-
prego, pelo intense turn-over (mal tra-
duzindo, revezamento compuls6rio, im-
posto pelos interesses do patrdo), pelo
fato de que a demissdo emjuizo sai mais
barato do que o respeito aos direitos tra-
balhistas desde o inicio e porque tamb6m
6 precAria a estabilidade na principal fir-
ma contratante, a pr6pria Vale.
Enquanto isso, a ex-estatal bate se-
guidos records de lucratividade, inves-
timento e distribuiqdo de resultados, tor-
nando-se uma das empresas que mais
distribui dividends, favorecendo os de-
tentores de aq6es preferenciais (eles
nao participam das decisoes, mas sao
os primeiros a receber sua cota dos
enormes lucros). Parte dessa rentabili-
dade deve-se A efici8ncia da corpora-
9ao, mas tres fatores sao fundamentals:
a riqueza excepcional do min6rio de fer-
ro de CarajAs, o fato de ele estar locali-
zado nas camadas mais superficiais do
subsolo (possibilitando a lavra a c6u
aberto) e o crescimento exponencial do
consume da China (que tamb6m pro-
vocou a alta record dos preqos do co-
bre, desencadeando uma corrida peri-
gosa a todos os dep6sitos identificados
no Chile, corn sacrificio das condiq6es
de trabalho e de seguranqa).
Os paraenses sao donos dos dois pri-
meiros fatores, mas nio sao remunera-
dos por essa condiqdo na mesma medi-
da em que os acionistas da Vale. Corn
urn Onus tributario que equivale, hoje, a
menos da metade da incid8ncia de 1997,
quando a estatal foi vendida, e uma com-
pensaqdo financeira irris6ria, o ParA, de
olho nas cenas emocionantes do resgate
dos mineiros chilenos, tem que tomA-lo
como inspiraqo para cobrar seus direi-
tos sobre o patrim6nio tao valioso que
sAo as suas minas. Antes que entire em
operaqao a primeira em profundidade.
Exatamente para extrair o cobre, como
o Chile faz hA muitas d6cadas.