<%BANNER%>
PRIVATE ITEM
Digitization of this item is currently in progress.
Jornal pessoal
ALL VOLUMES CITATION THUMBNAILS PAGE IMAGE ZOOMABLE
Full Citation
STANDARD VIEW MARC VIEW
Permanent Link: http://ufdc.ufl.edu/AA00005008/00352
 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00352

Full Text



SETEMBRO
DE 2010
2aQUINZENA


J(


ELEICAAO


Vitoria de Lula

"Nunca antes" um president da reptblica teve presenga maior na campanha eleitoral
do que o seu candidate. Lula se comportou como cabo eleitoral para fortalecer Dilma
Rousseff, que, sem ele, seria um poste eleitoral. Se ganhar, ela governard?


L uiz Inicio Lula da Silva tinha
tudo para encerrar na condigao
de estadista seus oito anos
como president da reptiblica. Sua po-
pularidade, de 80%, 6 record. 0 saldo
da sua gestao 6 altamente superavitA-
rio. Contra todas as expectativas, ele
se tornou personalidade international.
Por que, entao, o pais se acha sob umrn
estado de comoqao que contrast corn
a aprovaago dada ao president?
A culpa principal 6 do pr6prio Lula.
Al6m de cultivar a gl6ria que Ihe 6 devi-
da, ele estA buscando uma perenidade
indevida. Apostou no culto A sua perso-
nalidade e na acumulagio de um poder


pessoal desmesurado, autoritbrio, que
nao se harmoniza com a democracia.
Passou a ser uma figure plebiscitAria, que
nio admit meio termo: quern no estA
ao lado dele 6 tratado como inimigo; aos
aliados, todas as franquias da lei e muito
al6rnm; aos inimigos, o opr6brio.
Esse modo de se conduzir ferrnmentou
um ambiente de sectarismos, facciosis-
mos, oportunismos e mA f6 que nao con-
diz com o espfrito de tolerancia pr6prio
da democracia. Ficou impossfvel esta-
belecer uma posigio com base em ar-
gumentos racionais, maturados, neces-
sdrios para uma anilise 16gica ou uma
abordagem factual. Os campos se ex-


tremaram a tal ponto que quern critical o
president compete crime de lesa-pitria,
enquanto os seus inimigos se superaram
nas artimanhas contra sua candidate. Uns
e outros s6 enxergam conspiraq es e
golpismos, como se de fato vivessemos
moment de traumas e rompimentos.
Vftima de uma vaidade que s6 en-
contra paralelo no seu antecessor, Fer-
nando Henrique Cardoso, Lula se con-
venceu de que sua legitimidade, funda-
mentada na maciqa aprova;ao popular,
que decorreu de suas virtudes excepci-
onais e de alguns outros fatores, nao
tem limits. Patriarca national, ele po-
.ONTiUA .NA PiGS


EM Qh'i kEi i VO


)rnal Pessoal
A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO

~~07
gee


XI


QUANTOS NO CI-3^RHOI


NO 473
ANO XXIV
R$ 3,00






deria fazer o que bem quisesse, jA que
o que quer 6 sin6nimo do bemrn national.
Ele 6 o povo, a individualidade gemina-
da ao coletivo. Nao 6 improcedente a
comparaAqo ao "rei-sol", (o tamb6m)
Luiz XIV, para quem "1'6tat c'est moi".
Caberia ainda outra fase retumbante:
"eu sou a hist6ria".
Sem esperar pelo juizo de terceiros,
Lula se atribuiu o ano zero da nova his-
t6ria do Brasil, que passa a ser demar-
cada por dois moments: AL (Antes de
Lula) e DL (Depois de Lula). Ele 6 real-
mente um marco hist6rico, mas nao o
inico marco, certamente nem o princi-
pal da fase republican. Mas o "antes"
nao pode ser traduzido pelo "nada", nem
o "depois" pelo "tudo", como pretend o
president, cada vez mais cativado pelo
absolute como seu atributo pessoal.
Como raros antes dele, Lula tern nas
maos a possibilidade de fazer seu su-
cessor. Ele achou que o candidate seria
quem ele quisesse, sem consultar seu
pr6prio partido ou os aliados. Elegeria
um poste. E foi buscar um: Dilma Rous-
seff. A metafora nao implica desmere-
cer a pessoa da ex-ministra ou estig-
matiza-la por seu passado, que cont6m
erros e acertos, nio numa media que
sirva a sua condenaaio ou exaltacao
por pressuposto, como premissa. Dilma
nao tinha qualquer expressao eleitoral
nem sua biografia autorizava a consi-
dera-la em condig6es de descer de para-
quedas no posto mais elevado da vida
pdblica national.
Quando surgiram as primeiras difi-
culdades para firmar a candidate, agra-
vadas por sua condigio de sadde, Lula
recorreu a todos os meios para fortale-
ce-la. Acabou por sufoca-la, reduzindo-
a a um fantoche de si. Abandonou as
responsabilidades, veleidades, encargos
e rituais da fungao para se tornar um
chefe de partido, semjamais abdicar dos
recursos ao alcance do chefe do poder
executive. Para ser coerente corn seu
estilo hiperb61lico, nunca um president
usou tanto a maquina pdblica em favor
de um candidate quanto Lula. Em outra
circunstAncia, se seu candidate nio fos-
se um poste, bastaria que ele empres-
tasse a forNa do seu carisma, populari-
dade e dividends politicos para dar a
vit6ria ao seu successor. Sem precisar
abusar tanto.
Nenhum outro president desfrutou
de um poder pessoal tio gigantesco
quanto Lula. Este fato ji recomendaria


cautela no exercicio de tal poder, se o
seu detentor tivesse uma formaqio re-
almente democratic, e exigiria da so-
ciedade um acompanhamento crftico
constant, atrav6s das vias adequadas,
sobretudo dos outros dois poderes insti-
tucionais (o legislative e ojudicidrio, mais
o hoje retraido Ministario Piblico, o 40
poder) e da imprensa.

V problema 6 que a tra-
et6ria de Lula, desde
a passage da vida
sindical para a atividade po-
litica, aeumula eontradig6es
desconeertantes, embora nAo
para quem so auto-define
come contradigio ambulante.
Lula nao volta aos pr6prios passes para
ever o que fez e admitir que errou,
quando errou de fato, corrigindo os ru-
mos. Pelo contrario: ele reescreve a
cada dia sua trajet6ria at6 a v6spera e
nao tem o menor constrangimento em
atribuir um novo valor ao que pratica,
quando em descompasso corn o que dis-
se ou fez.
t facil tranar a linha torta dessa ca-
minhada, mas Lula nio se incomoda:
como ele nio escreveu o que disse e
seu entendimento da hist6ria 6 puramen-
te oral, a tarefa de aprova-lo ou conde-
na-lo fica para seus correligionbrios ou
inimigos. Ele se senate impune. Nada
deve. Nada o acusa. Porque de nada
sabe, exceto aquilo que diz e faz, num
ziguezague que apenas confirm a di-
mensio do seu poder pessoal. A inica
voz que influi nas suas decis6es 6 a que
ele pr6prio emite.
Para tirar-lhe todo valor, inclusive
aqueles que estao acima de qualquer
divida, seus inimigos contaminam suas
posic6es pelo uso de ma-f6, preconceito
e manipulaqces. Para contraditA-los, os
lulistas (neologismo que nio se confun-
de corn o petismo, antes o superando,
quando nao colide com ele) distorcem os
fatos (ou os inventam) e anatematizamr
os oponentes, aplicando-lhes adjetivos
refratarios a verificagio, A demonstra-
qao, ao teste de consistencia. Corn sua
matriz na oralidade, 6 um debate infrutf-
fero, que nao se consolida e nao permit
avanWar de maneira consistent.
R6tulos pra 16 e pra ca, 6ditos para
cima e para baixo, o Brasil foi atingido
por um raio de passionalidade e subjeti-
vismo que vai dissociando a realidade
da sua modelagem ideol6gica, o que d
do que deve (ou precisa) ser. 0 mun-


do conceitual, formado A base de con-
ceitos absolutistas, acaba preponderan-
do sobre as situag6es de fato. Daf o
roooio dc quc catcjaimou avunyanco nao
sobre as nossas potencialidades reais,
corn dominio das situaq6es e conheci-
mento de causa, mas por impulso de
vontades categ6ricas, muito al6m do
control dos cidadaos.
Depois de achar que podia enganar
a opiniao pdblica apresentando-se como
se fosse a extensio do president po-
pular, a oposigio, ao ser desmistificada,
recorreu a velhos ardis moralistas e A
capacidade que tern de se fazer ecoar
na grande imprensa. Nem todos os ar-
gumentos eram improcedentes. Pelo
contrhrio: a maioria deles 6 verdadeira.
S6 que seus autores perderam a autori-
dade moral para formulf-los e nao con-
seguiram escapar A descrenga.
A persistancia dos indices de apro-
vaqao a Dilma Roussef estimularam
Lula a se tornar mais agressivo. Ele
passou a ignorar as regras de conten-
g9o dos excesses do president e o res-
peito aos outros elements institucionais
indispensAveis A democracia. Colocou
a candidate para tras das cortinas e as-
sumiu o lugar dela no centro do palco,
algo que tamb6m nunca se tinha visto
antes. 0 efeito dessa postura 6 que a
candidate passou a ser um fact6ide do
seu padrinho, podendo-se atribuir ao seu
peso (ou A falta dele) a diferenqa entire
os 80% de popularidade do patrocina-
dor e os seus 50% de prefer8ncia entire
os cidadaos abrangidos pelas pesquisas
de opiniao.
0 dia depois da eleiago, se ela for
se tornara mais dramatico por causa
dessa circunstincia: urna candidate sem
identidade poderd comandar um gover-
no com autonomia? Dependente do pa-
drinho, que fez campanha em seu lugar,
para isso (como os tucanos anteriormen-
te) ultrapassando o limited da responsa-
bilidade, sem os contrapesos que devi-
am estar ativos se a democracia funci-
onasse adequadamente, o governor Dil-
ma agira por comando externo, como
eco de um sujeito oculto, cuja voz nao
se recolherf A vida privada?
Diante dos problems que se apre-
sentam, que sao muitos e sAo de grande
significado, como a avalanche de des-
nacionalizagao da economic pelas ope-
raq6es de aquisiago vindas sobretudo da
Asia, combinada corn a espiral dos pre-
jufzos no balanqo de pagamentos, a efi-
ciencia do governor, que ja estA sendo


a Jornal Pessoal SETEMBRO DE 2010 1' QUINZENA





posta em prova, nao sofreri perda ain-
da maior? Pode-se esperar de um go-
vemo que nao se definiu durante a cam-
panha a capacidade de se revelar de-
pois? Com que tipo de surpresa?
Estas perguntas nao foram ainda
respondidas, porque Luiz Intcio Lula da
Silva resolve mostrar que tudo ele
pode, do mAximo ao minimo, como um
ditador civil, conforme a definisgo dada
por H61io Bicudo, um dos fundadores
do PT, que se desligou do partido em
2005 por nao concordar com seus des-
vios de rota. Mesmo destratado e ofen-
dido pelos ex-companheiros de partido,
Bicudo tern passado suficiente e ainda


energia o bastante, aos 88 anos, para
que suas palavras e o manifesto que
endossou sejam levados em considera-
gqo e mereqam a devida reflexao.
A imagem do ditador civil consegue
subsistir ao que devia ser seu antidoto,
o regime democritico, graqas a uma
s6rie de manipulagoes. Mesmo aquelas
aparentemente bem pequenas, como a
decisdo do Minist6rio da Cultura de es-
colher o filme "Lula, o filho do Brasil"
para a selegdo do Oscar, o maior pre-
mio do cinema mundial. A biografia do
president s6 mereceu 1% da preferen-
cia do puiblico, numa votaqgo instituida
pelo pr6prio Minist6rio da Cultura, em


seu site, enquanto "Nosso Lar" rece-
beu 70% dos votos.
0 compromisso anterior, de que o
govemo cumpriria a decisao da maioria
dos votantes, foi desrespeitado, mas nin-
gu6m se constrangeu pelos protests que
a mudanga de crit6rios provocou. Sabe-
se que se conhece o gigante pelo dedo.
No caso de Lula, esse dedo 6 a vaidade,
a serviqo de um projeto pessoal de po-
der que nao tem a menor suscetibilidade
de atropelar o que se coloque como obs-
ticulo pelo caminho. Este 6 o perigo. Os
iulicos sempre sdo mais realistas do que
o rei, o que nao 6 pouco quando se trata
de algu6m como Lula.


0 Para eleitoral 6 um desert de liderangas?


O Pari 6 um desert de homes? A
julgar pela lista de candidates & eleigao
do dia 3, sem duvida. HA pouca renova-
qio e, dos nomes novos que se apresen-
tam, rarfssimos sao os que estao fora do
cabresto da bipolaridade de poder a que
o Estado foi condenado hA muitos anos.
Sao os mesmos os que se sucedem no
mando pdblico. Dentre eles, em escala
crescente, pessoas da mesma fanulia.
Dos cinco candidates a governador,
apenas dois foram apontados nas pes-
quisas com possibilidade real de vit6ria.
Ambos sao tamb6m os unicos que se
apresentaram A frente de uma coliga-
qio de partidos. A maior delas, com 14
agremiaq6es, tenta a reeleigio da go-
vemadora Ana Jdlia Carepa, do PT. No
seu mandato de quatro anos, que estA
expirando, o que a marcou foi o maior
indice de rejeigio de um governador
desde que hd esse registro.
A rejeigdo, que jdi se aproximou de
70%, hoje estA em 42% e 6, de long, a
maior dentre todos os candidates. Nem
o calor da imensa popularidade do seu
maior cabo eleitoral, o president Lula,
nem os muiltiplos recursos da mAquina
official conseguiram reduzir a um pata-
mar mais confortivel a predisposigdo
do eleitor contra ela. Se os resultados
da pesquisa estao corretos, resta a Ana
Jdlia procurar atravessar para o 20 tur-
no e, no novo confront, absorver mais
energia do poder, que o seu partido con-
trola no pais e no Estado.
Nao 6 tarefa de todo impossivel, mas
esti muito long de ser fAcil. Enquanto
os candidates petistas aos executives
estaduais, especialmente os que dispu-


tam o segundo mandate, estao no topo
ou disputando para valer a vit6ria corn
poucos concorrentes, a governadora do
Pard conseguiu a verdadeira proeza de
ser o azarao. S6 por alguma circuns-
tincia nao detectada at6 agora, ela con-
seguiri ir para o 20 turno e, por uma
dessas surpresas pr6prias da computa-
gao dos votos depositados pelo eleitor,
conquistar mais um quatrienio.
Para fazer o qua? A parte majoritbria
do eleitorado parece nao acreditar que
Ana Julia possa ser diferente do que foi
at6 agora: um verdadeiro desastre, inde-
pendente de intenq6es e discursos. Por
isso, o favoritismo de Simao Jatene, do
PSDB, veio mais por gravidade, pela de-
cepgao dos eleitores que deram a vit6ria
A coligaqgo PT/PMDB de 2006, do que
pela pregagao do ex-govemador. Tendo
rejeitado a continuidade dos tucanos por
mais quatro anos, o eleitor os quer de vol-
ta, o que nao 6 de espantar, considerando
o que fizeram os petistas no poder.
0 eleitor de 2010 estd confirmando
sua desaprovagqo ao m6dico Almir
Gabriel, que atropelou o prop6sito do
entko governador Simao Jatene de exer-
cer o mesmo direito do seu antecessor,
em 2006, como candidate nato A reelei-
qao. Bem diferente de Ana Jdlia, Jate-
ne tinha saldo positive no conceito da
populagao, apesar das muitas e pro-
cedentes critics que recebeu. Seria
o favorite se se apresentasse. A volta
de Almir, passados quatro anos, parecia
um desprop6sito e um abuso. 0 povo
optou pela mudanga.
Mas ela nao veio. 0 que se confir-
mou foi o que muitos anteciparam quan-


do a manobra sagaz de Jader Barbalho
tomou possivel a vit6ria de Ana Julia:
ela se tomaria sua maior adversdria dela
mesmo. Seu carisma e sua efetiva mili-
tincia partidiria Ihe possibilitaram uma
triunfante carreira polftica, por6m sem-
pre solitdria. A necessidade de coman-
dar uma administragqo public com
equipe reduzida, sectbria e sem maior
expressao polftico-eleitoral a levou a su-
cessivos desastres.
Uma vez ultrapassada a tolerancia
do eleitor, mesmo o mais desinformado,
a reconquista 6 tarefa para grandes
politicos. Nao 6 o caso de Ana Julia. Se
as expectativas se confirmarem, seu
papel pioneiro de primeira mulher no
comando do executive paraense se res-
tringirA a um mandato.
Quem quer votar num govemador a
altura do que se consider necessdrio e
just ao Pard ficou sem alternatives.
Mais simb6lica dessa pobreza, por6m,
6 a dispute para o Senado, a instincia
do sistema bicameral brasileiro que mais
oportunidade de participagqo oferece As
unidades federativas, concedendo tr8s
cadeiras a cada uma delas, independen-
temente de sua grandeza demogrdfica
ou econ6mica.
Para as duas vagas em dispute,
apenas 11 candidates se apresentaram,
talvez a menor relagqo vaga/candida-
to de todos os tempos. Somente cinco
desses candidates podem ser votados
sem qualquer restriqao. Tr8s tiveram
seus registros indeferidos pelajustiga
eleitoral, um renunciou e dois partici-
pam da eleigao gragas a recursos que


SETEMBRO DE 2010 1 QUINZENA Journal Pessoal 8







A voz do


O Estado do Pard tem a quarta
maior hidrel6trica do mundo,
que tamb6m pode ser consi-
derada a maior inteiramente national
porque o Brasil s6 6 dono de metade da
energia produzida pela usina de Itaipu,
no rio ParanA, a maior do mundo. De
14 mil megawatts de Itaipu, metade 6
da cota do Paraguai. JA os 8,4 mil MW
de Tucuruf, no rio Tocantins, sio inte-
gralmente brasileiros.
Mesmo assim, a energia que fica no
Pars 6 bem menor do que a que vai para
fora dos seus limits. A quantidade retida


internamente nao 6 suficiente para aten-
der toda a populaqao paraense, de mais
de sete milhoes de habitantes. Mais de
20% deles continuam supridos por velhas
usinas a 6leo. Alguns municipios s6 dis-
p6em de energia por perfodos do dia.
0 Pard 6 a terceira unidade da fe-
deraqao que mais export energia bru-
ta (depois do Parand, que tem Itaipu, e
de Minas Gerais, que abriga a maior
quantidade de barragens), al6m de ser
o 5* em geraqao do pafs. A regiao me-
tropolitana de Bel6m, o maior adensa-
mento human da Amaz6nia, com 2,2


milhoes de habitantes, fica a apenas 350
quil6metros da hidrel6trica de Tucuruf,
mas sofre milhares de pequenas inter-
rup6oes de energia a cada ano.
As ocorrencias de blecautes se ami-
udam e se espalham pela cidade, me-
nos por culpa da transmissao, a partir
da grande usina, e mais em funqAo das
deficiencias da linha urbana de distri-
buigao, sob a responsabilidade de uma
concessiondria particular, a Rede, que
comprou a antiga empresa estadual de
energia, a Celpa.
Mas a maior de todas as interrup6oes
aconteceu na linha de transmissao, ope-
rada pela Eletronorte, subsididria federal
da Eletrobris, numa sexta-feira (o con-
sagrado dia national da cerveja), ao meio-
dia, em 8 de margo de 1991. O0 blecaute
durou 12 horas e provocou enormes trans-
tomos a populagao. No dia seguinte a
Eletronorte divulgou uma nota official atri-
buindo o acidente A queda de um raio so-
bre uma das dezenas de torres metAlicas
da linha (a que atravessa o rio Guamd,
em frente a Bel6m, 6 a mais alta do mun-
do, com 100 metros de comprimento).
0 que a Eletronorte nao disse 6 que
o blecaute provocou o maior acidente
que uma industria de alumfnio ja sofreu
em todos os tempos, no mundo inteiro,
pela falta de energia. A vftima foi a Al-
bris, a 8* maior fdbrica de aluminio do
mundo (e a maior do continente, insta-
lada em Barcarena, a menos de 50 qui-
l6metros de Bel6m, ao custo de 1,3 bi-
lhao de d61ares.
A Albris 6 tamb6m a maior consu-
midora individual de energia do Brasil:
absorve, sozinha, 1,5% de toda geraqao


apresentaram contra o indeferimento
pelo TSE.
Dos cinco "fichas limpas", apenas
quatro (dois do PSTU e dois do PSOL)
nao tem nada desabonador penal e
civilmente em seus curriculos. 0 can-
didato do PSDB, Fernando Flexa Ribei-
ro, o 20 mais citado na ultima pesquisa,
ji passou pelo constrangimento de ser
preso e algemado sob a acusaqao de
desvio de dinheiro pdblico.
A mais important renovaqao na dis-
puta senatorial e, de resto, em todo
process politico estadual virA caso o
Supremo Tribunal Federal confirm a
plena vigencia da lei da ficha limpa ji
para esta eleiqao, tirando do pfreo o
maior lider politico atual do Estado, o


deputado federal Jader Barbalho, do
PMDB, al6m do terceiro mais cotado,
o petista Paulo Rocha. Ambos desmen-
tiram suas anunciadas renutncias e ga-
rantiram que suas campanhas irao at6
o fim, serao eleitos e depois empossa-
dos. No entanto, a incerteza ronda suas
cabegas e a espada da justiga perma-
nece suspense em sua diregao.
Mesmo que tenha inconsistancia in-
terna, produzida pelo oportunismo do
politico de quem a remendou no Senado,
a lei da ficha limpa tem uma agao moral
aprovada pela esmagadora maioria da
populagao. Indiferente ao preciosismo
formal dos juristas e revoltado com a ir-
resoluqao da mais alta corte do pais, o
povo aprova o expurgo, mesmo que fei-
to ao atropelo do melhor entendimento


doutrindrio e jurisprudencial. Em sua
mente, soa melhor o ditado de que Deus
pode agir bem por linhas tortas.
Muitos dos fichas sujas deviam se
livrar da punigao se a lei fosse aplicada
conforme as regras legais, o que daria
razao aos cinco ministros que questio-
naram a sua constitucionalidade no STF.
Tamb6m 6 verdade que esses maus po-
lfticos ji deviam ter sido punidos em ou-
tras ocasi6es, conseguindo escapar gra-
gas aos bons e caros advogados con-
tratados, ou a algum detalhe formal,
agora 6 elevado A condiqao de quintes-
sencia da justiga.
A cisao entire o rigor formal da lei e
o clamor national 6 uma das responsi-
veis pela inusitada situaqao em que o
STF ficou, de chegar ao fim da apreci-


4 Journal Pessoal SETEMBRO DE 2010 1 QUINZENA


L





national. 0 aluminio 6 o bem mais ele-
trointensivo que o home fabric. A
ffbrica, hoje sob o control da norue-
guesa Norsk Hydro, em sociedade corn
um cons6rcio japones (a antiga Com-
panhia Vale do Rio Doce vendeu a sua
parte majoritbria no neg6cio neste
ano, em troca de participagio nos ne-
g6cios mundiais da Norsk), utiliza mais
energia do que toda a Grande Bel6m.
Para a opiniao pdblica e para a hist6-
ria official, ficou a explicaqio sobre o raio
(foi a primeira utilizaqio desse argumen-
to, que se repetiria em epis6dios seme-
lhantes), mas a verdade era outra. 0
acidente foi causado pelo rompimento de
uma peMa metAlica de sustentagio dos
cabos, A peqa teria que ser em ferro for-
jado, mais resistente e de maior dura-
qio, mas foi fabricada corn ferro fundi-
do, de menor vida util. A linha possufa
tres mil dessas peas. Por que houve a
troca? Nunca ningudm soube.
Mas na bolsa de metais de Londres
logo ficou certo que o acidente era gra-
ve e que a fAbrica, responsAvel por 15%
do aluminio primbrio consumido pelo
Japio, maior comprador mundial, que
fica a 20 mil quil6metros de distincia
do seu fornecedor, iria demorar a voltar
a funcionar. Por isso, houve mais com-
pras no mercado spot (a vista), que tern
prego maior, e manobras especulativas.
De fato, a Albris perdeu 40 mil tonela-
das de aluminio (10% da sua produqio
annual) e seu prejufzo ultrapassou em 20
milhoes de d61ares a cobertura do ca-
rissimo seguro.
A hist6ria de quase 20 anos atris
deve ter voltado A mem6ria de muitas


pessoas quando nova interrupgao de
energia aconteceu no dia 10 deste mrns.
Para alivio geral, o apagio desta vez
foi de "apenas" 40 minutes. At6 agora
a Eletronorte nao deu uma explicaqao
official para o fato. Sabe-se apenas que
o problema foi, mais uma vez, na su-
bestaqao de Vila do Conde, a mais im-
portante do Pard. De sdbito, 2,5 milhoes
de pessoas ficaram sem energia. Ne-
nhuma novidade para a regiao da Gran-
de Bel6m e circunvizinhanqas, vftimas
quase dihrias de curtas interrupg6es no
fornecimento de energia.
Mas quando o tempo se alongou e
foi divulgada a informaqao sobre a am-
plitude do blecaute, as preocupaqges
cresceram. Seria uma nova sexta-feira
negra? Nio, desta vez a perda de pro-
duqao foi pequena, de 50 toneladas. E
os paraenses se safaram como pude-
ram. A arte da sobrevivencia 6 sua prfi-
tica rotineira. Uma vez restabelecida a
energia, ningu6m mais voltou a se pre-
ocupar com o assunto. Nem houve co-
branga public de explicaq es. A socie-
dade nao tern consciencia de que sua
vida paroquial pode ter elos mundiais.
Este exemplo 6 sugestivo do des-
compasso entire o fato e o seu entendi-
mento. A Amaz6nia vive um moment
hist6rico decisive, mas o personagem do
seu dia a dia nao sabe disso. Poucos
tem id6ia dos elos e conex6es mais
amplos dos acontecimentos singulares
do cotidiano. A esmagadora maioria
acredita que eles comeqam e terminam
no pr6prio local.
Assim, o acidente de 1991 foi para
os anais da hist6ria mundial do aluminio,


depois de haver provocado reagoes ime-
diatas na bolsa especializada de Londres,
mas ainda nao faz parte da hist6ria do
Pard, da Amaz6nia ou do Brasil. Quan-
do muito, estA confinado ao noticitrio da
imprensa, em relagio ao qual os acade-
micos, sacerdotes do saber consagrado,
viram o nariz. S6 aceitam o conhecimen-
to normalizado pelas regras formais da
ciencia. Sao escravos da recorrfncia.
Nao querem arriscar seus nomes corn a
poeira da hist6ria, que nao sabem se irf
cristalizar-se. Melhor aguardar momen-
to menos ambiguo.
Claro que esta nio 6 a causa, mas 6
fator que contribui bastante para o es-
tado de inconsciencia sobre a hist6ria
em process, aquela dinimica dos acon-
tecimentos que ainda nio foi carimba-
da corn o atestado da verdade cientffi-
ca. 0 ator do drama amazbnico esta
como cego em tiroteio. Nao sabe quem
atira e para onde vAo as balas dispara-
das. Mandam os instintos que se jogue
ao chao para se salvar. Entender o que
sucede, s6 depois. Se depois houver.
Se Londres foi um mirante melhor
para entender o que aconteceu corn a
Albris em 1991, a perspective external
6 sempre uma posiqao privilegiada para
acompanhar o que ocorre na Amaz6-
nia. Mesmo porque as decisoes que
desencadeiam os fatos costumam tam-
b6m ser tomadas a partir de fora da
regiao e tamb6m do pals.
Prova disso? Desde que o ciclo dos
"grandes projetos" voltou a atrair a aten-
aqo do mundo para a "fronteira" ama-
zonica, corn a exploraqao da rica jazida
9 '., N PG


agao e votagao da mat6ria sem decidi-
la, como a sugerir que agora s6 resta
interceder junto ao bispo (ou ao pr6prio
Deus). 0 impasse excentrico revelou
as virtudes e as fraquezas do Brasil, as
conquistas da democracia atual e suas
falhas, tudo isso fluindo para uma cons-
tataqao: ainda falta muito para que ela
se tome um bem consolidado.
Se houve esperteza de algu6m no
Senado para inocular o vfrus da incons-
titucionalidade num projeto de gestaqao
popular, acreditando que o mal se reve-
laria insanivel quando da votaqao, a
pressao public funcionou como contra-
pressdo. Foi uma surpresa, para a qual
nem os mais espertos se prepararam.
Nao se pode deixar de destacar o fato
de que os tres grandes partidos (PMDB,


PSDB e PT) apresentaram apenas um
candidate para as duas vagas. E uma
t tica oportunista, que acabou favorecen-
do o candidate digamos assim dota-
do de maior audAcia. Femando Flexa
Ribeiro fez a dobradinha mais explicita
com Jader Barbalho e, beneficiando-se
do impact negative do risco de cassa-
ao da candidatura de Paulo Rocha, pas-
sou A frente do petista.
Jader Barbalho, al6m de ser candi-
dato unico, ficou sem seus dois suplen-
tes: Ann Pontes foi impugnada e Joao
Nazareno da Silva renunciou. 0 que, na
hip6tese de ter seu registro indeferido,
lhe possibilitarA escolher a dedo quemr o
substitua. PoderA ir al6m na composiqdo
com um dos grupos que ficard na gan-
gorra, sem contar corn o trunfo do seu


candidate ao governor, Domingos Juve-
nil, que nio impressionou o eleitor como
Jos6 Priante nas duas ultimas elei9qes.
Seria esta a forma de Jader reduzir o
tamanho do prejuizo que se Ihe apresenta
nojudicidrio, o que demonstraria mais uma
vez a sua argucia polftica. Mas nem toda
experi8ncia e influencia, que vinham man-
tendo sua confianqa na confirmaqio da
sua candidatura, o livrario do desgaste.
A perda de eleitores comeqou mesmo
antes do pronunciamento definitive dajus-
tiga, corn a queda na sua prefer8ncia e
indicaV5es de que sua votaiAo deveri fi-
car abaixo dos dois milh6es de votos, que
era sua meta inicial. Pela voz do povo, o
poder do coronel Jader Barbalho estar,
em xeque antes que a inst~ncia legal d8 o
veredito final. Democracia 6 isso.


SETEMBRO DE 2010 I1QUINZENA Journal Pessoal 5


__ __ __ ___~~_~___ L______~~__ _1______







N ingudm poderi tratar da hist6-
ria contemporfinea de Santarem
sem considerar a vida e a obra
de Emir Bemerguy. Ele jA viveu 77 anos
e, fora os 61timos, quando a doenqa o fez
recolher-se, viveu intensamente os acon-
tecimentos do municipio e de todo Tapa-
j6s. Viveu e testemunhou: 6 um dos ra-
ros personagens que documentou os fa-
tos, deu sua opiniao e a registrou de for-
ma pdblica, atraves da imprensa, corn
uma invejAvel produgao.
Parte considerivel dela foi reunida
no livro Santarenices Coisas de
Santardm (294 piginas), lanqado re-
centemente pelo Instituto Cultural Bo-
anerges Sena, de Cristovam Sena, hoje
a principal fonte de refer8ncia sobre a
regiao. 0 livro cont6m os principals
artigos que Emir Bemerguy escreveu
entire 1966 e 1998. Alguns deles sao
os (inicos documents por escrito de
determinados acontecimentos. Por
isso, a obra passa a ser de consult
obrigat6ria para quem quiser reconsti-
tuir essas mais de tres ddcadas.
Nesse perfodo, Emir nao chegou a
passar "quatro meses long de Santa-
r6m", conforme declara, o que 6 bom e
ruim. Bom porque seu testemunho 6
mesmo vivencial, de ver e sentir, conhe-
cendo os atores do enredo, virios deles
seus amigos de longa data. Ruim porque
o sedentarismo, que leva A rigidez das
raizes, prejudice certas anAlises e inter-
pretag6es que ele fez.
Elas sao distorcidas pelo conserva-
dorismo, a religiosidade e certa autoco-
miserag o do autor, tornando-o As vezes
extremado, dogmAtico ou impulsivo na
apreciagdo dos events cotidianos. Ape-
sar de a sua formagio spiritual o enca-
minhar para a tolerancia ao contrArio e
ao divers, Emir teve rompantes de into-
lerincia, sobretudo na fase mais critical
da hist6ria de Santar6m, durante a crise
que levou ao afastamento do entAo pre-
feito Elias Pinto.


Cr6nica de Emir Bemerguy


Depois de escrever artigos ponde-
rados, no Apice dessa crise, em 1968,
Emir incorporou o espfrito autoritArio da
6poca: "No meu d6bil entendimento, nao
consigo compreender como, em plena
vigencia de um govemo revolucionArio,
nao se tenha condiqces de intervir, le-
galmente ou no, para retirar esta cida-
de das manchetes sensacionalistas dos
jornais. Fez-se uma RevoluqAo para
varrer do pafs os corruptos e os sub-
versivos; se a corrupqAo e a baderna
voltam, intensificadas, como ora se ve-
rifica aqui, configura-se, a meu ver, o
descalabro, a situaqo excepcional que
estA a precisar de um severe e imedia-
to corretivo". Pretendia "uma soluqao
pacifica e legal, se for possivel; fora da
lei, sendo necessfrio..."
Essa soluaio acabou adotada, corn a
inclusdo de Santar6m dentre as areas de
seguranqa national, que nao podiam mais
escolher pelo voto popular seu dirigente
miximo, o prefeito municipal. Apartir dai
baixariam os prefeitos nomeados pelo
governador e sujeitos A aprovaqgo dos
6rgdos federais de informag6es. Alguns
dos quais elogiados por Emir. Outros, cri-
ticados. Ele continuou a ter voz ativa, es-
crevendo nao mais apenas para os instA-
veis ou efemeros jomais locais, mas tam-
bem para os principals 6rgios da impren-
sa paraense, como a Folha do Norte (jO
extinta) e 0 Liberal. Conforme ele pr6-
prio nao deixa de anotar, era o dnico autor
do interior do Estado acolhido pelos jor-
nais de Beldm. Nao 6 pouca coisa.
A participagco de Emir Bemerguy ao
long das tres d6cadas dejomalismo se-
manal merece ser levada na devida con-
ta. Ele testemunhou a descaracterizagqo
acelerada da cidade pequena, onde to-
dos se conheciam e havia certa identi-
dade difusa na sociedade, em torno de


elements da cultural valorizados (como
a mdsica, o artesanato e certas manifes-
taq6es literdrias, como a mdsica), aldm
do apreqo pelas riquezas naturais da re-
giAo, a maior delas a combinagio do rio
com suas margens de areia branca. E a
metamorfose em algo ainda indeciso e
inconcluso, mas profundamente altera-
do pela intervengio do estrangeiro (as-
sim, mesmo quando de dentro do pafs).
Essa combinaiao de home e pai-
sagem 6 totalmente estranha aos que pla-
nejaram e executaram a travessia da ci-
dade de um p6lo a outro. Com suas pran-
chetas instaladas fora da regiio e avali-
zadas pelo poder centralizado em Brasi-
lia, que expedia 6ditos quase reais, eles
equalizaram a cidade litori-
nea a uma urbe qualquer. ***.
Num dos seus artigos, Emir
protest corn toda razao
contra a desfiguraqAo de
Santar6m quando o 6rgao
federal p6s em prAtica pro-
jeto pr6prio, que engoliu a
praia e emparedou o que
restava do "belfssimo litoral
defronte da cidade". Podia
ter sido muito diferente se a vontade de
Santar6m nao tivesse comecado a ser
castrada pela intervencqo federal de
1969, que duraria quase duas d6cadas.
A media que o tempo passa, os arti-
gos de Emir passam a ser necrol6gios:
das pessoas, da cidade, de seu modo de
vida, dos seus valores, da sua cultural -
tudo sacrificado na pira do crescimento
demografico e econ6mico, travestido de
progress. 0 escriba se insurge contra a
aqdo avassaladora dos imigrantes e dos
intrusos, incluindo o governor de Brasilia.
Certas manifesta96es suas podem ser
classificadas de saudosistas, provincia-
nas, rabugices. Muitas outras, nao.


de manganes do AmapA pela multinaci-
onal americana Bethlehem Steel, nos
anos 1950, a condicionante internacio-
nal tern sido mais forte do que a nacio-
nal, regional, estadual ou local.
Os governor mudaram desde entAo
e em 1964 houve mais um golpe de Es-
tado. Mas quando o regime military che-
gou ao fim, em 1985, nao houve qual-
quer mudanga em relagqo A Amaz6nia.


O primeiro ato de impact do presiden-
te Jos6 Sarney, que interrompeu a su-
cessao de generals no Palacio do Pla-
nalto, foi criar o Programa Calha Nor-
te, mais um filho da doutrina de segu-
ranga national aplicada A region.
Tamb6m nao houve alterardo signifi-
cativa na passage de bastdo do tucano
Femando Henrique Cardoso ao petista
Luiz InAcio Lula da Silva, exceto que o
presidente-operdrio deu uma guinada mais


forte na inclinagqo pela tecnoburocracia
dos militares. A presenqa de Delfim Net-
to como conselheiro economic de Lula
nao 6 mera coincidencia. E Dilma Rous-
seff, a mAe do PAC (versdo petista dos
Projetos de Impacto dos militares), como
sucessora de Lula, menos ainda.
Quem se der ao trabalho de compa-
rar as curvas de desmatamento, desde
que elas puderam ser produzidas com o
uso de imagens de sat6lite, com as cur-


6 Jornal Pessoal SETEMBRO DE 2010 .' OQUINZENA


II






meio seculo de Santarem


Ele expressou como poucos valores de
grande significado para os nativos, que os
colonizadores (claro, sob outras denomi-
nagoes menos agressivas) desconhecem
ou desprezam. Como eles tem o poder de
mando, sao eles que decide o que pode
ser mantido e o que deve ser eliminado.
Os crit6rios da definigio costumam ser
obtusos e empobrecedores. Podem possi-
bilitararolamentosquantitativosdeimpres-
sionar e convencer os que v~em as mu-
dancas por uma bitola estreita e curta.
Mesmo por esse Angulo, o balanqo do
que foi realizado nao 6 positive. Em 1982
Emir podia dizer: "A nossa imensa regiio
vem contribuindo corn quarenta e dois por
cento de tudo o que o Estado do Pard ar-
recada, mas recebe pouco
mais que migalhas como
contribuiqio". Essa injustiqa
explicaria Santar6m prova-
velmente ser entao "a dnica
cidade do mundo inteiro que,
ostentando o seu porte e a
sua importincia, nao possui
uma Universidade".
Universidades ( ou ensi-
no superior) agora jd exis-
temrn, pblicas e privadas, formalizadas ou
ainda em casulo. Mas dos 42% de partici-
pagao na receita, a regiao deve ter baixa-
do para menos da metade. Se, por um lado,
as compensaqoes cresceram, a importin-
cia da regiao diminuiu. Nem por isso se
fortaleceu a campanha pela autonomia,
atrav6s da crianao do Estado do Tapaj6s,
bandeira Aqual Emir foi aderindo aos pou-
cos, desconfiado dos patrocinadores da
nova unidade federativa.
Se os ndmeros nao convencem o ana-
lista mais exigente, satisfazem muito
menos os que utilizam partmetros mais
qualitativos da antropologia, sociologia ou
mesmo literature. E quern devia estar


vas econ6micas, sobretudo as do com6r-
cio exterior, poderA aposentar certas id6i-
as menos geopoliticas do que as atuais
em curso contrArias A internacionali-
zagao, vista como ameaga, e tratA-la
como realidade concrete, embora nao
imutfvel. Talvez venha a ser melhor para
o Brasil e aAmaz6nia. De qualquer ma-
neira, serf melhor do que simplesmente
achar que, com mais esta eleigao geral,
a Amazonia mudard de rumos.


satisfeito, como beneficidrio de tantos
cavalos de pau colocados na praqa cen-
tral da cidade, nao estA nada satisfeito.
Disso, Emir nio deixa divida nos seus
artigos. Homem de todo Tapaj6s por sua
nascenga, em Itaituba, sua infancia, em
Belterra (a segunda cidade fundada por
Henry Ford), e a maior parte da sua vida,
em Santar6m, Emir tern sensibilidade,
olhos e ouvidos para o mais intimo da sua
terra, para o mundo que ji existia antes
dos colonizadores, verdadeiros bwanas A
moda antiga, que consideram a si como o
principio de tudo, inclusive da hist6ria lo-
cal, por eles ignorada ou desprezada.
Por isso se solidarizou com os rema-
nescentes do dltimo quilombo da Ama-
z6nia, o do Trombetas, quando eles fo-
ram expulsos de suas terras ancestrais
para a criaqao de uma reserve biol6gica
federal, que visava combinar com sua
contrafaqao, a mina de bauxita do outro
lado do rio, explorada por multinacionais.
A nova cultural que se forma 6 de vo-
yuers, turistas apressados, como o jorna-
lista Miguel de Almeida. Embora sua in-
tenqdo fosse reconstituir a viagem que o
antenadissimo escritor Mdrio de Andrade,
um dos modemistas de 1922, empreendeu
pela Amaz6nia em 1927 (como "turista
aprendiz"), quase seis d6cadas antes, o
reporter nao fez jus ao poeta. Mereceu um
tremendo puxao de orelhas de Emir por-
que, ao passar meteoricamente por Santa-
r6m, disse nada ter observado que mere-
cesse registro. Nem o incrfvel encontro das
Aguas barrentas do rio Amazonas com as
do azul entio ainda lfmpido Tapaj6s.
Nao faltavam motivos para o visitante
lamentar a falta de opq6es de lazer na ci-
dade, lacuna de ontem e de hoje. Mas era
totalmente insubsistente suaobservaao de
que Santarrm 6 uma dessas cidades "de-
senraizadas e forjadas repentinamente pelo


Quem acompanhou a propaganda
eleitoral gratuita atrav6s do ridio e da
televisao ou teve contato direto corn a
campanha dos candidates, raramente
encontrou nos seus discursos itens re-
lacionados A agenda temitica da regiao
ou do Estado. Pautados pelos marque-
teiros e orientados pelas problemrnticas
pesquisas de opiniao, os candidates se
nivelam por baixo, pelo oco, pelo abs-
trato e pela falta de identidade com sua


progresso. Nada mais oposto a verdade.
E af Emir foi buscar sua chinela:
"Santar6m nao foi, meu bom Miguel,
forjada repentinamente pelo progress,
coisa nenhuma. Essa praga veio chegan-
do aqui aos poucos, trazendo todo o seu
estoque de venenos e rem6dios, de bkn-
qaos e de maldiqoes. Viviamos muito
melhor, com muito mais fartura e paz,
antes de aportarem aqui o desenvolvimento
adoidado e certos forasteiros que gostari-
amos de ver A distincia. 0 progress nos
tem oferecido mais contrariedades e de-
sassossego do que beneficios reais. Mas
isso 6 outra hist6ria, que nao cabe aqui".
0 testemunho de Emir nao pode ser
sepultado na cova rasa da incompreensdo
e do esquecimento, como vArios dos per-
sonagens cujo perfil ele traa, como se fora
incumbido da extrema ungAo de um mun-
do tao recent e ji tao remote, do qual ele
6 element exemplar, uma esp6cie de "o
ultimo dos moicanos". Mas que, felizmen-
te, gracas a iniciativas como a de Cristo-
vam Sena, nao teii o destino ingl6rio de
alguns dos seus companheiros de viagem.
Paulo Rodrigues dos Santos e Jodo
Santos (nenhum parentesco, exceto as
afinidades intelectuais) quiseram destruir
suas obras e arquivos, indignados corn a
indiferenqa da sociedade local. Paulo es-
perou cinco anos pelo lanqamento de Tu-
paiuldndia, em 1971. Doente, nao p6de
vir a Bel6m para a solenidade, mas o go-
vernador Fernando Guilhon o visitou em
Santar6m. Paulo Rodrigues morreu pou-
co depois. Mas uma ediqAo digna da sua
obra s6 surgiria muitos anos depois da
primeira, patrocinada por uma instituiqao
inteiramente local, o ICBS de Cristovam.
Do muito que Joao Santos escreveu,
resta pouca coisa publicada. Infelizmen-
te, seu arquivo permanece indevassivel,
mantido em injustificdvel isolamento pela
familiar, quando podia exercer uma fun-
9ao fecundadora, como os tr~s livros de
Emirpublicados nos iltimos tempos pelo
Institute Cultural Boanerges Sena.


terra e seu povo. A Amaz6nia pega
fogo como nunca, seus rios estdo se-
cos como poucas vezes (ou nenhuma?),
empreendimentos privados e pdblicos
movimentam bilh6es de reais A revelia
da sociedade, mas nenhuma dessas si-
tuaqges se transport para a cabega
dos candidates. Eles pleiteiam a repre-
sentag&o popular semrn lhe oferecer
qualquer perspective. E rnmais um salto
no escuro.


SETEMBRO DE 2010 1 QUINZENA Journal Pessoal 7


__ _~__






BRAGANTINA
Em 1953 foi realizado, em
Braganqa, o 1 Congresso
Eucaristico da Prelazia do
GuamA, preparat6rio para o
congress national, que
aconteceria logo depois em
Bel6m. Da capital partiu umrn
trem-santuArio, corn sete va-
g6es, conduzindo Jesus H6s-
tia, o arcebispo, dom Alberto
Ramos, membros do clero e
peregrino. 0 program co-
megou com uma missa, na
basilica de Nazar6, As 4,45
da madrugada. A comitiva foi
em procisso para a estaqAo
ferroviAria de Sao Braz, de
onde saiu a composiqao.
Escalas foram feitas nas es-
taq6es de Ananindeua, Ma-
rituba, Joao Coelho, Aped,
Castanhal, Augusto Monte-
negro, Igarap6-Aqu, Timbo-
teua, Peixe-Boi, Capanema
e Tracuateua. Faria ainda li-
geiras paradas no Entronca-
mento, Benevides, America-
no, Anhanga, Granja Eremi-
ta, SRo Luiz, Tauari e Miras-
selvas. A viagem duraria
pouco mais de 12 horas. 0
trem era lento. E a Zona Bra-
gantina parecia maior do que
hoje. Fazia parte de um mun-
do que ndo existe mais.

REMO
Agora que ferve a celeuma
em torno do antigo e do novo
estidio (ou complexo es-
portivo") do Clube do Remo,
lembre-se que em marqo de
1956 a diretoria do LeAo, que
tinha Jorge Hage como pre-
sidente, lanqou edital de con-
correncia pdblica para a de-
molig o da antiga sede, que
seria substitufda por uma
nova edificaqio, em estilo
"funcional" (mas nWo tanto).
0 edital estabelecia que a
adjudicaqio seria feita "a
quem oferecer melhor pro-
posta, atendidos prego, tem-
po de duraqio e idoneidade
do proponents, ressalvado ao
Clube do Remo o direito de
haver como desinteressantes
as propostas apresentadas".
Eram outros tempos.


PAISSANDU
No mesmo m8s e ano o
Paissandu se reunido para
aprovar os projetos para a
construcao do ginAsio de
basquetebol (o uso ainda
nio era miltiplo) e
piscinas, elaborados pela
comissao pr6-patrim6nio e
nomear a comissio de
construcao. E claro que
nao ia ficar atrAs do
eterno rival.


MEMIMA

CIRIO
Em 1964 as dimens6es do Cfrio ainda eram tais que permiti-
am A prefeitura anunciar a venda de ingressos para a arqui-
bancada especial, montada na praqa da Repdblica, is v6spe-
ras da traslada Ao e da romaria. Os pontos de venda eram
na Casa Jake's e nas portarias do Grande Hotel e do Central
Hotel, al6m da sede do Departamento Municipal de Turismo,
que ficava no t6rreo do ediffcio Manuel Pinto da Silva.


Urn espeticulo montado pelo artist pareense pera o pOblico paroense. Todo 0
elenco "associado" num show de luz e c6res nesta revista que alegrari as noites
Naza rents.
COORDENACAO DE MARIAN ROCHA --- IRECAO OERAL OD ADVALDO CASTIO
TRIES SESS ES A PARTIR DAS 18,30 HORAS
Os ingressos estlaro I vends nas bilheotrias do audit6rie a partir dos 14 horas

PROPAGANDA
A era do radio
0 elenco da Rddio Marajoara era tdo grande, em 1962, que permitia realizar tros
espetdculos por noite durante a "quadra nazarena" do Cirio de Nazare, que durava (e
ainda dura) duas semanas. Era um "show de luz e cores nesta revista que alegrard as
noites Nazarenas", sob a coordenadfo de Marian Rocha e direcao geral de Advaldo
Castro. No grande audit6rio da rddio, colocado abaixo para que no terreno subisse
um pr&dio residential, na prapa de Nazare.


8 Jornal Pessoal SETEMBRO DE 2010 1f QUINZENA


Itureande no Die do Cirio a paro maior onimsaio do quadra Nazarena, a

RAdio Marajoara
opresenlter, no sau plco.eudit6rio n revist

((A Festa e Nossa-1962>>































Quando esta foto foi batida, em 1966, o regime military jd tinha
dois anos e meio de vigencia. Mas as relagoes entire as pessoas
ainda ndo havia sido contaminada de vez pelo antagonismo
politico, especialmente a distdncia do nucleo do poder. Apare-
cem sorridentes dois candidates a suplente de senador: o supe-
rintendente de A Provincia do Par,, Milton Trindade (irmdo do
compositor Billy Blanco), pela Arena, o partido do governor, e o
veterano industrial" Raimundo Farah, pelo MDB, o partido
da oposifao consentida. Farah foi a sede do journall da familiar
paraense", como A Provincia apreciava ser tratada, se despedir:
ele viajaria para o Libano para visitar as irmds, para Paris,
onde encontraria algumas sobrinhas, e Washington, onde resi-
diam outras. Gastaria tris meses na excursdo, em plena campa-
nha eleitoral. Farah, que jd atuara como politico, vereador a'
Cdmara Municipal de Belem, era pai dos Farahzinho. Esta foto
e em memoria de Joseph. E como uma saudagdo a Alexandre.


DEMOCRACIA
Uma das queixas da sociedade local sempre foi sua
exclusao da direqao dos 6rgaos federais que atuam
na Amaz6nia. Sobretudo depois do golpe military de
1964, Brasilia enviava dirigentes que chegavam a re-
giao como pr6-consules romanos, convencidos do seu
saber tecnocrata. Mas na curta presidencia de Janio
Quadros, em 1961, o principal 6rgao do governor fe-
deral, a SPVEA (atual Sudam), esteve nas maos da
elite do Pari.
0 advogado Aldebaro Klautau formou uma equipe
administrative para assessorar o general MArio Ma-
chado, que assumiu a superintend8ncia da SPVEA.
Mas o verao logo acabou, corn a renincia de Janio.
Ficaram, por6m, as marcas desse perifodo, que cons-
titufram o tema dominant numjantar organizado nesse
mesmo ano para homenagear Aldebaro Klautau.
A lista dos participants da reuniao, realizada no Au-
tom6vel Clube (no ultimo andar do ediffcio Palicio do
RAdio), merece novo registro. LA estavam o major
Jarbas Passarinho, Armando Mendes, Arnaldo Pra-
do, Fernando Guilhon, Adriano Menezes, Roberto San-
tos, Alarico Barata, Osvaldo Melo, Cl6vis de Moraes
Rego, Alcindo Barbosa, Irapuan Sales Filho, Elias Naif
Daibes, Nelson Ribeiro, Camilo Montenegro Duarte,
Jos6 de Ribamar Darwich, Ramiro Nazar6, Eduardo
Grandi, Rubens Brito, Paulo Cruz, Jos6 Maria Barbo-
sa, OtbvioAvertano Rocha e Orlando Sampaio Silva.
S6 a democracia possibilitava que personalidades tao
diferentes e corn posiqoes distintas ou mesmo opos-
tas estivessem no mesmo ambiente em confraterni-
zaqao. Tr8s anos depois essa reuniao jAi nao mais po-
deria ser realizada.


d I 0inh




SeFu ercoFulnitiese od d sll tllbe11.l''l tll um o isllo ra co ol uae
Vili"' cn ul'liteil p ga o om tlla s Ii .'t S6 11leosdos rm -ls -l sriil u qu dr do







I-ilsdosirlms J~spl u leanre 'lral, s 'l- SETa eMBROde 2010 1' QUaINZENA.JrnailucPedssapoal-






CAREAS AO EDROR


ANIVFBSABLIO
Expor-se no Jomrnal Pessoal e desnu-
dar-se em toda sua potencialidade e
aproximar-se da mdxima de Protigo-
ras, para quem "o home 6 a media
de todas as coisas", algo que o merca-
do "nlo permite, porque nestes tem-
pos de coisas poucos serio reconhe-
cidos em seu real valor, subvertendo a
moral atual; serio homess p6stu-
mos", como diria Nietszche. Isso faz
do JP o mais subversive entire as sub-
versivos porque mantim a individua-
lidade ante o individualism reificador
do mercado, que nao quer a informa-
cIo reflexiva e sim a refletida apenas,
coisa desprezada pelo JP, que "obri-
ga" o human a falar no pessoal, logo,
a ser aut6nomo, exemplificando o que
ensina a Natureza. Para o homee"
nada 6 f6cil, como tambem nio e para
um journal sem anunciantes, ou tuto-
res. Mas 6 isso que garante o future
da humanidade. Por isso, parabdns ao
JP, que se assemelha a uma ponte so-
bre o abismo. Abismo em que querem
transformar a Amaz6nia.
Luiz Mdrio de Meloe Silva

Parabdns pelo seu aniversdrio;
que continue por muito tempo bri-
Ihando intelectualmente na Amaz6-
nia. Em tempo, parabins tambim
pelo tocante texto no JP 472, "A nos-
sa geracio e as suas perdas".
Ivo Cunha Figueredo Controller

PIG
Leitor assiduo do seu Jornal Pes-
soal, peqo publicacio (e seus comen-
tirios) do seguinte:
1-Cada vez mais perto de Duciomar
Costa Ao citar os aliados do prefeito
Duciomar, voce deveria, a bern da ver-
dade e da isenclo tio defendidas por
voci, citar o fato verdadeiro de que o
mesmo foi/d um luxuoso present do
Simio Jatene e do Almir Gabriel para
esta infeliz cidade.
Mostraria os dois lados do mesmo
personagem.
2- A imprensa conspire? Descon-
fie dos profetas A revista tpoca
seria considerada isenta (como voce
mesmo diz, a imprensa deve ser) se,
na semana seguinte b da publicacao
da matiria citada par voci, trouxes-
se na capa uma, tambem sombria,
fotografia do Serra cornm a seguinte
chamada: "Serra, o candidate fu-
jio". Como e sabido, enquanto a Dil-
ma ficava aqui para combater a di-
tadura military, o Serra fugia o Bra-
sil. Mostraria o comportamento dos
dois principals candidates no mes-
mo moment hist6rico.
Bemardo Lopes
Em tempo: Quero continuar acre-
ditando que o Jornal Pessoal nio faz
parte do PIG.


MINHA RESPOSTA:
1 Basta ao leitor ler as edig es
deste journal durante a elei;do de Du-
clomor Costa para a prefeitura de Be-
Idm, em 2004 e em 2008, para ter
fortissimo material sabre a paterni-
dade de sua candidature. Mostrada
pioneiromente aqui, para irritaoeo
maior do medico Almir Gabriel, que
ndo se vexou em apoiar um also
mddico comprovado.
2 Voce ndo d bom pouteiro do im-
prenso. Nem Serra pode ser classifi-
coda defujdo, como gostaria ao leitor,
nem Dilma de best fera, como a
acusam seus inimigos. A situago de
coda um deles d muito mais comple-
xa do que esses rdtulos empobrece-
dares. De qualquer maneira, basta
ler a primeiro pardgrafo do artigo
para se convencerque consider pro-
cedentes as queixas dos petistas e
adeptos 6 tendenciosidade do gran-
de imprensa.
0 nico portido ao qual estejornal
pertence ao do imprensa pigmeu, se
me permit a concorddncia torta (ndo
rima, mas d a soluqo).
LULA (1)
Em primeiro lugar meus parabins
pelo teu natalicio. Que voc6 continue
sempre combative e mostrando as
realidades do nosso Estado do Pari
(enquanto ainda existe). Para mim
voce sempre foi ojornalista mais
bern informado. Fiquei estarrecido
lendo teu artigo Lula, o bom ditador
no qual vc. intui que o Lula esta dan-
do ...o pass do democracia ao fa-
cismo... Ora, LOcio, isso ai e muito
exagerado da tua parte, digamos
muito te6rico. 0 Brasil precisa de go-
vernantes mais pragmAticos, que
entendam que a maioria do povo bra-
sileiro e muito simples (para nio di-
zer inculto) e a partir dai tentar me-
Ihorar a vida deles, cornm a esnobe
classes alta torcendo o nariz. I exata-
mente o que Lula fez nesses 8 anos
de governor. Se a maioria do povo
(80%) confia em Lula por que nao
confiarS na sua sucessora? Essa pas-
sagem de governor nio tern nada de
fascista (Hitler, Mussolini, Franco,
Salazar). Dilma seguird os mesmos
passes de Lula.
Nio sou versado em hist6ria
nem em political e muito menos
economic, apenas sou um ge6lo-
go de campo; dai nao possuo
embasamento te6rico para uma
discussion profunda na qual voce
esti a cavaleiro. Durante os anos
que trabalhei, conheci profunda-
mente a nosso cabocio amaz6ni-
co e aprendi suas necessidades
prementes, que sio muito dife-
rentes daquelas da classes alta.
Ariano Suassuna disse que o Bra-
sil esti dividido em o Brasil Le-
gal e o Brasil Real.


Legal 6 a economic, o comrrcio exte-
rior, a political, a industria, as metas
de governor, etc... Real 6 o povo.
J. .M..Calaf

LULA (3)
Nio achei estranha a frase intro-
dut6ria do artigo de capa do Jornal
Pessoal n.2 471, da 29 quinzena de
agosto, sob o titulo "O0 bom ditador",
porque ji havia lido algumas men-
sagens em revistas e jornais atribu-
indo a Lula e aos ide6logos do PT,
attitudes calcadas nos conceitos he-
gem6nicos de Gramsci, usados por
Mussolini para manter-se no poder
independent da existincia de "aris-
tocriticos e democrAticos, conser-
vadores e progressistas, reaciondri-
as e revolucionirios, legalistas e
nio legalistas", o que importava
eram "as circunstancias do momen-
to, o lugar e o ambiente". Pelo que
se propala, Lula e o petismo assimi-
laram bem a teoria. Se nao fora so-
mente as politicos de oposicio que
levantassem essas fantasias, poder-
se-ia atd aceitd-las post que elas
viao diluir-se no tempo sem maiores
consequincias mas o fato de es-
tas excentricidades circularem no
meio de jornalistas consagrados, da
para fazer uma reflexio acerca do
alcance da engenhosidade. No caso
especifico do nosso journal, o public
leitor reagiu positivamente cornm
quatro comentirios.
Passando a outro piano, no ulti-
mo numero do JP (472), na matdria
intitulada "0 desenvolvimento e a
fumaca" que parecia destinar-se a
candidate Marina Silva, esse editor
resolve retomar os textos apocallp-
ticos que tern escrito sobre o desem-
penho da political econ6mica e soci-
al do atual governor, a qual, diga-se
de passage, tern a aprovacio de
80% da populatio brasileira. Como
discordo de certas coloca6Bes, peco
licenpa para fazer, de forma conci-
sa, pequenos reparos:
0 cridito imobiliirio nos paises di-
tos de vanguard (depois de 2008,
ainda os hi?), 6 de 25 anos, caracte-
ristica dos empr6stimos de long
prazo;
Nlo podemos comparar o "milagre
brasileiro" dos corondis, com a situa-
gio econ6mica de hoje. Naquela dpo-
ca, como na de Juscelino, a eferves-
cincia dos investimentos e do "bem
estar" foram proporcionados par em-
prestimos externos. Atualmente, so-
mos credores e as dividas internal e ex-
terna ocupam umrn percentual razoAvel
do PIB, e temos reserves de mais de
250 bilh6es de d61ares;
0 indice de inadimplincia, segun-
do as informac6es oficlais, nio che-
ga a 5%;


A atual Bolsa Familia (no Pard sio
atendidas 270 mil families), que be-
neficia milhoes de brasileiros, foi cri-
ada pelo ex-petista, quando governa-
dor do Distrito Federal, Senador Cris-
tovam Buarque. Nio foi invengio de
demos e tucanos;
As mesmas "pessoas excepcio-
nais", que numa "aventura intelec-
tual" criaram o Piano Real, tamb6m
foram autoras e colaboradoras dos
famigerados Pianos Cruzado e Co-
lior, que deram incalculiveis pre-
juizos financeiros ao pais (propi-
ciavam o pagamento de empresti-
mos mediante o uso da famosa
"tablita"), jamais recuperados (ou
cobrados).
Para finalizar, lembro que cerca
de 26 milh8es de brasileiros trans-
feriram-se para classes econ6mica
"C" (as estatisticos chamam isso de
mobilidade social), aumentando, di-
namizando e dando impulso A eco-
nomia nestes 6ltimos anos. Tern
mais: "I a primeira vez na historic,
desde 1929, que a said da crise vem
send motivada pelos paises nio
desenvolvidos". E o Brasil entire elesi
Nio resta a menor duvida que o go-
verno FHC alicercou a onda atual de
distribuig~o de renda e o relative
conforto vivencial que estamos go-
zando, em contrapartida foi o pro-
motor da "privataria" econ6mica
sustentada por emprdstimos do go-
verno a juros irris6rios, entire outros
males. Quanta ao PIG, ficard para
outra oportunidade.
Rodolfo Lisboa Cerveira

MINHA RESPOSTA
Tambdm devido 6 falta de espago,
deixo minha resposta para outra
oportunidade, deixando ao leitor a
oportunidade de se manifestar sem
a contradita do editor.

VISAO
Mesmo cornm um pouco de atraso,
decorrente da eterna correria do dia
a dia, gostaria de agradecer, em
nome da Visao, a carinhosa lem-
branga aos 45 anos do Grupo feita
na edigio no 471, de agosto de 2010,
do JP. Sio iniciativas como a sua que
dio gas extra ao continue (e neces-
sdrio) process de expansion da
empresa que, em tom de nostalgia,
jJ assistiu, de camarote, o adeus de
Mesbia, Pernambucanas, 3 Irmios e
tantos outros cones locals e nacio-
nais do varejo.
Aproveito tambdm para desejar
que o sal de Natal ajude a tempera
mais 23 anos da nossa (Simr! Nossal)
Agenda Amaz6nica. Parabins e um
grande abragol
Apoena Augusto/Marketing Gru-
po Visao


Jomal Pessoal

Editor: Licio FlAvio Pinto


Contat: Rua Aristides Lobo, 871 CEP: 66.053-020 Fones: (091) 3241-7626
E-mail: lfpjor@uol.com.br jomal@amazon.com.br Site: www.jomalpessoal.com.br
Diagramagioe ilustragbes: L. A. de Faria Pinto E-mail: luizpe54@hotmail.com


3 Journal Pessoal SETEMBRO DE2010 1QOUINZENA


-- -I---- -- --~ ------I ----


-- --- 1-







Mensagem aos italianos

Intemazionale e uma revista italiana independent de informagdo, que public os melhores artigos da imprensa estrangeira, traduzidos para
o italiano. Todos os anos ela realize o "Internazionale Festival", que redne os escritores e os jornalistas mais prestigiados do mundo. Esse
ano o event ocorrerd de 1 a 3 do proximo mis, em Ferrara, uma cidade renascentista do Norte da Itdlia.
Durante os ultimos trds anos o festival tornou-se um dos maiores events desse tipo na ltdlia, registrando uma aflu ncia de 40 mil pessoas no
ano passado, contando corn aparticipafdo de personalidades internacionais como Arundhati Roy, William Langewiesche, Noam Chomsky,
Marjane Satrapi e Roberto Saviano. O festival atrai grande numero dejovens, que tim entrada livre para as conferencias e exibifpes.
Fui convidado para a edifdo deste ano. Ndo podendo ir, por causa da intensificaVdo das atribulafoesforenses, mandei a mensagem
abaixo, que divido com meus leitores.


Agrade'o sensibilizado aos organizado
es deste encontro pelo honroso con-
vite que me fizeram. Lamento muito nao po-
der estar at de novo. Conheci Ferrara em
1997, a caminho de Roma, onde fui receber
um pr6mio do Archivio Disarmo. Fiquei en-
cantado com a cidade, sua gente, sua cul-
tura, sua hist6ria. A harmonia espacial da
cidade, sua trajet6ria excepcional. Sou um
enamorado da ItAlia, minha pAtria afetiva,
nas entranhas do meu ser.
Infelizmente nao pude mais voltar a esse
maravilhoso pais, mas nunca deixo de pen-
sar nele, nas afinidades e para citar Lewis
Carrol nas "desafinidades" existentes
entire n6s. Queria partilhar com os caros
amigos um pouco das minhas reflexes nes-
ta mensagem de saudagao e de desculpas.
Uma das quest6es cuja andlise e reflexao
pode nos ajudar mutuamente 6 a "questao
meridional", que se traduz geograficamente
pelos opostos: as desigualdades entire Norte
rico e Sul pobre na Itdlia e entire Sul rico e
Norte pobre no Brasil. Uma andlise rigorosa e
profunda pode abrir as portas da perceplo
para o ainda misterioso contrast: enquanto
uns conseguem se desenvolver, outros nao
os acompanham.
N5o s6 entire continents ou hemisf6rios,
mas dentro de pauses. Creio que a Itlia nunca
se estabilizard e se perpetuard enquanto o
Norte, ao inv6s de se isolar e se satisfazer em
sua riqueza, nao se empenhar decididamente
em aproximar de si o Sul. Realizando o ideal
aristot6lico dajustiga, que 6justamente a apro-
ximagao entire os extremes. 0 desafio se im-
p6e ao Brasil com uma carga dramtica conti-
nental: evitar que a Amaz6nia se specializez"
como fronteira, o sitio do saque, do atraso, da
violencia, da exploragio brutal dos seus re-
cursos naturais e do seu povo. Como uma
vasta Sicflia verde.
Felizmente jA hA mais pessoas dedica-
das a esta linha de reflexao, embora muitas
delas ainda tateiem ou patinem numa
timidez conceitual e dogmdtica em relagao
ao conceito de regiao e necessidade de
equilibrar a andlise tirando o peso que se
atribui i economic. O home 6 uma realida-
de mais vasta do que a tradugao quantitati-
va 6 capaz de perceber.
Queria Ihes proper hoje um enfoque
menos examinado, mas talvez ainda mais
grave. Duas pistas nos conduzem a um tema
mais urgente: a natureza das rela95es atu-
ais entire a Italia e o Brasil.
Como todos sabem, os brasileiros vivem


o mais long periodo de democracia da sua


hist6ria republican de 120 anos. HA 25 anos
nossos presidents se sucedem atrav6s do
voto direto da sua populaqao, que ji se con-
ta por 200 milh6es de almas. Nossa democra-
cia menos curta tinha sido a de 1946, que
durou 18 anos. Foi destruida pelo golpe de
Estado de 1964, que manteve os militares no
poder e A margem da democracia durante
21 anos. Um politico brasileiro dizia que a
democracia 6 uma plant tenra no nosso pafs.
EstA sempre sujeita a golpes, que Ihe extir-
pam a vida. Precisa de estimulos intensos
para reviver e se amadurecer.
Estamos neste process atualmente,
desejosos de que ele se consolide de vez.
E um dos nossos marcos referenciais 6 a
Itdlia. A democracia italiana guard simili-
tudes bem significativas com a nossa, mais
nos seus defeitos do que nas suas virtu-
des, infelizmente. Sendo mais avangada,
pode, pelo intercimbio, ajudar o process
politico brasileiro. Mas para que isso ocor-
ra, os intelectuais italianos precisam dedi-
car mais do seu tempo a examiner as rela-
9qes do seu pafs com o nosso, bem mais
intrincadas e complexes do que aparenta
no occasional noticidrio da imprensa dos
dois pauses.
HA dois epis6dios de maior significado
para compreender o que acontece. Os go-
vernos de Romano Prodi e Massimo
d'Alema se empenharam em favorecer a
Telecom ItAlia na conquista de pedaqos cada
vez maiores da telefonia brasileira. 0 siste-
ma era estatizado at6 1988. 0 governor do
tamb6m reformista e autodeclarado soci-
al-democrata Fernando Henrique Cardo-
so privatizou a telefonia brasileira em 1988,
numa das mais criticadas alienag6es de pa-
trim6nio pdblico jA feitas no Brasil. A partir
daf formou-se uma guerra corporativa para
abocanhar um dos maiores mercados de te-
lefonia do mundo.
Falar em guerra nio 6 forga de expressed.
Os lances das disputes tkm sido ferozes e
desencadeiam atos de corrupAlo e pressao
sobre o aparato estatal. Num dos vortices
dessa concorrencia feroz estA a Telecom Itd-
lia, cujos procedimentos nada edificantes ou
recomendaveis tem sido investigados na Itd-
lia. Mas parecem claudicar na abordagem da
conexao brasileira, que 6 de importancia de-
cisiva para a empresa. E precise saltar sobre
esse fosso e trazer o terreno da dispute bra-
sileira para o solo italiano, a fim de que as
manobras escusas, que ferem a democracia
brasileira, sejam combatidas com mais eficd-
cia. Este 6 o angulo da associagao entire o


Estado e as empresas privadas, que consti-
tui caldo de cultural de um process de cor-
rulpo espantoso, que se expand velozmen-
te. E preciso estancA-lo se quisermos que a
democracia seja um valor real.
Outro epis6dio diz respeito A extradiqao
de Cesare Battisti. Uma andlise conscienci-
osa do "caso" nao deixa margem de duvida
quanto a justeza de devolver essa pessoa A
ItAlia para o prosseguimento do seu julga-
mento, interrompido pela fuga. 0 que impe-
de a consumagao da extradigio? A meu ver,
uma "conurbaqAo" nada conspicua de in-
teresses politicos, geopolfticos e economi-
cos, que retiram da face da esquerda a mis-
cara da boa causa, de sua condigio de sa-
cerdotisa da hist6ria, de depositdria do me-
lhor patrim6nio human.
Nio se hA de bestializar a esquerda,
fazendo-a passar da condigio de santa h
de dem6nio. 0 que se exige 6 que apli-
quemos agora A esquerda no poder no
Brasil o mesmo rigor analitico que a es-
querda aplicava As velhas elites e oligar-
quias, quando as via de fora, do outro
lado do balcao, no posto de oposigao. JA
aqui, os interesses dos governor refor-
mistas italianos nio se harmonizam com
os prop6sitos e procedimentos do gover-
no popular do Brasil.
VArias das bandeiras que Lula levou ao
governor foram baixadas e substituidas por
estandartes luxuosos, emprestados em ca-
sas de aluguel de trajes finos e de pantomi-
ma. I preciso ser exigente ao encarar o atu-
al governor, como se fez corn os anteriores,
para nao permitir que ele adquira a sindro-
me de Harry Poter: uma vez que coloca so-
bre si o manto dajusta causa, se torna invi-
sfvel. E af pode cometer fraudes e vilanias,
que sempre elas serao toleradas, atenua-
das pela alegagco de que 6 o prego a pagar
pelo avango na hist6ria.
Nao hA avangos ou conquistas que nao
possam ser exibidos a luz do dia e conferi-
dos em mindcias pelos cidadaos, agora ir-
manados num mundo sem fronteiras. Se
essa flu8ncia serve aos politicos inescru-
pulosos, as empresas desleais, a governors
arrogantes, que tamb6m sirva para a circu-
la9ao das informa6es, das id6ias e dos ide-
ais, sobretudo entire dois pauses corn tal
potential de identificaiao como os nossos.
E como n6s mesmos, que aqui estamos, ir-
manados por nossa f6 na humanidade e em
cada um dos membros desta fraternidade
italo-brasileira. Nao vamos ficar "nel mezzo
del camino". Vamos em frente.


SETEMBRO DE 2010 1 aQUINZENA Jornal Pessoal 11








0 Cirio de todos n6s


Em 6poca de Cfrio, a maior data no
calendfrio paraense, o tema motiva al-
gumas reflexes. A primeira 6 um pro-
longamento do comentArio da edigio
passada: quantas pessoas participam da
procissao, no segundo domingo de ou-
tubro? 0 Dieese previu 2,2 milhoes de
pessoas. Eu pus em questAo essa avali-
agao. Podia ser a oportunidade para al-
gu6m patrocinar uma mensuragao cien-
tffica, a primeira desde que o Cfrio se
tomou uma manifestaqio de massa, de
dimensao que s6 agora 6 rivalizada e
at6 superada pela Parada Gay de Sao
Paulo. Um acontecimento religioso e
outro profano. A carnavalizaqao antro-
poffigica (no sentido cultural, bem en-
tendido) dos brasileiros em agao, mes-
mo que atrav6s do mimetismo e do sin-
cretismo, components importantes num
pals mestiqo como o nosso.
Pessoas que se manifestaram sobre
o meu comentdrio se recusam a admitir
esse tipo de abordagem. Acham que
seria um desrespeito A f6 dos devotos e
uma ofensa aos brios dos paraenses.
Mesmo que a litania dos 2 milhoes de
participants da romaria venha a ser
desfeita pela quantificagao segundo
m6todo cientffico, o resultado em nada
modificaria o conceito do Cfrio. Apenas
daria conteddo de verdade a uma pro-
clamagao carente de fundamentagao,
mas corn todos os indfcios de um exa-
gero. Se o nimero o mais aproximado
de um milhao for o correto, a grandiosi-
dade do acontecimento permanecerdi
intocada. Religiao nao conflita corn a
verdade. EstA na Biblia o contrfrio: que
a verdade 6 libertagao.
Por causa dos dogmas religiosos,
raros sao os bons estudos sobre um fe-
n8meno tao rico e complex. Faltam
mesmo as obras de mera divulgagao.
As melhores abordagens feitas ao Cf-
rio continual a ser de Eidorfe Morei-
ra e Savino Mombelli, de muitos anos
atris. A insistencia das liderangas da
festa em se basear em mitos e fantasi-
as, tragando um cfrculo de fogo em
torno da festividade, dificulta a melhor


compreensao do fato, que 6 tanto reli-
gioso quanto profano.


E por isso que fatos novos estio sur-
gindo e se consolidando sem sequer se-
rem registrados, por contrariem a ortodo-
xia dos "donos" da festividade. Um exem-
plo dessas novas configuraq6es 6 a rela-
gao dos evang61licos com o Cfrio. E sabi-
do que eles nao aceitam as imagens de
santos, cultuados pelos cat61icos. Como 6
que se comportam em relaqao a Nossa
Senhora de Nazar6, a padroeira dos pa-
raenses (por suposto, de todos eles)?
Relevam essa diverg&ncia e partici-
pam das romarias e outros acontecimen-
tos da cadavez mais vasta agenda do Cfrio,
dando-lhe uma abrangencia ainda mais
ecumenica, A margem do aparato institu-
cional? Se nio participam, como acredi-
tar no crescimento tAo acentuado na fre-
qiiencia a romaria se o contingent de
evang61licos 6, em Bel6m, um dos mais
expressivos dentre todas as capitals bra-
sileiras? Algumas das muitas questoes a
exigir respostas satisfat6rias.
AliAs, os evang61icos propuseram um
tema bemrn secular. Consultaram o Mi-
nist6rio Pdblico Federal sobre a legali-
dade da venda de patrim6nio pdblico sem
licitaqAo pdblica. 0 Minist6rio do Ex6r-
cito se comprometeu a vender A par6-
quia de Nazar6 (ou A ordem dos barna-
bitas?) a Area onde o NPOR tinha sua
sede (e atualmente 6 ocupada pelo LAP,
o Institute de Artes do ParA), ao lado da
basilica de Nossa Senhora de Nazar6,
onde a romaria terminal.
Os advogados evang61licos querem
saber qual 6 a base legal para a dispen-


sa da licitaqao pdblica e a venda direta.
Tem toda razao em pedir a explicagqo,
que 6 de natureza puramente secular.
Ndo hA motivo para tomA-la como pre-
texto para uma dispute religiosa. As
coisas da religiao estao sujeitas ao or-
denamento legal do pals desde que o
Estado se separou da Igreja, um dos
pilares da repdblica.
Deve-se encarar o questionamento
corn a razao e o bom senso, sem conta-
mind-lo por arguments sectArios ou fa-
nAticos. Acho que a transaqgo seria le-
gitimada atrav6s de cessao onerosa ou
outra forma jurfdica para a transferen-
cia do direito real tendo como contrapar-
tida o cumprimento de determinadas exi-
gencias. Uma delas podia ser o compro-
misso dos administradores da basilica de
livrA-la de tudo que a ela foi agregado,
desfigurando-a. Seja a Area onde funci-
ona um restaurant como a que serviu
de necrot6rio, e h pr6pria administragqo
da ordem religiosa. A basilica ficaria li-
vre dessas incrustag6es indevidas, fnte-
gra, plenamente visivel.
Todas essas instalaqoes seriam trans-
feridas para a Area cedida, incluindo o
restaurant, que 6 particular e se esta-
beleceu graqas A competencia dos seus
particulares, sem prejudicar ningu6m. 0
uso dessa Area estaria condicionado A
aprovaqao dos 6rgdos t6cnicos compe-
tentes do governor federal, aos quais os
projetos e as plants seriam submetidos,
consultados o governor do Estado e a pre-
feitura, que poderiam ter o direito de veto.
Cumpridas todas as exigencias, num cer-
to prazo o comodato se transformaria em
transferfncia definitive. 0 poder pdblico
deixaria de arrecadar, mas, em contra-
partida, o interesse ptiblico seria atendi-
do. Interesse de todos, cat61icos, de ou-
tras religi6es, agn6sticos ou ateus, todos
eles cidadaos merecedores de respeito.
O Cfrio, ao inv6s de diminuir, se en-
grandecerA. Ainda mais se o solar da fa-
miliado m&6dico Deocl6cio Correa for de-
sapropriada e transformada em museu do
Cfrio, para se tomar um nicleo vivo da


mem6ria do maior acontecimento cultu-
ral, em seu amplo significado antropol6gi-
co, na vida dos paraenses.


Ediqao
Esta edig o foi escrita aos tapas por causa das
atribulaq6es forenses. Espero que os leitores
faqam dela uma leitura franciscana.


Corre ao
0 desgragado do computador me deixou numa pior na edigAo passada:
transformou meu "ao inv6s" num estapafdrdio "ao inv6is". Assim,
ningu6m perdoa. De qualquer forma, perdao, leitores.


___ __ I __~~~~_~___~_ II ___~____~~_~~_~~ I _~ _~_~~ ~~~___~__~__ I__~ __ ~__~_~_~~~~~~~_____