Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00351

Full Text





ornal


'essoal
LUCIO FLAVIO PINTO


ELEIc AO


De volta ao antes

A pesquisa eleitoral e as evidencias cotidianas indicam que Simdo Jatene e ofavorito para o dia
3 de outubro. A maiorfafanha dos petistas, colocados no governor em 2006 para porfim ao
reinado dos tucanos, foi traze-los de volta. Grapas ao pessimo governor de Ana Julia Carepa


Em 2006 o eleitor paraense des-
pejou os tucanos do governor do
Estado, no qual permaneceram
por 12 anos. Safram com uma avalia-
gqo positive, mas a marca elitista da
gestio saturou a opinion pdblica, que
buscou uma alternAncia, a horaa da
mudanga", no jargio de entao. Neste
ano, por6m, poderdo devolver-lhes o
poder, encerrando o mandate entao con-
ferido aos petistas.
Quando, quatro anos atrAs, Almir
Gabriel foi derrotado, poucos podiam
prever que o PSDB ressuscitaria das
cinzas, como j ocorreu, independente-
mente de como as urnas virlo a se


manifestar no dia 3 de outubro. Afinal,
de candidate secundario quando a cam-
panha eleitoral foi informalmente inici-
ada, em abril, a favorite, is v6speras da
eleiqao, Simao Jatene j conseguiu uma
faganha: reverter a escrita de que, no
cargo, governador dificilmente perde
uma dispute pelo voto popular. Sobretu-
do num Estado pobre, corn significativa
dispersio populacional e extenso terri-
t6rio, como o Pard.
A arquiteta Ana Julia Carepa pode
ver-se frustrada e se tomar a primeira
governadora do ParA a nao conseguir se
reeleger, desde que a recondugio A che-
fia do executive foi tomada legal, duran-


te a presid&ncia de Fernando Henrique
Cardoso, que pagou caro pelo segundo
mandate (e o cidadao brasileiro muito
mais do que ele). Numa dispute em que
Lula 6 o maior cabo eleitoral de todos os
tempos na vida republican national, Ana
Jdlia se tomou a 6nica governadora do
PT a nao conseguir surfar na imensa onda
de popularidade do president.
0 desempenho da governadora foi
tAo ruim que a eleigqo majoritaria deste
ano deverd ser definida pelo crit6rio
negative. Parcela principal do eleitora-
do ja decidiu em quem nWo votard de
maneira alguma: sera em Ana Jdlia. Sua
CO "iiiimam iiii


COTAA GIAGE A.


10PGE XIT MEMO PAG






forte rejeiqio levou ao desespero os in-
tegrantes da sua campanha. Tornada
remota sua possibilidade de vit6ria no
1 turno, o empenho que 6 total vol-
tou-se para levar a eleigio ao 2 turn,
quando uma categ6rica vit6ria de Dil-
ma Rousseff, jA no 1 tumo da dispute
presidential, reforqari a posiqAo da
governadora.
Para onde migrarao esses votos, ago-
ra anti-PT, que em 2006 interromperam
a sucessio tucana? At6 aqui, o resulta-
do da desilusAo com os petistas benefi-
ciou Simdo Jatene. E como se o eleitor
voltasse A situaqio de quatro anos atris
para corrigir um equfvoco: o lanqamento
do ex-governador Almir Gabriel como
candidate do PSDB, quando o mais co-
tado para a dispute era Jatene, que po-
deria ter-se reeleito, mesmo enfrentan-
do o PT e (quem sabe?) o PMDB, se 6
que Jader Barbalho apresentaria candi-
dato pr6prio em tal situaqao.
Talvez, se houvesse alternative real
ao PT, o eleitor nao fizesse a regressao
ao PSDB, embora o partido que agora
se apresenta corn possibilidades reais
de vit6ria nWo seja mais aquele de 2006,
quando Almir atropelou a todos e se
impos como candidate, mesmo diante do
ceticismo da maioria dos seus correligi-
ondrios. Com o comportamento burles-
co do ex-governador na atual tempora-
da, mais tirando voto para o apoiado do
que atraindo op6es, seus dias chega-
ram definitivamente ao fim. Almir po-
dia ter-se despedido da political de for-
ma mais apropriada e coerente com a
sua biografia. De castigo por tantos er-
ros, terd um epilogo melanc61ico.
Ele ficou ao lado de Domingos Ju-
venil, aposta temerdria de Jader Bar-
balho para garantir sua posicgo na poli-
tica paraense. 0 candidate nao conven-
ce. Ao ve-lo no program da television,
muitos eleitores devem ter sentido um
recuo A desastrosa candidatura de H6-
lio Gueiros ao Senado, transformada em
pantomima pela incapacidade do can-
didato de se ajustar a nova
correlagqo de forgas,
que nao mais o
contemplava
como dono de
votos suficien- .
tes para um
novo v6o majori- (
trio. Tamb6m foi
um encerramento in-
gl6rio de carreira. 1


Poderd estar se desenhando um des-
tino semelhante para Jader Barbalho?
Esta pode ser uma das surpresas involun-
tarias ou caprichosas da eleicao des-
te ano. Se Domingos Juvenil, ao inv6s de
reeditar a votaqao de Jos6 Priante em
2006, devolver o PMDB aos tempos de
vacas magras, com candidaturas sofriveis
ou simb61icas, como a de Socorro Gomes
(que era do PC do B), Fernando Velasco
ou Rubens Nazareno de Brito, a forqa de
Jader se enfraquecerd. Ele pode ter abu-
sado da tolerincia do seu eleitor.

p^or sera se o Supremo
Tribunal Federal man-
tiver a impugnagAo a
eandidatura de Jader ao Se-
nado e tomar essa decisao
antes da eleigao, como agora pa-
rece mais provivel, para evitar a com-
plicaqao de tomar a decisao depois da
votagdo, que sern anulada em caso de
confirmaqdo da lei. 0 ex-governador
ficard ao largo da dispute, sem ningu6m
de peso para substituf-lo e condenado a
- no minimo dois anos A distincia do
poder. Peemedebistas e petistas consi-
deram remota essa possibilidade, a par-
tir de um raciocfnio em tese: cassado
Jader como ficha suja, Paulo Rocha teve
o mesmo destino. E dezenas de outros
politicos lhes seguirdo.
Dilma ficaria entdo privada de dois
senadores aliados no Pari, quando uma
das prioridades da estrat6gia de Lula
para garantir seu caminho de volta em
2014 (ou, na pior das hip6teses, uma
sucessdo petista) 6 conquistar a maio-
ria do Senado, onde a fragilidade situa-
cionista 6 de tal ordem que nao impediu
o fim da CPMF, uma fonte de receita
que o governor federal nao esperava -
nem queria perder.
0 Palicio do Planalto estaria fazen-
do toda a sorte de presses para man-
ter as duas candidaturas (e as demais
aliadas), contando ainda corn fundamen-
taqao juridica contrtria ao efeito retro-
ativo da lei da ficha limpa. 0 voto do


relator, Carlos Ayres de Brito, embora
acolhendo a cassaqAo da candidatura
de Jader e Paulo Rocha, ao se ater na
preliminary a um formalismo, ofereceu
ao colegiado, que proferirA a decisao
final, a oportunidade de encontrarjusti-
ficativas plausiveis para reformar a sen-
tenqa do Tribunal Superior Eleitoral.
0 STF se disporA, por6m, a contra-
riar a vontade da parcela preponderan-
te do eleitorado brasileiro, que quer fora
da vida political pessoas com maus an-
tecedentes? Da mesma maneira como
6 dificil saber o grau de penetraqdo de
Lula entire os ministros da corte supre-
ma, para tentar influir conforme seus
interesses, 6 problemAtico antecipar a
condii~o subjetiva dos seus integrantes
diante da pressdo ostensiva da opinion
pdblica em favor do expurgo dos qua-
dros politicos de not6rio comprometi-
mento no desempenho do mandate con-
ferido pelo povo. As informal es vaza-
das dos bastidores sugerem que, qual-
quer que venha a ser a decisao, ela de-
verA ser por margem minima de votos
no colegiado. 0 que revela a dramatici-
dade da questio.
Se Jader e Paulo forem afastados
e nao conseguirem transferir sua vo-
taqao aos substitutes, pelo quadro atu-
al, apurado na pesquisa do Ibope en-
comendada em agosto pelo grupo Li-
beral (a inica at6 agora divulgada),
haveria renovaqdo de 50% nos dois
lugares a serem preenchidos na ban-
cada paraense no Senado.
De forma tamb6m surpreendente, se-
ria reconduzido o atual senador Flexa Ri-
beiro, do PSDB, que subiu A cimara alta
por ser suplente do titular, Duciomar Cos-
ta, do PTB (que se desincompatibilizou
para concorrer A prefeitura de Bel6m). E
ascenderia a ex-vereadora Marinor Bri-
to, do PSOL, o destinatdrio de parte dos
votos mais organicos do PT, daqueles elei-
tores que se sentem traidos pela conduta
do partido no govemo. Um indicador de
que o eleitorado s6 nao deu maior vazo
A sua insatisfaqo corn as lideranqas polf-
ticas no Estado, em espe-
cial as que estdo no
powder, por absolute
falta de opqao.
De certa forma,
r ? como em 2006, a
Smanifestagqo 6
pela mudanqa.
Mas elas virdo
realmente a
- acontecer?


2 Jornal Pessoal SETEMBRO DE 2010 1I QUINZENA






Cada vez mais perto de Duciomar Costa


O prefeito de Beldm, Duciomar Cos-
ta, do PTB, aliado da govemadora Ana
Jdlia Carepa e do president Lula, am-
bos do PT, 6 o mais visado dos politicos
paraenses pelo Ministerio Pdblico Fe-
deral. Sua administraqao tern 13 pro-
cessos nos costados, por malversagao
de verbas federais, mas se mant6m in-
c61ume as investidas do fiscal da lei. Ele
jd escapou a duas ordens de prisao da
justiqa e diz ter consciencia de que pode
ser preso a qualquer moment, em fun-
qao de tantas quest6es pendentes. Mas
isso ainda nao ocorreu.
No infcio do mes a aqao do MPF
chegou bem perto dele: tries funciondri-
os da Secretaria Municipal de Sadde,
incluindo o detentor do segundo princi-
pal cargo na Sesma, o diretor-geral
Maflton Ferreira, foram press pela
Policia Federal, a partir de denincia da
Procuradoria da Repdblica, acatada
pelo titular da 3" vara da justiga federal,
Rubens Rollo d'Oliveira.
Juntamente com dois empresarios,
tamb6m press, eles foram acusados
de fraudar licitaq6es, causando pre-
juizos ao erdrio e favorecendo ilicita-
mente empresas contrata-
das para prestar serviqos ao
atendimento m6vel de sad-
de, o Samu, e ao "A16, Sadl-
de", que faz visits domici- 0
liares a enfermos. Os dois do An
empresirios, Antonio dos sas nc
Santos Neto e Ronaldo Mar- Dias,
tins, teriam at6 participado ex-go
da elaboraq~o dos editais de voritc
licitacqo que venceram. do Pq
Neto, o dnico a se manifes- Feder
tar, negou a acusacgo. Dis- Conta
se que ela nao juntou qual- super
quer document comproba- meira
t6rio, baseando-se apenas NE
em testemunhos orais. presid
Como de regra, o prefei- encon
to se manteve mudo at6 que luxo,
o Tribunal Regional Federal 250 nr
da 1" Regiao, em Brasilia, putad(
tamb6m como de praxe, sus- pela q
pendeu a prisao temporiria, desvia
na semana seguinte a sua A]
efetivagqo. 0 principal per- teceu
sonagem, o secretario de Estad(
sadde, Sdrgio Pimentel esta- brado!
va em Miami, nos Estados rupq
Unidos, cendrio pr6prio a produi
esse tipo de enredo, e por 1l


ficou at6 a concessdo de habeas cor-
pus aos incriminados. Foi o dnico que
escapou ao mandado de prison.
Refreada a tensdo, o prefeito deu
uma entrevista coletiva A imprensa.
Como igualmente se tornou rotina na
administraqao pdblica brasileira, disse
que nada sabia sobre os fatos aponta-
dos pelo Minist6rio Piblico. Justificou-
se argumentando que o control exter-
no da Sesmaji nao existe, suspense que
foi exatamente quando Pimentel assu-
miu a secretaria.

C om o fim da autonomia,
cada detentor de cargo
de conflanga tern que fazer
por mereeer a delegagio do
chefe. Duciomar nio se senate obri-
gado "a ficar cobrando lisura" dos seus
subordinados, que devem saber quais
sdo as suas obriga96es. Ele admitiu que
hi corrupco na prefeitura ("e onde
nao hi?"), mas nao se senate em con-
diq6es de eliminA-la: se fosse demitir
todos os funcionarios denunciados,
"fico sem nenhum funciondrio". Ou
seja: salve-se quem puder.


Corrup09o a larga

esquema de corrupco desmascarado no gov
napA envolvia 103 pessoas, das quais 18 foram
dia 10, dentre elas o governador atual, Pedro P
do PP, que tentara a reeleiqao em 3 de outubr
vernador, Waldez de G6es, do PDT, candidate
ao Senado. Ambos tem o apoio do president
, e do senador Jos6 Sarney, do PMDB. A PC
al prendeu tamb6m o president do Tribun
Ls do Estado, o secretario de seguranqa pdbli
intendente do Minist6rio da Agricultura e a ex
dama, mulher de G6es.
casa de praia em Jodo Pessoa (na Paraiba
ente do TCE amapaense, Jos6 Julio Coelho,
trou 540 mil reais em dinheiro vivo e cinco carr
que, em conjunto, devem valer outro tanto. Mai
iil em esp6cie foram localizadas na casa de un
o estadual. S6 em dois anos, as fraudes pratic
[uadrilha passaram de R$ 800 milh6es. As ve
Ldas se destinavam principalmente a educaqco
impeza feita no AmapA se assemelha A que a
em Rond6nia. Outra semelhanga: os dois al
)s eram originalmente territ6rios federais, desm
s do Part e do Amazonas, onde a cultural da
o associada ao governor ainda 6 muito forte,
to do assistencialismo da Unido.


Fiel a essa digamos assim filo-
sofia de trabalho, o prefeito nao se sen-
tiu obrigado a afastar, mesmo que tem-
porariamente, os funcionArios denunci-
ados ou press, at6 a apuraqio definiti-
va dos delitos que lhes foram imputa-
dos. Todos voltaram aos seus cargos e
continuam trabalhando como se nada
tivesse acontecido.
Talvez tendo no subconsciente a
maxima do ex-govemador de Sao Pau-
lo e eterno candidate presidential, Ade-
mar de Barros ("rouba, mas faz"), ou
sua versdo parauara do governor do tra-
balho, de Jader Barbalho, o alcaide de
Bel6m garante que a Sesma tem apre-
sentado resultados positives.
"Fico dividido entire tender a uma
dendncia anonima e fechar os olhos para
os avanqos significativos da sadde", dis-
se para os rep6rteres convocados para
a coletiva. Colocou sob suspeita a de-
nuncia anonima apresentada ao MPF, di-
zendo que pode ter sido feita por alguma
empresa prejudicada pelo resultado da
licitaqao, como costuma acontecer. Al-
gu6m podia sugerir-lhe que, aos inv6is
de fechar os dois olhos, adotar o exem-
plo dos antigos vigias: enquan-
to um olho descansa, o outro
fiscaliza o que Ihe compete. Ao
prefeito, zelar por toda a admi-
erno nistragqo sujeita A sua autori-
pre- dade. Para isso ele foi eleito.
laulo 0 prende-e-solta caracte-
, e o rfstico desses epis6dios, cada
o fa- vez mais rotineiros, exibe um
Lula, claro contrast entire a medi-
ilicia da adotada no primeiro grau
ial de dejurisdido do judicidrio e a
ca, o norma administrative no ser-
-pri- viqo pdblico, al6m de descom-
passo interno entire o juizo sin-
i) do gular e a deliberaqao indi-
a PF vidual ou colegiada dos tri-
osde bunais superiores. Atravds
is R$ desse long e tortuoso cami-
de- nho, que torna a prisao apa-
adas rentemente tao fAcil quanto a
rbas soltura, deve-se buscar a ex-
. plicagqo para o paradoxo:
con- quanto mais se denuncia,
tuais combat e pune a corrupcao,
tem- mais ela cresce. Como o bolo,
cor- que tufa conforme esse m6-
sub- todo, ou o Jolo teimoso, que
cai quando empurrado, mas
sempre levanta.


SETEMBRO DE 2010 1 QUINZENA Jornal Pessoal 3






0 desenvolvimento e a fumaga


Talvez Marina Silva tivesse mais votos
se disputasse a presidencia de um pafs euro-
peu do que a do Brasil. 0 solo do Velho
Mundo se mostra mais receptive do que o
do Novo Continente ao seu discurso ecol6-
gico. Num pafs de extensAo continental e
crente que tern territ6rio suficiente para man-
ter indefinidamente a expansAo da sua fron-
teira econ6mica, falar em protegAo da natu-
reza e manter a floresta em p6 parece deva-
neio, quando nao loucura. Nao rende votos
porque nao toca na parte mais sensfvel do
corpo human, que, segundo o maior dos
economists, lorde Keynes, 6 o bolso.
Compra-se como nunca, consome-se
desenfreadamente, hA dinheiro se espalhan-
do pela sociedade e difunde-se a certeza de
que desta vez o Brasil chegou ao topo da
economic mundial e nao vai mais ser des-
pejado de li, como em outros moments do
sonho do pafs grande.
As garagens e as ruas se enchem de
carros, edificios sao levantados aos milha-
res, as vitrines e as prateleiras das lojas term
maior diversidade de produtos em exibigio
e a rede de servigos se amplia, diversifica-
se e se sofistica. Se esta dando certo, por
que mudar o ritmo e a diregio das ativida-
des produtivas?
Claro que alguns "detalhes" importan-
tes sio sonegados ao grande pdiblico, que
jd parece ter decidido eleger "a candidate
do Lula", sem mesmo se importar em saber
quem ela seja. Depois de Collor, responsa-
vel pela primeira das tries derrotas sucessi-
vas de Lula, 6 o maior salto no escuro que o
eleitorja deu, maior do que aquele pulo trau-
mdtico que elegeu Janio Quadros, exatamen-
te meio sdculo atris. Como se sabe, o salto
nao terminou at6 hoje. Viramos 6rfaos de
Janio. E de Collor. De Dilma tambem?
Um desses "detalhes" ignorados pela
massa: o elevado grau de endividamento
geral, em contrast corn a baixa taxa de pou-
panga do cidadao brasileiro. A naqao pensa
no imediato (a long prazo, todos estare-
mos mortos, palpitou tamb6m o ingles afe-
tado John Keynes). 0 cr6dito estA facil e
abundante (embora a maior taxa de juros do
mundo) e o cartio plistico 6 magico. Dai
um tergo do PIB, que represent a soma da
riqueza national, ser formado por cr6dito. AI
dinheiro que sai e vai precisar voltar um
dia. Em proporgio nunca antes vista (mas
este nunca nao se ouvirg da boca de Lula,
contumaz usuario do valor absolute).
0 prazo de cinco anos para comprar o
autom6vel ou 20 para quitar o apartamento
pode terminar e a dfvida, nio. 0 descom-
passo pode vir muito antes. 0 indice de
inadimplencia ji acendeu o alerta amarelo.
Mas isso 6 "detalhe". Melhor esquece-lo e
votar na maie do PAC, o program de acele-
raqao do crescimento. Prosseguindo na di-
retriz do padrinho Lula, ela vai manter a cir-
culaqao de riqueza, o emprego, a grana no


bolso e os olhos vidrados pelo consume
sem freio.
Por incrivel que possa parecer aos dog-
miticos e intransigentes, o clima 6 o mesmo
de quatro d6cadas atrds, entire o final dos
anos 1960 e o infcio dos 1970, quando o
"milagre brasileiro" era medido pelo cresci-
mento de dois dfgitos do PIB. A matriz des-
sa miquina tamb6m era o endividamento,
que o governor foi buscar no exterior. Seu
combustfvel, o silencio e a "paz social" im-
posta por um feroz aparelho de repressao
policial, azeitado pelo regime military.
Eleito e ainda nio empossado, Lula ad-
mitiu de pdblico que admirava os tecnocra-
tas. Protegidos pela espada dos generals,
eles conceberam um planejamento do de-
senvolvimento muito parecido ao do PAC.
Corn a diferenga de que os atuais projetos
de impact nio resultaram em taxas de in-
cremento do PIB tAo altas (abaixo da meta-
de atd agora) e Lula nAo tern as ferramentas
(nem as armas) dos generals. Embora tenha
como consultor o mais poderoso dos tec-
nocratas dessa dpoca, o economist Ant6-
nio Delfim Netto.

Delfim deve so sentir tao
& vontade agora quanto
na 6poea em que dava ordens
diretas, como czar personifi-
eado e nao conselheiro, ou
emin6neia parda. De qualquer ma-
neira, como na matematica, a ordem dos fa-
tores nio altera o produto. Da mesma ma-
neira que os militares, carentes da mat6ria
nas suas escolas de formaglo, tamb6m Lula
nada entende de economic. Delega a tarefa
de cuidar das finangas a tecnocratas seme-
lhantes aos dos generals. Como o tucano-
peemedebista sem plumas Henrique Meire-
lles, president do Banco Central.
Em tal context, o discurso ambientalista
de Marina Silva soa tio frdgil e franzino quan-
to sua apar8ncia ffsica. Seu indice de prefe-
rancia nas pesquisas nao se alterou e parece
ter-se cristalizado. No mes passado, quando
comegou a propaganda eleitoral gratuita (ma
non troppo) pela televisao, o Brasil ardia em
fogo e era coberto pela fumaga de um dos
sfmbolos e sustentkculos do crescimento que
o PAC apoia: o agroneg6cio.
0 satdlite registrou mais de 26 mil focos
de fogo no pafs, 270% a mais do que no
mesmo m8s de 2009. 0 que aconteceu de
diferente no pertodo para provocar situa-
9ao corn a dramaticidade que a pr6pria tele-
visao exibiu?
Em agosto de 2009 nao havia campanha
eleitoral. Ela agora estA ativa e mobilize re-
cursos para a definigio dos rumos politicos.
A tentative de brecar duas anomalias civili-
zat6rias aiinda de prAtica corrente no Brasil
do skculo XXI a derrubada da densa flo-
resta native tropical para substituf-la por umrn
recurso natural de valor inferior e uma ativi-


dade econOmica de curta duraqAo, e o uso
do fogo, a mais primitive das tecnologias
humans, para expandir ou sustentar essa
mesma atividade esbarrou mais uma vez
em uma iniciativa nascida da "base aliada".
Um partido comunista por assim dizer
clAssico, o PC do B, que apoia um partido
neoesquerdista, o PT, sabotou o texto do
novo C6digo Florestal. De tal maneira que
os agents dos desmatamentos e das quei-
madas se sentiram livres, leves e soltos para
ignorar as normas ecol6gicas sugeridas e
prosseguir na sua faina destruidora. A in-
sensatez teve seus efeitos ampliados por
uma temporada de seca mais rigorosa do
que o normal.
Para estupor dos observadores mais
atentos, ou mais sensfveis, o aeroporto de
Porto Velho, a capital de Rondonia, ficou
fechado durante tres dias. A cidade estava
coberta por enorme e densa fumaga, so-
prada pelo vento do AtlAntico para a cor-
dilheira dos Andes, paredAo que fez refluir
esse smog doentio sobre o extreme oeste
da Amazonia.
Fato absolutamente inddito: durante
quatro dias, o aeroporto de Manaus tam-
be6m esteve no abre-e-fecha por causa da
mesma leva de fumaga, apesar de estar a
900 quil6metros da capital rondoniense.
Nunca os habitantes da Zona Franca se vi-
ram em situagio igual: ter que conviver corn
a densa ndvoa, que tornou o ar pesado e
atacou gargantas e olhos da populaago.
t precise ver e viver as mudanqas que
tem ocorrido na Amaz6nia para senti-las e
poder discerni-las como realidade por tras
de papdis e ndmeros frios, ou de discursos
falsos. Entre 2007 e 2009, segundo o IBGE,
Rond6nia foi o terceiro Estado que mais
reduziu o desmatamento em 84% no Bra-
sil. Mas essa faqanha nao serve de conso-
lo. A derrubada de floresta no Estado 6 tal
que ele nao quer mais pertencer A Amaz6-
nia. Reivindica sua incorporagao ao Cen-
tro-Oeste para poder continuar a desmatar,
al6m dos 50% que atingiu. Rond6nia ji 6
um Estado infrator do atual C6digo Flores-
tal, velho de 45 anos, mas talvez melhor do
que o seu sucedaneo desnaturado pelos
intelectuais neoalbaneses do Brasil.
A segunda melhor reduqao do desmata-
mento (de 85%) aconteceu do outro lado
da Amazonia, em Roraima. Pois foi justa-
mente 1 que, entire 1987 e 1988, ardeu a tese
de que a floresta 6imida amazbnica 6 insus-
cetfvel A combustao natural e refratiria ao
fogo human. Foi o inc8ndio mais prolon-
gado, em tempo e espago, de toda a hist6ria
da regiAo. 0 primeiro caso de queima da flo-
resta native em fungqo da alteragao da pai-
sagem pela aqAo humana em combinagio
corn o ressecamento do clima, hoje uma pre-
ocupagio national. Uma conjungio literal-
mentc explosiva, mas que se expand na
Amaz6nia, ameagando-a cada vez mais.


4 Jornal Pessoal SETEMBRO DE 2010 *. 1 QUINZENA






Tiro de more na grilagem?


No mes passado, Jos6 Vit6rio Depra
pediu A jufza agraria de Castanhal, Rober-
ta Guterres Caracas, o desbloqueio da ma-
tricula imobiliaria da sua fazenda Mexica-
na I, em Paragominas, com area de 2.928
hectares. A jufza indeferiu o pedido, ba-
seando-se em determinaaqo do ministry
Gilson Dip, Corregedor Nacional de Jus-
tiga. Atrav6s de provimento, ele ordenou
aos cart6rios o cancelamento dos regis-
tros que foram bloqueados em 2006, tam-
bem por decisao do CNJ. Corn o cancela-
mento definitive do registro em cart6rio,
a solicitagao do fazendeiro passava a se
enquadrar na figure processual da "falta
de interesse para o prosseguimento do
feito". A magistrada entio julgou "extin-
to o procedimento de desbloqueio de
matricula sem resolugao do m6rito".
Pelos mesmos motivos, outros proces-
sos corn pedidos de desbloqueio de matrf-
culas de im6veis rurais na vara agraria de
Castanhal foram cancelados sumariamen-
te, sem a anilise das raz6es apresentadas
pelos detentores desses domfnios. A mes-
ma situaqao se repetiu em Redengao, no
outro extremo do Estado. A juiza Leonila
Medeiros, no exercfcio da vara agraria da
comarca, negou o pedido de desbloqueio
de matricula feito pelaAgropecuariaAraQa-
tuba, voltando atr6s na decisao anterior, por
causa do novo provimento, apesar da ma-
nifestagio favoravel do Iterpa e da data da
expedicao dos tftulos. Ajufza entendeu que,
como eles s6 foram matriculados em 1997,
era necessaria a autorizagao legislative,
"por conta da extensao da area do im6vel".
E assim deverA se repetir em todos os
cart6rios imobiliarios do Par,, se for cum-
prida a decisao do CNJ. 0 conselho man-
dou cancelar os registros de 5,5 mil im6-
veis rurais. Nao s6 dos que ji estavam blo-
queados ha quatro anos, mas de todos que
tenham areas superiores a 2,5 mil hectares
ou atd 10 mil hectares, conforme o tama-
nho maximo admitido para a concesso de
tftulos de terras sem anu8ncia legislative,
em diferentes datas. Na menos grave das
hip6teses, significa a perda da condiqao
de propriedade legal de uma area de 28 mi-


0 Acre, sim, combinou reduqao do
desmatamento (de 93% entire 2007 e 2009)
e esforgos para dar conteddo de realida-
de a sua "Florestania", polftica pdblica
para manter a floresta em p6, demonstran-
do que essa 6 a escolha certa e tamb6m
a mais rentAvel. Mas o Acre tern o s6timo
pior indice de desenvolvimento human
(IDH) do pafs. Nao por acaso, fazendo
companhia ao Pard nesse rabo de fila, am-
bos tendo optado pelo extrativismo: o ve-
getal no Acre e o mineral no Para. Doloro-
sa condiqio colonial.


Wlhes de hectares, mais de 20% de todo
territ6rio paraense.
Se adotada durante o governor military,
a media seria considerada autoritaria,
quase ditatorial. Alguns dos presidentes-
generais at6 recorreram a procedimentos
semelhantes, sem conseguir, corn isso, al-
cangar o objetivo da iniciativa: limpar os
registros cartoriais das suas ilegalidades
e irregularidades, e combater a desenfre-
ada grilagem de terras na
Amaz6nia. Embora seja
de natureza administrati-
va, a iniciativa do corre-
gedor national do CNJ estA
autorizada por normas legais es-
pecfficas, ainda que impondo a supres-
sao do "devido process legal", corn am-
plo direito de defesa e o contradit6rio,
pelo argument absolutista da falta de in-
teresse legftimo de agir. No entanto, nao
6 tao isenta de efeitos como sugere a tran-
qiiilidade do conselho.
Durante anos o Iterpa (Instituto de Ter-
ras do Pard) acumulou pareceres sobre os
vicios dos tftulos de propriedade que Ihe
foram submetidos para a expedigio de cer-
tid6es (55% das 13 mil que foram expedidas
nao apresentaram a cadeia dominial com-
pleta, a partir do desmembramento das ter-
ras do patrim6nio pdblico, segundo Girola-
mo Treccani, do Iterpa). Uns, porque sim-
plesmente nunca foram expedidos pelo Es-
tado: eram falsos. Outros, por irregularida-
des varias. Mas tamb6m por deficiencia no
arquivo do institute, originado da Secreta-
ria de Agricultura (e, antes dela, da Secreta-
ria de Obras e Terras), ou fraude na emissao
do tftulo na instancia official.
De qualquer maneira, muitos dos pap6is
passaram por dois servidores pdblicos: o
funciondrio do 6rgio de expedigao do tftu-
lo e o official do registro de im6veis, este
dotado de f6 p6blica. Durante anos esses
pap6is foram considerados v.lidos e suas
matriculas no foram questionadas. Delas
resultaram empr6stimos bancarios e v6rias
outras operaq6es, comerciais e financeiras.
Logo, se o cancelamento for mantido, como
parece que ocorrera, os prejudicados po-


Marina Silva 6 a mais conhecida das li-
derangas acreanas desde Chico Mendes, o
lider seringueiro assassinado em 1988, umrn
ano ap6s o record de desmatamento de
todos os tempos e ano da "Constituigao-
Cidada", mas j nem 6 favorite no seu Esta-
do natal. Foi superada pelos seus antigos
correligionarios petistas. Talvez porque
eles, mantendo o discurso ecol6gico, agem
pragmaticamente, incorporando a sua aqAo
temas que antes negavam ou combatiam.
No que, alids, nao inovam: Lula estA af mes-
mo para nia deixi-los s6s.


dem cobrar a responsabilidade civil do Es-
tado em duplo grau, atravds de ac6es de
indenizagio por perdas e danos, lucros ces-
santes e outros itens previstos. Podem vir
a somar milhares de ac6es, com valor de
centenas de milh6es de reais.
A determinagao do CNJ pode se fortale-
cer pela certeza de que tais demands con-
sumiro anos e terao desfecho imprevisf-
vel. Mas nao 6 s6 uma questao de respon-
sabilidade civil, a ser apurada quando as
ages comegarem a pipocar najustiga, com
todo tipo de fundamento que a complexida-
de da questlo possibility. Ela envolve tam-
b6m uma diversidade tal de situag6es da
qual, por falta de dados confiiveis, s6 se
teri uma id6ia mais concrete nas pr6ximas
semanas, a media que os atingidos verifi-
carem o alcance da iniciativa do CNJ e to-
marem alguma iniciativa.
0 tiro que o conselho deu para matar,
com uma dnica bala de prata, parte da grila-
gem praticada no Para, pode atingir tanto
os malfeitores quanto empresarios bem in-
tencionados (e bem sucedidos) e agriculto-
res de base familiar. 0 rem6dio pode ser tao
forte que acabari por liquidar muitos dos
pacientes. Ou resultar in6cuo, como duran-
te os governor militares. 0 novo cenario
estA apenas se delineando. Promete, por6m,
conturbagao.


Para Marina resta o console de ter, se nao o
melhor companheiro de chapa, um candidate a
vice-presidente que Ihe permitiria se apresentar
ainda melhor ao eleitorado europeu, como uma
tipica candidate verde.Afinal, Guilherme Leal,
o dono da empresa de cosm6ticos Natura, 6
um bilionario brasileiro para o qual o "desen-
volvimento sustentAvel" nio ficou na ret6ri-
ca. Traduziu-se em dinheiro, multiplicado por
anexar as caras embalagens dos seus produ-
tos a image de uma Amaz6nia bonita, dese-
jada e admirada por todos. E que a cada nova
campanha electoral vira mais fumaga.


SETEMBRO DE 2010 1 QUINZENA Jornal Pessoal 5







A imprensa conspira?


Existe realmente o PIG, Partido da
Imprensa Golpista? Os petistas seus
aliados e porta-vozes nao tem ddvi-
da: existe e age a todo vapor. Mas s6
conseguiram provar ate agora (o que
nao 6 pouco)*que os principals 6rgdos
da imprensa brasileira nao gostam de
Lula e nem do PT, que preferem Jos6
Serra a Dilma Rousseff, que sdo con-
servadores e elitistas, e que defendem
acima de tudo seus interesses corpo-
rativos. Mas ningu6m apresentou uma
prova da acqo desses vefculos de co-
municagqo para romper a ordem legal
no patrocfnio das suas id6ias, que con-
tem alguma dose de preconceito e mi-
f6. A democracia 6 suficientemente
elAstica para incluf-los na ordem legal
como grupos de pressAo, agindo as cla-
ras ou nos bastidores.
Golpista, sem ddvida, foi 0 Estado
de S. Paulo no combat ao governor de
Jolo Goulart. Seu director responsAvel,
Julio de Mesquita Filho, participou das
conspiraq6es que visavam a deposicao
do president constitutional do pafs. 0
segundo Mesquita na direqao do gran-
de journal paulista se viciara no combat
A margem da lei por causa do antago-
nismo extremado corn o getulismo, an-
tes e depois do Estado Novo (1937/45).
Mas a virul8ncia do famoso editorial que
ele escreveu ("Instituic6es em franga-
lhos") contra a edigao do AI-5, em 13
de dezembro de 1968, mostrava-o ji do
outro lado do balcAo, de onde nao mais
retornou. A partir do ano seguinte, seu
filho e successor na diregao do centenfi-
rio journal, Jdlio de Mesquita Neto, faria
sua a resistencia da redaqao as garras
totalitarias do regime military. Foi um dos
periods mais gloriosos da imprensa bra-
sileira, gl6ria feita de muita persistencia
e alguma coragem.
Enquanto o dono do Estaddo se en-
volvia na relagao promfscua com os
militares e civis golpistas da d6cada de
1960, ojornal de maior influencia polfti-
ca na 6poca, o Correio da Manha, do
Rio de Janeiro, mesmo A margem das
tratativas conspirativas, foi quem deu a
senha para a derrubada do president e
a adesao da classes m6dia aos usurpa-
dores do poder, com dois editorials su-
cessivos ("Basta!" e "Fora!"), escritos
por um jomalista de esquerda.
Tanto quanto os Mesquitas, os Bit-
tencourt entAo reduzidos a Niomar,
mulher de Paulo, successor do fundador
da empresa, em 1901, Edmundo de-


fendiam id6ias, algumas delas, nao sem
certa ironia, semelhantes As do gover-
no de Jango. 0 Correio tamb6m que-
ria as reforms de base, mas depois de
cumpridas as formalidades previstas em
lei, incluindo a aprovaqao pelo congres-
so national e nao por um golpe de mao
do chefe de executive. Depois do co-
mfcio de 13 de margo de 1964, o jomal
se convenceu, com sinceridade, que
Jango queria criar um confront para
assumir plenos poderes, tomando-se um
ditador. Iria tentar o golpe no qual Jfnio
Quadros fracassara, tries anos antes.
Se o Correio estava certo ou nao,
e a face controversy da questAo. Que
se pronunciou pelo afastamento do
president convict de que era a lni-
ca maneira de prevenir o golpe por
cima, nao hA mais ddvida alguma. A
maior parte da elite da redagao do jor-
nal era de esquerda. Foram esses jor-
nalistas que conduziram o maior jor-
nal que a repdblica teve ate hoje para
a reaqAo aos militares, a partir do se-
gundo dia do golpe.
Contaram corn a inexperiencia e sin-
drome de herofsmo de Niomar Moniz
Sodre Bittencourt para colocar o journal
em confront aberto corn o govemo for-
te (e apoiado majoritariamente pela clas-
se media e o povo em geral). 0 mesmo
aconteceria, sob outras circunstincias,
corn a Folha do Norte diante do coro-
nel Jarbas Passarinho, no Pard (depois o
journal, com a morte do seu chefe lendA-
rio, Paulo Maranhdo, passaria ao extre-
mo oposto, mas ji como caricature do
que fora, pronto para morrer).
Esse radicalismo infantil conduziu o
Correio direto aos rochedos e ao nau-
frAgio, em 1974,com direito & tradicio-
nal fuga dos ratos antes de a nau ader-
nar para o fundo da mem6ria national,
de onde nunca mais emergiu, para infe-
licidade da cultural brasileira. Nao esta-
va escrito nas estrelas que semelhante
destino era inevitAvel diante de um go-
verno forte, mas cheio de escrupulos
udenistas, como o do marechal Castelo
Branco e mesmo o do seu companheiro
de armas, Costa e Silva, o segundo pre-
sidente-general (o posto honorbrio de
Castelo e varios outros, inclusive o que
dirigiu a Folha nos seus estertores me-
dfocres, foi extinto por excess de de-
manda, mas nio de qualificagao).
Um pouco mais de realismo e de
boa f6 teriam permitido ao journal con-
tornar os perigos sem trair seus ideals,


sobrevivendo as intemp6ries da 6po-
ca; Foi assim que o Estaddo se com-
portou a partir do moment em que Jdlio
Neto assumiu o leme e estabeleceu o
contrast com o pai conspirador. Co-
locou o journal nos trilhos do profissio-
nalismo, tendo como norte a busca da
verdade, ainda que sujeita a todos os
graus de variaq6es em funqgo da di-
namica cotidiana e dos miasmas edito-
riais da empresa.
Por isso se imp6s ao respeito at6 dos
inimigos. Nunca acatou a presenqa do
censor estatal na redagao, mas nao pe-
diu que ele se retirasse. Fez o que era
certo: o combateu sem descanso. Quem
acabou cedendo foi o govemo military,
jf no consultado do general Geisel. Em
1975, foi ele que tomou a iniciativa de
retirar o censor. Era um present ao
centenArio do jomal, que suspirou alivi-
ado, mas nWo bateu palmas. Era seu di-
reito voltar a assumir a plena responsa-
bilidade pelos seus atos. 0 Correio s6
nao partilhou esse moment por impru-
dencia e irresponsabilidade de alguns
dos seus condutores, que queriam fa-
zer hist6ria pessoal, nao coletiva.
Por acaso trabalhei nos dois jornais,
efemeramente no Correio e muito mais
no Estaddo. Neste, durante grande par-
te da intervencgo da censura. Como
muitos outros na empresa, nao tive ges-
tos de herofsmo (daqueles que, depois,
permitem o descanso do guerreiro, que
viria a ser remunerado imoralmente
- ji sobre as cinzas da ditadura), mas
nao cometi a menor das indignidades.
Nem mesmo a de vergar a coluna para
saudar o patrao (conforme a curvatura,
sujeitando o ac61ito a exibir as parties
pudendas ao distinto pdblico).
Tive conflitos corn a diregao e seus
prepostos, algumas vezes levados ao li-
mite do rompimento. Em alguns saf per-
dedor, noutros venci. Tive que engolir
certas mat6rias publicadas nojornal que
considerava inveridicas ou tendenciosas.
Mas vibrei ao conseguir dar A luz re-
portagens que contrariavam frontalmen-
te nao s6 o pensamento mais fntimo da
"casa" como suas manifestaq6es explf-
citas, atrav6s de editorials. Foi o caso
da serie de reportagens sobre conflitos
de terras na Amazonia, que s6 saiu de-
pois de passar pelo crivo de um censor
interno. Felizmente, o que decidiu a pa-
rada foi a capacidade dos litigantes em
demonstrar sua verdade. A nossa foi
maior do que a do oponente.


6 Jornal Pessoal SETEMBRO DE 2010 r1 QUINZENA







Deseonfie dos profetas


Varios livros jA foram escritos so-
bre 0 Estado de S. Paulo. A meu ver,
nenhum reproduziu satisfatoriamente a
complexidade do funcionamento do jor-
nal e da sua relaqgo corn o poder e a
sociedade. Nio tenho a menor ddvida,
entretanto, e que a hist6ria desse peri-
odo se empobreceria se o Estaddo nao
tivesse existido ou fosse conduzido a
um falso destino e sucumbisse por nio
se ajustar ao campo de batalha. Na luta
diAria com a censura, bem ao nosso
lado, aprendemos muito: a apurar me-
lhor as informag6es, a escrever nos-
sos textos de tal maneira que eles pu-
dessem passar pelo crivo do censor
sem se desnaturar (embora muitas ve-
zes perdendo em clareza), a sermos
responsiveis, a avivarmos nosso com-
promisso corn o leitor e ate mesmo a
nos tornarmos maleAveis, sem perder
de vista qual era o inimigo. E continu-
ar a combate-lo, sempre.
Com o fim da censura estatal, vari-
os dos principios adotados em conjunto
- tanto pela empresa quanto pelos seus
funcionArios se dilufram ou foram es-
quecidos. HA menos empenho pela ver-
dade do que antes, mais condicionantes
e uma profunda autocensura. As reda-
q6es se encolheram, se submetendo
mais docilmente hs ordens pelo risco da
perdado emprego valioso. Ou entao ado-
taram um espfrito sindical e corporati-
vo, que reduz o horizonte de visio e es-
treita as margens da atuaqio.
Corn todos esses problems, 6 me-
lhor ter a atual imprensa do que ve-la
sujeita a novos, mais sutis e nao menos
poderosos mecanismos de interferencia
- e mesmo de intervengqo do gover-
no, sempre um macaco em loja de lou-
gas quando se trata de apurar o grau de
liberdade em sociedade e as mani-
festaq6es do espfrito human.
A chamada grande imprensa conti-
nua a abusar do seu poder e a tentar
conduzir a opiniao pdblica para onde Ihe
interessa, mesmo que nao seja atraves
dos fatos e da verdade. Mas hoje as
formas de denunciar essa conduta sao
mais amplas, imediatas e convincentes
do que nunca e estao ao alcance do
cidadao m6dio. Nio 6 a ausencia de
meios de expressio que surpreende,
mas a dificuldade que esse cidadao
m6dio enfrenta para dar conteddo A sua
manifestaqao.
A internet 6 um alto-falante como
jamais houve igual pelo seu poder de


alcance e de convencimento, al6m da
instantaneidade do seu efeito. A poten-
cia do meio, por6m, contrast corn o
raquitismo da mensagem. Blogs e sites
sao tecidos atraves de adjetivag6es e
sentenqas, mas Ihes falta fatos, argu-
mentos e ate mesmo razoabilidade.
A revista Epoca, por exemplo, in-
tegrante do PIG por sua dupla condi-
9do de filiada As Organizaq6es Globo
e A Folha de S. Paulo, foi acusada
pelos "anti-piguismo" de golpe baixo
numa mat6ria sobre o passado da can-
didata do PT na luta armada contra o
regime military. Os exemplares da re-
vista acabaram rapidamente nas ban-
cas e livrarias por conta dessa propa-
ganda involuntfria.

Si a roportagem e sua
continuage na edieao
L 'seguinte. Nada eneon-
trei que pudesse justiflcar
o tom de indignagao dos
adeptos de Dilma Rousseff.
A mat6ria so enquadra na
boa teni ajornalistica: fa-
tos apurados, narrative
correta, verses aeolhidas.
Claro que a revista, pr6-Serra, desta-
cou sua pr6pria interpretagao dos acon-
tecimentos. A imprensa existe tambem
como 6rgio da opiniio pdblica. Suas in-
formaq6es, entretanto, podiam funda-
mentar interpretaqAo oposta A dela.
Pode-se encontrar elements de
aproximaqo entire Epoca e Veja, mas
uma leitura comparative das duas re-
vistas mostrard que elas estao muito
long de former um todo homogeneo,
compact, monolftico. poca melhora
em qualidade jornalfstica. Veja s6 tern
piorado. Nao porque seja menos "ser-
rista". Simplesmente por informar me-
nos, corn menos dados concretos e mais
adjetivario na linguagem. Suas mat6ri-
as costumam virar editorials pouco
conspicuos quando trata de temas polf-
ticos, eleitorais, ideol6gicos e ate cultu-
rais. Um contrast enorme corn a Veja
de anos atrAs, que nWo era menos con-
servadora do que agora.
S6 um fanitico haveri de conside-
rar como gemeos 0 Estado de S. Pau-
lo e a Folha de S. Paulo. 0 problema
nao 6 ideol6gico, ou nio 6 esta a ques-
tao principal: 6 tecnico. Mesmo quan-
do experimentava sua iconoclasta
aventura esquerdista, a Folha nao era
confiavel nos dados. Tinha diversida-


de de opini6es, o que ajudava o leitor a
tamb6m opinar, mas era carente de re-
portagens boas, daquelas que contribu-
em a se informar suficientemente bem
parajulgar melhor. Hoje, que deu uma
volta de 360 graus as origens, a Folha
nao ficou melhor.
At6 melhorou quanto A parte opini-
Atica. 0 que piorou foi a reportagem.
O mesmo aconteceu corn o Estaddo.
S6 que um dos dltimos patrim6nios da
grande folha dos Mesquitas ainda 6
refletir corn nitidez e consistencia a
opiniao da plutocracia paulista. Pode-
se e deve-se discordar dos editorais do
Estaddo. Le-los, por6m, 6 um apren-
dizado como poucos sobre a socieda-
de brasileira e sua hist6ria.
Receber os boletins do Grande Ir-
mro 6 o pior que pode acontecer. Nun-
ca houve imprensa digna do nome no
chamado "socialismo real", o inico que
existiu na pratica at6 a queda do muro
de Berlim, em 1989. A liberdade nao tem
sobrevivido ao dia seguinte das revolu-
96es, com enfase nas socialists.
0 socialismo 6 a meta por excelencia
dos sonhos de igualdade dos povos, mas
nao conseguiu dar uma boa resposta ao
desaflo da oposigio. Sua tendencia domi-
nante 6 esmagi-la, sob os mais genero-
sos e altissonantes pretextos (como os de
Leon Trotski). Ai comeqa a tirania, que
pode ser mais duradoura do que as de di-
reita e nao ter o fim adequado.
Para que nao haja novas desilus6es,
deve-se resistir A tenta go de conde-
nar os crfticos e adversrios s6 porque
nao partilham a nossa opinilo. Susten-
tar um campo se nao neutro obje-
tivo, no qual as parties possam dialogar
e medir forqas corn as armas da ra-
zio, corn arguments, atrav6s da de-
monstragio da verdade. Nao corn ta-
capes e rasteiras.
Esse territ6rio s6 existirA ou s6 se
manterd corn plena liberdade de ex-
pressao e uma imprensa sem peias, ex-
ceto as dos cidadios, sem a interfer8n-
cia do leviatI estatal. A imprensa conti-
nua repleta de vicios e erros, muitos
deles graves, como o de editar leviana-
mente as cartas dos leitores e despre-
zar o direito de resposta, al6m de nio
quebrar a cadeia dos elos corporativis-
tas. Mas essa invenqlo do PIG 6 para
puni-la ou extingui-la pelos seus acer-
tos. Ainda que poucos, necessarios A
democracia, plant tio frAgil neste pafs
sempre autoritArio.


SETEMBRO DE 2010 i' QUINZENA Journal Pessoal 7


1s QUINZENA Jornal Pessoal 7


SETEMBRO DE 2010





TRABALHO
A Escola Salesiana do Tra-
balho jA era a maior do Nor-
te do Brasil quando, em
1964, incorporou cinco mo-
demos tomos A sua oficina
de mecinica, adquiridos em
Belm da Importadora de
-Ferragens. Em seguida re-
ceberia mais miquinas, do-
adas pela Alemanha, ampli-
ando suas instalaq6es. Era
o resultado do trabalho pio-
neiro do padre italiano Lou-
renqo Bertolusso, um sale-
siano diferente, que se ins-
talou na Sacramenta, entio
uma distant e abandonada
periferia da cidade. Atraiu
para os cursos profissiona-
lizantes 800 meninos, 100
dos quais estudavam meca-
nica e os demais marcena-
ria e tipografia (um dos alu-
nos 6 o atual candidate do
PT ao Senado, deputado fe-
deral Paulo Rocha). Lou-
renqo Bertolusso morreu re-
centemente em quase total
anonimato, numa lastimosa
injustiqa dos belenenses.

CASSAQAO
JA As v6speras de sua cassa-
qao, o prefeito Moura Carva-
lho, do PSD (Partido Social
Democrdtico), decidiu, em
maio de 1964, patrocinar um
concurso de conto e poesia,
que daria medalhas de ouro
aos dois vencedores. Por iro-
nia, o tenente-coronel Jarbas
Passarinho, entio servindo no
comando da 8' Regilo Mili-
tar, mas corn atuaqao literi-
ria, integrava a comissao jul-
gadora dos contos, ao lado do
c6nego Apio Campos e do
director e ator ClAudio Barra-
das. Um mes depois do andn-
cio, Jarbas subiria ao gover-
no do Estado, corn a deposi-
aio de Aurtlio do Carmo, e o
major Alacid Nunes A prefei-
tura, substituindo Moura Car-
valho, tamb6m cassado.
Faziam parte da comissaojul-
gadora de poesia o fil6sofo
Benedito Nunes, o poeta Joto
de Jesus Paes Loureiro e o
jornalista Jose Gorayeb.


PREFEITO
O prefeito Mauro Porto man-
dou fazer e veicular nas duas
emissoras de televisao que
Belem possuia, em 1971, oito
filmes de divulgaglo da sua
gestao na capital paraense.
Mas logo foi alertando: "Nao
trazem frases como Adminis-
tragqo Mauro Porto ou coi-
sa que o valha. 0 importan-
te 6 que o povo sinta que
imposto 6 sua forma de in-
vestir em sua pr6pria cidade
e, posteriormente, auferir lu-
cros transcedentais". Natu-
ralmente, nada disse sobre o
sumigo do coreto da praqa de
Nazar6, que teria sido des-
montado em Bel6m e remon-
tado em Petr6polis, em do-
micflio do engenheiro, que
baixou na capital paraense
por conta da onda tecnocrA-
tica da 6poca.

GOVERNADOR
Romulo Maiorana noticiou
em suas "Em Poucas Li-
nhas", no Rep6rter 70 de 0
Liberal de pouco antes da
posse do novo govemador do
Estado, Fernando Guilhon,
em marco de 1971: "Poucos
sabem: ontem o governador
Guilhon ficou escondido no


Armazdm 12, pois nio
agiientava mais tanta gente
A sua procura. Foi por la que
o costureiro foi tomar as
medidas da sua faixa".
Justificava-se o governador
(eleito pelo voto dos deputa-
dos estaduais porque o voto
popular fora abolido pelo re-
gime military para o executi-
vo) estar no cais do porto de
Bel6m: Guilhon foi at6 entao
director da CDP, a Compa-
nhia das Docas do Para. No
exercfcio do o governor, cos-
tumava se isolar em lugares
imprevistos, quando sob
pressao. Ou aparecer tran-
qiiilo e sozinho para cortar
o cabelo, no barbeiro da es-
quina da Campos Sales corn
a Joao Alfredo. Conversava
com quem aparecesse, semr
formalidades.

SECRETARIADO
O secretariado inicial esco-
lhido pelo govemador Fer-
nando Guilhon tinha George-
nor Franco no Gabinete Ci-


vil e o tenente coronel Jos6
Bahia Filho no gabinete Mi-
litar. Ronaldo Passarinho se-
ria o chefe de gabinete, mas
nao assumiu. As outras se-
cretarias: Joaquim Gomes de
Souza (Interior e Justiga),
H6lio Mokarzel (Finangas),
Osmar Pinheiro de Souza
(Obras Pdblicas), OtAvio
Cascaes (Sadide), Jonathas
Athias (Educagao), Eurico
Pinheiro (Agricultura), major
Vinfcius Melo (Seguranqa),
Douglas Farias de Souza
(Policia Militar, reconduzido),
Adriano Menezes (Idesp,
reconduzido), Joao Nunes
Caetano (DER, atual Secre-
taria de Transportes), Walde-
mar Viana (Departamento de
Agua e Esgoto, agora Co-
sanpa), J. J. Aben-Athar
(Celpa, reconduzido), Jesus
Medeiros (Banco do Estado
do Para), Jos6 Nogueira So-
brinho (Departamento de
Pessoal, reconduzido) e Ro-
naldo Chalu Pacheco (Dele-
gacia de Transito).


V. identifica pelo sabor!



?- de laranja


8 Jornal Pessoal SETEMBRO DE 2010 1' QUINZENA













FOTOGRAFIA

Leao verdadeiro
Meio sdculo atrds os jogadores do
Clube do Remo usavam modesto
uniform, ndo faturavam propaganda
nem recebiam altos saldrios (se d que
recebiam algum). Masformavam um
time defutebol de respeito. Como este,
no final de 1959. Quem d capaz de dar
os nomes dos atletas? Talvez a foto
inspire o Ledo a sair do buraco no
qual o enfiaram os "cartolas".


Apagao e susto Contra o crime


A Eletronorte at6 agora nao deu uma expli-
caqo official para o apagio de quase 40 minu-
tos do dia 10. Sabe-se apenas que o problema
foi na subestagio de Vila do Conde, a mais
important do ParA. De sdbito, 2,5 milh6es de
pessoas ficaram sem energia. Nenhuma novi-
dade para a regiAo da Grande Bel6m e circun-
vizinhangas, vftimas diArias de curtas interrup-
09es no fornecimento de energia. Mas quando
o tempo se alongou e foi divulgada a informa-
qao sobre a amplitude do blecaute, as preocu-
paq6es cresceram.
Tamb6m numa sexta-feira, em 8 de marco
de 1991, faltou energia na area. S6 que o apa-
gio durou 12 horas. E entire infortdnios e preju-
fzos gerais, teve uma marca hist6rica: causou o
maior acidente que uma inddstria de aluminio j
sofreu em todo mundo e em todos os tempos
pela falta de energia, que 6 o seu principal insu-
mo. Quase que a Albris, a maior consumidora
individual de energia do Brasil, foi a lona. 0
prejuizo, ap6s o seguro, foi de 50 milh6es de
d6lares da 6poca.
Desta vez, foi muito menor o dano da fibrica
de aluminio, que j6 foi da antiga Companhia Vale
do Rio Doce e atualmente pertence A noruegue-
sa Norsk Hydro, em sociedade corn os japone-
ses. Mas o susto deve ter sido o mesmo. Embo-
ra a interrupgio tenha durado 40 minutes, a fA-
brica s6 voltou A atividade normal uma hora de-
pois, com a progressive reativagio dos seus for-
nos. A perda de produgqo foi pequena, de 50 to-
neladas. Mas o acidente deve ter provocado a
atengdo sobre a transmissdo de energia da hi-
drel6trica de Tucuruf, a quarta maior do mundo,
que fica a 350 quil6metros ao sul. Nio sem mo-
tivo.


A polfcia precisa criar urgente-
mente em Bel6m a primeira cen-
tral de flagrantes do Estado. A ro-
tina de crimes na capital ji justifi-
ca a iniciativa. A secretaria de se-
guranqa pdblica devia aproveitar as
liq6es da experiencia em outros lo-
cais do pafs e do exterior. Nada de
delegacia adaptada fisicamente
para receber a central ou com fun-
cionamento restrito aos finais de se-
mana, ou corn expediente parcial.
Muito menos policiais deslocados
das suas funq6es permanentes para
um extra na central.
E precise construir um pr6dio
especialmente projetado para rece-
ber a nova unidade, como foi feito
em Portland, nos Estados Unidos.
O edificio, al6m de dispor de segu-
ranga mAxima e corpo funcional
especifico, bem adestrado para as
atividades, teria que contar corn ins-
talaq6es pr6prias para permitir que
o flagrante, bem caracterizado nos
terms da lei para impedir o abuso
de autoridade, vA at6 suas dltimas
conseqii8ncias. 0 que significa: o
criminoso flagrado na prAtica de
delitos tera enquadramento e sen-
tenqa imediatos, de tal maneira que
siga para a prisAo atrav6s de mei-
os s61idos, resistentes ao questio-
namento dos advogados e a novos
pronunciamentos judiciais. Nio
mais para ser solto em seguida.


Em crimes nao afianqAveis, o fla-
grante jA limita os direitos do cida-
dao preso durante a consumaqco do
ato delituoso. A estrutura prisional da
central de flagrantes serA concebi-
da para induzir a confirmagio da
autoria sem que seja precise agredir
o prisioneiro, como costuma acon-
tecer nas rondas policiais pelas ruas.
O confinamento sob determinadas
condigqes ambientais (cada vez mais
hostis, conforme a attitude do pre-
so), a forma de tratamento, a lingua-
gem utilizada e at6 a aparencia dos
policiais, selecionados por seu porte
e treinados para desenvolver suas
aptid6es fisicas, capazes de intimi-
dar pelo rigor do tratamento ao pre-
so (sem agressao fisica), deverdo
ajudar na caracterizacao do crime
em flagrante. Instalag6es da justiga
e do Minist6rio Pdblico garantirao
que o necessrio rigor dado ao cri-
me nao implicarA em violagio dos
direitos humans, condicionados, no
caso, A iniciativa do preso, que agre-
diu bens e patrim6nios individuals e
sociais ao delinqiiir.
Deve-se aperfeiqoar a agio de
prevengdo e repressdo do Estado,
evitando-se que esse combat ne-
cessArio redunde em truculencia
sem se traduzir necessariamente em
efici8ncia. 0 crime deu dois pas-
sos para frente. Agora 6 a vez de o
Estado dar quatro.


SETEMBRO DE 2010. 1 QUINZENA Jornal Pessoal 9


DTO


I -








='* r-'-'a *,


FRUTAS
Foi com grande satisfacio que
li em seu journal que voc6 de-
fende a fruticultura estruturada
como meio de geracgo de em-
prego e renda para esse esta-
do. Na qualidade de president
do Sindfrutas, venho lutando por
isso hd dois anos, mas o gover-
no estadual tern dado ouvidos
moucos e agora consegui ter umrn
assento no comity de fruticultu-
ra em Brasilia e, inclusive, em
julho fui a Brasilia reivindicar re-
cursos federals, que existemrn
desde 2004, mas s6 sio libera-
dos para o sul e sudeste.
Estou tambdm lutando por um
projeto que inclua a fruticultu-
ra como meio de reflorestamen-
to das nossas areas degrada-
das. Agora, consegui apoio do
[senador] Flexa [Ribeiro], do [de-
putado federal] Zenaldo
[Coutinho] e do [deputado estadu-
al Josd] Megale. Paralelo a isto
consegui ser indicada para ser
a titular em representar o Para
pela Fiepa e Faepa junto A CNA.
E, por conta disto, foi criado um
GTF (Grupo de Trabalho da Frt-
ticultura), da qual sou a
coordenadora. E contamos corn
o apoio tambem da Embrapa e
do Ministerio da Agricultura. Te-
remos o nosso segundo encon-
tro no dia 8, onde a pesquisa-
dor Urano de Carvalho vai falar
sobre "0 uso rational da fruticul-
tura como meio de refloresta-
mento", e o professor Cordeiro,
da Ufra, sobre a competitividade
da fruticultura.
A idWia 4 alavancarmos esse
setor respeitando o meio ambi-
ente e de forma 16gica e barata.
Pois s6 cresceremos corn gera-
cio de emprego e renda. Estou
tambdm tomando a frente junto
aos batedores de acai para que
eles possam ter um acai de me-
Ihor qualidade, com o branque-
amento, que 4 barato, e buscan-
do um recurso, como jd foi feito
em Macapa, para capacita-los,
pois o desemprego deles nio
interessa a ningubm e muito
menos acabar corn a nossa cul-
tura. E a Fiepa e a Faepa estio
dispostas a ajudar.
E fui eu quem fundamentou
a defesa do Flexa para derru-
bar a pasteurizagio do again
pelos batedores, pois traria
desemprego.
Solange Mota
Jornalista, advogada
e president do Sindfrutas

LULA (1)
Eu mesmo teria algumas li-
nhas ou palavra discordantes
em relag~o ao seu artigo, a que
de rest 4 normal. Mas o texto
em si esta brilhante e recupera
nossa preocupag~o essencial


com a democracia political, a via
mestra para a promo~go de in-
dividuos livres e em condig6es
razoaveis de igualdade. Fora da
democracia, s6 o fascism e o
autoritarismo, mesmo quando
se apresenta como "de esquer-
da". Parabdns, seguimos juntos,
como hd tantos anos.
Lulz S6rgio Henriques

LULA (a)
Acabo de ler sua matdria no
JP (0 Bom Ditador). Excelente
analise, como sempre voce
sabe fazer. Magistral trabaiho
de ciencia political, que me fez
sentir content de alguem que
sabe sacar alem dos fatos e
boatos, aledm das bas6fias do
Bom Ditador. Bom em terms,
o que 6 o bom? Lula, como en-
tendi que voc6 queria dizer, 4
uma peqa de ficcio, mas
estranhamente real.
Permito discordar de um pon-
to, se 4 que ja nio esteja nas
suas sublinhas: por tudo isso que
voc6 descreveu, de como ele sou-
be ser o mago, a cara (Obama), o
super estadista mundial, me
parece que tal sucesso tem um
limited no tempo pr6ximo. Um ano
depois que ele deixar a varinha
de condo de magico politico, de-
saparecera do cenario. Afinal, ele
aceitou ser o mordomo do capi-
tal banqueiro, industrial e agro
neg6cio. Tudo indica que sera
descartavel, como muita coisa
nesta era de globalizacio. Nio
consigo ver onde estara a con-
sistincia dele fora do avigo pre-
sidencial.
A Dilma, como bem voce diz,
"que Dilma 6 essa?" Nio 4 es-
finge, nem c6pia do Lula, mas sua
maior semelhanca 6 corn
Margareth Thatcher (em m6dicas
proporcoes, bern entendido):
sem cintura, nem jogo de cintura
para a plebe brasileira, continu-
ara a ser sucesso para os mes-
mos que sustentam o glamour
de Lula, enquanto vio faturan-
do. 0 "poste eleitoral" de 2009
se tornou "sucesso retumbante
em 2010" e algo me diz que de
2011 em diante ela tentara man-
ter o pais crescendo no PIB A cus-
ta de Bolsa Familia, micro crddi-
tos e outras migangas
modernas para os miseraveis e
os pobres, mas cornm o sacrif(cio
da Amaz6nia e do meio
ambiente em geral. Em funcio do
PAC 2, colocarS o Brasil numa
guerra de resistdncias de various
grupos, que mesmo desarticula-
dos e frageis irao aumentar. Os
indios, ribeirinhos, MST, os sem
teto e outros grupos estio dan-
do sinais de inquietalio. Nio
sera mais possivel manter o con-
formismo corn paliativos socials
para continuar alimentando o ca-


pital da elite. Ela tentara, como
ja avisou ao MST antes de eleita,
que usard a mio de ferro da lei,
para quem perturbar seu piano
de governor.
Enquanto isso, onde estard
Lula de 2011 em diante? Na
ONU? Na OEA? Na Fundagio Paz
e amor? Aonde seu carisma
conjuntural o levard? Talvez voc6
possas tirar uma de futur6logo
e aventurar um progn6stico.
Bom, s5o pensamentos que me
vieram ao ler teu excelente texto.
Edilberto Sena

LULA (8)
Uma das melhores charges
que ja tinha visto sobre o Lula.
Sem ser desrespeitosa, 4 mui-
to divertida e Acida. Eu diria que
4 de um humor mordaz absolu-
tamente apurado. Um Henfil,
um Angeli encampariam... t
claro que a uma pessoa que
nio faga iddia de quem 4
Napoleio, a charge nio vai sig-
nificar muito, mas acho que nio
4 o caso do teu publico leitor.
Uma charge assim na sexta-fei-
ra 6 de inspirar as leituras para
o final de semana. 0 texto so-
bre a decislo do CNJ de cance-
lamento dos titulos fraudulen-
tos ficou para o pr6ximo JP? JA
tinha atW antecipado a alguns
amigos que sairia nessa edi-
cao. Todos ficaram empolgados
para comprar o JP e percebi ai
uma grande jogada de
marketing para promover o JP:
as pessoas saberem o que vird.
Divulgando para o public cer-
to, vai ser sucesso de vendasl
Marion Aradjo

LULA (4)
Gostei muito da analise
imparcial (como sempre) que
voce fez do Lula e do governor
dele, e tamb6m de FHC, am-
bos abominaveis para mim sob
determinados aspects.
Como voce disse em um JP
anterior, nem consultando uma
bola de cristal saberiamos qual
o candidate certo a votar (isto
se as bolas de cristal fossem
realmente capazes de darem
informacio). Em matdria de
adivinhagio sobre political,
o maximo que eu ja consegui
consultando o tar6 e o baralho
cigano (sou amadora, sern
tempo, ha mais de 30 anos) foi
saber, antecipadamente, se o
Lula venceria as duas eleiVBes
e se o FHC privatizaria mesmo
a Vale do Rio Doce, e tambdm
se o governador do Amapa se-
ria tambdm eleito. Nao sei se
feliz ou infelizmente as respos-
tas foram positivas e certas.
Realmente "estamos no mato
sem cachorro".
Maria Alda Brito


PARAB*N8
Parabens pelo aniversario
do JP. A edigio da 2' quinzena
de agosto estA espetacular.
Frederico Guerreiro

LIVRO
NIo sei se estou ficando ve-
Iho, desses rabugentos, que estd
perdendo a senso das coisas.
Poram na minha cabega essa pro-
gramacio desenhada pela turma
da cultural para a feira do livro,
transcende meu intelecto em to-
dos os quadrantes do meu corpo
human, ou desumano.
Primeiro foi a abertura, onde
escalaram a dedo a timbalada,
e atW fiz um comentArio achan-
do que livros e timbalada sio
gemeos siameses. Um nao vive
sem o outro. I! tipo Cairnm matou
Abel, ou Abel matou Cairn.
Depois, para meu espanto,
leio que a policia estava de pron-
tidio desde as 5 da matina, para
evitar confusbo, arrastao,
pisoteios e tiroteios, na medi-
da em que estariam distribuin-
do ingressos do Calypso para
mais uma noitada intellectual da
feira do livro.
Imaginou o Bruno de
Menezes, Drumond de Andrade,
se vivo fossem, mais a turma
toda que esteve em Parati re-
centemente, batendo pezinhos,
cantarolando os lindos poemas
de Chimbinha e Joelma? Seria
um sarau para Chico Pinheiro
corar de inveja.
Pra mim esse neg6cio de fa-
zer feira do livro para estimular
a leitura, promover a cultural,
esta definitivamente morto e
enterrado. Feira do livro tern que
ser assim, muito lari-lari, com o
povio, que nao sabe ler e nem
escrever, se acotovelando para
ver os monstros sagrados da cul-
tura. Pois nada melhor que ou-
vir essa turma, se concentrar e
ler, por exemplo, uma poesia do
Vinicius, ou atW mesmo um Pau-
lo Coelho. A barulhada infernal
associada a sensibilidade po&-
tica de Joelma e Cjimbinha fa-
rio transbordar a cultural por to-
dos os poros, ensejando a for-
maio de milhares de novos lei-
tores a cada rufar das
timbaladas.
Em tempo Uma delegaaio
da Apple esteve na feira e cons-
tatou que deve mudar imedia-
tamente seu projeto em rela-
cao ao ipad's para leitura de
ebook's. Agora os ipad's virbo
interligados a potentes sono-
ros, para fazer voc6 entrar em
alfa antes de ler um livro. 0
Onico problema que voce vai
ter quando quiser ler um livro,
6 de chamar a PM para organi-
zar a festa.
Renato Conduru


Jomal Pessoal

Editor: LUcio FlAvio Pinto


Contato: Rua Aristides Lobo, 871 CEP: 66.053-020 Fones: (091) 3241-7626
E-mail: lfpjor@uol.com.br jomal@amazon.com.br Site: www.jornalpessoal.com.br
Diagramag9o e ilustrag6es: L. A. de Faria Pinto E-mail: Juizpe54@hotmail.com


10 Jornal Pessoal SETEMBRO DE 2010 1 QUINZENA


'-~ "~"c"nssilrrahurrrrrr4~.r~vl~s~-lr- ~~,~-






A nossa geraaio e as suas perdas


Revoluciondrias sdo as geraq6es que
comeqam uma nova hist6ria. Nascidos
com o fim da Segunda Guerra Mundial,
a redemocratizaqAo e o sopro de cons-
ciencia universal, n6s que vamos da
beira dos 50 anos ao p6rtico dos 70 -
integramos uma gerago revolucionA-
ria. Tudo que havia antes de n6s foi mo-
dificado, com total subversdo dos usos
e costumes. Muito do que 6 corrente
nos nossos dias principiou conosco.
Desde a apresentacqo, com roupas ex-
travagantes e cabelos compridos, at6 as
id6ias, as opq6es de vida, a linguagem e
a prAtica. Nossa geracqo incorporou a
pilula anticoncepcional, levou ao paro-
xismo o Alcool, abriu a temerAria porta
das drogas sem fronteiras e colocou no`:
pavilhAo da rotina a defesa de ideas, a
dedicacqo A causaa". Tudo corn cria t-i
vidade e ousadia raras.
Outro dia revi um video corn a apreT-
sentaqAo de vdrios mdsicos de rock, 1ii
derados por Paul McCartney e Ringo'
Star, dedicada a George Harrison, o mais
injustiqado dos Beatles. Tr8s dezenas
de mdsicos de alto nfvel, todos "coro-'
as", nas guitarras, violAo, bacteria, piano
e outros instruments, manejados comr
maestria suficiente para nos emocionar


abetes foi se infiltrando pelo seu corpo
e provocando danos generalizados, a
ponto de mante-lo inconsciente por
meses antes do colapso final. Nao foi
apenas uma morte precoce: foi injusta
e mi. Cortou uma carreira que poderia
ter-se expandido sem limits e maltra-
tou uma pessoa que viveu como se a
morte, quando viesse, seria fulminante.
Ao inv6s disso, submeteu-o a um
padecimento doloroso, naquela forma de
doenqa que estA se tomando mais fre-
qilente. Produto da maior longevidade
da sociedade nos dltimos tempos, para
a qual a nossa geragfo deixou de se
preparar por dissipar suas energies
nima epoca em que chegar aos 60 anos
era atestado de senilidade, sem direito
sequer a compaixio. Tomamos combo-
cimento dos avanqos da medicine e do
modo de vida dos que nos sucederam,
mas nosso capital biol6gico foi pamr o
espaqo pelas madrugadas sem fim de
Alcohol, conversa & etc. e tal. Mais uma
vez, entramos pela contramao. Os aci-
dentes so vlo tornando inevitAveis.
Nao fora assim e Paulo Martins es-
taria ainda entire u6s. 0 problema, po-
r6m, 6: ele iria qurer continuar enta
n6s nas condig6es em que a doenga o;


e elevar (al6m de enlevar) a alma. 'Tb-; deixou? Ele e varios outros da nona
dos da nossa geraqco, corn tantos e di- ,-grag o responderam om um amo.
tintos artists que 6 at6 dificil lembrw~ riram continuar a tOt velocida-
de uma s6 vez (mesmo porquejA s6 1emLw de, parn concretizar ao lea parte dos
bramos de empurro) os que se torna- seus sonhos e projeto.Pagaram caro
ram hist6ricos, consagrados, clAssicos. por isso, percorrendo as estaq6es do
Nossa vida foi e ainda C, em nu- sofrimento corn suas families e ami-
merosos casos tao intense que costu- gos. Mas deixaram um legado pessoal
mamos ser breves. No show p6s-morte valioso e definitive.
de George o quartet ingles jd s6 era
um duo, cada um na sua, por6m. Em nova cozinha paraen-
qualquer outra forma de agrupamento so, jal reconhecida
que formarmos a relaqAo serd pareci- omo a melhor do
da. Olhamos em volta e percebemos, pais, a funies com verdadei-
cada vez mais assustados ou desalen- ro padrA. international, 6
tados, que os companheiros de viagem criagAo absolute e solitaria
seguiram no rumo do desconhecido. de Paulo martins. Felizmente
Foram-se muito cedo, quando ainda nao ele teve sucessores, alguns dos quais
haviamos conseguido aproveitar o me- talvez nem o tenham conhecido (e ou-
lhor de cada individualidade e do con- tros nao o reconhecem como mestre).
junto. Quando nem mesmo consegufra- Infelizmente, desleixados como somos,
mos realizar o melhor ou tudo que colo- nao se documentou como era neces-
caramos na nossa cartilha de tarefas. sario o roteiro que Paulo seguiu para
Mais um se foi na semana passada, juntar ingredients at6 entao proscritos
o arquiteto e chef de cozinha Paulo de das receitas, fazer combinaq6es here-
Aradjo Leal Martins, aos 64 anos. Pau- ges e chegar a pratos surpreendentes.
lo estava fora de cena desde quase tries Acho que esse destino resultou da in-
anos antes, quando o negligenciado di- fluencia da mae, a sempre querida Ana


Maria Martins, uma quituteira A antiga,
s61ida no seu modo de proceder A cozi-
nha, e da criatividade pessoal que levou
Paulo Martins A arquitetura, na qual, en-
tretanto, nao se acomodou.
Fomos testemunhas participants
desses experiments, sobretudo nos
encontros de sAbado, quando ele esta-
va livre dos compromissos de ger8ncia
do restaurant LA em Casa, e se relaci-
onava conosco como o artist da culi-
nAria, o amigo e o anfitrido. Foram ses-
s6es inesqueciveis, que avanqavam pe-
las horas sob a inspiraqao da vasta e
ampla arvore plantada no centro do res-
taurante, dando ao LA em Casa uma
individualidade inesquecivel, que se foi.
Nesse ambiente a sua criatividade
mais se desenvolveu, mas ji nao Ihe era
suficiente. Paulo partiu para uma nova
empreitada: um restaurante de autor",
a versdo ampliada dos nossos conves-
cotes dos sAbados, corn a retaguarda
da melhor cozinha do mercado, que ele
montou "no capricho". A doenqa se
colocou no meio do caminho, sua tarefa
facilitada pelos excessos a que Paulo
se exp6s em suas seguidas e puxadas
jornadas pelo Brasil (e, depois, tamb6m
pela Europa) como maestro de banque-
tes. Para a orquestra de pratos funcio-
nar, 1a se arrastava ele com seus imen-
sos dep6sitos de isopor, entrando e sa-
indo de cozinhas quentes, embarcando
e desembarcando de avi6es. Seu orga-
nismo ficou suscetivel ao oportunismo
da doenga. Quando ela o derrubou, foi
para nao ter volta.
Como John Lennon, George Harri-
son, Tom Jobim, Gonzaguinha, Walter e
Euclides Bandeira, Edwaldo Martins,
Roberto Jares e tantos e tdo diferentes
nomes da listagem da nossa geracqo -
intensa e breve vizinha ou distant,
Paulo de Aradjo Leal Martins perdeu o
pique na estrada. Sentou A beira do cami-
nho, deitou sobre a relva e mandou bus-
car um muqua de botequim para se dis-
trair enquanto nao chega o prato princi-
pal: o reconhecimento dos p6steros ao
grande papel que ele desempenhou en-
quanto esteve por aqui, agitando panels,
sacudindo temperos, contando piadas e
vivendo a vida como tern que ser: corn sal
e humor. Este 6 o Paulo que, nao caben-
do no timulo, fica dentro de n6s, vivo,
enquanto nao se antecipar a nossa vez,
para sempre, como ele merece.


SETEMBRO DE 2010 1 QUINZENA Jornal Pessoal 11






Campanha
O journal 0 Liberal faz uma
campanha contra os fichas su-
jas. Deve ter mudado de po-
sigdo e evoluido. At6 ser de-
nunciado e preso por pedofi-
lia, o ex-deputado estadual (e
candidate a voltar ao parla-
mento, agora na companhia do
filho) Luiz Afonso Sefer era
presenga constant no gabine-
te do principal executive da
empresa, Romulo Maiorana
Junior. LA nao tern acesso o
deputado federal Jader Bar-
balho, certamente o alvo prin-
cipal embora nao declarado
- da campanha. Mas tamb6m
Jader nunca subiu ao gabine-
te dos Maioranas. Et pour
cause, diria o Rep6rter 70 de
outros tempos.


Patria amada
Os organizadores dos des-
files escolares em homenagem
a pAtria deviam cancelar de
vez essa programagqo. Para
poupar as criangas e adoles-
centes da inclem8ncia do sol
na manhd que avanqa, as ati-
vidades deviam passar a ser
realizadas em ambientes corn
cobertura, principalmente em
ginasios. 0 modelo da march
military devia ser substituido
por encenaq6es da hist6ria do
Brasil, exibigqes atl6ticas,
apresentaq6es musicais e coi-
sas afins. Aumentaria a iden-
tificago das criancas e jovens
corn a pAtria, numa programa-
g9o que induza a percepmdo
do significado da data, ao in-
v6s de desfigurA-la.


No 6 possivel haver 2,2 milh6es de
pessoas no Cfrio. Pode-se deixar de lado as
t6cnicas para quantificaqAo de multidao, que
podem apresentar margem de erro
incompativel com uma metodologia
cientifica, em fungqo do espraiamento da
procissio, ainda que as images de sat6lite
sejam capazes de suprir essa dificuldade.
Basta pensar que no mesmo moment em
que o Dieese apresentou o cAlculo para o
Cfrio deste ano, no dia 10, corn 100 mil fi6is a
mais do que em 2009, um blecaute deixou
sem luz todos os habitantes da area
metropolitan de Bel6m (que possui 2,1
milh6es de habitantes) e as regi6es
Bragantina, Guajarina, Salgado e Baixo
Tocantins. Soma dos prejudicados nessa
regilo, que tern a maior concentrac~o




Privilegio urbano
A 25 e a Marques de Herval sdo duas vias
go privilegiadas de Bel6m. Contam com cani
tral amplo e razoavelmente arborizado, que redi
tidade de carros e preserve condiq6es ambien
rAveis. No entanto, em vArios trechos, essas
dao sinais de abandon. Em primeiro lugar, s
no caso da Marques, pela prefeitura. Como qi
pre, a administracqo Duciomar Costa njo term
comega. A obra estA pendent e de arreates
anos. E muito do que foi feito jA se desgast
marca do "Dudu": a mA qualidade do material
Os moradores dos dois locais nao podei
tanto, ficar i espera do alcaide. T8m que c
associaq6es para manter a seguranqa, fazer
da arborizaqAo, concluir o que esta inacabado
car o privil6gio de que desfrutam: de morar
Ihor do que os outros habitantes da capital. D
rio, o beneficio irA parecer odioso, injustificA
rA por ser posto em questAo e revogado.


demogrAfica daAmaz6nia: 2,5 milh6es de
pessoas. Seria como se 90% desses
habitantes viessem no segundo domingo de
outubro A capital paraense. Como o municipio
de Bel6m possui 1,4 milhio de habitantes, a
onda seria de 800 mil peregrinos. Seria
impossivel ignorar tal tsunami human, que
ningu6m v8 nos dias que antecedem o Cfrio. A
leva real de romeiros 6 calculada em oito
vezes menos. Logo, um ndmero razoavel a
considerar na grande esta em tomo de um
milhio de participants. Mesmo reduzida a
menos da metade do cAlculo official, no perde
o tftulo de a maior procissAo religiosa do pais e,
talvez, do mundo. Sem precisar forcar na
aritm6tica para dar-lhe um resultado milagroso
que Nossa Senhora de Nazar6 certamente
nio reivindica para si.


Faganha
editorial
de trafe- No dia 12 de marqo de
teiro cen- 1971 O0 Liberal tirou sua edi-
izaquan- 90o 7.832 do seu ano XXIV
tais favo- (correspondendo ao 23 ano de
duas ruas vida), conforme registrado em
sobretudo seu cabegalho. Em 12 de se-
iase sem- tembro de 2010, o journal pro-
iina o que clama estar na sua 32.960Y edi-
hi quatro qdo, ano LXIV (ou 63, por-
a outra que a hist6ria parte do ano I e
utilizado. nao do zero). Em 23 anos de
m, entre- existencia ojornal tirou 7.832
riar suas ediq6es, o que da circulagqo
e cuidar por 340 dias do ano mais ou
e justifi- menos. JA nos 6ltimos 39 anos,
bem me- 24 dos quais sob os herdeiros
'o contra- de Romulo Maiorana, tirou
vel. Aca- 25.128 ediq6es, como se cada
ano tivesse 644 dias.
Milagre, matemAtica ruim
ou mi f6?


Mare
Nao me lembro de ter vis-
to uma mar6 tao alta em Be-
16m num mrs de setembro
quanto a do dia 10, que che-
gou a 3,6 metros. Para sorte
dos belenenses das baixadas
nao choveu nesse dia. Ia ser
um dildvio. A cidade, com o
adensamento da ocupagao
vertical e a impermeabiliza-
qao do perimetro central, esta
cada vez mais suscetivel As
inundaqces mais freqiien-
tes e maiores.


Cirio milagroso


pollopowmamskint,


sh Immumdmr &n
IaPodmlma