Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00350

Full Text


AGOSTO
DE 2010
28QUINZENA

A AGENDA AMAZNICA DE LCIO FLVIO PINTO
A AGENDA AMAZ6NICA DE LOCIO FLAVIO PINTO


LULA


0 bom ditador

Lula merecefazer Dilma Roussef sua sucessora. 0 brasileiro estd satisfeito com o seu
governor. Mas o resultado que se anunciard sera bom para o pais? E o Brasil
verdadeiro que saird ganhando desta eleidio? Ou ofuturo e ameaFador?


Spresungao a convicdao do ab-
oluto: 6 este o pass da de
mocracia ao fascismo. E o pas-
so em que o Brasil estd. A diregao foi
dada por Luiz Inicio Lula da Silva. Como
todos sabem, Lula pouco ou quase nada
18. Seu aprendizado sempre foi na prA-
tica, empirico e pragmAtico. Mas foi um
aprendizado profundo. Sobreviveu a
condigdo de imigrante nordestino em
Sdo Paulo, ao peleguismo sindical, a
corrupgo political, a tutela intellectual,
aos adversdrios e aos inimigos.
Inteligente, perspicaz, audacioso e
pertinaz, aprendeu o mAximo que sua
tAo vasta experiencia Ihe possibilitou. E


o mais preparado dos politicos brasilei-
ros de todos os tempos, o inico que fez
a escola da vida para a carreira polfti-
ca. Durante duas d6cadas nao teve
mandate (renunciou ao que conquistou,
de deputado federal; na sua versio, por
nao conseguir conviver cor os 300 pi-
caretas do parlamento; na verdade, por
nao conseguir dividir o poder), nao pre-
cisou garantir a pr6pria sobrevivencia e
da familiar, foi tendo cada vez mais tudo
"do bom e do melhor". Circulou pelo
Brasil inteiro e pelo mundo.
P6de se dedicar integralmente a cin-
co campanhas eleitorais para presiden-
te da reptblica. Perdeu tries (sua sorte


6 tao imensa que perdeu as tr8s primei-
ras: nao saberia o que fazer entdo com
os mandates em dispute) e ganhou duas,
ambas na hora certa. Nenhum politico
brasileiro ter cartel semelhante nem
provavelmente tera. A estrela de Lula
6 de primeira grandeza. Combinada com
seus instintos, sua inteligencia e sua
identificaqio cor o povo, resultou numa
biografia realmente notAvel conforme a
auto-definiCqo.
Contradig~o ambulante, 6 um ser que
se modifica e se adapta ao ambiente
quando o cendrio ainda estA em muta-
gqo, graqas a sua incrivel capacidade de
co ifiinAfi aiii


nffl-ffnS DE VTA P


[PAR SEM PEQ A PAG


No 471
ANO XXIII
R$ 3,00





CONTINUAgO MCIAPA
antever o moment imediatamente se-
guinte ao vigente, Lula 6 aquilo que, abu-
sando do jargdo, se passou a chamar de
"forca da natureza". E uma esplndida
culminaqio de instintos vitais. Mas sem
a menor condiiao de autoconhecimento,
de reflexio e de andlise. Uma vocacqo
inocente de ditador, com a melhor das
aparencias, sem consci8ncia de culpa.
A expressed "nunca antes" 6 contu-
maz no seu discurso porque ele s6 con-
segue reconstituir os fatos dos quais
participou, a hist6ria que vivenciou e
sempre atrav6s da sua 6tica, imperme-
avel A interferencia externa, sobretudo
A critical. Tudo mais que exigir esforgo
cognitive, pesquisa documental ou che-
cagem factual escapa aos seus domini-
os. Ele se consider marco demarcat6-
rio da hist6ria do Brasil porque ter a si
como eixo de tudo, o que nao 6 de es-
pantar nem pode legitimar critics: 6 s6
isso o que Luiz Inicio Lula da Silva v8.
A dificuldade para critici-lo cor ho-
nestidade, sem preconceitos, estA na cir-
cunstincia de que nunca mesmo nenhum
politico foi tio popular quanto ele nem
tao poderoso. A oposiqao foi varrida do
mundo real no Brasil. N~o agora, de sdi-
bito, embora s6 agora tenha chegado ao
fundo do poco, numa extinqao melanc6-
lica e vil. Ela comeqou a desaparecer
quando se deixou alcancar pela osmose.
Todos viraram Lulas, imitaqses dele, suas
sombras, suas marionetes.
O Brasil sofre os efeitos de um antiin-
telectualismo sem igual, sutil e corrosive,
imperceptivel e devastador. Se o simbolo
dos instintos vitais deu certo como nunca
antes, por que pensar? Por que contes-
tar? Por que contrapor? Por que, at6 mes-
mo, dialogar? E aderir e copiar.
Ali estava a formula do sucesso, sim-
ples e ao alcance de todos, jB que per-
mitiu ao apedeuta se tornar idolo inter-
nacional, subir al6m do alcance de es-
tadistas de vArias parties do mundo, que
Ihe estenderam enormes tapetes verme-
Ihos, fazer e acontecer e, ao fim e ao
cabo, como gostam de dizer os portu-
gueses, simbolos do que 6 bisico e ele-
mentar, tudo resultar em mais dividen-
dos para o mago das circunstancias.
O povo esta feliz e votaria de novo
em Lula se a constituiiao admitisse tr8s
eleiq6es seguidas para president da
repdblica. Se Dilma passou dos 50%,
tendo comegado quase no nada (o "no-
nada" de Guimaraes Rosa), Lula pas-
saria dos 80%. Colocaria no chinelo o


Janio Quadros de exatamente meio s6-
culo atrAs, na eleiq~o dos 5.6 milh6es
de votos de 1960 contra 3,8 milh6es do
marechal Lott.
O "poste eleitoral" de 2009 se tomou
sucesso retumbante em 2010. Mas nao
s6 por causa do carisma e da populari-
dade de Lula. Tamb6m pelo uso mais
abusive da mdquina piblica de que se
tem noticia em 80 anos de eleicqo no
Brasil, a partir da revolucqo de 1930. Lula
transformou as leis em potocas, ampli-
ando para a cena national a chacota
paroquial do caudilho paraense Maga-
lhIes Barata. Zombou das normas e dos
seus aplicadores. Pisou sobre os pap6is
sagrados que rasgou. Fez de si um abso-
luto. O passado evaporou, como se fora
antediluviano. Dele, todos perderam a
mem6ria, num Alzheimer coletivo, com
dezenas de milh6es de enfermos.
Nao, Lula nao 6 o pai da patria (logo,
Dilma nao lhe pode ser a mie putativa).
Antes dele, centenas de cidadios conce-
beram, colocaram em pratica e adminis-
traram um piano de combat A inflacao
(e, a rigor, de criagdo da nova moeda bra-
sileira, feita para durar) do qual s6 se tem
algo comparavel naquele que Hjalmar
Schacht p6s em pratica na Alemanha de-
pois da Primeira Guerra Mundial e faria o
pais renascer (infelizmente, para resultar
em Adolf Hitler). Uma faganha que hon-
ra a cultural brasileira no mundo.
Ningu6m que tenha nascido depois do
Piano Real pode ter id6ia do que era a
deterioragqo dos valores econ6micos no
Brasil, a crueldade da anarquia inflacio-
nAria, sobretudo para os que vivem da
renda (ou da venda da forqa) do seu tra-
balho. Acostumados a uma moeda forte
(embora cambialmente enviesada), sdo
levados a crer (ou mesmo partem da pre-
missa) que sempre foi assim, que a esta-
bilidade atual nio deve ser creditada a
ningu6m nem 6 penhor de algu6m. No
entanto, ela ter uma origem datada e
nomes que a personificam. Foi o grande
legado de Fernando Henrique Cardoso.
Lula e o PT, que equiparavam o Pla-
no Real ao Piano Collor e ao Cruzado de
Sarney como manobras oportunistas e
eleitoreiras, que nao foram capazes de
ver com isenqo a criatura e segui-la com
acuidade, hoje se beneficiam dessa gran-
de aventura intellectual, que mobilizou
talents de vArias pessoas excepcionais
e o discernimento do seu comandante,
quando ministry da fazenda de Itamar
Franco e, depois, como president. Se
tivesse chegado ao poder em 1989 ou


em 1994, Lula e o PT nao conseguiriam
dar ao Brasil a moeda que hoje ele tem e
a estabilidade de que usufrui.
t claro que os tucanos do principle
dos soci6logos acumularam a partir daf
desastres e vilanias, das privatizacqes
(umas que nao deviam ter sido feitas,
outras que jamais podiam ser feitas pe-
los valores praticados) A imoralidade da
reeleicqo, passando por uma visdo eli-
tista e predadora da administraqo pd-
blica, e uma incapacidade congenita de
porosidade social. Os tucanos criaram
as political compensat6rias, mas nao as
abriram aos deserdados. Apenas as to-
leraram porque a primeira dama, a maior
de todas, Ruth Cardoso, as patrocinou.
O grande lance de Lula foi exatamen-
te dar densidade as criaqoes sociais que
os tucanos langaram como decoragao,
como aplique nas suas fantasias empa-
vonadas. Cinquenta milh6es de brasilei-
ros sdo clients desse beneficio, que,
como o pr6prio nome diz, 6 compensat6-
rio, remediador, paliativo. NMo projeta
essas pessoas, nao Ihes d6 condicqes para
o future, nao as tornam espinhas dorsais
do progress brasileiro. A lamentavel si-
tuaqao da educacgo, da sadde e da se-
guranqa 6 uma advert8ncia de que nao
se trata, ao contririo do que diz o cate-
cismo, de desenvolvimento sustentavel.
Os brasileiros estao felizes, compram
como nunca, constroem como nunca,
andam sobre quatro (ou duas) rodas
como nunca, tnm im6veis como nunca.
Papai Lula abriu-lhes o cofre, mas abriu-
lhes uma estreita passage apenas de
um lado do eririo. Do outro lado, ha lar-
ga avenida para banqueiros e empresi-
rios, para investidores da bolsa, para to-
madores dos pap6is oficiais, que lucram
- como nunca, nem sob FHC, seu par -
em bilhoes e bilhoes de reais, para com-
panheiros e aderentes, para a "nova clas-
se" trabalhadora, reprodugqo da "velha
classes" elitista e nao sua contrafago,
como devia e se dizia ser.
Tudo isso nao abase de poupanga real,
dinheiro ou ativos em geral acumulados para
permitir investimentos, mas de cr6dito, de
endividamento, como de fato nunca
antes. Um terco do PIB 6 cr6dito, aos ju-
ros mais altos da face da terra, tao altos
que podem ser reduzidos sem perder sua
excepcionalidade. HA muito mais ativida-
de econ6mica e enriquecimento, que per-
mitem o reinvestimento. Mas em grande
parte esse dinheiro consolida o modelo ex-
portador de bens primirios, dentre os quais
recursos nio renovaveis, que se vo de vez,


2 Jornal Pessoal AGOSTO DE 2010 2a QUINZENA





Sao inv6s de servir ao enriquecimento inter-
no, A consolidaco da naqio.
Sem o enorme incremento da exporta-
qio o Brasil nao teria suportado tao bem a
crise financeira intemacional de 2008, con-
diaio que faltou durante as duas grandes
crises extemas ocorridas na gestAo FHC.
O problema (serifssimo) 6 que depende-
mos de uns poucos produtos primrios (mi-
n6rio de ferro, soja, came) e de uma quan-
tidade ainda menor de parceiros, com des-
taque inquietante para a China, da qual nos
tornamos quase um ap*ndice.
O Brasil imediatista e superficial de
hoje 6 o reflexo coerente do lider que o
comanda e ao qual o pais da sua aprova-
q$o, nesse coro do consentimento inclu-
idos os oportunistas da oposicqo. Eles
trairam a funao hist6rica que Ihes cabe,
de remar contra a corrente, de nio se
deixar seduzir pela aprovagao fAcil, pela
f6rmula do sucesso fomecida pelos mar-
queteiros, os bruxos da nossa 6poca.
Em plena campanha eleitoral, vemos
o Grande Irmio censurando os critics,
tirando a tomada dos insubmissos, arman-
do golpes que, descobertos, se tomam in-
fantilidades inimputAveis porque a oposi-
9ao tamb6m perdeu a noao de tempo e
espaco, o senso do distinto e do divers,
langando-se desavergonhadamente para
debaixo do guarda-chuva do Big Brother.
Pela primeira vez, nao hA contracan-
to eleitoral. Cresce de volume um unis-
sono que violent a inteligencia nacio-
nal, a capacidade que um pafs tem de
reconhecer a si, de ver a realidade, ao
inv6s de ser conduzido pela manipula-
qio political e publicitAria. Este Brasil
unidimensional e unilinear 6 uma aber-
raqio, uma ficqio, um fact6ide. Mas
como as liderangas renunciaram ao seu
papel prof6tico ou se tornaram tio me-
diocres que perderam qualquer conted-
do, cristalizou-se o domin6 de Fernando
Pessoa: "quando quis tirar a mascara,/
estava pregada na cara".
Homem de SAo Paulo (apesar das ori-
gens geograficas nordestinas), como FHC
(s6 circunstancialmente carioca), Lula 6
o outro lado da mesma moeda. No 6
igual, mas 6 o mesmo. Enquanto influen-
cia e faz amigos, com sua verve e graqa,
os de sempre mandam na economic, se-
guindo esquema em vigor hA duas d6ca-
das. Enquanto Sao Paulo 6 a cidade comr
mais helic6pteros em trfnsito por seu es-
paqo a6reo, as favelas do Rio de Janeiro
sAo teatro de operates b6licas da bandi-
dagem, com e sem uniform. O Brasil
afluente convive com o Brasil doente.


Lula merece ganhar esta eleicio.
Mas nao ganhar como parece que vai
ganhar de fato, tornando secundario ou
irrelevant quem ganharA de direito.
Mesmo porque, no intimo, s6 com seus
bot6es, qualquer ser pensante hesitard
ao tentar responder a um mist6rio cri-
ado e prolongado pelos marqueteiros e
seus esteticistas, cirurgi6es e feiticei-
ros outros: que Dilma 6 essa?
Num passado longinquo, um quadro da
ditadura military perguntou a n6s todos: mas


Quando nomeou suas esteticistas
como assessoras especiais do seu ga-
binete, logo no inicio da sua gestao, Ana
Julia Carepa provocou o primeiro im-
pacto negative de amplitude national.
Segundo a revista Veja, seu correligio-
nario-mor, o president Lula, teria pre-
visto que ela iria ser a pior governadora
do Brasil. A indiscriqao foi colocada
mais duas vezes pela revista na boca
de Lula. Ningu6m no Palacio do Pla-
nalto desmentiu. O tempo 6 que se en-
carregou de confirmar a previsao ne-
gativa. Ana Julia conseguiu se tornar a
governadora mais rejeitada pela popu-
lag~o do ParA nos iltimos anos. Ou, tal-
vez, desde a proclamaqao da repdblica.
A pesquisa do Ibope divulgada no
dltimo fim de semana pelo grupo Libe-
ral lhe atribuiu rejeiqao de 41%, prati-
camente o dobro dos 21% do segundo
mais rejeitado, o tucano SimZo Jatene,
que na sondagem apareceu A frente da
governadora, cor 43% das preferenci-
as, contra 33% dela. Quatro anos atrAs,
Ana Jdlia foi eleita nao sem dificulda-
de e gragas A adesao A sua candidatura
do PMDB de Jader Barbalho, que, na
verdade, foi o seu patrono para p6r
fim aos 12 anos seguidos de imp6rio
tucano no Estado. Nao s6 nao conse-
guiu como realizou o inverso: por sua
alta rejeiq~o, tornou-se mata-borrio
para apagar o passado imediato de ne-
gagdo dos tucanos elitistas e te6ricos.
O PSDB esti de volta. Pode at6 nao
vencer, mas se credenciou na pior das
hip6teses a disputar o 20 turn, se (ou-
tra surpresa da pesquisa) 2 turno hou-
ver. Isto, apesar de Jatene ter ficado
quatro anos no ostracismo, ter parcos
recursos e, ao reivindicar a nova candi-


que pafs 6 este? Foi uma 6poca de mila-
gre, como agora, at6 maior (dois digitos
de crescimento annual do PIB), bem pare-
cido com o de JK antes (portanto, o "nun-
ca" nao se aplica a esse passado). A per-
gunta tem que ser refeita, hoje. Mas tal-
vez ja nio se consiga uma resposta. O
absolute 6 uma abstracio, embora malsa.
Sua maior malignidade estA em se infil-
trar sem ser percebido. E, mesmo sendo
impossivel, passar a ser aceito como nor-
mal. Como agora.


datura, que deixou passar em 2006,
quando podia ter disputado a reeleiqao,
enfrentar os ataques sistemiticos e du-
ros de ningu6m menos que seu amigo,
padrinho e antecessor Almir Gabriel.
O ex-governador, o primeiro reelei-
to seguidamente, acusou Jatene de ser
empregado da antiga Companhia Vale
do Rio Doce, a maior empresa em atu-
agao no Pari, maior do que o pr6prio
Estado, de Ihe ter prestado favors e,
se eleito, vir a se tornar um instrument
dos interesses da corporagao, sempre
em colisio com as aspiraqces do Esta-
do. Almir langou sobre o antigo amigo
uma n6doa de suspeicao que podia com-
prometer sua image, mas a manobra
parece nao ter tido o efeito desejado.
Nem o ostensivo apoio de Almir ao can-
didato do PMDB, Domingos Juvenil
(com apenas 6% das intenq6es de voto),
tao desbragado que o levou a se desfili-
ar do PSDB, consumando uma ameaqa
anunciada varias vezes.
Ana Julia Carepa conseguiu passar
da condig~o de favorite A reeleiqao A si-
tuaqco de pior candidate do PT. Nem o
dinheiro federal nem Lula e nem a su-
pers6nica Dilma conseguiram at6 agora
arrastar a pesadissima companheira.
HaverA condicao de reverter o quadro
atual? Parece muito dificil. S6 nao 6 im-
possivel de todo porque o eleitor paraen-
se ainda estA suscetivel a estimulos para
manter ou mudar a opao declarada por
um candidate. Nenhum dos candidates
empolga e o crit6rio de decisao parece
ser o da exclusao: a maioria nao vota no
melhor e sim no "menos pior".
Enquanto na pesquisa induzida a soma
dos votos brancos, nulos e indecisos 6
CONCLUI NA PFA 4 h i-


AGOSTO DE 2010 2 QUINZENA Jornal Pessoal 3


Ana Julia abre alas

a volta dos tucanos


~





coNCLusAO DA Pna 8
de 14%, na sondagem espontanea esse
valor salta para 47%. Espontaneamen-
te, 29% dos entrevistados lembraram o
nome de Simio Jatene. Apenas 18% jd
teriam optado em defmnitivo por Ana Jd-
lia, o que significa que quase metade da
sua votagio ainda nio esta consolidada,
enquanto em relagio a Jatene esse per-
centual 6 de quase dois terqos.
Esse 6 um dado relevant porque a
candidate do PT 6 quem estA no exerci-
ciodogovemo, em exposiq~op6blicamuito
mais intense do que qualquer outro candi-
dato, inclusive Jatene. Depois de ter exer-
cido um dnico mandate (2202/2006), ele
tinha indice de aprovago suficiente para
se apresentar como favorite a eleicio de
quatro anos atras, quando foi atropelado
pelo antecessor, embora Almir j estives-
se em curva descendente.
Mesmo depois de quatro anos afasta-
do do poder, Jatene ainda tern capital po-
pular bem maior do que Ana Jlia. O exer-
cfcio do govemo, ao inv6s de credenciar,
desgastou a governadora. Quatro anos
depois, ela continue cor o mesmo estilo
"palanqueiro" de antes e discursando a
base de promessas, como se apenas ago-
ra estivesse se apresentando para dispu-
tar o governor. Sua administraqao foi de-
saprovada pela maioria, que nao mais a
quer no cargo. Cor nnfase na capital,
onde a rejeigio 6 de 47%, superior A de
Jader Barbalho, estigmatizado como o vi-
lio da cena political paraense. Por incrivel
que parega, a condigio de Ana Jdlia 6 pior.
A ameaca se torna ainda maior para
ela porque apenas 4% se manifestaram
espontaneamente por Domingos Juvenil,
cujo indice de rejeiao, de 14%, 6 baixo,
sobretudo se comparado ao de Ana Julia.
Isto pode significar que ele ainda 6 pouco
conhecido, especialmente no interior, e sua
votacao pode crescer at6 o dia 3 de outu-
bro. Para o cacique peemedebista, essa
expansdo pode se revelar um fator im-
previsto pela estrat6gia inicial.
E Jader Barbalho quem carrega Ju-
venil, avalizando-o por todos os lugares.
Ao contririo do que especulavam os
defensores da tese do "laranja", langa-
do apenas para um faz-de-conta, Juve-
nil estA send tratado por Jader como
candidate para valer. Por isso, nao s6
pode nao ajudar a somar na conta da
outra candidatura majoritria, a do pr6-
prio Jader para o Senado, como exer-
cer influ8ncia negative sobre ela, se a
proporqo de votos para Juvenil perma-
necer pequena. SerA sinal de que Jader


nao conseguiu Ihe transferir votos e ja
no tem o mesmo peso na political local.
Esse fator se acentuard se a eleiaio
vier a ser decidida logo no 1" tumo. Nesse
caso, Simao Jatene renasceri das cinzas
cor uma forga incomum. Pela primeira
vez depois de virias elei6es, o candidate
vencedor nio terd debito com Jader Bar-
balho, o que poderd influir sobre a sua tra-
jet6ria hist6ria: ele estaria entrando numa
etapa de declinio da sua importincia no
Para? Sera o infcio do seu ocaso?
Na hip6tese do 2* turno, outro fator
vai influir: se Dilma Roussef veneer no
primeiro turno e se essa vit6ria se con-


O Pard continue com sua credenci-
al negative: desta vez, foi o ultimo dos
Estados brasileiros a realizar pesquisa
official para o governor do Estado. A pri-
meira, do Ibope, saiu neste final de se-
mana, patrocinada pelo grupo Liberal.
Talvez tenha sido a mais retardataria de
todos os tempos, a quase um mes ape-
nas da eleiSio. Todos os demais Esta-
dos jA tinham feito as suas, em virios
casos, repetidamente. No Pard, apenas
levantamentos informais e pesquisas nao
registradas no Tribunal Regional Elei-
toral, para control interno. Por qu8?
Em primeiro lugar, porque os campos
continuam polarizados e todos participam
ou estao envolvidos por essa divisio dual
do poder, em extremes que se comba-
tem. Inclusive a imprensa. Ficou clara a
mA disposiqdo do grupo Liberal por pes-
quisas. A empresa dos Maiorana resistiu
o quanto p8de h diretriz da Rede Globo
para apresentar pesquisa do Ibope na TV
Liberal. Foi a ultima, depois de um inci-
dente suspeito que atrasou a divulgaao.
A causa da relutfncia ficou evidence
quando os ndmeros se tornaram pdbli-
cos: a candidate preferida da "casa", a
governadora Ana Jdlia Carepa, estava
atras, por uma diferenca em relacao ao
seu adversirio do PSDB, Simao Jatene,
bem acima da margem de erro. Incapaz,
portanto, de ser relativizada. Mas a ma-
tdria na televisao escondeu um dado tdo
important: que, se considerados apenas
os votos vAlidos, Jatene venceria no 1
tumo se a eleico fosse hoje.
O journal, no dia seguinte, podia ter
destacado a novidade, mas O Liberal
deixou para o meio da mat6ria a infor-
mag o, contrariando a orientaCio edi-


cretizar tAo esmagadora como estA se
anunciando. Se isso acontecer, Jader
Barbalho, corn ou sem Juvenil no 2 tur-
no, precisarA repensar sua estrat6gia
para a nova eleigio. Ele parece se in-
clinar em favor de Simao Jatene para
enterrar de vez Ana Jdlia e o PT local.
Sem 2 turn para a presidencia da re-
publica, tendo Dilma como sucessora de
Lula, a governadora do PT poderA ser
ressuscitada? HaverA um novo milagre
biblico, A maneira de Lazaro?
Numa eleigio mediocre, com candi-
datos nivelados por baixo e sem entusias-
mo popular, sao as perguntas que restam.


trial de procurar uma novidade quan-
do a television antecipar a noticia. As
manchetes procuraram um desvio sutil,
sempre ressaltando que os resultados
eram de responsabilidade do Ibope. O
journal, desta vez, deixava de simples-
mente proclamar os numeros, em outra
manobra sutil: sugerindo que fossem a
antecipag~ o da pr6pria votag~o. Al6m
disso, a mat6ria foi seca e pobre. Mes-
mo com os problems de ediq~o, por
causa da liberaaio pelo TRE apenas no
domingo, a pobreza nao se justificava.
Nio foi divulgada a simula~io do 2
turno nem previsAo para o Senado.
Nenhuma palavra foi dita sobre a
impugnaqo da divulgagio da pesquisa
feitajunto justiga eleitoral pela coliga-
Cao liderada pelo PT. Tecnicamente, a
razao do recurso era frigil: nenhum dado
foi questionado, apenas a falta de docu-
mentos. Uma vez juntados esses docu-
mentos, a pesquisa foi liberada sem pro-
blema. S6 depois da publicapqo nojomal
questionamentos t6cnicos foram apre-
sentados em nova impugnasgo. O inci-
dente gerou uma ddvida: foi um esqueci-
mento accidental? Ou houve a intengco
de protelar a divulgagao, sobretudo pelo
journal? Saindo na segunda-feira e nao no
domingo, atingiu um pdblico 50% menor.
O anico argument em seu favor, em
mais essa confuso entire o objetivo de uma
empresajornalistica, que 6 bem informar o
pdblico, e seus interesses comerciais e po-
liticos, que sio os de servir aos seus donos,
6 que o Didrio do Pard de Jader Barba-
lho nao publicou at6 agora pesquisa algu-
ma. Os donos do poder preferem que a
sociedade continue a caminhar no escuro
e a tatear como cego em tiroteio.


4 Jornal Pessoal AGOSTO DE 2010 2- QUINZENA


Todos na arena







0 agai e nosso. E mesmo?


O roubo de sementes de seringueira
6 apresentado at6 hoje como o mais
grave caso de biopirataria da hist6ria da
AmazOnia. O ingles Henry Wickham,
que ganharia titulo de nobreza pela fa-
qanha, 6 acusado de contrabandear para
a Inglaterra duas toneladas de semen-
tes da Hevea Brasiliensis.
Aclimatadas em Londres, as semen-
tes foram plantadas na Asia. 0 plantio
deu tdo certo que a Amaz6nia, fornece-
dora monopolista de borracha na tran-
siqao do s6culo XIX para o XX, foi para
o rabo da fila dos produtores e nunca
mais recuperou a antiga posiqao. O
Brasil deixou de ser auto-suficiente e a
Amaz6nia nem 6 produtora significati-
va no mercado interno. Tudo por culpa
de um ingles astuto e imoral.
A indignaq~o de hoje 6 a mesma de
quase um s6culo atris, quando as col6-
nias asiAticas das pot8ncias europ6ias
passaram a inundar o mundo cor bor-
racha incomparavelmente mais barata
e abundante.
Na verdade, por6m, nao houve con-
trabando. Wickham despachou a carga
pelos meios legais e at6 patrocinou um
convescote antes do embarque, em
Bel6m, com a presenqa de autoridades
e pessoas gradas da sociedade local. HA
provas suficientes e convincentes do
fato. Mas se a Inglaterra, a maior po-
tincia da 6poca, precisasse roubar as
sementes, certamente nio se inibiria.
Tinha extensos antecedentes.
A quantidade e os precos da bor-
racha amaz6nica eram incompativeis
com a escala de desenvolvimento que
a inddstria estava entdo em condig6es
de seguir. O que a empacava era a
insuficiencia da oferta e os valores
abusivos cobrados em funqgo do mo-
nop6lio. Os brasileiros at6 desdenha-
ram a empreitada de Wickham. A Ar-
vore da borracha nao era native da
regiAo? Como podia dar melhor em
outro lugar? Impossivel.
Nao era, provou a hist6ria, reconsti-
tuida cor lucidez pelo americano War-
ren Dean no jA clAssico A Luta pela
Borracha no Brasil. Se a natureza foi
pr6diga (mas tamb6m caprichosa) na
tessitura do ambiente fisico na Amaz6-
nia, foi fatal em relago A Hevea Bra-
siliensis. A Arvore atinge um porte atl6-
tico, com at6 50 metros de altura, e uma
fecundidade excepcional apenas nas


condiq6es naturais, dispersa no meio de
muitas outras esp6cies.
A biodiversidade, quintessencia do
valor natural amaz6nico, hoje tao exal-
tada, mostrou-se fatal sempre que se
tentou adensar seringueira na mata. E
o adensamento era indispensAvel para
aumentar a produgqo e a produtivida-
de, sem o que ficou impossivel concor-
rer com os plantios asiAticos.
Adensada, a seringueira 6 atacada
por pragas, que a tornam est6ril ou im-
produtiva. Henry Ford amargou essa
constataqio ao former seus plantios no
vale do rio Tapaj6s, no Pard. Depois de
17 anos de experiments, ao custo de
muitos milh6es de d6lares, desistiu e foi
buscar seu suprimento na Asia. A eco-
logia se revelou implacAvel com as ten-
tativas de enriquecimento de seringuei-
ra na Amazonia.
Qualquer pessoa minimamente infor-
mada nao tem mais ddvidas a respeito.
No entanto, a maioria prefer continuar
a acreditar que o colapso da borracha,
antes da crise do caf6, resultou de uma
conspiraqco do imperialismo. As inicia-
tivas de contar a hist6ria real tamb6m
nada mais seriam do que a persistencia
do mesmo interesse estrangeiro, atra-
v6s dos seus porta-vozes mercenarios.
Essa posiqSo tem impedido a soci-
edade, como em outros epis6dios da
hist6ria da Amazonia, de enfrentar e
superar problems reals que cotidiana-
mente se impeem A regido. O prejuizo
dessa mistificaq~ o 6 enorme porque a
Amaz6nia 6 a mais internacionalizada
das regi6es brasileiras e a mais tardia
na integraq~o a nacionalidade. Sua in-
corporaqao fisica tem apenas meio s6-
culo e ainda nao estA complete (de cer-
to modo, felizmente: a integraq~o tern
sido sin6nimo de devastagqo, em am-
plo espectro).
O erro fatal cometido em relaqo da
borracha pode estar se repetindo no
caso do aqai. As reaq6es dos leitores
ao artigo divulgado na minha coluna no
site do Yahoo, com mensagens perspi-
cazes e provocativas, al6m de entere-
cedoras e gentis (112 no total), mostram
que a sociedade esta a reboque dos fa-
tos consumados. O govemo vem ainda
mais atrAs, se 6 que esta acompanhan-
do a dinimica hist6rica.
O descompasso entire os fatos cria-
dos pelos agents dessa hist6ria, atuan-


do sem coordenagao e sem apoio ou
regulaq~o, pode provocar efeito nio
semelhante, mas comparivel A cra-
ck da borracha, que se seguiu, em tao
curto intervalo, ao seu boom. Foi uma
hist6ria de menos de meio s6culo.
Sao numerosos e complexes os pro-
blemas que precisam de solucqo para
evitar as previs6es feitas por muitos lei-
tores: que o agaf deixarA de ser produto
genuinamente amaz6nico (e, sobretudo,
paraense) e que os maiores ganhos se-
rao obtidos por atravessadores e comer-
cializadores, fora dos limits regionais
(e at6 nacionais).
E precise, primeiro, ter uma id6ia
da grandeza da economic do aqaf. Para
o produtor ele represent algo como
dois bilh6es de reais. Colocado A mesa
do consumidor, esse valor se multipli-
ca, no minimo, tr8s vezes. Pode che-
gar a R$ 6 bilh6es. Nao hA fruta que
renda tanto.
Frutas tfpicas nao faltam na Amaz6-
nia. A sorveteria Santa Marta, bem an-
tes da Cairu, se tornou c6lebre porque
chegou a oferecer 103 sabores de sor-
vetes, em sua maioria de frutas nativas
e lnicas. E espantoso que a estrutura
governmental nao contemple um insti-
tuto do aqaf ou de frutas tropicais. E
uma fonte de receita que ja 6 muito sig-
nificativa agora e pode se tornar gran-
diosa nos pr6ximos anos.
Claro que a political official nao pode
ser montada num dia para se completar
no outro. O maior desafio na Amazonia
6 criar conhecimento cientifico. A difi-
culdade esti em dispor de verba para
sustentar a frente do saber tanto quan-
to em estabelecer uma postura adequa-
da sobre a complexidade regional. Um
conhecimento superficial 6 passaporte
para uma atividade ef8mera, conforme
mostram numerosos casos do passado.
Mal circularam informaq6es sobre o
poder cicatrizante do 6leo da copaiba e
jA eram comercializadas capsulas a gra-
nel. O efeito t6xico do 6leo, nocivo para
o aparelho digestive, se contrap6s ao
seu poder curativo. NMo houve pesqui-
sa suficiente sobre os principios ativos
da essencia para a formulaqCo de um
medicamento complete.
A investigation cientifica sobre as fru-
tas amazonicas, e, em particular, o aqaf,
6 incapaz de responder sequer as inda-
CONCLUI NA PAG 8 ---


AGOSTO DE 2010 2a QUINZENA Jornal Pessoal 5







JP: um blog a


Nao pude comparecer ao 1"
encontro de blogueiros
progressistas, que se realizou em
Sao Paulo, entire 20 e 22 de agosto.
Surpreso pelo convite, diante da
minha notdria inabilidade cor os
meios digitais, escrevi uma carta
aos meus anfitrioes, lida pelo meu
filho, Angelim. Encurtei o texto
original para tender aos limits da
programadgo. Foi esse texto que
circulou pela blogosfera. Decidi
apresentar aos meus leitores a
versdo complete.

S into-me muito honrado pelo con-
vite, que devo ao Azenha e A
Conceigo, para participar des-
te encontro. t uma iniciativa generosa e
gentil para com um analfabeto digital,
como eu. Garanto que sou capaz de li-
gar e desligar um computador, de enviar
e receber mensagens. Nio garanto nada
a partir daf. Como, entao, estou aqui?
Sou digamos assim um bloguei-
ro avant la l~ttre. Nao podendo ser um
tigre, posto que sou Pinto, fui precursor
na condig~o de blogueiro de papel e
no papel. As vezes, por necessidade,
tamb6m um tigre in fdlios e nada
mais do que isso.
Meu pioneirismo teve origem no j
distant ano de 1987. Eu tinha 38 anos
de idade e 22 de profissdo e estava na
"ponta de dois dilemas", conforme di-
zia pomposamente um conhecido, meio
confuso na forma de se expressar.
Numa ponta, a carreira professional
bem assentada em O Estado de S.
Paulo, entIo com 16 anos de "casa",
sem interrupco, e tamb6m no grupo
Liberal, a maior corporagqo de comu-
nicaq~o do norte do pafs, no qual tinha
14 anos, com um rompimento pelo
meio, quando tentaram me censurar,
logo superado pelo restabelecimento da
minha liberdade de expressao.


Do outro lado, uma mat6ria pronta,
important, bombAstica at6, mas que nao
encontrava quem a quisesse publicar. Era
o desvendamento do assassinate do ex-
deputado estadual Paulo Fonteles, por
morte de encomenda, executada na area
metropolitan de Bel6m, o primeiro cri-
me politico em muitos anos na capital do
Para. Crime que, se impune, abriria -
como abriu as portas da legalidade para
uma enxurrada de homicidios politicos.
0 Estaddo publicara todas as ma-
t6rias que eu escrevera ate entdo sobre
o tema. Mas aquela, que arrematava
tres meses de dedicagao quase exclu-
siva ao assunto, era longa demais para
os padres de cobertura que a grande
imprensa ji se impunha. Al6m disso, o
journal j dera muito a respeito, segundo
a diretriz quantitativa do editor, no Bra-
sil cada vez mais distant da cena do
crime, cada vez mais quantitative.
JA 0 Liberal considerava impubli-
cAvel minha reportagem porque ela
apontava como envolvidos ou coniven-
tes com a organizaio criminosa alguns
dos homes mais poderosos da terra,
dois deles listados entire os mais ricos.
Eram importantes anunciantes. 0 jor-
nal nao arriscaria perde-los, embora
reconhecesse que a mat6ria era con-
sistente e merecia ser divulgada.
O jeito era aceitar a impossibilidade
e voltar A condiiao de empregado das
empresas jomalisticas? Ao inv6s de me
submeter, decidi ir em frente. Refleti
sobre a minha experiencia na imprensa
altemativa, que brilhou durante a dita-
dura military: em Opinido, Versus e ou-
tras publicag6es. E em algumas das
minhas pr6prias criaturas, como o Ban-
deira 3 e o Informe Amazonico. E ain-
da no dnico modelo international de que
tinha referencia, o L. Stone's Weekly.
Virei outsider definitive. Sem volta.
O primeiro desafio para um journal
verdadeiramente independent 6 admi-


nistrativo. Sem uma gestdo alternative,
uma publicagao alternative nao conse-
guirA se definir como tal e nem sobrevi-
ver por mais tempo. Qual o custo mini-
mo para nao defender de ningu6m, nao
dependendo, sobretudo, de anunciantes?
O menor tamanho 6 a unidade.
Logo, o Jornal Pessoal nao devia ter
mais do que um empregado, que seria o
seu pr6prio editor. Como nao sei dese-
nhar direito, nem aquela barquinha a
vela que a professor nos impunha no
antigo curso primirio, me vali do meu
irmao, Luiz, eximio no traco. Eu preei-
saria de um ilustrador porque meu jor-
nal nao teria fotografia, que o iria one-
rar. E mesmo as ilustrag6es seriam pou-
cas, para nao fatigar o artist, que, como
todo artist, ao contrArio de n6s, operi-
rios das letras, 6 feito de barro fino.
O leitor que se desincumbisse de
tanto texto, mais uma contradita is re-
gras do sucesso na comunicagdo. 0 jor-
nal iria desafiar a fisica financeira e o
marketing. Iria ser o anti-veiculo, levi-
tando contra a lei da gravidade e os
conselhos dos experts (ou espertos).
Assim, o Jornal Pessoal ficou do
tamanho minimo minimorum. Qualquer
encolhimento, desaparecia. Mesmo com
esse perfil diifano, faltava um comple-
mento: para nio defender dos humores
de anunciantes, o journal nunca aceitou
publicidade. Teria que viver da venda
avulsa. Seu leitor teria que ir As bancas
de revista, que, em Bel6m, costumam
ser timulos dejornais.
A empresa nio dispunha de capital
suficiente (na verdade, nao tinha capi-
tal algum) para organizer servigo de
assinaturas, exceto nos dois primeiros
anos, quando apliquei nela grande par-
te da indenizacgo recebida de O Esta-
do de S. Paulo. Vendendo no varejo,
caso desaparecesse, o journal nao cau-
saria prejuizo a ningu6m, exceto ao seu
responsAvel.


m CONCLUSlO DAPAi 5


gaqoes feitas pelos leitores da coluna na
internet. Menos satisfat6rios ainda sAo
os dados s6cio-econ6micos, necessarios
para montar uma base econ8mica, indus-
trial e commercial para o produto.
Personagens que se encontram nas
vArias etapas do processamento do acaf
acumulam conhecimentos especificos
que lhes dio expertise e maestria no que
fazem. Por isso hi pessoas ganhando
muito dinheiro com a exploragao da
palmeira e nio s6 para extrair o suco:


ha o apreciado palmito, o uso da palha,
o artesanato criativo e bonito.
Do agaf, nada se joga fora. Mas o
retorno 6 desigual e injusto: s6 favo-
rece a alguns. E pode prejudicar a
maioria, que aprecia tomar o vinho
puro e grosso, a sua melhor forma e
seu paladar superior.
Como conciliar o consume intemo
com a crescente exportag~o? Como
difundir o "verdadeiro paladar do again ,
conforme observou um leitor, em meio


a manipula96es tao diversas e legiti-
mas, porque atendem a demands de
consumidores distintos? Como concili-
ar a busca de um terroir, que garanta o
melhor sabor e o maior preco, com a
demand do mercado local, a exporta-
gco com a necessidade internal?
Qual a rota a seguir para dar maior
durabilidade ao acaf e manter suas pro-
priedades originals para que chegue
mais long sem se desnaturar, em tal
media que, socializado por baixo, pela


6 Jornal Pessoal AGOSTO DE 2010 29 QUINZENA







Ltes dos blogs


Publicagao alguma vive de venda
avulsa, diz o axioma do setor. Se sobre-
vive, 6 porque tem algum financiador
oculto. 0 Jornal Pessoal deveri com-
pletar 23 anos de vida no pr6ximo mes
(cartas a redagao seri a melhor come-
morago) sobrevivendo do dinheirinho
dos seus 1.700 compradores (em uma
tiragem total de 2 mil exemplares quin-
zenais). Nao ha nenhum caixa 2 nem
financiador secret. Mecenas 6 fanta-
sia ou ilusdo, ao menos no Pard. Nao
abre seu cofre por causa alguma, ainda
que a mais merit6ria e de interesse co-
letivo. A nao ser a causa do seu cofre.
E claro que fiquei bem mais pobre
desde que o Jornal Pessoal comegou
a circular. Minha 6ltima variaqo patri-
monial, devidamente declarada ao ledo
do imposto de renda, ocorreu em 1987,
quando comprei um daqueles Passats
fabricados pela Vdlks e exportados para
o Iraque (que, depois da invasdo ameri-
cana, teleguiada por computador, foi pru-
dentemente mantido na garage para
nio se expor a algum missile perdido).
Hoje ando de Mercedao, o "busao" da
mesma Volks, na qual os brasileiros 6r-
faos de autoridades legitimas sdo mas-
sacrados diariamente pelos barges do
transport coletivo urban, responsAveis
pelosos caixas 2 dos politicos municipals
(e tamb6m dos mais-que-municipais).
Como umjornal com essas caracte-
rfsticas, e outras mais, que viriam a se
assemelhar aos blogs de hoje, ainda
existe, tornando-se a mais duradora das
publicag5es alterativas brasileiras em
todos os tempos? As vezes me faco a
pergunta e nem sempre encontro uma
resposta convincente.
No final de 2004, cansado pelo des-
gaste do trabalho e as perdas pessoais,
pensava em encerrar a carreira do jor-
nal, achando que ele jA havia cumprido
sua missed. Foi quando, em janeiro do
ano seguinte, depois de muitas amea-


)aus8ncia do melhor paladar, acabard
por ser cultivado em qualquer lugar
com condicqes ecol6gicas semelhan-
tes As nossas?
Se quem pode decidir e, ao inv6s de
fazer a parte que Ihe cabe. espera por
decis6es vindas da regulamentago au-
tomatica do mercado (esta, uma ficgqo),
dificilmente o aqaf tera desfecho me-
lhor do que o da borracha. Nao por fan-
tasias utilitarias, mas por efeito da agAo
As vezes cruel do mercado.


gas, fui agredido fisicamente pela pri-
meira vez, de forma covarde, por um
cidadao 19 anos mais novo do que eu,
um dos donos do grupo de comunica-
gdo no qual eu trabalhara (ao lado do
pai do agressor) e que na 6poca era sim-
plesmente o president da comissdo em
defesa da liberdade de imprensa da
OAB do Para. O agressor me atacou
pelas costas e contou com a cobertura
de dois policiais militares, que usava -
e continue a usar como seus segu-
rangas particulares.
Qual a causa da brutalidade? Um
artigo que publiquei dias antes sobre o
imp6rio de comunicaqdo do agressor. O
texto continha inverdades, era ofensi-
vo, invadia a privacidade dos persona-
gens? Nenhuma das alternatives. Mas
desagradava aos senhores da comuni-
caqco. Embora tendo a emissora de te-
levisdo de maior audiencia do Estado,
afiliada A Rede Globo, ojomal que ain-
da era o lider do segment (ji nao 6
mais) e estag6es de radio, nao usaram
seus veiculos para me contraditar ou
mesmo atacar com o produto que cons-
titui seu neg6cio: a informaq2o.
Ronaldo Maiorana me atacou corn
os punhos e, antes que eu pudesse rea-
gir A surpresa, just num dos moments
agradaveis da vida (almocando ao lado
de amigos em restaurant situado num
parque pdblico, onde tem sua sede a
Secretaria de Cultura do Estado), o
agressor fugiu, protegido por seus tru-
culentos segurangas, que deviam estar
no quartel ou na rua, protegendo a po-
pulagao, que lhes paga os vencimentos.
Por este e muitos outros motives, Be-
16m 6 uma das cidades mais violentas
do pais. O Maiorana agressor contri-
buiu com seu ato para encorpar essa
viol8ncia.
O que dela resultou? O agressor fez
acordo com o Minist6rio Pdblico do
Estado (a vftima nao tem voz na justi-


A propagaqco dos casos de doen-
Ca de chagas associados como con-
seqiiencia automitica ao acai tern
fung~o invertida A do contrabando da
borracha. Ao long de s6culos em
que os paraenses tomaram diariamen-
te seu vinho de aqai, mesmo quando
ele ja estava azedo, a doenqa nio
existia, nao se manifestava ou nio
era percebida.
Hoje existe e 6 real. Nao pelo acaf
em si, mas pelo crescimento do consu-


ga especial quando se nega ao acor-
do), entregou cestas bisicas a institui-
q6es de caridade (uma delas ligada a
familiar Maiorana) e permaneceu sol-
to, com sua primariedade criminal in-
tacta. Mas ele e seu irmdo ajuizaram
14 aq6es contra mim, nove delas pe-
nais, com base na recentemente extin-
ta Lei de Imprensa da ditadura military,
e cinco civeis, de indenizag~o.
O objetivo era 6bvio: inverter os p6-
los, fazendo-me passar da condiqgo de
vitima para a de r6u. Mas como conse-
guir essa magia? Em quatro aq6es os
irmaos Maiorana me acusavam de ca-
luniador, difamador e injuriador por ha-
ver dito que fui espancado, quando, na
verdade, segundo eles, fui "apenas"
agredido. Com base numa diferenqa que
nao consta do 16xico nem dos c6digos
juridicos, ainda pediram ressarcimento
pelo dano moral que Ihes cause com
tal infimia. Podia ter retirado meu ros-
to da direCio do punho do agressor e
nao o fiz. Devo ter cometido delito de
lesa-majestade.
Kafkiano? Mais do que kafkiano. De
um absurdo aviltante, ao qual parte da
justica paraense se tem prestado e nao
apenas aos Maiorana, ji que me conde-
nou porter chamados de pirata fundidrio
o maior grileiro de terras do Para e do
universe, condiqao provada pela pr6pria
justiga, que demitiu por just causa to-
dos os funciondrios do cart6rio imobilid-
rio de Altamira, onde a fraude foi consu-
mada, colocando ao alcance do grileiro
pretensao sobre "apenas" cinco milh6es
de hectares. Ou sete milh6es. No Para,
esbulho dessa monta nao faz diferenqa.
A terra dos direitos 6 rica.
Os poderosos, que tanto se incomo-
dam cor o que public no Jomal Pes-
soal, descobriram a maneira de me atin-
gir com eficiencia. JA tentaram me des-
qualificar, ji me ameaqaram de morte,
coNCLUI a PAG 8


mo sem o acompanhamento da higie-
ne. Apasteurizagao, que seria a resposta
automatica, jA proposta no parlamento,
esbarra no dano que causa ao melhor
paladar da fruta e na cultural local. Se-
ria o veio atrav6s do qual se infiltraria a
intemacionalizaqao predat6ria.
O problema existe, a causa 6 clara
e a soluSgo estA ao alcance. S6 falta a
vontade de fazer melhor. Este 6 o pro-
duto mais em falta na Amaz6nia e
no Brasil.


AGOSTO DE 2010 2' QUINZENA Jornal Pessoal 7





-- conxcLuso naPAS 7
jA safram para o debate pdblico e nao
me abateram nem interromperam a tra-
jet6ria do meujornal. Porque em todos
os moments provei a verdade do que
escrevi. Todos sabem que s6 public o
que posso provar. Cor documents, de
preferencia oficiais ou corporativos.
Por isso me entrego a uma enorme
tarefa de investigaqao e checagem, que,
cor tantos processes, nunca mais p6de
ser repetida na mesma amplitude, por
absolute falta de tempo, absorvido quue
sou de forma crescente pelos proces-
sos judiciais. Nunca fui desmentido so-
bre fatos, o essencial dos temas, inclu-
sive quando os abordo pioneiramente,
ou como o dnico a registri-los. Nao
temo a divergencia e a contradita.
O Jornal Pessoal deve ser a tnica
publicaqio que reproduz as cartas re-
cebidas na integra, mesmo quando elas
visam me ofender. Tentam e nao con-
seguem, porque minha vida esta aberta
a todas as perquiriqces e inquiries, e
meus dados expostos ao interesse pi-
blico. Felizmente, sempre pude respon-
der aos ataques dos meus inimigos, que,
sem a mat6ria prima da verdade, inven-
tem, mentem ou manipulam. Mas nio
Ihes calo a boca com murros ou com
o uso de leis iniquas.
Quando, em 1992, uma irma do
agressor propOs cinco aq6es sucessivas
contra mim, o caminho das pedras se
apresentou aos meus outros inimigos,
que sao os inimigos do povo, os mani-
puladores dos fatos, os seqiiestradores
da opinion pdblica, os agents do roubo,
do assalto aos cofres piblicos, os auto-
res das vilanias: ajustica. Bastaria pro-
por seguidas ac6es contra mim, inde-
pendentemente dos seus fundamentos
e arguments.
Desde entao, fui processado 33 ve-
zes. Isso, em pleno regime democritico,
o mais duradouro de toda a hist6ria re-
publicana brasileira. Durante a ditadura,
fui processado uma tnica vez, pela terrf-
vel Lei de Seguranqa Nacional. Mas fui
absolvido. Agora j fui condenado cinco
vezes. Nao me constranjo em dizer que
fui condenado a um Gulag, que nao as-
sume essa feiqao porque fui colocado
numa situaqgo original: sou o jornalista
que por mais vezes foi processado por
uma inica organizaio jornalistica.
No total, os Maioranas me proces-
saram 19 vezes, em todas elas confi-
nando a controversial aos autos dos pro-
cessos, guardados nos cart6rios ou nos
gabinetes dos magistrados, A distAncia
do conhecimento pfiblico.
Nenhuma das sentengas que me fo-
ram impostas transitou em julgado por-
que tenho recorrido de todas elas e res-
pondido a todas as movimentaCges pro-


cessuais, sem perder prazo, sem deixar
passar o recurso cabivel, reagindo corn
peas substanciais. Mantive essa resis-
tencia mesmo sem contar cor o apoio
de escrit6rios organizados de advocacia.
Procurei oito deles quando Rosan-
gela Maiorana Kzan props contra mim
a primeira aqao, em 1992. Nenhum acei-
tou. Os motives apresentados foram
virios, mas, a razao verdadeira, uma s6:
eles tinham medo de desagradar os po-
derosos Maiorana, como se fossem en-
carnaqo dos poderosos Prizzi, perso-
nagens de ficqao.
Nao queriam entrar no seu index.
Pretendiam continuar a brilhar em suas
colunas sociais, merecer seus afagos e
ficar A distancia da sua eventual vendet-
ta. Contei apenas corn dois amigos, que
se sucederam na minha defesa at6 o li-
mite de suas resist8ncias, cor um tio,
que morreu no exercicio do meu patro-
cinio, e, agora, com uma prima, filha dele.
Do outro lado, escrit6rios de advocacia
estruturados, que vao em bloco para au-
di8ncias e transitam cor finura pelos
gabinetes e corredores do f6rum.
Apesar de tantas decis6es contrari-
as, ainda sustento minha primariedade.
Logo, ndo posso ser colocado atris das
grades, objetivo maior do emprenho dos
meus perseguidores. Eles recorrem ao
seu cinto de mil utilidades para me iso-
lar e me enfraquecer. Nao posso con-
tar nem mesmo cor o compromisso
pela justiqa da Ordem dos Advogados
do Brasil.
Seu atual president national, o pa-
raense Ophir Cavalcante Junior, quan-
do president estadual da entidade, fir-
mou o entendimento de que sou perse-
guido e agredido nao por exercer a li-
berdade de imprensa, o direito de dizer
o que sei e o que penso, mas por "rixa
familiar". No entanto, dos sete filhos de
Romulo Maiorana, criador do imp6rio
de comunicaqoes, s6 tres me atacam,
com palavras e punhos. Dos meus sete
irmaos, s6 eu estou na arena.
Nunca falei da vida privada dos
Maioranas. S6 me refiro aos que, na
famflia, tnm atuaqao public. E o que
me interessa 6 o que fazem para a so-
ciedade, inclusive no usufruto de con-
cessao piblica de canal de television e
radio. E fazem muito mal a ela, como
tenho mostrado e eles nunca contra-
ditam. Acreditam que, me matando em
vida e silenciando sobre tudo que fa-
zem contra mim na permissive e coni-
vente justiqa local, a hist6ria dessa ini-
qiiidade jamais seri escrita porque o
que nao esta nos seus vefculos de co-
municacqo nao estA no mundo.
Nao chega ao mundo porque o con-
trolam, a ponto tal que tem sido vao meu
esforqo de fazer a Unesco, em parce-


ria com a Associaqao Nacional de Jor-
nais, incluir meu caso na relaqao nacio-
nal de violagco da liberdade de impren-
sa. O argument? Nao se trata de li-
berdade de imprensa e sim de "rixa fa-
miliar". O grupo Liberal, por mera co-
incid8ncia, 6 um dos seis financiadores
do portal Unesco/ANJ. Ap6s os Maio-
rana, o dildvio.
Eles equivocam-se. Desde que sur-
giu, o Jornal Pessoal tem registrado a
hist6ria de Bel6m, do Pard e da Ama-
z6nia. Nao a hist6ria dos press-relea-
se, dos bales de ensaio, dos enredos
urdidos nos bastidores, da versao con-
veniente, da verdade comprada, mas a
hist6ria fundada em fatos, naqueles fa-
tos que muitos gostariam que permane-
cessem como monop61io de um grupo,
justamente dos mais poderosos.
O Jornal Pessoal incomoda porque
nao foge muito pelo contrfrio, procura
- o teste de consist8ncia do que diz, de-
safiando os contrariados a provar que o
journal errou. A maior gl6ria do Jornal
Pessoal 6 nunca ter sido derrotado no
terreno que importa A hist6ria: o da ver-
dade. A verdade nao esti em oferta no
Google e continue a ser tio revolucionA-
ria quanto antes, seja na tessitura da Bi-
blia, que Ihe reconhece a funcgo liberta-
dora, quanto na de Darwin, de Freud ou
de qualquer outro int6rprete dos sinais
do seu tempo e do tempo future.
0 Journal Pessoal tem pagado mui-
to caro por se comprometer de corpo
inteiro (o que, no seu caso singular, nao
6 figure de linguagem) com a hist6ria
ou, melhor dizendo, a contra-hist6ria de
uma regiao que seus patrons e "padri-
nos" tentam tornar uma repetiqio de
outras hist6rias coloniais do mundo, no
passado e atualmente.
Enquanto for possivel, o Jornal Pes-
soal assumirA a posigao da legendaria
Pasiondria espanhola da Guerra Civil e
se colocarA diante dos malfeitores ad-
vertindo-os de que, se eles podem pas-
sar, gracas A sua forga, As suas palavras
adornadas de ouro e seus muques, sua
verdade nao passarao inc6lumes. As pd-
ginas do Jornal Pessoal continuarao a
ser preenchidas cor o que o jornalismo
6 capaz de apurar e divulgar, mesmo que,
como um Prometeu de papel, o seu ven-
tre seja todo extirpado pelos abutres.
Eles sao fortes, mas, olhando em
torno, vejo que hi mais gente do outro
lado, gente que escreve o que pensa,
apura sobre o que vai escrever e nao
depend de ningudm para se expressar,
mesmo em condigio de solidao, de in-
dividualidade, como os blogueiros. que
hoje, generosamente, me acolhem nes-
ta cidade que fiz minha e que tanto amo,
como se estivesse na minha querida e
amada Amazonia.


8 Jornal Pessoal AGOSTO DE 2010 2 QUINZENA







A psTseuem 19 71


*A posse do engenheiro Fer-
nando Guilhon no govemo do
Estado (tendo como vice o
coronel-aviador Newton Bar-
reira), em 15 de marco, teve
uma caracteristica ex-
cepcional em relaco
as outras 21 posses
realizadas em todo
pais naquele dia: o go-
vernador nao p6de
empossar o seu secre-
tariado. 0 motivo: o
SNI (Servigo Nacio-
nal de Informa6es)
ainda nao liberara ne-
nhum dos nomes que
lhe foram submetidos.
Nessa 6poca, todos os
que assumiam cargos pdbli-
cos tinham que passar pelo
crivo dos arapongas.
Diante da situaq~o imprevis-
ta, Guilhon disse que faria as
nomeaqces conforme as li-
beraqSes fossem saindo.
Mas nem todos os escolhi-
dos foram sacramentados
pelo Big Brother da seguran-
Ca national. Mesmo se tra-
tando de gente do pr6prio go-
vero. Havia dissens6es in-
ternas na clpula do poder. O
objetivo seria atingir o padri-
nho do novo governor, o en-
tdo ministry da educagdo,
Jarbas Passarinho.
Ele teve que voltar as pres-
sas a Brasilia, sem cumprir
a programagqo prevista para
Bel6m e surpreendendo a
todos, para tentar resolver o
impasse. Um dos problems
se relacionava ao seu sobri-
nho, o future deputado esta-
dual Ronaldo Passarinho,
que deveria ocupar a chefia
de gabinete do governador,
mas nao assumiu. Por alega-
do problema de saide. Dois
outros nomes tamb6m nao
foram aprovados.
*Jd o tenente-coronel Ala-
cid Nunes deixou o gover-
no sob consagracdo ptbli-
ca. Milhares de pessoas o
acompanharam, a pe, de-
pois da transmissdo do car-
go, do paldcio Lauro Sodre
ate o armazim tr&s do cais
do porto. Al estava atraca-
do o transatlcntico Ana


Nery, no qual Alacid embar-
caria para uma viagem "ao
sul" com a esposa, Maril-
da, ritual caracteristico da
velha republica. Ocupou a
mesma suite na
qual Dom de Cas-
tro Lazera (como
era citado nas co-
lunas sociais) vie-
ra de Manaus.
Faixas e cartazes
foram exibidos
pela multiddo, den-
tre os quais um que
deve ter dado o
que pensar (e fa-
lar): "Alacid 74".
Ou seja: campa-
nha antecipadissima para
um novo mandate (que s6
viria em 1979, ainda por via
indireta, atravis de eleiado
pela Assembleia Legislati-
va; em 1974 o escolhidofoi
o professor Aloysio Chaves,
ate entdo ne6fito em politi-
ca partiddria).
A Folha do Norte associou
a consagraado a Alacid e
o clima de campanha elei-
toral privia a ausencia de
Jarbas Passarinho ao
"bota-fora", observando,
com veneno e malicia, na
coluna Informe FN: "A
possivel que o ministry te-
nha considerado as faixas
deselegantes, tanto mais
quando pelo resto da cida-


JOA0UIM FONSECA & (IA.
--I -
h .V .. .a .. ..r. .
--- -" WM- -
-

VEMDDORES DAS AFMMADAS MAMAS
DE PIRARUCU "ROYA" E "PINAS" DE
TO OS OS BEOS DA RE6AO AMAZOKCA

/\

-t -- 'i


I W @I iMMR


de a t6nica foi a mesma.
Todas as saudaCdes foram
para Alacid e parece que
em apenas uma sefaria re-
fernncia, tambem, ao nome
do dr. Fernando Guilhon".
No seu discurso de despe-
dida, porem, Alacid ao
menos nao incorporou o
que viria a acontecer em
seguida. Como de praxe
entire criatura e criador,
que acabam por se desa-
vir, chamou Passarinho de
"estadista". Disse que ele,
em seu governor anterior,
de 19 meses, conseguiu
erguer "sobre os escom-
bros da gestao anterior
uma das mais sirias obras
administrativas de que hd
noticia na histdria paraen-
se". Foi o altimo grande
elogio ao ex-amigo e futu-
ro desafeto.
* O reporter Carlos Rocque
disse ter ouvido de "uma ve-
Ihinha", present ao cais do
porto: "Nunca vi coisa igual.
Nem em 1943, quando o
major Barata voltou ao Pardi.
Mas o major vinha para as-
sumir o govemo, e o tenen-
te-coronel estA deixando".
Os militares ainda eram po-
pulares. Por6mji nno tinham
mais unidade.


CCUC-----&b.Dh -__ I~l_


* Mesmo sem assumir de
fato o cargo, a espera do
SNI, o governador recebeu
no dia da posse dirigentes
da poderosa multinational
americana United States
Steel, na 6poca a maior si-
derirgica do mundo. Cor
muita discricdo, sem atra-
ir a atenCao da imprensa,
estiveram no gabinete go-
vernamental Carls G Rog-
berg, vice-presidente inter-
nacional, e John Pugsley,
vice-presidente executive
da USS, acompanhados
por Oren Hudson, presi-
dente, e Arthur Ruff, geren-
te da Companhia Meridio-
nal de Mineraaio, subsidi-
dria da Steel no Brasil.
Foram tratar do projeto
para a exploracgo da ja-
zida de mindrio de ferro da
Serra de Carajds, desco-
berta pela Meridional qua-
tro anos antes, no sul do
Pard. Nada foi dito sobre
a conversa, nem pelo ad-
vogado paraense Achilles
Lima, representante local
da mineradora.
* Poucas empresas publica-
ram andncios saudando o
novo governador. Dentre
elas, o Grupo Financeiro
-IW CONCLUI NA PAG 10


AGOSTO DE 2010 2 QUINZENA Jornal Pessoal 9


PROPAGANDA

O maior armador

Joaquim Fonseca se orgulhava de ser o mai-
or armador da navegado fluvial do mundo.
Em 1955, 20 anos antes do inicio da cons-
truVdo da hidreletrica de Tucurui, que o ha-
veria de enriquecer, aldm de colocar pelos
rios da Amaz6nia seus barcos, dois deles os
"luxuosos" navios-motores Rio Amazonas e
Rio Jurud, ele era o vendedor das "afama-
das marcas" de pirarucu Royal e Pingas "e
de todos os generos da regido amazbnica".
AlMm da sede, em Belim, tinha filiais no Ja-
cars, Cametd e Xingu. Por causa do peixe






x-- CONCLUSiO DAPI 7
Campina Grande e o Super-
mercado Carisma
* 0 novo vice-governador,
Newton Barreira, e o em-
presdrio Alberto Bendahan
patrocinaram um almofo
na granja Kakuri, de Rolf
Erichsen, as margens do
rio Guamd, para receber os
paraenses chegados para
a posse do novo governor.
0 carddpio incluia casqui-
nho de caranguejo, pato
no tucupi, tartaruga, fru-
tas regionais e sorvetes de
bacuri e apai.
* O arcebispo de Belem, dom
Alberto Ramos, rezou pelos
novos governantes na cate-
dral da S6, pedindo para eles
as b8enqos de Deus, "sem
nenhuma colorac~o political .
* Enquanto o mundo ofici-
al fazia festas, no dia 15
de margo, para a mudan-
Va de governor, numa epo-
ca em que esse process
era por via indireta, sem o
voto popular, o colunista
social Edwaldo Martins
estava de luto. Na madru-
gada morreu sua mde, Lu-
iza de Souza Martins, mais
conhecida por Lili, aos 66
anos. Uma mulher encan-
tadora. Teve oito irmaos,
11 filhos e 29 netos.
* Tamb6m morreu no mes-
mo diaAurl6ia C6sar Santos
Passarinho, uma das s6cias
da Farmicia C6sar Santos,
uma das maiores de Bel6m,
mae da outra s6cia, Zaira, e
sogra do ento deputado fe-
deral (e depois senador) Joao
Menezes.
* A temporada da pega
"Vereda da Salvagdo", de
Jorge Andrade, no Teatro


da Paz, terminou antes do
tempo. Uma das persona-
gens principals, Germana,
interpretada por Astria
Lucena, caiu no fosso e se
machucou tanto que ndo
p6de mais caminhar A que-
da foi no final da apresen-
taCdo, jd nos agradecimen-
tos dos atores aos aplau-
sos da platdia. Sem substi-
tuta, o director, Cldudio
Barradas, preferiu encer-
rara carreira. A encena-
ado era do Servigo de Te-
atro da Universidade Fe-
deral do Pard.
* Lindanor Celina lanqava,
em noite concorrida, seu livro
"Estradas do Tempo-Foi".
* Guaraci de Brito regis-
trava em sua coluna so-
cial: "De alto gabarito,
o novo gabinete do dire-
tor-gerente das Folhas,
jornalista Jodo Mara-
nhdo. 0 colunista tem a
elogiar o bom gosto na


FOTOGRAFIA

Ha meio s6culo

Na eleiado de 1960, ainda sem marketing e recursos mili-
ondrios, a campanha dos candidates era assim: um cami-
nhdo, um alto-falante, faixas, cartazes e muita disposicio
dos cabos eleitorais. 0 esquema registrado na foto servia
a "Coligado do Povo", tendo como candidates o mare-
chal Zacarias de Assuncdo (ainda Assumpcdo) e Arman-
do Carneiro. 0 senador Assuncdo, disputando o governor
pela segunda vez, seria derrotado por Aurdlio do Carmo,
do PSD. Armando viria a se eleger deputado federal.


decoragdo do ambiente".
Cinco anos depois o jor-
nal desapareceria.
* O Cine Palacio exibia o
Festival Tom & Jerry e 0
melhor do Gordo e o Magro.
No Olimpia, Eu, a Mulher n
2, "o espetAculo mais sexy
do ano".
* Os melhores programs
noturnos dos fins de semana
eram nas boates da Assem-
bl6ia Paraense, na avenida


President Vargas, Papa Jim-
mi e Xikilin. O colunista so-
cial Isaac Soares anotou no
Papa Jimmi as presencas de
alguns dos mais badalados
casais da 6poca: Ruy (Na-
zar6) Conduru, Liberato
(Ana Maria) Castro, Afonso
(Ilka) Chermont, Orlando
(Alba) Macedo, Elias (Ma-
rina) Psaros e SAlvio (Vera)
Miranda Correa. Quantos
ainda subsistem?


Visio do Pio


O potiguar Francisco Pio veio como marceneiro para
Bel6m no inicio dos anos 60 do sculo passado. Tres anos
depois de chegar comecou a montar o que viria a ser, 45
anos depois, uma das maiores lojas de departamento do
Para, uma das pioneiras do segment. A cada mes e meio
por suas lojas passa o equivalent a toda a populano da
capital paraense. A urma faganha para um empresfiio que
acabou por se tornar genuinamente local, abrindo 1.800
postos de trabalho. O client do grupo Vislo 6 field, apesar
de as vezes se queixar de pregos um tanto salgados, como
se fossem polvilhados do sal do Rio Grande do Norte.


Pio foi um dos primeiros a passar do talao de venda
para o cartao de cr6dito: 26 anos depois, tern 500 mil clien-
tes no cadastro, uma prova de que nao perde o que con-
quista e nAo para de conquistar. Sempre de olho no futu-
ro, naquele seujeito acanhado de nordestino, ele agora mira
o interior do Pard, que represent dois tergos do PIB esta-
dual. Ja esta em Castanhal e Tucuruf. Vai agora para Ma-
rabA e Parauapebas. Seu tino de empreendedor conquis-
tou a admiraqio dos que, sem perder o senso crftico, usado
no cotidiano para as queixas ao atendimento, t8m que re-
conhecer a obra desse potiguar belenense.


10 Jornal Pessoal AGOSTO DE 2010 2' QUINZENA


1







CABTA AO EDITOR


ETNOZONUAMUNTO
Como admiradora de seu tra-
balho e como professional que
sou me sinto na obrigagao de
responder, mesmo que nao
publicamente, as quest8es
que voc4 coloca na reportagem
intitulada "Em nome dos indi-
os, o mapeamento do vale do
Rio Trombetas" (04/07/2010),
pois sou antrop6loga, funcio-
niria piblica da Secretaria de
Meio Ambiente do ParS, nio
filiada e nem simpatizante de
partido politico algum e coor-
denadora do projeto piloto
"Conservacao da Biodiversida-
de em Terras Indigenas do
Para", projeto que executa em
conv6nio tecnico financeiro
corn a Associacgo Kaninde a
ago de "Etnozoneamento de
Terras Indigenas da Calha Nor-
te do Estado do Pard".
A despeito do titulo anunci-
ado por voc6 como quinhentis-
ta do subprojeto houve algum
equivoco de algu6m nao eu-
que nio colocou as aspas em
seu devido lugar no conteudo
do titulo. O titulo correto do
subprojeto 6 Trabalhos de "Et-
nozoneamento da pordo poaren-
se dos Terras Indigenas Trombe-
tas, Mapuera, Nhamundd Mapue-
ra e dreas ocupadas por povos in-
digenas no Floresta Estadual do
Trombetas". Tivemos obrigatori-
amente de pontuar as areas
que iriamos trabalhar e como
na Floresta Estadual do Trom-
betas (Flota- Trombetas) ha
vdrios indigenas de vArias et-
nias habitando-a tinhamos
que definir a Area de execualo
do projeto ainda em seu titulo
para nao gerar confuses.
Associagio Kaninde, uma
organizagao national do ter-
ceiro setor, sediada em Ron-
d6nia, possui varias premia-
q6es em metodologias parti-
cipativas inovadoras, inclusi-
ve a metodologia que possi-
bilita os trabalhos de etno-
zoneamento de terras indige-
nas, realize ja ha algum tem-
po aoies junto aos povos e
terras indigenas da Calha
Norte. Esta Associa;Fo junta-
mente cor a Funai, Associa-
cao dos Povos Indigenas do
Mapuera (Apim) e Equipe de
Conservacao da Amaz6nia re-
alizaram no ano passado um
trabalho de etnomapeamen-
to das Terras e Areas indige-
nas em questao. O Etnomape-
amento 4 uma das premissas
necessarias para realizag;o
do etnozoneamento.


A Sema realizou a celebra-
glo de um convenio de coope-
ra -o tecnica entire a Associa-
go de Defesa Etnoambiental
Kaninde e seus parceiros (FU-
NAI, APIM e ACT), depois de re-
alizar varias consultas aos po-
vos indigenas, varios semina-
rios e oficinas de trabalho em
Belem, mas especificamento
no audit6rio do Museu Paraen-
se Emilio Goeldi foramm todas
divulgadas) com atores organi-
zacionais diversos (governa-
mentais e nao governamen-
tais), onde existiu a formagio
de plendria publica e aberta a
todos para definir as parceri-
as que iriamos realizar para
execugao do subprojeto. Ainda
existiu a contrapartida dada
por esta associagio e seus
parceiros de montantes de re-
cursos no total de R$ 359 mil
reals, ainda com a vantage
de que os dados do trabalho
de etnomapeamento (trabalho
custoso) seriam cedidos para
viabilizar o etnozoneamento,
ou seja, a parceria montada
nio haverd de gastar mais tem-
po e recursos nos trabalhos de
Etnomapeamento.
A Sema desta forma repas-
sou um montante de 500 mil
reals, como contraparte para
realizagio do subprojeto e se
aliou a estas organizag6es por
saber de seus idoneidades e
suas capacidades profissio-
nais, pois j6 executaram corn
sucesso e premiagco o mesmo
trabalho em vdrias terras indi-
genas do pais. A equipe t6cni-
ca subcontratada e que execu-
tard os trabalhos vai ser recru-
tada no nosso Estado mesmo
e contard cor apoio da peque-
na equipe t4cnica do projeto
Conbio-indigena .
As equipe t4cnicas da Sema,
formadas por funciontrios do
quadro fixo deste 6rgio de go-
verno, acompanhario o traba-
lho e serio capacitadas na
metodologia para tentarem
replica-la brevemente em ou-
tras Terras indigenas do Pard.
Conforme piano de trabalho
apresentado pela Associagio
Kaninde e seus parceiros e dis-
cutido cor a Sema, o cronogra-
ma de realizagFo do subproje-
to 4 de um ano a contar da data
de assinatura do conv6nio,
cor a possibilidade de pedi-
do de prorrogaglo da data dos
produtos deste trabalho, no
entanto sem a possibilidade
de repasses de mais recursos
para finalizar os trabalhos.


Os repasses dos recursos vio
ser realizados em parcelas e
vio estar condicionados a
apresentacao e aprovagao dos
produtos do etnozoneamento
e prestacAo de contas. Depois
da execucao do projeto de et-
nozoneamento estaremos im-
plantando projetos de manejo
de recursos naturals das aldei-
as indigenas, a partir das indi-
cagaes dos estudos do diag-
n6stico etnoambiental que e
uma das etapas metodol6gi-
cas do etnozoneamento.
Infelizmente no Pard nao te-
mos a tradicgo de executar
trabalhos desta natureza jun-
to aos povos indigenas do Es-
tado. Nem mesmo o curso de
antropologia da universidade
nao forma profissionais para
atuarem aplicadamente jun-
to a povos indigenas e pelo
que podemos observer nas di-
versas oficinas, seminarios
que organizamos antes de
chegar a celebrag5o de um
conv6nio cor um organizagco
do terceiros setor de outro
estado, nao h6 organizacgo
native que trabalhe cor me-
todologias aplicadas e parti-
cipativas aqui no Pard.
A area total do subprojeto a
ser trabalhada 6 5.020.418 hec-
tares de terras indigenas que
jd estgo regulamentadas e
parte das areas indigenas da
Flota Trombetas que compre-
ende 3.172.978 de hectares, no
final sao mais de 4 milh6es
talvez sejam mesmo seis mi-
lh8es, no final do trabalho sa-
beremos ao certo. Nao sabe-
mos ao certo quantos hectares
da Flota Trombetas sio habi-
tados pelos indios Kaxuyana e
Tunayanas, no entanto o traba-
lho de etnozoneamento vai
auxiliar na mensuragio das
areas indigenas que hoje es-
tio sobrepostas a Flota. Eu in-
formo tamb6m que o process
de demarcag~o das Terras In-
digena dos Kaxuyanas ja estt
em finalizaglo, no entanto o
trabalho de etnomapemaneto
e etnozoneamento podem au-
xilia-los neste process, bem
como auxiliar na resolugio dos
conflitos que normalmente
ocorrem na regiio entire indi-
genas e quilombolas.
Para finalizar minha comu-
nicago 6 que felizmente os
6rgios publicos de governor
v4m sendo ocupados por pes-
soas que nao tem interesse
politico partidArio como meta
para execucio de seus traba-


Ihos e que por alguma razio
ainda acreditam que podem
fazer alguma coisa para modi-
ficar os quadros da realidade,
apesar de todas as adversida-
des. Tentaremos atraves de um
comite de acompanhamento
de monitoramente constant
deste projeto, fazer com que
ele realmente beneficie os
povos indigenas nos seus pro-
cessos de desenvolvimento.
Tamb4m temos series pro-
blemas cor o setor de comu-
nicago dos 6rgios de gover-
no que veiculam noticias que
nao sao condizentes cor os
trabalhos que executamos.
Alias sao raros os casos de
jornalista que dominam algum
tipo de temitica para repas-
sar as noticias para a popula-
qco em geral e fatos como este
de informag6es mal repassa-
das sempre deixam- nos vul-
nerAveis a critics.
Claudia Kahwage Coorde-
naogo Tdcnica Projeto CONBIO-
indigena Secretaria de
Estado de Meio Ambiente




Mem6ria
santarena

Bancas e livrarias de
Bel6mji dispoem de
exemplares do meu
livro, Mem6ria de
Santargm, editado pelo
journal O Estado do
Tapajj6s, de Miguel
Oliveira. Registros da
hist6ria de Santar6m e
do BaixoAmazonas
nos s6culos XIX e XX.


Jomal Pessoal

Editor: Lcio Flvio Pinto


Contato: Rua Aristides Lobo, 871 CEP: 66.053-020 Fones: (091) 3241-7626
E-mail: lfpjor@uol.com.br jornal@amazon.com.br Site: www.jomalpessoal.com.br
Diagramag9o e ilustrag6es: L. A. de Faria Pinto E-mail: luizpe54@hotmail.com


AGOSTO DE 2010 2' QUINZENA Jornal Pessoal 11







Para preservar

A universidade ou qualquer
outra instituiqgo precisa, com ur-
g8ncia, fazer um trabalho de relevfn-
cia para a cidade: identificar todas
as constru6es que tenham a inscri-
9o da data da sua construgdo. Ha
numerosos desses predios que ain-
da sobrevivem. Eles foram constru-
idos, sobretudo, nos primeiros 30
anos do s6culo passado. Muitos
t8m mais de um s6culo de existen-
cia. Diversos est~o ameagados. Ou-
tros ji se encontram em rufnas.
E precise fotografA-los, descre-
ve-los, incluf-los num mapa da ci-
dade e, com base nessa documen-
taq~o, lutar para que sobrevivam A
inclemrncia urbana. Costuma-se
esquecer que esse 6 um dos perio-
dos mais importantes da cidade,
do Estado e da region, quando da
exploraglo da borracha. Talvez se
consiga, com um esforqo sdrio e
intense, usando os estudantes de
arquitetura, evitar que esse capf-
tulo fundamental da nossa hist6-
ria seja expurgado.


A antiga sede do consulado geral dos Esta-
dos Unidos, na praga da Repiblica, pelo lado da
Osvaldo Cruz, esta se deteriorando. Esta fecha-
da ha anos, desde que a representacgo america-
na, reduzida, se acomodou num conjunto de sa-
las em um dos pr6dios de Bel6m. E um pedago
autentico dos EUA em terras parauaras. Ainda
que seu valor arquitet6nico seja sujeito a ques-
tionamentos, o bangal8 faz parte da hist6ria da
cidade. Ndo se deve repetir o erro crasso que
resultou da demolig o do pr6dio ingles da Boo-
th Line, na avenida Presidente Vargas, substitu-
ido por uma edificaqo de marca inidentificAvel.
Fago uma sugestdo a quem de direito para
evitar um fim ingl6rio para o pr6dio. O governor
americano o cederia por comodato de 20 anos
ao Estado ou a prefeitura. No local seria instala-
do um centro da mem6ria americana na Amaz6-
nia, com 8nfase no Para. Seria formado um acer-
vo documental sobre epis6dios como o projeto
da transferencia de negros da Am6rica para a
Amaz6nia, no s6culo XIX (e do trifico negreiro
em geral); os projetos Ford e Jari; a aglo dos
missionirios religiosos; a viagem de Roosevelt
a RondOnia e por ai afora.
Do acervo constariam livros, documents,
mapas, cartas, material iconogrAfico e tudo que


dissesse respeito aos americanos na regilo, in-
cluindo produtos recentes, como CDs, imagens
de sat6lite, microfilmes, etc. Essa documentagio
seria franqueada A consult ptblica. Exposiqces
temiticas seriam organizadas ao long do tem-
po. O governor americano se comprometeria a
fornecer os documents que Ihe fossem solici-
tados e os que julgasse dtil ao centro. Tamb6m
ofereceria bolsas para pesquisadores de temas
americanos na Amaz6nia se deslocarem aos Es-
tados Unidos para completar suas buscas de
fontes. Com o compromisso de todos eles de
depositar c6pia de seus trabalhos no centro.
NAo seria uma instituicAo de propaganda ou
de critics. Seria rigorosamente um ndcleo de
documentago de quest6es relevantes para a his-
t6ria regional, a servigo de todos que se interes-
sem por essas questoes. Inevitavelmente, viria
a estimular essa linha de pesquisas, cor isso
dando contribui lo positive para o melhor co-
nhecimento da hist6ria amaz6nica.
Se, ao fim de 20 anos, as metas assumidas
pelo governor estadual (ou pela prefeitura) tives-
sem sido cumpridas, o governor americano trans-
formaria o comodato em doag~o, cor o compro-
misso da parte local de manter o pr6dio em seu
tragado original.


Patrim6nio salvo

Ainda bem que o solar onde moraram as professors Paula
e Maria Anunciada Chaves foi salvo. A Secretaria de Cultura
do Estado concluiu o process de tombamento da resid8ncia,
na esquina da Rui Barbosa com a Boaventura da Silva. Infeliz-
mente nio houve mais tempo para preservar o quintal, que
podia ter-se tornado um parque ptblico. As Arvores foram
derrubadas e um novo pr6dio levantado no terreno jA esta em
fase de acabamento. Os livros e documents das mestras tam-
b6m foram tombados e ficardo no solar, sob os cuidados da
Defensoria Pdblica da Unido, que se instalou no pr6dio atra-
v6s de aluguel, depois que um novo dono o adquiriu. Quando
o 6rgio se passar para o pr6dio modern, a extensa casa, re-
presentativa da arquitetura de 6poca, poderA se tornar um centro
de consult para o pdblico.


Nossas vilas

Uma sugestio aos legisladores: que providenciam a regulamentagao
das vilas e passagens da cidade. Bel6m 6 rica nessas vias. Especialmen-
te as vilas constituem uma das marcas urbanas. Para que sobrevivam A
especulaq~o imobiliiria, A desinformag5o, insensibilidade ou incdria so-
cial, 6 precise dar-lhes regras especificas. Como s6 admitir nelas ativida-
de econ8mica de microempresas.
Nio se deve permitir o absurdo de que foi vitima a vila Leopoldina,
atropelada pelos funds por um supermercado, que ocupou varios lotes
e desfigurou um dos seus extremes. Deve-se estabelecer que o remem-
bramento s6 pode ser feito incorporando mais um lote contiguo. Que as
novas edificag6es nio possam ter mais do que 12 metros de altura, em
qualquer circunstincia. E que as alteraq6es dos espagos de uso comum
s6 possam ser efetuadas depois da aprovag~o da maioria dos morado-
res, consultados em assembl6ia geral.


Questao de sol

0 enlouquecido computador se imiscuiu na matiria sobre o Paulo Faria e trocou o titulo do espetdculo que ele exibiu em Beldm,
tema da ediado passada deste journal. Trata-se de Meio Dia do Fim e ndo de Sol do Fim do Dia, como saiu, talvez querendo relembrar
o conjunto musical Sol do Meio Dia, do qual o ilustrador deste JP, Luiz de Faria, era baixista. Em represdlia, reproduzo o texto de
apresentaado da peFa do Paulo, que escrevi para o folder do espetdculo.


por feliz coincidencia, Pau-
A lo Faria revolve as entra-
nhas do Brasil exatamente no
ano do centendrio da morte de
Euclides da Cunha, que colo-
cou o Brasil litoraneo de cara
com o sertdo. O military, enge-
nheiro ejornalista foi para Ca-
nudos cor os olhos arejados
da contemporaneidade e vol-
tou dos confins da Bahia com
a sensibilidade a flor da pele e
a indignag o a explodir pelos


poros. Daf resultou um dos
grandes moments dpicos da
literature em todos os tempos,
em qualquer lugar. Depois, o jA
consagrado escritor fez sua
jornada as entranhas da flores-
ta amazOnica, A maneira de
Conrad nas veias vegetais asi-
Aticas, rumo a insanidade. Vol-
tou ainda mais enriquecido,
mas tambdm exaurido.
Do conflito febril que se
aprofundou em sua alma resul-


tou seu fim tr6gico, no paroxis-
mo da sua dilaceraqAo entire
ser republican e military, poeta
e engenheiro, her6i e marido.
Euclides entronizou o Brasil,
que tem uma matriz de cobiqa e
viol8ncia impressa na terra, a
fonte dbere de vida, mas o sitio
da destruigqo. Paulo Faria revol-
veu esse terreno ancestral no
tempo de hoje, num drama for-
te, cheio de sugest6es, primiti-
vo e Aspero, mas vital. Uma


maneira de retomar a saga que
eternizou e imolou o grande
Euclides, como os personagens
justapostos neste meio-dia do
fim, incompletos, fantasmas A
espera da sepultura, esboqos
de existencias irrealizadas. Um
fim um tanto surrealista e ne-
gro, mas o mago Guimaries
Rosa nao advertiu a Deus para
se armar antes de entrar no Ser-
tio? Pois 6: experiment voc8
tambrm essa (a)ventura.


Cuidar da hist6ria