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AGOSTO DE 2010 AJomNal Pessoal A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO ETLCAO Acordo promiscuo A governadora e o prefeito de Belemfizeram uma transacdo em particular para defender a verdade e o interesse coletivo, oufoi mais uma iniciativa eleitoral, visando seus interesses politicos? Fo que estd por trds da devolugdo de ICMS a prefeitura de Belim. Vaifeder? Em 2000 e em 2002 a prefeitura de Bel6m recorreu A justiga contra a fixagdo, pelo governor do Estado, do novo coeficiente de par- ticipaq5o da capital na divisdo do ICMS, a principal fonte de receita do poder ptblico. Por causa da reduqgo da aliquota, o municipio perdeu 334 milh6es de reais, em valor atualizado at6 2006. A media teria inspiraqao political: foi tomada pela administraqgo do PSDB, A frente da qual estava o governadorAlmir Gabriel, contra a pre- feitura do PT, chefiada por Edmflson Rodrigues, sem fundamento legal. No dia 29 de junho a governadora Ana Jdlia Carepa, do mesmo PT (do qual Edmilson se desligou, concorrendo agora A Assembl6ia Legislativa pelo PSOL), reconheceu como inconstituci- onal e illegal o ato e decidiu compensar a prefeitura pelo prejuizo, pagando-lhe nao o valor integral da perda, mas R$ 162 milh6es, em parcelas que terdo ven- cimento final em 2019. De imediato o Estado transferiu R$ 8 milh6es, segui- dos de mais R$ 12 milh6es (em condi- 9~es ainda nao definidas), e R$ 4 mi- lh6es em 30 de novembro. 0 saldo, de R$ 150 milh6es sera quitado em pres- taq6es que variardo de R$ 500 mil a R$ 3,4 milh6es por m8s. 0 acerto entire o Estado e o muni- cfpio nao foi realizado de pdblico, corn a presenga de testemunhas em ndme- ro proporcional ao significado da inici- ativa e nao passou pelo poder legislati- vo nem por outra instincia competen- te para deliberar, apreciar ou fiscalizar a materia. Nem assumiu a forma es- perada de legalizaqgo: atrav6s de um projeto de lei encaminhado A Assem- bl6ia Legislativa. Ana Jdlia e Ducio- mar acertaram suas contas diretamen- te, atrav6s de uma prosaica "transa- CbiimUA 'iiA PAii T LIBERA QUERIS V* 12 N'7 470 ANO XXIII R$ 3,00 I 0 ACM VAI AO MUNDO PAGS.6/7 0 ) --i ^ gqo extra-judicial", lavrada em um car- t6rio de notas, o K6s Miranda, sem sequer a publicidade devida. Como coisa secret a ser mantida em sigilo e nao um entendimento havido entire os dois poderes para tender ao interesse coletivo, reparando uma vilania. Sem essas caracteristicas, o papel subscrito pelas duas autoridades ficou marcado pelo mesmo objetivo politico que lhe deu serviu de inspiraqco. Atra- v6s da generosa compensacqo, a gover- nadora do PT pretendeu sacramentar de vez sua alianqa eleitoral com o pre- feito do PTB. 0 acordo que celebra- ram vinha se mostrando frAgil. Nao s6 por infidelidade nao explicita dos par- ceiros, mas pela iniciativa do prefeito de, contra suposta decisdo da conven- qao coligada, lanqar candidate avulso ao Senado, quando deveria apoiar um dni- co candidate, o deputado federal Paulo Rocha, do PT. Al6m de lanqar a candi- datura do empresirio Fernando Yama- da, Duciomar mandou questioner a li- sura da ata que registrou a deliberaqco pela candidatura dnica. Ela teria sido falsificada. A transagqo extra-judicial daria ao alcaide da capital um instrument pelo qual tem grande fascinio: dinheiro vivo. Pois embora o acordo preveja o parce- lamento da compensacqo pela perda tri- butAria reconhecida, sua clAusula sexta autoriza a prefeitura, sem precisar ouvir o Estado, que se auto-limita na questdo, a ceder o cr6dito reconhecido pelo mes- mo Estado, "total ou parcialmente". D entire os poderes de correntes dessa prer- rogativa estA o de ob- ter emprestimos ou fazer qualquer outra operagAo financeira, oferecendo o credito, partial ou inte- gral, como garantia ou aval. Ao inv6s de receber apenas as parcelas, Duciomar poderd transformar os R$ 162 milh6es em mais dinheiro, sacando contra o tesouro estadual. Se- ria um "cheque em branco", conforme a expressao usada pelo Didrio do Pard, numa cobertura escancarada e quase didria, em contrast com o sil6n- cio a respeito de 0 Liberal, que agora ap6ia os dois politicos. 0 dispositivo 6 tdo gritantemente extravagant, para dizer o minimo, que logo atraiu o interesse do advogado Is- mael Moraes. 0 conselheiro da OAB do Para sacou mais uma de suas costu- meiras aqces de impact, questionando a legalidade da transaqao e requerendo ao juiz da 2a vara civel de Bel6m a sus- pensdo imediata dos seus efeitos at6 a deliberaqdo de mdrito. Antes que, cum- prindo outro dispositivo do acordo, o Estado pedisse a extingqo do process corn a resoluqdo de m6rito. Tamb6m requereu o indiciamento criminal das duas autoridades e a inelegibilidade da governadora. Tudo indica que este sera mais um escandalo da administraqdo do PT em plena campanha eleitoral. 0 que surpre- ende 6 a audicia ou mesmo insensa- tez do governor ao agir de tal maneira. Al6m de atropelar as normas legais e os procedimentos administrativos cabiveis, os rendimentos politicos dessa iniciativa sdo, no minimo, incertos e nao sabidos. Ana Jdlia Carepa e Duciomar Costa es- tdo entire os governantes corn maior in- dice de rejeigqo da hist6ria republican do Para. A mi fama do alcaide 6 ainda maior, mais de 10 pontos percentuais acima da governadora. Alegam os petistas que a coligaqao com o PTB de Duciomar render mais tempo na propaganda eleitoral gratuita e mais densidade political. Mas, ao me- nos em Bel6m, terA um efeito desastro- so sobre o que ainda resta de adesao ao nome desgastado da govemadora. E provocard cismas internos no PT pela inc6moda companhia daquele que, no plano municipal, 6 o maior inimigo do partido. Um observador desapaixonado dificilmente encontrari saldo nessa re- lago. Pelo contrArio: o prejuizo, quejA era grande, poderd ficar ainda maior. Na sucessao desses escandalos, o elei- tor indeciso pode cortar o nome de Ana J6lia das suas cogitaqres, por um raci- ocinio fundamental no process eleito- ral: nao perder o voto. b)1 1~~LY I- III I -r IP ls-yaS--.I- rl Os candidates Al6m de se apresentar para a reeleiqio para deputado estadual pelo PP, apesar do process a que responded por pedofilia, o m6dico Luiz Afonso Sefer lanqou pelo PR o filho, Rafael. Com 21 / anos, ele 6 o mais ' jovem de todos os candidates A Assembl6ia Legislative. A demonstrar que nem sempre juventude 6 sinonimo de mudanqa. Neste caso, muitissimo pelo contrdrio. E alta a taxa de renovagao dentre os candidates a uma cadeira na Assembl6ia Legislativa do Pard na eleigao deste ano: dos 588 postu- lantes, apenas 64 (pouco mais de 10%) ja exercem um mandate po- litico. Dos 41 atuais deputados, 26 tentam a reeleiqao. Mesmo que todos sejam vitoriosos, o que 6 improvivel, a renovaqio sera de qua- se 40%. Na prdtica, o indice deveri ser bem maior. Ja 38 vereadores buscam subir de patamar na carreira, sem arriscar muito: se perde- rem, continuardo a exercer o mandate que ji possuem. Nao se pode dizer que falta nfvel aos parlamentares por car8ncia de estudo. 0 maior contingent deles tem o curso superior complete. Foi com essa titulaqgo que 264 (ou 40%) se apresentaram para o registro. Apenas 21 nao completaram o ensino fundamental. Como a educaqao no Estado 6 uma das piores do pafs... A condiqao de parte do Para como significativo destino migrat6rio tamb6m se traduz na political: 20% dos candidates (ou 122) sao pro- venientes de 18 Estados. Outro reflexo estA no fato de que 93 candi- datos (quase 15%) tem domicilio eleitoral na regiao de Carajis, onde a participagqo dos nascidos no Pard 6 a menor. Se soma-los aos 43 da regiao do Tapaj6s, sao 136 (mais de 20%) em tese favoriveis a redivisao do Estado. 2 Journal Pessoal AGOSTO DE 2010 QUINZENA Familiar 0 Partidao no Para: 70 anos sem a massa Em 70 anos de exist8ncia no Para, iniciada em 1931, dos quase 90 anos que acumula no Brasil, o Partido Comunis- ta Brasileiro s6 elegeu um parlamentar pela pr6pria legend. Foi o deputado es- tadual Henrique Santiago, um motomeiro dos bondes da firma inglesa Pard Ele- tric, que depois se tomaria sapateiro para sobreviver, ao ser demitido em funqAo de sua atividade polftica. 0 PCB conseguiu eleger mais al- guns parlamentares por outras siglas e ainda contou com simpatizantes bemrn postados no poder local. A maior faqa- nha do velho "partidao" poderia ter sido realizada atrav6s de Almir Jos6 de Oli- veira Gabriel, hoje com 78 anos, sem mandato e sem partido, que foi secreti- rio de sadde, prefeito birnico de Bel6m, senador, candidate a vice-presidente da rep(blica (na chapa do paulista Mario Covas, ji falecido) e, por suas vezes, govemador do Pard. Nenhum comunista paraense ostenta currfculo igual, sequer parecido, conforme se verifica em Ca- banos & Camaradas, livro de Alfredo Oliveira, lanqado no ano passado, em edigqo do autor. Apesar de suas 680 piginas, o livro nao di ao epis6dio a relevancia que ele tem como moment decisive nos rumos que o PCB seguiria. Merecia maior detalhamento, ainda mais porque o au- tor j~ escreveu uma paquid6rmica bio- grafia do ex-governador (que, surpre- endentemente, nao cita na bibliografia do mais recent dos seus livros, embo- ra trate do tema). A trajet6ria do ex-governador exem- plifica A perfeigqo a carreira de alguns dos principals expoentes do c6lebre "partidao". Almir era militant e inte- grava a base de m6dicos. Foi recrutado em 1963 pelo pr6prio Alfredo Oliveira, em grupamento integrado por quatro futures secretArios estaduais de satide: Wilson da Silveira, Emani Mota, Nilo Almeida e o pr6prio Almir. Continuava militant em 1974, quan- do dirigia o entdo Sanat6rio (depois Hospital) Barros Barreto ("uma vez que a sua presenqa era fundamental para a continuidade da cirurgia toricica", por ele introduzida em Bel6m, depois de curso que fez no Rio de Janeiro) e ao assumir a Secretaria de Sadde do Esta- do, no segundo governor do coronel Ala- cid Nunes. Os militares sabiam dessa filiaq~o, mas, segundo Alfredo Oliveira, nao o destitufram do cargo por causa da sua competencia. JA o partido, em- bora surpreendido pelo convite, nao fez objegqo por se tratar de fun~go t6cnica "e sem compromisso politico com o par- tido do governor . Mas a trilha do future governador nao foi retilinea. Ele dava sua contribui- ~ao financeira mensal para os cofres do PCB, mas, ao ser convidado pelo advogado Carlos Sampaio para "ajudar a dirigir o Partido", em 1965, "nem mes- mo pensou na proposta, pois nao pode- ria aceitA-la diante do compromisso in- transferivel com a cirurgia toricica", justifica o parent. Al6m disso, iria pas- sar os dois anos seguintes em Sao Pau- lo, se qualificando em cirurgia cirdio- vascular. "Durante a permanrncia em Sao Paulo perdeu o contato com o Par- tido, absorvido pelo novo aprendizado cirirgico", diz Oliveira. Em 1979, depois de ter sido director da Divisdo Nacional de Tuberculose, durante o governor do general Ernesto Geisel, ao voltar ao Pari, em plena 6po- ca da anistia, para assumir a secretaria de sadde, "retomou os contatos corn o Partido, atrav6s de Raimundo Jinkings e Ruy Barata". Mas quando deixou a pre- feitura de Bel6m, em 1985, para se tor- nar senador, patrocinado por Jader Bar- balho, filiou-se ao PMDB, "optando por encerrar sua ligagqo com o PCB, que reconquistara a legalidade ap6s tantos anos de vida clandestine", relata Alfre- do. Sem assinalar o aparente paradoxo, que s6 se explicaria pelo projeto de po- der de Almir Gabriel: o PMDB de Jader lhe daria o que o PCB nao podia lhe pro- porcionar. E ele queria muito mais. Apesar disso, os comunistas decidi- ram apoiar a candidatura do ex-filiado ao Senado, embora seus votos tamb6m ajudassem a eleger Jarbas Passarinho, igualmente apoiado por Jader para a outra vaga que estava em dispute em 1986 para a chamada Camara Alta. "Resultado: ambos foram eleitos", ad- mite Alfredo, sem deixar de reconhe- cer que se tratou de mais um paradoxo nas estrat6gias de alianga do "partidao". Quando nomeado pelo governador Jader Barbalho prefeito de Bel6m, em 1983, substituindo Sahid Xerfan, Almir recorreu a correligionarios do PCB. 0 mais atuante foi o soci6logo Mariano Klautau de Aradjo, que criou e p6s para funcionar diversas comunidades de bair- ro, transformadas a seguir em ndcleos politicos por sua importancia na perife- ria da capital. Ainda aproveitou outros comunistas em seu primeiro governor, mas em posiq6es secundarias. Os per- sonagens principals passaram a ser ou- tras figures, como Paulo Chaves Fer- nandes, Simdo Jatene e S6rgio Ledo. Se ainda era um simpatizante do PCB, a prAtica de Almir jA nao guardava qual- quer conexdo corn a filosofia do comu- nismo, exceto pelo centralismo democri- tico dos leninistas, sempre muito mais cen- tral do que democrdtico. Como govema- dor, passou a ser (ou tentou ser) mais um coronel da political paraense. Foi se desli- gando cada vez mais de qualquer progra- ma para se ater As pessoas, procurando aquelas que serviam aos seus interesses e desligando-se das que nao serviam mais ou que se apresentaram na contramdo do seu caminho para o poder. 0 procedimento de Almir Gabriel se assemelha ao de muitos outros comunis- tas, que deram prioridade A qualificaqio professional (a partir desse moment a maioria se desfiliou, sem renegar, contu- do, a crenca original, embora atuando em atividades ou de uma forma pouco coe- rente com o passado). Raros acharam possivel conciliar a atividade profissio- nal (que a alguns enriqueceu) corn a ide- ologia e a atuagao political. A influ8ncia do PCB, ap6s tantos anos de presenqa, foi pequena e o ba- lanqo da sua participaqgo, modesto, ape- sar da quantidade de piginas que Al- fredo Oliveira dedicou A sua hist6ria (re- petindo demais informaqoes e dando atenqao a fatos absolutamente secun- dArios, acaba desestimulando a leitura do seu important volume). 0 PCB nao se transformou em partido de massa. Seu mais intense trabalho foi junto a intelectuais e membros do governor. Nao por outro motivo, no plano national, Luiz Carlos Prestes declarou que o partidao estava no governor corn Jodo Goulart, s6 faltava chegar ao poder, numa arenga irreal e soberba, que causou problems superlativamente artificiais A esquerda no moment da repressed pelo regime mili- tar de 1964, como de regra, alias, na bio- grafia do desastrado "cavaleiro da espe- ranqa". 0 PCB criou uma ilusdo de for- CONCLUI NA PAG 4 AGOSTO DE 2010 1 QUINZENA Jornal Pessoal 3 CONCLUSAO DA PA 8 ga e de representatividade, e acreditou que ela era verdadeira. A cada momen- to de testa-la, defrontou-se corn a reali- dade, frustrou-se e encolheu. Nao que Ihe tenham faltado gl6rias e acertos. Os comunistas tiveram inva- riavelmente que enfrentar o preconcei- to, a mA vontade ou o 6dio dos adversA- rios, at6 mesmo dos que nio se Ihe opu- nham abertamente, mas foram incapa- zes de consolidar uma democracia au- tentica no Brasil, que resistisse aos de- safios sem sair atrds da espada guar- dada nos quart6is ou das manobras mi- seravelmente juridicas. A ilegalidade a que os comunistas foram reduzidos na maior parte da sua hist6ria 6 causa tan- to da sua pouca expressio na vida poli- tica national como do seu encanto, o fascfnio que exerceram sobre milh6es de brasileiros ao long do tempo. O golpe vital foi desferido contra o PCB em 1947, menos de dois anos de- pois da sua legalizaqo, no auge da guer- ra fria, pelo governor Dutra (contestavel da ditadura do Estado Novo, foi o pri- meiro president da redemocratizag~o, antecipando anomalia que seria vivida, 40 anos depois, por Jos6 Sarney, ao fim da ditadura military corn a participagio decisive dos bachardis da UDN, civis em eternas manobras golpistas ("vivandei- ras dos quart6is", como se dizia). O PCB podia ter iniciado nessa 6po- ca caminhada no rumo da sua democra- tizagao internal e da oxigenaqao polftica national, a semelhanga do que ocorreria com seu congenere italiano no p6s-guer- ra. Tinha uma bancada federal expressi- va (com um senador, Prestes, e 14 de- putados federais) e conseguira faganhas localizadas, como a de eleger 18 dos 50 vereadores da Camara do Distrito Fe- deral, que ainda era o Rio de Janeiro. Apesar do registro que o TSE lhe conferiu e da diplomacqo que concede aos seus eleitos, o PCB foi declarado illegal atravds de uma lei com efeito re- troativo, bem semelhante na mecanica (embora completamente distinta nos prop6sitos) da lei da ficha limpa atual. Os maquiav61licos de algibeira deviam meditar a respeito. Quando se abre ex- ceg9o para o uso de meios ilegais, em proveito de fins legftimos, nao se estA violando a ordem democritica e conti- nuando a encher de boas inteng5es o caminho do inferno? Alfredo Oliveira nao aprofunda nes- se sentido o epis6dio, mas seu livro, atW Ajuiza Kddima Pacifico Lyra sus- pendeu no dia 8, "at6 ulterior delibe- rag o", o leilo de im6veis urbanos em Bel6m de proprietarios que no paga- ram o IPTU nem propuseram qualquer forma de acordo corn o municipio. A prefeitura props a penhora judicial de 900 im6veis, iniciativa adotada pela primeira vez na hist6ria do Imposto Predial e Territorial Urbano da capi- tal paraense. Para suspender as pragas, a jufza da 4' vara cfvel argumentou que est6 acu- mulando a I' vara eleitoral e a direcqo do f6rum da justiqa eleitoral. Alegou tamb6m que a mudanqa do sistema de informAtica do TJE criou muitos proble- mas de ajuste e adaptagao, que tumul- tuaram o andamento dos processes, sobrecarregando a vara da fazenda pid- blica. E pouco provivel que os leil6es sejam retomados ainda este ano. 0 ajuizamento das execuq6es fis- cais teve um efeito tamb6m in6dito: os contribuintes inadimplentes passaram a procurar a prefeitura para quitar seus d6bitos ou fazer composig6es do pas- sivo. Corn isso, nao s6 se preveniram contra leil6es futuras, mas consegui- ram retirar da praca seus im6veis, que ji estavam em fase de execugqo, sem recurso possfvel. Essa iniciativa jamais ocorreu, mes- mo quando a prefeitura oferecia vanta- gens, concedia abatimentos ou prorro- gava prazos. Bel6m 6 um dos municipi- os com mais alto fndice de inadimplen- cia do pais. Neste ano a Secretaria de Finangas emitiu 193.787 carnms para pagamento do imposto, mas apenas 49,92% dos contribuintes fizeram o pa- gamento, 54 mil em cota tnica e 43 onde um militant pode ser imparcial, aborda as quest6es que seria preciso suscitar numa hist6ria do Partido Co- munista Brasileiro no Para, 0 livro con- quistaria maior pdblico se tivesse meta- de das pdginas, que podiam ser supri- midas sem prejudicar o conteddo. Ain- da assim, merece ser lido: passa a ser fonte de refer8ncia indispensivel sobre a hist6ria republican do Estado. Ainda que se chegue a uma conclusdo dife- rente ou oposta A do autor. mil em pagamento parcelado. Os inadimplentes representam 51,8% do total. Nos exercicios anteriores a inadimplencia foi ainda maior. Boa parte dos devedores pertence A classes m6dia alta. 0 maior leildo indivi- dual apregoado pela 4V vara 6 de im6vel da ETN (Estaleiro T6cnico Naval), no valor de 10 milh6es de reais. A ETN tern ainda outra execuqao, de R$ 700 mil. Jd o d6bito de IPTU cobrado da Churrascaria Pavan 6 de R$ 5 milh6es. Muitos dos im6veis, localizados em bair- ros nobres, como Nazar6 e Batista Cam- pos, variam entire 500 mil e pouco mais de um milhdo de reais. Um dos leil6es 6 da antiga sede de 0 Liberal na rua Gas- par Viana, no centro velho da cidade. A praqa foi apregoada em nome de Ro- mulo Maiorana, jd falecido, no valor de R$ 500 mil. No passado, por erro de citaqao, a prefeitura perdeu uma agqo proposta contra o fundador das ORM. A sociedade aguarda que os leil6es judiciais sejam retomados o mais breve possivel e que os processes tenham sido formulados corretamente para evitar os erros do passado. Talvez assim o IPTU venha a ser moralizado e os futures gestores da cidade, com recursos tribu- tarios compativeis corn o tamanho de Bel6m (que tem a menor relaqo im- posto per capital dentre todas as regimes metropolitanas do pais), se conscienti- zem de que esse 6 dinheiro pdblico. Tern que ser aplicado em beneficio de todos para acabar com esse ciclo vicioso que empobrece a cidade de todas as manei- ras: a maioria (que 6 em boa parte mi- noria, da elite) nao paga imposto por- que o dinheiro 6 desviado para outros fins. E outros bolsos. O capitulo paraense do PCB se encerrou em dezembro de 2004, com sua desativagqo no Estado. "A partir dai, sem present, resta apenas o pas- sado, por conta da Hist6ria", lamen- taAlfredo Oliveira. Uma hist6ria rica, mas incapaz de sustentar um parale- lismo entire os cabanos, que transfor- maram o seu tempo, e os comunis- tas, que seguiram o rio da hist6ria, mesmo quando tentaram nadar con- tra a corrente. 4 Journal Pessoal AGOSTO DE 2010 1 OQUINZENA 0 imposto da cidade e o seu beneficio __ __ Basa perde exclusividade Na semana passada o Banco da Amaz6nia deixou de ser o agent financeiro exclusive do FDA (Fundo de Desenvolvimento da Amazonia), administrado pela Sudam: agora vai dividir a banca com a Caixa Econ6mica Federal. Em tese, a inovagdo 6 positive: o monop61lio sempre acaba por prejudicar os clients e leva o agent a negligenciar seus servigos. Os donos dos projetos aprovados foram logo favorecidos: al6m do comprometimento de 60% de recursos do fundo no empreendimento, a Caixa adicionard 20% de dinheiro seu. O investidor privado s6 precisara aplicar 20% de capital de risco, metade do que era requerido antes. Outro efeito serA a definitive concentraqio do FDA em obras de geraqdo de energia na regido. Todos os 13 projetos aprovados desde 2006 (em sete dos noves Estados amazOnicos, excetuados Acre e Amapi) sdo hidrel6tricos ou termel6tricos. Logo depois da assinatura do contrato corn o Basa, em Brasilia, no dia 11, a president da Caixa, Maria Fernanda Coelho, disse que sua instituiqao estA interessada nesse setor, especificamente nas hidrelitricas de Jirau e Santo Ant6nio, no rio Madeira, em Rond6nia. Significa que o governor federal utilizarA mais esse canal para transferir recursos pdblicos para essas obras, o que tamb6m deverai ocorrer em relagqo a Belo Monte e a linha de transmissao de Tucuruf at6 Manaus. Tanto para viabiliza-las como para acelerar a execuqao do cronograma, impondo aos critics recalcitrantes fatos consumados. O orqamento do FDA neste ano 6 de R$1,6 bilhdo. A foto do ex-mecAnico Marlon Lo- pes Pidde circulou pelo mundo todo no inicio da d6cada de 80 do s6culo passa- do. Ele foi o garimpeiro de mais sorte em Serra Pelada, o maior garimpo de todos os tempos, no sul do Para. Uns dizem que na sua cavaa" extraiu quatro toneladas de ouro. Outros garantem que foi o dobro. De qualquer maneira, Mar- ion "bamburrou" como ningu6m. Ficou milionario. Comprou terras em Maraba e virou fazendeiro. Um dia lhe disseram que cinco ho- mens tinham invadido sua fazenda, a Princesa. Marion reuniu tres pistoleiros, o irmao e mais duas pessoas, montou uma cilada para os agricultores, dizen- do-lhes que uma jufza estava na sede da propriedade para fazerem acordo, prendeu todos, torturou-os, queimou-os, amarrou uns aos outros e a pedras pe- sadas, e os atirou no rio Parauapebas. Era para dar sumiqo nos corpos. Mas eles boiaram, a matanqa foi descoberta e Marion, com ordem de prisdo decre- tada um mes depois do crime, em outu- bro de 1985, permaneceu como foragi- do da justiga durante 21 anos, apesar do escandalo que a chacina provocou in- ternacionalmente. De garimpeiro sortu- do ele virara criminoso cruel. A Policia Federal final- mente o prendeu em AL 2006, em Sao Paulo, onde ele tinha uma farmna- eia. Desde entAo sous advo- gados tem tentado, sem su- eesso, solt6-lo das grades, presentemente na penitencifria de Ame- ricano, na area metropolitan de Bel6m. Ajustiga tern rejeitado todos os pedidos de habeas corpus que foram formula- dos em favor do assassino. Mas se ele 6 r6u na area criminal, 6 autor no foro cfvel. Foi beneficiado por uma decisdo da juiza Maria Aldecy de Souza Pissolati, titular da vara da Fa- zenda Piblica de Marabi. Ela conde- nou o Hospital Celina Gongalves a pa- gar a Marion Lopes Pidde quase 3,5 milhoes de reais como indenizacqo por sua participagao na sociedade contro- ladora do hospital, por perdas e danos, e dividends ou lucros adquiridos. Corn os honordrios, arbitrados pelo maximo, em 20% mais as custas processuais, o valor final deve ficar em R$ 4 milh6es. Marion Pidde props em 2005 a acao de cobranqa cumulada com perdas e danos contra o Hospital Celina Gonqal- ves S/A e o Estado, na condigqo de litis- cons6rcio passive, ao se declarar infor- mado de que o hospital fora objeto de desapropriaqco por utilidade pdblica. Ale- gou que desde 1983 era s6cio fundador da empresa. Teria direito a 5,88% do va- lor da desapropriaqco, de R$ 13.708.387,54, pagos pelo governor do Estado, na administraqio do tucano Si- mdo Jatene, dinheiro que nao recebeu. Dem6trius Ribeiro, controlador da sociedade, contou outra hist6ria. Disse que realmente as aq6es foram ofereci- das a Pidde e a venda chegou a ser for- malizada. Nao foi consumada, por6m, porque o comprador nao pagou pela par- ticipaq~o. Garantiu que o ex-garimpei- ro ainda tentou registrar o contrato, mas nao conseguiu por nao ter um recibo do pagamento pelas aq6es. Examinando a perfcia feita nas con- tas da D. N. Parti- cipaq6es, de De- m6trio, principal beneficidria pela transfer8ncia do dinheiro pago pelo Estado, a jufza Aldecy Pissolatti ates- tou que o patrimrnio da sociedade a dis- sipou sem a necessdria prestacgo de contas. Embora a empresa desapropri- ada continue a existir, seu patrimrnio "hoje 6 quase zero". S6 corn a Receita Federal, a instituigio teria um d6bito de R$ 5,7 milhoes. Nao s6 a situaqao societAria 6 du- vidosa e controversy. Tamb6m a de- sapropriaqao. Era evidence que o hos- pital estava praticamente paralisado, sem estrutura para prestar servigos de sadde. Numa tinica coisa ele estava ativo: na publicidade. Ela foi desenca- deada alguns meses antes da desapro- priacqo, para dar uma id6ia de grande- za do hospital, que era ficticia. E ocul- tar suas complica6qes, que agora emer- gem. Talvez para propiciar nao ape- nas os esclarecimentos financeiros e a alertou sobre a presenga de um crimi- noso sanguinArio, mas tamb6m a pr6- pria transag~o. AGOSTO DE 2010 1 OUINZENA Jornal Pessoal 5 Hospital de Maraba: uma historia obscura 0 desafio da globalizagac Antigo versinho, de largo uso local, revela um dos principals atrativos do Estado: "Quem vem ao Pard, parou; tomou aqaf, ficou". Mas ndo eram mui- tas as pessoas que vinham ao ParA. E nem todas elas apreciavam o acaf, que continuou a ser um patrim6nio exclusi- vo dos paraenses e, em menor grau, de outros Estados da AmazOnia. Em 2000 a situacqo comeqou a mu- dar, rapida e intensivamente. Dispara- do o maior produtor national, o Pard extraiu naquele ano 380 toneladas, qua- se exclusivamente para o consume in- terno. No ano passado, a produgqo al- cangou quase 10 mil toneladas e se tornou insuficiente para suportar a de- manda. Boa parte dela foi para outros Estados e alguns pauses. Na onda da alimentagAo natural, da busca pelajuventude prolongada e pela satide total, o agaf entrou de vez na die- ta de naturalistas, macrobi6ticos, atle- tas e integrantes da terceira idade. E oferecido em quase todos os Estados brasileiros e foi aceito pelos Estados Unidos e a AustrAlia, que importamr quantidades crescentes de aqaf. E a fru- ta native de maior presenga fora da Amazonia, um raro caso de sucesso de um produto tipicamente local. Sua cul- tura deverA continuar a se expandir ex- ponencialmente pelos pr6ximos anos. E uma oportunidade rara embora deli- cada e cheia de desafios para a eco- nomia estadual e mesmo regional. Embora os paraenses apostassem nos encantos do suco extraido da visto- sa palmeira, jamais podiam supor que ela conquistaria milh6es de admirado- res espalhados al6m das suas divisas, de uma forma que horroriza o consumi- dor traditional. 0 belenense padrdo toma, praticamente todos os dias, um prato do "vinho" de agaf puro e grosso. Extrafdos da copa da palmeira, que pode chegar a 30 metros de altura, por uma pessoa hAbil em subir pelo tronco fino e liso, os frutos sao colocados numa maquina (inventada em Bel6m mesmo) que faz descaroqamento e amassa a polpa em Agua, deixando passar um If- quido corn um tom tdo carregado de roxo que chega a parecer negro luzidio. A denominaqao popular de vinho, dada a essa calda encorpada, se reve- lou sabia A media que as pesquisas sobre o aqaf se aprofundavam. Quem o experiment tern dificuldade de definir o paladar. No passado, sem informaq6es sobre o valor nutritivo e medicinal do fruto, quem experimentava costumava reagir corn desagrado porque o gosto era terroso, de palha. Um novo teste, por6m, abriu uma nova porta A percepcqo. Um pesqui- sador ndo iniciado no ritual do aqaf dis- se que seu paladar 6 uma mistura de chocolate e de vinho tinto. Mais in- formado tecnicamente, seu jufzo deve ter sido influenciado pelas qualidades qufmicas do produto, que o tornaram um sucesso de pdblico nos mais dife- rentes audit6rios. G poder antioxidante o a3ai 6 33 vezes %Pmaior do que o da uva na eliminaqao do coles- terol e dos radicals livres, superando nessa media os atributos do vinho. E ainda cin- co vezes maior do que a do Gingko Bi- loba, produto fitoterapoutico utilizado no mundo inteiro. Seu suco tern um valor energ6tico duas vezes superior ao do leite. Tern grande quantidade de ferro e de fibras, que favorece o trinsito intestinal. Corn significativo teor de proteinas, cAlcio e potissio, 6 considerado uma das mais nutritivas frutas da Amaz6nia, perden- do apenas para a castanha-do-pard. Todas essas qualidades ampliaram o leque de usos dados ao aqaf quando ele transp6s os limits do Para, onde ape- nas o vinho era tornado, corn acompa- nhamento de farinha, aqticar, uma ou outra fruta, peixe, camardo e care seca. Hoje, o aqaf se apresenta corn xarope de guaranA, mamdo, morango, maracujA, cereais, suco de laranja, lei- te, granola. As combinaq6es e variag6es avanqam ao sabor da imaginagdo de quem espera potencializar ainda mais os beneffcios do fruto. Uma consequencia dessa voragem 6 reduzir a participagqo do pr6prio again na mistura, o que jA acontece corn essenci- as amaz6nicas utilizadas na cosmrntica ou mesmo na fitoterapia, em proporqAo muito pequena (embora a embalagem declare o contrArio). Enquanto o custo for relativamente alto e a validade do produto reduzida, a diluigqo do aqaf puro serA uma contingencia commercial. S6 assim renderA maiores lucros. Com o desvio de parcelas cada vez maiores da produgao para fora da Ama- z6nia, em virtude dos pregos mais ele- vados que sdo oferecidos e dos meca- nismos de comercializaqao, que chegam diretamente ao produtor, vai se toman- do cada vez mais remota a possibilida- de de fazer com o aqaf o que os france- ses fizeram com o seu vinho: classifi- car um terroir (leia-se terrod) do aqaf. Qualquer dicionArio francs define o terroir como "produto pr6prio de uma Area limitada". 0 terroir 6 um conjunto de terras sob a aqao de uma coletividade social congregada por relag6es famili- ares e culturais e por tradiqbes de defesa comum e de solidarie- dade da exploragao de seus pro- dutos, acrescentam os tratados. HA um terroir especffico para a valorizadfssima champanhe fran- cesa na regiao da Champagne. i Quem compra uma garrafa des- sa bebida paga um valor maior quando sua origem 6 atestada. Conforme argumentou um es- pecialista, o terroir, na verdade, 6 revelado, no vinho, pelo home, pelo saber-fazer local. "0 terroir atrav6s dos vinhos se opre a tudo o que 6 uniformizaqao, padroni- zagdo, estandardizaqao e 6 con- vergente ao natural, ao que tem origem, ao que 6 original, ao tfpi- co, ao que tern carAter distintivo e ao que 6 caracteristico com to- dos os requisitos para serem re- conhecidos como denominagoes de origem, pois agregam origem, dife- renciaqao e originalidade dos produtos", diz Jorge Tonietto, da Embrapa. 0 terroir do aqaf 6 na chamada "re- giao das ilhas", na foz do rio Amazo- nas, no Pard, em torno da parte ociden- tal da ilha de Maraj6 e do baixo Tocan- tins. Nao ha fruto melhor em condiqges naturais do que esse. Nem bebida de sabor mais puro do que aquela que 6 vendida em centenas de pontos espa- lhados por todos os bairros de Bel6m, corn seus 1,4 milhdo de habitantes. Nas melhores quitandas (que anun- ciam o produto com uma bandeira ver- 6 Jornal Pessoal AGOSTO DE 2010 la QUINZENA para o again dos paraenses melha A porta), o batedor 6 um expert nao s6 em produzir o lfquido encorpado como um vinho tinto e denso como um chocolate, mas tamb6m em escolher o melhor fruto para esse process. Os seus clients habituais, que compram e tomam agaf todos os dias (beneficiados pelo florescimento da palmeira o ano todo, em melhores condicqes de julho a dezembro), exercem o control de qua- lidade e ddo sugest6es. S e esse cielo for rompido ou desapare- cer, como ameaga acontecer, sera dificil estabelecer um terroir para o a9ai, agregan- do-Ihe os beneficios j-J que ele teria da clas- 1 sificagao, como a champanhe francesa. Mas nao s6 para ganhos maiores na exportagqo: tamb6m para nao tirar dos velhos apreciadores do melhor aqaf o direito de usufruf- rem esse prazer multissecular. 0 governor teria que criar uma polf- tica de sustentaqAo de preqos e de produgao para que um seg- mento nao prejudique o outro e a atividade econ6mica nao liquid corn o process cultural. Da mesma maneira como a produgqo e a comercializacqo cresceram aceleradamente, o preqo para o comprador de aqaf em Bel6m e outras cidades ama- z6nicas se multiplicou por cin- co. Nos perfodos de menor pro- dugqo (e de qualidade inferior), um litro de agaf tern o preqo de uma sobremesa cara de restaurant, como um brownie. Para muita gente aqaf 6 mesmo so- bremesa. Mas para uma parcela ex- pressiva ele 6 alimento, As vezes a dni- ca refeiqAo forte do dia. Apesar do au- mento exorbitante dos pregos, quem tern o hAbito de tomar acai encontrou uma forma de nao ficar sem ele. Na melhor das hip6teses, por6m, o peso desse cos- tume estA se tornando oneroso, prejudi- cando o orgamento dom6stico. At6 a explosdo do acai no mercado de academias de sadde e entire atletas, toda producao vinha de Areas naturais, nas varzeas inundAveis das margens dos cursos d'Agua. Hoje, 20% prov8m de plantios manejados em terra-firme, que nao oferece solo em condiq6es para uma cultural de melhor qualidade. Mas para que produzir o aqaf puro e grosso, se seu gosto vai ser dilufdo ou desaparecer pela presenqa de acompa- nhantes valorizados pelos consumidores atrafdos pelo poder energ6tico e vitamf- nico do fruto e que, ademais, nunca tiveram contato com o paladar original? O aqaf, mesmo sendo o item mais im- portante, 6 um element do mix e nao o component dnico, conforme 6 para o gourmand do produto em Bel6m. Essa tendencia se consolidou quan- do, em 2007, nove fabricantes, que pro- duzem para exportacqo, assumiram corn o Minist6rio Pdblico o compromisso de pasteurizar o seu produto. Neste ano, o senador acreano, Tiao Maia, chegou a apresentar um projeto de lei tornando obrigat6ria para todos a pasteurizaqao. A media nao s6 modifica drasticamen- te o gosto, tornando-o intragavel para o connaisseur, como colocaria no desem- prego milhares de vendedores individu- ais, que atuam no varejo, em pequenos estabelecimentos comerciais. Felizmen- te a iniciativa foi abortada a tempo. Bas- tou mostrar ao senador o efeito nocivo da sua proposta, que ele, mesmo sendo da AmazOnia, desconhecia. Antes, houve uma onda sensaciona- lista em torno da ameaqa de surto de doenga de Chagas porque o protozoA- rio esta present no fruto e 6 esmagado quando ele 6 descaroqado. Tanto tem- po depois que o aqaf faz parte da mesa do paraense, foi a primeira vez que o problema se tomou alarmante. Mas nada sugere que a ameaqa da doenqa sobre- viva a cuidados de higiene e normas de qualidade, providencias que os pr6prios vendedores passaram a adotar. 0 mesmo nao se pode dizer do futu- ro do agaf como um terroir paraense. Pode vir a se tornar um produto paulis- ta, baiano ou texano, conforme a forma de apropriagdo que vem sendo feita, que inclui a patente. Tern sido esse o desti- no dos produtos naturais amaz6nicos, nos tiltimos anos, em especial, os min6- rios. A Amaz6nia tem lugar no enredo atual para ser col6nia do mundo, nio agent da sua pr6pria hist6ria. Historia torta Parece que o melhor neg6- cio que as tres principals emprei- teiras do Brasil fizeram An- drade Gutierrez, Camargo Cor- r8a e Odebrecht foi perder a dispute (caso da primeira) ou de- sistir de participar do lei.lao pela concessao da hidrel6trica de Belo Monte, no rio Xingu, no Pard, projetada para ser a ter- ceira maior do mundo, e passar para o lado do faturamento, como construtoras da obra. 0 poderoso cons6rcio deve- ri ser formado antes da assina- tura do contrato de concessao da usina, previsto para o dia 26. 0 cons6rcio Norte Energia, do qual a Andrade Guiterrez fazia part, perdeu, o que surpreendeu os mais bem informados observado- res corn sua vit6ria. Todos tamb6m achavam que Camargo e Odebrecht seriam punidas, ou pelo menos recebe- riam o gelo official, por fugirem da raia. Mas o cenArio que estA se desenhando, segundo a grande imprensa national, 6 fa- voravel As tres grandes. De novo. Talvez porque, a partir do leilao, todas as decis6es foram concentradas na EletrobrAs, que tem quase metade das aq6es da Sociedade de Prop6- sito Especifico (SPE), dona da concessao da usina. E a estatal parece preferir continuar a li- dar com seus grandes parcei- ros do que se atrelar a coadju- vantes, embora Odebrecht e Camargo, antes consideradas favorites, tenham se retirado do leilIo, alegando que a obra cus- taria 30 bilhoes de reais e ndo R$ 19 bilh6es, segundo as pla- nilhas oficiais. Terao razdo, no final das contas? Mais um item defeituoso no enredo tortuoso de Belo Monte. AGOSTO DE 2010 1 QUINZENA Jornal Pessoal 7 REME]DIOS As farmAcias Modelo (na Joio Alfredo), Lobato (na 28 de Setembro) e Lira (na Se- nador Lemos) anunciavam, em 1953, seus principals re- m&lios: Dihidro Estreptomici- na, vinho reconstituinte, Agua inglesa, xarope de urucu do Ceard, Sadde da Mu- ther, Pondicilina, Pilulas de Matos e penicilina de 200.000. Tempo de doenqas menores. AVIAO Bel6m era escala dos v6os internacionais para os Estados Uni- dos e a Europa. At6 1953 boa parte dessas viagens eram feitas no elegant e confor- tivel Constellation da Pan-American, que nesse ano os substituiu pelos DC-6. A empre- sa americana nao dis- se, mas os Constella- tion apresentaram pro- blemas e, infelizmen- te, tiveram que ser aposentados dos v6os intercontinentais. Ain- da sobreviveram nas rotas dom6sticas, mas nao por muito mais tempo. Alguns aciden- tes graves abreviaram sua carreira. COLEGIO Os mais velhos de- vem ter lembrangas do Col6gio Abrahan Levy, que funcionou na esquina da Padre Eutiquio com a Tamoi- os, numa das esquinas da praqa Batista Cam- pos, onde hoje funcio- na a Procuradoria Geral do Estado. Muitos estudaram li, sobretudo os que nao iam bern nos col6gios um pouqui- nho mais rigorosos. Como a demand era grande, o col6- gio se mantinha como uma tAbua de salvaqao para os alunos nem tao aplicados. PROPAGANDA Mulher de campanh A professor Alice Antunes, na su face de political, na campanha eleitoral de 1961, prometia arrumar Belim. Ndo conseguiria o prefeito eleito seria Moura Carvalho, do PSD baratista. Alic foi uma figure marcante e muito controversy em seu tempo. Estes Problemas O Pavimentavio C Limpem Piblilc O Dreaagem 0 Atislincia Soci r E n s I n o D Teletones SOSa u de 0 Ablaccimento Tem Solucao, Poi ALICE ARRUMARA BELEM Em 1957 o "Abrahan Levy" esteve ameaqado de perder sua sede. 0 governador Magalhaes Barata, no seu dltimo mandate (o dnico para o qual foi eleito pelo povo), queria o pr6dio de volta, alegando necessidade de serviqo. Mas a brava di- retora, Alice Antu- nes Coelho, disse que nao entregaria. A iniciativa se de- La via a "condiqges po- liticas", ji que ela ,a era adversaria dos baratistas (e viria a se tornar prefeita in- terina de Bel6m, quando o m6dico e Lopo de Castro, titu- lar do cargo, sofreu um acidentre). 0 objetivo era "pertur- bar a ordem do en- sino que aqui se mi- nistra hA sete anos". 1l 0 contrato de lo- caqdo do edificio, pertencente ao De- s, partamento de Es- tradas de Rodagem, fora assinado em 1955, ao fim do go- verno do general Za- carias de Assunq~o, que derrotara Bara- ta em 1950. Vigora- ria por 10 anos, at6 1965. Por isso, Ali- ce Antunes garan- tia, em nota pdblica, que nao tinha "ne- nhum receio desta batalha, de vez que estamos agora, como nas demais que ultrapassamos, corn o grande, inve- javel e magnifico estandarte da Lei". IRMA A Clinica Dalmazia Pozzi, na rua Joao Balbi, foi recente- mente demolida para em seu lugar subir mais um espigao de concrete a sufocar a ci- dade. Talvez corn isso seja soterrada de vez a mem6ria da homenageada. A irma Dalmazia era uma filha de Santana que morreu em Be- 16m, em 1962, as v6speras de completar 72 anos. Veio da ItAlia com 21 anos e, de- pois de uma breve escala em Recife, durante 57 anos atuou na assistencia aos en- fermos da Santa Casa de Miseric6rdia. Quando completou meio s6culo de serviqo, a direqao do hospital quis homenageA- la dando-lhe passage para repousar em sua terra natal, que nunca mais visitou. Mas ela preferiu nao deixar a Santa Casa. Morreu traba- lhando no hospital. Merecia continuar a ser lembrada pela cidade, tao desatenta A pr6pria hist6ria. CINEMA A Paramazon se anunciava, em 1962, como "a maior or- ganizaqao distribuidora de fil- mes da regiao norte do Bra- sil", com um estoque de pe- liculas de 16 milimetros "das afamadas marcas mundiais". Quem queria assistir a um desses filmes podia obt8-lo por telefone: os funciondrios se encarregavam de tudo, at6 da exibigqo. Para o piblico, a empresa dispunha do Cine Teatro Paramazon, com "magnifico palco e 300 con- fortAveis poltronas", na tra- vessa Piedade, transforma- do em casa de shows. Jomal Pessoal Editor: LUcio Flavio Pinto Contato: Rua Aristides Lobo, 871 CEP: 66.053-020 Fones: (091) 3241-7626 E-mail: Ifpjor@uol.com.br jornal@amazon.com.br Site: www.jornalpessoal.com.br Diagramagio e ilustraq6es: L. A. de Faria Pinto E-mail: luizpe54@hotmail.com 8 Jornal Pessoal AGOSTO DE 2010 a QUINZENA __ -o FD1nrnr/A\1K\Mr JD U - Ja estA nas bancas e livrari- as o segundo volume da Memoria do Cotidiano, a seqdo mais lida por parte dos leitores do Jornal Pessoal. Junto corn o volume anterior, acho que os dois livros permitem uma visdo mais intima e sempre individua- lizada da hist6ria de Bel6m e do Pard durante o s6culo XX, so- bretudo na sua segunda meta- de. A boa receptividade A pri- meira iniciativa reforgou o com- promisso de lanqar uma nova coletAnea dos textos, fotos e ilustragbes do JP. 0 apoio do amigo Reginaldo Cunha contri- buiu para viabilizar a empreita- da, transformando-a em um acontecimento de final de ano. infc FOTOGRAFIA As lojas de tecidos Jose Xerfan convocou o reporter da Folha do Norte para faze-lo anunciar a opinido ptiblica, em 1956, que a Cidade das Sedas e a Cidade dos Algoddes ndo iriam encerrar suas atividades, ao contrdrio do que se propagava. Eram duas lojas muito populares, lideres nesse setor do comdrcio. Xerfan disse que os motives para o fechamento foramm contornados". Ao fundo, centenas de peas de tecidos. Esse tipo de loja sofreu um golpe corn o surgimento das lojas de departamento e, mais recentemente, dos shopping centers. Ndo fazem mais parte do cendrio. FEIRA 0 cronista da coluna Vozes da Rua, da Folha Vesperti- na, lamentava, em 1962, a extingqo das feiras de rua aos sibados, quando as com- pras podiam ser feitas corn tranqiiilidade. Sem a ativida- de noturna, na feira diurna "formam-se filas intermini- veis para adquirir qualquer g8nero e isto nao ocorria corn a venda aos sibados". Hoje, as feiras oferecem, em ge- ral, um ambiente completa- mente diferente, de pouco movimento. E a aqdo dos supermercados. TRANSPARENCIA Trinta anos atris era assim: I A 1 quando uma empresa pedia ao govemo do < Estado um be- S. neficio fiscal ou tributario, o pe- dido era trans- formado em edital e divulgado atrav6s da imprensa. Qualquer cida- dio tinha o prazo de 15 dias "para a apresentagqo de impugnaq6es", que deviam ser protocoladas no Idesp, responsivel pela aprecia- qdo da questao. Foi o que aconteceu em 1979 corn a filial paraense da pemambucana Renda Prio- ri, de Pedro Renda, que fun- cionava onde hoje esti uma revenda de autom6veis, na rua Jer6nimo Pimental, no Umarizal. A empresa teve isenqao de ICM (hoje, ICMS) para sua produgao de latas. Hoje, o assunto trami- ta intramuros oficiais. Memoria santarena Bancas e livrarias de Bel6m jd dispiem de exemplares do meu livro, Mem6ria de Santarem, editado pelo journal 0 Estado do Tapajj6s, de Miguel Oliveira. Registros da hist6ria de Santa- r6m e do Baixo Amazonas nos s6culos XIX e XX. AGOSTO DE 2010 1 QUINZENA Jornal Pessoal 9 CARTAS AO EDTOR ATAQUE O blog de Luiz Carlos Azenha (www.viomundo.com.br) repro- duziu, na semana passada, um artigo meu, de 2009, denunci- ando a exclusio do meu caso no levantamento feito pela As- sociaio Nacional de Jornais sobre 31 atos de censura A im- prensa praticados nos lItimos 12 meses no Brasil, 16 dos quais autorizados pela justica. Den- tre os comentadores do artigo, que saiu originalmente neste journal, se apresentou Vinicius Abreu, que me fez ataques pes- soais e profissionais. Os edito- res do blog descobriram que o leitor trocara sua identidade digital, mas, atravds do IP, con- seguiram verificar que a men- sagem era proveniente mesmo de Minas Gerais e era ligada ao portal da Universidade Fe- deral daquele Estado. Pelo blog, anunciaram que iam pe- dir explicag6es a UFMG. 0 cidaddo imediatamente entrou em contato corn os blogueiros, ofe- recendo-se para um entendimen- to. Mas eujd havia respondido e o desafiado a provor o que disse de forma tdo leviana. Fui estimulado a me manifestar por uma mensa- gem que o socidlogo paraense Be- nedito Carvalho Filho me mandou de Manaus. J6 acostumoado ao mes- mo tipo de otaque, na maioria dos vezes an6nimo, embora de origem faocilmente identificdvel, ndo ia le- var em considerago mais essa pro- vocagoo. Mas como Benedito se manifestou, resolvi reproduzir sua mensagem e parte da minha res- posta. Segue-se o que Benedito Carvalho escreveu: Certo senhor que se diz pa raense corn muito orgulho por pouco nao te transformou de viti- ma em algoz quando comentou o artigo que enviaste para ojornalista Luiz Carlos Azenha no blog Viomun- do sobre o absurdo dos processes que estds enfrentando na Justica. Sinceramente, por um minuto, nao consegui perceber as raz6es da agressividade contra ti, porque o co- mentario dessa pessoa nio foi dire- cionado para a compreensao do que tinhas escrito, para refutS-los ou aceita-los atravds de arguments, mas para te desqualificar como jor- nalista de uma forma vil, baixa e de- sonesta. Nao estou me referindo a forma do texto que ele escreveu, que, normalmente, nos blogs, apa- recem truncados pela rapidez corn que sao escritos, mas pelo conted- do das ofensas dirigidas a tua pes- soa. Pensei corn meus bot6es: um pro- fissional do jornalismo faz uma de- ncncia corn serias implicag6es 6ti- cas e political, fato que merece reptdio de to- dos os cidadgos minimamente conscientes do que isso impli- ca para a exist&ncia de uma so- ciedade democrAtica e recebe uma bordoada como essa. 0 que estava ocorrendo? Desconheco as raz6es pesso- ais que levaram esse cidadio a destilar em poucas linhas sen- timentos tio maliciosos e chei- os de veneno, como afirmar, por exemplo, que no Para tens uma relaVo muito, mais muito pr6xima corn a familiar Barbalho.Chega a alertar que em Beldm ndo existe impressa independent (sic). Ora, ele parece estar dizendo que aconteceu contigo naque- le fatidico dia foi um mero epi- s6dio que resultou de uma rixa familiar da familiar barbalho com os maioranas, o que, como todos sabem, 4 uma inverdade. E diz mais: que nio escreves uma linha falando mou (sic) do fa- milia Barbalho ou de qualquer membro dessa familiar ilustre, que tern como patriarca Jader Barba- lho. Ambas families diz ele bri- gam entire si (e tern mais umas 3 ou 4 families) para ver quem tern mais poder. Urn tipo de coronelis- mo permanent no Estado que ndo mudajdfaz umas ddcadas. Ou seja, o jornalista Lucio Fli- vio Pinto, corn seu Jomal Pessoal, nao tern nada de independen- te, pois, como diz, ndo se ter ino- cente nessa histdria defamilias em Belem. t tudo farinha do mesmo saco, sd foc a ointeresse deles mes- mos. Quero ver esse mesmo jorna- lista escrever algo sobre o Jader Barbalho, duvido! t claro, depois de te desqua- lificar, tenta se mostrar indigna- do, pois ser contra agressdo de qualquer especie. mas sendo a fa- milia Maiorana conhecedora do di- reito de resposta garantido pela Cons- tituicao, esperava-se que o fizesse, fato que ndo ocorreu e sinceramen- te seja qualfor o caso de agressdo fisica como resposta a fato dito ou publicado d repugnante. Em seguida destila novamen- te seu veneno de forma confusa: Sinceramente um dia espero que minha cidade e meu estado mudem, que essas pessoas fi- quem fora da vida publica e que o estado que tem as maiores jazidas de mindrio do Brasil prin- cipalmente de ferro, bauxita e ouro fique rico de verdade. E que surjam novos jornalistas paraen- ses independents, porque sin- ceramente esse aqui apresen- tado nesse artigo estA muito lon- ge de ser independent. Percebe-se que o foco de seu texto nao foi uma analise da de- nuncia apresentada por ti, mas a tentative de te desqualificar, afir- mando claramente que tu 6s um aliado do Jader Barbalho, o que 6 uma inverdade para os que I&em corn frequ4ncia o JP, onde as denuncias contra o ex-gover- nador do Para nio sio denunci- as pessoais envolvendo a sua vida privada, mas fatos graves que ocorreram na sua vida publica. 0 Journal Pessool foi o 'inico jor- nal da Amaz6nia, e me arrisca- ria em dizer de todo o Brasil, que revelou os fatos relatives do cha- mado escdndalo Aurd [na verdade, tratei a larga do tema em minha coluna didria em 0 Liberal, a partir de 1984, ate sair dojornal, antes de criar o JP]. Isso estd registrado em detalhes nao s6 no journal, mas nos livros que escreveste poste- riormente. Portanto, os argumen- tos desse senhor dizendo que ds parcial e defendes interes- ses do ex-governador 6 falso, nao tern base de consist&ncia nos fatos que parece ignorar. No u1timo Jomal Pessoal, LOcio, corn base numa observacio do professor Armando Mendes, afir- maste que o Para vive num vdcuo politico. VAcuo quer dizer vazio, que nao cont4m nada, um espa- co que nao contem ar, nao 4 ocu- pado por coisa nenhuma. Diziam os fisicos que a natureza detesta espacos vazios, assim como a political, pois tmr que se ocupa- da por alguma coisa. Essa algu- moa coisa, pelo que percebo nos ultimos tempos, 6 a mediocrida- de, essa esp4cie de vale tudo, onde a political se transform num grande neg6cio e tudo pode desde que se atinjam os objeti- vos de quem almeja o poder. Essa pequena intervencio do leitor do blog a que me referi acima 4 um pequeno exemplo desse vazio de id4ias, vazio de senso critic, assim como a pre- senga muito evidence de res- sentimentos, invejas tio pr6pri- as de certa subjetividade con- temporAnea, onde a 4tica 6 jo- gada na lata do lixo e parece predominar o vale tudo. t nes- sa asfixia que se vive. MINHA RZSPOSTA Meu caro: Essa insinuante d6- vida que vocA tem sobre a mi- nha relaZiao corn Jader Barbalho podia ser desfeita sem maiores esforgos. Bastaria colocar meu nome e o dele na busca do Goo- gle e examiner o que escrevi so- bre o lider do PMDB do Pard. De fato, temos ele e eu um passado comum em Belem e fomos amigos, antes de Jader se eleger governador pela pri- meira vez, em 1982. Ele, alias, me convidou para participar de sua administracgo quando, jd eleito, ainda formava sua equi- pe. Recusei. Disse-lhe que era jornalista e continuaria a ser apenas jornalista, como tenho sido, ha quase 45 anos. E se ele errasse, me encontraria do ou- tro lado, sempre. Ao receber a resposta, chamou um amigo comum, que viria a ser seu se- cretArio da fazenda, e pediu-lhe para repetir o que Ihe dissera antes da minha chegada: que iria me oferecer mundos e fun- dos, mas eu nao aceitaria nada. E que era isso justamente o que queria: um critic honest e competent. t bom nao esque- cer que, nessa 6poca, Jader ain- da era considerado um politico de esquerda, integrante da ala dos "autknticos" do entao MDB, e que liderara a oposicio no Para, apesar do acordo parado- xal que fez para vencer corn o governador Alacid Nunes. Pois eu continue o jornalista independent que voc4 p6e em divida. Fui o Onico na imprensa que combateu Jader, a ponto tal que fui seguidas vezes ameaga- do de morte por telefonemas an6nimos. Um dia ligaram para a redacao de 0 Liberal. Sem se identificar, a pessoa disse para o director de redacao, Claudio Sa Lealpreparar a manchete com meu assassinate. 0 dono do jor- nal, Romulo Maiorana, me ligou dizendo que ia me mandar pro- temgo. Agradeci a generosidade (que os filhos nao herdaram) e recusei. Mas desfiz a ameaga acionando o entao governador, que tomou as providencias de- vidas para eliminar a ameaga. Se voce se der ao trabalho de fazer trabalho identico, verifica- rd que quase tudo que se escre- ve a respeito de Jader Barbalho me toma como fonte, atraves de entrevistas ou com base no que escrevo. Desde um pedido de CPI formulado em 1988 pelo PT para apurar venda de terras pelo en- tao ministry da reform agrAria ate um livro panfletario escrito por Gualter Loyola, por enco- menda de Ant6nio Carlos Maga- lhies, que tergava armas corn o entio president do Senado (por pouquissimo tempo em fun- g5o desse confronto. Jd que voc4 se diz paraense e conhecedor do Estado, pegue a coleg o do Jornal Pessoal e volte aqui corn uma materia sobre Ja- der Barbalho que nio tenha base em fatos ou que Ihe sirva os inte- resses. 0 que nao fago, como tern sido comum no Para e no Brasil, 4 transformar Jader em espanta- Iho, em demiurgo da corrupcAo, como se ela Ihe fosse monop6- lio ou ele fosse o mais nocivo dos personagens, quando, mes- mo ao lado de catoes da pluto- cracia paulista, sempre desde- nhosos dos que estio "no Nor- te", a seu entendimento domici- lio de tudo que nao presta no pals, hd aves de rapina de muito maior envergadura. 10 Jornal Pessoal AGOSTO DE 2010 1P QUINZENA rii~*M~-----`---su~~--r~--~--~-~,~, Q Tecnologia democratic Em 1971, o entio analista military Daniel Ellsberg passou vArias horas ti- rando c6pias xerogrificas de sete mil folhas de documents que sua empresa de consultoria, a Rand Corporation, ha- via produzido para o governor america- no. Entregou esses pap6is aojomal The New York Times, sabendo muito bem o que estava fazendo. Eram documents top secrets, cuja divulgacqo constitufa uma transgressdo grave. Ellsberg se convenceu de que devia ultrapassar o limited do sigilo para mostrar A opiniao pdblica dos Estados Unidos que o go- verno mentia: ao inv6s de reduzir sua participaqdo na terrivel guerra do su- deste asiAtico, a estava ampliando. A divulgacqo gerou um incident que ficou conheci- do na cronica hist6- rica como "os docu- mentos do Penti- gono". 0 govemo Nixon tentou inter- romper a publica- gqo dos pap6is pelo jomal novaiorquino, mas a Suprema Corte ndo aceitou os arguments da administrago fede- ral. Mais importan- te do que eventual risco para a segu- ranqa national era a vig8ncia da Primeira Emenda, que as- segurou a tutela constitutional A liber- dade de imprensa nos EUA. Daniel Ellsberg, um her6i daqueles dias, hoje corn 79 anos de idade, voltou a ser lembrado pela imprensa a prop6sito de vazamento semelhante de informa- q9es secrets sobre a guerra do Afega- nistio atrav6s do site WikiLeaks, no dia 25 de julho, provavelmente por Bradley Manning. S6 que a inconfidencia abran- geu 100 mil folhas, 14 vezes mais do que as c6pias produzidas clandestinamente por Ellsberg. Os documents por ele va- zados eram "muito secretss, por reve- larem dados in6ditos, enquanto os de Manning sao apenas secretsos. Servi- ram mais para confirmar oficialmente as critics feitas ao governor do que como novidade para a opiniao ptiblica. Numa entrevista A Folha de S. Paulo, comparando o seu epis6dio com o atual, Ellsberg disse que deci- diu arriscar sua liberdade "assim como havia arriscado o meu corpo nas estradas do Vietnd anos antes, para encerrar o nosso envolvimento e parar a matanga". Acredita que Bradley Manning tenha o mesmo convencimento: "Esteve no Iraque e estava preparado para passar a vida na prisdo ou at6 ser executado". Mas nao v8 os dois comportamentos como extraordindrios: "me parece natural que algu6m esteja disposto a correr o risco pela paz, pelo fim da matanga". Ellsberg acredita que a divulgaqao dos documents reforgarA a convicqio da maioria da populacgo de que os Es- tados Unidos nao deveriam estar no A feganist o, "mas isso ndo sig- nifica que os nos- sos lideres trardo 0, ^os soldados de vol- ta para casa. Todo president, demo- crata ou republica- no, teme ser acu- sado de abandonar uma guerra venci- vel. Como essa guerra nao 6 ven- civel, essa 6 uma avaliagdo irrespon- sivel e burra". Ainda assim - lembra Ellsberg os presidents da reptiblica nao gostam de enfrentar esse tipo de acusacgo em campanhas eleitorais: "Eles preferem mandar as pessoas para 1h para matar e morrer, indefinidamente. Essa declaraqdo que fago 6 dura, mas 6 baseada na experi8ncia". Apesar da permanencia dessa ati- tude insensata, a evolugdo da tecnolo- gia tern favorecido, nesse caso, mais a sociedade do que ao governor. E possf- vel vazar documents secrets em mai- or abundancia e muito mais rapidamen- te do que antes, atrav6s da internet, cujo poder de armazenamento e difu- sdo nao tern termo de comparag~o corn a Xerox, uma ferramenta que surgiu para fortalecer a democracia. 0 avan- go que ocorreu nas quatro d6cadas que transcorreram de Ellsberg para Man- ning 6 formidAvel. Cerco a Igreja Integrantes da Igreja Uni- versal do Reino de Deus, em conjunto com outras igrejas se- melhantes, procuraram graficas em Bel6m para encomendar banners e folhetos contra Nos- sa Senhora de Nazar6 e o Cf- rio, festividade cat61lica que Ihe 6 dedicada e 6 considerada a maior procissio religiosa do mundo. Aintenqao seria de dis- tribuir esse material um pouco antes da festividade, que acon- tece no segundo domingo de outubro. Nenhuma das graficas con- tatadas aceitou o serviqo. As igrejas reunidas sobre a lideran- qa da Universal, chefiada pelo pastor Edir Macedo, teriam de- cidido instalar uma grAfica pr6- pria, em regime de urg8ncia, para dar conta da missdo de es- palhar por Bel6m milhares de impressos condenando o culto mariano. A dentincia foi feita pelo frei Juraci, paroco da capela de Santo Antonio de Lisboa, em Batista Campos, durante missa dominical do dia 15. Ele alertou os fi6is para o cerco que essas seitas estdo fazendo sobre os cat61licos. Informou que uma equipe de missionarios consta- tou, em um levantamento reali- zado recentemente nos bairros do GuamA e Cremacqo, que de cada 10 casas visitadas, sete eram de protestantes. 0 esva- ziamento do catolicismo, al6m de reduzir o pdblico que fre- quenta a igreja, estA acabando com as vocaqoes sacerdotais. "Ndo temos mais padres no- vos", lamentou. Recorrendo a textos biblicos, disse que a situ- aqdo atesta a previsdo antiga sobre o ataque que a mre de Jesus viria a sofrer por parte do dragao demonfaco. AGOSTO DE 2010 1~ OUINZENA Journal Pessoal 11 .. AGOSTO DE 2010 1 OUINZENA Jornal Pessoal 11 TV Liberal cobra mais dinheiro da Funmtelpa Cidade ruim Quem sai de Bel6m para qualquer outra capital brasi- leira, quando volta, se tern o minimo de sensibilidade, so- fre um choque de realidade. Dificilmente deixara de cons- tatar que a nossa 6 a pior metr6pole do pafs em padrao de vida. Seduzido pelo elo- gio facil ou tendencioso, o belenense deixa de atentar para o fato de que, por trAs do modo gentil da populacqo, de algumas atraq6es da ci- dade e do que sobrou de born do patrim6nio herdado dos antepassados, a vida na ca- pital paraense 6 muito diffcil. A sujeira se espraia sem control, as regras de convi- v8ncia em coletividade sdo violadas com uma constan- cia espantosa, as leis viraramrn piada e a civilidade foi des- cartada. A populaqao pare- ce anestesiada pela brutali- dade cotidiana, incapaz nao s6 de reagir como de sair da catatonia dominant, a dnica razdo para que um prefeito recordista de rejeigao, como Duciomar Costa, governor a municipalidade em transito entire Belem e Brasilia e mais al6m. Um sinal de vida, embora modesto, surgiu corn a mo- vimentagqo contra o lixo que se acumula na cidade, pas- sando a fazer parte da sua rotina. Sera que irA al6m des- se suspiro de vontade? A TV Liberal ajuizou uma aqgo de co- branqa contra a Funtelpa, a Fundacgo de Radiodifusdo do Estado. A empresa da fa- milia Maiorana quer receber por cinco me- ses, de janeiro a maio de 2007, periodo que transcorreu entire a suspensdo provis6ria e a rescisao unilateral do convenio pela Fun- telpa. 0 valor cobrado 6 de aproximadamen- te 3,4 milh5es de reais, incluindo atualiza- gqo e encargos. Ao assumir o governor, em janeiro de 2007, Ana Jdlia Carepa, do PT, rescindiu o conv8- nio assinado dez anos antes corn a TV Libe- ral, durante o primeiro mandate do govema- dor Almir Gabriel, do PST, por considerA-lo illegal e imoral. A Funtelpa cedeu suas esta- q6es de retransmissao de imagens de televi- sdo para a Liberal e ainda pagava-lhe men- salmente 200 mil reais, tendo como compen- sagqo inserqces publicitarias de interesse do governor na programacgo da emissora, afilia- da A rede Globo de Televisdo. Para contornar a exigencia legal de licitaqao para a realiza- gqo do serviqo, ao inv6s de contrato, as parties assinaram um conv8nio, embora o instrumen- to seja inadequado ao objeto, conforme audi- tagem feita pelo Tribunal de Contas, que con- cluiu pela ilegalidade e imoralidade do ato. Ao long de 10 anos de vig8ncia da rela- q5o, a mensalidade subiu de R$ 200 mil para Todos n6s, irmaos, demos prioridade ao sobrenome Pinto, que nosso pai nos transfe- riu. Menos o caqula. Paulo preferiu o Faria da mae. Nao s6 por ser o mais chegado a ela. Tamb6m para escapar ao interdito proi- bit6rio do grupo Liberal, que me vetou em seus vefculos de comunicaqao e, em seguida, meus irmaos. A tatica deu certo at6 a semana passada. Como Paulo vem se dedican- do A pesquisa sobre o meu tra- balho, sua ligaqgo comigo se tomou pdblica e not6ria. 0 resultado 6 que nenhu- ma linha saiu nos vefculos da famflia Maiorana sobre o fes- tival de teatro do qual ele par- ticipou, corn o grupo que montou e comanda em Sao Paulo, o Pessoal do Faroeste, ao con- trArio do que aconteceu nos outros anos, em que chegaram at6 a publicar entrevista corn ele. 0 silencio, porem, em nada prejudicou a R$ 476 mil, valor que deveria ser pago em janeiro de 2007, graqas ao 14 aditamento, assinado pelo governador tucano SimAo Ja- tene, no 61timo dia do seu mandate, em 31 de dezembro de 2006. At6 entdo, o Estado transferira R$ 37 milh6es aos cofres da TV Liberal, que hoje corresponderiam a R$ 50 milh6es. Apesar da documentagqo e dos argumen- tos apresentados contra o convenio, com o parecer favorAvel do Minist6rio Piblico do Estado, a acqo popular proposta pelo deputa- do federal (DEM) Victor Pires Franco, subs- tituido pelo soci61logo Domingos Conceigqo quando o parlamentar desistiu de continuar A frente da iniciativa, a i rejeitada pelajufza Ro- sileide Filomeno, da 21 a vara civel de Bel6m. Em 2008 o recurso contra a sentenqa su- biu ao Tribunal de Justiqa do Estado. Sete de- sembargadores se declararam impedidos de funcionar no feito. HA mais de um ano o pro- cesso estA corn a desembargadora Luzia Nadja Nascimento, esposa do secretArio de defesa social durante a administragqo do PSDB no Para. Apesar do compromisso da Meta 2 do Conselho Nacional de Justiqa de julgar todos os processes protocolados at6 2005, o "con- venio" entire a Funtelpa e a TV Liberal rema- nesce. Vai completar em dezembro 13 anos de tramitagqo no judiciArio paraense. presenga de Paulo entire n6s: o Teatro ClAudio Barradas estava completamente lotado para ver sua peqa Sol do Fim do Dia. A plat6ia o ovacionou de p6. Aplaudiu tam- brnm sua iniciativa de me dedicar o espetAcu- lo, uma generosa surpresa, que me emocionou. Paulo deu noticia sobre o texto que pre- tende escrever e pediu a co- laboraqio de todos que qui- serem aderir A empreitada. Acredita que entire o final des- te ano e o inicio de 2011 po- dera estrea-la em Sao Paulo, para onde se transferiu hA mais de 20 anos. A familia Faria Pinto com- pareceu em peso, fato raro na sua agenda, e saiu orgulhosa corn o desem- penho do filho mais novo, ator e autor da peqa, a mais premiada do seu jA extenso curriculo. Perfeitamente conscientes de terms, final, um grande artist entire n6s. Nosso artist |
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