Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00348

Full Text



JULHO
DE 2010
2aQUINZENA


omal
A AGENDA AMAZO 1


Pessoal
,IICA DE LUCIO FLAVIO PINTO


ELEICAO


Operagao salvamento

0 PT estd apostando tudo para tentar a reeleiCdo da governadora Ana Jblia Carepa.
0 problema principal e o indice de rejeicdo, o mais alto que um governante jd
enfrentou no Pard. Por isso, os petistas assume os riscos da situacdo.


Osenador Aloizio Mercadante
pretend gastar 46 milh6es de
reais na sua campanha para o
governor do mais rico Estado brasileiro,
Sdo Paulo, com um tergo do PIB nacio-
nal. Sua correligioriria do PT, a gover-
nadora Ana Jdlia Carepa, tem um orga-
mento eleitoral de R$ 47 milh6es para
se reeleger no Pard, que possui 3% do
Produto Intemo Bruto national. Como
Sao Paulo tem 30 milh6es de eleitores,
o gasto per capital de Mercadante sera
de R$ 1,5. Ja o de Ana Jdlia chegard a
R$ 12 por cada um dos 4,7 milh6es de
eleitores paraenses. Proporcionalmen-
te, s6 a previsdo de Jos6 de Anchieta


Junior candidate do PSDB ao govemo
de Roraima, se equivale.
O orgamento eleitoral da governado-
ra petista 6 o terceiro maior do pals nes-
te ano. O maior, do oponente de Merca-
dante em Sao Paulo, o ex-govemador
tucano Geraldo Alckmin, 6 de R$ 58 mi-
lhoes. Ana Jdlia lidera em gastos dentre
os 18 governadores que buscardo a ree-
leicao nos 27 Estados brasileiros. Na elei-
Sgo de 2006 ela contou com pouco mais
de R$ 10 milh6es para se eleger, dos
quais R$ 6,3 milh6es vieram do Comite
Financeiro inico do seu partido.
Esses nimeros causaram impact na
opinion pdblica national. Ainda mais por


se presumir (ou se ter certeza) que os
gastos reals ultrapassam o valor apre-
sentado a justiga eleitoral. O famoso
"caixa dois" ji recebeu at6 a oficializa-
gao por parte do president Lula, que
admitiu a pritica e a considerou normal
numa entrevista dada em Paris.
A assessoria de imprensa do gover-
no explicou aos interessados (ou escan-
dalizados, que raramente prestam aten-
9o ao Para) que o montante inusitado
tinha uma explicago, legitimando-o e at6
o enaltecendo: o PT gastaria mais na
principal dispute majoritiria porque a
govemadora ndo usara a maquina ofici-
coNTmUA NA PAGS


VA CD A A RAJAf IiG


No 469
ANO XXIII
R$ 3,00


P


POITC N VCO iG2







CONTI'MAO DA CAPAI
al. Ajustificativa soou como uma piada
diante da realidade concrete. Ana Jdlia
6 a camped das multas aplicadas pelo
TRE do Pard: dos R$523 mil impostos
pelo tribunal at6 a semana passada por
propaganda illegal, R$ 167 mil foram de-
bitados a conta da governadora.
E indicador do abuso do cargo, de
forma explicita, caracterizada. Mas hd
fundadas suspeitas de que Ana Jdlia se
ter valido de sua funqdo para se favo-
recer eleitoralmente. Os kits de miqui-
nas para fazer estradas, que entregou
aos prefeitos, a verba do BNDES que
a Assembl6ia Legislativa lhe autorizou
a aplicar, contrata6oes de iltima hora,
convenios, repasses de recursos e ou-
tros expedientes tnm o objetivo claro de
conquistar ades6es e lacar votos.
A uiltima das iniciativas virou escan-
dalo, alimentado pelos vefculos de comu-
nicago do deputado federal Jader Bar-
balho, ji em oposiqdo frontal i candida-
ta do PT. E um contrato no valor de 20
milh6es de reais corn a Delta Constru-
c5es e Engenharia, que fomecerai Po-
lfcia Militar, pelos pr6ximos dois anos, 450
autom6veis Fiat Palio. A Delta, corn sede
no Rio de Janeiro, 6 uma das empresas
mais favorecidas pelo PAC (Programa
de Aceleraqao do Crescimento) do go-
vemo federal. Ela baixou no Pard corn
virios contratos e adicionou A cesta ou-
tros contratos firmados localmente. Ela
6 a que mais dinheiro recebe da Secre-
taria de Assuntos Estrat6gico (criada
pelo atual governor liderado pelo ex-
marido de Ana Julia, Marcilio Monteiro,
que se concentrou em obras vidrias em
Bel6m, executadas pela Delta.
Em tese, o contrato assinado pela PM
do Pard se insere na tendencia mais re-
cente da corporagao em vwrios outros
Estados do pais, de terceirizar sua frota.
Essa inovaqdo permitiria a renovacgo
constant dos veiculos utilizados pela
Policia Militar, ji que o locador se com-
promete a report os carros que safrem de
operagao, e menor custo na manutencgo.
Os gastos elevados e os riscos operaci-
onais da frota em administragao direta
tornaram o seguro para esses vefculos
proibitivo. A terceirizagCo contornaria
esses problems, reduziria custos e au-
mentaria a eficicia da aqgo policial. Em
alguns Estados a pritica ji 6 corrente.
O que permitiu a caracterizagao do
escandalo 6 que a empresa contratada
nao atuava nesse ramo de neg6cio, nem
estava habilitada para tal. Os carros sao


leves demais e inadequados para as
caracteristicas operacionais da polfcia,
por serem muito compactos. Al6m dis-
so, nao vieram com aparelhos de ar
condicionado, item essencial numa ci-
dade quente como Bel6m.
Mais important do que esses e ou-
tros detalhes t6cnicos: o contrato nao
foi apresentado publicamente. A inicia-
tiva foi adotada por decisao direta e
pessoal da governadora, sem passar
pelas instincias competentes e especf-
ficas. O ingresso de 450 carros novos
de uma vez 6 um fato tdo relevant que
devia ser precedido de andncio e at6 de
propaganda. Emjulho de 2008 o gover-
no fez alarde da compra de 160 novas
viaturas, das quais apenas 99 foram para
a PM. O sigilo em torno de um contrato
inovador foi injustificdvel.
Ja o interesse de toda sociedade por
essa hist6ria 6 mais do que justificado,
mesmo que envolvido por aproveitamen-
tos polfticos laterals. Ainda que venham
a se revelar improcedentes as suspei-
tas sobre o uso desse contrato (como
de outros mais) para a formagao de
caixa de campanha, e, em particular, de
caixa 2, hi uma questdo de polftica pd-
blica a exigir discussed.
Mesmo sem ter efetivo para ocupar
as novas viaturas (cinco por cada uma,
seriam 725 PMs), o governor decidiu-se
por esse contrato para espalhar a polfcia
por Bel6m, cidade violent e, por isso, in-
segura (disposta, em conseqiiencia, a vo-
tar contra o govemo, apontado como ine-
ficiente no combat A crescente e agra-
vada criminalidade urbana). O govemo
espera que a populaq9o, vendo os PMs
ao lado de 450 vefculos distribuidos por
todos os pontos, se sinta mais seguro. Ain-


A political

um circu


Ha d6cadas (ou sera desde sem-
pre?) o Pard pratica a politicala do vi-
cuo". Foi essa a expressed que Arman-
do Mendes utilizou, com propriedade,
num artigo que escreveu para a Folha
do Norte em novembro de 1959. Com
a forga do seu estilo, raciocfnio e bio-
grafia (era um jovem intellectual ji lan-
gado A polftica, como vereador e depu-
tado estadual), o future president do
Banco de Cr6dito da Amaz6nia preten-
dia demarcar 6pocas.


I


da que sair dessa posiaio, entrar no carro
e dirigi-lo para cagar criminosos nao faga
parte da estrat6gia montada. Seria um faz-
de-conta para obter efeito positive junto
ao pdblico. Acao de cunho eleitoral, por-
tanto. Eventual e nao permanent.
Por que tantos recursos e tantas
manobras, que ultrapassam o limited da
responsabilidade e expoem o governor
aos efeitos perversos (ou inadvertidos)
da sua iniciativa? Para salvar uma can-
didatura que parece condenada pelo alto
indice de rejeicgo de Ana Jilia Carepa.
O indice ji esteve al6m de 60% e agora
teria baixado do limited vital de 50%, a
partir do qual a reeleig9o torna-se qui-
mera de marketing. Estes seriam os
nuimeros reais de pesquisas realizadas
para valer e jamais reveladas pelos
que as encomendaram.
Sabendo disso, o PT se arriscou a
revelar, por vias indiretas, uma pesqui-
sa illegal, sem o nome do responsdvel,
sem o period em que foi realizada e
sem o devido registro no TRE. Mesmo
assim, para nao perder toda credibilida-
de entire os mais cr6dulos, essa sonda-
gem deu 27% a Ana Jilia, 23% a Jader
e 31% a Jatene. E num segundo turno
admitiu o empate t6cnico da governa-
dora com qualquer dos dois na 6poca,
em maio -eventuais candidates.
Todos os escandalos e anomalias que
tem sido observados na campanha do PT
pela reeleiqdo no Pard se explicam por
um fato: a mais alta rejeiaio que um go-
vemadorjd enfrentou as v6speras de uma
nova eleig~o para o cargo. Se nao quiser
ficar num inico mandate, o PT tem que
arriscar. E muito. O que pode Ihe causar
a derrota antes de poder experimentar a
possibilidade da vit6ria.


no Para:

o vicioso


Uma parecia estar acabando naque-
le moment, corn a morte, cinco meses
antes, de Magalhdes Barata, o caudilho
que o tenentismo entronizou no Pari.
Barata se estabeleceu no poder com
image, mensagem e pratica inovado-
ras. Buscou o apoio do povo, at6 entdo
apenas uma figure de ret6rica, e a mo-
dernizagao. Comeqou promovendo re-
formas e desfazendo elos sob o contro-
le das elites. Mas logo renovou a politi-
ca plebiscitaria da Repdblica Velha e


2 Jornal Pessoal JULHO DE 2010 10 QUINZENA







dos politicos carcomidos, para os quais
seria a altemativa: quemr nao era a seu
favor, automaticamente era seu inimi-
go. A aceitagao teria que ser incondici-
onal. A divergencia significava inimiza-
de, heresia, crime. Nas tr8s d6cadas de
baratismo, a lei foi potoca. Mas se era
precise aplicd-la, todos os favors aos
amigos do rei; aos inimigos, os rigores.
Nao havia meio termo.
Essa extrema e radical personaliza-
cao do ato politico criou um vicuo. Os
adversarios se defrontavam e se enfren-
tavam com todas as armas. Nao havia
meios tons ou relativismos. O inimigo
representava tudo que nao prestava.
NMo se devia perscrutar por suas quali-
dades, muito menos tentar utilizi-las.
Nao havia composigbes, combinaq9es,
aliangas. A radicalizagdo das lutas pro-
vocou o esvaziamento do piano das id6i-
as, teses e projetos. O que importava
era vencer. O Pard das batalhas e das
guerras pessoais e partidarias era um
vazio de conteido.
Mas o caudilho estava morto. A mo-
tivagdo para tanta violencia desapare-
cera. NMo se justificava mais que a luta
political fosse travada entire dois cam-
pos antag6nicos, do baratismo e do anti-
baratismo. Era precise levantar esses
"acampamentos partidarios" e refazer
as legioes, ajustando-as a um novo tem-
po. Armando Mendes era otimista:
Hoje em dia escrevia ele quei-
ram ou nao alguns chefes politicos re-
conhec8-lo, os votantes comegam a li-
bertar-se do dilema inexorivel a que
foram subjugados durante tanto tempo
- e ji agora substancialmente deterio-
rado para nivelarem no mesmo pa-
dr~o de julgamento todos os Partidos
regionais, e assim escolherem de den-
tro deles o candidate que lhes parega
mais digno.
Mas Armando tamb6m estava cons-
ciente da permanencia das priticas do
passado e por isso previamente lamen-
tava que ela pudesse persistir mesmo
com o desaparecimento de Barata, pra-
ticadas pelos herdeiros dos dois gru-
pos politicos, caso eles viessem a se
langar "pura e simplesmente a criagao
de caudilhos substitutes". Nesse caso,
arriscavam-se a alimentar novos "is-
mos", que nada mais expressariam "se-
nao a capacidade de sorrir, promoter
ou intimidar".
Assim, o Pard continuaria a assistir
"a discussed mais vazia e indtil que a
coisa piblica suporta, e tamb6m a mais


torpe, de vez que ela 6 erigida freqiien-
temente em mero instrument de vai-
dades e proveito pr6prio ou de partilha
dom6stica de benesses, e desaparece
como meio para a consecugqo do Bern
Comum".
Passado meio s6culo dessa andlise,
o Pard mudou ou continue a ser vitima
da mesma politicala de vfcuo" pratica-
da em toda a sua vida republican, corn
graus acentuados em alguns moments?
Os baratistas tentaram manter o bara-
tismo sem o chefe. Iam conseguindo o
objetivo at6 que o golpe military os ex-
purgou. Ao inv6s de a partir dai se rea-
lizarem as melhores expectativas de
Armando Mendes (que assumiu o Basa
por indicaqdo do novo chefe), surgiram
dois novos caudilhos, personagens bi-
frontes com a mesma origem: o coronel
Jarbas Passarinho e o tenente-coronel
Alacid Nunes.
Depois deles, Jader Barbalho. Mes-
mo sem a forga aglutinadora de Barata,
do qual nao deixava de ser herdeiro,
Jader passou a ser o v6rtice da political
paraense. Todos os seus interlocutores
ou antagonistas define a posigdo que
assume nao sobre uma plataforma de
id6ias e projetos pr6pria, mas como ex-
tensdo ou contrafagdo de Jader.
Almir Gabriel justificou os 12 anos
de tucanos no govemo alardeando que
o PSDB nao gravitava em tomo de no-
mes, mas de programs. E que o pro-
grama social-democrata era fazer o
Pard crescer, verticalizando sua produ-
9io, sobretudo a de base mineral. Essa
propaganda comegou a se corroer quan-
do o govemador, por um ato de imp6rio,
de uma tacada liquidou o Idesp, apenas
porque o institute divulgara estatisticas
indesejiveis sobre emprego, que torna-
vam vazia a promessa tucana de criar
400 mil postos de trabalho.
O arremate do descr6dito veio corn
a cizania infantil e vazia entire o criador
e a criatura. Se nomes nao eram impor-
tantes, por que Almir Gabriel transfor-
mou o seu pupilo (e at6 entdo um poste
eleitoral), Simdo Jatene, em razdo da
sua existencia political, para destruf-lo
de qualquerjeito?
Qual o pecado mortal do ex-gover-
nador e at6 entao home de confianga
e amigo do seu padrinho? NMo ter colo-
cado a miquina pdblica a servigo da
nova candidatura do doutor Almir, que
queria ir para o Olimpo como o -inico
politico paraense eleito tres vezes para
o governor do Estado, superando aquele


que era entao o seu espantalho, o ne-
fando Jader Barbalho. Assim como fi-
cou para sempre como frase de Maga-
lhdes Barata que no Pard lei 6 potoca,
a fortune critica da political paraense
preservard ao infinite o pensamento do
doutor Almir, de que governador s6 per-
de eleiq9o nesta terra se for negligente
no emprego dos recursos pdblicos que
administra.
Nessa premissa, Jatene fez corpo
mole e traiu seu benfeitor, nao aplican-
do em seu favor as burras do tesouro e
a gente do aparelho estatal. Neste pon-
to o doutor Almir tem razao. Mas ele
omite que langou sua candidatura sem
ouvir ningu6m, valendo-se para tanto
dos pr6stimos de O Liberal; que atro-
pelou a pretensao legal (no quadro elei-
toral em vigor) do govemador de tentar
a reeleiqgo; e que um dos motives para
o rompimento dos tucanos foi exatamen-
te Jader Barbalho. Jatene se mantinha
mais pr6ximo do Anhanga do que admi-
tia o inquisidor Almir Gabriel. Por isso,
mereceu o tratamento de traira.
Como ficam esses juizos de valor
agora que o doutor Almir esti no mes-
mo palanque de Jader, apoiando o can-
didato do PMDB que dispute o cargo
contra o candidate do PSDB? O que
fez o doutor Almir mudar de rumo, de-
pois de se ter despedido por duas vezes
de correligionarios e amigos (mas s6 dos
que foram convidados para testemunhar
o ato), confessando-se desiludido cor
a political (e o pr6prio Estado, j que foi
morar em outro domicilio)? Nenhuma
razao de fundo foi apresentada para o
contorcionismo. O que o motivou foi
pessoa, passional, eg6latra.
Quando disputou pela terceira vez o
governor, depois de tres mandates se-
guidos do PSDB, o doutor Almir igno-
rou a conjuntura e ficou cego para as
evidencias. Aopinido dominant no elei-
torado era favorivel A gestdo dos tuca-
nos em si, mas contriria aos seus efei-
tos. Qualquer que fosse a sentenga in-
dividual sobre esses 12 anos de uma
administracao elitista e auto-suficiente,
refrataria ao povo, era evidence que o
Pard a considerava coisa do passado,
da hist6ria. Queria agora algo novo.
Almir Gabriel estava muito long de
personificar essa busca pela novidade.
Talvez, se Simao Jatene fosse o candi-
dato, trazendo consigo a mfquina ofici-
al, o resultado da votagdo tivesse sido
outro. Talvez Jader Barbalho nao lan-
CONCLI NA PAG 4


JULHO DE 2010 la QUINZENA Jornal Pessoal 3








0 trauma amaz6nico:

as estradas de rodagem


O acontecimento mais traumitico na
hist6ria da Amaz6nia, depois (e por cau-
sa) da chegada dos europeus, foram as
estradas de rodagem. A presenqa do co-
lonizador branco na regiao tem meio mi-
e1nio. Ados habitantes primitivos, chama-
dos pelos europeus (impropriamente, como
de regra) de indios, mais de 10 milenios.
As estradas sao um fato de apenas meio
s6culo. Mas demarcaram o tempo ama-
z6nico, que pode ser descrito como antes
e depois delas. Depois, o dildvio.
Sua marca mais profunda 6 a de nao
admitir retomo. A hist6ria que existiu antes
delas p6de ser refeita. A atual 6 definitive,
irremediivel. A Amaz6nia at6 ji teve pre-
senga mais visivel no mundo, quando era a
lnica fomecedora de borracha natural para
a nascente inddstria. Essa hegemonia des-
moronou quando, na Asia, outros coloniza-
dores europeus conseguiram a goma el-s-
tica em muito maior quantidade e a prego
incomparavelmente menor.
A floresta native voltou entio a ocu-
par os caminhos abertos pelos seringuei-
ros, que se espalharam pela regiao ou
voltaram as suas terras de origem, no
Nordeste, 6 claro.
Mesmo quando os antigos seringais
abandonados foram reativados para for-
necerem de novo borracha, agora para os
pauses Aliados, que combatiam as potanci-
as do Eixo, durante a Segunda Guerra
Mundial, a paisagem antiga foi recompos-
ta, como se o epis6dio n2o tivesse existido.
Tanto que a area alterada pelo home
naAmaz6nia nao ia al6m de meio por cen-
to da superficie da region quando, nos anos


50 do s6culo passado, duas estradas par-
tiram da nova capital federal no rumo no-
roeste, at6 o Acre, e norte, para Bel6m
do Para. Pela primeira vez o Brasil se unia
por terra a uma parte do pals at6 entao
considerado e tratado como naqao
independent, a antiga provincia do Grio
Pard e Rio Negro. Parte que representa-
va quase dois tergos do todo, mas era
como se nao existisse.
Juscelino Kubitscheck, o Washington
Luis da Reptiblica Nova ("govemar 6 abrir
estradas", proclamou o president paulis-
ta, o iltimo antes da revolucao de 1930),
queria criar em cinco anos um Brasil para
meio s6culo. Na mem6ria que escreveu
sobre seu qtiinqiienio, disse sem qual-
quer travo de arrependimento que o
objetivo de suas rodovias era abrir um sulco
na floresta para que o novo bandeirante
fosse al6m, transformando o cendrio.
Ainda se vivia sob a mistica da "corri-
da para Oeste", para as terras ignotas e
livres. Nelas, o habitante do Brasil mais
velho poderia, finalmente, realizar seus so-
nhos de se tomar um proprietdrio rural e
se integrar ao espaqo economic nacio-
nal. Bastava chegar ao novo mundo para
sofrer a sdbita mutaqo, embora A custa
de muitos trabalhos e sacrificios na exe-
cuqdo da tarefa de por a mata selvagem
abaixo e convert8-la em ectimeno, o es-
pago do home, o mais feroz dos animals
que povoaram a Terra.
Apesar das projeq6es grandiosas de
JK, o capitulo amaz6nico da sua utopia
desenvolvimentista ficou sendo um de-
talhe. Ainda admitia a conciliaSgo entire


o passado e o present. ApopulaCgo cres-
ceu bastante, muitas dreas pioneiras fo-
ram desbravadas, a fronteira se expan-
diu. O personagem principal, por6m, con-
tinuava a ser a natureza. A faganha do
home era uma aventura quase indivi-
dual, incapaz de dobrar a portentosa con-
jungdo dos poderosos elements.
Movidos por uma geopolftica mais
agressiva e um compromisso mais deci-
dido corn a empresa privada, os milita-
res vieram a seguir para multiplicar as
dimens6es da intervengao promovida
pelos presidents populistas anteriores a
1964. Agora havia uma razdo categ6ri-
ca, a impor o ritmo acelerado das obras
e a sua aceitacgo pela sociedade: a dou-
trina de seguranga national.
Novos eixos rodovidrios surgiram, mai-
ores e mais agressivos do que a Bel6m-
Brasilia e a Brasilia-Acre, rasgando o inte-
rior, at6 as terras altas amaz6nicas, at6
entdo inacessiveis. A propaganda do go-
vemo dos generals exaltava o carter 6pi-
co da Transamazonica, destacando que os
americanos, na lideranga de outra grande
aventura humana, a conquista da Lua, de
1i de cima s6 podiam perceber duas obras
construidas na Terra: a muralha da China
e a Transamaz6nica.
Podia-se pedir venia aos guardi6es da
seguranga national para fazer uma com-
paragio pertinente entire as duas obras, A
revelia da aceitagao por esses senhores da
analogia s6 que invertida. A imensa mu-
ralha da China fora erguida na presungo
de que manteria do lado de fora os bdrba-
ros, numa antecipag~o, A oriental, da triste


coNCLUSAO DAPAG 3
9asse seu candidate. Certamente Ana
Jdlia Carepa nao se apresentaria A dis-
puta. E se fosse lancada, 6 pouco pro-
vivel que ganhasse.
Quando Almir Gabriel se declarou
A beira do gramado, de meido e chu-
teira, pronto para entrar no jogo, Jader
percebeu na hora que ali estava a opor-
tunidade da revanche. Foi a Lula, con-
venceu-o a arrastar Ana Jdlia para o
picadeiro, lanqou Priante na arena, ga-
rantiu o 2 tumo e preparou o buraco
para o seu antigo aliado (em 1985,
quando o colocou na prefeitura de Be-
16m, o entdo secretario de Saude, pou-


co mais do que um poste eleitoral). Ar-
rematou a vinganga, que gosta de sa-
borear gelada, fazendo o doutor Almir
subir no palanque de Domingos Juve-
nil, ao seu lado.
E Ana? Sim, na perspective de Ja-
der, Ana Jdlia Carepa era um detalhe.
Politico ladino como poucos no Brasil
dos nossos dias, o cacique peemedebis-
ta sabia que os compromissos nao seri-
am honrados, que ciladas seriam arma-
das por tris das declarag6es de amor e
que, no final, seria um desastre. Ana
J6lia podia se tornar o pior governante
da hist6ria do Pard, um dos mais rejei-
tados pela populacgo. Mas af o PMDB


estaria do outro lado, sem sair de muito
perto do popularissimo Luis Inicio Lula
da Silva. Para o que der e vier no 2
turno, cor o aval da "contradigdo am-
bulante". Para circular no mesmo eixo,
de volta ao future imperceptivel. A po-
litica do vicuo, velha de um s6culo.
Os franceses tnm uma frase perfei-
ta para definir essa situagco: plus Ca
change, plus c'est le meme. Em tra-
dugdo parauara, quanto mais muda,
mais fica na mesma. Por isso o Pard
continue sendo o Estado de.maior po-
tencial do Brasil. E sempre mais pobre.
Para esta obra, nao se pode negar, mui-
to contribuem os politicos.


4 Jornal Pessoal JULHO DE 2010 1 QUINZENA


- I I =--I ---II~ -~-- C _--- 4 ----C---~--IIIC-- ----- s~-~







Linha Maginot dos franceses. Ja a Tran-
samaz6nica, ser querer, se transformaria
no caminho dos barbaros.
Nao de birbaros estrangeiros nem
auto-assumidos. Barbaros por inadverten-
cia, despreparo, circunstincia. Tanto o
Jodo da Silva quanto a sociedade an6ni-
ma, atraidos para a regiio por promessas
idilicas ou recursos bem sonantes, eram
constrangidos a destruir e transformar,
cada qual na sua devida escala, pelo go-
vemo ou por sua pr6pria cultural, a cultural
de um Brasil estranho A Amazonia, dela
completamente desligado por tres s6cu-
los de isolamento ffsico.
Antes de tudo, era precise colocar a
floresta abaixo. O esforgo do pioneiro s6
seria reconhecido se ele conferisse valor
A terra que ocupava. O instrument de
avaliacgo era o VTN (Valor da Terra
Nua), utilizado pelos organismos oficiais
para selar com a estampilha legal a pre-
tensao de posse do ocupante. Quanto mais
desnuda da sua cobertura original, mais
valia a terra, agora inserida num novo
context. O desmatamento era a tradu-
cao alucinada da benfeitoria, atestando o
trabalho realizado pelo ocupante.
Nao mais na moldura da comunidade
isolada ou do mercado pr6ximo. Na ponta
da linha estava a necessidade de tender a
um numero muito maior de consumidores,
corn uma demand crescente. O alvo des-
sa ofensiva, da qual resultou o maior des-
matamento j praticado em toda a hist6ria
da humanidade, no curto period de 50
anos, era o mercado ainda mais distant,
de al6m-mar.
Nao por acaso, logo a fronteira imen-
sa se fechava por dentro. A latifundiari-
zagao no papel, muitas vezes produto de
simples e audaciosa grilagem, era arre-
matada pelo cano da pistola ou do canhao.
O colono, que cruzara os espaqos para se
tomar proprietario, virou posseiro e, ago-
ra, assentado, client do agrarismo de
compadrio dos companheiros. O que era
do home, o bicho comeu.
A floresta era derrubada, os animals
mortos, o ambiente desfigurado, as co-
munidades nativas desorganizadas, a
cultural local corroida para que desse
anacronico Eden resultasse um volume
crescente de divisas, de moeda forte, o
d6lar. Seria produzido o que o compra-
dor quisesse, como lhe fosse mais lucra-
tivo. Apredestina~ o geopolitica do Brasil
Grande assim o exigia.
Como suprir a falta de poupanga real
no pafs para alimentar o crescimento eco-
n6mico acelerado se o consume se sus-


Os exemplares das edic6es de O Li-
beral e do Didrio do Pard circularam no
dia 27 corn um cinto de seguranga. A pre-
texto de contribuir para a seguranqa do tri-
fego de veiculos em ruas e estradas, a an-
tiga Companhia Vale do Rio Doce presen-
teou os dois principals grupos de comuni-
caqo cor esse mimo publicitrio, com-
plementado por um andncio de media pagi-
na dentro dos jomais. Como golpe de ma-
rketing, a peqa foi muito inventive: reno-
vou o compromisso assumido pela imprensa
corn a maior corporagao privada do pals e
a empresa mais important do Estado, sob
ajustificativa de prestar um servico de uti-
lidadepdblica.
Foi um aut8ntico cinto de seguranga
para a Vale, garantindo-lhe a manuten-
9o da inviolabilidade na grande impren-
sa. E a execugio daquela political confes-
sada involuntariamente, alguns anos atr6s,
pelo entao ministry Rubens Ricdpero: o
que 6 bom a gente mostra; o que 6 ruim, a
gente esconde.
AVale costuma ter iniciativas com essa
criatividade. Como o plantio de 6rvores em
Carajds em nome nao s6 de pessoas gra-
tas a casa e dela pregoeiras no mercado e
junto a opinion pdblica, mas tamb6m de seus
critics. Quem n2o fica sensibilizado por
esse gesto, que traduziria o espirito demo-


tenta no cr6dito e, este, de preferencia, no
tesouro national? Agregando ao process
produtivo do Brasil mais antigo as riquezas
da sua vastissima fronteira, caracterizada
pela abundancia de recursos naturais. Re-
cursos dos quais o mundo se tomava ca-
rente por nao possuf-los ou nao se dispor a
investor o necessario para t&-los A disposi-
9io de forma sustentivel.
Do moment em que os grandes eixos
rodoviirios foram abertos ao trifego at6
hoje, as exportagoes da Amaz6nia cresce-
ram mais de 100 vezes. Como se tivessem
dobrado a cada semestre, concentradas
quase integralmente em dois dos nove Es-
tado, o Pard e o Mato Grosso (ji agora
mais para Mato Fino). Algumas dessas ri-
quezas, a maior delas que nem native 6,
como a soja, podem ser recicladas. Outras,
como os min6rios, os de maior peso no co-
m6rcio intemacional da region, nao dao uma
segunda safra. Vdo e nunca mais voltam.
O saque nesse almoxarifado, queji foi
batizado (por Humboldt) como "o celeiro


critico da mineradora e seu reconhecimen-
to pelo valor do homenageado?
Talvez embalada pelos efeitos dessa
id6ia, a empresa desandou a fazer home-
nagens, de certa forma vulgarizando (e tam-
b6m desvalorizando) o ato, tirando-lhe a
condiqao merit6ria. Mas tudo bem: fazia
bem (e nao comprometia) saber que uma
arvore crescia A margem da exaustAo do
min6rio de ferro de Carajds, como sua con-
trapartida, associada a um padrinho.
No mes passado, por6m, nao sem sur-
presa, descobri que minha drvore ji nao
estava mais cadastrada no espago do por-
tal da Vale. Insisti na busca, mas foi indtil.
Consultei a assessoria de imprensa no Rio
de Janeiro e em Bel6m sobre o destino da
"minha" arvore. NMo tive uma resposta,
mas me prometeram investigar. Passadas
tr8s semanas e nada.
A falta de retomo, em contrast com a
habitual efici8ncia da Vale nessa mat6ria,
me impoe este registro. Divido com meu
leitorminha cobranga quanto ao destino que
teve minha arvore no ji vasto plantio he-
raldico que a empresa criou em Carajs,
talvez, corn essa multiplicagio, pulverizan-
do tanto as homenagens que o desapareci-
mento de uma nao afeta mais o conjunto.
Se minha drvore morreu, que esta nota Ihe
sirva de fita amarela.


do mundo", tem o tamanho de 700 mil qui-
l6metros quadrados, tr8s vezes o tamanho
de Sao Paulo. Um dos Estados, Rond6nia,
pugna pela sua exclusdo daAmaz6nia por-
que o desmatamento j ultrapassou o limi-
te legal do C6digo Florestal. Quer ser in-
corporado ao Centro-Oeste, como tam-
b6m, de forma menos explicit, Mato Gros-
so. De fato, embora ainda nao de direito,
nao sao mais Amazonia.
Por ironia, um dos maiores her6is do
Brasil, o marechal CUndido Mariano Ron-
don, descendente dos sibios habitantes
primitivos daAmaz6nia, impropriamente
chamados de indios pelo vitorioso colo-
nizador europeu, imprimiu sua marca nes-
ses dois Estados cor uma epop6ia: a ex-
tensdo das linhas de comunicaqgo que
colocaram a Amaz6nia em contato men-
tal com o Brasil. Sem destruir a frontei-
ra nem seu habitante. Rondon estava dis-
posto a morrer, se fosse precise, mas
matar, nunca. Seu lema, o p6 das estra-
das encobriu.


JULHO DE 2010 a1 QUINZENA Jornal Pessoal 5


Cinto de opiniao


11111 -3 1 L- 11111 I -i I








As verdades amaz6nicas


O tema brasileiro de maior interes-
se no mundo atualmente nao 6 o sam-
ba, Pel6, carnaval, mulata, Rio de Ja-
neiro ou mesmo o carismatico presi-
dente Lula: 6 a Amaz6nia. No moment
em que o caro leitor me 18, um ou viri-
os eventso" estao sendo realizados em
algum ou em varios pauses sobre a
Amaz6nia.
Ela tem sete milh6es de quil6metros
quadrados: 6 praticamente do tamanho
dos Estados Unidos e da Europa Oci-
dental. Estende-se por nove pauses da
Am6rica do Sul. Abriga a maior bacia
hidrografica e o maior rio do planet, o
Amazonas. Tem um tergo das florestas
tropicais que ainda cobrem a Terra, as
mais ricas em biodiversidade. Dela saem
todo ano dezenas de milh6es de tonela-
das de recursos naturais, na forma de
mat6rias primas e insumos basicos, que
abastecem mercados espalhados pelos
continents.
Sua populag~o ainda 6 pequena, mas
ja soma mais de 30 milh6es de pessoas.
A maior parte dela esta concentrada no
Brasil, onde ficam dois tergos da Ama-
z6nia continental, que representam tam-
b6m dois tergos da area do pais.
Por suas dimensoes e pelo que nela
esta contido, a Amaz6nia interessa a


todos e preocupa a muitos. Num mun-
do superpovoado e com car8ncia de
recursos naturais, tinha que se infiltrar
cada vez mais na agenda mundial. Nao
6, por6m, um tema sobre o qual as pes-
soas costumam se interessar com sere-
nidade, perspicacia e conhecimento de
causa. A Amaz6nia 6 misteriosa, fasci-
nante, desafiadora. Sobretudo porque,
muito debatida, 6 tao pouco conhecida.

aramente quem se
interessa por ela se
disp6e a observa-la,
estuda-la e aprender de
fato. Poucos dos tantos que se inte-
ressam chegam a visiti-la. Nao s6 por
ser distant, de acesso mais dificil e caro.
Tamb6m porque a regiao costuma pro-
vocar no interessado uma attitude passi-
onal, extremada, emotional.
Ele chega ao tema com verdades
prontas e acabadas, mesmo que oriun-
das de boatos, fantasias e mitos. Como
um papel vazio, a Amaz6nia tudo acei-
taria. Exatamente por ser uma area
nova, enorme, pouco povoada, malmente
conhecida. Bastaria ter em mente meia
ddzia de id6ias sobre biopirataria, colo-
nialismo, cobiga international, agua ou
floresta para encaixar qualquer teoria


Jornal


O marcador de numera9do de O Li-
beral do dia 27 registrava aquela como
a 32.913" edigSo do journal. A folha dos
Maiorana tem 63 anos de vida, 44 dos
quais sob o control da familiar (e 19 como
6rgao official do PSD de Magalhaes Ba-
rata). Logo, 6 impossivel que tenha cir-
culado o nidmero de vezes consignado
todos os dias no alto da sua primeira pi-
gina. Para que a numeracao fosse cor-
reta, seria precise que o journal circulas-
se ininterruptamente, sem falha alguma,
os sete dias da semana (o que nao acon-
teceu em parte da sua hist6ria) e que o
ano tivesse 522 dias. Se fosse as ruas
sete vezes por semana, a numerag~ o cor-
reta tinha que ser, no iltimo dia 27, de
22.995 edigoes, 10 mil a menos, na me-
Ihor e irreal das hip6teses do que o
que 6 apregoado pelo journal.
Ja apontei diversas vezes esse erro
clamoroso. Por que os Maioranas nao


o corrigem? Porque sao divinos e nao
erram? Porque admitir o erro Ihes 6 inad-
missivel? Ou porque desprezam a opi-
niao puiblica, da qual tiram seu sustento
e seus excesses?
Nao se trata de prevengao ou pro-
vocagao. Se umjornal nao respeita sua
pr6pria hist6ria, como pode reivindicar
credibilidade ao seu leitor? Como pode
considerar com seriedade a vida soci-
al e as suas responsabilidades? Se
mente diariamente no mais simples e
elementary, nao sera capaz de mentir
em tudo mais?
Ja que os donos de O Liberal, devi-
damente alertados sobre o erro crasso,
se recusam a sani-lo, cabe aos leitores,
em contingent cada vez menor, cobrar
o que Ihes 6 devido: que o journal seja
um conjunto de fatos relevantes e de
interesse coletivo, nao um conto da ca-
rochinha. Muito sem graga, alids.


nessas premissas. Sobre-
tudo a teoria conspirat6ria.
Este artigo, que saiu no
site do Yahoo, provocou
exemplos A larga desse
generoso mas mal infor-
mado e irrefletido inte-
resse pela Amaz6nia. To-
dos os leitores que levaram
a s6rio a denincia feita por
uma advogada capixaba
sobre o roubo de Agua do
rio Amazonas por navios
estrangeiros jogariam no
lixo o que escreveram se
lessem o artigo que, logo
em seguida, Antonio Feliz Domingues,
assessor de articulagSo e comunicagao
da Agnncia Nacional de Aguas (ANA)
publicou no journal O Estado de S. Pau-
lo. Ele afastou o fantasma da hidropi-
rataria com informagres e andlises se-
melhantes as apresentadas nesta colu-
na, aprofundando dados especificos.
Levar a s6rio essa fantasmagoria
"acaba desviando a atengao de proble-
mas reais, como a insuficiencia da co-
bertura da rede de agua tratada para as
populacges amaz6nicas", disse ele. Por
paradoxal que seja, esse fndice de aten-
dimento, justamente onde se localiza a
maior de todas as bacias hidrograficas,
6 o mais baixo do Brasil.
O roubo de agua bruta da Amaz6nia
para transporti-la, trata-la no local de
destino, cuja distincia se mede por mi-
lhares de quil8metros, e fornec6-la aos
consumidores represent um custo in-
capaz de permitir o lucro pelo pirata.
Logo, nao tem viabilidade econ8mica.
Portanto, nao 6 factfvel. Ao menos hoje.
No future, quem sabe?
Mas quem foi atraido pela noticia
pode aproveita-la como impulso para
atacar inimigos reais, operatives, ao in-
v6s de combater quixotescamente moi-
nhos de vento (ou de agua, no caso).
Um problema concrete 6 o do uso da
agua como lastro pelos navios.
Tao concrete que em 2004 a ONU
(Organizagdo das Naqoes Unidas) ado-
tou uma convengao para prevenir a po-
luigao quando os navios bombeiam a
agua que tem e captam aquela de que
precisam. Nessa troca, provocam da-
nos ambientais que podem ser avalia-
dos por dados fornecidos por Antonio
Domingues: todos os anos essa opera-


6 Jornal Pessoal JULHO DE 2010 1- QUINZENA


I I ~- --LICI








as visagens utilitarias


qao movimenta 5 bilh6es de
toneladas (ou de metros
cibicos) de agua, que de-
vem causar prejuizos glo-
bais de 100 bilhoes de d6-
lares (quantificando-se o
dano ecol6gico, que, em
geral, nao entra no calculo
econ8mico).
Quanto desse enorme
prejuizo 6 causado no Bra-
sil e, especificamente, na
Amaz6nia? Ningu6m sabe.
Mas eis ai uma presungao
de verdade que esta muito
long de ser fantasmag6-
rica. S6 do Pard, quarto maior Estado
exportador do pafs, entire 130 milh6es e
150 milh6es de toneladas de riquezas
naturals (predominantemente as mine-
rais) foram levados para outros paises
no ano passado.
Se, apenas para efeito de cilculo,
se consider uma m6dia de 50 mil to-
neladas por navio (cinco vezes menos
do que a quantidade de agua do navio
pirata apontado pela advogada capixa-
ba), s6 para o escoamento dessa ex-
portagdo penetram na bacia amaz6ni-
ca tres mil grandes navios (para o pa-
drao da navegagao regional) por ano.
Ou quase 10 por dia.
E um movimento expressive. Uma
das rotas de mais intense trifego avan-
9a quase mil quil6metros Amazonas
adentro. E a que vai at6 Porto Trombe-
tas, no Para, onde funciona uma das
maiores minas de bauxita do mundo,
usada para a produgdo de aluminio.
A produgio da Mineragio Rio do
Norte, controlada pela antiga estatal




Crase

Quem vai pegar sua mala na es-
teira do aeroporto de Bel6m v6 duas
simula96es que por 1I circulam corn
a propaganda do grupo Y. Yamada.
t um eficiente recurso de marke-
ting. A exigir uma correeao: tirar a
crase do "bem-vindo A Bel6m".
Nem a malfadada reform recent
da lingua autoriza o uso. E, como jd
advertiu o bardo, a crase nao foi feita
para humilhar ningu6m.


Companhia Vale do Rio Doce, nao p6de
ir al6m de 18 milh6es de toneladas de
min6rio porque o rio nao comporta mais
navios. O Trombetas, um dos mais be-
los rios da Amaz6nia, rendilhado por la-
gos, foi o primeiro a sofrer congestio-
namento de trifego. Record negative
que nao esti nos almanaques de conhe-
cimentos e curiosidades.

G governor tem acom-
Spanhado esse cresci-
mento vertiginoso
da navegagpo interior ama-
z6nica por grandes navios
internacionais, que fazem o
fluxo de trocas de mereado-
rias pelo mundo? Claro que
nao. Mesmo sem fazer maiores pes-
quisas, basta subir num barco regional,
com capacidade 100 vezes inferior A
m6dia do transport de alto mar, para
verificar que a fiscalizagSo, quando
existe, 6 deficiente.
Essa falha gritante e grotesca -
nao significa que os cargueiros de ban-
deira estrangeira estejam nos roubando
agua (em sua condido bruta, ainda nao
potivel, 6 bom nao esquecer). Nao fa-
zem hidropirataria porque nao tern va-
lor commercial, nao gera lucro.
Mas podem estar poluindo nossos
rios, podem estar despejando igua sal-
gada em agua doce e outras transgres-
s6es legais, perfeitamente detectives,
puniveis e passiveis de inibiqgo corn mais
- e tamb6m melhor presenga estatal.
Outros ilicitos estlo ocorrendo roti-
neiramente, sem qualquer ligagdo corn
a troca de lastro pelos navios interoce-
anicos. Os acidentes fluviais, por exem-


plo, que s6 merecem alguma atencao
quando causam uma quantidade maior
de vitimas.
Talvez para quem ve a Amazonia de
fora, agora com mais freqiijncia atris
de uma tela de computador, esse tipo
de acontecimento nao interessa. Nao
tem glamour, nao provoca fantasias, nio
suscita a imaginaqao. Mas para milha-
res de pessoas que, todos os dias, vao
de um lado para outro da regiao nas
pequenas embarca96es, os motorses,
esta 6 uma questdo literalmente vital,
de vida ou de morte.
Para 40% da populagao amazoni-
ca, conjecturar sobre base falsa, ilus6-
ria ou ficticia se a agua do Amazonas,
que chega ao mar, numa freqiiencia de
60 mil metros c6bicos por segundo
(quatro vezes mais no pique das en-
chentes), esti sendo bombeada para os
pores dos navios para saciar a sede
de um povo qualquer distant, nao tem
p6 nem cabeqa. Esses oito mil amaz6-
nidas precisam de agua para beber e
nao a recebem.
Ha agua demais por todos os la-
dos, mas falta o governor para trati-la
e oferec8-la A populaqao nas tornei-
ras, com a garantia de que o consu-
midor nao tera problems de safide,
como a febre tif6ide, extinta no mun-
do civilizado, mas ainda present na
Amaz6nia. Ela tem o mais baixo indi-
ce de acesso A igua tratada no Bra-
sil, onde a m6dia de nao atendimento
6 quatro vezes menor, de 10%.
Esta 6 uma realidade amaz6nica que
merece mais indignacao do que o mito
da hidropirataria. Para criar, ao inv6s
de apenas fabular.


Corregoes

Vic Pires Franco se elegeu deputado federal pela primeira vez em 1994, dois
anos depois de comerar a carreira como vereador de Bel6m, sem concluir o seu
primeiro mandate, e nao em 1986, como saiu na edigio passada.
Na mat6ria sobre Paulo Francis, pensando em Caio Blinder, cometi um erro
imperdoavel (para o PF): escrevi que Caio Tilio Costa era um dos companheiros
de Francis no program Manhattan Connection. Tdlio era apenas um dos maio-
res desafetos dele. Trocaram farpas e ofensas quando o indigitado era o ombuds-
man da Folha de S. Paulo.
O caf6 Manduca ficava na esquina da 13 de Maio corn a Campos Sales, ponto
de encontro de politicos e jornalistas at6 a d6cada de 60. A sede da Academia
Paraense de Letras ficava a duas quadras, no caminho para o Caf6 Albano, vizi-
nho do Palacio Ant6nio Lemos, que tamb6m atendia na 6poca por Palacio
Azul.Perdao, leitores.


JULHO DE 2010 la QUINZENA Jornal Pessoal 7













TAXIMETRO
Em novembro de 1959 o
Conselho Regional de TrAn-
sito autorizou a introdugao do
taximetro em "carros de alu-
guel" de Bel6m. O prego
abusive que entao era cobra-
do pelos motorists de taxis
da cidade criou um clima fa-
vorivel a aprovagao do pe-
dido de Antonio da Silva
Quingosta. Ele colocaria
para circular cinco autom6-
veis DKW-Vemag, que co-
megavam a ser fabricados
no Brasil, na onda da indus-
trializagdo de Juscelino Ku-
bitscheck. Alguns considera-


ram alto o valor da bandei-
rada, a 10 cruzeiros, e do
quil6metro rodado, a 15. Mas
acabaram aceitando a tabe-
la porque as corridas livres
eram mais caras. Foi dado
um prazo de 180 dias para
as verificaqSes e ajustes.

ESCLARECIMENTO
Em 1960 os herdeiros do en-
genheiro Rui Luiz de Almei-
da publicaram uma nota na
imprensa para esclarecer que
nao tinham qualquer relagao
cor o contrabando apreen-
dido pela alfindega na pro-
priedade da familiar, na Es-


17,00 PADRAO
17,25 ABERTURA
17,30- HORARIO DO T. R E.
18,40 ENTREVISTA
19,10 TODOS OS ESPORTES Patrocinio de Impor-
tadora Braga
19,25 TAPETE MAGICO
19,45--PASSATEMPO Patrocinio de Grafica Faltn.
gola Editora
20,15 REPORTER MARAJOARA Patrocinio de
Banco Comercial do Para
20,30- TV DE ROMANCE ("Eug6nia Grandet") Pa-
trocinio de Tecidos Lua
20,50--ROBERT TAYLOR DETETIVE Patrocinio de
Climax-Champion
21,20 IMAGENS DO DIA
21,40 COMEDIAS DA CIDADE
22,10-ALFRED HITCHCOCK Patrocinio do Banco
Moreira Gomes S A
22,40 ENCERRAMENTO


trada Nova, em Bel6m. Dis-
seram que um home con-
seguiu penetrar na area de-
pois de subomar o vigia.
"Vivamente indignados pela
ausencia de escripulos de
individuos desclassificados,
que, valendo-se de meios
como o suborno, invadem a
propriedade alheia para seu
com6rcio illegal a nota fa-
zia o esclarecimento "a fim
de que nao pairem dividas
sobre qualquer responsabili-
dade dos herdeiros ou da id6-
nea Firma, da qual fazem
parte".
O contrabando era entao
uma instituigao paraense.
Mas continuou vivo mesmo
cor a repressao dos milita-
res a partir do golpe de 1964.
Em 1965 o truculentamente
famoso tenente Lauro Via-
na apreendeu 75 sacas de
caf6 semi-torrado em grdo
na estagdo central da estra-
da de ferro do Tocantins, em
Tucuruf. O caf6 fora trazido
clandestinamente de Goids
provavelmente para ser co-


mercializado nas Guianas. A
ferrovia, que fazia o contor-
no do trecho nao navegivel
do rio, vivia seus estertores.

MADEIRA
Um artigo escrito na Folha
do Norte por M. (Joao Ma-
lato) em 1960 protestava con-
tra o uso predat6rio das ar-
vores de ucudba e andiroba,
"reduzidas a gravetos para
fogoes, ou transformadas em
tabuadas para assoalho de
barracoes e barracas". Ao
inv6s de queimarem como
lenha "para aquecer fomos
de cozer pdo e caldeiras de
movimentar maquinas a va-
por". Essas esp6cies preci-
osas, consumidas em pada-
rias e navios a vapor, devi-
am ter uso mais nobre, con-
tribuindo para a balanga co-
mercial do Para, "pelo volu-
me de 6leo e sabio vegetal
que fomecem a nossa indis-
tria de sabres".
Como, no entender dojoma-
lista, a ucuibeira "6, talvez,
o pior tronco que habitat as


PROPAGANDA

TV de ontem

A programaado de uma sexta-feira da TV Marajoara, a
primeira e entdo ainda a unica emissora de television do
Pard, em setembro de 1962, se estendia por seis horas,
das cinco da tarde as 11 da noite, "cortezia" de Radiolux
(cor "z"). 0 primeiro program, em plena 9poca de
campanha eleitoral, era o hordrio do TRE. Seguia-se uma
entrevista e o noticidrio de esportes. Depois dois
enlatados e o noticioso local. 0 teleteatro tinha 20
minutes de duracao, tudo ao vivo. A peCa se baseava no
romance Eugenia Grandet, de ningudm menos do que o
bardo frances Honord de Balzac (pode-se imaginar
Balzac na telinha nos nossos dias?). Mais um enlatado,
da sdrie em que o gala Robert Taylor fazia um
convincente detetive, e dois programs locais, cor
imagens da cidade e humorismo. E a sdrie de ningudm
menos que Alfred Hitchcock, o sofisticado mestre do
suspense. Quase ao meio, tres horas de video-tapes e tres
horas de geragdo local, algo impensdvel hoje. 0 glace
ficou incomparavelmente superior Mas e conteddo?


8 Jornal Pessoal JULHO DE 2010 P1 QUINZENA


ME9M6RIA


I



WWI--*-













Sestd nas bancas e livrari-
.as o segundo volume da
Mem6ria do Cotidiano, a seqio
mais lida por parte dos leitores
do Jornal Pessoal. Junto com
o volume anterior, acho que os
dois livros permitem uma visdo
mais intima e sempre individua-
lizada da hist6ria de Bel6m e do
Pard durante o s6culo XX, so-
bretudo na sua segunda meta-
de. A boa receptividade A pri-
meira iniciativa reforgou o com-
promisso de langar uma nova
coletanea dos textos, fotos e
ilustrag5es do JP. O apoio do
amigo Reginaldo Cunha contri-
ibuiu para viabilizar a empreita-
da, transformando-a em um
acontecimento de final de ano.

N- i


FOTOGRAFIA

0 moment hist6rico


Um flagrante hist6rico: em 29 de outubro de 1959 se encontraram as tres frentes que
construiam a rodovia Belim-Brasilia a partir de Goids, do Maranhdo e do Pard.
Doze tratores das tres frentes convergiram para o mesmo ponto da entdo BR-14. Um
avido da FAB levou de BelMm as autoridades que testemunhariam a faganha. Note-se
que a abertura ainda era precdria, trafegdvel apenas pelas mdquinas pesadas. Ao
fundo, as drvores de grande altura da floresta native, hoje completamente
expurgada das margens da estrada por uma ocupagdo predatdria.


Mem6ria
santarena
Bancas e livrarias de Bel6m ji
disp6em de exemplares do meu
livro, Mem6ria de Santardm,
editado pelojornal O Estado do
Tapajj6s, de Miguel Oliveira.
Registros da hist6ria de Santa-
r6m e do Baixo Amazonas nos
s6culos XIX e XX.


nossas florestas", nao propi-
ciando boa madeira nem sen-
do combustivel rentivel, de-
via continuar a ser posta abai-
xo para a produgdo de "cen-
tenas, senio milhares de qui-
los de sebo ou 6leo vegetal,
que a indistria deixa de re-
ceber todos os anos, com
repercussoes danosas na
economic do interior e na
receita estadual".


M. lembrava que municipios
outrora grandes exportado-
res, como Abaetetuba, Pon-
ta de Pedras, Barcarena,
Moju, Portel ou Igarap6-Miri,
"nao possuem, hoje, sequer
uma arvore dessas esp6cies
preciosas".
De fato, a ucuiba 6 uma
esp6cie em extingdo na foz
do Amazonas e do Tocan-
tins. Nao s6 pelos usos pra-


ticados nos anos 60, mas -
e, sobretudo, em tempos
mais recentes pela explo-
ragao madeireira, que o cro-
nista considerava impossi-
vel. Nao sem motivo, a ar-
vore amaz6nica foi rebati-
zada de virola para ter acei-
tagdo plena no mercado in-
ternacional, que engoliu mi-
lhares e milhares de metros
cibicos dela.


JULHO DE 2010 1a QUINZENA Jornal Pessoal 9











CHICO E SERGIO
A carta do Marion Aratjo,
reproduzida abaixo, uma das
mais extensas de todos os
tempos, merece a publicagoo,
por seu conteddo. E, no verdade,
um artigo, motivado por minha
matiria da edifgo passada sobre
Sergio Buorque e Chico Buarque.
Suprimi apenas algumas citagoes
e adendos. Do contrdrio, nao
sobraria espago para mim.

P ela primeira vez, li uma
mat6ria sua em que eu j6
tinha lido/assistido/ouvido a
quase totalidade das referen-
cias que voc@ fez (excecgo ao
texto do Kafka). Bom, eu assis-
ti no ano passado, duas vezes,
a cinebiografia do S6rgio Bu-
arque [de Hollanda] e acho que
todo mundo fica impressiona-
do cor a qualidade do docu-
mentario. Esta muito bom. 0
depoimento do Antonio Candi-
do 6 algo extraordinArio, a um
s6 tempo, informative e afetu-
oso. Aquela mengao ao papel
que Maria Amelia teve na cons-
trug5o daquilo que foi o S6rgio
intelectualmente 6 verdadeira-
mente algo muito important
do ponto de vista sentimental
e informative.
Afeto e sentiment que de
cara se senate terem faltado ao
Chico quando fala do pai e
creio at6 que ele nao faz ques-
tao de esconder o que senate.
Dizer s6 aquilo do pal parece
ser uma postura no sentido de
significar "foi s6 isso que ele
foi pra mim", nada mais. Re-
conhece a importancia, mas
faz questio de dizer que o
pai nao foi alem disso. Bom,
acho que uma das razbes est6
descrita na cinebiografia.
H6 um moment em que Ma-
ria Am6lia diz que S6rgio nao
gostava de criangas que nao
manifestassem inteligencia
precoce. Acho isso important,
porque ela nao faz distingio no
comportamento dele com os fi-
Ihos ou outras criangas. Se ca-
sarmos isso com o que disse o
Antonio Candido, podemos su-
por que a Maria Amelia foi pai
e mre dos filhos, porque pro-
vavelmente S6rgio, devotado ao
seu trabalho, nio teria tempo
para ser o pai 100% present
na criagio e no afeto que os fi-
Ihos esperam...
A sua andlise sobre a fonte
do poder do trabalho dos dois
me parece perfeita e a encam-
pei na primeira vez que a li,
num JP do ano passado: um, o


Sergio, precisa efetivamente
transpirar para fazer o melhor,
e o Chico parece que transpi-
rava, em uma caminhada, today
a poesia que o mundo poderia
expressar no exato moment.
Enfim, S6rgio tinha e Chico tem
qualidades impressionantes
para o trabalho intelectual-
mente, mas, sem divida, dis-
tintas. Essa comparacgo que
vocc fez se assemelha a algo
que ouvi em Noel, o poeta do
Vila, filme dirigido por Ricardo
Van Steen, que certamente voce
conhece, mas se nio conhece,
e um belo filme e um retrato
muito bom da vida desse g&-
nio, que, com razao indicate
como ascendente po6tico do
Chico.
Bem, a comparago, 6 feita
pelo ator que represent o pai
do Noel. Pois bem, a fala do
pai do Noel 6 essa: "Voc6 tem
sorte Noel, voc6 faz suas me-
lodias e todo mundo vem te dar
tapinha nas costas. Ainda bem
que esta conseguindo. (...) Voce
faz um verso cada vez que tos-
se, a ciencia nao 6 tao generosa".
No filme, o pai de Noel 6 re-
tratado como um cientista frus-
trado e malogrado, que termi-
na cometendo suicidio. E pare-
ce claramente magoado, mas
6 uma magoa dificil de aferir,
pois nio se sabe se esta ma-
goado cor o sucesso do filho,
ou com a frustra(go de nao ver
seus inventos reconhecidos.
Apesar disso, essa iltima fra-
se esta plena de razao, talvez
fora do context em que foi
dita, mas estd. E o caso que
ilustra isso, 6 o dos persona-
gens. do seu texto no ultimo JP.
Ora, os talents de Chico e
Sergio sio diferentes, mas
dentro dos universes em que
escolheram atuar, poderiamos
falar numa equival6ncia. S6r-
gio 6 um dos maiores dentro
da arte de escrever e dentro do
oficio de historiar e Chico 6 um
dos maiores dentro do oficio
de mtsico e poeta. Nao seria
muito bom ver S6rgio cantar ou
fazer mtsicas, a julgar pelas
cenas que vimos na Cinebio-
grafia (que, alias, estd dispo-
nivel para download na rede).
Por outro lado, voce disse,
corn acerto: o talent literdrio
do Chico nio 6 tio notavel
quanto o de S6rgio (hN quem vi
mais long, de forma precon-
ceituosa, ignorante e mesmo
invejosa, creio: como voce deve
saber, aquele simulacro de co-
lunista da Veja, Diogo Mainar-


di, andou dizendo bobagens
por ai sobre o Chico com apoio
em uma Irlandesa, que eu nun-
ca ouvi falar). De toda sorte, in-
vejosos ou bons analistas como
tu estao desafiando a couraga
que a poesia e m6sica criaram
sobre tudo o que vem cG Chico.
Ele escreve bem, tem dominio
da palavra, mas esta claro que
nao 6 um grande escritor. Falta
alguma coisa.
Descobrir isso 6 para ledores
experiences, o que nao 6 o meu
caso, posso sentir que falta
algo, mas estou long de dizer
o que seria. Nesse sentido, Chi-
co at6 pode chegar perto do que
foi o pai, literariamente. 0 que
vemos nesta comparagao 6 Ser-
gio fazer um esforco maior para
fazer ciencia por duas razbes
fundamentals: a) a ciencia 6
verdadeiramente mais exigen-
te; b) ele nio tinha o talent
como dom que reconhecia exis-
tir em outros. E para ilustrar
isso basta ler a Introducgo de
Jos6 Sebastiio Witter a primei-
ra edig5o de 0 Extremo Oeste,
publicado pela Brasiliense em
1986, quatro anos depois da
morte de S6rgio.
Dois sao os prop6sitos, in-
terligados, da Introdugdo: i)
apresentar o S6rgio perfeccio-
nista, que escreve e reescreve
trechos ate chegar ao melhor
de si; b) por isso mesmo, de-
monstrar que constituindo 0
Extreme Oeste obra produzida,
por S6rgio, mas nio submeti-
da a sua revisio, traria erros
que o historiador, pesquisador
precise, nio cometeria se pu-
desse revisi-lo. Para dar prova
disso Witter escaneou e plas-
mou na IntrodugFo trechos de
documents cujas passagens
estio corrigidas a mio por S6r-
gio, correcges que sempre le-
vam a clareza do que se diz,
passando muito a margem do
mero preciosismo estilfstico.
Ainda, Witter transcreve o tre-
cho de uma entrevista em que
Sergio registra, numa manifes-
tagao autintica de humildade
intellectual (que muitos, como
a religiio, dizem ter, mas nao
praticam), sua disposicgo em
sempre trabalhar mais para
aperfeigoar o que escreve, por
entender que tal tarefa esta
inclusa no oficio do historiador:
"O que consegui fazer bem ou
mal, nio meio veio como dadi-
va milagrosa. Veio como uma
conquista gradual sobre uma
fraqueza minha, nao sei se ad-
quirida ou congenita: falava e


escrevia como se fosse s6 pra
mim mesmo sem consciencia-
da pessoa a quem me dirigia
ou do eventual leitor. Disto vi-
nham as frequentes obscurida-
des com as quais ainda hoje
tropego quando examine algu-
ma coisa que escrevi h6 algum
tempo, obscuridades de que
nao tomava conhecimento an-
tes, a despeito da advertencia
de meus amigos. S6 lentamen-
te cheguei a ter id6ia da neces-
sidade de moldar minha lin-
guagem e dar-lhe forma, cuida-
dosamente. Procurei a palavra
correta, nio a palavra florea-
da a frondosa mas a exata e
incisiva. Algumas vezes, isto
exigiu uma pesquisa longa e
cuidadosa, e eu tinha de estar
vigilante e atento. Atento para
eliminar a decoragao, a redun-
dAncia. Voce deve ser concise,
se nao por outra razio, somen-
te porque, de outro modo, o lei-
tor pode cansar-se de voc6. Al-
guns escritores, bem-dotados, po-
dem dispenser esse exercicio e
ainda escrever bem, mas sao ex-
ceg8es (grifo meu). Por escrever
bem nao quero dizer, necessa-
riamente, de maneira grama-
ticalmente correta. Obras po-
dem ser impecaveis em sua
sintaxe, mas dificeis de ler e
entender; e vice-versa. Creio
que foi Lucien Febvre quem
disse que 'o perfeito historia-
dor deve ser um grande escri-
tor! Nenhum historiador pode
afirmar ter sido bem-sucedido,
mas nenhum historiador pode
fugir de tentar".
H6 uma entrevista, publica-
da em 1968, na revista Pais e
Filhos em que S6rgio fala de
Chico como gostariamos que
este falasse daquele. A Folha
republicou em 1991. Nela, S6r-
gio diz que Kafka 6 uma influ-
8ncia de Chico, mas efetiva-
mente nao d6 para dizer se ele
leu a obra que voce se referiu
[Carta ao pai].
Penso que a migoa do Chico
e mais uma m6goa de filho que
nio foi amado o suficiente,
como voc6 diz, de acordo com
aquilo que achava que mere-
cia, talvez. Mas acho que o le-
gado para ele pr6prio Chico e
para todos n6s foi grande de-
mais para dizer que S6rgio er-
rou. Acho que nio errou.
Finalmente, o Dicionario de
Francisco Azevedo. Todos n6s
adoramos o Chico, mas nessa
ele foi mal. Li esse texto na
verso eletronica da Piaui e na
verdade o texto original esta 3


Jomal Pessoal

Editor: Lkcio Flavio Pinto


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Diagramagdo e ilustrag6es: L. A. de Faria Pinto E-mail: luizpe54@hotmail.com


10 Jornal Pessoal JULHO DE 2010 12 QUINZENA


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Mais uma vez, 6 a Vale quem ganha em Carajas


Voltou a paz social entire capital e traba-
Iho na region de Parauapebas, no sul do Para,
uma das mais conturbadas do pais, onde
estdo em atividade ou em implantagao -
algumas das maiores minas brasileiras e mun-
diais, na provincia mineral de Carajas. A fra-
se foi dita por Rafael Grassi Ferreira, dono de
um titulo que diz bastante sobre a importan-
cia das questbes de que trata: gerente geral
juridico trabalhista da Vale, a segunda maior
mineradora do planet.
Ferreira estava feliz por assinar, no dia 20,
um acordo cor os empregados, depois de
mais de dois anos de litigkncia em torno de
um tema at6 ent~o considerado intragivel pela
Vale: o pagamento pelo tempo gasto por seus
empregados desde seus domicilios at6 os lo-
cais de trabalho. A empresa se recusava a acei-
tar essa reivindicagao, juridicamente denomi-
nada de hora "in itinere" (no itinerdrio). Ale-
gava que nao era responsabilidade sua e que
o transport era de compet8ncia do poder
pdblico, por se tratar de espago pdblico, situ-
ado fora dos limits da sua propriedade.
Com a recusa, o Minist6rio Pdblico do
Trabalho e no nenhum dos sindicatos com
jurisdiqgo em Caraj6s, como seria de se es-
perar props uma acao civil pdblica contra
a ex-estatal, privatizada em 1997. Ojuiz da 1"
vara do trabalho de Parauapebas, J6natas
Andrade, considerando-se convencido de
que, por tris de artificios adotados, era mes-
mo a Vale quem transportava os emprega-
dos, condenou a companhia a recolher 200
milh6es de reals ao FAT (Fundo de Amparo
ao Trabalhador, administrado pelo BNDES),
pela pritica de "dumping social", e mais R$
100 milh6es como danos morais coletivos, a
serem pagos aos funcionarios. Ha 15 mil em
atividade nas minas de Carajas.
No acordo promovido em Bel6m, pela
justiaa do trabalho, a empresa finalmente re-
conheceu o direito. Os trabalhadores rece-
berTo diariamente um adicional pelos 44 mi-
nutos gastos at6 a mina de ferro de N4, 54
minutes at6 a jazida de cobre do Sossego e
80 minutes at6 a mina de manganes do Azul.
A empresa tera tamb6m de quitar o d6bito
acumulado nos iltimos 42 meses (cr6dito em


favor dos empregados retroativo a fevereiro
de 2007, provavelmente data-base).
Nao foi apresentado, durante a celebra-
qao do acordo, o calculo do valor total des-
ses pagamentos. Mas o representante dos
trabalhadores disse que o adicional pelo
transport deverd proporcionar um acr6s-
cimo de 3% ao saldrio base dos emprega-
dos da Vale. Espera-se que esse valor se
estenda a todas as empresas terceirizadas,
que absorvem a maior parte do universe em
atividade em Carajis: 12 mil dos 15 mil que
atuam nas minas sao seus contratados.
Como os empregados terceirizados mo-
ram em Parauapebas, distant 30 quil6metros
da entrada de Carajis, e nao no ndcleo resi-
dencial interno, reservado aos funcionarios
da Vale, as empreiteiras serdo mais oneradas
pelo acordo do que a pr6pria mineradora, cu-
jos funciondrios tem um percurso bem mais
curto do que o dos demais. Enquanto o im-
pacto na folha da Vale 6 calculado em 3%, o
das empreiteiras devera chegar a 10%. Ainda
assim, 6 um 6nus singelo em vista do peso
suave dos saldrios no custo total de produ-
qao e em relagao aos lucros (e dividends)
obtidos desde a venda da estatal.
Pelo acordo, a Vale tamb6m promovera
aq6es sociais no montante minimo de R$
26 milh6es (pouco mais de 10% do valor
definido na sentenga judicial apenas pelo
"dumping social"). At6 margo de 2012 im-
plantard em Parauapebas uma unidade do
Institute Federal do Pard (antiga Escola
T6cnica) para cursos de mecanica e eletro-
eletr6nica e, at6 margo de 2011, uma escola
modelo no municipio.
A16m de proporcionar satisfagdo ao re-
presentante da empresa, o acordo tamb6m
tranqiiilizou o representante sindical. Por
causa do impasse, a convengdo coletiva,
que venceu em 1 de julho, nao p6de ser
renovada e, por isso, foi prorrogada at6 o
final de agosto. Agora as negociag6es po-
derdo ser retomadas.
Em boa hora para a direqco do sindicato
poder apregoar o resultado como uma vit6-
ria e usd-lo na propaganda para a eleicao de
novembro, embora a atuaaqo sindical tenha


se restringido a homologar o que foi esta-
belecido na negociaqgo entire a empresa, o
Minist6rio Piblico, ojuiz de Parauapebas e
a president do tribunal regional. O conti-
nuismo deveri persistir na c6pula sindical
de Carajas.
O acerto, por6m, foi ainda mais vantajo-
so para a Vale. Condenada inicialmente a
desembolsar R$ 300 milhoes, o total dos
seus gastos ficard muito abaixo do minimo
que a s6mula 34 do Tribunal Superior do
Trabalho garante ao empregado nesses
acordos, que 6 de 60% do valor da conde-
naao, ou, nesse caso, R$ 180 milhies.
Mesmo considerando apenas os R$ 200
milh6es atribuidos como pena a pratica do
"dumping", o pagamento do itinerdrio dos
funcionirios sera bem inferior aos R$ 154
milh6es de diferenga entire as aq6es soci-
ais, de R$ 26 milhoes, e a pena legal.
Um ganho ainda mais substantial nao
constou do termo de acordo. Na sua longa e
minuciosa sentenga, o juiz J6natas Andrade
classificou como "dumping social" a attitude
da empresa de nao pagar pelo tempo de per-
curso do seu empregado, com isso se cre-
denciando a um custo menor de produgao.
Uma condenagao dessas, transitada em jul-
gado, poderia ser utilizada contra a compa-
nhia pela pratica de concorr8ncia deslealjun-
to A Organizagao Mundial do Com6rcio ou a
tribunals arbitrais intemacionais. Af a sua dor
de cabega seria profunda e cara.
Mais uma vez a Vale saiu ganhando por,
ao inv6s de reconhecer os direitos trabalhis-
tas a partir do estabelecimento da relago de
emprego, cumprindo as normas legais em vi-
gor, s6 admiti-los em acordo emjuizo. E assim
que a empresa tern procedido em milhares de
agoes propostas contra ela e seus empreitei-
ros nas duas varas da justiga trabalhista de
Parauapebas, das mais congestionadas de
todo Brasil. A conta sai bem mais barata e di
lucro. Como sempre, a Vale concentra para si,
seus s6cios, acionistas e compradores no ex-
terior os grandes beneficios da extraqao (at6 a
rapida exaustao) dos recursos minerals do
Para. O trabalhador, como os Estados nos
quais a empresa atua, fica s6 com o troco.


servindo de apresentagio, di-
gamos artistic, 6 edigio da
Lexikon. Bacana, nao 6? E bern
marqueteiro, mas 6 um mar-
quetin born, porque mostra
que o dicionario 6 tio Otil e
valioso.que leva uma pessoa
como Chico Buarque a nao que-
rer dividi-lo corn mais nin-
guem, nio talvez porque amas-
se muito o pai ali imobilizado,
mas porque sabia o valor do
que Ihe tinha sido repassado.
Enfim, agora ele pode es-
tar triste, ras n6s estarnos


imensamente contents (eu
jd tenho a minha edicgo
nova; nunca tive a velha, que
mesmo corn a segunda edi-
gio publicada, continue a
custar os olhos da cara (va-
mos ver at6 quando...), no
Estante Virtual. Alias o Chico
comegou a comprar os exem-
plares por af, mas esqueceu
do Estante Virtual... o tiro que
ji nao tinha sido bom da pri-
meira vez, agora ficou de vez
in6cuo, como ele reconheceu
resignado...


FIM DO BAD
Realmente 6 triste ver acabar
um sebo como o Bat, que noo e
exatamente o dos nossos so-
nhos (nunca sio nao e?!), mas
sem duvida preenchia, lutava
contra vazio de sebos e livrari-
as, que fica cada vez maior em
Belem. O Estante Virtual apre-
senta o mapa de sebos do Bra-
sil; 6 triste ver o "latif6ndio de
sebos" no Sudeste, Sul e at6 no
Nordeste (pensando bem, at6
o Centro Oeste ganha da gente)
e ver o minguado aqui do Nor-


te. Desse vazio demogrifico
nao falam, esse vazio nin-
guem pensa em ocupar, nao 6?
Isso, 16gico, 6 resultado do
mercado. Realmente nao fago
iddia de como esse quadro
pode mudar, mas tenhamos
esperangas, nossa attitude ji
oferecemos, pois sempre sai-
mos carregados dessas casas
de sonhos, deixando quase
sempre o Ba6 vazio...
Marion Aradjo
Advogado, especialista em
gestdo ambiental


JULHO DE 2010 la QUINZENA Jornal Pessoal 11


~-~-~- ------------ --~i-ll~ g~~ ----~e --- -~,, ----- I Ir I








0 fantasma perde duas.

Mas vai ganhar no fim?


Em 1985 o desembargador Nelson Amorim (jd falecido),
quando era corregedor geral de justiga do Pard, determinou
a todos os oficiais de registros imobiliarios que suscitassem
d6vidas sempre que Ihes fossem apresentados para matri-
cula e registro titulos de im6veis em nome de Carlos Medei-
ros. Era uma providencia necessiria para proteger o patri-
m6nio pdblico e alertar terceiros de boa f6 contra a aco da
maior quadrilha de grilagem da hist6ria do Pard, da Amaz6-
nia, do Brasil e, talvez, do mundo. Gragas a virios tipos de
ardis, ela se apossou de uma vasta area de terras, com ta-
manho de 9 a 12 milhoes de hectares, espalhadas por 32
municipios, representando quase 10% de todo o territ6rio
paraense. E desandou a revend8-la sem parar (ver ediiio
anterior do Jornal Pessoal).
A fraude comegou em 1975 e s6 alguns anos depois foi
descoberta e comecou a ser combatida. Mas a voracidade
dos grileiros nao foi intimidada. Nao s6 em virtude da extre-
ma lentiddo da justiga na apreciacao da questdo como por-
que e mais important os advogados e negociantes reuni-
dos no bando contavam com a conivencia de magistrados e
servidores do judiciario.
O provimento do corregedor aos cartoririos, despachado
uma d6cada ap6s o inicio da grilagem, tentava produzir um
efeito concrete e eficaz enquanto ajustica nao expedisse uma
sentenga final. Mas foi infitil: os tabeliaes continuaram a fa-
zer as matriculas e registros dos im6veis atribuidos a Carlos
Medeiros, mesmo sendo pdblico e not6rio que esse cidadao
nao existe, 6 um fantasma.
Em maio deste ano, o juiz federal Osmane Antonio dos
Santos mandou fazer o cancelamento, atendendo a uma aco
civil pdblica proposta pelo Minist6rio Piblico Federal contra
dois compradores de propriedades rurais inscritas em nome
de Medeiros. Um, a Fazenda Diamante, em Sao Domingos
do Capim, com tr8s mil hectares. E outro, de 741 hectares,
em Sao Domingos do Capim.
As dreas foram adquiridas em 1990 e 1986 de um dos
prepostos de Medeiros, o administrator de empresas Flivio
Augusto Titan Viegas, filho de um advogado do mesmo nome,
ji falecido, que seria o criador da fraude. Para essas areas
os novos donos conseguiram
que o Ibama expedisse, em
1991 e 1990, autorizago para
Planos de Manejo Florestal
Sustentado, tamb6m anulados
pela sentenga do juiz.
Assim, ajustiga federal faz
o que a justiga estadual no
complete hi 35 anos: a anula-
qdo da maior de todas as frau-
des fundidrias praticadas con-
tra o Pard. Ela comegou quan-
do o advogado Flavio Viegas
conseguiu extrair uma carta
de adjudicagdo do inventario
dos bens deixados pelos co-
merciantes portugueses Ma-
noel Joaquim Pereira, e Mano-
Jornal Pessoal JULHO DE 2010 1 QUINZENA


el Fernandes de Souza, constituido na d6cada de 20 do s6cu-
lo passado. Os bens eram tftulos de sesmaria expedidos pelo
rei de Portugal.
Em seguida o advogado fez juntar aos autos do inventario
uma agao declarat6ria que reconheceria a legitimidade dos
bens integrantes do patrim6nio. A ago foi acolhida pelo juiz
Armando Briulio Paul da Silva, que expediu uma carta de
sentenga, com a qual os grileiros passaram a fazer os regis-
tros imobiliarios. Ojuiz foi posteriormente flagrado pela poli-
cia recebendo propina em outra aco e colocado em disponi-
bilidade pelo poderjudicidrio, aposentando-se.
Misteriosamente, os autos do inventirio e todos os seus
penduricalhos, mesmo com oito volumes e 2.685 paginas,
sumiram do cart6rio em Bel6m. Os advogados pediram e
conseguiram a restauragao dos autos, deferida pela juiza da
2" vara civel (depois desembargadora, ji aposentada) Rosa
Portugal Gueiros.
As grosseiras manobras foram combatidas pelo Iterpa (Ins-
tituto de Terras do Pard), que recorreu da decisdo, pedindo a
nulidade absolute da sentenga do juiz Armando Briulio. A
media foi concedida por uma das camaras civeis do tribunal
de justiga, contra o voto do relator, desembargador Calistrato
Alves de Matos (tamb6m ji falecido), que nao reconhecia o
pedido. Mas prevaleceu o entendimento do revisor, o mesmo
desembargador Nelson Amorim. Ele mostrou que o juiz Ar-
mando Briulio jamais podia ter declarado a legitimidade dos
bens, que para se tornarem perfeitamente legais precisavam
apenas da expediqdo do titulo de propriedade.
O desembargador advertiu que o juiz nao tinha competen-
cia "de declarar legitima uma posse para que seja considera-
da propriedade. Para que fosse feito tal julgamento, o juiz
teria que presidir uma audiencia de demarcagao, apreciar as
confrontag6es, os limits. e dentro dos ditames da lei que
naquela altura previa que ningu6m podia adquirir propriedade
de terras devolutas com mais de 4.000 hectares".
Na sua acao civil piblica perante a justica federal, o pro-
curador Felicio Pontes disse que "o que mais nos causa es-
p6cie nesse epis6dio todo 6 que a sentenga da Dra Rosa
Portugal Gueiros foi cumprida pelos Cart6rios, apesar de nao
ter transitado em julgado, re-
sultando no registro de milh6es
de hectares de terras publicas
em nome de Carlos Medei-
ros".
Mas tamb6m o ac6rddo
que declarou a nulidade ab-
soluta dos registros nao foi
cumprido: a aqdo judicial at6
hoje se encontra em tramita-
g o, em grau de novo recur-
so najustiga estadual. Carlos
Medeiros 6 um fantasma que
tem f6lego de gato, com uma
incrivel habilidade para circu-
Slar com desenvoltura pelo teto
de zinco quente do judicidrio
paraense.