Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00347

Full Text


JULHO
DE 2010

Nj omral Pessoal
A AGENDA AA DE UINZENA
A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO


NO 468
ANO XXIII
R$ 3,00


ELEICAO


Em quem votar?

Quando chegar a urna eletronica, o eleitor poderd escolher um candidate com identidade,
proposta e curriculo honordvel? Ou os nomesforam nivelados por baixo e estabeleceram
seus acordos visando, acima de tudo, o interesse pessoal? Estd dificil o voto consciente.


Aeleigio deste ano sera a mais
fisiol6gica no Pard desde que
o povo voltou a eleger a principal
autoridade pdblica do Estado, em 1982.
De 1971 at6 1982 os governadores
foram eleitos apenas pelos deputados
estaduais. No retorno da votaqdo dire-
ta e geral se uniram o filtimo governa-
dor eleito, em 1965, o tenente-coronel
Alacid Nunes, um dos militares que en-
traram na vida polftica com o golpe de
1964, e a maior lideranga da oposiqdo,
o entdo deputado federal Jader Barba-
lho. Apesar dessa companhia contradi-
t6ria, Jader se elegeu govemador corn
uma boa image porque do outro lado
estava a outra faccqo da poliftica at6


entdo dominant, liderada pelo coronel
Jarbas Passarinho.
0 govemo federal, chefiado pelo
general Jodo Batista Figueiredo (o ilti-
mo dos generais-presidentes), apoiou
Passarinho, que disputava a reeleiqdo
para o Senado, e seu candidate ao go-
verno, o empresario Oziel Cameiro. Ja
a mdquina pdblica estadual foi coloca-
da a serviqo de Jader Barbalho, garan-
tindo sua vit6ria por uma pequena dife-
renca de votos. Jader se iniciara na po-
lftica como vereador, 12 anos antes, sob
o eco do baratismo, que mandou no Pard
em boa parte das quatro d6cadas ante-
riores, sob a lideranqa do coronel Ma-
galhdes Barata. 0 pai de Jader, o ex-


deputado estadual La6rcio Barbalho, era
um destacado baratista.
Mesmo com essa origem, o filho pro-
metia inaugurar um tempo novo no Pard.
Era da corrente dos "autenticos", os
mais A esquerda do entao MDB, o par-
tido da oposiqgo consentida ao regime
military, do qual resultou o PMDB. Ja-
der parecia disposto a fazer a vontade
dos que queriam por um fim A era dos
coron6is e abrir as portas do Pard i
modemidade.
Logo se livrou de um deles, o tenen-
te-coronel Alacid, aliado de ocasido,
para apoiar o antigo inimigo, o coronel
Passarinho, que ajudou a voltar ao Se-
ncofiruA PAGid


K MIA NOO*r* AJAS AA


VICNALERIA: 0 FIM? PAG.5







nado. Indo e vindo, recompondo ou rom-
pendo, Jader Barbalho acabou por re-
velar o que era: um novo coronel, sem
precisar de farda para se impor. Cati-
vando parte expressive da populaqao
com seu carisma, dispensou as armas
para suplantar os coron6is fardados, que
foram catapultados para o poder pelo
regime military. Desde a Repdblica Ve-
lha, nenhum politico paraense foi tao
forte quanto ele.
Suas inquestioniveis habilidades
para fazer political e a simpatia do povo
constituiram um capital notivel. Corn
ele, Jader se tornou duas vezes gover-
nador e ministry, conquistou a presi-
d&ncia do Senado e bateu de frente
com o mais terrivel politico national, o
baiano Ant6nio Carlos Magalhaes.
Venceu-o, mas nao levou o trof6u. Ja-
der superestimou sua forga e subesti-
mou suas fraquezas. A principal delas:
a associaqao da sua fortune pessoal a
enriquecimento ilicito, A base do des-
vio de dinheiro pdblico.
Hoje, individualmente, ele ainda 6 o
politico mais important do Pari, mas
a n6doa que estigmatiza sua image o
impede de usufruir na plenitude essa
condigao e ihe imp6e contrariedades.
Seu indice de rejeiqao nao o animou a
concorrer ao governor do Estado e des-
sa maneira se tornar o tinico eleito tres
vezes pelo povo (Almir Gabriel, que
voltou a ser seu surpreendente aliado,
depois de duas d6cadas como inimigo
figadal, tentou e nao conseguiu reali-
zar a faqanha). Sua candidatura ao Se-
nado, considerada a favorite, foi tisna-
da pelo pedido de impugnaqao formu-
lado pelo Minist6rio Pdblico Eleitoral
no dia 10.
Essa iniciativa nao impedird que a
candidatura de Jader se mantenha e que
ele venha a ser votado e at6 eleito. A
quantidade dos recursos previstos na lei
processual e os prazos para as decis6es
transferirao por meses o pronunciamen-
to final da justiga. Se defender das
manifestaq6es do Tribunal Superior Elei-
toral, 6 provivel que a impugnagao do
lifder do PMDB seja mantida, assim
como a do petista Paulo Rocha, tam-
b6m para o Senado, e de Luiz Afonso
Sefer, do PP, para a Assembl6ia Legis-
lativa. Todos renunciaram sob a amea-
qa de ter seus mandates cassados por
quebra do decoro parlamentar. Mas tal-
vez nao venha a ser o mesmo o enten-
dimento do Supremo Tribunal Federal
diante da argiiiqao de inconstitucionali-
dade da chamada lei da ficha limpa, que


procura afastar da corrida eleitoral po-
liticos corn passado desabonador.
A simples apresentagqo da impug-
nagao pelo Minist6rio Piiblico, por6m,
nao causard desgastes aos candidates?
Nao colocard em aqao o mecanismo do
voto dtil, fazendo o eleitor desistir de
votar em candidate ameagado de afas-
tamento da dispute por transgressao a
lei, mesmo se eleito? Certamente este
serd um recurso de campanha dos ad-
versarios. Ainda assim, mais uma vez,
no caso de Jader e Paulo Rocha, eles
conseguirao compensar esse risco e o
neutralizar, como fizeram num passado
ainda tao recent?
0 fato negative, de qualquer manei-
ra, existe e vai ter consequencias. Po-
r6m, nao 6 dnico: 6 mais um dentre vi-
rios fatores de desgaste do process
eleitoral no Pard. Nao se tern noticia de
governador que tenha ido para uma nova
eleiqAo (para eleger seu successor ou
tentar a reeleiqao, conforme a possibili-
dade mais recent na vida ptblica naci-
onal) corn um indice de rejeiqao tao alto
quanto Ana Jdlia Carepa. Seu mau con-
ceito experimentou ligeira melhora ulti-
mamente, mas o grande empenho do
caro marketing colocado ao seu servi-
qo 6 faze-lo ficar abaixo dos 50% nas
sondagens que continual a ser feitas.
Claro que at6 o dia da votagAo a situ-
aqao poderi mudar, mas a estrat6gia tern
que reconhecer essa fragilidade da can-
didata do PT para tentar evitar o desfe-
cho insinuado pelas pesquisas. t o que
pode explicar suas attitudes inconsisten-
tes, sua falta de orientaqao e diretriz, sua
inseguranga. E tamb6m algo que mes-
mo entire protagonistas de curriculo ruim
precisa existir, mas que nela 6 uma au-
sancia: a palavra, o compromisso. De-
pois de ter desgastado ao maximo sua
relaqao com o PMDB, mais por omis-
sao em relaqao A aqdo dos integrantes
do seu grupo, que nao por control, por
falta de lideranga real ou conveni8ncia,
Ana Jdlia Carepa tentou ressuscitar a
alianga de uma forma primaria, amado-
ristica, diante de umrn jogador tao profissi-
onal quanto Jader Barbalho.
A governadora parecia consciente
de que o acordo fora rompido e por isso
saiu h cata de novos parceiros para en-
cher o bai de legends, o que acabou
conseguindo, corn 14 delas ao lado do
PT. E uma maneira de fortalecer o seu
nome e dar a impressao de ser apoiada
por uma frente de partidos e ter a he-
gemonia, ao menos no plano institucio-
nal. Incluiu nesse balaio o seu maior ad-
versario na eleigao anterior, o prefeito


de Bel6m, Duciomar Costa, cujo prin-
cipal titulo no moment 6 o de ter rejei-
9do ainda maior do que a de Ana Jdlia
(a media pelo Ibope chegou a 73%).
O acerto de gabinete foi ripido, a base
de toma-li-dd-ci de favors, compen-
sac6es e brindes.
Mesmo para um PT cada vez mais
fisiol6gico, no entanto, a mudanqa, al6m
de s6bita, foi radical demais. Provocou
traumas internos e desencadeou a ame-
aga de cis6es. Para tentar restabelecer
a aparencia de unidade, a governadora
deixou de cumprir o compromisso corn
o PTB. De pronto, Duciomar mexeu
numa pedra important do jogo: apre-
sentou a candidatura do empresario
Fernando Yamada ao Senado.
Viu-se entao o que parecia inimagi-
nAvel em outros tempos, quando princi-
pios e palavras nao haviam sido tao des-
gastados e desprezados: o PT foi atrds
dos partidos aliadospara que aderissem
a candidatura dnica ao Senado no
caso, do pr6prio PT, Paulo Rocha. Ilu-
dido pelo dominio dos penduricalhos do
poder, o PT parece convencido de que
pode substituir eleiqdo por plebiscito, a
maneira de manter-se no poder com um
elenco de sofrivel nomes.
Atento, Jader reagiu apresentando
um verdadeiro "laranja" como o segun-
do candidate do PMDB ao Senado.
Esse movimento se harmonizou com a
attitude de Simao Jatene de fechar as
portas do PSDB a Val6ria Pires Fran-
co, pr6-candidata que ficou em segun-
do lugar na pesquisa do Ibope encomen-
dada pelo seu partido, o DEM, dirigido
pelo seu marido, o deputado federal Vic
Pires Franco. Significaria que, se pas-
sar para o 2" turno, Jatene e nao Ana
Julia seri apoiado por Jader?
O PT renunciou a sua hist6ria e in-
gressou de vez na mix6rdia que faz to-
dos os partidos politicos patinarem na
mesma lama. Buscam a vit6ria dos seus
interesses sem a menor consideragao
pelo que representavam ou pela id6ia
que dele faziam ou ainda fazem os
eleitores. 0 cidadao que comparecer a
sua seqao para exercer o "sagrado di-
reito do voto" deveri se inspirar em al-
guma coisa que o motive, menos no fu-
turo do Pard, que nao estard em jogo
na eleiqao de outubro.
Os candidates que se apresentam
agora ao eleitor embaralharam tudo para
criar uma enorme ameba, indistinguivel,
indefinida, que tudo absorve e forma um
organismo pegajoso, que nao tem iden-
tidade nem proposta. Um retrato triste
da representayao political do Estado.


2 Jornal Pessoal JULHO DE 2010


S*la QUINZENA


--






Carajas comega de novo,

mas o Para nao percebe


A Vale comegou a realizar no ano
passado o maior investimento da sua
hist6ria e tamb6m o maior da indistria
de min6rio de ferro no mundo. Aplicard
at6 2015 11,3 bilhoes de d61lares (mais
de 20 bilh6es de reais) para dobrar a
produgqo de Carajas, no Pard, que che-
gard a 230 milh6es de toneladas anuais,
metade do que a Vale pretend extrair
em todo pais naquele ano.
O novo projeto, mais grandiose do
que o inicial, que entrou em operaqio
em 1984, ird incorporar a maior de to-
das as jazidas da provincia mineral de
Carajis, a de Serra Sul, no moment
em que a primeira mina, de Serra Nor-
te, ji entrard em fase de redugao, e a
outra jazida, bem menor, a de Serra
Leste, teri entrado em produgao.
Dos US$ 11,3 bilh6es previstos, US$
7,8 bilh6es serao gastos na duplicaqao
de dois terqos da ferrovia de Carajas
(em 604 dos seus 822 quil6metros de
extensdo) e na construgao do 4 pier do
porto de embarque, na Ponta da Madei-
ra, na ilha de Sao Luis do Maranhao. Os
restantes US$ 3,5 bilh6es serdo absorvi-
dos pela pr6pria mina, em territ6rio pa-
raense. S6 neste ano a empresa desem-
bolsard US$ 1,1 bilhio (US$ 766 milhoes
na logistica e US$ 360 milhoes na mina).
0 program de investimentos nao
inclui apenas min6rio de ferro. No pr6-
ximo ano o projeto Onqa Puma entrard
em operacgo, produzindo 58 mil tonela-
das de niquel contido em ferro-niquel,
seu produto final, ao custo de US$ 2,3
bilh6es, sendo US$ 510 milhoes neste
ano. No segundo mestre seri a vez do
projeto Salobo dar a partida, com 127
mil toneladas de concentrado de cobre
(mais 130 mil ongas de ouro), depois da
aplicapgo de US$ 1,5 bilhao, dos quais
US$ 600 milh6es neste ano. Metade
desse investimento (US$ 855 milhoes)
ird para Salobo I, que acrescentari 127
mil toneladas de concentrado em 2013.
Assim, s6 no conjunto de Carajds,
a Vale aplicard US$ 15 bilh6es em cin-
co anos, um valor de grandeza mundi-
al. Mas nao ficard nisso. A usina side-
rdrgica da Alpa (Aqos Laminados do
Pard), em Marabd, tem orqamento de
US$ 2,8 bilhoes para produzir, a partir
de 2013, 2,55 milh6es de toneladas de


places de aqo, que serao utilizadas em
parte no pr6prio local para laminacqo
de semi-acabados.
A primeira fase da CAP (Companhia
de Alumina do Pard), em Barcarena, pre-
v8 US$ 2,7 bilhoes para a escala de 1,8
milhio de toneladas de alumina. Mas a
capacidade final serd de 7,4 milhoes de
toneladas, a mesma da vizinha Alunorte,
que jd 6 a maior do mundo. Para tornar
possivel essa expansdo da produqdo, a
mina de bauxita de Paragominas rece-
berd US$ 487 milh6es para passar de 9,9
milh6es para 14,85 milh6es de toneladas
de min6rio em 2012.
Em conjunto, esse conjunto de pro-
jetos chega a US$ 21 bilh6es no qiiin-
qiienio, o equivalent a quase quatro or-
qamentos anuais do Estado do Pard, comr
uma diferenga fundamental: todo esse
dinheiro se destina a investimento, en-
quanto pelo menos 85% da arrecada-
gao estatal sao absorvidos pelo custeio
da mdquina. Feito o paralelo apenas das
verbas de capital, o que a Vale vai apli-
car no Pard e no Maranhao em cinco
anos corresponde a meio s6culo de in-
vestimentos do Estado.
Desta vez, finalmente, vamos nos
desenvolver? E o que diz a empresa, com
a forqa de ser mais poderosa do que o
pr6prio governor. E com um poder que
crescera ainda mais pelos pr6ximos anos,
jd que o Pard sera a sua principal fonte
de renda em todo mundo. Antes de in-
corporar como verdade o discurso pro-
pagandistico da Vale, que, graqas princi-
palmente ao Pard, acumula os titulos de
maior empresa privada e maior exporta-
dora do pais (ji estao trabalhando no
Estado 37% dos empregados da antiga
estatal, contra 34,4% em Minas Gerais),
6 precise processar um volume enorme
de informaq6es e considerar uma con-
textualizaqao extremamente complex.
0 que primeiro assusta 6 o fato de
que esse volume cicl6pico de investimen-
tos, em sua maior parte absorvido por
mdquinas e equipamentos, visa a extra-
9ao de recursos naturais, a maior parte
deles nmo renovdveis. 0 mais important
6 o melhor min6rio de ferro existente
na Terra. Em qualquer pafs consolida-
do, a estrutura logistica que a Vale criou,
estd criando e opera estariam sob o


control do Estado e nao de uma em-
presa privada, inclusive nos Estados
Unidos. As duas ferrovias, que sao suas
por concessdo federal e que sao tam-
b6m as principals vias de escoamento
de carga do Brasil, a Vale acrescentard
a Norte-Sul, que fard a ligacqo entire a
ferrovia de Carajds ao norte e a Vit6-
ria-Minas ao sul.
Por Carajas, que 6 um ndcleo por
excelencia de exportagdo (enquanto o
Sistema Sul divide sua producqo para
tamb6m tender o consumo interno),
circula o maior trem de carga do mun-
do (cada um deles com 330 vag6es,
tendo quatro quil6metros de compri-
mento). Em nove viagens diarias, os
trens tem condicges de colocar no por-
to 400 mil toneladas de min6rio. Nessa
escala, em apenas dois meses a ferro-
via dd conta do mdximo de exportagio
que estava previsto no projeto para
todo um ano, quando a mina comeqou
a funcionar.
Corn a escala de 230 milh6es de to-
neladas por ano, a cada quatro anos a
jazida de Carajds perderd quase um bi-
lhao de toneladas. Em 30 anos, o fil6
mignon do min6rio de ferro do mundo
estard transformado em aqo na China
ou na Europa. Em Carajds s6 nao fica-
rno apenas buracos porque agora a le-
gislagio ambientalista exige que eles
sejam tapados.
E um dado chocante. A Vale julga
neutralizar o impact alegando que nun-
ca, como agora, o min6rio de ferro teve
pregos tao altos. E verdade. No inicio
da d6cada cada tonelada de ferro valia
US$ 30. Hoje, seu prego varia entire US$
130 e US$ 150 (preqo no porto de em-
barque, sem considerar o frete, que che-
gou a estar mais alto). Esse incremen-
to, de at6 cinco vezes em 10 anos, no
entanto, foi plenamente absorvido pe-
las siderurgicas, que continuaram a ex-
pandir suas capacidades.
Nio s6 transferindo o custo para o
produto como tamb6m por avangarem
no process de transformaqao industri-
al. Economizaram energia ao descartar
o process produtivo de maior deman-
da, no enriquecimento do min6rio e na
sua primeira elaboraqao, at6 o limited dos
CONCLUI NA PAG 4 -


JULHO DE 2010 1 QUINZENA Jornal Pessoal 3





CONCLUSikO DAP&As
semi-acabados. Empresas como a Vale
se encaixaram nessa nova divisdo in-
ternacional do trabalho e assumiram seu
papel de fornecedoras de mat6ria pri-
ma e insumos para os grandes grupos.
Em 2002 a exporta~go brasileira de
produtos de origem mineral alcanqava US$
6 bilhoes. Em 2007 foi a US$ 21 bilh6es.
Metade do saldo da balanga commercial
brasileira em 2009 foi proporcionada pe-
los mindrios, mesmo corn a crise mundial.
Em 2008, ano record, essa participagao
foi de 53%. Neste ano a perspective 6 de
um novo record. Em maio, a exportagao
do min6rio atingiu um patamar nunca al-
cangado: somou US$ 2 bilhdes.
A maior parte dessa exportacao vai
para a Asia, tendo a China como desta-
que. Essa diretriz 6 ainda mais acentuada
em relaqao ao min6rio de Carajas, nao
por acaso o mais rico: 80% dele seguem
para a Asia, sendo 60% para a China. As
exportaq6es brasileiras para a China fo-
ram de US$153 bilhoes no ano passado.
Para a Vale, 6 nesse rumo que a
empresa (e o pafs) deve seguir porque
as necessidades chinesas assegurardo
volume e prego ainda por bastante tem-
po. Graqas a essa renda, a empresa e o
pafs terdo recursos para promover a
diversificaqao de produtos e intensificar
a industrializaqao. Mas se essa alega-
qao pode ter algum sentido para o go-
verno federal e a companhia, nao apre-
senta o mesmo rendimento para o Es-
tado. E brutal o contrast entire o enri-
quecimento da Vale (cujo valor de mer-
cado 6 de US$ 140 bilh6es) e da Uniao
(que nunca arrecadou tanto) e os terri-
veis indicadores sociais do Estado. Uma
das dltimas faqanhas negatives do Pard
6 ter o pior ensino fundamental do pafs.
Indicador de future comprometido.
Mas algu6m no Estado pensa a s6rio
nessa situaqao? Algu6m se impression
e se assusta com esses dados? De um
lado, bilhoes de d6lares; do outro, pobre-
za e degradaqco social, incivilidade, vio-
l8ncia, precariedade. 0 estado de insen-
sibilizaqao 6 tal que, embora o Pard te-
nha um com6rcio pesado corn a China, a
Federagao das Inddstrias do Estado nao
participa do Conselho Empresarial Bra-
sil-China. Mas l1 estdo as federaq6es de
cinco Estados (Sao Paulo, Rio de Janei-
ro, Minas Gerais, Santa Catarina e Mato
Grosso), que tamb6m mandam seus pro-
dutos para o outro lado do mundo.
N6s, ao que parece, nao estamos no
mundo. Parecemos aceitar que nos pri-


Imprensa do Para perde expressao


0 Dez Minutos, de Manaus, se con-
solidou como o maior jomal do Norte e
Nordeste do pafs. Com uma tiragem de
praticamente 80 mil exemplares diarios,
ndmero apurado pelo IVC (Instituto Veri-
ficador de Circulaqao) em fevereiro des-
te ano, ji 6 o 14 maior do Brasil em ven-
da avulsa. Sua circulagao 6 apenas tr8s
vezes e meia menor do que o lider nacio-
nal, a Folha de S. Paulo, com 287 mil
exemplares. Todos os grandes jornais bra-
sileiros ficaram abaixo de 300 mil exem-
plares. Menos de tres d6cadas atras che-
garam a bater na marca de um milhao de
exemplares, com promocoes comerciais
atraentes. Em 1990 a Folha colocava 350
mil exemplares nas ruas.
Na regiao Norte-Nordeste, o mais
pr6ximo do peri6dico de Manaus, em 280
lugar, 6 o Didrio do Nordeste, de Forta-
leza, que, corn circulagao de 41 mil exem-
plares, passou A frente do traditional li-
der regional, A Tarde, de Salvador (30),
com 40 mil exemplares, metade do que
vende o Dez Minutos. 0 journal amazo-
nense abriu um pouco sua diferenqa so-
bre o Estado de Minas, que vem em
seguida, corn 76 mil exemplares. Pou-
cos anos atris esta situaqdo era impen-
sAvel. 0 segundo jomal em Manaus fica
muito abaixo: 6 o Didrio do Amazonas
(690), com apenas 12 mil exemplares. A
Critica, que foi lider durante muitos anos,
nao aparece no ranking.


vem dos nossos recursos naturais sem ao
menos cogitar outras formas de explora-
9ao, como se as que estdo em curso fos-
sem inevitiveis, sagradas. A Austrilia,
competidora direta do Brasil no mercado
de min6rio de ferro, resolve descruzar
os bragos e ganhar mais do que o que the
era oferecido. Primeiro imaginou um im-
posto sobre os superlucros dos recursos.
Sob artilharia pesada das empresas, re-
cuou para o imposto sobre a renda dos
recursos minerals, ainda tentando manter
aliquotas maiores do que as praticadas at6
entdo (30% ou 40%).
Qualquer que venha a ser a formula
a ser adotada, uma coisa 6 certa e salta
aos olhos: nao se pode admitir que a
Vale embolse enormes lucros e distri-
bua aos seus acionistas dividends na-
babescos, enquanto a receita dos im-
postos 6 microsc6pica e as compensa-
96es nao passam de perfumaria. A Vale


0 Didrio do Pard se mant6m em 410
lugar, com circulagio de 28 mil exempla-
res. Seu concorrente direto, 0 Liberal,
deve continuar abaixo, embora nao se
saiba sua tiragem porque ainda est, fora
do IVC. Seu principal executive, Romulo
Maiorana Junior, anunciou sua volta A fon-
te de maior credibilidade sobre a impren-
sa escrita do Brasil. A promessa vai fazer
dois anos e ainda nao foi cumprida. Se
nao se filiou novamente ao IVC, 6 porque
a tiragem de 0 Liberal continue inferior
A do journal dos Barbalhos.
A perda de expressio da imprensa
paraense 6 visivel, sob qualquer aspec-
to, mesmo sem que se faga uma anAlise
qualitativa. Ela ji nao pesa em terms
nacionais. Nao tirou proveito da influen-
cia da internet, que alavancou publica-
9qes com grafismo destacado, notfcias
rapidas e 8nfase em usos e costumes.
At6 aqui, o Amazonia, que tenta explo-
rar o segment, 6 um fracasso de pdbli-
co e commercial. Nao seguiu os fen6me-
nos que ocorreram em Manaus e em Sio
Lufs, onde o Aqui Maranhdo atingiu
circulaqao de 39 mil exemplares e subiu
para o 330 lugar, oito corpos A frente do
Didrio do Pard.
Por enquanto, a maior caracteristica
da imprensa diAria de Bel6m 6 explorer o
sensacionalismo do crime, como nenhum
outro journal do pafs. Nio 6 propriamente
um tftulo que credencie.


quer aproveitar as vacas gordas dos
pregos altos das commodities e por isso
multiplica a produqao e a exportaqao,
que lhe asseguram uma das maiores ren-
tabilidades no mercado international.
Mas deixa, para os donos dessas rique-
zas, apenas os ossos do banquet.
E precise mudar logo essa situagqo.
A attitude inicial 6 acabar corn a nociva
"lei Kandir", que isenta de ICMS os
produtos que exportamos. Depois, deve-
se estabelecer um percentual de reten-
9ao do lucro da empresa a partir de
determinado nivel, para que os ganhos
sejam distribuidos. Tudo isso sem dei-
xar de fazer a pergunta elementary: in-
teressa-nos essa escala gigantesca de
extra do dos nossos recursos naturais?
E, naturalmente, buscar a reposta e a
forma de dar-lhe vida.
Sem isso, o Pard continuard parado
no ar.


4 Jornal Pessoal JULHO DE 2010 1- QUINZENA






Fim de carreira


para Vic e Valeria?


Na eleiqdo de 1986 o ex-governa-
dor Alacid Nunes anoiteceu corn mais
um mandato de deputado federal e ama-
nheceu desbancado pelo novato Vic
Pires Franco. Esta surpreendente mu-
tagdo se transformou numa facanha
para o jovem parlamentar e num opr6-
brio para a segunda maior lideranqa
political criada pelo movimento military de
1964 no Pard (e que se transformaria
no antfpoda da outra lideranqa, a do
coronel Jarbas Passarinho, embora te-
nham chegado juntos e sob a mesma
proteqao A arena polftica).
Foi assim que Vic Pires Franco ini-
ciou uma surpreendente e sempre ascen-
dente carreira na polftica federal, suspen-
sa ou encerrada neste mes por um lance
que sugere que o feitiqo se virou contra
o feiticeiro. Acostumado a mudar de po-
siqio conforme as circunstancias e con-
veniencias, o president regional do DEM
parece ter acreditado em sua forqa pes-
soal e na solidez eleitoral da sua esposa,
a ex-vice-governadora Val6ria Pires
Franco, mais do que recomendava o born
senso, a sensatez e os fatos.
No seu blog, criado corn evidentes
prop6sitos politicos, atacou tudo e todos.
Mas ao mesmo tempo em que mordia,
assoprava. Ou primeiro mordia e depois,
se necessdrio, assoprava. Como se os
atingidos tivessem a obrigaqao de esque-
cer as crfiticas, muitas delas contunden-
tes, curar as feridas, apagar a mem6ria
e dar-se por satisfeitos de receber o ca-
sal. 0 marido, corn um bad de votos,
voltaria corn tranqdiilidade a Cinara Fe-
deral e a esposa, como a segunda prefe-
rida para o Senado em pr6vias, incluindo
pesquisa do Ibope, se consagraria logo
atris de Jader Barbalho. Vic podia fazer
o que quisesse: seu lugar e o de Val6ria
estariam assegurados, por conta dos seus
trunfos, tao apregoados no blog.
A surpresa desagradivel comeqou a
se caracterizar quando ele peregrinou por
todos os partidos e em nenhum deles en-
controu posiq6es cativas. Nenhum Ihe
bateu corn a porta na cara. Ele p6de en-
trar, conversar, negociar e voltar pelo ca-
minho da chegada de mdos abanando. As
alternatives PT e PMDB eram, obvia-
mente, ilus6rias. Ndo passavam de arma-
dilhas, refeitas a partir dos destroqos da


armadilha montada pelo lider do DEM. 0
que restava era o PSDB. Mas o candida-
to ao govemo puxou o tapete do casal.
S6 os tucanos de arribacgo desconhe-
cem que o senador Flexa Ribeiro, candi-
dato natural a reeleiqao, nao 6 nome do
peito de Simao Jatene. 0 que Ihe custa-
ria assegurar a segunda vaga para Val6-
ria, aliada hist6rica? Talvez a alianga no
2 tumo corn Jader Barbalho, hip6tese
que pode ser considerada mais provivel
do que a recomposigqo do PMDB corn
o PT. Jader bloqueou os Pires Franco
esperando que Jatene fizesse o mesmo,
o que nao aconteceu por acaso. Desta
vez, ningu6m foi no blefe: todos paga-
ram para ver as cartas.
0 casal desistiu de disputar a eleiqdo
de outubro. Ficard durante dois anos ao
relento. Voltard? Vic parece certo que
sim, confiando na sua inegivel capaci-
dade de articulag~o e aplicagdo obsessi-
va aos seus objetivos e interesses. Mas
vai precisar contar corn a aceitaqdo dos
russos, sejam eles da political como da
mfdia. E af 6 que esti o problema. Corn
suas notas faiscantes no blog e os trun-
fos de uma pesquisa eleitoral recebida
corn descr6dito, em fungao dos antece-
dentes desse tipo de encomenda na elei-
9ao para a prefeitura de Bel6m, os dois
podem ter perdido a credibilidade. Quern
ainda estard disposto a apostar e votar
- neles no future?


Poucos politicos foram tdo mutantes
quanto Victor Pires Franco Neto. Basta
um exemplo para revelar o tamanho das
suas mudanqas. Numa entrevista de duas
paginas dada ao Jornal Popular em
1998, ele apresentou a seguinte explica-
qao para a aqao popular que ajuizara
poucos meses antes contra o conv8nio
entire a Funtelta e a TV Libera,:
"Houve um convenio entire a TV Li-
beral e o Governo do Estado [na admi-
nistragdo Almir Gabriel, entdo muito
criticada por Vic], sem licitaqgo, ape-
sar de tirar dos cofres pdblicos R$ 12
milh6es, ao long de quatro anos [viriam
a ser R$ 37 milhoes ao final de 10
anos]. Isso 6 inadmissfvel e para mim 6
o suficiente. Agora, o mais important -
e, na minha opiniao, o mais indecente
desse contrato 6 que a Funtelpa, que 6
uma emissora do Estado, vai alugar as
suas repetidoras no interior e o normal
seria que o grupo de comunicagqo pa-
gasse por isso e, no entanto, quem vai
pagar 6 a Funtelpa. Isso 6 a mesma coi-
sa que voce alugar a sua casa e ainda
pagar para a pessoa morar 16".
Quando o reporter Ihe pergunta pela
real finalidade desse convenio, Vic res-
ponde: "A finalidade 6 eleitoral, esti na
cara. Para disfarqar essa dinheirama
toda, se colocam as inser9qes a que o
governor do Estado teri direito. E por
que 6 que nao se consultou, por exem-
plo, a RBA ou a TV Boas Novas? A
RBA ja esta apresentando uma pro-
posta, corn valores infinitamente me-
nores e you pedir o seu aditamento a
aqao popular. Sei que vou pagar um
preqo caro por isso ji estou pagan-
do. Mas nunca tive medo de ningu6m
e s6 tenho satisfaq6es a dar ao povo
que me elegeu, As minhas duas filhas e
a minha mulher".
Sem dar satisfaqao a ningu6m e sem
explicar a razdo da sua nova attitude,
pouco tempo depois Vic Pires Franco
retirou seu nome da aqao popular, que
s6 nao foi arquivada porque outra pes-
soa, o soci6logo Domingos Conceigqo,
se apresentou para substituf-lo. Vic ti-
nha conseguido recompor sua amizade
corn Romulo Maiorana Jdnior, o princi-
pal executive do grupo Liberal. A acao
deixou de tender seus interesses.


JULHO DE 2010 1 QUINZENA Jornal Pessoal 5







A verdade sobre


Se ainda estivesse vivo, Paulo Fran-
cis iria completar 80 anos de idade em
2 de setembro. E de se prever que al-
gu6m aproveitari a data redonda e ju-
bilosa para atribuir a morte do jornalis-
ta, em fevereiro de 1997, aos 67 anos, a
uma acao de indenizacqo proposta con-
tra ele pela diretoria da Petrobris na
6poca, liderada pelo president, Joel
Renn6. Francis afirmou, pela televisao,
que os diretores da estatal brasileira do
petr61leo (ji nao tdo estatal assim) tinham
contas secrets na Suifa, prova de seu
enriquecimento ilicito.
Em outubro de 1996 os acusados
processaram ojornalista por dano mo-
ral, cobrando indenizagao no valor de
100 milh6es de d61lares. Francis nao ti-
nha prova alguma do que afirmara.
Mais uma vez, "chutara" para provo-
car uma pol8mica, uma das suas espe-
cialidades e a principal razao do seu
sucesso professional. Desde entdo, o
enfarte fulminante que o matou na
madrugada de 2 de fevereiro 6 atribu-
ido ou, pelo menos, associado a
essa aqao.
Um livro esguio, em format peque-
no, talvez o melhor ji escrito sobre o
personagem (embora o menor), deve aju-
dar a acabar com esse mito. Paulo Eduar-
do Nogueira, atualmente editor da Sci-
entific American Brasil, fez o que todo
jornalista deveria fazer ao se proper abor-
dar um tema: nao ficou apenas nas ver-
s6es (que, na maioria das vezes, sao mais
glamourosas ou interessantes do que a
verdade) e foi atris dos fatos em seu
Paulo Francis: polemista professional
(Imprensa Oficial do Estado de Sao Pau-
lo, 2010, 160 piginas, colecao Imprensa
em Pauta, R$ 19,90).
Ningu6m precisaria ser advogado
(bastaria ter rudimentos de direito) para
perceber que a acqo nao prosperaria.
E pouco provivel que, por inadverten-
cia, os dirigentes da Petrobris tinham
proposto a demand em Nova York, foro
incompetent para processar o pedido.
Afinal, a acusagqo de Paulo Francis foi
feita no Manhattan Connection, pro-
grama semanal de talk-show do canal
GNT (estreado em 1993), que s6 6 exi-
bido no Brasil. Nao importa que a gra-
vaqdo tenha sido em NY: para fins de
direito, o foro 6 o local de exibigqo (ou,


no caso de publicagao escrita, de sua
circulagdo).
A proposicqo nos Estados Unidos
tinha o evidence objetivo de se benefi-
ciar da doutrina e da jurisprud8ncia
americanas, que (ao contririo do pro-
cedimento brasileiro) admitem valores
elevados como verba indenizat6ria por
danos morais, uma lesdo subjetiva, di-
ffcil de mensurar.
Afora esse prop6sito, nao parecia
haver a determinagqo dos diretores da
Petrobris de sacar US$ 100 milh6es de
Francis. Talvez quisessem mesmo era
assusti-lo, o que pode explicar a omis-
sio do president Fernando Henrique
Cardoso. Amigo de longa data de Pau-
lo Francis, FHC nao usou o poder que
tinha para desestimular Renn6 e cole-
gas da agao, o que teria magoado Fran-
cis profundamente. Ele tamb6m sofreu
corn "o sil&ncio eloqiiente da maioria dos
colegas jornalistas, sobretudo de velhos
amigos, que nao safram em seu apoio",
relata o bi6grafo.

Francis contratou no
Rio de Janeiro o ad-
vogado Paulo Merca-
dante, amigo de 40 anos, e
em Nova lorque Deborah
Srour, de um escrit6rio de
advocacia especializado
em litigios no Brasil. Re-
clamava por ter de pagar
US$ 7 mil a essa advogada.
Mas ji no infcio de janeiro de 1997 "seus
advogados estavam otimistas. Semanas
depois, a morte de Francis se encarrega-
ria de encerrar a contend. E o process
acabou arquivado por inadequaqao de
foro: o juiz americano considerou que a
dentincia deveria ser feita em cortes bra-
sileiras", informa Paulo Nogueira.
0 pr6prio Francis "achava que ven-
ceria nos tribunais". Sua rotina, que in-
clufa intense atividade cultural, nao foi
alterada. Ele ficou abalado pelo proces-
so, mas seria "estupidez" atribuir A aqao
a causa da sua morte, dep6e Elio Gas-
pari, que tern outra explicaqao para o
desenlace: "0 trago obsessive de sua
personalidade, que corn muita frequen-
cia colocava a servigo do conforto dos
amigos, foi ocupado pelo assombro de
ser perseguido".


Paulo Andrade faz a mais detalhada
reconstituigqo psicanalitica do passado
de Francis, com um pai frio e uma mde
amada, mas distant, da qual foi sepa-
rado pelo internamento em col6gios de
beneditinos e jesuftas. Assinala todos os
traumas e dificuldades que modelaram
a personalidade de um home aparen-
temente agressivo (e que de fato o foi
em numerosas ocasibes), mas por den-
tro cheio de afetividade reprimida, mal-
mente canalizada para seus amigos e
mesmo desconhecidos. Algu6m que se
sabia menor do que pensava ser e do
que pretendia ainda ser.


Francis tomava antidepressivos A
base de litio para equilibrar-se: ama-
nhecia de p6ssimo humor e s6 melho-
rava corn o avanqar do dia (e a acao
do medicamento). Podia ter reaqSes
stbitas explosives e manifestaq6es
inesperadas de paci8ncia e carinho.
Tinha que manter seu ego no altar para
nao sofrer recaidas. Em 1979, a rea-
qdo ruim da critical ao seu primeiro ro-
mance, Cabega de Negro, arruinou
seu aniversario de 49 anos. Tomou 10
Librium diarios nesse perfodo e, se-
gundo seu bi6grafo, chegou a pensar
em suicidio.


6 Jornal Pessoal JULHO DE 2010 I1 QUINZENA







norte de Francis


Corn um perfil que combinava total
sedentarismo corn consumo desenfre-
ado de alcool e outras drogas em parte
significativa da vida, al6m de outros
complicadores, nao surpreende a mor-
te antecipada. Mas que podia ter sido
adiada se o m6dico Jesus Cheda, que o
tratava desde a d6cada de 70, tornan-
do-se seu amigo, ao inv6s de receitar
mais injeq6es de cortisona para ameni-
zar as dores da cronica crise de bursite,
tivesse solicitado um exame do cora-
qao. 0 enfarte veio tres dias depois da
iltima aplicarqo. 0 m6dico ji estava no
Rio de Janeiro, para o carnaval.
0 process da Pe-
trobrns comprovava
mais uma vez a restri-
qdo feita pelos seus
criticos: de que ele nio
era rigoroso corn os
fatos, dos quais che-
gava a desdenhar ou
que simplesmente in-
ventava, da forma
mais anti-profissional
possfvel. Francis nun-
ca foi exatamente umr
reporter, o que enfra-
quecia sua condiqao
de jornalista. 0 tftulo
de o jornalista brasilei-
ro mais bern pago, de-
pois de quatro d6ca-
das em constant evi-
dancia, como grande
polemista, um dos mai-
ores de todos os tem-
pos no pafs, se susten-
tava na sua excelente
mem6ria, rara capaci-
dade de leitura, texto coloquial e voca-
qdo para agitar id6ias, "raciocinando em
bloco", como se dizia na 6poca de O0
Pasquim.
Por ser brilhante em muitas coisas,
Paul Trannin Heilborn ndo foi consis-
tente em nenhuma das suas miltiplas
virtudes especificamente. Podia dar-se
mal se fosse confrontar com especia-
listas cada uma das suas tiradas sobre
hist6ria, ciencia political, psicologia ou
outros ramos do saber. t pouco pro-
vivel, entretanto, que a esmagadora
maioria desses acad8micos conseguis-
se atrair a atenqlo do grande pfiblico


como Francis, que nao carregava no
colete nenhum diploma universitario.
Mal freqilentou aulas na famosa Fa-
culdade Nacional de Filosofia, no Rio.
Mas em 1954 fez mestrado em lite-
ratura inglesa e teatro corn ningu6m
menos que Eric Bentley, grande critico
e historiador do teatro. No Brasil dos
nossos dias, nao penetraria nos umbrais
das universidades, ao menos as pdbli-
cas. Muito menos seria jornalista, ex-
ceto agora, quando caiu o monop61lio do
diploma do curso de comunicaqao soci-
al para o exercfcio da profissdo (mas
s6 por ora, se defender das entidades
corporativas).

A bibliografla de Paulo
Francis, que compre-
ende 13 volumes, comn
nove livros de ensaios e jor-
nalismo, mais quatro de fio-
99o, e pouco citada e o sera
cada vez menos com o pas-
sar do tempo. Grande leitor
de romances e poesias, se
frustrou naquela que era
sua maior ambigio: ser aum
grande escritor. Tamb6m ficou
irrealizado seu sonho de se tornar inte-
lectual do mundo: nio conseguiu publi-
car artigos na Meca dos escritores, o
semandrio New York Review ok Books,
nem ter um livro em ingles. 0 projeto
de Getdlio Vargas, o home que in-
ventou o Brasil, nao emplacou porque
ele nao se ajustou as exig8ncias da pres-
tigiosa Random House, depois de ter
escrito 70 piginas do livro, em 1993.
Quando morreu, ele tinha duas pigi-
nas inteiras por semana em 0 Estado de
S. Paulo, sem ser censurado (nern mes-
mo antes, porque os militares nao presta-
vam atengqo ao exterior, segundo Paulo
Nogueira), o mesmo espago em 0 Glo-
bo, apariq6es constantes na TV Globo e
o Manhattan Connection, ao lado de Lu-
cas Mendes e Caio Tdlio Costa. Era ao
mesmo tempo influence e popular. Quan-
tos jomalistas chegaram a esse topo?
Por isso, S6rgio Augusto, um dos
seus amigos intimos e o mais lucido dos
seus criticos, que nao baixou a crista
para os erros do colega, alerta no livro
que nao se pode "negligenciar a im-
portancia do convivio de Francis, a


partir de certa epoca, com um circulo
de ricaqos e conservadores, gente
como Delfim Netto e o banqueiro Ro-
nald Levinsohn, que, a meu ver, muito
mal fizeram A sua cabega. A tdo pro-
palada guinada ideol6gica do Francis
tamb6m 6 fruto de sua ascensao finan-
ceira como jornalista".
Certa avidez pelo dinheiro, que o
fazia lamentar o pagamento feito A ad-
vogada americana (o brasileiro prova-
velmente nada Ihe cobrou), a ameagar
seu patrim6nio material, e as id6ias cada
vez mais extremadas, perturbavam e o
levavam a tomar posiq6es incompatfveis
com sua condiqao de analista. No de-
poimento que prestou a Gianni Carta
para o livro A Margem do Sena, Reali
Jdnior aponta a distorqao deliberada de
Francis em outra acusaqao que fez: de
que Lurian, a filha extraconjugal de Lula,
era mantida pela Construtora Andrade
Gutierrez em Paris como princess.
Sua mat6ria causou estragos ao can-
didato do PT, na primeira dispute pela pre-
sidencia da Repdblica, e beneficiou seu
principal adversdrio, Fernando Collor de
Mello, pelo qual Francis se entusiasmara
tanto (por ser tamb6m rico e conservador
como ele?), que praticamente adotara
como seu principle (no conceito gramsci-
niano), apostando completamente errado,
por qualquer crit6rio de andlise.
0 jornalista que estava acima de
tudo para poder tratar de tudo e a tudo
atingir, ji descera A arena como perso-
nagem, nao de fato, mas de papel, um
mau papel, como em seus desconjunta-
dos romances, sem tipos bem construf-
dos, sem a grandeza da melhor literatu-
ra e, no caso, nem do melhor carter.
"Francis morreu na hora certa", definiu
S6rgio Augusto corn propriedade.
Talvez chegasse aos 80 anos como
a negagqo do que foi de mais importan-
te: um polemista notivel e um editor
como poucos. Basta lembrar sua traje-
t6ria por Senhor, a revista que esteve
muito al6m do seu tempo entiree 1959 e
1962), o Quarto Caderno do Correio da
Manha (1967/68) e a revista Diner's
(1969), tres das melhores publicaq6es
da hist6ria da imprensa brasileira.
Este Francis ficard. 0 outro, o mais
recent, morreu antes de destruir o que
construira, conforme o enredo da md
ficqio que forjou.


JULHO DE 2010 1 QUINZENA Jornal Pessoal 7








Em dezembro de 1955


Ocolunista social Arman-
do Pinheiro apresentou
pela primeira vez, no dltimo
dia de 1955, a relagdo das 10
mulheres mais elegantes do
Pard, depois de meses de cri-
teriosa seleqdo. Garantia ter
sido "sincero comigo mesmo"
na elaboraqio da lista, que ti-
nha (tamb6m citadas pelo
nome de solteiras) Lucinda
Cruz, vitiva de Elidio Lima;
Julia Danin, senhora coronel
Moura Carvalho; Ruth Leitdo
de Carvalho, sra. comandan-
te Ernani Lima; L6a Velho,
sra. Herm6genes Conduru;
Maria de Nazar6 Caldeira,
sra. Dilermando Menescal;
Celeste Porto, sra. C16o Ber-
nardo; Laide Barata, sra.
Jodo Pires Teixeira; e as se-
nhoritas Elisa Chermont Ro-
ff6, Stella de Lamardo Cas-
tro Ribeiro e Francy Brasil
(depois Meira).


Emanuel Franco estava
em condiqoes de esta-
belecer conversaqao e dar au-
las em ingl8s para alunos adi-
antados ou principiantes, con-
firme dizia em anincio: fora
professor do Instituto Comer-
cial Brasil e Alian9a Inglesa,
no Rio de Janeiro. A16m dis-
so, conhecia a Inglaterra e a
Am6rica do Norte. Quem qui-
sesse mais informacqes ou
se matricular, devia ir A Esco-
la Nossa Senhora de Fatima,
na avenida Senador Lemos,
pr6ximo A praqa Brasil.

F la escala de servigo de
J policiais que o delegado
Adriano Gonqalves entregou
aos rep6rteres credenciados
na Delegacia de Seguranqa
Publica podia-se verificar a
quantidade de mercados e
locais de abastecimento de
alimentos que havia entdo em


HOJE E AMANHA AS 20,30 HS.
ITALO CORCIO E SUA COMPANHIA
DE REVISTAS no espethculo mais alegre
da cidade
| MORAL DE BABY-BOLL.
REVISTA em 2 atos e 22 quadros
Scorn "SENSUAL STRIP-SCOPE"
Proibida atM 18 anos
MOsicas Vedetes Alegria Malfci
A seguir: "A VERGONHA.FICOU SM
VERGOIIHA"
A S6tira mais violent dos O1timos tempos!
Um flagrante de Copacabana em nossos dias'
Um negative da falsa sociedade em nosss
dias!
Orquestra dirigida por GuiSes de Barros
Ingressos A venda no Caf6 Manduca, F. Aguiarg
e nos escrit6rios da EmprAsa PARAMAZON.
----- --- ~ ~- -


Bel6m. Mercados: municipal,
de ferro, de Sao Braz, Santa
Luzia, Souza Franco, Gua-
mi, Pedreira, Sao Joao, Ju-
runas, Sacramenta, Acampa-
mento, Cremaqdo, Porto do
Sal, Marambaia e passage
Roosevelt. Feiras: Bandeira
Branca, do Carangueijo, das
Aves (no Ver-o-Peso e em
Sao Braz). Frigorfficos: Na-
zar6, Marajoara, Paraense.
N. S. do Carmo. Mais os
postos de venda da Estrada
Nova e Quitandinha, e 21
talhos de care e peixe. A
cidade cresceu desde entao.
0 setor public, nao.

I lecia, aos 67 anos, de
. pois de "longos meses
de cru6is padecimentos",
Georgina Edna de Miranda
Autran, vidva do "saudoso
comandante" Alberto Frei-
re Autran. Uma de suas fi-
lhas, Maria de Nazar6, ji fa-
lecida, fora casada com o
deputado St6lio de Maroja,
que viria a ser prefeito de
Bel6m, em 1965, e deputa-
do federal. Dentre suas ne-
tas estava Virginia Maroja,
que foi secretAria da Facul-
dade de Filosofia no tempo
em que a escola era isolada
e funcionava na Generalis-
simo Deodoro, onde hoje
esti a Apae. Era muito que-
rida pelos alunos.


das mais interessantes e vali-
osas da imprensa paraense,
infelizmente sem a menor co-
gitaqao presentemente. Re-
gistrava a movimentagqo de
entrada e saida de embarca-
95es no porto do Ver-o-Peso,
atrav6s da qual se podia ter
informaqces sobre a relaqdo
commercial entire a capital e o
interior do Estado, sobretu-
do na Area de influencia de
Bel6m. No dia 30 entraram
16 canoas e quatro motors
(apenas uma embarcaqao
era ao mesmo tempo motor
e canoa). Quatro barcos vi-
eram de Macapi e dois de
Moju e de Afua, os principals
locais de origem. Chegaram
tamb6m duas embarcaqoes
do Maranhao e uma do Ama-
zonas. Traziam principal-
mente madeira, frutas, arroz,
peles e cachaqa.

Oarquiteto e engenheiro
civil Feliciano Seixas, o
primeiro paraense a acumu-
lar os dois titulos, vendia "lo-
tes prontos para receber
construcgo, situados AAv. Al-
mirante Tamandar6, e traves-
sas Sao Pedro e Sao Francis-
co", onde se concentravam al-
gumas vacarias e hortas, em
extensos terrenos. Feliciano
atendia diariamente, at6 aos
domingos, no seu escrit6rio, na
praqa Justo Chermont, ou pelo
telefone 9972.


secao Pequena Cabota-
a gem (Velas & Motores) AAcademia Paraense de
da Folha do Norte era uma -Letras inaugurava sua


PROPAGANDA

Cinema e teatro
0 Paramazon ndo era cinema e teatro apenas no nome, como a maioria. Tinha palco para as apresentaV5es "ao
vivo", como hoje se diz. Em 1961 quem se valeu desse espago foi Italo Circio e sua Companhia de Revistas para
apresentar "o espetdculo mais alegre da cidade": Moral de Baby-Doll, revista em dois atos e 22 quadros, "com
sensual strip-tease", por isso mesmo proibida ate 18 anos. Tinha mutsicas, vedetes, alegria e malicia, corn o apoio da
orquestra dirigida pelo maestro Guides de Barros. Os ingressos eram vendidos no Cafe Manduca, um dos principals
pontos de encontro no centro da cidade, ao lado da prefeitura de Belem. 0 pridio do Paramazon ainda subsiste na
travessa Piedade. Depois de tantos usos, agora d uma casa de espetdculos.


8 Jornal Pessoal JULHO DE 2010 Ia QUINZENA


_ i I I


~g~b~p~f~











FOTOGRAFIA
Miss Para
Abilio Couceiro foi a TV Marajoara, em 1964, apresentar Maria Ester Bentes, que o
Paissandu estava langando como candidate ao entdo muito prestigiado concurso de
Miss Pard, promovido pelos Didrios e Emissoras Associados em todo Brasil. 0
colunista social Edwaldo Martins (que neste mes complete mais um ano de falecimento)
fez as honras da casa, antecipando a eleipdo e a consagragdo de Maria Ester como
uma das mais belas paraenses na seleVdo que se fazia. Como quem foi da realeza
nunca perde a majestade, a ex-miss continue na mem6ria de quem a viu no program
da jd
extinta
Marajoara.
Hoje,
reina na
Terra do
Meio, o
sitio-
restaurante
do
marido,
Andri
Nunes.


J esti nas bancas e livrari-
as o segundo volume da
Mem6ria do Cotidiano, a secao
mais lida por parte dos leitores
do Jornal Pessoal. Junto com
o volume anterior, acho que os
dois livros permitem uma visdo
mais fntima e sempre individua-
lizada da hist6ria de Bel6m e do
Pard durante o s6culo XX, so-
bretudo na sua segunda meta-
de. A boa receptividade A pri-
meira iniciativa reforgou o com-
promisso de langar uma nova
coletanea dos textos, fotos e
ilustrag6es do JP. 0 apoio do
amigo Reginaldo Cunha contri-
buiu para viabilizar a empreita-
da, transformando-a em um
acontecimento de final de ano.


sede social, no infcio da traves-
sa Santo Antonio, "com mag-
nffico audit6rio dotado de con-
forto e luxo", lotado por "assis-
tencia seleta e distinta". 0 his-
toriador Emesto Cruz fez o dis-
curso de abertura. 0 menino
VitorRibeirodaMota, William
Bendelack e as jovens Dulce
Mota e Dulce Barcelos, alunos
de Adelermo Matos, apresen-
taram nimeros de acordedo (o
instrument musical da moda),
enquanto Adalcinda Camarao,
Rodrigues Pinag6 e Bruno de
Menezes declamavam poesias,
pr6prias e de terceiros. 0 imor-
tal Georgenor Franco anunciou
os vencedores dos premios da
APL: o padre Belchior Maia,
director do Col6gio do Carmo,


de poesia, e Claudio Barradas
(ainda em plena atividade), de
teatro. Menq6es honrosas fo-
ram dadas a CUndido Marinho
da Rocha, Otvio Avertano e
Lindanor Celina.

Proi uma verdadeira ma-
. ratona a transiqao de
1955 para 1956 o r6veillon do
"famoso bloco camavalesco"
Ndo Posso me Amofmi, do
bairro do Jurunas, realizado na
sede dos Estivadores da
Borracha.A festa atravessou a
madrugada, animada pelo Rei
Momo da Aldeia do Radio
(PRC-5, Radio Clube do Pard)
e pelo "popular conjunto" Pan
Am6rica. As seis horas da ma-
nhldo dia ldejaneiro foi dado


o grito de carnaval, quando vi-
rios brindes foram sorteados
aos cavalheiros e senhorinhas
presents os que, 6 claro, so-
breviveram animados.

Tavia cinco sess6es dii-
Jcrias de cinema no Olfm-
pia, o principal da cidade,
desde as duas e meia da tar-
de at6 as 10 da noite cornn
encerramento A meia-noite).
Impensivel nos nossos dias.

1rimeiro filme cinemas-
ope com som estereo-
f6nico foi Os Cavaleiros da
Tavola Redonda, com Ro-
bert Taylor, Ava Gardner e
Mel Ferrer, exibido no cine-
ma Independ8ncia.


Mem6ria
santarena
Bancas e livrarias de Bel6m jd
dispiem de exemplares do meu
livro, Memoria de Santargm,
editado pelojomrnal 0 Estado do
Tapajj6s, de Miguel Oliveira.
Registros da hist6ria de Santa-
r6m e do Baixo Amazonas nos
s6culos XIX e XX.


Trema
Alguns leitores alertam sobre a persistencia do trema nos meus textos. Nao 6 (mais uma)
desatengao. E um protest contra a obtusa reform ortogrdfico que os academicos nos impu-
seram. At6 o fim do prazo legal para a tolerancia, continuarei a abrigar o vilipendiado trema
onde o seu uso se recomenda. Se a nossa lingua continue a pronuncid-lo, por que deixar de
grafi-lo? S6 porque uns pais do 16xico decidiram garfi-lo?


JULHO DE 2010 19 QUINZENA Jornal Pessoal 9


B IUIIIIII II






0 Baiu que acabou


Tornei-me client do Bal antes que
a livraria de livros usados (ou sebo) co-
meqasse a funcionar, em 2002. Passa-
va pela travessa Campos Sales e vi que
alguma coisa acontecia no que antes
fora a Faianqa, uma loja de presents
caros, inclusive j6ias. A loja, de born
gosto, recuada em relaqio A calqada,
tinha fechado. Vi, por tris da vidraqa,
que lA dentro estava o advogado Luiz
Roberto Meira, filho do tamb6m advo-
gado C6cil Meira. Entrei, vi muitos li-
vros e fui apresentado ao s6cio de Luiz
Roberto na empreitada que eles inicia-
vam, o quase-m6dico Denis Cavalcan-
te. Enquanto organizavam os livros, eu
ia logo selecionando os que me interes-
savam, muitos, como sempre.
Os preqos eram bons, o local era
inimaginAvel para um sebo, com suas
molduras de madeira, espelhos entreme-
ados e central de ar condicionado.
Al6m do gabinete do livreiro, no fundo
do pr6dio (de tres andares, incluindo o
t6rreo), depois de um curto corredor,
onde os amigos da casa eram bem re-
cebidos pelo sorriso da Sueli e o caf6
do Machado. A conversa com o livreiro
podia se esticar sem limited de tempo,


embora logo o sebo ficasse desfalcado
de Luiz Roberto, dono da maioria dos
livros inicialmente postos a venda (e vi-
rios outros guardados no gabinete como
trof6us), que se sentiu mal e morreu ali
mesmo, de forma chocante para seus
amigos e admiradores.
O estoque inicial foi muitas vezes
reposto e ampliado. Vitivas e parents
de pessoas que gostavam de livros apa-
reciam na loja para oferecer seu acer-
vo. Era frequente o trabalho de limpeza
e fixaqao de preqos pelo Denis se con-
jugar com minha acqo agambarcadora,
mal minhas maos davam conta das or-
dens de cobiqa dos olhos, sempre ex-
trapolando a fronteira do bom senso e
da pragmitica. 0 Bal me proporcio-
nou centenas de volumes, produzindo
uma relaqgo de afeto, apreqo e grati-
dao, gragas aos exercicios de esgrima
em torno dos preqos corn Denis, duro
na queda, e Machado, mais sensivel aos
apelos de um bibli6mano.
Os azares da vida fizeram D6nis
abandonar a Campos Sales, no centro
velho de Bel6m, via crucis da minha
peregrinaqdo de ida e volta ao f6rum
da cidade, onde meus algozes planta-


ram as minhas estaq6es do sofrimento,
contando para isso com a benevol8ncia
ou a conivencia de certos magistrados.
Foi para a incerta Dom Romualdo de
Seixas (grande bispo, intellectual e polf-
tico do imp6rio brasileiro), no Umarizal.
Nao era a mesma coisa. Mas a per-
da de ambiente propicio aos velhos in-
folios foi mais do que compensada pela
agregaqao de um restaurant, dois es-
paqos arrumados num projeto arquite-
t6nico caprichado. Era o primeiro bis-
tr6 cultural de Bel6m. Infelizmente, nao
completou o primeiro ano de vida. 0
Bau-Bistrb acaba de fechar. Vai ser
substituido por uma casa de vinhos e
um salio de recep6oes. A formula, que
junta livros a um caf6 e a um restauran-
te de cardipio selecionado, sucesso e
encanto em vdrias grandes cidades es-
palhadas pelo mundo, vai precisar ser
testada em outro experiment, para nos-
so desconsolo. 0 acervo remanescente
ainda continuard A venda, enquanto du-
rar. Fechamento de livrarias tem sido
um acontecimento mais frequiente em
Bel6m do que a abertura de novos es-
tabelecimentos. E mais uma das mar-
cas tristes da cidade.


Estadio hist6rico?

Em 1962 a Comissdo de Construqao entregou solenemente A diretoria
do Clube do Remo o estidio da travessa Ant6nio Baena, depois rebatiza-
do para Evandro Almeida (que o torcedor, indiferente As razbes de carto-
las, chama de "Baenao"). Nada que possa justificar, por antiguidade, es-
tilo ou qualquer outro crit6rio, o tombamento, independentemente do uso
que se de ao local. 0 que devia permanecer mesmo, as arvores no fundo
do estidio, 6 que ji foram tombadas. Infelizmente, de forma literal.
0 Minist6rio Pdiblico do Estado se manifestou contra o pedido de
tombamento, feito pela Secretaria de Cultura. Alegou, com toda razao,
que o Baenao "6 de arquitetura antiga, foi construido sem as modernas
preocupaqces de proteqAo A vida, A satide e A seguranqa do torcedor,
acessibilidade do torcedor, corn defici8ncia ou com mobilidade reduzi-
da". 0 governor nao pode impedir que o local seja reformado ou substi-
tuido por outro.
Se consultasse a Secult, a Inglaterra nao teria derrubado o velho e his-
t6rico estidio de Wembley. S6 que lii o velho field foi substituido por um
campo de futebol modern, mantendo-se o mesmo uso. Aqui, pretende-se
imolar o "Baenao" A especulagqo imobilidria e mandar o sofrido torcedor
azulino para muito long. Considerando o padrio do futebol paraense atual,
6 condend-lo a morte. Em beneficio de neg6cios de cartolas.


Selvageria

A cada dia somos surpreendidos por uma nova
violagqo ao c6digo de posturas e As regras da
vida coletiva civilizada em Bel6m. A cidade re-
gride A selvageria da lei da selva. Vence o mais
forte. Aquele que 6 mais audacioso na imposi-
g9o da sua vontade. Como o novo proprietdrio
daquela que foi a maior loja do grupo Radiolux,
ocupando meio quarteirdo no Reduto, entire 28
de Setembro e Gaspar Viana.
Os demolidores nio se deram ao trabalho de
levantar um tapume para isolar a obra e prote-
ger os transeuntes. Quem pega 6nibus na Gas-
par Viana tern que ficar do outro lado, na minds-
cula calqada, a espera do transport e depois
atravessar As pressas, expondo-se a algum aci-
dente. Pedras e ferros retorcidos avangaram al6m
dos limits da construnao posta abaixo. A trans-
gressao nao incomodou seu autor e a prefeitura
nao se deu por achada.
Alids, quem consegue achar o prefeito?


Jomal Pessoal
Editor: Ltcio Flavio Pinto


Contato: Rua Aristides Lobo, 871 CEP: 66.053-020 Fones: (091) 3241-7626
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Diagramag9o e ilustrag6es: L. A. de Faria Pinto E-mail: luizpe54@hotmail.com


10 Jornal Pessoal JULHO DE 2010 1Q OUINZENA


I I ~ _- I II L I- --1~1 --- I IIIL1 I ii






A visagem e a verdade


A advogada Ilma Barcelos, da OAB
do Espirito Santo, recolocou em circula-
qAo uma das denuincias que constante-
mente vai e volta, sem perder impeto nem
ganhar credibilidade: de que navios estran-
geiros estariam roubando agua na Ama-
z6nia. Segundo ela, cada navio carrega-
ria em seus pores 250 milh6es de litros
por viagem. Essa agua seria comercializa-
da na Europa e no Oriente M6dio.
Em minha primeira coluna neste es-
pago, tentei mostrar que essa pirataria ain-
da 6 fantasia. Principalmente porque nao
6 econ6mica. Varias autoridades segui-
ram raciocinios identicos ao serem ques-
tionadas sobre a denuncia. 0 porta-voz
da Marinha garantiu que a agua captada
pelos navios 6 autorizada por convengao
intemacional e praticada em todos os pa-
fses. Serve de lastro para que as embar-
caq6es tenham seguranqa em sua nave-
gagdo. Assegurou que jamais o govemo
recebeu dentincia concrete sobre priti-
cas ilicitas desse carregamento.
Ja a Agencia Nacional de Aguas
(ANA) recorreu aos arguments eco-
n6micos para desmentir a pritica de hi-
dropirataria. Seu representante alegou
nao ser viivel como neg6cio: o custo do
frete da agua levada da Amaz6nia para
a Europa ou o Oriente M6dio e do seu
tratamento seria de tries a cinco vezes
superior ao custo da dessalinizaqao da
igua usada em Israel ou na Arabia Sau-
dita, onde o process 6 utilizado. Ainda
que o Brasil legalizasse e autorizasse os
navios a levarem a igua de graqa, o custo
do transport e beneficiamento tomaria
inviavel a operaqao.
Ha ainda um detalhe t6cnico rele-
vante: 250 milhoes de litros represen-
tam uma quantidade pequena de agua
bruta (ainda nao potivel) para venda,
mas constituem volume expressive para
um navio. E tonelagem muito superior
A dos cargueiros que costumam operar
na bacia amaz6nica.
A advogada Ilma Barcelos desde-
nhou das explicacges. Para ela, a hi-
dropirataria s6 nao se comprova por-
que a fiscalizaqio dos 6rgios pdblicos
6 falha. Esti disposta a contribuir para
comprovar o que disse: vai formalizar
uma denincia a Marinha. Disse para a
imprensa que ji tinha "certeza absolute
que essas quest6es seriam negadas por-
que ningu6m vai assumir que 6 incom-
petente em algum 6rgao".
Como a dentincia repercutiu, circulan-
do por redes na internet (nao pela primei-
ra vez e certamente nao pela iltima), o
deputado Lup6rcio Ramos (do PMDB do
Amazonas), pediu a realizagqo de audi-


8ncia pdblica na C.mara Federal para tra-
tar da questao. Tamb6m cobrou dos 6r-
gaos de defesa e de seguranqa a amplia-
qao do sistema de fiscalizaqao na Ama-
z6nia. "0 pais precisa comeqar a discu-
tir o direito de uso da agua. N6s deve-
mos estar em alerta em relagqo A Ama-
z6nia, porque temos 16 um patrimonio ex-
traordindrio", justificou o parlamentar.
Para bem administrar esse patrim6-
nio, por6m, 6 precise inventarid-lo, classi-
fici-lo e usi-lo de forma correta, o que
pressupoe conhecimento de causa. Af 6
que mora o problema. A Amaz6nia 6 umrn
tema tao universal quanto o futebol. To-
dos acham que entendem dela e dao seus
palpites como se fossem a expressao ab-
soluta da verdade. 0 contencioso amaz6-
nico 6 uma reuniTo de barbaridades.
E evidence, ao mais elementary inicia-
do em quest6es amaz6nicas, que nao hi
a pirataria apontada pela advogada capi-
xaba. Simplesmente porque ainda nio di
lucro pratica-la. E porque, para coloci-la
em curso, sdo requeridos provid&ncias e
procedimentos que ningu6m ainda identi-
ficou. Ha irregularidades na navegagqo
amazonica e ela 6 pessimamente fiscali-
zada. Mas a hidropirataria 6 um hidromi-
to, ao menos por ora, como observou corn
sarcasmo o representante da Ana.
0 brasileiro tem como seu patrim6-
nio a maior bacia hidrogrAfica do plane-
ta e o dilapida todos os dias na Amaz6-
nia. E um bem que atrai o interesse mun-
dial, mas para outros fins, nao como fon-
te de agua potivel ou ainda nao. Ha
um neg6cio muito mais atrativo, um dos
mais rentiveis nos dltimos anos em qual-
quer parte: a agua engarrafada.
Ela 6 apresentada como se fosse
agua mineral, mas na maioria dos casos
ou vem da rede piblica ou de drenagens
superficiais (nao de uma fonte de agua
pura). Esta 6 uma autentica pirataria, que
rende bilh6es de d61lares de super-lucros
indevidos. E 6 praticada A vista de todos
sem provocar o impact das dendncias
da advogada capixaba.
Hist6rias chocantes e sensacionalis-
tas, mesmo quando usadas como inspi-
raqao para defender a Amaz6nia, tme um
efeito nocivo, principalmente por desvi-
ar a atenqao do real para fantasias. Em
1976 um cientista denunciou que a Vo-
lkswagen havia posto fogo em um mi-
lhao de hectares na fazenda que possufa
no sul do Pard. 0 incendio havia sido
detectado pelo sat61lite americano Skylab,
o maior j i registrado pelo home.
A queimada era, na verdade, de 10 mil
hectares, 100 vezes menor. Todos se de-
sinteressaram pelo caso. Ainda assim, era


a maior queimada feita em uma unica tem-
porada de fogo na Amaz6nia. A boa in-
tengqo do denunciante teve efeito rever-
so ao pretendido. 0 exagero foi o boi de
piranha para a Volks desviar sua manada
para long da atenqao da opinido p6blica.
Pouco depois surgiu a hist6ria de que
submarines emergiam A noite na sede do
Projeto Jari, do milion6rio americano Da-
niel Ludwig, no Pari, para carregar ouro
e minerals estrat6gicos. Muita gente
acreditou e at6 um senador exigiu todo
um aparato de seguranqa national do go-
vemo military para ir a Monte Dourado
verificar essas e outras denincias.
Se esses submarines conseguissem
navegar pelas aguas barrentas do Ama-
zonas, evitando as toras de madeira que
ele arrasta na 6poca de cheias, at6 que
seria um trof6u just ficarem corn o ouro
e os demais min6rios. Um submarine cabe
melhor numa fAbula, porque fica escondi-
do debaixo d'igua. 0 problema 6o outro
lado do enredo. Um navio de carga faria
um serviqo muito melhor e mais econ6-
mico. Mas nao se encaixaria na fantasia.
Tamb6m se dizia que, no meio do mi-
n6rio de ferro da Serra dos Carajas, as
multinacionais estariam levando ouro ou
uranio. Ferro se mede por milh6es de to-
neladas para ser commercial. Ouro, em
gramas. Urinio, em quilos. Um proces-
so que permitisse separar ouro e urinio
na extraqao de ferro seria uma revolu-
9qo tecnol6gica.
Aos exploradores dos recursos na-
turais de Carajis, no Pard, basta o mi-
n6rio de ferro, o melhor que existe na
crosta terrestre. Transportado, A razdo
de 90 milh6es de toneladas anuais (vo-
lume que dobrari at6 o meio da d6ca-
da), para a Asia e a Europa pelo maior
trem de carga do mundo, em nove via-
gens didrias, 6 um aut8ntico neg6cio da
China (para a China). Sem qualquer ves-
tfgio de outro bem.
HA muita pirataria e ilegalidade na
Amaz6nia. Haveria muito menos se hou-
vesse melhor fiscalizaqao. Mais importan-
te seria se houvesse melhor conhecimen-
to, maior valorizagqo do home, mais re-
tengqo de suas riquezas em proveito de
quem a habitat. Valorizado, o amaz6nida
cuidaria de separar o joio do trigo.
Ao inv6s de enfrentar fantasmas ao
meio-dia ou zanzar atris de bruxas cir-
culando com vassouras pelo espa9o, ele
submeteria cada questao ao teste de con-
sistencia e A prova da verdade. Com a
li9io aprendida, talvez se colocasse em
condiq6es de escrever uma hist6ria me-
lhor para a regido. Sem fantasmagorias,
mas tamb6m sem exploragqo.


JULHO DE 2010 1 QUINZENA Jornal Pessoal 11











Nelson Pereira dos Santos fez, sobre
S6rgio Buarque de Hollanda, um dos me-
lhores documentaries que ji vi. Vi e revi.
S6rgio foi um verdadeiro scholar, en-
safsta de mao cheia, aquele tipo de pes-
quisador que ilumina os documents con-
sultados, que v8 a hist6ria viva dentro -
e al6m dos pap6is. Tinha um descorti-
no raro do fato cultural, qualquer que
fosse. Sentava-se diante da mesa de tra-
balho e levantava com um trabalho pri-
moroso, fosse Raizes do Brasil, Vis6es
do Paraiso ou As Mongoes. Aldm do
mais, viveu muito e intensamente, em
mdltiplos ambientes: na academia, no bar,
nos sales, nas ruas. Um dos intelectu-
ais mais completes que o Brasil ji teve.
Um home com altura e profundidade.
No documentirio belissimo, recebi
corn um travo o depoimento do filho mais
famoso, o compositor, cantor e por dl-
timo escritor Chico Buarque de Ho-
Ilanda. Chico 6 um fenomeno, uma dAdi-
va que qualquer pafs deve cultuar e agra-
decer por t&-la. Nunca resgataremos a
divida que temos corn ele, n6s, seus con-
temporfneos. Mas Chico nao deu sobre
o pai o testemunho que seria de esperar
dele. Parecia acanhado, timido. Mais do
que isso, por6m: transparecia um ar de
migoa, talvez ressentimento. Suas pala-
vras ressoavam certa amargura.
Seria pelo fato de que o pai quase nao
o deixava penetrar no seu gabinete, no qual
se concentrava para o trabalho, local in-
terditado ao comum dos mortais? 0 talen-
to do filho foi precoce. 0 talent e certa
qualidade medidnica: menino bem nasci-
do, que cresceu em ambiente de classes
m6dia ilustrada, era um acabado descen-
dente de Noel Rosa e Ismael Silva, said
do subdrbio e descido do morro para sitio
mais caracteristicamente urban. Lirismo
de sonetos combinado corn a aspereza das
ruas pelas quais circulam pivetes e assal-
tantes, operarios e meretrizes.
0 muito rapido e contido depoimento
dado por Chico a Nelson sugere o des-
gosto do filho por nao ter partilhado mais


moments com o poderoso intellectual
que foi o pai, por nao ter conversado de
igual corn ele, por nio ter sido conside-
rado um igual. Genio da mlsica popular
nao foi titulo suficiente para Chico: con-
solidada a carreira, acima do bem e do
mal, quase uma unanimidade (inclusive
na inveja que provoca), o filho de S6rgio
Buarque investiu sobre a condi9io de
escritor. Sabe, de fato, escrever. Mas nao
6 um grande escritor. A musa da ficcqo
nao lhe 6 tdo pr6diga e ele nao tern os
atributos do pai.
Num texto tamb6m curto demais para
a iltima ediqao (a 45) da revista Piauf,
Chico fala do seu fascinio pelos dicioni-
rios. 0 gosto pelos verbetes do 16xico
remonta ao grande patrim6nio que o pai
lhe transmitiu: um exemplar do diciondi-
rio anal6gico de Francisco Ferreira dos
Santos Azevedo. Foi o livro que S6rgio
passou ao filho, que relembra: "Isso pode
te servir, foi mais ou menos o que ele
entao me disse, no seu falar meio gru-
nhido. Era como se ele, cansado, me
passasse um bastao que de alguma for-
ma eu deveria levar adiante".
Desde entao, o compositor comprou
sucessivos exemplares que encontrou,
em sebos ou mesmo atrav6s da internet,
para nao se expor ao risco de ficar sem
seu texto de consult permanent e ao
mesmo tempo imaginando-se detentor do
monop6lio da obra. Ate que nova edicao
foi agora publicada, fazendo-o sentir-se
"como se invadissem minha proprieda-
de, revirassem meus bads, espalhassem
aos ventos meu tesouro". Quem sabe,
nao era o dicionario uma forma de se
resguardar da competiqao com o pai e,
ao mesmo tempo, t8-lo ali imobilizado
como um igual?
Nio sei se Chico Buarque de Hollan-
da ji leu Carta ao pai, de Kafka. Podia
servir-lhe de inspiracgio mais provoca-
dora do que a noticia da reediqao do ji
nao mais raro diciondrio anal6gico de
Francisco Azevedo. E mais satisfat6ria
para n6s, seus leitores e admiradores.


Chico Buarque:

heranga de Sergio


Corregio
Numa lista dos 10 maiores compositores da misica popular maravilhosas misicas. Mas, ao citar Nelson Cavaquinho na
brasileira, 6 precise encontrar lugar para Cartola e Nelson edicgo passada, estava pensando nos versos do "abismo
Cavaquinho, os mais sofisticados criadores de origem que cavaste aos teus p6s", de Cartola. Dois grandes poetas,
popular na hist6ria do pafs. Conheci ambos e desde tempos passa-se de um ao outro sem descer um degrau ou uma
imemoriais sou admiradores incondicionais das suas nota. Por isso, nem percebi a troca. Perdeo, leitores.
Jornal Pessoal JULHO DE 2010 1I QUINZENA


Passado/Presente

A Segunda Guerra Mundial teve
pelo menos um efeito ben6fico para o
Brasil: tornou o nosso pals terra ado-
tiva de grandes intelectuais europeus,
que fugiram do totalitarismo nazista,
como Otto Maria Carpeaux e Paulo
R6nai. 0 frances Edouard Bailby veio
depois, ji em 1949, nao numa onda de
emigragqo para os tr6picos, mas em
aventura pessoal. Ficou 15 anos no
Brasil, tornou-se exfmio no portugues,
lendo, escrevendo e falando, e esca-
pou ao exotismo dos imigrantes. Al6m
de muitos artigos e reportagens na im-
prensa, sobretudo em iltima Hora,
de Samuel Wainer, nos deixou um li-
vrinho precioso, A Revolugdo devo-
ra seus presidents, publicado pela
Saga, excelente editor.
Bailby, aos 81 anos, de volta A
Franqa desde 1963, record sua
"aventura brasileira" em artigo publi-
cado no Jornal da ABI, agora com
mat6rias de interesse e reportagens
mais longas, no melhor estilo jornalis-
tico. Com 19 anos e apenas o que hoje
chamamos de 2 grau, Bailby diz que
tinha s6 um caminho: "entrar para o
curso de Jornalismo rec6m-criado na
Faculdade Nacional de Filosofia, na
Avenida Presidente Antonio Carlos",
que nao exigia a revalidagqo do bac-
calaurgat, o diploma do curso secun-
dirio. Corn professors como Josu6
de Castro e Danton Jobim, conseguiu
o diploma de bacharel em jornalismo.
Mas nao ficou nisso: iniciou logo um
curso de linguas neolatinas com Al-
ceu Amoroso Lima, Manuel Bandeira
e Celso Cunha.
Basta este trecho do artigo para fa-
zer algumas proveitosas observaq6es.
Qualquer um podia serjomrnalista quan-
do, no fim da d6cada de 40, surgiu o
curso de jornalismo na FNFi, no Rio de
Janeiro, que ainda era a capital fede-
ral. Mesmo sem precisar do curso para
se profissionalizar, Bailby foi para a re-
daqdo com seu diploma de bacharel.
Seus professors nao tinham tfitulos
acad8micos, mas que professors!
Evolufmos desde entao?