Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00346

Full Text


JUNHO
DE 2010
2'QUINZENA


ornal
A AGENDA AMAZOr


Pessoal
.lICA DE LUCIO FLAVIO PINTO


4 t 4 4


ELEICAO



Strip-tease moral


Nem o mais cinico dos visiondrios poderia prever o que acontece no Pard como preparagao
para a eleigio de outubro. Biografias, principios e pudorforam deixados de lado na voltpia
pelo poder Os candidates s6 pensam em si. E o eleitor: aceitard essa esbmrnia?


Asociedade paraense estd mo-
ralmente podre.
0 mau cheiro mais forte exa-
la da sua pritica polfitica. Ela nunca foi
exatamente um exemplo de boa educa-
0ao. Mas resvalou neste ano para um
dos mais baixos patamares de todos os
tempos. Ha mais informag6es em cir-
culag~o, mais mecanismos e instituiqoes
de control para evitar vicios como o
famoso "mapismo", responsivel pela
mi fama que o Para adquiriu: de ser
sempre o iltimo Estado a concluir a apu-
ragqo de votos (o retardamento minava
a vigilancia e favorecia a manipulagdo


dos votos, que dormiam sob temerdria
protegqo estatal).
Mesmo assim, a temporada eleitoral
de 2010 se tomou numa escancarada
operaqdo de compra e venda de apoios
e votos (consciencia se tornou produto
raro na pra9a). No atual estigio, ainda
preparat6rio, as transacqes se restrin-
gem As lideranqas. 0 mercado de le-
gendas e de nomes parece nao admitir
mais exce9qes: todos aceitam qualquer
proposta, desde que atenda aos seus in-
teresses. Depois, seri a caqa aos vo-
tos, a qualquer preqo. 0 limited da res-
ponsabilidade ji foi ultrapassado. Ago-


ra 6 o vale-tudo. Programs, projetos,
id6ias e mesmo biografias nao interes-
sam. Tudo esti no pregao. S6 o que in-
teressa 6 vencer.
Para tentar eleger o seu successor na
eleigao de 1990, o governador H61io
Gueiros recorreu A farta distribuiqgo de
premios e brindes, entregues sob o roto
disfarce de sorteios na operaqao "ca-
minhando corn o povo". Parecia o mi-
ximo de cinismo. Ja nao 6 mais. A go-
vernadora Ana Jdlia Carepa percorreu
o interior do Estado entregando seu "kit
faz estrada", composto por patrulhas
CONTINUEA i PA


.Tfflf 1ITA UEAA I TITVRIJ


N 467
ANO XXIII
R$ 3,00


JTnrn NA WAVTA


11


'I~mClil


mI




CONTAiO D CAP
mecanizadas, que sdo o sonho de con-
sumo dos prefeitos em v6spera de elei-
9ao, al6m de algumas centenas de ca-
sas construidas as pressas e motocicle-
tas. As 503 patrulhas mecanizadas (tra-
tores, motoniveladoras, caminh6es) cus-
taram 140 milh6es de reais, obtidos jun-
to ao BNDES.
O governor e a bancada da oposiqAo
na Assembl6ia Legislativa se envolve-
ram num cabo-de-guerra em torno de
366 milh6es de reais, que o Estado tam-
b6m tomaria emprestado do BNDES,
corn as torneiras abertas para irrigar
corn bilh6es de reais o terreno eleitoral
do PT e aliados. A id6ia do governor era
entregar uma raqdo a cada um dos
municipios conforme seus pr6prios cri-
t6rios, sem interferencia external.
O PMDB, num lance de sagacida-
de, que tern a ver com a dispute pelo
poder, mas nao corn a natureza do in-
vestimento pdblico, transferiu a maior
parte da prerrogativa do governor para
as prefeituras. Alegando normas t6c-
nicas do banco, o governor deu novo gol-
pe depois da aprovacao do projeto no
legislative, ao fim de longas negocia-
q6es, e retomou a r6dea do dinheiro,
vetando as mudangas que jd aceitara.
Nao havia piano de aplicaqdo no texto
aprovado pelo legislative e os gastos
inclufam despesas correntes, quando a
norma bancAria restringe a aplicagdo
a investimentos. Nao havia o menor
resquicio de planejamento. Mas havia
o interesse eleitoreiro e 6 o que bas-
ta na saison.
O uso sem pudor da miquina pd-
blica comeqou a arrancar a governa-
dora Ana Julia do lodo no qual ela vi-
nha patinando, em funcgo do seu alto
indice de rejeiqdo. Tantos tratores,
dinheiro, casas e outras "bondades"
de temporada, subitamente, encheram
de legends o balaio do PT, at6 entao
ameaqado de ficar vazio. 0 fisiologis-
mo arrebentou todas as barragens de
contencgo e autorizou siglas histori-
camente conflitantes a se juntarem,
como se nada houvesse a distingui-las.
0 PT comanda um arco antes inima-
ginivel de 12 legends, enquanto, do
outro lado, PMDB e PSDB caminham
quase sozinhos.
O PP, controlado pelo mais longevo
dos politicos paroquiais em atividade no
Pari, o deputado federal Gerson Peres,
e do qual passou a fazer parte o primei-
ro politico condenado em primeira ins-


tancia judicial por pedofilia, o ex-depu-
tado estadual Luiz Afonso Sefer, se tor-
nou par da governadora para o que der
e vier, literalmente. 0 DEM do deputa-
do Vic Pires Franco, que tratava Ana
Jdlia corn desprezo e ironia, tamb6m se
ofereceu para a composicqo, disposto
ate a arrancar uma liberagqo da dire-
9ao national do partido, que colocou o
PT no index das aliangas. Depois de iro-
nizar e esnobar a todos, o partido do
casal Pires Franco nao conseguiu reali-
zar seu desejo, de garantir a dispute em
coligaqao de uma das vagas para o Se-
nado. S6 Ihe ofereceram a vice-gover-
nadoria, reprise da experiencia de Va-
16ria junto a Simao Jatene, do PSDB.
Parece que ningu6m levou muito a
sdrio os elevados indices de preferen-
cia que ela teria alcanqado nas pesqui-
sas do Ibope, intensamente divulgadas
no blog do marido suspenseo para nao
prejudicar as tratativas pr6-eleitorais,
embora ele salientasse o carter joma-
listico do seu espaqo virtual). Ainda pa-
rece ecoar o que aconteceu dois anos
atris: favorite nas pr6vias, Val6ria ter-
minou em melanc61lico quarto lugar na
eleiqgo para prefeito de Bel6m. Foi a
desmoralizagao das pesquisas. Mas ela
vai tentar de novo.

Ja o atual vice-prefeito
de Belem, Anivaldo
Vale, do PR, beneficia-
do pela reeleigao de Dueio-
mar Costa, do PTB, no in-
tervalo de dois anos, entire
a dispute municipal e a
eleigao geral de 2010, pas-
sou de inimigo mortal para
afetuoso companheiro de
chapa de Ana Jfilia. Uma mu-
tacqo tao ripida que as bancadas na
Camara Municipal nem foram avisadas
para ajustar seus pap6is ao novo enre-
do. E isso importa? Se o que importa 6
acender a luz do poste eleitoral que ou-
trora atendia pelo nome de Dilma Rous-
sef (e hoje 6 figure estelar no eleitora-
do), impondo essa regra a todo o PT,
localmente essa diretriz 6 conjugada
corn o mesmo empenho pela reeleicao
de Ana Jdlia.
Mesmo corn um indice de rejeiqao
que vinha se mantendo acima de 50%,
elajd pode ser considerada como a fa-
vorita para o 1 turno, que provavel-
mente nao decidird a dispute, exigindo
a realizaqao de nova eleiqdo? Em tese,
sim. A governadora ainda tern trunfos


na manga para usar, graqas ao contro-
le da miquina piblica e A sua utiliza-
qdo abusiva, como a induistria da no-
meaqdo de assessores especiais, em
plena atividade. Apresentando a pers-
pectiva de muitos milhoes de argumen-
tos, conseguiu corn essa prosopop6ia
a adesdo de ningu6m menos do que
Duciomar Costa, com seu PTB de oca-
siao, algo que nem o mais fisiol6gico
dos petistas teria imaginado.
Os tnicos adversirios de peso de
Ana Jdlia sdo o ex-govemador Simao
Jatene, do PSDB, e o president da
Assembl6ia Legislativa, Domingos Ju-
venil, pelo PMDB. A situaqdo teria uma
correlaqao diferente se Jader Barbalho
tivesse encarado o desafio de se candi-
datar ao govemo pela quarta vez. Ele 6
um dos lideres nas pesquisas, mas seu
realismo politico e sua vulnerabilidade
o fizeram optar pelo tamb6m problemi-
tico retomo ao Senado. Ele pode aca-
bar excluido pela primeira vez de uma
dispute eleitoral se a "lei da ficha lim-
pa" tiver aplicagco radical.
0 Liberal, seu maior inimigo, susci-
tou a hip6tese de ele poder ser enqua-
drado como um "ficha suja" e nao po-
der participar da eleigqo, por ter renun-
ciado em 2002 ao mandate de senador
para nao ser cassado. Nao 6 uma hip6-
tese impossivel, mas a justiqa brasileira
se transformou numa caixa de pando-
ra: dela tudo pode sair. Como a extin-
qgo do process contra Duciomar Cos-
ta pelo Tribunal Regional Eleitoral, nao
pelo exame do m6rito da sua cassagao,
decidida em 1 grau, mas por uma fili-
grana formal, que caracterizou a perda
do prazo pelo PMDB, autor da agqo. 0
tribunal apostou numa tese para li de
temerdria e, mais uma vez, foi desauto-
rizado pelo TSE, que lhe devolveu o pro-
cesso para que examine o m6rito, ao
inv6s de se desviar da questao atrav6s
de preciosismos sem relevancia. 0 tri-
bunal ficou sob a suspeita de proteger
indevidamente o alcaide belenense.
Mais uma vez restou a sensagqo de
que, mais important do que o conted-
do dos autos e a apreciaqao dos julga-
dores, pesou na deliberagao do tribunal
eleitoral do Pard providencias de basti-
dores. Elas j podiam ser deduzidas pela
nomeaqdo do procurador municipal Luiz
Neto como juiz eleitoral, por decreto
assinado pelo president Lula, pouco
antes do julgamento da cassacqo de
Duciomar. Claro que o novo juiz, res-
peitado como advogado, nio participou


2 Jornal Pessoal JUNHO DE 2010 2- QUINZENA





nem participaria da sessao. Sua nome-
aqdo era apenas um sinal, ou um reca-
do. Na direpqo de composiqces, capa-
zes de surpreender o mais c6tico dos
observadores e escandalizar o mais vi-
vido analista.
A movimentaqdo prd-eleitoral, se
comparada a um jogo de futebol, estd
seguindo uma regra tinica: do joelho para
cima, tudo 6 canela. 0 passado, a coe-
rencia e at6 o pudor foram deixados de
lado. 0 ex-governador Almir Gabriel,
que defendia a perman8ncia da Uniao
pelo Pari, liderada pelo seu PSDB, de-
pois de 12 anos no governor, como a
melhor maneira de mudar a face do
Estado pela aplicaqdo de projetos "es-
truturantes" para modificar sua fisiono-
mia colonial, atirou todo esse discurso
na lata de lixo. Seu objetivo obsessive
(e ji patol6gico) passou a ser a destrui-
gqo da candidatura do tamb6m ex-go-
vernador Simro Jatene, o 6nico nome
corn densidade eleitoral de que disp6e
o PSDB.
Corn uma apar8ncia relaxada (ca-
miseta regata sem manga, deixando A
mostra suas axilas, usada mesmo a mesa
do caf6 da manha, cabelos em comple-
to desalinho e olhos esbugalhados), que
sugere muita coisa, menos lucidez, Al-
mir Gabriel se reaproximou daquele que
foi o Judas da malhaqao popular duran-
te o imp6rio dos tucanos paraenses, tra-
tado por ladrao e nocivo. A fotografia
dos dois ex-inimigos reunidos tUo cordi-
almente no apartamento de Gabriel 6
um dos documents visuais mais repre-
sentativos daquilo a que se reduziu a
political estadual.

Jader Barbaiho nao tern
nada a perder com
essa surpreendente
adesao ao seu candidate a
governador, Domingos Ju-
venil. Simplesmente a acei-
tou, sem endossar qualquer
coisa que seu ex-novo alia-
do tenha dito ou venha a
dizer. Se Almir ainda tiver votos e os
transferir para Domingos Juvenil, o
PMDB saird ganhando, sem que corn
isso se incompatibilize para um acordo
- corn o PSDB ou o PT no segundo
tumo. Se o ex-governador nao for mais
do que um tigre de papel, que cavou o
abismo corn seus p6s, conforme a mfi-
sica de N61lson Cavaquinho, Jader pelo
menos teri desmoralizado aquele que
tanto o hostilizou e agora o procura. Nao


44;








para que se juntem em tomo de uma
plataforma de realizag5es pelo Pari,
mas para enfraquecer Jatene, que se
comportou como um traidor em relacqo
ao seu padrinho, responsivel por trans-
formi-lo de poste eleitoral em gover-
nador attitude de que o pr6prio Almir
foi acusado por Jader, que o fez prefei-
to e o elegeu senador.
Resta saber como reagird o nobre elei-
tor a esse jogo tdo mediocre e sujo. Por
enquanto, ningu6m o levou em considera-
9do. Ele 6 o russo da parabola futebolisti-
ca de Garrincha diante do t6cnico Vicen-
te Feola. Os eleitores farao o que seus
lideres Ihes mandam fazer ou se choca-
rdo corn tanta mudanga fisiol6gica?


Tamanho


Doze dos 143 municipios do Pard
tem mais de 100 mil habitantes,
concentrando 3,2 milhoes dos 7,4
milhoes de habitantes do Estado.
Sdo: Belem (1,4 milhdo de
habitantes), Ananindeua (505 mil),
Santardm (376 mil), Marabd (203
mil), Castanhal (161 mil),
Parauapebas (152 mil), Abaetetuba
(139 mil), Itaituba (127 mil),
Cametd (117 mil), Braganga (107
mil), Marituba e Breves (101 mil
cada). Sdo tambem os principals
coldgios eleitorais do Estado. Tem
mais de 40% dos votos.


JUNHO DE 2010 22 QUINZENA Jornal Pessoal 3


Gel6ia geral

O Diario Oficial do dia 2 oficializou a promocao de 11 assessores especi-
ais do gabinete da governadora Ana Jdlia Carepa. Quem era assessor espe-
cial I passou para II e quern era simplesmente assessor especial subiu um
nfvel. A16m dessas promotes, mais tres assessores especiais foram nome-
ados, engrossando um cordao que j teria mais de 2,1 mil pessoas, corn custo
se aproximando de 50 milhies de reais ao ano.
O assessor especial lotado no gabinete da governadora deveria ser
um t6cnico com particular habilitaqao para Ihe prestar serviqos relevan-
tes. Corn qualificaqao piblica e not6ria para autorizar esse tipo de con-
tratagdo, em cargo de confianga, corn dispensa de concurso e salario
melhor. A simples indicaqdo do seu nome seria suficiente para as pessoas
bem informadas e responsiveis pelo recolhimento dos tributes que ird
pagi-los os identificarem.
Por isso, arrolo os nomes desses 14 assessores especiais para que digam
dos seus m6ritos, assim justificando suas promocoes e nomeacges: Ang6elica
Bittencourt Galiza, Camila Oliveira Viana Aradjo, Geanine Maria Pawlaski
dos Santos, Marieta Vera Gerrits, Fernando Jos6 Purificaqdo Brito, Vanessa
Raphaela Lima Noronha, Mario Ronaldo Lima Pinheiro, Jos6 Viana de Sou-
za Filho, Joio de Souza Paiva, Leonardo Janau de Moraes, Giana Mara de
Oliveira Bastos, Altair Trevisol da Rosa, Iracema Marinho Velasco e Pedro
Henrique Costa de Oliveira.
Se houvesse Minist6rio PNblico a s6rio no Estado, j i teria moralizado essa
enorme legiao de assessores especiais, talvez a maior do Brasil e, quem
sabe, do mundo. E ji teria obrigado o governor a publicar, corn todos os deta-
Ihes exigidos, a demonstragco do pagamento do seu pessoal, discriminando
lotaq6es, salaries, contingentes. A ausencia do fiscal da lei estimula esse
desrespeito a sociedade e ao servigo piblico, que se mant6m inc61lume desde
o infcio do governor Simao Jatene, autor dessa miserivel inovagdo, mantida e
ampliada pelo PT.


I






Quais senadores?


Empresario


E se Jader Barbalho, pelo PMDB, e
Paulo Rocha, pelo PT, forem declarados
inelegiveis, quais serao os candidates ao
Senado corn condiq6es reais de vit6ria?
Claro que os dois politicos e seu entou-
rage devem estar cogitando essa hip6te-
se, mas parecem nao ter alternatives A
altura do desfalque que ocorreria se ela
se materializasse. Devem pareceres e
informaq6es de que o Supremo Tribunal
Federal, quando consultado sobre a cons-
titucionalidade da lei sobre as fichas su-
jas, declarard que ela nao retroage para
atingir o direito adquirido.
0 tema se tornou controversy pela
inovagdo sutil da lei. Ela descaracteri-
za a inelegibilidade como uma puniqao,
passando a v6-la como um requisite
para o reconhecimento da candidatu-
ra. Um dos itens da exigencia 6 de que
o postulante ao cargo eletivo nao te-
nha a ficha suja, independentemente de
a lesao causada nao ser considerada
desabonadora na 6poca em que ocor-
reu. Mas essa tese, de boa inspiragao
moral e que atende ao desejo majori-
tario da sociedade, desejosa de sanear
sua representaqao political, vai esbar-
rar em arguments do direito positive.
Se a rendncia para escapar da cassa-


Sem citar-lhe o nome, Romulo Maiora-
na Junior, principal executive do grupo Li-
beral, bateu firme em Jader Barbalho. De-
dicou-lhe sete dos 39 parigrafos do discur-
so que leu durante a entrega do pr8mio ORM/
ACP, no dia 18, perante centenas de pesso-
as reunidas no Hangar Centro de Conven-
96es. Repetiu um jargdo da coluna Rep6rter
70, de 0 Liberal, aplicada a Jader, aquele
"que nao tern biografia, mas ficha corrida",
dispensando outras apresentaq6es. Lamen-
tou que o Pard ainda tenha "corruptos con-
correndo nestas eleigoes e com processes
tramitando no Supremo" (Tribunal Federal).
E colocou-se na parte s5 do cesto de maqas
podres: "Resta-nos ficar atentos, para dis-
tingui-los daqueles que maculam a nobre
missdo de fazer political .
Os dois irmdos Maiorana ji tentaram
exercer essa nobre missao. Romulo Jr. co-
megou se filiando ao PMDB, que hoje de-
moniza. Quem abonou sua ficha foi nin-
gu6m menos do que Jader Barbalho, depois
o lIcifer nas escrivinhag6es do journal. Tal-


gao era legal, mesmo que imoral, nao
pode agora constituir fator de impedi-
mento legal ao autor, exceto a partir
da promulgag~o da nova lei.
Como a literalidade da norma legal estn
em colisdo corn a expectativa social, tudo
seri possivel a partir da provocaqao ao
STF para dirimir a controversial. Se o en-
tendimento da justiqa eleitoral se confir-
mar, Jader e Paulo estarao excluidos da
dispute de outubro. Diante dos nomes ji
apresentados para concorrer ao Senado
e da estrat6gia que alguns partidos segui-
am, de candidate 6nico (embora estejam
em dispute duas vagas), pode-se chegar
a uma situaqao inteiramente nova: eles fi-
carem abaixo da metade dos votos vili-
dos, por falta de densidade eleitoral. Por
ser uma eleiqao majoritdria, poderiam ser
considerados eleitos?
Faqo a pergunta para os especialis-
tas e para os que se dispuserem a pes-
quisar a resposta. Meu enfado nestas
eleigqes nao me anima a esse trabalho.
Nao me estimula sequer a ir votar, por
absolute falta de nomes credenciados
para receber meu voto, ao menos nas
disputes majoritirias. Votarei por obri-
gagio, essa norma arcaica da legisla-
qgo eleitoral brasileira de hoje.


vez o cap junior das ORM s6 nao tenha ido
em frente porque, para fazer polftica, 6 pre-
ciso conquistar votos e ele sempre deu a
impressed de querer receber o diploma de
eleito em seu movimentado gabinete de tra-
balho, na sede da empresa. 0 irmdo, Ronal-
do, director corporativo da empresa, nao se
saiu melhor na busca por um mandato.
0 que na 6poca deve ter sido considera-
do uma desventura, hoje pode ser encarado
como sorte. Porque assim ambos podem con-
denar os politicos ruins de camarote, jA que
nao tiveram a oportunidade de se apresen-
tar como politicos bons (e seriam mesmo
dessa qualidade?).
Podem utilizar essa plataforma contra o
politico que 6 tamb6m o seu concorrente co-
mercial. Na replica, sem se defender, como
de hibito, Jader contra-ataca: mostra que,
se roubou, os Maiorana tamb6m se apropri-
aram ilicitamente de dinheiro pdblico, atra-
v6s de projetos fraudados que receberam
incentives fiscais da Sudam.
Ambos tem razdo quando se atacam.


A Associaqao Comercial do Pard
fez uma homenagem puiblica ao em-
presario Jos6 Severino Filho. At6 cons-
truir, na Doca de Souza Franco, o ter-
ceiro shopping center de Bel6m (e "o
mais modern do Brasil"), o Boule-
vard, associado ao grupo internacio-
nal Aliansce, ele era conhecido por um
conglomerado de inddstrias madeirei-
ras implantadas em Breves, na labi-
rintica foz do rio Amazonas, no Pard.
Exportava varios tipos de produtos
atrav6s de seu pr6prio porto, que era
alfandegado.
Depois de 36 anos de ininterrupta
atividade, a Madenorte "encerrou suas
atividades para tender aos interesses
internacionais", disse o andncio daACP,
que louvou "a saga de um verdadeiro
lider empresarial", que tamb6m 6 um
dos seus dirigentes. Nao esclareceu que
"interesses internacionais" obrigaram
Severino a fechar sua Madenorte, o que
"em nada servia ao Pard e ao Brasil,
antes pelo contririo". Mas devia. A
opinido pdblica fica no aguardo desse
esclarecimento.

Omissio

0 Tribunal de Contas do Estado deve
ter relaxado o control porque o gover-
no nao esti publicando as informagies
exigidas dos seus atos para o conheci-
mento da sociedade e sua cobranqa.
A secretaria de educagao, por exem-
plo, aditou pela 14a vez seu contrato de
2006 corn a M. M. Servigos Gerais.
Desta vez, para acrescentar-lhe 1,1
milhao de reais. Mas nao disse qual a
finalidade do contrato, qual o seu valor
original e quais as raz6es dos outros
aditamentos. Ou seja: nao quer que o
contribuinte saiba o que esti fazendo.
Nem o TCE.

Lei

A lei 6 clara: 6 proibido batizar pr6-
dios e logradouros ptiblicos corn nomes
de pessoas vivas. A justiga do Tocan-
tins decidiu dar cumprimento a lei, de-
terminando o cancelamento das home-
nagens indevidas. Todo ojudicidrio bra-
sileiro devia seguir o exemplo. E o po-
der pdblico devia aproveitar a ocasiao
para rebatizar aqueles locais nos quais
a bela denomina~go foi sacrificada por
algum puxa-saquismo ou nepotismo.


4 Jornal Pessoal JUNHO DE 2010 2- QUINZENA


Duelo constant









Reproduzo o tltimo artigo que
escrevi para minha coluna no portal
do Yahoo. Acho que serd itil tambdm
para o leitor deste journal, que apro-
veitou material jd utilizado aqui.

Em 1967, Daniel Keith Ludwig era
considerado o Tio Patinhas em
came e osso. Era um dos maiores mili-
onArios do mundo, tao ins6lito quanto o
personagem de hist6ria em quadrinhos
de Walt Disney. S6 que, ao inves de
nadar em dinheiro guardado na sua cai-
xa-forte, se escondia de todos e se apre-
sentava como se fosse um pobretdo.
Tinha 70 anos de idade e problems
de sadde quando comegou uma nova
aventura empresarial: produzir fibra,
grao e came numa vastfssima posses-
sdo de terras a principio ele pensava
ter-se tornado dono de 3,6 milh6es de
hectares, o maior dos im6veis rurais do
Brasil no interior da selva amaz6nica,
quase na foz do rio Amazonas.
Seu objetivo era abastecer o mundo,
carente desses produtos. Todos os olha-
res se voltaram para o seu Projeto Jari,
com um glamour que outro milionario
americano ex6tico, Howard Hughes, ja
nao conseguia mais proporcionar A cu-
riosidade mundial.
0 Projeto Jari era a reediqao da
aventura fantastica que outro big-boss
dos Estados Unidos iniciara quatro d6-
cadas antes. Henry Ford tivera uma
id6ia simples, mas que podia ser tao
audaciosa quanto a de Ludwig depois:
se a seringueira era native da Amaz6-
nia, por que nao adensa-la na mata ori-
ginal, ao inv6s de transporta-la para
outros sitios?
De tres ou quatro esp6cies por hec-
tare, conforme a dispersdo natural, o
plantio feito pelo home acumularia
centenas de Arvores na mesma Area. A
producqo, que ja era pequena na Ama-
z6nia em 1927, depois de a regiao ter
atendido as necessidades do mundo at6
1912, numa 6poca em que a inddstria
ainda engatinhava no uso da borracha,
poderia estourar de novo.
Mas a floresta amaz6nica aprontou
uma p6ssima surpresa para Ford: o
adensamento da seringueira expunha a
Arvore a males para os quais ela s6 es-
tava protegida na grande diversidade de
esp6cies criada pela natureza. Em plan-
tio homog6neo, a Hevea Brasiliensis


Agora, o fogo

era atacada por fungos e bact6rias. 0
mal das folhas dizimou a plantaqao corn
a qual Ford pretendia se tornar auto-
suficiente em borracha. Em 1945 ele
entregou os pontos e abandonou um
milhdo de hectares que recebeu por
concessio do governor do Para, no vale
do rio Tapaj6s.
O mesmo ocorreria corn Ludwig ou,
passados 40 anos, o melhor conheci-
mento sobre a Amaz6nia e um capita-
lismo mais bem estruturado Ihe permiti-
riam vencer os desafios que derrotaram
Henry Ford na jungle?
Em 1976 o Projeto Jari encomendou
um documentArio de quase meia hora
de duraqao a Jean Manzon, o c6lebre
cineasta do Brasil Grande. Era um mo-
mento delicado. Centenas de milh6es de
d6lares estavam sendo investidos para
criar duas cidades de porte razoavel
para o padrdo regional e outras 10 me-
nores, para cuidar dos plantios, que se
estenderiam por quase 100 mil hecta-
res, no lugar onde havia a mata native,
com a diversifica~qo fatal a Fordlandia.
Calculava-se que a populaqao des-
se territ6rio com ares de autonomia logo
passaria de 100 mil habitantes. 0 ex6r-
cito de maquinas pesadas e equipamen-
tos, como nunca antes houvera na sel-
va amazonica, abria quase 900 quil6me-
tros de estradas por ano.
Os carros se abasteciam de combus-
tivel gratis e ilimitado. Havia hospital,
medicos, rem6dios A vontade. Quatro
pistas de pouso, sendo uma equivalent
A dos grandes aeroportos regionais, ti-
nham grande movimento diario. Uma
empresa de navegaqdo fazia linha de
Monte Dourado, a sede do imperio, para
Beldm e uma frota de avioes levava e
trazia passageiros constantemente, vari-
os deles estrangeiros. Uma ferrovia de
70 quilometros ligava a fabrica de celu-
lose, o principal empreendimento do Pro-
jeto Jari, as plantacqes de irvores ex6ti-
cas, de pinheiros e eucaliptos.
O filme encomendado a Jean Man-
zon tinha o prop6sito de dizer aos guar-
di6es da seguranqa national (vivia-se o
auge do regime military de exceqao, que
"integrava a Amaz6nia para nao entre-
ga-la") que o Jari, espraiado entire o
Pard e o Amapa, mesmo controlado por
um estrangeiro, continuava brasileiro.
E teria uma destinaqgo de grandio-
sidade igual A dos grandes projetos do


governor military (Transamazonica, Ra-
dam, Carajas, etc.), que mudariam a
face da Amazonia, tornando-a produ-
tiva, de valor muito maior para as con-
tas nacionais, sem perder sua condi-
gqo national.
Manzon nao foi escolhido por aca-
so: seus documentArios trombeteavam
a pujanqa das iniciativas que o governor
tomou a partir de 1964, promovendo a
mais ampla ocupaqgo ffsica da frontei-
ra amazonica, como nunca houve (e,
provavelmente, nem havera outra vez,
mesmo porque a Amazonia nao 6 mais
a mesma).
Corn a mdsica ufanista ao fundo e a
locugqo de march de combat, o do-
cumentArio de Jean Manzon proclama-
va, sem qualquer sutileza, que Ludwig
iria substituir uma floresta velha por
outra, inteiramente nova (Arvores que,
apesar de velhas, "se conservavam sa-
dias", acrescentava o locutor, sem se
dar conta da contradigqo).
"Nao existe problema ecol6gico, ja
que se troca uma floresta por outra",
acrescentava o narrador. A mata native
tinha o inconvenient de abrigar 500
esp6cies diferentes por cada hectare (a
biodiversidade, tao exaltada hoje). Ha-
veria ganho ao troca-la por uma flores-
ta homogenea, embora de esp6cies ex6-
ticas, que daria lenha para a geragqo
de energia e cavaco para a producqo
de celulose.
Nao podia dar errado: havia dinhei-
ro suficiente (at6 um bilhao de d61lares)
e a melhor tecnologia do planet para
sustentar aquela intervengqo tao profun-
da na natureza, como nunca antes na
Amaz6nia. Aldm disso, como diziam os
cientistas de ocasido, a floresta native
era senil. Tinha mesmo que morrer.
Ningu6m, hoje, encomendaria esse
filme nem repetiria sua litania. Todos se
dizem conscientes de que a biodiversi-
dade da floresta 6 o bem mais nobre da
Amaz6nia. Mais do que os min6rios, a
soja, o gado ou a madeira s61lida. Mui-
tos garantem que s6 exploram a flores-
ta atrav6s de t6cnicas de manejo, que
garantem a renovagqo do recurso natu-
ral, tornando a pratica sustentavel.
Mas quando Ludwig chegou A Ama-
z6nia, a Area alterada pelo home na
regiao nao chegava a meio por cento.
Hoje, esta em 20%. Equivale a tres ve-
CONCLUI A PAO N imp- a


JUNHO DE 2010 2a QUINZENA Jornal Pessoal 5





CONCLUSAO DAPAG 5
zes o tamanho do Estado de Sdo Paulo,
que concentra um terqo da riqueza na-
cional. Em nenhuma outra 6poca o ho-
mem pos tanta floresta abaixo.
De 1967 para 2007 a ci8ncia avan-
gou incomparavelmente mais do que nos
40 anos que mediaram entire Ford e
Ludwig. Ainda assim, os conhecimen-
tos cientificos raramente sdo incorpo-
rados As praticas humans dominantes
na Amazonia. A harmonia entire o saber
e o fazer constitui excecao e rara.
A regra 6 o avanqo da destruiqqo, a
continuidade do procedimento irracional,
a dilapidacgo do almoxarifado que a
natureza formou na regiao. 0 combus-
tivel do avango 6 o caos. 0 future des-
sa trajet6ria 6 o desaparecimento da
maior floresta tropical do planet.
Ha moments de euforia, como nos
dltimos anos, quando o desmatamento
diminuiu. Mas nao passam mesmo de
moments. Logo o ritmo das derruba-
das e queimadas 6 retomado, como
aconteceu em margo, quando o desma-
tamento na Amaz6nia foi 35% maior do
que em marco de 2009. A m6dia da pri-
meira d6cada do s6culo XXI foi apenas
10% menor do que na dltima d6cada do
s6culo XX. Diferenqa que se anula no
pano de fundo de uma area alterada
cada vez maior.
Se o atual C6digo Florestal fosse apli-
cado a toda a regiao, ela ji estaria na
condiqgo de ilegalidade, por ter ultrapas-
sado o limited de 20% de alterag~o da
cobertura vegetal. Os outros 80% term
que ser preservados. E nao estao sendo.
Outro americano, o escritor negro
James Baldwin escreveu um livro so-
bre o conflito racial nos EUA corn o
titulo Da pr6xima vez, o fogo. Na
Amaz6nia, a vez do fogo ji chegou.
Para sempre.


O vale do rio Trombetas, no Pari,
sera palco de uma experiencia in6dita
no Brasil. 0 govemo vai maped-lo e
etnozoned-lo (neologismo muito recen-
te), corn a participacgo dos pr6prios
beneficiarios, os fndios. Eles fornece-
rao informaqges, participarao dos tra-
balhos de campo e serao co-responsi-
veis pela execuqao dos servigos. Uma
parceria original entire o Estado e os
indios num projeto que 6 realizado pela
primeira vez no pais corn essas carac-
teristicas.
Para tomrn-lo possivel, a Secretaria
de Meio Ambiente do Estado assinou
um convenio corn a Associaqao de De-
fesa Etnoambiental Kanind6, no valor
de 859 mil reais, com vig8ncia de um
ano. 0 objeto do convenio tem uma
descrigqo quinhentista, revisada pelo
jargdo acad8mico atual: "Trabalhos de
Etnozoneamento da por~go paraense
das Terras Indigenas Trombetas, Ma-
puera, Nhamundi Mapuera e areas
ocupadas por povos indigenas na Flo-
resta Estadual do Trombetas, num to-
tal de mais de 4 milh5es de hectares
zoneados participativamente, com vis-
ta a viabilizar aq6es de ordenamento
territorial aliadas a conservaqao da bi-
odiversidade, para propiciar a gestao
territorial e ambiental integrada das
areas protegidas da Calha Norte do
Estado do Pard".
Como hi components inteiramen-
te novos nesse titulo pomposo, 6 preci-
so penetrar nos seus bons prop6sitos e
promessas agradaveis. A sociedade ji
amadureceu para a attitude inteligente
de reconhecer o valor do conhecimen-
to acumulado pelas populag6es que an-
tecederam os europeus na ocupagqo


da regiao e procurar nao s6 preservi-
lo como utilizi-lo de forma concrete e
pritica. Ganhard em tempo e em ri-
queza de informaq6es se reconhecer
esse component 6tnico autonomo e in-
descartivel. Mas o que hi por tris dos
conceitos generosos e bonitos?
Ha contradiq6es e omissoes. Em
seu site, a associaqao Kanind6 diz que
seu trabalho durard nao um ano, mas
dois. Diz ainda que a area possui seis
milhoes e nao "mais de 4 milh6es de
hectares", como esti assinalado no
sumirio do convenio. A uniformizaiao
das duas fontes, que seria premissa,
torna-se assim um incomodo. Indica
desde j que haveri aditivos para pror-
rogar prazo e esticar recursos?
Outra questAo 6 6bvia: por que ir a
Rond6nia para fazer esse conv8nio?
Nao hi nenhuma outra entidade (a Ka-
nind6 6 uma OSCIP, organizaqao civil
de fins especificos, criada no final de
1992) no pr6prio Pard, que podia fazer
esse trabalho? Se nao hi, nao seria ne-
cessario pelo menos fazer uma audi-
8ncia pliblica ou consultar especialis-
tas antes de assinar o convenio? A Ka-
nind6 tem suas credenciais, mas res-
tritas a Rondonia, nao muito numero-
sas nem de impressionar. Esta em con-
dig6es de fazer a intermediaqao t6cni-
ca entire os fndios e o governor nesse
serviqo original, que constituem as ca-
racteristicas pioneiras da empreitada?
O prop6sito dessa iniciativa, de
"consolidar o maior corredor de biodi-
versidade do planeta, na calha norte
do rio Amazonas, 6 de grande impor-
tancia. Por isso mesmo, nao podia ser
iniciada corn tao poucas informaq6es
e tantas ddvidas.


Moral

Qualquer contribuinte
pode oferecer um encontro
de contas para a prefeitu-
ra de Bel6m entire o IPTU
e algum tipo de servigo que
lhe pode prestar ou esse
privil6gio 6 exclusive dos
grandes grupos de comu-
nicaqdo? Ao contrArio do
contribuinte normal, os gru-
pos RBA e Liberal, nao
pagou seu imposto predial


e territorial urbano: quitam-
no atrav6s de servigos de
midia.
Um acerto de contas ji
foi realizado na atual gestdo
e outro estaria em proces-
samento. 0 beneficio che-
garia a quatro milh6es de
reais, que, como da outra
vez, nao entrardo nos cofres
municipais. 0 servi9o da
contrapartida, al6m de nao
beneficiary o municipe e, as


vezes, nem a administra~go
pdblica (apenas ao prefeito,
que faz propaganda pessoal
e assim se credencia a uma
nova eleigqo), nao 6 contro-
lada. Significa dizer que os
grupos de comunicagao po-
dem ou nao fazer veicula-
96es em volume correspon-
dente ao dos seus d6bitos,
porque ningu6m esti che-
cando corn rigor a prestaqdo
do serviqo.


Essa rela go promiscua
onera os cofres pdblicos e
deserve A informaqao ao
pdblico. Por isso, 6 estabe-
lecida A surdina para nao
atrair a atengao do fiscal da
lei e do cidadao. E o caso
de se aplicar a mAxima pro-
verbial da tia Zulmira, per-
sonagem criada pelo humo-
rista Stanislaw Ponte Preta:
ou restaure-se a moral, ou
todos nos locupletemos.


6 Jornal Pessoal JUNHO DE 2010 2 QUINZENA


Em nome dos indios


-I I I






0 complex ato de fazer justiga


Julgar 6 o mais dificil dos atos huma-
nos. Tanto no cotidiano das relaqfes in-
formais quanto e, sobretudo na ativi-
dadejurisdicional propriamente dita. Nao
por outro motivo, os jufzes costumam ser
bem pagos (mais do que qualquer outro
servidor ptiblico) e respeitados, quase
divinizados. A magistratura 6 um circulo
virtuoso que quase se assemelha ao Olim-
po grego. Os deuses eram apenas alguns
patamares superiores aos humans. Os
magistrados estao muitos corpos al6m do
comum dos mortais.
Julgar bem exige um adequado conhe-
cimento das leis, de suas interpretacqes e
dos julgados que consolidam sua aplica-
9ao, conquista de muitas e exaustivas lei-
turas. Por6m, s6 esse direito positive sa-
tisfaz cada vez menos. A sociedade, ar-
mada de ferramentas mais numerosas
para acompanhar e avaliar o funciona-
mento do servigo pdiblico, inclusive em
tempo real, pressiona, cobra ou interfere
sobre as decisoes dajustiqa. Uma ponde-
rado equilibrada dajustiqa codificada ao
seu context social, do papel A realidade,
constitui o m6rito maior dos melhores ma-
gistrados. t este tamb6m o maior desafio
que se imp6e ao poderjudicidrio atualiza-
do ao seu tempo.
Um caso concrete da justiga do Pard
exemplifica essa complexidade. A de-
sembargadora Vania Bitar Cunha pro-
vocou uma onda de critics e denfincias
contra sua delibera~go, de conceder ha-
beas corpus para manter em liberdade o
ex-deputado estadual do DEM (hoje, do
PP) Luiz Afonso Sefer. Ele fora conde-
nado em 10 grau a 21 anos de prisdo pela
jufza Graga Alfaia, titular da vara dos
crimes contra a infancia e adolesc8ncia,
por abuso sexual de uma menor durante
quatro anos. Apedofilia 6 um dos crimes
mais repulsivos e mais repudiados soci-
almente. Cresce a onda de indignagdo
da sociedade contra os ped6filos.
A desembargadora foi acusada de
ter favorecido o ex-parlamentar porque
o advogado de Sefer tamb6m 6 o de-
fensor de um filho da magistrada, num
caso de atropelamento e fuga. Na 6po-
ca, a pergunta que vinha das ruas era
se o atropelador fosse um cidadco co-
mum teria conseguido esse beneffcio,
escapando ao flagrante.
A desembargadora nao ignorou as
critics. Ao contrArio da maioria dos seus
colegas de toga, as enfrentou. Disse que


sua decisao foi tomada por convicqao e
nao pelo nome da parte ou do seu advo-
gado. Salientou que o advogado Osval-
do Serrao atua pago na defesa do seu
filho e bem pago, como costumam ser
os criminalistas que conseguem faganhas
semelhantes na lide judicidria. A situa-
9ao pessoal em nada interferiu no de-
sempenho de oficio, sustentou a desem-
bargadora, apresentando a fundamenta-
9do da deliberaqdo de conceder o alvardi
de liberdade para o ex-deputado.
Al6m da associaq~o de id6ias e das
conjecturas 16gicas, nenhum dos criti-
cos do ato da magistrada apresentou
provas da acusagao ou robustas evid8n-
cias em seu favor. Assim, prevalece o
argument da desembargadora. Mesmo
deixando completamente de lado essa
argiiiqo de suspei~go, sua convic~qo
em favor do r6u admite objeq6es. Em
primeiro lugar, pela natureza do crime:
hediondo. Depois, porque da outra vez
em que contra ele foi expedido um man-
dado de prisdo, Luiz Afonso Sefer ten-
tava evadir-se. Mesmo preso, foi solto
por outro habeas corpus concedido pelo
desembargador Jos6 Maria do Rosario,
que tamb6m provocou controv6rsias (o
beneficiado teria que se apresentar pe-
rante o magistrado, o que acabou fa-
zendo, mas nao na data determinada
pela decisao inusual).
Tamb6m porque, embora manifes-
tasse indignaqgo e se declarasse inocen-
te, Sefer preferiu renunciar ao mandate
de deputado a enfrentar todas as pro-
vas opostas A sua presungao de inocen-
cia. Significava dar mais importancia ao
poder derivado da condiqao de deputa-
do (mais um dos cidadaos mais iguais
do que os outros na mais desigual das
repfiblicas do mundo, a brasileira) do
que A honra pessoal. Ainda mais por-
que a micula tinha a tonalidade negra
decorrente do crime que lhe foi atribuf-
do, de pedofilia. E, finalmente, porque
parecia evidence a movimentagqo do ex-
parlamentar e familiar sobre testemunhas
do caso. No dia da apresentagao da
sentenqa pela jufza Graga Alfaia, os
Sefer comandaram uma grande mani-
festagdo em frente ao f6rum criminal
de Bel6m para pressionar e critical a
magistrada pelo seu ato.
Uma estrita leitura dos comandos
normativos do c6digo penal talvez fos-
se o suficiente para a concessdo do


habeas corpus, como fez a desembar-
gadora Vania Bitar. Uma andlise con-
siderando as circunstancias sociais do
process, o context que o situa no tem-
po hist6rico e na realidade concrete tal-
vez recomendassem a rejeiqao do cha-
mado (pelos advogados) "rem6dio he-
r6ico" e a confirmaqdo da ordem de
prisao contra Sefer. Ele foi condenado
por suas vezes pelo atual titular e pelo
anterior da vara especializada, que fi-
zeram exaustiva andlise dos autos do
process, com base no inqu6rito polici-
al, nos laudos periciais, no parecer do
Minist6rio Pdblico e nas sess6es das
comissoes parlamentares de inqu6rito
(federal e estadual), undnimes em apon-
tar o crime praticado pelo ex-parlamen-
tar. Nao s6 o de abuso sexual, mas tam-
b6m o de trabalho infantil dom6stico.
Por isso, a deliberagqo de segundo
grau precisa considerar na sua deci-
sao, por enquanto apenas liminar, que
o poder institutional d6 ao conteddo
dos autos do process instaurado con-
tra Luiz Afonso Sefer a resposta que
as informaq6es neles contidas exige.
Ou, mais uma vez, a formalidade obtu-
sa seri o biombo para a fuga dos que
t8m colarinhos suficientemente bran-
cos. E os brancos, como se sabe hi
s6culos, se entendem.



Morosidade

Felizmente o Didrio do Pard
repercutiu as critics aqui feitas
contra o estado das obras do hos-
pital de oncologia pediatrica do Ofir
Loyola. Depois de cinco anos de
uma engenharia engatinhante, 29
milh6es teriam sido aplicados, se-
gundo o journal. Mas onde, se de
concrete s6 ha algumas colunas
malmente levantadas do chao e
ferros espalhados em torno? A
reportagem, a assessoria de im-
prensa do hospital explicou que a
paralisagao das obras se deve A
necessidade de readequar o pro-
jeto original. Enquanto essa revi-
sdo ndo 6 conclufda, o problema
das criangas com cancer vira mar-
tfrio brutal no hospital ao lado, que
atende todos os tipos de pacientes
corn a doenqa.


JUNHO DE 2010 22 QUINZENA Jornal Pessoal 7












FUTEBOL
Em 1953, do seu lado, o
Remo colocou em campo
Veliz, Smith, China, Baiano,
Jambo, Muniz, Marido, Her-
minio, Sessenta, Jaime e San-
to. Ja o Combatentes perfi-
lou Umbelino, Marimba, Na-
varro, Mariscal, Soc6, Mane-
zinho, Tati, Pombo-Roxo,
Bem-Bem, Levy e Zizi. Os
nomes podiam ser esquisitos,
mas eram da terra. E o fute-
bol, embora menos enfeita-
do, era melhor do que o de
hoje. Muito melhor.

ELEIAO
Celso Malcher, candidate da
Coligaqdo Democritica Pa-
raense, a CDP (adversaria
do Partido Social Democrd-
tico, o PSD, de Magalhaes
Barata) iniciou pelo subfir-
bio sua vitoriosa campanha
para a prefeitura de Bel6m,
na eleigqo de 1953. Prome-
teu tender as duas reivin-
dicaq6es do entao distant
bairro da Marambaia: me-
Ihor transport e um cemi-
tdrio. Mas para que o comf-
cio comeqasse foi necessi-
rio providenciar um gerador
porque a iluminaqdo pdblica
falhou. Reposta a luz, fala-
ram. Dentre outros, falaram
o future successor de Mal-
cher, Lopo de Castro, Rui
Barata e St6lio Maroja. En-
cerrados os discursos, hou-
ve festa danqante na casa
de Joao Quirino de Souza,
onde funcionava a sede dis-
trital do PSP (o Partido So-
cial Progressista, o principal
integrante da CDP, fundado
pelo governador de Sdo Pau-
lo, Ademar de Barros). Po-
litica ainda sem marquetei-
ros e photoshop.

RECLAMAVAO
Mais de 30 reclamag6es fo-
ram apresentadas A justiqa do
trabalho de Bel6m, em 1963,


por trabalhadores que cobra-
vam salirios, horas extras,
insalubridade e linha "barra
de fora". Eles se diziam tri-
pulantes de embarcaqoes que
levavam mercadorias regio-
nais (principalmente caf6)
para os portos de Paramari-
bo, Caiena e Trinidad, dali
trazendo mercadorias impor-
tadas, que entravam ilegal-
mente no Pard, o entdo mui-
to popular contrabando. Di-
zendo-se armadores desses
barcos, pretendiam denunci-
ar os comerciantes que os
empregavam.

PALESTRA
Em 1961 future coronel, go-
vernador, ministry e senador
Jarbas Passarinho ainda era
major, atuando no Estado-
Maior da 8a Regido Militar,
em Bel6m. Mas foi como
imortal da Academia Para-
ense de Letras (que o pre-
miaria pelo romance Terra
Encharcada), e comentaris-
ta international do journal A
Provincia do Pard que fa-
lou sobre o tema "naciona-
lismo e colonialismo", na IX
Semana do Academico de
Engenharia. E pouco provi-
vel que o convite fosse re-
feito tres anos depois.

AVIAVAO
Em 1961 a Paraense Trans-
portes A6reos era a dnica
empresa estadual de aviaqdo
"realmente independente,
no juizo da revista de neg6-
cios PN, editada no sul do
pais. Todas as demais depen-
diam de empresas nacionais
de grande porte. Por exten-
sdo de linhas, a maior delas
era a Real, que servia a 112
cidades, seguindo-se a Cru-
zeiro do Sul (68), Panair (58),
Vasp (48), Varig (42), Sadia
(22), NAB (20), Paraense e
Transportes A6reos Salvador
(11), Saveg e Transportes


A6reos Catarinenses (8).
Havia, portanto, 11 empresas
de transportes a6reos no
Brasil.

RODOVIAS
A distribuiqdo do Fundo Ro-
doviirio Nacional era um in-
dicador da localizacao das
estradas e da sua extensao.
No primeiro trimestre de
1961, Bel6rnm ficou com 40%
do total dos recursos. Em
segundo lugar, Braganqa,
com quase quatro vezes me-
nos. Depois, pela ordem: Al-
tamira (com menos da me-
tade da verba de Braganqa),
Santar6m, Itaituba, Oriximi-
ni, Marabi e Capanema.
Nesse ano, o Pard tinha 60
municipios.

FILA
Nota da coluna Vozes da
Rua, da Folha Vespertina,
de 1962: "A av. Almirante
Barroso, confront ao 'Caf6
Paris', hi uma vila de quar-
tos, um dos quais 6 coi6 de


multiplicagqo da esp6cie. A
certas horas, uma fila se es-
tende, a espera de vez. A vi-
zinhanga vive escandalizada.
Valera a pena dizer A Polfcia
que olhe pra isso?"
0 detalhe da fila s6 acentua
a originalidade da pritica de
entio.

GREMIO
A Chapa Renovadora, que
disputou em 1962 a eleigqo
para o Gremio Civico do
Coldgio Moderno, tinha
Claudio Barreiros da Rocha
como president, Edyr Silva
como vice, Pio Veiga Jdnior
director de relaqces sociais,
Joao Maria Chaves secreti-
rio de finanqas, Jos6 Acdr-
cio Cavaleiro de Macedo
secretario de cultural e arte,
Jos6 Benzecry orador ofici-
al, Lilia Maroja secretdria de
publicidade, Vicente Aur6lio
do Carmo secretario de es-
portes e Dionfsio Bentes de
Carvalho Filho secretirio de
biblioteca.


8 Jornal Pessoal JUNHO DE 2010 2 OQUINZENA


NEM6RIA















Ja estA nas bancas e li-
vrarias o segundo volu
me da Mem6ria do Co-
tidiano, a segqo mais lida por
parte dos leitores do Jornal
Pessoal. Junto corn o volu-
me anterior, acho que os dois
livros permitem uma visdo
mais fntima e sempre indivi-
dualizada da hist6ria de Be-
16m e do Pard durante o sdcu-
lo XX, sobretudo na sua se-
gunda metade. A boa recepti-
vidade h primeira iniciativa re-
forqou o compromisso de lan-
qar uma nova coletinea dos
textos, fotos e ilustraq6es do
JP. 0 apoio do amigo Regi-
naldo Cunha contribuiu para
viabilizar a empreitada, trans-
formando-a em um aconteci-
mento de final de ano.


TARDIO
Em 1966 o entio Banco de
Cr6dito da Amaz6nia com-
prou um aviao para usar na
sua principal operagao: o
apoio A produqio da borra-
cha, embora ji em decaden-
cia. No final desse ano o ban-
co acertou com os seringa-
listas do Acre e do Xingu e
Tapaj6s, no Pard, que usaria
o aviao para transportar nor-


Mem6ria de um povo
No dia 22, em que Santarem completou 349 anos, a
editor 0 Estado do Tapaj6s langou um livro que deverd se
tornar referencia para a hist6ria do municipio e de toda
regido. Mem6ria de Santar6m (420 pdginas em format
grande e capa dura, R$ 60) ndo j uma hist6ria sistemdti-
ca. A semelhanCa desta seCdo, trata do cotidiano de Santarem ao long do seculo
passado, com enfase nas dicadas de 40 a 70, mas tambem volta a cidade que encantou
os viajantes estrangeiros do seculo XIX (como o frances Hercule Florence, que pintou-
lhe a aquarela aqui reproduzida, em 1822, durante a expedigdo Langsdorff).
0 livro represent o esforCo de salvar a hist6ria recent de Santarem da dilapidacdo,
diluigdo e esquecimento. A falta de iniciativas sistemdticas e aglutinadoras, redne um
conjunto de dados e andlises que servem de trilhas para que o leitor se identifique e se
situe no passado, e o utilize como ferramenta para se posicionar hoje e amanhd. Sdo
informagoes extraidas de jornais, livros e mesmo documents ineditos.
Elas mostram que Santarem ndo d um acampamento montado as pressas para abrigar
pessoas em transito, em busca de sucesso mocasional e individual. Seus personagens
participaram ou continual a participar da construCdo de uma comunidade, de uma cida-
de, de um municipio e de um Estado, transmitindo entire si suas experiencias e anseios.
0 livro resultou de um suplemento quinzenal que escrevo no journal 0 Estado do Tapaj6s
hd quatro anos e s6 se tornou possivel pelo apoio e entusiasmo do editor da publica-
Cdo, Miguel Nogueira de Oliveira, e de uma equipe de edigdo. 0 produto e de qualida-
de suficiente para que Mem6ria de Santarem possa circular em qualquer lugar do
mundo. Em Belem, a partir da pr6xima semana.


destinos aos altos rios, onde
ainda havia seringais ativos.
Um esquema antigo e des-


gastado, mas que ainda pa-
recia viivel aos dirigentes
locais. S6 que o BCA se


transformaria em Basa e
mudaria por complete o eixo
da sua acao.


JUNHO DE 2010 29 QUINZENA Jornal Pessoal 9






Fantasma no tribunal


Um fantasma abala, hi quase 40
anos, a credibilidade da justiga do
Pard. Ele se apresenta como dono de
uma area total de 9 milhoes a 12 mi-
lh6es de hectares (pode chegar a 10%
do territ6rio paraense), espalhadas por
30 dos 243 municipios do Estado, cu-
jos registros, feitos em cart6rios imo-
bilidrios do interior, continuam vilidos.
Em seu nome hi indmeros incidents
processuais no f6rum civel, nos quais
atuam seus advogados. Mas ningu6m
jamais o viu. Nem seus procuradores.
Por um motivo simples: Carlos Me-
deiros nao existe.
0 personagem foi criado por uma
quadrilha de advogados, serventuirios
da justiqa e um corretor de terras, Ma-
rinho Gomes de Figueiredo, o alter-ego
do fantasma e que tamb6m nao existe
mais, por6m por uma razao de verdade:
morreu. A carteira de identidade, o CPF
e o endereqo de Medeiros pertencem a
outras pessoas. Esse fato ji foi consta-
tado pela Polfcia Federal. Mesmo as-


sim, os processes nos quais o fantasma
6 parte seguem sua tramitaqgo.
0 iltimo despacho em um deles foi
dado em 22 de fevereiro pelo desem-
bargador Ricardo Nunes, das Camaras
Civeis Reunidas. Ele recebeu os em-
bargos de Medeiros, opostos contra
decisao anterior do tribunal, por enten-
der que "os pressupostos processuais
foram preenchidos". Antes, como rela-
tora do process na 3a Camara Cfvel, a
desembargadora Maria Rita Xavier res-
saltou "a relevancia da mat6ria trata-
da". Mesmo assim, ningu6m consegue
dar um paradeiro A movimentaqdo da
quadrilha de audaciosos grileiros.
A fertilidade de recursos no direito
processual brasileiro 6 uma arma que
eles usam corn sagacidade para prolon-
gar ao infinito uma demand natimorta,
como o pr6prio Medeiros. Mas a "rele-
vancia da mat6ria tratada" exigia um
procedimento cirirgico do judicidrio, em
beneffcio do patrim6nio pdblico e do
pr6prio respeito A lei.


Quando o desembargador Milton
Nobre assumiu a presidencia do Tri-
bunal de Justiga do Estado, sugeri que
ele baixasse uma portaria exigindo que
os procuradores de Carlos Medeiros
o apresentassem, em care e osso, sob
pena de extinqao de todos os proces-
sos por ilegitimidade ativa (fantasma
nao pode litigar em juizo). A providen-
cia seguinte seria cancelar todos os
registros imobilidrios tendo como ori-
gem im6veis matriculados em nome
de Carlos Medeiros.
0 desembargador acatou a suges-
tao. Mas ela nao teve qualquer efeito
pritico. Ou nao foi posta em pritica. 0
fantasma continue a peregrinar pelos
corredores do f6rum e seus manipula-
dores a ganhar dinheiro e muito di-
nheiro com essa in6rcia, vendendo
dezenas de falsos titulos de proprieda-
de de terras e incautos ou mal intencio-
nados. 0 prejuizo para o patrim6nio
pdblico se mede por milh6es de reais,
Os aborrecimentos, por outro tanto.


CAfTASAO EDIOR


ELEIAO
Desde a eleiggo do atual
governor, esse Jornal Pessoal vemn
batendo na tecla de que ele
nao se elegeria sem o concur-
so do PMDB, e que, na atual
conjuntura, face ao desgaste
acentuado que vemn sofrendo -
nao s6 a governadora, como o
pr6prio PT a sonhada reelei-
g5o migrou do sinal amarelo
para o vermelho. Pego licenca
para discordar.
No caso da eleicgo passada,
o PMDB nio tinha candidate
pr6prio? Por que o seu candi-
dato nao foi para a final, no
segundo turn? A candidate do
PT tern densidade eleitoral sim,
tanto que foi vereadora, depu-
tada federal e senadora. Des-
se modo, a diferenga de votos
(creio que de 300 mil) entire os
dois contendores finals nao
pode ser atribuida apenas ao
seu "fisiol6gico" parceiro, as-
sim seria otimizar demais o
dito cujo. Quanto h situagio atu-
al, as pesquisas de rua estio


apontando que a governadora
venceria o chefio estadual do
partido. Os comentarios sobre
este assunto sio evitados ou
contestados veladarnente por
alguns peemedebistas, semr
fundamento algum.
Por que o "jarder" corrupte-
la popular do dono do PMDB,
no Para considerando a sua
lideranca incontestavel, con-
forme alardeia o seu lider na
Assembleia Legislativa, e as
noticias diarias langadas no
journal de propriedade da fami-
lia Barbalho nio se apresen-
ta como candidate? Ele sabe,
e o povo paraense tamb6m,
que sua vida pregressa nao Ihe
avaliza ousar mais uma vez na
pretensio de governador do
Estado. Na ocasiao em que ele,
ou algum component de seu
entourage anunciar (no mo-
mento em que escrevo esta
missiva, jj estou sabendo que
h6 um candidate) a sua pr6-
candidatura, abrir-se-A o ba6
das verdades. Todos os "po-


dres" do atual deputado fede-
ral que nio sio poucos se-
rio expostos a execraaio de
milhbes de eleitores.
Alem do mais, embora os ja-
deristas Ihe assegurem uma
pomposa densidade eleitoral,
que s6 eles v6em, 6 bem pos-
sivel uma retumbante derrota
num pleito majoritArio, face A
alta rejeicgo que ele apresen-
ta, principalmente na cidade
de Belem, que conta com cer-
ca de um milhao de votantes.
Nos outros redutos eleitorais
mais densos, depois da capi-
tal, como Ananindeua, Casta-
nhal, MarabW e Santarem, tam-
b6m nao existem perspectives
de vantagens absolutas para
o chefe do PMDB paraense, se
for o caso.
Na verdade, nio temos re-
presentantes probos e na al-
tura que as nossas deficienci-
as e necessidades exigem. Isso
indica que nao s6 o PMDB agre-
ga "fisiologistas," oportunistas
e corruptos, os outros partidos


tamb6m os tem. No PT, por
exemplo, quern di as cartas e
o Sr. Paulo Rocha, ex-mensalei-
ro, que abandonou um manda-
to para nao ser cassado. No
pleito seguinte, candidatou-se
e foi novamente eleito depu-
tado federal. Tomou como mo-
delo um ex-senador do PMDB,
aqui do Para, e deu certo. Tudo
porque as leis eleitorais be-
neficiam os infratores.
Ao comentar esses desaires,
fica-se cornm a amarga impres-
sao, ou a not6ria certeza, de
que estamos caminhando para
a obscuridade total. Nada jus-
tifica a presenga viva desses
individuos na vida publica bra-
sileira. Eles, juntamente com
outros tipos que professam a
mesma seara, deveriam estar
alijados definitivamente do
cenirio politico national. Infe-
lizmente a ficha suja, mutila-
da pelos congressistas, ainda
est6 long de ser um rem6dio
eficaz. E um comego.
Rodolfo Lisboa Cerveira


Jomal Pessoal
Editor: Lucio Flavio Pinto


Contato: Rua Aristides Lobo, 871 CEP: 66.053-020 Fones: (091) 3241-7626
E-mail: Ifpjor@uol.com.br jornal@amazon.com.br Site: www.jornalpessoal.com.br
Diagramaqgo e ilustrag6es: L. A. de Faria Pinto E-mail: luizpe54@hotmail.com


10 Journal Pessoal JUNHO DE 2010 2~ QUINZENA


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0 buraco disfargado


Nao por acaso Bel6m tern o primeiro
- e at6 agora unico sindicato assumido
de trabalhadores informais do Brasil. E a
capital corn a maior economic informal
do pafs, al6m de uma legiao record de
desempregados. Esta 6 a matriz de cer-
tas caracteristicas da fisionomia da capi-
tal paraense: muita gente sobrevivendo de
trabalho precdrio nas ruas; ou, sem con-
seguir penetrar nas atividades econ6mi-
cas convencionais, derivando para a cri-
minalidade, aberta ou disfargada, que vai
se tomando incontrolivel.
Este seria um pano de fundo para des-
tacar a iniciativa da prefeitura de criar o
primeiro camel6dromo autentico da ci-
dade. 0 Espaqo da Palmeira abriga am-
bulantes que antes ocupavam a avenida
President Vargas e a pr6pria rua Ma-
noel Barata, onde se localiza a fachada
principal do shopping popular, o maior,
instalado em area nobre do centro co-
mercial antigo da cidade.
Quem freqiienta ou visit esse centro
de vendas, por6m, 6 obrigado a desistir de
elogiar a iniciativa. Com apenas um mes
de funcionamento, seu desgaste parece ser
de anos, o que atesta a ma qualidade do
serviqo e do material usado. 0 piso rece-
beu uma ligeira tintura de cimento aplicada
sobre areia. Em muitos lugares, ji se des-
fez. Com isso, sempre que o vento sopra
levanta poeira e a atira sobre os produtos
em exposiqao. Numa rua os vendedores
ji se cotizarampara repetir o trabalho, agora
corn qualidade superior, embora minima.
Qualidade que falta em toda a obra.
Numa das extremidades da plataforma, a
estrutura era tdo porosa que logo a agua
comegou a se infiltrar, atingindo quem es-
tava no subsolo (onde Edmilson Rodrigues,
quando prefeito do PT, iria fazer quadras
de esporte, estacionamento e muito mais -
e nada fez que substituisse ao antigo "bu-
raco da Palmeira", ttimulo que abrigou as
ruinas da FAbrica Palmeira, um dos encan-
tos da Bel6m que nao existe mais).
A boa iniciativa de instalar repartiqces
pdblicas no subsolo, atraindo pdblico e o
servindo, quase foi comprometida por esse
padrio ruim. Quem estava nas filas (como
najunta de alistamento military) era atingi-
do pela Agua escorrida da chuva. Foi pre-
ciso refazer a laje apenas duas semanas
depois da inauguragao.
Varias outras coisas precisam ser fei-
tas ou refeitas porque do projeto original A
sua execucqo houve perda sensivel. 0 calor


6 insuportivel na maior parte do dia nos
boxes diminutos, de estrutura metilica, que
mais se parecem a engradados ou celas
de prisao. Do prometido forro duplo restou
apenas uma lona singela. A protegdo t6r-
mica foi esquecida. Sem qualquer arbori-
zagao, ainsolagao que atinge os locals des-
cobertos afasta o pdblico e maltrata os tra-
balhadores. A drenagem 6 insatisfat6ria. A
tubulagdo de esgoto 6 precfria e, sem pro-
tecao, ji foi roubada, o que provoca infil-
traqies para o estacionamento.
Tudo isso prejudice as vendas. Mais da
metade dos 387 boxes permanece desocu-
pada, embora a prefeitura tenha cadastrado
ambulantes para todos os espacos. Pior foi
para os 23 vendedores de comida: eles che-
garam a se instalar, mas foram retirados do
shopping a c6u aberto. Seria uma tentative
de viabilizar o quiosque replicaa do que so-
breviveu ao lado do Teatro da Paz, o Bar do
Parque) no maior espaqo da Area.
Esse com6rcio foi entregue a um cida-
dao que seus colegas de com6rcio nao sa-
bem dizer quem seja, mas s6 funcionou no
dia da inauguragdo. Logo o concessiond-
rio percebeu que nao poderia concorrer corn
os demais ambulantes. E que seu estabe-
lecimento, sem qualquer protevao contra o
sol, estava condenado a nao vingar. 0 qui-
osque permanece fechado, mas 6 pouco
provivel que, pela vontade da administra-
9ao municipal, os vendedores ambulantes
de comida voltem ao Espaqo da Palmeira.
A prefeitura ji anunciou a intengao de
retirar das ruas todos os vendedores de
alimentos que nmo se enquadram as exi-


g8ncias da vigilincia sanitaria. A principal
6 terem pelo menos uma parede, regra
que condena quase a totalidade dos ven-
dedores, inclusive as tradicionais e sim-
b6licas tacacazeiras (imagine-se algo se-
melhante com as vendedoras de acaraj6
de Salvador; geraria uma revoluqao). Os
ambulantes ji sugeriram que pelo menos
uma parte desse pessoal fique nas dreas
ainda sem uso da Palmeira. Mas ainda
nao tiveram resposta, o que nao 6 novida-
de: raramente conseguem dialogar corn
as autoridades municipals. Aprincipal de-
las, o prefeito, parece estar sempre a6-
reo, viajando para fora da suajurisdiqao.
Certamente se pode dizer que a solu-
qgo atual oferecida por Duciomar Costa
6, por incrivel que possa parecer, melhor
do que a do prefeito-crianqa Edmilson Ro-
drigues. Mas s6 na apar8ncia. Na essen-
cia, as duas se equivalem e se nivelam
por baixo. 0 uso do "buraco da palmeira"
pela gestAo atual 6 melhor do que o ado-
tado pela administra~qo anterior, que ain-
da foi desastrosa com seus projetos para
o eixo Santo Ant6nio-Jodo Alfredo, com
boxes que eram simplesmente inutiliziveis
e um bondinho escalafob6tico, que vira-
ram peas de museu, com desperdicio de
seis milh6es de reais.
Mas a mi qualidade do Espaqo da Pal-
meira e os erros gritantes do projeto real-
9am uma caracteristica de todos os mais
recentes govemos municipais: muito dinhei-
ro 6 drenado para long da obra, que se
distancia do custo anunciado e deixa de
beneficiary o destinatnrio do bem.


Peripatetico


Num andncio da "casa", a assina-
tura annual de 0 Liberal custa 498 re-
ais e o client que aceitar a proposta
ganha de brinde um conjunto de chur-
rasco com cinco peas ou uma bande-
j a flat. Em outro andncio, publicado na
mesma edigqo do journal (e todos os
dias), a mesma assinatura annual de 0
Liberal passa para R$ 625. Se o leitor
quiser fazer uma assinatura cheia tam-
b6m do irmao mais novo da folha dos
Maiorana, o AmazOnia (que custa R$
286,75), o total sairia por salgados R$
912,25. Tudo isso, por6m, pode ficar
por praticamente a metade, ou R$ 460,
que podem ser pagos de seis vezes,
sem acr6scimo.


Ou seja: se, ao inv6s de assinar ape-
nas 0 Liberal (e pelo prego menor ofe-
recido, de R$ 498, nao os R$ 625 do
outro andncio), o distinto leitorjuntar o
folharal maioranico ao raquftico Ama-
z6nia, saird ganhando R$ 38 e ainda
receberi um journal de graga.
Sou obrigado a dar a mdo A palma-
t6ria aos amigos da DC-3: em sendo
assim, nao entendo mesmo nada de
marketing e propaganda. Mas, continu-
ando a tentar entender de jornalismo,
apesar da grande imprensa, chego a
uma conclusao desse enredo A Lewis
Carrol: esta muitissimo dificil vender os
jornais dos Maiorana. Os exemplares
avulsos, ao menos.


JUNHO DE 2010 2O QUINZENA Jornal Pessoal 11


I ~__






Incontinncia verbal


Quem imaginou que Fernando Henrique Carc
maximo de vaidade e egolatria deve estar tomand(
com Luiz Inicio Lula da Silva. 0 petista excedeu
Embalado pela auto-adora9qo e por indices de
popular sem iguais, o president da reptiblica se
detentor da prerrogativa de inventar a pr6pria hist6i
rente a verdade. 0 que ele imagine ser bom pai
consider como fato, tenha existido ou nao. Deu pr
no discurso que fez na semana passada, em Altarr
Para contraditar os estudantes que se manifest,
tra a hidrel6trica de Belo Monte, a principal obra d<
do PAC (Programa de Aceleraqao do Crescimei
disse que quando tamb6m era estudante, aos 19 ar
protests contra a construqao da hidrel6trica de
Parand, porque grupos contririos divulgavam qu
gem iria inundar toda a Argentina e vazar agua poi
mudar o eixo da terra", segundo a reprodugao de A
enviada especial do Didrio do Pard.
Lula tinha 19 anos em 1967, quando Itaipu ain
nho (ou pesadelo). Nenhuma das suas biografias,
que o cobrem de gl6rias, registra qualquer manife
litica de Lula nessa 6poca. Ele era entdo um comph
do politico. A hagiografia escrita por Denise Paran
filho do Brasil), registra, em sua pigina 86, decl
pr6prio president, de que, quando tinha 17 ou 18
realize o grande sonho da minha vida: eu comprei



Nosso recruta

Temos todos os motivos para par-
tilhar a faganha que Mort Walker con- Rep6rteres S
sumard em setembro: 60 anos dese- gqo internaciona
nhando a tira didria de quadrinhos de fende jornalistas
Beetle Bailey, adaptado para o Brasil tuiqao de respeit
como Recruta Zero. No mesmo mes, ano passado apr
Walter chegard a 87 anos de idade. sobre as ameaqa,
Nunca ningu6m ficou por tanto tern- que jornalistas e
po a frente de um personagem. Sdo meio ambiente e
milhares de hist6rias de alto nivel. relat6rio foi div
0 Recruta Zero 6 um libelo anti- sou citado como
militarista. Iniciado em 1950, sobre- conseqtiincias d
viveu a guerra fria, a virias guerras Amazonia. Neste
quentes, ao complex industrial-mi- no Brasil. Apena
litar (batizado pelo general e presi- informaqdo entire
dente Eisenhower) e at6 ao politica- Minha cobert
mente correto, que conseguiu mais feita sob uma bit
do que os belicistas: levar algunsjor- curo contextual
nais que reproduzem a tira a censu- que comandam
ri-la, por supostamente mensa- que di a partida
gem anti-feminina. 0 desenhista nao ser percebid
americano 6 um dos autores princi- forga persuasive
pais do s6culo 20. Talvez no Brasil "convencer" os o
suas hist6rias em quadrinhos nao nos bastidores,
existissem ou nao tivessem tanta du- Quem possui visa
rabilidade. Vida longa a Walter e ao tao reage negative
imortal Recruta Zero. Que ele conti- tiva mais ampla
nue sobrevivendo por muito mais E o que tern ac
tempo no Quartel Swampy. res a coluna que e


cleta". S6 na d6cada seguinte, empurrado pelo irmao, conhe-
cido por frei Chico, que era do Partido Comunista Brasileiro,
o Partiddo, comegou a atuar no sindicato dos metaldrgicos de
Sdo Bernardo, no ABC paulista.
Especialista em conhecimento de orelhada, sem checar o
que ouve nem ir buscar alguma referencia grifica do seu
saber oral, Lula confundiu tudo. A hip6tese da inundagqo da
Argentina num eventual rompimento da barrage de Itaipu
era e 6 16gica, sem chegar a ser factivel. Constitufa exer-
cicio intellectual nao s6 dos critics da barrage, mas, sobre-
tudo, dos exercfcios de estado-maior das forqas armadas bra-
sileiras e argentinas. Era um element perturbador na geopo-
liftica da triplice fronteira, que foi o principal foco de interesse
do Brasil e da Argentina at6 a criaqao do Mercosul.
A possibilidade de vazamento por baixo da barrage existiu
em Tucuruf, mas nao passou de alarme falso, embora com uma
razao bern real: os canaliculos abertos no subsolo por uma esp6-
cie de cupim. Quanto ao deslocamento do eixo da terra, foi cogi-
tado quando o Hudson Institute concebeu o projeto uma enorme
e fantistica represa no trecho mais estreito do rio Amazonas,
em Obidos, onde ele tem dois quilometros de largura (e chega a
100 metros de profundidade). A acumulaqdo artificial de tanta
agua naquele ponto podia alterar o movimento da Terra.
Corn esses e outros exemplos, o president devia se con-
vencer que estudar nao faz mal. Nem d6i. Mas abrir a boca
para dizer o que lhe vem A mente pode custar caro.


Jornalismo perseguido


em Fronteira 6 uma organiza-
il, corn sede em Paris, que de-
do mundo inteiro. E uma insti-
o e prestigio. Em setembro do
esentou seu primeiro informed
s, perseguiq6es e condenagbes
specializados na cobertura do
stavam sofrendo. Seu segundo
ulgado neste mis. Em ambos,
um dos jornalistas que sofre as
e denunciar a devastacgo da
dltimo relat6rio, o dnico caso
is blogs fizeram o registro da
n6s.
ura da questao ecol6gica nao 6
ola ambientalista. Sempre pro-
z~-la e mostrar quais as forqas
essa dinamica. 0 mecanismo
a essas engrenagens costuma
o. Certamente porque usa sua
(ou suas6ria) para intimidar ou
bservadores e tamb6m por agir
A distAncia da arena pdblica.
o formalista ou restrita da ques-
'amente quando essa perspec-
6 enfocada.
ontecido na recepqao dos leito-
screvo no portal do Yahoo. Um


anonimo mal-disfarqado pelo pseudonimo de Ba-
gre diz que o que escrevo esti desajustado com a
qualificacqo da coluna, dedicada ao meio ambien-
te. Preferiria que escrevesse sobre borboletas, bro-
m6lias ou... bagres. E escrevo sobre hidrel6tricas,
metaldrgicas de alumfnio, siderdrgicas, minera-
9oes. Como se esses empreendimentos humans
levitassem na atmosfera, ao inv6s de estarem plan-
tados sobre o solo ou no subsolo do planet.
Acho que a principal razao do incomodo que
essejornalismo causa 6justamente esta: procu-
rar desvendar as raizes dos problems, as ma-
trizes das situacqes. S6 que, nos dltimos tem-
pos, ao inv6s das ameaqas de morte ou das inti-
midag6es diretas, esses personagens procuram
se valer de processes judiciais para me desviar
do foco da minha atuaqdo, justamente o foco
que provoca a atencao dos analistas externos,
em especial dos estrangeiros.
Por terem uma visdo cosmopolita, eles con-
seguem perceber o valor especifico, original e
substantial desse tipo de jornalismo indepen-
dente e critico. Daf a atengao que me deu Re-
prrteres Sem Fronteira. E tamb6m aqueles que,
sem posiqao pr6via ou dogmitica, precisam de
informagqes, andlises e provocag6es para per-
ceber a hist6ria real por detris das fantasias e
dos enredos falsos.


Jornal Pessoal JUNHO DE 2010 2 QUINZENA