Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00345

Full Text


JUNHO
DE 2010
laQUINZENA

A AGENDA AMAZONICA DE LOCIO FLAVIO PINTO


N 466
ANO XXIII
RS 3.00


As luzes do principe,


a escuridao do sertao
Reproduzo a seguir o texto, ligeiramente adaptado para sair num journal, do texto que
escrevipara ser um dos capitulos (FHC e aAmaz6nia) do livro Democracia, crise e
reform Estudos sobre a era Fernando Henrique Cardoso (Paz e Terra, 2010, 524
pdginas). Em seguida, uma carta que o sociologo Benedito Carvalho me enviou de
Manaus, a prop6sito desse texto. Benedito e paraense, doutorou-se em sociologia no
Ceard e atualmente trabalha em Manaus. 0 confront do seu texto, que assumiu a
forma de artigo, com o meu, acho que permit uma boa discussed sobre os oito anos
do sociologo-presidente tucano como sobre os dias atuais.


PCrA /' P R,':SEI..








Q uem 6 o prfncipe da hist6ria na
Amaz6nia? Para Gramsci, au-
tor da mais rica releitura de
Maquiavel, ajustada A ItAlia do inicio do
s6culo XX, o principe, que comandaria as
transformaqaes, seria o partido comunis-
ta. O PCI era a representacgo political do
proletariado, a classes social sem amarras
ao mundo dominant capaz, por isso, de
substituf-lo por um mundo sem classes.
E na fronteira amaz6nica? Quando
ainda era apenas intellectual, 30 anos
atrAs, o soci6logo (e tamb6m principe sim-
b6lico desse ramo do saber no Brasil)
Fernando Henrique Cardoso sugeriu que
o principe era o capital. O dinheiro acu-
mulado no centro dinamico do pais, so-
bretudo em Sio Paulo, iria promover a
mudanga. Permitiria A regido isolada e
atrasada nos confins do Brasil quei-
mar etapas e se modernizar para poder
falar de igual para iguais. Transformada
num lugar capaz de receber o capitalis-
mo de al6m-fronteiras, seria fecundada
por esse agent por excel8ncia da din&-
mica social.
Assim, poderia se libertar das amar-
ras seculares do rdstico extrativismo ve-
getal, que demarcava sua vida at6 en-
tao, da mesma maneira como uma co-
bra se desprende de sua pele velha e inditil
para continuar sua trajet6ria rejuvenes-
cida. Mas nao para o triunfo do capita-
lismo e sim para sua crise e superaq~o,
ji que suas contradicqes nao teriam so-
lugqo salvadora. O principe da hist6ria
era tamb6m seu demiurgo.
Como um tipico intellectual metropo-
litano, Fernando Henrique Cardoso de-
senvolveu raciocinios que conduziam
nessa diregio em Amaz6nia, a expan-
sao do capitalism. 0 livro foi escrito
em parceria com Gastdo Muller, tamb6m
pesquisador do CEBRAP, e publicado
em 1977 (com dados levantados em
1973) pela entio afluente Brasiliense.
Tudo autores, instituiqao de pes-
quisa e editor, de um quatrocentao,
Caio Graco Jdnior estava estabeleci-
do na 6poca na capital paulistana. Como
o alvo dessa empreitada encontrava-se
a tr8s mil quil6metros de distancia da
terra dos bandeirantes, abridores de
fronteiras, escravizadores de indios e
destruidores de biomas, a situaqio po-
dia ser comparada (na escala devida, 6
claro) ao feito de um s6culo antes de
Karl Marx, que escreveu sobre as co-
16nias asidticas do capitalism britanico
sentado por longuissimas jornadas -
nas confortAveis cadeiras do Museu Bri-
tanico, em Londres.
O trem que levava o colonizador in-
gles a India seria o mesmo no qual ele
fugiria, quando o native, posto na vesti-
menta (ou camisa-de-forga) da contem-
poraneidade, tomasse consci8ncia de si


(e para si) e colocasse o espoliador para
correr, assumindo a direio da sua hist6ria.
O marxismo se mostrou um m6todo
de an6lise primoroso, capaz de fazer a
anatomia e a taxonomia do ser coletivo
com rara pontaria (o ser individual fica-
ria para o ajuste posterior com Sigmund
Freud). Jd como teoria da revolugqo (ou,
mais exatamente, da p6s-revolugqo, o tal
do day after), se desnudou como um fra-
casso. No primeiro moment, ele 6 como
ci8ncia (ou "quase-ciencia").
No segundo, mero profetismo, mile-
narismo (uma "quase-religido"). 0 com-
ponente trigico e ir6nico da perso-
nalidade de Marx 6 sua aspiraao pro-
feta, uma heranga familiar (ou uma alie-
nagao) que identificou e considerou no-
civa, sem conseguir, entretanto, imobili-
zi-la e se livrar dela.

Refletindo a partir de
Sao Paulo, terra dos bandei-
rantes e capitaes do mato
(que, depois deles, nao vol-
taria a crescer), sobre a exo-
tica e longinqua fronteira
amaz6nica, Fernando Henri-
que arrematava a incorpora-
Gao do marxismo ortodoxo,
com um agravante: ele nao
queria fazer a revolugao,
como Marx, mas explicala.
Ainda que cronologicamente isso sig-
nificasse cancelar a evolucao que Marx
representou em relagio a Hegel, fazen-
do o pensamento retroagir no tempo (ao
menos na perspective da esquerda), para
o academico FHC esse era o modelojus-
to, coerente consigo mesmo. Tanto quan-
to Marx, ele parecia seduzido pelo "sis-
tema" sobre o qual langou suas armas
critics. Diferentemente de Marx, por6m,
o que pretendia mesmo era mudar o ca-
pitalismo, nao destruf-lo.
ModernizA-lo podia tornm-lo maisjus-
to, mais coerente com o devir hist6rico
no sentido do progress. Sob essa 6tica
estrita, foi muito mais bem-sucedido do
que "o pai fundador da dial6tica da pra-
xis", conforme um dos tratamentos di-
versionistas que Gramsci Ihe deu para
escapar aos tenticulos da censura fas-
cista, exercida sobre as cartas e cader-
nos que escrevia para fora dos c6rceres
de Mussolini. Marx nio foi al6m de uma
inconstante consultoria a associagqes de
trabalhadores.
Fernando Henrique se tornou o pri-
meiro president a exercer, por dois man-
datos consecutivos, durante oito anos, a
presid8ncia de um dos maiores pauses do
mundo, etemo candidate a potencia emer-
gente no concerto das na5oes, como n.o
se cansa de recitar o estribilho ufanista.
Dezoito anos depois de ter teorizado so-
bre a expansao do capitalism na fron-


teira primitive, ele tinha a rara oportuni-
dade de testar a exatidio do seu diag-
n6stico e colocar em pritica suas profe-
cias. Descia do piano hegeliano das idei-
as para o nfvel da realidade, sempre com
o cajado de conduzir rebanho nas mios,
mas com uma diferenqa vital: no nirvana
da teoria o cajado 6 simb6lico: no r6s-
do-chio dos fatos, ele 6 uma ferramenta
- ou uma arma.
Ja sob a forma de uma sigla, a indi-
car a institucionalizagao do seu poder,
FHC se cansou de repetir: jamais dis-
sera para esquecerem, na apreciaqo
do quejA entao fazia, o que outrora dis-
sera. E tinha razao: porque ele realmen-
te cumpriu, como president, o que dis-
sera como intellectual. Havia diferenqa
de tom e de ret6rica, que antes possibi-
litava sua classificacao como pensador
de esquerda. Mas a leitura atenta das
suas numerosas obras era a prova dos
nove: ele foi coerente nos dois momen-
tos. A maior realizacio dos seus oito
anos como president foi a moderniza-
cqo do capitalism brasileiro, estendido
a todas as periferias do pais. que ele
buscou transformar em espelhos do
modelo, irradiado a partir do centro do
poder, com o toque do comando as suas
parties: "Avanga, Brasil!".
Por consequencia, a Amaz6nia se tor-
nou mais Sio Paulo e menos Amaz6nia.
O bastio conduzido pelo principe nessa
passage de comando foi o desmata-
mento, a extirpagao da cobertura vege-
tal da maior floresta tropical do planet.
Se o bandeirante paulista, atendendo ini-
cialmente pelo nome de Raposo Tava-
res ou Borba Gato, e agora, indiferente-
mente da nacionalidade, por Ermfrio de
Moraes ou Nippon Aluminium, 6 o faze-
dor de desertos, nada mais natural que
na paisagem amaz6nica as Arvores de
40 ou 50 metros de altura fossem substi-
tuidas por pastos, campos de soja, fibri-
cas, hidrel6tricas, ferrovias ou minas.
A cada ano, durante o governor de
Fernando Henrique, o que veio abaixo
de floresta na Amaz6nia equivaleu, na
melhor das hip6teses (a m6dia dos anos
de desmatamento menos intense) a todo
o territ6rio de Chipre, onde vivem 800
mil pessoas. A area ji alterada na re-
giao, se constituisse um pais, se tomaria
o maior pais da Europa Ocidental, com
seus quase 800 mil quil8metros quadra-
dos. Se considerada a Amaz6nia Legal,
um conceito administrative para efeito de
incentives fiscais, que inclui parties do
Centro-Oeste e do Meio-Norte, o des-
matamento ji alcancou 18% do total.
Tomada como refer8ncia apenas a
floresta densa, a hildia, a area submeti-
da a desmatamento chegou a 20% des-
sa regiao, que result da rara combina-
95o de floresta com agua. Sua integrida-


2 Jornal Pessoal JUNHO DE 2010 1- QUINZENA







de jA estA sujeita a uma alta taxa de ris-
co, quase mortal. Al6m do mais, como a
legislagio em vigor s6 admite a explora-
qao de 20% dos im6veis rurais estabele-
cidos em Area de floresta amazonica, a
regiaojA pode ser considerada illegal em
terms florestais.
B interessante observer que essa ten-
dencia a destruir o bem mais nobre da
Amazonia, que 6 a sua floresta, consu-
mando em tr8s d6cadas uma destruiqao
quejamais povo algum cometeu, nao foi
alterada nem um pouco pela media que
o governor FHC adotou em agosto de
1996: atrav6s de uma das inefiveis me-
didas provis6rias, elevou de 50% para
80% a Area de protegqo legal em cada
im6vel rural situado na Amaz6nia.
Foi um "projeto de impacto, como
aqueles que o regime military concebia em
seus laborat6rios tecnocriticos e s6 re-
velava para o distinto pdblico j como fato
consumado. Junto com essa MP, que al-
terou o C6digo Florestal, de 1965 (da dpo-
ca do reformismo autoritario dos milita-
res, ainda comprometidos com a doutri-
na da modemizaqio espada A mro), veio
uma portaria suspendendo por dois anos
as autorizagqes e concessoes para a ex-
ploraqao de mogno e virola, as duas es-
p6cies florestais mais valiosas da
Amaz6nia, e determinando a vistoria,
no prazo de 60 dias, das autorizaq6es e
concess6es em vigor, cancelando-se aque-
las encontradas em situa~qo irregular.
Os empresarios logo reagiram. Acu-
saram o governor de ceder a presses in-
ternacionais para "engessar" a Amaz6-
nia, impedindo o pleno desenvolvimento
das atividades produtivas, que competi-
am com os pauses travestidos de defen-
sores da natureza amaz6nica.
Se os atores acreditavam no papel
que desempenhavam no palco, o resul-
tado prAtico 6 que o cendrio foi apenas
redecorado: o enredo continuou o mes-
mo. Depois de declinar entire 1987 e
1991, a curva do desmatamento voltou
a subir a partir de 1992, disparando um
sinal de alerta sobre a imagem que um
governor social-democrata devia cultivar
no Primeiro Mundo. Cada vez mais o
que conta 6 a imagem, materializada na
tela de computador, ocupada por ima-
gens de sat6lite e combinacqo de dados
extraidos de sofisticados software.
Esse 6 o mundo virtual, dos especialis-
tas digitais em Amaz6nia, armados com
suas teorias brilhantes. Outro 6 o terre-
no real, onde prosseguiram a aao de
centenas de serrarias, milhares de pro-
priedades rurais, de extratores, de gri-
leiros, de especuladores. Essa realida-
de 6 refratAria aos comandos das mou-
ses. Criou um caos que as tibuas das
leis baixadas de Brasilia nZo conseguem
dissolver.


Quando fez suas 6picas viagens pelo
Pantanal matogrossense, no inicio do s6-
culo XX, a Comissao Rondon calculou que
500 mil quilOmetros quadrados desse pa-
raiso bastariam, no future, para alimentar
todos os brasileiros. E provivel que o po-
sitivismo, a matriz mental desses militares
pioneiros, cheios de otimismo, os tenha im-
pedido de atentar devidamente para a fra-
gilidade daquele ecossistema se exposto
a um esforgo produtivo mais intense,
como aquele que propunham.
AAmaz6nia, contudo, j oferece (nio
voluntariamente, 6 claro, mas em fun-
2io de um process de ocupago com-
puls6ria, imposta de fora para dentro)
uma area despojada de sua cobertura ve-
getal original 20% maior do que aquela
que sustentaria uma produqao agrope-
cuAria suficiente para matar a fome de
uma populagao continental.
Numa das ondas de interesse inte-
lectual sobre a regiao, a proposta de "re-
cuperaqao de areas degradadas" se tor-
nou um refrdo, da mesma maneira
como, antes, na 6poca da "ocupacdo
pela pata do boi", com a qual os coloni-
zadores se armaram para por abaixo
floresta e em seu lugar former pasta-
gens para incertos bois, a ladainha era
de que o desmatamento nao ia fazer mal
porque se fazia em areas de "cerrado,
cerradao e mata fina".

Aproveitar areas ja des-
matadas para a producao de
generos pecurios e agrico-
las, em vez de continuar a
desmatar, parecia o 6bvio.
as so parecia. Os pioneiros, esti-
mulados ou constrangidos a integrar as
frentes de penetraqdo para "amansar a
terra" (nao s6 destruindo-a, mas tamb6m
expulsando o habitante native), contavam
com generosos e permissivos incentives
fiscais do governor para "abrir fazendas",
a primeira attitude do bandeirante.
Hoje, nao hi mais desses recursos,
mal aplicados ou simplesmente desviados
a rodo, como prova a triste hist6ria da
extinta e ji renascida -Superintend8n-
cia do Desenvolvimento da Amazonia
(Sudam). HA, em contrapartida, a cres-
cente consci8ncia ecol6gica, national e
intemacional, profunda ou superficial, mas
que se trata de um dado inexistente ou
desprezivel nos tempos pioneiros.
Quem queria fazer avangar sua ativi-
dade econ8mica tinha que continuar a usar
a floresta como um estoque de capital.
Para que o past ou a lavoura cresces-
sem, a reserve florestal encurtava. Os que
tentaram voltar sobre os pr6prios passes
constataram que a tal de "recuperacqo
de areas degradadas" safa mais caro do
que a formado da area desmatada origi-
nal. As vezes, muito mais caro.


Entio. depois de ligeira hesitagco, to-
dos voltaram a por a mata abaixo para
conquistar novos espaqos ou fazer capi-
tal. E o que estamos a assistir neste mo-
mento: o incremento do desmatamento,
tanto em valores absolutos quanto relati-
vos. Mais esp6cies nativas desaparece-
rem antes de serem satisfatoriamente co-
nhecidas, ou mesmo identificadas.
Nao 6 melhor o destiny que se di ao
outro element fundador da Amaz6nia
real: sua imensa rede de drenagem fluvi-
al. Um dos grandes rios da region, o To-
cantins, o 25 maior do mundo,ja sustenta
com suas aguas aquela que 6 a quarta
maior hidrel6trica do mundo. Se depen-
desse apenas do governor, o Xingu rio
que estA a oeste do Tocantins, na bacia
seguinte estaria cedendo Aguas para
uma usina ainda maior, a de Belo Monte,
que desbancaria Tucuruf da sua posigao
atual no ranking mundial.
Mesmo com a pressio crescente so-
bre as Aguas da regiao, apenas um comi-
t8 de bacia (de mais de uma centena em
funcionamento em todo pais) foi criado
at6 hoje naAmaz6nia. A visao que predo-
mina sobre eles 6 compartimentada: os
barragistas s6 pensam em agua na forma
de energia; os armadores, enquanto meio
de transport; e os agricultores, querem
usar o rio para irrigagqo.
Nao hi um planejamento global e in-
tegrador dos diferentes usos, muito me-
nos de antecipaao de situaq es e de pre-
venqgo dos problems. Por incrivel que
possa parecer, em alguns pontos da Ama-
z6nia a agua ji 6 problema, e em outros
seu uso estA se aproximando da satura-
q~o. Quem circular na region de influ8n-
cia da Belmr-Brasilia, a primeira estrada
que ligou por terra a Amaz6nia ao restan-
te do pais, podern perceber essa nova e
assustadora realidade, sem precisar ir al6m
de 300 quilometros a partir de Bel6m.
Assim, se, no future, graqas a politi-
cas pdblicas competentes e a uma cam-
panha national de conscientizaqao, o ci-
dadao for capaz de associar agua e flo-
resta A razao de ser da Amaz6nia, ele es-
tari repetindo a liqao aprendida nos ban-
cos escolares de forma tdo imediata e
espontAnea: que o Egito 6 um produto do
Nilo. Por que nao se percebe a mesma
dependencia na Amazonia? Essa percep-
cAo podia resultar em mais do que uma
grande conquista do ponto de vista muse-
ol6gico, paisagistico ou spiritual.
Para a Amaz6nia real, essa utopia,
por ser longfnqua, nao servirA como con-
solo. Quando descobrir a verdade, tal-
vez s6 reste ao cidadao apreciA-la no
papel, em gravuras, em fotografias ou
num filme de sabor arqueol6gico. A
Amazonia viva e verdadeira ji sera um
doloroso retrato na parede.
-w -f.tvw.r-^.;, c coNrwNwa NA PAa 4


JUNHO DE 2010 1 QUINZENA Jornal Pessoal 3








Foi assim na Inglaterra, na india, em
Sao Paulo. Sera tamb6m assim na Ama-
z6nia, porque tern que ser, quase como
uma fatalidade. Se os ingleses safram da
India pelos trilhos que assentaram no solo
native, voltaram eles ou seus sucesso-
res e substitutes por outras vias, at6
mais eficientes, porque geralmente eram
invisiveis. Os mecanismos financeiros,
por exemplo. E os sat6lites.
Um ano antes de sair o livro de Fer-
nando Henrique, alias, travou-se um lan-
ce seminal nos sert6es amaz6nicos. Foi
num local vizinho A fazenda do empre-
sArio, ministry e amigo (igualmente pau-
lista) Severo Gomes, no sul do Pari, onde
- diz a lenda o intellectual Fernando
Henrique fez a dnica incursdo in situ ao
seu objeto de estudo (e por uma 6nica
noite). Ali ao lado, ao inv6s de estar mon-
tando vefculos automotores, que era sua
inica especialidade, a Volkswagen esta-
va criando boi. Para tanto, pondo fogo
na floresta. O fogar6u foi fotografado
pelo satl6ite americano Skylab e essa
imagem documentou o maior inc8ndio
com DNA, definido pela mais sofistica-
da mAquina fabricada pelo home.
Se houve alguma queimada maior an-
tes na hist6ria do homo sapiens (e tam-
b6m agricola, mas nao florestal), nao
se sabe, por falta de registro. E pouco
provAvel que tenha havido, consideran-
do-se a tecnologia do fogo de hoje. Com
prova verificAvel, o incendio na fazenda
Vale do Rio Cristalino, da Volkswagen,
que atingiu de uma s6 vez 10 mil dos 139
mil hectares da propriedade, no munici-
pio de Santana do Araguaia, 6 o maior
de todos os tempos. E se Deus existe,
ele pode ter fulminando a Volkswagen
como castigo: o projeto nunca deu certo.
E a multinational alemi nunca mais ten-
tou criar boi.
Na v6spera do langamento do livro
de Fernando Henrique, por conta do trau-
ma que a image do inc8ndio da Volks
provocou mundo afora, o governor des-
viou para a Amaz6nia parte consideri-
vel do program de monitoramento de
sat6lites que o pais comegava a desen-
volver em Sao Jos6 dos Campos, no in-
terior de Sho Paulo.
Como resultado do primeiro levanta-
mento global da altera.o da cobertura
vegetal da regiho, com base em imagens
de sat6lite, foi constado que o desmatamen-
to ainda nao chegara a 1% da superficie
de cinco milhbes de hectares daAmaz6nia
Legal. Hoje, essa area desflorestada che-
ga a 18% (ou 800 mil quil6metros quadra-
dos), quase tres vezes a extensao do Esta-
do de Sao Paulo, ponto de origem de mui-
tos desses desmatadores.
Os oito anos (1995-2003) de FHC
coincidiram com o maior period de des-


truiqco de florestas na Amaz6nia, s6 com-
parAvel ao quinqu8nio de Jos6 Sarey
(1985-1990). Nao se pode dizer, no en-
tanto, que os dois governor descurassem
a questao ecol6gica. Com pompa e cir-
cunstAncia, Sarney langou o program
"Nossa Natureza" e FHC deixou ao seu
successor, um paulista adotivo, o ex-me-
taldrgico (e ex-aliado) Lula da Silva, o
program de Areas Protegidas da Ama-
z6nia, proclamado como "o maior pro-
grama de conservaio de florestas tro-
picais do mundo", seu titulo de batismo.
O ARPA, um investimento de 395 mi-
lhWes de d6lares, destinado a beneficiary
uma area de 500 mil quil6metros qua-
drados. E, no entanto, a m6dia do des-
matamento nos 8 anos de FHC esteve
pr6xima dos "anos de fogo" de Sarney,
ao redor de 25 mil quil6metros quadra-
dos ao ano.

Como explicar a contra-
diio de tanta ret6rica em de-
fesa da natureza e tanta di-
lapidaqao de recursos natu-
rais, como jamais houve
numa fronteira colonial?
Como explicar que esta 6 realmente a
condi~io daAmaz6nia, integrante de uma
genealogia que causou tantos danos no
passado e ainda no present aos paf-
ses africanos e asiiticos?
Talvez, inadvertidamente, a explicagdo
esteja contida num elucidativo documen-
to produzido no auge do regime military, a
matriz de tudo que acontece at6 hoje. O
II Piano de Desenvolvimento da Amaz6-
nia (II PDA), que vigoraria entire 1975 e
1979 (no consulado do general e supos-
to d6spota esclarecido Ernesto Geisel,
o terceiro dos generais-presidentes p6s-
1964) admitia que o modelo de desenvol-
vimento regional era desequilibrado.
Entre seus efeitos estavam a concen-
tragdo da renda, os conflitos fundiArios. a
agressao a natureza, a dizimaq.o dos in-
dios. Essas distorq6es, entretanto, que
eram um dado natural do modelo, inevitA-
vel, seriam devidamente corrigidas, porum
ato de vontade do Estado, atrav6s de suas
polfticas pdblicas (o jargao ainda n.o ti-
nha o uso corrente nos nossos dias, mas
era isso que entAo se dizia). Daf o esque-
ma tender pelo titulo de "modelo de de-
senvolvimento desequilibrado corrigido".
O problema estava e continue a es-
tar no fato de que a mdo que apoia o
investimento 6 pesada, por ter que car-
regar o tal do principesco capital, enquan-
to a mao da correfgo 6 leve, por ser des-
tituida do mesmo "epifenom8nico" capi-
tal, autorizando-se o neologismo a Gui-
maraes Rosa, autor bem-vindo quando
se trata de fazer alegorias com o grande
sertio, ao qual o Brasil cada vez mais se
reduz (se Deus quiser entrar, que venha


armado, alertou o escritor das minas ge-
rais, antevendo a guerra civil nao decla-
rada e ca6tica em vigor no pais).
E assim que o sonho da fronteira se
consumando: depois de quatro d6cadas
de avango das frentes econ6micas. a
Amaz6nia ficou exatamente igual ao
Brasil mais antigo, ou pior. A dltima edi-
9do do Atlas do Desenvolvimento
Humano mostra que a regiao cresce
menos do que as outras regimes brasilei-
ras, que a buscam como area de expan-
sdo, e o produto da atividade produtiva 6
partilhado por um ndmero cada vez me-
nor de pessoas.
Se a concentragdo econ6mica 6 a
grande e estigmatizante marca do Brasil
do s6culo XXI, em sua maior fronteira
de recursos naturais esse sinete se tor-
nou ainda mais forte. Deixando de ser a
ilusao do paraiso perdido, como Euclides
da Cunha a viu no inicio do s6culo XX.
ela chegou ao limiar do novo s6culo mais
pr6xima do inferno human e ecol6gico.
ainda passivel de atenuagao, mas j visi-
vel no horizonte da rotina.
Para que pudesse render economi-
camente para o pais, cumprindo uma
agenda que ji veio fechada, com uma
pauta previamente estabelecida, a Ama-
z6nia perdeu nessas quatro d6cadas 18%
do seu bem mais nobre e valioso, a flo-
resta. De promessa de future, a Amaz6-
nia estd sendo despejada para o clube
dos mais pobres estados da federaqgo, o
Brasil n 3, o enjeitado.
Conforme os dados do Atlas, elabo-
rado em conjunto pelo Programa das Na-
c6es Unidas para o Desenvolvimento
(PNUD), Instituto de Pesquisas Econ6-
micas Aplicadas (IPEA) e Fundaqio
Joao Pinheiro, todos os estados daAma-
z6nia (tanto a Classica como a Legal)
tiveram desenvolvimento entire 1991 e
2000 abaixo da m6dia national.
O Indice de Desenvolvimento Huma-
no (IDH) do Brasil na iltima d6cada do
s6culo XX (na maior parte dela sob o
comando de Fernando Henrique) cres-
ceu de 0,696 para 0,766 (o maximo 6 1).
Todos os 27 Estados tamb6m cresceram.
mas o ritmo amaz6nico foi menor do que
o desempenho m6dio. O Nordeste acom-
panhou-o. Os Estados nordestinos mais
assolados pelas secas se fundiram com
os estados amaz6nicos mais pobres nes-
se Brasil de terceira classes.
O Pard, Amazonas, Acre e Tocan-
tins estdo nessa faixa mais pobre, na
companhia de (pela ordem) Pernambu-
co, Sergipe, Ceari, Bahia, Piaui, Paraf-
ba, Alagoas e Maranhio. No segment
intermedidrio de desenvolvimento estio,
tamb6m em escala decrescente, Ama-
pA, Roraima, Mato Grosso e Rondonia.
O mapa da evoluCgo espacial do desen-
volvimento explica a razto da melhoria


4 Jornal Pessoal JUNHO DE 2010 1' QUINZENA







do IDH em todo o territ6rio amazonico:
atividades produtivas em areas pioneiras
exerceram um efeito exponencial que se
irradiou pela vizinhanga, antes destituida
de fontes de renda.
No entanto, 6 cada vez menor o ni-
mero de pessoas que se beneficia desse
rendimento. Em 1991 apenas Roraima
apresentava um indice de Gini (de con-
centrag~ o de renda) acima de 0,65 ou
mais (o miximo de concentragio 6 1).
Em 2000 aconteceu exatamente o inver-
no na Amaz6nia.
Roraima, o inico Estado (da regiao e
de todo pafs) que registrou melhoria da
concentraNo, tinha Gini entire 0,61 e 0,62,
igual ao de Rond6nia, enquanto todos os
demais estados passaram para a faixa
mais grave, a mesma da qual faziam par-
te apenas os estados nordestinos. O
Para, o estado com a maior populagdo, o
maior PIB, o segundo maior territ6rio e
a mais diversificada pauta de recursos
(e de produtos) econ6micos, 6 o caso
mais grave de concentragio de renda
(como da maioria dos demais sub-indi-
cadores do IDH). O Estado apresenta,
ao mesmo tempo, os maiores indices nos
dois extremes da pirimide: o dos mais
ricos e o dos mais pobres.
Era o 10 em concentraio de rique-
za em 1991; 10% dos mais ricos deti-
nham 51,7% da riqueza estadual. Tor-
nou-se o 90 pior em 2000; esses mesmos
10% ji abocanhavam 54,7% da renda
do estado. Os 20% mais pobres, que s6
tinham acesso a 2,6% da renda total em
1991, no ano 2000 ficaram com t~o so-
mente 1,5% (o Estado passou do 80 para
o 7 lugar entire os de maior pobreza).
A deterioraq~o, por6m, ndo era ape-
nas de renda. O que os t6cnicos cha-
mam de vulnerabilidade, com base no
IDH (que mede a expectativa de vida,
as condigoes de trabalho e o nivel de es-
colaridade), se alastrou pela regilo junto
com as cunhas migrat6rias. Excetuado
o Amazonas (que tem metade da sua po-
pulaqio enquistada em Manaus), em to-
dos os demais Estados amazonicos cres-
ceu o trabalho infantil, em niveis que s6
t8m paralelo com os nordestinos.
A regi5o 6 lider na quantidade de cri-
angas fora da escola (sendo a educaqao,
em geral, a razio principal para o cres-
cimento constant do IDH, mais do que
renda e expectativa de vida, embora haja
fundados motives para se recear pela
qualidade desse ensino). O Pard era res-
ponsivel pelo quinto indice mais grave
em todo pais, passando A frente de Ala-
goas, que havia sido o Estado campedo
do trabalho infantil em 1991.
O abandon e o isolamento eram cau-
sas de desempenhos sofriveis de certos
municipios daAmaz6nia. Jordco, no Acre,
tinha o segundo pior indice de desenvol-


vimento human (0,475) em 2000, abai-
xo apenas de Manari, em Pernambuco
(0,467), e o maior percentual de analfa-
betos (60,66%), acima apenas de Itama-
rati, no Amazonas (59,95%). Centro do
Guilherme, no Maranhao, ficou em quin-
to lugar nesse item, mas ocupava cons-
trangedora primeira posicao em mat6ria
de renda per capital (cada um de seus
moradores recebia, em m6dia, R$ 28,38,
para um salario minimo de R$ 150).
Problema apenas do sertdo? Ledo en-
gano. Bel6m, a metr6pole da Amaz6nia
(hoje com 1.5 milhdo de habitantes), foi
a que mais perdeu posicqes na relagdo
do IDH metropolitan: ocupava o 13 lu-
gar entire as regimes metropolitanas bra-
sileiras em 1991; despencou para a 25"
posicdo em 2000.
Se o modelo de ocupago da Ama-
z6nia 6 colonial, espoliativo e concentra-
dor (e 6 realmente), as elites o agravam
ainda mais com sua inac~ o ou sua parti-
cipagdo predat6ria, como abutres na car-
caqa. O Maranhao do ex-presidente e
senador Jos6 Sarney tinha o menor IDH
em 1991 (0,543) e continuou a ter o me-
nor IDH (0,636) em 2000, enquanto a
m6dia national nesses dois anos foi de
0,696 e 0,766.

A Zona Franca de Ma-
naus, beneficiada pela mai-
or renuncia fiscal do pais,
nao deu retorno proporcio-
nal: o Amazonas perdeu tres
posig6es entire 1991 e 2000,
caindo do 13 IDH para o 16.
Seu indice cresceu, de qualquer maneira,
mas a uma taxa inferior ao da m6dia regi-
onal. E os p6ssimos indicadores no interior
fazem pensar nos estragos que resultario
de uma crise maior da Zona Franca de
Manaus, ou da insuficiencia de seu dina-
mismo como fator de dispersed de efeitos.
Fariam bem as elites em refletir sobre
o distorcido espelho que colocaram dian-
te de si e o povo, em geral, em sair da
resignago. Melhorar o perfil da Amaz6-
nia ainda estA ao alcance de todos, mas
se o desafio for assumido logo.
Nio hi muito tempo para comegar.
A correcao da distorCgo tarda e, quando
chega, ji encontra In8s morta e o leite
derramado. A solidez das numerosas e
portentosas Areas de protegco e conser-
vagdo da natureza, delimitadas com fi-
nanciamento intemacional, se desman-
cha quando o ar fica carregado de inte-
resses capitalistas. Brincar de ecologis-
mo 6 terapia entire os gonzos chamando
para ganhar dinheiro rapidamente na
fronteira, na qual hi tantos bandidos e
tdo poucos mocinhos (claro: s6 bandidos
"amansam" a terra Aspera).
O intelectual-politico FHC consider
esse ar tao criador quanto o operdrio-polf-


tico Lula. Sob prismas distintos, eles tem
um ponto em comum: a modemidade ino-
culada na area primitive pelo principe da
transforma~io nio chegou para ser tran-
sit6ria; ao contrArio, se tomou perene, apa-
rentando ser definitive. E nSo resultou numa
mudanga para melhor entire os nativos.
E portador de algum significado, com
as caracteristicas daquilo que os te6logos
chamam de "sinal dos tempos", o fato de
os tres personagens-chave da democrati-
zaqao gravitem de alguma maneira em
tomo do planet S5o Paulo, em relagio
ao qual com maior ou menor intensida-
de os demais integrantes da federaco
brasileira se "satelitizaram". Mesmo que,
em casos crescentes, Sao Paulo apenas
seja um sat6lite maior e mais brilhante a
ofuscar a visio dos cidadaos sobre os pla-
netas mais ou menos ocultos.
Sarney 6 um maranhense clientelista,
empenhado em fazer a political paroquial
a partir do trono de Brasilia, mas seus mai-
ores interesses politicos e econ6micos se
deslocaram para a capital do estado que
ainda concentra um terco da riqueza na-
cional. FHC e Lula sao paulistas adotivos
e convictos ("organicos", na linguagem
gramsciniana). Seus pontos de identidade
sao maiores do que a aparencia sugere.
As disting5es e diferenqas sio mais de
6nfase e de forma. No modo de ver de um
intellectual e de um trabalhador metropoli-
tanos (e cosmopolitas), as especificidades
locais dafronteira, como florestas e indios,
sao coisas sup6rfluas, ociosas ou mesmo
nocivas A modemidade que o capitalism
Ihes proporcionou. Por que uma mata fe-
chada nio pode ser substituida por um pa-
noramico campo de soja ou um past? Por
que um indio nao pode ser incorporado A
cultural dominant como um cidadao co-
mum, quem sabe, urbanizado, "civilizado"?
Eliminadas as diferencas, ai, sim, a uni-
dade national seri mais do que bordao
no hino. Todos, no pais continental, terio
as mesmas condiges, a mesma lingua-
gem, interesses convergentes, um padrao
de refernncia para decidirem o que fazer
da pr6pria vida e da vida do pafs. Um
Brasil finalmente com grandeza real no
concerto intemacional das naqves.
A profecia contida nas confabulacges
do intellectual e nas bravatas do lider sin-
dical e politico, enfim, se realizard. O
Brasil como Brasil verdadeiro. E a Ama-
zonia, como seu espelho. O bruxo Gui-
maraes Rosa jA previa: o sertio estard
em todo lugar.
PS: Um exemplar do livro de Fer-
nando Henrique Cardoso me chegou,
em Belim, logo em seguida ao seu lan-
Camento em Sao Paulo. 0 volume me
foi mandado pelo correio pelo amigo
jornalista Jose Casado, um capixaba
na entdo reluzente redagdo da Gazeta
coNCLUINA PAG 6


1 QUINZENA Jornal Pessoal 5


JUNHO DE 2010







CONCLUSION DAPAo. 5
Mercantil na capital paulistana. Casa-
do destacava que o livro fizera um uso
tdo intense das reportagens do Esta-
ddo que vdrias outras informaCges fo-
ram citadas sem referencia a fonte.
Talvez para ndo parecer que os dis-
tintos academicos, mais do que empre-
ender excursdo para coleta de material
in loco, como fizera o future FHC no
seu passado de autor de substanciosas
monografias sobre o Brasil modern,
obtiveram a maior parte da sua materia
prima nos arquivos do journal da tradi-
cional familiar Mesquita. E recorrendo
a um tipo de referencia que os seus pa-
res costumam desdenhar: textos escri-
tos por jornalistas.
Um trabalho academico cor repor-
tagens na bibliografia corre o risco de
ser mal avaliado por bancas examina-
doras e inter pares. Mas como escre-
ver sobre a Amaz6nia, que comegou a
ruir ao ser "integrada" ao Brasil pe-
las grandes rodovias, sem recorrer as
pdginas do Estaddo desse period?
Funcionando quase como conscidncia
critical da plutocracia que Ihe deu vida,
o journal documentou como ningudm


(seja journal ou qualquer outra fonte
de informacoes) a "expansdo do capi-
talismo na AmazOnia".
A razdo? Ter decidido colocar, man-
ter e espicaCar bons profissionais na
drea onde os fatos ocorriam, fazendo-
os ver cor os pr6prios olhos e imedi-
atamente repassar suas anotacoes para
os olhos coletivos os acontecimentos
relevantes da histdria contemporunea
da Amazonia, ainda em seu estado de
cotidiano, de hist6ria-em-processo.

0 intellectual Fernando
Henrique Cardoso tina ins-
trumentos para aferir a rele-
vaceia desse material, que o
dispensou da "ida a campo",
essential no rito metodoldgi-
co da sua sociologia. 0 mitodo
funcionou, tanto que seu livro e uma das
referencias constantes nos trabalhos de
outros intelectuais que escreveram so-
bre a Amazonia a partir de 1977. Mas
ndo foi uma formula perfeita, por im-
possibilidade de resolver a equaCgo in-
completa: e uma interpretag o sobre es-
tudo de caso que ndo houve. A fecun-
didade da teoria foi afetada pela falta


de dominio sobre os complexes elemen-
tos da realidade por parte do poderoso
te6rico. 0 modelo intellectual nao po-
dia dar conta de explicar satisfatoria-
mente a realidade amaz6nica, um erro.
conceitual que FHC ndo cometeria se
tivesse aplicado, ao seu estudo sobre a
Amaz6nia, os procedimentos metodol6-
gicos que apresentou com profundida-
de na introdupdo de seu livro anterior
0 capitalism no Brasil meridional.
Em vez de ser o principle libertador
o capitalism estdt sendo um senhor co-
lonial na Amazonia. Isto, FHC ndo per-
cebeu, tanto ao escrever o livro quanto
ao assumir as rideas do Estado para
executar suas ideias. Mesmo porque es-
tava e ainda estd do lado do vence-
dor, que ndo e o do colonizado.
Uma curiosidade: do levantamento
de dados para o livro participou, alem
dos autores, Tereza Martha Smith Vas-
concelos, casada desde nove anos an-
tes com o future senador Eduardo Su-
plicy. Seu nome de casada que man-
tem ate hoje no foi registrado no crd-
dito do livro. Em 1973 Martha Suplicy
fazia p6s-graduagdo em Stanford, nos
Estados Unidos.


Fazer na Amaz6nia: quem sabe e pode?

Segue-se a mensagem que o socidlogo Benedito Carvalho escreveu
a prop6sito do meu artigo sobre Fernando Henrique Cardoso.


Dei uma lida no teu texto sobre o Fer-
nando Henrique, publicado num maqudo
livro sobre o dito. Muitas coisas que escre-
vestejd tinhas comentado (s6 nao disseste
que FHC escreveu o livro no aviao);
tamb6m nao sabia do furo sobre a partici-
pagio da Marta na pesquisa, coisa de so-
menos importAncia, diga-se de passage.
Senti falta de uma coisa que tens fa-
lado em alguns de teus artigos: o gover-
no de FHC e o Projeto Sivam, que, se-
gundo afirmas, foi elaborado, na
6poca, sem concorrfncia pliblica, tudo
em nome da seguranga national.
Reli esses dias o livro. Diz o teu artigo
que esse livro 6 muito lido na academia e
bastante citado em outros lugares. E fi-
quei me perguntando do por que isso.
Acho que ele 6 lido porque, al6m de ofe-
recer uma visao sint6tica sobre a Amaz6-
nia, faz uma andlise em que situa os pro-
blemas da regiao dentro de uma perspec-
tiva mais abrangente do capitalism e do
regime autoritirio.
Claro que falta nessa visao abrangen-
te, com suas articulaq6es, um confront
com os fatos que tio bem consegues mos-
trar nas tuas reportagens memorfveis no


0 Estado de S. Paulo sobre a Amazonia.
Nao s6 no Estaddo, mas na revista Reali-
dade, na ediqao extra publicada nos tem-
pos dificeis. E diria mais: na tua coluna de
O Liberal, nos livros que jA escreveste e
nos artigo esparsos publicados em revis-
tas, livros e outras publicaq6es.
Certamente o FHC nao sabe o que 6
um avid, esse camarao "gito" (como diz o
caboclo) que comi (juntamente corn o
mapard) quando more em CametA, l pe-
los idos dos anos 70. Talvez faltou ao Fer-
nando Henrique e a tantos outros acad6-
micos metropolitanos (como dizes) vestir
a bota e sair para o mato, conhecer essa
vasta regiao (que nao se conhece num
mrs e num ano) e acompanhar os em-
preendimentos que aqui se desenvolvem,
enfim, estar na fronteira.
Lembro aqui um das poucos intelectu-
ais que por aqui andam e pesquisam, como
a Bertha K.Becker, autora do livro Ama-
zOnia Geopolitica na Virada do III
Mildnio, e, tamb6m, das andanqas meio
missionarias do soci6logo da USP, contem-
porAneo do principle" chamado Jos6 de
Sousa Martins, que, na era dos grandes
conflitos de terra, onde a Igreja estava sem-


pre present, esteve assessorando bispos.
sindicatos e pastorais da terra. Ele vestiu a
bota e saiu para o mato, para os fund6es
dos Brasil, e pode escrever sobre a Ama-
z6niacorn melhorpropriedade do que FHC.
Ainda record de uma observaqio do
meu anirquico professor chamado Luis Al-
fredo Galvao, que, em muitos moments,
quando se falava no Brasil, dizia: "o que a
gente precisa e conhecer esse pats. Mas
precisamos de dados empiricos, de fa-
tos, informacoes, pois sem isso as nos-
sas andlises e interpretacges serdo
magras, ocas e superficiais. caem na
generalidade". Hoje percebo como as
observaq6es do Galvao tem sentido.
Afinal de contas, contamos nos de-
dos o ndmero de int6rpretes deste pais,
os cldssicos, por exemplo, como Gilber-
to Freyre, Celso Furtado, S6rgio Buar-
que de Holanda, Raimundo Faoro e tan-
tos outros que ji conhecemos. Eles fo-
ram (e sao ainda) importantissimos para
conhecer este pais, mas muito do que
escreveram precisa de atualizag6es para
compreender esse Brasil contemporfneo,
que 6 complex e exige anAlises menos
redutoras, como se fez muitas vezes.


6 Jornal Pessoal JUNHO DE 2010 1 QUINZENA







L Respondendo A pergunta sobre as
raz6es que fazem o livro de FHC ser lido
com bastante frequ8ncia no meio aca-
damico, eu diria que isso acontece pela
sfntese explicativa que ele oferece, por
articular o local com a realidade do capi-
talismo national e international e per-
ceber a Amaz6nia no context da divi-
sao intemacional do trabalho. Obviamen-
te, faltou dar fatuidade As andlises, rela-
tivizar certezas, dar conteddo a certas
categories altissionantes (e repetitivas),
tao frequentes em certas andlises socio-
16gicas, onde os terms marxistas eram
(e s2o ainda) mais usados comojargoes
do que como categories explicativas.
Neste sentido, o livro de FHC, em cer-
tos moments, parece um amontoado de
dados sobre a Amaz6nia (dados estatisti-
cos, informarges jornalisticas, dados de
fontes oficiais, etc.) com uma introducao
mais abstrata, totalizante, onde busca apre-
ender o significado da Amazonia na nova
divisao intemacional do trabalho.
Outro aspect que gostaria de desta-
car na tua andlise relaciona-se nao s6 ao
que escreveste sobre a era FHC e a Ama-
z6nia, que, como mostraste, perpetuou (e
agugou) a pobreza e as disparidades
regionais. mas um aspect que sempre
ressaltas: a importancia e a necessidade
de se conhecer a Amaz6nia para se po-
der planejar, talvez bem dentro daquele
espirito mannheiniano que tanto aprecias,
onde o cientista nio trabalha somente com
o seu ponto de vista pessoal, mas sim
com a sfntese de varios pontos de vista,
com virias visoes sobre determinados
fen8menos e por isso sao capazes, me-
Ihor do que qualquer outra pessoa,
de planejar racionalmente a sociedade.
Certamente, quando se fala em conhe-
cer a region nao se trata somente do co-
nhecimento empirico, esse que o morador
da regiao tem de sua realidade; as forms
de domino da natureza, os seus hAbitos e
costumes, os modos de conviver com seus
semelhantes. Isso que os soci6lgos de
hoje, inspirados em Habermas, chamam
de mundo da vida e t~o valorizado nas and-
lises recentes do soci6logo portugues Boa-
ventura de Sousa, que defended a id6ia de
que a ci8ncia modema produz conhecimen-
tos e desconhecimentos. Como diz: a ci8n-
cia faz do cientista um ignorante especi-
alizado, faz do cidadao comum um igno-
rante generalizado.
Conhecer aAmaz6nia, neste sentido, 6
nao desconhecer esse saber vulgar e pri-
tico com que, no cotidiano, orientamos as
nossas agoes e damos sentido A nossa vida.
E isso que faz com que o home que aqui
vive saiba o que 6 avid, os tipos de cama-
roes e peixes, a arte da navegacao, os ti-
pos de plants que curam e tudo mais.
Mas, conhecer 6 muito mais do que isso.
E abstrair, estabelecer relaq9es, dar um sig-


nificado aos dados empiricos, ir al6m do
fen6meno aparente, do concrete imediato,
como dizia um epistem6logo, e passar para
o concrete pensado.
S6 que hoje, Ldcio, nem todos os que
possuem conhecimento podem vir A Ama-
z6nia, esse mundo concrete que precisa ser
pensado nas suas articulates mais pro-
fundas. Mesmo porque isso que chama-
mos de Amaz6nia e que nos leva a pensar
numa coisa homog8nea, esconde uma mul-
tiplicidade de realidades fisicas e humans
que uma simples categorizagdo nao 6 ca-
paz de revelar. Esconde, tamb6m, uma in-
finidade de interpretaq6es. das mais sim-
ples as mais complexes, dependendo de
onde elas sao produzidas e reproduzidas.
O que tenho a certeza 6 que a ciencia
nao prospera se nao forem criadas as con-
diqges para que ela exista. E ci8ncia se faz
com pesquisa, com pessoas preparadas,
com estimulos, com projetos, e, sobretudo,
com paixao, a paixao de conhecer o mun-
do, como dizia o Paulo Freire. Sem esses
pressupostos nao existirTo as condiqses de
possibilidades para que advance o conheci-
mento da Amaz6nia, hoje mais conhecida
nos centros universitirios dos Estados Uni-
dos e da Europa do que por aqui.

Luando o FHC escreveu
seu livro sobre o Brasil Meri-
dional e foi para o sul estu-
dar a questao racial, que vi-
rou sua tese de doutoramen-
to, recebeu estimulos, finan-
ciamento para constituir
equipes de pesquisa e toda a
infra-estrutura necessaria
para tal empreendimento.
Quando escreveu o livro com Muller foi a
mesma coisa. Mas,vir para a Amazonia
produzirconhecimento nao depend de uma
decisao voluntaria. Se o pesquisador nio
estiver minimamente com essa base ne-
cessiria, pode amar a regiao, embrenhar-
se na selva, estabelecer contatos e, depen-
dendo de seu bolso, ir mais al6m, mas pode
ter a certeza que nao passard disso.
Nao basta somente dinheiro e outros
meios, por6m: 6 precise que as instituic6es
de pesquisas que estio presents na re-
giao sejam, tamb6m, sensiveis e desempe-
nhem com competencia o papel paraa qual
foram criadas. Mas a realidade estA long
de ser essa por aqui. Um exemplo 6
a Universidade da region, que, al6m de
possuir poucos pesquisadores capacitados
(a Amazonia tem menos doutores que o
Campus Universitdria de Sao Paulo, a
USP), 6 carcomida atualmente pelo desla-
vado corporativismo, onde o que menos
vale sao os atributos que citei.
Entao, como carrear verbas se as ins-
tituiq6es sao ac6falas, focadas em inte-
resses corporativistas? Por isso, a questao
nao se resume aos financiamentos. O que


falta sao political menos propagandistas,
projetos menos fara6nicos e uma deter-
minagao mais ousada, o que supoe plane-
jamento, sabendo o que se quer dessa
parte do Brasil e nao o amadorismo.
como tem predominado at6 agora.
O que se viu at6 hoje na Amaz6nia sao
grandes projetos que chegam de cima
para baixo, sem o minimo de conhecimen-
to da realidade, onde o que fica mais evi-
dente 6 o saque, a relago colonial. Assim
aconteceu nos anos 70 com as political de
desenvolvimento da era da ditadura military,
com seus grandiloquentes projetos de co-
lonizagao, dos incentives fiscais, e,
consequentemente, a existencia de proble-
mas imensos que se acumulam.
Tamb6m n~o basta o conhecimento, por
mais legitimado e competent que ele seja.
Queiramos ou nio, os problems da re-
giao nao se resume rs questoes de ges-
toes tecnocientificas, por mais importantes
que elas sejam. A questao Amaz6nia,
hoje objeto de tantas discusses nacionais
e internacionais, 6 eminentemente um pro-
blema politico. E quando falo em politico.
n~o me refiro aos conflitos politicos regio-
nais, onde velhas oligarquias sao substituf-
das etemamente por outras, incapazes de
formular uma plataforma coerente de de-
senvolvimento regional. Refiro-me A
polftica em anbito national, que, infelizmen-
te, tem levado o pais para um beco sem
said, onde predomina o improvise, a des-
continuidade das political pdblicas, aliado
a corrupco desenfreada.
NSo 6 por menos que isso tem nos le-
vado, tanto no Brasil como na regiao ama-
z6nica, ao beco sem said, A mesmice, ao
narcotrifico, que hoje 6 responsivel pela
movimentagao de 300 bilh6es de d6lares
no mundo. Razao disso poderg ser expli-
cado porque nunca fizemos a ruptura, a
revolupdo democrdtica, de que nos fala-
va o soci6logo Florestan Fernandes?
Se as luzes do principle da sociolo-
gia brasileira nao foram capazes de dar
uma direcio a um projeto national, onde
a Amazonia pudesse ser pensada de for-
ma mais coerente, como merece, nao foi
por falta de conhecimento da regiao. Co-
nhecer 6 uma decisdo political, pois sem-
pre conhece para alguma coisa. As ra-
zies do principle talvez estejam em ra-
zoes nem sempre visiveis e passam por
interesses que se sobrepeem aos cha-
mados interesses nacionais.
Principe e operArio, com seu apa-
rente poder, parecem manietados pela
mao invisivel do Deus Mercado, que,
nesse moment de capitalist global fle-
xfvel e flutuante da dominaqco financei-
ra, desconhece patrias, nagoes e regi-
6es, e esta interessado somente na fre-
n6tica danga da acumulacgo capitalist
que sabemos vive uma outra etapa
de seu desenvolvimento.


1a QUINZENA Jornal Pessoal 7


JUNHO DE 2010








Genio de Carajas: em nosso favor?


Se fosse selecionar atrav6s de con-
sulta popular nomes para receberem a
Medalha do M6rito Industrial Simao
Bitar, a mais important que concede, a
Federa ,o das Inddstrias do Pard ja-
mais chegaria a Eliezer Batista. Mas foi
ele o escolhido para a honraria, conferi-
da em solenidade realizada no dia 20 de
maio, em Bel6m. O homenageado s6 6
conhecido em restritos circulos do po-
der. O grande pdblico o ignora. Raros
poderiam dizer que esse ge6logo minei-
ro, em plena atividade aos 86 anos, 6
um dos principals personagens da his-
t6ria contemporinea da Amaz6nia, em
particular do Pari.
E sintomAtico que o pai de Eike Ba-
tista, um dos poucos bilionArios brasi-
leiros, tdo famoso por esse titulo quan-
to porter sido marido de Luma de Oli-
veira, jd tenha estado muito mais ve-
zes em T6quio do que na capital para-
ense. Eliezer, alias, 6 o ndo resident
no pais que mais vezes visitou o Ja-
pao. Diz-se que l esteve por mais de
uma centena e meia de vezes, Fala flu-
entemente o japones e pelo menos
seis outras linguas.


Dentre suas faganhas, cantadas em
prosa e verso, estA a de ter viabilizado
a melhor mina de ferro do mundo, a de
CarajAs. Parecia que, 10 anos depois
de ter sido descoberta, em 1967, a mi-
neraqao estava ferida de morte. A ame-
ricana United States Steel, a maior de
todas as siderdrgicas, decidiu em 1977
se retirar do empreendimento, que fora
s6 seu at6 1969, quando os militares im-
puseram a sua associaqo A entdo es-
tatal Companhia Vale do Rio Doce.

Carajas foi concebido
para o mercado america-
no, onde a penetragao
brasileira era minima. A
garantia do neg6cio era
dada pela USS. Com sua said
da sociedade, Carajas parecia conde-
nado a permanecer em banho-maria
at6 que a gigante do ago se decidisse
a voltar. Era o que a Steel tamb6m
pensava. Mas Eliezer Batista ndo par-
tilhava essa convicqdo. Para ele, a vi-
abilidade estava do outro lado do mun-
do, na Asia.


Nessa epoca, uma operaaio des-
sas equivalia A travessia dos Alpes pe-
las tropas do cartagines Anibal Bar-
ca, que surpreendeu o poderio roma-
no surguido na sua retaguarda. Como
Anibal, o maior dos talents de Elie-
zer se revelaria por uma concepqdo
mais ampla de logistica. Nao s6 iden-
tificando o mercado potential para
seus produtos como minimizando os
custos de transport para que o preqo
fosse competitive.
Foi assim que o min6rio de ferro
de Carajas foi escoado para um porto
de grande calado na bafa de Sdo Luis
do Maranhao, embarcado em grandes
navios graneleiros (inclusive os da Do-
cenave, subsidiAria da CVRD) e che-
gou ao Japao mais barato (tamb6m
em funcgo do seu elevado teor de he-
matita pura) do que o concorrente aus-
traliano, que esta a um tergo da dis-
tancia. Hoje, 80% do min6rio que sai
de Carajas segue para a Asia, sem
competitor a altura. Uma realizacao
com a marca de Eliezer Batista, visi-
onArio na prancheta, pragmAtico na
realiza~go.
Entdo ele just merecedor da me-
dalha da Fiepa, reservada Aqueles que
se destacaram "por relevantes servi-
qos prestados ao Estado do Pari, tor-
nando-se alvo da admiragdo e gratidao
do povo paraense"? Por certa 6tica,
sem ddvida. O cidadao mineiro preen-
che melhor essas exig8ncias do que
muito paraense ji homenageado pela
entidade corporativa da inddstria esta-
dual. Mas se os considerandos forem
levados ao p6 da letra, a concessao se
torna francamente questionivel. Cara-
jas, como obra de engenharia, 6 um
monument. Como instrument a ser-
vico do desenvolvimento do Estado ou
da regiao, 6 um aut8ntico cavalo de
Tr6ia. Neg6cio maravilhoso parajapo-
neses e chineses, os que mais ganham.
S6 residualmente favorivel aos nati-
vos, que ganham, 6 verdade, mas saem
perdendo na relacgo entire o que ga-
nham e o que perdem. Ficam em pre-
juizo ainda maior quando a relagdo 6
entire o que ganham e o que poderiam
ganhar se a inquestionAvel genialidade
de Eliezer Batista tivesse uma marca
mais nossa do que dos compradores
dos nossos produtos. Se ndo tivesse um
travo colonial.


8 Journal Pessoal JUNHO DE 2010. 1* QUINZENA








A estrela do sabio brilha agora no c6u do Brasil


O paraense Benedito Jos6 Viana da
Costa Nunes, aos 80 anos, ganhou o prin-
cipal dos sete grandes pr8mios que aAca-
demia Paraense de Letras distribui todos
os anos. Foi o Machado de Assis de 2010,
pelo conjunto da obra. Desde que essa
premiaqCo comegou a ser conferida, em
1941 (mas s6 a partir de 1998 passou a
ser pelo conjunto da obra), 6 a primeira
vez que um escritor paraense 6 lembra-
do. Nao hi honraria igual no mundo das
letras: al6m de um busto de Machado,
Benedito Nunes terd direito a 100 mil re-
ais. Os outros seis premiados (por g8ne-
ros literdrios ou academicos) receberdo a
metade, R$ 50 mil, cada. As dltimas pre-
miacqes foram dadas a autores como
Autran Dourado, Ferreira Gullar, Wilson
Martins e Femando Sabino.
O conjunto da obra de Benedito 6 tio
vasto e diversificado quanto os titulos a
que se referiu o portal da APL ao comu-
nicar a decisao da comissio de seleqao,
formada por Eduardo Portella, Tarcisio
Padilha, Lygia Fagundes Telles, Alfredo
Bosi e Dominio Proenga Filho. O pro-
fessor em6rito da Universidade Federal
do Pard foi citado como critic literario,
professor, ensaista e fil6sofo, combina-
qao rara no Brasil. Mas o 6nico diploma
que Benedito recebeu foi o do curso de
direito, que concluiu em 1953.
Chegou a ter um escrit6rio de advo-
cacia, em sociedade com o escritor
Haroldo Maranhao, mas por curtissima
temporada e sem maior empenho. O
diploma serviu-lhe para obter emprego
como auditor do Tribunal de Contas do
Estado. Garantiu-lhe seguranqa e dig-
nidade para se dedicar ao que o inte-
ressou por inteiro desde a meninice, sem
defender de circunstincias locais: ler e
escrever al6m de ouvir m6sica, apre-
ciar obras de arte e outras atividades
do espirito.
O conjunto da obra abrange mais
de 15 livros individuals, participagco em
numerosas obras coletivas, infindaveis
colaborag6es em revistas e jornais,
al6m de palestras e confer8ncias que,
em sua maioria, ficaram sem o regis-
tro impresso. Nao conhego uma bibli-
ografia complete do que Benedito Nu-
nes jA escreveu, tarefa que a Acade-
mia Brasileira de Letras podia se pro-
por a realizar, complementando em alto
estilo o reconhecimento conferido ao
intellectual paraense.


Os mem-
bros da co-'T
missao, ao jS! .
examinarem a L' .
obra de Benedi- \ ," '
to, identificaram-no **,, ,*.
como "um estudioso ca-
paz de construir pontes entire a interpre-
tago do texto literario e a sondagem fi-
los6fica, no caso fenomenol6gico, na li-
nha dos grandes pensadores existenci-
ais, como o alemdo Martin Heidegger e
o francs Jean-Paul Sartre. Essa dupla
dimensao ja aparece em seu estudo an-
tol6gico, obrapioneira publicada em 1966,
sobre a obra de Clarice Lispector, 'O
drama da linguagem, uma leitura de Cla-
rice Lispector'".
O prazer, que a leitura sempre deu a
Benedito, ele nos transferiu, sem estar
preso nem a disciplines nem a autores
ou escolas, muito menos a bitolas for-
mais. E o prazer do texto, como agora
se repete A exaustao d'apres Umberto
Eco. O excess de leituras e o confina-
mento freqiiente no universe das id6ias
podiam ter transformado Benedito num
personagem de papel, agrilhoando-o ao
formalismo da cultural. Sua humanidade
e simplicidade, dois traqos da sua sabe-
doria, devem ter alguma relaqgo com o
fato de que, desde cedo, esteve cercado
por mulheres amorosas.
6rfao de pai na primeira idade, da fi-
gura masculina ficaram os livros da bibli-
oteca que herdou. Dialogou com o pai atra-
v6s dos pap6is impressos, na busca dessa
matriz inconsciente, que se distanciou e se
dissipou no tempo. Mas as cinco tias e a


i mae,
sempre
Sao seu redor, o fize-
ram descer ao mundo real,
no qual elas o introduziram com
todo carinho. Trataram de fazer sua
vida ser normal, natural, como mais um
ser human, nao a grande cabega que
desde cedo se desenvolveu nele.
Por sorte, Benedito teve em seguida a
companhia de Maria Sylvia, que conheceu
em 1948, ambos estudantes de direito, e
com quem casaria cinco anos depois, ao
se former, estabelecendo um elo perfeito.
inquebrantivel. E a cunhada, a pioneira
Angelita Silva, primeira engenheira do Par,
ponto de equilibrio na mansdo da rua da
Estrela, deturpadapara Mariz e Barros pela
burocracia insensivel da terra.
Dois domingos atrAs fui at6 aquele oa-
sis de verdura e paz, agora cercado de
concrete por todos os lados, numa cami-
nhada matinal, tao precoce que nao me
atrevi a tocar a campainha e me anunciar
para um abraoo no intellectual paraense que
a academia consagrou como o mais im-
portante entire os dois s6culos, o que se
findou e o que ainda comeaa. Deixo o al6
aqui, orgulhoso e feliz, j sem a freqiincia
do passado, destituido que fui do dominio
da minha agenda, impedido de fazer o que
gosto mais vezes para permanecer livre e
dizendo o que precisa ser dito.
Sei, por6m, que 80 anos nada signifi-
cam para Benedito Nunes. Sua inteligen-
cia 6 viva, fresca e solar como a de um
adolescent. Seu conhecimento, de um
sibio. Desta vez, a Academia Brasileira
de Letras acertou.


JUNHO DE 2010 1 QUINZENA Jornal Pessoal 9








0 melhor violonista do Para e do Brasil


"Este 6 Sebastiao Tapaj6s, que toca
violao como um viciado". A apresenta-
9go foi feita, no inicio da d6cada de 70,
do s6culo passado, por ningu6m menos
do que Baden Powell, um dos maiores
violonistas e compositores do Brasil. Ele
tinha acabado de conhecer o artist,
rec6m-chegado de Bel6m do ParA ao
Rio, onde passaria a morar, mas nao
teve divida na sua avaliaqao. Sebasti-
ao estava chegando aos 30 anos com a
autoridade que lhe conferia o reconhe-
cimento entusiasmado dos que o ouvi-
am, mesmo pela primeira vez.
Nao havia ddvida: elejA era um gran-
de violonista, al6m de compositor. Viria
a ser maior ainda, dos mais importantes
em atuagao no mundo todo. Uma das
maiores gl6rias do Baixo Amazonas,
partilhada entire Alenquer e Santar6m,
que o viram nascer e crescer.
Mas quem nao 6 alertado para essa
relevancia dificilmente a descobrird se
cruzar com Sebastiao. O desconheci-
mento, por6m, durard pouco. Bastard o
primeiro acorde para qualquer pessoa
dotada de minima sensibilidade musical
ter plena consci8ncia do valor do ins-
trumentista. A apresentacgo sera uma
questdo de tempo, muito pouco: Sebas-
tiao esti sempre agarrado ao seu vio-
lao, em qualquer circunstancia, at6 dor-
mindo numa rede, conforme jA foi fla-
grado vArias vezes.
Mal abriu os olhos e ja dedilhava
acordes. O violao 6 parte do seu corpo,
numa afinidade rara, complete, natural.
Ele 6 tdo musical que os sons fluem
pelos seus dedos como se ele os inven-
tasse sem parar e sem a possibilidade
de esgotar a fonte.
Mas os brasileiros, os paraenses e
mesmo os santarenos conhecem pouco
- se conhecem um artist admirado
por todo mundo, sobretudo na Europa,
em especial na Alemanha. Seria um
paradoxo. Afinal, em qualquer reuniio
no Brasil logo aparece algu6m com um
violao para animar e provocar os de-
mais. O pais 6 musical e cultiva o vio-
lao. Mas superficialmente, nao em pro-
fundidade. E mais como um instrumen-
to para acompanhar o personagem im-
portante, o cantor.
O instrumentista 6 pouco valorizado
no nosso pais: "os brasileiros nao reco-
nhecem a execugqo da guitarra como


sendo uma arte", lamentou Sebastiao
certa vez. Nao surpreende que ele se
tenha tornado muito mais conhecido no
exterior. Em 1978 perpetrou a faganha
de representar a Alemanha, como con-
vidado daquele pais, no Festival Inter-
nacional de Miisica promovido pela
Holanda, com transmissio pela TV para
toda a Europa.
A grande lacuna que existe de co-
nhecimento sobre Sebastiao Tapaj6s
esti agora preenchida com o recent
lancamento de Razdo da Minha Vida,
livro de 259 piginas, com tiragem mui-
to limitada, que Cristovam Sena editou
e foi publicado pelo Instituto Cultural
Boanerges Sena, com o patrocinio de
Carlos Max Tonini. O livro 6 uma mon-
tagem que teve por base dezenas de
recortes dejornais e revistas, cataloga-
dos pelo pr6prio Sebastiao entire 1961 e
2009, al6m de cartas e documents.
Sebastiao Tapaj6s nasceu em 16 de
abril de 1943, dentro de um barco que
navegava pelo rio Tapaj6s, indo de Alen-
quer para Santar6m, a oito horas do
destino da viagem. Na verdade, a em-
barcagdo ainda estava no rio Surubiu
quando ele veio ao mundo, mas o Tapa-
j6s acabaria por levar a fama. Por cau-
sa dessa situaq o, o Tapaj6s se incor-
porou ao seu nome de batismo, Sebasti-
do Pena Marcido, corn tal simbiose que
nunca mais se desgarrou dele.
Seu primeiro contato corn o violio foi
atrav6s do pai, dono de um armaz6m de
secos e molhados e de uma plantag~o
de juta, que tocava e cantava para o fi-
Iho pequeno acordes de cantigas, quase
todos os fins de tarde. Comeqou a tocar
instrument aos 9 anos de idade. Foi
quando o violao que o pai e os seus em-
pregados tocavam se abriu, por causa do
tempo de uso e da temperature, e Se-
bastiao decidiu conserta-lo e, de fato,
o consertou. Ainda garoto, ji tocava qua-
se todo o repert6rio de Dilermando Reis,
um violonista muito famoso na 6poca.
Em Santar6m sempre foi autodida-
ta, mas ji tocava clAssicos "de ouvido",
por sua intuiqao musical (que ele diz j
existir quando estava no 6tero de sua
mae e a ouvia cantar) e criara algumas
composicqes (hoje, tem mais de 300
composicoes gravadas).
Ficou na cidade at6 os 16 anos, sem
fazer uma viagem sequer para fora,


quando se mudou para Bel6m cor o
convite para integrar o conjunto musi-
cal de estudantes Os Mocorongos, diri-
gido pelo professor Gelmirez Mello e
Silva, que foi considerado "o melhor
conjunto mel6dico" do Pard em 1961.
Combinava musica popular, executa-
da com Os Mocorongos, e mdsica clAs-
sica, nos seus espetfculos solos, com a
mesma flu8ncia e naturalidade e virtu-
osismo. Fez um concerto s6 de mdsica
clAssica em Bel6m, quando tinha 17 anos.
mas admite que "foi uma coisa empirica,
porque eu nao tinha carga te6rica sufici-
ente". S6 entao passou a ter professo-
res. Aprendeu teoria musical a principio
com o mestre Drago e, a seguir, com os
professors Ribamar e TAcito.
Em julho de 1963 fez um curso in-
tensivo de t6cnica violonista, como alu-
no de Othon Salleros, "que o conside-
rou uma das raras sensibilidades na arte
segoviana". Passou cinco anos tocan-
do apenas cl6ssicos, mas, com incur-
s6es escondidas A bossa nova, acabou
por descobrir "o ponto ideal do meu tra-
balho: misturar tudo o que havia dentro
de mim". Estava pronto para uma car-
reira sem igual na arte do violao.
Claro: esqueceu de vez o diploma de
contador, obtido na ji extinta Escola
T6cnica de Com6rcio Fenix Caixeiral
Paraense. Ao contrario da maioria dos
artists, conseguiu concluir um curso em
outra profissao, mas nunca a exerceu.
"A dnica coisa que sei de contar sao
hist6rias", costumava brincar. Mas sua
sexta esposa foi uma contadora, nasci-
da em Santa Catarina.
Nesse period ja usava um violao
modelo Seg6via fabricado pela Del-Vel-
chio, de Sao Paulo, que lhe foi doado
pelo entao reitor da Universidade Fe-
deral do Para, Jos6 da Silveira Neto,
uma das autoridades que mais o apoiou.
O talent de Sebastiao se impunha
de imediato aqueles que davam valor
as artes. Teve 45 minutes para se apre-
sentar na TV Marajoara, a primeira
emissora de televisao do norte do pais,
algo impensivel no Brasil de hoje. Logo
que ele se apresentou, o maestro Wal-
demar Henrique previu-lhe "um future
brilhante".
Foi durante uma apresenta go que
fez no consulado de Portugal em Be-
16m, em 1964, provocando entusiasmo


10 Jornal Pessoal JUNHO DE 2010. 19QUINZENA








na plat6ia, que Ihe foi oferecida uma
bolsa de estudos junto ao Conservat6-
rio Nacional de Mdsica de Lisboa, pelo
qual se graduou e se tornou concertis-
ta. Ganhou outra bolsajunto ao Institu-
to de Cultura Hispanica em seguida.
Em setembro de 1966 foi chamado
para se apresentar numa convengco de
m6dicos realizada no Teatro da Paz.
Bastaram cinco mdsicas para que um
americano o convidasse para ir aos Es-
tados Unidos. Ele foi, mas nao chegou
a se exibir. A direq~o do Conservat6rio
Carlos Gomes, onde dava aula de piano
clAssico, o convocou a retornar. E Se-
bastiao nunca mais voltou aos EUA.
Com apenas 22 anos foi considerado
"o maior de todos os violonistas clAssi-
cos do Brasil". Seu album "Guitarra La-
tina" foi considerado "o melhor disco es-
trangeiro de 1978" pela critica especi-
alizada alemi.
Em 1972 participou de uma excur-
sao A Alemanha na companhia de artis-


tas como Paulinho da Viola e Maria


Bethania. Os dois tiveram quase
todo o desgaste que na volta lhes
deu a imprensa brasileira. Mas
Tiao foi "o dnico a trazer no bol-
so contrato para vinte concertos
no pr6ximo ano, da Alemanha a
Israel, al6m da gravag~ o de outros
discos", registrou Mister Eco, crn-
tico de music e
colunista








da Ultima Hora, do Rio de Janeiro.
Em 1995, quando tinha gravado 49 dis-
cos, apenas 15 deles safram no Brasil.
Numa entrevista desse ano ele admitiu
que tinha uma certa migoa pelo tratamen-
to recebido em seu pais: "a valorizacqo Ia


.saN


fora 6 incomparavelmente maior". Hoje,
tem mais de 80 discos. Ainda assim Se-
bastido Tapaj6s se firmou como o maior
violonista do Brasil. Com uma fama in-
temacional que nao se deve a favors ou
exageros, mas ao seu talent.


Luiz Salgado: o grande jornalista a moda antiga


Luiz Salgado Ribeiro faz questao de
assumir: 6 um jornalista "A moda anti-
ga". Deu esse subtitulo ao seu primeiro
livro, Andanfas (Primavera Editora, 317
paginas, Sao Paulo, 2010). Ojornalista
A antiga precisa ver com os pr6prios
olhos aquilo sobre o qual vai escrever.
Precisa escrever, mesmo quando Ihe
vedem o acesso aos dados. Tem que ir
buscA-los mesmo que eles estejam em
locais distantes, isolados, hostis. E em
1A chegando, de l1 tem que voltar o mais
rapido que a checagem permitir sem-
pre trazendo farto material para desen-
volver na reportagem.
Pelo relato de tantas e tao diversifi-
cadas andancas, nao hA dtvida que Sal-
gado 6 um exemplar da esp6cie, talvez
ameaada de extinqao. Ele reconstitui as
aventuras que viveu para cumprir pau-
tas recebidas, ou para descobri-las (de
plano estabelecido ou por improvisaq.o),
com todas as minicias de quem realmen-
te viu, meninos. Vai e volta a fontes em
came e osso, nao apenas ao Google ou a
assessorias de imprensa. Peitou autori-
dades, nao se deixou abater por dificul-
dades e, quando tudo parecia perdido, fez
da paciencia e da persistencia as armas
para realizar seus objetivos.
Quem conhecesse Luiz Salgado no
inicio da d6cada de 70, quando ele as-


sumiu e deu forma A Ag8ncia Estado,
do journal O Estado de S. Paulo, podia
toma-lo por um interiorano contumaz
(da altissonante Pindamonhangaba)
dado A burocracia, condenado a se en-
quadrar num canto espremido de um
escaninho administrative. Nada mais do
que falsa aparencia. Com seu jeito ma-
nhoso de capiau, Salgado sempre se
comportou como um bravo, um cava-
dor, disposto a tomar na unha todo e
qualquer desafio.
Nunca deixou de ser um paulista do
interior, corn o umbigo solidamente en-
terrado em Pinda. Mas se metamorfo-
seou em amazonense, paraense, ma-
togrossense e brasiliense com uma fa-
cilidade notivel, por total osmose.
Quando tinha tudo para emendar a
carreira at6 a gl6ria final como presti-
giado reporter especial do Estadao,
largou tudo para fazer um journal de oito
paginas, impresso numa precAria off-
set portAtil, no leste de Mato Grosso.
Estava ligado a um projeto particu-
lar de colonizaq~o que nao deu certo,
arrastando consigo a publicaqAo, mas
a orientava por crit6rios jornalisticos.
Os mesmos crit6rios que Ihe permiti-
ram passar por empress privadas e
governor sem macula, mesmo quando
ao lado do nada carismAtico conterra-


neo, Geraldo Alckmin. Salgado nao 6
s6 pessoa maravilhosa: 6 um cidadio
decent e um professional honest. Por
isso relata suas andanqas sem segre-
do nem pejo. Hist6rias que se enredam
umas nas outras at6 que chegamos ao
fim do livro.
Ele servira de boa inspiraqdo para
todos osjornalistas, a moda antiga ou
atual. Talvez estes, descobrindo como
se faziam as grandes reportagens de
anos atras, hoje tidas como impossi-
veis ou inviaveis, force a barra para
poder contar com suporte pelo menos
parecido. Antigamente, no tempo de
Salgado, os rep6rteres recebiam ver-
ba para longas e demoradas viagens,
se necessarias para a reuniao das me-
Ihores e mais completes informag6es
sobre o tema ou a questio em foco.
Depois, outro tempo para preparar o
copiHo e, a partir dele, o texto final,
vivo, dinamico, vibrant, que podia ser
lido por paginas e paginas com prazer
e proveito. Como a grande reporta-
gem que Salgado escreveu sobre sua
hist6ria neste livro. Ele vale por todos
os manuais disponiveis nos curriculos
dos cursos de comunicagdo social. E
muito mais. Porque ensina o que 6, nao
o que nao se sabe se sera ou como
vai ser.


JUNHO DE 2010 12 QUINZENA Jornal Pessoal 1 1


*>









Jose Ramos Tinhorao, jornalista e historiador


Jos6 Ramos Tinhorao tem duas me-
recidas famas. Sempre foi considerado
um dos mais lfmpidos textos do joralis-
mo brasileiro. Seu trabalho como copy,
que reescreve mat6rias dos outros, tem
exemplos antol6gicos, de manual. E tam-
b6m um dos jornalistas que mais escre-
veu livros do Brasil: aos 82 anos, soma
28, editados no Brasil e em Portugal.
Varios deles resultaram de longas e pro-
fundas pesquisas, que s6 agora osjorna-
listas-escritores fazem com mais fre-
qiiencia. Tomaram-se indispensAveis fon-
tes de refer8ncia sobre a hist6ria da
mdsica brasileira. Mas tamb6m contem
algumas das mais desastradas avaliag6es
sobre compositores, instrumentistas e
cantores, aqueles ndo se enquadram nas
exig8ncias e gostos de Tinhorao. Para
ele, a bossa nova, a mdsica brasileira de
maior sucesso interacional, 6 lixo.
Personagem tdo pol8mico acaba de
ganhar uma biografia, escrita pela tam-
bm jornalista paulista Elizabeth Loren-
zotti: 6 Tinhordo, o legenddrio (Im-
prensa Oficial do Estado de S. Paulo,
277 pAginas), na coleg~o Imprensa em
Pauta. A carreira jornalistica de Tinho-
rao, como autor de legends, titulos,
"olhos", reportagens, colunas e textos
finals (a partir de originals de terceiros),
merece o aposto do titulo: 6 legendiria
mesmo. Na trajet6ria de quase 60 anos
como jornalista, esteve nas principals
reda96es da imprensa brasileira ejus-
tamente nos seus melhores moments.
Comecou no joralismo ainda estu-
dante, em 1951, na Revista da Sema-
na. Dois anos depois, um pouco antes
de se former em joralismo (e tamb6m
direito) pela famosa Faculdade Nacio-
nal de Filosofia do Rio de Janeiro, foi
contratado pelo Didrio Carioca, cria-
do em 1928 e que, at6 o final da d6cada
de 50, "reuniu uma das mais brilhantes
equipes de jomalistas do Rio de Janei-
ro". Depois foi para outro marco da
imprensa brasileira, que sucederia o DC
em prestigio, o Jornal do Brasil, da
condessa Pereira Carneiro (e de Nas-
cimento Brito), e o Correio da Manhd
em 1963. Passou em seguida por emis-
soras de radio, televised, jomais e re-


vistas. Mas hoje, diz Elizabeth, foi bani-
do das grandes redacges.
Comegou a escrever livros em 1966
e nunca mais parou, dedicando-se a eles
cada vez mais tempo e atencgo. Tinha
entire 10 e 12 anos quando comegou a
se interessar por mtsica popular, segun-
do a bi6grafa, mas s6 comecou a es-
crever sobre o tema quando, ja com 32
anos, foi instigado por Reynaldo Jardim,
criador e editor do famoso Caderno B
do Jornal do Brasil. Uma s6rie de
mat6rias sobre ojazz iria chegar ao fim
e o poeta-editor pediu que Tinhordo
emendasse uma s6rie sobre o samba.
"O escritor fez de Tinhorio um ere-
mita da cultural brasileira", atesta Beth.
Ele se queixa: "Quando fiz a Hist6ria
Social da MPB, a primeira ediqao foi
portuguesa, apesar de ser m6sica brasi-
leira. Outro que nunca saiu no Brasil, As
origens da cangdo urbana; e mais Fado
Danca no Brasil, cantar de Lisboa e
outros. E assim foi". Seus livros levam de
seis a oito anos para se esgotar. Musica
popular, um tema em debate 6 o livro de
maior popularidade: ja teve cinco edicges,
o que 6 pouco para publicag9o com mais
de tres d6cadas nas estantes. No entan-
to, o pr6prio Tinhorao chegou a computer
2.945 citagoes de seus livros, artigos em
peri6dicos, documents impresses e ma-
nuscritos. E muito citado por acad8micos
de outros pauses, principalmente ingleses
e americanos.
"Uma de suas broncas 6 n~o ter o
reconhecimento dos intelectuais acade-
micos", diz a bi6grafa. Apesar de serjor-
nalista e advogado, ter p6s-graduagao em
Hist6ria Social pela Universidade de Sdo
Paulo, em 1999. Rejeita associar essa
bronca a migoa, inveja ou frustragao.
Acha que 6 a manifestaaio de "certa
mis6ria intellectual" no Brasil.
Embora o leiam e o usem, em virtu-
de do rico material que apresenta em
seus livros, os acad8micos, citam-no
pouco. Temem a concorr8ncia ou ad-
mitir a pr6pria insuficiencia, apesar de
todos os titulos que carregam. "Eu de-
sencavei uma bibliografia que os outros,
na burocracia academica, nao foram
procurar", garante Tinhorio.


Quando os acad8micos o citam. nio
6 como pesquisador ou historiador, mas
comojoralista. S6 em 2008 ele foi tema
da primeira dissertaqgo de mestrado no
meio acad8mico, defendida por Lufza
Maranhao na Universidade Federal Flu-
minense. Tinhorao prefer definir-se
como "um historiador de cultural urbana
com interesse primordialmente dirigido
ao fen8meno da criacqo de mdsica da
cidade, moderamente chamada mdsi-
ca popular". Talvez esteja, sem querer,
sacramentando o preconceito contra o
jornalista, que s6 6 reconhecido pela
academia quando agrega um tftulo "mais
legitimo" a sua profissao, que os inte-
lectuais consideram de categoria inferi-
or, sem confiabilidade.
A capacidade que Tinhorao ter para
a pesquisa obrigou os academicos a ter
que engoli-lo, mas 6 grande o questio-
namento quando ele sai da reconstitui-
gqo dos fatos, da busca pelas origens
das manifestaq6es atuais, e da opinion
sobre mdsica. Chega a desclassificar
Tom Jobim como plagiador e ironiza
Jodo Gilberto. Tudo que nao Ihe recen-
de a pureza, As raizes populares, 6 sus-
peito, quando nao sem valor. Diz adotar
o materialismo dial6tico como m6todo
de anilise. Mas 6 muito materialista e
pouco dial6tico. Rigido e esquemitico.
Nao destituido de preconceitos. Nas
entrevistas A autora, por exemplo, nao
cita o nome da primeira mulher, com
quem esteve casado por 16 anos e de
quem se separou em 1979. Talvez por
ser "muito burguesa". Como a bossa
nova, provavelmente. Jos6 Ramos Ti-
nhorao 6 um excelente taxonomista, mas
jamais sua botAnica chegaria A visAo de
um Darwin.
Devemos ser gratos e reconhecidos
ao seu herctleo trabalho de coleta de
material, uma arqueologia que resultou
num valioso acervo, formado por mais
de 12 mil discos, que foram lanqados
desde o inicio do s6culo passado, 35 mil
partituras, milhares de livros e documen-
tos raros, que transferiu (atrav6s de um
"acordo razoavel") para o Instituto
Moreira Salles. E o melhor de Tinho-
rao, agora ao alcance de todos.


Jomal Pessoal
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