Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00344

Full Text



MAIO
DE 2010

A Aornal Pessoal

A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO


*
*
0


ELERTAO


Quem da mais?

Jader Barbalho mais uma vez surpreende as vesperas da oficializagdo das candidaturas
majoritdrias a eleigdo de outubro. 0 langamento de Domingos Juvenil pode ser a
repetigao do esquema anterior dos "laranjas ". Mas pode ser tambemo rompimento
definitive com o PT 0 que ndo melhora em nada a triste perspective para o Pard.


ra2006 Jader Barbalho mudou
ubitamente o cenArio eleitoral ao
qLanqar a candidatura do deputa-
do federal Jos6 Priante ao governor pelo
PMDB. 0 efeito da decisdo foi garan-
tir a passage da entdo senadora Ana
Julia Carepa, do PT, ao segundo turn
e sua vit6ria sobre Almir Gabriel, do
PSDB, no confront final. Inconforma-
do, o ex-governador atribuiu grande
parte da sua derrota A in6rcia do seu
successor, correligionario e amigo Simo
Jatene. "Corn a mAquina piblica na
mao, govemador s6 perde eleiqao se qui-
ser". sentenciou Almir.


Em 2010 Jader Barbalho repetiu a
dose. Quando todos profetizavam a re-
composigao da alianqa do PMDB corn o
PT, ele surpreendeu nao s6 apresentando
um candidate pr6prio como escolhendo
um nome que nao se enquadra tao har-
moniosamente no modelo do "laranja",
como foram, sem dtivida, alguns postu-
lantes peemedebistas ao govemo do Es-
tado ou a outro cargo majoritario. Embo-
ra alguns continue insistindo em que Ja-
der apenas preparou seu pr6ximo lance,
que seria apoiar a govemadora jA no 1
tumo (indicando seu companheiro de cha-
pa) ou aumentando seu preqo para aderir


no 2 turno, parece mais provivel que, des-
ta vez, seu maior objetivo 6 enfrentar para
valer o antigo aliado e derrotA-lo.
De fato, considerando suas ultimas
votaq6es, o deputado estadual Domingos
Juvenil nao teria credenciais para susten-
tar seu nome como alternative real ao
governor contra Ana Julia. Mas, no exer-
cicio da presid8ncia do poder legislative e
usufruindo at6 a v6spera do inesperado
andncio como o peemedebista mais pr6-
ximo da govemadora, ele lanqou bases
municipalistas mais fortes para referen-
dar sua escolha. Seu comportamento era
COiiNA NA FAG ii


0I. ALUMINIO JA ERA?


N, 465
ANO XXII
AS 3) 00


0


I


I _^A-G.


0 JUIZ SUSPEITO





CONTmUNCAO DACAAPA'
um dos mais s61lidos indicios do restabele-
cimento da alianqa PT-PMDB. Quase
todos os dias 0 Liberal se referia a ele
como dissidente peemedebista, que ja es-
taria sendo tratado como traidor pelos cor-
religiondrios e que perdera a confianqa do
manda-chuva do partido.
Diante dessa interpretaqao, 6 16gico
deduzir que se ele foi ungido por Jader 6
porque sua candidatura 6 uma farsa, umrn
biombo atrav6s do qual logo petistas e
peemedebistas estarao juntos. E uma hi-
p6tse convincente. Mas hA outra inter-
pretacao e, atrav6s dela, Jader ter pre-
parado uma armadilha para o PT e a exe-
cutado corn a competencia das velhas
raposas polifticas. Na esperanqa de vol-
tar a ter seu apoio, o governor cedeu-lhe
todos os an6is, cedendo favors, dentre
os quais o maior foi a redistribuiqco en-
tre as prefeituras do empr6stimo de 366
milh6es de reais, antes sob o control do
govemo do Estado, que s6 foi aprovado
quando essa emenda foi aceita pelos pe-
tistas. Depois de terem recebido patru-
thas mecanizadas, os prefeitos vao ter
dinheiro vivo As v6speras do infcio da cam-
panha official. Quem lhes deu esse pre-
sente? 0 PMDB, seu lider, Parsifal Pon-
tes, e o president da Assembl6ia Legis-
lativa, Domingos Juvenil.
Os que acreditam na tese do "laran-
ja" apostam que logo o PMDB perderS
parte substantial se nao a maior part
- dos seus 41 prefeitos, quando a miqui-
na official comegar a funcional corn toda
plenitude, e Ana Jdlia voltara a se fortale-
cer, enquanto seu novo oponente se en-
fraquecerA. E uma hip6tese remota. Se o
PT nao liberal o dinheiro ou se adotar qual-
quer media de retaliaqdo, se desgastarA
ainda mais. Por onde vai, a govemadora
6 acompanhada por hostilidades e vaias,
que provocam incidents, como os que
ocorreram em Bel6m (na inauguragqo do
primeiro trevo da cidade) e em Barcare-
na. Ela 6 a mais rejeitada de todos os pr6-
candidatos, incluindo Jader Barbalho.
Algu6m cre que ele se langaria a essa
aventura sem pensa-la e planejA-la ha
bastante tempo, tomando todas as caute-
las possiveis? Certamente nao teve a de-
saprovacgo do president Lula e da sua
candidate, Dilma Rousseff. Lula nunca
morreu de amores por Ana Jdlia e ela 6
uma desconhecida para Dilma. Os petis-
tas nacionais gostariam de reeleger a sua
governadora, mas nem pensam em per-
der o apoio de Jader. Se houve o entendi-
mento pr6vio, estdo preparados para en-


golir sua dissidencia, se ela se materiali-
zar, e se contentar com os dois palanques
para Dilma no Para. Sem falar em dis-
creta ajuda para a campanha do candida-
to do PMDB.
Jader tamb6m deve ter tornado sua
decisdo corn base em pesquisas, que ele
nunca deixa de fazer (e esconder). Sabe
do risco a que estA exposto apoiando um
nome tao desgastado quanto o de Domin-
gos Juvenil, que devolve o PMDB aos
seus quadros mais sofriveis. No entanto.
a altemativa da candidatura do pr6prio
Jader ao governor era risco maior. E a de
Priante ficou como reserve. Corn todos
os desgastes que ele terA a partir da ofici-
alizacqo da sua postulaqao de volta ao Se-
nado, dos males, 6 o menor (inclusive para
composiq6es no 2 turno, sem descar-
tar o PT). HA 13 anos ele consegue ser
inimigo pdblico national e ao mesmo tem-
po um dos 100 parlamentares mais influ-
entes no Congresso. 0 que diz muito so-
bre a condiqAo 6tica e moral do pafs sob o
imp6rio de tucanos e petistas.

0 enorme desgaste do PT
no exericico do governor no
Para foi o factor fundamental
para a estratgia pela qual
Jader acabou optando. HA mui-
to tempo nao se via um govemante para-
ense se estiolar tanto quanto a governa-
dora Ana Jdlia Carepa. Em menos de um
mes ela fez duas visits a Jader. Os dois
moram no mesmo condominio de classes
md&ia alta, o Cristal Ville. Na primeira apa-
ricqo, a govemadora chegou de surpresa,
mas acompanhada pelo deputado federal
Paulo Rocha, o principal interlocutor de
Jader no PT e com quem ele teria umrn
acordo para preencher as duas vagas do
Senado que estarao em dispute em outu-
bro. A govemadora receava nao ser re-
cebida, depois de tentar inutilmente con-
tato telef6nico com o president regional
do PMDB. Paulo Rocha funcionou de
abre-portas.
Para fazer a segunda visit, depois que
a primeira se revelou infrutifera, Ana Ju-
lia ligou antes e, desta vez, foi atendida.
Foi, falou e saiu do encontro com o mes-
mo fruto: promessas. Jader ouviu muito,
falou pouco e apenas se comprometeu a
reavaliar a nova oferta junto com seus
correligionarios. A proposta nada tinha de
novo. Pelo contrario: era uma volta ao inf-
cio das tentativas de entendimento entire
o PT e o PMDB para a recomposi~go da
alianqa vitoriosa em 2006. Os peemede-
bistas indicariam o candidate a vice-go-


vemador e Jader teria todo apoio para sua
empreitada de retomo ao Senado.
S6 que entire o comeqo das negocia-
q6es e o estado da arte quando da segun-
da visit da govemadora ao politico que
seus companheiros de partido tanto ata-
cam, a situaqdo mudou muito. Os petistas
tentaram se livrar dos seus aliados putati-
vos na presungqo de que a popularidade
de Lula e a mAquina do Estado seriam
suficientes para a reeleigqo da govema-
dora. 0 PMDB foi tratado a pau e Agua e
os "luas pretas" de Ana Jilia (sedimenta-
dos no tal "nucleo duro do govemo") se
esbaldaram em tratamento depreciativo
e prontuArios A parte desdenhoso ao
politico que, individualmente, e dono do
maior curral de votos no Pard. Jader en-
goliu em seco, mas nao deglutiu.
Preocupado em caiar sua ma image
public e em atuar nos bastidores, prefe-
riu ignorar as provocaq6es. Mas nao con-
seguiu ser indiferente a todas. Nao mais
quando 0 Liberal reproduziu e reper-
cutiu mat6ria da ediqao da revista Veja.
que apontou Jader como um dos "fichas
sujas" salvos pelas oportunas mudanqas
no texto original da lei. que tentava banir
da dispute eleitoral pessoas processadas
judicialmente. A resposta do ex-govema-
dor foi sua mais violent manifestaqdo em
muitos anos, terminando com uma frase
surpreendente (ou chocante, para quem
sempre reagiu corn frieza): "A inveja 6
uma merda".
Atribuiu as mat6rias A sua posigqo na
dispute eleitoral, que obrigaria seus inimi-
gos "a esconder pesquisas contratadas a
peso de ouro, que apontam meu nome
como favorite do eleitor paraense". Con-
trariados e desesperados, recorreriam A
caldnia para atacA-lo. atribuindo-lhe inver-
dades: "Eles sabem quejamais fui conde-
nado, em nenhuma instancia, portanto, nao
me enquadro nos chamados Fichas Sujas,".
Jader disse que Veja comeqou "sua
campanha contra mim porque Antonio
Carlos Magalhles assim o queria e deve
ter pago bem alto por isso". Quanto a 0
Liberal, "seus dirigentes nao gostam de
mim porque nunca me curvei a chanta-
gens. Nao lhes dei as muletas financeiras
do govemo. sem as quais nao andam".
Garantiu que, no govemo tucano, "0
Liberal recebia mais de 40 milh6es em
publicidade, todos os meses. Por isso o
jomal foi contra a eleiqao de Ana Jdlia".
Lembrou que a manchete dojomal no dia
do 2 tumo da eleiqao foi: "Almir Gabriel
x Ana Jdlia: Almir cresce!". E que Almir
foi derrotado por 300 mil votos.


2 Journal Pessoal MAIO DE 2010. 2 OQUINZENA






Lamentou que o govemo Ana Jdlia
"nao teve coragem de processar 0 Libe-
ral, que recebia por mrs 500 mil reais
para usar o equipamento de transmission
da Funtelpa para levar sua programaqao
a todo o Pard. E o dnico caso, no mundo,
em que o dono da casa paga para o inqui-
lino usar o seu bern".
0 ex-govemador disse na sua nota que
essas calinias nao o abalardo. Quase disse
que voltaria a ser candidate a governador
(mas tambem podia ser a senador e a
deputado federal, hip6teses altemativas
que nao reduziriam o fmpeto dos seus ini-
migos cativos): "0 povo do Pard viven-
ciou as minhas administraq6es e 6 por isso
que estou present na mente e no cora-
gqo da populaqco mais pobre. Aesse povo
que sempre demonstrou seu bem querer,
que confia em mim, que me prestigia 6
que eu dedico a minha vida. E pelo povo
do meu Para que atuo na vida ptblica".
A nota pdblica foi seguida por mat6-
ria do Didrio do Pard relembrando que
o grupo Liberal nao 6 inocente nem ne6-
fito em mat6ria de saque aos cofres pd-
blicos. Durante 10 anos entiree 1997 e
2006, sob os governor de Almir Gabriel
e Simdo Jatene) a TV Liberal recebeu
da Funtelpa (Fundagqo de Telecomuni-
cag6es do Pard) 37 milh6es de reais,
valor atualizado para R$ 70 milh6es, se-
gundo o journal (quase R4 600 mil por
mes), atrav6s de uma relagqo inusitada,
para dizer o minimo.
A Funtelpa cedeu suas 78 torres es-
palhadas pelo interior do Estado para
transmitir o sinal da Liberal, afiliada A
Rede Globo de Televisao. S6 que, ao
inv6s de receber por esse serviqo, pa-
gava por prestd-lo, algo que nem Franz
Kafka entenderia. A pretexto de dar
uma aparencia de normalidade A ope-
ragqo tucano-maiorana, a TV Liberal
cedia inserq6es na sua programacqo ao
governor do Estado. 0 pr6prio Jader
Barbalho chegou a se aproveitar dessa
cliusula em seu segundo mandate
(1991-1995), mas nessa 6poca a rela-
cqo, iniciada na administragqo Aloysio
Chaves (1975-1979), se fazia atrav6s
de contrato e era o grupo de comunica-
gqo que pagava, embora pouco.
Para escapar A concorrencia pdblica,
o governor Almir Gabriel assinou um con-
venio com a TV Liberal, contrariando as
normas legais, ji que a emissora de tele-
visdo 6 uma empresa commercial, que visa
o lucro, e a Funtelpa, no. "Nao se trata
de um ajuste de interesses convergentes,
mas de contraposigqo de interesses", ob-


servou a Auditoria Geral do Estado, ji na
gestdo Ana Julia, em 2007. Al6m disso, o
falso convEnio foi aditado 14 vezes, ultra-
passando o prazo e o valor legal. Por isso,
o govemo do PT o denunciou e cancelou
as transferencias. Mas nao ajuizou as
aq6es necessarias para apurar o crime de
improbidade administrative nem ressarcir
os cofres p6blicos dos valores ilegalmen-
te transferidos.
A litigAncia entire os dois grupos nao
6 apenas conseqijuncia de dispute co-
mercial ou de rivalidade pessoal. A es-
ses dois components se acresce a di-
mensao polfitica. Os Maiorana passaram
a apoiar a governadora a partir do mo-
mento em que a recomposigqo da alian-
qa PT/PMDB parecia inviabilizada. E
tamb6m em fungqo da farta publicidade
official para os veiculos da "casa". 0
entrechoque dos dois imperios de comu-
nicaqao 6 mais um element complica-
dor a interferir sobre os acertos pura-
mente (ou impuramente) politicos.

E um dado a eonsiderar
nas annUses quando elas se
circunserevem as agremia-
m6es political e seu universe
restrito. Depois de fazer campanha
didria contra Duciomar Costa, subitamen-
te, como de seu estilo, o grupo Liberal pas-
sou a tratA-lo melhor, quase como se ti-
vesse voltado a ser o parceiro de pouco
tempo antes. 0 retomo da publicidade da
prefeitura de Bel6m nao foi fator casual
para essa mutacqo, mas tamb6m pesou a
tend8ncia de o PTB manter a alianqa corn
o PR, vitoriosa na eleigqo municipal de
2008 na capital, e seguir por uma terceira
(ou quarta) via, entire o PT de Ana Jdlia e
o PSDB de Simdo Jatene. Ou. o que se-
ria ainda melhor (e por isso tern sido cita-
do como a tend8ncia mais provivel nas
piginas de 0 Liberal), compor com o PT.
deslocando o PMDB do poder estadual.
Duciomar e Romulo Maiorana Junior con-
versaram a respeito.
Se essa possibilidade estivesse real-
mente em cogitaqao pela governadora,
como explicar que ela se humilhe, cu-
bra-se de boa vontade e vd A casa de
Jader Barbalho, depois de pedir para ser
recebida? Estaria praticando um jogo
duplo tao arriscado assim, sujeitando-se
a perder de vez um apoio que 6 vital para
as suas perspectives de continuar no
cargo por mais quatro anos?
Os politicos mais experiences do Pari
jA sabem que cultivar a simpatia do grupo
Liberal 6 important para nao se desgas-


tar. Os Maiorana estao dispostos a usar
todas as armas contra os que nao se sub-
metem aos seus caprichos, o que, de cer-
ta forma, Jader Barbalho fez (ele nunca
subiu at6 o gabinete do cap do imp6rio
para o ato de beija-mdo, mesmo quando
estava no trono o Romulo pai. com poder
muito superior ao do filho, que s6 o exce-
de em presungqo de poder). Mas esses
politicos tambem nao ignoram que 0 Li-
beral nao 6 fator decisive para uma elei-
qao. Do contrrio, seus candidates sem-
pre ganhariam, o que nao aconteceu na
maioria das vezes em que os Maiorana
da segunda geracgo se lanqaram A cam-
panha. Com uma impetuosidade que nun-
ca foi a caracteristica do pai: Romulo sem-
pre procurou compor interesses. Foi essa
sua attitude na ditima eleicqo da qual par-
ticipou (a de 1982), apoiando explicita-
mente o candidate do regime military, o em-
presario Oziel Carneiro, mas dando su-
porte nos bastidores ao seu oponente, que
o derrotaria, Jader Barbalho. Iria repetir
a estrat6gia em 1987, mas morreu antes.
Nem o mais cego dos observadores
da cena paraense pode negar que sem a
companhia do PMDB o PT nao teria ven-
cido em 2006. De 1a para ca a posigqo
peemedebista e especificamente a de
Jader se fortaleceu um pouco mais, en-
quanto os petistas se desgastaram no exer-
cicio do poder. Logo, se Jader ficar fora,
a situaqno de Ana Jdlia, que ji nao 6 boa,
se tomarA p6ssima. 0 tao comentado
acerto "por baixo dos panos" entire Jader
e Jatene, se real, poderia ser fatal para o
projeto da reeleigqo. Mas o tuxaua do
PMDB parece ter apostado mais alto:
quem sabe o partido, que tem sido mero
figurante nas 61timas eleiq6es para o go-
verno, nao poderA voltar ao trono?
Claro que as altemativas nao sdo me-
canicas e muito menos automiticas. Hii
outros fatores no meio de campo. como
as finanqas para uma campanha milio-
nAria, o uso da mAquina pdblica, o apoio
de Lula, o palanque de Dilma, a decisdo
que a coligagqo PTB-PR vier a tomar e
a pr6pria imprensa, dentre outros itens.
Mas sao elements cujo peso depende-
ri da decisao que tomarem os principals
personagens da arena. At6 agora, eles
mais escondem do que revelam o que
pretended fazer. Mas ji estao fazendo.
A parte a sagacidade e argdicia do que
bolaram, o resultado 6 muito ruim para o
Para, tendo que decidir entire os candi-
datos que se oferecem ao voto do elei-
tor. Todos eles negros como um gato em
teto de zinco quente.


MAIO DE 2010 2 OQUINZENA Jornal Pessoal 3







0 juiz das Chagas ataca novamente


Em julho do ano passado, o juiz da
4' vara civel de Bel6m, Raimundo das
Chagas Filho, me condenou a pagar 30
mil reais, acrescidos de honordrios ad-
vocaticios e as cominaq5es legais (que
devem acrescer em pelo menos mais
R$ 10 mil o valor inicial), como indeni-
zacqo por dano moral que teria causa-
do a Ronaldo Maiorana e Romulo Mai-
orana Junior, por artigo publicado neste
Jornal Pessoal.
0 juiz tamb6m concede aos auto-
res da acqo de indenizacqo duas tutelas
inibit6rias: a publicagqo da carta-respos-
ta dos donos do grupo Liberal, carta
essa jamais juntada aos autos, e a proi-
bigqo de voltar a me referir a ambos e
a seu pai, Romulo Maiorana, sob pena
de desobediencia e multa.
Diante do conteddo da sentenqa con-
denat6ria, ji comentada neste journal na
6poca, arguf a suspeicao do julgador em
23 de julho do ano passado. Raimundo
das Chagas nao aceitou a argiiiqdo, re-
metendo os autos do process a apre-
ciaqdo superior, onde foi instrufdo. Res-
pondendo ao pedido de informaq6es
formulado pela corregedora metropoli-
tana de justiga, desembargadora Eliana
Daher Abufaiad, no dia 24 de novem-
bro do amo passado, ojuiz contestou os
arguments da exceqdo de suspeigqo.
Alegou, dentre outros pontos:
"Toda critical e inconformismo defla-
grado [sic] pelo reclamante contra a
respeitAvel sentenqa de m6rito exarada
nos autos da aqAo ordinAria serve ape-
nas de fundamento para um eventual
recurso de apelagqo".
Em 4 de dezembro do ano passado
a corregedora decidiu pela rejeigqo da
suspeicqo. Recorri para o tribunal da de-
cisAo, que foi mantida pelo colegiado.
Dessa decisdo nao cabe mais qualquer
forma de recurso. Tendo sido publica-
da na edigqo do DiArio da Justiqa do dia
7 de maio, no dia 13 apelei da sentenqa
condenat6ria. Esse recurso era para
mim nao uma eventualidade, como ale-
gou o magistrado, com certa ironia, mas
uma imposiq~o da defesa dos meus di-
reitos e por ser de justiga.
No dia 19, ojuiz Raimundo das Cha-
gas Filho, que havia sustentado sua ha-
bilitagqo e idoneidade perante mim e,
em seguida, diante da corregedoria de
justiga, voltou atris. Declarou-se sus-
peito por motivo de foro intimo para "jul-


gar e processar o presen- .
te feito, com arrimo no art. o
135, pardgrafo uinico, do
C6digo de Processo Civil".
Justificou o magistra-
do sua surpreendente ati-
tude pela minha suposta
"irresignagqo", que teria
surgido "por conta da
prolafdo da sentence de
mdrito exarada neste
process judicial extra-
polou as vias impugna-
tivas enveredando para
ataque pessoal a este
magistrado por meio de
blog na internet, abaixo assinado
subscrito por seus simpatizantes,
critics several a sentence, atd mes-
mo reclamaCdo no CNJ e na Corre-
gedoria de Justica".
Foi de pasmar: depois de ter rejeita-
do o incident de suspeiqao e de ter
combatido as razfes que apresentei,
nessa manifestagqo novamente usando
de terms duros contra mim, o juiz se
sentiu atingido em seu foro intimo e vol-
tou atrAs na deliberaqAo anterior. Mu-
dou porque foi criticado de piblico, viu
manifestaq6es de desagravo ao jorna-
lista por si condenado e ate foi objeto
de questionamentos junto ao CNJ e A
Corregedoria de Justiqa do Estado,
como se tais manifestagqes e iniciati-
vas nao fizessem parte do estado natu-
ral de coisas numa democracia e nao
fossem recursos facultados ao cidaddo
no ordenamento legal vigente no pafs.
Queria o juiz que o r6u sentenciado
aceitasse passivamente a condenaqAo
e at6, eventualmente, abrisse mo do
recurso de apelacgo para cumprir a
pena estabelecida. de indenizaqco no
valor de R$ 30 mil, acrescido de outras
tarifag6es, que fulminaria de morte seu
pequeno e pobre Jornal Pessoal, que
o magistrado, com escimio, qualificou
de rico na sua sentenga?
Desde o infcio da propositura da
malfadada aq~o de indenizacgo pelos
irmdos Maiorana, o que mais tenho fei-
to 6 defender meus direitos, repelir a
manobra ignominiosa, denunciar a inten-
gqo oculta por tris da busca da tutela
jurisdicional e sair em busca da verda-
de e da justiqa. Para tanto lancei mao
dos recursos que me sao deferidos pela
regulamentaqdo da vida piiblica no pafs,


de forma decidida, mas nos terms das
normas existentes.
Ao refazer o caminho que percor-
reu desde a suscitagqo de sua suspei-
qao, por evidenciar interesse pessoal na
causa, o juiz da 4' vara civel declarou-
se agora suspeito "para processar o pre-
sente feito", justamente quando nao tem
maisjurisdigqo sobre a questao; exata-
mente quando sua derradeira fungdo 6
apenas a de mandar subir o process.
para o reexame na instancia superior.
Nada hA mais a processar e julgar.
Trata-se de um mero ato do expedien-
te, de rotina: abrir vistas A outra parte,
verificar a exacqo dos atos processuais
e mandar para a reapreciagqo da sen-
tenqa, que seu autor defended com con-
vicqao e entusiasmo at6 alegar o foro
intimo e provocar um incident desca-
bido. 0 incident tem o condo de lan-
gar suspeiqao sobre tudo que ele prati-
cou nos autos. Mas jA sem qualquer
efeito pratico.
Para que? Para procrastinar a ins-
truqao processual? Para predispor o jul-
gador na instancia superior contra o
r6u, que provocou o incident de sus-
peiqgo? Para dar ainda mais tempo As
contra-raz6es da outra parte, que, em
regra, nao tem a presteza que tem me
caracterizado em todos os processes.
parte adversa em 14 aq6es que os ir-
mios Maiorana propuseram contra
mim desde que um deles, Ronaldo
Maiorana, me agrediu fisicamente, em
21 de janeiro de 2005?


4 Jornal Pessoal MAIO DE 2010 2 QUINZENA







Aluminio: verticalizar

onde mesmo, cara-palida?


Ao contrArio do que pensam os "es-
trategistas paraenses", a venda das em-
presas de alumina e alumfnio de Barca-
rena e da jazida de bauxita de Parago-
minas A Norsk Hydro (ver Jornal Pes-
soal no 464) nao vai impedir a verticali-
zado do aluminio. Acontecera exatamen-
te o inverso, proclamou Roger Agnelli,
president da antiga Companhia Vale do
Rio Doce, em entrevista exclusive a 0
Liberal, no dia 22. A mat6ria, como todo
o noticidrio do journal jidivulgado sobre a
questAo, limita-se a repassar a resposta
de Agnelli, urn dos maiores anunciantes
da folha dos Maiorana, a esses "estrate-
gistas" (quais seriam, ningu6m sabe: o
tema foi pouco noticiado na mfdia e qua-
se nenhuma repercussdo teve na opiniAo
pdblica, apesar da sua relevancia, pro-
vocando apenas um discurso do deputa-
do Zenaldo Coutinho do PSDB, no ple-
nArio da Camara Federal).
Ele tern toda razao e nenhuma. A
produglo de aluminio da Albris, que
estancou em 460 mil toneladas hi vi-
rios anos, deverA crescer. Mas 6 pou-
co provAvel que isso venha a ocorrer
no Pari ou mesmo no territ6rio brasi-
leiro. Talvez a Albris at6 venha a ser
fechada, conforme uma das especula-
96es surgidas depois da transagqo corn
a empresa norueguesa. 0 motivo po-
deria ser o que Agnelli apontou: o alto
custo da energia.
Ele disse que a Albris, consumindo
800 megawatts de energia (6 a maior
consumidora individual do Brasil), paga
A Eletronortre 45 d61ares por MW. E 20%
mais do que a tarifa maxima prevista
para a hidrel6trica de Belo Monte. A
conta de energia da Albris, que compra


L. Para voltar a critical o r6u, embo-
ra a destempo e atabalhoadamente,
num excess inadmissivel, a revelar o
despreparo ou o desequilibrio do jul-
gador? E at6 desapreqo pela pr6pria
obra, ao chamar o Jornal Pessoal de
Jornal Popular, uma ofensa a mere-
cer a devida aqdo de reparagdo pelo
dano moral, causado por quern nao
sabe distinguirjoio de trigo, alhos de
bugalhos. Nao 6 attitude de verdadei-
ro magistrado.


um grande bloco (uma vez e meia mais
energia do que toda Bel6m), seria de US$
26 milh6es ao mes (mais de US$ 310
milh6es ao ano). 0 custo da energia te-
ria o peso de US$ 675 em cada tonelada
de lingote produzida pela fibrica. Signi-
fica que o preqo de venda teria que ul-
trapassar US$ 2 mil por tonelada para
ser rentAvel, o que nao estaria aconte-
cendo, embora, desde novembro do ano
passado, o preqo do aluminio experiment
recuperaqo no mercado international,
voltando a superar esse patamar.
Em outros lugares a energia esti
mais barata. A Norsk Hydro, por exem-
plo, teria 12 hidrel6tricas ociosas espa-
lhadas pelo mundo, em condiq6es de
serem ativadas para produzir aluminio
- mas nao, evidentemente, em Barca-
rena. A nova proprietaria podia manter
a fAbrica paraense apenas por uma
questao political e estrat6gica, ou para
tender aos japoneses, que ficam corn
49% da producgo, em funcgo de sua
participagqo societAria (mas podem
faz8-lo atrav6s de outra unidade, bas-
tando garantir quantidade e preqo con-
tratuais). A Norsk poderia tamb6m abrir
mao da produq o de metal no Pari,
como jA vem fazendo na pr6pria Noru-
ega, desativando producqo que 6 one-
rada pelo peso da energia.
Ainda mais se vierem a ter proce-
dencia as verses de que Dilma Rous-
seff, se eleita sucessora de Lula, pro-
moveria uma reestatizaqdo em alguns
stores da economic brasileira, incluin-
do o metalirgico. Esta teria sido uma
das motivaq6es da Vale para se desfa-
zer de toda a area do aluminio. Esses
boatos podem tamb6m nao passar de


Nao 6 do meu conhecimento se al-
gum juiz j declarou sua suspeigio por
motivo de foro fntimo, depois de a ter
recusado por duas vezes (quando o in-
cidente foi suscitado e ao prestar in-
formaqces A Corregedoria sobre o
procedimento disciplinary e quando o
moment processual jA 6 o da apela-
gqo, de desvinculaqAo do julgador do
process. Seria de interesse para os
anais do judici.rio paraense saber se
trata-se de acontecimento in6dito ou


balao de ensaio ou manobra diversio-
nista diante da realidade de que, inde-
pendentemente de suas motivaq6es, a
transacqo, no valor global de quase US$
5 bilh6es, significa uma involucgo no
process produtivo brasileiro, ou, mais
especificamente, paraense.
A verticalizaqao, que antes existia (ou
era tentada) em territ6rio estadual, agora
vai se realizar intemacionalmente. 0 Para
atuarA apenas ou com maior 8nfase, se
a Albris for preservada nas etapas an-
teriores, de producqo de bauxita e de alu-
mina, em escalas crescentes. A Norsk
Hydro dispora de uma das maiores jazi-
das do min6rio que hi, em Paragominas,
e corn direitos de saque em outra, a do
Trombetas, que poderao chegar a 45%
do total (ela jA tern 5% e poderi contar
corn os 40% da Vale, que nao Ihe pode
transferir essas aqoes por norma contra-
tual, mas pode Ihe repassar o min6rio).
Assim, teri algo como 15 milh6es de to-
neladas de bauxita, o suficiente para su-
prir integralmente a Alunorte, a maior fi-
brica de alumina do mundo. Agora pode-
ri desenvolver ao lado dela outra fabrica
do mesmo porte, a Companhia de Alumi-
na do Pard (CAP), que a Vale tamb6m
vendeu A Dubala (Dubai Aluminium), em-
presa dos Emirados Arabes Unidos, que
pretend se tornar a maior produtora de
aluminio do mundo.
Nessa verticalizaqao, o Pard funci-
onard como escada para projetar bem
mais long a multinational norueguesa,
agora corn 22% de suas aq6es em po-
der da multinational brasileira, que ird
faturar financeiramente sem se envol-
ver com as quest6es de produqao. Me-
lhor para ela, pior para n6s.


nao. Corn a palavra, advogados e ser-
ventuArios da justiga.
Mas 6 fato suficiente extravagan-
te e suspeito para provocar minha re-
clamagqo junto A Corregedoria Me-
tropolitana de Justiga, a fim de que
avalie a queixa e, atrav6s da instau-
ragqo de process disciplinary adminis-
trativo, apure se o juiz Raimundo das
Chagas Filho cometeu grave erro de
oficio e infraqio disciplinary. Se ajus-
tiqa aprova o que ele fez.


MAIO DE 2010 2 QUINZENA Jornal Pessoal 5






Walter Rodrigues, journalists


No dia 18 de maio morreu, em Sdo Luiz, aos 61
anos, um dos maiores jornalistas paraenses. Tdo
grande e tdo raro que sua competincia
transbordou da terra natal para o Estado vizinho. A
vida de Walter Rodrigues se dividiu ao meio entire o
Pard e o Maranhdo. Atuou corn a mesma competencia
de um lado e do outro da divisa, em torno da qual
costumam ser cultivadas diferenCas, desentendimentos e
incompreensdes mrtuas.
Walter foi o paraense que mais bem se ajustou ao
novo cendrio, corn o qual passou a ter tal intimidade
que se tornou referencia necessdria. Ningudm
entenderd o Maranhdo contempordneo sem passar
pelos seus textos. 0 Pard que passou ficou em algumas
das materias que Walter criou, quando pelo lado de cd
gorjeava, corn seu texto limpo, sua ironia fina e seu
sarcasmo cortante, arrasador. Merecia um final mais 4
altura dos seus mdritos e do que produziu, patrimonio
que se valorizard na media do tempo, pelo simples
fato de ndo ter substitute. 0 lugar que Walter
Rodrigues ocupou e, de certa forma, criou para si -
era unico. Ficou vago.
Embora fossem de pura iconoclastia algumas das
caracteristicas da sua personalidade, Walter ndo foi
um dado aleatdrio no jornalismo. Ele deixaria sua
marca e faria o que fez em qualquer lugar e em
qualquer epoca porque ndo lhe faltavam qualidades
absolutamente pessoais e intransferiveis. Mas sua
presenga mais forte no jornalismo se explica por
determinado context, que comeCou a se delinear em
1973, na redaCdo de 0 Estado de S. Paulo.
Foi quando o responsdvel pelo journal, JAlio
Mesquita Neto, avalizou um projeto que lhe apresentei,
de criar uma sucursal amazonica, corn sede em Belim e
ramificaCOes por toda AmazOnia Legal. Grafas ao


suporte de Raul Martins Bastos. coloquei o que havia
de melhor no jornalismo em cada Estado da regido.
Esses correspondents passariam a ter vinculaado
professional corn o Estadao (que ndo havia ate entdo: o
servigo era realizado por "colaboradores"), ganhariam
saldrios melhores do que os locais e teriam o apoio do
journal mais influence do pais. Alrm de generoso
espaCo para publicar seus despachos sobre )
a abertura (e fechamento e destruiVdo)
da fronteira amazOnica.
0 laborat6rio para essa equipe foi o
Bandeira 3. semandrio em format
tabl6ide, corn 24 pdginas, que lancei em
Belim. em janeiro de 1975. Ld estava a
future equipe do Estadao (e, depois, de
outras publica6des, como Veja): Walter. T\
Raimundo Costa, Elson Martins,
Guilherme Augusto Pereira, Raimundo
Josi Pinto e mais outros nomes que se
destacariam em outros escaninhos
jornalisticos. co Paulo Roberto Ferreira,
Nlio Palheta e Regina Alves.
Quando o B3 acabou e o projeto de
grande cobertura amazOnico foi se
apequenando. consegui colocar Raimundo
Costa em Sdo Luiz. 0 Maranhdo passou a ser
tratado tambdm como parte da Amazdnia e a se
desligar do mandonismo dos corondis. Walter foi o
successor natural quando Raimundo se transferiu para
a sucursal de Brasilia, em 1976.
O Estadio ndo conseguiria ningudm melhor para posto
tdo dificil. Seu correspondent enfrentava temas dridos,
questoes graves e todo tipo de armadilhas, saindo-se ileso.
Suas interpretaides e opinides podiam provocar celeuma,
mas ndo a base factual sobre a qual se edificavam nem a


L cio FlAvio Pinto 6 o maior jor-
nalista do ParA e um dos melho-
res do Brasil. Antes que algu6m
no Pari discorde, esclareqo que saf de
Belnm ha 30 anos e tenho menos que
uma vaga id6ia de quem sao os expo-
entes das novas geraq6es paraenses,
incluindo essa gente que escreve na In-
ternet e pouco a pouco arrebenta para
sempre corn a reserve de mercado dos
profissionais. Pode ser que um ou outro
escreva melhor, ou raciocine corn mais
sensatez ou fareje melhor uma boa no-
ticia. No conjunto, duvido muito. Mas
nao discuto.
Meu juizo se refere ao papel social
do jornalista, tema de palestra que re-
centemente proferi (verbo empolado e
detestivel) em Imperatriz, a convite do
campus local da UFMA (Universidade
Federal do Maranhao). Licio 6 o me-


6 Jornal Pessoal MAIO DE 2010


Ihor nao somente por suas qualidades
pessoais, que s6 meia ddzia de desafe-
tos seria capaz de negar, entire elas
a condition sine qua non da honestida-
de professional, mas, sobretudo, porque
exerce essas qualidades de forma soci-
almente mais dtil que qualquer outro.
Sua principal trincheira 6 o
quinzenArio Jornal Pessoal, uma esp&-
cie de Colunio mais antigo e mais radi-
cal na concepcao, pois vive exclusiva-
mente da venda avulsa necessariamente
limitada, nao aceita aniincio nem pdbli-
co nem privado, nao estA disponivel na
Internet e nao oferece quase nenhum
atrativo grAfico. Chega a ser at6 maqu-
do, As vezes, e s6 nao 6 mais porque o
editor de arte L. A. de Faria Pinto, ir-
mio do editor chefe (este iltimo tam-
bdm reporter. copidesque e revisor ape-
nas um pouco melhor que o das iltimas


ediqces do Colundo de papel. al6m de
gerente administrative e da distribui-
qgo), ameniza a paisagem com charges,
caricaturas e outros desenhos.
At6 nos titulos L6cio FlAvio parece
pouco empenhado em seduzir leitores.
"HA democracia no Brasil?", pergunta
um. "Salvar o antigo cinema", recomen-
da outro. "Retrato da realidade". desen-
coraja um terceiro. "Uma cidade para
ver (e viver)", generaliza outro mais.
Tudo isso na edicao mais recent, n 410.
Temas exclusivos
Mas veja s6 que mat6rias, que
assuntos.
Logo na capa, "Jornais, vendas em
queda", uma anAlise bern informada
corn ataque moderado e responsivel e
por isso mais certeiro aos dois princi-
pais matutinos da cidade, o de Jader
Barbalho, Didrio do Pard, atual lider


2 QUINZENA








le dois mundos desavindos


lisura do procedimento. Em reconhecimento, a empresa
paulista mobilizou urna UTI area quando Walter sofreu o
primeiro enfarte, providencia que lhe salvou a vida.
Mas 0 Estado de S. Paulo jd estava em outra. Ndo
tinha mais compromisso com a verdade na Amazonia.
Eu sai e fiz o Jornal Pessoal. Tempos depois Walter fez
quase o mesmo, ndo numa publicaCdo
independent, o que lhe deve ter sido
impossivel nas circunstancias maranhenses:
o Colundo surgiu como suplemento
dominical do Jornal Pequeno, corn uma
liberdade rara nesse tipo de associagdo.
Tdo inusual que a relaCdo acabou se
rompendo e Walter para manter sua voz,
recorreu ao blog.
Nunca deixei de ser seu leitor Era
atraves dele que bem me informava sobre o
que acontecia num local tdo important e
interessante para n6s do Pard (e do Brasil).
Mesmo quando algum localismo escapava
ao meu interesse especifico, o prazer ndo
diminufa. A prosa de Walter era uma das
melhores da imprensa brasileira. Nunca
entediava. Sempre iluminava. Sabia
manejar as ideias tdo bem quanto a lingua.
E sua mem6ria era uma arma formiddvel.
Uma combinaado que permit aos seus textos passar da
pdgina de journal para o livro sem qualquer prejuizo.
Ano apds ano cobrei-lhe o livro que s6 ele podia
escrever sobre as mais de tr&s dicadas como
testemunha privilegiada dos acontecimentos
maranhenses. Walter ajudou terceiros a realizar essa
tarefa, enquanto adiava a sua, talvez pelo rigor da sua
apreciaCdo critical. Certamente agora haverd quern
penetre na montanha de textos que ele deixou para


extrair-lhes o fio condutor e assim reconstituir o que
aconteceu nesse period na terra espoliada por elites
tdo ou mais predat6rias do que as paraenses.
0 melhor e mais exclusive de Walter d a
compreensdo dos processes politicos. Ele conhecia os
poderosos pelo nome, por contato pessoal, por
histdrias intimas. Suspeito que perdeu muita energia
corn essa geldia geral infirtil, mas a tentagdo de
desnudar falsos Catoes e Ciceros de araque o tenha
impedido de se livrar dessa craca aderente.
Faltou um pouco mais de atengdo e concentragdo
na parte economic e produtiva do Maranhao. no
colonizador no elo entire os dois enclaves, que
dispersam suas forCas digladiando-se pelo que,
imaginando ser butim, ndo passa de restos do
banquet, o boi que se atira as piranhas para que a
manada cruze inc6lume as fronteiras nacionais. Mas
entendo o atrativo dessa hist6ria pelo fato de que a
misdria political maranhense j maior do que a
paraense, se tal cometimento d possivel. Corn sua verve,
seu rigor e sua visdo ampla, Walter Rodrigues
estabeleceu uma cabeCa-de-ponte em defesa da
verdade num territdrio minado pela mentira e a
sordidez. S6 isso lhe garante a perenidade da hist6ria.
Quero aqui dar uma pequena contribuiCgo a essa
memdria reproduzindo o texto que Walter escreveu
quando lhe mandei o livro Contra o Poder, que registrou
os 20 anos do Jornal Pessoal, em 2007, e que, por um
pudor descalibrado, ndo reproduzi na epoca. Nao hd
mais esse pudor agora porque, falando de mim, Walter
Rodrigues tambdm falou de si e do mundo que nos
uniu, nos forjou e nos explica, a nds e a muitos mais
que participam da mesma caminhada.
Segue-se a resenha de Walter. Corn minha Idgrima
mais sentida.


de vendagem, e 0 Liberal, da familiar
Maiorana, que durante mais de 20 anos,
talvez iludida pelo pr6prio sobrenome,
sup6s-se imbativel. Um pelo outro, en-
tretanto, 6 quase a mesma coisa, em-
bora nenhum dos dois baixe ao nfvel,
digamos, do atual govemismo caipira
do Journal Pequeno. que 6 assim uma
esp6cie de Estado do Maranhdo de
ceroulas. Ou de canibal comendo corn
a mdo onde o outro comia de garfo e
faca e com muito mais proveito.
A mat6ria do JP de Ldcio Flivio fala
de vendagens declinantes (ambivalente
fen6meno national), de fraudes que ji
enrolaram at6 o IVC (Instituto Verifi-
cador de Circulagao), de "ziguezagues
editorials" que acompanham as conve-
niencias pessoais e comerciais dos do-
nos da mfdia, da torpe exploraqAo da
desgraga dos fracos.


Detenho-me num trecho: "J. esti na
hora de o Ministdrio Pdblico do Estado,
como defensor dos direitos difusos da
sociedade. chamar os jomais para um
Termo de Ajuste de Conduta. Por que
essas fotos escandalosas [de caddve-
res furados, queimados, estraCalha-
dos e esbugalhados] sdo apenas de
pessoas pobres? Os pobres nao tem di-
reito A preservagco de suas imagens,
ou essa prerrogativa 6 exclusive de grd-
finos e socialites, que nunca viram "pre-
suntos" [viram do verbo virar, estd
claro, ndo do verbo ver, que a morte
j socialista?
0 leitor do Colunao certamente re-
conhece af a cobranqa habitual ao Mi-
nist6rio Publico do Maranhao, nao exa-
tamente a mesma, que meu otimismo
nao chega a tanto. mas alguma coisa
que se aparenta A sugestao de que o


MP-MA (e a OAB) deveriam coibir
abusos na mfdia contra menores e viti-
mas de viol8ncia sexual. Ou de atrope-
lamentos, que a tradigqo 6 ficar por isso
mesmo, seja o homicide ao volante um
vereador, um ex-presidente da OAB, a
esposa de um ex-prefeito, um ex-presi-
dente do Banco do Estado ou um jo-
vem capitao do ramo imobilidrio para
citar somente os exemplos que me vern
A cabega agora.
Favelas e espig6es
"Uma cidade para ver (e viver)", ji
referido aqui, foi escrito originalmente
para L'Unitd, o velhojomal de Grams-
ci, ex-6rgdo official do Partido Comu-
nista Italiano. Fala da Beldm que sedia-
ri o F6rum Social Mundial em 2009,
uma cidade que ostenta "torres de con-
creto e vidro" de at6 40 andares, "re-
----- CONTnUvA NA PAG 8


M2 QUINZENA Jornal Pessoal 7


MAIO DE 2010 .








Para: terra sem lei


Dedicada ao show-bizz, a revista
Rolling Stone se tornou tamb6m um dos
melhores ancoradouros para boas re-
portagens, daquelas que nao economi-
zam papel para aprofundar a aborda-
gem de temas da atualidade. A revista
dedicou quatro pAginas da sua iltima
edigdo (44) ao Para, "Terra sem lei",
conforme o tftulo da reportagem. que
contraria de cara o mote da propagan-
da official do governor do Estado ("Pari:
Terra de Direitos").
0 texto de abertura da reportagem,
escrito por Carlos Juliano Barros, 6 a
sintese do conteddo: "Impunidade em
homicfdios cometidos no campo, de-
vastagao da floresta amaz6nica, tra-
balho escravo. Grilagem. No Pari, a
forte impressao de que a lei s6 funci-
ona para os poderosos se deve em
grande parte a quem deveria zelar por
ela: o poderjudicidrio".
Mais de uma pAgina da mat6ria abor-
da o meu caso, como exemplo de abuso
dajustiga, reconstituindo o epis6dio da
minha agressao, mais de cinco anos
atrAs. Como nao poderia deixar de ser,
al6m de ouvir o agredido, o reporter
entrevistou o agressor. Ronaldo Maio-
rana admite que errou, diz que assumiu
o erro perante a justiqa e quitou o d6bi-


to na forma de cestas basicas doadas a
entidades de caridade. Mas nao deixou-
de justificar seu erro "As minhas aq6es
sdo porque ele falou mal do meu pai e
falou mal da minha mae".
Ronaldo Maiorana disse aojornalis-
ta que eu tenho "que encarar com natu-
ralidade o fato de ser chamado A Justi-
9a, como acontece a qualquer respon-
s6vel por publicaqo jornalistica". JA
quanto ao fato de, mesmo como autor
das aq6es judiciais, nao comparecer As
audiencias, tentou fazer blague: "6 me-
lhor para ele, se ele diz que nao estou
indo. Isso jA faz tanto tempo. Para mim,
6 uma pagina virada, you tocar minha
vida. Se o juiz julgar contra mim, eu
acato. Se julgar a favor, tamb6m".
Vou tentar colocar a questdo defini-
tivamente em pratos limpos para que a
passage do tempo nao permit que as
mentiras de transformed em verdade.
Em nenhum dos meus textos sobre
o tema disse que Romulo Maiorana era
contrabandista. Escrevi que ele era tido
por contrabandista. Juntei aos autos
mat6rias da imprensa que assim o qua-
lificavam dessa maneira. Era assim tam-
b6m que aparecia nos assentamentos do
SNI, o Serviqo Nacional de Informaq6es
do regime military, o mesmo regime que


lhe concede um canal de televised, o
7, em Bel6m, em 1973, no governor do
general Ernesto Geisel. Mas para isso
ele teve que constituir uma empresa corn
"laranjas", todos eles seus funcionAri-
os, compromissados a devolver-lhe a
firma quando ele pudesse oficializar a
concessao em seu nome.

Os documents compro-
bat6rios de tudo isso tam-
b6m constam dos autos ju-
diciais e nao foram con-
testados. Incluindo depoimentos de
dois dos s6cios na firma de fachada, que
serviu de biombo para o surgimento da
TV Liberal. As minhas mat6rias nao
pretendiam reconstituir o passado de
Romulo vinculado ao contrabando. A
citaqao foi apenas lateral no que era o
interesse: explicar por que ele nao co-
locou a TV Liberal em seu pr6prio nome,
quando ganhou a concessio. um fato
estranho, s6 inteligivel pela circunstan-
cia referida.
No dia 21 de novembro de 2005, Ro-
naldo Maiorana disse A revista eletroni-
ca Comunique-se que se sentiu ofendi-
do "porque o Licioji chamou minha mAe
de p... e meu pai de contrabandista. Nao
posso ler isso e ficar calado".


co NTBWA4O A PAG 7--- *- -


corde no Norte e Nordeste", e, ao mes-
mo tempo, "a maior favela horizontal do
pais, com 100 mil habitantes mundo".
Adiante: "Mais de dois terqos da
economic urbana dependem de servi-
gos e do Governo .... Corn um rico sub-
solo, o Para 6 um minerador em escala
planetaria, principalmente de ferro, bau-
xita, alumina e aluminio .... E o sexto
maior exportador e o terceiro em saldo
de divisas. De cada 10 d61lares liquidos
que o Brasil recebe por suas divisas, 1
d61ar sai do Pard. Bel6m recolhe as
migalhas.... Sendo o segundo estado em
territ6rio e o nono em populaq~o, 6 o
16o em IDH (indice de Desenvolvimen-
to Humano) e o 23o em PIB per capital,
s6 A frente dos quatro estados nordesti-
nos mais pobres do Brasil".
Que distfncia da lengalenga do jor-
nalismo traditional do Para, onde os
ensaios de contestaqdo ao modelo
economica de enclave" quase sem-


pre escondem intenqces diversas do
interesse pdblico, como acontece
quando 0 Liberal de repente desco-
bre um defeito na Vale, para em se-
guida voltar a encobri-lo corn a mai-
or sem-cerim6nia...
Amor A verdade
Chego A tltima das oito pAginas ta-
manho offcio do JP do Pard. Um texto
sobre Vieira, outro sobre Simone de
Beauvoir, e uma grata surpresa: Rosa
Corr8a, vice-presidente da Sociedade
Paraense de Direitos Humanos
(SPDH), que acaba de completar 30
anos (como sua cong8nere do Mara-
nhbo), escreve para "prestar os primei-
ros esclarecimentos" acerca de questi-
onamento do jornalista relative As finan-
gas da entidade.
Ficamos sabendo que a SPDH re-
cebeu R$ 730 mil do Governo Federal
e mais R$ 124 mil do estadual, para
execuqAo local do Provita, program de


proteqao a testemunhas, vitimas e pes-
soas ameaqadas. E que tamb6m usa
verbas p6blicas num program chama-
do NAV, n6cleo de atendimento a viti-
mas de violencia. Nada mal para uma
ONG (Organizaqao Ndo-Governamen-
tal), que possivelmente ainda receba re-
cursos de fontes particulares nacionais
e estrangeiras.
Pense voc8 o que pensar a respeito
desse novo papel das sociedades de di-
reitos humans, acredite ou nao que
elas mantenham a eficiencia de outro-
ra no desempenho de sua atividade
precipua, o important af 6 a abertura
para o diAlogo, sempre um indicativo
de boa f6 e probidade. "Estamos orga-
nizando todas as informaqoes para re-
passar a este veiculo de comunicaao,
de alta respeitabilidade em nosso esta-
do, por obrigagqo, mas tamb6m pelo
grande amor que nossa entidade nutre
pela verdade".


8 Jornal Pessoal MAIO DE 2010 2' QUINZENA







sob os poderosos


Uma semana depois dessa declara-
qao interpelei judicialmente Ronaldo
para que ele fosse intimado a respon-
der a quatro questoes:
"1 Se deu a entrevista reproduzida
pelo site Comunique-se no iltimo dia
21 de novembro.
2 Se as declaraqces inseridas no
mesmo site correspondem ao que o re-
querido [Ronaldo] declarou.
3 Se, especialmente, foi dita pelo
requerente a seguinte frase:
'O Ldcio ji chamou minha mde de
p... e meu pai de contrabandista. Nao
posso ler isso e ficar calado'.
4 Em qual pigina e em qual edi-
gqo do Jornal Pessoal consta a afir-
mativa citada pelo requerido".
Era a oportunidade para Ronaldo
me desmascarar e iniciar um proce-
dimento contra mim, provando tudo
que disse, Como sempre aconteceu
em relaqao aos Maiorana, ele nao foi
encontrado. Em 24 de janeiro de 2006
o official de justiqa (assinatura ilegi-
vel) explicou que deixou de notificar
o director do grupo Liberal "por ter sido
informado, na portaria [do journal,
que serve de bunker aos patroes
quando procurados pela justifa],
que o mesmo encontra-se viajando



Magnificas palavras. Por obrigagqo.
pois quem maneja recursos pdblicos tem
o dever de faze-lo A luz do dia, aprovei-
tando cada oportunidade que Ihe surja de
exibir suas contas. E por amor a verdade,
que quem nao deve nao teme, e sente-se
at6 agradecido quando lhe convidam a
mostrar o que nunca desejou esconder.
Antes que voce me censure por nao
ter feito esse desafio A SMDH tare-
fa que ainda haverei de cumprir lem-
bre-se que aproveitei os 30 anos da en-
tidade para critici-la pela baixa efici-
encia na luta contra a tortura, tema de
igual ou maior relevancia que sua con-
tabilidade. A diferenqa 6 que ningu6m
me escreveu para dialogar, contestar ou
oferecer explicaqces, ainda que apenas
por amor ao tema ou A verdade. E que
nao basta a figure indispensAvel do jor-
nalista inquiridor, hi que ter a sorte de
encontrar quem Ihe respond.
Paixio e teimosia


para o Rio de Janeiro" (desculpa rein-
cidente em tais situaqGes).
Tres meses depois, outro official de
justiga, Carlos Augusto Barbosa, cer-
tificou que a advogada de Ronaldo, Pa-
tricia Santos, foi notificada "por todo o
conteddo do present mandado, a qual
ficou de tudo ciente". No entanto, con-
forme certidio de 26 de maio da dire-
tora de secretaria da 7a vara penal, por
onde tramitou a interpelaqao. Ronaldo
"nao apresentou explicaq6es". 0 pro-
cesso foi arquivado.

Ronaldo Maiorana devia
ter pejo e nunea mais vol-
tar ao assunto. Nao s6 por nao
ter provado coisa alguma do que insen-
satamente disse como para poupar de
constrangimentos sua mae. a quem tan-
to respeito e procuro preservar nessa
litigancia desarvorada dos Maiorana da
segunda geraqio. Ele tamb6m nao pode
dizer que se desligou dos processes, to-
dos criados por ele e seu irmao, Romu-
lo Maiorana Jdnior, virando a pAgina e
passando a tocar sua vida.
Os dois irmios podem se dar a este
luxo. Tem advogados para agir por
eles e poder para exerce-lo por con-
trole remoto, movendo personagens e



Licio FlAvio acaba de contar em li-
vro os 20 anos de Jornal Pessoal: uma
paixao amaz6nica, hist6ria e coletanea
sumiria de uma teimosia destinada a
morrer na adolescencia e que, entretan-
to, jA entrou no ano 21, a maioridade
absolute.
Sdo mais de 400 ediq6es (411, para
ser exato), intercaladas por breves pe-
riodos de desinimo em que anuncia a
pr6pria more, para dali a pouco renas-
cer das cinzas. Comega contando a his-
t6ria da reportagem que Ihe deu origem,
o assassinate do deputado Paulo Fonte-
les (PCdoB), abatido por um pistoleiro
de aluguel em 11/6/1987. Foram tres
meses de pesquisa, cujo resultado apre-
sentou em texto a Rosangela Maiora-
na, um dos sete herdeiros do patriarca
do Grupo Liberal, R6mulo Maiorana.
"Rosangela", lembra ojomalista, "leu
e ficou impressionada. Mas nao podia
publicar, me disse logo: a mat6ria dei-


procedimentos a distancia. Eu, r6u em
todas essas aqoes, tenho que me de-
fender como me permitemh meus par-
cos recursos e acompanhar pessoal-
mente sua tramitacqo, que vive a me
causar surpresas desagradAveis e des-
confortos. Os impulses que eles dio
prosperam mesmo quando o que os
move 6 a prepotencia e a arrogancia,
que se transformam em desprezo pela
justica quando qualificam de calnima,
a exigir reparagqo cfvel, eu ter dito que
fui espancado por Ronaldo, quando fui
"apenas" agredido. Ou se valem da
suposta defesa da mem6ria do pai
como ardil advocaticio para proper
novas aq6es contra mim.
Se Ronaldo Maiorana quer virar a
pagina e cuidar da sua vida. tern um
caminho: desistir dessas aq6es abusi-
vas, assim reveladas pelo conteddo
probat6rio dos autos e por sua attitude
de desrespeito A justiqa, faltando as
audiencias que sua condiqao de autor
Ihe impunha, se a causa fosse s6ria e
de direito. Como e que os Maiorana
conseguem ganhar mesmo destituidos
de razao? Ora, recorrendo a um po-
der que torna o Pard "terra sem lei".
conforme diz muito bern o titulo da re-
portagem de Rolling Stone.



xava em mi situaqdo dois dos homens
mais ricos do Para, al6m de grandes
anunciantes". Prontificou-se, entretan-
to, gente boa, a imprimir de graqa
o Jornal Pessoal que surgia naque-
le instant, de estalo desde que as
oficinas do Liberal nao fossem citadas
no expediente. Ldcio topou.
Ja na ediqao seguinte, por6m, nem
pagando ele obteve o mesmo acesso. A
principal reportagem tratava do desfal-
que de US$ 30 milh6es que o advogado
Augusto Barreira Pereira, director e pre-
sidente interino do Basa, aplicara A ins-
tituicqo. Barreira era tamb6m o director
juridico da Delta Publicidade, a editor
do Liberal.
Desde entao ji foram quatro ou cin-
co, ou mais, as oficinas que acolheram
e desacolheram o Jornal Pessoal. Ele
continue, noticiando e comentando o que
os outros nao podem, at6 mesmo por-
que nao querem.


2- QUINZENA Jornal Pessoal 9


MAIO DE 2010









MMORIA EmX (ciM'mrL


COUROS
Mourdo Ferreira Com6rcio e
Inddstria era proprietArio da
Sapataria Gurjio, na avenida
Portugal, e do Curtume Gur-
jao, na rua da Conceigqo
("margem do rio"). Fabricava
"vaquetas, nacos, bdfalo, peles
em geral, solas, raspa, correias
e couros dejacari". Tinha "de-
p6sito permanent de calgados
para homes, mulheres e cri-
angas; complete sortimento de
cabedais. solas e todos os arti-
gos concementes ao fabric de
calgados". Em 1954.

LADRAO
Era um inicio de noite em
1956 e ele chegou displicen-
temente A Confeitaria Aveni-
da, da firma Constantino &
Cia, no movimentado Largo
de Nazar6. Foi para o "reser-
vado" e a1 se trancou. Todos
os clients foram embora, os
funcionarios tamb6m, o esta-


belecimento encerrou suas
atividades e quando ndo ha-
via mais ningu6m o audacio-
so ladrdo saiu. Fez a f6ria:
levou varias latas de conser-
va, um par de sapatos novos
(que trocou pelos seus, ja ve-
Ihos), cigarros, bombons, e
ainda violou o cofre, tirando
o que l havia. Saiu tranquilo
(sem o trema, engolido pela
reform, a palavra agora anda
de muletas). 0 furto ainda
era risonho e franco.

ANIVERSARIO
Menino rico, filho do dono do
guaranA Soberano, Jaime Fer-
reira teve direito a uma das
mais longas "Notas Munda-
nas" da Folha do Norte, ao
fazer 15 anos, em 1956, apa-
recendo na fotografia devida-
mente engravatado. Dizia a
nota, no estilo da dpoca:
"Jaime complete hoje 15
anos, passando a figurar na


OS MORES DO

MJNDO IE0 A

MIMAPARAMM6


galeria dos jovens, ou dos
meninos-moqos, depois de
ter sido 'um dos dez garotos
notiveis da cidade', o atila-
dissimo Jaime, caqula do So-
lar Soberano e uma esp6cie
de Malazartes da inteligEn-
cia e da traquinagem.
E filho do industrial Hilario
Ferreira e de sua digna es-
posa, sra. Beni de Sousa fer-
reira, e forma corn o irmdo.
homonimo do pai, nao as
meninas, mas os 'meninos'
dos olhos do casal.
Nao fora o luto recent da
familiar, terfamos hoje, na aco-
Ihedora mansao da Siqueira
Mendes, em vez de uma reu-
nido intima, toda a espl8ndida
e ruidosa alegria com que Jai-
me bem merececia ver feste-
jado o advento das suas cal-
qas compridas".

HORA
Um dos principals meios de
comunicaqdo em Bel6m at6
a d6cada de 60 era a sirene
da Folha do Norte. Ela so-
ava extraordinariamente
quando havia algum aconte-
cimento important local,
national ou international a
divulgar. Quando isso ocor-
ria, logo os telefones do jor-
nal de Paulo Maranhdo eram
congestionados por interes-
sados em saber o que acon-
tecera. Ordinariamente, a si-
rene dava as horas. Em


1960, alguns leitores quise-
ram saber por que a hora da
Folha nao coincidia com a
de muitos rel6gios pdblicos.
Resposta do jomal: "a hora
das Folhas [incluindo a
Vespertina] 6 orientada por
cron6metro el6trico de alta
precisio. Recebe corda e da
o sinal de alarme, automati-
camente. E, portanto, rel6gio
de exatidio absolute, digno
da confianqa piblica". Ja os
outros...

INTELLECTUAL
O crftico, poeta e jornalista
piauiense (criado no Para)
MArio Faustino morreu, aos
32 anos, no acidente de um
Boeing 707 da Varig, que caiu
nos Andes peruanos, em no-
vembro de 1962. Iniciava vi-
agem a serviqo do Jornal do
Brasil para reportagens no
M6xico, Cuba e Estados
Unidos, inaugurando sua par-
ticipaqao na cobertura de as-
suntos internacionais. At6
entio fora editorialista do JB,
faqanha para algu6m tdo jo-
vem naquele que era consi-
derado o melhor journal da
6poca. 0 pr6prio JB procla-
mara, em nota publicada logo
depois da morte de MArio,
que ele alcanqara "raro e in-
vejAvel nfvel professional".
Era o apogeu. Mas ele jA ti-
vera 8xito na atividade lite-
rario e nojomalismo.


A perhr de aewnhi
a bobe Studium
do Grand@ Hotel
the ofretce a
,nSi$ pwrfeita ,nsft*l4i0
em Hif-
A. melh'rws muiras.
os melhores drinks
a melhor comidm

BOITE STADIUM. of


PROPAGANDA

Boite em hi-fi

Em setembro de 1962 o Grande Hotel (no local onde hoje
estd o Hilton) anunciava a nova e grande atracdo que
sua boite Studium passaria a oferecer aos clients: "a
mais perfeita instalafdo em Hi-Fi". Por isso entenda-se
vitrola, eletrola, toca-disco e som. Corn o disco de vinil, 4
claro, o andncio podia garantir: "os maiores do mundo
fardo mdsica para voce". E havia ainda "os melhores
drinks e melhor comida". Com o covert a 100 cruzeiros,
mas sem consumaCdo minima.


10 Jornal Pessoal MAIO DE 2010 2 QUINZENA


COUVERT 06 100,00
NAO TEM CONSUMACAO


-ISQa-






































FOTOGRAFIA

Comego da linha


Flagrante histdrico: operdrios da Cia. Automotriz davam, em janeiro de 1960. os
tltimos retoques no 6nibus Mercedes-Bens que integraria uma caravana organizada
pela empresa para a viagem inaugural da linha Belim-Brasilia, pela estrada que
ainda era "caminho das ongas", como diria o president Janio Quadros no ano
seguinte, querendo diminuir o merito do antecessor, Juscelino Kubitscheck, na
abertura da "estrada de integragdo national".


Sua vocacqo para o triunfo
veio cedo. Fez os cursos gi-
nasial e clAssico no Colegio
Estadual Paes de Carvalho.
Num dos 6ltimos anos esco-
lares tirou 10 em todas as dis-
ciplinas. Tinha facilidade para
linguas. Falava fluentemen-
te em ingles e francs, mas
se expressava tamb6m em
espanhol, alemao e italiano.
Comecou nojornalismo em A
Provincia do Pard, quando
tinha 16 anos. Em 1949 pas-
sou para a Folha do Norte,
onde ficou ate 1956, secreta-
riando o journal, quando se
mudou para o Rio de Janeiro.
Entre 1951 e 1954 passou


dois anos nos Estados Unidos
e 11 meses na Europa.
Foi corn o historiador ama-
zonense Arthur Cezar Ferrei-
ra Reis trabalhar na SPVEA
(antecessora da Sudam), ins-
talada em 1953. Sua primeira
participacgo foi como assis-
tente, int6rprete e tradutor do
primeiro curso especial de pla-
nejamento regional, dado pelo
americano John Friedmann
em Bel6m. 0 velho Alipio
Martins, ainda em plena ati-
vidade, fez esse curso.
Mario Faustino foi um dos
mais brilhantes intelectuais
que ji passou pelo Pard. E
mesmo pelo Brasil.


GADO
A Cetenco, empresa de enge-
nharia de Sdo Paulo, estA de
volta A Amazonia, no cons6r-
cio que ganhou o leilAo para a
construqco da hidrel6trica de
Belo Monte, no rio Xingu. Seu
fundador, o engenheiro Eduar-
do Celestino Ribeiro,j foi pro-
prietario ou s6cio de quatro fa-
zendas no sul do Pard, na era
da ocupaqdo da Amazonia
pela pata do boi patrocinada
pela Sudam, na d6cada de 70:
Cia. Industrial eAgro-Pastoril
Vale do Campo Alegre, Cris-
talino, Caju e do Cedro, todas
em Santana do Araguaia. Ne-
nhuma deu certo.


6J esti nas bancas e li-
vranas o segundo volu
me da Mem6ria do Co-
tidiano, a seqao mais lida por
parte dos leitores do Jornal
Pessoal. Junto corn o volu-
me anterior, acho que os dois
livros permitem uma visio
mais intima e sempre indivi-
dualizada da hist6ria de Be-
lm e do Para durante o secu-
lo XX. sobretudo na sua se-
gunda metade. A boa recepti-
vidade a primeira iniciativa re-
forqou o compromisso de lan-
qar uma nova coletfnea dos
textos, fotos e ilustraq6es do
JP. 0 apoio do amigo Regi-
naldo Cunha contribuiu para
viabilizar a empreitada, trans-
formando-a em um aconteci-
mento de final de ano.



a...4


Jomal Pessoal
Editor: Litcio Fl vio Pinto


Contato: Rua Aristides Lobo, 871 CEP: 66.053-020 Fones: (091) 3241-7626
E-mail: Ifpjor@uol.com.br jornal@amazon.com.br Site: www.jornalpessoal.com.br
Diagramagio e ilustrag6es: L. A. de Faria Pinto E-mail: luizpe54@hotmail.com


MAIO DE 2010 2- QUINZENA Jornal Pessoal 11














IC


Especulagio
Para se ter uma iddia
proporcional da agressivida-
de da especulaqao imobiliA-
ria em Bel6m: no lugar da
sua antiga sede, num dos
iltimos grandes terrenos
existentes em Area nobre de
Sao Paulo, a Construtora
Camargo Corr8a levantarA
um pr6dio de 30 andares.
Em areas de muito menor
valor. constroem-se em Be-
16m espig6es acima dessa
altura. Para lucrar desen-
freadamente. Em mat6ria
de avidez imobilidria, em
terms proporcionais, Be-
16m superou Sao Paulo.


Personagem
Voc8 sabe quem foi o
companheiro de chapa de
Duciomar Costa na dispute
de 2000 para a prefeitura de
Beldm, que ele perdeu para
Edmilson Rodrigues, reelei-
to pelo PT? Ele, o ex-depu-
tado estadual (do Democra-
tas) Luiz Afonso Sefer, pro-
cessado najustiga sob a acu-
sagdo de abuso sexual de
menor, a hedionda pedofilia.
A coligagdo "Unidos por
Bel6m" era integrada por
PSB, PL, PDT e PV. JA apo-
sentado no legislative, Sefer
pretend voltar a ser depu-
tado pela legend do PP.
Os compromissos de
campanha de Duciomar
eram: projeto "Meu primeiro
emprego"; gas como com-


ILI


bustivel para taxi; postos de
sadde 24 horas e projeto de
macrodrenagem da Estrada
Nova. Quatro anos e meio
como prefeito, o tnico pro-
jeto que ele executou mes-
mo assim, s6 em pequena
parte e agora inconclusa foi
a macrodrenagem.
Compromissos que valem
tanto quanto um diploma
comprado em marreteiro.
Duciomar se jactava de
ser candidate contra a von-
tade do entdo governador
Almir Gabriel, que optava
por Zenaldo Coutinho. An-
tes, o atual prefeito quase
conseguiu dobrar o govema-
dor na dispute pela presiden-
cia da Assembl6ia Legisla-
tiva. Prevaleceu o nome
apoiado pelo executive,
Martinho Carmona. Mas
por pouco.

Futuro
0 cartdo de crddito 6 o
instrument usado em 75%
das compras feitas a cr6dito
no Pard. De cada 10 pesso-
as que o utilizam, quase seis
estao em d6bito com o di-
nheiro plastificado. Os mais
endividados sao os que ga-
nham at6 10 saldrios minimos
por m8s. E crescente o ni-
mero dos que procuram re-
solver seus problems de
cr6dito, mas as dfvidas em
atraso tambdm crescem (8%
nos dois dltimos meses do
ano). E a crenqa do devedor
na perspective de se livrar
desse problema vem caindo:
de 50% no inicio de 2020,
baixou para a metade em
margo.
Sinal ficando vermelho no
horizonte.


Klautau
0 escrit6rio Klautau, uma
das bancas de advocacia
mais tradicionais de Beldm,
complete 80 anos em 2010.
Nos 70 anos, dos 11 advoga-
dos titulares, cinco eram
Klautau. Talvez hoje esteja
na ativa apenas um. Fim de
uma era no Estado ou surgi-
rdo novos talents no vasto
e brilhante cld?


Definigio
Um antncio sobre a par-
ticipagdo da fot6grafa Pau-
la Sampaio no curso de Jor-
nalismo e Assessoria de
Imprensa na PrAtica. da
Escola de Propaganda, es-
tabeleceu um axioma es-
tranho. Segundo a peqa,
esta seria a "primeira liqo
do m6dulo de reportagem
fotografica: algumas ima-
gens devem ser preserva-
das. A da professor, por
exemplo".
A DC-3, agencia respon-
sivel pelo aniincio, pode en-
tender muito de propaganda,
mas nem tanto dejornalismo.
Ji que o curso 6 pritico (o
que quer dizer que nao 6 te6-
rico?), cabe perguntar: a ex-
celente fot6grafa Paula Sam-
paio foi consultada sobre o
uso da sua imagem? Ela nao
concordou com a exibigqo de
uma fotografia sua?
Sim, porque a primeira li-
cao de verdade da reporta-
gem fotografica 6 a apre-
sentagdo da image ao lei-
tor ou telespectador. 0 con-
trdrio 6 a exceqao, a ser
aplicada quando a pessoa
pede ou exige. Ou quando
nao 6 personalidade pdblica.
Se trata-se de pessoa pdbli-
ca, o crit6rio de decisdo
deve ser o interesse pdbli-
co. Se ele existir e for rele-
vante, o jornalista fotogrifi-
co deve correr o risco de
fazer a foto mesmo se o
personagem for contra.
Do contrArio, o que esta
a aprender 6 propaganda
(ou assessoria de imprensa,
ou relag6es pdblicas) e nio
jomalismo.


Sem luz
A reaqdo dos poucos que
se manifestaram sobre o meu
artigo da ediqao passada 6 sin-
tomitica: nao se admite pen-
sar em hidrel6trica de baixa
queda e menor volume ape-
nas em beneficio da popula-
9qo local. Energia 6 para ser
gerada em grande volume para
ser transmitida em bloco para
a regido mais desenvolvida do
pais. Nao se admite pensar em
outras opl6es, mesmo quan-
do elas sao apresentadas em
carAter experimental, como foi
minha proposta.
Por que nao executar
apenas a parte menor do pro-
jeto de Belo Monte, com oito
pequenas turbines bulbo
(comparadas As gigantescas
miquinas Francis), e deixar
a grande usina para depois,
quando a parte t6cnica esti-
vesse consolidada e a esco-
lha do respons6vel pela obra
depurada dos seus pontos
negros? Por que o rolo com-
pressor impondo m6todos e
prazos a um empreendimen-
to tao complex, que conti-
nua a provocar ddvidas e crf-
ticas consistentes mesmo
quando jA ingressa na fase
executive?
0 pior 6 ver intelectuais
da AmazOnia raciocinando
como reflexos automAticos
da cabega do colonizador.