Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00343

Full Text



MAIO
DE 2010
laQUINZENA


jC


)real Pessoal
A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO


INDUSTRIA


Desnacionalizagao a frio

A Albrds e a Alunorte, das maiores indistrias de aluminio e alumina do mundo, sldo
nipo-norueguesas desde o mes passado, quando foram transferidas pela Vale para a
Norsk Hydro. 0 negocio foi de quase US$ 5 bilhoes, mas ninguem parece ter-lhe dado
importuncia. Importdncia que d fundamental.


A Albras 6 a 8a maior fibrica de
alumnio do mundo, e a Alunorte,
maior plant international de
alumina. Representaram no ano passa-
do um faturamento bruto conjunto de
4,2 bilh6es de reais e um lucro de R$
385 milhoes. Seus ativos somam R$ 9,4
bilh6es, o patrim6nio liquid 6 de R$ 6,5
bilhoes e o capital social alcanqa R$ 4,1
bilhoes. Sdo as duas maiores empresas
do Pard. No dia 2 elas foram completa-
mente desnacionalizadas: passaram a
ser de propriedade norueguesa e japo-
nesa. A Vale anunciou que, por quase
cinco bilh6es de d61ares, transferiu suas


aq6es nas duas empresas para a Norsk
Hydro, que ji era sua s6cia na Alunor-
te. 0 neg6cio incluiu o control dajazi-
da de bauxita de Paragominas, das mai-
ores do mundo, a ser consumado no
future, e o projeto de uma nova plant
de alumina, da CAP, em Barcarena, do
tamanho da Alunorte, ou maior.
0 neg6cio pegou de surpresa a opi-
nido pdblica e o pr6prio mercado. Em-
bora as negociaqGes tenham durado seis
meses, segundo o comunicado da Vale,
nada ou quase nada vazou dos am-
bientes de conversaqdo. Foi uma faqa-
nha. Tao surpreendente foi o pouco in-


teresse que a revelagao causou. Depois
de uma cobertura burocritica da im-
prensa nos primeiros dias, o assunto saiu
completamente da pauta national e
paraense.
Tempos atris um process de des-
nacionalizaqao tao stibito e profundo
quanto este provocaria acesa polemica.
0 silncio atual se explica pela globali-
zagao da economic, que atravessou e
eliminou as barreiras nacionais? Em
parte, talvez. Mas s6 em pequena par-
te. Uma razdo maior pode estar na con-
vicqdo de que a Albris nunca esteve
CO'TJUA )i PAdi


N|IU JUSTICA E ACUSADA


No 464
ANO XXIII
R$ 3,00


rrrru -,


v


I PG,. 6/7=


ANA JULIA AMEACADA







CONTIoUAgAO DACaPA
realmente sob o control da empresa
national, embora a antiga Companhia
Vale do Rio Doce detivesse a maioria
das ages nas duas empresas do distri-
to industrial de Barcarena, a 50 quil6-
metros de Bel6m.
A inspiraqao do projeto foi japonesa,
impulsionada pelas profundas transfor-
mag6es que o Japdo sofreu a partir do
primeiro choque do petr61leo, em 1973.
O empreendimento era de alto risco na
6poca e por isso foi bancado pelos dois
governor, como uma imposiqao dos en-
tendimentos mais amplos que estabele-
ceram,. Um dos seus itens mais impor-
tantes era a viabilizacao da exploraqgo
das jazidas de min6rio de ferro de Ca-
rajis, as melhores do mundo.
Apesar de todas as aparencias em
contrario, a Albris era uma fibrica ca-
tiva dos japoneses. A Vale detinha 51%
do capital e podia comercializar com li-
berdade o equivalent da produqao, mas
a empresa nunca chegou a se identifi-
car com a sua controlada. E quando a
expansdo da Albras, que estancou em
460 mil toneladas (esticadas a partir da
capacidade instalada inicial de 320 mil
toneladas), esbarrou em varios proble-
mas, sobretudo o energ6tico, a Vale se
exasperou.
Seu president Roger Agnelli, que
impos seu estilo agressivo A corporaqdo,
chegou a ameagar desmontar a fibrica
e remonti-la em outro lugar do mundo.
Depois, conseguiu licen9a ambiental
para uma grande usina t6rmica a car-
vao mineral, de 600 megawatts (mais
do que a potencia de uma das gigantes-
cas mAquinas previstas para a hidrel6-
trica de Belo Monte). Por fim, partici-
pou de um dos cons6rcios que se apre-
sentou ao leildo da usina no rio Xingu,
mas foi vencido.
Todas essas iniciativas se anularam
pela transferencia das duas fibricas. t
um passo decisive para a Vale abrir mdo
de presenga ativa nesse mercado, que
poderd se completar com a venda dos
40% que possui na Mineraqao Rio do
Norte, que explore a mina de bauxita
do Trombetas, a maior do pafs em pro-
dugao (de 17 milh6es de toneladas).
Certamente os responsiveis pela
transaqao contra-argumentarao que a
Vale passou a deter 22% da Norsk
Hydro, um quinhao considerivel. At6 a
operagdo, a empresa norueguesa era
apenas a terceira maior produtora de
aluminio da Europa, mas s6 atuava na


ponta da linha, transformando o metal
em produto acabado (extrudado e lami-
nado). Comegou em 1999 a enfrentar
essa deficiencia, que se agravaria com
o tempo pela intensificaqdo da concor-
rencia mundial. Enfrentando as resis-
tencias das outras multinacionais do alu-
minio, comprou 5% das aq6es da MRN,
passando a ter suprimento de min6rio;
em seguida, entrou na Alunorte, esta-
belecendo o elo da cadeia, atrav6s da
alumina; agora e uma indtistria integra-
da, da mat6ria prima ao produto final.
Passa a ter importancia mundial.
E justamente essa a posiqao que a
Vale perdeu. A ex-estatal pode ganhar
da perspective dos rendimentos finan-
ceiros, como associada da Norsk em
amplitude international, mas perdeu a
condiqgo de player, como sao trata-
dos aqueles que realmente contam, que
t8m poder decis6rio no jogo econ6mi-
co. 0 Para, como o principal Estado
do p6lo de aluminio no pafs, passa a
ser dominado pelos cart6is (inclusive o
national, do grupo CBA, da familiar
Ermfrio de Moraes), completamente
desnacionalizado.

*impdLKI::14


mas" quando o prinmeiro choque do pe-
tr61leo inviabilizou para o Japao a pro-
dugqo pr6pria de aluminio, o mais ele-
trointensivo dos produtos industrials. Os
japoneses nao hesitaram em se dirigir
para o Pard, que oferecia condiq6es ide-
ais para abrigar uma grande fibrica do
metal. Mas os brasileiros tamb6m podi-
am aproveitar essa oportunidade para
nao ficar dependents das maiores mul-
tinacionais, que impunham o pre9o no
mercado. Numa situaqdo mais equilibra-
da, a parceria nipo-brasileira podia ser


a grande oportunidade para verticalizar
por complete o setor e quebrar a espi-
nha dorsal do cartel.
Enquanto a Companhia Vale do Rio
Doce foi estatal, havia essa perspecti-
va. A privatizagqo desviou a empresa
desse rumo. Sobretudo quando Agnelli
chegou, egresso do Bradesco (que, vi-
olando a vedaqao normativa, modelou
a venda da estatal), a prioridade pas-
sou a ser engordar os nimeros, maxi-
mizando os rendimentos. Marcando
passo na escala de produgqo, a Albris
foi perdendo relevancia para a Vale,
empenhada em resultados mais imedi-
atos e indisposta a empreitadas mais
espinhosas, como a de abrir uma nova
frente de geragqo de energia em gran-
de volume. A Alunorte, sem grande
necessidade de energia e aproveitan-
do o melhor preqo da alumnina, se tor-
nou bem maior do que sua irma vizi-
nha, apesar de seu produto valer pelo
menos quatro vezes menos. Para a
Vale, transferir Albris e Alunorte para
a Norsk Hydro foi um bom neg6cio.
Mas nao para o Brasil e o Pard. Mui-
tfssimo pelo contrario.
A empresa norueguesa deveri dar
um grande salto, que alcanqard as bol-
sas de valores, com seu novo perfil, de
inddstria integrada, corn acesso a uma
valiosa reserve de bauxita (com garan-
tia de suprimento por pelo menos um
s6culo) e A maior fibrica de alumina
do mundo. Devera aumentar os rendi-
mentos dos seus s6cios, dentre eles,
agora, a Vale. Ao mesmo tempo, a par-
ticipagdo do governor noruegues expe-
rimentou uma sensfvel queda, de 43,8%
para 34,5%, nao s6 para abrir espaqo
para a mineradora brasileira como pre-
venir alguma area de atrito e tensdo
por causa da desnacionalizaqgo da Al-
bras e da Alunorte.
Mas o Pari, que podia se tornar
um personagem no cendrio mundial,
se conseguisse deixar de permanecer
empacado na produgqo apenas de
metal primirio, volta ao rabo da fila.
Em mais este capftulo, vira col6nia.
Sem dar um ai sequer. Ao contrario
do que fez o governor noruegu8s nes-
ta transaqao (como jA fizera o gover-
no canadense numa situaqdo inversa,
tr8s anos atris, quando a Vale com-
prou a Inco), o governor brasileiro nao
se manifestou sobre a questdo nem
nela atuou. Passou batido. Afinal, para
ele, a Amaz6nia talvez seja como
Marte: fica muito distant.


2 Jornal Pessoal MAIO DE 2010 la QUINZENA








Espelho invertido
Pelo 10 ano as revistas Exame e
Voce S/A reconheceram a Albris como
uma das "melhores empresas para voc8
trabalhar no Brasil". Pelo terceiro ano,
as demonstrates financeiras da Albris
foram reconhecidas como uma das cin-
co melhores do Brasil. A empresa foi
uma das vencedoras do Trof6u Trans-
parencia 2009, concedido pela Associ-
aqdo Nacional dos Executivos de Finan-
gas, Administracqo e Contabilidade
(Anefac), da Fundagqo Instituto de Pes-
quisas Contibeis, Atuariais e Financei-
ras (Fipecafi Universidade de Sao
Paulo) e Serasa.
Sao dois tftulos merecidos. Posso dar
testemunho quanto aos balancos da Al-
bris porque sou seu atento leitor desde
que eles comeqaram a ser divulgados.
Sempre me permitiram fazer uma andli-
se crftica do desempenho economico-fi-
nanceiro da empresa, ao contrario do que
acontecia e acontece cada vez mais -
com as contas da sua ex-controladora, a
Vale, que, ano ap6s ano, engrossa os
press-releases sobre seus ndmeros con-
tabeis e dificulta o acesso direto a eles.
A Vale tamb6m n o 6 considerada
uma boa empresa para trabalhar. Mui-
to pelo contrario. Por causa de sua rigi-
dez e intolernncia, as duas varas dajus-
tiqa do trabalho em Parauapebas se tor-
naram das mais congestionadas em todo
pafs. A principal causa das milhares de
reclamaq6es dos empregados que atu-
am na provincia mineral de Carajis 6 o
nao pagamento do seu deslocamento
para o trabalho, que corresponde a 30%
da jornada de trabalho e os obriga a
estar A disposiqao da empresa por 13
horas, ultrapassando o period admiti-
do legalmente.
Al6m de nao respeitar esse direito dos
seus funciondrios e adotar estratagemas
para nao caracterizar a mora, a Vale
imp6e essa diretriz As empresas que con-
trata, impedindo-as de efetuar o paga-
mento porque nao serio ressarcidas.
Essa pritica poderi ser encerrada se a
brilhante decisao adotada em marqo pelo
juiz federal J6natas dos Santos Andrade,
numa longa e minuciosa sentenqa, for
confirmada na instancia superior.
Pelo menos at6 o mes passado, quan-
do se desfez desses ativos, a Vale nao
conseguiu impor A Albris esse seu modo
de ser e agir. Espera-se que os norue-
gueses nao alterem esse bom estado de
coisas em Barcarena.


Sem grandeza
Agora nao hi mais ddvida: o Didrio
do Pard, de Jader Barbalho, do PMDB,
faz oposiqao sistematica ao governor do
Estado, do PT, e ap6ia quase incondicio-
nalmente a prefeitura de Bel6m, do PTB.
J6 0 Liberal, da familia Maiorana, que
nao tern partido (mas se consider um
partido A parte), se tomou governista (e
petista) desde criancinha, fazendo as ve-
zes de porta-voz de Ana Jdlia Carepa, e
abomina Duciomar Costa. At6 recente-
mente as posicqes estavam invertidas ou
embaralhadas. Por que mudaram tanto?
Se o leitor for atris de um esclareci-
mento nas piginas editorials dos doisjor-
nais, vai terminar desorientado. Assimr
como nao disseram por que ap6iam, as
duas folhas tamb6m nao explicaram por
que passaram a desapoiar. Os motivos
nada t6m a ver com program de gover-
no, visdo de mundo ou quaisquer razoes
de fundo. Sao impulses comerciais e po-
lifticos no sentido de usufruto do poder.
Al6m de razoes concorrenciais, como os
decorrentes da opgqo de Duciomar Cos-
ta de seguir o exemplo de outros politi-
cos corn desejos expansionistas, criando
seu pr6prio journal (embora sem assumir
diretamente a criatura).
A falta de id6ias nao 6, porem, privil6-
gio das empresas jornalisticas. Na cam-
panha eleitoral que mais tem movimenta-
do os bastidores em todos os tempos, sem
se exibir na arena puiblica, a anemia pro-
gramrntica 6 um mal corrosivo e profundo
na pr6-campanha eleitoral. 0 Pard pare-
ce que virou uma bacia das almas, ou um
aqougue de dignidades e coer8ncias.

ICasa da mae Ana
Todos os poderes estaduais ji publi-
caram o demonstrativo de remuneraqao
de pessoal, ativo e inativo, conforme a
Lei de Responsabilidade Fiscal lhes im-
poe, exceto o executive, o maior de to-
dos. Para engambelar a lei, conform
este journal mostrou, o governor viu-se
obrigado a prestar contas, mas o fez corn
enorme atraso e nao incluiu na sua de-
monstraqao os itens exigidos pelo mode-
lo official. 0 objetivo continue claro e
imoral: impedir que a opinion pdblica sai-
ba quantas centenas de assessores es-
peciais estio pendurados no gabinete da
governadora.
Fala-se que o ndmero ji chega a dois
mil. Se for assim, o PT tera batido o re-
corde de todos os tempos, passando A
frente de Jader Barbalho, que deu infcio


a esse convescote corn o dinheiro pdbli-
co, e dos tucanos, que o exorbitaram. Os
petistas assumiram a carapuqa que lhes
6 jogada: de que, uma vez no poder, o
transformam em casa da mae Joana (no
caso, Ana Juilia), abrindo lugar para to-
dos os companheiros e companheiras
necessitados de sinecuras.
0 61timo escandalo nessa farra nas
burras do erario surgiu no mes passado,
quando a govemadora nomeou Elida Braz
para assessora especial do seu gabinete e
a demitiu 24 horas depois, sob a avalanche
de critics, reclamaq6es e denincias. Nao
foi bastante quando, mal ocupou a cadeira
de govemadora, Ana Julia nomeou sua
esteticista e sua manicure para a mesma
assessoria, sendo tamb6m obrigada a exo-
neri-las quando o caso se tomou pdblico.
A meia-volta seria sinal de que a go-
vernadora reconhece o erro cometido e
trata de corrigi-lo. Mas tern sido tal a re-
petigqo desses erros comezinhos que a
presunqao da inocencia acabou. NMo h~
novidade no procedimento do PT quanto
ao uso da assessoria especial, transfor-
mada num balaio para abrigar todos os
tipos de interesses e conveni6ncias, ex-
ceto, em regra, os do serviqo pdblico. To-
dos os governor anteriores fizeram a
mesma coisa. Mas o PT ganhou a elei-
qao de 2006 para acabar corn esse ab-
surdo. Fez o que parecia impossfvel: pio-
rou as coisas.

Alunorte
Nio se pode elogiar. Parece que a
boa id6ia da Alunorte, de fazer o trans-
porte pr6prio para Barcarena dos seus
funciondrios que moram em Bel6m, ao
inv6s de entregar o servigo a terceiros,
pode nao dar certo. 0 projeto da em-
barcagao apresentou problems nas
suas primeiras operaq6es, que foram
suspensas. 0 motor queimou, a veloci-
dade precisa ser reduzida quando o ca-
tamara navega por trechos mais estrei-
tos, porque provoca muito banzeiro. E
a viagem acabava saindo mais demo-
rada do que antes, renovando as recla-
maqoes dos empregados da fibrica de
alumina. Ja os da Albris continuam a
fazer a viagem pelo modo traditional,
atrav6s da Arapari. A empresa nao pre-
tende mudar esse sistema, apesar das
critics, porque as outras solugoes nao
t6m vingado. Nem construiu ou pensa
em construir um ancoradouro seu, ao
contrario do que este journal noticiou.
A ligagqo entire Bel6m e Barcarena
continuard sujeita As falhas de sempre.


MAIO DE 2010 1A QUINZENA Jornal Pessoal 3








Reeleigao de Ana Jilia

cada vez mais ameagada


Segundo mostrariam pesquisas enco-
mendadas pelo PMDB e PSDB, o indi-
ce de rejeiqao A govemadora Ana Jdlia
Carepa estaria acima de 60%, o maior
dentre todos os candidates em potential
ao governor do Estado na eleigqo de ou-
tubro. Reverter essa situagdo 6 uma ta-
refa muito dificil, embora nao impossivel
para quem control a maior arma de con-
quista (ou compra) de votos, que 6 a ad-
ministraqao pdblica. Uma aplicacqo ma-
ciqa de recursos em obras e serviqos,
al6m do uso dos mecanismos de poder
para influir sobre pessoas decisivas, pode
reverter o quadro. Mas nao quando as
causes da rejeiqao continuam ativas,
como parece acontecer em relacgo a go-
vemadora. Ao inv6s de contribuir para
melhorar seu desempenho e corrigir suas
falhas, seu governor aprofunda e amplia
os seus males.
Em parte por suas defici8ncias,
cada vez mais evidentes. Mesmo quan-
do realize uma obra, o atual governor
do Estado nao consegue destacar suas
qualidades porque tamb6m parece in-
capaz de realizar um serviqo comple-
to. Um exemplo recent 6 o trevo que
facilitari o trifego num dos cruzamen-
tos mais important de Bel6m, entire
as avenidas Pedro Alvares Cabral e
Jdlio C6sar. Al6m de estar incomplete,
sem passage para pedestres, a obra
provocou efeitos negativos na area em
torno. Revoltados, os moradores fazi-
am protests na v6spera da inaugura-
gqo, dia 16. Os motorists serao bene-
ficiados, mas os residents podem con-
tinuar a reagir A inovaqao.
Esse incident 6 de repercussdo in-
significante comparado aos prejuizos,
que jA foram causados e ainda se avo-
lumario nos pr6ximos dias, resultan-
tes de um ato da ex-chefa da Audito-
ria Geral do Estado, Tereza Cordovil.
Sem avisar ningu6m do govemo, ela re-
meteu para a president da comissao
de finangas da Assembl6ia Legislativa
sete caixas de papelao com os relat6-
rios que produziu durante inspegqo a
virios 6rgdos da administragqo esta-
dual. Formalmente, estava atendendo
seguidas requisig6es feitas pela depu-
tada Simone Morgado, do PMDB, e
nao atendidas at6 entdo.


Mas se fosse s6 isso, a obrigacao
funcional da auditora seria enviar os do-
cumentos para a govemadora, que os
encaminharia ao poder legislative. Ou
nao, como parecia ser a decisao adota-
da. Na verdade, Tereza Cordovil pode
ter agido por represilia a algum desen-
tendimento grave que ocorreu interna-
mente, entire as facq6es mal abrigadas
sob a legend do Partido dos Trabalha-
dores. 0 movimento de mandar as cai-
xas de documents para a AL foi casa-
do com o pedido de demissio da audi-
tora, que retomou ao seu cargo na Con-
troladoria Geral da Unido. Literalmen-
te, a ex-auditorajogou papel no ventila-
dor. Na volta, o material sofreu muta-
95o deteriorada.
A profissdo de origem de Simone
Morgado 6 a de auditoria tributaria, com
atuaqdo na Secretaria da Fazenda do
Estado. Nao 6, portanto, ne6fita no as-
sunto. Logo teve consciencia da carga
explosive contida nos documents.
Como deputada do PMDB e a mais pr6-
xima do cacique do partido, Jader Bar-
balho, com o qual mant6m relagqes afe-
tivas, teve municqo para atacar o go-
verno do PT, do qual os peemedebistas
vem se dissociando, ji agora em con-
flagraqao aberta.
Quando a deputada divulgou os re-
sumos das auditagens feitas nas secre-
tarias de transport e de educaqao,
al6m da assessoria de assistencia so-
cial, a Asipag, um dos principals ins-
trumentos de political do governor, pas-
sou a haver material concrete para que
ojomal dos Barbalho abrisse abrir man-
chete de primeira paigina sobre os es-
cAndalos que estavam surgindo na ad-
ministraqao do PT. As irregularidades
inclufam obras superfaturadas, ou con-
tratadas e jamais executadas, notas fis-
cais fantasmas, abuso de dispensa de
licitaqao ou inexigibilidade de licitacqo,
conv8nios com entidades sem repre-
sentatividade, desvio de fungao e viri-
os outros atos que caracterizam a dis-
sipagqo de dinheiro ptiblico, como se
fosse caixa privado.
0 governor reagiu argumentando
que os dados fornecidos pela ex-audi-
tora nao eram conclusivos nem com-
pletos, podendo induzir julgamentos


precipitados ou errados; que essas in-
terpretaqbes estavam sendo feitas por
interesse politico apenas; que as criti-
cas e ressalvas feitas pela AGE foram
aproveitadas para corrigir os erros e
irregularidades identificados; que os
responsiveis apontadas foram punidos
(72 at6 agora); e que a servidora pd-
blica violara seu compromisso funcio-
nal, dando publicidade a documents
sigilosos, que deviam ser usados ape-
nas pelo pr6prio governor.
Em meio a verdades e mentiras, al-
guns fatos sdo inquestioniveis. Quan-
do Ana Jdlia Carepa assumiu o gover-
no, pondo fim a 12 anos de mando do
PSDB no Pari, o 6rgdo mais ativo na
nova gestao foijustamente a AGE. Logo
ela levantou irregularidades, vdrias de-
las graves, no governor anterior. Os re-
lat6rios foram repassados A imprensa e
a politicos, que deles puderam fazer o
uso que Ihes interessou, sempre para
colocar em mi situaqao a administra-
qdo de Simao Jatene.
A partir daf, por6m, o acesso As au-
ditagens foi se tomando dificil, at6 que
ficou quase completamente bloqueado
ao chamado pfiblico extemo. Nem mes-
mo as cobranqas feitas pelo poder le-
gislativo surtiram efeito. Ao governor
deixou de interessar a divulgagqo dos
dados. Se 6 certo que algumas das fa-
lhas foram sanadas e os autores de ir-
regularidades punidos, os procedimen-
tos desviados das normas legais conti-
nuaram a se reproduzir e multiplicar num
governor que viera para agir com corre-
9ao, em contrast com os anteriores,
corruptos e venais (segundo a ret6rica
do PT enquanto era oposiqdo, dado a
"bravatas", segundo Lula).
Se o trabalho da Auditoria Geral do
Estado estivesse sendo realmente
prestigiado, se suas sugest6es fossem
acatadas e a chefa do serviqo apoia-
da, por que o final foi tdo traumitico?
Por que a AGE passou a ser uma espi-
nha atravessada na garganta dos pe-
tistas bem postos no topo do poder, com
efetiva capacidade de mando? Alegar
que tudo se reduz a dissensoes inter-
nas, entire os grupos que se digladiam
dentro do PT com mais fdria do que
combatem os inimigos externos, 6 ig-


4 Journal Pessoal MAIO DE 2010 1I QUINZENA









Uma Belo Monte viavel e melhor


Em 1989, quando foram conclufdos
os primeiros estudos de viabilidade do
aproveitamento hidrel6trico do rio Xin-
gu, no Para, a Eletronorte previa a cons-
truqdo de uma dnica barrage, no final
da Volta Grande, junto a qual haveria
uma dnica casa de forqa, com 20 turbi-
nas. A represa inundaria 1.225 quil6me-
tros quadrados e estocaria agua sufici-
ente para a producqo de 11,2 mil mega-
watts de energia no pique das cheias e
uma geragqo firme pr6xima de 50%. Era
um projeto semelhante ao da usina de
Tucuruf, inaugurada em 1984.
Em 2008, quando o inventario do
Xingu foi atualizado, o projeto muda-
ra. 0 eixo da barrage foi relocado
rio acima. A Area de inundacqo foi re-
duzida para 516 quilometros quadra-
dos, dos quais 382 km2 no leito do pr6-
prio Xingu (apenas 40 km2 de area
nova, situada al6m dos limits alcan-
qados pelas cheias anuais do rio). Os
outros 134 km2 constituiriam o que
passou a ser chamado de "reservat6-
rio dos canais", a maior inovagqo do
projeto de engenharia.
Reposicionada para o inicio da Vol-
ta Grande, a barrage desviaria as
Aguas do Xingu para um canal artificial,
que aproveitaria as drenagens naturais
nesse trecho da bacia, corrigindo-as e
avolumando-as para se tornarem um
vertedouro, atrav6s de uma sucessao de
diques de terra e de concrete a serem
construfdos. Assim, a agua seria con-
duzida atd a casa de forqa principal, des-
vinculada da barragem, valendo-se do
desnivel de 90 metros entire o inicio e o
fim desse segundo reservat6rio.
No auge da cheia, haveria agua
suficiente para movimentar as enor-
mes maquinas, cada uma das quais
precisando de 500 mil litros de agua
por segundo para alcanqar sua capa-
cidade nominal. Mas na maior estia-
gem simplesmente a vazao do Xingu
seria insuficiente para colocar a usi-



norar os fatos que vinham sendo man-
tidos embaixo do tapete das conveni-
encias partidarias e grupais.
Para se prevenir contra a acusagqo
de que faz apenas politicagem, a depu-
tada Simone Morgado garantiu que di-
vulgari tamb6m os relat6rios produzidos


na em funcionamento. Ela ficaria pa-
rada. E a deficiencia das hidrel6tricas
a fio d'agua, que nao tem estoque for-
mado para o verao. No Xingu, a dife-
renqa entire as duas etapas de vazdo
chega a 30 vezes.
Agora imagine-se um projeto que
eliminasse o reservat6rio dos canais,
mantendo apenas a barragem no eixo
do rio e a casa de forqa secundaria.
As oito miquinas a serem instaladas
na barragem do sftio Pimentel term ca-
pacidade para 233 MW, potencia que
equivale a menos da metade de uma
6nica das 20 miquinas da casa de for-
ca principal, situada a 50 quil6metros
de distancia, rio abaixo. Mas o sufici-
ente para abastecer quase a metade
da populagqo de Bel6m.

No Belat6rio de Impac-
to Ambiental de Belo Mon-
te, os teonicos afirmam,
estranhamente, que essa
populagao "corresponde
aproximadamente a tres
milh6es e meio de pessoas".
A populacao de Bel6m 6 de 1,5 milhao
de habitantes. Logo, a metade deveria
ser de 750 mil pessoas. Qual entao o
valor certo: 750 mil ou 3,5 milh6es de
pessoas, que correspondem exatamen-
te a metade da populacqo de todo o
Estado do Pard? 0 Rima nao diz e esta
se constitui em uma de suas falhas, pe-
quena, talvez, mas gritante.
E uma pot6ncia insignificant, se
comparada aos 11,2 mil MW da capa-
cidade a ser instalada na casa de forqa
principal (apenas 2% dela). Mas as
melhores estimativas sao de que a ener-
gia m6dia de Belo Monte seri inferior
a 4 mil MW, elevando o percentual da
usina secundaria para 5% da grande
hidrel6trica.
Fazendo-se outra correlaqao, po-
r6m, verifica-se que se Belo Monte
fosse reduzida i casa de forqa com-


nas auditagens a 6rgaos do governor en-
tregues at6 recentemente ao PMDB,
como a Secretaria de Satide e o Detran.
Mesmo que as revelaqces atinjam o par-
tido, nao hi ddvida que os prejuizos se-
rao menores do que os do PT. 0 PMDB
poderi perder an6is. 0 PT, dedos. No


plementar, sua potencia seria uma vez
e meia maior do que o parque e61ico
de Os6rio, a quarta mais important
cidade do Rio Grande do Sul. La, 75
torres de 100 metros com turbines aci-
onadas pelo vento irao gerar 150 MW,
o suficiente para abastecer 400 mil
pessoas. A barragem do sitio Pimen-
tel, inundando uma Area de 382 km2,
dos quais apenas 40 km2 excederiam
as cheias naturais do rio, abasteceria
com energia toda a Transamaz6nica e
iria al6m: garantiria disponibilidade para
absorver incrementos exponenciais no
consumo, incluindo indfstrias que fos-
sem atrafdas para a regiao, centraliza-
da em Altamira.
Como todas as turbines sao do tipo
bulbo, que funcionam corn agua cor-
rente, em desnivel de 20 metros, sem
precisar da criagqo de declividade ar-
tificial atrav6s de barragens de alta
queda, a usina funcionaria o ano in-
teiro. Sem a enorme movimentagao
de terra e concrete exigida pelo atual
projeto, e dispensando as carissimas
turbines Francis, em quanto ficaria o
custo dessa hidrel6trica? Quem sabe,
2% ou, no maximo, 5% dos 19 bilh6es
de reais previstos pelos calculos ofi-
ciais, ou muito menos ainda se consi-
derados os R$ 30 bilhoes estimados
pelos empreiteiros, provavelmente
mais pr6ximos da realidade. E sem os
impacts sociais, ambientais e eco-
n6micos que a grande e problemiti-
ca obra provocaria. Por que nao tes-
tar uma mini-Belo Monte, que ji esti
desenhada no projeto, antes de se ar-
riscar corn um mastodonte sujeito ao
descontrole?
Fica a sugestao. Espero que ela seja
levada na devida conta antes de se con-
sumar a aventura corn destino incerto e
nao sabido, como deveri ser a Belo
Monte atual. Voltada para manter a
condiqdo colonial da Amaz6nia, ao in-
v6s de desenvolv8-la de verdade.


caso, concretamente, na forma de con-
solidaqio dos indices de rejeiqgo, que
ameagam restringir a presenga do Parti-
do dos Trabalhadores no govemo do Es-
tado a um dnico mandato. A ameaqa A
reeleiqao de Ana Jdlia Carepa saiu do
sinal amarelo para o vermelho.


MAIO DE 2010 1l QUINZENA Jornal Pessoal 5






Ajustiga do Para


Tres casos recentes de atuaqao ir-
regular de juizes expuseram as defici-
6ncias do poder judicidrio no Pard. De-
fici8ncias que nao se devem As causes
estruturais que limitam objetivamente
a eficicia da tutelajurisdicional, mas a
deficiencias pessoais dos magistrados.
Como a carreira juridica 6 a melhor
remunerada no servico pdblico e a que
tern as maiores garantias para o de-
sempenho de sua fungao, que 6 vital,
a sociedade acompanha esses casos
corn interesse e desejosa de ver cor-
rigidas as falhas.
Muito mais do que em qualquer ou-
tra 6poca, corretivos sao adotados. Mas
eles sao eficazes? Terao a condigao
de inibir a repetiqao dos erros consta-
tados e apurados? 0 poder judiciArio
esti conseguindo veneer a leniencia
que o imobiliza quando o espirito cor-
porativo 6 provocado? Esti disposto a
excluir aqueles que o integram de for-
ma malsd, comprometendo a credibili-
dade da justiga? A punicao maxima, a
mera aposentadoria do servidor pdbli-
co improbo, 6 adequada para o prejui-
zo que ele causa?
Um magistrado punido por essa
pena, como a imposta pelo Conselho
Nacional de Justiga A juiza Clarice An-
drade (ou pelo pr6prio Tribunal de Jus-
tica do Estado A desembargadora Te-
reza Murrieta), vai para casa usufruir
dofarniente corn 13 mil, 15 mil ou mais
de 20 mil reais pingando na sua conta a
cada mis at6 o fim da sua existencia.
Que outro servidor pdblico, ou qualquer
ser human, sofre tal "flagelo"?
E quando umajuiza 6 punida por fal-
ta de 6tica e de exaaio na sua atua-
9ao, depois de ter sido denunciada ou-
tras vezes, como foi o caso de Maria
Edwiges de Miranda Lobato, a mera
censura escrita tern expressao? Por uil-
timo (mas nao por fim, infelizmente),
quando mais uma magistrada atropela
as normas e o bom senso na defesa de
direitos de press de alta periculosida-
de, como traficantes de droga, a repe-
tiqao 6 um grave alerta aos responsd-
veis pela justiqa. Depois de ter apare-
cido no noticidrio da imprensa como
uma nova "imortal" da Academia Pa-
raense de Letras, Sarah Castelo Bran-
co 6 acusada formalmente pela policia
e a Ordem dos Advogados por favore-
cer traficantes.
Se a magistratura, como regra, 6
exercida por pessoas qualificadas e ho-
nestas, as excec6es nao estarao se tor-
nando mais freqilentes do que o tolerA-
vel? Espera-se que o relato dos fatos


inspire a boa reflexao. E, se possivel,
melhores decis6es.
Interesse pessoal
Valber Luiz Barbosa Duarte, Regi-
naldo Lima e Laerco Cruz de Aquino
foram press pela policia no ano passa-
do, acusados de terem roubadoj6ias no
valor de 100 mil reais pertencentes a
Regilena Lopes Pinho. A policia recu-
perou parte das j6ias em poder dos la-
dries. Por isso, a prisao deles foi man-
tida pelojuiz Jorge Luiz Sanches, titular
da 6a vara penal do f6rum de Bel6m.
Regilena ficou indignada quando
soube que Reginaldo Lima e Laergo
Aquino, sendo este o assaltante que lhe
apontou um rev61lver, foram libertados
provisoriamente pelajuiza Maria Edwi-
ges de Miranda Lobato, que assumiu
interinamente a 6a Vara Penal quando
Sanches entrou em f6rias, apesar da
manifestagqo desfavoravel ao pedido
de liberdade do representante do Mi-
nist6rio P6blico.

Ao chegar ao f6rum para
"saber a razao da soltura de
seu carrasco", Regilena Pi-
nho observou que um dos
advogados constituidos na
procuragao dada pelo reu
Laergo Aquino era Lauro
Lobato, irmao da juiza que
soltara os assaltantes, em-
bora a petigqo tivesse sido firmada pelo
advogado Wilson Carlos Pinto Bentes,
s6cio de Lauro no escrit6rio Bentes,
Lobato & Advogados. Diante dos fatos
constatados, a vendedora formalizou
reclamagao A Corregedoria de Justica
da Regido Metropolitana de Bel6m. S6
depois a prisao de Laerqo foi novamen-
te decretada.
O inqu6rito administrative, que foi
instaurado sem o afastamento preven-
tivo dajuiza denunciada. constatou que,
depois de press, os assaltantes foram
patrocinados pela defensora piblica
Marilda Cantal. Mas quando Maria
Edwiges Lobato substituiu juiz Jorge
Luiz Sanches, depois de mantida a pri-
sao provis6ria, Wilson Bentes assumiu
a defesa dos r6us, conseguindo soltdi-
los. Logo em seguida a defensora pi-
blica voltou A causa.
O relator do process contra Edwi-
ges, desembargador Leonam Gondim da
Cruz Junior, observou que nio podia
deixar de constatar que o s6cio do ir-
mdo da magistrada "s6 funcionou nos
autos, exclusivamente, para pleitear a
liberdade provis6ria do r6u e, diga-se,


com kxito, justamente no perfodo que a
Dra. Maria Edwiges respondia pela 6a
Vara Penal".
A juiza alegou que nao percebeu
que o nome de seu irmao constava na
procuragao e que nao foi ele que atuou
no caso, mas seu s6cio. No entanto,
al6m da demonstragao de desatenqao
e falta de exacqo na instruqdo do pro-
cesso, seu procedimento revelou um
ins6lito interesse pessoal pelo caso.
Maria Edwiges saiu da sua sala, na 16a
vara, e foi a secretaria da 6a, onde nun-
ca estivera pessoalmente, buscar o
process, acompanhada pelo irmao.
Levou os autos para sua casa e, no dia
seguinte, devolveu-os corn a decision
concedendo a liberdade provis6ria, "em
uma celeridade incomum ao seu com-
portamento", conforme observou o
desembargador-relator,
No seu depoimento, a jufza admitiu
seu empenho para decidir o process.
Primeiro pediu por telefone que os au-
tos ihe fossem mandados, mas "em
face da urgencia declinada pelos ad-
vogados, por se tratar de r6u preso",
que mereciam prioridade. Como a re-
messa demorasse, "eis que estava sen-
do pressionada pelos advogados, no fi-
nal do expediente, por volta das 13:55
h, dirigiu-se at6 a secretaria e pegou
os autos, levando-os para sua casa",
conforme seu depoimento. Admite que,
"com o afa de obter os autos para and-
lise, seu irmao, Lauro, permaneceu do
lado de fora, eis que estava carregan-
do a sua pasta, ressaltando que tern
problema de coluna e nao pode carre-
gar peso". Ao retornar ao f6rum do dia
seguinte, a juiza trouxe ji prontos os
alvaris de soltura.
Giselle de Castro Ledo, diretora de
secretaria da 6W vara declarou no inqueri-
to que foi a pr6pria jufza que assinou o
livro de carga do process, o que compe-
te aos advogados e nao a um julgador.
Negou a informagqo prestada por Maria
Edwiges de que um advogado ameaqou
representar contra ela junto A Correge-
doria de Justiqa da Capital por demora na
tramitagao do process, pressao que te-
ria feito a juiza se apressar em ir buscar
pessoalmente os autos. Disse ainda que
"foi a primeira vez que presenciou o pro-
cedimento de um magistrado se dirigir at6
a secretaria para retirar o process a fim
de despachar". E que a dra. Edwiges
"nao despachou nenhum dos processes
de r6us press durante o perfodo em que
responded pela 6" vara penal".
Roberta Drummond Martins, analis-
ta judiciArio, declarou que durante o


6 Jornal Pessoal MAIO DE 2010 1V QUINZENA









o banco dos reus


perfodo em que a dra. Edwiges respon-
deu pela 6a vara "nao chegou a v8-la
ocupar o gabinete do juiz, recebendo os
processes e proferindo os despachos no
pr6prio gabinete da vara em que 6 titu-
lar". No perfodo em que a magistrada
responded pela vara havia vdrias audi-
8ncias marcadas, seguindo a pauta nor-
mal da vara: "entretanto, a jufza reali-
zou apenas uma ou duas audiencias".
Afirmou ainda que o caso dos assaltan-
tes foi "o 6nico em que o magistrado foi
at6 a secretaria pessoalmente buscar um
process para proferir despacho".
Esses e outros testemunhos levaram
o desembargador-relator a concluir que
o process do interesse do escrit6rio do
irmao da juiza "obteve tratamento dife-
renciado corn relaqdo aos outros proces-
sos de r6us press, demonstrando, sem
divida, o comprometimento da imparci-
alidade" de Maria Edwiges Lobato. "Ora,
se o comando 6 impingir celeridade aos
feitos, que sejam todos tratados de igual
maneira", observou o desembargador
Leonam Gondim Jdnior.
Concluiu ele: "Nao se pode dizer que
a magistrada adotou procedimento cor-
reto quando, incontestavelmente, de-
monstrou o seu interesse pessoal em
despachar exclusivamente o process
daquele r6u preso, Laerqo Cruz de Aqui-
no e, segundo ela, nao percebeu que seu
irmao figurava na procuraqao como ad-
vogado da parte". Ressalvou a circuns-
tdncia de que a attitude dajuiza "nio cau-
sou prejuizos irrepariveis, at6 porque,
posteriormente, a cust6dia do r6u foi res-
tabelecida", mas reconheceu a caracte-
rizagqo da falta de isengqo de animo da
julgadora para atuar no process.
Na conclusao da andlise, sugeriu a
aplicagao, por escrito e reservadamen-
te, da pena de censura a Maria Edwiges
de Miranda Lobato, "tendo em vista o
seu procedimento incorreto no exercicio
da funqdo". 0 tribunal decidiu por una-
nimidade, com a aprovaqio do Minist6-
rio Piblico, adotar a sugestao do relator,
em ac6rdao publicado no dia 5. Mas foi
necessario realizar quatro sessoes para
conseguir quorum. Seis desembargado-
res se declararam suspeitos.
Punigao por omissao
No final do mes passado, o Conse-
Iho Nacional de Justiqa decidiu aposen-
tar compulsoriamente a jufza Clarice
Maria de Andrade, por ter mantido du-
rante 26 dias uma adolescent presa em
cela masculina com cerca de 30 ho-
mens, na delegacia de policia de Abae-
tetuba. Os conselheiros do CNJ acata-


ram por unanimidade o voto do conse-
Iheiro. "Este 6 um caso doloroso e em-
blemitico, que chama a atenqio para a
responsabilidade dos jufzes sobre o que
ocorre no sistema prisional", enfatizou
o entao president do CNJ, ministry
Gilmar Mendes, que acompanhou o voto
do relator, Felipe Locke Cavalcanti.
A jufza paraense foi condenada por se
ter omitido em relaqao h prison da menor,
que sofreu torturas e abusos sexuais no
perfodo em que ficou encarcerada irre-
gularmente. A menina foi presa em 2007
por tentative de furto, crime afian9avel.
O relator do process disciplinary se con-
venceu que a juiza conhecia a situaqao
do circere, por ela visitado tres dias an-
tes. Amagistrada viu que nao havia se-
paraqao entire homes e mulheres e eram
p6ssimas as condiq6es de higiene. Mes-
mo assim "nao tomou nenhuma provid8n-
cia", criticou o relator.

Ede tambem se conven-
ceu com as provas apresen-
tadas de que Clarice Andra-
de teria adulterado um off-
cio encaminhado a Correge-
doria Geral do Estado, no
qual pedia a transferencia
da adolescent, ap6s ter recebi-
do comunicaqao da delegacia de policia
sobre o risco a que a menor estava ex-
posta. Ajufza "retroagiu a data do off-
cio para tentar encobrir sua omissao",
concluiu o relator.
Segundo Cavalcanti, os dois fatos
foram gravissimos e comprometeram a
permanencia da juiza na magistratura,
impondo ao CNJ sua aposentadoria
compuls6ria, que 6 a pena maxima no
ambito administrative. 0 conselho tam-
b6m encaminhou c6pia dos autos ao
Minist6rio Publico do Estado "para que
seja verificada a possibilidade de pro-
posiqao de uma a9ao civil publica. Se
a aqao couber, a magistrada poderi
perder o cargo ou ter sua aposentado-
ria cassada. A ligqo que esse caso dei-
xou a c6pula do judiciario 6 de que o
poder precisa ter presenga constant no
acompanhamento da execuqao penal, o
que atualmente nao acontece.
Com narcotrifico
Se a jufza Clarice Andrade falhou
por sua passividade, talvez a juiza Sa-
rah Castelo Branco tenha pecado pelo
oposto: o excess de iniciativa. Num
domingo, 18 de abril, ela estava de plan-
tdo no f6rum criminal de Bel6m quan-
do foi procurada por Jess6 Dias Fran-
9a. Ele se apresentou como filho ado-


tivo de Jos6 Roberto Fernandes Bar-
bosa e se queixou de que, na v6spera,
fora impedido de visitar o pai de cria-
9ao, preso no complex penitencidrio
de Americano.
De pronto, sem ouvir o represen-
tante do Minist6rio Publico, que tam-
b6m estava de plantao, sem ter prova
documental do declarado nem se infor-
mar melhor sobre o preso, a juiza se
disp6s a ir at6 o municipio de Santa
Izabel, distant 30 quil6metros de Be-
16m, junto com Jess6 e a advogada do
preso, D6bora do Couto Rodrigues,
corn a proteqio de um Policial Militar
que atua no f6rum.
No Centro de Recuperagqo Peniten-
cidrio ajufza determinou a visit no par-
lat6rio, da qual teria participado, e ain-
da retornou em seguida, quando s6 a
advogada falou com Jos6 Roberto. A
magistrada ficou esperando e retornou
corn D6bora. Antes de sair, teria dito
que sua presenqa fora solicitada por
uma desembargadora, cujo nome nao
citou, e que determinaria a transferen-
cia do preso para a unidade prisional de
Icoaraci, cujas condi6es de seguranqa
sdo inferiores.
Para a policia civil, a jufza cometeu
desvio de fungao, abusou das suas prer-
rogativas, violou as normas do sistema
prisional e pode ter sido usada para a
concepqao de um plano de fuga tanto
de Jos6 Roberto quanto de Jocicley
Braga de Moura, o "Dote". Ambos,
segundo a inteligencia policial, integram
a principal rede do trifico de cocafna
no Norte e Nordeste do pais. Ambos
foram press em Manaus, onde se es-
condiam de mandados de prisao expe-
didos pela justiqa paraense. Jess6, que
se declarara no dia anterior da visit
determinada pela juiza como irmao de
Jos6 Roberto, era tamb6m da quadri-
lha, respondendo a process na justiqa
do Amazonas. A policia diz ter aborta-
do o plano de fuga a partir da apreen-
sao de um croquis da penitenciaria, pre-
parado para orientar a aqao, e separou
os dois press.
0 superintendent do Sistema Peni-
tencidrio, Justiniano Alves Jdnior, repre-
sentou A Corregedoria Metropolitana de
Justiqa contra Sarah Castelo Branco,
pedindo a instauraqao de procedimento
disciplinary para apurar a a9ao "inusita-
da, irregular e abusiva" da magistrada.
A Ordem dos Advogados do Pard ade-
riu ao pedido e solicitou o acompanha-
mento do Minist6rio Publico do Estado e
do Conselho Nacional de Justiqa. Pedem
a puniyao de Sarah Castelo Branco.


MAIO DE 2010 1a QUINZENA Jornal Pessoal 7













CAPELA
Em 1827 o bispo do Pard, dom
Romualdo de Souza Coelho,
benzeu uma "espaqosa capela"
construida no interior de um
velho pr6dio residential na tra-
vessa Benjamin Constant, en-
tre 28 de Setembro e Manoel
Barata (que antes era Paes de
Carvalho), no bairro do Redu-
to. A vidva do professor Eva-
risto Ribeiro da Cunha Couto,
que mantinha a capela, decidiu
demoli-la, em 1911, substituin-
do-a por outra, que estava em
construqao na casa que ocupa-
ria, na avenida Nazar6. Para l1
levou as imagens de santos e a
"memorivel placa" que regis-
trou a bengao. Onde tudo isso
foi parar? Em algum lugar coe-
rente corn esse tipo de mentali-
dade, que havia e continue a
haver entire os paraenses.

ACIDENTE
0 primeiro acidente na cons-
truqao do edificio Manuel Pin-
to da Silva ocorreu quando as
obras jai estavam adiantadas, no


final de outubro de 1957. Um
brayal tentou passar de um lado
para o outro sem usar as esca-
das. Ao pular de uma tdbua de
madeira para outra, se desequi-
librou. Ainda tentou agarrar-se
a uma segunda tibua, mas ela
se soltou e veio com ele ao
chao. 0 impact do acidente foi
maior porque Bernardino Mar-
tins Ferreira, de 19 anos, estava
no 23 andar do 2 bloco do pr6-
dio, a maior altura da qual uma
pessoa ji cafra em Bel6m. Du-
rante mais de meio s6culo o
"Manuel Pinto da Silva" foi o
maior arranha-c6u do Norte e
Nordeste do pais.

CIGARRO
A Souza Cruz, nome brasilei-
ro da American Tobacco, insta-
lou sua fibrica em Bel6m no fi-
nal de 1956, na rua da Munici-
palidade (onde 6 hoje o Sebrae),
a s6tima do pafs. Inicialmente
apenas para produzir o "Ho-
llywood", forte e de grande po-
pularidade. Em 1957 o governa-
dor Magalhaes Barata reuniu


quase todo seu secretariado
para visitar as instalaq6es da
empresa, que era chefiada aqui
por Osvaldo Ribas Carneiro.
Disse que ficou impressionado
corn as condiq6es de trabalho
oferecidas pela Souza Cruz aos
seus funcionarios.

CENA
Foi uma cena tipica dos fil-
mes de gangsteres de Chica-
go, aquela de novembro de
1961 em Bel6m. Quando dois
fiscais do Instituto Brasileiro
do Caf6, que seguiram um ca-
minhao carregado de caf6 cru
em grdos, entraram no dep6si-
to, no infcio da rua Dom Ro-
mualdo de Seixas,onde o vef-
culo estacionara, descobriram
ld dentro mais dois caminh6es
tamb6m carregados de caf6.
Mas nao puderam fazer nada.
Armados e em ntmero superi-
or, os homes flagrados subi-
ram nos caminh6es e fugiram.
O caf6 era desviado da distri-
buiqao feita pelo IBC e usado
como moeda de troca do con-


trabando. Pagava pelo ufsque,
os perfumes e as sanddlias ja-
ponesas que vinham das Guia-
nas. Nesse mesmo mes a Alffin-
dega descobriu um dep6sito de
mercadorias contrabandeadas
na bafa de Carnapij6. Era roti-
na no Pard de entao.

INDUSTRIAS
Bernardino Henriques era o
chefe do "forte grupo" da Pard
Industrial e das Lojas Cim6vel
quando, em 1961, regressou de
uma viagem por Portugal, Es-
panha e Franqa. Visitou os fa-
bricantes de mdquinas industri-
ais para aluminio e fabricaqao
de papel porque era seu proje-
to intensificar a produgao dos
"jd conhecidos" utensilios de
aluminio da Pisa e da prepara-
qao de papel "especialmente
para as inddstrias de caf6, atd-
car e outras utilidades".
Com as estradas, que abriram
o mercado amazonico para as
inddstrias do sul do pafs, esses
pianos foram se tornando so-
nhos de verdo.


FOTOGRAFIA

Domnrio

baratista


0 future colunista
social Isaac Soa-
res discursa, ao to-
mar posse como
vice-prefeito de
Belem, em 13 de
novembro de 1961.
Sentado, de pale-
td branco, ao lado
da esposa, Julia,
ouve-o atentamen-
te o prefeito eleito,
coronel Moura
Carvalho. Ao re-
dor, na sala do Tri-
bunal do Jari (toda
a justiCa estadual
se restringia aos funds do Paldcio Antonio Lemos, onde,
ao contrdrio de hoje, o alcaide despachava cotidianamen-
te), os figures do PSD, que continuava a dominar a poli-
tica paraense, dois anos depois da morte do seu maior
lider, Magalhdes Barata. 0 carisma de Barata ainda res-
soava e os baratistas se beneficiavam da alianga national


PSD-PTB, que colocara Jodo Goulart na vice-presidencia
e no topo, quando o instdvel Jdnio Quadros renunciou,
tres meses antes. 0 governador era Aurelio do Carmo,
que continue em plena atividade. 0 prefeito interino era o
polemico juiz Olavo Rocha. A elei9do foi menos de dois
meses antes da posse, em 24 de setembro.


8 Jornal Pessoal MAIO DE 2010 1I QUINZENA


IMEM6RIIX A mICcimmE







PROPAGANDA

Guaran' resistente

Belgm sempre foi a sede de fdbricas de
guarand, embora nem sempre os produtos
tenham sobrevivido ou fossem de qualidade
confidvel. Mas o Guarand Globo, produzido
por Duarte & Fonseca, jd tinha conceito
estabelecido em 1952, quando fez este
antncio, de bom padrdo para a 9poca. E
continue present no mercado.


I (i. 149


JOURNAL
Quem 6 mais velhinho deve se lembrar: antes dos
filmes, os cinemas exibiam o "Fox-Jornal" ou equiva-
lente, com o noticiArio mais important ou corn patro-
cinio commercial. Geralmente eram acontecimentos corn
dias ou semanas de atraso, mas, sem a televised, o
cinema supria a falta das tele-noticias. Em novembro
de 1961, por exemplo, o Olimpia apresentava como atra-
gqo "reportagem especial da CinematogrAfica Sdo Luiz
sobre a visit do president Jodo Goulart a Belem. Aldm
da chegada do president ao aeroporto de Val-de-Cdes
e da receppqo que lhe foi oferecida pelas autoridades
locais, esse journal focaliza aspects da inauguragao
da quarta turbina da Forqa e Luz do Pard S. A. e da
sessdo da Camara Municipal, na qual o primeiro man-
datirio do Pais recebeu o titulo de Cidaddo de Bel6m".

ESCOLAS
Em 1962 Belem tinha aproximadamente 400 mil habi-
tantes (tres vezes e meia menos do que agora). Pelo
menos 80 mil eram criangas em idade de receber o pri-
meiro ensino de letras. A prefeitura contava entdo corn
36 escolas, em condiq6es de receber 10.526 alunos.
Eram 24 na capital, cinco em Icoaraci e sete em Mos-
queiro. Pelo menos numericamente, houve uma regres-
sao desde entao na rede municipal de ensino.


IL


Ha uma frase que soa como sen-
tenqa nas redaq6es: journal nao more
de v6spera; mas, quando comeqa a
morrer, nao tem escapat6ria. A Olti-
ma Hora do Rio de Janeiro morreu
quando seu criador, Samuel Wainer, a
vendeu para um grupo de empreitei-
ros, em 1971. Mas a certidao de pas-
samento s6 saiu 20 anos depois. t
um caso incrivel: por duas d6cadas o
journal vegetou, servindo de pasto para
vicejarem interesses paralelos ou an-
tag6nicos aojornalismo. Foi uma fase
exatamente igual A anterior, que tam-
b6m durou 20 anos, iniciada em 1951,
quando Wainer fundou o jomal. S6
que nessa primeira metade, a UH se
tomou legend, marco na hist6ria da
imprensa no Brasil. Da segunda, nin-
gu6m mais lembra.
Mesmo assim, nao acabou a cu-
riosidade sobre o fen6meno. Quemr
ainda busca uma reconstituigqo mais
convincente e substanciosa sobre as
origens e o fim do journal, foi atraido
pelo titulo provocative que Benicio
Medeiros deu ao seu livro: A rotati-
vaparou! Os dltimos dias da Ultima
Hora de Samuel Wainer (215 pAgi-
nas, Civilizaqao Brasileira, 2009).
Medeiros foi reporter nos estertores
do journal sob Wainer, continuou na
profissao depois e nela se destacaria
ainda mais. Parecia credenciado, se
nao a apresentar nova visao sobre
os anos de gl6ria do journal, ao me-
nos saciar a curiosidade dos seus
leitores sobre como se desnatura e
agoniza um grandejornal, visto a par-
tir de dentro da redagco, corn intimi-
dade. Os testemunhos disponiveis a
respeito sao francamente insatisfa-
t6rios no Brasil.
A situaqao continuard imutAvel.
Talvez sem a intencqo, Janio de Frei-
tas jA di pistas nessa direcqo quan-
do observa na orelha do livro (e bem
que podia ser um alerta): "Este nao 6
um livro de mem6rias, 6 um livro de
lembrangas". 1 muito pouco para uma
hist6ria tdo pat6tica. Benicio, ao con-
trdrio do que diz seu apresentador,
nao tinha consciencia na 6poca da
importancia do que vivia e testemu-
nhava. 0 que lhe sobrou nao chega
A mem6ria: fica no plano da lembran-
9a. Ela esta bem narrada, tem trechos
interessantes, mas frustra o titulo.
0 autor pode se defender alegan-
do que nunca pretendeu mais do que
uma cr6nica de 6poca. Desobrigou-
se de consultar documents, fazer
entrevistas, forqar a mem6ria. Mas 6
uma pena que sua pretensio nao
haja sido maior. Quando os irmaos


MAIO DE 2010 18 QUINZENA Jornal Pessoal 9


0 fim da Ultima Hora:
lembrangas apressadas


Alencar compraram a UH, depois de
terem arrendado um journal ainda mai-
or, o Correio da Manhd, em deca-
d&ncia forgada pelo regime military,
corn o qual entrou em colisao, tinham
como objetivo dar apoio a candida-
tura do entao ministry dos Transpor-
tes, Mario Andreazza, A presid8ncia
da Repdblica.
Andreazza era dos poucos milita-
res que sairam das casemas para a ati-
vidade political, em funqao do novo
regime, sem estranhar a mudanqa. Era
um autEntico anfibio, como o paraen-
se Jarbas Passarinho, o que mais mi-
nist6rios colecionou, enquanto se
mantinha no Senado. Mas a patente
inferior de coronel foi fatal aos prop6-
sitos de Andreazza e ele teve que se
contentar como ministry. 0 esquema
jornalistico perdeu sua razao de ser. A
UH foi passada em frente. 0 Correio
da Manhd teve morte ingl6ria.
No entanto, ao contrario da no-
qao em geral aceita, quem se imortali-
zou foi o journal de Edmundo, Paulo e
Niomar Bittencourt. 0 Correio deve
sua existEncia e seu alto conceito ao
fato de ser um empreendimento au-
t6nomo, com marca pessoal e alguns
principios editorials indel6veis. Ja o
nascimento da ltima Hora resultou
de outro projeto politico, o de Geti-
lio Vargas, agora aplicado A fase de-
mocratica da sua passage pelo po-
der. Sem o dinheiro do Banco do Bra-
sil e a sombra do governor, espalhan-
do-se sobre anunciantes e "apoiado-
res", como hoje se diz, o journal de
Samuel Wainer nao se consolidaria.
Ele sobreviveu ao fim de Getilio,
tr8s anos depois de chegar ao mer-
cado, mas o getulismo ainda era uma
fonte de poder. Ressoava o bastante
para favorecer a criatura impressa.
Mas nao por muito tempo e nao ao
custo Wainer. Todas as virtudes,
conquistas e inovaq6es do journal re-
sultavam da condiqao especial do
seu dono, que era um verdadeirojor-
nalista, ao contrario da esmagadora
maioria dos capitaes da imprensa
(que mal conseguem escrever um bi-
lhete, como podemos constatar em
nossa ilharga). Infelizmente, todas as
defici8ncias, vicios e lacunas tamb6m.
Deve-se creditar a Wainer, por6m,
o m6rito de, uma vez despejado do
poder, que tanto perseguiu, ter-se
comportado com dignidade at6 o fim
dos seus dias, em 1980, aos 70 anos.
O ostracismo nao o deixou amargu-
rado nem derrotado. Merecia uma
lembranqa mais exigente do que a que
Benicio Medeiros lhe dedicou.









O BNDES se dispoe a investor 13 bi-
lh6es de reais na hidrel6trica de Belo
Monte. E 30% mais do que o Banco Na-
cional de Desenvolvimento Economico
e Social emprestou a sete grandes em-
preendimentos na Amazonia nos 61timos
quatro anos. Sdo cinco projetos privados
e dois puiblicos, de infraestrutura, ambos
de energia, que somam R$ 10,6 bilhoes.
O maior de todos, de R$ 6,1 bilhoes,
6 na hidrel6trica de Santo Ant6nio, no rio
Madeira, em Rond6nia, contratado em
marqo do ano passado. A usina, que deve
produzir 3.150 megawatts, tem orqamen-
to de R$ 13,5 bi. E tem ainda a hidrel6-
trica de Jirau, no mesmo trecho do rio,
com previsao de investimento de R$ 9,4
bilhoes (se mantida a relaqdo de 50%,


Grandes projetos


contra 80% em Belo Monte, serdo mais
de R$ 4 bilhoes do banco estatal).
0 segundo empr6stimo, no valor de
R$ 2,5 bilhoes, 6 no gasoduto Urucu-
Manaus, que parte de Coari e vai at6 a
capital amazonense, ja em operaqao.
Na expansao da hidrel6trica de Tucuruf
o banco comprometeu R$ 931 milhoes.
A MMX Amapi Mineraqao e Logisti-
ca, que era de Eike Batista, conseguiu
R$ 580 milhoes. A Alcoa, no mais re-
cente desses contratos, de novembro do
ano passado, ficou corn R$ 304 milhoes
para implantar a infraestrutura da mina
de bauxita de Juruti na escala de 2,6
milhoes de toneladas anuais de bauxita.
A Jari Celulose, do grupo Orsa (ori-
ginalmente do americano Daniel Lu-


dwig), foram reservados R$ 145 mi-
lhWes. E para a Usipar instalar em Bar-
carena dois altos fornos para produzir
500 mil toneladas de ferro gusa e uma
plant de sinterizaqgo, R$ 31 milh6es.
A demand por recursos do BNDES
cresceu tanto que o FAT (Fundo de Am-
paro ao Trabalhador), que constitui a
principal fonte do banco, nao deu con-
ta. 0 governor decidiu entrar corn verba
volumosa do tesouro. Se os neg6cios nos
quais o banco entrou derem certo, o di-
nheiro volta. Se nao, vai para a conta
da viiva. 0 governor Lula entrou com
tudo na nova era dos "grandes proje-
tos". Nenhum deles se compare ao de
Belo Monte: em volume ffsico de dinhei-
ro e em potential de risco.


CAKIrASAO EDITOR


CONTAS
0 Jornal Pessoal n.2 463 veio
repleto de mat6rias de interes-
se do publico leitor, como 6 o
caso daquela referente as mi-
lionarias instituicges chama-
das de Tribunais de Contas. No
Estado do Pard e no Rio de Ja-
neiro, e mais em poucos mem-
bros da Federacgo, existe uma
entidade similar denominada
de Conselho de Contas dos
Municipios. Esta anomalia foi
criada no tempo do governor
military, tendo a frente o senhor
Alacid Nunes, sendo inspirado
e instalado por um coevo seu,
jd falecido. Mesmo sob cerra-
da contestacgo de um grupo
dissidente que arg0ia a sua
duplicidade e que iria acarre-
tar mais despesas desneces-
sarias ao erario municipal,
ainda assim ele prevaleceu.
Ele, como o seu semelhante
estadual, "sao uma esp6cie de
caixa preta" e passam a "servir
de moeda de troca entire gover-
nantes e partidos politicos" e
sao usados para "acomodar
politicos em fim de carreira.",
comentarios do president na-
cional da OAB, aos jornais da
terra, sobre o TCE. Como voc6
tamb6m anotou no artigo "Cor-
tes Viciadas", h6 politicos que,
mesmo no primeiro mandate,
j6 pleiteiam semelhantes sine-
curas. Nao possuo nenhuma
influencia no campo da politi-
ca partiddria, nem tampouco
tenho articula(go cornm o poder,
e muito menos consigo influir
no comportamento das pesso-
as; contudo, sempre que encon-


tro uma conjuntura propicia,
costumo expressar a minha in-
dignacao contra as maquina-
g6es e improbidades praticadas
por pessoas que ocupam car-
gos relevantes na vida piblica.
Sobre esses Tribunais e Con-
selhos j6 critiquei e at6 contes-
tei as suas existencias, devido
os custos excessivos que acres-
centam aos orgamentos pibli-
cos, sem a contrapartida efici-
ente e eficaz dos servigos pres-
tados. Por isso mesmo, s6 pos-
so aplaudir o seu questiona-
mento, e a attitude da outrora
bela e requisitada deputada Ci-
dinha Campos (citada no artigo)
desancando, no recinto da As-
sembl6ia Legislativa do Rio de
Janeiro, os fin6rios candidates
que pretendem transitar indis-
tintamente nos plenarios da
Assembl6ia e do Tribunal. Pal-
mas, portanto, A deputada Cidi-
nha Campos, pois, se j6 nao tem
a beleza corp6rea de antes, seus
atos Ihe outorgam uma just ju-
ventude 6tica e moral.
Duas informacges comple-
mentares. A primeira: consta
que o deputado Arnaldo Jordy,
do PPS, requisitou toda a docu-
mentag o do TCE, relative aos
processes administrativos sob
suspeicgo, incluindo-se o ru-
moroso caso do auxilio-mora-
dia (?) retroativo a 1994/97. A
president do TCE, segundo os
jornais, responded que nao ti-
nha condig6es de mandar re-
produzir as c6pias da papela-
da, por ser um volume muito
grande de documents e exigir
grande disp@ndio financeiro


(?). A segunda: o conselheiro
Nelson Chaves, que tenta pu-
lar do "Trem da Alegria", resol-
veu, segundo a imprensa, re-
nunciar a sua quota do esbu-
Iho e doar a uma instituicao
de caridade. 0 correto seria o
conselheiro devolver a quan-
tia que Ihe coube dos cofres
do tesouro, e explicar ao p6-
blico pagante a razio de tal
procedimento.
Rodolfo Lisboa Cerveira

REDIVISAO
Ja tenho acompanhado um
pouco sua corajosa trajet6ria
e vejo-me na necessidade de
partilhar-lhe esse tema espi-
nhoso: a divisio territorial do
Pard. Antes, um resuminho: vivi.
outrora, no norte goiano, atual
Tocantins, e pude acompanhar
a movimentacgo, principal-
mente da s6rdida classes poli-
tica em vias de ostracismo,
quando Siqueira Campos con-
seguiu aprovar a criacgo do seu
Estado, podemos assim dizer.
Chegou, num comicio, na cida-
de de Filadelfia, fronteirica
com Carolina (MA), a bradar
que, dali por diante, nenhum
tocantinense passaria fome.
Nem Jesus Cristo cometera ta-
manho compromisso em sua
jornada messiTnica. Pois bem,
corn essas e outras, os origi-
narios da regigo acreditaram
em sua redengio plena, des-
feita corn o transcorrer pelas
tragddias politico-administra-
tivas em curso.
Como funcionario publico,
nao fiquei na recent federa-


gao, e retornei a Goias. De tudo
que pude perceber, apenas
desgosto e desencanto com os
resultados finais: judiciario,
legislative e tribunais de con-
tas do Estado e municipios nas
maos dos apadrinhados, as-
sembl6ia legislative abarrota-
da de comissionados, tal como
o Estado, enriquecimento dos
mais pr6ximos dos detentores
do poder, as oportunidades de
neg6cios sempre com os subal-
ternos, enfim, uma sucessio
de erros e desperdicios em
nada diferente do ente des-
membrado. 0 municipio goia-
no de Chapadao do C6u, divisa
com Mato Grosso, em tempos
recentes, reclamava do aban-
dono do governor estadual e
ameagou anexar-se ao Estado
vizinho. Veja bem, o rem6dio
dado como salvador, agora, nao
funciona mais.
Ao Para, entio. Tememos
que, como aqui, a formula se
repetir6, e esse Estado, gran-
dioso em sua integrada diver-
sidade, servira somente como
um banquet aos mais esper-
tos e cevando as elites locais,
como sempre, insaciaveis.
Celso Romeu

REMO
Consegui identificar o time
do Remo campeio do Estado
em 1953. Da esquerda para a
direita, em p6: tecnico Nagib
Matni, Expedito, V61iz, China,
Modesto, Jambo e Muniz; aga-
chados: Herminio, Quiba, Ses-
senta, Jaime e Marido.
Edilson Silva


- Jomal Pessoal
Editor: Licio Fl~vio Pinto


Diagramag o e ilustra96es: L. A. de Faria Pinto Contato: RuaAristides Lobo, 871 CEP: 66.053-020
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10 Jornal Pessoal MAIO DE 2010. QUINZENA


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0 que aconteceu a Lyoto Machida?


O que aconteceu a Lyoto Machida
que o fez perder a revanche contra o
paranaense Marcelo Shogun Rua, de-
pois de lutar apenas tr8s minutes do pri-
meiro round, no dia 9, em Montreal, no
Canada, numa competiqao de Artes
Marciais Combinadas (UFC, em ingl8s)?
A primeira luta terminou em meio a dud-
vidas e critics, mas, independentemen-
te do resultado, Machida fez jus A sua
fama. Vencera as 15 lutas anteriores,
combatendo com pleno dominio de si,
do adversdrio e do ringue, como um ver-
dadeiro samurai.
Seu rosto nao tinha marcas e suajovi-
alidade disfarqava a idade madura, de 31
anos, quando subiu novamente no tablado
para o tira-teima corn Shogun. Parecia
consciente e aplicado A recomendaqao do
seu pai e mestre: proteger a cabeqa, nao
deixar que ela fosse golpeada.
O velho Yoshizo Machida sabia da
profundidade do que dizia. Lyoto nao
tem a agressividade que um vale-tudo
mal disfarqado requer. Nao foi educa-
do para ser um matador. Fora do rin-
gue, 6 uma pessoa gentil, de voz macia,
de conversa inteligente, um universiti-
rio. Precisa de muita concentraqdo e
determinaqdo para se transformar num
lutador disposto a tudo, especialmente
a bater no oponente para destruf-lo. E
deficiente no chao. Clissico demais.
Todas essas lacunas se revelaram
quando ele caiu, sob o impact do pri-
meiro dos 11 socos que Shogun lhe apli-
cou em s6rie continue, e por ter escorre-
gado quando do primeiro golpe. Estava
A merc8 da execuqao, cuja violencia foi
reforqada pela sua posigao, com a cabe-
qa contra o tablado, sem elasticidade
para diminuir o impact dos murros de-
vastadores, absorvendo-os ao menos em
parte. Mais alguns murros e talvez sua
carreira estivesse liquida-
da. Ou pior: sua vida.
Seu rosto provavel-
mente nunca mais seri
destituido de marcas e ci- No at
catrizes. Ajovialidade po- (descont
deri se tornar coisa do papeis
passado. E seus 6rgdos eram de
intemos abalados? E sua 0 merc
psique? E os desdobra- nes.sa rel
mentos dessa derrota ar- segui
rasadora: ela nao estimu- Bergainin
lard a ousadia e a audi- Na
cia dos adversirios em -.-,- ---


potenciais, que o temiam at6 o nocau-
te? Ele poderi ter a vida dupla, de um
jovem senhor desanuviado da brutalida-
de da combinagqo de vdrias lutas mar-
ciais em uma s6, ou teri que se anima-
lizar tamb6m? Ou nao sern melhor de-
sistir dessa carreira de gladiador para
velhos audit6rios apenas maquiados de
civilidade e civilizaqao?
Um filho meujamais subiria num rin-
que como aqueles que tem sido o lugar
de trabalho de Lyoto Machida. Claro, sou
estranhoa lutas mas, eu pudesse dar um
conselho a ele, ao seu pai e aos seus ir-
maos, recomendaria se afastar dessa
pritica brutal em beneficio do cidadao
bom e admirivel que ele 6. Nao sei o
que o perturbou antes da luta com Sho-
gun, que parecia impedi-lo de se concen-
trar suficientemente. Tamb6m nao sei
qual circunstincia nao lhe permitiu se
preparar adequadamente para um desa-
fio como aquele. S6 sei que, nas duas
vezes em que colocou o adversario no
tablado, buscava ar pela boca e nao con-
seguiu aplicar nenhum dos seus golpes
potentes. Shogun se levantou e virou o
jogo com uma facilidade surpreendente,
que ja fazia temer o que se seguiu.
Dentro do ringue, o que vi (e nunca
mais quero rever) foi a destruigao de uma
pessoa que, moments antes, parecia um
guerreiro e, sob o impact dos socos, que
se multiplicavam pela conivencia dojuiz,
se tornara um boneco de came, osso e
sangue moidos, espirrados, amassados.
Tentei imaginar a dor lancinante que Lyo-
to devia estar sentindo naquele momen-
to e o padecimento que se seguiu no hos-
pital, na tentative de se recuperar.
Tinha mesmo que imaginar. Depois
do fraco noticidrio da segunda-feira, os
jornais de Bel6m se calaram na suite
da luta. Nenhuma noticia na terqa-fei-



"O cara"

1o passado o Brasil pagon juros reais posi
ada a iniflatiol dte /2.57c' a qucni compr
e recebeu, nas aplicatt es dats sais reserve
246 bilhoes de dolares. Jurors negalivo's d
ado financeiro iniernacional It ve IIn -1anh
actio de 16.37%. onil em lorno tle .USS 40
tdo os dados oficiais, que o prtrfessor Ric
i cosiutina ditielgar, smin provocar a rea'tio
o e a ioa que o presidenie Lula e1 "o caria


BB 'J -r .-'. .t


ra. No dia anterior, o primeiro depois do
nocaute de Lyoto, o Didrio do Pard
parecia disposto a ampliar a mi sorte
do paraense adotivo, dando titulos qua-
se ir6nicos ao noticiario e abrindo uma
foto do moment em que Lyoto era mas-
sacrado. Ja em 0 Liberal a cobertura
do day-after contrastava corn a dimen-
sdo que o journal dos Maiorana deu A
apresentaqao da luta, corn um tabl6ide
de quatro pAginas na v6spera, dedicado
a exaltar os feitos do lutador formado
em Bel6m na academia do pai.
Seri que a cobertura superlativa do
jomal dos Maiorana influiu no animo de
Lyoto, infundindo-lhe excess de confi-
anqa, que foi fatal diante da aplicaqao,
concentracqo e gana do adversario, feri-
do em seus brios pela decisdo da luta an-
terior, por pontos, que ele considerou er-
rada? Nao s6 ele, mas a maioria da torci-
da, que estava ao lado dele na revanche?
Ja a repercussao desfavorivel do
journal da famflia Barbalho era uma rea-
qao a um eventual acerto entire os Ma-
chida e os Maiorana, que transformaria
o lutador num produto da "casa", colo-
cando o Didrio em posiqao subalterna?
O journal dos Barbalho, se ficou atris
por deficiencia pr6pria, tentou compen-
sar mantendo espaqo para noticiar a
chegada de Lyoto a Bel6m, As duas da
madrugada, no mesmo dia, enquanto 0
Liberal nada publicou. O jomal dos Mai-
orana reagiu indo A entrevista coletiva
de Lyoto, A qual o Didrio nao compa-
receu, e replicando a entrevista no dia
seguinte, com alguns acr6scimos.
Quaisquer que sejam os fatos por
tris dessa cobertura desconexa, s6 sua
existencia pode servir de reforqo ao
pedido que, em nome dos admiradores
de Lyoto e de todos os Machida, lhe fago
aqui: deixe a luta professional, praticada
nessas rinhas mal disfar-
qadas, e abra novos hori-
zontes na sua vida. Um
desastre pode servir de
tivos inspiracqo a novos desa-
on11 eus fios para uma pessoa com
is. que as qualidades do mais
e 3.8(-. bem sucedido de todos os
0 real atletas de combat que o
hilhoes. Pard ji viu se former em
ardo seus limits. Nao precisa
ide\'ida. ser mais no tablado, onde
i ele ji provou suas quali-
-. dades e valor.


MAIO DE 2010 12 QUINZENA Jornal Pessoal 11


! -. -.-__ w J







Liberdade de imprensa

e o dono da liberdade


Foi a Unesco, a agencia da ONU para
ciencia, cultural e educaqio, que instituiu
o Dia Mundial da Liberdade de Impren-
sa, comemorado todos os anos a 3 de maio.
Na sua mensagem sobre a data, a Unes-
co "conclama os govemos e autoridades
ptiblicas ao redor do mundo a colocarem
um fim na cultural da impunidade relacio-
nada a violencia contra jornalistas, por
meio da investigaqao e da puniqgo dos
responsAveis pela viol6ncia contra profis-
sionais de mfdia, e por tomar as necessi-
rias precauq6es para tomar possivel que
os jornalistas possam continuar a nos ofe-
recer o conhecimento essencial e a infor-
mayqo que emanam de uma imprensa li-
vre e independente.
Eu achei que a conclamagao era vili-
da nao apenas em Nova York, mas tam-
b6m nos confins amaz6nicos. Por isso,
quando fui agredido pelo director do jomal
0 Liberal, Ronaldo Maiorana, em fun-
9ao de um artigo que escrevi nestejomal,
em janeiro de 2005, procurei a protecao
da agencia da Organizacqo das Naq6es
Unidas. Ela tinha em seu poder um ins-
trumento concrete para transformar pa-
lavras em agao. Juntamente corn a Asso-
ciagdo Nacional de Jomais (ANJ), 6rgao
patronal de representaqgo das empresas
jomalisticas brasileiras, a Unesco criou,
em 1997, o Programa em Defesa da Li-
berdade de Imprensa, que recebe recur-
sos do Programa Internacional de Defe-
sa da Comunicagqo. At6 a dpoca em que
fui agredido, por exercer a profissdo de
jomalista e nenhuma outra, a ANJ regis-
trara 200 atentados A liberdade de impren-


Numa terra azucrinada pelo techno-
brega, uma sirene aguda apregoando a
barbarie do barulho, o iltimo CD de An-
dr6a Pinheiro 6 a reconciliaqao com a
melhor mtdsica, melodiosa, harmonica, de
bom gosto. Mas nao se trata de um acon-
tecimento local, provinciano, fugaz: "Nao
Apenas de Passagem", o titulo inspirado
(que lembra o "Nao para Consolar", do
poeta Max Martins), diz muito do que se
encontrard no album, editado corn ex-
trema competencia pela artist plistica
Andr6a Pinheiro: um produto de quali-
dade sem fronteiras, international.
Quem comanda o espeticulo 6 a can-
tora. Pela selegqo das misicas que for-


sa no Brasil. Dessa relaqgo, por6m, nio
constava a agressdo que sofri. Por inicia-
tiva pr6pria, a agencia nao fez o registro.
A falha era desconcertante, mas pre-
sumi a boa f6 da instituigqo. Enviei-lhe
um relato do acontecimento e pedi sua
inclusdo no levantamento, no qual ha-
via numerosas ocorrancias de muito
menor relevancia, mas a ANJ, falando
tamb6m em nome de sua parceira, se
recusou a a acrescentar o que Ihe in-
formei h relag5o de atentados a liber-
dade de expressao. Forqada por minhas
cobranqas, usou como fundamento da
sua attitude um parecer que encomen-
dou. Sua assessoria caracterizou o epi-
s6dio como produto de "rixa familiar".
E assim a questdo foi arquivada.
Quando a entidade fez um novo le-
vantamento, achei que chegara a hora
de abrigar um novo atentado a liberda-
de de imprensa, o juiz Raimundo das
Chagas Filho, da 4a vara civel de Be-
16m, me condenou a indenizar os irmaos
Romulo Maiorana Jdnior e Ronaldo
Maiorana, por supostamente ofenda-los
em um artigo, no qual fiz refer8ncia a
origem do grupo de comunicaqao da
familia, o maior do norte do pais, afilia-
do A Rede Globo de Televisdo.
Al6m de me condenar ao pagamen-
to de 30 mil reais a titulo de indeniza-
qdo, ojuiz me impunha a publicaqao de
uma carta da dupla, no exercfcio do di-
reito de resposta, carta essa que eles
nunca anexaram aos autos do process
(e, por isso, nao fez parte da instruqao;
logo, nao existia para o mundo juridi-


Marca de artist

mam o disco, pela forma de interpretd-
las, pelo toque no arranjo, pela unidade
que consegue estabelecer, pelos mdsi-
cos que reuniu e a mensagem que fica
ressoando pelo que seus ouvintes tem de
melhor. Andr6a se consolida como uma
das musas paraenses, que conseguiram
ultrapassar a cercadura do localismo.
Delas, s6 Jane Duboc 6 composito-
ra, mas Andr6a, como Leila Pinheiro,
tem cultural suficiente para imprimir
uma marca pessoal nas composig6es
dos outros que canta, uma forma de
interpretacqo que teve sua melhor
matriz em Billie Holliday. Nada era
dela, mas parecia que todos os com-


co). Tamb6m me proibiu de fazer qual-
quer referencia a Romulo Maiorana e
a seus dois filhos, embora eles tivessem
pedido a tutela inibit6ria apenas para a
mem6ria do pai e nao para si.
0 caso era grave: censura pr6via pela
via judicial, algo proibido pela Constitui-
gqo. Nem assim a ANJ se disp6s a in-
cluir a censura determinada pelo juiz
Raimundo das Chagas ao Jornal Pes-
soal na relacgo dos 31 casos que o seu
portal relatava. Ficava claro que a defe-
sa da liberdade de imprensa estava con-
dicionada aos interesses corporativos da
associaqdo, que nao ia aplicar os seus
principios a um associado, que, ainda por
cima, 6 um dos 13 jomais que financial
o Program em Defesa da Liberdade de
Imprensa da ANJ/Unesco. Mas e a
Unesco, que alega agir em nome de toda
humanidade: como se curvou a essa vi-
lania? Qual a legitimidade para falar em
nome da liberdade de imprensa no Bra-
sil depois dessa conivdncia?
A perseguigdo dos irmnos Maiorana,
corn a cumplicidade de membros do ju-
diciario paraense, que lhe fazem todas
as vontades se mant6m e novamente se
aperta em tomo de mim. E a razdo de
este journal ter perdido a sua pontualida-
de nas tltimas ediq6es e nao poder acom-
panhar como devia os acontecimentos.
A movimentaqao forense dos processes
me desvia do exercicio da minha profis-
sdo, apesar dos esforgos que tenho feito
para resistir a essa manobra dos que nao
querem que a verdade seja mat6ria pri-
ma dojornalismo local.


positores tinham escrito as misicas
para ela, para sua voz, para sua vida.
Assim acontece com Andr6a, que apu-
ra ainda mais nesse CD seus crit6rios
seletivos. Junta artists nacionais e lo-
cais, valorizando o que criaram e apro-
ximando produtos tdo distintos e at6
antagonicos pela forma de cantar -
suave, meiga, sensual, intense.
E disco para fazer bonito em qual-
quer lugar do mundo, conseguindo o
que s6 a melhor muisica 6 capaz de pro-
porcionar: prazer e elevaqdo, alegria e
intimidade. Efeitos que nao estao ape-
nas de passage: surgem para ficar de
vez. Como Andr6a.