Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00342

Full Text


ABRIL
DE 2010

Z jornal Pessoal
jaQUINZENA


A AGENDA AMAZONICA DE LOCIO FLAVIO PINTO


N 462
ANO XXIII
R$ 3,00


PT/PMDB


Alian as ao vento

0 president Lulafoi o mais lembrado e o maior ausente na solenidade realizada no mrs
passado, em Marabd, para o infcio da implanta(ado da sidermrgica da Vale, que devia
render tantos dividends ao PT A razdo estava em outra ausencia: a de Jader Barbalho.


T sm ponto foi comum em todos
os discursos feitos durante a
solenidade de entrega do licen-
ciamento ambiental da Agos Laminados
do Pari, em Marabd, no mes passado:
a usina sidertirgica s6 saiu do papel gra-
gas a pressao direta do president Lula
sobre o president da antiga Companhia
Vale do Rio Doce, Roger Agnelli. A im-
prensa national reconstituiu o epis6dio:
irritado, o president exigiu que a Vale
nao se limitasse a extrair o min6rio de
ferro de Carajis. Queria a verticaliza-
gao do process produtivo at6 o ago.
Se nao fosse atendido, usaria o poder

LAGO DA USINA MAIOR


ao seu alcance para tirar Agnelli e co-
locar em seu lugar algu6m de confian-
qa, como o president do fundo de pre-
videncia do Banco do Brasil, o Previ, o
principal acionista da Vale, que execu-
taria suas ordens. Para se manter num
dos postos mais cobigados do pafs, Ag-
nelli cedeu ao president.
Lula foi convidado para o ato for-
mal que dava partida ao projeto, no va-
lor de 5,3 bilh6es de reais, mas nao com-
pareceu, nao mandou raz6es pdblicas
para a ausencia e nenhum dos orado-
res, que tanto citaram o president, se
lembrou do detalhe da sua ausencia.


Ainda mais injustificivel porque Lula
compareceu a events at6 insignifican-
tes, na voragem de promover a candi-
data do PT A sua sucessdo, a ex-minis-
tra Dilma Rousseff. Por que faltaria jus-
tamente a partida de um dos maiores
empreendimentos econ6micos em cur-
so no Brasil e para o qual sua interven-
gdo teria sido decisive, ao menos na
versao official, aceita por todos?
A razao certamente 6 political e se
deve A diretriz que Lula ji estabeleceu
para sua participagao na campanha
eleitoral deste ano: nao ird aos Esta-
COm6UA Am FAi


PT INCHOU ESTADO


I PAmG 11


~I 1





CONTINUAGAO DA
dos onde a base aliada do governor fe-
deral esti dividida. Este 6 o caso do
Para. Se ainda havia alguma divida
sobre o rompimento do PMDB corn o
PT, o epis6dio serve para elimina-la de
vez. Jader Barbalho nao foi a Marabdi
para a festival solenidade programada
pelo govemo do Estado.
0 president da repdblica podia at6
ter pressionado o lider do PMDB para-
ense para viabilizar sua pr6pria presen-
qa em urn ato tao important, de reper-
cussao national (e at6 international). Ou
entao abrir mao do compromisso firma-
do e aproveitar a oportunidade para aju-
dar o desempenho da sua cria polftica,
mesmo contrariando o deputado fede-
ral peemedebista, um dos seus princi-
pais interlocutores nas manobras polfti-
cas palacianas. Nao seria por esse in-
cidente que os dois romperiam. Acaba-
riam por acomodar seus interesses.
Havia, por6m, um detalhe para com-
plicar a iniciativa: a governadora Ana
Jdlia Carepa tamb6m se atribui a no
caso maternidade da siderdrgica. De
fato, ela se empenhou para que o proje-
to nao ficasse apenas como uma vaga
promessa da Vale, sem cronograma
certo. Mas a mineradora 6 maior do que
o pr6prio governor do Estado e esti
acostumada a adotar a estrat6gia de
promoter algo maior e compensar sua
falta corn algo bern menor, mas o sufi-
ciente para adogar a boca da voraz clas-
se polftica local.
A frigil pressao da governadora se
fortaleceu pela participagao pessoal de
Lula e a intrincada teia de rela96es que
se formou entire a mineradora, o gover-
no e o mercado. De fato, a Vale nao
pretendia implantar a siderfirgica do
Para, ao menos de imediato. Tanto que
6 o dnico dentre os cinco projetos si-
derdrgicos definidos em todo pafs em
que a empresa aparece sozinha, sem
nenhum s6cio.
Al6m disso, surgiu um component
conjuntural de iltima hora que deve ter
influido na decisao de Roger Agnelli de
receber pessoalmente a licenqa ambien-
tal pr6via que o Conselho Estadual do
Meio Ambiental concede A Alpa. 0 ex-
govemadorAlmir Gabriel retomou de vez
ao Para, abandonando seu fugaz retiro
no litoral de Sao Paulo, disposto a usar
politicamente uma arma poderosa: o sen-
timento anti-Vale. A lideranqa de Almir
ji 6 minima at6 no seu pr6prio partido, o
PSDB, mas justamente por essa fraque-


za seu discurso e seus atos estao se ra-
dicalizando e se tomaram obsessivamen-
te monoc6rdios: o Pard s6 tera future se
atacar a maior empresa que atua no seu
territ6rio, corn uma capacidade de gerar
dinheiro incomparavelmente superior aos
recursos da administraqao pdblica. Para
vfrios interlocutores, sem pedir reserve,
e at6 para a imprensa (que preferiu ig-
norar a informaqao), o ex-govemador
chegou a afirmar que esse combat po-
dia chegar a atos de sabotage, caso a
empresa nao mude sua forma de explo-
raqao das riquezas do Estado.
Nesse context, o president da Vale
decidiu reagir. Prestigiou a govemado-
ra, que passou a utilizar o projeto da si-
derirgica como o principal mote da cam-
panha publicitiria em andamento, e
mandou um recado para o ex-governa-
dor, ao ressaltar que agora a empresa
consegue se entender corn o poder pi-
blico, sem as inconstancias e rabugices
pr6prias do temperament de Almir,
agora agravadas pela sua fixagao numa
meta: nao permitir que Simao Jatene,
outrora seu amigo, correligiondrio e a
quem escolheu para substituf-lo, seja o
candidate tucano ao governor estadual.
A qualquer custo, mesmo o despropor-
cional em relagao ao objetivo.
Essa enfase impediu que Jader Bar-
balho, imbufdo de espfrito olfmpico, pu-
desse tamb6m ir a Marabi para umrn
acontecimento que o diminuiria. Dificil-
mente ele conseguiria algum faturamen-
to pessoal num cendrio montado para
destacar a governadora. Mas ele deve
ter sido o responsivel pela ausencia de
Lula, que, dias antes, no interior de Sao
Paulo, participara da entrega de ambu-
lIncias a prefeituras paraenses, princi-
palmente as controladas pelo PMDB.
Jader Barbalho esteve l1 e ficou pr6xi-
mo do president o bastante para sair
em fotografias. Nessa "inauguraqao",
a govemrnadora nao apareceu. Foi umrn
capftulo da base aliada national, a que
mais conta para a candidatura de Dil-
ma Rousseff.
Se esses epis6dios demonstram a
dissoluqao da alianqa partiddria que pos-
sibilitou a eleiqao de Ana Jdlia Carepa
em 2006, desfazendo a hegemonia de
12 anos do PSDB, apontam tamb6m
para o reforgo de outra hip6tese cogita-
da nos procedimentos para a campanha
eleitoral, de que Jader Barbalho seri
candidate ao govemo e nao A reeleiiao
ou ao Senado. 0 fato de ele nao querer
dividir palanque corn Ana Jdlia, de tal


forma a obrigi-lo a privar-se de partici-
par junto corn ela de atos que poderiam
proporcionar rendimento conjunto, sig-
nifica que ird disputar na eleiqao o mes-
mo espa9o que atualmente ela ocupa?
Jader ji nao estaria apenas abrindo
campo para algu6m que, a uiltima hora,
tirarA do bolso do colete para apresentar
como candidate do PMDB, mas ocupan-
do ele mesmo esse lugar? Pode ser que,
na hora oportuna, ele reverta a expecta-
tiva que tem criado nas suas peregrina-
9es pelo interior do Estado, de que con-
correrd contra Ana Jdlia, e ap6ie outro
nome, favorecido por essa estrat6gia.
Mas pode ser que o recuo Ihe acarrete
tal desgaste que ji nao poderi faz6-lo.
Qualquer que venha a ser a hip6te-
se confirmada, os uiltimos aconteci-
mentos indicam que a eleiqao deste ano
seri pesada e desgastante no Para, mo-
bilizando mais recursos e mais perso-
nagens, mesmo que seja para, corn
nova mudanqa de nomes, tudo conti-
nuar como esti.

Justiga

Acusado de pedofilia, o ex-deputa-
do estadual (do DEM) Luiz Afonso Se-
fer devia ter sido ouvido pela primeira
vez pela justiqa estadual em 27 de no-
vembro do ano passado, na Vara de
Crimes contra Crianqas e Adolescen-
tes. A audiencia ji foi remarcada algu-
mas vezes e at6 hoje, passados quase
cinco meses, nao foi realizada, por cau-
sa da defesa do ex-parlamentar. Na
6poca, Sefer se dizia movido por um
sentiment de revolta e indignaqao corn
o que lhe era atribuido, declarando-se
inocente. Logo, era o mais interessado
em dar celeridade a instrug~o proces-
sual para provar o que diz.
Parece ter mudado de opiniao. Es-
pecula-se que a protelagao visa preser-
var Sefer para ele poder sair novamen-
te candidate e voltar A Assembl6ia Le-
gislativa do Estado, corn fortes possibi-
lidades de vencer. Seu argument mais
forte 6 a rede de hospitals que mant6m
no interior. Corn o mandate, readquiria
o poder que perdeu, o que Ihe daria ou-
tro tipo de tratamento no process.
t o caso de perguntar se ele se
acertou corn os russos ou se a exage-
rada tolerancia da justiqa aos adia-
mentos 6 apenas manifestaqao de in-
sensibilidade e incompet8ncia diante
de tao grave questao. Quem puder (e
quiser) que respond.


2 Jornal Pessoal ABRIL DE 2010 1 QUINZENA







0 conhecimento que decide


Aprendi muito com um engenheiro
canadense que conheci na fdbrica de
celulose de Monte Dourado, ao tem-
po em que ela pertencia ao miliond-
rio americano Daniel Ludwig. Em
principio foi resistente e arisco. Quan-
do pressentiu que eu podia ser um in-
terlocutor de confianga, passou a se
abrir. Mas s6 aceitava conversar de
maneira franca quando atravessdva-
mos o rio Jari e iamos dialogar num
boteco de madeira no Beiradinho, di-
ante de vdrias garrafas de cerveja
(que ele bebia como dgua). Ali estd-
vamos fora dos limits autoritdrios da
empresa, em territ6rio livre. Aprendi
muito sobre a inddstria de celulose corn
ele, inclusive a ver criticamente o em-
preendimento. Respondia de forma
honest e profunda a todos os meus
questionamentos. Era um cidaddo do
mundo e um tecnico, no melhor signi-
ficado da expressao. Queria acertar
e fazer o bem coletivo e ndo apenas
ganhar seu dinheiro, ou fazer o jogo
do patrao, ou servir a uma explora-
Vdo colonial. Tanto que me fez s6 uma
exigencia: ndo citar seu nome. Sabia
que seria despedido por suas opini-
oes se elas lhe fossem atribuidas nas
minhas matirias. Ndo assinava, mas
ndo deixava de pensar corn sua cons-
ciencia em pleno vigor.
Era esse tambem o intent de ou-
tro engenheiro, este, quimico e ale-
mao, que comandava a fdbrica de
caulim de Ludwig, a Cadam. Posso
nomind-lo porque jd morreu: Georg
Haensell. Nossas melhores conversas
tambim ndo eram na fdbrica, mas em
sua casa, embelezada pelo talent da
mulher, Ulla, criadora de batiks lin-
dos. 0 casal saiu corrido de Mogam-
bique porque era branco, mas sua
mente estava soliddria corn os nati-
vos. Atribuiam a cultural africana um
valor elevado. Tambem aprendi mui-
to sobre caulim e o mundo de negd-
cios corn ele, enquanto Ulla dava o
toque de espiritualidade.
Cito apenas esses dois exemplos,
situados no mesmo lugar, o antigo Pro-
jeto Jari, nacionalizado em 1982, sob
o control atual da empresa paulista
Orsa. Podia lembrar dezenas de ou-
tros em todos os pontos da Amazonia
pelos quais passei. Ndo saberia o que


sei se ndo tivesse conversado corn
nacionais e estrangeiros, nativos e
imigrantes, trabalhadores e capitalis-
tas, posseiros e fazendeiros que en-
contrei pelo caminho. Dentre tantos e
tdo dispares personagens, havia de-
linquentes, escroques, especuladores,
pistoleiros, pessoas mal intenciona-
das. A maioria, pordm, era formada
por gente como o ticnico canadense
da fdbrica de celulose. Gente traba-
lhadora, aplicada ao seu servigo, ten-
tando utilizar o mdximo de si para ter
&xito no que estava fazendo, com uma
capacidade de resistgncia, resignaado
e esperanga que freqilentemente me
comovia, mesmo quando estdvamos em
posi4Ces divergentes. Elas sdo a pro-
va de que o caleidosc6pio amaz6nico
ultrapassa os pardmetros do saber
acumulado sobre as fronteiras do
mundo. E um universe particular.
Quando Michel Blanco me convi-
dou para ser um dos colunistas do
portal do Yahoo, corn a tarefa de fa-
lar da Amaz6nia, meu prop6sito era
tentar mostrar a todos (e a mim mes-
mo) que a AmazOnia e muito mais com-
plexa do que imaginam (ou muito alMm
da certeza que construiram para
aquietar sua curiosidade ou amansar
sua consciencia). Um dos componen-
tes dessa complexidade estd in situ, em
cada uma das frentes economicas que
se abriram na regido, com prop6sito
bem definido ou a base da aventura,
tendo um roteiro l6gico ou seguindo
o instinto, corn planejamento ou sob
o acaso. Hd muito saber nesses locais,
seja o que foi trazido pelo pioneiro,
personagem tao absurdamente recen-
te numa regido que tern hist6ria hu-
mana hd 12 mil anos, seja por aquele
que estd ali hd mais tempo e jd estava
quando "o outro" chegou, corn sua
conflitante alteridade (em grande me-
dida artificial e violenta. Esse meu
prop6sito e o de ndo deixar o saber
sobre a AmazOnia confinado ao cdre-
bro do computador ou a pretensao do
especialista formado no interior de re-
domas e torres de vidro. 0 distancia-
mento critic desses amazon6logos j
um trunfo positive, mas eles ndo se
podem deixar envolver pelo cicio hi-
perb6lico, como o do nosso presiden-
te da repdblica, transtornado como


um Luiz XIV e, como o rei-sol, tambem
dado a frases infelizes (e a heliotro-
pismos malsdos).
Mas tambem, no terceiro artigo da
coluna, que abaixo reproduzo, quis
mostrar aos nativos que a condigio
geogrdfica nao se traduz automatica-
mente em conhecimento. A maioria
esmagadora dos nascidos na Amazo-
nia cultiva essa tropega ilusao. As
vezes, eles estdo a duas centenas de
metros de um acontecimento sem nada
saberem sobre esse moment da his-
t6ria. Record a angastia da ouvinte
de uma palestra que fiz em Castanhal
quando related o process de produ-
dao de caulim a partir das jazidas do
Capim. Sua mae, que morava na mar-
gem do rio, caminho de passage de
balsas corn a argila (ati a construcdo
do mineroduto), vivia lhe perguntan-
do qual a razdo daquela movimenta-
&ao toda, que comeCara pouco tempo
antes. A filha, a Unica a freqiientar a
escola (e jd na universidade), ndo ti-
nha a resposta. Passou a ti-la quan-
do falei sobre o assunto naquela pa-
lestra. Lacrimejando, ela se levantou
para agradecer Ia voltar para a casa
da mde e, agora, sim, explicar-lhe
tudo, tin-tin por tin-tin. Seu conceito
ia crescer muito na familiar e em todas
as redondezas. 0 capital investido na
sua formagio, enfim, se justificava. A
verdade j a luz e o fermento da vida.
No artigo a seguir digo que Be-
lMm, a despeito de ainda ser a capital
cultural da Amaz6nia, enquanto Ma-
naus tern a maior populagao, utiliza
pouco ou simplesmente ndo usa -
suas ferramentas para entender o que
acontece no Pard. Sua gente e, em
especial, seus intelectuais continue
de costas para o interior, onde estd a
dindmica da histdria atual. 0 belenen-
se persiste mentalmente um extrativis-
ta, sentado i sombra da drvore do
saber a espera que dela caiam as in-
formagoes. Mas as informagdes que
decide, aquelas que podem influir
nas decisoes, sdo mantidas a sete cha-
ves, ou, quando escapam ao entesou-
ramento, sofrem maquilagem e mani-
pulaCdo a fim de serem transforma-
das em meias-verdades, tdo ou mais
uteis a incompreensdo geral, como a
SCONMrYA NA PAG 4


ABRIL DE 2010 1" QUINZENA Jornal Pessoal 3





CONTMMMAfAODA PAG 3b.--;*P
que se observa em grande parte dos
debates sobre a "questdo amaz6nica".
Vdrios leitores interpretaram o ar-
rolamento de grandezas quantitati-
vas como uma loa minha a um pro-
gresso que inexiste, quando a con-
tradiCdo tem sido um dos meus motes
recorrentes. Eles representam um tipo
de leitor que, incapaz de lidar corn
os fatos brutos, com a objetividade,
antecipam-se a essa compreensdo uti-
lizando um esquema de explicapCes
e definifCes pr6-moldado. 0 debate
resvala para a quadratura do cir-
culo ou entra num ciclo vicioso infi-
nito. Jd outros, sem perceber a criti-
ca feita a capital de um Estado que
se esfrangalha justamente porque a
sede 6 omissa, miope ou incompeten-
te, descambaram para a velha, ridi-
cula e contraproducente rivalidade
(mas com seus fundamentos hist6ri-
cos e sociais bem discerniveis) en-
tre Belim e Manaus. Negam a con-
dicdo regional como um element in-
dispensdvel para a compreensdo e
a melhor decisdo sobre a Amazonia.
E se tornam vitimas de espelhos de
fundo falso, manejando grandezas
e ufanias superficiais, colocando o
cavalo de Tr6ia para dentro de suas
cidadelas.
De qualquer maneira, o debate
sobre a Amaz6nia agora faz parte de
um dos principals portais do pais (e
do mundo, pela via virtual), com uma
agenda que ndo j emprestada de mo-
dismos e de terms de referencia ar-
tificiais. Nem se fixa em exotismos e
visoes coloniais. Muito menos 6 es-
premido em pacotes te6ricos despa-
chados por servigos de delivery in-
telectual. Espero que, corn o tempo,
se puder mante-lo e bem usd-lo, o
debate evolua e muitos dos mensa-
geiros se tornem autores de interpre-
taC&es, visoes, desejos, vontades e
atos capazes de mudar o infeliz des-
tino atual da Amazonia. Nas mensa-
gens que selecionei (tendo apenas o
cuidado de garantir a fidelidade at
lingua), pelo critdrio do seu signifi-
cado para este debate, sejam elas
certas ou erradas, espero que cada
leitor encontre o estimulo para esta-
belecer a sua voz e a sua vez. E fale
e faga. Antes, porim, aprenda corn
honestidade, rigor e perspicdcia as
verdades verdadeiras, concretas e
profundas das Amazonias..


0 ARTIGO
Em certas palestras que fa9o em
Bel6m peqo aos paraenses presents
que levantem a mao. A esmagadora
maioria faz o que peco. Ha um que de
satisfaq5o no ar. Entende-se e corn
especial Wnfase na Amaz6nia que
quem sabe mais sobre o local 6 o que
nele nasceu. Ao vir ao mundo, ji esta-
ria dotado, por cortesia gen6tica, corn
um diferencial que o faz perceber mais
sobre o que est, em torno do que o visi-
tante ou o imigrante domiciliado em sua
terra natal. Assim, nao me surpreende
mas me incomoda cada vez mais -
que imberbes estudantes nascidos no
Pard se levantem, durante os debates
realizados em Bel6m, e intervenham
para ditar regras, com a tibua das leis
sobre a decifraqao da Amaz6nia nas
maos poderosas. Estudo e percorro a
Amaz6nia hi mais de 40 anos e o que
posso afirmar 6 que minha ignorAncia
sobre a regiao diminuiu nesse period

ara o amazon6logo
m digital ou de outras
regi6es, conform
mostrei na coluna
anterior, aplico a
"pegadinha" do avif, o
micro-camarao do falso
churrasco. E apenas
para sondar a
intimidade do
conhecimento do dito
especialista sobre
aquela que ja se admit
ser a mais important
fronteira de recursos
naturals do planet,
imensa e complex, tao
original que requer o
contato fisieo mais
demorado para sua
decifraqao.
Aplico outra forma de teste para os
que se consideram especialistas no tema
s6 por terem nascido (ou se domicilia-
do) na Amaz6nia. Sem qualquer pejo, e
tamb6m sem qualquer estudo a respei-
to, abrem a boca para dizer verdades
hauridas em inspiraqao metaffsica.
Mal os paraenses baixam as maos,
comeqo a perguntar sobre quem conhe-
ce Barcarena, Carajis, Tucurui e Trom-
betas. Das dezenas de maos iniciais
sobram duas, tres ou, em regra, nenhu-


ma. Sugiro entao aos especialistas por
matriz gen6tica que tentem visitar pelo
menos esses quatro locais. S6 quando
voltarem, estarei disposto a reconhec8-
los como verdadeiros paraenses e ama-
z6nidas, usurpando para tanto a funcao
de tabeliao da consciencia amaz6nica.
Bel6m j~ nao 6 mais a maior cidade
da Amazonia, posiqao que perdeu para
Manaus, com 300 mil habitantes a mais.
A diferenqa 6 anulada quando se consi-
dera a drea metropolitan da capital
paraense, com seus mais de 2 milh6es
de habitantes, enquanto a capital ama-
zonense se reduz ao municipio de Ma-
naus, sem espraiamento demogrifico
metropolitan. Mas essa comparaqao
nao 6 a mais relevant. Bel6m continue
a ser a capital cultural de toda Amaz6-
nia porque tem mais centros de pesqui-
sa, universidades, bibliotecas, 6rgaos
pTiblicos e intelectuais em atividade.
No entanto, a cidade continue de
costas para o interior do Estado, com
seu territ6rio de 1,2 milhao de quil6-
metros quadrados, equivalent ao da
Col6mbia, e 7 milh6es de habitantes.
Os belenenses olham com cobiqa para
as praias de Fortaleza, o Rio de Janei-
ro, Miami ou a Europa. Mas nao para
dentro de si. Esquecem que a capital
tern apenas 20% da populaqao para-
ense e um terqo do seu Produto Inter-
no Bruto (Manaus tem 50% e 95%,
respectivamente, proporq6es que fica-
ram para tris na hist6ria de Bel6m hi
varias d6cadas).
A 50 quil6metros da cidade funciona
o maior distrito industrial do Norte do
pafs. E formado pela maior fibrica de
alumina do mundo, a Alunorte, que for-
nece esse insumo para ser transforma-
do em metal pela vizinha Albris, a 8'
maior do mundo e a maior do continen-
te. Seu lingote de alurnnio atende a 15%
das necessidades do Japao, seu princi-
pal client e s6cio (corn a antiga Vale do
Rio Doce), que fica a 20 mil quil6metros
de distancia. Ao lado estao duas das
melhores e maiores fibricas de caulim
do mundo, produzindo argila para reves-
timento de pap6is especiais. Ha ainda
uma f6brica de cabos de alumrnio e uma
siderirgica, que se utilizam de terminals
locais com a maior movimentaqao de
carga do Estado. A renda per capital do
habitante de Barcarena 6 cinco vezes
maior do que a do morador da capital.
Em Tucurui, 350 quil6metros ao sul
de Bel6m, funciona a segunda maior
hidrel6trica do pais, menor apenas do


4 Journal Pessoal ABRIL DE 2010 1i QUINZENA






que Itaipu, mas na qual o Brasil s6 tern
metade da geragao, ou seis mil mega-
watts, enquanto os 8,4 mil MW de Tu-
curuf sao todos nacionais. Corn essa
usina de mais de 10 bilhoes de d61lares
de custo o Pard se tornou o quinto mai-
or gerador de energia do pafs e o ter-
ceiro maior exportador de energia bru-
ta, que s6 sera transformada em produ-
to de maior valor agregado em outros
Estados (ou mesmo no exterior), pagan-
do o ICMS apenas na transfer8ncia.
Caminhando 200 quil6metros mais
para o sul do Estado chega-se a Cara-
jAs, a maior provfncia mineral da Terra,
com min6rios que se elevam do subsolo
por 300 a 400 metros de altura, permi-
tindo a lavra a c6u aberto, sem a ne-
cessidade de minas em profundidade.
O maior trem do mundo faz nove via-
gens didrias (por 800 quil6metros) at6
um dos maiores portos do mundo, na ilha
de Sao Luis do Maranhdo, transportan-
do min6rio no valor de 30 milhoes de
d6lares. No final no ano, mais de 90
milh6es de toneladas e quatro bilhoes
de d6lares s6 com ferro. Mas hi ainda
outros minerals (mangan8s, cobre e, a
partir deste ano, nfquel).
Mais de 800 quil6metros a oeste de
Bel6m e do litoral esti o primeiro dos
"grandes projetos", que entrou em ope-
raqao em 1979. Hoje 6 uma das maio-
res minas de bauxita do mundo. Todos
os anos, quase 400 navios vdo e vol-
tam atris desse min6rio, do qual resul-
ta o alumfnio. A produgqo bateu em 18
milh6es de toneladas, um record, e nao
pode ir al6m porque o rio Trombetas
nao suporta tanto navio. Sempre hi um
carregando, outro (ou outros) esperan-
do a vez ao largo e mais algum a cami-
nho. 0 Trombetas foi o primeiro rio
amazonico a esgotar sua capacidade
de transport por causa do escoamen-
to da bauxita.
Quem nao for ver corn os pr6prios
olhos o que acontece ao menos nesses
quatro lugares do Pard nao tern o di-
reito de se declarar paraense (nem de
se dizer um entendido em Amaz6nia).
E impossivel nao sofrer um forte im-
pacto ao ver os enormes caminhoes
foraa de estrada" que retiram min6rio
em Carajis, cada um carregando 200
toneladas (estio vindo miquinas corn
o dobro da capacidade), os maiores que
existem, para encher os trens. Cada
comboio alcanga 3,5 quil6metros de
comprimento, com seus 330 vagres e
quatro locomotives.


Ao deixarem a mina para a longa
viagem at6 o mar, dao ao observador a
nitida sensaqgo de que testemunha uma
hemorragia de min6rio, uma sangria
desatada de recursos naturais. E o fer-
ro mais rico da crosta terrestre, com
65% de hematita pura, que esti susten-
tando os vistosos arranha-c6us que se
erguem em Xangai e outros lugares da
India, compradora de 60% da produqgo
de Carajais.
A hist6ria decisive do Pard (como
da Amazonia) esti sendo escrita no
interior da regido, nao nas capitals nem
no litoral. Muitos paraenses acham
que esses lugares remotos sao para-
gens do passado, de um provincianis-
mo mortal para o citadino "antenado"
no mundo globalizado. E um erro pri-
mario e letal. E nesses lugares distan-
tes e isolados que se decide se a Ama-
z6nia vai continuar a funcionar como
uma area colonial do mundo ou se vai
ter vez para progredir com as rique-
zas de que 6 pr6diga. Mas que estao
sendo transferidas com velocidade
incrivel para outras parties do mundo,
onde o enredo 6 escrito.

AS MENSAGENS
Diogo Texto bem escrito, de al-
guem que conhece o Estado, pelo me-
nos de uma certa maneira. Entretanto,
se abrem duas perspectives de enten-
dimento. Uma, pra quem quer ver que
o que o texto quer dizer, 6 que o Esta-
do do Pard e toda a Amazonia estao
sendo depredados, usurpados e trans-
feridos para maos estrangeiras, que
aqui s6 querem os recursos naturais
que lhe interessam. Outra 6 o entendi-
mento de que o Estado do Pard nao 6
apenas magnificamente inico, cultural-
mente, mas que tamb6m 6 um gerador
de riquezas.
Eu sou mineiro, mas conheqo todas
as cidades citadas, tendo trabalhado di-
retamente corn a natureza, nas tais ci-
dades. Entretanto, minha visao de Pardi
6 limitada, pois s6 conheqo estas cida-
des e Bel6m, que 6 muito interessante,
inclusive. Mas, o que se mostra distan-
te, neste texto, 6 a realidade do povo
paraense, que na sua maioria 6 muito
pobre e sofre corn a violencia dos ricos,
que em sua maioria sao latifundidrios e
desmatadores. A Terra do Meio 6 um
exemplo lastimivel de que a natureza,
juntamente corn a dignidade humana,
esta sendo suprimida a favor do dinhei-
ro. E necessario melhorar nossa visao,


nao tratando como verdade apenas o
que enxergamos. Visualizar algo alem
de nossos olhos, de nossa mente, 6 um
exercfcio possfvel para aqueles que tem
vontade.

Huayna Calcuchimac Dias Gou-
v0a 0 Sr. LUcio Flavio parece que
realmente conhece o Para, mas ao fa-
zer comparaqces com Manaus, peca
em dizer que Barcarena 6 o maior p6lo
industrial do Norte talvez por falta de
conhecimento ou por puro "bairrismo"
tfpico da maioria dos paraenses. 0 P6lo
Industrial de Manaus (PIM) gera cer-
ca de 110.000 empregos diretos e indi-
retos, corn os p6los de duas rodas,,TV,
dvd, rel6gio entire outros. Sao mais de
10 fibricas de motos, entire elas: a fa-
mosa marca americana Harley David-
son. Quanto A metr6pole, surgem viri-
os pr6dios residenciais nos bairros no-
bres de Manaus (Adrian6polis, Vieira
Alves, Parque 10), ji que nao 6 permi-
tido a construgao de pr6dio maior que
4 andares no centro antigo, e tamb6m
tem a construqao da ponte que liga
Manaus ao Cacau Pirera, com 3,5km
de extensao.
A populagdo de Manaus 6 de qua-
se 2 milhoes de habitantes, s6 de pa-
raenses 6 de 350.000, o que mostra a
procura de emprego e uma vida me-
Ihor e mais digna, o que nao 6 encon-
trado em Bel6m. Manaus foi escolhi-
da para sediar a Copa de 2014, o que
os paraense nao gostaram, devido A
seu megalomania.

Larissa Sou paraense e resido
atualmente (e temporariamente...) no
Estado de Sao Paulo (nao consigo vi-
ver sem aqaf!). Sou apaixonada pela
minha terra! Costumo dizer que sou
garota projeto, pois nasci no projeto
Jari, more em Tucurui at6 os 8 anos e
depois more em Barcarena, onde mi-
nha [mde?] trabalhava para a Albris.
Se nao bastasse, casei corn um ge6lo-
go que vive andando pelo Parazao.
Minha mae ainda mora em Barcarena
e fico muito triste toda vez que volto li
e vejo que esti cada vez pior. Esti cada
vez mais rica e cheia de indistrias/
empresas, por6m nada disso chega
para a populacqo. A cidade nao tem
asfalto, saneamento basico, falta agua
constantemente. Investimentos em
sadde? Pra que?! E esti 6 uma situa-
9ao vista em todo Estado. Ha muita
CONCLUm NA PAo 6


ABRIL DE 2010 1 QUINZENA Jornal Pessoal 5





CONCLrUSAO DA PAG 5
incongruencia em tudo isto. Precisa-
mos lutar para mudar esta situacao.

Jonas 0 pais onde tudo 6 super-
lativo, onde nao pensamos em um uso
estrat6gico de nossos recursos para
agregar valor a nossos produtos. 0 Pard
6 reflexo dessa visdo, uma regiao que
se orgulha de ter as inddstrias mais po-
luentes do planet e ainda ressalta o fato
de serem as maiores do mundo. Esse
fato 6 pior quando elogiado por um jor-
nalista muito premiado. 0 Para nao 6
nada mais que um fractal do Brasil.

Antonio Paulo Eccard Impres-
sionante o seu hist6rico atualizado so-
bre a regiao e o Estado. Sao ndmeros
fantisticos, que a mim surpreendem.
Nao sou politizado, mas me surpreendo
com tamanha simplicidade de seus re-
latos. Tudo que este Estado produz me
parece que 6 para outro(s) pafs(es) e
nao para o engrandecimento do nosso.
Facilitamos a produqao de riquezas de
outras naq6es. Esta foi a minha percep-
qdo. Diga-me voc6 que 6 um estudioso
deste munddo que 6 a Amaz6nia. Diga-
me se 6 verdade.

Beatriz Moreira Nio se trata
de bairrismo ou ufanismo. Concordo
que fazer comparagOes com Manaus
nao 6 a melhor estrat6gia, at6 porque
qualquer lugar deste pafs e, logicamen-
te, da Amazonia, tern seus pr6prios
m6ritos e dem6ritos.
Tamb6m e para quem ja conhece
Lucio Flavio, isso 6 claro nao se tra-
ta de texto para vangloriar a explora-
qao da regiao amaz6nica. E apenas uma
estrat6gia para mostrar ao Brasil e aos
pr6prios paraenses, principalmente os
da capital, um Pard pouco conhecido e
que, de fato, tem ntumeros superlatives.
Seus ndmeros nio sio inventados,
como nao sao inventados os superlati-
vos de tantos outros lugares do Brasil,
como dos belos pontos turfsticos do Rio,
da caracteristica cosmopolita de Sao
Paulo, dos mais antigos centros hist6-
ricos da Bahia, da biodiversidade do
Pantanal etc.
Fico muito feliz por ver pessoas do
Brasil falando de como conhecem o
Para e esperamos que esse conheci-
mento sobre o que 6 o Norte do Brasil,
nao apenas o Para, sejam difundidos
cada vez mais pelo Brasil (nao fiquem
apenas nas taxas de desmatamento, que,


em dados brutos, pouco informam so-
bre riquezas e pobrezas da Amazonia).

Jos6 de Alencar De acordo, Ld-
cio. N6s, citadinos de Bel6m, estamos
de costas para o interior do Estado, prin-
cipalmente para o Sul do Estado. Be-
16m estd perdendo a capacidade de pen-
sar o Estado e de ser a sua capital (ca-
pital vem de "caput", cabeqa, as Bel6m
esti ficando descabegada, desmiolada).
Mas, se ela nao consegue pensar em si
pr6pria e para si como pedir que
pense no Estado?

Renata Queiroga A reportagem
6 muito boa, sou paraense e concordo
com a mat6ria. S6 6 uma pena que
n6s ainda precisamos muito em conhe-
cer o nosso Estado. N6s, paraenses,
ainda temos a idWia de que tudo que
vem de fora da regiao 6 melhor do que
6 produzido aqui, e infelizmente dei-
xamos os nossos vizinhos virem para
a regiao e explorer todos os nossos
min6rios. Levam toda a nossa rique-
za e o que vemos 6 o nosso povo na
pobreza. A16m, do que nossos gover-
nantes nada fazem para mudar essa
realidade. Ah, e os amazonenses que
estdo omitindo opinioes af, deviam 6
estar orgulhosos em vez de chatea-
dos corn a mat6ria, pois, diferentemen-
te de n6s, conseguiram crescer, me-
lhor administrar os seus recursos. Ao
inv6s de ficar atacando a cultural, o
povo do Pard.

Fabiano Impressionante sua des-
criqao sobre o Pard. 0 interessante 6
que as pessoas que comentam ficam
indignadas contestando o que voc8 es-
creveu ou falando sobre para quemr
deve ir os $$$ que esti sendo tirado
com o min6rio, mas ningudm fica in-
dignado com o crime ambiental que
1A esti ocorrendo no local. E triste o
que esti acontecendo no Pard (hi anos)
e 6 mais triste ainda saber que a a
grande maioria dos poucos brasilei-
ros que leem seu texto nao enxergamr
sua verdadeira crftica. Ponto para o
capitalism desenfreado que continue
cegando a grande massa!

Caio/RJ Parab6ns Ldcio, pela
grande reportagem. E diffcil ver um jor-
nalista com uma visdo tdo incisiva. Acho
que o seu recado 6 o seguinte, claro e
correto: quern quiser entender qualquer
lugar onde vivam os homes deve en-


tender as rela~ges de produgao que
permeiam essa sociedade, determinam
sua realidade e sua insergao no mundo.
0 destino dos brasileiros esti sendo
decidido nesses lugares distantes e a
maioria das pessoas nao entende isso.
E dificil ver o que acontece e mais ain-
da o que nao acontece. 0 que aconte-
ce 6 que continuamos a reproduzir o
mesmo modelo, que continue mobilizan-
do todos os brasileiros ao long do tem-
po e em todos os lugares. E o que nao
acontece 6 o desenvolvimento econ6-
mico e human. Confesso que fiquei
emocionado diante da image tao bem
descrita, diante dos gigantes caminh6es
(200ton!) cortando a estrada, diante dos
longos comboios (3,5 km!) em direqao
ao litoral. Sangria. La se vao corn seus
colossos, movendo o mundo. Aqui fica-
mos, a espera do pr6ximo.

Jesus de Paula Muito boa a re-
portagem. Eu fico muito feliz quando
vejo que ainda existe quem queira fa-
lar de progress, de crescimento, de
melhorias. As mazelas, as falcatruas e
a injustiqa, nao precisamos falar delas,
pois para isso "temos" os meios de co-
municaqao, que infelizmente nao con-
seguem enxergar quase nada de escla-
recedor, animador e positive para le-
var ao conhecimento da populaqao. Por
isso 6 que lhe parabenizo pela mat6ria,
por a mesma me parecer desprovida
de qualquer interesse, se ndo o de in-
formar algo tao (por que nao dizer)
nobre, e que sem ddvida, como ji fi-
cou claro nos comentarios, a grande
maioria nao era conhecedora. Penso
que deveria haver mais comentarios
sobres assuntos de conteidos assim,
pois sou daqueles que se alegra quan-
do v8 que ainda existe os divulgadores
de "boas novas. Jdsus de Paula -
Boston USA

Mirian Sou paraense e diferente
do que citou no seu texto, profunda co-
nhecedora de Amaz6nia, e sim pelo sim-
ples fato de ser paraense. Dou-me o
direito de encher minha boca e dizer que
sou paraense. Nao sou iludida (como
aparentemente voce) que necessito ir a
essas localidades (apesar de ji ter ido)
para conhecer meu Estado. Sei da ri-
queza que meu Estado possui, assim
como sei que essas grandes empresas
estdo aqui somente o tempo que esses
recursos minerals existirem. Nao acho
grande vantage essa exploraqdo indis-


6 Jornal Pessoal ABRIL DE 2010 P1 QUINZENA






criminada, ji que quase nada fica no
Estado. Ate tinha uma simpatia pela sua
pessoa, mas agora que tive a "oportuni-
dade" de ler esse texto, mudei comple-
tamente de opiniao.

Rodrigo Pantoja Afzz... Como
dizem os ribeirinhos: "falou a sabicho-
na agora"... (PS vai ver nem 6 do
conhecimento da "paraense acima"
esse termo tamb6m. Enfim, quero so-
mente defender o ilustre jornalista, que
tem por intengqo, corn seus textos,
prover de rico e instigante o conheci-
mento, que enorme parte de n6s, pa-
raenses, pensamos que temos. haja
vista que isso 6 um fato, declarado
pelo jornalista ao citar o comporta-
mento do piblico em suas palestras
(levantar as mrnos...). Antes tinha so-
mente o conhecimento dos estudos
realizados pelo jornalista LFP, mas,
ap6s esse texto, minha curiosidade au-
mentou de tal forma que al6m de vi-
rar um admirador do trabalho (e da
opiniao) do mesmo, que procuro ler +
e + sobre a nossa tao querida e ama-
da regiao com os outros textos escri-
tos por ele (e outros tamb6m). Gente:
vamos nos unir pela causa de um Es-
tado melhor, e nao ficar discutindo
"picuinha" de quem sabe mais, quem
sabe menos ou quem nao precisa sa-
ber de + nada... Rodrigo Pantoja
- Valenciennes Franca.

Carlos Silva Otimo texto. t born
lembrar que, por exemplo, aos paraen-
ses nao 6 permitido ir a Serra do Cara-
jas a nao ser corn um passaporte, que
antes era emitido pela empresa e ago-
ra, pra disfargar, pelo Ibama. Talvez al-
guns nao acreditem, mas, em pleno s6-
culo XXI, temos em plena selva ama-
z6nica brasileira uma cidade e a mina
em seu entorno, aonde um cidaddo nao
poderi visitar a nao ser corn a permis-
sao dos paulistas e seus s6cios da ban-
ca international.

Marion Aur6lio Tapaj6s Arafijo
- Os textos do Licio sao isso mesmo:
criam a polemica sendo lidos ou nao!
Isso fica claro quando se 1 os comen-
tdrios: alguns virdo As letras e as con-
seguiram juntar e decodificar; outros
leram e parcialmente o entenderam, e
outros essess bem poucos) consegui-
ram entender. Alguns chegaram a di-
zer que os governor Jatene e Almir
Gabriel foram bons e o Paulo Chaves


um grande projetista (de fato, obrou
muito...) e houve um que acha que o
Licio 6 entreguista e esti louvando o
saque. Realmente, esti dificil debater
sobre a Amaz6nia nesse escuro ou
corn essas luzes, que, de fato, nao pa-
recem ser as da razao. De todo modo
e repondo o que Ldcio tentou dizer:
para falar do Pard e da porqao da
Amaz6nia que nele se cont6m, ainda
quando aqui nascidos ou domiciliados,
6 precise conhecer o Estado-continente
que 6 o Para. S6 assim se esti autori-
zado a faz8-lo, e o Ldcio fala isso corn
a serenidade de quem fez o dever de
casa: conhecendo e vivendo os muni-
cipios aos quais se referiu.

Alberto Lima Macei6 Sou pa-
raense nascido e criado em Bel6m,
more no RJ, SP e minha uiltima mora-
dia foi em Manaus. Li alguns comen-
tarios feitos aqui que me parecem sem
sentido, ou algumas vezes com intuito
de mostrar que ambas as maiores ca-
pitais do Norte do Brasil sao nada mais,
nada menos, que bols6es de atraso, tra-
vestido de desenvolvimento! Por isso
faqo algumas perguntas:
Qual a vantage de Manaus ser ou
nao uma metr6pole? 0 que isso trard
de melhoria, considerando o problema
que apareceri corn aumento da popu-
lagqo, que ji 6 grande 1I pras bandas
do "Marapati"?
Em Bel6m e Manaus, ji melhorou
o sistema de satide? Falo do atendi-
mento e nao de pr6dios novos, que pa-
recem sempre brotar em ambas as
capitals, sempre acompanhado de uma
mega propaganda political por parte do
governador Eduardo Braga e da go-
vernadora Ana Jtilia Carepa, compro-
vando que n6s, nortista, somos muito
bestas!
A verticalizaqao mineral no Pard
esti sendo acompanhada de melhori-
as tecnol6gicas que ajudam a agregar
valor aos produtos paraenses?
Manaus ji esti diversificando sua
economic para quando acontecer a ex-
tinqao da Zona Franca? Sim, porque umrn
dia, e nao esti long, ela vai acabar!
Pode ter certeza! Se nao, muitos outros
Estados do Norte tamb6m vdo solicitar
incentivess", ji que existe no Amazo-
nas, por que nao no Acre? Em Rond6-
nia? No ParA? Santar6m, por exemplo,
se no plebiscite realmente for criado o
Estado do Tapaj6s, isso seri a primeira
coisa que irdo pedir!


Quando cito diversificar a economic
nao me refiro A tal de Zona Franca Ver-
de, outro engodo do governor estadual!
No Pard, ja aprenderam a votar?
A educacqo em Manaus ji fornece
mdo de obra especializada? Especi-
alizada! E nao apenas treinada pra chdo
de fibrica!
0 ensino piblico bAsico no Para con-
tinua sendo um dos piores do Brasil?
O indice de repetencia em Manaus
diminuiu?
Diminuiu a grilagem de terra em solo
parauara?
Continue grande a mortalidade infan-
til em Sao Gabriel da Cachoeira?
O desmatamento no Pard ja esti
controlado?
Ja pararam de derramar mercfirio
nos rios pr6ximos aos garimpos de
Apuf-AM?
A pedofilia na regiao oeste do Pard
e na regiao de Coari, no Amazonas, ja
diminuiu?
O que uma rotat6ria gigantesca em
Bel6m trara de melhoria para o povo?
O que uma ponte megalomanfaca,
inspirada por um governador megaloma-
nfaco, corn orqamentos megalomania-
cos estimados no dobro das construidas
na China, trard de desenvolvimento, ten-
do como exemplo, no Para, uma ponte
de mesmas proporcqes transpondo o rio
Guami, que de nada serve? E olha que
ela liga a capital ao sul do Estado, que
dirA ligar o Cacau Pirera, Iranduba,
Manaucapurd e Novo Airdo, cidades
estagnadas economicamente!
Ja estdo em atividades os tais p6los
tecnol6gicos em Bel6m?
O que a regiao metropolitan de
Bel6m produz que melhore a economic
local?
Com certeza a maioria das respos-
tas a essas perguntas nao sao boas!
Em resume: somos tao burros, que
nem sequer conseguimos nos unir para
melhorar a vida do nosso povo amaz6-
nida! E o que 6 pior, como nos achamos
melhores que os outros, na verdade de-
monstramos que somos piores que n6s
mesmos! Al6m disso, para dizer que
nossas coisas sao melhores precisamos
dizer que a dos outros 6 pior! Alguns,
ainda tem a audicia de dizer que sua
cidade 6 melhor que a outra, como se
isso fosse uma obrigagqo, mas que, na
verdade, nao tern valor algum, a nao ser
que outros de fora o digam, e os de fora
nio o dizem!! Nem vao dizer! Por cul-
pa nossa!


ABRIL DE 2010 12 QUINZENA Jornal Pessoal 7








MEMkRIA TD C@TUfJME!K


IMIGRAVAO
Era triste a situaqao dos mais
de 890 imigrantes nordestinos
quando eles deixaram a tercei-
ra classes (autintico pordo) do
navio Cuiabi e pisaram no solo
paraense. Reclamaram muito
do modo como foram tratados
na Hospedaria Getdlio Vargas,
em Fortaleza, de onde vieram,
e das condigqes da viagem, du-
rante a qual uma crianqa de 9
meses morreu. Mal chegaram,
foram levados do porto de Be-
16m para a tristemente c61lebre
Hospedaria do Tapand, onde
aguardariam at6 ter um desti-
no, rumo aos seringais dos al-
tos rios. 0 director da hospeda-
ria estava no Rio de Janeiro,
capital federal, atris de dinhei-


ro para aplicar no Tapank, lu-
gar de martfrio na passage de
milhares de nordestinos para o
interior daAmaz6nia.

FESTA
Que tal esta "festa danqan-
te" que a Associaqao de Des-
portos Recreativa Bancr6vea
(de funciondrios do Banco da
Amaz6nia) promoveram em
sua sede (ainda resistindo, no
desmoronado infcio da aveni-
da Governador Jos6 Mal-
cher), em setembro de 1962?
A decoraqdo era da senhora
Lucy Serra, usando pain6is de
ningu6m menos do que o "re-
nomado artist paulista Dar-
cy Penteado". Tinha desfile
de modas organizado pela re-


PROPAGANDA

Era international

Admirdvel tambim era o tempo em que o aeroporto de
Belem era international de fato, como foi durante e de-
pois da Segunda Guerra Mundial. Mas em 1971 ainda
era possivel sair de Belem e, embarcando num jato da
Avianca em Manaus, seguir diversos tragados para o
exterior A empresa colombiana era representada no Brasil
pela Cruzeiro do Sul, que marcava passagens para a
America e a Europa em sua agencia de Belem. 0 anincio
revela a existencia de mercado para essa iniciativa.


vista 0 Cruzeiro, a Varig e a
Rhodia. Dez manequins
(como as atuais models eram
tratadas) apresentariam as
novidades da temporada da
"famosa coleqao Brazilian
Nature", incluindo, 6 claro,
roupas em Fio Helanqa Rho-
dianyl. Haveria tempo para os
p6s-de-valsa girarem ao som
de Alberto Mota e seu Con-
junto, a partir das 10 da noite.
Toda a renda seria destinada
aos "pequeninos internados"
no Educandario Eunice We-
aver. 0 traje era passeio com-
pleto. Como de praxe nas fes-
tas de entdo.

REPRESSAO
0 prop6sito da Delegacia
de Economia Popular era
reprimir "a aco desonesta
de determinados comercian-
tes". Para isso, fazia suas
rondas por mercados, feiras
e casas de com6rcio. Num
dia de setembro de 1962, os
fiscais da DEP autuaram cin-
co peixeiros, quatro comer-
ciantes, tres aqougueiros (que
s6 vendiam came), um frigo-
rffico, um feirante, um ven-
dedor de frutas e um aqai-
zeiro. Se a acao resultava
mesmo em corretivo e me-
lhora para a alimentaqdo do
povo, 6 outra questao.

GRAMIO
Durou uma semana inteira
a comemoraqdo do 95 ani-
versdrio do Gremio Literario
Portugues, em 1962. Tudo
comeqou corn uma missa,
prosseguiu com palestra (se-
guida por um "Porto de hon-
ra"), exibigqo de um filme,
apresentagao de um coro in-
fantil de Beja ("em digres-
sao pelos Estados do Bra-
sil") e festa danqante, mais
uma vez "abrilhantada" por
Alberto Mota, acompanha-
do de seus "respectivos vo-
calistas". Os s6cios podiam
comprar suas mesas no


Luch Americano, Casa Pard
e A. Mourao S/A. Pois.

TEATRO
"Como Cansei de Ver-o-
Peso" 6 a peqa mais vezes
encenada, de mais longa tem-
porada e uma das mais repre-
sentativas do teatro contem-
poraneo paraense. Com di-
versos elencos e em virias
verses, poderia voltar aos
palcos em novembro do pr6-
ximo ano, quando completa-
ri 40 anos de sua criaqdo. A
primeira apresentaqgo foi em
24 de novembro de 1971, no
Teatro da Paz, produto de cri-
aqao coletiva, A maneira de
um happening (titulo de uma
peca anterior). 0 produtor do
Grupo Experi8ncia, Jos6 An-
t6nio Cruz, ji falecido, foi
quem conseguiu a liberaqdo
da peca na censura, depois de
alguma resistincia (os tem-
pos eram bicudos). 0 texto
era uma colagem de fatos his-
t6ricos e contemporaneos, di-
vidida em sete atos (o quinto
era a teatralizaqao de uma
cronica que escrevi em A
Provincia do Pard, "Ser pa-
raense"; s6 soube da inclusdo
depois), mostrando "tudo de
interessante e tfpico que Be-
16m possui".
Sob a diregao de Geraldo
Salles, trabalharam atores ji
experiences e muitos novatos,
a maioria deles estudantes,
principalmente do CEPC: Luiz
Otivio Pinto, Jos6 Moraes,
Joao Merc6s, Rui Santa He-
lena, Papi Nunes, Celina e
Lufza Bezerra, Augusto Melo,
Rose Rodrigues, Vera Brito,
Heliana Moraes, Vinicius
Bahuri Filho, Daniel Campbe-
11, Cassandra Pamplona, An-
t6nio Carlos Cunha, Claudio
Brito, Paulo Preto, Mimito e o
pr6prio Z6 Antonio.

ORQUESTRA
A Orquestra Alberto
Mota, a mais famosa da sua


8 Jornal Pessoal ABRIL DE 2010 1- QUINZENA


00.~oo



~


ADMIRAVEL MUNDO NOV


N t* pr t ..g..m o... Et.. Uno..
Pm n60o mundo qul dmpTd .pang da
LI. co.. .m M... (Zoos F..nc.),
.u 41. fra 14.30 -o.
E o jto Bo.ig 70 B dt Avic
tf.ando hl o, d-a0 corn BogO -
M.-co .- AnI.l Mb -
New. Yok Euopa.
P-fodo d, B16,m. voct pa o ,m
ipo o dil vItOg.l 0irat .
d 4ug. A A-.no I.t.lo.

Avianca
























FOTOGRAFIA

Indfistria local


A Renda Priori, que fabricava latas, era uma das
inddstrias do bairro do Umarizal, que surgiram com os
incentives fiscais do governor federal e a reserve de
mercado que o isolamento da Amazonia lhes
proporcionava. Mas de vez em quando (como em
1962) parava, por falta de materia prima, que era
importada. Um element contradit6rio que acabaria
fulminando vdrias dessas inddstrias. Hoje, no local, na
rua Jeronimo Pimentel, funciona uma revenda de
autom6veis. Da antiga fdbrica restou o esqueleto.


6poca, encerrou suas ativi-
dades em outubro de 1971
com vdrias faqanhas. Con-
seguiu gravar cinco "long-
plays", as bolachas pretas
em vinil, e se apresentar em
58 cidades de 13 Estados
brasileiros. Foi fundada em
1956, quando o maestro jd
tinha 15 anos de carreira.
Em suas virias fases, parti-
ciparam da orquestra Ma-
noel Rayol, Manoel Jesus,
Joaquim e Arnaldo Henri-
ques, Raimundo Cruz, Ver-
beno Costa, Mario Guerrei-
ro, Marco Ant6nio, Maria de
Nazar6, Solange Ribeiro,
Manoel Gomes da Costa,
Jos6 Ozires, Luciano, Cds-
sio Amanajds e Antonio Bio.
Depois de desfazer sua or-
questra, Alberto Mota foi
morar em Fortaleza.

MORTAL
Foi inusitada, pelo menos,
a eleiqgo de Epilogo de Cam-
pos para a Academia Para-


ense de Letras, em 1971.
Dos 19 votos que recebeu,
17 foram mandados por aca-
demicos ausentes da sessdo.
Esse detalhe foi antecipado
em noticia dejornal, o que fez
o teatr6logo Nazareno Tou-
rinho pedir a apresenta~go
das justificativas por escrito
dos que enviaram seus vo-
tos por carta, conforme exi-
gencia estatutdria. 0 presi-
dente da APL, Candido Ma-
rinho da Rocha, se sentiu
ofendido e nao atendeu. 0
que fez foi dar inicio A vota-
g9o. Em protest, Tourinho
se retirou. Apenas o poeta
Rodrigo Pinag6 acompanhou
seu inconformismo com a
admissdo de Epilogo, conse-
guida, segundo Tourinho, A
base de pressdo polftica (um
dos votantes a distancia foi
o entao ministry da educa-
qao, Jarbas Passarinho). Pi-
nag6 deve ter sido o autor de
um dos dois votos contra o
novo "imortal".


AI ol tMraeMnimaodi |

No ano passado o governor do Estado resolve co-
brar dos empresarios que optaram pelo Simples (ver-
Sso do imposto dnico adotada em 2004 em todo pafs)
um acr6scimo aos 2,5% de ICMS que eram obrigados
a recolher, elevando o imposto estadual para 12,5%,
quando o total praticado at6 entdo era de 4%, um tero
desse novo valor. A mudanqa da aliquota deveria ele-
var em quase 170 milhoes de reais a arrecadagqo anu-
al do Estado com o Simples. Nao chegaria a represen-
tar 5% da receita pr6pria estadual, mas abalaria pro-
fundamente os micro, pequenos e m6dios empresirios
que haviam optado pelo Simples para pagar menos le-
I galmente e diminuir a burocracia do eririo.
Nada mais natural do que as entidades que os repre-
sentam reagirem a media. Mas nRo houve acordo. A
disposigqo do governor era tal que a elevagqo da aliquota
foi estabelecida atrav6s de decreto, quando exigia uma
lei, ainda que fosse inconstitucional. Aconstitucionalida-
de ou nao da iniciativa ainda vai ser definida pelo Supre-
mo Tribunal Federal, mas o STF ji se antecipou ao jul-
gamento de m6rito da mat6ria mantendo a liminar que
as entidades empresariais obtiveram, em grau de recur-
so, para nao pagar um imposto mais caro.
Se o Supremo acolhesse a these do Pard e com ela
estabelecessejurisprud8ncia, o Simples estaria ferido de
morte, acabando com uma das poucas inovaqces tribu-
tdrias favoriveis aos empreendedores de porte inferior.
0E mais provivel que, seguindo a linha do entendimento
dominant, a corte derrube a mudanqa promovida pelo
executive paraense. Nesse caso, fracassard mais uma
tentative de camuflar a queda na arrecada~go pr6pria
estadual registrada nos dltimos meses.
Mas estard reafirmado o tratamento discriminat6-
rio que o governor da aos pequenos empresarios em
comparaqdo com as cortesias dispensadas aos gran-
des contribuintes, que sao grandes em fungqo do seu
faturamento, mas deixam a desejar na proporgqo des-
sa receita que recolhem aos cofres do erario. Por
exemplo: quanto de ren6ncia fiscal e de colaboraqdo
official, sob diversas formas, a implantagqo da siderdr-
gica da Vale acarretari para o Estado?
Quando esse tipo de beneficio ji se tornou inviavel,
por seu demorado usufruto, o Estado costuma abrir
mesa de negociaqces (ou negocia sob ela) para os maus
efeitos fiscais de grandes empresas, que fraudam o
fisco e apostam no transcurso do tempo para nao pa-
gar os valores das autuacqes, que eventualmente so-
frem, ou no surgimento de um esquema de composi-
gqo de divida, como o do ano passado (que tanto favo-
receu a Vale e a Cerpa), ou outro tipo de arranjo me-
nos conventional, mais freqiiente em temporadas de
caqa aos votos (e aos financiadores de campanha). t
tio sistemitico esse tipo de procedimento que ele ter-
mina por premier o fraudador e punir os que, voluntari-
amente ou por imposiqio, recolhem impostos. Uma
moral que responded pelo altissimo grau de sonegaqdo
fiscal e tributiria no Pard.


ABRIL DE 2010 1u QUINZENA Jornal Pessoal 9







Defini9oes partidarias


O PR do vice-prefeito licenciado de
Bel6m, Anivaldo do Vale, deveri se ali-
ar ao PT do Pard na eleiqgo deste ano.
E o que sugere a movimentaqgo de
Anivaldo, que poderi vir a ser o com-
panheiro de chapa da governadora Ana
Julia Carepa. Ele 6 responsivel pelo
preenchimento de virios cargos da ad-
ministraqdo federal no Estado, que nao
pode dispensar, sob pena de enfraque-
cer seu partido e inviabilizar seus proje-
tos pessoais de poder, que incluem o fi-
lho, o deputado federal Liicio do Vale.
Por isso, o PR se dissociou do PTB,
com o qual fez a coligacgo vitoriosa para
a dltima eleiqdo municipal. Nao foi um
rompimento aberto e definitive, mas o
PTB nao acompanhard seu parceiro. 0
prefeito Duciomar Costa nao seri can-
didato a nada neste ano, permanecendo
no cargo at6 o prazo de desincompati-
bilizaqdo para a eleigqo seguinte.
O lanqamento do nome do empresa-
rio Fernando Yamada como candidate do
partido ao govemo, ainda que seja ape-
nas uma manobra de sondagem do ter-
reno, pode indicar que o PTB nao apoia-


ri a reeleigqo de Ana Jdlia (mesmo sen-
do aliado national de Lula) nem embar-
cari na canoa do PMDB no 1 turn.
Tera candidate pr6prio e depois negoci-
ard com aquele que tiver melhor oportu-
nidade de vencer no 2 tumo, o que inclui
o PSDB de Simao Jatene (que o ajudou
a eleger-se prefeito), al6m do PT e do
PMDB. E Duciomar, como sempre, pro-
curando o maior rendimento possfvel.
Engana-se quem pensa que Fernan-
do Yamada nao tem aspiraq6es politi-
cas. Al6m de ter integrado a adminis-
trad9o do governor H61io Gueiros (1987/
1990) como secretirio de inddstria e
com6rcio, ele nunca se desvinculou de
politicos e sempre cultivou sua presen-
9a em pdblico. Mas aquilo que o torna
economicamente forte o enfraquece
politicamente: sua empresa, dona da
maior rede de varejo do Pari, dentre
virios neg6cios. Num palanque, ele se
tornard vulnerivel a determinados ata-
ques, sobretudo em mat6ria de sonega-
qio de impostos e desvio de dinheiro,
acusaqAo que ji lhe acarretou uma pri-
sdo temporaria pela Polfcia Federal.


Motivado pelo convite de Duciomar,
Fernando deve estar avaliando a ten-
tagao de entrar na political, pela qual
voltou a ser atrafdo quando se filiou ao
PTB, no final do prazo legal para po-
der participar da eleiqao de outubro. A
filiaqao surpreendeu o mundo politico,
que supunha Fernando desinteressado
do poder. Ele pode dar o passo que
custou tao caro ao tamb6m empresa-
rio Sahid Xerfan, quando deixou os
bastidores e entrou no palco aberto.
Ele foi prefeito, disputou (e perdeu
para Jader Barbalho) o governor do
Estado e agora s6 consegue votos
para se eleger vereador, tendo sacri-
ficado suas empresas. Fernando tam-
b6m pode desistir da aventura. 0 con-
vite em si, por6m, ji bastaria para
transmitir um recado do PTB: nada
com o PT no 1 turno no Pard. A nao
ser que tudo nao passe de mais um
lance para surpreender a opiniao pd-
blico com o inverso do que 6 declara-
do (como uma dobradinha Ana-Fer-
nando). 0 que nao seria nenhuma no-
vidade na temporada atual, nesta
como nas anteriores.


Wlad e RBA indenizam


Em 2003 o ex-prefeito de Bel6m,
Edmilson Rodrigues (entdo no PT, ago-
ra no PSOL), cobrou indenizagqo por
danos morais que o radialista e depu-
tado federal (do PMDB) Wladimir
Costa lhe teria causado em seu pro-
grama na TV RBA, Comando Geral.
No mes passado o arquiteto ganhou a
causa, na 8a vara civel. Wladimir foi
condenado a pagar 60 mil reais e a
emissora de televised da familiar Bar-
balho, R$ 30 mil, valores a serem atu-
alizados e acrescidos de honordrios e
custas judiciais. Por pedido do autor,
da agdo, 80% do valor da condenaqao
serao destinados a uma instituiqao sem
fins lucrativos corn trabalho voltado
para crianqas e adolescents.
Edmilson conseguiu convencer ojuiz
Joao Batista Lopes do Nascimento que
o radialista, mais conhecido como Wlad,
o atacou pessoalmente, atingindo sua


honra, e que a RBA nao podia se exi-
mir de responsabilidade pelo conteddo
sensacionalista do program, como ten-
tou fazer, porque faturava corn o arren-
damento do horario. Ainda cabe recur-
so contra a decisao.
Em varias audig6es do program, de
grande audi8ncia, Wladimir Costa disse
que Edmilson era responsivel "por uma
p6ssima administraqgo", caracterizada
por roubalheiras, inddstrias de multas
atrav6s de sensors eletr6nicos (deno-
minados araras), que integrava uma
"quadrilha junina da lingua plesa", cha-
mou-o de arquiteto dos buracos e anun-
ciou que iria fechar a entrada em Mos-
queiro porque o prefeito nao permitia a
entrada de seu "Trio El6trico", adminis-
trando Bel6m como se fosse o dono do
municipio e nao apenas o gestor. Tam-
b6m disse que o rosto do prefeito pare-
cia um "maracuji de gaveta", atribuin-


do-lhe a pecha de pior prefeito que a
cidade da ji teve.
Na sua sentenga, o juiz observou:
"Acusar algu6m de ser ladrdo 6 uma
das mais graves ofensas que se possa
dirigir ao ser human, em especial quan-
do o m6vel sao querelas political e sem
nenhum indicative de provas, o que tor-
na a vida da pessoa um verdadeiro
caos". A refer6ncia As caracteristicas
ffsicas de Edmilson resultaria de "con-
dutas inadmissiveis no mundo civilizan-
do, 6 ag9o dolosa para que o mesmo se
tome objeto de risos e galhofas". Ojuiz
considerou ainda que, por tratar-se de
uma empresa de comunicaqao de mas-
sa e de "um grande parlamentar, de
quem se esperava conduta diferente
pelos compromissos corn a comunida-
de, devem ser apenados de forma exem-
plar para que sejam demovidos da pos-
sibilidade de reincidir".


- Jomal Pessoal
Editor: Licio FlIvio Pinto


Diagramagio e ilustraq6es: L. A. de Fada Pinto Contato: RuaAristides Lobo, 871 CEP: 66.053-020
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10 Jornal Pessoal ABRIL DE 2010 i QUINZENA






Belo Monte: lago cresceu


Em 2002 a Eletronorte reapresen-
tou A sociedade o projeto da hidrel6tri-
ca de Belo Monte, no Pard, corn uma
nova e atraente roupagem. Tenta-
va assim vencer as resistencias, que
mantiveram a id6ia congelada por mais
de uma d6cada. 0 custo da usina foi
reduzido significativamente e sem
qualquer perda na capacidade instala-
da de geraqao de energia, o que per-
mitiria colocA-la no ponto final de con-
sumo corn uma tarifa tres vezes inferi-
or A que entao estava vigente no Cen-
tro-Sul do pafs.
Nao seria mais preciso barrar o rio
Xingu em cinco locais a montante, para
armazenar agua para o perfodo de es-
tiagem, a jusante, quando a vazao pode
ser reduzida em at6 100 vezes em re-
lagdo ao pique das chuvas. Nem mes-
mo seria necessdrio former um reser-
vat6rio especifico para Belo Monte: o


lago artificial, inicialmente previsto para
ocupar 1.200 quil6metros quadrados,
ficaria em um terqo dessa area, meta-
de dela ji coincidindo corn as inunda-
q9es anuais do Xingu As proximidades
de Altamira.
A usina seria praticamente a fio
d'igua: embora o reservat6rio ainda
contivesse 7,7 bilhoes de metros cdbi-
cos de agua, esse volume representa-
ria apenas 8% do lago da hidrel6trica
de Tucuruf. Mais important ainda: en-
quanto o volume de agua 6til no lago
de Tucuruf 6 de 32 bilhoes de m3, em
Belo Monte seria zero. Toda agua que
chegasse iria passando para a casa de
forga principal ou a secundiria.
No EIA-Rima (estudo e relat6rio
de impact ambiental), a drea do re-
servat6rio de Belo Monte sofreu uma
ligeira correcao para 515 quil6metros
quadrados. Mas no edital da licitaqao


da obra, marcada para o dia 22, hou-
ve reajuste ainda mais acentuado,
para 668 km2. A evolugqo, a partir da
primeira versao do novo projeto, ji
passou de 50%. Embora em valores
absolutos a diferenqa nao seja tdo
expressive, o percentual 6 alto demais
para que a dan9a dos ndmeros trans-
corra sem explica9qes. E at6 mesmo
sem cobranqas, ji que os opositores
do projeto nao parecem ter observa-
do a mutaqao.
Mais um motivo dentre varios -
para que o licenciamento ambiental do
projeto seja revisto, impedindo a exe-
cugao da obra a toque de caixa, como
acontecia quando o Brasil vivia em re-
gime de ordem unida. Em regime de-
mocritico, o fator de convencimento
tem que ser a verdade, produto que os
promotores de Belo Monte ainda nao
apresentaram por complete.


0 crime de encomenda


A morte anunciada continue a ser
consumada no Pard. 0 iltimo a ser
executado por pistoleiros de aluguel foi
Pedro Alcantara de Souza, de 55 anos,
ex-vereador de Redenqao e coordena-
dor da Fetraf (Federagqo dos Traba-
lhadores na Agricultura Familiar). 0 cri-
me ocorrido na semana passada, pode
ser enquadrado no roteiro geral desse
tipo de event, tdo contumaz no Pari,
lfder national no assunto. Pedro era
goiano, migrou para o sul do Pard tr8s
d6cadas atris e passou da political con-
vencional para a lideranqa dos movi-
mentos sociais. As controv6rsias que
provocou nao foram poucas. Nenhu-
ma delas capaz de justificar sua elimi-
nag5o ffsica.
Mas 6 assim que procedem os que
podem mais nos moments em que sdo
contrariados. Na sua versdo mais san-
grenta, esse modus operandi se con-
solidou com as frentes de expansao que
abriram caminho na Amazonia a partir
da d6cada de 60, contando corn a par-
ceria do poder pdblico a partir da im-
plantagdo do regime military de exceqiao,
em 1964. O0 govemo estava inteiramente
do lado de quem tinha capital e reprimia
ou controlava os trabalhadores.
Acompanhei a trajet6ria final do pre-
sidente-pelego do sindicato dos traba-


lhadores rurais de Conceiqao do Ara-
guaia, Bertoldo Lira, um home peri-
goso. Ele se impunha pela forqa e pelo
apoio dos 6rgdos de seguranga. A elei-
9ao do oposicionista Raimundo Ferrei-
ra Lima, mais conhecido por Gringo (por
sua tez e cabelos claros), foi a primeira
mudanqa significativa na representaqao
dos trabalhadores do campo no Para
desde o AI-5. Ele venceu uma estrutu-
ra que parecia inexpugndvel.
Graqas a capacidade de desloca-
mento que entdo eu tinha, fui varias
vezes a Conceiqao, Xinguara, Marabdi
e A casa do Gringo, que morava corn o
sogro, uma famflia maravilhosa, num dos
lotes da area litigiosa da Fundagao Brasil
Central, na "sobra" de terra do Araguaia,
que tantos conflitos abrigou. Estive no
seu enterro e depois na manifestagao
de protest, a primeira a romper o cor-
dao da repressao, que atemorizava e
inibia qualquer ato coletivo na regiao.
Seis mil pessoas participaram da pas-
seata pelas ruas de Xinguara.
Quem estava li nao acreditava no
que via. Nem podia prever que veria o
que aconteceu, como se as pessoas ti-
vessem brotado de sdbito, rompendo a
corrente do medo. Felizmente hi olhos
e mem6rias que nao esqueceram. A in-
feliz repeticao desses assassinatos tam-


b6m nao deixa esquecer. 0 que 6 ne-
cessario nio 6 esquecer: 6 acabar com
essa brutalidade, que desafia corn arro-
gancia o poder pdblico e humilha as pre-
tens6es de civilizagao que temos.

Submundo

S Os homess do
S president" Ri-
chard Nixon que
invadiram a
l^ sede do Partido
Democrata para
espiond-lo, As
v6speras da eleigqo em 1972, eram cha-
mados de "bombeiros", numa associa-
gqo com os encanamentos secrets (as
ligaqces) da Casa Branca. Ja aos seus
o president Lula deu um apelido con-
veniente: "aloprados". Pertencem A
mesma estirpe. Mas os 61timos, que
continuam a levitar pelas estruturas do
poder, ainda nao tiveram o mesmo des-
tino dos primeiros, como deviam ter.

Opiniao

0 que o leitor do JP acha de trazer
para o impresso os artigos e os debates
que circulam no portal do Yahoo? Sua
avaliaqgo serA bern vinda.


ABRIL DE 2010 12 QUINZENA Jornal Pessoal 11







Petistas incham a maquina official


Quando Ana Jilia Carepa assumiu
o govemo, em janeiro de 2007, o Esta-
do contava corn 95.230 servidores pd-
blicos, que Ihe custavam quase 170 mi-
lhoes de reais por mis. Nao houve maior
alteraqdo nesses nuimeros at6 os dois
primeiros meses de 2008. A partir do
segundo bimestre desse ano, porem,
comegou a haver crescimento. Em abril
ji eram 99.807 servidores e a folha de
pessoal chegara a R$ 200 milh6es men-
sais. Entre julho e agosto o quadro de
funcionarios estaduais voltou A casa dos
tres digitos (101.770 exatamente).
Em abril de 2009 o ndmero ji era de
109.314 e o custo estava pr6ximo de R$
220 milh6es, sem incluir o orgamento pre-
videnciario. Metade do efetivo (51.171)
eram servidores de nfvel m6dio, havendo
31 mil de nfvel superior e 17 mil de nfvel
operacional. Ou seja: em pouco mais de
dois anos o govemo do PT incorporou
quase 15 mil funcionarios ao servico p6-
blico, com um acr6scimo de quase R$ 50
milhoes A folha (ou quase 30%, bem aci-
ma da inflagqo no periodo.
A questdo que fica desses ndmeros:
o crescimento foi para ajustar a miqui-
na official as demands do Estado, que
tamb6m cresceram demais? Essa hip6-
tese pode ser comprovada pelo aumen-
to da produtividade e efici8ncia do go-
verno? Ou ele podia at6 melhorar seu
desempenho corn a mesma estrutura de
pessoal existente, fazendo apenas ajus-
tes entire os diversos stores (uns in-
chados, outros anemicos)?
Respostas satisfat6rias dependerdo
do acesso a informaqoes melhores do
que as que foram divulgadas na ediqdo
do Didrio Oficial de 13 de agosto do ano
passado. Confesso que s6 a li na sema-
na passada, agradavelmente surpreso
em encontri-la e negativamente cho-
cado por sua sumariedade. De uma s6
vez, o governor Ana Jdlia cumpriu, nes-
sa ediqao, a exigencia da Lei de Res-
ponsabilidade Fiscal, de publicar bimes-
tralmente o demonstrativo da remune-
ragdo do pessoal.
0 descumprimento da obrigagqo, que
acarreta crime de responsabilidade, co-


meqou na administracqo de Simao Jate-
ne (2003-2006), que interrompeu a s6-
rie, mantida pelos seus antecessores (in-
clusive por seu "padrinho", Almir Gabri-
el), mesmo que a muito custo. 0 atual
pr6-candidato do PSDB a voltar ao go-
vemo simplesmente deixou de publicar
as informaq6es, ningu6m lhe cobrou o
compromisso (exceto este jomal) e fi-
cou por isso mesmo, como se o Pard fos-
se a casa da Noca (e nao a "terra de
direitos" da propaganda petista).
Ana Jtlia seguiu o p6ssimo exemplo
do seu provavel antagonista desta elei-
gqo. Continue cobrando e o govemo, ig-
norando. At6 que algu6m, corn poder ins-
titucional para tal, deve ter obrigado a
governadora a se submeter A lei, para
nao reduzi-la, de novo, a mera potoca
baratista. Confesso minha falha no acom-
panhamento regular do Didrio Oficial, que
faqo quando os processes judiciais mai-
oranicos (e de outros poderosos) nio me
desviam da minha fungao professional, de
auditor do poder em nome do povo (nao
meu oficio pessoal, mas de todo e qual-
querjornalista). S6 fui ler essa edicao do
DO ao fazer a revisio de montanhas de
pap6is que escaparam ao meu control.
Nao 6 por acaso que os interessados em
me calar me processam seguidamente,
sem o menor respeito pela justiqa.

Ror iniciativa pr6pria
O por pressao
externa, finalmente o
governor petista publicou a
demonstraqao da
remuneralao dos seus
servidores, exigencia que
todos os demais poderes
constituidos cumprem
regularmente. De uma vez safram
os boletins bimestrais, desde janeiro de
2007 at6 abril de 2009. Mas sem seguir o
padrio anterior. S6 foi inclufdo o pessoal
ativo. Nao houve mais a distribuiqao dos
funcionarios pelos locais em que estio lo-
tados. Arazao? Simples: esconder da opi-
niao pdblica o autintico ex6rcito de as-
sessores especiais (provavelmente j aci-
ma de mil) que serve (ou deviam ser-


vir) A governadora, colocados em seu ga-
binete. Um escdndalo funcional que o PT
prometia encerrar, mas apenas repetiu.
Ao contrdrio do que acontecia antes,
ji nao se pode mais apontar o quanto
essa assessoria pesa aos cofres do erd-
rio por falta da especificaqdo, mas a tese
da repetencia do PT nos maus hibitos
administrativos pode ser demonstrada.
Em janeiro de 2007 havia no Estado 5.134
servidores em cargos comissionados, di-
vididos praticamente ao meio entire os
que tinham e os que nao tinham vinculo
(2.616 e 2.518), e que custavam mais de
R$ 7 milh6es ao m8s. Em abril do ano
passado esse contingent pulou para
7.435, com quase o dobro daqueles sem
vinculo funcional (que passaram a ser
4.862), enquanto o total dos vinculados
at6 diminuiu um pouco (para 2.573). Ja
o custo mensal, por isso mesmo, mais do
que dobrou, chegando a R$ 16 milhoes.
Ou seja: como determine o manda-
mento partidario, os companheiros en-
contraram lugares mais bem remune-
rados para os companheiros, que caem
de para quedas no serviqo pdblico e li
podem at6 se eternizar, dependendo dos
arranjos. Sempre reservando uma par-
cela expressive do que ganham para o
partido, garantindo seu milionario fundo
A base do velho patrimonialismo, tingi-
do de vermelho.
Ainda nao pude verificar se a publica-
gqo foi atualizada de agosto para ci nem
reconstituir as origens da decisao do go-
vemo Ana Jdlia de, finalmente, cumprir a
Lei de Responsabilidade Fiscal, um dos
melhores penduricalhos que a legislaqao
incorporou ao corpo brutamontes do apa-
relho de Estado. Precisarei de mais tem-
po para me atualizar ao Diario Oficial e
consultar fontes, cada vez mais dificeis.
Espero que os processes maioranicos nao
continue a atormentar minha atividade
professional e me impedir de cumprir meu
dever para com o distinto pdblico: infor-
mi-lo sobre o que dizem e fazem os po-
derosos. Que, como se pode ver em mais
este exemplo, nao cumprem suas promes-
sas de transparencia, quando chegam a
fazer promessas.


IS. S.b

Fiamne sprinss- e'ndsoi K-i ead eirst oEtdqe ml~nri oe