Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00341

Full Text

MARCO
DE 2010
2aQUINZENA


ormal
0A AGENDA AMAZOI"


qIC/


Pessoal
DE LUCIO FLAVIO PINTO


ELEICAO



Sem povo

A boataria segue desenfreada sobre as articulaC&es para as proximas eleiC&es.
Hd de tudo no carddpio. Menos o atendimento dos verdadeiros interesses publicos.
Povo? S6 para votar.


S egundo se diz das pesquisas, o
1 deputado federal Jader Barba
l lho estd em primeiro lugar tanto
na dispute para o governor do Estado
quanto para o Senado. Sobre sua re-
eleiqdo para a Camara ndo ha son-
dagens: ela 6 dada como certa. Mais
do que isso: ele seria o campedo dos
votos, podendo eleger mais dois ou
tries deputados federais para a ban-
cada do PMDB. Jader estaria entdo
corn a faca e o queijo na mao, po-
dendo decidir A vontade sobre o que
pretend ser e corn quem deseja se
aliar?

PARA COLONIAL


Pelo contrario: ele esti numa situ-
agao mais dificil do que a de 2006.
Na eleiqao de quatro anos atris Ja-
der tomou a iniciativa de acertar a ali-
anqa com o PT em Brasilia e montou
a estrat6gia, que foi bem sucedida.
Langou um candidate pr6prio, o pri-
mo Jos6 Priante, que teve votos sufi-
cientes para garantir a passage da
petista Ana Jdlia para o 2 turno im-
pedindo que o tucano Almir Gabriel
vencesse no 1 turno. Na nova elei-
gco, o apoio a Ana se ampliou pelo
desejo de muitos stores de por fim
aos 12 anos de hegemonia do PSDB


ImRmiij 1r


no Pard, independentemente de quem
colocar no lugar de Simdo Jatene.
Jader imaginou que seria o fiador e
a eminencia parda do governor de Ana
Jdlia, dando as cartas como quisesse.
Isso nao aconteceu. A cada desgaste
se seguia uma negociaqao para resta-
belecer a alianga precaria, na qual os
parceiros desconfiavam uns dos outros.
Mas houve tantos desgastes e tantas
negociaq6es que o acordo de 2006 pa-
rece ter chegado ao fim. 0 pr6prio Ja-
der tern dito a interlocutores que nao
quer mais nada do governor do Estado.
CONTiVDA NA PAGi


MRN SEM MULTA


No 461
ANO XXIII
R$ 3,00


I RiG





CONTINUAVO DA CAPA
Seu journal, o Didrio do Pard, faz opo-
siqgo cerrada a administraqio petista,
todos os dias, com ou sem razdo sobre
o que noticia. A orientaqgo 6 bater no
ponto mais vulnerivel da governadora:
sua image, bastante desgastada, con-
tribuindo para aumentar ainda mais seu
ji elevado indice de rejeiqao.
A traduqgo 16gica desses fatos 6
que, desta vez, o PT vai encontrar o
PMDB do outro lado do palanque. Mas
com que chapa? Se as pesquisas fos-
sem servir de parametro, corn Jader
Barbalho na cabeqa. Nas suas intensas
peregrinaq6es pelo interior, ele garante
que voltari a disputar o governor. Para
os mais intimos, confessa que 6 seu
desejo. Mas o realismo Ihe imp6e frei-
os. Sem dtivida ele passaria para o 20
turno, colocando o candidate tucano para
fora do ringue (e de volta a pescaria).
Mas qual seri o efeito do seu tam-
b6m alto indice de rejeicao quando a
decisao estiver polarizada, provavel-
mente corn Ana Julia? Qual deles se
apresentard aos indecisos, aos c6ticos
e aos contrdrios como "o menos pior",
o menor dos males? Ainda nao hi uma
resposta a essa questio. Ela continue a
ser uma inc6gnita. Como a eleiqao des-
te ano no Pard de modo geral.
Entdo Jader preferird o Senado, para
o qual sua vit6ria tamb6m 6 tida como
certa. Mas o que acontecera quando
entrar de novo na Camara Alta? Teri
que se submeter A titica do gato e do
rato, sempre fugindo da notoriedade, que
adotou na Camara Baixa, mas que tal-
vez ji o tenha cansado? Com quase sete
vezes menos parlamentares no Senado
e maior atenqdo piblica, 6 provavel que
nao seja bem sucedido. Logo se torna-
ri alvo da grande imprensa, sempre que
ela precisar de um simbolo do mau po-
lftico, ainda que muito influence. Seu
passado nao deixard de ser lembrado e
os processes retomarn o seu rumo. Ja-
der ainda nao foi alcanqado pela lei, mas
parece estar condenado ao estigma do
mau politico at6 o fim.
A melhor opcqo, em these, 6 tamb6m
a mais arriscada: tentar voltar ao poder
executive estadual, com poder de man-
do direto e saindo do foco national, para
preparar novas alternatives no future.
O problema dessa via 6 que uma derro-
ta deixaria Jader Barbalho inteiramente
exposto e A merc6 dos seus adversari-
os. Mas se 6 seu desejo intimo um ter-
ceiro mandate como govemador pelo


voto direto, o que Almir Gabriel tentou
e nao conseguiu, esta 6 a oportunidade,
ainda que temerAria. Talvez a iltima.
Qualquer candidate que decidir en-
frentar Ana Jdlia tera que levar em con-
sideragqo a forqa da miquina official.
Apesar da rejeiqao record A governa-
dora, e por isso mesmo, ela esti tentan-
do todos os meios para dar ao aparato
do governor aquele poder decis6rio que
ele costuma ter at6 o dia da votaqao. 0
problema 6 que a maquina tem rateado
muito. A receita pr6pria do Estado so-
freu uma perda maior do que a que pode
ser debitada a crise international. A
parcela da incompetencia nesse total
nao pode ser minimizada, assim como o
efeito dos canais de perdas e fugas de
receita. Para manter a engrenagem em
funcionamento, o governor precisou do
socorro de Brasilia, que providenciou
transfer6ncias voluntarias compensat6-
rias, e de mais operaq6es de cr6dito, em
volume crescente.

Essa demand se tornou
tio acentuada que deu aos
ex-aliados e oposicionistas
uma arma que estao usan-
do, ao impedir a aprovaaio
de dois novos empr6stimos
(mas fechando questio sobre o maior
deles, de 366 milh6es de reais, porque
de pleno uso do Estado), e irno usar ain-
da mais, mesmo se o dinheiro acabar
saindo, necessariamente dividido (os
outros R$ 190 milh6es para obras do
PAC). Assim, a sorte do PT no Pard
dependera ainda mais de Brasilia agora
do que quatro anos atris. 0 Palacio do
Planalto estard em condiq6es de res-
ponder a essa necessidade? Tera inte-
resse em faze-lo? Poderd faz8-lo?
Se tiver que se sujeitar a dois palan-
ques, o PT national, al6m de ficar im-
pedido de promover a presenqa fisica
de Lula no Pard, precisard abrir dois ou
mais canais de didlogo (e de ajuda) corn
seus outros aliados nacionais, como o
PMDB, o PTB e o PR. A situaqao fica-
ra mais complicada se esses tres parti-
dos se unirem contra Ana Juilia (corn a
possibilidade de a eles se agregar o PDT,
que tem ganhado consistencia).
Essa hip6tese vem sendo cogitada,
mas parece que ningu6m ainda encon-
trou um jeito de tomrn-la exeqbifvel. Ha
o estorvo da aqgo do PMDB pela cas-
saqao de Duciomar Costa, do PTB, em
pleno andamento. Jos6 Priante, que as-
sumiria com o afastamento do prefeito


de Bel6m, garante ir at6 as iltimas con-
seqtiincias. A tendencia dominant pa-
rece ser no sentido de punir Duciomar,
mas nao hi motivos para ter convicqao
de que a ago tramitara corn a celeri-
dade necessiria.
Se Duciomar for cassado pela justi-
qa eleitoral, seu vice, Anivaldo Vale, ca-
beca do PR, tamb6m seri atingido. Seu
partido, que cresceu tanto quanto o
PMDB na conquista de prefeituras no
interior, vem sendo seduzido pelo PT, que
consider a adesao do PR e talvez tam-
b6m do PTB garantia de vit6ria. Sem
a possibilidade de uma alianca geral, que
harmonizaria os interesses, resta saber
quem ganhard esse cabo-de-aqo.
A tendencia que parecia mais cer-
ta, a de medidas protelat6rias ou acer-
tos para evitar os processes de cassa-
9qo, foi invertida corn a decisao de
transferir o caso para a justiqa fede-
ral. Para evitar ficar sem mandate e
poder ainda entrar na dispute eleitoral
deste ano, Duciomar e Anivaldo teri-
am que renunciar aos seus atuais man-
datos. Poderiam se candidatar ao Se-
nado, o primeiro, e a vice-govemador,
o segundo (ou, quem sabe, a governa-
dor, se Jader acabar preferindo a ree-
leiqao). Nesse caso, Jos6 Priante nao
assumiria a prefeitura de Bel6m, hip6-
tese que s6 teria respaldo legal se hou-
vesse cassagdo. 0 preenchimento do
cargo abriria uma nova frente eleitoral
e political, engrossando ainda mais o
quadro da dispute de outubro.
Haveria lugar para encaixar o DEM
nesse esquema hipot6tico? Vic Pires
Franco sua nio 6 mais capaz de asse-
gurar reeleiqao a deputado federal corn
votaqao pr6pria. Para ele, o melhor se-
ria que sua esposa, a ex-vice-governa-
dora Val6ria Pires Franco, fosse candi-
data ao Senado, arrastando-o consigo.
Mas essa dobradinha s6 teria forqa com
a benqao de Jader, que nao parece ani-
mado a concede-la. Talvez pressentin-
do que o caminho esta bloqueado, Vic
se volta novamente para o grupo Libe-
ral, do qual se afastara, que passara a
critical e pelo qual fora colocado no in-
dex, justamente pela aproximaqao com
Jader. Reatarao mais uma vez?
A posiqao do grupo Liberal (ou, me-
Ihor dizendo, as diversas posiq6es que
assume, de acordo com a mudanqa dos
ventos) 6 um indicador do ziguezague
(e mesmo da biruta) das negociaqSes
entire os virios pretendentes ao poder.
O journal dos Maiorana, que ja fez ironia


2 Jornal Pessoal MARQO DE 2010 21 QUINZENA






Mindlin: as origens


Por que certas pessoas se apegam
tanto as redaq5es, locais de trabalho
tensos, nervosos, desgastantes e inse-
guros? Ao responder A pergunta, Janio
de Freitas, um dos mais antigos e im-
portantes jornalistas ainda em atividade
no Brasil, observa com toda razao:
"Poucos tiveram a lucidez de sair ou a
sorte de ficar". Jos6 Mindlin foi benefi-
ciado pelas duas situa ges: teve a sorte
de entrar na hora certa e no local
apropriado na redaqao de 0 Estado
de S. Paulo. Mas se nao tivesse tido a
lucidez de sair provavelmente nao che-
garia aos 95 anos de idade e nao ga-
nharia muito dinheiro. Em compensa-
9q5, com a experiencia iinica que a re-
dacqo jornalfstica proporciona, sua vi-
sao de mundo se tomou mais ampla e
sua riqueza teve uma aplicago mais
fecunda do que a de um empresario
conventional.
Raros conseguem enriquecer com o
jornalismo e praticamente nenhum corn
ojornalismo rigoroso, refratArio A pica-
retagem. 0 exercicio do jornalismo
exaure de tal modo que a maioria tern
vida curta ou nao consegue o prolonga-
mento possivel em outras profissoes.


Mas nenhuma delas oferece a rique-
za de relaq6es e conhecimentos
ao alcance do jomalista, se ele
decide ir para a linha de fren-
te da hist6ria e acompanha
com intensidade o cotidiano. *
Nos necrol6gicos de Mind-
lin, que morreu em Sao Paulo
em 28 de fevereiro, esse infcio
da sua formaqao foi esquecido
ou negligenciado. No entanto,
sua biografia 6 um atestado de
que as raizes da sua posiqao de
mecenas, de empresario ldci-
do, de cidaddo ativo e de inte-
lectual nasceram durante sua
curta e decisive experinncia
como jornalista. Foi essa argd-
cia, essa capacidade de lidar
com o divers e o diferente, que lhe per-
mitiram comandar a Metal Leve em pe-
riodos dificeis durante o regime military e
cultivar uma posigao de independ8ncia
- e at6 de auddcia num moment em
que muitos, e quase todos os empresiri-
os, se escondiam ou se omitiam.
Quem o conheceu e p6de tamb6m
conhecer sua preciosa biblioteca, ven-
do a unidade, equilibrio e coer8ncia que


havia na relacgo daquele home com
o mundo da cultural, da economic, do
govemo e das pessoas, nao podia dei-
xar de considerar que ter chegado A
atividade produtiva pela redaqgo e ter
saido dela em tempo garantiram uma
singularidade que transcendeu, em Min-
dlin, suas faces de empresArio, bibli6filo
e cidadao. Foi um verdadeiro persona-
gem da hist6ria do seu tempo.


e campanha contra Ana Julia, agora lhe
di destaque e relative defesa em rela-
qgo aos ataques do Didrio do Pard. A
posiqao face a Duciomar various do
apoio incondicional, A cobertura discre-
ta, A critica (quando as conversaq6es
corn Jader comegaram) e a uma atitu-
de mais ou menos neutra (conforme a
veiculagqo da propaganda official do
municipio). 0 que indica que nada ain-
da esta decidido, apesar de tanta movi-
mentaqdo em (e entire) todos os grupos.
Se houver uma polarizagao entire
dois candidates corn alto indice de re-
jeiqao, seria possivel a formacgo de
uma expectativa para uma surpresa,
uma zebra? A falta de um verdadeiro
tertius at6 agora, 6 nesse espago que
o ex-governador Simao Jatene esta se
movimentando. Suas excurs6es ao in-
terior, sob a bandeira do Instituto Te-
ot6nio Vilela, o apresentam em sua
face de t6cnico, administrator expe-
riente, para contrastar corn a impro-
visagao e o despreparo dos seus su-
cessores. A abordagem tem rendido
alguns bons resultados aos tucanos.


O pior, por6m, ainda aguarda Jatene
- e em sua pr6pria casa.
0 ex-governador Almir Gabriel
transformou em obsessao evitar que seu
antigo secretArio e home de confian-
ca seja o candidate do PSDB. 0 traba-
iho inclui desde espalhar boatos contra
Jatene at6 desafia-lo na convencgo do
partido. Um dos arguments mais cons-
tantes de Almir para se opor a Jatene 6
de que ele estA sob o control da antiga
Companhia Vale do Rio Doce.
Alguns chegaram a espalhar que o
ex-governador era empregado da mi-
neradora, mas o que parece ter havido
foi (ou ainda 6) uma relagqo contratu-
al: Jatene prestou assessoria A empre-
sa, elaborando um estudo sobre os in-
vestimentos que a ex-estatal poderia
fazer no Para. Na ret6rica agressiva
que Almir adotou, esse detalhe 6 irre-
levante. Em duas palestras que fez e
nos contatos pessoais, transformou a
Vale em inimigo pdblico ndmero um do
Estado. E, claro, se apresenta como o
Dom Quixote para brandir suas armas
contra esse moinho.


Talvez esse discurso tivesse bons
efeitos, se nao soasse tao fora do tem-
po. Ainda assim, Almir Gabriel diz ter
recursos para, se nao inviabilizar, enfra-
quecer a candidatura de Jatene. Caso
o nome do ex-amigo seja confirmado
pelos convencionais do PSDB, 6 bem
provavel que Almir passe a apoiar a
candidatura oposta a de Jatene. Inclu-
sive a de Jader. Sepultard sua biografia
sem direito a epitdfio.
Surpresa? Se 6, outras poderdo ain-
da surgir nesta fase final de composi-
96es para a eleigao de outubro, na qual
vale tudo. Na defesa dos seus interes-
ses pessoais e corporativos, os politi-
cos sdo capazes do impossivel (como
fazer boi voar) para fortalecer suas
candidaturas e conseguir o almejado
mandato. S6 quando tudo estiver con-
cluido 6 que deverao comegar a pen-
sar naquele que devia ser o persona-
gem central dessa hist6ria: o eleitor.
Nao para promover sua melhoria de
vida, mas para conseguir o seu voto,
mesmo que atrav6s de trapaga. Nao a
primeira e por certo nao a 61tima.


MARQO DE 2010 2& QUINZENA Jornal Pessoal 3


L --C- P-C -I --- c-~l C ~ I ~--CI L L --





DEBATE


N6s, os intrusos


Um dos meus principals objetivos neste journal e
provocar o interesse dos paraenses e, sempre que
possivel, dos habitantes da Amaz6nia em geral pelos
grandes temas locais e regionais. Ndo s6 o interesse,
mas a decisdo de participar da discussdo sobre essas
questoes e encontrar uma maneira de tomar decisoes a
respeito delas. Em outras palavras: ndo deixar a
histdria passar como um cavalo selado, no qual ndo se
tenta montar. Surpreendentemente, encontrei uma
grande receptividade a esse propdsito no espago que o
Yahoo me abriu em seu portal da internet para falar da
Amazonia sob a 6tica do nativo.
Na ediCdo passada reproduzi o primeiro capitulo desse
novo didlogo. Hoje, public o segundo capitulo. 0 leitor
de journal impresso pode achar que me contradigo ao
tomar essa iniciativa porque jd critiquei 0 Liberal
quando ele mantinha uma pdgina ocupada por blogs da
internet. Mas ndo hd contradigdo. Sd a rede mundial de


computadores me permit debater corn um universe mais
amplo do que o alcangado pelo Jornal Pessoal. Os
artigos que escrevi para o portal transmitem para o
mundo virtual uma posicdo que e de defesa dos interesses
da Amazonia. A expectativa e de que provoquem uma
reacdo em torno desse eixo temdtico e ndo da
perspective national, que vem defora para dentro como
um referencial categdrico, impositivo. E a tentative de
reverter o comando da interpretaCdo e das definicfes
sobre a regido. A seleCdo das mensagens enviadas (76
neste moment) inclui itens relevantes a considerar, como
a arrogdncia dos auto-proclamados especialistas, a
negligencia sobre o saber local, os bairrismos que ainda
emperram a solidariedade regional, afalta de uma
consciencia global sobre a AmazOnia, a desinformacdo,
mas tambem o quanto de paixdo e interesse ela provoca
em todos os lugares. Espero que o leitor do JP tambem
approve a iniciativa e dela tire o melhor proveito.


0 ARTIGO
e*mo voc8 reagiria ao chegar A
1 Amazonia e receber um convi
te para comer uma costeleta
assada de avid? Se reagir com born
humor A "pegadinha", 6 porque tern umrn
conhecimento mais intimo da regido. 0
avid 6 o mais mindsculo dos camar6es,
com uns tr8s centimetros de compri-
mento, que se come cozido. Cada gar-
fada deve carregar mais de uma deze-
na deles. E saboroso, mas s6 aparece
em dois rios amaz6nicos. Um, 6 o Ta-
paj6s, em cujas margens foi fundada -
hi quase 350 anos a terceira maior
cidade do Pard, Santar6m, que lidera a
campanha para criar um novo Estado,
desmembrado do atual (o segundo da
federagqo, corn tamanho equivalent ao
da Col6mbia), ela como sede.
0 outro rio 6 o Tocantins, que 6
amaz6nico, mas ndo faz parte da ba-
cia do rio Amazonas, a maior do pla-
neta. E mezzo Planalto Central, mezzo
Amaz6nia, com sua pr6pria bacia (em
parceria corn o Araguaia, cada um de-
les corn mais de dois mil quil6metros
de extensio). Contribui com suas
iguas para a formaqao de um vasto
estuario, no qual se localizaBel6m, dis-
tante 180 quil6metros do Amazonas, o
suficiente para receber pouca influ8n-
cia daquele que 6 chamado de rio-mar,
por sua enormidade.


Convidar para um churrasco de avid
tern sido meu teste para distinguir o
"amazon6logo" de gabinete daquele que
realmente trilha pela regiao, indo cons-
tatar com os pr6prios olhos seus fen6-
menos naturais e aprender sobre a sua
hist6ria. E muito fdcil assumir o titulo
de especialista em Amaz6nia a distan-
cia. As t6cnicas que possibilitam o co-
nhecimento indireto se sofisticaram
muito. Pode-se acompanhar o que acon-
tece na regiao todos os dias monitoran-
do as imagens dos virios sat6lites que
orbitam sobre a regiao.
A frente do monitor, a milhares de
quilometros de distAncia, algu6m pode
detectar uma queimada ou um desma-
tamento que passam despercebidos a
um native vizinho do local. Abibliogra-
fia amaz6nica ji redne milhares e mi-
lhares de tftulos. Mas algu6m, com to-
dos esses recursos, que podem dar-lhe
um volume de conhecimentos capaz de
impressionar qualquer desavisado, pode
cair como um "pato" na "pegadinha" do
avid. Alguns ji cafram, e eram bd-bd-
bis, bwanas mesmo.
Brincadeira de mau gosto? Nao.
Quando a formulei, me serviu de men-
sagem para aqueles que chegam a
certezas sobre a Amaz6nia por pro-
cesso dedutivo, por derivacqo ou mes-
mo por gravidade (ji que se acham
degraus acima do morador da regiao).


At6 meados da d6cada de 80 a Fun-
dagqo Getdlio Vargas deduzia a parte
da Amaz6nia nas contas nacionais por
residuo. Apurava o que era das de-
mais regi6es e o que sobrasse era o
Norte, um detalhe, apesar de corres-
ponder a dois terqos do territ6rio na-
cional e nao ser exatamente um de-
serto demogrdfico (e muito menos
uma terra ignota, sem hist6ria).
E impossfvel descobrir o mist6rio
amaz6nico atrav6s de fotografia, ima-
gem de sat6lite ou descrigqo por escri-
to de terceiros. Ela nao 6 apenas parte
do mundo tropical, membro da confra-
ria do Terceiro Mundo ou paragem
colonial. Infelizmente, 6 tudo isso, mas
tem uma natureza diferente, especifi-
ca e dnica. Ela 6 o produto da combi-
nacqo de agua e floresta no mais fe-
chado dos circuitos da natureza no pla-
neta Terra. E um organismo harmoni-
co, em equilfbrio. Ou era, at6 que os
homes foram ousando cada vez mais
na quebra desse circuit fechado.
0 home nio 6 um element per-
turbador por si mesmo. 0 dano que cau-
sa result de incompreensao sobre o
meio fisico no qual atua. Devemos isso
a uma americana, Anna Roosevelt, bis-
neta do legenddrio president america-
no Theodore Roosevelt (comandante de
uma expediqdo tao incrfvel feita ao atu-
al Estado de Rondonia que seu nome


4 Jornal Pessoal MARQO DE 2010 2 QUINZENA





passou a batizar o rio pelo qual nave-
gou, sofreu e quase foi imolado, junto
com um dos maiores her6is brasileiros,
o cuiabano Candido Rondon, marechal
original, por fazer a paz, nao a guerra).
Por ela, ficamos sabendo que a apa-
riqdo humana na Amaz6nia tem de 10
mil a 12 mil anos. E que esses primiti-
vos habitantes comeqaram a manejar
ceramica antes dos andinos, ou ao mes-
mo tempo. Logo, nao sdo derivados
deles. Deram inicio a uma nova etapa
da hist6ria humana nessas paragens
amaz6nicas, dotada de autonomia e,
depois, de identidade.
Essa populacgo original, corn milha-
res de anos de adaptagqo ao espago
natural, somava pela casa dos milh6es
quando os europeus chegaram, apenas
meio milenio atris. Sua participagao, a
partir desse moment, foi avaliada atra-
v6s das tabelas das matangas ou das
"redug6es" culturais, que ocultavam a
destruiqgo do universe do nativo. S6
agora comega a avaliagao do que fize-
ram. Tao "avanqados", os descenden-
tes dos colonizadores europeus levaram
s6culos para se fazer uma pergunta pri-
mal sobre a atividade desenvolvida por
essa gente, que parecia nenhuma, nula.
Para impressionar, certamente
acrescentando um ponto, mas nao in-
ventando o conto, o justamente c6lebre
padre Ant6nio Vieira garantia que, As
proximidades de Bel6m, havia tantos
indios que, se se atirasse uma fecha


para o ar, ela nao cairia ao solo. Iria
engatar na cabega de algum indio, tan-
tos eles eram.
Claro que nao se limitaram a ficar
nas suas ocas ou fazer qualquer coisa
de frdgil em tomo. Pesquisadores ver-
dadeiramente amaz6nidas ji depara-
ram, em areas pioneiras, corn esp6ci-
es florestais de terra firma plantadas
em vdrzea e vice-versa. Quem fez a
transferancia e o replantio? Ora, o per-
sonagem ao qual aplicamos a impr6-
pria denominacqo de indios, tao exata
quanto o ato de batismo dos espanh6is,
que viram guerreiras amazonas a ca-
valgar pelos pantanosos terrenos alu-
viais das margens do Amazonas e sa-
pecaram o titulo ficticio, que "pegou"
e nao sai mais.
Esse personagem se inseriu como
parte da engrenagem do organismo har-
monico, que observou sem press por
d6cadas, s6culos, milenios. At6 que, ten-
do feito muito para manter sua grande-
za demogrifica, o que fez se tomou in-
visivel aos olhos "sabidos" do coloniza-
dor, que, a despeito de sua ciencia e da
sua tecnologia, nao consegue ver o
mecanismo suntuoso da Amaz6nia aci-
onado pelas arvores e pela agua, numa
interagdo perfeita, a produzir tanta di-
versidade de vida.
Lembro-me de um engenheiro que
me levou para sobrevoar a area a ser
inundada no rio Uatuma, a 180 quil6-
metros de Manaus, para a formaqao


do reservat6rio da hidrel6trica de Bal-
bina, num dos atos mais insanos da his-
t6ria da Amaz6nia. Colocando-me di-
ante daquela visdo queria me conven-
cer a desistir de combater o projeto.
Seu argument? As aguas iriam cobrir
uma terra pobre, um latossolo amarelo
vagabundo, que nao servia para nada.
No entanto, era a base fisica de sus-
tentagdo de uma impressionante con-
centragdo de irvores, com alturas de
30 a 50 metros. Essa exuberante co-
bertura vegetal, o engenheiro nao con-
seguia ver. 0 que ele queria ver ji es-
tava definido antes que ele saisse do seu
local de origem para participar daquela
obra, de um bilhao de d61lares desperdi-
gados, valor multiplicado muitas vezes
em fungao dos danos A natureza, que
ningu6m contabiliza depois.
Porque cada um tem a sua Amaz6-
nia e se a realidade nao corresponder
A vontade do colonizador, que se mude
a realidade. t mais ficil para o agent
da hist6ria colonial da Amazonia con-
temporanea lidar com esse universe
mudado do que aprender a se inserir
no organismo harm6nico, que consti-
tuiu a paisagem siamesa dos milh6es
de series humans que palmilharam
pela regido como invisfveis, segundo a
nossa definiq9o, ou como sabios, como
deles dird a hist6ria, quando ela for
escrita corn a verdade.
At6 1d, continuarei a convidar o visi-
tante para uma churrascada de avid.


AS MENSAGENS
Janete Santos -
Como amaz6nida, mui-
to me anima perceber que
"olhos d'dgua" langam sus-
peitas sobre o "conhecimen-
to" dos amazon6logos de
gabinete. Uma visao envie-
sada da regido pode levi-la,
sem d6vida, muito mais rdpi-
do A derrocada de sua pre-
servacqo sustentdvel. Que
venham mais questionamen-
tos e que se d8 voz ao nati-
vo, mesmo atrav6s de tercei-
ros, para falar sobre e em
defesa de sua terra. 0 con-
fronto de vozes 6 sempre
melhor que o silenciamento.
Thais Medeiros -
Desculpe, caro Lucio, mas os
pescadores de Santar6m nao
pescam avid ou avium em


aguas do brilhante Tapaj6s.
Mas, sim, pelo majestoso e
jovem rio Amazonas. Gran-
dioso por natureza, 6 nele ou
dele que emanam milhares
de camarnezinhos que deli-
ciam a mesa dos caboclos,
moradores de Santar6m e
arredores.
V nderlei Mendes
de Oliveira Ho-
norifico Lficio Flavo, a lite-
ratura sobre a Amaz6nia e os
amazonidas pode ser consi-
derada ampla, mas mesmo
juntando todos os devaneios
da construqdo do conheci-
mento, nao se pode negar que
os rios Araguaia e Tocantins
estdo dentro da chamada
Amazonia Legal Brasileira.
Trata-se de uma nomencla-
tura criada envolvendo mais


de uma bacia hidrogrifica,
nesta ressalva de minha par-
te nao tenho discordancia, da
sua parte tamb6m nao, quan-
to A culindria. Esta realmen-
te tem o mesmo sentido de-
vaneador. Voce tem af os
seus pratos e por aqui tern
outros que voce e nem eu
devemos conhecer. Por fim,
os amaz6nidas sabem mais
do que eu e voc8 juntos. Ago-
ra, no mundo das id6ias nao
existed pegadinhas, existem
suadinhas. Os bairrismos A
parte, o tudo 6 o nada e este
6 todo. Abracos com os
olhos abertos.
C ira Se outro enge-
nheiro (como o de Bal-
bina) convidi-lo para sobre-
voar a area (hoje canonica-
mente abenqoada, chamada


de Complexo do Madeira -
outro ato insano) onde estdo
sendo construidas as usinas
hidrel6tricas de Santo Anto-
nio e Jirau, no rio Madeira,
em Rondonia, por favor, nao
recuse o convite, pois breve-
mente, voc8 ird reescrever
este artigo (N6s, os intrusos).
Por baixo das "folhas" de
papel do PAC outra parte
da Amaz6nia sacode duas
vezes por dia: sao as explo-
soes nos canteiros das usi-
nas. Nada fica para contar a
hist6ria, tudo voa, literalmen-
te pelos ares, as janelas das
casas balanqam, a terra tre-
me. Sabe qual 6 a resposta
do engenheiro para todo esse
balanceio? "Oh, isso 6 nor-
mal". Afinal eles olham a
- CONrmUA NA PAe 6


MARCO DE 2010 2~QUINZENA Jornal Pessoal 5





COmTmUApAODA PAO 5Umm
Amaz6nia de cima, do mais
alto possfvel, assim, jamais
enxergardo o que ha por bai-
xo das nossas arvores de 30
a 50 metros. E, que born que
ainda hi avid por af. Eles sdo
uma 6tima lembranga da mi-
nha infancia amazonense.

odrigo -Com todo res-
lpeito, essa do "avid" foi
meio infame. Nomes de plan-
tas e animals mudam de um
lugar para outro na Amazonia.
Ao long do rio Negro, por
exemplo, a mesma plant 6
chamada de "curucuda",
"itud" "curucuda-da-midda",
etc, etc. Se porventura o via-
jeiro conhece o Pari, mas nao
conhece o Estado do Amazo-
nas, certamente nao conhece-
ria algum dos nomes que ci-
tei. Me parece que nao saber
o que 6 o avid nao 6 uma me-
dida vilida do conhecimento
de algu6m em relacdo a Ama-
z6nia. Por acaso voc8. sabe o
que 6 Mapinguari, piaba,
camu-camu, carapana? Eu sei,
pois andei ao long do rio Ne-
gro, mas tenho certeza que
muita gente no Mato Grosso
ou Rond6nia nao faz id6ia e
isso nao os toma mais ou me-
nos amazonicos. Um abraqo!

mnai FAtima, religio-
Asa Artigo interessantfs-
simo de pessoa consciente
e madura... desses series hu-
manos ricos em humanidade,
inteligencia. Por isso, n6s,
amaz6nidas,, ficamos felizes
por conviver c pessoas des-
se nive! Ja more 14 anos na
Africa, 2 e meio na Europa
e 7 na Transamaz6nica. Ex-
peri8ncia rica onde muito
aprendi. Obrigada.

L cio FIAvio Pinto
L- Prezada Thais: Em
parte voce tern razdo. Os
pescadores nao pescam mais
avid (6 esta a grafia certa)
no Tapaj6s. Mas nem preci-
sava sair do velho trapiche e
de qualquer ancoradouro da
orla para pega-los, no meu


tempo de menino e adoles-
cente em f6rias em Santar6m,
minha terra natal. No cruza-
mento do Tapaj6s corn o
Amazonas, no jogo de em-
purra-empurra dos dois gran-
des rios, havia em abundan-
cia dos micro-camaroes. A
poluiqgo e outros efeitos da
presenqa humana desidiosa os
afastaram, assim como uma
visdo obtusa da orla tern liqui-
dado corn as praias e o ethos
praiano dos santarenos, umrn
traqo cultural dnico no interi-
or da regiao. Mesmo assim,
mantive a refer8ncia do Ta-
paj6s, que 6 a origem decla-
rada (ou atribufda) do avid
quando comercializado.
Para o Wanderley: Aca-
demicamente, a bacia do Ara-
guaia-Tocantins (dois rios de
extensdo equivalent, mas
bem diferenciados) nao inte-
gra a bacia do rio Amazonas,
por nao lhe verter aguas, mas
faz parte da Amazonia. E
uma bacia amaz6nica aut6no-
ma, que s6 cruza suas aguas
corn as do rio-mar no estud-
rio do Pard (e af as aguas do
Tocantins sao bern mais vo-
lumosas do que as do Ama-
zonas, que tern participaqao
discretissima). Como disse, 6
mezzo Planalto Central, me-
zzo Amaz6nia, como vdrios
outros rios da margem direita
do Amazonas. Em terms
humans, o Planalto Central
avanqa sobre a hil6ia graqas
aos desmatamentos e As ati-
vidades econ6micas que o
sucedem. Nessa zona de
transiqao em expansao (o tal
do "Arco do Desmatamen-
to"), hi cada vez menos Ama-
z6nia e mais Sertdo, como ele
foi imortalizado em Euclides
ou em Guimarnes Rosa.

fliguel Como ser
uamazonida, de Ma-
naus, agradeqo por este tra-
balho em defesa nao s6 da
Amaz6nia, mas da vida. A
Amazonia 6 rica, 6 farta, re-
pleta de belezas naturais, e
fonte de diversas riquezas
para o Brasil e para o mun-


do. Temos que defend6-la
sim, ela 6 nossa, e despre-
zarmos os que critical, pois
estes ja moram em locais
destruidos, devastados e ro-
deados de trag6dias.
P atricia Que born
ver voc8 aqui. E que
orgulho poder ler algo assim,
que fala do Brasil antes do
Brasil, da hist6ria que 6 nossa,
mas da qual nao nos apropria-
mos, porque sempre contamos
as dos outros. Fala dos "ou-
tros" que estdo aqui mesmo,
em Sdo Paulo, no Rio, mesmo
em Bel6m, insistindo em olhar
o Brasil como se ele fosse, so-
mente, filho desse jeito de
olhar e dominar o mundo.

Carlos Portuga -
Lindo, bom, real, fan-
tdstico e maravilhoso este
artigo.Sou portugues e corn
muito orgulho mas tamb6m
sou brasileiro por adocgo.
Defended essa maravilhosa
floresta amazonica, nao dei-
xem esses americanos vas-
culhar por 1I. Foi a minha mais
bela e linda viagem que fiz
nessa floresta migica. Todos
pela defesa da Amaz6nia.

Andr6 de Moraes -
3JhColegas. Estou sem
tempo para comentar o texto
em detalhes, mas o exemplo
de entrada sobre o teste de
conhecimento da Amaz6nia
foi muito infeliz. Moro toda a
minha vida em Manaus-AM,
corn vivencia empfrica e de
campo em mais da metade
das cidades do interior do
Amazonas e ainda em algu-
mas de Roraima, Acre e Ron-
d6nia e nunca ouvi falar des-
se tal avid. Logo, seria eu
tamb6m um "amazon6logo"
de gabinete? De fato hd coi-
sas para al6m da circunscri-
gqo juridica geoecon6mica do
IBGE que resguardam a ho-
mogeneidade da Amaz6nia
Brasileira, mas hibitos ali-
mentares certamente nao sao
uma delas, pelo contrario, 6
uma coisa que varia muito.
Logo, fica minha critical. Te-


mos que pensar no process
de produqio desigual do es-
pago e seus reflexos, o que
na Amazonia conta corn uma
relaqgo espago-tempo que, na
maioria das vezes, nao tern
permitidos generalizaq6es em
escalas mais especificas.
Andri de Moraes, ge6gra-
fo, mestrando em Ci8ncias do
Ambiente e Sustentabilidade
na Amaz6nia PPGCASA/
UFAM. 1 Secretario da As-
sociacao dos Ge6grafos Bra-
sileiros AGB Segao Ma-
naus. Pesquisador do Ndcleo
de Estudos e Pesquisas das
Cidades da Amazonia Brasi-
leira NEPECAB/UFAM.
Pesquisador do Grupo de Pes-
quisas Biologia Evolutiva de
Peixes, linha de pesquisa "Bi-
ogeografia de Peixes Amaz6-
nicos" vinculado ao Labora-
t6rio de Fisiologia Comporta-
mental e Evolugao LFCE/
INPA

C arlos Alberto
Ataide (Belo Hori-
zonte) Andr6 de Moraes,
me desculpe o comentirio,
mas at6 eu, mineiro de BH,
conheci o tal de avid. Fui a
Manaus e, como de costume,
sempre ando pelo centro.
Entrei no mercado central
pr6ximo de um porto que exis-
te nos funds, aonde atracam
lanchas, e encontrei o tal do
camarno, ele 6 bem mindsculo
mesmo, como o jomalista fa-
lou. 0 caso de voc8 dizer que
nunca ouviu falar me preocu-
pa sendo voc8 um dito pes-
quisador. Colocou um monte
de titulos, que no meu enten-
der nao estao servindo de
nada. Exatamente como ojor-
nalista disse.
Trabalho no DNPM-MG,
sempre vou A regido: Manaus,
reserve Waimiri-Atroarf, San-
tar6m, Barcelos, Coari, Bel6m,
Jarf, Itacoatiara, etc. Talvez
devesse pesquisar melhor.
Quando fui em Manaus,
sempre pensei que iria ver
(confesso) traqos amazonicos
e o que vi foi uma gigantesca
cidade, corn poucos costumes


6 Jornal Pessoal MARQO DE 2010 21 QUINZENA





amazonicos e uma tremenda
vontade de ser sudestina.
Desculpe se estou sendo sin-
cero demais. Mas, o que vi
foi uma Sao Paulo reduzida,
inclusive corn os costumes.
Corrija-me se estiver errado!
0 pior 6 que a Amazonia
esti 1d, e ningu6m percebe!
Barcelos e Novo Airao sao
mais amaz6nicas que a pr6-
pria capital! Em Santar6m
tamb6m nao se percebem os
costumes amazonicos, ape-
nas costumes importados, o
que, para mim, caracteriza-
se como perda de identida-
de! Incrivel isso!
Acho que 6 exatamente
isso que o jomalista quis di-
zer: S6 de fotos ningu6m v8
nada! nem mesmo quem ti-
rou a foto e mora na Amaz6-
nia. Ou seja: de que adianta
ser pesquisador, se na maior
de sua soberba recusa-se a
perguntar alguma coisa ao
nativo? No mercado central
tern avid!.Eu vi! Como vi tam-
b6m tambaqui, camu-camu,
tapioca, tucuma com queijo
coalho, bod6, e algumas tar-
tarugas sendo vendidas clan-
destinamente. Sou de fora e
vi! Como voce, que se diz
pesquisador, nao viu? Voc8
nunca foi ao mercado?

E dineide Coelho
(Bel6m) Parab6ns
pelas reflexes inteligentes e
bern humoradas. Como ji
era de se esperar, seus arti-
gos sao cada vez melhores.
Entdo, s6 pra contribuir, fago
as seguintes consideragqes:
Nao s6 alguns "amazon6-
logos", como tamb6m muitos
amaz6nidas desconhecem a
Amazonia e at6 mesmo sao
indiferentes ao acelerado pro-
cesso de devastacgo que esta
acontecendo aqui. Por6m, in-
dependentemente da vontade
ou do conhecimento da popu-
lagao local, atos insanos, justi-
ficados pela political e pela re-
t6rica do desenvolvimento,
continual escrevendo boa
parte da hist6ria da Amazonia.
Em especial no Pard, onde


tamb6m caminha a passos lar-
gos o movimento separatist,
e tudo indica que vamos nos
separar antes mesmo de nos
conhecer. Fica entao aqui uma
sugestdo de tema para os pr6-
ximos artigos desta valiosa
coluna: 0 projeto de criaqdo
do Estado do Tapaj6s e de
Carajas: vamos dividir a po-
breza ou a riqueza? Vamos fis-
calizar mais de perto a explo-
ragdo de recursos naturais ou
vamos perder de vez o con-
trole sobre esse process de
devastaqao?
PS: Infelizmente o Andr6
de Moraes (de Manaus) nao
s6 estd sem tempo para co-
mentar o texto em detalhes,
como tamb6m nao tem tem-
po para cultivar o bom humor.
Ele deveria utilizar um pouco
do seu pouco tempo para co-
nhecer o grandiose Estado do
Pard e sua maravilhosa culi-
ndria e vasta cultural. Acho
que ele tamb6m nao teve tem-
po para ler todo o texto, pois
o jornalista citou claramente,
como exemplo, a formaqdo do
reservat6rio da hidrel6trica de
Balbina no rio Uatumd, a 180
quil6metros de Manaus,
como um dos atos mais insa-
nos da hist6ria da Amazonia,
e fez referencia A falta de
conhecimento do engenheiro
envolvido na obra sobre as
caracteristicas do solo.
Caro Andr6, nao perca
seu pouco tempo com essa
velha rixa entire amazonen-
ses e paraenses. Somos to-
dos irmdos. Vamos defender
juntos nossa Amazonia, jai
tdo aviltada.

Carlos Alberto
Ataide Sra Edinei-
de, tamb6m percebi isso, certo
bairrismo em Manaus com as
pessoas que v6m de outros
Estados, inclusive comigo.
Ficaram tirando brincadeiras
com o meu sotaque, tudo que
eu falava me respondiam co-
locando a palavra "trem" na
frente das respostas. Muito
desagradAvel mesmo. Em umn
dia fui convidado para um al-


moqo. Pensei que iria comer
um peixe ou coisa parecida,
e me levaram para uma casa
de massas. Perdoem-me, se-
nhores, mas as melhores ca-
sas de massa ficam em SP e
eu estou enjoado de comer lI!
Mesmo assim fui. Fiquei cho-
cado com uma grande quan-
tidade de piadas ditas na
mesa, principalmente corn
pessoas do Para. Por sinal,
dois funcionirios, um ge6lo-
go e um engenheiro, eram de
Bel6m do Para, e eu percebi
o desconforto deles. Nao en-
tendi aonde os piadistas que-
riam chegar, mas se a inten-
95o era tornar o ambiente
desagradivel, conseguiram.
Tamb6m conheci sua cida-
de, Bel6m, e me desculpem os
moradores de Manaus, ela 6
bem diferente de 1I. Comi pei-
xe corn um suco salgado ama-
relado que, nao sei de onde ti-
raram isso [tucupi], mas foi o
peixe mais saboroso que comi
na minha vida! O nome dele 6
filhote. Servido em uma enor-
me tigela de barro, em um pe-
queno, na verdade sao various,
restaurants na beira de um
rio de uma cidade chamada,
se nao me engano Icorati [Ico-
araci]. Simplesmente divino!
Nao ouvi nenhuma referencia
a Manaus, nem boas nem mas,
nem ao meu sotaque. Entre-
tanto, percebi que em Bel6m
as pessoas gostam muito da
sua terra e sempre procuram
um jeito de lhe agradar!
Muito bom mesmo!

E Idon Monte (Be
16m) Engraqado
como algumas pessoas inter-
pretaram a churrascada de
avid. Entendem que, pela bri-
lhante exposicqo de Licio
FlAvio Pinto, s6 se 6 um pes-
quisador de respaldo aquele
que nao cai no convite do
"churrasco de avid". Tudo
bern. E o que ele apresenta a
n6s. Mas o que o jornalista
quer expressar corn isto 6 uma
reflexdo sobre o olhar da re-
gino amaz6nica por diversos
olhos. Olhos estes impregna-


dos de mentalidades e con-
cepq6es distintas e nao sobre
o fato do avid propriamente
dito. A passage do texto:
"Porque cada um tern a sua
Amaz6nia e se a realidade nao
corresponder A vontade do co-
lonizador, que se mude a reali-
dade.", express bem essas
visoes divergentes acerca do
espago amaz6nico. Basta lem-
brarmos a forma de ocupagao
da regiao promovida pelos mi-
litares no s6culo passado.
Muito dos problems que en-
frentamos hoje na regiao sao
reflexos desta forma de ocu-
paqao. Talvez possa citar as
interven9qes na regiao: gran-
des projetos minerals, abertu-
ra de estradas, estimulo aos
grandes empreendimentos em
detrimento aos pequenos e
sustentdveis de baixo impact
e A sociedade existente no lo-
cal, dentre outros.
Foram propostas que
marcaram para sempre a
regilo e que at6 hoje cau-
sam impacts negatives.
Tudo isto promovido pela in-
compatibilidade dos models
desenvolvidos para a regiao.
Incompatibilidade esta exis-
tente pelas mentalidades di-
vergentes, como a visao do
engenheiro mencionada no
texto e objetivamente de-
monstrada por Ldcio Flivio:
"0 que ele queria ver jd es-
tava definido antes que ele
safsse do seu local de ori-
gem para participar daque-
la obra, de um bilhao de d6-
lares". E assim que 6 e as-
sim sempre foi. A Amaz6-
nia nao 6 algo morto, e sim
vivo, repleto de interaq6es.
Refletir sobre o conheci-
mento e o desconhecimen-
to sobre o avid 6 entender a
pluralidade de vis6es e "so-
lucqes" existentes e propos-
tas para a AmazOnia. E ne-
cessirio deixar de lado as
deducges que sao feitas. t
precise conhecer mais a re-
giao e excluir os preconcei-
tos existentes. Vamos refle-
tir mais. Parab6ns Lticio Fla-
vio pelo excelente texto.


MARQO DE 2010 2- QUINZENA Jornal Pessoal 7














!iMx (Qg^U\CKS


CASTANHA
As atividades do Sindicato dos Trabalhadores na Indtis-
tria da Castanha do Pard ficaram paralisadas de 1941 a
1952. Reorganizada, sua diretoria era integrada por empre-
gados de duas usinas: a Tupi e a Chami6. Os operarios re-
correram ao poder legislative alegando que a exportaqao de
castanha com cascas os deixava em, estado de mis6ria.
Puderam passar a quebrar castanhas, mas s6 as podres.
Ainda assim, ficaram satisfeitos.
Havia outro problema. 0 governor ingles decidira manter as
restriq6es As importaqoes da castanha do Pard e outras no-
zes brasileiras. Fazia parte da polftica britanica de contengqo
de despesas e de poupanqa de divisas. Mas as empresas de
navegagqo mercante de sua majestade nao estavam satisfei-
tas. Vindo ao Pard, um navio da Booth Line s6 arrebanhou
600 toneladas de carga para transportar para a Inglaterra.
Sem as restriq6es, o com6rcio melhoraria, os navios teriam
mais cargas e as empresas de navegag9o faturariam mais. 0
problema para a p6rfida Albion era decidir qual a decisao
seria mais lucrative.


PROPAGANDA

Fibrica

paraense

Em dezembro de 1955,
mais de meio sdculo
atrds, a Phebo podia
declarar, sem
patriotada, que os seus
produtos eram
conhecidos
nacionalmente. Eram,
de fato, criagoes
prdprias, como os
sabonetes Pard e Odor
de Rosas, o petrdleo
Oxfor os talcos, os
perfumes. Uma marca
que se diluiu corn o
tempo, ate sua marcante
presenga fisica na
cidade, que recendia
long, a partir da
fdbrica, ainda na
Quintino, mas jd sem o
velho glamour.


JORNALISMO
A versao official da "casa"
6 de que Romulo Maiorana
s6 se tornou dono de journal
em 1966, quando comprou 0
Liberal, que era o 6rgao ofi-
cial do PSD baratista (Parti-
do Social Democritico).
Mas no final de 1955, dois
anos depois de chegar ao
Pard, ele lanqou Sofaite, re-
vista mensal de mundanis-
mo. Em dezembro desse ano
a Folha Vespertina regis-
trou a circulaqdo do 2 nd-
mero, com "farto noticidrio
do movimento mundano da
cidade". Dizia que sua leitu-
ra era "agradivel a gregos e
troianos" por sua feiqao gri-


fica e o que divulgava em
suas colunas. A revista du-
rou pouco. Como tamb6m
nao foi longa a vida da Du-
) plex Publicidade, a primeira
empresa de RM, que produ-
zia anlincios, inclusive os des-
tinados a places em paradas
de onibus.

TUCUPI
Numa cr6nica (nao assina-
da, como sempre) na coluna
Vozes da Rua, da Folha Ves-
pertina de 1956, Paulo Ma-
ranhao contou a hist6ria de
um gastr6nomo paulista que
ia todos os dias ao arraial do
Cfrio degustar os pratos tfpi-
cos. Deixou para a v6spera
de sua viagem de regresso
o pato no tucupi. Mas co-
meu tanto da iguaria que
sofreu intoxicagqo grave e
morreu, sendo enterrado no
cemit6rio de Santa Isabel.
Como tinha 43 anos, o jor-
nalista conclufa: "E, pois,
verdade que os grandes co-
miles morrem cedo".
Mas antes de narrar esse
caso, relembrou uma hist6-
ria que deve surpreender (e
escandalizar) muita gente.
A dar-se cr6dito A narrati-
va, o pato no tucupi 6 um
prato recent na culindria
paraense:
"Em tempos que se esco-
aram, existiu em Bel6m uma
preta de axilas cheirosas que
ganhou a posteridade, mani-
pulando o famoso casquinho
de muqua. Era o seu forte e
o fraco da gente fina que fre-
quientava o arraial durante as
festas de Nazar6.
Na sua barraca, al6m do
muqud, degustava-se o cas-
quinho de caranguejo, a ma-
niqoba, o tacaci, cujo odor
de percebia a distancia, aro-
matizado pela pimenta de
cheiro; o agaf fresco, que
mulatinhas graciosas amas-
savam A vista de todos, al6m
dos pratos comuns de todas
as mesas. Nao era conheci-
do ainda o pato no tucupi,
cuja fama andeja hoje at6
pelos ares europeus. A culi-


8 Jornal Pessoal MARCO DE 2010 2 QUINZENA


TO0O 0 BRASIL CONHECE...













FRAGRAN(IA cam MI

DISTIN(AO I M. UMaNWAS


P... B


--~-~-r~-r r~-rsTP62~iiS



































naria da imortal Caetana pre-
parava-o de todas as formas,
mas Ihe ndo acudia cozinhi-
lo em tucupi. Mergulhado
nesse molho popular, s6 se
comia entao o bacu, de pele
amarela, que atualmente pa-
rece ter mudado de colorido".

BELCAN
Foi no inicio da d6cada de
60 do s6culo passado que
teve origem o que viria a ser
a PA-150, a mais extensa e
important das rodovias pa-
raenses. 0 projeto da Bel6m-
Jacareacanga foi concebido
no governor Aurelio do Car-
mo, mas quem deu partida A
execugao da obra foi um 6r-
gao federal, a Rodobris, cri-
ada para construir a Bel6m-
Brasilia. A future PA-70 co-
megou como um simples ra-
mal da BR-14, que comega-
va no lugar entao chamado
de Agua Suja e seguia na di-
reqao de Marabi, na mar-
gem direita do rio Tocantins,
num percurso de 220 quil6-
metros. Hoje a estrada esti
de novo federalizada, sendo
a BR-222. De Marabi, a
Belcan (conforme ficou mais
conhecida) prosseguiria at6
Jacareacanga, num tragado


semelhante ao que viria a ser
o da Transamaz6nica em ter-
rit6rio paraense.
No final antecipado do go-
verno Aur6lio do Carmo, pela
cassagdo do seu mandate
pelos militares, o secretdrio
de Obras, Terras e Viaqao,
Efradim Bentes, planejava a
criaq9o de cinco frentes de
desmatamento e terraplena-
gem em Macaxeira, Novo
Mundo, Fundo de Pau, Cu-
rarti e Gorotire, que estende-
riam a rodovia por mais 420
quil6metros, dando-lhe um
total de 640 kms. Eram
aguardados 42 tratores com-
prados no Japdo para o ser-
vi9o. Mas a hist6ria tomaria
novo rumo. A PA- 150 segui-
ria outro tragado a partir de
Bel6m, conectando-se corn a
PA-70 em Marabi, com ela
formando um v6rtice, e a
partir daf seguindo at6 o li-
mite sul do Para com Mato
Grosso.

PESOS
A favela da Marechal
Hermes (no trecho hoje do-
minado pela valorizada
Doca de Souza Franco) ter-
minou em maio de 1964. 0
pr6prio prefeito Moura


FOTOGRAFIA

Zepelim parauara

Nos Altimos tempos tem circulado intensamente a
imagem dos zepelins, Onibus urbanos que s6 trafegaram
por Belim em torno da metade do sdculo passado. Foi
uma criativa inspiragao nos enormes avides alemdes
que flutuavam gragas ao uso de gds e fizeram rotas
internacionais, inclusive para o Brasil. Esta foto, menos
exibida, oferece um detalhe a mais: ao fundo, em dia
chuvoso, o mercado de Sdo Braz, construido corn
suntuosidade na era de Antonio Lemos e que, desde
entdo, ainda ndo conseguiu uma harmonia entire sua
arquitetura e seu uso. A Belem desta imagem tinha
personalidade pr6pria, era criativa, adaptativa e
hidica. E a de hoje?


Carvalho (que tamb6m se-
ria cassado pelos militares
pouco depois) comandou a
desmontagem dos case-
bres. Todo material foi
transportado pelos bombei-
ros para um terreno que o
entao SNAPP (depois Ena-
sa) doou a prefeitura para
ser loteado e abrigar os re-
manejados, que nao tiveram
direito a qualquer indeniza-
gdo e ainda precisaram re-
construir seus lares, utili-
zando a madeira, as telhas
e tudo mais que foi carre-
gado. Mas sua retirada foi
pacifica (nem havia entida-
de de defesa dos direitos


humans) e eles at6 parti-
ciparam do desmonte dos
seus casebres, atraidos pela
promessa de que, saindo do
terreno, que era do SNA-
PP, os novos lotes seriam de
sua propriedade. S6 ndo
foram beneficiados os do-
nos de botequins e os que
alugavam barracos. 0 mo-
inho ingles Ocrim, recebeu
prazo de dois meses para
desmontar um barracdo de
madeira construido bem no
meio da avenida Marechal
Hermes, impedindo o tran-
sito de vefculos. Obra ile-
gal que perdurou por mui-
tos anos.


MARCO DE 2010 2, QUINZENA Jornal Pessoal 9







Muito minerio no Para:


a quem e que beneficial?


O setor mineral investird 40 bilh6es de
d6lares (quase 70 bilhoes de reals) no Pard
nos pr6ximos cinco anos (2010/2014). Di
uma m6dia de US$ 8 bilhoes ao ano. E
quase o dobro da receita tributilria liquid
do Estado, o dinheiro que mant6m a mi-
quina pdblica em funcionamento e respon-
de pelos investimentos pdblicos, que nao
vdo al6m de 10% do total. Nenhuma ativi-
dade economic terd aporte semelhante de
capital. E possivel que, final, o Pard assu-
ma a lideranqa da economic mineral brasi-
leira. Dos US$ 40 bilhoes que constam da
programagao das empresas, quase US$ 26
bilh6es serdo aplicados na extracqo de mi-
n6rio, menos da metade (US$ 11 bilh6es)
na inddstria de transformagao, US$ 2,7 bi-
lhWes em infraestrutura e transport e US$
505 milh6es em outros neg6cios.
O computo inclui apenas 14 projetos de
extragco de min6rio (oito deles de respon-
sabilidade direta da Vale e um de sua coli-
gada Mineraqio Rio do Norte)
e 8 de ind6stria mineral (s6 3 da J
Vale, em um dos quais associa- v
da a Sinobris), mais tres de in-
Jornal
fraestrutura e transport (sendo acho qu
dois da Vale) e dois de "outros intima e
Bel6m e
neg6cios (um s6 da Vale e outro na sua
em associaiao). Mas hai mais primeira
18 projetos minerals em fase de langar u
ilustraqc
pesquisa, alguns dos quais con- Cunha c
duzidosporgrupos multinacionais transform


ou intemacionais de porte, como a Xstrata,
a chilena Codelco, a Rio Tinto e a Carafba
Metais, a uinica inddstria de cobre do pais
(e a dnica associada do sindicato mineral
que ndo atua no Pari).
0 principal efeito desses investimen-
tos seri incrementar ainda mais a espe-
cializaqdo do Pard como Estado expor-
tador (talvez vindo a ocupar a 4a ou mes-
mo a 3a posiqao national em 2014) e
gerador de saldo de divisas (o 2 mais
important do Brasil). A fatia dos min6-
rios e derivados na pauta de exportagao
paraense, que ji 6 de 85%, poderd ex-
perimentar expansao ainda maior (talvez
para 90%). E, internamente A economic
mineral, o setor meramente extrativo
deveri ultrapassar dois tergos do produ-
to mineral, enquanto a indistria de trans-
formacao encolheri um pouco.
Esses nimeros escancaram uma rea-
lidade da qual os paraenses precisam se


esti nas bancas e livrarias o segundo
olume da Mem6ria do Cotidiano, a se
ao mais lida por parte dos leitores do
Pessoal. Junto com o volume anterior,
e os dois livros permitem uma visao mais
sempre individualizada da hist6ria de
do Pard durante o s6culo XX, sobretudo
segunda metade. A boa receptividade a
iniciativa reforgou o compromisso de
ma nova coletanea dos textos, fotos e
5es do JP. 0 apoio do amigo Reginaldo
:ontribuiu para viabilizar a empreitada,
mando-a em um acontecimento de final de ano.


dar conta o mais ripido possivel (o queji
tarda demais a acontecer): o subsolo do
Estado 6 tdo rico que sua vocaqao mine-
ral 6 inevitAvel. Um novo produto, o nf-
quel, comeqard a ser produzido neste ano,
juntando-se aos demais, que tem expres-
sao intemacional, como o min6rio de fer-
ro, a bauxita, o cobre, o caulim, a alumina,
o aluminio, a gusa e, no future, o ago. Como
na economic prepondera a mera extra-
qio do min6rio e sua dita industrializaqio
se reduz a insumos e semi-elaborados, a
se manter esse perfil o Pard deveri ter o
mesmo destino dos Estados e pauses de
economic primaria: crescer sem se de-
senvolver, gerar renda sem progress.
Nao hi exceqio a essa regra.
Ao apresentar os ndmeros do balan9o
mineral de 2009 A imprensa, hi duas se-
manas, o president do Sindicato das In-
ddstrias Minerais do Estado do Para, Eu-
genio Victorasso, chegou a admitir que o
setor mineral "pode ter sido um
grande vilio no passado", mas
que teria se livrado desse estig-
ma. Hoje as mineradoras tem
consciencia de sua responsabi-
lidade social e ambiental, que in-
corporaram ao seu modo de
proceder para nao serem ape-
nas geradoras de riqueza bruta.
Nao querem continuar a ser en-
claves, que s6 agregam beneff-


fiOEDE-=R


RADIO
Sintonizando a frequ ncia
90.5 MHz, pode-se ouvir, ope-
rando hi pouco mais de um ano
em Belem, a Radio 0 Liberal/
CBN. Muito se poderia falar so-
bre esse misto um tanto es-
tranho de programag6es pau-
listana e belenense (onde a
hora era dada corn base no Ho-
rario Brasileiro de Verao, que
nao se aplica a BelIm, e o ou-
vinte 6 informado sobre a me-
Ihor maneira de escapar de umrn
"congestionamento na Margi-
nal do Tiet&"...) e sobre essa
notivel mudanga no cenario


radiof6nico paraense, corn a
introducgo da "radio que toca
noticia", no meio de tantas emis-
soras locals cuja programacgo
limita-se, via de regra, a tocar
mrsicas horas a fio.
Mas o que interessa aqui e
conjeturar sobre essa ousada
associacgo 0 Liberal-CBN e
um possfvel embate entire cul-
turas jornalisticas divergen-
tes: entire um jornalismo exi-
gente, pautado na "informa-
g5o correta, isenta, corn espa-
go para a pluralidade de opi-
nibes e analise critical do que
estA por trAs dos fatos", como


afirma o site da Central Brasi-
leira de Noticias ("informag5o
corn credibilidade e qualida-
de", acrescenta o site de 0 Li-
beral, referindo-se a parcei-
ra), e um jornalismo menor,
domestico, parcial e lacunar,
pautado em regras nao escri-
tas e autocensura induzida
(referir-se a Ananindeua s6
para falar mal; nunca menci-
onar L6cio Flavio Pinto e o Jor-
nal Pessoal...). EstS havendo
realmente este embate? 0 Li-
beral acolheu sern restrig6es/
sern reagio esta "ameaga"
potential em seus dominios,


ou a CBN adaptou-se de algu-
ma maneira em alguns "pon-
tos sensiveis" ao padrao lo-
cal? Ou houve acomodagbes
de ambos os lados?
Para o jornalismo de alcan-
ce maior, quando o assunto e
Amaz6nia, LFP e o JP sao refe-
rencia "incontournable", como
dizem os franceses. At6 quan-
do a Radio 0 Liberal/CBN (que
doravante representa- em these
- este padrao de jornalismo na
"capital da Amaz6nia", depois
da said de Veja, Gazeta Mer-
cantil e outros) vai ignor6-los?
[Ademais: como vai se compor-


- Jomal Pessoal
Editor: Lucio FlIvio Pinto


Diagramagio e ilustrag6es: L. A. de Faria Pinto Contato: Rua Aristides Lobo, 871 CEP: 66.053-020
Fones: (091) 3241-7626 E-mail: IIpjor@uol.com.br jornal@amazon.com.br Site: www.jomalpessoal.com.br


10 Jornal Pessoal MAR9O DE 2010 22 QUINZENA


CAMI





cios em tomo de si e, mesmo assim, mini-
mos, se considerados os efeitos multipli-
cados no local de destino dos seus produ-
tos, onde serlo realmente manufaturados
at6 o fim da cadeia produtiva.
De fato, o comportamento das mine-
radoras melhorou bastante em relaqao
ao padrdo de atuaqdo em outras areas
coloniais. Algumas se esforgam para me-
Ihorar sua imagem, preocupadas apenas
em fazer relaq es ptiblicas. Outras pa-
recem de fato empenhadas em distribuir
seus resultados por mais gente e mais
long do que sob a influencia direta da
mina. Ainda neste caso, por6m, o bene-
ffcio 6 residual. No ano passado o setor
mineral exportou US$ 7,1 bilhoes (dos
8,3 bilh6es do com6rcio exterior do Pard),
o equivalent a pouco mais de 12 bilh6es
de reais. Os royalties pagos chegaram a
R$ 243 milhbes, ou 3% do valor das ex-
portaq6es. E esse valor foi record. A
arrecadaqgo da CFEM cresceu cinco mi-
lhoes de reais em relagio a 2008, apesar
da queda de receita de exportagqo de
22% (igual ao percentual de baixa nas
exportaq6es totais do Pard).
Provavelmente esse fato se deve As
vendas intemas de min6rios, cujos dados
nao foram incluidos no balan9o mineral.
Parte crescente da produqao da bauxita
paraense, que 6 a terceira maior do mun-
do, destina-se as duas fibricas de alumina


(a de Barcarena e a de Sdo Lufs do Mara-
nhao). Como uma nova plant estd previs-
ta para Barcarena, ao custo de US$ 2,2
bilh6es, para que as mineradoras continu-
em a exportar bauxita terdo que elevar ain-
da mais a produqao do min6rio, o que de-
veri fazer o Pard pular pelo menos uma
posiqao no ranking intemacional.
Embora a esmagadora maioria do mi-
n6rio de ferro extraido de Carajas ainda
tenha como destino a exportagqo (sobre-
tudo para a China e, mais secundariamen-
te, o Japao), se o projeto da siderdrgica
de Marabi por implantado (investimento
de US$ 3,7 bilh6es), umaparcela mais sig-
nificativa sera absorvida localmente.
Como at6 2014 a produqdo de Carajis ird
dobrar, indo para 200 milhies de tonela-
das anuais, esse incremento do consume
intemo (hoje exclusive das guseiras) sern
relativizado pelo crescimento ainda maior
do com6rcio international.
Mais atentas para a natureza e o ho-
mem, ainda assim as empresas do setor
mineral nao conseguem fazer crer que
essas mudanqas irao alterar o perfil co-
lonial que o Pard tem hoje. Mudangas
hi e por isso elas decidiram finalmente
criar um sindicato da categoria, quase 30
anos depois que os grandes projetos en-
traram em opera9ao. 0 sindicato temr
apenas seis empresas associadas e 6
controlado pela Vale, a cujos quadros


pertence o president da entidade. A ini-
ciativa de convocar os jomalistas para
lhes apresentar o balango annual foi posi-
tiva. Mas muito ainda precisa ser feito
at6 que se possa "desenvolver uma cul-
tura mineral" no Pari, como admitiu Vic-
torasso. E precisa ser feito com urgen-
cia porque o fluxo de said de min6rio,
com as caracteristicas de uma hemorra-
gia desatada, nmo pode esperar por esse
estado de consci8ncia. Talvez nem quei-
ra esperar. Os paraenses, cujo territ6rio
6 tdo prodigioso em min6rios, 6 que pre-
cisam fazer a sua parte.
Uma das iniciativas pode ser estabele-
cer um percentual de participaqio do Es-
tado a partir de determinado volume de lu-
cro liquido alcanqado pelas empresas. Em
2005 a Vale foi a companhia que mais dis-
tribuiu dividends no mundo inteiro. Uma
vez assegurada a remuneraq~o estabele-
cida em lei para os acionistas e a reserve
geral, as distribuiq6es a partir desse ponto
deviam incluiro Estado e os municipios com
um percentual para que, af, sim, eles tives-
sem ganhos reais sobre a lucratividade
adicional corn a exploraqao dos seus re-
cursos naturais e nao apenas compensa-
q6es marginais, como agora. Ou entao a
linha do crescimento fisico continuard a evo-
luir em paralela muito mais ascendente do
que a do desenvolvimento, que a acompa-
nhard em posigao muito inferior.


Atraso

Esta edicjo atrasou e seu contetido ficou muito prejudicado porque noamente o, processor. judiciais contra mirn. de
autoria dos irmo'os Ronaldo e Romulo Maiorana Junior. abkor\eram meu tempo. Perdlo. lettore,.
..,- P- t .. .- ^- :Q--- -.. wax VINM AIYIVN- 4-Slj' .l .e-'-.-i.-^ O,. '
CAMOWI o


tar durante a campanha elei-
toral vindoura?]
OBS: A Rede Globo, a qual a
CBN 6 vinculada, tamb6m 6 ca-
paz de deixar seu "padrio Glo-
bo" de jornalismo ser contami-
nado porquest6es "dom6sticas",
como se viu na s6rie de reporta-
gens sobre a Rede Record no Jor-
nal Nacional, ano passado.
Patrick Pardini

CONHECIMENTO
Como esse editor ainda nio
registrou o event, inobstante
o problema se enquadrar nas
suas discusses rotineiras,
passo-Ihe os fatos. Para abri-
Ihantar e participar como con-
ferencista da aula magna, que
deu inicio ao ano letivo da Uni-
versidade da Amazonia UNA-


MA, veio da Inglaterra, o emi-
nente Prof. Antony Hall, pesqui-
sador da LSE, uma escola de
economic daquele pais, tam-
b6m consultor do Banco Mun-
dial, no PNUD Programa das
Nag6es Unidas para o Desen-
volvimento. 0 tema da confe-
rencia foi aquele que esse Jor-
nal Pessoal vem esmiugando e
debatendo sozinho ao long de
sua frutifera existencia. Nenhu-
mas novidades, apenas conhe-
cidas controv6rsias e estatisti-
cas defasadas. Portanto, para
mim, o objetivo principal do pa-
lestrante foi ressaltar o 6bvio.
A Amaz6nia (e nao s6 ela)
precisa do esforgo conjunto da
academia e da sociedade civil
para "mitigar" os estragos per-
petrados na sua fauna e flora.


Para nos dizer estas cruezas,
nao precisaria da contribuicao
de um especialista alienigena:
os nossos pesquisadores na-
tivos, da Amaz6nia e fora dela,
fluem com certa facilidade
laudas e laudas de discursos
semelhantes, embora nao te-
nham aplicabilidade no mun-
do real. Entretanto, em certos
aspects o Dr. Hall tem razio:
a falta de sintonia entire os es-
tudiosos e as instituigbes, o
desencontro do planejamento
e os recursos aplicaveis e, o
que seria mais estranho, mas
6 verdade, a desarticulagio
dos grupos academicos.
A nossa cota de investimento
em C&T, comparada com o ta-
manho da area, 6 nula. Estes
6bices seriam plenamente su-


perados caso fossem discuti-
dos num ambiente despido de
rivalidade e intolerAncia de
nossos conterrAneos. Mas, os
colonizadores sio insaciaveis.
Veja-se o caso do pr6-sal, pro-
vocou at6 uma crise de lagri-
mas no governador S6rgio Ca-
bral. Os titulares dos Estados
industrializados e suas lide-
ran(as defendem a exclusivida-
de dos investimentos, que tam-
b6m contribuem para alimen-
tar a expansAo das favelas (ver-
ticais e horizontais), centros de
formacao de delinquentes de
todas as tend6ncias, em cujas
entranhas d6-se a iniciacao ao
uso das drogas como cocaine,
maconha, crack, etc, mas isso
ja e outra est6ria ....
Rodolfo Lisboa Cerveira


MARQO DE 2010 2, QUINZENA Jornal Pessoal 11






Mineradora: livre da multa record


Foi grande de quase 80% a
reducao do lucro liquido da Mineragao
Rio do Norte, uma das maiores produ-
toras de bauxita do mundo, instalada
no Pard: caiu de 220 milhoes de reais
em 2008 para apenas R$ 46,3 milh6es
no ano passado. Uma das causes des-
se fraco desempenho foi a crise inter-
nacional de 2009, que provocou a di-
minuigqo tanto da produqdo quanto dos
preqos, conforme fenomeno que aba-
lou o mercado international de com-
modities. Mas o fator principal foi in-
terno: a MRN desistiu de continuar a
contestar najustiqa a autuacqo que re-
cebeu da Receita Federal em 2000.
Essa autuacgo resultou, tres anos de-
pois, na aplicagdo maior multa ji rece-
bida por uma empresa no Brasil.
A Receita considerou illegal a redu-
qao de 30% do seu capital que a mine-
radora fez em 1999, alegando estar corn
excess de capital. Os recursos foram
distribuidos entire os acionistas. Como
a Rio do Norte foi beneficiada por co-
laboraqao financeira da Sudam e isen-
gco ou reducqo de impostos, o gover-
no devia ter sido consultado para apro-
var a reduqao, que abrangeu dinheiro
pdblico, oriundo de renincia fiscal do
tesouro national. A autuaqao foi, na
6poca, de R$ 316 milh6es. Hoje, corn
as atualizaq6es, chega a quase o do-
bro do valor inicial.
A empresa fez o dep6sito judicial nao
s6 para poder recorrer em juizo como
para nao perder os beneficios do pro-
grama de refinanciamento
de sua divida corn o pr6-
prio governor. Em 2000 a
MRN fez um Refis no va-
lor de R$ 51,6 milh6es, re-
ferente a d6bitos de PIS e
Cofins/Finsocial, que seriam
quitados em 10 anos, corn pa-
gamentos mensais. Se nao fi-
zesse o dep6sito judicial do va-
lor da autuacgo de 2003 per-
deria o beneficio e teria que
pagar toda a dfvida a vista.
Considerando "as diver-
gencias de votos nos ilti-
mos julgamentos" do seu
recurso e os beneficios
que o governor instituiu em
maio do ano passado,
transformando em lei uma
media provis6ria que concedia


novos e maiores beneficios aos deve-
dores do fisco, "a MRN decidiu des-
continuar o process judicial", informou
a diretoria, no relat6rio do balango anu-
al de 2009, publicado no infcio do m8s.
Ela lembra que o process "estd supor-
tado por dep6sito judicial no valor de R$
600 milh6es e o custo de liquidagao serd
de R$ 283 milhoes", valor que pesou
sobre suas contas anuais.
Gragas a esse novo Refis, o valor
do d6bito atualizado, que era de R$
507,2 milh6es, foi reduzido para R$ 283
milhoes, sendo R$ 118,3 milh6es do prin-
cipal e R$ 165,1 milh6es de atualizagaio
monetiria. Para cumprir o compromis-
so, a mineradora recorreu a empr6sti-
mos, que, junto corn os dividends dis-
tribuidos, tornaram negative o capital
circulante liquido (em menos R$ 89,5
milh6es). Feita a quitagao do d6bito, a
empresa, "baseada na opiniao de seus
assessores legais, espera que o valor If-
quido do dep6sito judicial seja levanta-
do ainda no exercicio de 2010 e, por-
tanto, reclassificou o saldo para o ativo
circulante". Saldo que, no caso, seria
de mais de R$ 320 milh6es.
Como em seus tiltimos relat6rios a
mineradora sempre manifestou a con-
fianga de vencer a dispute judicial, ini-
ciada em 2003, a decisao de desistir da
querela e recorrer ao novo Refis, para


uma redugqo de quase 50% no valor
atualizado do auto de infracgo, sugere
duas coisas. Uma: que a crenqa na vi-
t6ria em Brasilia nao era tdo forte. Dois:
foi um bom neg6cio. A MRN acabou
formando uma poupanqa forqada extra
para 2010, que deverd ser o ano de re-
cuperaqao. 0 desempenho em 2009 fi-
cou abaixo da atuaqao no ano anterior.
As vendas se reduziram de 18,25
milh6es de toneladas, o record nos
30 anos de operaqao da mineradora
(como tamb6m de produqao), alcan-
gado em 2008, para 15,64 milhoes no
ano passado. Os preqos da bauxita
foram 11% inferiores porque desabou
tamb6m o mercado de alumina e alu-
minio, o maior demandante do min6-
rio. Por isso, a receita lfquida, que ti-
nha passado ligeiramente de um bi-
lhMo de reais em 2008, diminuiu 23%,
ficando em R$ 788 milh6es.
Mesmo assim, a Rio do Norte foi
destacada pelo anuario Valor 1000, pelo
segundo ano seguido, como a melhor
empresa de mineraqdo do pafs, numa
demonstraqao do quanto 2009 foi ruim
para o setor. Com a incorporagqo do
saldo do dep6sito judicial, a MRN terd
recursos suficientes para prosseguir
seus investimentos, corn a abertura de
novas minas e a manutengqo da sua ele-
vada producqo, 78% dela destinada ago-
ra ao mercado interno, para suprir as
fdbricas de alumina da Alunorte, no
Pard, a maior do mundo, e a da Alumar,
em Sdo Lufs do Maranhdo.
Al6m de tentar recuperar a
saide financeira, que per-
deu o viqo de exercicios
passados. Ha tr8s anos o
capital liquido circulante 6
negative por causa do recur-
so aos empr6stimos. Em
2005, por exemplo, seu lucro
lfquido foi de R$ 420 milh6es
A perspective 6 de que a
produgdo de bauxita continue a
aumentar em grande escala e
haja uma especializacqo entire os
produtores, dentre os quais es-
tUo as principals multinacionais do
sector. Tanto para suprir as neces-
sidades nacionais como para aten.-
der a demand mundial. Consoli-
dando assim essa funqgo de supri-
mento de mat6ria prima na qual a
Amaz6nia vai sendo especializada.