Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00340

Full Text


MARQO
DE 2010
1aQUINZENA


ornal Pessoal
A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO


ELEICAO


Tiro pela culatra

Manobras desastrosas ameagam a reeleigdo da governadora Ana Julia Carepa.
Candidate quase certa a passar para o 2 turno, em outubro, ela pode enfrentar
uma coligagdo mais forte na nova eleigdo e perder para uma alianga
surpreendente, liderada por Jader Barbalho.


OPartido dos Trabalhadores
abriga em sua sigla tantos gru-
pos distintos e divergentes
- que nem precisa de inimigos para
enfrentar: basta que os amigos divir-
jam para que a forqa da legend fique
ameagada. Esse 6 um ficil diagn6sti-
co de aplicaqdo gen6rica. Mas no
Pari essa cizania (como gostam de
dizer os militares, intolerantes As ci-
s6es internal, por forga da exig8ncia
hierirquica da instituiqao) se acentua
pela falta de comando e lideranqa for-
tes. A governadora Ana Julia podia
ocupar essa posiqao, gragas aos po-


deres que concentra. Mas se acumu-
lam as demonstrates de que lhe fal-
tam as qualidades de lider.
Ela pr6pria complicou gravemente
seu caminho para a reeleigao. Parecia
que seu maior desafio seria estabelecer
uma alianga mais s61lida corn seus prin-
cipais parceiros, em especial o PMDB,
e compor a base aliada com novos e
surpreendentes aliados, como o PTB
(maior adversario na ultima eleiqdo
municipal), de tal maneira a harmonizar
o esquema national pluripartiddrio for-
mado pelo PT para transformar o "pos-
te eleitoral" chamado Dilma Rousseff


na candidate favorite a sucessao do pre-
sidente Lula.
Foram tantos os erros cometidos
que por pouco a governadora nao se
viu diante da imin8ncia de um fato que
deveria ser normal e at6 desejivel nas
democracies, mas se tomou quase um
pecado mortal para os partidos politi-
cos brasileiros, incluindo o antes alter-
nativo PT: a dispute entire candidates
na convengqo. Os grupos uterinos do
PT ameaqaram levar a prefeita de
Santar6m, Maria do Carmo Martins, a
bater chapa corn Ana Jdlia. Com a
OKNT1 kiiA i


VALE: AINDA MAIOR


N' 460
ANO XXIII
R$ 3,00


I SAG.1


MH] BRIGA NA JUSTICE







coaTDNJAo DCA
maquina official nas mdos, a governa-
dora 6 a melhor candidate que o parti-
do tem para a eleigqo de outubro. Mas
minoritaria intemamente, ela poderia
perder na convencgo.
0 gesto que colocou as pretens6es
de reeleiqao de Ana Julia foi prim.rio e
desastroso. Seu grupo, a Democracia
Socialista, nao conseguiu criar nenhu-
ma lideranga political de expresso no
Estado, talvez porque seus integrantes
atuem com mais desenvoltura nos gabi-
netes e falando do que no imenso
territ6rio paraense, pelo qual se pulve-
rizam os votos. 0 principal candidate
da DS acabou sendo o agora ex-chefe
da Casa Civil. Mas Cldudio Puty 6 umrn
ne6fito em political, exceto a estudantil
(e nao mais naquele tipo de political es-
tudantil que formava quadros para a
political partiddria).
Sem o apoio da miquina e o apa-
drinhamento total da governadora, Puty
nao se elegeria vereador em Belem.
Daf sua presenga constant e ostensi-
va no control da maquina governa-
mental e nos deslocamentos da gover-
nadora ao interior. Mas essa providen-
cia nao bastou: era precise criar a ca-
deia que leva ao voto, integrada por
intermediarios que vao do candidate a
um cargo inferior (e por isso trabalha
casado com o candidate principal) at6
o cabo eleitoral, fantasiado agora de
lider comunitdrio.
Essa expansao colidiu com esque-
mas que foram montados antes e ji es-
tavam em funcionamento para apoiar
outros candidates. Os atritos foram se
agravando e comegaram a provocar
conflitos. Uma rec6m-criada base de
apoio a Puty no Incra de Marabi teve
que ser desfeita por causa da reacqo
do grupo do deputado federal Jos6 Ge-
raldo, que control o 6rgao. Essa vit6-
ria estimulou as outras tend8ncias a
avanqar sobre a DS e lhe impor outros
recuos, que culminaram no afastamen-
to antecipado de Puty da chefia da
Casa Civil.
A DS 6 a menor das divisoes inter-
nas petistas e s6 aparenta ser maior
porque venceu a eleiaio para o gover-
no em 2006. Como explicar essa vit6ria
se o grupo nem 6 predominante no PT
e sua principal lider, consciente da sua
expressao, vinha recusando aceitar a
candidatura, at6 que o president Lula
e o deputado federal Jader Barbalho
praticamente a obrigaram a enfrentar o


tucano Almir Gabriel, corn a garantia do
esquema que os dois lideres acertaram
em Brasilia? Os fatos e os ntimeros pro-
vam: sem o PMDB, o ex-governador
do PSDB teria conseguido seu terceiro
e glorioso mandato. Sem o qual perdeu
o rumo e o sentido biogrifico.
Fazer alianga com o PMDB em
2006 implicava o prego que o partido
de Jader Barbalho estabeleceu, com o
aval do president Lula. 0 PT do Pard
pagou a primeira promiss6ria, cedendo
cargos no primeiro escalao do governor
aos peemedebistas. Mas tratou de co-
locar le6es-de-chAcara A porta dos ga-
binetes e desviar fung6es para seus re-
presentantes, esvaziando os cargos ce-
didos. 0 PMDB engoliu v6rios sapos
porque, mesmo com as sobras de cada
uma dessas estruturas de poder, teve
espago para suas operag6es tipicas.
Mas quando o espago encurtou de-
mais, o partido resolve jogar alto. Pri-
meiro foi puro blefe: com as ameagas e
os primeiros atos de insubmissdo espe-
rava restabelecer a composiqao origi-
nal. Os "luas pretas" de Ana Julia apos-
taram em que os peemedebistas eramr
aliados compuls6rios, nao lhes restando
alternative senao acomodar-se com o
que lhes era destinado. Foi entao que
Jader Barbalho decidiu a ignorar o PT
estadual e passou a tratar apenas corn
o PT federal. Foi ele um dos peemede-
bistas mais ativos em favor da renova-
g9o da alianga national e da candidatu-
ra de Dilma Rousseff, combatendo os
que queriam uma candidatura pr6pria
do partido. Talvez os luminares do PT
paraense nao tenham percebido que
Jader construfra seu pr6prio palanque,
mesmo sem se apresentar como candi-
dato ao maior dos cargos em dispute.
Qual candidate colocar sobre o tablado
passou a ser a questao pendente, ainda
nao decidida (mas com opgses postas
A mesa, inclusive a de Barbalho). A dis-
sid8ncia, por6m, era uma realidade a
caminho do rompimento.
Se a governadora comandasse de
fato seus correligiondrios, a situaqao
seria outra. Mas Ana Jdlia demonstrou
ser pouco mais do que uma lider estu-
dantil e sindical, como seus gurus de ga-
binete. Obrigada a aceitar que os se-
cretarios com pretens6es eleitorais sa-
issem dos seus cargos no dia 1, um mes
antes do prazo legal de tolerancia, ela
ji deixou A mostra uma fraqueza. Ao
tentar "dar a volta por cima", retirando
poderes inerentes A Casa Civil antes de


entregA-la A tend8ncia concorrente, pra-
ticou outro desastre.
A manobra era to evidence que mais
uma vez teve que recuar. S6 que agora
de forma inusitada: o future substitute
de Cliudio Puty ameagou nao assumir
o cargo atrav6s de mensagem manda-
da atrav6s de telefone cellular. Talvez
tenha sido a primeira baixa comunicada
por um torpedo virtual. Everaldo Mar-
tins soube do golpe atrav6s da esposa,
que 6 secretiria estadual de pesca, e
nem se preocupou em falar pessoalmen-
te corn a governadora.
Todos esses desgastes teriam sido
poupados se a DS tivesse consciencia
da pr6pria expressao (ou falta de ex-
pressao) e aceitasse partilhar o poder
de forma mais just e coerente do que
a desproporcional concentraqao de po-
der que promoveu em beneficio pr6prio.
Na segunda-feira, dia 1, os tres novos
secretarios assumiram no lugar dos que
safram para se tornarem candidates na
eleiqao de outubro (um quarto, Valdir
Ganzer, dos Transportes, teve que per-
manecer no cargo, do qual j i tinha sido
exonerado, por causa de mais uma tra-
palhada petista: se assumisse como as-
sessor especial, sinecura reservada aos
demais, que nao possuem cargo politi-
co, teria seu mandate de deputado es-
tadual cassado). No ato, havia maquila-
gem suficiente para criar uma mAscara
de unidade partidaria, que inexiste. E
uma forga que se tornou miragem.
Muita gente participou da solenida-
de e pequenos partidos aliados manda-
ram seus representantes. Mas nao apa-
receu ningu6m das principals forqas
political que poderiam aderir A candi-
datura da governadora: PMDB, PDT e
o bloco PTB/PR (que control a pre-
feitura de Bel6m). A ausencia pode ser
apenas um recado e nao uma attitude
de separagdo definitive ou pelo me-
nos ainda nao. Mas se representar a
constitui9ao de uma nova alianqa elei-
toral, as possibilidades de reeleigqo de
Ana Jdlia Carepa comeqarao a se re-
duzir. Com o que ji possui, ela tem to-
das as condig6es de passar para o 2
turno e, talvez, com mais votos do que
o segundo concorrente. Mas cairia para
uma condiqao de inferioridade nessa
segunda eleiqao, se os votos do PSDB
migrarem para a coligagqo liderada pelo
PMDB ou vice-versa.
Se ainda precisava de estimulo para
o rompimento, Jader Barbalho o rece-
beu de bandeja, entregue pelo deputado


2 Jornal Pessoal MARO DE 2010 1P QUINZENA








petista Z6 Geraldo. Num discurso con-
tundente no plenario da Camara Fede-
ral, em Brasilia, ele acusou o ex-gover-
nador de manter o Pard como ref6m da
sua vontade e dos seus caprichos. Em
2006 o PT nem se preocupou com isso
porque era a dnica maneira de chegar
ao poder. Mesmo hoje, sua preocupa-
6qo 6 ret6rica porque continue tentan-
do refazer o acordo com Jader, mesmo
considerando-o um seqUestrador (por
estar impedindo, em 6poca pr6-eleito-
ral, a aprovacgo de dois novos empr6s-
timos solicitados pelo Estado, no valor
de mais de 550 milh6es de reais, a se-
rem agregados a R$ 2 bilhoes ji apro-
vados na Assembl6ia Legislativa desde
o inicio do governor Ana Jdlia) e o depu-
tado Carlos Bordalo alegar que jader
nao comanda o PMDB. Como para to-
dos os outros partidos, para o PT as pa-
lavras existem para esconder a verda-
de, nao para reveli-la.
0 president do partido garantiu que
o remanejamento da fung~o de contra-
tar DAS e comissionados, que estava no
ambito da Casa Civil, para a Secretaria
de Govemo, visava o desenvolvimento
do Estado e nao esvaziar o cargo que
seria cedido a outra tendencia petista.
Quando a governadora foi forgada a vol-
tar atris e devolver esses poderes ao
chefe da Casa Civil, o alegado bem pd-
blico foi esquecido. Em compensaqao, foi
dito que a media nao era oportunista:
vinha sendo estudada hi muito tempo.
Ainda assim, foi constituido As pressas
um "grupo de trabalho" para examini-
la, como se fora nova. Palavras, nada
mais do que palavras.
A substituigqo de Claudio Puty por
Everaldo Martins significaria uma evo-
lugqo no sentido do pluralismo e do des-
comprometimento da Casa Civil em re-
lagqo as eleig6es? Nao: Everaldo deve-
ri fazer o que for possivel pela candi-
datura do irmao, deputado estadual Car-
los Martins, e pelos interesses da irma,
a prefeita Maria do Carmo, al6m dos
dele pr6prio, que, na secretaria de pla-
nejamento de Santar6m, foi extrema-
mente concentrador de poder. A solu-
9ao, portanto, 6 de meia sola.
Pelo que tem feito politicamente, Ana
Jdlia estard dando razao ao adversario
Almir Gabriel. Segundo ele, governador
que tem a miquina official nas maos s6
perde por incompetencia, como teria
feito seu correligiontrio Simao Jatene e
esti sendo Ana Jdlia desde o primeiro
dia do seu mandate.


Contas parciais


Como tern feito nos ultimos anos,
a Vale distribuiu um substancioso
press-release sobre seu desempenho
no dltimo trimestre do ano passado e
os ndmeros comparativos entire 2009
e 2008, acrescidos de informaq6es e
andlises. Mas nao o balanqo do exer-
cfcio anterior, com todas as demons-
traq6es contibeis. Quem acessar o site
da mineradora s6 encontrari as de-
monstraq6es de 2008, fracionadas por
trimestre. A Comissao de Valores
Mobiliirios devia obrigar a empresa a
seguir o modelo traditional do balan-
qo annual e recomendar A antiga Com-
panhia Vale do Rio Doce que voltas-
se a publici-lo em papel. Nao fica bem
a uma corporaqdo da sua importancia
praticar uma t6cnica de manipulaqao
tao primfria. Ela s6 6 eficiente por-
que os jomalistas, em especial os da
area econ6mica, nao cumprem sua
obrigacao. E as empresas jomalisti-
cas, de olho no border, dizem am6m.

Gestio

Se a adutora da estaqao de trata-
mento do lago Bolonha, que leva agua
para 300 mil pessoas em 11 bairros de
Bel6m, fosse bem mantida, a Cosanpa
nao precisaria gastar anualmente tres
milh6es de reais em reparos. E se nao
houvesse vazamento, a empresa fatu-
raria tres milh6es de reais corn a agua
desviada. A nova adutora, inaugurada
no mes passado, custou R$ 7,8 milh6es.
Ou seja: as perdas garantiriam mais de
dois terqos desse investimento. Os da-
dos foram apresentados pelo president
da Cosanpa, Eduardo Ribeiro, durante
a inauguraqao, festejada principalmente
pelos moradores da Terra Firme, que
esperavam hi 40 anos pela melhoria.
Por enquanto, do serviqo. Quern sabe,
no future, tamb6m do Estado.

Potoca

Atrav6s do Didrio Oficial do dia
19, a governadora Ana Jdlia Carepa
nomeou 11 assessores especiais para


o seu gabinete e exonerou 6. 0 saldo,
de cinco novos assessores, aumenta
para quanto o ex6rcito de supostos
auxiliares lotados na governadoria? Eu
nao sei e voce, que paga a conta com
o seu imposto, tamb6m nao sabe. A in-
formagqo 6 ignorada pelo Tribunal de
Contas do Estado e pelo Minist6rio
Publico do Estado, que deveriam fis-
calizar o cumprimento da Lei de Res-
ponsabilidade Fiscal. Uma das suas
exigencias 6 de que o quadro detalha-
do de pessoal do poder pdblico seja pu-
blicado trimestralmente no DO. Mas
desde o governor do tucano Simao Ja-
tene essa obrigagqo 6 ignorada e fica
por isso mesmo, embora represent
crime de responsabilidade do adminis-
trador pdblico.
0 PT, que prosseguiu a tradigqo es-
tabelecida pelo PSDB, diz que o Pard
passou a ser a terra de direitos. Men-
tira: nele, a lei continue a ser potoca.

Infiltragao

Pela primeira vez a policia civil e a
ouvidoria agrdria national concorda-
ram num ponto at6 entao pol8mico: a
infiltraqao de criminosos nos movimen-
tos dos sem-terra (e, agora, tamb6m
dos sem-toras). 0 delegado Miguel
Cunha Filho, director da policia do inte-
rior, disse que entire eles hi assaltan-
tes de bancos e de cargas e foragidos
dajustiqa. 0 ouvidor Gersino da Silva
Filho definiu os ocupantes da Fazenda
Santa Marta, no Moju, de grileiros, que
precisam ser colocados para fora da
propriedade porque o Incra alega que
ela nao pode ser desapropriada. Sao,
portanto, invasores. Precisam sair logo
das terras, o que eles nao prometeram
fazer, na reuniao realizada no mes pas-
sado, em Bel6m. Qualquer que seja a
posigqo political ou ideol6gica em tor-
no do conflito de terra, a questao s6
pode ter encaminhamento licito com a
eliminaqao dos criminosos. Eles nao s6
estao infiltrados nos movimentos soci-
ais: sua presenqa 6 constant.

Contraste

Interessante: as liderangas dos
dois principals partidos da situaqao
no Pard sao ocupadas por suplentes:
Airton Faleiros, do PT, e Parsifal
Pontes, do PMDB. Presume-se, em
tese, que os melhores nao foram os
mais votados.


MAR90 DE 2010. 1~ QUINZENA Journal Pessoal 3


MARCO DE 2010 .


1 QUINZENA Jornal Pessoal 3









Roubo de agua:


Durante as 10 horas iniciais em que ficou
disponivel na homepage do Yahoo, minha coluna
quinzenal de estrgia teve 31 mil cliques e recebeu
113 comentdrios. "Sua coluna nos surpreendeu -
ndo na qualidade da informaCdo, 6bvio, mas na
popularidade", disse o gerente de conteido, Rafael
Alvez. Ele reforcou o que Michel Blanco, autor do
convite para que eu passasse a integrar a equipe
de colunistas do portal: no Yahoo eu terei "um
espago livre, independent e democrdtico" para
expor minhas idjias "e noticiar o que julgar
relevant para a sociedade".
Volto a ter um espaco no mundo virtual, sete anos
depois da Carta da Amaz6nia, coluna semanal que
escrevi no portal da Agencia Estado, do journal 0
Estado de S. Paulo, durante dois anos, por iniciativa do
entdo director da AE, Rodrigo Mesquita. Gragas a
interatividade no espago virtual, pude sentir a
receptividade do leitor e avaliar a distdncia que separa
a Amazonia do resto do pais, apesar do interesse e do
esforgo dos brasileiros para diminuir esse vdcuo ou
estabelecer uma ponte satisfat6ria entire os dois


mundos. 0 mote da primeira coluna se mantim nesta
segunda: mostrar que a AmazOnia j muito mais
complex do que pensa a maioria dos seus intirpretes e
as solucges nao podem ser reduzidas a uma bula de
sapiencia dos salvadores da regido a distdncia. E o
que 6 mais assustador: a desinformagdo sobre a regido
j quase total. Mitos e lendas ndo tem fim. Absurdos sdo
descritos por quem se diz testemunha dos pr6prios
fatos, simplesmente inexistentes.
Reproduzo a seguir o texto original, que tomou
por base e o ampliou artigo publicado na ediCdo
anterior deste journal, servindo para a estrgia da nova
coluna, em format menor. Em seguida, reproduzo
algumas das manifestacges dos internautas, que ddo
uma idgia do que foi o debate, indo do absurdo ao
racional, do grotesco ao grave. A abrangencia das
manifestacges demonstra a importdncia desse didlogo
entire aqueles que possuem um conhecimento vivencial
e profundo sobre a Amazonia e todos aqueles que,
sem essa ferramenta, ainda assim querem ser ateis i
histdria da regido, que e capitulo vital da histdria
contempordnea brasileira.


O ARTIGO

Estima-se que 1,5 bilhao de series hu-
manos ji nao disponham de agua sufici-
ente para suas necessidades essenciais.
Significa que de cada 5 habitantes da Ter-
ra, um nao tem agua nem para beber. Esse
contingent, que 6 superior a populaqio
do maior de todos os pauses pelo crit6rio
demogrAfico, a China, vai precisar resol-
ver esse problema vital de alguma ma-
neira. Pela via pacifica ou atrav6s da for-
qa. A pr6xima guerra serd pela agua, anun-
cia um ntimero crescente de profetas,
baseados mais na correlaq~o 16gica de
fatores do que numa andlise minuciosa e
especifica das situaq6es.
Este 6 o mesmo m6todo que utilizam
para apontar o sitio dessa pr6xima guer-
ra: a Amaz6nia. Nada mais 16gico: a bacia
amaz6nica, que se espraia por nove pai-
ses da America do Sul, mas tem dois ter-
qos das suas aguas drenadas no territ6rio
do Brasil, represent 68% da massa de
agua doce superficial do nosso pals e de
8% a 25% (conforme as diferentes avali-
aqces) do total do planet. Com uma area
de sete milh6es de quil6metros quadrados,
6 10 vezes maior do que toda a Am6rica
Central. Sua principal riqueza ou esti es-
condida no subsolo, em dep6sitos de mi-
n6rios, vtrios deles ji em exploraqdo ou
mesmo exauridos, ou na sua floresta tro-
pical, um tergo do que ainda existe dessa
mata primiria sobre a superficie terres-
tre. E a mais rica em biodiversidade. Um
tesouro dificil de ser protegido, sujeito a
todas as formas de roubo.


A mais nova modalidade seria o saque
ao bem mais massive e de ficil apropria-
q~o. Seguidas dendncias, apregoadas pe-
las vozes mais distintas, tem assegurado
que ji seria "assustador" o trdfico de agua
doce da Amaz6nia para o exterior. 0 aler-
ta mais recent foi feito no final do ano
passado pela revista juridica Consulex,
editada em Sao Paulo. Ela garantia que al-
gumas empresas ji praticam com desen-
voltura essa forma de roubo, que ji tern
pelo menos tr8s denominaq6es: hidropira-
taria, bioinvasdo e biopirataria.
Uma advogada ouvida pela revista diz
que, praticando esse com6rcio illegal, ha-
veria navios com capacidade de armaze-
nar 250 milh6es de litros (ou 250 mil me-
tros cibicos) de agua, que uma empresa
da Noruega forneceria para clients na
Gr6cia, Oriente M6dio, Ilha da Madeira e
Caribe. Por sair pela metade do custo da
dessalinizaaio, o roubo de agua teria se
tornado atraente no com6rcio com paf-
ses carentes de agua doce superficial.
Tecnologias foram criadas para a retira-
da da agua e o seu transport, nao s6 nos
poroes dos supergraneleiros, que transi-
tam constantemente pela Amaz6nia como
em balsas de agua, puxadas por reboca-
dores convencionais.
A mat6ria da revista 6 rica em detalhes
e conjecturas, mas nao o bastante para
convencer sobre o que relata, ecoando
dentincias ji numerosas. Claro que o acer-
vo de agua da Amaz6nia 6 questUo trans-
cendental. Exige atengqo, seriedade, prio-
ridade e investimentos. Todos esses ele-
mentos sao de enorme deficibncia atual-


mente. 0 Brasil tern mais de 120 comites
de bacia. S6 um deles fica na Amaz6nia e
tern aqo urbana, na cidade de Manaus. E
um desprop6sito paradoxal com o signifi-
cado mundial da bacia amaz6nica.
Os escassos investimentos em mane-
jo de agua na regiao nao permitem um co-
nhecimento adequado sobre os seus re-
cursos hidricos. 0 interesse mundial cres-
ce numa velocidade muito superior a da
atengqo national e nao 6 por acaso.
Mesmo as dendncias mais detalhadas,
como a da Consulex, por6m, ainda se re-
velam meramente especulativas, quando
nao totalmente fantasiosas. Devem servir
de alerta porque o problema, embora ain-
da nao exista, logo estard constituido.
At6 agora, nao ha nenhum caso com-
provado de roubo de agua amazonica em
territ6rio national, incluindo o mar de 200
milhas. Os grandes navios (1.200 por ano,
dos quais pelo menos 200 fazem viagens
constantes) entram na regiao em busca
de outros recursos naturais, principalmente
min6rios e madeira, atracando em sete
portos de grande ou mais significativa mo-
vimentaqao (Bel6m, Vila do Conde, San-
tar6m, Oriximind, Juruti, Obidos e Jari).
Nao tem espaqo caracteristico nem to-
nelagem necessaria para acumular agua
- e em escala commercial.
A 6nica area que poderia proporcionar
essa pirataria seria a foz do Amazonas,
onde estA a maior ilha fluvial do mundo, a
de Maraj6, com 50 mil quilometros qua-
drados. Nesse delta, o grande rio chega a
despejar mais de 200 milh6es de litros (ou
200 mil metros ctibicos) de Agua por se-


4 Jornal Pessoal MARCO DE 2010 1 OQUINZENA


WSW W,









tema polemico


gundo, no auge da cheia. Nao hi qualquer
caso concrete de um superpetroleiro que
tenha estacionado nesse local para se abas-
tecer de um volume como os 250 milh6es
de litros citados, corn o prop6sito de trans-
porti-los e vend8-los. Pode parecer mui-
to, mas esse volume de agua equivale a
menos de meio segundo de descarga na
vazdo maxima natural que o rio Tocantins
ji alcanqou no local onde foi construida a
barrage da hidrel6trica de Tucurui, a
quarta maior do mundo, em 1980.
Nao parece um grande neg6cio, capaz
de justificar o investimento e o risco, ain-
da que o patrulhamento da costa amaz6-
nica seja deficiente (o que induziu no pro-
jeto de criaqdo da nova esquadra da Mari-
nha, prevista para ter sua sede em Sao
Luis do Maranhao e nao em Bel6m, como
pareceria mais 16gico pela tradigqo hist6-
rica, se nao houvesse limitaq6es de cala-
do em sua drea, al6m de outras quest6es
estrat6gicas e econ6micas).
A Capitania dos Portos do Pard asse-
gura que fiscaliza todos os navios que
entram e saem da regido e que, por amos-
tragem, acompanha a qualidade da agua
que carregam em seus poroes como las-
tro. As normas internacionais autorizam
as embarcacqes a se desfazer da agua que
estocam em seu interior para Ihes dar equi-
librio e report esse volume no local de che-
gada para manter sua condigqo de flutua-
bilidade. E pritica comum e nada tem a
ver corn objetivo commercial ou mesmo
roubo corn objetivo cientifico.
A agua que o Amazonas despeja no
Oceano Atlantico, depois de percorrer
6.500 quil6metros a acumular sedimentos
pelo seu trajeto, 6 rica em material particu-
lado em suspensao. Mas qualquer pequena
coleta pode ser suficiente para um estudo
complete sobre o que cont6m e isso 6
feito por meios legais, normais e saudiveis
(embora nao na escala recomendivel). Jus-
tamente por arrastar tanta mat6ria organi-
ca, sua estocagem em grande escala numrn
porto de navio provocaria a deposicqo de
lodo no fundo. 0 menor dos seus efeitos
seria desfavorecer a comercializagqo da
agua na forma de produto potavel. Quanto
ao uso para outros fins, pelo menos para a
costa dos Estados Unidos o Amazonas ji
di sua contribuiqao em larga escala e gra-
tuita. Avanqando at6 100 quil6metros no
oceano, suas aguas derivam para o norte
pela forga da corrente maritima (o Gulf-
Stream). Segundo alguns, pode chegar at6
o litoral da Fl6rida. Fen6meno que leva al-
guns autores a, nem sempre de forma bemrn
humorada, como convinha, acusar o gran-
de rio de ser entreguista.
Se nao 6 para nos roubar agua poti-
vel, entao essa pirataria seria para reco-
lher agua rica em nutrients para algum


objetivo ainda nao identificado (e, talvez,
jamais identificivel, por irreal). Por en-
quanto, considerando o que se sabe so-
bre o que a agua do Amazonas cont6m,
nao da nem para supor qual seria esse
prop6sito oculto ou misterioso. 0 cam-
po ainda esti aberto a imaginaqao e a es-
peculagdo. Para delimiti-lo, a melhor ati-
tude para o bem do pafs 6, sem deixar de
se manter atento, investor no conheci-
mento dos nacionais sobre sua pr6pria
riqueza, ao inv6s de ir atris do bloco da
conspiragqo e da fantasmagoria. Corn
evolugqes ao meio-dia.
O Brasil deve acompanhar com aten-
9do e sempre com atualizaqgo o que pen-
sam (e o que fazem) os estrangeiros so-
bre a e na- Amazonia. Dispondo de mais
recursos e com objetivos mais bem defi-
nidos, eles podem servir de espelho para
refletir melhor o que os brasileiros e, em
particular, os amaz6nidas, nem sempre
conseguem ver, por falta de meios huma-
nos, t6cnicos e cientificos equivalentes.
O mais important, por6m, 6 saber e
acompanhar o que os pr6prios nacionais
pensam ou fazem, em numerosos casos
dilapidando os recursos naturais ou os
utilizando de forma irracional. Campeao
em estoque de agua doce do mundo, o
Brasil 6 mediocre no seu manejo. Em Be-
16m, a metr6pole da Amazonia, que, por
sua localizacqo, serve de porta de entrada
a regiao, um dos problems que sua po-
pulaqao de quase 1,5 milhlo de habitan-
tes enfrenta 6 a falta de agua para beber
com qualidade comprovada ou mesmo
crivel, apesar da vasta massa de agua que
forma o estuario onde a cidade se situa.
Este 6 o triste paradoxo atual, cuja visua-
lizagdo e compreensdo as sempre vivas
teorias conspirativas dificultam.

OS COMENTARIOS

Erno Tomaz Lopacsinki Essa prdti-
ca ji me era conhecida desde 2000, e as
autoridades de Manaus tamb6m, pois os
navios alegavam que havia necessidade de
ter um calado minimo para a seguranga da
navegagao no retomo e se enchiam de agua,
s6 que a descontaminagqo e purificaqio 6
muito mais barata do que a dessalinizacqo.
Outro meio de perda da agua, ji nao
se tratando de pirataria, 6 a exportagqo em
grandes quantidades de frutos com gran-
de quantidade de agua em seu interior.
Sergio Ribeiro Lobo Tenho 50 anos,
servi o exercito em 1978, sou habilitado
desde 1978 na categoria (c), nao estou
tendo atividade remunerada, me interessei
muito pela mat6ria da Amaz6nia, poderia
ser itil em alguma atividade.
An6nimo JA more no Pari, na ci-
dade de Itaituba, por mais de oito meses.


Itaituba 6 uma cidade que esti as mar-
gens do rio Tapaj6s. Rio de aguas claras e
limpas. Ao final desigua no Amazonas,
onde se situa a cidade de Santar6m. Fa-
mosa pelas belas praias dos rios e pelo
encontro das aguas limpas do Tapaj6s com
as barrentas do Amazonas. Essa est6ria
de roubar agua s6 pode ser imaginagao de
algu6m que nunca esteve naquele local.
Esta pessoa deveria explicar qual o volu-
me de agua doce que 6 lanqado por minu-
to no Oceano Atldntico. Causar espanto e
indignacqo 6 pura consequ8ncia do des-
conhecimento da regiao amazonica. Fi-
quem tranquilos, pois afirmo que nao vai
faltar agua por esse motivo.
Luis Dificilmente no future o Brasil
nao perderd a Amaz6nia. Existe toda uma
pressdo intemacional e a hist6rica cobiqa
das naq6es desenvolvidas. No entanto, uma
maneira de adiar isto seria militarizando esta
regiao. Considerando esta regiao Zonaa de
guerra" e proibindo o acesso de estrangei-
ros. Nas reserves indigenas o ex6rcito fa-
ria um cinturio de protegao (em tomo), nas
fronteiras uma operaqao de guerra.
Collins Achei super interessante:
bem no final da mat6ria, diz exatamente
sobre o que estou a dizer, sobre a hipocri-
sia do brasileiro, que adora levantar boa-
tos sobre todos os tipos de contraven9qes
que venham de outro pais. 0 que eu gos-
taria de ver 6 um pais realmente empe-
nhado em usufruir as riquezas que a mai-
or bacia hidrogrnfica do mundo tem a ofe-
recer, ao inv6s de devastar milhares de qui-
l6metros por dia derrubando drvores, e
capturando animals raros para o "merca-
do negro". Quais sao os cientistas brasi-
leiros nesse moment estudando sobre
plants, animals e o ecossistema da gran-
de Amazonas in loco? Simples: "nenhum".
Antes a Amaz6nia estivesse nos USA; eles
sim saberiam como explorer seu potenci-
al, e nao banalizi-la, como o "povo brasi-
leiro faz". Uma vez que nao cuidamos do
que 6 nosso, nao mais nos pertence. Em-
polgado ficaria eu se soubesse que o res-
to do mundo se preocupa e percebe a ri-
queza que desperdiqamos, assim poderi-
am tomar attitudes por n6s, "pois nao po-
demos confiar tal riqueza a n6s mesmos"
Eduardo Garcia Parab6ns ao joma-
lista Lticio Flivio pela excelente mat6ria!
Acredito que esse tipo de aconteci-
mento 6 s6 um pedacinho da hist6ria que
ojomalista Luicio Flhvio tem para contar...
Mas quem estaria interessado em ouvir?
O povo brasileiro? A Camara dos Deputa-
dos e Senado Federal? Eh... Parecem mais
interessados em assistir o BBB (brasilei-
ros bastante babacas).
Pancho Villa Acredito que a maioria
que leu o titulo, nao leu o que o L6cio
1n lcoNwrL NA Ae 6


MARO DE 2010 1 QUINZENA Jornal Pessoal 5







CONCLUSIO DA PAO 5
Flavio escreveu. Ele ironizou sobre o su-
posto "roubo", cambada de toupeira!!!!!
Aprendam a entender o que estA escrito
antes de sair repassando e-mails.
Magno Brasil Parece que nin-
gu6m sabe interpreter um texto, ou en-
tao ningu6m leu.
Gente, leia novamente. Com mais cui-
dado. 0 tftulo da mat6ria faz uma per-
gunta, nao uma afirmaqao. Af aprovei-
tam logo para julgar os outros. Lamenti-
vel 6 essa falta de letramento do inter-
nauta brasileiro.
Aquiles 0 trafico de agua s6 seria
algo plausfvel, ou melhor, economica-
mente viavel, se o preco do combustivel
gasto pelos navios que transportam a agua
fosso menor que o lucro obtido com a
agua vendida. Visto que o pre9o do pe-
tr61leo 6 muito maior que o da agua (bas-
ta comparar para perceber), quem prati-
ca o trdfico de Agua, em teoria, estaria
tendo prejuizo. Al6m disso, o petr6leo
continue sendo o recurso mais important
da atualidade, caso contrdrio, nao have-
ria necessidade da ocupagao norte-ame-
ricana no Iraque e Afeganistdo, que gera
gastos astron6micos todos os meses. Se
forem contabilizados os gastos no Afe-
ganistao (desde 2001) e no Iraque (des-
de 2003) a cifra chega A casa dos tri-
lhoes de d61lares. E enquanto isso perdu-
rar podem ter certeza de que a pr6xima
guerra ainda nao sera por causa da Agua.
Sandro 0 pior nao 6 roubar A Agua,
e sim, as Ongs e entidades internacionais
ligadas ao meio ambiente (disfarqadamen-
te), que estao comprando a floresta, boa
parte da Amazonia pertence aos estran-
geiros, sao propriedades particulares, para
entrar, s6 com autorizad9o do ex6rcito
americano, isso em pleno territ6rio nacio-
nal. Para andar nas estradas, jA pagamos
pedAgio para as multinacionais que con-
trolam o trdfego, para visitar a Amaz6nia
tem que ter permissao dos estrangeiros.
Afinal, em que pafs n6s vivemos? S6 o
ex6rcito armado at6 os dentes nas fron-
teiras para proteger a Amaz6nia, e olhe 1A!
Tayla E sempre bom ver alguma
manifestaqao critical devidamente funda-
mentada tratando de um dos, senao o
maior dos bens do brasileiro, a AmazOnia.
Como belenense que sou, quero aqui dei-
xar minha pequena participaqgo, manifes-
tando minha indignagao em reconhecer
que nossa falta de preparaqao para lidar
com as indmeras quest6es relacionadas a
Amaz6nia realmente nos faz incapazes de
at6 mesmo discutir as relevincias que ga-
rantiriam a prioridade dos verdadeiros
"propriettrios" da AmazOnia.
Pedro Paulo Madeira Impressao
minha ou a maioria das pessoas comentou
a mat6ria sem 18-la ou entender metade das
palavras do autor? 0 mais impressionante
da mat6ria 6 como as pessoas opinam sem
saber, nao se comprometem com nada, e
ainda se acham santas! Que levassem os


estrangeiros as aguas e os habitantes desse
pafs... No fim a nossa ignorancia vai levar
ricos e pobres a mis6ria...
Issis Sim, e muita agua que eles
estao roubando, esti indo para o oriented,
mais de 20 navios cheios todos os dias.
Sei porque eu vi l os navios indo e vindo
diariamente, quando 16 em cima eu esti-
ve. E uma roubalheira s6. Ningu6m esti
fiscalizando 6 nada, nadica de nada. Os
que estao 16, nao tao nem af, sao 90%
sustentados pelo governor para estarem
li, nao tem outro meio de sobrevida por
1i, sequer podem vender toda esta agua
por 1i, porque j i esta vendida pelos grad-
dos, e tem muito mais para denunciar,
por agora 6 s6.
Milton Florencio Olha essa coisa
ja nao 6 novidade, a Amaz6nia ja nao 6
nossa totalmente, pois ela tem o maior
numero de donos estrangeiros do mun-
do. "E s6 voces pesquisarem na Net". E
nossos govemantes s6 querem nos ludi-
briar corn disse me disse. E uma pena
que o nosso president nao d8 a impor-
tancia necessdria pelas nossas aguas e
matas em geral. Precisamos de serieda-
de com nossos recursos.
Roselli Estive no Amapi hi cerca
de 2 anos. La na beira rio, vi um navio
parecido com um petroleiro, e pergun-
tei: o que este petroleiro esti fazendo
aqui? Responderam-me: roubando agua.
No moment nao entendi como verda-
deira essa explicagao, mas tchan tchan
tchan! Era verdade...
Sales Coimbra Ei, gente. A maio-
ria de voc8s ou nao leu o texto at6 o final
ou nao entendeu a mensagem que o L6i-
cio Flivio Pinto quis passar. Para ele, essa
coisa de hidropirataria nao passa de boa-
to. Nao passa de mais uma falacia sobre
o que acontece na Amaz6nia. E claro que
muita coisa errada esti ocorrendo por
aqui. A biopirataria 6 uma realidade. Mas
essa bobagem de roubo de agua nao pas-
sa de mau jomalismo. Aprendam a ler,
meu povo, antes de escrever um monte
de bobagem aqui.
Solange Arrolho Parab6ns ao autor
pela mat6ria. Em dezessete anos como
professor de ecologia na universidade,
vivo alertando meus alunos sobre o as-
sunto. Em cursos na regiao falo sobre a
importancia da conservagao dos recursos
hfdricos, principalmente na regiao do norte
de Mato Grosso. Espero que a populagao
humana nao acorde tarde para resolver o
problema e que nossos gestores criem
vergonha e fagam algo.
Sidney Lisboa Segundo amigos que
trabalham na Bolsa de Valores de Sao Pau-
lo, existe, e 16 todos sabem disto, que fo-
ram vendidas aq6es de nosso lengol fredi-
tico aos Estados Unidos corn autoriza-
9ao de nosso president. Ou seja, nossa
agua pertence aos americanos... Fiquem
atentos...
Leandro Safra Interpretem o tex-
to, minha gente brasileira. Realmente, a


galera precisa urgentemente aprender a
interpreter textos. Como disse o Magno
Brasil e Pedro Paulo Madeira, boa parte
dos leitores nao leu o texto na fntegra. 0
titulo 6 uma pergunta e o autor deixa cla-
ro que a revista "6 rica em detalhes e
conjecturas, mas nao o bastante para
convencer sobre o que relata", ou seja,
sao especulag6es. Aldm do mais, notem
o volume de Agua que 6 roubado: 250
milh6e de litros, ou 250 mil metros cdbi-
cos. Isso nao 6 nada, sao 250 mil caixas
de 1.000 litros de agua daquelas que vo-
c8s tem em suas casas (tern gente que
tem at6 mais de uma), ou seja, 250 mil
caixas de um metro c6bico de agua. Se
ainda nao entenderam, 6 o mesmo que
esses navios abastecerem uma caixa com,
aproximadamente, 63 metros de largura,
63 de altura e 63 metros de comprimen-
to. Isso nao 6 nada. Teriam que fazer
muitas viagens para transportar em es-
cala commercial. Um municipio no Estado
de Sao Paulo com cerca de 200 mil habi-
tantes deve consumer isso em um dia, e
isso falo por mim, nao 6 um dado, falo
por ter uma id6ia do volume de agua que
6 relatado no texto. 0 que um pouco de
boa interpretagao de texto e conhecimento
de matemitica nao faz para a pessoa.
Todo mundo aqui questionou, argu-
mentou e criticou, e percebi que muitos
nao entenderam o que leram ou nao le-
ram tudo, salvo algumas pessoas. Mas
na verdade, o que fazemos para mudar
os absurdos nesta terra? Nada. Muitos
falam em preservar a floresta, mas nun-
ca foram A floresta e com certeza se re-
cebessem um convite para ir muitos en-
tortariam a cara. At6 que uma arvore der-
rubada venha interferir na vida de um
urban6ide, ningu6m fard nada mesmo,
somente gastard saliva, seus esforqos
serao da boca para fora, sempre questio-
nando a posiqao de nossos governantes,
quando uma nagao nao se faz apenas corn
governantes, mas sim corn o povo tam-
bem. Vamos abrir os olhos da percepqao
e intelig6ncia.
Juliana Pinto Por alguns comen-
tirios registrados me question sobre a
compreensao do texto. Ao contrdrio do
que ji foi dito pelos usuarios, o artigo
nao denuncia a pirataria hfdrica, mas
chama a atengao para a falta de conhe-
cimento t6cnico e cientifico sobre tudo
que envolve o tema Amaz6nia. 0 fato
de estar ou nao ocorrendo a apropria-
gao indevida de nossos recursos 6 situ-
agao a ser investigada e estudada. A fal-
ta de conhecimento leva a estas ques-
toes talvez infundadas. 0 certo e con-
cordo com o jornalista 6 que o mais
important, por6m, 6 saber e acompa-
nhar o que os pr6prios nacionais pen-
sam ou fazem, em numerosos casos di-
lapidando os recursos naturais ou os uti-
lizando de forma irracional, assim como
desconsiderar os pr6prios habitantes e
a sua cultural da regiao.


6 Jornal Pessoal MARQO DE 2010 1' QUINZENA








Vale: o mastodonte ficou incontrolavel?


No ano passado a Vale, a segunda
maior mineradora do mundo, vendeu 247
milhoes de toneladas de min6rio de fer-
ro e pelotas, de cujos produtos especf-
ficos 6 a nrmero um do mercado glo-
bal. Foi bem menos do que os 296 mi-
lh6es de toneladas de 2008, por conta
da crise international, com 8nfase nos
Estados Unidos e na Europa. Mesmo as-
sim, 6 um volume impressionante. Ain-
da mais porque as tonelagens continua-
rdo a crescer e de forma mais acentu-
ada no Pari, conforme ji ocorreu no pri-
meiro bimestre deste ano.
A contribuiqgo atual da mina de Cara-
jas para a produaio total da Vale de mind-
rio de ferro, que 6 ainda a sua principal
mercadoria respondede por 61% do total),
tem sido de menos de um quarto da soma.
Mas se os investimentos em curso ou
previstos se consumarem por inteiro, no
final de 2013 Carajis, sozinha, estard pro-
duzindo 200 milh6es de toneladas de mi-
n6rio de ferro, gragas a um investimen-
to de pouco mais de 14 bilh6es de d6la-
res (mais de 25 bilh6es de reais, o equi-
valente ao incerto valor da hidrel6trica
de Belo Monte, projetada no papel -
para ser a segunda maior do Brasil e do
mundo, com prazo de maturaqao do in-
vestimento sendo mais longo.
Adiqdo de 10 milh6es de toneladas A
atual capacidade da mina (de 90 milh6es)
ji entrard em operaqdo neste primeiro
semestre. Outros 30 milh6es de tonela-
das (com investimento de US$ 2,5 bi-
lhWes) comeqarao a ser lavrados no se-
gundo semestre de 2012. Mas a grande
ampliagdo comecard a dar frutos no se-
gundo semestre de 2013, quando, ao
custo de US$ 11,3 bilh6es, a Serra Sul
estard em condiq6es de dobrar a capaci-
dade atual de Carajas, corn mais 90 mi-
lhWes de toneladas.
Esses ndmeros ja seriam o bastante
para provocar o interesse dos cidadaos
sobre cujajurisdigao federativa esti essa
riqueza monumental, pois se trata do mi-
n6rio de ferro mais fico da Terra. A pro-
vincia mineral de Carajas receberd ou-
tros grandes investimentos em nao-fer-
rosos. A Vale aplicard US$ 2,3 bilh6es
para o Onga-Puma produzir 58 mil to-
neladas de niquel ji no segundo semes-
tre deste ano. Outros US$ 1,8 bilhao
permitirdo A mina de Salobo duplicar sua
produqao de concentrado para 254 mil
toneladas. Assim, Carajis, at6 2013, ab-
sorverd mais de US$ 18 bilhoes (mais
de 32 bilh6es de reais).
0 prospect da antiga Companhia Vale
do Rio Doce nesse perfodo ainda con-
templa o Pard com US$ 2,2 bilh6es corn
a CAP, a nova refinaria de alumina de
Barcarena, que comeqard no 2 semestre
de 2013, com 1,86 milh6es de toneladas,


podendo chegar a 7,4 milh6es (e ser a la
do mundo, junto corn a vizinha Alunor-
te), e mais US$ 487 milhoes para a ter-
ceira ampliagao da jazida de bauxita de
Paragominas (mais 5 milh6es de tonela-
das de mindrio), que suprird integralmente
as duas fibricas de alumina.
Consolidaqao de todos os investimen-
tos previstos pela Vale para o Pard du-
rante os pr6ximos quatro anos: US$ 21
bilhoes (ou R$ 37 bilh6es). 0 horizonte
precisa ser modulado pelo desempenho
dos mercados, que condicionard as de-
cisoes, pelo licenciamento ambiental pen-
dente em relacgo a algumas dessas inici-
ativas e pela aprovagdo do conselho de
administraqao da empresa em outras si-
tuacqes. Pode ser que alguns desses pro-
jetos nao se materializem ou sejam exe-
cutados apenas parcialmente. Mas o pla-
nejamento da empresa 6 ainda maior do
que ela o revela no press-release que di-
vulgou na quinzena passada.

No ano passado a Vale
aplicou US$ 70 milh6es
no prosseguimento da
termeletrica de Barcarena,
sua alternative imediata
a carencia de energia
naquele p6lo industrial.
Mant6m firme a aplicacqo na hidrel6trica
de Estreito, no rio Tocantins, na qual tern
direito a 30% dos 1.087 megawatts de
energia que serao produzidos. Ja se apre-
sentou em um dos cons6rcios que tenta-
rdo arrematar a hidrel6trica de Belo Monte,
para a qual o orgamento anterior, de 16
bilhoes de reais, ji foi deixado para tris.
Seu interesse pela energia 6, portanto,
muito alto, attitude coerente com o de-
senvolvimento intense do seu setor de
logistica, que foi responsivel por 5,7%
do faturamento bruto do ano passado
(5% no ano anterior).
Vai ampliando tamb6m sua rede de
transport, criando um sistema como tal-
vez nenhuma outra empresa privada con-
trole em qualquer parte do mundo. Em
2008 pagou R$ 216 milhoes da segunda
parcela da concessao da Ferrovia Norte-
Sul, com a qual (e mais a Centro Atlnti-
ca) interligard por trem os sistemas Nor-
te e Sul de escoamento, cuja capacidade
poderd ser media, dentro de alguns anos,
por algo pr6ximo a meio bilhao de tone-
ladas de carga.
0 Brasil ainda 6 a base ffsica princi-
pal da Vale, mas sua internacionalizaqdo
6 crescente, o que dard uma complexi-
dade tal aos seus neg6cios que talvez
venha a ultrapassar a capacidade de
acompanhamento (e, quem sabe, de con-
trole) dos governor nacionais, inclusive
o do Brasil. Ela deu os primeiros passos
para ser uma produtora de fertilizantes


de dimensdo mundial, assim como terd
posiqdo destacada na venda de carvao,
tanto o metalirgico quanto o energdtico
(a China, que passou de uma exportagdo
de 4,6 milh6es de toneladas em 2008 para
uma importagao fantdstica,de 104 milhoes
de toneladas de carvao no ano passado,
tamb6m serd decisive nesse mercado, jd
que a alternative hidrel6trica do pals nao
tera o desenvolvimento pensado inicial-
mente). Ingressou ainda na drea do bio-
combustivel, atrav6s da Biopalma, com
41% das ages, que lhe dao acesso a 160
mil toneladas de biodiesel.
Em plena 6poca de crise econ6mico-
financeira e deterioraqdo dos preqos das
commodities, que constituem sua espe-
cializa~io, a Vale nao cancelou nenhum
projeto. Prev8 US$ 12,9 bilh6es de in-
vestimento para 2010, sendo US$ 8,6
bilh6es no desenvolvimento de novos
projetos. Aposta no seu crescimento, uma
vez superada a borrasca. Mas estd peri-
gosamente dependent do mercado asid-
tico, que no ano passado ficou corn 180
milh6es dos 247 milhoes de toneladas
comercializados de min6rio de ferro e
pelotas (sendo 140 milh6es de toneladas
da China, que teve um consume recor-
de, de 628 milh6es de toneladas).
A empresa teve acentuada queda de re-
ceita, ainda assim faturou US$ 24 bilh6es
(contra US$ 38,5 bilhoes em 2008). Seu
lucro liquid sofreu desabamento pior en-
tre os dois anos (de US$ 13,2 bilhoes para
US$ 5,3 bilh6es), mas decidiu remunerar
bem seus acionistas, com US$ 2,75 bilhoes.
Corresponde a metade do lucro lfquido,
numa aposta da empresa para manter o in-
teresse por suas ages nas bolsas (e assim
continuar a emitir novos pap6is e se capi-
talizar). P6de agir assim graqas a sua exce-
lente geraqdo de caixa, mas o endividamento
bruto mais do que dobrou entire 2008 e
2009 (de um para 2,5 bilhoes de d61lares).
0 endividamento total chegou a US$ 22,8
bilh6es e s6 sua amortizaqdo neste ano ab-
sorverd US$ 2,17 bilhoes.
E umjogo audacioso e arriscado. Estd
modulado por uma criteriosa andlise de
fatores ou projeta uma ambiqao exagera-
da? E dificil apresentar uma resposta sa-
tisfat6ria a essa pergunta porque o cres-
cimento da Vale 6 incomparavelmente
maior do que o de qualquer estrutura que
poderia ombrear-se a ela, tornar-se in-
terlocutora necessAria e interferir no seu
planejamento, de tal forma que ele nao
seja apenas o reflexo dos desejos e apeti-
tes de uma empresa, mas o produto do
seu didlogo corn a sociedade, franco e
profundo. S6 assim seria possivel com-
binar a estrat6gia empresarial com as ne-
cessidades sociais e a funcao piblica.
Essa relaqao, por6m, estd cada vez mais
desequilibrada.


10 QUINZENA Jornal Pessoal 7


MARGO DE 2010







LEITE
Ndo era sem motivo que
paraense preferia consumer
leite em p6 ao produto in natu-
ra: o leite fresco, distribufdo
pela cidade em carroas pu-
xadas por cavalo, costumava
ser de mi qualidade. Em 1957
a Secretaria de Sauide inspe-
cionou os numerosos estAbu-
los da cidade e constatou que
de 500 vacas examinadas, 30
estavam tuberculosas. Imedi-
atamente foram mortas e cre-
madas 13, todas da Vacaria
Madureira, que vendia o leite
sem qualquer preocupaqao
corn a qualidade do produto.
Daf o consume per capital de
leite em p6 em Bel6m ser tdo
alto em comparaqdo ao das re-
gi6es que tinham leite pasteu-
rizado confiAvel. Para a ale-
gria da Nestl6, que dominava
o mercado.

voo
A Paraense Transportes Ad-
reos inaugurou sua linha Be-
16m-Brasilia-Rio, em 1957.
Num lento Curtiss-Comman-
der, avido com dois motors, os
38 passageiros (34 convidados
e quatro tripulantes) safram as
6:30 da manha de Bel6m e che-
garam em Brasilia depois de
cinco horas e 20 minutes de vi-
agem. Depois de almoqarem
na capital ainda em construgqo,
seguiram viagem as 17 horas
e s6 chegaram ao Rio as 22,30.
Jantaram e no dia seguinte fi-
zeram o trajeto de volta. A li-
nha teria uma freqiiencia se-
manal. 0 percurso inteiro de-
morava 11 horas.

PROGRAM
Em 1957 a Santos-Mendes
Publicidade produziu e a Fa-
brica de Cigarros A Nacional
patrocinou um program que
se tornou um sucesso em Be-
16m. Nada de novo, exceto na
cidade: candidates se inscre-
viam para responder sobre
determinados temas, que es-
colhiam, e eram sabatinados.
A media que avangavam,
podiam ganhar premios inter-
mediarios. Mas, como dizia o


wiox


FOTOGRAFIA

Utilidade do pr6dio

Qual o melhor uso para o belo predio na esquina da
avenida Nazare com a travessa Quintino Bocaitiva: o
anterior (em 1966 na foto), com o Coldgio Municipal
Alfredo Chaves, ou o atual, corn a Codem, a companhia
de desenvolvimento que deveria ser metropolitan e mal
consegue ser municipal? Com o leitor, a resposta.
V


tema, "Nova York 6 o fim".
Em 23 semanas, apenas Eliel
Rodrigues chegou at6 a gran-
de cidade americana. Mas
outros ficaram em distancias
menores: Joel Pereira foi ao
Rio de Janeiro, Juvencio Dias
a Buenos Aires (mas doou a
passage ao melhor aluno do
curso de medicine), enquanto
Teresinha Rodrigues fez a vi-
agem a capital argentina.
Uma nota maledicente na
coluna Vozes da Rua, da Fo-
lha Vespertina, fez a SM Pu-
blicidade sair em defesa da
seriedade do program, apre-
sentando os nomes das pes-
soas que formulavam as ques-
toes, "sumidades" da epoca.
Sobre algebra, Luiz Baganha
e os professors de matemi-
tica do Col6gio Nazar6. Sobre
a biblia: c6negos Apio Cam-
pos, Geraldo Menezes e Mil-
ton Pereira (do Seminario
Metropolitano, padre Romeu
Borges, reverendo Joio Ba-
tista, Orlando Costa e Zoenio
Gueiros. Sobre hist6ria: C1do
Bernardo, R6mulo Sousa,
Anunciada Chaves, Napoleao
Figueiredo, Jdlio Alencar e
Alice Antunes. Sobre hist6ria
da mdsica: Adelermo Matos,
Eleyson Cardoso, Deusdedith
de Moura Ribeiro, Donina
Bem-Accon e Ticito de Al-
meida. Tabela price; Wilson de
Sa. Esporte: Edyr Proenqa e
Arnaldo Moraes Filho.

TRIGO
Paraense sempre gostou
muito de pio. Mas tamb6m
se viu obrigado, de vez em
quando, a ficar sem seu pao
quente. Sobretudo quando
claudicava o suprimento da
farinha de trigo, que depen-
dia dos navios de cabotagem,


8 Journal Pessoal MAR(O DE 2010 id QUINZENA


ARENA
PARA DEPUTADO FEDERAL


HAROLDO VELLOSO


Escreva na cdula: Haroldo Velloso,

Velloso ou o nmIero 105.











































de freqiiencia nao exatamen-
te constant. Logo no infcio
de 1960, por exemplo, houve
escassez de trigo, "obrigando
as panificagqes locals a urn
severo racionamento no fa-
brico do pdo", informou o sin-
dicato da indidstria. Em nota
a imprensa, o sindicato estra-
nhava que nao fosse seguida
a pratica anterior, que dele-
gava A Cofap (6rgdo do go-
vemo que controlava os pre-
gos) a distribuiqao do produ-
to escasso, "em colaboragdo
com este sindicato". Na "gra-
ve emergencia" daquele mo-
mento, a distribuigao ficou
"inexplicavelmente, a crit6rio
do Moinho local, a quem deve
ser dirigida qualquer reclama-
9o sobre o assunto". 0 tal
moinho, cujo nome a nota nao


citou, era a poderosa Ocrim,
inglesa de origem.

PREFEITURA
Em 1960 a prefeitura come-
gou a asfaltar a avenida Sena-
dor Lemos. Seria 6timo para a
populagio de quatro bairros -
Tel6grafo, Acampamento, Cur-
ro e Vila da Barca se a rua
Curumi, a altemativa mais pr6-
xima para o trifego de Onibus,
tivesse sido preparada para re-
ceb6-lo. Mas ela era s6 lama e
buraco. Como a Construtora
Gualo, responsivel pelo asfal-
tamento, fechou a avenida, des-
viou para muito mais long, a
avenida Pedro Miranda, ji na
Pedreira, os Onibus das linhas
do Tel6grafo, Ponte do Galo,
Base A6rea, Sacramenta, Base
Naval e Novena.


Seriauma mudana provis6-
ria, mas duraria o bastante para
maltratar o povo. Sempre "hu-
milde e pacato, generoso e
bom", protestou o escritor Pe-
dro Tupinambi, em nome de
todos, ele "que se fomente e
ande a p6, debaixo da soalhei-
ra do meio-dia ou das chuvas
copiosas de janeiro, patinhan-
do na lama ou no asfalto mole",
por culpa da "desidia, descaso
e incompetencia" da adminis-
traqdo municipal.
Ontem, como hoje.

POLITICO
Foi corn apenas 22 anos de
idade que Jader Barbalho
conquistou seu primeiro car-
go eleitoral, em 1966: verea-
dor de Bel6m pelo MDB
(partido que antecedeu ao


PROPAGANDA
Da espada
ao voto
Depois de liderar dois
movimentos armados (em
Aragargas, Goids, e
Jacareacanga, Pard)
contra o president
Juscelino Kubitscheck e
defender regimes de forCa,
o brigadeiro Haroldo
Velloso se apresentou,
devidamente fardado,
como candidate da Arena
(Alianca Renovadora
Nacional, o partido do
governor) a deputado
federal, na eleicao de
1966. Foi eleito, mas
acabou apoiando o
prefeito de Santardm, Elias
Pinto, do partido da
oposiado, o MDB, num
epis6dio traumdtico, em
1968, que acabaria com a
eleicdo para prefeito no
municipio, declarado drea
de seguranga national.
Velloso morreria pouco
tempo depois.

PMDB). Foi num ano de
grande renovagdo: 10 dos 15
vereadores iam cumprir o pri-
meiro mandato. Como os ou-
tros nove novos edis, Jader
disse que estava consciente do
desejo de mudanqa e que que-
ria contribuir para ela. Novo
na political partidaria, ele ji
havia sido vice-presidente e
president do Centro Civico
Honorato Filgueiras, do CEPC
(Col6gio Estadual Paes de
Carvalho), que era um p6lo de
formagao de liderangas civis.
Mas tamb6m ji sofrera sua pri-
meira derrota, ao tentar a pre-
sid8ncia da UECSP (Unido
dos Estudantes dos Cursos
Secundaristas do Pard). Ati-
vista estudantil, s6 no ano se-
guinte ao da sua eleiqao 6 que
Jader comegaria ja tarde,
para os padres escolares -
o curso de direito, que con-
cluiria, sem nunca exercer a
profissao de advogado. Do
infcio at6 agora, quase meio
s6culo depois, s6 politico


MARqO DE 2010 1a QUINZENA Jornal Pessoal 9


ihaui ziniy 11cr1' parUI o euluuru da mNleuH[ir douI3 Co 7idihIU.: 4 Rairo RIIeInt







A qualidade do feito

Em resposta a OAB/PA, o Tribunal
de Justiqa do Estado lembrou que ficou
em 5 lugar em todo pafs no cumprimen-
to da meta 2 estabelecida pelo Conse-
lho Nacional de Jornalismo, para o jul-
gamento de aq6es propostas at6 dezem-
bro de 2005. Havia 158.312 processes
pendentes no TJE, dos quais 69% fo-
ram julgados, num indice superior A
m6dia national, que foi de 57%. Mas
ressalta que desempenhos superiores
foram conseguidos por tribunals que ti-
nham quantidade muito menos de pro-
cessos estocados, como o do Amapi
(2.565) e Tocantins (35.697).


O president do
tribunal, desembar-
gador ROmulo Nu-
nes, garante que
outras duas das 10
metas definidas pelo
CNJ tamb6m serao
cumpridas. Mas a
principal 6 a meta 2,
a que mais benefi-


J A esta nas bancas e livrarias o segundo
volume da Mem6ria do Cotidiano, a se
9ao mais lida por parte dos leitores do Jor-
nal Pessoal. Junto com o volume anterior, acho
que os dois livros permitem uma visdo mais fntima
e sempre individualizada da hist6ria de Bel6m e do
ParA durante o s6culo XX, sobretudo na sua segun-
da metade. A boa receptividade A primeira iniciativa
reforgou o compromisso de lancar uma nova coleti-
nea dos textos, fotos e ilustraq6es do JP. 0 apoio
do amigo Reginaldo Cunha contribuiu para viabili-
zar a empreitada, transformando-a em um acontecimento de final de ano.


cia o usuano dajus-
tiga. E urn dado relevant e merece desta- tfstica. E outros, que nao tinham o mesmo
que. Mas precisa ser relativizado tamb6m. bom conceito, cumpriram o compromisso,
Magistrados conhecidos por sua serieda- mas A custa do rigor e da seriedade no pro-
de na apreciaqao e julgamento das aq6es cessamento das causes sob suajurisdiqio.
nao conseguiram cumprir a meta 2 porque Feito o balango quantitativo, agora sera pre-
nAo estavam interessados apenas na esta- ciso ver a qualidade da faganha.


c~m~uiu


JUSTIVA
Ao ler o artigo, sobre as con-
trov6rsias criadas pela pol&mi-
ca meta 2 do Conselho Nacio-
nal de Justica entire os desem-
bargadores, algumas indaga-
g6es ficaram no ar. Corn todo o
respeito que os nobres magis-
trados tmrn, nio somente a
seus cargos como tamb6m a
suas personalidades na soci-
edade paraense, mas acho
essa "choradeira" sem razio,
haja vista que, "'nunca antes
na hist6ria", como diria o pre-
sidente metamorfose-ambu-
lante Lula, eles estio sendo
cobrados nao por algo excep-
cional e sim por aquilo que
deveria ser a regra, pois o Es-
tado-Juiz tern que julgar, apli-
cando a lei ao caso concrete.
Embora tenhamos alguns ate-
nuantes multiplicidade de
recursos, poucos juizes para
grande demand de processes
- contribuindo corn a morosi-
dade judicial, ha alguns casos
e julgados que macularam na-
cionalmente a image do ju-
diciario estadual: o caso Mur-
rieta, a nio-autorizacgo, por
parte do tribunal, para abertu-
ra de process administrative
disciplinary A juiza, no caso da
menor de Abaetetuba, a pres-
criaio da pretensao punitive
do Estado no caso Valentina,
em contrast ao crime dos ir-
mios Novelino, este instrufdo,
processado e julgado, em 6
meses. Justiga de classes? Dois
pesos, duas medidas? Mateus
primeiros os teus? Farinha
pouca, meu pirio primeiro?
Aos amigos os favors da lei,
aos inimigos os rigores? 0 juiz
pensa que e Deus, o desem-
bargador tem certeza que 6?


Apesar de muito:
dores e juristas ol
reserve o CNJ, com
control externo, ac
prerrogativa 6 sor
ingles ver, pois a m
lidade que umrn
pode sofrer 4 a
aposentadoria co
fato este acontecid
mente corn urn juiz
trabalho, em noss
com proventos pro
ao tempo de contrib
isto chegar a ser p
Nao, porque passadc
tena 3 anos ele
gar normalmente,
caso, corn todas as
de ex-magistrado e
nhecedor dos mean
manhas da area em
Ihava. Seria realmen
le", se o CNJ pudess
a vitaliciedade, ja
gistrado s6 pode de
go se perder esta gai
titucional.


EDUCAVAO

Tanto fizeram que
finalmente conseguil
tituto Estadual de E
Para (IEEP), instituig
no de 138 anos de v
balhos voltados par
estA agonizando e
chega ao seu fim. C
dessa agonia deriva
ros desmando das
administrag6es e p
plementadas pela
6ltimos cinco anos, o
ano se vem com um
de", que redundou e
significativas para a
ao long desse tern


s doutrina- verno, entra governor e o que se
harem com percebe 4 o simples desgover-
o 6rgao de no. Ag es in6cuas, principal-
ho que esta mente quando se fala das dis-
nente para putas entire este e o CEPC, numa
aior pena- in4pcia que passa pela gestio
magistrado baseada na desidia da USE aos
famigerada baixos resultados interns do
rmpuls6ria, pr6prio IEEP.
Io recente- Vio-se os andis ficam os
federal do dedo, seria essa a melhor tra-
sa capital, dugao da pendria em que se
porcionais encontra o IEEP. Vao-se os alu-
uig5o. Mas nos: este ano nao formaram-
enalidade? se turmas necessarias ao fun-
o a quaren- cionamento da escola. Ficam
pode advo- os profissionais da educagao
se for o da instituigao a ver o tempo
honrarias passar, o navio desliza ao lar-
sendo co- go da baia do Guajara e a al-
dros e arti- ternativa da Seduc 6 o fecha-
que traba- mento do IEEP e a transferen-
te "contro- cia dos professors e outros
e derrubar profissionais para bern long
que o ma- para, finalmente, alocar ali um
'ixar o car- tao sonhado 6rgao piblico,
rantia cons- que nao seja a escola, tal qual
aconteceu corn o Lauro Sodr4.
JosdCarlos Caso houvesse mesmo real
interesse da Seduc para man-
ter o IEEP funcionando bastaria
a Secretaria fazer a escola fun-
parece que cionar, ante uma letargia corn
ram. 0 Ins- que vem se arrastando hA anos,
ducaaio do uma obra que esta parada hA
ao de ensi- meses, onde se viu de tudo, se
ultosos tra- pagou inclusive por algo que
a o ensino nao foi finalizado, e, esta Ia,
parece que inconclusa, ou entao, direcionar
I resultado as matriculas para o IEEP.
dos intme- Adeus amigos, adeus IEEP.
p6ssimas Kleber Duarte


oliticas im-
Seduc nos
inde a cada
na "novida-
m derrotas
instituigao
po. Sai go-


JORNALISMO

Pelo que depreendi da lei-
tura da matdria com o titulo
"Oficio de jornalista e a roda
quadrada", publicada no JP n.


459 uma inequivoca defesa
do sindicalismo e, conside-
rando a sua ferrenha e, as ve-
zes, diria, intransigente cam-
panha contra a criagao da ins-
tituig5o Conselho de Jornalis-
ta. Surge a pergunta, simples e
direta: 0 que 4 mais nefasto
para o jornalista professional,
o Sindicato ou o Conselho?
Rodolfo Lisboa Cerveira
P. S. Gostei da not(cia sobre
o aproveitamento do gAs de
Urucu, o que, por sua vez, pro-
vocara o interesse pelo de Ju-
rua. 6timo moment para se
pensar na mudanga de nossa
matriz energ6tica, como voc&
sugere.

MINHA RBEPOSTA

Meu artigo ndo 6 uma defesa
do sindicalismo. Apenas relata
como as coisas aconteciam antes
do decreto-lei que instituiu o mo-
nopdlio do curso de comunica5do
social, em 1969, e como o proces-
so pode ocorrer agora, sem que se
precise de uma nova lei de impren-
so para substituir a que foi revo-
gada, no ano passado (e jd foi tar-
de). Pretendi mostrar que sdo in-
fundadas as alegag6es apresenta-
das pelas entidades corporativas,
sobretudo a Fenaj (Federagao Na-
cional dos Jornalistas), de que ago-
ra, sem a obrigatoriedode do di-
ploma, qualquer um pode ser jor-
nalista, ter registro ou serfiliado a
sindicato, instaurando-se o caos e
a degradagdo professional. Fiz, por-
tanto, o contrdrio do que o leitor
me atribui. Embora consider ne-
cess6ria a existencia dos sindica-
tos (jd atd fui president do que
represent os jornalistas). Quanta
ao conselho, ndo s6 e desnecessd-
rio: e abomin6vel.


- Jomal Pessoal
Editor: LOcio Flavio Pinto


Diagramaao e ilustraq6es:


L. A. de Faria Pinto Contato: Rua Aristides Lobo, 871 CEP: 66.053-020


Fones: (091) 3241-7626 E-mail: fpjor@uol.com.br jomal@amazon.com.br Site: www.jomalpessoa.com.br


10 Jornal Pessoal MAR9O DE 2010 1l QUINZENA







Mais uma imortal chega ao mercado


Se tivesse decidido se tornar imortal 0 livro, muito bem .tad ae mas Mais dramitico 6 o final do poema,
entire as d6cadas de 60 e 70. quando para mmia aide .em duas estrofes: "Guardei-me na es-
era o mais influence colunisia social do antes da elei nqca te esperando,/ sofrendo pelo
Pard, corn presenqa em journal e na le- pe final as ensoes debi de estar te amando;/ tao certo de
levisao, Pierre Beltrand teria vencido trand. Nada os do que tr n- qu( to a tua vontade!/ Mas hoje, in-
com facilidade a eleiqao para a Acade- tes da APL d uas impre 0- tfei" nie. hei-me ao tormento,/calada
mia Paraense de Letras. Mas s6 neste prio li\ro: J dyr Bezerr l o n 'oz de sentiment/ e pregada na
ano foi que ele se candidatou. Agora dos imortais. berto C (q ue c esta saudade".
esta corn mais de 80 anos de idade e escreve a ap ntaqao .no fic garante que, com versos des-
possui apenas uma coluna dominical Tourinho(res avel pela ara Iualidade. a poetisa estreante "co-
num journal, o Amaz6nia. que. al6m de reforqar. o (amazQa omo qa. de fato, por onde muitos termi-
ser o subproduto do irmao mais \elho. Sarah) -lme de- m". Ao invds da aldeia, a qual diri-
0 Liberal, foi concebido para circular zo e letr* ended seus sentiments exclamativos,
entire as camadas da populaqio que tal- 'ores '- "ganha o espago das grandes parti-
vez nem saibam que a academia. i das. conquista o mundo". Por enquan-
- e vice-versa. Ubiratan de Ag 10 d S OS .. .. o.* a cadeira 26 da APL, onde Pierre
teve 13 votos. Nao vai poder incluir o etivi. veOW l paH- aa d sperava sentar. E uma faqanha: em-
titulo de mortal no seu curriculo. que tisa (e nao prop bora a tiragem do seu livro tenha sido
era a sua maior pretensio. Sua rival te poeta) e a ua L de mil exemplares, conforme registra-
amealhou21 votos, metade mais um a conservadora digam I `do na pr6pria publicaqao, 0 Liberal,
40 cadeiras acad8micas e por iss .de retornar a metrificaqao e a Aque noticiou sua vit6ria, informou que
suficiente para decidir a parada no I e.Mrndlia daquel es Poemas para minha aldeia "teve
meiro escrutinio. -H ,g e music mais de 1.500 exemplares vendidos
Sarah Rodrigues nao 6 personalih- do q-ll antes do lanyamento official Assim,
de pdblica, como Pierre. Em 60 ani. ainda em pf W. a nova immortal pode tirar uma 2' edi-
de profissao, ele se tornou conhecid .Nerso li re.das redondilhas".0 pro qio com metade da tiragem previa-
porpromoq6estipicasdocolunismoso- '.7- a do que afirma. Jorge Tu -a um mente vendida. Record no mercado
cial que erapraticado quando trocou de .:do,< sonetos do livro. dedicad. sem editorial paraense, ainda que sua tao
posiqao na redagao, deixando de ser o qualquer surpresa a saudadio qual exaltada %eia po6tica nao nos ofere-
rep6rter fugador que era para se dedi' uma das estrofes admire: "QLAtmais no qa nenhum %erso novo, nem tema ori-
car ao grand monde. Nessa condiqao. amor eu tenho que sofrer/ para que ginal. Mas para uma academia literi-
escolhia os homes e as mulheres mais amando o sonho tenha % ida?/Traga teus ria que jd foi ambicionada pela autora
elegantes, aqueles que recebiam bem kIbios nus. da-me a beber. e Bae. o que de um li Vro de culindria, a situaqao
(os hosts), as personalidades do ano e nasceu da despedida!". 0 \e~b. como melhorou. Espera-se que continue a
assim por diante, al6m de colocar dian- se ve transfigurou-se entire o primeiro melhorar quando as tres vagas ainda
te das cameras da televisao rostos que e o dltimo verso. abertas forem preenchidas.


iriam se notabilizar (e promover espe-
ticulos artisticos e festas). Quem nao
queria ser personagem do Pierre, que
era a versao tupiniquim do Ibrahim? Os
imortais, mais dados a vida literdria do
que a atividade literaria, gostariam.
No mes passado, quando a cadei-
ra 28 da academia foi preenchida,
depois da morte do professor Ubira-
tan Rosario, Pierre nao foi pireo para
Sarah Castelo Branco Monteiro Ro-
drigues. Ela 6 jufza de direito, titular
da 6' vara penal de Bel6m, admitida
(em 1 lugar) atrav6s de concurso
pdblico; sua tese de p6s-graduaqao na
FGV do Rio de Janeiro tamb6m obte-
ve o 1 lugar, foi tricampea national
de ginistica rftmica desportiva, 6 jo-
vem, bonita e, o mais important para
efeitos da imortalidade, ganhou, em
2007, o premio de poesia da pr6pria
Academia Paraense de Letras.


MARQO DE 2010 1 QUINZENA Jornal Pessoal 11


Destruigao

A ilha do Mosqueiro 6 uma preciosidade que esti sendo destrufda celere-
mente diante da nossa omissao ou conivencia. 0 que a torna especial 6 a aqao
da mar6, fazendo a agua ir e vir das praias, corn aparencia de mar em agua
doce. A sucessao de praias em enseadas ou bafas. E a vegetacqo. Salinas, a
traditional concorrente, tem a vantage do mar aberto e a grande desvanta-
gem da insolagqo permanent, do descampado, do agreste. Mosqueiro 6 mes-
mo buc61lica, a verdadeira princesinha, o balnedrio mais original do litoral para-
ense. Graqas As arvores, que chegam quase as praias ou serve de separacgo
para elas. Sem a vegetaqao, Mosqueiro perderi seu encanto pr6prio. E 6 o
que esti acontecendo. A pretexto de assentamentos estabelecidos com nomes
de personagens honrosos, Chico Mendes e Dorothy Stang, o que hi 6 invasao
especulativa e destruiqio criminosa da mata original.
E precise tombar urgentemente Mosqueiro do ponto de vista legal antes
que suas arvores tombem todas de vez, substituindo um ambiente paradisfaco
pelo inferno em prestaq6es. E, ao poder pdblico, agir para center o com6rcio
desenfreado de lotes urbanos, que se aproveita da mis6ria do povo e da incdria
das autoridades.









Os caminhos para uma justiga melhor


Corn a autoridade de ex-presidente do
Tribunal de Justiqa do Estado, a desem-
bargadora Albanira Bemerguy, em audi-
8ncia piblica do 6rgao especial, realizada
no final do ano passado (ver Jornal Pes-
soal 457), se referiu a um desembarga-
dor "que deixou dois mil processes, se
aposentou belo e faceiro e bonitinho". Foi-
se indiferente a "heranqa maldita" que
deixou para os colegas que permanece-
ram na ativa, dentre os quais os proces-
sos seriam redistribuidos (a media de quase
70 por desembargador). A magistrada nao
citou o nome do cidadao que se compor-
tou de forma tao irresponsivel no desem-
penho do mais alto cargo da magistratura
estadual, talvez detendo um record na-
cional ou mundial de processes submeti-
dos ao chamado "embargo de gaveta",
um dos males da justica e do servico pid-
blico em geral. Mas as expresses "belo,
faceiro e bonitinho" nao eram gratuitas.
Visavam ajudar a identificar o desembar-
gador, sem acarretar o onus da prova a
quern acusa ou a reacgo do acusado, em
defesa de uma honra ficticia. Nao houve
um dnico comentario no plendrio.
Os juizes parecem ter-se acostumado
a ouvir informagqes e dentncias que, fora
das depend8ncias dojudiciario, costumam
provocar escAndalo e algumra conseqiien-
cia, como se vivessem num mundo a par-
te da sociedade, numa bolha brilhante. Ao
perder a dispute para o atual president
do TJE, Romulo Nunes, a desembarga-
dora Maria Helena Ferreira disse que a
distribuiqco de processes na justiga para-
ense era viciada. Mesmo tratando-se de
uma dentincia de alta gravidade, nao hou-
ve desdobramento proporcional a essa
gravidade. Nem nesse caso nem em nu-
merosos outros, que acabam sendo sufo-
cados intemamente ou entregues a estra-
t6gia da desmemoria, que tudo apaga.
No entanto, essa sucessao de coni-
vencias e omissoes, pr6prias do forte
espfrito corporativo do judicidrio, criou
um ambiente propicio para acolher uma
ofensiva desencadeada no mes passa-
do pela Ordem dos Advogados do Bra-
sil. Tudo comegou quando o president
da OAB national, o paraense Ophir Ca-
valcante Jdnior, declarou, em Brasilia,
que "a grande maioria dos jufzes nao
cumpre seus horarios e trabalha,quando
muito, no 'sistema TQQ'", apenas as
terqas, quartas e quintas-feiras.
E o mesmo sistema adotado pelos
parlamentares federals, mas eles contain
corn a atenuante de nao residir onde es-
tao as sedes da Camara Federal e do
Senado, e de admitirem que o fato 6 ver-
dadeiro. JA os magistrados nao s6 reagi-
ram negando a afirmativa do president
da OAB como passaram da defesa ao


ataque, ameagando processar Ophir e,
em seguida, o president da entidade no
Pard, Jarbas Vasconcelos, que repercu-
tiu a dendncia e lhe deu conseqiiencia.
Jarbas convocou 16 subseqoes e mais
advogados na capital para verificar o tra-
balho dos juizes nas 147 comarcas pes-
quisadas (de um total de 153 instaladas)
em todo Pard. A "Operaqdo TQQ" che-
gou a conclusao de que 60,5% dos juizes
estavam ausentes das suas comarcas
naquela segunda-feira, 22 de fevereiro.
Mesmo em Bel6m, 35% dos magistra-
dos nao compareceram e outros chega-
ram depois do horArio de infcio do expe-
diente, as oito horas. Estava provado o
TQQ, refer8ncia corriqueira nos corre-
dores forenses. Era conhecida uma juf-
za (depois desembargadora) que nao tra-
balhava as sextas-feiras. Gastava esse
dia no supermercado, segundo seu as-
sessor. E todos aceitavam a rotina, in-
clusive os advogados.
Imediatamente juizes tidos como au-
sentes recorreram a entidade de clas-
se para desdizer a OAB, garantindo
que estavam nos seus postos quando
da blitz, outros acusaram a Or-
dem dos Advogados de exorbi-
tar as suas funq6es, agindo como .
6rgao policialesco. Daf a
proposta de agao judicial em
defesa da honra coletiva
foi um passo. Estava cri-
ado um clima de guerra .
entire a magistratura e a
advocacia, dois dos ele-
mentos necessarios a
realizagAo da justiqa (o
terceiro 6 o Minist6rio _
P1blico, que se mante-
ve em convenient sil8ncio).
Hipnotizados pela mentalidade corpo-
rativa, os magistrados deixaram de lado
o que hi de verdadeiro nas alegaq6es
dos advogados, relembrado pelo ex-pre-
sidente da OAB/PA (e candidate derro-
tado na 61ltima eleico), S6rgio Couto, em
artigo publicado em 0 Liberal: nao fo-
ram os advogados "que disseram que a
justiqa do Pard era a quarta pior do pafs
nas sentengas dos juizados especiais; a
terceira mais congestionada da naqgo; a
segunda pior em sentengas dos magis-
trados do 2 grau e a que menos apre-
senta casos novos por 100 mil habitan-
tes", dados apurados em levantamento
do Conselho Nacional de Justiqa.
Na primeira nota official que assinou,
Jarbas Vasconcelos foi al6m: usando os
mesmos dados do CNJ, disse que o
Pard "6 o terceiro Estado mais moroso
da Federagao, corn uma taxa de con-
gestionamento de 82%, bem como 6 o
segundo pior do Brasil na produgao dos


seus magistrados enquanto um juiz do
Acre profere em m6dia 1.926 senten-
gas por ano, um de Rondonia 1.715 e
outro do Rio Grande do Sul 2.908 sen-
tenqas, o magistrado paraense profere
somente 497 sentenqas por ano. Ou
seja, at6 6 vezes menos que seus cole-
gas de outros Estados do Brasil".
Os nimeros sao verdadeiros e o pr6-
prio CNJ ji cobrou as provid8ncias ne-
cessarias da justiga paraense. 0 que se
pode dizer contra a iniciativa da OAB 6
que a entidade local se preocupou tanto
em dar razao ao president national, cujo
apoio tornou possfvel a eleiqao do presi-
dente da OAB/PA, que deixou de lado
as etapas que podiam ser percorridas na
busca de soluqdo e nao apenas de con-
fronto e notoriedade. 0 president da
Ordem podia mandar um relat6rio cir-
cunstanciado as corregedorias metro-
politana e do interior de justiga e co-
brar medidas imediatas (elas acabaram
dando prazo para receberem esses da-
dos). Corn base no document, podia
fortalecer a just reivindicagao de que
os jufzes residam nas comarcas para as
quais foram designados, ao in-
v6s de serem apenas visitantes
(quando podem, moram na capi-
tal). A audi8ncia corn o pre-
sidente do tribunal com esse
fim, no dia 2, acabou
cancelada pelo desem-
bargador (e depois re-
marcada para o dia 12).
Sem as respostas ne-
cessirias e sem as pro-
vid(ncias concretas, a
OAB partilharia corn a
opiniao ptblica o desen-
volvimento de uma campanha para me-
lhorar e muito, como 6 necessario a
prestaao jurisdicional no Estado, que 6
gravemente deficiente. Talvez at6 se
formasse um grupo executive corn re-
presentantes de todos os segments, in-
clusive da sociedade, para identificar os
focos dos problems e resolve-los. Nao
s6 entire magistrados, mas tamb6m jun-
to a advogados.
A OAB podia dar exemplo acabando
corn o sigilo adotado por seu tribunal de
6tica, que s6 indica as iniciais dos advo-
gados processados, enquanto o Diirio da
Justiga da o nome inteiro das parties nos
processes judiciais, mesmo que as agoes
ainda estejam pendentes de decisao. Agi-
ria de forma decidida e conseqiiente, mas
corn equilibrio, para nao desencadear uma
dispute political, como acabou acontecen-
do, e uma confrontacqo mais desgastante
do que proveitosa. Ao final da qual, nao 6
impossfvel que tudo volte a ser como dan-
tes. Com famas indevidas.