Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00339

Full Text


FEVEREIRO
DE 2010
2?QUINZENA

A AGENDA AMAZNCA PDE LCIO FLAVIO PINTOa l
A AGENDA AMAZONICA DE LWCIO FLAVIO PINTO


POLMTICA



0 vale-tudo

0 eleitor e cego em tiroteio na pre-temporada eleitoral: ndo ve nada, ndo sabe de
nada, mas pode levar chumbo quente quando as negociavges de bastidores estiverem
finalizadas e as candidaturas forem oficializadas. Talvez com surpresas.


Scomparaqdo 6 de p6 quebrado,
por contrapor realidades tao
esiguais, mas ajuda a situar o
leitor diante do confuso moment polifti-
co no Pard. A atualidade do Estado faz
pensar na fase p6s-revolucionaria da
Franga na passage do s6culo 18 ao
19, quando o governor era exercido pelo
diret6rio. Entre os diretores havia vari-
os aspirantes ao poder. Todos eles, mes-
mo aqueles dotados das virtudes repu-
blicanas e revoluciondrias, desabrocha-
das com a revolucao de 1789, estavam
dispostos a fazer qualquer tipo de acer-
to, acordo ou neg6cio, ainda que os mais


espdrios, para mandar mais ou, se
possfvel, mandar s6.
Quem acabou mandando foi o
"grande ausente", o soldado genial que
por virios anos desenvolveu campa-
nhas militares consagradoras no exte-
rior, na Itilia e no Egito. Ao voltar para
a Franqa, sendo recebido como o seu
salvador, Napoledo Bonaparte sondou
cada um dos possfveis aliados para um
golpe de estado que acabaria corn o
poder colegiado do diret6rio e abriria
caminho para o consulado, o imp6rio
e, por fim, sua ditadura pessoal (em-
bora nao absolutista). A cronica cotidi-


ana desse period 6 das mais revela-
doras do carAter human, Talvez como
em nenhuma outra fase da sua hist6-
ria, o home se despojou de pratica-
mente todos os valores morais e 6ticos
para alcangar o poder.
Se a imprensa paraense fosse real-
mente comprometida com o seu leitor e
ndo estivesse tdo intimamente enreda-
da no jogo do poder, talvez ela pudesse
nos fornecer uma cr6nica de aldeia,
pequena e provinciana quando referida
A trag6dia francesa, sobre situaqces
bem semelhantes As que transcorriam
CONTINUE i'A PiGA


0 REI FALIDO


IAS.


N' 459
ANO XXIII
R$ 3,00


I Gn"


CRIME CONTINUE






em Paris e motivaram diversos cronis-
tas. Ja houve 6poca em que os jornais
de Bel6m mantinham rep6rteres espe-
cializados para acompanhar os princi-
pais personagens da cena polftica e re-
latar seus movimentos didrios na com-
posi~io de alianqas eleitorais.
Havia omiss6es e adig6es nessa co-
bertura didria, mas o que safa em letra
de forma, corn todas as suas deficien-
cias e insuficiencias, permitia ao leitor
se manter informado e ter ao menos
um vislumbre do quadro de opq6es que
Ihe seria oferecido para votar. Desta
vez, em plena era de informagAo ins-
tantAnea e global, o cidadao comum vive
na escuridao polftica. S6 sabera dos
fatos quando as candidaturas forem sa-
cramentadas, tudo estiver consumado
e muito leite derramado (o de origem
vegetal e o de inspiragqo simb61lica). E
votard por compulsdo, mais do que por
opcqo. Por dependencia, mais do que
por afirmagqo. Com resignaqdo, mais
do que com entusiasmo.
S6 sabe dos ziguezagues das prin-
cipais peas dispostas no tabuleiro po-
litico quem tem acesso ou acompanha
Ana Jdlia Carepa, Jader Barbalho, Du-
ciomar Costa, Simao Jatene e alguns
outros atores dessa tragicom6dia, como
tem sido a eleigqo no Estado, al6m de
seus interlocutores e pe6es. Essa mo-
vimentaqao ndo 6 definida nem delimi-
tada por posiqGes ideol6gicas, filiag6es
partiddrias, inimizades pessoais ou
mesmo pelas biografias dos politicos.
A agenda dos contatos e a pauta das
conversaqes dependem dos interes-
ses de quem as maneja na perspective
da maior aproximagao que puder con-
seguir do poder para si ou para os
seus. Para poder fazer o que quiser e
o que Ihe conv6m.
Vejamos s6 um exemplo. At6 re-
centemente, o deputado federal Jader
Barbalho e o prefeito de Belem, Duci-
omar Costa, estavam em posiqces di-
ametralmente opostas. 0 journal do fi-
der do PMDB chegou a publicar ma-
t6rias diarias, sempre com destaque,
contra a administraqao municipal, numa
campanha massive e maciqa. Eram
vdrias as causes apontadas para essa
hostilidade: Duciomar se colocara no
caminho de Jader ao se proper a dis-
putar uma das vagas do Senado, para
onde o morubixaba de palet6 desejaria
retornar; tamb6m podia ser porque se
aproximara demais do grupo de comu-


nicagio rival, o Liberal, destinando-lhe
mais verbas do que ao grupo de comu-
nicaqAo da famflia Barbalho; o anta-
gonismo tamb6m se agravou quando
Duciomar abusou da mAquina piblica
para derrotar o candidate do PMDB A
prefeitura de Bel6m, Jos6 Priante.
Qualquer que tenha sido o motivo
da dissensAo, ela, se nao acabou, foi
atenuada. As mat6rias critics do Di-
drio amainaram e praticamente eva-
poraram. Garante-se que os dois caci-
ques jA se encontraram. Nao hA prova
dessa reuniao, mas 6 pdblico e not6rio
que seus representantes estdo se en-
tendendo. No caminho desse entendi-
mento ha a aqao proposta pelo PMDB
na justiga para cassar Duciomar, acu-
sado de abuso de poder para conse-
guir se reeleger. As possibilidades de
confirmaVao da cassaVao, concedida
por juiz de 10 grau e depois revogada
por outro juiz, para o qual o process
foi despachado pelo president do TRE,
desembargador Joao Maroja (contra
quem o PMDB reclamou ao Conselho
Nacional de Justiqa). Maroja, que es-
tava de f6rias no Chile quando a aqao
foi protocolada, foi acusado de ter fei-
to distribuiqdo irregular.

Se a conversa tiver born
desfecho (por enquanto,
imprevisivel), PMDB e PTB
formarao uma chapa
complete para disputar a
eleigAo de outubro? Como
elements da base aliada do
PT ou contra o Partido dos
Trabalhadores? Para
ajudar Ana Jdlia a conseguir um
segundo mandato ou para tird-
la do governor, colo-
cando em seu lugar
um peemedebista
ou um petebista?
Ou tudo nao passa
de jogo de cena,
junto com outras
falsas movimenta-
96es, como a de Ja-
der no rumo de Ja- .. ,
tene ou de uma
candidatura pr6pria,
que poderia ser a
dele, para confun-
dir ou aumentar o
valor do premio a
ser pago no mo-
mento da oficializa-
qao das chapas?


Traiq6es, baixarias, mentiras, falsi-
dades, bales de ensaio e outras peas
do arsenal de golpes dos politicos de-
vem integrar o menu dessa intense mo-
vimentagqo de bastidores, que nAo emer-
ge no noticidrio da imprensa. Seus do-
nos, final, nao sdo observadores e nar-
radores da cena, mas atores, tamb6m
com seus interesses especificos e nem
sempre relacionados ao bem coletivo.
Eles participam quase tanto quanto os
politicos (ou As vezes, mais), aprovei-
tando-se dos instruments que term para
dar amplitude a tudo que fazem.
0 que explica a grande foto que 0
Liberal publicou na capa do journal, exi-
bindo seu principal executive, Romulo
Maiorana Jinior, ao abraqar o novo
president national da Ordem dos Ad-
vogados do Brasil, o paraense Ophir
Cavalcante Jdnior. A image inverte
a hierarquia dos valores: a presenqa do
cap do grupo Liberal realqa e eleva a
importAncia do president da OAB, per-
sonagem coadjuvante na disposiaio da
fotografia. Ophir, aliAs, prestou um
grande serviqo aos Maiorana e uma
ofensa A liberdade de imprensa quan-
do classificou a agressdo praticada
contra mim por Ronaldo Maiorana
presidente da comissdo em defesa da
liberdade de imprensa da OAB/PA,
entAo presidida por Cavalcante Juini-
or) como "rixa familiar". Muito embo-
ra a motivagqo alegada pelo agressor
(tamb6m editor e director corporativo da
empresa) tivesse sido um artigo meu
neste journal, nao contraditado por ne-
nhuma carta do suposto ofendido nem
qualquer mat6ria no journal do
agressor como contraponto. Se isso
nao 6 crime de imprensa, o que Gu-
tenberg inventou
nao foi a imprensa:
foi o urinol.
SComo na 6poca
do diret6rio, vale
tudo na political
que se pratica no
Para. Mas literal-
mente tudo. Infe-
lizmente, por6m,
Snao existe um
"grande ausente",
nem her6i, muito
menos inocentes.
Essa infelicidade
nao tem a estatura
de um drama ou de
uma trag6dia: 6 co-
media das piores.


2 Journal Pessoal FEVEREIRO DE 2010 2a QUINZENA







Pesquisa eleitoral: mercadoria avenda


E um absurdo, todos sabem que ele
ocorre, mas ningu6m toma uma provi-
dencia para eliminar essa anomalia. As
pesquisas eleitorais s6 sao fiscalizadas
com maior rigor pelo TRE 90 dias antes
da eleigqo. At6 esse perfodo elas cos-
tumam ser manipuladas. Se a manipu-
laqdo 6 bem feita, os seus resultados
podem ser divulgados massivamente e
o institute tern um conceito national, 6
possivel que elas induzam o eleitorado,
fazendo os indecisos assumirem o can-
didato que lidera a pesquisa (ou cresce
sempre) e outros mudarem as op6oes
que pretendiam fazer, graqas a um hi-
bito national enraizado: brasileiro nao
gosta de perder. Prefere entrar na onda
de quem estd em ascensdo e corn a
perspective de vencer. Ou melhor: ji 6
dado como vencedor.
E claro que quem tern exerce o con-
trole do executive ou outra funqco pd-
blica de expressed pode encomendar
mais pesquisas e explorer esse terreno
baldio, propicio "s manipulaqoes da opi-
niao pdblica. Quanto mais poder o can-
didato tiver, de mais recursos poderi lan-
qar mao para promover essas pesqui-
sas dirigidas, de forma direta ou indire-
tamente, atrav6s de entidades agrega-
das, dependents ou afins. E aprovei-
tando para combinar as pesquisas elei-
torais corn outros tipos de sondagens,
que engrossam o faturamento dos insti-
tutos de opinido piblica, deixando-os
mais suscetiveis a esse tipo de fraude,
escorada no princfpio de que a estatisti-
ca 6 o reflexo da realidade no moment
em que ela 6 aferida e que os nimeros
nao mentem jamais.
Essa pritica, favorivel aos detento-
res do poder e lesiva a democracia, fi-
nalmente comeqa a ser questionada e,
talvez, dependendo da reagqo que as
crfticas provocarem, venha a ser aboli-
da, em proveito da fidelidade aos fatos.
A brecha para esse questionamento foi
aberta pelos pequenos institutes de pes-
quisa, que passaram a se mobilizar para
denunciar as encomendas corn prop6-
sitos pr6-definidos. 0 servigo s6 bene-
ficia os grandes institutes de pesquisas,
que sao "muito bem pagos para realiza-
rem pesquisas govemamentais e outras
que derivam de sindicatos comprometi-
dos corn o governor, como a realizada
pelo Sensus para a CNT", diz o dono
de um dos institutes nanicos.


Ele exemplifica corn o Vox Populi,
que faz uma pesquisa semestral para
aferir a efici8ncia das concessiondrias
de energia. 0 pacote envolve 30 con-
cessionarias, cabendo a cada uma cota
de mais de 80 mil reais. 0 servigo re-
sulta em mais de R$ 2,5 milh6es por uma
pesquisa corn menos de 500 entrevis-
tas em todo Brasil. A Aneel (a agencia
que control o setor de energia el6tri-
ca) exige que a pesquisa seja feito to-
dos os semestres, mas nao que haja li-
citagRo piblica para a contratacao do
executor da sondagem. 0 Vox Populi
foi indicado diretamente, sem se sub-
meter a qualquer process seletivo.
A mesma fonte se refere a recent
pesquisa de intengao de voto para pre-
sidente da repdblica, realizada pelo Ins-
tituto Sensus para a Confederacqo Na-
cional dos Transportes, que registrou umrn
notivel crescimento da candidate do
PT, a ministry Dilma Rousseff. Em pou-
co tempo ela ji conseguiu empatar tec-
nicamente corn o pr6-candidato do
PSDB, o govemador de Sao Paulo, Jos6
Serra. 0 surpreendente resultado foi
propagandeado por todo pafs, "mas es-
queceram de analisar a metodologia do
trabalho, desenhada cirurgicamente
para favorecer a candidate official ob-
serva a fonte.
0 dono do pequeno institute diz que
nao pretend fazer a desqualificagao
da pesquisa por raz6es partidarias, mas
sim alertar "sobre os riscos que uma
pesquisa manipulada pode trazer para
as eleicqes que se aproximam, e ao
mesmo tempo, questioner o papel do
Tribunal Superior Eleitoral que faz vis-
ta grossa para esse tipo de alquimia,
pois, segundo ele, a lei s6 6 rfgida corn
as empresas de pesquisas 90 dias an-
tes das eleiqoes".
Segundo a andlise do t6cnico, a con-
cepqdo da amostra da pesquisa do Ins-
tituto Sensus privilegiou pequenos mu-
nicipios brasileiros em detrimento das
grandes capitals, onde o voto urbano 6
mais representative. Por exemplo, no
Rio Grande do Norte, foram pesquisa-
dos 22 eleitores, sendo 9 em Natal (a
capital corn cerca de 508 mil eleitores)
e 13 no municipio de Sftio Novo (corn 4
mil eleitores). Em Santa Catarina foram
ouvidas 17 pessoas, com 4 entrevistas
em Florian6polis (com 306 mil eleitores)
e 13 em Guaraciaba corn (7,7 mil elei-


tores). No Espfrito Santo, foram ouvi-
das 21 pessoas, 4 na capital, Vit6ria (245
mil eleitores) e 17 em Venda Nova do
Imigrante (14 mil eleitores).
O responsavel t6cnico pela pesqui-
sa, Ricardo Guedes, argumentou que o
Sensus usou a t6cnica Probabilidade
Proporcional ao Tamanho, conhecida
por PPT, "mas pelo que se viu o tama-
nho deve ter sido geogrifico ao inv6s
de populaqao eleitoral", contradita a
fonte. Para esse t6cnico, privilegiar pe-
quenos municfpios "estA, sim, favore-
cendo o candidate official, pois neles re-
sidem parcelas expressivas de eleitores
aquinhoados corn a bolsa fammlia".
Garante que esse tipo de manobra
t6cnica "corn toda certeza revela um
quadro totalmente descolado da reali-
dade. Pesquisa 6 uma amostra da reali-
dade, e a realidade do process eleito-
ral 6 outra. As capitals sempre regis-
tram mais votos que os pequenos muni-
cipios brasileiros, por6m o Instituto Sen-
sus pode fazer de outra forma" para ser
fiel A realidade.
Outro texto que circula pela internet
reforga o questionamento desse tipo de
pesquisa. Comprova, corn dados, que o
PT, detendo 10% das prefeituras no
Brasil, "teve a sorte" de, na pesquisa
CNT/Sensus, serem escolhidas 17,8%
de cidades dirigidas pelo partido. A con-
clusdo dessa selegao amostral 6 que o
PT teve uma "sorte" de 78% a mais do
que o normal. Ja o PSDB e o DEM,
que comandam 23% das cidades brasi-
leiras, tiveram apenas 14% das cidades
por eles dirigidas selecionadas para com-
por a amostra da pesquisa CNT/Sen-
sus. "Tiveram um azar de quase 40% a
mais do que o normal", conclui o texto,
mostrando que, entire todos os partidos,
"ningu6m teve mais sorte do que o PT.
E ningu6m teve mais azar do que o
DEM e o PSDB".
Mera casualidade? Os dados, apu-
rados em extensdo, indicam que nao.
Ja 6 mais do que chegada a hora de
ampliar o prazo de control efetivo das
pesquisas eleitorais dos atuais 90 dias
para qualquer perfodo em que elas fo-
rem realizadas. A checagem teria que
ser feita nao apenas pelo TRE, mas tam-
b6m por entidades da sociedade civil es-
pecializadas. A democracia brasileira se
tomaria mais do que um instrument na
mdo dos "mais iguais".


FEVEREIRO DE 2010 24 QUINZENA Journal Pessoal 3










Desde que assumiu o mandate de
deputado federal, depois de ter renun-
ciado ao de senador, para nao ser cas-
sado, Jader Barbalho 6 um dos parla-
mentares que mais falta as sess6es da
Camara dos Deputados, em Brasilia. A
escala de ausencia 6 constant e cres-
cente. A cada ano, seu principal inimi-
go, o grupo Liberal, aproveita o mau
hAbito do ex-governador para destacd-
lo como um dos lideres da gazeta ao
trabalho no parlamento. 0 registro sem-
pre vai para a capa do journal e recebe
mat6ria destacada em pdgina internal,
como aconteceu mais uma vez. 0 obje-
tivo 6 consolidar ou incrementar o fndi-
ce de rejeicgo ao politico mais influence
no Pard nas tres 61timas d6cadas.
A elevada rejeicao a Jader continue
a ser o maior obstdculo A sua participa-
qdo em eleicqes majoritdrias, sobretu-
do de governador, mas nenhum outro
politico conseguiu superar sua forqa pes-
soal. Nessas tr8s d6cadas, eventualmen-
te um politico se tornou mais forte do
que ele ou chegou mesmo a derrotA-lo.
Mas enquanto Jader tern conseguido se
recuperar dos insucessos e conviver corn
o estigma ruim associado automatica-
mente ao seu nome, o vencedor de umn
dia 6 o derrotado do dia seguinte, como
Almir Gabriel. 0 inimigo declarado do
passado se toma nao s6 seu aliado, como
seu dependent. H6lio Gueiros 6 um
exemplo e Luiz OtAvio Campos, outro.
A relacao, por6m, 6 extensa.
Em 2009 Jader Barbalho foi o tercei-
ro deputado federal mais ausente da Ci-
mara: compareceu a apenas 31 das 115
sessoes realizadas (27%). Ele perderia
o mandate se o artigo 55 da Constitui-
9o, que pune com essa pena quem falta
a um ter9o das sessoes, tivesse aplica-
qao simples. Mas os pr6prios deputados
encontraram, em 2006, uma maneira
(dentre outras) de evitar a punigqo: bas-
ta que o gazeteiro justifique a ausencia.
Jaderjustificou 70% delas, deixando sem
explicaqdo apenas 3%. 0 efeito 6 ser
descontado pelo valor individual dessas
sessoes, o que 6 nada para ele (e para
muitos outros parlamentares, que nao se
preocupam corn a perda de dinheiro;
dentre eles, o campeao 6 outro paraen-
se, o polemico Wladimir Costa, com 31
faltas nao justificadas).
Apesar desse fato, ano ap6s ano o
Diap (o 6rgao que dd assessoria parla-


mentar aos sindicatos) inclui Jader na
relacqo dos 100 politicos mais influen-
tes no Congresso Nacional (incluindo o
Senado). A avaliaqao consider, al6m
da freqtiuncia as atividades no plendrio,
a atuaqao nas comissies e outras parti-
cipaqces internal. Ha politicos que re-
velam sua importanciajustamente nes-
se tipo de trabalho, que aparece menos
do que os discursos na tribune ou as in-
terven9qes no plendrio, mas que pode
render muito mais. Assim como ha po-
liticos que sempre se destacam, tornan-
do-se foco permanent de atenqao pela
imprensa, mas nao rendem concreta-
mente. Sua especialidade 6 a ret6rica.
Num parlamento s61lido, a produtivida-
de 6 media por esses dois plans de par-
ticipaqao, que se complementam: a pre-
paraqdo dos projetos e a discussao das
mat6rias de interesse pdblico e sua vota-
qao em plendrio. Mas no Brasil nao s6 os
pr6prios parlamentares tem contribufdo
para desvalorizar e desacreditar sua insti-
tuiqdo, como o executive federal capri-
cha para fazer das deliberaqoes um jogo
de cartas marcadas. 0 abuso do ilegftimo
poder de legislar atrav6s de Medidas Pro-
vis6rias, a prdtica das compensag6es in-
dividuais por votos cabalados e outros m6-
todos t8m contribuido para diminuir ou, As
vezes, anular a presence do parlamentar
em plendrio. Daf a relacgo dos politicos
mais influentes selecionados pelo Diap in-
cluir virios dos gazeteiros.
Com Jader Barbalho hi uma espe-
cificidade: desde que se tomou o sfm-
bolo do desvio de dinheiro pdblico e do
enriquecimento ilfcito, ele se especializou
em atuar A sombra, nos corredores e
gabinetes do parlamento. Sua efici8n-
cia s6 pode ser adequadamente mensu-
rada por aqueles que conhecem e tam-
b6m freqtientam esses caminhos, den-
tre eles os representantes e mensagei-
ros avangados do governor. 0 que ex-
plica aquele gesto surpreendente do pre-
sidente Lula em Bel6m, quando beijou
a mao de Jader e o consagrou como
eminencia parda. Para desespero dos
que pretendem destruf-lo, as vezes sem
dele se diferenciar ou sem dispor das
qualidades que fizeram de Jader o polf-
tico mais important do Pard nas uilti-
mas tres d6cadas. Periodo no qual, in-
clusive pelo uso negative dessas quali-
dades, o Pard cresceu como rabo de
cavalo: para baixo.


Novo institute


0 gazeteiro influence


4 Jornal Pessoal FEVEREIRO DE 2010 2- QUINZENA


O 6ltimo estudo
divulgado pelo 0
Idesp (Insti-
tuto de De-
senvolvimento
Econ6mico, So-
cial e Ambiental do
Pard) sob a adminis-
traqdo de Peter Mann de
Toledo foi o cdlculo do
PIB (Produto Interno
Bruto), referente a 2007.
Os dados mostravam a es-
tagnagqo do Estado, apesar
da crescente exploraqio dos seus re-
cursos naturais. 0 primeiro document
da administraqdo de Jos6 Raimundo
Trindade, que sucedeu a Peter (ver
Jornal Pessoal n 458), foi um press-
release em tom otimista.
A mat6ria promete que "o saldo po-
sitivo na geraqao de empregos, regis-
trado no ano passado, deve se expan-
dir em 2010". E o que a Diretoria de
Pesquisas e Estudos Socioecon6micos
do Idesp projeta, "considerando como
parametro a projeqao de crescimento
econ6mico do PIB brasileiro em torno
de 4,5% a 5%". Mas os numeros "de-
verao ser mais expressivos em fungdo
dos investimentos em infra-estrutura e
de apoio aos stores produtivos". Gra-
9as ao prosseguimento das political do
Estado para gerar "elevados nfveis de
postos de trabalho", diz o director de pes-
quisas do Idesp, Cassiano Ribeiro.
Para ele, em 2009 o Pari "obteve um
bom resultado na manutengqo e criaqdo
de empregos, mesmo com o cendrio de
crise mundial iniciado no segundo semes-
tre de 2008". Graqas nao s6 As medidas
adotadas pelo governor federal, que re-
duziu as alfquotas dos principals impos-
tos para estimular-os stores produtivos,
e investiu pesado, sobretudo na area de
infra-estrutura, atrav6s do PAC (Progra-
ma de Aceleraqao do Crescimento),
como aos programs estaduais. Dentre
eles o director destacou o "Acgo Metr6-
pole" e os investimentos em inclusao tec-
nol6gica. Tamb6m fez refer8ncia ao Pro-
grama Bolsa-Trabalho, "responsivel pela
inserg~o de jovens profissionais no mer-
cado de trabalho, visto que esta faixa
etiria encontra maior dificuldade na ob-
tenqao do emprego".
Pelo tom dessa primeira manifesta-
qAo, o Idesp voltou a ser um 6rgdo do
governor, distanciando-se da sociedade.







Oficio dejornalista e a roda quadrada


Antes da exigencia, criada em 1969
pela Junta Militar, de que s6 poderia
exercer a profissao de jornalista o por-
tador de diploma do curso superior de
comunicacqo social, a admissdo As re-
dagoes dependia da qualificagdo do pre-
tendente. Algumas vezes a qualidade
era de quem o indicava, mas mesmo corn
a acqo desse "pistoldo", certos candi-
datos foram aprovados porque revela-
ram aptiddo para o "m6tier". Na maio-
ria das vezes, porem, o teste era prati-
co e sumdrio: mal manifestava o seu
desejo, o aspirante a jornalista era logo
despachado para cumprir uma tarefa e
do seu desempenho na volta dependia
se ia ou nao ser admitido. 0 compo-
nente vocacional era considerado vital.
A regra era de que jornalistas encrua-
dos de pronto ou pouco depois re-
velavam o que eram.
A principal praga da profissao era o
excess de colaboradores e de jornalis-
tas de expediente. Essas pessoas que-
riam a carteirinha para entrar de graga
em locais de diversao publicar, pagar
metade da passage de aviao, serem
isentos de imposto de renda e obterem
financiamento integral da casa pr6pria.
Por essas benesses, se dispunham a tra-
balhar de graqa e fazer todos os jogos
que os patries lhes propunham, inclusi-
ve sabotar as iniciativas dos verdadei-
ros profissionais por melhores salaries
e condigqes de trabalho.
0 marechal Castelo Branco fez um
grande bem ao jomalismo quando ex-
tinguiu todas essas mordomias,
que serviam apenas para amole-
cer a imprensa e tornm-la mais
negocista, commercial. Claro que
o primeiro president do ciclo do
regime military queria mesmo era
punir os jornalistas pelo desesti-
mulo geral A profissao e porque
medidas draconianas contra os i
critics passaram a ser adotadas.
De qualquer maneira, por6m, a
partir daf a picaretagem diminuiu
bastante nas redaqres.
Pessoas com vocagao, inte-
resse e curiosidade apareciam
constantemente nas redaqges,
que eram seu primeiro destino.
S6 depois iam procurar o sindi-
cato da categoria, para a filiagao,
ou o Minist6rio do Trabalho, para
o registro legal. Muitos grandes


jornalistas jamais fizeram uma ou outra
coisa. Nem por isso deixaram de ser os
profissionais de fato que eram e de
merecer a admiraqao que provocavam.
Havia um fluxo contfnuo, de chegada e
de safda, mas o saldo era positive. Nao
foi por outro motivo que a imprensa
evoluiu admiravelmente durante a IV
Repilblica (de 1946 a 1964).

O monop6lio do diploma,
do eurso de comunicagao
social estancou a vertente
natural de drenagem de
vocag6es para as redaq6es,
aumentou o control oflcial,
induziu a censura e
burocratizou as relag6es
p- issn a s durante 30 anos.
No ano passado o Supremo Tribunal
Federal, escrevendo certo por linhas
tortas (o voto vencedor 6 fraco e nao
incorporou os arguments mais s61lidos
dos que defendiam a volta do Brasil ao
padrdo mundial da profissao de jorna-
lista, que nao exige o diploma, mas o
estimula), acabou corn a reserve de mer-
cado para os graduados em comunica-
9ao social. Qualquer um agora pode ser
jornalista. Basta provar que sabe serjor-
nalista, o que requer curiosidade opera-
tiva, habito de leitura, capacidade de
descobrir fatos, de former fontes e de
escrever com clareza e objetividade. E
uma qualidade que tem sido despreza-
da ou ignorada: o compromisso de re-
passar as informaq6es A sociedade, so-


bretudo aquelas informacges que influ-
em sobre as decisoes do dia a dia.
Os sindicatos e demais 6rgaos cor-
porativos se mobilizaram para colocar
uma nova lei de imprensa no lugar da-
quela, de 1967, que o Supremo decla-
rou inconstitucional. 0 projeto dessa
nova lei, marcada pelo rango autoritdrio
dos patrons da liberdade de imprensa
(sempre dispostos a suprimi-la quando
assume o poder), esta tramitando no
Congress Nacional. Mesmo se apro-
vada, podera ser posta abaixo por um
questionamento ao STF. Se a corte
mantiver o entendimento estabelecido,
revogara o novo diploma legal. Enquanto
isso, a pretexto de que a decisao do STF
nao 6 auto-aplicavel, as entidades sin-
dicais estao criando um clima de confu-
sdo e inseguranga no pafs.
E certo que a deliberacqo da corte
supreme nao restabeleceu o status
quo ante. As mordomias anteriores
inundaram as redaqces de picaretas e
quintas colunas. Mas ja nessa 6poca
os bons profissionais desfraldaram a
bandeira de restringir ao maximo a fi-
gura do colaborador (que formava o
ex6rcito de reserve de mao-de-obra do
patrao). S6 deveria caber nessa aber-
tura o cidadao que realmente podia
contribuir com mat6ria da sua especi-
alidade para o conhecimento coletivo,
com participagdo epis6dica e paga.
Todos os demais tinham que se enqua-
drar nas normas da redaqgo.
Hoje, o fator de atraqdo de novos
jornalistas, que fazem inchar a
dispute por uma vaga nos cur-
sos de comunicaqdo social, 6 a
aspiraqdo a se tornar celebrida-
de de prefer8ncia, instantAnea
ou rapida. E mais ainda: corn o
minimo risco possivel. 0 novo
professional dotado de diploma,
com as exceqoes de praxe, dos
neojacobinos, se amolda muito
mais facilmente As circunstan-
cias e restriqoes para poder es-
calar com velocidade a carrei-
ra. Evita arestas, conflitos e ris-
cos, embora procure manter
seus principios em tese. A
fama pode ser produto do aca-
so e da circunstancia. A exclu-
sao e a estigmatizagao resultam
de erro cometido.
CONCLUI NA PAG 6


FEVEREIRO DE 2010 29 QUINZENA Journal Pessoal 5







CONCLUSAODA PIAe 5
Mesmo com esse novo fator, que
apenas se insinuava quando a terrfvel
Junta Militar p6s-AI-5 impOs o diploma,
ndo ha motivo para alarme. Com regis-
tro no Minist6rio do Trabalho ou filiagdo
a um sindicato, o candidate, quando che-
gar A redagao, teri de provar que, corn
ou sem diploma, com ou sem qualquer
dos registros, sabe escrever bem (e ri-
pido), 6 capaz de apurar os fatos de uma
pauta, por mais complex que ela seja,
consegue informaq6es com fontes con-
fiiveis e bem supridas, gosta de manter
a opinido pdblica atualizada, mant6m-se
ao corrente dos acontecimentos e se re-
aliza fazendo jornalismo. Aos sindicatos
cabe a tarefa de se manterem vigilantes
para nWo permitir que aproveitadores
penetrem nas empresas jornalisticas sob
a figure de colaboradores e cumprir as
demais obrigag6es estatutarias, que ji
existiam antes de 1969.
A filiaqao ao sindicato tern que ser
deferida, assim como o registro no Mi-
nist6rio do Trabalho, conforme ajustiga
foi chamada a exigir pelos interessados.
Isso nao significa que o portador des-
ses pap6is tera garantida a sua condi-
9qo de jornalista. Se ele nao exercer a
profissdo, o sindicato pode excluf-lo,
como permit a legislagao, e solicitar ao
Minist6rio do Trabalho o cancelamento
do registro, ji que o cidadao nao 6 jor-
nalista professional. Como a pr6pria ex-
pressao nao deixa diivida, nao existe
jornalista amador. Para manter os re-
gistros, a pessoa precisa se profissiona-
lizar. Se nao trabalha, nao 6 profissio-
nal. Logo, seu titulo 6 irregular. Deve ir
cantar em outra freguesia.
A exceqao 6 a figure do colabora-
dor, mas sua caracterizagao legal pos-
sibilita aos sindicatos limitar o contin-
gente de colaboradores de cada em-
presa, fiscalizar se o que eles fazem
se enquadra na norma e exigir que se-
jam remunerados. Todo aquele que
nao tender as exigencias, sera ex-
cluido. Era mais ou menos assim no
Brasil e no mundo quando os donos do
poder, no period mais negro da hist6-
ria republican brasileira, decidiram,
pela primeira vez na hist6ria mundial,
que devia ser diferente. Essa roda nas-
ceu quadrada e nao hi malabarismo
que a ajeite. Melhor voltar A roda re-
donda, para abusar da redundancia e,
assim, caracterizar o mal-entendido
dessa hist6ria surrealista, que ji devia
ter tido um ponto final.


A viol i no mp
A vmolenexa no camp


Cinco anos depois do fato, comple-
tados no dia 12, nao se pode dizer que o
assassinate da missiondria americana
Dorothy Stang deva ser incluido entire
os numerosos casos de impunidade pela
prAtica de crimes no violent e conflitu-
oso meio rural amaz6nico. Os dois pis-
toleiros que participaram da execugdo
da religiosa foram condenados e cum-
prem suas penas na prisao. Os dois
mandantes do assassinate estdo sendo
processados e irio ajulgamento. t certo
que um deles, Regivaldo Pereira Gal-
vao, continue em liberdade e ainda nem
foi julgado. 0 outro, Vitalmiro Bastos
de Moura, foi condenado a 30 anos de
prisao, pena surpreendentemente anu-
lada no juri seguinte, mas agora espe-
ra novo julgamento preso, com a pers-
pectiva de receber condenacgo pesa-
da. 0 "caso Dorothy", portanto, 6 uma
excegRo em favor da lei, do direito e
da justiga. Justamente por isso, pode
nao provocar grandes modificag6es no
panorama dominant: matar 6 muito
ficil na Amazonia; mais ficil ainda
porque a punicgo do crime nao 6 a re-
gra, mas a excegao.
Mesmo uma excegao, como a mo-
vimentagqo mais acelerada e atenta da
engrenagem do judiciario para
impedir que os participants
do assassinate da irma Doro-
thy ficassem impunes, nao de-
sarticula nem inibe a estrutu-
ra que funciona como um con-
s6rcio da morte. 0 pistoleiro
que matou a freira e os seus .;
dois companheiros de "servi-
go" nao s6 confessaram suas
participag6es no delito como
sequer recorreram das con-
denag6es recebidas. Agiram
assim por arrependimento e
constrangimento moral?
Claro que nao: provavel-
mente receberam compensa-
g6es (para si e seus depen-
dentes) pelos anos de cadeia
que tomarao, com os beneff-
cios de reduqao de pena pre-
vistos na legislacao. Podem
cumprir em regime fechado
s6 um tergo da condenagao e
voltar para suas atividades
como se, nesse period, esti-
vessem trabalhando e garan-
tindo o sustento da famflia.


Talvez at6 corn um capital adicional para
iniciar algum neg6cio.
Os dois mandantes, que recorreram,
podem contar corn uma das principals
falhas da legislaqio penal brasileira: c
excess de recursos e de incidents na
instruqgo processual, que, em alguns
casos (e tanto no penal quanto no cf-
vel), fazem do trAnsito definitive emjul-
gado de uma aqgo raridade nos anais
forenses. Mas considere-se que a es-
pada da senhora caolha caia com forqa
sobre os costados dos fazendeiros que
encomendaram a morte da missionAria,
fazendo-os mofar na cadeia (embora
por um terqo da pena). Quem garante
que outras pessoas prejudicadas por al-
gu6m como Dorothy Stang nao repetiri
o procedimento de atalhar as divergdn-
cias pela eliminaqao fisica do persona-
gem inc6modo? Matar continue send
neg6cio rendoso e de risco moderadc
(quando nao totalmente sem risco) na
regido. Daf a existencia de um ample
mercado de pistoleiros de aluguel.
A viol8ncia incontrolada nas frentes
pioneiras da regiao tem uma causa, que
foi dita com todas as letras pelo quatro
governor do ciclo do regime military inici-
ado em 1964, no II Plano de Desenvol-


6 Jornal Pessoal FEVEREIRO DE 2010 2 QUINZENA







na motiva ao sem fim


vimento da Amaz6nia (1975-1979). 0
modelo econ6mico imposto A Amaz6-
nia nao 6 end6geno, gerado a partir de
dentro: ele atende necessidades exteri-
ores A regiAo, que muitas vezes desco-
nhecem tanto sua hist6ria quanto sua
geografia, o home e a natureza. Por
isso gera um desenvolvimento desequi-
librado, que engendra o caos, o conflito,
a viol8ncia, em fungdo da despropor-
gqo de meios entire os personagens que
atuam no process. Daf a formagdo de
potentados locals, como os que manda-
ram matar Dorothy ou Chico Mendes,
e o exercicio do poder atrav6s de mei-
os violentos.
Fazendo essa afirmativa a frio, qua-
se com cinismo, os redatores do II PDA
tratavam de garantir tamb6m que esse
desequilibrio seria corrigido pela inter-
venqao do poder piblico. Coerente corn
sua visao geopolftica e a 16gica da sua
estrutura, o governor se colocava em
posiqgo de comando em relagao As fren-
tes particulares, como o avalista (e mes-
mo o financista) das transformaq6es
que a incorporacgo do espago amaz6-
nico provocava. S6 que do discurso A
pritica o process que gerava os dese-
quilibrios passou a preponderar pelos


atos de vontade do gover-
no de corrigi-los.
As distorq6es e contra-
diq6es se multiplicaram,
fugiram ao control do po-
der public, que, por sua
vez, acabou decidindo por
um dos lados, vendo nele
o parceiro prioritario do
desenvolvimento (cada
vez mais desequilibrado,
como nao podia deixar de
ser, com o atrelamento do
governor aos donos do ca-
pital, da tecnologia e dos
recursos naturais).
Pessoas e entidades
de representaqao da so-
ciedade civil se perfila-
ram com os marginaliza-
dos e exclufdos, umas
oferecendo-lhes meios
t6cnicos de suporte, ou-
tras os alimentando de
valores simb61licos es-
tas, com um component
voluntarioso dominant,
formado por valores mo-


rais, 6ticos, religiosos e mfticos. Des-
te tipo eram Chico Mendes, em me-
nor escala, e irma Dorothy, em senti-
do mais amplo. Eles nao manejavam
um modo de desenvolver a Amaz6nia
completamente alternative ao impe-
rante, mas queriam tentar.
Se tivessem tido todo apoio official
nessas experi8ncias, talvez chegassem
A conclusdo de estar errados ou ver
seus projetos fracassarem. Mas nemr
tiveram o direito de colocar em plena
pritica suas id6ias ou seus desejos.
Arranhando o tecido encerado que jun-
ta o grande empreendimento As dife-
rentes formas de poder pdblico, foram
enquadrados como her6ticos e subver-
sivos, combatidos sem d6 e mortos.
Mesmo se tivessem contado com a
seguranqa e os meios materials que
lhes foram sonegados para agir corn
desenvoltura, nao teriam modificado e
muito menos abalado as estruturas que
os comprimiam, sobretudo as fazendas
de gado e as serrarias. S6 nao hi es-
paqo para a conviv8ncia de experimen-
tos diversos porque os poderosos con-
tinuam a agir como senhores de bara-
9o e cutelo e o governor, como o seu
capitdo do mato.
Mesmo quando o poder pdblico
eventualmente se empenha em corri-
gir os desequilibrios provocados pela
mecAnica do modelo dominant de de-
senvolvimento, o efeito 6 minimizado
ou anulado por uma nova onda que,
vinda de fora, atendendo a demand
externa, 6 despejada em alguma nova
frente pioneira na regiio. No momen-
to em que o Conselho Nacional de Jus-
tiqa se alia ao judicidrio do Pard num
mutirao para apressar e finalizar os jul-
gamentos de todos os processes de
crime no meio rural no Estado, pode-
se prever que esse esforqo positive
perderi sua significa~go intrfnseca pela
avolumaqdo dos novos problems que
irao surgir no campo.
No moment em que terras das re-
gi6es centro-sul, sudeste e sul sdo re-
servadas ao biocombustivel, surge uma
questdo: para onde transferir a criaqao
de gado, a cultural da soja, do milho e
do arroz? A resposta ji esti sendo
dada, nao no plano te6rico, mas na pri-
tica: nos vastos "espagos vazios" da
Amazonia, ontem, como hoje, a lata de
lixo do Brasil.


A maldigao da riqueza
Na ediqao passada, convidei os lei-
tores a refletir sobre as raz6es de um
paradoxo que se consolidou no Pard: a
exploraqao da sua riqueza natural nao
estA resultando em progress. 0 tema
nao 6 propriamente novo nem minha
abordagem 6 exatamente original. Ape-
nas fiz provocag6es concretas a partir
de um convencimento estabelecido en-
tre povos com abundantes recursos na-
turais e entire aqueles que se dedica-
ram a estudi-los para se prevenir para
o mesmo mal: a "maldiqao dos recursos
naturais".
Ningu6m se manifestou de pdblico
sobre o tema, que 6 o mais candente do
Pard dos nossos dias. Mas uma sema-
na depois que a ediqao anterior deste
journal circulou, o New York Times pu-
blicou uma entrevista com Joseph Sti-
glitz capaz de fazer um chamado muito
mais autorizado pela atengqo dos para-
enses. 0 americano Stiglitz foi econo-
mista-chefe do Banco Mundial, ganhou
um Pr8mio Nobel e agora assessora a
Comissio Econ6mica e Social das Na-
q9es Unidas para a Asia.
A entrevista foi provocada pelo re-
lat6rio que ele apresentou sobre Mian-
mar, um dos pauses asiaticos emergen-
tes, que expandiu sua agriculture, mas
nao se desenvolveu, conforme as ex-
pectativas. Isso aconteceu, segundo
Stigliz, porque a maioria dos pauses corn
grande produqdo de recursos naturais
se sai pior do que os que nao produzem
tanto, o que 6 uma ironia, mas tamb6m
6 uma realidade.
Com frequencia, pauses corn gran-
de quantidade de recursos naturais so-
frem corn a valorizagio da taxa de cam-
bio e o resultado 6 que, quando eles ven-
dem os recursos naturais, o valor da
moeda sobe; eles produzem recursos
naturais, mas nenhum emprego. E pos-
sfvel ver isso no mundo onde hi pauses
ricos e pessoas pobres; por isso 6 tao
important gerir os recursos naturais de
um ponto de vista macroecon6mico -
argumentou ele.
Quem explore os seus recursos na-
turais simplesmente exportando-os, ao
inv6s de recrid-los na forma de produ-
tos que contem maior valor, se tornam
vftimas da "maldiqao". Em breve esta-
rao desprovidos desses ativos ffsicos e
empobrecidos. N6s, do Pard, e o Brasil
tamb6m, caminhamos para nos tomar-
mos mais um caso dessa desgraga.


2 29 QUINZENA Jornal Pessoal 7


FEVEREIRO DE 2010














SOCIETY
Armando Pinheiro foi, a rigor, o
primeiro colunista social da imprensa
paraense. Era bem informado e
escrevia corn ironia e humor Foi


ROUBO
A Folha do Norte publicou,
em 1956, um antincio original,
atrav6s do qual uma pessoa
nao identificada chamava a
atengio dos leitores: "Cuida-
do corn a ladra que roubou ou
mandou roubar uns panos in-
timos no quintal da casa n 48,
A Rua Manoel Barata, de si-
bado para domingo. A pes-
soa que descobrir o roubo,
gratifica-se com a importdn-
cia de Cr$ 5.000,00".


PROPAGANDA

Radio lider

Em 1965 o Ibope
comecou a fazer pesquisa
sobre a audidncia das
emissoras de rddio do
Pard. 0 resultado
confirmou a constatadao
do senso comum: a PRC-
5 Rddio Clube do Pard,
"a mais antiga e
comprovadamente a mais
ouvida", ficou na ponta,
com 46,7% da audiencia.
A emissora em segundo
lugar (provavelmente a
Marajoara, dos Didrios
Associados), teve 27%, e
a terceira (talvez a
Guajard), 16,1%. 0
andncio da rddio dos
Proenoa agradecia ao
Amigoo ouvinte" e
prometia "aumentar
ainda mais estes indices
de audiencia, o que
significa que sempre
teremos novidades para
voce".


pioneiro e vanguardista ao mesmo
tempo. Numa das suas colunas
"Sociedade", na Folha do Norte, ele
retratou a elite belenense reunida num
dos lugares da moda de entdo, o Pard
Clube, chamado de Castelinho, numa
analogia muito forgada com o seu
homonimo da praia de Copacabana,
no Rio de Janeiro. Os colundveis, que
hoje se restringem i Assembldia
Paraense, eram mais ecumenicos no
carnaval de 1956. Belim era pequena,
"todos" se conheciam e por isso
Armando Pinheiro pode se permitir um
passeio pelas mesas, piscina e sales
do clube, mexericando em meio a
serpentinas e confetes.


M"


B


I


6 verdade sim I
N68 somos mmno
MUITO mals ou-
vidos


a


de.


quo' pretige' noeaWf
programactes ji,s.
bra diste fatoi fat
M munto tempo,


Quando o "Cadilac" chegou A piscina do
Pard Clube, a animaqdo era contagiante. 0
primeiro que eu vi, com satisfaq~o, foi deci-
didamente o Sr. Fernando de Castro. Sem-
pre de piteira, calmo e "gentleman". 0 se-
gundo foi o jovem senhor Rui Coral, positi-
vamente observador. De senhoritas usando
mai6s de todas as cores. Depois abracei o
Sr. Silvio Braga. Devo dizer que o casal Bra-
ga 6 muito simpitico. Do lado esquerdo ob-
servo certa senhorita muito agitada. A di-
reita, meu estimado amigo Sr. Mario Santi-
ago. A mesa da frente, o sr. e sra. Deusde-
dith Moura Ribeiro, que sao em todas as
reunites "bem" o casal mais sociavel que
eu conheqo. A beira da piscina, o sr. Adal-
berto Marques observando tudo, inclusive
"brotos"... No bar, o sr. Camilo Figueiredo.
Com ufscotas. De bon6 e short o sr. coronel
Athos Botelho, que por sinal esteve de ani-
versario ontem. 0 garqon serviu, durante a
manhi que tinha sol, mai6s, shorts, muisicas
e flertes, mais de 500 gins t6nicas e mais de
uma dezena de refrescos de Melhoral... Entre
outras coisas que nao foi ficil apurar. 0 Sr.
Guiies de Barros foi positivamente o ani-
mador musical da bela manha. Preciso di-
zer que o samba "depois eu digo..." foi exe-
cutado. E que todo mundo danqou. Mas nao
estou envaidecido... A turma mais animada
foi realmente o "petit-bloco" que tinha "ba-
bls" e "nen6ns", com mamadeiras e tudo.
Segundo soube, foi "criaqao" dos casais
Herm6genes Condurd e Joao Teixeira. De-
cididamente formidiveis. Posso dizer que o
casal mais alegre era o sr. e sra. Alberto
Bendahan; o mais carnavalesco Sr. e sra.
de Monteverde; a Srta. Mais aquatica foi
realmente Clea Chady. Record que a sra.
Ula Noronha Santos esteve muito fotogri-
fica, enquanto o sr. Bandeira de Melo dis-
tribufa abraqos e estava decididamente
acompanhado de certa senhorita morena,
cujo nome eu nio digo, com o prop6sito de
deixar certos jovens senhores muito curio-
sos; observe o sr. e sra. Carlos Coelho per-
manentemente romanticos e certa senhori-
ta observando o colunista corn olhares dis-
farqados. Mas eu sou muito vivo... Ia es-
quecendo de dizer que o casal mais conta-
giante era decididamente o sr. e sra. Felipe
Farah Filho. Divertidissimos. Gostei dessa
manha encantadorivel que reuniu na pisci-
na do Pard Clube as mais destacadas figu-
ras de "Bel6m-society".


8 Jornal Pessoal FEVEREIRO DE 2010 2 QUINZENA


Agora,- em pesquisas realizadas polo IBOPE.
nesta cidadt.foram oss sguintes os resultados.
1. -lugar 'Rdio Clube, ;- 46.7.0/.
2. lugar 27.0.7.
W4. lugar 816.4 /.
Outra emoraa ------- 1,8
ITais numefos. oficiais. reoresentam ol
I total de todos os dias Desquiiados, em i
laparelhos de radio ligaaos.. I
ksaim, obrigado, amlgo ouvints. mE ptomtmws aumn.
Itar mal alds ils. indo do autdinei.o quo iigal.
hia qui smpre twlresa novidides giar V.i
'A MAIS ANTIOA
RADID CLUB e PAM A MAIX U *0I4


I


MEMORIA













FOTOGRAFIA

Miss Bangu


BICHO
Era atrav6s da coluna Vo-
zes da Rua que Paulo Mara-
nhdo mais exercia a sua ati-
vidade de reporter, critico e
observador dos costumes lo-
cais. Numa nota publicada
em setembro de 1962 ele
apontava o poder que o jogo
do bicho exercia na 6poca,
sem, no entanto, citar o nome
do "concessionario" podero-
so. Dizia a nota:
"0 Sr. Hilario Ferreira, pro-
prietirio do Guarand Sobe-
rano, estava em d6marches
para vender um autom6vel
de seu uso a firma Pires Car-
neiro pela quantia de 1 mi-
1hao e 800 mil cruzeiros. No
conhecimento do desejo pa-
terno, o filho daquele indus-
trial, Hilario Ferreira Jdnior,
encontrando, a av. Getfilio
Vargas [a Presidente Var-
gas] o concessionario dojogo
do bicho, participou-lhe o
fato, recebendo dele a ofer-


ta de 2 milhoes e 300 mil cru-
zeiros, pagos a vista, pelo
carro. Ultimada a transa~go,
na mesma hora convidou o
vendedor a acompanhi-lo a
sua residencia. E diante dos
olhos arregalados do interes-
sado, exibiu-lhe o cofre su-
perlotado de dinheiro. Era,
explicou ele, o rendimento do
bicho no dia anterior".

PENSOES
Algumas donas de "pen-
s6es bo8mias" de Bel6m su-
biram as longas escadas da
Folha do Norte para se quei-
xar da policia. Como sempre
fizeram, compareciam a De-
legacia de Costumes corn
seus livros de registros para
serem devidamente carim-
bados e pagavam as taxas
cobradas pela policia ("bas-
tante altas"), mas ndo esta-
vam mais recebendo o com-
provante do pagamento. As
madames nao acreditavam


que o delegado Heliomar
Gonqalves soubesse da irre-
gularidade. Por isso decidi-
ram fazer a dentincia pelo
journal para que a autoridade
tomasse "as devidas provi-
d8ncias". Temiam que, sem
qualquer document de qui-
tagdo, no poderiam compro-
var, "quando necessdrio, que
fizeram esse pagamento".

BARULHO
0 Grupo Escolar Floriano
Peixoto atravessou a aveni-
da Nazar6 de um lado para
outro no inicio da d6cada de
20 do seculo passado: saiu
do local onde seria erguido
o edificio Manuel Pinto da
Silva ("o maior do Norte e
Nordeste") e foi instalado
num casarao de dois anda-
res, que o Estado comprou
do famoso Francisco Bolo-
nha. Funcionou durante
meio s6culo at6 que, em
1973, o governor decidiu ex-


Ser Miss Elegante
Bangu era um titulo
cobigado pelas mulheres
bonitas e charmosas de
todo pais. Na versdo de
1956 no Pard a
escolhida por a
"sedutora" Beatriz
Maujs Neves, que
recebeu o "rico premio"
das mdos do prefeito de
Belim, Celso Malcher,
enquanto a segunda
colocada, Margarida
Boneff, observa a cena.
Em seguida, a elegant
Bangu exibe seu traje
vistoso para o pablico,
atento aos detalhes.
Eram os tais anos
dourados.


tingui-lo. A causa principal
seria a poluicao sonora cau-
sada pelo trifego intense de
vefculos no cruzamento da
Nazar6 com a Assis de Vas-
concelos. Como o recuo era
pequeno, o barulho invadia
as salas de aula, prejudican-
do a atividade pedag6gica.
A mesma poluicao tamb6m
iria dar o golpe final no Hos-
pital Juliano Moreira, bem
distant dali, na avenida Al-
mirante Barroso. No lugar
do antigo "Floriano" surgiu
a Casa da Linguagem, em
plena atividade, apesar do
barulho. Talvez ele at6 seja
menor, hoje. Mas a dificul-
dade para a travessia de pe-
destres, que atormentava
(ou vitimava) alunos e pro-
fessores do grupo, sendo
outra causa da sua aposen-
tadoria, 6 a mesma. Ou pior.
Em mat6ria de civilidade,
Bel6m nao evoluiu tanto. Se
6 que evoluiu.


FEVEREIRO DE 2010 2" QUINZENA Journal Pessoal 9


I:DV












PROGROEBO
A carta de Marina Slilva (JP 458) e as
reflexes de Ldcio Flivio (Raz5es do
paradoxo: riqueza sem progress) fa-
zem contraponto coam a noticia da he-
gemonia bancAria dos BRIC (matdria
no mesma edic;o do JP), e me fizeram
lembrar um estudo recent sabre a
globaliza3ao e a armadilha do desen-
volvimento human. Marina sugere
que o problema de Beldm e do Pard 6
humana falta de visio, incompetbn-
cia, corrup;io etc. Ela certamente
tem uma boa parcela de razio. Ldcio,
par sua vez, amplia a escala da anAli-
se ati a "universaliza.io", incorpo-
rando implicitamente o sistema poll-
tico-econ6mico mundlal dentro do
que o Brasil e o Pard tentam encon-
trar seu espago para se desenvolver.
Nossos politicos, empresdrios e
muitos acadAmicos ainda acreditam
que a resposta 6 a verticalizaiao,
mas muito corretamente Ldcio afir-
ma que "Nio podemos seguir a mes-
ma f6rmula porque o mundo mudou".
Nao tern mais espaco para a vertica-
lizacio traditional porque o planet
jd produz um excess de manufatu-
rados, usando rob6s ou mlo-de-obra
barata, conforme a produto e o pals
em question. 0 sistema politico-eco-
n6mico mundial 6 pautado na desi-
gualdade, pois 6 somente assim que
pode haver ricos. Os ricos consomemr
mais; mas, mais important, eles
produzem e comercializam mais -
mais manufaturados, mais alimen-
tos, mais recursos naturals, muito
mais do que as pobres podem consu-
mir porque nao tAmr dinheiro para
comprar. E 6 aqui que se encontra a
armadilha: se jd existe um excess de
produago, como serd poss(vel com-
petir via a verticalizatio traditional?
Muitos pauses nio estio conseguin-
do competir neste mercado globaliza-
do e seu desenvolvimento human
estA estagnado faz tempo. Mais impor-
tante: mesmo dentro de passes, espe-
cialmente os de maior escala geogrifl-
ca, existed regi6es estagnadas, coma,
par exemplo, o Pard. E o mundo nio
parou de mudar. Na dltima media ddca-
da a sociedade globalizada descobriu
que seu sistema polltico-econ6mico
causa mudancas climdticas, que viao
afetar adivinhe especialmente os
mais pobres, mas finalmente todos os
ricos tambdm. Infelizmente o colapso
financeiro-econ6mico de 2008-9 lide-
rado pelos EUA nio foi suficiente para
estimular uma discussion sabre como
mudar o sistema politico-econ6mico
para enfrentar o desafio que n6s cria-
mos para n6s mesmos.
Podemos ver isto no Brasil: antes
do colapso as agrocombustiveis es-
tavam na moda como complement
da reduglo do desmatamento para
mitigar os efeitos das mudancas cli-
mdticas; durante o colapso o petr6-
leo do pr6-sal foi descoberto e os
agrocombustiveis safram da moda e
o Brasil vai mitigar as mudangas cli-
mdticas apenas coam a reducio do
desmatamentol Foi este colapso que
alavancou os bancos do BRIC para seu
atual nlvel de destaque tamb6m, o


que mostra que na essencia nada
mudou e a concorrAncia ferrenha
continue a dominar, trazendo a and-
lise de volta para a armadilha.
Como escapar da armadilha se o
empreendimento human jd 6 Insus-
tentivel? Esta pergunta inc6moda
ajuda entender porque o colapso nio
estimulou discussSes de mudancas,
porque a reunido de Copenhague foi
um fracasso, porque o Forum Social
Mundial nio foi noticia jornallstica
este ano. Ningudm tem boas respos-
tas para a pergunta, muito menos eu.
I evidence que vamos precisar muito
mais visao, competAncia, capacita-
iao e multo menos corrupglo para
escapar da armadilha agora do que
precisAvamos no passado, especial-
mente porque o mundo continue a
mudar cada vez mais rapidamente.
Charles R. Clement
Manaus/AM

POLtTICA
Estava conversando cornm doais ami-
gos meus sabre a polltica paraense e
me deparei cornm doais p61los de orien-
tagio political: um que defendia o PSDB
e o outro o PT. Chegamos a conversar
sabre a venda da Celpa, pordm cada
um dizia informag8es diferentes,
como saber de quanta foi a venda e
onde foi investido o dinheiro. As ve-
zes, no calor das emocoes, as informa-
65es se distorcem. Foi dito na discus-
sio que Almir Gabriel governor o Parn
sozinho e cornm o apoio da TV Liberal e
Ana Julia nio governa sozinha, mas
junto cornm o PMDB de Jader Barbalho
e ainda par cima nio tern o apoio da
mldia (pois As vezes a journal Didrio do
Pard ataca sua aliada conforme seus
interesses). Almir Gabriel realizou va-
rias obras coam beneflcios turisticos
sim, mas nbo cornm objetivos socials.
Entio, como fica na hora de avaliar o
quanta um governor foi born para o
povo, quais as critLrios a considerar?
Par outro lado Ana Julia, do PT, esta
abaixo daquilo que se esperava e das
promessas de campanha eleitoral.
Em seu governor houve reform de al-
gumas escolas e concurso pdblico
para a pollcia military. Acho que em
terms de seguranga, o Estado me-
Ihorou, mas 6 not6rio que existed uma
certa dependAncia, poils seu governor
6 dividido politicamente com Jader
Barbalho. 0 que o governor de Ana Julia
esta fazendo para o social? Sendo um
governor do PT, acho que deve ser
prioridade. Entio pessoalmente,
gosto de discutir political embasado
em dados concretos, que nio envol-
vam a paixio, par isto que estou pe-
dindo este esclarecimento ao senhor
por ser um grande jornalista e um dos
maiores do Brasil. Sera que no fund
todos nso querem mesmo 6 o poder
(como dito no JP) ou tamb6m existed
um interesse em melhorar o Estado,
pols o PT esti mostrando que, de
fato, o que vale 6 o poder.
Leo Keuffer
MINHA RBEPO8TA
Um pouco do resposta 6 sugerida no
artigo de capa. Quanto bs informagoes,
6 precise bused-las, checd-las e analisd-


las antes de former umrn julzo. Almir Ga-
briel contou corn a plena parceria do
grupo Liberal porque o favoreceu coma
nunca antes. 0 "convdnio" Funtelpo/TV
Liberal 4 de uma originalidade e cinis-
mo nauseabundos. No dpoca, as crfticas
do Diario do Pard pesavam pouco por
causa da forga do imperio de comuni-
capfo da famllia Malorana, hoje enfra-
quecido. Mas Ana Jdlla, alim de contor
corn o apolo intermitente do jomal do
deputado Jader Barbalho (essa d a mes-
ma marc do alianga politico PT/
PMDB), tern a total simpatia do grupo
Liberal quando comparece generosa-
mente ao caixa do empresa. Como ne-
nhum dos grupos politicos dominantes
tern um projeto para o Pard, a conquis-
ta do poder e o seu uso privativo sdo as
marcas do politico atual.

IDtIA8
Eu e o Ferraz escrevemos propondo
uma pesquisa, porem achel a Iniciati-
va do leitor de comprar outro exemplar
e distribuir bem pritica. Fiz a minha
part, apesar de virias vezes, par en-
tusiasmo, ter passado o meu journal a
algum amigo e ter que comprar outro.
Lendo uma entrevista no Didrio de
hoje sabre Pilar, a companheira de
Saramago, que fez uma fundagio Sa-
ramago, acho que seus prop6sitos jd
merecem algo do tipo. Entendo o seu
trabalho como apontamentos para
discutir, pensar ou ir no caminho de
um modelo de desenvolvimento raci-
onal, a partir dos valores financeiros,
socials, ambientais e politicos do nos-
so Estado e regibo. Entretanto, creio
que mostrar caminhos, como um go-
verno de vanguard, seja diffcil aos
nossos governantes, que preferem
contentar-se e festejar as migalhas
conseguidas. Pordm a pressio do em-
presariado 6 grande e os movimentos
socials nlo conseguem responder
corn a mesma forga, cornm excegio
do MST. A sua afirmavo no Idesp, de
que a Vale quadruplicou a produaio
prevista no contrato e agora o s6 nos
restam 120 anos de mindrio de ferro
dessa gigantesca jazida.
Enfim, a matdria de um governor
coam planejamento s6rio e estrat6gi-
co 6 dificil e complex, mas sem con-
tribui~es como a sua flea mais distan-
te. N6s, das geraV5es futuras A sua,
nio podemos desperdiqar o seu lega-
do. Por isso que sugerimos algo como
pesquisa, mas jd come considerar
algo complicado. Talvez reuniSes, um
grupo em torno do seu trabalho, uma
fundaco. Vamos continuar pensando.
Marco Antonio Barros


CABTAB/UITB

BRDIVISAO
Abro nesta edioo espago para dar
forma impress a algumas mensa-
gens enviadas ao site deste journal
(www.lucioflaviopinto.com.br) e que
podem ser do interesse do leitor.
Sabre o artigo A redlilsao: urn bern
- Gostaria muito que as paraenses da
capital tivessem a mesma disposi-
1io de trabalhar no interior do seu
Estado como n6s de outros Estados
temos. Estamos nesse fim de mundo
trabalhando e produzindo sem a mi-
nima assistAncia do Estado, seja na
saide, educacgo, seguranqa ou ou-
tros stores. Paois o que produzimos
6 distribuldo fartamente apenas na
regilo metropolitan de Bel6m. Isso
6 just, produzimos e outros ficarem
corn a parte major das benesses da
nossa producio? Compare a produ-
cao da reglio sul e sudeste do Pard
corn a produgio feita na regilo me-
tropolitana de Belem e Ananindeua,
baseada no acal e na peregrina;ao
por bares. 0 povo de Bel4m nlo pos-
sul a coragem de desbravar o interi-
or do seu pr6prio Estado, pois adora
a vida boemla As custas do suor de
nos forateiros de outros estados que
contra todos e tudo geramos rique-
zas para a capital, que distribui de
forma desigual o dinheiro adquirido
corn a nossa producio. Que bom que
se nio sair o estado de Carajds pelo
menos voces, paraenses, nio terlo
mais a riqueza do meu suor, pois irei
embora para o meu estado natal.
Cansei de ser escravo de boemio.
paulofrancis3@hotmall.com

CABIBMA
Sabre o artigo 0 charisma de Lula:
um fator de risco Andlise precisa,
LOcio. Como, alids, sao as tuas an,-
lises. Octavio Pessoa Ferreira
Se hd razzes e temores ante o lulis-
mo onipotente, hi tamb6m o seu con-
traponto. Moro aqui no interior do RS,
e o que ougo diariamente me mostra
a penseveranpa do preconceito ralvo-
so contra o nordestino que nio tern
curso universitirio e que constr6i um
pals de vagabundos cornm as tais bol-
sas. Me pergunto sabre as desdobra-
mentos futures dessa polarizagio
Antonio Carlos
[ancatesi@yahoo.com.br]

ALMIB
Sabre o artigo A carta do rancor -
Jazz aqui Almir Decr6pito Gabriel.
Sdrglo S.


& esti nas bancas e livrarias o segundo
volume da Mem6ria do Cotidiano, a se
gRo mais lida por part dos leitores do Jor-
nal Pessoal. Junto corn o volume anterior, acho
que os dois livros permitem uma visdo mais fntima
e sempre individualizada da hist6ria de Bel6m e do
Pard durante o s6culo XX, sobretudo na sua segun-
da metade. A boa receptividade A primeira iniciativa
reforgou o compromisso de langar uma nova coleta-
nea dos textos, fotos e ilustrag6es do JP. 0 apoio
do amigo Reginaldo Cunha contribuiu para viabili-
zar a empreitada, transformando-a em urn acontecimento de final de ano.


--Jomal Pessoal
Editor: Lucio Flavio Pinto


Diagramag o e ilustraqtes: L. A. de Faria Pinto Contato: Rua Aristides Lobo, 871 CEP: 66.053-020
Fones: (091) 3241-7626 E-mail: fpjor@uol.com.br jomal@amazon.com.br Site: www.jomalpessoal.com.br


10o Jornal Pessoal FEVEREIRO DE 2010 2- QUINZENA


CRIf fIV nilW








Conselho econ6mico


O regime military de 1964 instituiu o
Conselho de Desenvolvimento Econ6-
mico, que deveria incorporar a socieda-
de As decis6es do govemo. Ao assumir
a presid8ncia, com o prop6sito de ser
um despota esclarecido (seu anteces-
sor, o general Garrastazu M6dici, fora
apenas um d6spota), o general Emesto
Geisel acrescentou o social a esse con-
selho. Acabaria se tomando um com-
plemento decorative, mas indicava que
o component social era, pelo menos,
tao important quanto o econ6mico, a
obsessdo de entao do governor.
O conselho de desenvolvimento do
Pard 6 apenas econ6mico, sem levar o
social no titulo. Pelo menos do ponto de
vista da denominaqao, 6 um atraso. Mas
seria apenas um anacronismo formal:
criado em 1991, no segundo mandate
de Jader Barbalho (que prometera go-
vernar em regime de colegiado no pri-
meiro mandato, mas s6 reuniu o conse-
lho que tamb6m era entao social -
uma primeira e tnica vez), o Conselho
de Desenvolvimento Econ6mico foi ex-
tinto dois anos depois que o tucano Al-
mir Gabriel assumiu o governor.


A partir dai, a gestdo do Fundo de
Desenvolvimento do Estado passou a ser
feita em circuit intimo pelos tucanos de
maior plumagem, que nao prestavam con-
tas A sociedade. 0 FDE sempre foi um
fundo mais politico do que propriamente
de desenvolvimento. Em geral, seus re-
cursos sdo pulverizados em pequenas
obras, espraiadas pelo Estado, corn mai-
or intensidade nos redutos de interesse
politico e eleitoral. Mas havia um simu-
lacro de participaqdo, extinto quando tudo
passou a ser acertado em reuniao fe-
chada de notAveis do PSDB.
Na quinzena passada o CDE voltou a
funcionar, depois de 13 anos de hibema-
9qo. Ao dar posse aos novos integrantes
do conselho, a governadora Ana Juilia
Carepa garantiu que agora haveri efeti-
vo control social do FDE, tomando o
conselho um 6rgao estrat6gico para o de-
senvolvimento do Pard. 0 press-release
distribuido pela agencia official de noticias
diz que a sociedade civil constitui a maio-
ria dos integrantes do conselho, tornan-
do-o um 6rgao da sociedade, muito mais
do que do govemo. A proporgco 6 essa:
cinco representantes da sociedade e qua-


tro do governor. Mas a govemadora, que
preside o CDE, pode escolher represen-
tantes sindicais afinados com ela, ao in-
v6s de sindicatos oposicionistas ou inde-
pendentes, como aconteceu. JA os repre-
sentantes das federagoes da inddstria e
do com6rcio t8m verdadeira indepen-
dencia em relagdo ao governor, ou pode
dispor dela quando querem?
Todos os atos do conselho serao pd-
blicos? A publicidade se limitard A co-
municacqo do que foi decidido ou a pau-
ta sumAria das reunites, ou haveri
antincio previos dos projetos a serem
considerados? Os documents estario
acessiveis aos interessados antes das
delibera96es?
Dentre as questoes que serao sub-
metidas ao novo conselho, uma se rela-
ciona corn mudanga substantial no FDE:
seus recursos deixardo de ser a fundo
perdido, como at6 agora. Quem receber
dinheiro teri que remunerar o financia-
mento. Os conselheiros serao chamados
para decidir sobre a taxa de jurors a ser
utilizada. Ndo sei se a pauta incluir6 tam-
bem um regulamento que afaste o FDE
do seu uso eleitoral e clientelista.


Empresario pobre


Durante muitos anos a
imprensa celebrou Olacyr de
Moraes como "o rei da soja"
e como "o mais jovem brasi-
leiro a alcanqar um patrim6-
nio pessoal de um bilhao de
d6lares". De uns tempos
para ci, a situaqdo se inver-
teu. 0 titulo de maior impac-
to que ele recebeu nesse pe-
rfodo recent foi o de moti-
var uma associaqdo de cre-
dores, organizada com um
inico objetivo: cobrar as di-
vidas por ele contraidas jun-
to a pessoas fisicas e juridi-
cas. 0 bilhao de d61lares ini-
cial e muito dinheiro mais
foram dissipados em neg6ci-
os mal feitos, em pioneiris-
mo de alto risco e numa vida
mundana espalhafatosa.
Agora Olacyr estaria se apo-
sentando na pobreza, lamen-
tada numa mat6ria condoida
na revista IstoW Dinheiro.


O empresario foi injusti-
qado e se tornou vitima dos
erros de outros, inclusive do
governor, que nao esteve a
altura do seu empreendedo-
rismo, garante a revista. 0
reporter se admira que ele
nao vi atris de indenizaqao
pelos danos sofridos, o prin-
cipal dos quais devido ao
atraso de sete anos do go-
verno de Sao Paulo no com-
promisso assumido de cons-
truir uma ponte sobre o rio
Parand, vital para a Ferronor-
te, a ferrovia idealizada pelo
empresario, levar carga (so-
bretudo soja) do Centro-Oes-
te para o porto de Santos. 0
investimento de US$ 200
milhres que ele fez se per-
deu e a partir dai se acele-
rou a derrocada.
Graqas ao governor, po-
r6m, a Fazenda Itamaraty,
temple da sojicultura em


Mato Grosso do Sul, foi de-
sapropriada pelo Incra, que
pagou R$ 165 milh6es pelos
24,5 mil hectares de mono-
cultura para assentar tries mil
"parceiros da reform agri-
ria" no que o institute prome-
te vir a ser o mais sofistica-
do dos assentamentos, sem
vencer o ceticismo dos que
nao acreditam na transfor-
maqao de uma plantation
num condomfnio de agricul-
tura familiar. Talvez Olacyr
tamb6m passe em frente os
16% que ainda tern na Fer-
ronorte e faqa caixa sufici-
ente para acabar com a
constrangedora associagqo
de credores que leva o seu
nome e retomar, aos 74 anos,
a boa vida at6 o final dos
seus dias.
As inegiveis virtudes do
empresirio dificilmente lhe
teriam rendido tanto sem a
parceria altamente favorivel
do govemo. Originalmente, a


Ferronorte, aprovada pela Su-
dam, teria o rumo Norte e nao
Leste, a partir do Centro-Oes-
te, como seu pr6prio nome
tautologicamente diz. Ao in-
v6s de servir de eixo pionei-
ro, por6m, ela foi valorizando
terras marginais do pr6prio
Olacyr, possibilitando gran-
des neg6cios imobilidrios.
Tudo ficaria maravilhoso se
pudesse escoar a producqo
de soja do empresario. Mas
nem tudo deu certo. 0 final,
por6m, nao 6


tao sofrido e
duro quanto a
revista o des-
creve. Ola-
cyr ainda
terd mui-
tos mi-
lhWes
c o m
os quais
compen -
sara suas
desditas.


~AY


FEVEREIRO DE 2010 2^ QUINZENA Jornal Pessoal 11


l~b~14 ----d I- id ---- ----- --








Sfator gas


Agua pirateada


Em novembro do ano passa-
do o gas natural extraido da ja-
zida de Urucu comegou a ser
escoado para Manaus atrav6s
de um gasoduto com 660 quil6-
metros de extensao. Em setem-
bro deste ano todas as nove usi-
nas t6rmicas que abastecem a
capital amazonense com 1,5 mil
megawatts de energia deixarao
de queimar 61eos poluentes e
passarao a ser movidas pelo
gas, combustivel muito mais lim-
po e barato. Duas d6cadas de-
pois de ser descoberto, o cam-
po de Urucu se tornard plena-
mente produtivo. Mas ainda es-
tard subutilizado.
Da sua producao, equivalent
a mais de um tergo do que o Bra-
sil importava da Bolivia, no auge
da sua utilizag~o, apenas 40% irao
para as termel6tricas, a produgao
de gas liquefeito e outros peque-
nos usos. A maior parte ainda
continuard a ser reinjetada nos
poqos. Mesmo assim, a viabiliza-
qdo commercial do Urucu provo-
card o mesmo interesse pelo Ju-
rud, descoberto uma d6cada an-
tes, mas que era menos competi-
tivo, por estar 120 quil6metros
mais distant do principal centro
de consumo da regiao, que 6
Manaus. Corn a otimizagco dos
poqos e a agregaqdo dos dois
campos, a Amazonia estari corn
um apreciivel excedente de gas.
Precisa definir corn urg8ncia (e
intelig8ncia) o atendimento de
necessidades atuais e a criaqdo
de novas demands.
Para isso, 6 preciso mudar a
matriz energ6tica regional. 0 gas
do Urucu-Jurua tem condiq6es
de ir al6m da metade ocidental
da Amaz6nia, suprindo Bel6m e
provavelmente os novos empre-
endimentos no vale do Araguaia-
Tocantins, quando foi concluida
a transposiqdo da barragem de
Tucuruf e estabelecida a plena
navegabilidade do Tocantins corn
os servigos de limpeza no seu
leito. A equaqdo energ6tica ndo
pode mais center apenas a hidre-
letricidade: tem que passar a con-
siderar o gas natural, o que nao
esti acontecendo.


Ja seria "assustador" o trifico de agua
doce da Amaz6nia para o exterior. 0 alerta
foi feito no final do ano passado pela revista
juridica Consulex, editada em Sao Paulo (e
repercutida mais de um m8s depois por 0
Liberal). Ela garante que algumas empre-
sas ji praticam com desenvoltura a hidropi-
rataria. S6 um navio teria capacidade de
armazenar 250 milh6es de litros, que uma
empresa da Noruega forneceria para clien-
tes na Gr6cia, o oriented M6dio, Ilha da Ma-
deira e Caribe. Por sair pela metade do cus-
to da dessalinizagdo, o roubo de agua se tor-
nou atraente no com6rcio corn pauses ca-
rentes de agua doce superficial. Tecnologi-
as foram criadas para a retirada da agua e o
seu transport, nao s6 nos poroes dos su-
pergraneleiros, como em balsas de agua,
puxadas por rebocadores convencionais.
A mat6ria da revista 6 rica em detalhes
e conjecturas, mas nao o bastante para con-
vencer sobre o que relata, ecoando dendn-
cias ji numerosas. Claro que o acervo de
agua da Amaz6nia, que represent 68% da
massa de agua doce superficial do Brasil e
de 8% a 25% (conforme as diferentes ava-
liaq6es) do total da Terra, 6 questao trans-
cendental. Exige atengqo, seriedade, prio-
ridade e investimentos. Todos esses elemen-
tos sdo de enorme deficiEncia atualmente.
Nao permitem um conhecimento adequa-
do sobre os recursos hidricos da regido. 0
interesse mundial cresce numa velocidade
muito superior A da atengqo national e
nao 6 por acaso. Estima-se que 1,5 bilhdo
de series humans ji nao disponham de agua
suficiente para suas necessidades essenci-
ais. Vdo precisar resolver esse problema
de alguma maneira.
Mesmo as dentincias mais detalhadas,


como a da Consulex, por6m,


Livro did tico
0 governor federal gasta-
ri neste ano 600 milhoes de
reais para comprar 10 mi-
lhoes de livros didAticos e
paradidAticos -que serao dis-
tribuidos nas escolas pdblicas
brasileiras. Quase R$ 90 mi-
lhWes adicionais serio usados
para fazer esses livros che-
garem as escolas. E o maior
neg6cio do mercado livrei-
ro. A m6dia, de R$ 60 por
exemplar, 6 altissima, con-
siderando a quantidade de
volumes adquiridos. E um


ainda se re-


velam especulativas. Devem servir de alerta
porque o problema ainda nao existe, mas
logo estard constitufdo. At6 agora, nao hi
nenhum caso comprovado de roubo de agua
amaz6nica em territ6rio national, incluindo
o mar de 200 milhas. Os grandes navios
(1.200 por ano) entram na regiao em busca
de outros recursos naturais, principalmente
mindrios e madeira. Nao tem espago nem
tonelagem para acumular agua e em
escala commercial.
A tnica area que poderia proporcionar
essa pirataria 6 a foz do rio Amazonas. Nao
hi qualquer caso concrete de um superpe-
troleiro que tenha estacionado nesse local
para se abastecer de um volume como os
250 milh6es de litros citados. Pode parecer
muito, mas 6 menos de meio segundo de
agua na vazao maxima que o rio Tocantins
alcangou na barragem de Tucuruf, em 1980.
Nao parece um grande neg6cio, capaz de
justificar o investimento e o risco, ainda que
o patrulhamento da costa amaz6nica seja
deficiente (o que induziu a criagao da nova
esquadra da Marinha, prevista para ter sua
sede em Sao Lufs do Maranhao).
Se nao 6 para nos roubar agua potivel
(corn volumosa quantidade de s6lidos em sus-
pensdo na foz do Amazonas), entAo essa pi-
rataria seria para recolher agua rica em nutri-
entes para algum objetivo ainda nao identifi-
cado. Por enquanto, considerando o que se
sabe sobre o que a agua do Amazonas con-
t6m, nao di nem para supor qual seria esse
prop6sito oculto ou misterioso. 0 campo ain-
da esti aberto A imaginaqgo e A especulaqao.
Para delimiti-lo, a melhor attitude 6, sem dei-
xar de se manter atento, investor no conheci-
mento dos nacionais sobre sua pr6pria rique-
za, ao inv6s de ir atris do bloco da conspira-
9ao e da fantasmagoria. Ao meio-dia.


valor menor do que os pre-
gos extorsivos que os alunos
da rede privada de ensino
precisam pagar por livros su-
perfaturados, mas 6 um nd-
mero de impressionar.
0 governor nao s6 podia
forgar uma queda de prego
como impor sua escala de
aquisiqao como parametro
para a fixaqao de um valor
para todos, inclusive os alu-
nos de escolas privadas. Um
pafs s6rio nao pode tolerar
os pregos cobrados por li-
vros diditicos no Brasil. Se


nao hi desvios pelo caminho
da honestidade e do padrao
do serviqo, 6 precise modifi-
car essa political. Tanto em
relaqao aos preqos como aos
livros que compoem o Pro-
grama Nacional Biblioteca
Escola. Seu acervo deve ser
mais pluralista e as indica-
9qes devem passar por um
conselho mais amplo para
que se verifique se realmen-
te essa generosa distribuiqao
de livros fomenta mesmo o
hibito da leitura ou apenas o
mercado de livros.


~P-~--~r~ ~ C~ --- ----e -~-- I~IIC~--~"-LIII~srr -~C --IP