Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00338

Full Text


FEVEREIRO
DE 2010
laQUINZENA



A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO


IDESP



Qual future?


Menos de dois anos depois de ter sido recriado, o Idesp atravessa nova crise,

compardvel a que levou a sua extingdo subita e violent, em 1999.

Os petistas podem repetir o erro dos tucanos, que antes condenavam:

submeter a pesquisa a political, sufocando a verdade.


Wos6 Raimundo Trindade assumiu
a direqgo do Idesp (Instituto de
Desenvolvimento Econ6mico,
Social e Ambiental do Pard), no dia 26
de janeiro, cor uma proposta inovado-
ra e at6 mesmo audaciosa: depois da
solenidade formal de posse, abriu o pri-
meiro didlogo cor a sociedade sobre o
tema de trabalho da instituig5o, o de-
senvolvimento. Convidou para inaugu-
rarem a prometida s6rie um legitimo
representante da academia, o economis-
ta Francisco de Assis Costa, com largo
e intense curriculo de estudos sobre a
Amaz6nia e o Pard, e a mim, como


acompanhante cotidiano da hist6ria da
regido e critico dos governor, inclusive
o do PT, do qual ele faz parte.
Lamentei que o didlogo nao tenha
sido estabelecido com o president an-
terior do Idesp, Peter Mann de Toledo.
Ele foi um inc6modo ausente na soleni-
dade, que consistiu em posse, mas nao
em passage de cargo, como teria que
ser se houvesse harmonia ou pelo me-
nos entendimento entire quem sai e quem
entra. Daf todas as especulaq6es, inclu-
sive na imprensa, de que algum estudo
recent do Idesp (como sobre o PIB,
que confirmou o atraso do Estado) te-


nha desagradado ao governor. Ou sim-
plesmente que o 6rgdo tamb6m foi en-
gajado na campanha pela reeleicgo de
Ana Julia Carepa, para ser "instrumen-
talizado", como se diz no meio politico.
A iniciativa democritica pelo didlogo
seria apenas fogo de artiffcio para es-
conder o que vira depois.
O secretirio de governor, Edilson
Rodrigues de Sousa, tratou logo de des-
mentir as insinuaq6es e o novo presi-
dente assegurou suas convicq6es plu-
ralistas e o compromisso de trabalhar a
s6rio, em favor do melhor planejamento
COIVTIrJA NA PASe


IPtR1 A MINORIA DO PT


N 458
ANO XXIII
R$ 3,00


PARA: RICO E POBRE


- -`'~- -


I iG4





CONTINUA PAO DACAPA
das political pdblicas. Suas palavras
foram acatadas e ressaltadas, mas 6 a
pritica que as confirmard ou desmenti-
rd. Nem haveria especulaqgo, ou ela
logo se revelaria infundada, se a transi-
Fio tivesse sido tao dialogal quanto a
assunqao da nova direqao do Idesp, o
que nao aconteceu.
O pr6prio secretario e outros inte-
grantes do governor declararam de pi-
blico que a mudanca foi motivada por
raz6es political, embora imaginando
faze-las aceitar como Altaa political .
Mas political cor P maidsculo se faz com
bons resultados especificos, de cada
competencia. A do Idesp 6 fazer pes-
quisa e foi justamente cor esse com-
promisso que o paulista Peter Toledo
assumiu a presidencia do institute e se
p6s a trabalhar. Mas nunca contou com
a estrutura minima para former quadros
(por concurso), um orqamento decent
e sede pr6pria, que depend de morosa
obra de restauraqio de um palacete de
valor hist6rico (da famflia Faciola) no
centro da cidade.
Depois de deixar a direcao do Mu-
seu Emilio Goeldi, fazendo de sua vice-
diretora, Ima Vieira, sua sucessora (e
ela tamb6m conseguir a aprovaqao do
nome que indicou, Nelson Gabas Jr.), e
de uma carreira como pesquisador do
Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais), Peter nao se enquadrou no
modelo que parece ter sido imaginado
pelo dito "n6cleo duro" da administra-
gao estadual. Foi tratado a pao e igua,
fritado e, quando, ainda assim, resistiu
a pedir sua demissao, demitido corn
detalhes que nao honram quem o afas-
tou do cargo (incluindo a versao de que
o ato foi conseqiiencia de iniciativa do
pr6prio Peter, que meses antes, quando
a mae ficou gravemente doente e mor-
reu, pedira seu afastamento, mas deci-
diu prosseguir, consumada a perda fa-
miliar). O desfecho dessa 6pera bufa
foi bizarro.
Tornou-se inevitivel comparar o fi-
nal do Idesp, em 1999, sob o tucano
Almir Gabriel, com o seu renascimen-
to, em 2008. Quando Afonso Cher-
mont, o entao director, chegou a sede
do institute para comegar seu traba-
Iho, soube, pelo Didrio Oficial, que es-
tava demitido e o primeiro 6rgao es-
tadual de planejamento do pafs, criado
em 1966, extinto. Franz Kafka nao te-
ria imaginado situaqao mais surreal.
Como na metamorfose kafkiana do in-


seto, Afonso se viu transformado subi-
tamente em nada. E como 6 que o sd-
bito nada podia se entender corn seus
interlocutores da v6spera, inclusive os
que, naquele mesmo moment, aplica-
vam recursos seus no Idesp, imaginan-
do que a ciencia 6 feita sob um terreno
mais s6lido, insuscetivel a mudanca de
humores do chefe do governor?
A decisao de extinguir o institute foi
tao avassaladora que nao deu nem tem-
po para as formalidades e gentilezas: foi
uma autintica intervengao cirurgica -
de emerg6ncia e, por isso, a frio, corn
todo trauma decorrente desse m6todo.
O 6rgao nao estava sendo punido por
suas falhas ou lacunas evidentes, mas
justamente por ainda conseguir cumprir
uma das suas funq6es: fornecer infor-
maqoes A sociedade. No caso da su-
cumb8ncia idespiana, estatisticas que
revelavam a incapacidade do governor
de cumprir um dos seus compromissos
de campanha, apresentado em 1996, e
a ser renovado em 2000: criar 400 mil
novos empregos no Estado. Pelo con-
tririo, o saldo era negative.

Ao invs de mudar
a realidade, o mais facil e
tentador e esconde-la.
Assim, mais uma vez o
mensageiro das mas
noticias foi sacrificado pelo
destinatario furioso e comn
poder de causar a morte.
Com um golpe de bisturi, o governador-
m6dico Almir Gabriel eliminou a criatu-
ra que nao se acomodava ao seu modo
autoritirio de comandar a miquina pi-
blica estadual. Na posse de Jos6 Rai-
mundo, o secretTrio de governor admitiu
a hist6ria como hip6tese, como lenda.
Mas os fatos ainda sao muito recentes
e estao minuciosamente documentados
nas ediqges deste journal da 6poca para
que ji possam ser abrangidos pelo vas-
to manto brumoso da mitologia.


7'


Tamb6m deviam ser consideradas
mitol6gicas as interpretag6es sobre uma
nova sangio aplicada ao Idesp justamen-
te pelo governor que o ressuscitou, tam-
b6m insatisfeito em conviver corn uma
parte do seu corpo que nao se confor-
mava ao todo, a ordem unida imposta
sobre a totalidade do governor para a
tarefa nada facil, mas tamb6m nada
impossivel de garantir a continuidade
de Ana Jdlia. A se confirmar esse en-
tendimento, sera mais uma ironia da his-
t6ria: os petistas repetem os tucanos nas
priticas que antes condenavam.
Os discursos da "refundaqao" do
Idesp em 2008 tocaram em dois pontos
nevralgicos que ocasionaram sua mor-
te e sao vitais para a sua perenidade.
Na ocasiao, a governadora, que coman-
dou pessoalmente a solenidade, disse
que o PT encontrou o governor sem in-
formaq6es. As decis6es eram tomadas
A base do conhecimento empirico. Mas
que, a partir daquele moment, o Idesp
seria um 6rgao mais da sociedade do
que do governor.
Se fosse assim, nao teria sido neces-
sario demitir o dirigente do 6rgao, afas-
tado por raz6es political e nao adminis-
trativas, t6cnicas ou cientificas. Se fos-
se a boa political, a transiqao teria sido
pacifica, normal. A governadora teria
feito questao de estar present ao ato
de demissao, seguido da posse, diante
do p6blico. O chefe da Casa Civil, Cliu-
dio Puty, o personagem mais citado nas
conversas de bastidores, como o arti-
culador da troca, compareceria para
negar a veracidade das verses, abra-
gar o ex-colega de governor, prestigiar
o novo cargo assumido pelo ex-secre-
tirio da Fazenda e afastar as maledi-
cencias sobre seu jeito maquiav6lico de
agir para se eleger deputado federal,
fortalecendo sua vertente political.
Dois anos depois, o cidadao que de-
via estar A frente dessa trajet6ria foi
colocado de lado, sem qualquer expli-
cacao pdblica, e outro cidadao posto em
seu lugar, com a reiteraqio dos com-
promissos, que ja deviam ter se materi-
alizado, mas que travaram na falta de
apoio superior e se desviaram para ca-
minhos invios pelas barreiras colocadas
no caminho. A abertura do diilogo foi
important, mas nao faz a remissao do
erro nem 6 garantia do acerto. Agora,
mais do que falar, 6 precise fazer e o
que 6 tamb6m ir6nico: nao o que foi fei-
to recentemente, at6 criar a mais nova
crise no Idesp.


2 Jornal Pessoal FEVEREIRO DE 2010 1- QUINZENA









No dia 2 de janeiro de 2007, o socidlogo
Eduardo Lauande anunciou em seu blog,
com o titulo "Puty e o Idesp": o institute
seria recriado pelo governor do PT que
assumira na vispera. A novidade levaria
15 meses para se materializar. Quando,
finalmente, houve a solenidade de
reinstalagdo do Idesp, em abril de 2008,
as previsoes otimistas ndo se
confirmaram. Ao contrdrio, o institute
seguiu pelo caminho de Damasco,
tentando vencer as dificuldades.
Inclusive a da sede prdprio, que Ihe foi
usurpada. Decidi reproduzir a nota do
entdo blogueiro e alguns dos
comentdrios que provocou, por se ter
tornado um document hist6rico, que
honra a mem6ria do autor, sempre
generoso e otimista, e porque espelha a
realidade promissora de entdo; e a
contrast com a situagdo de hoje.
Escreveu Lauande:

St6 hoje eu lembro o saudoso (e pri -
mim sociol6gico) Instituto de De-
Msenvolvimento Econ6mico e Social
do Pard. O prodigioso IDESP. E de 16 eu lem-
bro duas pessoas: da minha mestra de meto-
dologia Violeta Loureiro e o sempre sdbio Cri-
somar Lobato. Nunca acreditei, sinceramen-
te, que o Almir Gabriel fez o que fez corn o
IDESP. S6 que hoje converse cor meu amigo
ClAudio Puty: "Lauande, s6 sou secretirio
porque tenho a promessa da governadora que
eu poderia resgatar IDESP". Confesso que na
hora lembrei do meu amigo L6cio Fldvio Pin-
to. Que boa noticia, hein, Ldcio?!!!
Alguns dos comentdrios:
Fernando Moraes Lauande, a volta do
IDESP 6 uma pauta que a intersindical dos
servidores pdblicos levantou junto ao go-
vemo na transigio. A promessa foi realiza-
da em reunido cor as lideranqas sindicais.
Para o conjunto dos sindicatos 6 fundamen-
tal a volta do Idesp, por ter sido um 6rgao
fundamental para conhecermos a real "radi-
ografia" do Estado, fato que Almir Gabriel
nao tinha interesse que a populaaio para-
ense tivesse conhecimento. Esperamos que
realmente o Estado volte a informar a popu-
la~ao suas reais condiq6es de desenvolvi-
mento, 6 uma acao de democratizaqio e
transparancia administrative.

Francisco Rocha Jinior Realmente, a
iddia 6 muito boa. Para destacar a import-n-
cia do Idesp, basta lembrar que boa parte
dos mais importantes membros do governor
anterior advinha do Instituto, inclusive o
ex-governador Simdo Jatene.
Ainda que nao concorde com as prdticas
e id6ias do grupo de Jatene, 6 impossivel ne-
gar a importancia que o antigo Idesp teve em
suaformaco como administradores pdblicos.


Newton Pereira A melhor noticia do
ano, a volta do Idesp o Pard agradece.

EdyrAugusto Que boa noticia!

Zilia Realmente 6 boa noticia. AAna
Julia comeqou bem...

Hilio Silva (Cameti) Esse Puty jd en-
trou pra hist6ria e essa 6 a melhor noticia de
comeeo de ano.

AnOnimo Prezados, gostaria de convidA-
los, aindaque informalmente, parao lanqamen-
to do comit8 que iri coordenar, em conjunto
com o Govemo do Estado, o process que
culminard na formaqio um institute de pesqui-
sa aplicada do govemo do estado do Pard.
A equipe da Secretaria de Governo do
Estado do Pard, que estd organizando este
event, imagine que possamos construir um
institute que combine a estabilidade neces-
sAria A produdio de dados com a flexibilida-
de necessAria A produqao do conhecimento.
A id6ia 6 que a instituidio seja capaz de
produzir um sistema de dados de control
pdblico em dreas que cubram o raio de aqgo
das miiltiplas instancias do govero. Desta
forma, seria um institute mais amplo e, es-
pero, mais agil, do que aquele que o prece-
deu. A ver. At6 breve. Claudio Puty.
Data: 10/01/2007 (pr6xima quarta)
Local: Audit6rio do Centro Integrado de
Governo (antigo IDESP)
Hora: 19:00hs

Samuel Almeida Uma noticia real-
mente important neste inicio de s6culo
XXI. Imperioso resgatar a missio hist6ri-
ca do Idesp 6 bom que diga, criado na
gestao do coronel Alacid Nunes at6 hoje
a descoberto porque os dados do IBGE
sao produzidos numa escala que muitas
vezes nao permit "visualizar" as deman-
das sociais. Agregar tamb6m um centro
de estudos aplicados e estrat6gicos para
o desenvolvimento do Estado e o bem-
estar de sua populaqio. Grande id6ia, es-
tarei 1i. Com isso resgata-se tamb6m a
dignidade de um grande nimero de t6cni-
cos abnegados e competentes do extinto
Idesp, jogados ao limbo e A disponibili-
dade pela arrogancia do chefe e a omis-
sao de alguns tucanos, como o pr6prio
Jatene, S6rgio Leio e outros egressos,
que tiveram de baixar a crista e calar para
nao desagradar o chefete!
Sem informaqio confiavel como plane-
jar e proper medidas estratdgicas num Esta-
do como o Pard, com enormes desafios de
desenvolvimento sustentado pela frente,
hoje um enorme almoxarifado de recursos
naturais a procura de political pdblicas que
possam dinamizar a economic. Comeea bem
o govemo Ana Julia.


Palavras & Promessas


FEVEREIRO DE 2010 11 QUINZENA Journal Pessoal 3


Hegemonia

Depois do fluxo de commodities, h mais
um elo entire a China eo Brasil, al6m de inte-
grarem os Brics, os paises emergentes,jun-
to comr a ndia e Russia: o sistema financei-
ro. Dos 10 bancos mais valorizados do mun-
do, segundo o levantamento da agencia
especializada norte-americana Bloomberg,
quatroso o chineses, que ocupam todas as
primeiras posic6es, e trds sio brasileiros: o
Itau Unibanco em quinto (com valor de
mercado 3,1 vezes maior do que o seu patri-
mrnio), o Bradesco em 70 (valorizado 2,7
vezes mais do que o patrimnio) e o Banco
do Brasil em 9 (2,5 vezes). 0 primeiro ban-
co americano do ranking, o US Bancorp, s6
aparece em 15 lugar. A hegemonia dos Es-
tados Unidos acabou no alto da pirsmide.
Nao hi desempenho de Bolsa Famnlia,
PAC e quetais a ombrear com esses essul-
tados, que revelam as entranhas do que
vai pelo pais.







Quem tem forga


para usar na eleigao


A Democracia Socialista 6 tendencia ide-
ol6gica (ainda?) minoritAria dentro do Par-
tido dos Trabalhadores em todo pais. Mas
conseguiu conquistar o govero de um dos
cinco Estados nos quais o PT se saiu vito-
rioso na eleiqio de 2006 (menos de 20% das
unidades da federaq~o), impedindo a quar-
ta vit6ria seguida do PSDB, a terceira tenta-
tiva do ex-governador Almir Gabriel. Quem
nao fosse al6m desse ndmero concluiria que
a DS conseguira faganha semelhante A dos
bolcheviques: embora minoritdrios, eles
sairam da crise que levou A revoluq~o russa
de 1917 como os donos do poder. Os bol-
cheviques, a parte todos os seus graves
erros e crimes, constituiram um dos mais
brilhantes grupamentos intelectuais de to-
dos os tempos, em qualquer lugar.
A comparaqao deve ser sedutora, mas 6
oca de contetido. Se dependesse dela mes-
mo, a senadora Ana Julia Carepa nao seria
candidate ao govemo do Estado. Rarissimos
acreditavam que ela podia veneer a mdquina
tucana (que, em tese, ia ser colocada por Si-
mdo Jatene a serviqo da volta de Almir,
o que acabou nao acontecendo, ao me-
nos corn a 8nfase das eleiqoes de 1998 e
2002). Jader Barbalho precisava acredi-
tar que sim. Lula tamb6m. O objetivo de
ambos era veneer o PSDB, intruso no
esquema populist que precisava ser manti-
do (o PMDB teria, em 2006, quase o dobro de
governor estaduais: 9).
O deputado federal peemedebista ofe-
receu ao president petista um esquema que
podia dar certo: colocar Ana Jdlia no 20 tur-
no, quando seria plenamente viavel abater
o tucano, em v6o desastrado, usando como
ponte uma candidatura auxiliar (que quase
cresce al6m de todas as expectativas, a de
Jos6 Priante). Ana Jdlia recebeu o prato fei-
to em Brasilia e, depois de certa relutancia,
o aceitou. E assim se tornou a primeira mu-
lher a governor o Pard, sem curriculo que
permitisse antecipar essa facanha hist6ri-
ca. Ou sustentar sua realizacqo, depois.
Mas a nova governadora acreditou na
forQa que imaginou ter e na versao que seu
grupo passou a criar a partir daf. Como 6 pr6-
prio de vanguardas, reais ou imagindrias, a
DS acreditou na forqa que alardeava, mesmo
nao a possuindo. Depois de tr8s anos de
exercicio do poder estadual, continue a ser
um grupo minorit6rio no PT, na representa-
9qo political e no Estado. Cresceu, 6 bem ver-
dade, e ainda poderd continuar crescendo
at6 a eleigqo de outubro, mas a relagqo cus-
to/beneficio (ou de vantagens comparativas)
pelo uso e abuso da mdquina pdblica 6 infe-
rior A dos tucanos e, antes deles, dos peeme-
debistas. 0 PT tamb6m se tornou fisiol6gi-
co, mas nesse campo ainda estA aprenden-
do, apesar do tom doutoral dos seus lideres.


O problema 6 que o PMDB de Jader Bar-
balho, supostamente aliado, mas, na pritica,
um sapo de dificil deglutiq~o (e vice-versa,
pela 6tica do ex-goverador), que devia ser
abatido, cresceu mais do que o PT e, princi-
palmente, do que a DS. Nio sei se algum
socialista democrdtico" tem consci8ncia
desse fato, mas basta lembrar que, com to-
dos os recursos que a chave do cofre do
tesouro estadual e a caneta que assina os
atos de nomeaqao e demissao proporcionam,
a DS s6 tem um candidate a deputado fede-
ral: 6 o chefe da Casa Civil, Cldudio Puty.
Puty entrou no jogo do poder ao ser no-
meado para integrar o secretariado. At6 en-
tao, seu universe se limitava A academia. De
l contemplava o espetAculo da political como
um observador interessado, mas sem parti-
cipaqao efetiva. O exercicio do maquinismo
official Ihe despertou o desejo de entrar na
roda da fortune. A pretensao 6 natural e deve
ser encorajada, mas Puty almeja muito mais
votos do que poderia alcancar se nao con-
tasse com o sopro do alto para passar a fren-


te de quem estd hd mais tempo na fila e sobe
vencendo cada etapa intermedidria.
O sopro que projetou Puty mais acima vai
derrubando quem jd estava a postos pelo ca-
minho, seja adversdrio, aliado ou correligio-
ndrio. Por enquanto, a gritaria 6 mais na casa
do PT. Torou-se tonitruante pelas vozes do
deputado federal Jos6 Geraldo e da deputada
estadual Berardete ten Caten, que ecoam
vozes ainda no solfejo dissonante. A princi-
pal reserve de votos deles 6 no sul do Estado,
com anfase em Maraba, onde as liderangas
costumam ficar pulverizadas. Para atrair mais
ades6es, um dos instruments mais eficazes
6 o Incra (assim como, embora sobre outra
clientele, o Ibama). 0 Incrarecebeu um refor-
go de 30% para este ano, mas para que o co-
mando mude de maos e ap6ie o preferido da
govemadora, que fez de Marabd o destiny
principal das suas viagens ao interior.
Essa cisao internal revela nao apenas o
tamanho verdadeiro da DS, mas o "desen-
volvimento ndo-sustentavel" do PT paraen-
se no govemo para o bem e para o mal. Ao
analista isento e bem informado nao escapa
mais uma conclusao: sem o uso da m6quina
e a decisive participaqao do governor fede-
ral, Ana Jdlia Carepa estaria com a reeleigqo
ameaqada, ou comprometida de vez.
O problema esta em saber se bastam es-
sas duas forqas para reverter a rejeigao que a
govemadora acumulou? Dizem alguns comen-
tadores de pesquisas metafisicas que o indi-


ce da goveradora jA 6 pior do que o de Jader
Barbalho, inclusive na Area da capital. Se 6 ou
nao 6, nao se sabe ao certo por falta dos re-
sultados da sondagem. Mas a rejeiqao 6 uma
pedra tao grande no caminho da goverado-
ra quanto na do seu incerto aliado principal.
S6 que, sem os mesmos recursos da
petista, Jader se fortaleceu mais do que ela,
ainda que essa riqueza que formou repre-
sente tamb6m uma fonte de ang6stia para
ele. Jader pode tomar vdrias decis6es, mas,
se a escolha nao for vitoriosa, seu future
estard comprometido de vez. Por isso, a
melhor alternative, que seria disputar o go-
verno, 6 tamb6m a mais arriscada.
No entanto, parece fora de ddvida que
o espantalho da political paraense em qua-
se tr8s d6cadas demonstrou capacidade
de sobreviv8ncia excepcional. Boa parte
dessa capacidade deve-se a qualidades
que, em political, responded pela lideran-
ga aut8ntica, mesmo quando negative,
porque testada em diversas condiq6es e
moments. Dentre elas a de se impor ao
PT neste novo e grande teste, para
1^ o qual o Partido dos Trabalhado-
res nao se apresenta com as mes-
mas qualidades. Continue muito
menor do que a pr6pria sombra e
tao distant das suas promessas e
compromissos.

NOTA DA REDA(AO A ediq~o jd es-
tava fechada quando o Didrio do Pard
anunciou, na segunda-feira, 1 (em mais um
bom trabalho da reporter Rita Soares), o
principal resultado dos entendimentos do
final de semana no PT para apaziguar as
dissens6es interas, geradas pelo favore-
cimento do govero a Cldudio Puty. O che-
fe da Casa Civil terd que antecipar sua de-
sincompatibilizagao, de 3 de abril para uma
data pr6xima do final deste mes, mas ainda
nao definida. Para nao ficar escancarado o
recuo, a goveradora Ana Jdlia Carepa es-
tabeleceu esse prazo como fatal para ou-
tros tr8s secretirios estaduais que tamb6m
concorrerao em outubro: Edilson Silva, da
Cultura; Suely Oliveira, de Urbanismo (ou-
tros dois preferidos da DS), e Valdir Gan-
zer, dos Transportes. Bernadete tamb6m
conseguiu retomar o control do Incra em
MarabA, perdido pelo aliciamento de Puty
do atual dirigente do 6rgao, Raimundo Oli-
veira Filho, que fard com o secretirio visa-
do dobradinha como candidate a deputa-
do estadual, apoiando-o para federal. As
ameaqas da deputada e de Z6 Geraldo de-
ram resultado. Refeito o pacto, todos fica-
ram satisfeitos. As questoes suscitadas
pela reagio dos parlamentares contraria-
dos foram esquecidas, como conveio a to-
dos. Menos A opiniao pdblica.


4 Jornal Pessoal FEVEREIRO DE 2010 1l QUINZENA







Razoes do paradoxo:


riqueza sem progress


A mensagem da assistente contabil Ma-
rina Souza, publicada na seq~o de cartas, 6
tao provocadora que decidi comentd-la fora
do espaqo especifico. Gostaria de motivar
outros leitores a partilhar nossas reflexes e,
com base nelas, se interessar pelas ques-
ties suscitadas, que sdo graves e urgentes.
Um nimero cada vez maior de paraen-
ses, sobretudo aqueles que tem a oportuni-
dade de confrontar o que acontece na sua
terra cor outras realidades, dentro e fora do
Brasil, se inquietam diante de uma realidade
que se imp6e: embora o Pard cresqa, nao
acompanha a evoluqao dos Estados que jA
estavam no topo do ranking national ou que
a ele se agregam em funqdo do seu melhor
desempenho recent. Como isso acontece,
se o Pard 6 tao rico em recursos naturais?
A resposta poderia comeqar a ser busca-
da trocando-se o sinal interrogativo pelo afir-
mativo: isso acontece porque o Pard 6 rico
em recursos naturais. Um territ6rio tao bem
dotado de min6rios, dgua, florestas, solos e
espaqo parte com vantagens comparativas
(ou competitivas) invejdveis. Nao significa
que alcanqard primeiro o ponto de chegada.
Pode dar-se exatamente o contrario: confi-
ando na abundancia de seus bens naturais,
que constituem um invejdvel capital ffsico,
subestima ou desdenha sua capacidade de
utilizar esse potential. Nao invested na quali-
ficacqo humana o suficiente para saber o que
fazer (e como fazer) para tirar o maior provei-
to possivel desses atributos geogrdficos.
O Pard, que tem o segundo mais extenso
territ6rio da federaqao brasileira e sua nona
maior populaqAo, cai vertiginosamente de
posiqao quando a mensuraqao consider os
fatores sociais. Aesmagadora maioria da sua
populagqo vive mal, com serviqos de satide
e de alimentaq~ o prec-rios e insatisfat6rios,
e uma educaqdo que se situa dentre as pio-
res do pais, no rabo da fila de uma rede pdi-
blica que se degrada, cor honrosas exce-
yqes. Os demais services tambrm nao acom-
panham a demand, obrigando o cidadao
comum (incapaz de pagar para atingir o lim-
bo das exceqBes) a perder tempo e energia,
que Ihe farao falta na sua progressao pesso-
al, com as conhecidas conseqiiencias noci-
vas para a coletividade.
Para exemplificar esse despreparo nao 6
necessdrio nem analisar os casos mais gra-
ves de dilapida~ao, como a destruiqao da flo-
resta, a degradaqao dos solos ou a poluicqo
dos cursos d'dgua. Examinemos o caso mais
emergente num context de urgencias nu-
merosas desencadeadas pela p6ssima abor-
dagem da natureza na "fronteira" paraense:
os min6rios. Eles constituem 85% da nossa
pauta de exportaq6es, que responded por
nossa principal importancia para o Brasil:
somos o quinto Estado exportador (na m6-
dia dos 6ltimos anos) e o terceiro que mais
gerou divisas (em 2009). Nenhuma outra
contribuicao paraense 6 mais expressive a
riqueza national (somos o 21" em PIB per


capital, o melhor indice para medir o resulta-
do intemo do aproveitamento econ8mico).
Qualquer um haverd de dar a receita para
acabar com essa anomalia de extrair sempre
mais mindrios sem se desenvolver: deixar de
vender mat6rias primas e passar a produzir
bens manufaturados. E o esquema de muitas
d6cadas e s6culos. Foi assim que os Esta-
dos Unidos, pais equipardvel ao nosso (e
tentaCio fdcil em muitos estudos de hist6ria
comparada), deixaram de ser colonia inglesa
para desbancar a matriz da sua dominagqo
imperial. Tambrm os americanos sao bem
dotados de recursos naturais. S6 que nao se
deitaram em berqo espl8ndido: se desenvol-
veram tecnologicamente a base de educa-
~io de primeira e ciancia prioritaria.

Nao podemos seguir
a mesma formula porque o
mundo mudou. Sua principal
mudanga foi ter-se tornado
piano, como argument o
jornalista Thomas Friedman
em seu livro perspicaz sobre
a globalizaqo. Nao vou considerar
os efeitos nocivos desse process. Apenas
me deterei no que se tornou inquestiondvel:
a universalizaqao, como jamais houve antes
e nunca imaginamos que viesse a acontecer.
Antes se falava em intemacionalizaqo, com
um sentido negative e tenso tSo caro a geo-
politica aplicada na Amazonia. A Amaz6nia
passou a fazer parte do mundo antes de se
integrar ao pr6prio pais, seguindo um curso
mais inconstante e traumAtico na etapa da
nacionalizaqao do que na da interacionali-
zaq~o, que a precedeu.
Tornamo-nos e continuamos a ser -
brasileiros, mas por dentro das nossas veias
geogrdficas e culturais tamb6m fluem fluxos
derivados de uma matriz (ou de vArias delas)
extema. Hoje, mais do que nunca, 6 impossf-
vel entender a Amaz6nia sem situd-la no con-
texto mundial. Tanto para manter a forma es-
poliativa da utilizaqao dos seus recursos (na-
turais e humans) como para mudd-la. Sem
considerar sua realidade fisica especifica,
toda anAlise sobre a regiao se torna conser-
vadora, mantenedora do status quo, incapaz
de formular um modo novo de relaqao do
home cor a natureza e cor os outros ho-
mens. Mas o regionalismo estrito e o nacio-
nalismo sao bitolas a impedir a visualizaqao
da realidade e da verdade concrete.
Quando via as imagens ins6litas da pro-
va de F6rmula 1 realizada noturnamente em
Xangai, a mais ocidental das metr6poles chi-
nesas, me veio uma curiosidade tipica dessa
planetarizaqao: quanto de min6rio de Cara-
jds havia naqueles enormes pr6dios de ago
que emergiam no horizonte como pano de
fundo ainda mais ins6lito para a corrida de
autom6veis? Min6rio do melhor, como nao
hd outro nas entranhas da Terra. Logo tam-
bem me veio uma ruminagqo: nao aconteceu
exatamente assim quando o ouro das Minas


Gerais, depois do transbordo em Portugal,
foi insuflar o embelezamento e enriquecimen-
to da City de Londres?
Nas cidades hist6ricas mineiras ficaram
testemunhos impressionantes de contrafado
a essa brutal extraq~o mineral, que at6 hoje e
cada vez mais nos encantam e causam ad-
miragqo. Mas quanto essa riqueza retida re-
presenta da que atravessou o oceano? Uma
mindscula parte, como a que nos fica de Cara-
jds, de onde sai o maior trem de carga do mun-
do para, em nove viagens didrias at6 um dos
maiores terminals maritimos do planet, em
Sao Luiz do Maranhao, colocar nos navios
transoceanicos 30 milhoes de d6lares a cada
dia. Volume que aumenta com a incorporalao
de outros bens minerals, como manganes,
agora cobre e, daqui a pouco, niquel.
S6 que a mera verticalizacao da produ-
q~o pode nao se traduzir por maior retencao
de valor, mesmo quando vidvel economica-
mente. Hoje 6 mais vantajoso produzir alu-
mina, o insumo, do que aluminio, o bem trans-
formado (que s6 6 classificado como semi-
elaborado porque o classificador despreza
o component de energia nele embutido).
Nao s6 pelo preqo, atiqado pela demand
chinesa (carente de alumina, mas nHo de
metal), como pelo custo da energia para a
fundigqo. Foi por isso que, no mes passado,
a antiga Companhia Vale do Rio Doce deci-
diu se desfazer da Valesul, a fabrica de alumf-
nio que comeqou a operar no Rio de Janeiro
tres anos antes da Albrds em Barcarena, sus-
tentada numa perna falsa, a da energia bara-
ta e abundante. A Vale vendeu a fdbrica por
metade do seu valor para se livrar do prejuf-
zo e da insolv8ncia operacional.
A definicao do que e como produzir en-
volve components muito mais sofisticados
e abrangentes do que antes. A definiqao pode
ser conjuntural, acompanhando a flutuaq~o
do mercado, mas tem que combinar essa cir-
cunstancia cor uma visao de long prazo.
Para isso, existe r6gua e compasso. Mas nao
as informaq6es, o enchimento que dd valida-
de as formulas cientificas. E precise ir atris
delas, desentocd-las, dar-lhes significado e
transformi-las em ferramentas operacionais.
Com elas podemos chegar a conclusao
de que poderia at6 ser melhor continuar a
minerar se fosse rompida a depend8ncia da
China a que nos imp6s a busca obsessive da
Vale por faturamento e lucro, num raciocinio
imediatista correto apenas da perspective fi-
nanceira, que hoje a caracteriza. Outros tan-
tos ajustes, corretivos e inovagqes se im-
p6em para que nao continuemos a assistir
impotentes a essa hemorragia mineral, que
se tornou at6 mais volumosa do que a san-
gria vegetal, dois dos males que tornam o
organismo territorial do Pard incapaz de su-
prir as necessidades da sua populalao, den-
tre as quais estd a esperanga por um future
melhor. Esse future se apresenta no horizonte
como miragem, que nao nos chega nem n6s
a ele conseguimos chegar.


FEVEREIRO DE 2010 1s QUINZENA Journal Pessoal 5








Imprensa na luta politic(


A maior motivaqao political da revolu-
cao de 1930 foi acabar com o dualismo de
paulistas e mineiros no dominio exclusivis-
ta do poder national. Esse control se exer-
cia atrav6s da alianqa "caf6 corn leite", que
combinava duas riquezas rurais: o caf6 de
Sao Paulo e a pecuaria de Minas Gerais.
Contraditoriamente, por6m, outras formas
de caudilhismo surgiriam cor os novos de-
tentores do poder, os "tenentes" e seus cor-
religiondrios, a partir do modelo de Get6lio
Vargas, que se consolidou como ditador em
1937 e comandou com mao de ferro o pais
at6 1945, sob o Estado Novo.
Nao era um despotismo monolitico,
apenas conservador ou reaciondrio: havia
nele um conteddo reformista, de mudanqa
e de progress. Os "tenentes" at6 admiti-
am serem d6spotas, mas se pretendiam es-
clarecidos. A versao paraense dessa figu-
ra foi o "tenente" Magalhaes Barata. Ele
nao reinou absolute sobre o Estado: so-
freu algumas derrotas, como a de 1935,
quando foi abandonado por integrantes do
seu pr6prio partido (o Liberal) e acabou
afastado. Isso aconteceu duas vezes.
Mesmo assim, foi o principal interlocutor
do "chefe national" e seu representante
ao long da fase ditatorial.
Ao contririo de Gettilio, que, derrubado
pelos militares, se auto-exilou na terra natal,
o Rio Grande do Sul, at6 voltar cor um man-
dato de senador, que praticamente nao exer-
ceu, Barata renovou de pronto o apoio fede-
ral ao se filiar ao mesmo partido do novo
president da rep6blica, o marechal Eurico
Gaspar Dutra (condestivel da ditadura que
sobreviveu a ela, trocando de lugar, confor-
me se repetiria em 1954 com outros militares,
quando do suicidio de Vargas). Essa conti-
nuidade nao impediu que as oposiqoes Ihe
impusessem uma derrota hist6rica, em 1950:
coligadas pelaprimeira vez, colocaram no go-
verno outro military, o marechal Alexandre
Zacarias de Assunqao, tamb6m personagem
da fase anterior (caberia um estudo A parte
sobre os chefes militares anfibios, que se tor-
nam tamb6m politicos).
O fim do "baratismo", entretanto, foi
proclamado antes do tempo. Na segunda
vez em que se submeteu ao voto popular
(e nao a indicacao por uma autoridade su-
perior, na condiqao de interventor federal)
para chegar a chefia do executive, em 1955,
Barata superou, por margem minima, o can-
didato da Coligaqao Democritica Paraen-
se, o deputado federal Epflogo de Cam-
pos. Uma das causes: as oposic5es volta-
ram a se dividir.
A outra: cor seu carisma a mao, Barata
continuou prestigiando os mais pobres (em-
bora em uma corte de privilegiados) e nao
parou de circular pelo interior do Estado.
Foi o primeiro politico no Pard que nao se


restringiu aos cabos-eleitorais ou aos co-
ron6is de barranco, aos quais cabia a tarefa
de former e explorer os currais cativos de
votos: ia pessoalmente a todos os pontos
do enorme territ6rio paraense atris de vo-
tos e do contato pessoal, fundamentos de
um poder pessoal que cultivou cor sagaci-
dade (por isso nao se atolou na lama do
"baratismo", a que deu causa, sem, entre-
tanto, responder por suas conseqiiencias).
Um dos principals redutos embora dis-
tante era Santar6m, a segunda cidade do
Estado e a quarta da Amazonia at6 a d6cada
de 50. Graqas a essa presenca e ao uso da
forra, que o control da maquina pdblica
The proporcionava, Barata estabeleceu uma
base hegem6nica no municipio (e em todo
Baixo Amazonas), suportando e superando
as flutuac6es desfavoriveis, que se suce-
deram entire as d6cadas de 30 e 50 do s6culo
passado. Mas a frente oposicionista que
se formou para derroti-lo em 1950 lanqou
raizes mais profundas em territ6rio santare-
no, antecipando a 6ltima crise do "baratis-
mo" e da sua nova base partidiria, o PSD
(Partido Social Democritico).




SDesta vez, os
pessedistas ficaram a margem da dispute:
nos principals postos estavam um repre-
sentante de um dos partidos da CDP, a UDN
(Uniao DemocrAtica Nacional), e a mais "ge-
tulista" das agremiaq6es partidirias surgi-
das cor a queda do Estado Novo e a Cons-
tituiqio de 1946: o PTB (Partido Trabalhista
Brasileiro).
O candidate do PTB, Elias Pinto, era um
pouco mais velho (tinha 33 anos) e cor
maior experiencia political e atividade pibli-
ca: fora president da Congregaqio Maria-
na, um important grupo de pressao na 6po-
ca, a sombra da poderosa Igreja cat6lica;
secretirio da prefeitura municipal entire 1948
e 1950 (quando, por ironia, o prefeito era
um tio do seu adversirio, Aderbal Caetano
Correa); o primeiro locutor esportivo da pri-
meira emissora de radio da cidade; dono e
principal redator de umjornal renovador, o
Baixo Amazonas (que circulou entire 1952 e
1954), e se elegera como o sexto deputado
estadual mais votado do Pard em 1954. Era
filho de imigrantes nordestinos, do Ceard,
conhecidos no inicio de forma pejorativa
- como "arig6s", que s6 entao saiam de um
quase confinamento voluntirio nas coloni-
as do planalto (tao pr6ximo e tao distant
do sitio litoraneo da elite) para colocar um
representante no topo do poder local.
O candidate da UDN, Ubaldo Corria,
tinha 29 anos e, sem carreira political, porta-
va duas credenciais. Uma era da sua fami-


lia, uma das mais tradicionais e importantes
da regiao, que teve no Barao do Tapaj6s,
Jos6 Caetano Correa, o seu mais destacado
integrante. O barao foi o primeiro prefeito
do municipio (na 6poca, corn o titulo de in-
tendente). Ubaldo tamb6m possufa o titulo
de engenheiro, uma qualificaqao que lhe
conferia status e vantage comparative com
um contender que s6 chegari ao 3 ano da
escola conventional (Elias seria autodida-
ta do inicio, quando, adolescent, deu aula
de ingl8s na casa da familiar, at6 o fim, inclu-
indo passage pela Comissao de Planeja-
mento da SPVEA, antecessora da Sudam).
Ubaldo venceu, mas Elias, que reconhe-
ceu a derrota e nao utilizou nenhum recur-
so contra ela, se declarou vitima pela pri-
meira vez do "mapismo", fraude eleitoral da
qual o Pard s6 parece estar se livrando ago-
ra, com a adocao das urnas eletr6nicas e a
apuraqao imediata dos votos (antes, "em-
prenhados" enquanto se encontravam nas


Jodo Goulart, Elias Pinto e Benedito
Monteiro: tempo de populismo


urnas ou manipulados por ocasiao da ela-
boracao dos mapas de apuraqao, os votos
se desviavam do control e da vontade dos
seus portadores).
Prometendo realizar obras fisicas e cuidar
para que elas fossem bem feitas, em funqao
de sua habilitaqlo professional de engenhei-
ro, e aplicar sua jovem energia ao trabalho,
Ubaldo era uma promessa de mudanqa e de
superaqao da oligarquia pessedista, jA que
tamb6m Barata, de volta ao poder em 1956,
fora derrotado. Mas o "baratismo" sobrevi-
veu ao desaparecimento do seu lider e ainda
se fortaleceu para a elei4oo de 1962. Uma nova
coligacao foi tentada entire a UDN e o PTB,
mas nio prosperou. E um pessedista voltou
ao comando da prefeitura, na figure de um
personagem de grande apelo popular e titulo
professional do porte do antecessor: o m6di-
co Everaldo Martins, entao com 35 anos (pai
da atual prefeita, Maria do Carmo, do PT).


6 Jornal Pessoal FEVEREIRO DE 2010 l QUINZENA








im capitulo em Santar6m


Talvez por estar convict de ter sido
novamente vitima de fraude, Elias Pinto,
sem mandate politico havia sete anos, mas
com intense atividade piblica, enfrentou
novamente o ja entao deputado federal
Ubaldo Corria em 1966 e Ihe imp6s uma
das maiores vit6rias eleitorais obtidas em
Santar6m: teve 8.337 votos contra 5.694 do
opositor, com indice de abstenqao de 26%,
abaixo da m6dia. Pela primeira vez, um re-
presentante dos "arig6s" se tornava pre-
feito, comprometendo-se abertamente com
os imigrantes, que representavam entao
parcela considerivel da populaqao, e com
os humildes em geral. A elite local fora des-
locada do eixo das decis6es, mesmo con-
tando com o apoio da miquina estadual e
da federal ("o tostao contra o milhdo", foi
um dos slogans do candidate oposicionis-
ta, o "Barra Limpa").
E um dos periodos mais polnmicos e cri-
ticos de toda hist6ria santarena. Por isso


mesmo, Joao Georgios Ninos, tamb6m filho
de imigrantes (gregos, no caso), decidiu
dedicar a uma face da dispute political des-
sa fase a pesquisa que realizou para obter,
no final do ano passado, o grau de bacharel
em comunicaqao social pelo Instituto Es-
peranya de Ensino Superior de Santar6m
(lespes). "Panfleto e crise institutional: im-
prensa e political em Santar6m-PA" 6 o titu-
lo do trabalho de conclusao de curso de J.
Ninos, como ele se assina em suas mat6rias
jornalisticas. O orientador foi o jornalista e
professor Manuel Dutra. Na banca exami-
nadora funcionaram ainda os professors
Cynthia Oliveira Soares e Handerson da
Costa Bentes.
Para montar sua pega, Ninos consultou
a coleqao de O Jornal de Santardm, o peri-
6dico de maior duraqao na hist6ria da im-
prensa local, iniciada 30 anos depois do
surgimento do primeirojornal no Estado, 0


Paraense, publicado em Bel6m, em 1821, por
Felipe Patroni. O JS circulou, com pouca
interrupcao, durante cinco d6cadas (dos
anos 30 aos 70), chegando pr6ximo de duas
mil ediqces. Depois de ter sido o 6rgao ofi-
cial do PSD, ojomal foi adquirido por Ubal-
do Corr8a e utilizado politicamente a partir
de entao. Deu suporte A candidatura do
patrao na eleicqo de 1966.
Derrotado, passou da oposicao nos
dias imediatos a uma attitude cautelosa em
seguida, ao apoio quase incondicional
quando o inimigo passou a exercer o car-
go de prefeito e voltou h oposiqgo extre-
mada quando, nove meses depois, o pre-
feito eleito foi afastado pela Camara Mu-
nicipal, com ampla maioria da oposicqo,
suspense e, finalmente, cassado, depois
de uma sangrenta tentative de retomar a
chefia do executive, em setembro de 1968.
A Policia Militar, por ordem do governa-
dor Alacid Nunes, reprimiu uma passea-
ta, com quase cinco mil participants, que
tentava reconduzir o prefeito, comanda-
da pelo deputado federal (e brigadeiro)
Haroldo Veloso. Tr8s pessoas morreram,
Elias foi afastado de vez do cargo e San-
tar6m foi declarada area de seguranqa na-
cional, perdendo o direito de eleger seu
prefeito, que passou a ser nomeado pelo
governador do Estado.






X%_ggNesse period, diz o
autor, "o journal estd sob a diregio do grupo
partidario de Ubaldo Correa, que abusa da
linguagem panfletiria e defended os ideas
da Arena [Alianga Renovadora Nacional,
partido da situagiao nos pianos federal e
estadual] e do golpe military de 1964, geral-
mente trazendo artigos religiosos e de cari-
ter anticomunista. E um hebdomadfrio, por
natureza, conservador. Circulava semanal-
mente, geralmente aos sabados. Algumas
edicoes circularam sexta e domingo, sem ex-
plicaqdo do porque da mudanca da data.
Em linhas gerais, durante a campanha, o
journal busca desarticular a crescente lide-
ranqa de Elias Pinto, atacando principalmen-
te seu partido".
Embora a diretriz fosse political, dada
por Ubaldo e seguida quase integralmen-
te, para lhe render votos e defender sua
posiqdo no jogo de poder, o journal seguiu
algumas variantes sutis, de acordo com
alguns interesses particulares de quem
ocupava o segundo cargo na estrutura da
publicaqdo, a de principal redator ou se-
cretario. Em quase 50 ediqges a redatora
foi a professor Antonieta Dolores, funci-
ondria da Mesa de Rendas equivalentt,


hoje, a regional da Secretaria Estadual da
Fazenda). Ela tentou um mandate de vere-
adora na eleiqao de 1966 pela Arena, que
preencheu oito das 11 cadeiras do parla-
mento municipal, mas nao se elegeu.
O tamb6m professor Antonio Pereira foi
outro candidate a vereador da Arena, que,
derrotado, acabaria se tornando o respon-
savel pelo journal, depois de um period em
que a funqao foi ocupada pelo igualmente
professor Nicolino Campos, primo de Ubal-
do, que conseguiu se eleger deputado es-
tadual na mesma eleigqo, e, em seguida, por
Evangelista Damasceno, que publicava po-
emas e cr6nicas no JS.
Nessa 6poca, a vinculaqgo political do
journal foi complete. Seu principal colabo-
rador era Paulo Rodrigues dos Santos,
cujas cronicas memorialisticas se tornaram
uma das principals fontes de referencia
para a hist6ria de Santar6m. Ele seria o
candidate a vice-prefeito na chapa derro-
tada de Ubaldo em 1966, mas logo voltou
aos seus artigos historiograficos. Nao sem
antes explicar as razies da sua decisao de
concorrer a um cargo politico e analisar a
dificil conjuntura, com algumas advertin-
cias premonit6rias.
Seguiu-se uma fase de aproximaqao
do journal em relaqao ao prefeito, quando
Elias Pinto comeqou a realizar obras, al-
gumas das quais agradavam particular-
mente a redatora-chefe, por homenagear
antigas professors municipais, nunca
antes lembradas, al6m de se aproximar da
publicago, visitando-a pessoalmente e
programando para ela os atos oficiais. O
journal passou nao s6 a noticiar as ativi-
dades do gestor da comuna: tamb6m co-
megou a elogid-lo. Mas quando irrompeu
o process de afastamento e cassaqao,
novamente o JS voltou a uma campanha
sistematica de ataques ao prefeito, reti-
rado do cargo por decisao da maioria are-
nista da Camara.
Um dos capitulos do trabalho de J. Ni-
nos 6 sobre "a guerra do Jornal de Santa-
r6m contra a Perereca", travada durante o
ano 1968. Umjornal conventional, em lin-
guagem panfletdria, provocou o surgimen-
to de um verdadeiro panfleto, criado para
dar voz ao alvo dos ataques, uma tradi-
cqo que remonta as origens da imprensa
no Brasil e no Pard, na transiydo da domi-
naqdo colonial ao imp6rio national, quan-
do s6 uma das parties tem voz. E, confor-
me essa mesma tradicqo, nenhum exem-
plar do panfleto sobreviveu, ouvindo-se
apenas a voz dos vencedores. Mesmo
assim, ela deve ser registrada, ainda que
submetida a andlise. Por seu valor docu-
mental, a pesquisa de J. Ninos, que diz
bastante, embora de forma parcial, sobre
as lutas political santarenas.


FEVEREIRO DE 2010 11 QUINZENA Jornal Pessoal 7






HIGIENE
Foram mais de 600 as
mortes causadas por uma
epidemia de disenteria ba-
cilar que assolou Bel6m no
final do inverno de 1955. O
problema se tornou tdo s6-
rio que o entao prefeito,
Celso Malcher, criou e pre-
sidiu uma Comissdo Execu-
tiva de Saneamento de
Emergencia, encarregada
de combater o mal e que se
tornou "pioneira do sanea-
mento da cidade". Sua ta-
refa era "limpar e higieni-
zar" a capital paraense,
cuja situaqco sanitaria era
"terrivel", conforme o re-
gistro jornalistico. A princi-
pal tarefa de dezenas de
homes mobilizados era
simplesmente capinar as
ruas e tirar a lama. A epi-
demia foi atribuida a "pre-
cariedade higi8nica da cida-
de, agravada pela falta de
esgotos".
Problema velho e mal re-
solvido, quando chega a ser
atacado.

CLUB
A nova boate da Assem-
bl6ia Paraense, a melhor
da cidade, foi inaugurada
no final de 1956, para ser
um dos pontos de referen-
cia da cidade. Substituiu o
inferninho, improvisado na
antiga sede social, com
enormes vantagens. Suas
"linhas e motives funcio-
nais", o must da 6poca, fo-
ram assegurados pelos en-
genheiros Filipe Farah (o
autor do projeto) e Laurin-
do Amorim (que cuidou da
execuqgo). O tamb6m en-
genheiro e arquiteto Alcyr
Meira foi responsivel pelo
painel em pastilhas vidra-
das, que decorava o ambi-
ente. Os m6veis foram fa-
bricados por encomenda
no Rio de Janeiro e a lou-
ya veio da Fibrica Vista
Alegre, de Portugal, re-
quinte proporcionado pelo
president do clube, Nico-
lau da Costa.


PROPAGANDA

Modelo politico


Alfredo Gantuss se apresentava, na eleiCdo de 1960, como
candidate a vice-governador, por partir do principio de
que "qualquer political de recuperagdo s6cio-economica
do Pard deve ter por base amparo a agriculture ". 0 Pard
estava "em regime de empobrecimento" por falta de cre-
dito, de iniciativa e de espirito empreendedor. A crise se
refletia na queda da producdo de guaxima e malva, como
de babacu, segundo o candidate, embora estes fossem
produtos extrativos, que ainda eram a base da economic
rural amaz6nica de entdo. Politico do PSP (Partido So-
cial Progressista), Gantuss considerava como referencia
o chefe da agremiagdo, o controversy Adhemar de Bar-
ros, governador de Sdo Paulo, que despertou o Estado
para o progress "sem exigir sacrificio do seu povo".
Prometia fazer o mesmo no Pard. NJo ganhou.




Os Numeros So Reveladores
GUAXIMA E MALVA
1956 18.583 toneladas
1957 17.173 toneladas
1958 15.811 toneladas
(Mesmo corn a desvalorizagio da m6eda o valor da
produgio caiu de Cr$ 257.056.000,00 para.........
CrS 192.324.000,00).
BABACU
1956 94 toneladas
1957 71 toneladas
1958 40 toneladas
(Mesmo corn a desvalorizagio la m6eda o valor da
exportagio nio atingiu um milhio de cruzeiros,
quando a exploragio racional de urn ter96 das pal.
meiras existentes teria assegurado, s6 em 1959, uma
renda de Cr$ 98.000.000.00).
O PARA' ESTA' EM REGIME DE EMPOBRECIMENTO
Porque falta cr6dito
Porque falta iniciativa I
Porque falia espirito de empreendimento!
SOU CANDIDATE A VICE-GOVERNADOR
DO ESTADO
Porque parto d6 principio de que qualquer politica
de recuperagio s6cio-econ6mica do Para deve ter
por base o amparo i agriculture.


ALFREDO GANTUSS
PARA VICE-GOVERNADOR


Adhemar de Barros despertou Sio Paulo para o progress,
sem exigir sacrificio do seu povo N6s podemos desper-
tar tamb6m o Para para o desenvolvimento!
(PAg. de quebra E. 5347)


MUNDANISMO
Durante muitos anos o prin-
cipal jomal do Pard, a Folha
do Norte, nao teve exata-
mente o que hoje de conhece
por coluna social. Mas as
Notas Mundanas, seq~o pu-
blicada na segunda pagina,
supria essa lacuna (lacuna? i
dificil crer, hoje). 0 titulo pode
parecer suspeito ao leitor da
6poca, mas o que os socia-
lites de hoje faziam era clas-
sificado por mundanismo.
Com uma caracteristica des-
feita pelo tempo: a coluna
abrigava tanto as celebrida-
des quanto o cidadao comum.
Havia diferenqa no trata-
mento, 6 claro: os notiveis
(que se vulgarizaram, alias,
em certas colunas atuais, por
efeito do estilo hiperb6lico do
autor dos textos) ganhavam
mais espaqo e adjetivos. Mas
um funcionirio subalterno de
repartiqao p6blica ou um co-
merciante menor podiam
aparecer.
Em 1956, dentre as notas
publicadas, algumas revela-
vam a natureza da coluna e o
tipo de sociedade que procu-
ravam retratar. Era noticiado
o aniversario do menino Nel-
son, filho do dr. Waldemar
Chaves e de sua esposa, sra.
Mariinha Pires Teixeira Cha-
ves (atualmente conselheiro
do Tribunal de Contas do Es-
tado). Ou o segundo ano de
Ramiro, filho do deputado
Efraim Bentes "e de sua dig-
na consorte", Ivone Franco
Bentes. Mas tamb6m o na-
talicio da garota Thelma Vir-
ginia, filha do sr. Antonio Al-
ves Bezerra, funciondrio dos
SNAPP (depois, Enasa), e de
sua digna esposa, Lindalva
dos Santos Bezerra.
Georgenor Franco, 1 se-
cretirio da Academia Para-
ense de Letras e colaborador
dojomal, acumulava adjetiva-


8 Jornal Pessoal FEVEREIRO DE 2010 1I QUINZENA












q6es e admiraq6es: "Que
olhos femininos nao Ihe tern
deletreado os livros de versos,
nos quais palpita a alma da
poesia, que 6 expressed de
sentimento?, exclamava o
redator (o pr6prio?).
Ja as bodas de ouro do "an-
tigojuiz de direito" Abdias de
Arruda cor Izabel dos San-
tos Arruda, equivaliam a um
autentico retrato em 3 x 4 da
familia, um dos clas paraen-
ses, integrado por virios mi-
litares: os tenentes-coron6is
Abbas e Abdias; major Joao
Arruda; 1 tenente Jofre Ar-
ruda; sub-oficial Travassos
Arruda; Alberto, funcionario
da Panair (a maior compa-
nhia de aviagao da 6poca);
dr. Heliodoro Arruda; senho-
ras Italia, Auta, Elza Emais,
Flora (casada com outro mi-
litar, o major Joao Moura),
Maria do Carmo, e as senho-
rinhas Terezinha de Jesus e
Izabel. Na mesma data ani-
versariava a neta Astrid
Amaral e faziam a Ia comu-
nhao os netos Alberto, Car-
los, Hilda e Eloisa Flora.
A coluna noticiava que "o
distinto casal, que, al6m dos
doze filhos, tern mais de qua-
renta netos e bisnetos, feste-
jard tdo significativo event
com a celebraqgo de missa,
As 07,30, na Basilica de Na-
zar6, e cor uma receppIo, a
partir das 19,30, A rua Farias
Brito, 20, Praqa Floriano Pei-
xoto, sua nova resid8ncia".
Ja o doutor Luiz Maranhdo
embarcava no "transconti-
nental da Aerovias" de volta
a Sao Paulo, onde "iniciou sua


TRAJE FINO


FOTOGRAFIA
A dama que ostentasse o "melhor toilette" na festa de fim de ano da Assembldia Para-
ense era premiada. A dispute era concorrida e o premio, valorizado. No reveillon de
1965 a vencedora foi Raquel Pazuelo Azulay, que usou um vestido confeccionado em
seda pura azul marinho e bordado com pedras de "strass" e perola. Recebeu o "valio-
so brinde" das mdos da sua antecessora, a sra. Fldvio Moreira. A esposa, afluente do
marido, nao tinha nome pr6prio na cr6nica mundana de entdo.


carreira professional, sob os
auspicios de uma inteligencia
que o estudo aporfiado enri-
quece". Nao sem antes subir
as escadarias do journal para
levar pessoalmente As Folhas
"suas despedidas".

PREFEITO
Pouquissimas pessoas sabi-
am quem era o engenheiro
carioca Mauro Fernando Pi-
lar Porto, quando o governa-


dor Alacid Nunes o nomeou
prefeito de Bel6m, em marqo
de 1970. Nessa 6poca, nas
capitals, o cargo era preen-
chido por indicaqao direta do
governador do Estado. O pre-
feito era uma esp6cie de se-
cretirio especial para o mu-
nicipio, subordinando e depen-
dente ao chefe do executive
estadual. No auge do regime
military, iniciado seis anos an-
tes, prevalecia a id6ia de que


tecnocrata, ainda mais quan-
do de fora do local, era o mais
indicado para os principals
cargos pdblicos. Porque sa-
bia o que fazia e nao tinha vin-
culos limitadores. No caso de
Mauro Porto nao houve mes-
mo limitaq6es. Dele, restou
na mem6ria que conseguiu
levar os belos coretos que
havia na praca de Nazar6, ins-
talando-os em Petr6polis.
Magica tecnocratica.


Definigao

Na sua analise do panorama eleitoral do pais, a Folha de S. Paulo diz que no Pard e na Bahia, "Estados em que PT e PMDB ji se
conformaram em ter dois candidates", os dois partidos, aliados na political federal, irdo definir regras. Foi o que disse ao journal o
president petista, Jos6 Eduardo Dutra: "Temos que ter uma proposta de procedimentos, com eles indo aos dois palanques, nao indo
a nenhum, ou juntando os palanques".
A se confirmar a previsdo, Jader bateu o martelo. Nao se sabe ainda em cima do que.


FEVEREIRO DE 2010 17 QUINZENA Journal Pessoal 9







CARMAO


IMPRENSA
Na edicio n2 455 do JP (1a quin-
zena de dezembro de 2009) li as
interessantes mat6rias "O na-
tal amaz6nico: com fogo na
mata" e "As medidas do tempo",
as quais tratam do modelo de
ocupaco e da realidade ca6ti-
ca da exploracao da Amazonia.
Nao sou integrante do MST,
sou apenas um leitor e, sobre
o tema "Amaz6nia", gostaria de
compartilhar a nota do Movi-
mento, divulgada em seu site
(www.mst.org.br), que al6m de expor
o modelo econ6mico predat6-
rio praticado na Amaz6nia,
tamb6m denuncia os meios de
comunicacgo que tentam influ-
enciar a formagao de opinion
geral a partir de uma unica ver-
sao dos fatos.
Marcus Santos

DESENVOLVIMENTO
H6 algum tempo, venho acom-
panhando o seu trabalho, atra-
ves do Jornal Pessoal e por algu-
mas entrevistas suas que as-
sisto por canais de television.
Concordo cor sua id6ias e
compactuo com muitas delas, no
mesmo vi6s de pensamento.
Acredito tamb6m, ser muito im-
portante para nossa cidade e
nosso Estado e tambdm para o
jornalismo paraense, pessoas
com este tipo de attitude, de re-
almente falar e mostrar a ver-
dadeira face da cidade e de nos-
so Estado.
Viajo constantemente para as
cidades de Fortaleza e Porto
Alegre, e fico inteiramente intri-
gada com o desenvolvimento
destas cidades, e como estio a
olhos vistos e com rapidez e
movimento, o que nao vemos por
aqui. E claro que estas
capitals tambem tem 16 os seus
problems, os seus bols6es de
pobreza, como toda capital bra-
sileira tem, por6m o desenvol-
vimento continue, as mudangas
acontecem, o desenvolvimento
econ6mico acompanha o mes-
mo ritmo. E entio eu me pergun-
to: por que eles conseguem e
n6s aqui no Estado do Par6 nao
conseguimos? Como um Estado
rico em minerio e tantas outras
coisas, nao acompanha o de-
senvolvimento que as outras
capitals apresentam?
Fico observando como uma
cidade do porte de BelIm,
que na minha opiniao tornou-
se uma cidade in6spita para os
seus habitantes, leva oito anos
para construir o complex do
entroncamento e mesmo assim


nem fica pronto totalmente?
Como uma cidade do tamanho
de Belem passa quatro anos
para a colocaaio de uma pas-
sarela que vai ligar a calgada
ao shopping center? Como uma
cidade como Bel6m pode ser
infestada por semaforos de
transito que s6 atravancam o
transit e o desenvolvimento da
cidade? Como uma cidade
como Belem nao tem terminal
de integrag5o, quando tantas
outras capitals j6 os tem e h6
muito tempo? Por que ser6?
Ser6 a questao cultural do nos-
so povo em geral ou a falta de
vontade de nossos politicos,
que h6 anos estao nessa briga
mesquinha de poder, onde um
tenta fazer e o outro nao deixa?
Cor isso tudo, o tempo vai
passando e as outras capitals
vao crescendo e o Par6 como
diz o pr6prio nome, parando
no tempo.
Ser6 que ainda conseguire-
mos reverter esta "pecha" que
o estado adquiriu ao long dos
tempos, como o de ser a eter-
na col6nia do Brasil, onde ex-
portamos materia prima e com-
pramos manufaturados, como
no inicio da colonizacgo?
Acho que precisaremos de
um movimento muito maior de
engajamento de toda a socie-
dade e tambem de canals de
comunicaiao para mudarmos
de vez a cara de nossa cidade
e nosso estado, ou entao a
6nica said ser6, para aqueles
que realmente quiserem uma
mudanga, o aeroporto.
Marina Silva

CHARISMA
Li o texto intitulado "O caris-
ma de Lula: um fator de risco",
publicado no Jornal Pessoal n.9
455, da primeira quinzena, do
ano recem findo. A segunda ex-
pressio do titulo, sem ser in-
terrogativa ou exclamativa, su-
gere o entendimento que o au-
tor est6 afirmando peremptori-
amente que o Sr. Luiz In6cio Lula
da Silva represent um perigo
a Republica Brasileira. A mate-
ria, depois de fazer uma retros-
pectiva de um lider carism6tico
muito controvertido e que cau-
sou enormes transtornos 6 ci-
vilizag5o no s6culo passado,
comenta as maquinag6es que
os lideres do PT, e outros co-
nhecidos "xamas" das agremi-
ag6es aliadas estio engen-
drando, com a finalidade de cri-
ar um personagem de perfil
mitol6gico, de caracteristicas


nocivas aos principios republi-
canos. Sendo assim, 6 previden-
te que se organized agbes a fim
de brecar a consecugao desse
ousado projeto. Foi deste modo
que entendi a mensagem do
discurso, que tambem analisou
e avalizou o artigo do Prof. Ce-
sar Benjamin sobre o governor
Lula exceto no que diz respei-
to A informag5o torpe acerca do
homossexualismo, Juntando as
peas, aparentemente disper-
sas, mas que se conectam no
final, para, cor argicia, induzir
os recalcitrantes a se unirem
em defesa da "dignidade" dos
republicans, conforme menci-
ona-se acima. Uma formula an-
tiqiissima, como se ve.
Por sua vez, o Prof. C6sar Ben-
jamin, al6m de ilustrar o seu
arrazoado cor as figures de Fi-
del Castro, Hitler e Stilin, citou
o "fascismo" como o modelo
adotado pelo "Lulismo" que se
est6 gestando no cen6rio bra-
sileiro. Opiniao com a qual nao
se pode concordar. O paradig-
ma do "Lulismo", no Ambito so-
cial caso se concretize as pre-
dig6es do professor ter mais
a ver corn Jilio Cesar (assassi-
nado no ano 44, a.C por um gru-
po de conspiradores, entire os
quais se inclufa o grande Cice-
ro, sob a bandeira de defender
a repiblica romana) porque na
sua volta a P6tria, depois de
longas guerras distribuiu
azeite, grios e mais 300 moe-
das a cada romano. Ou seja,
pretendia instituir a cidadania
entire seus concidadaos, e por
isso pagou um prego muito alto.
Claro, aqui nao existe clima
para desfecho semelhante,
mas 6 bom lembrar que j6 hou-
ve um suicidio presidential, um
cen6rio de muita pantomima
na transigao do Imperio para a
dita Repdblica, e logo depois


6P esti nas bancas e livrarias


de instalados no poder, alegou-
se que um religioso maltrapi-
Iho e ensandecido, do desco-
nhecido sertio nordestino,
ameagava o novel regime e por
esta razao resolveram massa-
cr6-los, eles e seus fidis segui-
dores. De qualquer modo a ci-
dadania ter subido importan-
tes degraus, e h6 chance de se
consolidar num patamar de ra-
zo6vel aceitagao social. Se os
republicans permitirem ...
Rodolfo Lisboa Cerveira
MINHA RESPOSTA
Minha andlise sobre os riscos do
carisma em geral e de Lula em par-
ticular ndo permit correlaogo com
a tragPdia roman e de Jdlio Cdsar,
ou com Canudos. Acho que hd ca-
minho mais s6lido para consolidar
a repdblica e fortalecer os eternos
desfavorecidos da repdblica. Basta
ndo se deixar seduzir (ou satisfa-
zer) pelo brilho do carisma, seguin-
do seus ziguezagues e deixando de
lado padres mais exigentes de re-
laido entire governantes e gover-
nados. Eles podem ser alcangados,
sem requer tutores autoritdrios
nem animadores superficiais.

MEM6RIA
56 agora com acesso ao e-
mail, posso acrescentar alguma
coisa as lembrangas do leitor
Ruy Antonio Barata (JP 435). A Jo-
alheria Sul Americana assalta-
da na decada de 50, ficava na
Padre Pruddncio, e nao
na Campos Sales, em frente 6
Igreja de Santana, onde at6 h6
pouco havia um restaurant, j6
desativado. Ladr6es: Pierre Du-
valet e o ingles Jasper Marine
Eagle. Na Av. 15 de Agosto (atual
President Vargas) esquina da
Osvaldo Cruz, no terreo do Ediff-
cio dos Comerci6rios, foi inau-
gurada em 1953 a Nigth and Day,
"a maior sorveteria de Belem".
Edilson Silva


n spcrgndn I o s


volume da Memdria do Cotidiano, a se
qFo mais lida por parte dos leitores do
Jornal Pessoal. Junto com o volume anterior,
acho que os dois livros permitem uma visdo j
mais fntima e sempre individualizada da hist6-
ria de Bel6m e do Pard durante o s6culo XX,
sobretudo na sua segunda metade. Espero que
seja uma leitura prazerosa para todos e tam-
b6m um pouco instrutiva. A boa receptividade
primeira iniciativa reforgou o compromisso de
lanqar uma nova coletAnea dos textos, fotos e
ilustraq6es do JP. 0 apoio do amigo Reginaldo Cunha contribuiu para
viabilizar a empreitada, transformando-a em um acontecimento de final de
ano. No pr6ximo, quem sabe, estaremos de volta. Espero que os leitores
considered esse segundo volume da Mem6ria como fonte de prazer e uma
alternative de present nas festas de final de ano.


-Jomal Pessoal
Editor: Licio Flavio Pinto


Diagramaaio e ilustra96es: L. A. de Faria Pinto Contato: Rua Aristides Lobo, 871 CEP: 66.053-020
Fones: (091) 3241-7626 E-mail: fpjor@uol.com.br jomal@amazon.com.br Site: www.jomalpessoal.com.br


10 Jornal Pessoal FEVEREIRO DE 2010 1, QUINZENA


|IJl1









O jornalista Jorge Amorim divulgou no
seu blog "Na Ilharga" a seguinte nota:
"Hei, Liberal! Na cerim6nia de posse do
Dr. Jos6 Raimundo Trindade, na presid8ncia
do Idesp, entire os especialistas que partici-
param da abertura do ciclo de debates estava
o jomalista Liicio Flavio Pinto, nome que o
journal se recusa a publicar como se nao exis-
tisse, mas existe e presta inestimaveis servi-
gos ao estado do Pard.
E 6 bem maior do que esses editorials
hip6critas, como o de hoje, que pretensa-
mente defended a liberdade de expressio, as-
sunto sobre o qual O Liberal nmo tem ne-
nhuma autoridade moral para sobre ele dis-
correr, dado o seu long hist6rico de liga-
96es com o obscurantismo e o desrespeito
as liberdades cidadas".
Mandei uma mensagem ao blogueiro, agra-
decendo por sua gentileza: "O grupo Liberal 6
poderoso, mas, quando agride os fatos e os
escamoteia do seu registro jornalistico, trai
sua razao de ser (bem informar os leitores) e
joga uma rosa amarela e medrosa sobre o seu
epitdfio: aqui, a hist6ria nao aconteceu".
A exclusio do meu nome do registro em
todos os veiculos de comunicaao da famflia
Maiorana jA 6 um caso patol6gico. Ainda as-
sim, constitui uma anomalia, que cumpre de-
nunciar, al6m de nao ser a inica. Certa vez, o
recentemente falecido Tadeu Ponte e Sousa
foi mandado em avido fretado a Marabd para
cobrir um debate sobre o maior empreendimen-
to econ6mico entao em andamento no pais, a
fibrica de cobre da Salobo Metais, controlada
pela Companhia Vale do Rio Doce. O encontro
foi em pleno domingo, mas l6 estava o reporter
enviado de Bel6m e a equipe local da TV Libe-
ral. A razao? A Vale tinha se recusado a conti-
nuar a patrocinar o Saldo Arte Pard. Flagrada
em pecado mortal, apanharia at6 voltar a com-
parecer ao cofre do grupo Liberal.


Os Cavalcante conseguiram realizar uma
faqanha: o filho sucedeu ao pal na presid8ncia
do Conselho Federal da Ordem dos Advoga-
dos do Brasil. Alguma famfliajd repetiu o feito
na longa hist6ria da mais poderosa entidade
classista do Brasil, que represent a elite ainda
mais influence no pafs? N2o vou pesquisar, mas
nao me lembro de nada igual. Ophir Cavalcan-
te Junior assumiu o cargo rmximo da OAB na-
cional pouco mais de uma d6cada depois do
pai, Ophir Filgueiras Cavalcante, seguindo-lhe
fielmente as pegadas ascensionais.
Ambos ocuparam a presidencia da enti-
dade estadual, fizeram carreira na represen-
taq~o federal e passaram ao topo depois de
um drduo trabalho corporativo. Nao foi tare-
fa fAcil, apesar do crit6rio adotado pela Or-
dem, de fazer rodizio entire as cinco regi6es
brasileiras. Assim, passou a tender as sec-
cionais de todo pafs. S6 que para a eleicqo


Aquela era uma oportunidade que nao
podia passar em branco. Todos os prepara-
tivos sugeriam que haveria critics A em-
presa, que hoje 6 a maior da iniciativa priva-
da no Brasil. S6 havia um problema: eu era
o dnico palestrante. Tadeu me procurou e
exp6s seu problema. Lamentei nao poder
ajudd-lo. De volta A sede, ele escreveu um
bom e long texto reconstituindo o intense
debate. S6 nao identificou o autor das afir-
mativas aspeadas, que tantas polemicas
provocaram. Era uma oraqao cor sujeito
oculto. Ou psicografada.
Quando o piblico, formado por mais de
500 pessoas, se surpreendia diante de algu-
mas informaoqes que eu Ihe fornecia, lem-
brava-lhe que os dados jd tinham sido pu-
blicados neste journal. S6 nao se tornaram
de conhecimento mais amplo por se tratar
de uma pequena publicaq~o alternative. In-
felizmente, nao apareciam nas piginas da
grande imprensa, como de O Liberal, pre-
sente naquele moment, com seu enviado
especial na primeira fila. Sugeri aos presen-
tes que consultassem a ediqao do dia se-
guinte do journal para verificar o que iria sair.
A reaq~o deve ter sido semelhante A de Jor-
ge Amorim agora.
Uma empresajoralistica que assim pro-
cede sistematicamente (e nao apenas con-
tra um desafeto tao visado, como eu) pode
manter a ilusao de credibilidade por algum
tempo, mas nmo tanto quanto imagine nem
sobre tantos leitores quanto apregoa. O
crescimento do universe de espaqos jorna-
listicos, semi-jomalisticos e anti-jornalisti-
cos na internet se deve, em grande part, a
esse modo de proceder tao pouco profissi-
onal, 6tico e moral. Se a crenqa nesse tipo
de imprensa se estiola, permanece de p6 um
axioma: journal que agride os fatos agride a
si mesmo; se suicide involuntariamente.


de Ophir Jdnior nem houve dispute: ele foi
aclamado, s6 nao unanimemente por causa
da resistencia inicial dos mineiros. Mas o
suficiente para que a vez nmo fosse para o
Amazonas, de onde saiu Bemardo Cabral,
ou para qualquer outro Estado amaz6nico.
O fato foi muito comemorado entire advo-
gados que tamb6mfizeram part do revezamen-
to no piano local. Mas nio parece ter suscita-
do repercussdo mais ampla, proporcional ao
significado da empreitada dos Cavalcante. Tal-
vez porque a OAB de presidents como Ray-
mundo Faoro, que se tomaram referencia nao
s6 para as atividades corporativas de uma ca-
tegoria, mas para a sociedade como um todo.
Faoro foi jurista, al6m de int6rprete do Brasil
definitivamente incorporado A bibliografia na-
cional. Ha quanto tempo um personagem de
estatura equivalent ou aproximada nio passa
pelo alto da corporagqo dos advogados?


A anti-imprensa


FEVEREIRO DE 2010 1i QUINZENA Jornal Pessoal 1 1


0 perigo de viver

Dois irmaos de um secretirio do gover-
no do Estado, vitimas de seguidos assaltos
na regiao metropolitan de Beldm e da omis-
sdo da policia, podiam ser vistos como a
comprovacao da distancia que hd entire al-
gumas estatisticas e a realidade. Os ndme-
ros, apresentados recentemente pela Secre-
taria de Seguranca Pdblico, indicariam a re-
du~go da criminalidade e a eficdcia da sua
repressdo. Mas a "sensagqo de inseguran-
ga" da populaqao n~o se baseia em qual-
quer forma de fantasia: ter como origem os
dramas cotidianos dos cidadcos.
Os irmaos do secretirio dos transportes,
Valdir Ganzer, entrevistados por uma emis-
sora de televisao, disseram que gostariam
de ir para outro lugar mais seguro do que o
Murini, no municipio de Benfica. S6 nao vao
porque 6 do seu pequeno comdrcio no local
que tiram seu sustento e de suas families.
Ainda que o neg6cio esteja sujeito ao ata-
que dos criminosos, tem que encontrar um
meio de sobreviver sem esperar pelo socor-
ro do poder pdblico. A delegacia de policia
fica bem perto, mas 6 uma precdria instala-
cao ffsica, sem gente. "Nunca um delegado
veio aqui", disse o comerciante, apesar de
tantos apelos. Ser parent de um integrante
da cipula da administracao estadual de nada
vale para minorar essa situaqdo, o que pode
ser dado positive em relagqo as pessoas, mas
6 agua a mais para o moinho da incredulida-
de e da descrenca do cidadao.
E verdade que a inteligencia policial foi
aprimorada e dela, com base principalmente
em denfincias an6nimas, a engrenagem da
seguranqa se movimenta. Mas nao na pro-
porqFo das ondas de crimes, que desabam
todos os dias sobre as families, indistintamen-
te, e nem sempre como o seu oposto, muito
pelo contrArio. A letra da c6lebre misica de
Chico Buarque ("chame o ladrao"), virou hino
de 6pera bufa (e triste) em todo pais. Soa mais
ciustica em alguns lugares, como por aqui.
A mudanqa de hdbitos 6 um dado mais
poderoso. Todos sabem o quanto custa alte-
rar os hdbitos. A viol8ncia generalizada fez os
paraenses e, em particular, os belenenses -
se adaptarem aos riscos rotineiros. E crescente
o nilmero das pessoas que recorrem a bolsas
velhas ou aparelhos celulares avariados quan-
do vao a lugares perigosos (ha realmente pon-
tos negros na cidade, ou viver 6 que ficou
perigoso?): o objeto pode ser sacrificado sem
maiores prejuizos. Por isso entregam-no logo
ao assaltante. Caminhar virou uma esp6cie de
ginkana: o caminhante se mant6m atento, rea-
ge em attitude de defesa ou ataque quando
percebe que algu6m se aproxima. Raramente
consegue manter-se relaxado.
Muitos gostariam tamb6m de encontrar
um lugar mais seguro, melhor de morar. Nao
podendo sair, como os irmios Ganzer, pro-
curam se adaptar ao meio violent. O que
agrava a situagao, num ciclo vicioso cada
vez mais dificil de desfazer.


Feito advocaticio








Cidadio-de-arco-e-flecha, o caboclo Vicente Salles


Em 2011 Vicente Salles completara 80
anos de vida e 63 de atividades intelectuais
fecundas, que se espraiam por vaiios aflu-
entes do saber: antropologia, hist6ria, fol-
clore, musicologia, jornalismo. Sendo m6l-
tiplo, Vicente 6 uno. Produz incansavelmen-
te, como raros. Mas mant6m coer8ncia com
seu compromisso de revelar o que esta ocul-
to, encontrar o que esta perdido, denunciar
a causa da incultura e da inconsci8ncia.
Superando as doenqas que o tem aco-
metido nos dltimos anos e renascendo corn
as sementes do otimismo, ele surpreende mais
uma vez com um livro inico: Est6rias do El-
dorado nos tempos calamitosos da devas-
tacdo contadas pelo cidaddo-de-arco-e-fle-
cha e escritas pelo folclorista e historiador
Vicente Salles Fantasia desconcertante
(Thesaurus Editora, Brasilia, 179 paginas).
Em tom de folhetim, mas com as marcas
da literature de cordel, Vicente incorpora na
plenitude a "designagao pejorativa dos ha-
bitantes em geral e dos politicos da Amaz6-
nia que circulou no Rio de Janeiro, no par-
lamento e na imprensa, nos dltimos tempos
da monarquia", conforme o autor o define
no Indice de Particularidades, um anexo ins-
trutivo e orientador, juntamente cor o Indi-
ce OnomAstico. O cidadao-de-arco-e-flecha
recriado por Vicente conhece a pr6pria his-
t6ria, sabe interpreta-la e valorizd-la. Faz dela
sua arma de combat em defesa dos seus
valores e contra o "arrivista semiculto", que
serve de biombo A destruiqSo da Amaz6nia
e ao estabelecimento do colonizador.
O livro 6 a 2a edido, corrigida e amplia-
da, do 15 volume das micro-ediB6es do
autor (armas da guerrilha cultural que tra-
vou contra a desmem6ria regional e a arro-
gfincia external lanqada em 1998, que con-
tinha as "estorinhas infants" publicadas
originalmente na imprensa local entire 1970
e 1981. Sao cr6nicas que diverted, instru-
em, informam, alertam e iluminam. Vicente
circula cor naturalidade por todos os te-
mas, que aprendeu de leituras e de vivenci-
as. Conhece as pessoas, os lugares e os
acontecimentos, de muitos dos quais 6 tes-
temunha e de outros, referencia. Por isso,


fala cor intimidade, pleno conhecimento de
causa. Com indignaqao, mas tamb6m ironia
e humor, as melhores ferramentas para a ta-
refa de desmontar os preconceitos e as de-
turpacqes hist6ricas.
A forqa de Vicente nesses desafios pro-
v6m de sua attitude diante da vida: uma com-
binaqao de simplicidade com rigor, de tole-
rancia com integridade, de bonomia com alti-
vez. E cobrindo essas qualidades, a posiqao
que assumiu, ao lado da sua terra, do seu
habitante, da sua hist6ria, intransigente na
exigencia de que a voz do native seja ouvida
e sua vontade considerada. E uma prerroga-
tiva da sua pr6pria existencia e do que cons-
truiu antes da chegada do colonizador, do
novo dono de tudo, como reclama num dos
trechos mais expressivos do texto:
"Jodo Bobo viu que o bumba era uma fes-
ta e aprendeu a liqio do repartimento do boi.
Entonce foi pro rei e disse que assim, reizinho,
se faz o repartimento do Eldorado: tira o Aru-
manduba do coronel Z6 Jdlio e dA pro Daniel
Ludwig; tira o Amapd todinho do Cabralzi-
nho e di pro Antunes, primo do Roquefl6er;
tira o sul do Grdo-Para dos indios e di
pr'aquela fabriqueta de autom6veis, tadinha;


os min6rios, ou seja, o fil6 minhdo, tira ele e a
gente da um, jeito com os contratos de risco
cor a mineradora Vale do Rio Doce; o Trom-
betas tira dos mocambeiros e di pro japon8s
que s6 tem quatro filhos... E escancara a terra
do povo Bar6, fazendo franca a zona!"
Para quem nao consegue acompanhar sua
verve em evoludao acelerada, alfinetando ou
esbofeteando os transgressores, Vicente
acrescentou os dois anexos, com informaq6es
sumdrias mas, muitas vezes, in6ditas ou difi-
ceis de encontrar, que sao guias para levarem
o leitor a novas incurs6es no mundo cultural
amaz6nico, regido que esta muito long de
ser um desert de intelig8ncias, ao contrArio
do que proclama o conquistador e seus alia-
dos arrivistas semicultos. Vicente Salles da as
pistas e se coloca numa versao indigena do
fil6sofo grego Di6genes: armado de poranga
no lugar da mitol6gica lantema, a cata de um
verdadeiro home, Vicente acabari encontran-
do-o diante do espelho.

indice dos personagens
Selecionei duas das descriq6es de Vi-
cente Salles de personagens da hist6ria
contemporanea da Amaz6nia, como um ape-
ritivo para a leitura complete do seu livro.
Verbetes concisos e densamente informati-
vos. Definidores.
ANTUNES. Familia de capitalistas bra-
sileiros oriunda do Rio Grande do Norte que
se aplicou aos neg6cios de min6rios. Asso-
ciada a capitalist norteamericano, a gran-
de empresa dos Antunes (Icomi) explorou
at6 a exaustao o mangan8s do Amapa, ficou
a frente do cons6rcio que deu continuida-
de i aventura amaz6nica de Daniel Ludwig,
no Jari, com enormes perdas de capitals
piblicos e privados.
CURIO. Coronel. D6spota no tempo da
ditadura military de 1964 foi despachado para
"domar" os garimpeiros de Serra Pelada e a
guerrilha do Araguaia. Acabou ganhando
prestigio politico local e at6 emprestou o
nome para batizar uma comunidade planta-
da na Area devastada do sul do Pard e que
ele pr6prio administrou. Caso curioso de
construgao de um (pseudo) mito politico.


Livros

O Pard voltou a ter ativida-
de editorial de expresso. Ela
drena e estimula a produqao in-
telectual, dentro e fora das aca-
demias, fomentando a criativi-
dade e premiando a aplicaqao
dos pesquisadores. Ja ha uma
rede de editors universitdrias
locais, piblicas e privadas,
com regularidade na publica-
qao, a qual se juntou mais re-
centemente a Universidade do
Estado, a Uepa, abrindo alas
para sua presenga com a pri-


morosa edicio, no ano passa-
do, de Primeira Manha, de
Dalcidio Jurandir.
O Museu Emilio Goeldi re-
cuperou sua privilegiada posi-
qao editorial de um s6culo atrds,
langando seguidas publicacqes
de grande valor nos diversos
ramos do saber, cor qualidade
no conteddo e na aparancia,
como os recentes trabalhos so-
bre a mitologia dos indios Ara-
ra (contada pelo entao vice-di-
retor e atual director, Nelson Ga-
bas Jr., e Sebastioo Arara), a di-
versidade biol6gica das Areas


de proteq~o ambiental das ilhas
do Combi e Algodoal-Maian-
deua (organizado por MArio
Augusto Gonqalves Jardim),
pesquisas sobre as comunida-
des e as florestas do Aura (or-
ganizadas por Pedro Lisboa) e
um novo nimero da revista de
ci8ncias humans.
Espero poder dar conta des-
ses livros para comenti-los. Mas
quero deixar logo registrado meu
reconhecimento e admiraqao por
essa mdltipla e diversificada fren-
te editorial paraense, A frente da
qual estdo intelectuais jovens,


virios deles da terra, empenha-
dos em acabar com o vazio da
escritura regional.

Desculpa

Pego desculpas ao distinto
leitor pelo deficiente acompa-
nhamento de uma conjuntura
tdo rica (e pobre) e pelo atraso
na circulaqdo deste journal. Toda
a equipe do JP adoeceu e ain-
da n5o se restabeleceu naquela
plenitude sem a qual 6 impossi-
vel tratar de tudo que aconte-
ceu de relevant.


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