Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00337

Full Text



JANEIRO
DE 2010
2"QUINZENA


al Pesso;
AMAZONICA DE LOCIO FLAVIO PINTO


POLTICA


Tudo no leilao

Como das vezes anteriores, tudo indica que a eleigdo deste ano serd disputada em dois pdlos:
pelos que exercem o poder agora e pelos que o exerceram ontem. Uma "terceira via", como a
anunciada pelo ex-goverador Almir Gabriel, ndo passa de fantasia. Oufraude.


Cmo acontece hi virios anos,
menos de tr8s meses do en-
cerramento do prazo para o re-
gistro das candidaturas e a nove meses
do 1 turno da eleiqao, o eleitor paraen-
se tateia para identificar as tendencias
do process eleitoral no Estado. Ha um
dnico pr6-candidato, sacramentado no
final do ano passado: o economist Si-
mSo Jatene, do PSDB, que ji foi gover-
nador. Seu nome foi aprovado numa
pr6via partidiria, que devia eliminar
qualquer possibilidade de diverg8ncia
atrav6s de consenso na cdpula dos tu-
canos, que detestam bola dividida. Apa-

ACIARIA NO SERTAO


rentemente, essa unidade foi consegui-
da porque o dnico concorrente, o sena-
dor Mario Couto, desistiu e comp6s com
seu ex-quase adversario.
A desistencia de Couto foi interpre-
tada como uma traiqao pelo seu padri-
nho, Almir Gabriel, quejurava ndo pen-
sar mais em voltar ao centro do ringue
(apenas nao queria que Jatene ficasse
sob os holofotes). E pouco provivel que
o ex-governador venha a bater chapas
com Jatene na convengao do PSDB, em
abril. Nao tem correligiondrios suficien-
tes para isso. Mas desde o acordo de
Mario Couto, Almir abandonou de vez


seu domicflio no litoral de Sdo Paulo,
restabeleceu sua base ffsica em Bel6m
e tem concentrado sua bacteria de ata-
ques na dire~go daquele que era seu
mais intimo colaborador e amigo at6
recentemente. Essa metralhadora gira-
t6ria tem feito estragos. Inclusive ao
atirador, que, nesse ponto, repete a inu-
sitada impericia do seu novo desafeto,
que fisgou o pr6prio olho numa de suas
tantas pescarias pelo interior.
Dentre as vdrias denincias que Al-
mir tornou piblicas, uma 6 de maior gra-
vidade. Em outras circunstancias, teria
conTiniA 'iA PAsi


No 457
ANO XXIII
R$ 3,00


A JUSTICA POLEMIZA


3S./1


Im ,..,P2,







coNT1nUaipA Dac:PA
se transformado em escandalo. Disse
que Jatene sempre foi um element de
confianga da antiga Companhia Vale do
Rio Doce, tanto durante os oito anos
como o principal secretdrio na gestdo
de Almir como nos quatro anos seguin-
tes, quando o sucedeu no trono do po-
der executive estadual. Nenhuma novi-
dade at6 af, exceto a tentative do ex-
governador de se isentar de responsa-
bilidade nessa parceria.
De fato, as principals negociaq6es em
torno do imenso contencioso entire a
empresa e o Estado foram tratadas corn
(e por) Jatene. O governador, fiel ao seu
estilo trombudo, com humor sujeito a sl-
bitas mudangas dos ventos, permanecia
na retaguarda. Ora aplaudia, ora critica-
va. Mas era sempre quem decidia. Em
algumas situag6es forgou a Vale a ce-
der-lhe o que exigia. Em outras, quem
cedeu foi ele. A moeda de troca nem
sempre foi s6 nem principalmente a
causa pdblica. Por isso, o melhor cena-
rio para essas relag6es sempre foi mais
o gabinete do que o palanque ou a praca.
Se as paredes falassem, falariam muito
mais do que o agora irado Almir.
Desta vez ele foi muito mais long:
insinuou que a Vale deu dinheiro nao
contabilizado a Jatene para a campa-
nha na qual ele se elegeu, em 2002, con-
tando para isso com o total apoio do
ent2o govemador no cargo, no qual fa-
zia questdo de tudo saber e agora, por
conveni8ncia, adotou o cacoete celebri-
zado do president Lula, de nada saber.
Continuando na denincia, sugeriu que
a Vale, a maior empresa privada do
Brasil, pode ter contratado Jatene como
assessor quando ele entregou o cargo
de governador a Ana Jdlia Carepa, do
PT, em 2006, e nao ao seu padrinho fi-
ducidrio, que tentou voltar a chefia do
executive estadual pela terceira vez e
acabou derrotado.
Foi s6 uma insinuagdo, sem provas
e sem rastros. As duas jomalistas que
atenderam ao chamado do ex-governa-
dor e foram entrevista-lo, na verdade,
quase s6 o ouviram (Rita Soares, do Di-
drio do Pard, e Ana C61ia Pinheiro, do
blog A Perereca da Vizinha, nao pude-
ram gravar a conversa; Ronaldo Brasi-
liense, de O Liberal, o terceiro convi-
dado, desta vez nao atendeu a convo-
caqgo e o jomal dos Maiorana nada di-
vulgou a respeito).
Foi o bastante, por6m, para que a
cidade fosse inundada por comentdrios


e afirmativas sobre a rela~go contratu-
al entire a Vale e Jatene, imaginada e
"vocalizada" (como gostam de dizer
tucanos e petistas), mas ainda sem pro-
vas. Mesmo que elas nao surjam e o
tamb6m ex-govemador, na volta de mais
f6rias no exterior, desfaga a onda de
veneno, que pode prejudicar muito a sua
candidatura, com quem contaria Almir
Gabriel para abrir uma "terceira via" no
process eleitoral paraense, hi muitos
anos marcadamente bipolar (tanto no
seu sentido ideol6gico quanto, talvez,
psicol6gico)?
Dentro do seu pr6prio partido ele nao
tem mais lideranca capaz de ameagar
a confirma~io de Jatene, o preferido da
maioria. Precisou ir atras de reforgo em
outra freguesia. Diz j ter sido contata-
do por dois partidos, sem nomina-los.
Atacando raivosamente uma prevengao
suposta contra sua idade (77 anos), que
s6 ele consider como a causa da cam-
panha contra seu nome dentro do
PSDB, garante estar em plena forma:
seu badi de id6ias conteria 120 projetos
para desenvolver o Para, um tergo dos
quais inteiramente novos, que ele con-
cebeu a beira-mar, em Bertioga, indife-
rente aos apelos das orquideas pela
atengdo tantas vezes prometida e ou-
tras tantas ignorada.
Enquanto essa cascata de "projetos
estruturantes" nao desaba, o ariete para
romper a competigio em dois blocos
politicos seria o combat A antiga
CVRD, que 6 um Estado dentro do Es-
tado. Nessa investida, 6 mais provavel
que, ao inv6s de voltar ao inquilinato no
Palicio dos Despachos, na ca6tica ave-
nida Augusto Montenegro, o doutor Al-
mir se tome personagem de um Cer-
vantes nada adaptado aos tempos atu-
ais. Quem pode peitar a Vale, que no
Pard faz e acontece e nao esta nem af
para saber se no Bernardino aparece?
Jader Barbalho podia ser o Sancho
Panca, capaz de aceitar o important
papel de coadjuvante, ji que, contra to-
das as suas declaracges, o sonho que
ainda parece embalar o doutor Almir 6
se tornar o dnico cidadao eleito tres
vezes para govemar o Pard? Por falta.
de seducgo 6 que nao deixard de ser.
Na conversa com as rep6rteres, ele nao
poupou elogios Aquele que se tomou a
primeira causa do seu atrito com o pu-
pilo at6 entao querido. Justamente quan-
do Jatene se aproximou de Jader para
a alianga, que agora 6 a chave para a
"terceira via", Almir comegou a desti-


lar migoa e o tratamento dispensado ao
at6 entao amigo do peito passou a ser
caracteristico dos inimigos dentro da
familiar Gabriel.
Esse passado tao recent foi apa-
gado e na mem6ria foi inscrita a reve-
lagdo, feita As rep6rteres, de que Almir
sempre foi eleitor de Jader at6 que seus
caminhos se dissociaram, quando o
PSDB veio ao mundo da casca do
PMDB (ou do dtero). A partir desse
moment, com a decisive participagao
do doutor Almir e do seu ninho de tuca-
nos, Jader passou a ser a expressed de
todos os males do Pard, o Judas a ser
malhado em todas as eleig6es, o boi de
piranha para a passage de outras
manadas, nao muito diferenciadas do
bando que, sob a lideranga do ex-minis-
tro, andou pilhando o Estado e circunvi-
zinhangas, mais ou menos pr6ximas.
A posigdo de lideranga de Almir
Gabriel ji nao tem a solidez necessiria
para ancorar a inauguragdo da plurali-
dade politico-eleitoral, tao ansiada e tao
frustrada no Para. Nao s6 porque Ja-
der Barbalho e outros cardeais menos
votados o conhecem muito bem. E tam-
b6m porque, como quase todos os de-
mais, por vias diversas, raramente as-
sumindo de pdblico essa condiCgo, os
politicos comem na mao da Vale (e de
outras empresas menos capitalizadas e
assediadas). Ha um ambiente de expec-
tativas e de necessidades favoravel ao
surgimento de uma candidatura que nao
seja a derivada do exercicio present
do poder, ou remanescente do poder que
foi destronado. O que nao hi 6 o ci-
mento para consolidar essa ansia. O
Pard se tomou uma bacia das almas de
liderangas.
Por isso, enquanto nao surge um ter-
reno propicio A pastagem de uma zebra
eleitoral, as especulag6es sdo feitas em
torno da composigio dos dois campos
litigantes. Por enquanto, um 6 o da go-
vemadora Ana Julia Carepa, em busca
da reeleiqgo. Outro 6 do ex-governador
Simao Jatene, atras do qual os tucanos
tentam retomar ao dominio das r6deas,
que foram suas durante 12 anos segui-
dos, sem mudar a substincia da condi-
9ao do Para.
Em seus tres anos de mandate, Ana
Julia tamb6m nao cumpriu suas promes-
sas. Seus principals "projetos estrutu-
rantes" sao federal, comandados por
Brasilia, que nunca teve bons ouvidos
para os clamores paraenses (e amaz6-
nicos). Se a Unido cumprir o cronogra-


2 Jornal Pessoal JANEIRO DE 2010 2" QUINZENA








Solidariedade espanhola

atraves de voz chilena


0 site El Ciudadano, de Santiago do Chile, publicou, no
finalzinho de 2009, um comentdrio do jornalista
espanhol Bernardo Gutierrez que muito me honrou.
Bernardo circulou pela Amazonia e em Belim fez uma
long entrevista comigo, transformada em matiria para
outro site, este espanhol, La Insignia. Suas observances
estdo contaminadas pela generosidade, com a qual se
sensibilizou pela minha situacdo ("O jornalista-her6i
da Amazonia" e o seu titulo). Hd excess de boa
vontade para cor meu trabalho. Mas uma observaado
que ele fez me parece inteiramente just: a comparagdo
entire a repercussdo e o apoio mundial dado a
jornalista Yoani Sdnchez e a discreta cobertura sobre a
perseguigdo da qual sou vitima. Sugiro ao leitor cetico


a respeito que acesse o blog de Yoani e o compare a
este journal para decidir se Bernardo acertou ou ndo ao
apontar o contrast. Tambim estou ao lado da
blogueira cubana perseguida pelo governor de Fidel
Castro, mas seu conteudo ndo explica o culto que se
formou em torno dela como simbolo da resistencia e da
critical consistent a ditadura cubana.
Outro ponto na postagem de Bernardo que tocou minha
mente foi definir o Jornal Pessoal como "um verdadeiro
antepassado do blog". E ou ndo e? Cor a palavra, o
leitor. Oferego-lhe o texto de Bernardo como um convite
a usar a reflexdo de uma pessoa distant como um
chamado a andlise de quem, estando aqui ao lado,
parece ter-se homiziado em outra galdxia.


009: 76 jomalistas assassinados
(60 em 2008). 33 jornalistas se
qiiestrados. 1456 agredidos ou
ameagados. 151 bloggers e ciberdissiden-
tes press. O informed annual de Rep6rte-
res Sem Fronteiras, divulgado hoje (30 de
dezembro), tira o f6lego. O mundo se es-
tremece frente a casos como o da blo-
gueira cubana Yoani Sanchez. A direita
critical (com razdo) a saciedade a censu-
ra em Cuba. Mas o resto do mundo nao 6
muito melhor. Eu apenas quero chamar a
atengao de um caso, o do brasileiro Lucio
Flavio Pinto, que nem sequer est, entire
os 1.456 ameagados do ano.
Em 2008, publiquei uma entrevista
com L6cio Flivio Pinto, um dos mais
prestigiosos jomalistas da Amaz6nia,
Brasil e das Am6ricas. O titulo da ma-
t6ria falava por si: "A Amazonia 6 uma
imensa Sicflia verde". O texto desvela-


va a heroicidade deste jornalista que
durante 22 anos tem editado seu Jomal
Pessoal, um pequeno peri6dico indepen-
dente que nao aceita publicidade, 6 dis-
tribuido em bancas de Bel6m (a cidade
mais influence da Amaz6nia), um ver-
dadeiro antepassado do blog. Luicio Fli-
vio preferiu renunciar a qualquer tipo
de luxo, andar sempre de onibus, nao
viajar nunca, para dedicar-se integral-
mente ao jornalismo de qualidade.
Licio Flavio tern publicado tudo o que
ningu6m mais se atreve. Tem revelado
os maiores casos de corrupgao da Ama-
z6nia. Tem apontado com o dedo aos
culpados. E sua independencia Ihe tem
custado constantes ameagas de morte e
33 processes judiciais. Ningu6m, curio-
samente, o acusa de falsidade. Apenas
de manchar a honra dos culpados. O i6l-
timo absurdo ocorreu em 6 de junho de


2009, quando o Tribunal de Justiqa de
Pard condenou o jomalista a pagar aos
irmaos Ronaldo e Romulo Maiorana, pro-
prietdrios do imp6rio mediitico Organi-
zag6es Romulo Maiorana, afiliado a Rede
Globo, una indenizag~o de 30 mil reais
(uns 12.000 euros) por danos morais.
Licio se referiu As conex6es do pai
de ambos, Romulo Maiorana, com o
contrabando. A16m disso, a justiga o
proibiu de incluir os nomes dos irmaos
no Journal Pessoal. A multa, exorbitante,
impossibilita praticamente o exercicio
jornalistico de L6cio. E um escandaloso
atentado contra a liberdade de impren-
sa. E nem sequer esta no informed de
Rep6rteres Sem Fronteiras. No Brasil,
nasceu um grupo de apoio atrav6s do
qual qualquer pessoa pode fazer una
pequena doag~o. Vale a pena. O joma-
lismo esti em jogo.


ma ffsico-financeiro do PAC (Progra-
ma de Aceleragqo do Crescimento) e
tiver verbas para o assistencialismo la-
teral de massa, a governadora tera o
que inaugurar, indo de um ponto a outro
do Estado (ela tem zanzado, sim, mas
com pouca produtividade), e nao ape-
nas uma rotat6ria em Bel6m (sucesso-
ra melhorada do tdnel subaquatico e do
toboga de carro em fila 6nica da admi-
nistragao petista em Bel6m do tamb6m
arquiteto Edmilson Rodrigues).
Sera o suficiente para tirar a gover-
nadora do limbo da alta rejeigdo, talvez
at6 maior do que a de Jader Barbalho,
na qual ela ainda se encontra? E possi-
vel que sim, mas nao hi certeza. De


olho no pr6prio medidor de rejeig~o,
Jader ja decidiu: decisdo, s6 no mais
tardar que for possivel. O tempo 6, mais
uma vez, o seu maior aliado, qualquer
que venha a ser a definigqo que dard
atrav6s do PMDB. Se Almir Gabriel ji
consider nao s6 possivel, mas salutar,
um encontro com o anhanga de ontem,
para Jader nao hi incompatibilidades de
agenda. Ele pode conversar corn qual-
quer um, principalmente por ser procu-
rado para esses encontros. Por conse-
qiiencia, pode fazer acordo com quem
quiser. Ou nao fazer acordo.
Daf tantas especulag9es sobre quern
vai former cor quem. Se o PTB de
Duciomar Costa fomeceri o candidate


a vice-govemador ou ele saird do alia-
do PR. Se o prefeito de Bel6m, contra
todas as aparencias, compord corn o
deputado federal Jader Barbalho, numa
nova alianga, ou ambos enlagados ao
PT. Ou se Jader estari ao lado de Jate-
ne ou se formard um novo velho p6lo,
corn um peemedebista na cabega de
chapa. Nessa algaravia de hip6teses, o
que nao conta 6 as divis6es ideol6gicas,
as diverg8ncias political, as desavindas
visoes de mundo, que simplesmente ine-
xistem. Uma verdade axiomitica de
ontem some hoje. E vice-versa: o im-
pensivel se materialize de sibito. O
absurdo se toma racional. Tudo pode
mudar. Menos o Pard.


D 2' QUINZENA Jornal Pessoal 3


~B~I~ -~- ------~-----~---- s~ir~l~ne~prssasP---- --- _._ -----^---


JANEIRO DE 2010









Jornalismo na nuvem:


O titulo do livro do jornalista e ex-
politico Sebastido Nery (A Nuvem, Ge-
raqgo Editorial, 2009, 622 piginas) 6
um achado: permit o encadeamento
dos seus capitulos atrav6s de um elo
migico, como se, nas suas mdltiplas
aventuras, ele sempre tivesse um po-
deroso anjo-da-guarda a guid-lo e pro-
teg8-lo. Mas o subtitulo 6 infeliz e ine-
xato: 50 anos de hist6ria do Brasil.
Quando muito, meio s6culo de est6ri-
as da hist6ria do Brasil, para usar um
abuso lingiifstico que prosperou por
sua inspiragao, em Guimaraes Rosa.
Conforme sua maior especialida-
de, Nery conta "causos", com estilo,
ironia, humor. Raros jornalistas che-
gam i altura dessa sua nuvem nas
letras brasileiras, em alguns capitu-
los, como na reconstituigao dos seus
tempos de seminarista em Amargo-
sa, no interior da Bahia, sua terra
natal, antol6gicos. Outro texto mara-
vilhoso 6 sobre o encontro com Janio
Quadros, na casa dele, em Sdo Pau-
lo, em 1978. Tamb6m reproduz cr6-
nicas publicadas, que estdo entire as
melhores ji escritas no pais. Uma, em
especial, na qual reconstitui a che-
gada de Antonio Gallotti ao restau-
rante Antonio's, em Ipanema, no Rio
de Janeiro, depois de ter fechado
a venda da Light ao governor, um
dos mais cabulosos neg6cios da re-
pdblica, em 1978.
Euf6rico com o faturamento, o
advogado fala alto. Rep6rter aten-
to, Nery saca o cadeninho e come-
9a a anotar tudo. t "entregue" por
outro jornalista e escritor, Rubem
Braga, que alerta Gallotti, comensal
em sua mesa attitude nada 6tica
ou mesmo professional do grande
cronista capixaba. Nery tenta dis-
fargar passando o bloco para uma
amiga e lhe pedindo para continuar
a anotar. Mas Gallotti decide dar o
golpe e se instala na mesa de Nery,
quando, sob o compromisso do sigi-
lo, faz-lhe confid8ncias. O jornalis-
ta, a partir daf, mais por regras tur-
vas do compadrio do que por com-
promisso 6tico, ouve e nao revela:
"E conversamos mais de uma hora.
Pena que a conversa ficou confiden-


cial. Quem esti na minha mesa esti
na minha casa", sentencia Nery.
A frase 6 brilhante como ret6rica e
nada mais. Guardar o segredo por oca-
siao da publicacqo da cr6nica se enten-
de (embora talvez o melhor fosse o jor-
nalista ter recusado a confidencialida-
de). Mant8-lo 30 anos depois, quando o
personagem principal j morreu, torna-
se inaceitivel, mesmo que o jornalista
possa dizer em sua defesa que o morto
ji nao pode se explicar nem contestar o
relato. t um argument pifio: Cristo
morreu hi dois mil anos e nao deve ha-
ver uma semana sem um novo livro a
respeito dele.

Justamente esse epis6dio
assinala a diferenga entire
as est6rias que Sebastiao
Nery conta e a hist6ria. Esta
permanece ao largo do
brilhante jornalismo de
circunstf ncia, que Ihe deu
just fama. Seu livro nao pode ser
considerado fonte de refer8ncia sobre
esse meio s6culo durante o qual ele
atuou de virias maneiras, em diversos
locais e com distintos resultados. A ri-
queza de experi6ncias o credencia como
um professional especial na imprensa


Sebastigo Nery


ANUVEM


national, num lugar destacado. Mas
essa mesma diversidade bloqueou a im-
portincia do seu papel de jornalista, ao
obrigi-lo a se dividir entire politico, ami-
go, compare e parceiro dos persona-
gens principals dessa hist6ria de 50 anos.
Nao faltam ao seu livro detalhes sa-
borosos, de bastidores, observados corn
grande perspicicia. Nery transit corn
intimidade por um universe de pessoas
de vasto talent e que eram numero-
sas como poucas vezes aconteceu em
qualquer outro period da hist6ria bra-
sileira, corm nfase em Minas Gerais e
Rio de Janeiro. O otimismo de JK, sua
alegria e a liberdade que proporcionou
fizeram mais pelo Brasil do que seu
piano de metas, o desenvolvimento de
50 anos em 5. Mesmo assim, nao foi
propriamente uma "vit6ria consagrado-
ra" a que ele alcangou na eleigqo de
1955: teve 36% dos votos contra 30%
que ficaram cor o general (e ex-te-
nente) Juarez Tivora.
Foi, sim, uma vit6ria dificil, tendo que
enfrentar permanentes conspirag6es
contra a sua candidatura, a sua eleigao,
a sua posse e o pleno exercicio do seu
mandate. Juscelino, a despeito de sua
administragao controversy e pontilhada
de fatos condeniveis, tinha grande au-
toridade moral quando passou o car-
go ao seu successor, este, sim, dono
de uma "vit6ria consagradora". Di-
zia-se que, coerente com o estilo ude-
nista que adotou na campanha, Janio
Quadros criticaria a decantada cor-
rupgao do antecessor de corpo pre-
sente. Quando inquirido sobre como
reagiria nessa circunstancia, JK, corn
sua face humana notivel, teria res-
pondido corn naturalidade: "meto-lhe
a mao na cara". Um tapa talvez fos-
se o corretivo necessario para pre-
venir os 6rfaos de Janio (conforme o
titulo da pega de Millor Fernandes)
do desastre operistico de 24 de agos-
to de 1961, quando o home da vas-
soura moral renunciou para dar um
golpe A Charles de Gaulle (em ver-
sdo piorada) e acabou parando na
Europa, certamente corn alta octana-
gem no corpo desconexo. A vassou-
ra que seria usada na limpesa moral,
serviu A bruxaria.


4 Jornal Pessoal JANEIRO DE 2010 2- QUINZENA









o de Sebastiao Nery


Apesar do seu volume, A Nuvem
pode ser lido com rapidez e prazer.
Tamb6m com proveito informative.
Mas Nery, como um malabarista da
palavra, confiou demais na sua verve,
no seu talent cosmopolita, na sua for-
manao invulgar, no seu poderoso gla-
mour (que ele pr6prio nao se
cansa de exaltar ao relembrar
tantas conquistas amorosas
an6nimas, tao anonimas quan-
to seu primeiro casamento,
cor uma mulher cujo nome
nunca menciona no livro).
Abusou atW da nunca tao as-
saz celebrada mem6ria.
Comete erro primdrio ao
dar como nascido no Mara-
nh~o o paraense Evandro Oli-
veira Bastos, companheiro de
empreitadas, a maior delas o
semandrio Politika, editado
no Rio de Janeiro, tabl6ide de
24 piginas que circulou de
1971 a 1974. Foram "123 se-
manas sem falhar uma s6",
diz Nery, garantindo que o
journal s6 parou "quando o ba-
talhador e solidario Fernan-
do Gasparian langou e con-
solidou seu 'Opiniao'", cum-
prindo dessa maneira "um
compromisso nosso com
ele". Acontece que em abril
de 1974, quando Politika
acabou voluntariamente,
Opiniao estava mortalmen-
te enfraquecido pela ago violent da
censura ao long de dois anos de per-
seguigdo. S6 sobreviveu porque ado-
tou outro enfoque editorial, menos vin-
culado a conjuntura imediata e mais
preocupado com grandes quest6es,
mais intelectualizado. De qualquer ma-
neira, eram trajet6rias e qualidades
- distintas as dos dois jornais.
Em 6poca de ditadura aberta, Poli-
tika se apresentava como de oposiCgo,
o que era, de fato, s6 na aparencia. Por
via das d6vidas, Nery e Bastos trata-
ram de recrutar Adirson de Barros, por-
que "tem ligag6es militares". Se dedi-
casse mais tempo a tratar dessa expe-
riencia, talvez Nery desfizesse dfividas,
suspeitas e convicq6es quanto a razdo
de ser e de se manter de Politika. Mas


passa por esse capitulo como se pisas-
se em brasa. O andamento acelerado 6
o mesmo quando trata da sua participa-
gao no governor Collor, um desfecho co-
erente com a carreira desse tipo de jor-








) /



1.../


nalista, que fez est6ria na hist6ria da
imprensa brasileira.

Na fase baiana, hA o relato
sobre o Jornal da Bahia,
langado em 1958 e que teve
um papel important para
combater e denunciar os
coroneis da political local.
Nery colaborou, mas a peca chave foi
Jodo Falcao, que realmente escreveu
um dos capitulos mais importantes do
jornalismo da sua terra. Sufocado pelo
"feroz sargento baiano Ant6nio Carlos
Magalhfes", como diz Nery, o journal
foi vendido em 1983 e desapareceu em
1994. Os coron6is prosseguiram.
A contribuigao de Nery viria atra-
v6s do original Jornal da Semana,


?
/
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J
r


JANEIRO DE 2010 2' QUINZENA Jornal Pessoal 5


elaborado numa ponte area entire Sal-
vador e Rio de Janeiro. Mas a publi-
cacao nao era exatamente indepen-
dente, aut6noma, embora, indiferente
aos pr6prios dados que apresenta no
livro, ele proclamasse no editorial de
langamento: "Nao temos compromis-
so com ningu6m, a nao ser
com a verdade dos fatos
de carter piblico. Nao
estamos ligados a grupos
econ6micos nem politi-
cos". No entanto, o journal
comegou corn um "che-
cdo" assinado por Ant6nio
B albino, figure exponenci-
al da political baiana, que
dava "para pagar tudo do
primeiro mes: aluguel da
sede, papel, grifica e um
esquema de distribuicao".
Balbino bancou o custo do
papel usado da primeira A
iltima edicgo do journal,
al6m de dar outras "aju-
das". Desinteressadas?
Claro que nao. Teria, de
qualquer forma, contribuf-
do para modificar e me-
KIhorar as coisas na Bahia
porque o Jornal da Sema-
na se opunha as estripuli-
as do governador Juracy
Magalhdes. Mas se um
coronel foi prejudicado,
outro se beneficiou. E o
jornalismo ji nao era com-
prometido corn a verdade, ao menos
nao de forma incondicional. "Dez
anos de jornalismo politico fizeram de
mim um home politico", confessa,
lembrando-se de quando o Jornal da
Semana completou um ano. O politi-
co se confundiu com ojornalista, as-
sim como o seminarista com o con-
quistador. Todos tiveram agendas
cheias de acontecimentos, mas, ao fi-
nal do meio s6culo de est6rias (aos
77 anos de idade), questionando-se
sobre "o que ficou do que passou",
Nery foi exato na sua resposta lac8-
nica: "o amor". Certamente o balan-
go se revela superavitario para ele
como o dominio da imaginagao e da
fantasia. Para a hist6ria, nem tanto.
Ou pelo contrario.









Siderurgica em Marab:


Com investimento equivalent a 3,7
bilh6es de d6lares (5,3 bilh6es de reais),
o projeto da Acos Laminados do Pard
(Alpa), em Marabi, 6 um dos maiores
neg6cios em andamento no Brasil. Na
semana passada ele foi o tema de uma
audiencia p6blica, que atraiu quase duas
mil pessoas em Marabi mesmo. Ao fi-
nal, quem era a favor teve mais moti-
vos para reforgar sua posiqdo e quem
era contra nao arredou p6 de onde es-
tava. Como sempre acontece em tais
situag6es, as vozes dissonantes do coro
majoritario pediram novos debates. A
"questao" ainda nao estaria amadure-
cida o suficiente para possibilitar uma
decisao democritica sobre a implanta-
do do projeto.
E verdade que o dominio do tema
permanece restrito, mas nao saird des-
se nivel mesmo se mais dezenas de au-
diencias pdblicas forem promovidas.
Esses encontros se transformaram em
autenticos "cabos-de-guerra" entire gru-
pos a favor e contra. O audit6rio assu-
miu a condiqdo de plat6ia circense, ain-
da que na sua versdo eletr6nica p6s-
modera, a da televised (e suas exten-
soes culturais e tecnol6gicas, como a
internet). Ainda que a discussao seja
estendida a anfiteatros da democracia
direta a moda clissica dos gregos, 6 de
se duvidar que a plena consciencia seja
o combustivel para as deliberag6es. Os
grupos se moverao como as massas em
geral, seguindo palavras de ordem e
resumes simplificados e arbitrdrios.
Foi por perceber essa situaqao que
as empreiteiras Andrade Gutierrez, Ca-
margo Corr8a e Odebrecht produzi-
ram, junto cor a Eletrobris, uma ver-
sao executive do Relat6rio de Impacto
Ambiental do aproveitamento hidrel6-
trico de Belo Monte, O resultado foi
um livro de 197 piginas diditico, cla-
ro, bem informative. Podia ser lido,
entendido e servir de base para acei-
tagdo ou critica por qualquer pessoa,
mesmo o nao iniciado na complexida-
de de problems tratados. Claro que
nao era satisfat6rio para o t6cnico e o
especialista, sobretudo aquele que esti
fora da bitola dos "barrageiros" ou dos
meramente "desenvolvimentistas".
As coisas comegam a desandar
quando o simples interessado ignora o
material produzido pelos promotores das


obras, por consideri-lo suspeito ou con-
taminado pelo virus da malignidade in-
curavel, e o especialista nao se apro-
funda nos projetos completes, fazendo
uma leitura superficial ou "a v6o de pis-
saro". O debate se torna viciado e o
circulo vira quadratura. A decisao pas-
sa a defender da forga de cada lado,
da asticia, do acaso ou de fatores me-
nos delet6rios e muito mais gravosos.
Todos os empreendimentos comple-
xos projetados para a Amaz6nia devi-
am comegar por uma intense e profun-
da discussao t6cnica em lugares ade-
quados, como os acad8micos (mas nun-
ca restrita aos academicos). As parties,
munidas dos seus instrumentals te6ri-
cos e priticos especificos, e movidas
pelos compromissos dos seus oficios,
submeteriam os projetos aos testes de
consistencia.
Essa filtragem evitaria que falhas
primirias s6 viessem a ser detectadas
nas massivas audiencias piblicas, des-
viando o principal para o acess6rio ou
sanivel. Solidificado e coerente, ajus-
tado ao rigor t6cnico-cientifico, o proje-
to passaria para a critical da sociedade
e a abordagem political. Essas condicges
6 que deviam ser a marca das audienci-
as piblicas, exigidas para a concessao
do licenciamento ambiental, em carter
consultivo, nao como instancia delibe-
rativa (que 6 o Conselho do Meio Am-
biente). Sem a discussao restrita no pri-
meiro estigio, de consolidagdo, o circo
armado nas audi8ncias se torna in6cuo.
A definiCao na medigdo de forgas pode
tender a virios interesses, nao, neces-
sariamente, ao interesse piblico. Mas
por que nao se modifica o rito? Quem
tiver a prenda que a apresente.
Eu li o EIA-Rima produzido (mais
uma vez) pela Brandt, de Belo Horizonte,
terra de origem da antiga Companhia
Vale do Rio Doce, e apresentado em
outubro do ano passado. E um bom do-
cumento, praticamente esgotando o
elenco dos impacts socioambientais
positives e negatives do projeto. Nada
ficou de fora. Nao posso garantir se
todos os pontos foram tratados satisfa-
toriamente, mas eventuais insuficienci-
as nao constituem o aspect mais im-
portante da abordagem.
0 principal 6o acompanhamento, em
tempo real, de cada etapa da implanta-


9do da siderirgica. S6 assim sera pos-
sivel identificar seus efeitos, sua ade-
quargo a previsao e as provid8ncias
para evitar, circunscrever, mitigar ou eli-
minar as conseqiiencias ruins dessa in-
tervengdo. 0 fundamental, portanto, 6
a construgdo de um centro de monito-
ramento do projeto, sujeito nao s6 a fis-
calizagao dos representantes dos 6rgdos
p6blicos competentes como dos repre-
sentantes da sociedade civil, devida-
mente credenciados para essa tarefa.
Uma unidade do porte industrial da
Alpa, produzindo 2,5 milhoes de tonela-
das anuais de places de ago, precisari
de um apreciivel volume de energia. A
previsao 6 de 107 megawatts. A em-
presa sera auto-suficiente, gragas a dois
turbo-geradores, com potencia para 130
MW. Na folga, poderi ceder energia
para Marabi. A empresa assegura que
utilizari gases de process para a ge-
ragdo, mas provavelmente teri tamb6m
que recorrer a carvdo mineral. Ela im-
portari 1,9 milhao de
toneladas por ano, prin-
cipalmente para trans-
formar em coque, que,
junto cor um milhao de
toneladas de calcirio,
entrard no alto-forno
para produzir gusa, da
qual saira a bobina quen-
te para as places finals.
Esse process precisa
ser acompanhado cor
extrema atengao para
evitar a poluigao do ar.
Outro moment vi-
tal esta relacionado a
agua. Captando mais de
mil metros c6bicos por
hora, a siderirgica teri que
funcionar em circuit fechado
de reciclagem (como em re-
lagao a todos os seus in-
sumos) para evitar
um impact mais ..
forte sobre a hidro-
grafia da area. Ela
precisard descar-


6 Jornal Pessoal JANEIRO DE 2010 24 QUINZENA








ra o sertao vai crescer?


tar 1,3 milhdo de metros cdbicos por
ano de residues perigosos (al6m de
embarcar para fora 100 mil toneladas
de coque excedente e 587 mil tonela-
das de esc6ria). O centro de monito-
ramento em tempo real 6 indispensd-
vel para o control dessas operacGes.
Questoes como essas t8m tal ca-
racteristica t6cnica que nao deveriam
mais estar provocando celeuma inten-
sa, como ainda acontece. Se persiste
a desconfianga 6 porque a imagem de
seriedade e compromisso das empre-
sas ainda nao se consolidou (e algu-
mas nao parecem empenhadas em con-
quistar esse trof6u). Da mesma for-
ma, alguns representantes da socieda-
de nao tem desempenhado com serie-
dade o papel de intermediagio que Ihes
cabe. Um bom e acessivel ndcleo de
acompanhamento parece ser a melhor
maneira de resolver esse impasse.
Mas hi ainda quest6es pendentes,
que nao constam do process de licen-
ciamento e por isso nao estao no EIA-
Rima. Uma delas 6 sobre o impact hu-
mano da obra. Durante sua im-
plantagao, a siderdrgica vai
gerar 16 mil empregos. O
Sndmero caird para um ter-
go quando ela entrar em
operagdo, em dezembro de
2013, se o cronograma atu-
al for cumprido.
Os empre-
gos diretos
permanen-
tes serdo
ainda me-
nores:
2.600. Os
outros
2.500 se-
zados. E
esses nfd-
meros
em con-
sidera-
Sao para
evitar


uma insergao traumatica do empreen-
dimento na regiao e, sobretudo, em
Marabd.
A cidade tem crescido de forma ca-
6tica ha varios anos. A violencia 6 sua
marca hist6rica, desde as origens, em
fungdo dos ciclos de presenga e au-
sincia dos homes, que se deslocavam
da cidade para as areas de extrativis-
mo no interior, e voltavam trazendo (ou
encontrando) os impulses do conflito.
Essa caracteristica se multiplicou va-
rias vezes com os "grandes projetos",
consagrando tristemente a cidade
como "Marabala".
Deve-se treinar com urg8ncia mao-
de-obra qualificada e semi-qualificada
no pr6prio local para tentar reduzir a in-
tensa imigragdo previsivel (eja em cur-
so). Deve-se tamb6m preparar pesso-
as para criarem neg6cios destinados a
tender a terceirizagco, multiplicando
sua irradiagao. A Vale nao tem interes-
se em nada al6m da placa de ago, um
produto que nao 6 nobre na atual confi-
guragao do mercado siderdrgico. Apa-
rentemente, 6 vantajoso avangar mes-
mo que seja s6 at6 esse estagio na
verticalizagdo. 0 Brasil 6 responsavel
por 18% do min6rio de ferro (com o
restante da Am6rica Latina, a partici-
pag~o chega a 25%) e apenas 2,5% da
produgdo de ago.
Para que a produgdo da Alpa con-
quiste novos mercados ou desloque for-
necedores, em especial no mercado
asiatico, 6 precise reter o custo de cada
tonelada num valor entire 400 e 500 d6-
lares, segundo o projeto. Os chineses,
que estao um degrau acima entiree US$
500/600), e os japoneses (US$ 700)
poderao achar melhor importar do que
produzir places.
Mas 6 bom nao esquecer que o prin-
cipal problema dos chineses6 o min6-
rio, do qual s6 tem em seu territ6rio
14% do que precisam para seus 500
milhoes de toneladas de ago, que cor-
respondem a 38% do mercado mundi-
al. Nesse caso, a Vale exportara tudo
que puder. Averticalizagdo nao ira al6m.
A relag~o custo/beneficio entrara em
desequilfbrio. E algu6m que fizer um
calculo mais sofisticado em torno do
valor commercial e do teor de hematita
no min6rio de ferro de CarajAs (de
65%), ficara na d6vida sobre os ganhos


-==own 1- -n


JANEIRO DE 2010


com sua queima para chegar a pureza
de 94% na gusa. Ou mesmo sobre as
places de ago.
Nessa avaliag~o, deve-se levar na
devida conta o significado de instalar
uma aciaria de m6dio porte (para os
padres atuais) no interior da region
amazonica, ao inv6s de seguir a rotina
da fixagdo no litoral. Em Minas Gerais,
essa decision, que ja tem mais de meio
s6culo (a partir da inauguragao da side-
rdrgica da Mannesmann, o iltimo ato
de Getdlio Vargas, na companhia de
Juscelino Kubitscheck, antes de se sui-
cidar, em 24 de agosto de 1954), teve
um efeito ben6fico inegavel. Mas os
mineiros procuraram nao ficar depen-
dentes de uma s6 aciaria nem do pro-
cesso siderirgico. Buscaram a diversi-
ficagdo e o maior dos efeitos multipli-
cadores possivel. t a diretriz que tam-
b6m deve ser buscada desde ja na re-
gi~o do Araguaia-Tocantins paraense.
Ainda na fase de projeto, a Alpa ja
motivou iniciativas como a terceira fase
do distrito industrial de Maraba, em lo-
calizagdo melhor do que as duas etapas
anteriores (embora sob uma controver-
sa desapropriagco da area), e o desvio
de um trecho da rodovia Transamazo-
nica. As eclusas de Tucuruf, vitals para
o projeto, estao em vias de conclusio.
Mas ainda sera precise investor e pe-
sado para viabilizar a hidrovia de 511
quilometros entire Maraba e Vila do
Conde, onde tamb6m serao exigidos
custos para a capacitagio do porto para
as novas cargas.
A empresa precisa participar dessas
obras, sem as quais o fluxo podera con-
tinuar a ser feito pela ferrovia privativa
da Vale, at6 Sdo Luiz do Maranhio (que
tem o inconvenient de estar 220 quil6-
metros mais long do que Vila do Con-
de e ter um frete mais caro). O termi-
nal hidroviirio em Maraba nao podera
ser exclusive da Alpa e dos seus produ-
tos: terA que prever carga geral para
proporcionar beneficios maiores.
A agenda ainda 6 grande e repleta
de lacunas, que nao serao preenchidas
se o tratamento da questdo for emocio-
nal ou baseado em informa9Ges super-
ficiais, restritas ou desligadas de uma
visdo de conjunto. Como, infelizmente,
parece estar acontecendo, mais uma
vez, em relaqgo a um "grande projeto".


S2A QUINZENA Jornal Pessoal 7










MEMORIAL DO COTIDIANO


N. 304 N. 304

A ncilade quer urn Pari mlhor
con




ohiula I Depitide


FerlWK Federl



Joso Menezes
Atltice represeltute da inva peraci
N. 304 N. 304


PREGAO
Em 1954 a mercearia For-
taleza do Airao, estabeleci-
da na Cidade Velha, garan-
tia: "o melhor que quem vai
embarcar para o Sul ou para
Portugal pode levar para os
seus amigos 6 um paneiro de
farinha branca especial, fa-
bricada no Acari".
Ja as estdncias 9 de Janei-
ro e SZo Pedro anunciavam
que "resolveram criar uma
secao de vendas populares,
onde todos os materials sao
vendidos por pregos de cus-
to, revertendo os lucros para
as classes mais humildes da
cidade".
Ambos eram casos tfpicos
para um S~o Tom6.

ONIBUS
Havia 16 linhas de 6nibus
em atividade em Bel6m, mas
at6 1955 elas funcionavam
sem qualquer regulamento
ou mesmo amparo legal. S6
entao o delegado de transito,
Milton Dantas, convocou as
empresas "a fim de apresen-
tarem sugestoes para efeito
de ser estabelecida pelo Con-
selho Regional de Trinsito as
concessoes para as opera-
95es das referidas linhas",


que eram estaduais e ndo mu-
nicipais, como agora. As li-
nhas, cuja maioria comeCa-
va em Sao Braz, eram: Sao
Braz, Sao Braz-Canudos,
Sao Braz-Batista Campos,
Sao Braz-Mundurucus, Sao
Braz-Praga Amazonas, Sao
Braz-Arsenal, Sao Braz-
Matinha, Sio Braz-Humaiti,
Santa Isabel-Castelo, Santa
Isabel-Guami, Base Adrea-
Condor, Independ8ncia, Pe-
dreira, Tel6grafo, Sacramen-
ta e Praga CentenArio.

TREM
O Cfrio de Icoaraci de
1961 caiu no domingo, dia 12
de dezembro. O trem da Es-
trada de Ferro de Braganqa
fez oito viagens de Bel6m
para a "vila sorriso", levan-
do romeiros. A primeira as
4h45 da manhd e a dltima A
meia-noite. De retorno, fo-
ram cinco viagens, a primei-
ra As 5h40 e a iltima As 11
da noite. O percurso levava
quase uma hora. Uma via-
gem para valer.

PASSARELA
No final de 1961 o delega-
do de transito, ji ent5o Her-
minio Calvinho, finalmente


atendeu a um apelo insisten-
te: proibiu o trdfego de vef-
culos pela travessa Joao Al-
fredo, que era entao a "art6-
ria principal do nosso com6r-
cio", com as "suas casas de
modas, seus magazines de
luxo, suas casas de calgados,
suas camisarias e, tamb6m,
seus estabelecimentos ban-
cdrios", a atrair diariamente
"boa parte das camadas so-
ciais da terra", como regis-
trou Nilo Franco, na sua
"Cronica da Cidade", em A
Provincia do Pard.
O movimento de pessoas
era ainda mais intense aos
sibados, quando a Joao Al-
fredo se transformava numa
"grande, imensa vitrine ou
passarela de sol e de beleza
em que passeiam os encan-
tos dajuventude da terra", o
footing. A ameaga dos car-
ros era maior, mas persistia
nos dias da semana porque
nessa 6poca a rua "se apre-
senta cheia de tapumes, res-
guardando obras em pleno e
vitorioso andamento, uma
casa que se reform aqui,
outra que se poe abaixo mais
adiante, muitas mais que se
erguem, ou se renovam, nes-
se empenho em que se agita


o capital particular, de fazer
Bel6m progredir".
Bel6m, de certa forma,
progrediu ou cresceu, num
ritmo intensificado pela aber-
tura rodovidria da Bel6m-
Brasilia. Mas como se des-
caracterizou.

BANCO
O Banco Moreira Gomes
completou meio s6culo de
vida em 1965, quando come-
garam a circular rumors de
que poderia ser vendido.
Adalberto Marques, que
morava no Rio de Janeiro,
veio a Bel6m para assegu-
rar que o BMG continuaria
a ser paraense. Apenas es-
tava reformulando a sua di-
recao, da qual passaram a
participar Mirocles de Car-
valho e Ant6nio Nicolau da
Costa. Era uma adaptagdo
do seu complexo adminis-
trativo" ao "crescimento da
riqueza do Pard". Mas o ban-
co acabaria mesmo vendido,
como outros estabelecimen-
tos locals, engolidos pelas fu-
soes. Ficou a lembranga, es-
pecialmente para os paraen-
ses no Rio, que tinham na
ag8ncia da rua da Alfande-
ga uma extensao paraense.


8 Journal Pessoal JANEIRO DE 2010 2- QUINZENA


PROPAGANDA

Campeao de votos

Em 1962 Jodo Menezes se apresentou pela terceira vez seguida como
candidate do PSD a deputado federal e pela terceira vez foi vitorioso,
como "autentico representante da nova geraCdo" (ma non troppo).
Repetiu o exito, iniciado em 1954, ate 1982, quando concorreu ao
Senado por uma das sublegendas do PMDB. 0 eleito foi Helio Gueiros,
mas como Gueiros precisou se licenciar para concorrer ao governor, em
seu lugar subiu Jodo Menezes, depois de quase 30 anos continues como
deputado federal. A vit6ria peemedebista transformou em efetiva a
interinidade senatorial. Jodo Menezes se tornou uma legend: bastava-
lhe fazer campanha as vesperas da eleicdo, atendendo cabos-eleitorais
e clients, para amealhar votos suficientes para ganhar um mandate.
Prdtica das mais antigas na political universal.







"CUTIAS"
Dois autom6veis ameri-
canos contrabandeados (os
"cutias") um Ford de
1957 e um Chevrolet sem
data registrada apreen-
didos e leiloados pela al-
fandega em Bel6m rende-
ram pouco menos de 900
mil cruzeiros, arrematados
por Ant6nio Lima e Eloi
Couto. Ja 260 caixas de
ufsque custaram a Lufs
Orestes Bartelotti 2,8 mi-
lhies de cruzeiros. Um pa-
radoxo, que s6 se explica-
va porque provavelmente,
como em muitas outras si-
tuag6es semelhantes, dos
autom6veis foram retira-
dos components essenci-
ais, sem os quais ndo po-
deriam funcionar. E seu
valor, evidentemente, fica-
va muito baixo. Voltava ao
normal quando os tais com-
ponentes eram reintroduzi-
dos no carro, a margem da
sua legalizacgo, como o


A foto devia ter saido na
edicao passada, mas um pro-
blema de ediCao a suprimiu
da resenha sobre o livro da
hist6ria da AlbrAs, a maior
empresa com sede instalada
no Pard. Na foto de 27 de
outubro de 1985, o autor do
livro e president da Albris,
Romeu Teixeira, conversa
comigo na embarcacao que


motor. Daf Bel6m ser co-
nhecida nacionalmente
como a capital dos "cutias",
suntuosos e confortaveis
cadillacs americanos sub-


nos levaria naquele dia a so-
lene inauguracao da fibrica
de aluminio, tendo ao fundo
o assessor de imprensa da
empresa, Nl6io Palheta, e os
representantes dos s6ciosja-
poneses. Todos, devidamen-
te "empaletozados" para a
solenidade, que seria solene,
com a presenga do presiden-
te Josd Sarney (e seu casa-


metidos a esse original pro- FOTOGRAFIA
cesso de nacionalizacao (ou
regionalizagao). Hist6ria Autoridade


que alguns Torquemadas
tentam inutilmente apagar.


no circo

"Ai vem o circo",
program que Nequinho
e Alecrim comandavam
aos sdbados na TV
Marajoara, canal 2,
dos Didrios e Emissoras
Associados, a primeira
emissora de televisao do
Pard e da Amaz6nia,
teve um convidado
especial, em novembro
de 1961: o vice-
governador Newton
Miranda, do PSD
"baratista" (o mesmo
Partido Social
Democrdtico do
governador Aurelio do
Carmo). 0 simpdtico
politico do Xingu levou
consigo os tries filhos
(Nazard, Silvio e
Arthur), que ficaram na
arquibancada, como as
demais criancas. S6 a
autoridade teve direito
a uma cadeira. 0 vasto
auditdrio da TV
permitia o
funcionamento de um
circo para valer. Sem
mdgica eletr6nica.


cao de botoes entrecruza-
dos). E, alguns, para a festa
etilica, que atravessaria o dia
e bacteria records.
O livro de Romeu sobre
Albris merece ser lido e de-
via servir de estimulo para o
necessario debate sobre o
empreendimento, debate este
que, at6 hoje, nunca atingiu o
estdgio necessario.


JANEIRO DE 2010 21 QUINZENA Jornal Pessoal 9


Foto hist6rica








Errar e aprender


Ja esti nas bancas e livrarias o se-
gundo volume da Mem6ria do Cotidia-
no, a seqao mais lida por parte dos lei-
tores do Jornal Pessoal. Junto com o
volume anterior, acho que os dois livros
permitem uma visdo mais intima e sem-
pre individualizada da hist6ria de Bel6m
e do Pard durante o s6culo XX, sobre-
tudo na sua segunda metade. Espero
que seja uma leitura prazerosa para to-
dos e tamb6m um pouco instrutiva. A
boa receptividade A primeira iniciativa
reforgou o compromisso de langar uma
nova coletanea dos textos, fotos e ilus-
trag6es do JP. 0 apoio do amigo Regi-
naldo Cunha contribuiu para viabilizar a
empreitada, transformando-a em um
acontecimento de final de ano. No pr6-
ximo, quem sabe, estaremos de volta.
Espero que os leitores considered esse
segundo volume da Mem6ria como fon-
te de prazer e uma alternative de pre-
sente nas festas de final de ano.


O principal m6todo de alfabetizaCao
que tive foram as aulas de leitura. A
professor (e, depois, o professor tam-
b6m) lia um texto e ficdvamos acom-
panhando sua leitura, atentos ao "dis-
curso" e, ao mesmo tempo, recriando-
o com a imaginaCgo, ordenada ou va-
gueando vagabunda pelo 6ter. Assim
aprendi a ouvir antes que a profissdo
dejornalista exigisse esse atributo como
condiqao de oficio. Depois de ouvir, eu
pr6prio lia o texto, que se ligava a outro
texto e assim se formou uma biblio-
grafia A parte do curriculo escolar. Atri-
buo a meus mes-
tres da infdncia
ter me adestrado
na capacidade de .
saber ler, captan-
do exatamente o
que foi escrito, e ..
interpreter a leitu- .
ra, ji entdo adici- I
onando a parte
que me cabe. As-
sim evoluf sem tra-
ir o autor que me
permitiu seguir na
escalada.
Fago essas di- .
vaga~Bes porque,
lendo alguns dos
comentadores
dos meus artigos,
reproduzidos em -


diversos blogs e sites da internet, fico
na ddivida se o texto que eles comen-
taram foi o que eu escrevi. Por causa
daquele no qual tratei do carisma de
Lula (JP 455), fui colocado nas vestes
de um "Catao provinciano", quando
nao hi a menor possibilidade de fazer
essa associaqgo de id6ias sem trair o
que escrevi. Ou entao me classificam
ao mesmo tempo de dissimulado e
frontal oposicionista. Acham que es-
condo a mdo quando fago paralelismo
entire Hitler e Lula, querendo dizer na
verdade que Lula 6 Hitler, embora te-
nha feito dissoci-
agco complete
entire ambos,
lembrados em
.Y "' conjunto apenas
para efeito da
andlise que fiz
sobre o charisma.
De vez em quan-
to erro e nern
sempre 6 pouco.
c Mas deixem-me
errar com o que
disse de fato, ndo
pelo que me atri-
buem. Assim,
posso fazer o
que, mais do que
humilde, 6 inteli-
gente: aprender
com o corretivo.


JOURNAL
Tomei a iniciativa de iniciar
uma campanha solitiria, po-
rem gostaria que fosse aderi-
da pelos leitores fi6is do Jor-
nal Pessoal. A partir da pr6xima
edig5o comprarei dois exem-
plares a mais do JP para pre-
sentear parents e amigos no
intuito de difundir aos que nio
o conhecem e tambem de nao
perdermos essa fonte de infor-
magao tio necessaria e impar-
cial que a Amaz6nia dispbe nas
iltimas duas d6cadas. Se cada
leitor puder participar a vit6-
ria sera certa! O JP nao pode
parar.
Carlos Sacramenta
A. N. Costa


EIDORFE
O teu texto sobre o Eidorfe
[Moreira] 6 justissimo e mere-
ce grave atencgo. Eu fiquei es-
tupefato com a qualidade da
sua obra, que "descobri", como
um tesouro reluzente, na bibli-
oteca do Benedito Nunes. Ele
pode ser comparado, sem exa-
gero, com o Jos6 Verissimo, s6
que o seu alcance nunca sera
o mesmo, enquanto continuar
enterrado e escondido. t incri-
vel como espiritos como o dele
podem ser tragicamente aban-
donados. Isso porque nio te-
mos instituigbes culturais s6-
rias, que possam acolher ob-
jetivamente os v6os mais al-
tos da nossa intelig6ncia. Meu


trabalho com a obra do Bene-
dito, que nao precisaria do
meu esforgo para o reconheci-
mento que tem desde a d6ca-
da de 60, vai nesse sentido. t
precise preservar, resguardar
essas obras da acgo corrosiva
do tempo, e do poder dispersi-
vo da incultura nortista.
Precisamos atentar tambem
a obra do Dalcidio Jurandir, ou-
tra estrela literdria anuviada. E
precise reeditar autores como
Dalcidio, como Haroldo Mara-
nhio, como Eidorfe, com selos
que garantam a distribuig5o e
cuidem da obras, para que nao
sejam "canhestras", como dis-
seste. E acho que isso vale tam-
b6m para tua obra: por que nao


a editar numa editor de alcan-
ce national? A Amazonia, tu
sabes mais do que ningu6m,
nao 6 assunto local. Tu tambem
merecerias ser pago por uma
universidade ou um centro de
inteligencia amaz6nica para
estudar e compreender nossa
regiao. Mas 6 sempre nos ho-
mens, e no heroismo que rara-
mente alcanga os espiritos con-
centrados e perseverantes, em
que devemos confiar, pois o
personalismo brasileiro nao
alcangou a impessoalidade e
a objetividade institucionais.
Dai a minha estima e a minha
renovada admirag5o pelo teu
trabalho jornalistico.
Victor Pinheiro


-Jomal Pessoal
Editor: Lucio FlIvio Pinto


Diagramag~o e ilustragoes: L. A. de Faria Pinto Contato: RuaAristides Lobo, 871 CEP: 66.053-020
Fones: (091) 3241-7626 E-mail: Ifpjor@uol.com.br jomal@amazon.com.br Site: www.jomalpessoal.com.br


1 Qornal Pessoal JANEIRO DE 2010 2- QUINZENA


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Jornais de Manaus: fenomeno efemero?


Manaus tem quase 1,8 milhlo de ha-
bitantes, dos quais 965 mil leemjomais.
t o segundo maior indice de leitura de
jornais do Brasil, superado apenas pelo
de Porto Alegre, que 6 de 73%, segun-
do pesquisa do institute Ipsos Marplan,
divulgada no final do mrs passado.
Quem encomendou o trabalho foram os
jornais Didrio do Amazonas e Dez
Minutes, do mesmo grupo empresarial,
a Editora Ana Cassia. Eles seriam lidos
por 726 mil das 965 mil pessoas que
constituem o mercado dejomais impres-
sos da capital amazonense. Um indice
formidavel de dominio de 79%. Ainda
mais porque Manaus tem sete jomais
diirios, enquanto em Porto Alegre eles
sao apenas tres.
Cor essa pesquisa, os donos da cor-
poragdo procuram demonstrar o acerto
de suas decis6es. O journal mais antigo,
o Didrio, ter uma tiragem menor, mas
6 mais influence, por ser o preferido
pelos leitores cor mais de 35 anos. Ja
o Benjamin da cadeia, que ter menos
de um ano e meio de vida, se tornou o
de maior vendagem no Estado, por con-
quistar o piblico da faixa entire 18 e 24
anos, com tendencia a se dissociar da
imprensa conventional ou abandond-la
por complete. A conquista foi facilitada
pelos pregos dos jornais, o Didrio a 50
centavos e o Dez Minutos a 25 centa-
vos, os menores da pra9a.
Pelos dados do Instituto Verifica-
dor de Circulagao (IVC), a tiragem
paga do Dez Minutos 6 de 63 mil
exemplares, que o coloca em 12 lugar
no ranking national, e a do irmT o mais
velho fica pr6xima de 20 mil. Para co-
brirem todo o pdblico que Ihes 6 atri-
buido, cada exemplar deve ser lido por
10 pessoas, o dobro da m6dia maxima
constatada em pesquisas sistematicas
(ou mais do triple do fndice m6dio de
leitura). Os dois jomais amazonenses
estariam circulando por mais maos, o
que pode favorecer o crescimento da
vendagem mais adiante. Se a amplitu-
de ndo for fantasiosa.
Nao consegui ter acesso a integra
da pesquisa para poder analisa-la me-
Ihor. Ela confirmaria a tend8ncia re-
cente, sobretudo a partir da concorren-
cia da internet, de preferencia do pd-
blico por publicag6es impressas de lei-
tura facil, apar8ncia atraente e com
recursos para conquistar leitor (mulher


nua, crime, esporte, show-bizz, fofo-
cas e promoq6es comerciais). Mas se
a pesquisa da Marplan esti certa, ha
um component especifico no caso
amazonense para explicar o cresci-
mento espantoso do Dez Minutos em
tdo pouco tempo. Superou nao s6 os
seus concorrentes estaduais como que-
brou a traditional hegemonia dos jor-
nais de Bel6m, que nunca haviam sido
perturbados por qualquer outra publi-
caqgo regional.

De certa forma o indice
de leitura dos dois jornais
traduz a supremacia de
Manaus, que tern o 7
maior PIB dentre as
capitals do pais, sobre
Belem, que ficou na quarta
pior posigio. O indice de riqueza
material, por outro lado, 6 produto da
maior diversificagqo econ8mica e soci-
al da capital amazonense, com a pre-
senga marcante do imigrante, tanto pes-
soa fisica quanto juridica. Ele nao co-
nhece a hist6ria local nem tem compro-
missos com sua elite mais antiga.
A Zona Franca atraiu empresarios e
executives, mas tamb6m t6cnicos e ope-
rarios. Eles passaram a ter acesso a
uma versdo mais conventional do mo-
delo dejornais expresses, que 6 o Did-
rio, e outra mais ao gosto popular, mas
ambas com o atrativo de uma apar8n-
cia de independ8ncia e dinamismo que
faltou aos concorrentes, sobretudo o
grupo de A Critica, com 60 anos de ati-


vidade (e lfder disparado durante a maior
parte desse periodo.
A versao fast-food da familiar Cal-
deraro, o Manaus Hoje, nao deu para
a competigao e o 6rgao traditional nao
se renovou. O grupo do Didrio obteve
vit6ria complete, algo que a famflia Mai-
orana nao conseguiu com sua dupla O
Liberal-Amazonia contra o Didrio do
Pard, que imobilizou o segundo journal
dos oponentes com um caderno de po-
licia sensacionalista e andncios classifi-
cados populares. Ao inv6s de esmagar
o adversario, a aplicagao paraense da
formula provocou mais autofagia do que
expansao.
Essa 6 mesmo a formula do suces-
so, veio para ficar e sera o meio de re-
posicionar os jomais no universe das mi-
dias? Ainda 6 cedo para apresentar uma
resposta. No caso do Amazonas, os bai-
xos precos s6 poderdo ser mantidos se
surgirem novas formas de faturamento
- ou nos pr6prios jornais ou agregando
novas midias, como a televised, que o
grupo Ana Cissia nao tem. Esse inves-
timento tamb6m dependeri do future da
Zona Franca, atingida pelos efeitos po-
sitivos e negatives do cambio atual e da
crise international. E pela pr6pria posi-
9do editorial que os jornais assumirem
a partir da campanha eleitoral, identifi-
cados com o pdblico ou com os grupos
politicos. De qualquer maneira, o fen6-
meno Dez Minutos tem um efeito pro-
veitoso: obriga quem quer entender o
que acontece a examiner os fatos com
mais atenrao, rigor e lucidez.


JANEIRO DE 2010 21 QUINZENA Jornal Pessoal 11









O TJE cumpriu a meta 2 do CNJ?


Foi exemplar a sessao do Tribunal Pleno
do TJE realizada em 9 de dezembro do ano pas-
sado, presents 21 dos 30 desembargadores
(os oito ausentes se justificaram e o ex-presi-
dente, Milton Nobre, esta licenciado por ter
sido eleito membro do Conselho Nacional de
Justiga, o primeiro representante do Pard no
colegiado). Na abertura da sessao o presiden-
te, desembargador R6mulo Nunes, entregou o
certificado que o CNJ expediu para a desem-
bargadora Vinia Lticia de Azevedo da Silva,
por ter atingido a Meta 2 do Conselho, que
previa ojulgamento de todos os processes em
tramitago at6 2005. Ao inv6s de se tomar fes-
tiva, consagrando o combat h lentiddo dajus-
tiga no Brasil, a sessao passou a ser tomada
por controv6rsias.
Comegou quando o desembargador R6-
mulo Nunes se referiu a um expediente da de-
sembargadora Eliana Rita Abufaiad, comuni-
cando a existencia de apenas tres processes
da Meta 2 pendentes em seu gabinete. O pri-
meiro teve a sua tramitagao suspense por so-
licitago das parties, visando a composigio
de um acordo, enquanto os dois iltimos ji
tinham sido julgados, mas ainda havia o pra-
zo para a interposigqo de eventuais recursos,
explicou a magistrada.
Em seguida, a desembargadora C61ia Re-
gina de Lima Pinheiro disse que faria uma co-
locago "bem oportuna" em funcao da entre-
ga do certificado h desembargadora VniaAze-
vedo da Silva, porter concluido os processes
da Meta 2 em seu gabinete, e tamb6m sobre o
oficio da desembargadora Abufaiad mostran-
do quantos processes ainda estavam pen-
dentes de diligencia ou alguma outra situa-
9do. Lembrou que provavelmente em setem-
bro se manifestou naquele mesmo plendrio
"dizendo que do jeito que estava seria at6
inviivel cumprir a Meta 2".
Explicou ter saido de f6rias no dia 9 da-
quele mes e na semana do seu retorno foi avi-
sada que estava chegando ao seu gabinete
um process de Meta 2. Reafirmou entao o
que anunciara: ndo iria jurar suspeiqo sobre
processes de Meta 2, por isso ia ficar dificil
cumpri-la: "Nao devolvi nenhum process.
Fiquei com eles e os analisei, decidindo". Por
isso, considerava ter atingido a meta estabe-
lecida pelo CNJ, porque o ultimo process
que ainda dependia de julgamento no seu
gabinete seria julgado naquela mesma ses-
sao do Tribunal Pleno, o que a deixava muito
feliz. No entanto, informou que acabara de
receber dois novos processes da Meta 2, que
Ihe foram redistribuidos, sem que pudesse
decidi-los de imediato, monocraticamente (sem
defender dos seus pares de tribunal).
"Nao estou aqui questionando, dizendo
nada ao meu colega, quejurou suspeiqo nos
dois processos,'e por isso foram-me redistri-
buidos. Quero dizer a todos que nao voujurar
suspeicao, mas vou comunicar ao Conselho
Nacional de Justiqa". A desembargadora dis-
se que dava por cumprida a meta porque as
normas legais nao Ihe permitiamjurar suspei-
9o: "Meu dever 6 processar e julgar". La-


mentava, mas ressalvava: "nao vai ser um
certificado que vai me alterar em nada". Aexis-
tincia dos dois processes nas estatisticas sig-
nificaria "tio somente ndmeros": "ningudm
vai aferir e nem vai justificar na estatistica
quando eu recebi estes processes".
A desembargadora Vania Silva interveio
para dizer que partilhava o mesmo sentimen-
to da sua colega: estava alegre porque na-
quela mesma sessao era revisora do julga-
mento do iltimo process da desembarga-
dora Brigida Gongalves dos Santos de Meta
2, "que tamb6m veio por motivo de redistri-
buicgo, process antigo, quando ela tinha
quase que zerado".
Foi a vez de o desembargador Joao Maroja
falar para manifestar a impressao de que a Meta
2 "parece que veio para fazer constrangimento
para todos n6s". Confessou ter dois proces-
sos. Pedira inclusdo de pauta para um deles,
aco penal contra um promoter de Justiqa, que,
s6 no Minist6rio P6blico, "passou um ano e
dez meses para receber parecer". O outro pro-
cesso tamb6m era uma ado penal, desta vez
contra uma promotora dejustia. Observou que
"essa moqa me tem criado mil embaragos no
process, s6 faltou arrolar testemunhas em
Nova York para eu ouvir".
Ressaltou ser essa "uma instrugao que nao
posso absolutamente fazer de modo agodado
sob pena de estar prejudicando o amplo direito
de defesa. S6 registro que o Conselho Nacio-
nal de Justida coloque nesses terms, pressed
em cima de n6s e depois premia... Acho abso-
lutamente dispensivel esse pr8mio do Conse-
lho Nacional, porque eu cumpro a minha meta
sem qualquer preocupaqo, 6 ponto nrnmero
um celeridade no meu processo.
Foi entao a vez de a desembargadora Luzia
Nadja do Nascimento se aliar A desembarga-
dora C61ia Regina em relagqo ao tema: na v6s-
pera tamb6m recebera um process de Meta 2
por redistribuiiao e que, por estar em dilig8nci-
as, nao podia ser julgado, embora sem estar
parade. Por isso, nao atenderia a meta, mas
tamb6m nao a violaria, porque ela nao podia
limitar a agio dos magistrados. Admitiu que a
iniciativa do CNJ "veio cor certeza pelo cla-
mor da sociedade. Isto n6s nao podemos dizer
que nlo foi, e que ela esta tendo resultado,
esta sim, nao podemos dizer de forma diferen-
te. Contudo, o 2 grau nao s6 fica restrito a
decidir processes de Meta, ele recebe manda-
dos de seguranga, agravos, tem os processes
dos idosos que tnm prioridade, que tem que
dar andamento. Quer dizer, a Meta 6 s6 umplus
para n6s do 2 grau".
O desembargador Claudio Montalvao pe-
diu a palavra para reforgar a manifestagao das
colegas. Disse que se esforgou para cumprir a
exigencia do CNJ e que, finalizando seus jul-
gamentos, igualmente recebeu um novo pro-
cesso de Meta 2. "Fico realmente enojado e
estou argiiindo minha suspeigao, sim, porque
entendo que 6 fora de cabimento, deveria ter
um meio; estes processes redistribuidos no
mrs de outubro ou novembro para o colega,
deveria ter em escape, porque vdo dizer que


ele ficou, nio cumpriu a Meta 2, mas nao sabe
que voc8 exerceu um esforgo tremendo para
julgar todos, e de uma hora para outra chega
um process sem soluqao". Assim, nao se
sentia a vontade "parajulgar um process da
Meta 2 em dezembro", quando estava cum-
prindo a sua parte.
A desembargadora Albanira Bemerguy
tamb6m decidiu se manifestar, "embora eu sin-
ta que 6 pregar no desert, mas continue pre-
gando no desert, nao tem problema". Sua
opinion era de que "estamos andando em cir-
culos". Em conversa com a corregedora dejus-
tiga disse que ningu6m devia ser penalizado.
Em primeiro lugar porque esses processes cons-
titufam "'heranga maldita', que n6s chamamos
porque houve desembargador que deixou dois
mil processes, se aposentou belo e faceiro e
bonitinho", transferindo o 6nus aos colegas
que permaneceram na ativa. Mas nao citou o
nome do magistrado relapso, que acumulou
tantos processes sem julgi-los.
A ex-presidente do TJE disse nao ser con-
tra a iniciativa do CNJ, mas destacou que o
judiciario precisa ter condi6es "para cumprir
essas exig8ncias, essas demands, essas me-
tas que estao sacrificando magistrados e ser-
vidores: 6 depressao, 6 estresse, tudo mais".
Exemplificou que ojudiciario paraense vai po-
der contratar mais 50 juzes, quando precisaria
de 200 para dar conta de tantas e tao comple-
xas quest6es, como as fundidrias e as ambien-
tais. Foi autorizada a contratagao de apenas
um psiquiatra para tender milhares de neces-
sitados, quando ademandarequeriamuito mais.
No entanto, s6 era destacada a cobranga,
sem as medidas de apoio para tender o servi-
qo. "Quer dizer: ganham marketing, parece que
estao resolvendo o problema dajustiga do Bra-
sil, mas nao estao, ao contrrio, estao penali-
zando injustamente magistrados que nao tem
mais a quem recorrer"
O desembargador Leonam Gondim J6nior
informou que, consultando os arquivos do dia
em relagao A semana anterior, constatou que
os processes pendentes no judiciario do Pard
haviam baixado de 230 para 166. Nao sabia di-
zer "como esse crit6rio de baixa, eji me disse-
ram que s6 vale quando transit em julgado".
Discordou, argumentando que hb recursos
"que nao dependem de mim", e que ainda esta-
vam tramitando em seu gabinete 15 processes
(quase 10% do total), embora estivesse redo-
brando suas jomadas de trabalho (na v6spera,
dormira apenas quatro horas reclamou).
A desembargadora Maria do Carmo Arai-
jo e Silva anunciou que tamb6m nao iria cum-
prir a meta, "porque os processes ficam de-
pendentes de recursos e hb processes em dili-
gencias, mas na minha sala nao tenho mais
nenhum". Estava trazendo o ltimo parajulga-
mento naquele dia. Mas recebeu uns 15 dias
antes "um process de 17 volumes, 6 um pro-
blema s6rio. A desembargadora C61ia Regina
est, reclamando ejd nao posso mais nem recla-
mar porque 6 muito complicado".
E assim a sessao chegou ao fim. Mas
nao a Meta 2.