Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00336

Full Text



JANEIRO
DE 2010

1" QUINZENA

A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO


A carta falsa


0 ex-governador Almir Gabriel produziu mais um dos documents falsos dos
quais a histdria brasileira tem sido pr6diga. Aparentando dizer adeus a political,
tenta criar a image de santo guerreiro contra o dragao da maldade.
Imagem forte, mas falsa. Ndo hd santo na political do Pard.


G ex-goverador Almir Gabriel
ecidiu renunciar a condiqao
de president de honra do
PSDB do Para (sem, entretanto, se des-
filiar do partido, conforme tamb6m
anunciara, tr8s semanas atras). Tomou
a decisao por causa dos "atuais desvios
dos principios politicos e 6ticos que o
alicergavam". O principal desses moti-
vos seria "a rendigao ao atual represen-
tante exibicionista do Bradesco na Com-
panhia do Rio Amargo, somada ao go-
vemo egocentrico de Sdo Paulo, 'terri-
torializando' a recolonizaqgo da gestao
pdblica do Para, dividido e agachado,


ALBRAS, A GIGANTE


no moment especialmente favorivel
para derrotar o petismo obeso e obtuso
que retensamente [pretensamente] go-
verna o Estado, hoje".
Essa frase de efeito e bombistica
nao saiu da cabega de quem pensa em
abandonar a dispute pela indicacao
como candidate ao govemo do Pard, que
seria o prop6sito da carta. Sintomatica-
mente, ela foi remetida ao Didrio do
Pard, mas nao ao PSDB, que aguarda
por sua postage at6 hoje. O ex-gover-
nador tucano anunciou o que faria e
nao fez. Trata-se de um document uti-
litario, a versdo ao tucupi de outros


exemplos tristemente famosos na his-
t6ria brasileira por nao serem aut8nti-
cos. Ou, no caso, nao ser sincere.
Na verdade, Almir Gabriel apenas
esbogou a inten0ao de abandonar a
guerra de guerrillas que adotou junto
ao grupo atualmente hegem6nico no
PSDB, para impor novamente (pela
quarta vez) sua candidatura, contra a
posigdo da maioria dos seus correligio-
ndrios. Mas o que ele tentou foi criar
para uso pr6prio uma bandeira de cam-
panha, a partir da identificacgo de um
inimigo, de um monstro com miltiplas
COnTiUA iNAPAG


NO 456
ANO XXIII
R$ 3,00


DEMOCRATS IMORAIS


I P iws A7


WI PG







CONTMAUA0o DACAPA
cabegas: a antiga Companhia Vale do
Rio Doce ("amargo", na recriaqgo nada
original do ex-governador), seu princi-
pal executive, Roger Agnelli (o "repre-
sentante exibicionista do Bradesco"), e
suas derivag6es, que tanto favorecem
o PSDB do governador paulista Jos6
Serra quanto o PT do president Lula e
da governadora Ana Julia Carepa.
Na carta, Almir manifesta a crenga
no surgimento de "novos lideres", que,
junto com o povo paraense, "dardo as
respostas e lig6es adequadas pelo voto
soberano livre altivo de sua maioria".
Como nao ha um novo lider enquadri-
vel nesse perfil, que tal pensar na volta
do Santoo guerreiro" Almir Gabriel, o
dnico que se apresenta com a disposi-
95o de enfrentar.o dragdo da maldade?
S6 se o povo paraense abstrair duas
coisas: a mem6ria e a verdade. Se a
Vale se tornou o principal personagem
em terras paraenses, atuando com de-
senvoltura tanto na economic quanto
na political, e se esse poder de mando
assumiu nova forma colonial a partir
de uma sede metropolitan real, que 6
Sao Paulo, o doutor Almir Gabriel nao
tem a menor autoridade moral, 6tica,
political ou administrative para se apre-
sentar como o cavalheiro imaculado,
capaz de reconquistar a autonomia e a
dignidade do Pard. O capitulo mais re-
cente dessa "territorializacgo da reco-
lonizagdo", para empregar o patoa -
repleto de neologismos do tucanato
dubidativo, comegou durante o primei-
ro mandate do governador Almir Ga-
briel (1995-1999).
Primeiro foi quando a CVRD foi pri-
vatizada pelo president Fernando Hen-
rique Cardoso, de uma forma nao s6
lesiva aos interesses nacionais (e A pr6-
pria 16gica do mercado), como illegal e
moral, ji que nem as regras do edital
de venda foram respeitadas pelos ven-
dedores. Em seguida, foi quando o de-
putado federal do PSDB de Sao Paulo
(e ex-ministro de Fernando Collor de
Mello), Antonio Kandir, props uma lei
isentando de ICMS as mat6rias primas
e produtos semi-elaborados que fossem
exportados. A media sangrou em es-
pecial dois Estados: o Espirito Santo e o
Pard. Os capixabas conseguiram criar
sucedaneos e paliativos para a hemor-
ragia. Os paraenses ficaram na "ver-
balizagdo", exercicio caracteristico dos
tucanos. Vit6ria ter o melhor PIB per
capital dentre as capitals do Brasil. Be-


16m, o quarto pior. A diferenga entire uma
e outra 6 de seis vezes (600%).
O doutor Almir esbravejou a princi-
pio, mas se enquadrou ao puxao de ore-
lhas da direcao national do seu partido
e a iniciativas de prestidigitagao da pr6-
pria Vale, algumas feitas diante do p6-
blico, outras em gabinetes fechados. O
governador se deixou levar at6 por uma
pantomima primdria, cedendo sua pre-
senga solene para o lancamento da pe-
dra fundamental da usina de cobre da
Salobo Metais, em Marabi, que nao
passava dejogo de cena, para calar sua
excelencia. Como, de fato, calou.
Incoerente com o que s6 agora afir-
ma, o governor do doutor Almir conce-
beu no ano 2000 a lei 6.307, que am-
pliou os beneficios para a Vale ao asse-
gurar o diferimento do ICMS "aos con-
tribuintes que realize operag6es rela-
tivas A extragao, circulacgo, comercia-
lizagdo, opera95es e presta96es de ser-
vigo de transport de bauxita, alumina,
aluminio e seus derivados, manganes,
min6rio de ferro, no territ6rio do Esta-
do". t quase a mesma lei (5.758) que
favoreceu a Vale em agosto de 1993,
da lavra de Jader Barbalho, do qual o
doutor Almir diz-porque-diz ser diferen-
te, o oposto, a alvura da pureza em con-
traste com o negror da indecencia.
A media abriu um enorme guarda-
chuva para a companhia se proteger (e
se desviar) da cobranqa de imposto, in-
clusive a devida, desfavorecendo o era-
rio. Mas ji se enquadrava na perspecti-
va do govemador, de que seria precise
ir al6m do limited da responsabilidade
(outro jargdo national tucano) para
transformar um poste eleitoral em seu
successor, na elei9go de 2002. Daf o ran-
cor e o 6dio de Almir contra Simao Ja-
tene, que Ihe devia ser submisso por-
que sua eleigdo s6 se tornou possivel
pelo uso extremado da mdquina official,
azeitada por recursos legais e "nao con-
tabilizados" (para usar outro neologis-
mo, este petista).
Nesse period, a Vale ou era farta-
mente elogiada ou favorecida por silen-
cio obsequioso. Ela foi responsivel por
quase dois tergos dos recursos oficial-
mente utilizados pelo PSDB para ele-
ger Jatene governador. Foi a campanha
estadual que mais a empresa ajudou em
todo pais. Af, sim, guardando alguma
proporgSo cor o tamanho dos recursos
que a empresa explore no Para.
Mesmo sendo incoerente, Almir Ga-
briel tem razdo quando langa o v6u do


descr6dito sobre todos os governado-
res que se relacionaram corn a mais im-
portante entidade em atuagao no Esta-
do, que 6 a antiga Companhia Vale do
Rio Doce. Seu primeiro interlocutor no
poder foi o senador e ministry Jarbas
Passarinho, que p6de colocar seus pro-
tegidos em cargos de direcgo local da
empresa e usar sua estrutura para ter
mobilidade na extensa base territorial do
Estado. Ja Alacid Nunes usufruiu a po-
sigSo de integrante do conselho de ad-
ministracgo da companhia, al6m de ou-
tros mimos. Aloysio Chaves, fiel A sua
postura hieritica, andou trocando far-
pas com a empresa e obrigando-a a
engolir algumas de suas posi96es, mas
foi traido pelo epis6dio da venda das
terras de Carajis, que langou pingos de
lama sobre o seu governor, a partir de
dentro dele.
A Vale achou que ia comegar a ter
problems quando assumiu o primeiro
govemador de oposiqao, o primeiro tam-
b6m eleito pelo povo desde 1966. Eu
estava nos funds do cinema de Cara-
jis quando a cupula da companhia teve
o primeiro contato com Jader Barbalho.
Seu pronunciamento frontal e critic
- impressionou virios executives, que
foram li atris no cinema pedir infor-
magao sobre ojovem politico, para eles
uma surpresa e um choque. Esse esta-
do de espirito ainda persistia, embora j
atenuado, quando Jader discursou na
inauguracao da Albris, em outubro de
1985, e incorporou posiq6es dos criti-
cos do projeto. Mas logo se viu qual tra-
tava-se de figure de linguagem, para
usar uma expressed polida.
A Vale tem sido alvo de muito tiro-
teio no Pard, mas, sem exceg9o, quan-
do a carga parte das posigbes de po-
der, 6 fogo de artificio e bala de fes-
tim. Ou moeda de troca. 0 PT e a go-
vernadora Ana Jilia Carepa falam da
companhia como de um belzebu, mas
acabam de incorporar 180 milhoes de
reais aos cofres publicos, gragas a um
acordo, atrav6s do Programa de Re-
gularizagdo Fiscal das Empresas do
Pard (o Regular), criado em 1 de
agosto e ji extinto. Do total dos valo-
res acertados, 90% foram recolhidos
pela Vale, que pagou quase R$ 180
milhoes, A vista, e economizou outro
tanto de d6bitos acumulados, ji inscri-
tos na divida ativa ou sob execugao.
S6 nao foi um neg6cio da China, ao
qual a empresa esti tdo acostumada,
porque foi ainda melhor: um neg6cio do


2 Jornal Pessoal JANEIRO DE 2010 1- QUINZENA








0 tempo da moral, a moral do tempo


As cenas de corrupdao explicita do
mensalo do partido Democratas de
Brasilia, ameagando espraiar-se por
outros partidos e outros Estados, 6 um
dos mais traumiticos acontecimentos
da vida republican brasileira. Estd
certo que o autor das gravagSes tem o
perfil de um canalha, seu objetivo 6
espirio, nao estd afastada a hip6tese
de manipulacgo nas gravaSoes e viri-
as outras circunstancias desabonado-
ras. Mas uma conseqiiencia concrete
e drdstica devia ter acontecido. E, fin-
do 2009, nao aconteceu.
Se o pais tivesse realmente a sad-
de moral e 6tica que exibe nas tradu-
96es quantitativas da sua condigio de
aflu8ncia material, cabegas teriam ro-
lado, haveria choro convulsivo e o ran-
ger de dentes seria ouvido em todos os
quadrantes do territ6rio national. Are-
percussdo, por6m, guardou uma distan-
cia patol6gica do fato escandaloso. At6
agora, a montanha pariu um rato (em-
bora que rato!).
O president Lula foi quem deu a
senha para que o impact fosse amor-
tecido e dissipado ao dizer que uma ima-
gem nao 6 suficiente para former juf-
zos. Uma imagem qualquer, certamen-
te nao. Mas aquelas cenas s6rdidas de
homes pfblicos recebendo pacotes de
dinheiro e os ocultando em suas roupas
testemunham de tal degradagao de hi-
bitos e costumes que se os personagens
nada fizeram, alguma autoridade tinha
que de imediato suprir suas sem-vergo-
nhices e infamias atrav6s de um ato
corretivo qualquer. Era daquele tipo de
image com mais forga do que um mi-
lhdo de palavras.
A condescend6ncia do home p6-
blico n 1, que tem o maior indice de
aprovagao de todos os tempos ji alcan-
gado por um president da repidblica,
perpetuou a vilania e caiou de r6seo o
negrume que cobre a vida piblica bra-


Pari. A Vale fez o melhor dos acordos e
o govemo, A mingua, sem liquidez, rece-
beu uma injeaio de fortalecimento para
suas obras e sua campanha eleitoral,
naturalmente. A Vale tamb6m se acos-
tumou a esse tipo de expediente na sua
relagdo corn os politicos e autoridades
locals. Com a elite do Pari, em suma.


sileira, em contrast corn a riqueza ma-
terial do pais.
Este Jornal Pessoal se consolidou
quando, depois de provocar um gran-
de impact sobre a opinido pdiblica com
a revelaqao da trama para assassinar
o ex-deputado estadual Paulo Fonte-
les de Lima, na primeira quinzena de
setembro de 1987, dedicou a segunda
ediqgo a desnudar um rombo pratica-
do no caixa do Banco da Amaz6nia, O
desfalque foi praticado por uma qua-
drilha que tinha A sua frente nada me-
nos que o director e president interino
da instituiqgo. Ao compulsar dezenas
de operaqges crediticias irregulares ou
fraudulentas autorizadas pelo director
para pessoas subordinadas ao seu fi-
lho, e somar os valores desses desvi-
os, constatei que o alcance era equi-
valente a 30 milhoes de d6lares, valor
da 6poca de d6lar de alta cotacgo.
Oito meses antes o secretirio de fi-
nangas da Pensilvania, Budd Dwyer,
chocara o mundo ao se suicidar diante
das cameras de televisao. Ele convo-
cara a imprensa para apresentar sua
resposta as denincias de que recebe-
ra 300 mil d6lares de propina para fa-
vorecer uma empresa com interesses
no governor daquele Estado america-
no. Quando todos os rep6rteres esta-
vam postados e as cameras ligadas,
Dwyer meteu a mao num saco de su-
permercado, tirou um revolver, colocou
o cano dentro da sua boca e disparou,
depois de dizer que essa era a respos-
ta aos que dava aos seus acusadores.
Como o Didrio do Pard nao estava
na cobertura, fomos poupados de ver
a fotografia da cabega estourada do
secretirio e seus miolos espalhados
pelo chdo e a parede.
Nunca pude apurar adequadamente
se Dwyer tinha culpa ou nio no desvio
de dinheiro do tesouro da Pensilvinia,
mas o saque no caixa do Banco da


Se o diagn6stico do m6dico Almir
Gabriel sobre a anomalia do exercicio
tanto da soberania quanto da territo-
rialidade do poder no Pard 6 precise,
ele nao 6 exceqio no elenco de lide-
res omissos e coniventes com essa si-
tuagao. Pelo contrario: 6 um dos que
mais contribuiu para que essa situa-


Amaz6nia era evidence, provado. No
entanto, nenhum 6rgdo da imprensa lo-
cal tratava do problema. Era tema proi-
bido, embora o rombo fosse 100 vezes
maior do que a propina que levara o
secretario da Pensilvania a se suicidar.
A razao do silencio obsequioso? O che-
fe da quadrilha, o advogado Augusto
Barreira Pereira, era tamb6m director do
departamento juridico do grupo Liberal
(e contava com o apoio de Jader Bar-
balho, dono do outro grupo de comuni-
caao), e um dos seus comparsas era
irmao do superintendent de A Provin-
cia do Pard, o maravilhoso arquiteto e
compositor de mdsica popular Billy Blan-
co. Tutti quanti buonna gente, acima
de qualquer suspeita.
O desfalque era de tal magnitude
que, apesar da coniv8ncia da imprensa
local, levou A instauragao do primeiro
process pela entao rec6m-editada lei
do colarinho branco, que hoje ostenta
uma enorme galeria de freqiientadores,
rarissimos deles punidos. As diversas
forms dojeitinho brasileiro acabam li-
vrando a cara dos acusados e a impuni-
dade subverte o padrao de dec8ncia que
o pais devia seguir ao se deparar com
escindalos de qualquer natureza, sobre-
tudo em versao tao chocante como essa
do mensalao do DEM brasiliense.
Diz o ditado que em casa de enfor-
cado nao se fala de corda e que quem
tem rabo de palha evita o fogo. Talvez
os ditados ajudem a entender por que,
ao inv6s de dar passage A indigna-
9do do povo brasileiro, o tao popular
president da repdblica tenha forneci-
do a senha para que o lixo fosse colo-
cado debaixo do tapete e os esquele-
tos guardados no armario. Ainda que
cabegas venham a rolar e sangue a
escorrer, o tempo entire o choque e a
sua reverberaao di a media da mo-
ral pfiblica no Brasil. Um pais retarda-
do moralmente.


gao se consolidasse. O Pard continue
6rfao de lider de verdade, dotado de
autonomia e compet8ncia para lidar
cor os principals personagens da his-
t6ria do Estado. Como todos os de-
mais que critical de forma hip6crita, o
doutor Almir 6 passado, nao presen-
te. E muito menos future.


A QUINZENA a Jornal Pessoal 3


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JANEIRO DE 2010 *









A hist6ria da Albras,


A Albris 6 a maior empresa com
sede no Pard e na Amaz6nia. Em 14
anos de funcionamento, sua produgao
acumulada ji alcanga 9 milh6es de to-
neladas de aluminio, destinado principal-
mente ao exterior e, em particular, ao
Japao, que ficou com quase metade
desse total. A receita dessas exporta-
96es no perfodo supera 13 bilh6es de
d6lares. E a maior exportadora de alu-
minio e tamb6m a maior produtora do
Brasil. E a 80 maior f6brica de aluminio
do mundo e a lider no continent. Esti
a menos de 50 quil6metros em linha reta
de Bel6m, mas raros paraenses a co-
nhecem pessoalmente, sabem o que ela
represent ou sequer que existe. Nao
parece que esti em Barcarena: parece
que foi instalada em Marte.
Ja hi uma boa maneira de apresen-
tar a maior empresa do Estado aos pa-
raenses. E atrav6s de um album, A His-
t6ria da Albrds, bem editado grafica-
mente, em 232 piginas, cor rica icono-
grafia. Apesar de ser uma publicago ins-
titucional da companhia e ter sido escri-
ta por um dos seus ex-presidentes, nao 6
uma hagiografia nem chega a ser uma
versdo bitoladamente official.
Romeu do Nascimento Teixeira era
realmente a pessoa mais habilitada a re-
constituir, a partir de dentro, o que foram
os 18 anos e meio de negociag6es nipo-
brasileiros e os sete anos de implanta-
qao da Albris. Ele foi o brasileiro que
por mais tempo esteve na linha de frente
do empreendimento, durante sete anos
como seu mais duradouro president.
Mas nao perdeu o humor e certo senso
critic ao relatar a faganha que foi colo-
car uma modema e potente refinaria de
aluminio para funcionar no meio da sel-
va amaz6nica. Hoje ela produz 44% aci-
ma da capacidade de projeto, que era de
320 mil toneladas, sem grandes investi-
mentos adicionais, o que represent qua-
se um tergo (31%, para ser exato) da
produgdo national.
A primeira questdo que a Albris sus-
cita consiste em saber se ela foi conce-
bida como um dos components do pro-
grama de integraqgo da Amaz6nia A eco-
nomia national, que os governor milita-
res puseram em pritica na transiqao do
final da d6cada de 60 para os anos 70
do s6culo passado, ou se 6 um tipico pro-
jeto international de enclave. A resposta


deveri apresentar components desses
dois fatores e de alguns outros. Ja havia
pianos para dar aproveitamento energ6-
tico aos rios da Amaz6nia e a exist8ncia
de min6rios comegou a ser confirmada
e mensurada a partir da descoberta e
exploragdo da jazida de manganes do
Amapi pela Bethlehem Steel/Icomi, na
d6cada de 50.
Fora dado o tiro de largada na corri-
da pelos valiosos recursos do subsolo da
regiao e a principal condigdo para possi-
bilitar seu aproveitamento era a oferta
de energia, nao s6 escassa como insufi-
ciente na Amaz6nia. Principalmente para
o min6rio que iria completar seu ciclo no
metal prim6rio, o aluminio (com a etapa
intermedidria da alumina).
At6 o final dos anos 1960 apenas
multinacionais haviam feito descobertas
importantes de min6rios na Amaz6nia,
como manganes, bauxita, caulim, titinio,
cassiterita e o principal deles, o min6rio
de ferro de CarajAs. A maior parte des-
sas descobertas aconteceu, certamente
nao por acaso, a partir de 1964, corn as
facilidades oferecidas ao capital estran-
geiro pelo governor military brasileiro.
No Brasil, as primeiras descobertas
de bauxita ocorreram em 1917, feitas
pela americana Alcoa, em Mariana, Mi-
nas Gerais. Importantes dep6sitos de
bauxita ja eram conhecidos na Guiana,
mas s6 na d6cada de 50 as multinacio-
nais passaram a se interessar de vez pela
Amaz6nia. Aprimeira delas, a Kaiser, se
limitou a vistoriar as margens do rio
Amazonas pr6ximas ao litoral do Pard e
do Amapi. Surpreendentemente, suas
sondagens nao se aprofundavam pelas
camadas onde se acumulava o min6rio,
como se nao interessasse ao menos
ainda nao a avaliagao econ6mica dos
jazimentos. "Algum interesse estrat6gi-
co ou politico cercava de mist6rio a atu-
acao dos estrangeiros na Amaz6nia",
observa Romeu Teixeira no livro. As
multinacionais queriam apenas "sentar
sobre as minas".
A canadense Alcan, por6m, vendo
ameagadas suas jazidas localizadas na
Guiana inglesa e na Guin6, decidiu ir mais
al6m, fazendo pesquisas na regiao cen-
tral da margem esquerda do Amazonas.
Foi assim que, em 1967, encontrou "a
primeira boa reserve econ6mica", na
calha do rio Trombetas, em Oriximina.


Seu dep6sito continha 500 milh6es de
toneladas de bauxita, cinco vezes mais
do que as reserves brasileiras de entao.
A Alcan saiu na frente, mas adiou
tanto seu projeto que acabou paralisan-
do-o, em maio de 1972, quando ele j es-
tava aprovado para receber colaboragdo
financeira da Sudam (era o maior de to-
dos os projetos at6 entao aprovados).
Alegou que havia excess de min6rio no
mercado e que suspenderia a implanta-
9o por tempo indeterminado. O gover-
no federal, que pretendia transformar a
Amaz6nia em fonte imediata de divisas,
para sustentar o "milagre econ6mico",
obrigou-a a abrir o capital.
Assim a estatal Companhia Vale do
Rio Doce ficou corn 41% das aq6es da
Mineraqgo Rio do Norte e a CBA, do
grupo Ermfrio de Moraes, com 10%.
Estava assegurada a maioria national
onde, antes, havia o control absolute de
uma multinational. Os militares tinham
uma motivagdo estrat6gica para a inici-
ativa: a CBA era, at6 entao, o dnico pro-
dutor national do aluminio. Os outros
dois eram multinacionais, do cartel das
seis irmis: a Alcan e a Alcoa.
O projeto Trombetas foi retomado em
julho de 1974, ap6s 26 meses de parali-
sagdo, para produzir 3,3 milh6es de to-
neladas. Deixara de ser um empreendi-
mento isolado: seu principal objetivo pas-
sou a ser viabilizar uma grande fdbrica
de aluminio no extreme norte do pafs.
Completamente ne6fita nesse setor, ain-
da em 1973 a CVRD fez contatos no
Japao A procura de novos s6cios estran-
geiros para participarem do empreendi-
mento, conforme a reconstituiigo feita
por Romeu Teixeira.
Ja encontrou em atividades a Ar-
deco, uma companhia criada pelos ja-
poneses dois anos antes para incre-
mentar a busca por bauxita e que re-
alizou sondagens na Africa e na Am6-
rica do Sul. Entre agosto e setembro
de 1973 (quase um ano antes da reto-
mada do projeto da MRN) uma mis-
sao da Ardeco visitou todos os locais
que seriam entrelagados para possi-
bilitar a produqco de aluminio: as jazi-
das de bauxita do Trombetas e de Pa-
ragominas, estas de propriedade da
Rio Tinto Zinc, e o local onde surgiria
a usina de Tucurui, no rio Tocantins.
Isao Kawaguchi, vice-presidente da


4 Jornal Pessoal JANEIRO DE 2010 1- QUINZENA









grande desconhecida


Mitsui Aluminium, chefiou essa dele-
gagdo e seria o maior protagonista da
Albras.
Em 13 de novembro de 1973 o en-
tao todo-poderoso ministry Delfim Neto
assinou, em T6quio, o primeiro memo-
rando de entendimento para a implan-
tagao de uma fibrica de aluminio e da
hidrel6trica de Tucuruf, ambos no Para.
De pronto, a Federaqgo das Inddstrias
do Japao (Keindaren) enviou outra mis-
sdo, com t6cnicos em siderurgia, ener-
gia e aluminio para estudar os projetos.
Seus pareceres fundamentaram a de-
cisao da Vale e do cons6rcio japon8s
LMSA (depois substituido pela Nalco,
em 1977, e, por fim, pela NAAC) para
implantar a fabrica de aluminio na Ama-
z6nia pelo govemo japon8s e 32 empre-
sas privadas daquele pais, incluindo os
cinco maiores produtores de aluminio do
Japao. Deveria ser a maior e melhor
fibrica de aluminio do Brasil. Os japo-
neses tomavam a mesma iniciativa em
Gana e na Indon6sia.
Eles corriam contra o tempo. Era um
projeto nao s6 empresarial, mas gover-
namental, da pr6pria naCgo. O peso do
governor ainda se fazia sentir quando a
Albris comegou a produzir, em 1985:
havia grandes estoques de aluminio es-
palhados pelo mundo e os pregos esta-
vam pr6ximos de mil d6lares, que nio
garantiam a remuneragao do investimen-
to (cuja taxa era baixa, de pouco mais
de 7% ao ano). O Japao estava parando
de produzir alumfnio, suas fibricas qua-
se todas fechadas e as empresas desca-
pitalizadas. O governor japones teve que
bancar para que a Albris prosseguisse.
Em meados de 1970 o Japao jd se
tomara o maior importador mundial de
aluminio. Durante a d6cada de 60 os ja-
poneses conseguiram multiplicar por cin-
co sua produqio intema para tender ao
"milagre econ6mico", que fizera o pafs
ressurgir como potencia mundial depois
de ter sido arrasado na Segunda Grande
Guerra. Mas a importagao crescera o
dobro, atingindo 258 mil toneladas, equi-
valente a pouco mais de um tergo da pro-
dugao national (727 mil toneladas).
O primeiro choque do petr6leo, em
outubro de 1973, provocou o fim da bus-
ca de autonomia em aluminio, o produto
industrial que mais consome energia. Foi
precise converter As pressas e de for-


ma radical o parque manufatureiro do
metal. Agora, a meta era acabar com a
produgdo internal, que se tomava invid-
vel pelo alto custo da energia. O fecha-
mento de fibricas comegou em 1979.
Dois anos depois quase metade da ca-
pacidade instalada (de 1,4 milhao de to-
neladas) ji havia sido desativada.
Exemplo dessa transformag~o foi a
trajet6ria da Mitsui Aluminium: criada em
1968, teve que encerrar suas atividades
21 anos depois por car8ncia de energia.
Uma fabrica da Sumitomo foi mais me-
te6rica: inaugurada em 1977, foi fecha-
da em 1982. Em 1977 os japoneses ain-
da pareciam ter esperangas de superar
a crise do petr6leo. Foi quando sua pro-
dugdo atingiu 1,5 milhao de toneladas,
representando quase 10% da produgao
mundial. A maior fnbrica era da Sumito-
mo, com capacidade instalada de 515 mil
toneladas (a inica maior do que a future
Albris). Mas, a partir de 1980, como
efeito da segunda crise do petr6leo, do
ano anterior, a produgio internal caiu ver-
tiginosamente, chegando a um valor sim-
b6lico, de 40 mil toneladas, no final da
d6cada. Toda a produgao japonesa teve
que migrar e o melhor local para se ins-
talar era o Pari.
No infcio, eles imaginaram investor
muito mais. Tanto em Barcarena mes-
mo, por total car8ncia de infra-estrutura
para suportar um investimento tao com-
plexo, como na central de energia, que
precisaria ser de alta escala para dar
conta da forte demand de uma refina-
ria de aluminio (iria consumer uma vez e
meia mais energia do que Bel6m). Por
isso, o orgamento total definido em 1974
era de 3,3 bilh6es de d6lares, sendo US$
2,2 bilh6es para as fabricas de alumfnio
e alumina, US$ 800 milh6es a tftulo de
participagdo na hidrel6trica (que deveria
custar US$ 2,1 bilh6es) e US$ 300 mi-
lh6es para a infra-estrutura de apoio as
fibricas.
Em maio de 1975 o tamanho da Al-
bras foi reduzido a metade: de 640 mil (o
que a colocava como a maior do mundo)
para 320 mil toneladas anuais (ainda
como uma das maiores). Outra modifi-
cago foi a separagqo dos projetos de
alumina e alumfnio, que passaram a ser
independents Em 1979 s6 o custo da
fibrica de aluminio estava em US$ 1,5
bilhdo de d6lares. O valor da Alunorte


era entao de US$ 572 milh6es para uma
produgo de apenas 800 mil toneladas.
Era menos do que a previsdo inicial.
Os japoneses comeraram a perce-
ber que poderiam investor muito menos
se transferissem alguns encargos para a
parte brasileira, sobretudo o governor, e
eliminassem sua participagao no projeto
da hidrel6trica. As dificuldades de um
entendimento entire os parceiros sobre
diversos pontos do projeto iriam impos-
sibilitar o general Geisel de assinar um
acordo formal de constituiqao da Albris
durante sua imponente visit a T6quio,
em 1976. Por isso, ele autorizou o minis-
tro das minas e energia, o nissei Shigeaki
Ueki, "se precise for", assinar "contra-
tos de gaveta" para que o acordo fosse
sacramentado. "Por isso, Ueki deixou
algumas cartas se comprometendo com
os japoneses em pontos que seriam diff-
ceis de serem atendidos no future", ob-
serva Romeu.
Um dos pontos de atrito, segundo ele,
eram os 2% a mais em favor da Vale
sobre o cons6rcio japones na composi-
9do do capital da Albras (51% a 49%).
Essa diferenqa "nao agradava aos japo-
neses, e houve diversas tentativas de
conseguir que a participaqo fosse igua-
litAria, mas o govemo brasileiro jamais
concordou". No entanto, essa mesma
diferenca foi usada como argument para
forgar o BNDES a finalmente aceitar
financial o projeto, o que o banco vinha
se recusando a fazer. Seus t6cnicos ar-
gumentavam que embora o control no-
minal do capital fosse brasileiro, na pri-
tica eram os japoneses que mandavam
na Albras. Queriam mudangas no acor-
do de acionistas.
A posigdo dos t6cnicos foi superada
por interferencias political e o contrato
de financiamento para a segunda fase
da implantago, de US$ 423 milh6es (de
um custo total de US$ 659 milh6es), foi
assinado em margo de 1982. Ironica-
mente, as regras foram as mesmas do
empr6stimo para a primeira fase, feito
pelo Eximbankjapones, no valor de US$
373 milh6es (de um total de US$ 708
milh6es). Por isso, a correg~o moneti-
ria do empr6stimo brasileiro foi em par-
te atrelada A variagao da taxa da moe-
dajaponesa, o iene, "o que veio prejudi-
car muito a Albris e os seus acionis-
.CO.NCLIw NA Pla 6


JANEIRO DE 2010 1Q QUINZENA Jornal Pessoal 5







coNCLUSAO DA PAo 5
tas". Mas beneficiou e muito os fi-
nanciadores japoneses. O investimento
total acabou sendo de US$ 1,37 bilhao,
apenas 6,2% acima do orgamento de
1980, para surpresa do govemo do Ja-
pao, que imaginava ter que investor de
sua parte 36% a mais do que efetiva-
mente aplicou.
O projeto Asahan, na Indon6sia, que
era paralelo ao da Albrfs, dobrou de va-
lor, passando de US$ 1,1 bilhao para
US$ 2 bilhies. A producgo era de ape-
nas 225 mil toneladas de aluminio, mas
o orgamento inclufa uma hidrel6trica de
513 MW, equivalent a quase duas das
23 mlquinas de Tucuruf, que acabou
sendo excluida do esquema de fontes
da Albris (onde apareceu inicialmente
com US$ 800 milhoes). A construgdo
de Asahan comegou em 1979 e a pri-
meira linha entrou em operagao em
1982. Os japoneses tinham 75% (sen-
do 50% do govemo) e o governor indo-
n6sio 25%. Nela, mandavam mais aber-
tamente. Em compensagao, pagaram
mais alto por isso.
A Albris entrou em operagao em ju-
lho de 1985. A primeira exportagSo de
lingote foi em 4 de abril de 1986, quando
o navio Sun Rokko Colombo desatracou
do porto de Vila do Conde carregado com
26,5 mil toneladas de metal destinados
aos Estados Unidos. A primeira expor-
tagdo para o Japao s6 aconteceu seis
meses depois. Foram 16,7 mil toneladas
embarcadas para o porto de Yokohama.
A Albris responded por 15% das neces-
sidades japonesas de aluminio. E a mai-
or fibrica japonesa fora do Japao.
Para chegar a esse resultado, preci-
sou se entestar com um empreendimen-
to paralelo, que com ela iria competir e
desde o inicio procurou sufoci-la. A fren-
te dessa empreitada estava ningu6m
menos do que a maior inddstria de alu-
minio do mundo, a americana Alcoa, a
lider do cartel das seiss irmds", empe-
nhada em rearrumar esse oligop6lio du-
rante a transigdo da crise mundial de
energia.
Sugestivamente, as duas seleciona-
ram o mesmo local para nele instalarem
sua fibrica: a ilha de Mosqueiro. No pri-
meiro contato com o entdo governador
Aloysio Chaves, em 23 de outubro de
1975, Eduardo Carvalho, director da Vale,
pediu apoio para instalar a fibrica de alu-
minio na ilha: "A forte recusa do gover-
nador em relagdo a esse local, por ser
um balnedrio pr6ximo a Bel6m, empur-


rou a Albras para Barcarena", testemu-
nha Romeu. A Alcoa, que nem foi rece-
bida pelo secret6rio de planejamento do
Estado, Fernando Coutinho Jorge, se
mudou para Sao Luis do Maranhio.
Romeu Teixeira admite que houve
competigao entire os dois projetos, con-
tribuindo para acirrar a traditional rivali-
dade entire Pard e Maranhao. Segundo
ele, as "campanhas e critics contra os
excessivos beneficios fiscais" concedi-
dos hAlbrds poderiam ter sido "bem mais
brands se os beneficios nao tivessem
sido estendidos a Alcoa/Alumar". Den-
tre os varios beneficios fiscais e tributi-
rios estavam redugqo de imposto de ren-
da, isengio de imposto de importagao e
sobre produtos industrializados (IPI), dis-
pensa do dep6sito compuls6rio sobre fi-
nanciamentos externos, beneficio de im-
postos sobre equipamentos nacionais,
isengdo de impostos estaduais e munici-
pais. Mas o maior de todos foi sobre a
tarifa da energia el6trica.
Os japoneses acabaram poupando
seu capital de risco nio entrando em Tu-
curui, mas acompanharam meticulosa-
mente, de forma direta ou indireta, o
avangar do cronograma fisico-financei-
ro da obra, que Ihes era vital. Sem muita
energia, nao seria possivel produzir o alu-
minio previsto. Os dois projetos tinham
que ser simultdneos e o menos oneroso
possivel. Ja em setembro de 1974 o mi-
nistro Shigeaki Ueki sobrevoou o local
onde seria erguida a hidrel6trica de Tu-
curui na companhia do embaixador ja-
pones. Outro nissei, Akihiro Ikeda, que
deixou a presidencia da Alunorte para ser
secretario-geral do ministry da Fazenda,
Delfim Netto (outro personagem desta-
cado no enredo), teve participag~o deci-
siva tanto no projeto da Albris quanto
no de Tucurui.
Diz Romeu que na construqHo de
Tucurui, "o grande aliado era o fabuloso
contrato turn key cor a maior emprei-
teira do pafs [ele nao diz o nome da
Construtora Camargo Corr&a] que, de
certa forma, garantia o fluxo de recur-
sos. Mas, talvez pela mesma razio, os
custos de implanta go estavam tendo um
enorme aumento, o que poderia trazer
conseqiiencias para a tarifa de energia".
A perspective preocupava muito a
Albris. Em 1976 a empresa firmou corn
a Eletronorte um protocolo estabelecen-
do que o prego da energia el6trica "se-
ria variivel em fungno do prego do alu-
minio, com uma tarifa minima de 8 mills
[mildsimos de d6lar] por kWh". Ape-


sar dessa tarifa altamente favoravel, "a
NAAC pleiteava ainda melhores con-
dig6es". O anincio desses valores pro-
vocou "o aumento da pressao da opi-
niao pdblica". De tal forma que, "antes
que as presses recrudescessem, tor-
nava-se urgente assinar o contrato com
a Eletronorte".
Os beneficios tarifdrios foram apro-
vados em agosto de 1979, sobre uma
base ligeiramente melhorada, de 8 para
10,5 mills/kWh. O contrato com a Ele-
tronorte foi assinado em novembro de
1980. Embora a Albris tenha antecipa-
do em dois anos a reserve de energia
para capitalizar a Eletronorte, nos 20
anos de vig8ncia do contrato a partir de
1984 (renovado em 2004 por mais duas
d6cadas), o subsidio tarifario equivaleu
ao investimento feito na fibrica de alu-
minio. Ou seja: devolveu uma fibrica
nova A empresa.
Em boa hora foi o acerto. Em 1984,
quando visitou a Albras, o cearense C6-
sar Cals, que substitufra Ueki no Minis-
t6rio das Minas e Energia, manifestou
satisfagao com o projeto do aluminio, que
estava dentro do orgamento, enquanto a
obra de Tucuruf o havia estourado em
US$ 2 bilhoes. Ou seja: tinha dobrado de
custo. A vantage de um s6 empreitei-
ro, como acontecia em Tucuruf, que po-
dia executar o servico com maior rapi-
dez, nao fora alcangada, ji que a usina
atrasara. E a desvantagem da hidrel6tri-
ca em relacgo a um empreendimento com
a participagao de muitos empreiteiros,
que, na concorrencia, podem diminuir
seus precos, estava visivelmente escan-
carada em relagao A Albris, que cum-
priu o orgamento. O de Tucurui passou
de US$ 10 bilh6es e ningu6m sabe expli-
car como ficou tdo caro, embora o ex-
presidente da Vale e ex-ministro das
Minas e Energia, Eliezer Batista, funda-
mental tanto na hist6ria de Carajis quan-
to da Albris-Alunorte, tenha sugerido
uma razao: corrupgao.
O contrato foi assinado, a energia foi
fornecida, a fibrica bateu records, mas
a relagio entire a hidrel6trica e a refina-
ria de aluminio se mantinha precaria por-
que havia uma unica linha a transmitir a
brutal carga de energia pelos 320 quil6-
metros entire Tucurui e Barcarena. Em
fevereiro de 1980 a Albris fez a primei-
ra solicitagdo de duplicaao dessa linha
singela, que custaria US$ 87 milh6es, mas
a obra s6 foi executada em 2002, 11 anos
depois do grande blecaute de marco de
1991. Durante 12 horas faltou energia,


6 Jornal Pessoal JANEIRO DE 2010 1l QUINZENA








Fora (d)o provincianismo


No seu 17 nimero, a revista Mag!,
editada em Sdo Paulo, se consolidou
como uma das mais destacadas revis-
tas brasileiras. ] sobre moda, mas nem
s6, nem tdo substancialmente. E mais
sobre modo de viver, de se apresentar
e de sentir. Feita com extreme bom gos-
to, sofisticaqgo e doses de auddcia e
criatividade como hi muito nao se via
na praga. Das 322 piginas, oficiais, mas
que, na verdade, somam 366 com os
dois suplementos (um para versdo em
ingl8s dos principals textos), mais da
metade (186 piginas) 6 dedicada a Be-
16m e aos paraenses.
Nao 6 uma edigo de "carregag~o",
para faturar andncios, que sdo raros,
apenas de permuta e sustentaqgo. O
editor da revista escolheu cendrios para
os models apresentados e selecionou
personagens locais que conquistaram um
espago pr6prio gragas a seu valor, a co-
megar pela modelo Caroline Ribeiro, que
aparece na capa e em numerosas pigi-
nas intemas. Outros paraenses entraram
no portfolio de Mag! por serem realmen-


te personagens nacionais e at6 intema-
cionais. Aposig~o, por6m, foi conquista-
da, nao caiu de graga nem se deve a mero
marketing ou compra direta.
A leitura da belfssima edicao pode
ter utilidade pedag6gica para o pdblico
paraense: ajuda-o a se libertar de uma
tutela provinciana e mediocre, a que o
submete a midia local e os hibitos roti-
neiros nos quais se enredou. O olhar ri-
goroso dos visitantes que a revista trou-
xe para transformar Bel6m no principal
tema de capa revela o que os nativos
nao veem e os forgam a admitir valores
que a cornuc6pia de compadrio e cum-
plicidade desmerece ou esconde.
A cantora Fafi de Bel6m e a banda
Calypso tem o tratamento de estrelas
de primeira grandeza, mas enquadradas
numa moldura rigorosa, que realga suas
qualidades, freqiientemente desdenha-
das pelo complex de vira-lata dos co-
lonizados (quando esse sentiment nio
se manifesta pelo seu oposto: o culto A
ruindade, estabelecida gragas A falta de
avaliagio critical Mas nao 6 s6 de stars


que se desenvolve a edicao: ha espago
para o Coletivo Radio Cip6, "Rubao",
Paulo Chaves Fernandes, Eloy Igl6sias,
Manoel Junior, dona Onete, Gabi Ama-
rantos, os DJs Elisson e Juninho, Walda
Marques e at6 a figurea controvertida"
do editor deste journal, uma transgres-
sdo a que Mag! se permitiu provavel-
mente para assinalar o seu cosmopoli-
tismo, capaz de ignorar mis6rias e mes-
quinharias provincianas (efeito compro-
vado pelo tratamento que O Liberal lhe
dispensou, a pao e agua).
O ensaio sobre o chal6 Porto Arthur,
em Mosqueiro, 6 um primor. Quase ad-
quiriu movimento. Mesmo sem esse
efeito, provocard ondas de melancolia
e saudade nos que puderem aprecia-lo,
graqas as fotos de Andr6 Vieira e o texto
de Marcos Guinoza.
Obrigado a todos que fizeram essa
edi~io de Mag!,Com classes e a ousa-
dia, nos libertaram dos grilhoes da qua-
dratura paraense dominant. Ao menos
no curso de suas 186 piginas. Para
guardar e rever sempre.


interrompida por um acidente na linha de
transmissdo. A Albris perdeu 40 mil to-
neladas de aluminio, ficou parada por
v6rios meses e seu prejuizo ultrapassou
em US$ 20 milh6es a cobertura do se-
guro. Tudo porque uma pequena pega
na linha (no valor de US$ 20) quebrou.
Enquanto, corn todos os seus percal-
gos (e muitas vantagens), a Albris se-
guia em frente, sua vizinha, a Alunorte,
projetada para transformar a bauxita do
Trombetas em alumina, marcava pass.
Na Alunorte a participagao dos s6cios
era diferente: 60,8% para os brasileiros
e 39,2% para os japoneses. Essa partici-
pagio equivalia exatamente a quanto da
produgo de alumina seria utilizada pela
Albris para produzir a sua pr6pria cota
de aluminio, que era de 49% do total.
Nao queriam ir um milimetro al6m dos
seus interesses. Talvez por isso, nao se
interessaram por investor na minerag~o.
Nunca aceitaram fazer parte da Mine-
ragao Rio do Norte. A cota japonesa na
Alunorte 6, hoje, de 5,3%.
Ja a Alcan tinha opcao sobre 25%,
da empresa de alumina, mas desistiu.
No entanto, participou de toda a implan-
tagdo, atrav6s de sua s6cia japonesa, a


NLM, a segunda maior produtora de alu-
minio do Japdo, na qual tinha metade
das ages. A NLM, que "contribuiu de
forma tdo important para implantar o
projeto de aluminio", nao conseguiu le-
var adiante "seu pr6prio projeto de alu-
mina", constata Romeu Teixeira. Ele
busca a explicagio em duas vertentes,
uma s6ria e outra ir6nica. A NLM po-
dia carregar a sina da Alcan, "de sem-
pre perder o folego quando faltava pou-
co para concretizar seus grandes pro-
jetos no Brasil". Talvez porque tivesse
faltado a ela "um pouco da brilhante e
corajosa 'irresponsabilidade' de Kawa-
guchi. Ou, quem sabe, beberam pou-
co". Na Albris beberam muito: entire
1973 e 1985, segundo Romeu, bom de
copo, foram consumidas 535 mil gar-
rafas de cerveja, o que daria a m6dia
de 165 garrafas por dia. Sem incluir
outras bebidas de maior octanagem,
como o saqu8.
Romeu assegura que houve pressed
daAlcoa sobre o govemo brasileiro "para
que a Vale adiasse indefinidamente o
projeto da Alunorte". Mas essa pressao
s6 foi eficaz porque a Vale, em dificul-
dade de caixa e passando por um dos


seus ciclicos moments de visao curta,
aceitou a pressao para nao ter que in-
vestir naAlunorte. O primeiro embarque
da MRN foi em 13 de agosto de 1979,
21 mil toneladas para o Canada. O for-
necimento para o mercado intemo co-
megou indo para a Alumar, em Sao Luis,
em 1984. S6 11 anos depois a Alunorte
comegou a receber min6rio do Trombe-
tas, quando, finalmente, entrou em pro-
duqgo. Durante esse period o Pard ex-
portou bauxita e importou alumina para
aAlbrds, principalmente do Suriname, de
uma subsidisria da Alcoa. Deve ter per-
dido mais de um bilhao de d6lares em
divisas nesse perfodo por conta desse
tragado irracional.
Quem mais ganhou e quem mais per-
deu nessa incrivel ciranda de dados e
relates? Passado um quarto de s6culo do
inicio da produgco de aluminio na Ama-
z6nia, ainda nao hi um balango satisfa-
t6rio. Mas o belo album que Romeu Tei-
xeira escreveu e ajudou a produzir pas-
sa a se tomar uma fonte indispensivel
na busca da resposta, de alto interesse
para o Brasil e, em particular, para que
o Para nao passe a ser apenas um deta-
Ihe nessa saga de poderosos.


JANEIRO DE 2010 1a QUINZENA Jornal Pessoal 7


Xl 9- -M. 9 HE I










MEMORIAL DO COTIDIANO


ACORDEON
0 acordeon foi moda at6
os anos de 1960. Principal-
mente as mocas das "fami-
lias de bem" tinham que fre-
qiientar um curso para man-
jar o desajeitado instrumen-
to. Vai daf que o Copacaba-
na Clube promoveu a Noite
do Acordeon, nos aristocri-
ticos sales do Palace The-
atre, que ficava ao lado do
nao menos requintado Gran-
de Hotel, em 1953. O pro-
fessor Milton Assis, mestre
de 10 entire 10jovens da eli-
te, comandaria o show, corn
suas alunas. Mas na hora da
danca quem entraria no pal-
co era a orquestra de Ma-
ganeta, pai do cartorario
Reginaldo Cunha, cor o
mesmo nome. 0 traje exigi-
do era, como sempre, o pa-
let6 e gravata.

CAFE
Em 30 de dezembro de
1959 o president das Indis-
trias S6culo XX, Manoel de
Matos Lima, comunicou aos
"revendedores, depositarios
e consumidores do famoso
caf6 S6culo XX", que esta-
va encerrando suas ativida-


des naquele moment, "por
se ter esgotado o caf6 em
grao que recebemos do
IBC". Mas que voltaria a
funcionar "logo que receba-
mos nova cota de caf6". O
IBC era o Instituto Brasilei-
ro do Caf6, uma mastod6nti-
ca autarquia federal que
exercia seu poder por todo
pais, ainda com base na for-
ga que o caf6 possufa. Mas
que ji nao era grande. Uma
engrenagem de parceria en-
tre o Estado e a iniciativa
privada, com seus m6ltiplos
desdobramentos, inclusive
politicos, que ainda aguarda
melhor estudo.

EMPREGO
Quem soubesse escrever a
miquina, tivesse boa caligra-
fia e possuisse regularss
conhecimentos de portugu8s
e aritm6tica" podia se apre-
sentar (sendo mulher) para
disputar um lugar de auxiliar
no Laborat6rio de Anilises
Clinicas, que ainda tinha tdo
poucos clients que podia
funcionar no 1 andar de um
pr6dio na rua Santo Ant6nio,
no velho com6rcio. Hoje,
quais seriam os requisitos?


FOTOGRAFIA
A foto da se!co fotografia saiu trocada na edigio pas-
sada. 0 local e o cruzamento da Manuel Barata cor a
President Vargas, como se pode ver, tendo ao fundo a
Modas Seduado, de J. Verbicaro. Na dpoca, uma das es-
quinas (ou cantos, como se dizia) mais importantes da
cidade. De impressionar 6 a bicicleta trafegando entire
os 6nibus de entdo. 0 centro ainda abrigava o com6rcio
fino da cidade.
A foto que devia ter said vai finalmente agora: em
1957, um caminhao antigo recolhe languidamente o lixo
na Jodo Alfredo, ainda pavimentada corn paralelepipe-
dos e ostentando os trilhos dos jd desativados bondes.
Os automoveis fazem fila atrds do desaparelhado cami-
nhao, que passa em frente a Farmdcia Beirdo, entire Cam-
pos Sales e Frutuoso Guimardes. Pode-se observer a es-
querda a primeira loja Clark, na modernizaado feiosa
do desfigurado centro histdrico de Bel6m. Desfigurada,
de resto, ter sido toda a histdria do Pard.


PROPAGANDA

Pela industrializagao


Inicio a publicapco de anuncios de cam- DA AMAZONIA r
panha eleitoral para estimular o espirito ci- m N M ar
vico do cidaddo. Uma reflexdo sobre o pas- ARA1 """ """'
ESCREVA
sado recent talvez avive o compromisso na ARMANBO
hora de votar neste ano. A peaa inaugural e CARN3EIBO
de 1962, atraves da qual era apregoada a A. CABNEIRO
candidatura de Armando Carneiro a depu-. *
tado federal pelo PTB (Partido Trabalhista
Brasileiro). Sua mensagem, em favor da industrializagdo da Amazonia, deu
certo e ele se elegeu. Mas a inddstria que aparece na foto, a de cimento de
Capanema, foi logo vendida, integrando-se ao cartel liderado no Norte e Nor-
deste pelo grupo Jodo Santos. Depois do golpe military que derrubou do poder
a maior lideranca petebista, o president Jodo Goulart, Armando Carneiro
preferiu se dedicar integralmente aos neg6cios. Seu lugar foi ocupado na po-
litica pelo irmio, mas Oziel Carneiro manteve um pe no mundo econdmico.


LIVRARIA
Em agosto de 1962 a Livraria Dom
Quixote comunicou ao p6blico que aca-
bava de receber "a primeira partida de
seu novo estoque", corn livros das edi-
toras Cultrix, Duas Cidades, Fundo de
Cultura, Martins e Pensamento. Nos
dias seguintes as alternatives seriam
enriquecidas por publicag6es de livros
importados, como da francesa Hachet-
te, e virias outras editors. No dia se-
guinte, 13 de agosto, a livraria voltaria
ao seu funcionamento normal, inclusi-
ve o notumo, na galeria do Cine Palh-
cio, onde o com6rcio noturno 6 quase
proibido, pelos riscos de assalto e ou-
tras coisas mais graves. A livraria era
comandada pelom jornalista e escritor
Haroldo Maranhio.


8 Journal Pessoal JANEIRO DE 2010 1- QUINZENA


SEJl QUAL FOR 0 SEU PARlDO
VOTE (1TO
PARA A
INDUSTRIAlZACAO







As agulhas

O ritual de inserir agulhas no corpo
de uma pessoa, que agora choca a opi-
nido pdblica, 6 antigo. Certa vez, em
1970, fui a Lorena, no interior de Sdo
Paulo, como reporter do Didrio de S.
Paulo, atraido por hist6ria semelhante.
Uma mulher dizia que as agulhas se ma-
terializavam no seu corpo quando ela en-
trava em transe. O intermediirio para
que esse fen6meno acontecesse era o
marido. Enquanto a equipe da TV Tupi
(que fazia parte da equipe "associada")
filmava uma entrevista cor o cidadio,
feliz por se tornar celebridade, arrastei
a mulher ao hospital e pedi um exame
de raios-x do corpo dela. O trabalho foi
conclufdo quando o marido apareceu, de-
sesperado, ao perceber a trama para
afastar os dois, que sempre estavamjun-
tos. Todas as agulhas estavam na su-
perficie da pele. Era uma fraude, que
denunciamos no journal e na televised.
O caso baiano 6 muito mais grave e
complex, porque a inserg~o 6 profunda e
o objetivo parece mais letal. Misticismo e
outros interesses costumam andar juntos.
E precise levar todos os fatores em consi-
deraao, sem nunca, por6m, deixar de usar
a razao como o element de prova.


Novo livro

Jd esti nas ban-
cas e livrarias o se-
gundo volume da
Mem6ria do Cotidi-
ano, a seg9o mais
lida por parte dos lei-
tores do JornalPes-
soal. Junto corn o
volume anterior, acho que os dois livros
permitem uma visdo mais intima e sem-
pre individualizada da hist6ria de Bel6m
e do Pard durante o s6culo XX, sobretu-
do na sua segunda metade. Espero que
seja uma leitura prazerosa para todos -
e tamb6m um pouco instrutiva. A boa
receptividade a primeira iniciativa refor-
gou o compromisso de langar uma nova
coletanea dos textos, fotos e ilustrag6es
do JP. 0 apoio do amigo Reginaldo Cu-
nha contribuiu para viabilizar a emprei-
tada, transformando-a em um aconteci-
mento de final de ano. No pr6ximo, quem
sabe, estaremos de volta. Espero que os
leitores considered esse segundo volu-
me da Mem6ria como fonte de prazer e
uma alternative de present nas festas
de final de ano.


Ajax, o injustigado
Ajax d'Oliveh-a, que inoi-i-eu na sewana
passada, aos 83 anos, denh'e outi-as quali-
orlades, possuia unia de impoi-tihicia pai-a a
vida pfiblica: pai-ticipou do podei- local, dit-
i-ante os 20 anos do i-eginze wilitai; sein ti-
i-ai- pi-oveito pessoal dasfiwC5es que ocit-
pou. Adei-iii ao i-egime tie excecdo poi- con-
vicca-o, poi- seu anticoinunisino e consei-
vadofisino. Ocupou a pi-qftitui-a de Belem,
poi- indicacito do govei-nadoi- Aloysio Cha-
ves (197511979), nunia 4poca ein que ain-
da havia a1gum contefido ideol6gico ou pi-o-
gnainditico no exei-cicio dos cai-gos pliblicos.
Houve inei-ito nas inelhoi-ias que pi-omo-
veu na cidade, coin iiffise no bah-i-o do Ju-
i-imas. Mas a iniciativa sua queficai-cifibi tei-
endossado docuinento elabonado uni -1-11po
dejovens w-banistas, que i-evelou a exten-
sao e a nocividade do doinfido da Unido so-
bi-e quase wn quai-to do pei-hneh-o w-bano
de Belgin, pi-ejudicando o ci-eschnento da
capital. Ein visita ei tei-i-a, o pi-esidente-ge-
nenal Ei-nesto Geisel i-ecebeit das initos do
pi-efeito o doclunento, nito gostou do toin
ci-itico, mas teve que engoli-lo poi-que i-qfle-
tia a vei-dade. A pai-th- dai, os 6i--itos.ftde-
i-ais tivenctin que coynecai- a abi-b- indo dos
seus latiffindios w-banos. Foi wn inai-co.
Apesai- det -aguefi-a, talvez i-esponsavel
poi- sua thnidez e ensiniesinainento, Ajax
dizia o que pensava, sem se pi-eocupai-
coin as conveniincias. Poi- isso inconiodou
min ta gente denti-o do seu pi-6pi-io pai-ti-
do. Tinha a eleicito pai-a deputado fedei-al
01ai-antida quando dei.vou a pi-e itui-a pana
pai-ticipai-da campanha, inasjbi ti-aido den-
ti-o da Ai-ena, a pai-th- da cfipula. Pensava
deinais pela pi-4pila cabeca pai-a se-uh-
passivainente qualquei- dos dois -1-upos
em que o pailido se cindii-a, eniboi-afiosse
adepto de Jai-bas Passai-inho (o que lhe
custou cam, at poi-ftilta de nialicia pai-a
se acoinodai- ei guei-i-a intei-na).
A dei-j-ota o anzai-gui-ou, inas nunca pei-
deu a paixito pela atividade pliblica. Ainda
.Pi supei-intendente do Inci-a e da pi-evi-
demcia social antes de se aposentai-. Quan-
do andava pelas iwas ou ei-a enconti-ado
ein a1gunia solenidade, ndo deixava de
pai-ai- quando alguem o chainava paiw ti'a-
tai- de political. Efialava cow entusiaswo
soke aquele inundo do qualfin-a inai--ina-
lizado inuito cedo e inJustamente. Sen
esph-ito de honieni pfiblico inei-ecia sei-
mais ittiliZado nuina tei*i*a enoiwieniente
cai-ente dessas vocac5es.


JANEIRO DE 2010 1" QUINZENA Jornal Pessoal 9


Fim-de-ano

Agradego e retribuo as
mensagens de fim de ano
de Wandenkolk Gongalves,
Museu Goeldi, Marlene Sil-
va, Ulrik Mynthe, prefeitu-
ra de Igarap6-Miri, Lucia-
no Guedes, Luiz Imbiriba,
WWF Brasil, Greenpeace,
In8s Bernal, Conceiqgo
Rosa de Lima, Flivio dos
Reis, Marluce Revoredo,
Nelson Tembra, Vera Pa-
oloni, Leonardo Valle Fer-
reira, Laura Lopes, Tania
Mendes, Rose Silveira,
Adriano/Elena Guglielmini,
Adelina Braglia, Eric/Car-
mem, DM 9, Raul Bastos,
Ibase, Milena Del Rio do
Valle, H6lio Mairata, Alcoa,
Kid dos Reis, Trajano Oli-
veira, Zequinha Marinho,
Fernando Scaff, Armando
Cordeiro, Daniel Faria, Ar-
mando Cordeiro, Breno
Augusto dos Santos, Se-
bastido Imbiriba, Marcelo
Gil Castelo Branco, Cebri,
Ricardo Condurn, Orlando
Vilanova, Edmilson Cami-
nha, Luiz Lima Barreiros,
Rodrigo Lara Mesquita,
Roberto Gama e Silva, Ja-
elta Souza, Temple Comu-
nicagdo, MB Produ9ges,
Armando Avellar, Amaz6-
nia Emp6rio, Eliete Ramos,
Afonso Gallindo, Paraguas-
sd Eleres, Adrianus/Layse,
Luiz Alho, Elizabeth Loren-
zotti, Luiz Egypto Soares,
Rodolfo Cerveira, Gaetano
Farinelli, Giuseppe Stopi-
glia, Flexa Ribeiro, Maria
Alda Brito Bezerra, Elcio-
ne Barbalho (em seu car-
tao, sou tratado por gene-
ral-de-divisio), Saulo
Baptista, Catarina Freitas,
Elson Martins, Luciane
Fidza de Mello, Silvia Sa-
les, Aldrin Figueiredo,
Kitia Ara6jo, Sebastiao
Godinho, Mario M6dice
Barbosa, Aurimar Viana,
Jos6 Eduardo Faro Frei-
re. As lacunas sdo conse-
qii8ncia de perda de ar-
quivos digitalizados.









_CAI9WMlW n ,


POLITICOS
Ao ler a reportagem sobre as
manifestacges contrarias ao
livro "Honorav6is Bandidos",
veiculadas nas l6timas edi-
g6es deste valoroso peri6dico,
observe e associei, como voce
sugeriu, algumas praticas co-
ronelistas que acontecem em
nosso Estado, principalmente
em relagio a imprensa. Gragas
a voc6, na sua contend politi-
co-juridica-classista com os
Maioranas, OAB, ANJ, Unesco,
Poder Judiciario etc, e ao jor-
nalista esportivo Jorge Kajuru,
quando revelou, em 2003, um
contrato oferecido pela Rede
Globo,que tinha duas cl6usu-
las leolinas "Nao poderia cri-
ticar os horarios dos jogos de
futebol das quartas-feiras e
muito menos critical os diri-
gentes da CBF,quando estives-
sem em negociagco os direi-
tos de transmissio dos jogos
do campeonato Brasileiro" -
dois mitos, quase-dogmas, fo-
ram derrubados:o da liberda-
de de imprensa e o "tal" jorna-
lismo independent.
J. Liebling afirmou: "a liberda-
de de imprensa,pertence ape-
nas aqueles que possuem um
orgao de imprensa". Os interes-
ses comerciais e politicos pre-
valecem sobre a independdncia
jornalistica. Um grande exemplo
desta realidade diz respeito as
eleigbes de 2010. Caso venha a
ocorrer a alianga PMDB- PSDB, o
que os veiculos de comunicagio
de propriedade do deputado
federal Jader Barbalho falario?
Diminuirio em 4 a gestio tuca-
na de 12 anos, para nao afetar o
novo aliado Jatene? Blindario
o novo aliado, como fazem com
o prefeito de Ananindeua e ou-
tros membros do PMDB? E o es-
cAndalo Cerpasa-PSDB, tio criti-
cado pelo Grupo RBA, onde dois
"jornalistas" afirmaram que
"nunca mais tomariam um gole
daquela cerveja" e hoje fazem
commercial da mesma?
Neste contexto,ao fazer uma
analise da atual conjuntura
political de nosso Estado, sou
favordvel ao voto nulo, pois nao
vejo opg9o de mudanga em ne-
nhum dos postulantes aos car-
gos eletivos federal, estadual
e municipal. Todos s6 querem
se perpetuar no poder. Para-
b6ns a este journal e ao editor,
ao long dos anos, pela cora-
gem de nao se dobrar aos des-
mandos e prtticas coronelistas
nocivas ao bom jornalismo.
Jose Carlos Santana Silva


JOURNAL
Li na edigio 455 do Jornal Pes-
soal um texto absolutamente
impec6vel sobre o ato de cida-
dania que 6 ler o Jornal Pessoal.
Achei uma homenagem since-
ra e fantistica ao leitor deste
journal, e eu mesmo posso di-
zer que passed por todos aque-
les obstaculos para comprar
esta edicgo.
Sempre compro o journal em
uma banca no IT Center e para
isso me desloco de taxi, que
me custa ida e volta pouco
mais de R$ 20,00. No entanto,
por motives que nio souberam
me explicar nio consegui com-
prar a edicgo anterior e nem
mesmo a atual, pois s6 a en-
contrei em uma banca na av.
President Vargas. Mais as mi-
nhas idas e vindas para com-
prar o journal fizeram com que
eu fosse mais de 3 vezes ao
local de compra, com evidence
custo de taxi triplicado.
Mais qual um sedento no de-
serto, esta busca pelo journal
nao me 6 um incomodo ou um
custo, e sim uma necessidade,
um oasis no meio da medio-
cridade da imprensa local que
rarissimas excegoes, no caso
alguns blogs, oferece refle-
x6es, questionamentos e de-
bates sobre a questies locals
relevantes.
0 Jomal Pessoal para mim 6 uma
fonte infinita de conhecimento
e inspiracgo e toda quinzena
espero ansioso pela sua chega-
da as bancas, quando nado em
sabedoria como um beduino no
oasis do conhecimento.
Ivo Cunha Figueredo

LULA
No artigo em que trata da
transformacgo do president
Lula em mito em vida, a refe-
rnncia ao ponto de vista de
Cesar Benjamin sobre o peri-
go que se avizinha parece ter
tomado toda importancia do
assunto tratado. Tamb6m nao
6 para menos, pois o que cho-
ca nao 6 a opinion de Benja-
min e sim as visceras do poder
que estio sendo expostas.
Seria muita ingenuidade
que a tao afamada 6tica pre-
gada por Lula pudesse supe-
rar mais de meio milenio de
farsa sobre a hist6ria deste
pais, alias, Raimundo Faoro ja
descrevia isso em seu livro. E
para manter-se no poder, Lula,
fez e faria acordos, dos mais
esp6rios, com tudo o que de
podre control este pafs.


Isto levou a degeneracgo to-
tal da sociedade. At6 porque,
para manter-se como tal, o po-
der necessitava de algu6m com
o perfil do president para en-
volver a massa na Era da Infor-
magio, que, bem ou mal, pode-
ria despertar para a question
ambiental, de quem 6 a legiti-
ma representante por sempre
existir na periferia, onde a na-
tureza viceja, fazendo com que
a massa tenha sua atencgo
desviada para futilidades.
O que dizer da p6ssima ava-
liag5o da educagio nos niveis
fundamental, m6dio e superi-
or em contrast com o aumen-
to do consume de bebidas al-
co6licas? Algu6m ja percebeu
que ao inv6s de areas de lazer
e espagos culturais o que mais
surge sio bares a bombardear
os jovens, das mais variadas
idades, com a falsa id6ia de
felicidade proporcionada pelo
alcool?
Isto 6 s6 a ponta do iceberg
do que 6 a gestio de Lula, o
que talvez explique o estado
de prostragio da sociedade a
que se refere o editor do JP.
Mas, voltando ao context
em que se situa o artigo de
uma "sujeira descabida" 6 im-
portante enfatizar que Lula
centraliza tudo o que de vul-
gar e nocivo existe na socie-
dade e 6 de interesse do po-
vio, o que 6 6til para manter
o poder, e entio a attitude de
Cdsar Benjamin foi tao-so-
mente dar consequincia a
algo que nivelou o povo, a
massa ao poder. E a vulgari-
dade do poder que torna o
ambiente nauseabundo.
Em que pese as criticas a
Benjamin, 6 important lem-
brar o talvez agora esquecido
estado democratic de direito,
para que, pela primeira vez, o
povio possa ter algo que 6 de
seu nfvel, ou seja, a vulgarida-
de. E a partir dela possa fazer
prevalecer a tao propalada
democracia. Que deem ao povo
o que 6 dele.
Luiz Mdrio de Melo e Silva

EIDORFE
Acabo de adquirir o II volu-
me do "Mem6rias do Cotidia-
no". Ser6 minha releitura nes-
ses dias natalinos.
Li, com especial interesse
"O sabio que se esqueceu", a
prop6sito do saudoso Mestre
Eidorfe Moreira.
Mantive com ele uma rela-
cgo muito cordial, apesar do


seu espirito arredio. Fui mui-
tas vezes visita-lo, a tarde, na
casa onde ele morava, na Quin-
tino. Ficavamos horas e horas
conversando sobre v.rios as-
suntos. Ele sempre trajando o
seu indefectivel pijama, com a
manga vazia do brago esquer-
do enfiada no bolso da blusa.
Guardo, com redobrado cari-
nho, cinco livros que ele me deu
de present. Em cada um de-
les fiz questio de registrar a
oferta e seu doador. Cada vez
que ia visita-lo, ele me dava
um livro que eu escolhia nas
suas estantes. Depois, me dis-
se com certo traco de tristeza
no olhar, que nao mais iria
poder continuar me presente-
ando, pois teria que catalogar
e vender todos os seus volu-
mes para assegurar a sua so-
brevivincia, vez que a UFPA Ihe
havia negado a aposentado-
ria, dando-lhe um pecilio.
Que revolta aquilo me cau-
sou. Nio pelos livros que
ele nao mais haveria de me
doar, mas pela injustiga que
se estava cometendo contra
um home de bem, estudio-
so da nossa cultural, que de-
veria ser motivo de orgulho de
todos os paraenses. Se havia
impedimento administrativo-
legal na concessao do benefi-
cio, que se buscassem alter-
nativas para assegurar ao Mes-
tre um final de vida digno.
Quando se trata de politicos,
de assaltantes dos cofres p6-
blicos, de ratos do erario, de
juizes corruptos, etc, sempre se
encontra uma forma legal de
garantir-lhes os vencimentos,
ainda que tenham eles enver-
gonhado os cargos que ocupa-
vam. No caso de Mestre Eidor-
fe, um home devotado as le-
tras e que outra coisa na vida
nao fez senio o berm cultural
de nossa terra, a negative foi
implacavel.
A I6tima vez que fui visita-
lo, ao se despedir, ele me dis-
se a seguinte frase: "Vivo como
um ermitio. Gosto de estar
sozinho. Estou pr6ximo da
perfeig5o..."
Dias depois ele se foi. A fra-
se ficou martelando na minha
cabega. Depois entendi com
clareza: a perfeigio para o so-
litario 6 a morte.
Parabens pelo texto, L6cio.
Reli v6rias vezes, saudoso da-
quelas tardes ensolaradas em
que tive o privil6gio de conver-
sar com o saudoso Professor.
Sebastilo Godinho


- Jomal Pessoal
Editor: Licio Flavio Pinto


Diagramagio e ilustraq9es: L. A. de Faria Pinto Contato: Rua Aristides Lobo, 871 CEP: 66.053-020
Fones: (091) 3241-7626 E-mail: Ifpjor@uol.com.br jornal@amazon.com.br Site: www.jomalpessoal.com.br


10 Jornal Pessoal JANEIRO DE 2010 1a QUINZENA







PAPEIS AVULSOS


Quando a Volks virou fazendeira


O engenheiro agronomo Manoel
Moura Melo fez o que todas as pesso-
as que realizaram qualquer tipo de obra
piblica deviam fazer: durante dois anos
refletiu sobre sua experiencia pioneira,
realizou pesquisas, fez entrevistas e com
base nas suas anotaqGes escreveu Tri-
lhas de idealismo a saga extensio-
nista, pequeno e proveitoso livro (174
paginas, ediqao do autor) sobre a hist6-
ria da Acar-Pard. Um dos seus prop6-
sitos 6 contribuir para tirar a extensdo
rural da UTI, na qual se encontra em
todo Brasil. Manoel acredita que se ela
ressurgisse "dentro das formulas edu-
cativas, metodol6gicas e ndo-politicas
poderia servir de um salva-vidas, para
amenizar os problems do campo e ala-
vancar o desenvolvimento rural"
Gentilmente, Manoel me encaminhou
outro livro, O Servigo Publico por Den-
tro, em format pequeno, tamb6m edi-
9qo do autor (com apoio de amigos), 138
piginas. Cor ironia, humor e doses de
acidez, Renato Coral reflete nessa obra
simples sobre sua longa experiencia em
6rgdos piblicos no Pard, tanto estaduais
quanto federais. O livro se ressente de
revised e de melhor edigCo, mas alguns
dos testemunhos tnm valor hist6rico,
mesmo quando os personagens existem
sob pseud6nimos, incluindo o autor.
O principal epis6dio na vida de ser-
vidor piblico de Coral foi em 1976 (ou
1977, segundo seu pr6prio registro),
quando chefiava o IBDF (Instituto Bra-
sileiro do Desenvolvimento Florestal,
antecessor do Ibama) em Bel6m. Ele
aplicou uma multa milionAria ao projeto
agropecuario da Companhia Vale do Rio
Cristalino, de propriedade da Volkswa-
gen, que era implantado em RedengSo,
no sul do Estado. A companhia desma-
tou ilegalmente nove mil hectares para
former pastagem.
A drea foi toda queimada, provocan-
do o maior incendio at6 ent2o registrado
por um sat61ite, o Skylab, monitorado pela
Nasa, a agencia espacial dos Estados
Unidos. A image do incendio correu
mundo e teve repercussdo international.
O valor da multa, de 23 milh6es de cru-
zeiros da 6poca, que superava todo o ca-
pital do projeto agropecudrio, aprovado
pela Sudam em 1974, tamb6m estourou
em Brasilia como uma bomba e foi esco-
ar na Alemanha, terra natal da Volks.


Na sua cronica do acontecimento,
relata Coral, falando de si na terceira
pessoa do singular. Diz:
"Press6es federais, estaduais e de
outros grupos empresariais desabaram
sobre a cabeca do Delegado, que co-
meu o pao que o diabo amassou.
Veio entao uma ordem do 6rgdo cen-
tral, para que o Delegado encaminhasse
o Process para Brasilia, a fim de ser
estudado por uma comissao de juristas.
Uns 15 dias ap6s, o Processo foi
devolvido as origens, com a multa re-
duzida em 90%, o que significava que
o titular estava certo, mas foi muito
carrasco.
Logo em seguida, o Delegado rece-
beu a visit de um dos assessores da
empresa e, ap6s uma conversa demo-
rada, o representante perguntou qual a


marca do autom6vel pertencente ao
Delegado.
O Da Silva [o pr6prio Coral], perce-
bendo a malicia da pergunta, responded:
'Opala, modelo 75, de segunda
mao!'
Continuou o assessor:
'Por que Opala?'
O Da Silva, querendo por um t6rmi-
no na conversa, responded amuado:
'Porque eu ji ultrapassei a fase
de carros de brinquedo'.
Retrucou o assessor:
'Permita-me comunicar-lhe que o
senhor 6 um dos poucos cidaddos que
poderi receber um carro zero quil6me-
tro, amanha, na porta da sua resid8n-
cia, com todos os acess6rios, bastando
que faga a migica de fazer pulverizar a
papelada'.
O Da Silva entao deu o tiro de
miseric6rdia:
'Migico esconde vara. Pegue a
sua e faga bom uso dela. Queira reti-
rar-se que eu tenho mais o que fazer!'


Ap6s a saida do aliciador, entra no
gabinete Dona Dina, fiel secretiria, e
pergunta ao Delegado:
'O senhor esti livido. O que foi
que aconteceu?'
O Delegado contou a tentative de
subomo.
'Comunique logo ao senhor Presi-
dente', aconselhou a secret6ria.
O Da Silva, mais calmo, raciocinou alto:
'Dona Dina! Se eu comunicar a
Diregao Geral que fui tentado a re-
ceber o present, caso o mandatdrio
tomasse alguma providencia, a mul-
tinacional iria defender-se alegando
que eu e que teria pedido o automd-
vel. Como sou um bosta n'dgua de
um simples Delegado Estadual, a pro-
posta fica entire nds'.
Cobrindo os fatos, conversei vdrias
vezes com Renato Coral nesse period,
mas ele nao denunciou a tentative de su-
bomo, pelos motives que confidenciou A
sua secretaria e s6 revelou em 2000 (data
da publicagqo do livro), quase tr8s d6ca-
das depois. A hist6ria, por6m, se encaixa
na mechnica dos fatos de entio. Ao se
defender da autua~ao do 6rgao ambien-
tal, a Volkswagen alegou que era pressio-
nada por outro 6rgao federal, a Sudam, a
lhe exigir celeridade na execuqo do cro-
nograma do projeto agropecudrio.
Rapidamente, quem tinha poder de-
cis6rio contemporizou, houve acerto
(nao se sabe documentalmente at6 qual
profundidade) e a Volks continuou a
queimar, desmatar, plantar capim e co-
locar gado na sua propriedade. At6 que
demonstrou sua incompet8ncia como
fazendeira, o que tentou ser pela pri-
meira vez na Amaz6nia, o inico lugar
do mundo onde nao utilizou sua compe-
tincia especifica reconhecida intema-
cionalmente (como montadora de vef-
culos automotores) e arriscou a pecua-
ria. Vendeu a fazenda para o grupo Mat-
subara, do Parand, que passou em fren-
te as terras, que acabaram servindo
para assentamentos da malsinada refor-
ma agr.ria na Amaz6nia. Uma moral
nada edificante, como a ligo da maio-
ria dos causess" que Renato Coral reu-
niu neste seu livrinho pedag6gico. Mui-
tos nao acreditardo, mas essa reconsti-
tuiSgo de experi8ncias no serviqo pdbli-
ca nao 6 embora seja um livro de
piadas de humor negro.


JANEIRO DE 2010 17 QUINZENA Jornal Pessoal 11









Verticalizagao da Albras: um desafio para a Vale


Era o dia 24 de outubro de 1985.
Estdvamos indo de barco para a inau-
guragdo da Albrds. A bordo, muitos
dos 900 convidados especiais, dos
quais 200 japoneses, que sd iriam
perder a sisudez na fase etilica da
festividade, tdo retumbante que para
pagd-la seria precise produzir 20 mil
toneladas de lingotes (foi a maior
festa de inauguragao dos "grandes
projetos"). Sd as maiores autorida-
des, ptublicas e privadas, teriam di-
reito a viagem area. Mas ndo recla-
mdvamos, muito pelo contrdrio. Ves-
tido a carter, conforme entdo me
impunha a profissdo, estou a ouvir
as sempre interessantes informagoes
do president Romeu Nascimento Tei-
xeira, com quem conversei quase a
viagem toda.
Nao chegamos a ser amigos, mas
eramos bons interlocutores. Sempre
preocupado cor a documentagio his-
tdrica e sensivel as circunstdncias,
Romeu pode ser considerado um in-
telectual no meio de engenheiros,
quase sempre estritamente pragmdti-
cos. Dentre todos aqueles que parti-
ciparam da implantagdo do projeto,
s6 ele podia nos proporcionar uma
publicaado como A Hist6ria da Al-
brds. A obra rara na bibliografia
sobre empreendimentos desse tipo,
que merece um registro d altura.
A seguir, reproduzo as respostas
que Romeu deu aos questionamentos
que Ihe fiz por e-mail. Complemen-
tam o que estd contido no livro.

GI ostaria que esclarecesse mais
a resistencia do BNDES a fi-
nanciar a Albrds. Foi por o banco
considerar que, embora o control
nominal do empreendimento fosse
national, efetivamente o mando era
japones? Se positive, como foi su-
perada essa resistencia?
O BNDES sabia que o fato da Vale
ter 51% do capital ndo significava que
tinha o control de todas as decisoes.
Algumas tinham que ser de comum
acordo entire os s6cios. Isto 6 normal
em todo empreendimento praticamen-
te "meio a meio" ou onde nao existe
uma grande diferenca de participaqao.
O banco, naturalmente, queria maior
poder de decisao da Vale para carac-
terizar o projeto como national. Af te-


riam que ser mudados os acordos bi-
sicos de acionistas e o projeto nao sai-
ria. As coisas foram facilitadas quan-
do os japoneses concordaram em an-
tecipar todo o seu financiamento para
a la. Fase do projeto. Entao o BNDES
ficou numa posicgo bem mais confor-
tivel, pois s6 dependia dele a entrada
de recursos para terminar a constru-
qdo de toda a ffbrica.
Como naquela 6poca o Brasil neces-
sitava desesperadamente da entrada de
recursos exteros os minist6rios do Pla-
nejamento e da Fazenda tamb6m aju-
daram na aceitagao e na aprovacgo pelo
BNDES.

Quando, exatamente, ocorreu
o encerramento da fase "gover-
namental" do projeto? Como se
materializou?
A expressed "fase governmental"
foi uma figure que eu criei para identifi-
car o period em que o projeto, mesmo
sendo feito dentro da Vale, era conduzi-
do por executives que nao pertenciam
a seus quadros, mas vindos basicamen-
te do governor federal. Eles fizeram um
bom e dificil trabalho, e tiveram ainda
que enfrentar o desinteresse da matriz
(min6rio de ferro). O projeto nao tinha
o "jeitdo" da Vale.
Esta etapa encerrou com o retomo
do Eliezer [Batista] a Presid8ncia da
Vale. A partir daf os cargos chaves na
Albris e Alunorte passaram a ser ocu-
pados por antigos funcionarios da Vale,
como Romeu, Elias Botelho, Mauricio
Schettino, Adailton, etc., e paraenses
como Bonna e Barreira.

A tecnologia da Mitsui era a me-
Ihor que a Albrds podia ter na sua
partida ou comefou defasada, por
ndo procurar a tecnologia de ponta
na epoca, com os fornos fechados?
Realmente a tecnologia que a Mit-
sui Aluminio trouxe inicialmente para o
projeto nao era a mais avangada, de que
dispunha a Pechiney na 6poca. Os ja-
poneses queriam aproveitar o projeto da
fibrica de Omutha para reduzir custos.
Eles principalmente alegavam que os
riscos de uma operaSqo pioneira na
Amaz6nia e a falta de experiencia da
Vale recomendavam o inicio cor um
projeto mais conservador. Lutamos
muito contra isto e conseguimos a pro-


messa de melhoria ji na segunda linha
de fornos o que foi feito.
De certo modo, isto at6 que teve
seu lado positive, pois estimulou ao de-
senvolvimento dos projetos de melho-
rias em geral dentro da pr6pria equipe
da Albris (no inicio, brasileiros e japo-
neses e depois s6 brasileiros). Toda a
fibrica foi remodelada e a Albris 6
hoje um modelo de eficiencia e quali-
dade. E sua capacidade de produgao
foi muito ampliada.

Na andlise retrospective, duas
quest6es:
a era inevitdvel a perda de 10
anos entire a partida da Albrds e da
Alunorte? Qual o significado dessa
perda?
b a Albrds ndo pode realmente
verticalizar alim do lingote?
A partir da decision de iniciar a cons-
truqdo tomada pelos acionistas em 1982
a implantaqao da Albris teve um atraso
de apenas dois anos. Eu consider isto
uma faqanha tendo em vista a conjun-
tura do mercado de aluminio na ocasiao.
Muitos acreditavam que o projeto Al-
bris/Alunorte nunca seria implantado.
Enquanto a Albris era construida, ou-
tras fibricas no mundo estavam sendo
fechadas.
A Alunorte, sim, teve um atraso de
1.0 anos na sua partida .(ficou 6 anos
totalmente paralisada). As principals
causes foram:
Indecisdo da Vale em moment de
mercado muito dificil deu chance aos
japoneses de ever sua participag9o e
de reduzir seu investimento. (hoje, com
o sucesso da Alunorte, os japoneses la-
mentam terem saido) as presses da
Alcoa sobre o governor federal e a Vale
para transferir a produqgo de alumina
par S.Lufs, beneficiando a Alumar.
Depois que o projeto saiu dos tri-
lhos foi muito dificil a retomada, feita
ainda quando a Vale era estatal. (Esta
hist6ria de nacionalismo ainda vai ser
contada).
b. Em minha opiniao, a Albris, com
a estrutura acionaria que tem hoje
(lembre-se que o governor japones ain-
da 6 o maior acionista da NAAC) se-
ria quase impossivel pensar em qual-
quer verticalizaqgo. Acho que a Vale,
e nao a Albris, deve conduzir esse
tema cor outros s6cios.