Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00335

Full Text


JUNHO
DE 2009
2aQUINZENA


ornal


A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO


PARA


Para baixo

E brutal o contrast entire a quantidade de riquezas extraidas do Pard e a pobreza em
que fica a sua populaCdo. Na avaliaido do desempenho dos mais pobres do Brasil, o
Pard so estd melhor do que o Amazonas, em 260 lugar Por qua?


O Pard 6 o segundo Estado mais
pobre do Brasil. S6 perde para
o Amazonas, que, entretanto,
pela mensurag~o dos indices quantitati-
vos, o supera. O terceiro Estado mais
pobre 6 o vizinho Maranhdo, que 6, ao
mesmo tempo, Amaz6nia Legal e Nor-
deste (e 6 o 6nico dos tr8s que ji deu
president da repdblica, o atual senador
Jos6 Sarney). O Pard 6 tdo pobre as-
sim porque seu IDF (Indice de Desen-
volvimento Familiar), o mais recent dos
medidores sociais criados no Brasil, 6
de 0,503, numa escala que vai de 0 (a
pior situacao) atW um (a melhor situa-
9ao). O IDF do Amazonas 6 de 0,502 e


o do Maranhao 6 de 0,515. O Estado
amaz6nico mais pobre a seguir, na 5a
pior posigSo, 6 o Amapi, que tern o in-
dice 0,517. O Estado menos pobre da
Amaz6nia 6 o Acre, corn 0,565, no 180
lugar. O lider no Brasil, tamb6m por essa
perspective, 6 Sdo Paulo (0,592).
Se a situagdo dos Estados 6 preocu-
pante, ji que nenhum deles alcanga
0,600, a dos municipios 6 dramrtica.
Entre os cinco piores, em uma lista li-
derada por Jordao, no Acre, e Uiramu-
td, em Roraima (abrangido pela reser-
va Raposa Serra do Sol, que os arrozei-
ros queriam continuar a ocupar ilegal-
mente, sob a alegagdo de que desen-


volviam o local), hi dois municipios pa-
raenses, situados na sofrida ilha de
Maraj6 e nos furos da foz do Amazo-
nas: Anajis, em terceiro, e Melgago, em
quarto, ambos com 0,37.
Nenhuma das capitals brasileiras fi-
gura entire os 500 municipios com pio-
res IDFs, mas Macapi e Porto Velho
estao nos uiltimos lugares dentre elas,
com menos da metade do IDF possivel
(ou 0,48). Bel6m vem logo a seguir, com
0,49, na companhia de Manaus e Rio
Branco. Ou seja: todas as capitals da
Amaz6nia sdo vitimas do process de
ocupagdo dos seus Estados. Com a
CONTIrA NA PAGEs


PAo. 3 SETE USINAS NO TAPAJOS


No 443
ANO XXII
R$ 3,00

Pessoal


ELEICAO JA NA IMPRENSA


-PA


it.4


prn 4







CONTINUAC~iD DA CAPA
agravante, no caso de Bel6m, de o seu
IDF estar abaixo da m6dia estadual.
Assim, se o interior vai mal, a capital
vai pior.
O IDF foi montado pelo Minist6rio
do Desenvolvimento Social corn base
num cadastro dnico, que redne informa-
96es sobre as families assistidas pelo
program Bolsa-Familia, que atende 55
milhoes de families. O indice 6 formado
por seis itens: vulnerabilidade familiar,
escolaridade, acesso ao trabalho, ren-
da, desenvolvimento infantile condiqSes
de habitagdo. Como foi alimentado com
dados acumulados at6 o ano passado,
revela uma verdade que salta aos olhos:
o assistencialismo do govero, atrav6s
do Bolsa-Familia, apenas renova a po-
breza, sem elimini-la. A conclusdo ji
podia ser antecipada quando o progra-
ma comegou, de forma tenue, ainda no
govemo Femando Henrique Cardoso,
mas agora essa verdade pode ser de-
monstrada numericamente. Para a
Amaz6nia, significa que a regido conti-
nua a ser a prima pobre do pais, apesar
de toda a conversa fiada em contrario.
E o Pard segue crescendo como rabo
de cavalo (para baixo), a despeito da
propaganda de tucanos e petistas.
Cor a bolsa, as families pobres ou
passaram a ter acesso a um rendimen-
to, que at6 entdo nao possufam, ou o
incrementaram. Poderdo sobreviver
com mais recursos do que antes. Mas
nao evoluirdo na escadaria social nem
terdo acesso a atividades econ6micas
perenes. O program assistencialista
nao as prepare para disputar lugares na
economic formal. Como os stores eco-
n8micos mais dinamicos no Pard estdo
ligados A exportag~o, que tem pouco ou
nenhum efeito germinativo local, o sub-
sidio que o govemo federal concede aos
mais pobres se espraia, porque a clien-
tela que fica a margem dos "grandes
projetos" 6 cada vez maior. Mas sem
iniciativas posteriores A mera conces-
sdo da bolsa, os beneficiarios nao con-
seguem transport o muro da exclusdo.
Os mais pobres talvez nio morram de
fome corn a ajuda official e at6 passem
a se sentir satisfeitos corn a melhoria
proporcionada pelo novo "pai dos po-
bres", mas continuardo achatados no p6
da pirdmide social, como uma casta se-
gregada pelo favor do govemo.
Nao surpreende o contrast brutal
que se cristaliza no Pard: o Estado se
empobrece enquanto incrementa seu


peso no com6rcio exterior brasileiro. t
o efeito maligno da especializagao que
lhe foi imposta: ser um exportador de
produtos nao acabados, da energia bru-
ta ao aluminio, que s6 multiplicam seus
efeitos no mercado consumidor. Como
a esmagadora maioria dos consumido-
res desses bens esti fora do Estado ou
al6m-mar, a cadeia produtiva nao cres-
ce, deixando de gerar intemamente a
renda e o emprego exigidos pelo cres-
cimento demogrifico, sobretudo via
imigragao. Para piorar a mecanica, a
exportagio 6 desonerada do principal
imposto estadual, o ICMS, o que com-
promete a capacidade de investimento
do govemo local.
Uma conseqiiencia political dessa
constataqdo 6 o empenho de muitos gru-
pos sociais em ampliar a federalizagdo
no Estado, a partir da premissa de que
Brasilia 6 mais eficiente, mais sensfvel
e menos comprometida com as estrutu-
ras locals de poder do que Bel6m (ou
Manaus, ou Rio Branco). No entanto,
esse raciocinio, que se express atra-
v6s de virios discursos, desde a gestao
fundidria at6 as political ambientais, se
choca cor uma constatagao ainda mais
evidence: o modelo econ6mico que gera
os desequilfbrios, as distorS9es e os de-
sastres sociais e ambientais na Amaz6-
nia foi criado ou avalizado pelo govemo
federal. A federalizag9o acaba propor-
cionando A raposa cuidar do galinheiro,
com as vestes do bom pastor.
Sdo tantas as boas intenSges, mas o
resultado 6 um s6, por tris das quanti-
dades fabulosas: o povo fica cada vez
mais pobre. Justamente porque o Pari,


tendo a 9" maior populacao do Brasil, 6
o 2 Estado que mais d6lares liquidos
proporciona A federacao national, o 40
maior exportador, o 3 maior transferi-
dor de energia bruta, o 2 maior minera-
dor e o 16 em desenvolvimento huma-
no, o 21 em desenvolvimento dajuven-
tude e, agora, o 26 em desenvolvimen-
to familiar, neste ultimo fndice abaixo de
todos os Estados da regiao que era con-
siderada a mais pobre do pals, o Nor-
deste. Abaixo at6 do Maranhao, devas-
tado pela oligarquia dos Sarney.

Ja Belem 6 a 74a pior dentre
79 cidades brasileiras com
mais de 300 mil habitantes
em mat6ria de infraestestrutura bAsica,
segundo o levantamento feito pelo Ins-
tituto Trata Brasil, com base em dados
reunidos de 2003 at6 2007, divulgados
no mes passado, com exclusividade,
pela revista Exame, da Editora Abril. A
capital paraense, com 6% de cobertura
de rede de esgoto e 1% de tratamento
de esgoto, 6 a pior capital do pais nes-
ses quesitos. Ficou A frente apenas de
Cariacica, no Espirito Santo, e Porto
Velho, a capital de Rond6nia, que tem
metade da rede de esgoto e nada do seu
tratamento. A primeira colocada 6 Fran-
ca, em Sdo Paulo, cor 94% e 77%,
respectivamente.
Brasilia, corn a ajuda dos p6ssimos
habitantes amaz6nicos e dos terriveis
lideres paraenses, em particular, estA
conseguindo o que parecia impossivel:
acabar com o sonho da Amazonia an-
tes de acabar com a pr6pria Amazonia.


2 Jornal Pessoal JUNHO DE 2009 2- QUINZENA


Boa casa
Ha anos os governantes do Pard repetem o mesmo refrao: o Estado ter
um deficitt" de 400 mil moradias. Na ret6rica official, o ndmero nao cresce,
nem diminui. Mas no mes passado, ao sair cor o president da Vale, Roger
Agnelli, de uma audiencia cor o president Lula, em Brasilia, a
govemadora Ana Jilia anunciou que, finalmente, o deficitt" diminuira.
Durante a gestio petista, em pelo menos 15%, ou 60 mil casas. De
imediato, por6m, o governor do Estado cedeu 30% de sua parte no
program "Minha Casa, Minha Vida" para a antiga estatal construir
moradias em seis municipios situados na sua drea de influencia, em torno
da provincia mineral de Carajds. Vai tender, 6 claro, seus funciondrios,
dependents e agregados dos empreendimentos que mant6m nessa region.
Os recursos virdo dos cofres estaduais e federais, parte deles a fundo
perdido e a outra parte a custo abaixo do mercado. A Vale, atrav6s da sua
fundagdo, entrari cor os projetos e a administrator. E faturard o lucro e
os dividends da iniciativa. O Pard continue a ser um neg6cio da China
para a ex-CVRD.








A eleigao ja comegou na

imprensa partidaria


Para os dois maiores grupos de co-
municagao do Pard a campanha eleito-
ral ji comegou, com um ano de antece-
dencia da abertura official da tempora-
da de caga ao voto popular. A posiqgo
do grupo liderado pelo Didrio do Pard
6 explicit e traditional: empunhar a ban-
deira do PMDB, que tem o dono, o de-
putado federal Jader Barba-
lho, como portador. Apesar
do seu empenho na profis-
sionalizacgo, o journal se
partidariza nas tempora-
das eleitorais, agora at6
com precocidade. A situ-
ago 6 a mesma do gru-
po encabegado por O Li-
beral, embora ele tente ven-
der ao piblico a sua image de
organizag~o verdadeiramen-
te empresarial, apartidi-
ria. Desde a semana
passada, por6m, os Mai-
orana transmitem, com
toda a Wnfase possivel, uma
mensagem a quem interessar possa:
combaterao quem se associar ao con-
corrente e desafeto, o lider do PMDB.
O recado aos tucanos 6 direto e veio
logo depois que o ex-govemador Simao
Jatene brindou com fartos salamaleques
seu ex-correligiondrio e amigo, durante
a solenidade de sagragao do novo em-
presario do ano, Carlos Xavier, cor ra-
izes tamb6m no PMDB. O beija-mro
de Jatene foi seguido por outras aves
emplumadas (ou que assim se supoem)
do PSDB. Se o gesto 6 sinal de alianga
eleitoral, Jatene vai ser fustigado pelas
armas estocadas pelos Maiorana: a can-
didatura alterativa do senador Mario
Couto, o estimulo a bilis do ex-govema-
dor Almir Gabriel e todo tipo de baixa-
ria, que retona como atavismo ao jor-
nal, que ji foi o porta-voz do "baratis-
mo", inspirado nos hibitos nada repu-
blicanos do caudilho Magalhies Barata
(cuja morte completou meio s6culo no
dia 29).
A outra ameaga 6 dirigida a petista
Ana Jdlia Carepa, que, a partir da sema-
na passada, foi colocada A frente do
"Meio Governo do Estado", batismo da
coluna Rep6rter 70 inspirado na ruidosa
e ruinosa iniciativa da administragao es-
tadual de reduzir o expediente de uma


S maiquina que, no ho-
rdrio regular, ji fun-
ciona ruim, quando
funciona. Os vastos
e salientes defeitos do
govemo do pano, que vi-
nham sendo colocados para de-
baixo do PT, sob o estimulo de extensa
propaganda official, foram postos na vitri-
na dos veiculos de comunicagao do grupo
Liberal, em fungdo dos insistentes indica-
dores de uma nova tratativa para renovar
o acordo com o PMDB jaderista.
Ja nao setr suficiente para Ana Jd-
lia abrir as burras do erario para fazer
soar o caixa dos Maiorana, como ji vi-
nha fazendo: ela teri que se manter a
distancia de Jader, sob pena de enfren-
tar a fuzilaria do grupo. Os Maiorana
acham que chegou a hora de eliminar
seu maior inimigo. A questdo 6 saber se
esse alvo esti ao alcance de suas ar-
mas, antes poderosas, hoje nem tanto.
Isso porque, do seu lado, o grupo de
comunicaCio de Jader testa suas bateri-
as atirando sobre os petistas para dar
uma id6ia do que poderi acontecer se
cederem a pressao dos adversirios poli-
ticos e concorrentes comerciais. A ca-
pacidade de influ8ncia dos Maiorana
atrav6s da televisao 6 muito maior, mas
a relago se altera, embora sem uma in-
versdo igual, quando se trata da impren-
sa escrita, ji que o alcance do Didrio se
tornou maior do que o de O Liberal.
Se ainda nao di para prever quem
saird ganhando nesse cabo de forca, di
para prever: a eleigdo de 2010 vai fe-
der. Alias: ji esta fedendo.


Prodigio explorado

A menina paulista Maisa Sil-
va 6 uma dadiva, um present
raro de Deus (para uns) ou da
natureza (para outros). Aos 4
anos cantava com desenvoltura
num program de televisao se-
cunddrio, o de Raul Gil. Silvio
Santos a "roubou" para o SBT.
Por acaso a vi no seu program
de sibado e me deslumbrei com
sua rara combinagao de virtudes
e qualidades. Mesmo sendo au-
tentica menina prodigio, com um
domfnio perfeito de cena e de
seu poder, era espontdnea, uma
verdadeira crianga, sem aquela
chatice que pais babies ou inte-
resseiros fazem surgir em suas
crias excepcionais por excess
de atencao e cuidados.
Parecia que, finalmente, a TV
ndo embotaria, mutilaria e destrui-
ria uma p6rola que foi jogada so-
bre seu chiqueiro. At6 que o dono
e feitor do SBT comeqou a ma-
nipular e a explorer a sua "com-
panheira de trabalho". O exces-
so provocou a intervenCao do Mi-
nist6rio Piblico Federal, que quer
punir o apresentador-ventrloquo
e preservar a menina, que acaba
de completar 7 anos. Espero que
a iniciativa seja bem-sucedida e
Maisa escape da miquina de tri-
turar gente. Voltando a nos en-
cantar e alegrar.

Explicago

O leitor notard que a present
edigio esta pouco noticiosa, es-
cassamente conjuntural, quase
nada polftica. A resistencia do edi-
tor ao desalento diante dos filti-
mos fatos esta baixa. O ceticis-
mo em relagdo aos donos das de-
cisoes que irdo influir sobre o
agora e o depois ultrapassou o li-
mite do tolerivel. t melhor tra-
tar de id6ias e de pessoas mais
ben6ficas. Esti al6m do limited do
p6ssimo a qualidade dos princi-
pais atores na cena paraense atu-
al. Daf a derivaqdo para outros
mundos humans, como uma for-
ma de protest contra as lideran-
gas predat6rias.


JUNHO DE 2009 2a QUINZENA Jornal Pessoal 3














No mes passado, atrav6s de duas iniciati-
vas, nao se sabe se casuais ou concatena-
das, o govemo federal resolve suspender o
uso hidrel6trico do rio Araguaia, que 6 de tran-
siqco do Planalto Central para a AmazOnia, e
efetivd-lo em um dos rios.mais caracteristicos
e bonitos da regiao, o Tapaj6s. Enquanto reti-
rava o velho projeto da usina de Santa Isabel
da pauta da 66 reunido da Crmara T6cnica de
Anilise de Projetos do Conselho Nacional de
Recursos Hidricos, que se reuniu no dia 18,
em Brasflia, anunciou sua intengdo de cons-
truir sete barragens no Tapaj6s, com potencia
possivel de 14;2 mil megawatts praticamen-
te uma nova Itaipu.
Santa Isabel ji havia sido descartada na
d6cada de 80 porque inundava uma Area maior
do que a do reservat6rio de Tucuruf para pro-
duzir 15% da geraqao da usina do Tocantins,
no qual o Araguaia desemboca. E um projeto
sem viabilidade ambiental. O govemo, usando
aAg8ncia Nacional de Energia El6trica (Aneel)
como porta-voz, teria merecido todos os elogi-
os se arquivasse em definitive o projeto por
esse aspect extremamente negative e incor-
rigivel da sua concepao. Proclamaria o Ara-
guaia como o primeiro grande rio intocivel do
pafs, por seu valor paisagistico, turistico, eco-
16gico, social e cultural. Afinal, a hidrel6trica de
Santa Isabel afetaria diretamente Areas de pro-
tego ambiental e unidades de conservagio,
como o Parque Estadual Serra dos Martirios-
Andorinhas, aAPASao Geraldo doAraguaia e
a APA Lago de Santa Isabel, localizadas em
Area considerada de alta prioridade para a pro-
teCo dabiodiversidade. Tambm atingirial31
cavemas naturais e 113 sftios arqueol6gicos.
Ao inv6s disso, o arquivamento seri de
10 anos, nao s6 em funglo desses complica-
dores ambientais, mas porque 6 nessa regiao
que estariam os corps dos 58 militants do
Partido Comunista do Brasil mortos pelo Ex6r-
cito durante a guerrilla do Araguaia e que por
1l foram enterrados clandestinamente. Ao con-
gelar o projeto, o governor queria ter tempo
para encontrar e exumar os restos mortais dos
guerrilheiros, que, de outro modo, ficariam
submersos no lago da usina.
O argument pode levar a pensar que se o
trabalho de busca for incrementado e tiver 8xi-
to, o projeto poderd ser ressuscitado e se via-
bilizar, sem os problems que o devolveram
prateleira e de onde foi retirado por um con-
s6rcio formado pela Vale, Alcoa, BHP Billiton
Metais, Camargo Corrna e Votorantim. Na ver-
dade, a usina 6 para sair de cogitago para sem-
pre, por seu saldo ambiental negative. Se fos-
se viivel de fato, a exist8ncia dos corpos dos
guerrilheiros teria que receber um tratamento
urgente para no servir de impedimento i obra.
Enquanto isso, a mesma Aneel aprovava
os estudos do inventario hidrel6trico do Tapa-
j6s, conduzidos pela estatal Eletronorte e a pri-


vada Construtora Camargo Corria, que andam
juntas hi quase num quarto de s6culo na Ama-
z6nia, desde a construgao de Tucuruf. As duas
empresas nao se limitaram a'apresentar um pros-
pecto envelhecido, com o gosto de coisa rea-
quecida. Ao mesmo tempo emrque consegui-
am o endosso official para mais uma etapa do
aproveitamento do novo rio, cercavam o anlin-
cio comuma moldura mais atraente.
Pelo manual de inventArio dos rios brasilei-
ros em vigor, o melhor local par construir a
hidrel6trica de Sao Luiz do Tapaj6s, dentre as
13 altemativas estudadas at6 o ano passado,
quando o estudo foi concluido e entregue a
Aneel, seria pro6imo a liamrba. Nesse local.
uma barrage corn 80 metros de alrura podia
gerar at6 11 mil mega jnarts la como o repre-
samento das Aguas do rio Tapaj6s nesse pon-
to iria submergir parte do Parque Nacional da
Amaz6nia, que possui um milhao de hectares e
tem valor excepcional pela enorme biodiversi-
dade de mamiferos que abriga, a Eletronorte
anunciou que dividiria a usina em dois apro-
veitamentos "reduzindo significativamente a
Area alagada. "Perdemos capacidade eiergeti-
ca, mas ganhamos um aproveitamento econo-
mico e ambientalmente vidvel", disse o supe-
rintendente da estatal, Luiz Femando Rufato, A
Corrente Continua, revista da pr6pria empre-
sa. A declaramao foi publicada na filtima edi-
qo, de marqo/abril.
Mas em maio o retalhamento ja era bem
maior: nao mais duas barragens, mas sete. Tr8s
delas seriam no Tapaj6s, com uma pot8ncia
somada de 11,7 mil MW e inundando 1.984
quil6metros quadrados. As outras quatro se-
riam no Jamanxim, que 6 o principal afluente
no Pari, corn potencia de quase 2,5 mil MW e
pouco mais de mil quil6metros quadrados de
inundag~o. Os sete reservat6rios conteriam a
mesma Area do lago de Tucuruf, de pouco
mais de tres mil km2.
Talvez para desviar o foco dessas infor-
magaes, a Eletronorte anunciou que utilizara
o conceito tecnol6gico das plataformas flutu-
antes, com as quais 6 feita a exploracgo do
petr61eo sob lImina d'Agua no mar, inclusive
de Aguas profundas, adaptando-as A cons-
trug o de barragens no rio. Haveria pouca in-
tervengao na floresta porque os operdrios
seriam langados de helic6ptero diretamente
nessas plataformas para participar da obra,
sem que esse tipo de operagdo exija base em
terra, como at6 aqui tem acontecido.
Se tal m6todo for possivel, 6timo. Mas an-
tes de discuti-lo, 6 precise considerar o projeto
propriamente dito do aproveitamento hidrel6-
trico. E o que foi anunciado para o Tapaj6s/
Jamanxim 6 quase tio ruim quanto o que se
queria fazer no Araguaia. Por isso, antes de
qualquerintervengo na area, aEletronorte tern
que submeter suas iddias a opiniao ptiblica.
Corn o que j mostrou, esta reprovada.


No Araguaia, nao.


No Tapajos, sim?


4 Jornal Pessoal JUNHO DE 2009 2- QUINZENA


Sem olhos

Quando o desembargador RaimundoHo-
landa Reis mandou soltar o ex-deputado Luiz
Afonio Sefer, no dia28. acolhendo um habe-
as corpus preventive do advogado dele, po-
liciais civis do Estado j estavam viajando de
Bel6m para o Rio de Janeiro com a missao de
recambid-lo, com todas as despesas pagas
pelo erArio. Ao livrar o midico da cela da pehi-
tenciaria carioca, aonde fora recolhido por
outra ordem dajustiqa estadual, requerida pelo
Ministerio Piblico, em fungao das evid8ncias
do crime de pedofilia, o desembargador cer-
cou sua provid8ncia.de uma condi~go, talvez
para atenuar seu impact negative: o acusa-
do deveria se apresentar as 10 horas da ma-
nhi do dia seguinte. Depois, caracterizada a
impraticabilidade da sua determinaao, por-
que a policia carioca fez corpo mole no cum-
primento do mandado judicial para nao soltar
logo o indiyiduo acusado de crime infamante,
prorrogou-a por 96 horas. :
O magistrado tern o direito de former raci-
ocinio.prprio sobre a questlo, diametralmen-
te oposto ao do seu colega, que despachou a
ordem original de prisao. Ele disse que nao
estava caracterizado o fato determinate da
privago da liberdade. Mas, ao inv6s de ante-
cipar a !soltu r. podia esperar por 24 ou mes-
mo 48 horas para que o r6u, denunciado por
um crime tao torpe, o de abusar sexualmente
de uma crianca. se lhe fosse apresentado.
Era o que aconteceria se o desembarga-
dor Raimundo Holanda nao tivesse aborta-
do, rigorosamente no ar, a expedidio policial
paraense. Aldm de onerar os cofres ptiblicos,
o magistrado causou um prejuizo ainda mai-
or: A images j tao desgastada dajustica
do Estado. Nao exatamente por agir errado,
mas por falta de bom senso, ou de senso da
oportunidade, ou por falta de consideragao
pela cena que se desenrolava A margem dos
autos, mas de forma tao escancarada que nao
podia passar desapercebida ao julgador de
um feito como esse.

Inedito

Em tr8s anos o Procon recebeu 1.130
reclamag6es contra a loja C & A instalada
no antigo shopping Iguatemi (metamorfo-
seado em Patio Bel6m). Como eram proce-
dentes, mais de 700 dessas queixas viraram
processes administrativos. 0 abuso se tor-
nou insustentavel: os clients reclamavam
de cobrancas indevidas, servigos cobrados
e nao prestados, acordos nao cumpridos e
constrangimentos impostos. Em conseqii-
Encia, pela primeira vez uma loja foi interdi-
tada pela policia, a pedido da diretoria de
protedao e defesa do consumidor. O fecha-
mento durou apenas algumas horas porque
a C & A rapidamente assinou um Termo de
Ajustamento de Conduta e se submeteu A
multa de 39 mil reais. O precedent deve
servir de estimulo para clients nao se su-
jeitarem as violaq6es dos seus direitos por
empresas abusadas.









Sem o journal diario, mundo mais pobre


Se a sentenga de morte lavrada pelos
profetas do monop6lio virtual se confirmar,
o fim dojornal impresso em papel empobre-
cerd o mundo. Ainda nao estou convenci-
do de que essa previsdo seja inevitivel.
Estao com seus dias contados os jornais
tal como existiam at6 o avango da internet.
Mas se enfrentarem ou se adaptarem A nova
tecnologia, aproveitando seus beneficios
(como a instantaneidade, a fantdstica capa-
cidade de armazenamento de dados, os re-
cursos visuais e a interatividade) e explo-
rando suas fraquezas (especialmente sua
superficialidade e linearidade), poderdo
continuar a existir e melhores.
Mas admitamos que nao haja mais lugar
para eles e tenham que procurar seu sitio
nos museus: como sera o mundo no dia em
que nao houver mais nenhum journal A mro
para que o leitor acompanhe as atividades
de inauguragao do novo dia no banheiro,
A mesa do caf6 da manha, no trem, na para-
da do 6nibus ou ao lado do sofa para apro-
veitar a folga do trabalho?
Uma parte de mim tamb6m chegard ao
fim nesse dia, o que me impulsiona a refletir
sobre a iminancia desse risco, a tentar ante-
cipar o que poderi acontecer e a dar minha
microsc6pica contribuigio para que tal ame-
aga nao se concretize (ao menos exergo o
jus esperneandi). Meu primeiro contato di-
reto de menino com publicac6es peri6dicas
foi na livraria Vit6ria, de Raimundo Saraiva
(e onde j pontificava o "seu" Antonio, ainda
firme pelas ruas para contar a hist6ria), na
travessa Padre Eutiquio.
Parte da magia estava na capa das re-
vistas, onde um carimbo triangular infor-
mava que elas tinham chegado atrav6s da
Bel6m-Brasflia ("via rodoviaria"), novida-
de ainda bem quentinha. Por causa do fre-
te, o prego de venda era superior ao valor
impresso na capa. Era fato criado entire
1959 e 1960, com a abertura ainda pre-
caria da "estrada das ongas" de Jusce-
lino Kubitscheck, pai de Brasilia, da infla-
0ao galopante (pondo fim ao prego fiado
na capa, que passaria a ser improvisado)
e de virias outras marcas brasileiras.
At6 entao, o prazer de ler estava con-
dicionado as viagens do meu pai "ao
sul", que, felizmente, eram freqilentes. Ele
voltava com meus pedidos debaixo do
bravo. Como tamb6m trazia frutas e do-
ces, por aqui muito cars e nem sempre
encontrados, acordavamos nas madruga-
das da sua chegada para o butim, um mo-
mento de descontragdo na ordem unida
imposto em casa no horario regulamen-
tar. Tudo chegava ainda impregnado pelo
odor remanescente do ar condicionado
do aviao, produto que tamb6m era uma
raridade.
Aos 11 anos descobri outro fetiche
no circuit das publicag5es impressas: a
banca de revista. Foi na primeira incur-


sao ao Rio de Janeiro, a "velha cap", e a
Sao Paulo, a locomotive do pais. Ficava
um tempo diante das bancas, procuran-
do identificar tudo que elas continham,
fazendo esforgo de concentracqo para
nao me perder na dispersao que o fascf-
nio provocava e poder sair da incursio
com minhas conquistas, as melhores. Na
epoca, os objetos principals do desejo
eram as revistas esportivas e as revistas
em quadrinhos. Era impossivel nao colo-
car em primeiro lugar a Manchete Espor-
tiva, cujo format grande era o melhor
cendrio para as fotos destacadas e o pa-
pel possibilitava nao s6 boa impressao
como leitura confortdvel. A Gazeta Es-
portiva era mais macuda, mas indispen-
sivel por causa da riqueza de informa-
96es que trazia, com uma diversificago
sem igual.
Logo em seguida vinha a Revista dos
Esportes, gemea da Revista do Rddio,
onde, al6m das fofocas e curiosidades, o
que mais me atrafa era uma secqo, "Raios-
X de corpo inteiro" (ou algo parecido).
Era o pingue-pongue de perguntas e res-
postas, uma das quais era sobre o que os
jogadores comiam antes e depois dos jo-
gos. Eles se referiam a verduras, legumes,
ingredients ou pratos que eu desconhe-
cia, limitado A dieta basica de Bel6m, sem
sofisticag9o. Alguns anos depois, quan-
do voltei ao Rio, ja adolescent, usei mi-
nhas anotagoes para partilhar os praze-
res da cidade grande, que Bel6m, pelo
menos nessa 6poca, nao era mais.

Bern no inicio de 1962
pude desfrutar de um
dresses prazeres na minha
pr6pria cidade: a Livraria
Vit6ria comegou a
instalar as primeiras
bancas da capital paraense.
A que eu freqiientava ficava na extremi-
dade da praga da Repiblica, esquina com
a Serzedelo Correa, ao lado do IEP (o Ins-
tituto de Educagao do Pard das nossas
normalistas lindas). Ja entao o cardipio
didrio inclufa o Correio da Manha, o Jor-
nal do Brasil e a (ltima Hora. Quando
me mudei para o Rio, incorporei O Globo,
o Didrio de Noticias e, depois, o Jornal
dos Sports, por obra e graga dos acr6sci-
mos feitos por Reynaldo Jardim. Sem fa-
lar nas publica96es semanais, quinzenais,
mensais ou nos hebdomaddrios.
O apice da minha atividade de leitor
de jornais foi quando me tornei pauteiro
national de O Estado de S. Paulo, na sede
paulistana. Nao havia limits para a mi-
nha gula: eu podia mandar vir jornais de
todos os lugares do pais, gracas a rede


de sucursais e correspondents, a melhor
que j houve na imprensa brasileira (e que
nunca mais sera igualada). Na rede vinham
peixes estranhos ou curiosos, como o
Cinco de Marco, de Goiania. Minha mesa
era tomada por esses pap6is impresses, o
que me permitia former uma opiniao ver-
dadeiramente national.
Outro period de fartura foi na tempo-
rada americana de 1983-84. Aos domin-
gos eu voltava do almogo para casa car-
regando quilos de papel na cabega. Era
impossivel sobragar o volume formado
pelo Wall Street Journal, New York Ti-
mes, Los Angeles Times, Miami Herald e
Christian Science Monitor. Depois de
extrair os cadernos de classificados e os
suplementos indesejiveis, a leitura ia at6
a noite porque havia realmente o que ler.
Hoje, todos esses jornais estao em crise e
o Monitor nao ter mais a versao em pa-
pel, confinando-se A tela do computador,
onde nao leio journal.
A crise 6 mesmo profunda. Tem-se dela
uma id6ia pela leitura do ombudsman da
Folha de S. Paulo, o mais antigo e influ-
ente do Brasil. Numa entrevista ao dltimo
nimero da revista Imprensa, Carlos
Eduardo Lins e Silva diz que 18 todos os
dias o seu journal, o concorrente local, que
6 0 Estado de S. Paulo, o Valor Econ6-
mico (fnico journal especializado em eco-
nomia que sobrard depois do passamen-
to da Gazeta Mercantil, com seus quase
90 anos e tudo mais) e 0 Globo. S6? S6. E
nao hi mesmo outro journal verdadeira-
mente national. Nem haverd?
Se os leitores de hoje pudessem reno-
var o prazer que tinhamos quando colo-
civamos diante de n6s, desde a tenra ado-
lesc8ncia, os jornais de entao, talvez vi-
esse a surgir algum novo journal. Fecho os
olhos e deixo vir a relembranqa de uma
leitura em dia comum do Correio da Ma-
nha. Na primeira pigina, as fotos por an-
gulos novos ou inteligentes batidas por
uma das melhores equipes de fot6grafos
de todos os tempos. As piginas de edito-
riais e de colunas political, escritas (e nem
sempre assinadas) por Otto Maria Car-
peaux, Ant6nio Callado, Luiz Alberto
Bahia, Hermano Alves, Mircio Moreira
Alves, Paulo de Castro, Osvaldo Peralva
e tantos mais. O 2 Caderno, cor Carlos
Drummond de Andrade, Carlos Heitor
Cony, Antonio Moniz Vianna, Salvyano
Cavalcanti de Paiva, as frases seleciona-
das pelo Guima. Aos domingos, o Quarto
Caderno. E no Jornal do Brasil? 0 ainda
insuperado Caderno B, as mat6rias do De-
partamento de Pesquisa, as grandes re-
portagens. No domingo, o Caderno Es-
pecial. Se nao houver leitor para essas
grandes criacges do espirito, 6 porque
havera menos espirito no mundo. E o
mundo ficard chato, pobre, sem sabor.


JUNHO DE 2009 2a QUINZENA Jornal Pessoal 5








Papel: adeus
No dia 1 dejulho as resenhas dajus-
tiga do Pard migrarao do Didrio Oficial,
impresso em papel, para a verso eletr6-
nica. A partir desse dia, as consultas s6
poderdo ser feitas atrav6s da internet. O
mesmo jd ocorreu corn a versao impressa
dajustiga do trabalho e dajustica federal.
O DO, cada vez mais fino, se limitari a
reproduzir os atos oficiais do Estado e dos
municipios, al6m das publicag6es de obri-
gacdo legal das empresas particulares. Sua
vida, pr6xima dos 120 anos, estara amea-
qada, por inanicqo econ6mica.
Este foi o motivo alegado para o Tri-
bunal de Justiga do Estado se decidir pela
extinqdo do seu didrio em papel. A redu-
qao de custos 6 tao evidence que esta
parece ser a tend8ncia universal, adotada
no ano passado pelos tribunais superio-
res do pais. Mas sera motive suficiente
para ser aceito pela sociedade? O acesso
a internet ainda noo foi universalizado no
Brasil e dificilmente o sera logo. 0 servigo
tamb6m noo oferece qualidade e seguran-
9a, que poderiam prevenir fatos desagra-
daveis, como a perda de prazo por even-
tual impossibilidade de consult ao site
dojudicidrio, ou outro tipo de falha. Para
estar em condicao de superar essas cir-
cunstancias, o cidaddo precisa contar com
retaguarda t6cnica, que exige dinheiro.
Essa assistencia estd ao seu alcance? Esse
6nus podera se somar as custas judiciais,
que estao colocando o povo A distancia
do melhor atendimento.
Mas hd outra questo. A resenha dos
procedimentos e decisoes da justiga nao
serve apenas a rotina do seu funciona-
mento: ela se destina tamb6m a assegu-
rar o registro hist6rico e possibilitar o
control social. A constituiqao brasileira
em vigor reforgou a necessidade da mi-
xima divulgagoo possivel dos atos ofici-
ais, fiel ao principio da ampla publicida-
de, que favorece a sociedade. A priva-
9ao da versao impressa nao compromete
esse objetivo, que serve a democracia?
Nao represent uma adesao irrestrita, in-
condicional e um tanto irrefletida a nova
tecnologia, privando o pals de uma fon-
te adicional e necessaria de informagro
e documentagao?
Fica a pergunta a quem respond8-la
possa. Ou, pelo menos, para impor um rito
de passage a um ato tao categ6rico
como esse.


Efeito

Parece que o grupo Y. Yamada, o mai-
or do com6rcio de varejo no Pard, deci-
diu incrementar a propaganda na im-
prensa, incluindo com mais generosida-
de o grupo Liberal. As mat6rias critics
e os recados surtiram efeito. Tanto que
desapareceram.


CADERNETA DO REPORTER


Logo que assumi a presidencia do
sindicato dos jornalistas, em 1978,
tratei de pbr em prdtica um compro-
misso de campanha: dar legitimida-
de a entidade. Para isso, era precise
recadastrar os associados. Os que
ndo tinham mais ou nunca tiveram
vinculagdo professional com a im-
prensa, seriam excluidos. Havia mui-
tos jornalistas apenas de carteirinha,
cobigada porque durante algum tem-
po jornalistas ndo pagavam imposto
de renda, tinham direito a financia-
mento integral da casa prdpria ou a
desconto de 50% na compra de pas-
sagens areas. Cor o fim desses pri-
viligios indevidos (que amoleciam a
consciencia e estripavam a indepen-
dencia), sd ficaram aqueles que, ndo
sendo do ramo, gostavam do status
ou serviam aos interesses dos pa-
troes. Quando interessava, os empre-
sdrios mobilizavam esse exercito de
reserve para combater qualquer de-
cisdo que os contrariasse. N6s pre-
tendiamos contrarid-los, instaurando
dissidio coletivo para melhorar os
pessimos salaries e as condioes de
trabalho. Como o dissidio precisava
de maioria absolute para ser instau-
rado, se ndo restringissemos a sindi-
calizagdo aos profissionais das reda-
95es, beneficidrios das medidas, es-
tariamos sujeitos a ndo conseguir a
aprovacao.
Comunicados foram enviados a
todos os associados. Dentre eles,
havia o entdo governador, o arce-
bispo e outras pessoas notdveis.
Uns se irritaram, outros pediram o
desligamento, vdrios se considera-
ram injustigados, mas uns tantos ou
aceitaram a exclusdo, por ser legal,
ou se regularizaram, por ser de seu
direito, conforme comprovaram.
Dentre esses raros estava a escrito-
ra Lindanor Celina. Minha angds-
tia ao mandar o oficio-padrio para
Lindanor sd ndo foi maior porque
eu sabia que ela merecia continuar
vinculada ao sindicato. Lindanor es-
crevia cronicas na imprensa desde
1954, primeiro na Folha do Norte,
depois em A Provincia do Pard. Esta-
va enquadrada na figure do cola-


Lindanor


borador, cor direito a sua carteiri-
nha de jornalista, vital para ela, que
morava havia muito tempo na Fran-
ca e se beneficiava do abre-alas da
condigdo de jornalista para ter
acesso a muitos lugares, que aca-
bavam servindo de motivo para suas
crOnicas semanais.
Do seu apartamento em Clamart,
nos arredores de Paris, em fevereiro
de 1979, Lindanor me mandou uma
carta bem ao seu estilo, que reencon-
trei em mais um vasculhar de papeis
para esta nova secdo. A um documen-
to inedito e bastante significativo
sobre uma das nossas mais fecundas
e importantes escritoras em todos os
tempos. Quando a conheci, Lindanor
se me apresentou como a mde do meu
amigo e colega de CEPC, Fernando
Ltcio de Miranda. Ela me adotou
como se filho eu fosse tambem. Ela
jd era entdo cronista de journal e aca-
bara de estrear em livro, com a Meni-
na que vem de Itaiara. Ambas as es-
treias tardias: em journal, aos 37 anos;
em livro, aos 46. Jd era inteligente,
jd tinha uma vontade enorme de fa-
zer, jd lia e escrevia bem, mas ficara
sufocada pela origem interiorana, o
casamento precoce, a separacdo rd-
pida, e o peso de manter a familiar,
cor tres filhos. A ligagdo cor Dur-
val Machado foi o principio da sua
libertagdo para aquilo que era sua
missdo: criar cultural.
Em primeiro lugar, ser a persona-
gem Lindanor sua primeira e sem-
piterna criagdo. Como a criadora
sempre predominou, cor seu modo de
ser exuberante, num imperialismo de
querencia, a avaliagco da sua obra
ficou em segundo plano, bastante
prejudicada. Com o desaparecimen-
to de Lindanor em 2003, aos 85
anos, sua obra de cronista, roman-
cista e contista, dissociada da sua
personalidade vulcdnica, deverd se
desenvolver ainda mais. Porque Lin-
danor sabia contar histdrias e fazer
sutis mas profundas observaoies
sobre usos e costumes, como poucos.
Escrevia como falava, cor um colo-
quialismo encantador e um acento
muito pessoal, irreverente, mordaz e


6 Jornal Pessoal JUNHO DE 2009 2- QUINZENA










primeira e unica


carinhosa as vezes, sensual quase
sempre: voluptuosa.
Quem p6de conviver cor ela, ndo
so a apreciard ainda mais como revi-
verd sua memdria na releitura. Mas os
demais ndo perderdo em prazer origi-
nal. Escreve, final, ela sabiafazer tdo
bem quanto falar Falou e escreveu sem
cessar, para recuperar o tempo perdi-
do, mesmo sem ser propriamente prous-


tiana. Seu dltimo livro saiu do forno
quando ela tinha 77 anos claro, sem
revelar nunca a idade.
Reproduzo esta carta, 30 anos
depois de te-la recebido, porque tem
a marca registrada de Lindanor Ce-
lina Coelho de Miranda, finalmente
Casha, gracas a maior de suas con-
quistas, o escritor Serge, o compa-
nheiro de muitos anos no aldm-mar.


Para mim, serve de compensacdo por
ter ficado de fora do livro que a ho-
menageou em 2004, por um aciden-
te de percurso do artigo que escrevi
e se perdeu no caminho ate a Secre-
taria de Cultura, sensibilizado pela
iniciativa de Madeleine Bedran, a
mais Lindanor dos sucessores na
familiar da grande e querida amiga.
Em retrato fiel neste texto.


S ossegue que nao ouvird de mim nenhum "at6 tu, Bru-
tus?" Compreendo muito bem a sua posigao. Tam-
b6m eu gostaria de pedir a voce noutros terms que
nao estes, de pedinte. Ora, aqui estamos, meu novo patrao
(que termo, hem!). Junto, o requerimento de que me fala,
espero esteja complete, sempre fui meio retardada no que
toca a burocracia, pesar ter trabalhado dec8nios num Tribu-
nal. De agora em diante, devo contribuir cor minhas obri-
gaqges sindicais quais sdo elas? Diga-me! Estou tao lon-
ge de tudo isso. Mas nao deixo de mandar cr6nicas, dnico
elo que ainda mantenho com meu povo, meu Pard (at6 pa-
rego um politico de beira-de-rio num comicio, meu (raro)
pdblico. Pena que nao possa receber a carteira antes da
minha pr6xima viagem a Madrid (para entrar no museu do
Prado, necessarissima). Mas sei que voc8 a mandard logo
que possa certo? E desde jd Ihe agradego. Te digo, Licio,
aqui no estrangeiro, a carteira me vale, e muito. Tem sido
gragas a ela que indmeras cr6nicas sobre teatro grego, fes-
tivais, etc. etc. tem sido feitas. Pois gragas a ela, gozo pe-
rante os "departamentos de cultural "centros de Turismo"
de um "standing" especial, e penso que correspondo a isso,
pois continue escrevendo. Bom. Voc8 sabe demais disso
tudo. Era para ser honest tamb6m com voce, como voc8 6
comigo. Pergunta-me sobre minaretes. Voce deve ler algu-
mas cr6nicas minhas no Suplemento Literdrio da Provin-
cia? Estou no 6 ro-
mance. Ja com 150
piginas. Agora em
Madrid you dar um
bom avango nele, es- .
pero. Pois escrevo
(romances) principal- -
mente nas f6rias. Me
plant num caf6, e
tome pigina. Tenho 2
na "agulha": o 50 se
passa em Bel6m, num
TRT [Tribunal Regi-
onal do Trabalho].
Tive de me meter na
pele de um continue _
de Tribunal e fazer de
seu olho camera para


este livro. Esti quase todo escrito. O 6 se passa em Bra-
ganga, 6 um livro meio migico, meio atormentado, "a meni-
na dangava ao p6 do agaizeiro, o pai ia subindo, e a palmei-
ra subia com ele, subia, desaparecia no azul, o pai entdo ia
pro c6u direto?" Ja v6s como o mundo migico da infancia
esti misturado corn a "realidade" que inventei nesse livro.
"Minha filha, mas tu estudaste foi pra puta?!" dizia aque-
la mre-mrxtir a filha coberta de medalhas e pr8mios e pri-
meiros-lugares-em-tudo, mas assanhad6rrima e rueira como
ela s6, escandalo do lugar... Tens uma id6ia? Ora, ji te dis-
se, foi coisa sobre meus livrinhos futures. O 4 Para al6m
dos anjos aguardando edig9o no Rio. E teve um pr8mio...
Ndo quero falar dos dias antigos. O que tu sabes, L6cio
Flivio, 6 que eu te quero muito bem. "Faga-o um filho" -
me disse um dia o senhor teu pai, quando soube da nossa
tdo estreita amizade. Estis long. Mas podes contar sem-
pre com a fidelidade desta tua amiga velha. Olhe: de re-
pente me aconteceu uma coisa: fui nomeada responsivel
pelo ensino do Portugues na Universidade de Lille! Agora
1y vou todas as 2as feiras, num trem, dou 5 horas de aula
encarrilhadas, adoro meus alunos, penso que eles me esti-
mam tamb6m um bocado. Vou dando como posso a litera-
tura nossa, tao ignorada do resto do mundo... E os teus
poemas? Onde estdo?
Mando-te meu abrago e saudade. Que tua familiar esteja
bem. Quando vires
meus filhos, s6 amigo


I


deles!
Lindanor
PS Esta vai pelo
[Jodo] Marques, pois
nao me deste teu en-
dere9o. Escreve-me
quando puderes, que
me dis alegria.
OS Voc8 pode-
ria mandar a cart. Re-
gistrada? Tenho medo
que se perca. Ou pelo
nosso amigo Mar-
ques. De qualquer
forma, um grande
merci. L.


JUNHO DE 2009 2~ QUINZENA Jornal Pessoal 7


* Jornal Pessoal 7


JUNHO DE 2009 2" QUINZENA






























PROPAGANDA


Pequena

grande livraria

Haroldo Maranhdo
aproveitou o impact da
noite de autdgrafos de
Jean-Paul Sartre para
propagandear a sua
compacta e bem
sortida) Livraria Dom
Quixote, a loja 18 da
galeria do Paldcio do
Rddio, na rua 0 de
Almeida (quase
chegando a avenida
President Vargas).
Aldm do Furacao sobre
Cuba, do fildsofo
frances, um best-seller
naqueles dias de
outubro de 1960 era Eu
e as iltimas 72 horas de
Magalhaes Barata,
memorias da viuva do
mais marcante politico
da repdblica no Pard,
escritas pouco mais de
um ano depois da sua
morte. Lancadas pela
livraria do neto do seu
maior inimigo, o
jornalista Paulo
Maranhdo, da Folha do
Norte, que publicou o
anlncio, sofisticado
para a epoca.
Caprichosa e a histdria


ENERGIA
O Frigorifico Bar Uniao, que funcionava no ini-
cio da travessa 13 de Maio (no n6mero 58) comuni-
cou A sua "distinta freguesia", em 1947, que, "em
virtude da defici8ncia da corrente el6trica, forneci-
da pela Pard El6trica, esti procedendo a monta-
gem de um possante dynamo, que ficard funcionan-
do dentro de tr8s dias". Aproveitava para tamb6m
anunciar que, pelo vapor SS Pachitea, iria receber,
procedente da Am6rica do Norte, "uma grande par-
tida de macas, peras, beterraba, batatas america-
nas, ervilhas em conserve, aspargos, pessegos, da-
mascos, marmeladas, goiabadas e um variadissi-
mo sortimento de outras frutas, que serdo vendidas
a precos especiais". E os clients que visitassem a
seqao de bar do estabelecimento poderiam encon-
trar cerveja "e outras bebidas geladissimas, al6m
de acepipes A minute". O frigorifico estava alijus-
tamente para possibilitar essa vantage numa ci-
dade onde a energia faltava tanto que a Pard E16tri-
ca era mais conhecida como Paralitica.

JOURNAL
Uma das maiores perdas A mem6ria escrita do
Pard aconteceu no dia 30 de agosto de 1952: um .
inc8ndio destruiu todo o arquivo da Folha do Nor-
te, que tinha 60 anos de exist$ncia. Dessa vez, a
destruiqdo foi resultante de um acidente e nao de
algum ataque cor motivagao political, como em
outras ocasi6es. Todas as demais depend8ncias
da empresa permaneceram inc6lumes. "Identifi-
cado com o povo, de cujos interesses sempre foi
sentinela indormida e her6ica", o journal de Paulo
Maranhao lancou "um apelo" para recompor a
coleqdo dos exemplares antigos. A resposta foi
imediata: no dia 4 de setembro jornais comega-
ram a ser enviados por pessoas como Irawaldir
Rocha, na 6poca estudante do Col6gio Estadual
Paes de Carvalho, a familia Conduru e dezenas
de pessoas, que tinham seus nomes registrados
todos os dias. Qual seria a resposta do pdblico se
uma trag6dia dessas ocorresse hoje?

COMERCIO
Neste ano complete meio s6culo que Romulo
Maiorana comegou sua atividade commercial em
Bel6m. Sua primeira loja, s6 para homes, foi
instalada do lado esquerdo da avenida Presiden-
te Vargas, onde atualmente se encontra o INSS,
na esquina com a praga da Repdblica, emjulho
de 1959. Antes de inauguri-la, ele comprou o
ponto que era da Casa Renner, do-outro lado da
avenida, e montou af a sua segunda loja. Come-
gava entdo uma carreira de sucesso no varejo da
moda e da confeccqo, at6 interromp8-la de sdbi-
to (e de forma pol8mica) e passar para o ramo
de neg6cio que ele mais queria: o da imprensa.
Onde conseguiu, finalmente, estabelecer uma
fonte de poder como poucos tiveram no Para.
Poder que passou aos sucessores, desfrutado e
dilapidado desde entao.


PERFUME
A falta de uma clara definido
dos limits entire o Pard e o Ama-
zonas, acertada entire os dois Es-
tados, deu motivo a um incident
em 1952. A firma Chady & Cia.
extraia arvores para a produgao
do 6leo de pau-rosa em dois lotes
que obteve por arrendamento do
govero do Para. Mas nesse ano
o governor do Amazonas resolve
cobrar os impostos devidos, ame-
agando impedir a retirada da es-
sencia da usina se o tribute nao
fosse recolhido. A firma recorreu
ao Estado. O procurador fiscal da
fazenda estadual, Alarico Bara-
ta, pai do poeta Rui Barata, foi
de parecer, "como media urgen-
te, que o Fisco paraense cobre
os impostos a que tem incontes-
tivel direito, garantindo, tam-
b6m, a firma prejudicada na li-
vre said do seu produto". Opi-
nava dessa forma por nao encon-
trar "outra alternative".
Independentemente da dispu-
ta tributdria e do contencioso ter-
ritorial, cabe observer a existen-
cia de uma atividade produtiva
responsivel pelo desapareci-
mento de uma drvore importan-
te nas florestas da regiao. A es-
sencia de pau-rosa era usada
para fixar o odor dos perfumes,
os mais famosos dos quais fabri-
cados na Franca.

PALACETE
Durante cinco anos a residen-
cia official do governador do
Pard, que hoje abriga a sede da
Secretaria de Cultura e o Parque
da Residencia, permaneceu fe-
chada. Eleito para suceder o ge-
neral Zacarias de Assungao, em
1956, Magalhdes Barata nao
ocupou o im6vel para preservar
sua companheira, Dalila Ohana,
cor a qual nao era casado le-
galmente (a relado juridica era
cor sua primeira mulher). Pre-
feriu instalar-se num im6vel par-
ticular, na Doutor Moraes (hoje
a resid8ncia do arcebispo de
Bel6m). Seu substitute, o gene-
ral Moura Carvalho, tamb6m
nao foi para o palacete da aveni-
da Independ8ncia (que depois
mudou de nome para homena-
gear o caudilho da political para-


8 Jornal Pessoal JUNHO DE 2009 2- QUINZENA


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L.




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O







ense), ficando na sua pr6pria e
muito confortdvel casa, na ave-
nida Dom Pedro (ocupada agora
por um hospital). Mas mandou
que Waldemar Guimaraes, se
instalasse no palecete cor sua
familiar e o recuperasse para que
outro pessedista no governor o
advogadoAur6lio do Carmo, rei-
naugurasse a residencia oficil,
em 1961.
A Folha do Norte estranhou o.
acerto eo criticou. Waldemar se
explicou, tentando demonstrar
que sua presenga fora ben6fica
aopaLmmmo ipublico:
"Encontrei capinzais quase
inlpenetriveis tomando as aniplas
alamedas laterais, canteiros trans-
formados em charcos, o bolor
apodrecendo e destruindo custo-
sas guanmiges de madeira enta-
liada, flor6es aos pedagos, preci-
osas porcelanas e quadros famio-
sos atirados aos cantos, a conta
das tragas e dos vermes". A16m
de recuperartudo isso, Waldemar
disse que "nao foi pequeno o tra-.
balho que tive para reunir nova-
mente at6 peas do mobiliario,
emigradas para casas de ami-
gos". Mas, tratou ele de ressaltar,
"nio haviapropriamente o intuito
do vandalismo, apenas "o des-
caso, a ausencia de fiscalizagao,
os encarregados dosjardins, ga-
ragem, limpeza, etc., destacados
noutros misteres, tudo concorreu
paia aquele imenso descalabro"
Masji ent~o, como pode cons-
tatar o enviado dojomal, "6 com-
pleta a obra de recuperagao do
palacete residential, o qual esti
sendo preparado para receber o
novo governador, com seus pai-
n6is reconstituidos, seus sales
magnificamente decorados, ins-
talag6es de cozinha e sanitarias
modernas e, no exterior, jardins
caprichosamente plantados de
flores e arbustos ornamentais,
sem falar nas belas alamedas
perfeitamente limpas e bem tra-
tadas". Em tudo "reponta o bom
gosto e o cuidado artistic da sra.
Arlete Guimaraes", esposa do
politico e home pilblico do PSD
baratista, que residia no anexo
do palacete, "cujas salas tam-
b6m se acham s6brias, por6m
inteligentemente ornamentadas,


com novos mobiliurios e finos
'cortinados".
Mas sera quetudo voltou ao seu
lugar primitivo depois da busca
. aos bens ptblicos, que se acha-
yam espalhados pelas casas dos
muy- "amigos"?

SARTRE
Ja era noite naquele l de ou-
: tubrode 1960 e a fila ainda era
grande. Pessoas sobragando um
ou mais exemplares dos livros
de Jean-Paul Sartre esperavam
pacientemente por seu aut6gra-
fo. O lugar, a Livraria Dom
Quixote, na galeria de said do
Cine Paldcio, no pr6dio do Pa-
licio.do Radio, era pequeno.
Mas o ar condicionado, ainda
um luxo naquela 6poca, funcio-
nava a pleno vapor, isolando do
lado de fora o calor 6mido da
cidade. Esperava-se que o "pai
do existencialismo", ao lado da
mde do modismo intellectual da-
quele moment, a companheira
Simone de Beauvoir, em came
e osso, suportasse rabiscar as
dedicat6rias nos livros. A enfa-
se era no seu iltimo langamen-
to, Furacao sobre Cuba, com
dezenas de exemplares trazidos
de a iiao para proporcionar o
langamento monumental, acer-
tado de filtima hora, pelas cir-
cunstincias da hist6ria.
De sibito, por6m, Sartre se le-
vantou e, arrastando consigo La
Beauvoir, saiu no melhor estilo.
frances: sem dizer uma palavra,


FOTOGRAFIA

0 estidio naufragado, pois


Em 1947 o estddio do Sousa, da Tuna Luso Brasileira
(ex-Comercial), ainda ficava muito distant da cidade,
como se estivesse em zona rural, no bairro do Sousa.
Mas vivera dias gloriosos uma dezena de anos antes.
AlMm das acomodaCoes mais confortdveis e
"imponentes", como entdo se dizia, inteiramente
cobertas, dispunha de refletores para jogos noturnos,
ao contrdrio dos campos de futebol do Clube do Remo
e do Paissandu, muito mais pr6ximos, gragas ao rico
dinheirinho dos seus patrons lusitanos. Mas em 1947
o estado era de tal abandon que A Provincia do Pard
anunciava que seus postes e refletores poderiam ser
levados para a Curuzl. 0 estddio se recuperou, mas,
sem a ajuda dos jogadores, que nunca se destacaram
pela bravura e a disposigdo de luta dentro das quatro
linhas do gramado, inflectiu de novo. De onde ndo
mais se alevantou, nem sob a inspiraCdo do epico do
bardo Cam6es de meiao e chuteiras.


sem sequer um "au revoir",
como se nao estivesse saindo ou
fosse invisivel. Enfiou-se num
carro verde e sumiu de verda-
de. Perplexos ou indignados fi-
caram os fds enfileirados e ji
entao dispostos a investor sobre
o promoter da saison, o escritor
Haroldo Maranhdo, tamb6m o
proprietirio da pequena e pode-
rosa livraria. O clima de belige-
rAncia foi interrompido pelo pro-
videncial batuque de Raimundo
Silva, arregimentado para ofe-
recer um toque de exotismo ao
visitante gaules, sempre sensi-
vel as peculiaridades do mundo
tropical. Mesmo sem Sartre, o


tambor desencadeou o novo
movimento da festa, salvando-
a de um epflogo funesto.
O escritor Pedro Tupinam-
bi, frustrado na fila deixada
ao 1lu pelo visitante surpreen-
dente, tratou de apontar o seu
protest: "Escritor de fama
mundial, fil6sofo, conferencis-
ta, possuidor de vast cultural,
autor de romances c6lebres e
belos ensaios, Sartre 6, no en-
tanto, um cidaddo indelicado,
cuja educagdo nao recebeu o
polimento devido, deixando A
mostra as asperezas de seu
temperamento.
Touche.


JUNHO DE 2009 21 QUINZENA Jornal Pessoal 9









Centenario sem brilho


Freqiientei intensamente o imponente
palicio Lauro Sodr6 durante o segundo man-
dato do coronelAlacid Nunes (de 1979 a 1983).
Mas raras vezes fui ao gabinete do chefe. Fi-
cava na ante-sala, para um papo irreverente
com Georgenor Franco, que se permitia terti-
lias risonhas e francas por debaixo da aparen-
cia austera para consume externo. Se queria
saber das estripulias political, ia para um pro-
longado caf6 a dois corn Aldo Almeida. Ou
derivava para uma abordagem mais progra-
mitica com Irawaldir Rocha, o amanuense
nimero um do Pard (conta a lenda que nas-
ceu de palet6, gravata e guarda-chuva num
escaninho de repartiqgo p6blica, remungan-
do e dando ordens ao inv6s de chorar).
Quando a questio era de finangas, o ge-
neral Rubens Vaz sempre estava disposto a
dividir a morigerada pitada no seu intermini-
vel cigarro com preleq6es diditicas e alguns
ndmeros. Mas se a conversa era para abran-
ger tudo que fosse human, tinha que arras-
tar o professor Machado Coelho para ajanela
mais pr6xima. Era para dispersar as gargalha-
das mdtuas na dialetica da pros6dia a dele,
erudita, sem perder ajovialidade e a picardia.
Inocencio Machado Coelho teria com-
pletado um s6culo, no mes passado, se nao
tivesse mudado de estrela em 2001, quando
seguiu no rumo de Celina, a sua musa, perda
que o consumiu at6 o derradeiro dos seus
dias. Houve um convescote intellectual para
celebrar a data na Unama e um artigo dejor-


nal de um dos seus ilustres filhos, o histori-
ador Geraldo Coelho. E nada mais. Nao 6 de
surpreender. As novas gerag6es perderam o
contato com o mestre. Um livro at6 foi edita-
do com saborosos artigos que ele escreveu
para a imprensa. Mas a distribuiqgo falhou e
os volumes devem ter estacionado em al-
gum dep6sito. A divulgaqgo foi quase nula.
Mandei exemplares para dois amigos, apre-
ciadores da fina escrita, e eles adoraram. B
efeito inevitdvel: Machado Coelho escrevia
como um cldssico, mas sem pose. Com bri-
Iho, vivacidade e irrever8ncia. E o que 6 mais
raro: tamb6m com profundidade.
Mas escreveu pouco e publicou quase
nada em vida na forma mais perene (ainda),
a do livro. O que ele queria era ler, conver-
sar com os amigos e circular pela cidade, de
"flos6", como se dizia. Foi fundamental para
os que tiveram o privil6gio de estar no seu
pequeno e seletivo audit6rio, durante os
longos series na sua imensa e acolhedora
casa, primeiro na Assis de Vasconcelos e,
depois, na avenida Sio Jer6nimo (rebatiza-
da para governador Jos6 Malcher pela ma-
nia de nominar o que devia ser eterno).
Como Virglio na Divina Com6dia de Dan-
te, Machado Coelho era o melhor dos guias
sobre o que ler e como ler, do inferno ao para-
iso, em portugues e em frances, sua lingua
afetiva, que dominava o bastante para poder
bem traduzir poetas, como os simbolistas. Nao
s6 indicava e comentava: ia tamb6m buscar o


volume referido, singrando pelas passagens
necessdrias. E o que nao faltava na sua reta-
guarda eram volumes, aos milhares.
Se faltasse, ele atravessava a parede e ia
para o outro lado, A biblioteca do seu par cul-
tural, o outro mestre, Francisco Paulo do Nas-
cimento Mendes, que tamb6m atendia por
Chiquinho e Ratinho, se a voz era conhecida.
Era ele que mais ia ao outro lado, regressan-
do, ks vezes, com ataques de ftiria, ineviti-
veis nas discusses apaixonadas que se se-
guiam. O mundo acad8mico congelou a pai-
xdo. O intellectual virou numismata, colecio-
nador de conceitos, estripador de entranhas.
Hoje as duas bibliotecas estao reunidas
na mansarda, transmitida A familia. O cente-
nario do pequeno grande Machado podia
ter sido a hora certa para abri-las A visitagao
piblica, prolongando aqueles saraus, que,
se nao voltam mais, podem ser reinventados
atrav6s da consult aos preciosos volumes,
a impressed definitive dos seus donos e lei-
tores, seu renascimento em terceiros que lhes
seguirem na paixdo que os moveu. Talvez, A
margem dos pap6is, a mem6ria anotasse a
6poca que passou, quando um governor se
fazia com meia dfizia de assessores (e nao
por centenas deles) e sabiamos o que eram
ou faziam pela simples enunciagdo dos seus
nomes. O de Inocencio Machado Coelho
pode ser imediatamente associado A mais ele-
vada das cultures humans, em Bel6m ou em
qualquer outro lugar.


CARASA EDIR
~, a~ s~a~I~l~~iAMU


RUBEM
Nossa familiar leu envaidecida e
emocionada a "Mem6ria do Cotidi-
ano Acontecimentos de 1964", do
Journal Pessoal, da 29 quinzena de
maio. Meu saudoso pai percorreu
uma bela carreira dento do Basa,
desde que este era denominado
Banco da Borracha. Comegou nome-
ado para fiscal de usina na ilha das
Ongas pelos anos 50. O banco pas-
sou a chamar-se Banco de Credito da
Amazonia (BCA) e Rubem Ohana gal-
gou as funqaes de Gerente Geral,
Director de Cr6dito Geral e respon-
deu interinamente pela Presidencia
por virios meses. Teve a visio de
incentivar as instalag6es e cresci-
mento de inddstrias e do comercio.
Era pessoa de irrestrita confianga
do Governador Magalhies Barata e


mantinha permanent troca de cor-
respondencia com o Presidente Jus-
celino Kubitscheck, de quem era
profundo admirador. Enfrentou com
dignidade e etica as turbulncias do
golpe military de 1964, saindo ima-
culado de exaustivas sindicancias e
arguig6es de Comiss6es de Inqueri-
to. Pelo seu temperament forte
acabou desenvolvendo uma
6lcera duodenal hemorrigica que
o levou em choque hipovolemico ao
antigo, porem eficiente, Socorro Ur-
gente na Av. Nazar6, send cuidado
de modo zeloso e competent pelo
medico e amigo Dr. Fernando Bentes
do Amaral, ainda vivo. Continuou sua
carreira no entio BASA como Asses-
sor de Gabinete da Presid&ncia e atu-
ando no setor de RelagBes Piblicas.
Aposentou-se em 1976 recebendo


todas as homenagens e reconheci-
mentos em pleno regime military, sen-
do President do Basa o Dr. Penha.
Foi um dos idealizadores e realizado-
res do event "0 Sul Vai ao Norte", sob
a Presidencia do gadcho Jorge Babot
de Miranda, trazendo ao Para
indmeros empresarios dos Pampas.
Esta conversa iria long e teu espago 6
precioso. Continuaremos pessoal-
mente em outro moment. Muito obri-
gado pelas boas lembrangas. Meu pai
foi realmente um "cara" muito baca-
na, amigo e leal. Permanecer6 sendo
sempre uma refernncia e uma orgulho-
sa saudade para todos n6s.
Jorge Alberto Langbeck Ohana

RIO
Ainda bem que voc6 contempo-
rizou no final do texto, a aborda-


gem escatol6gica do professor
Salm, citado na materia de capa do
Journal Pessoal n. 442 (0 home
muda o rio), sobre a recent en-
chente na regilo de Altamira, su-
deste do Para. Talvez Jolo, supos-
to author de Apocalipse, do Novo
Testamento, nao teria feito melhor
discurso. E natural que correntes
contrarias ao aproveitamento da
forga hidraulica dos nossos rios
para produzir energia eletrica,
aproveitem esses moments criti-
cos muitos pr6digos na natureza
amaz6nica para langarem seus
comoventes apelos aos gentios. 0
que nao impede que se d6 a devi-
da ateng~o aos problems all le-
vantados, o que, ali6s, o editor
desse journal j6 cuidou de observer
Rodolfo Lisboa Cerveira


IJ eslao a venda os Ires livros que lance desde c fInal do ano passado.
1 Ur deles abriga a primeira colelAnea da Memona do Colidiano, secao desie lornal, corn as reproduces
da propaganda e as oloogralas de epoca E para avivar a memorial dos lelores mais anlgos e iniroduzir
os mais novos na hisiorna recenie da cidade e do Estado. O ouLro livro e um documenlanro sobre a
agressao que soln ha qualro anos. cometicla por Ronaldo Maiorana. Reconsinui a rede de solidarieda-
de. mais ao lema do reporter, a Amaz6nia, que comove menies e coracoes por lodo mundo Multos dos
meus leilores sao tamoem autores desse Iwro. O lerceiro loi concebido para o Forum Social Mundial 2
mas e a expressao de urna voz amaz6nica permanence conira a expoliacao da regio.
-Wr-T,.- :-3_. r. 3 _=-$ "' ; 7-.- ?--- M r--al T* W--1 --'7T -. .,- Fs-- .T- _. T- 7= ~.. :* ~. ":#; -z _-.-"-7-_-_ T. -' IF Y -|T_ "T--Ir _r .- jpW.1 f


-- Jom al Pessoal Diagramagio e ilustraG;es: L. A. de. Faria Pinto Contato: Rua Aristides Lobo, 871 CEP: 66.053-020
Editor: Licio Fclvio Pinto Fones: (091) 3241-7626 E-mail: Ifpjor@uol.com.br jomal@amazon.com.br Site: www.jomalpessoal.com.br



10 Jornal Pessoal JUNHO DE 2009 2, QUINZENA









Para nao aprende e perde de novo


Os paraenses reagiram diante da exclusdo
de Bel6m como uma das 12 sub-sedes da Copa
do Mundo de 2014 da mesma forma como se
comportaram diante da perda do porto de es-
coamento da produgo de Carajds: emocional-
mente. Se a political fosse o critdrio dominant
para a decisao, a govemadora Ana Jdlia Care-
pa, correligionaria do president Lula, teria pelo
menos sabido com antecipagao da decisao da
Fifa. Ao contririo, os petistas locais pareciam
t~o desinformados que encomendaram um fil-
mete para ser exibido pela televisao antes (e, o
que 6 mais espantoso, depois) do an6ncio ofi-
cial. Tamb6m se teria poupado do grande des-
gaste causado pelo ajuntamento de pessoas
em frente ao Teatro do Paz para acompanhar a
solenidade, com patrocfnio official.
Muito lobby foi feito e ojogo de presses
contou no desfecho, assim como pesou a im-
pressao causada pelos esquemas oficiais mon-
tados para influir sobre o comity de seleio. O
problema 6 que Bel6m embarcou numa canoa
furada. Nao podia ter outro destino: naufra-
gou. Enquanto bem ou mal, com seriedade
ou com muita propaganda o Amazonas in-
veste no desenvolvimento sustentAvel, asso-
ciando sua image A natureza selvagem, o Pard
tenta se projetar com seu desenvolvimento mi-
neral, sua pecuaria, certa agriculture commercial
e sua capital, oji ficticio portal daAmaz6nia.
Contra a integridade do Amazonas estio
em curso frentes de expansao pelo sul, que
comegam a derrubar a floresta, mas ainda nao
6 uma situacgo visivel para o pdblico. JA o
Pard 6 campeao de desmatamento, de confli-
tos de terras, de trabalho escravo, de violen-
cia. Quando emerge nacionalmente 6 em fun-
Sio de fatos ruins, que projetam uma image
de desorganizago, in6pcia e incompetencia.
A maior prova 6 a incapacidade de usar seus
abundantes recursos naturais em proveito
pr6prio, nao apenas ou principalmente -
para beneficio extemo.
As pessoas parecem nao ter-se dado
conta que o F6rum Social Mundial, em feve-
reiro, foi um teste de avaliado. Se Bel6m mal
conseguiu dar conta das tarefas para um en-


control alterativo, realizado com o objetivo
de protestar contra a via official de desenvol-
vimento, nao haveria de convencer os pro-
motores de um acontecimento commercial, do
"establishment", de estar A altura de respon-
der por um event esportivo (mas tamb6m
de largo faturamento econ6mico) do porte
da Copa do Mundo.
A cidade tem sua rede hoteleira, seu estd-
dio e atra69es que o belenense consider ma-
ravilhosas, como a Estagao das Docas ou o
Hangar, mas que contain pouco como elemen-
to pr6vio de consideraqao numa andlise pros-
pectiva. Talvez os components da cidade at6
pudessem render mais na proposiqao de Be-
16m como sede se o enfoque fosse outro, vin-
culando a estrutura urbana a paisagem tipica-
mente amazonica, que constitui o fator de
maior atracao para o visitante estrangeiro. Ele
viria para ci guiado por dois objetivos: ver os
jogos e ver a Amaz6nia. Como nao 6 de se
esperar que as melhores seleq6es de futebol
sejam deslocadas para o extreme norte do pals,
o fator amaz6nico pesard ainda mais do que o
esportivo.
Ha varios anos Manaus vem se conectan-
do ao espago em tomo da cidade para aprovei-
tamento turistico e conseguiu seus resultados.
O visitante intemacional pouco vem a Bel6m e,
quando muito, no caminho pelas aguas para a
capital amazonense, faz uma parada em Alter-
do-Chao, um ponto inusitado no roteiro mun-
dial. Poderia ir mais ao Maraj6, com potential
semelhante, mas com que roupa? Dependen-
do de transport irregular, deficiente e inconfi-
avel? Hospedando-se onde? Comendo o qua?
Desde o novo Landi (corruptela de novo
Dindi aos ouvidos do messias Gabriel), nos-
sos dirigentes tim a ilusio de que Bel6m, mes-
mo corn seus penduricalhos urbanisticos e ar-
quitet6nicos, al6m do residue da 6poca em que
foi metr6pole de fato, pode exercer fascinio do
outro lado do oceano sem se tomar um meio
de passage fluente para a jungle e tudo que
Ihe diz respeito. E isto o que mais interessa aos
outros mundos em relagao a este nosso uni-
verso ex6tico.


As belezas da cidade, que, por milagre, ain-
da subsistem, sao quase anuladas por seus
atrozes problems: criminalidade incontrolada,
violenciano ar, sujeira, incivilidade, selvageria
urbana. Se para os belenenses mais alertas e
sensiveis viver aqui ji 6 um martirio, imagine-
se para aqueles que, mesmo por alguns dias,
se apresenta a perspective de estar numa cida-
de que sugere uma situago de risco perma-
nente? Ainda mais quando conduzida por lide-
res que, ao estrangeiro, nao dao a impressio
de control da situagao, sequer de entendi-
mento sobre o que acontece. Como podemos
convencer as pessoas de fora sem tender aos
natives? Como parecer que podemos hospe-
dar visitantes se nao damos condig6es decen-
tes de vida aos moradores do lugar?
Manaus nao 6 a contrafagao de Bel6m,
muito pelo contrario. Mas, em relagdo ao "es-
pfrito" da Copa do Mundo, como uma promo-
cgo intemacional, realizada para tender cli-
entes de todo o planet, a capital amazonense
adotou a estrat6gia correta, enquanto n6s, pre-
sumindo um cosmopolitismo que j nos falta,
agimos como provincianos, acreditando nas
pr6prias fantasias. Os govemos estadual e
municipal foram incompetentes nessa com-
peti9ao, o que constitui a regra, nao a exce-
qao. Nem por isso 6 procedente a interpreta-
9go de que Manaus ganhou porque o gover-
nador Eduardo Braga (por ironia, um paraen-
se) fez a politicagem certa, enquanto nossa
govemadora fez a politicagem errada. A deci-
sao foi uma combinacgo de fatores, mas tudo
indica que o peso maior foi a vontade da Fifa,
que hi quase 70 anos organize a Copa do
Mundo com competencia especifica e resul-
tado final satisfat6rio.
Na deliberagao de escoar o minerio para-
ense de Carajas pelo porto de maranhense da
Ponta da Madeira, o que pesou foi o interesse
do principal comprador, o Japdo, e nao o des-
fecho da balanga entire Jos6 Sarney e Jarbas
Passarinho. Ao repetir esse erro de avaliagao,
por se comportar emocionalmente diante das
quest6es, o Pard mostra que continue a nao
aprender as liHqes da hist6ria.


Biblioteca: para qu6?

O funcionamento da biblio-
teca pdblica do Centur pode ser
apresentado como um indica-
dor do estado de indig8ncia
cultural do Pard. Durante mui-
tos meses os funciondrios e os
clients da biblioteca tiveram
que suportar o calor nas suas
depend8ncias fechadas, sem a
leniencia do ar condicionado,
que estourou por falta de ma-
nutengdo e demorou mais do
que o justificavel para voltar A
ativa. Esse e outros atropelos
se tornaram comuns porque a


cultural para valer, aquela que
depend de uma relagao quase
anonima do pdblico cor as fon-
tes do saber, nao 6 prioridade
para os donos do poder.
Como nao 6 agora, quando
o governor reduziu o hordrio de
funcionamento das repartig6es
pdblicas. O pretexto 6 econo-
mizar dinheiro para enfrentar a
crise. A economic 6 de ponta de
lengo: quatro milh6es de reals,
ou 0,04% do orgamento em vi-
gor. Para patrocinar essa pan-
tomima de quem nao analisa
nem as pr6prias estatisticas,
aquele que precisar consultar


os livros do dep6sito pdblico
de livros (que 6 a denominagdo
mais exata para a biblioteca),
teria que fazer alguma coisa
para ir at6 lI entire oito e 14 ho-
ras (de forma um tanto precaria,
o funcionamento at6 As 18 ho-
ras foi anunciado no dia 1).
Marx jamais escreveria O
Capital se tivesse que depen-
der das luzes da arquiteta Ana
Julia Carepa. Ele atravessava as
horas sentado numa ji hist6ri-
ca cadeira do Museu Britinico,
at6 gastar-lhe os funds (dele e
da cadeira) e adquirir furincu-
los, que o atormentaram at6 seu


fim um tanto precoce, aos 65
anos. Mas imortalizado pela
obra que resultou da pesquisa.
Govemadora, sejamos civili-
zados e minimamente s6rios: se
possivel, faqa a biblioteca funci-
onar 24 horas por dia, permitindo
a leitura a todos, sobretudo aos
necessitados (que nao podem ser
agravados pelo hornrio canhes-
tro), nem que precise aplicar adi-
cionalmente, por ano, uma fraqo
infima dos 1,2 milhao de reais
gastos em poucos dias com
transport e hospedagem dos
atletas que vieram competir em
Bel6m no m8s passado.


JUNHO DE 2009 21 QUINZENA Jornal Pessoal 11








"Ofir Loyola": hospital enfermo


Junho chegou na segunda-feira e o Di-
ario Oficial do Estado continuou a anun-
ciar que o m6dico Joao de Deus Reis da
Silva 6 o diretor-geral do Hospital Ofir
Loyola. Junto com toda a sua diretoria,
ela entregou o cargo ha mais de tr8s se-
manas. A decisao foi tomada depois do
antincio do resultado de uma auditoria feita
pelo Estado, apontando irregularidades na
gestao do hospital, cuja administragao foi
entregue ao PMDB no acordo politico com
o PT. No site do governor tamb6m nro
houve alteracgo, embora a secretaria an-
terior, Laura Rossetti, ji tenha sido subs-
tituida por Silvia Cumaru.
A tiltima ediqio do Didrio Oficial de
maio publicou diversos aditamentos de
contratos para o fomecimento de medi-
camentos quimioteripicos, antimicrobia-
nos e controlados, que estavam em falta,
por isso provocando revolta entire os pa-
cientes e seus familiares, e gerais, al6m
de material t6cnico-hospitalar.
Um contrato, no valor de 532 mil re-
ais, com a firma M. Dos Santos Brito
Com6rcio, foi prorrogado por mais seis
meses, com valor de R$ 530 mil. Outro
contrato, para os mesmos fins, assinado
com a Brasfarma Com6rcio de Medica-
mentos, com valor original de R$ 411 mil,
foi igualmente prorrogado por um semes-
tre, aditado para R$ 405 mil. Um terceiro
contrato, cor a F Cardoso, de R$ 275
mil, passou a ser de R$ 212 mil por mais
seis meses. Todos os contratos foram as-
sinados por Joao de Deus no dia 13 de
maio e publicados no dia 29.
Se s2o corretas as acusag6es conti-
das no relat6rio da Auditoria Geral do
Estado, por que os responsiveis pela ma


gest~o continuam a frente do Hospital Ofir
Loyola e seus atos sao oficializados, quan-
do ha nova titular a frente da Secretaria
de Satide e deve-se deduzir da mudanga
brusca que a secretiria anterior era coni-
vente com os erros?
Nao ha mais duivida que houve politi-
cagem da grossa, e da mais torpe, em tor-
no da crise real do setor de sadde, que gras-
sa tanto no Estado quanto no municipio da
capital. Foi o que disse, com todas as le-
tras, o diretor-geral do HOL na edido do-
minical do Didrio do Pard. Joao de Deus
admitiu os graves problems do hospital,
mas os atribuiu a uma autentica sabota-
gem, que sofreu por parte dos petistas. Sua
verba de custeio, que devia ser de cinco
milhies de reals por mrs, foi reduzida para
R$ 3,5 milhles. As contas feitas pelo pr6-
prio jomal nao batem com o argument,
mas o discurso 6 claro: a cipula do gover-
no tirou o dinheiro necessario para o funci-
onamento do hospital corn a intengao de
comprometer sua administracao, inviabili-
zando-a e possibilitando a sua remogSo,
corn desgaste (ainda maior) para o PMDB.
O interesse ptiblico e as necessidades da
populacgo foram ignorados.
A questao 6 de tal magnitude que im-
p6e aos 6rgaos superiores ou extemos de
control e fiscalizagdo uma attitude drdsti-
ca para apurar os fatos e corrigir a situa-
9ao. Com todos os seus problems e limi-
ta9ges, o "Ofir Lyola" realizou durante o
ano passado 415 sessoes de radioterapia
e mais de 100 de quimioterapia a cada
dia, al6m de 72 didlises didrias. Para a
populag~o pobre atingida pelo cancer, que
nao pode pegar o aviao e ir para um lugar
civilizado, 6 a dnica via de tratamento. Nao


6 possivel que perdurem ddvidas sobre li-
sura do poder puiblico nessa guerra diaria
pela vida, que requer um alto investimen-
to em recursos materials (do erdrio, sem
retomo) e em energia humana.
O Minist6rio Publico podia entrar nessa
hist6ria para apurar, acompanhado por ou-
tras institui6es representatives da socieda-
de, as dentincias que tnm sido feitas e at6
criar uma interventoria para reposicionar o
hospital na trilha t6cnica, sem os desvios
politicos que criaram ou agravaram sua cri-
se atual. Anos atris, o Tribunal Regional do
Trabalho fez na Santa Casa de Miseric6r-
dia uma s6lida assepsia e a instituigo pas-
sou o period seguinte em ascensao.
Nao se pode continuar a ouvir o dis-
se-que-disse sobre os quatro acelerado-
res lineares que, na verdade, seriam dois,
um dos quais, transferido pelo Minist6rio
da Saide no final do govemo tucano de
Simao Jatene, ainda esta encaixotado. A
disposigao do doente, vitima de uma do-
enga grave e cruel, entretanto, s6 hi um,
mas em funcionamento intermitente, su-
jeito a constantes paralisag6es. Ou apu-
rar a causa de o hospital de oncologia
infantil nao passar de um esqueleto, ape-
sar de ji se ter esgotado o prazo previs-
to para a sua conclusao.
Diante da controv6rsia instalada, inde-
pendentemente de se saber se a culpa 6
do PMDB ou do PT (o que 6 necessirio
saber), se a crise tern causa extema ou
result de um boicote intemo, uma coisaji
se sabe: o atual governor provou nao estar
em condiq6es de assumir o desafio que o
"Ofir Loyola" represent. A necessidade
de uma intervengdo na instituiio ji ama-
dureceu tanto que pode vir a apodrecer.


Adeus, Baratinha

Tu ji viste Barata born
que nao fosse meio doido?
A explicaqio, em autocri-
tica, desarmava os que pre-
tendiam critical algum ato
errado, surpreendente ou inu-
sitado de Ronaldo Barata. Se
o interlocutor pretendia levi-
lo exageradamente a s6rio,
que o fizesse. Mas nao o se-
guiria o pr6prio personagem,
que se distanciava o sufici-
ente de si para poder endos-
sar a critical alheia e ir em


frente, mesmo quando trope-
qava. Foi assim que Ronal-
do conseguiu sair de virias
encrencas nas quais se me-
teu, por sempre estar dispos-
to a suportar as confuses
em que amigos e correligio-
nirios costumavam deixi-lo,
ou nas quais ele se envolvia
por impulse pessoal. E assim
tamb6m saia sem fazer ini-
migos, cordial negociador
que sempre foi, capaz de en-
contrar uma said luminosa
para o mais dificil impasse,
no que era ajudado pela ga-


gueira, talvez uma arma pro-
videncial para criar intervalo
ou tr6gua nesses moments
complicados. E assim tam-
b6m foi fazendo e desfazen-
do, criando e recriando, acer-
tando e errando, sem nunca
deixar de viver a vida de
frente, mesmo que a conta
do dia seguinte fosse pesa-
da. A iltima, do cancer, foi
cruel e injusta, totalmente
imerecida, matando-o no mes
passado.
Desta vez nao houve es-
pago para tratativas: a mor-


te veio fulminante e o fez
sofrer muito. A distancia,
amigos e conhecidos, com-
panheiros e adversaries so-
freram com ele. Empobre-
cido ao final de uma vida que
comegou fecunda e se de-
senvolveu generosa, e ji
num meio ostracismo, Ro-
naldo Barata era tdo queri-
do que sua despedida nao
teve apenas aquele grande
comparecimento reservado
as autoridades. Foi uma sai-
deira ao melhor estilo desse
Barata: alegre e saudosa.


Jornal Pessoal JUNHO DE 2009 2" QUINZENA