Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00334

Full Text



MAIO
DE 2009
laQUINZENA O



A AGENDA AMAZON


No 440
ANO XXII



ICA DE IR$ 3,00P
IICA DE LOCIO FLAVIO PINTO


IMPRENSA



Sangria 6 contida

A imprensa paraense ndo fez o que era da sua responsabilidade: center os excesses do

noticidrio de policia. Depois de ter abisado da liberdade de informal, reage a proibigdo

dajustiga como se defendesse uma causa nobre. 0 que lhe interessa efaturar


ma empresa jornalistica 6 uma
*f empresa commercial como outra
qualquer? Esta 6 a questao de
fundo da polemica suscitada por uma
decisao tomada na semana passada
pela 4" Camara Civel Isolada do Tribu-
nal de Justiga do Pard. Os integrantes
da camara acolheram, por unanimida-
de, o voto da relatora, desembargadora
Eliana Daher Abufaiad. Atrav6s dela,
proibiram tr8s dos quatrojornais didrios
de Bel6m o Didrio do Pard, da fa-
milia Barbalho, mais O Liberal e Ama-
zdnia, da famflia Maiorana de publi-
carem fotos ou imagens de pessoas vi-
timas de acidentes, assassinatos e de-
mais formas de mortes brutais, que
ofendam a dignidade humana ou des-


respeitem os mortos. A desobedi8ncia
A determinagdo poderd acarretar multa
didria de cinco mil reais.
A ordem judicial foi imediatamente
interpretada, pelas empresas e suas ex-
tensies, explicitas ou camufladas, como
uma odiosa censura pr6via, que devolvia
o Pard a uma perigosa situaao de ex-
cegao, abalando a estrutura do estado
democritico de direito. Ajustiaa violava
a protegio constitutional A liberdade de
imprensa e se imiscufa indevidamente
onde nao tinha competencia. A reagio
fez uso intense da formula indicada para
quando o interesse das corporaBoes 6
contrariado. O protest ecoou pelo pais
afora e no exterior, sem maior perquiri-
Sio sobre o caso concrete.


A primeira e 6bvia pergunta: por que
o Publico, o outro e mais novo -jor-
nal didrio paraense, nao foi atingido pela
proibiqo judicial? Algum protecionismo,
que podia ser atribuido A invisivel mao
do govemo do Estado, que tem a gene-
rosa e muito favorivel cobertura dojor-
nal (A qual estaria retribuindo com pu-
blicidade official ? Nao: 6 simplesmente
porque o Publico, nos seus cinco me-
ses de existencia, jamais publicou fotos
de caddveres despedagados, estripados
ou expostos A degradagco p6blica.
E contra a iconografia m6rbida e
sensacionalista dos outros tr8s jornais
que se voltou a mao punitive dajustica,
acionada pelo Estado e duas entidades
';CONT ,i'' iN;iA i'


VEREADORA: RENUNCIE PAos.6/7 SEFER: PELO SILENCIO







CONTIuMAPoa DAC PA
de representaSgo da sociedade civil (a
Sociedade Paraense de Defesa dos
Direitos Humanos e o Movimento Re-
pdblica de Emads). Os tr8s agents ti-
raram de suas cabeqas ou dos coletes
inspiragao para investor contra a cida-
dela dos tr8s jornais, por vinganga ou
impulso ditatorial?
Claro que nao: havia uma crescente
manifestagao de repidio da populagdo.
Tanto por parte de pessoas diretamen-
te interessadas, que eram obrigadas a
ver os cadiveres de parents ou ami-
gos expostos nas piginas dos jornais,
como do piblico em geral. Ao levar para
dentro de casa as publicagSes, o leitor
comum expunha seus filhos As cenas
chocantes. O clamor das ruas foi ouvi-
do por essas instituig6es (embora igno-
rado por outras, como o Minist6rio Pd-
blico do Estado, em regra silent nes-
ses moments) e elas agiram.
A iniciativa nao impediu os tres jor-
nais de continuarem a publicar seus vas-
tos cadernos de policia, com todas as
noticias que constituem o cotidiano cada
vez mais sangrento de Bel6m e de todo
Pard, como o do iltimo fim de semana,
com 17 mortes a confirmar o estado de
inseguranga geral no Pard. As fotos que
documentam visualmente as noticias
tamb6m podem ser editadas sem qual-
quer problema. O veto foi apenas a "ex-
por sem o menor cuidado" os corpos das
pessoas mutiladas, assassinadas ou lin-
chadas. E A utilizagao de "imagens cho-
cantes ou brutais, sem qualquer contei-
do jornalistico, mas com intuito mera-
mente commercial segundo os terms do
ac6rddo da cimara do TJE.
A proibigdo foi A continuagdo da
barbirie visual, caracterizada pela pu-
blicagao de fotografias sensacionalis-
tas. Algu6m teria outra classificagao
para a image da cabega de um es-
queleto, a inica parte que sobreviveu
do corpo de uma moga depois da ex-
plosdo do carro que ela dirigia? Ou de
um corpo retalhado em postas que foi
encontrado no meio da rua? Ou o cor-
po desfigurado de um criminoso que foi
linchado pela populacgo?
Por esse crit6rio editorial, se a in-
confidencia mineira tivesse ocorrido
agora, os jomais de Bel6m teriam di-
vulgado em detalhe as fotografias de
cada uma das quatro parties do corpo
de Tiradentes, que tambdm foi retalha-
do e teve seus restos expostos no ca-
minho de Minas para inibir seguidores
da sua mensagem, subversive aos olhos
(e ouvidos) do poder colonial. A tenden-
ciosidade da presumivel cobertura que
os jomais paraenses fazem dos aconte-


cimentos ditos policiais (porque geral-
mente vistos pela 6tica da policia) nao
permitiria ao mdrtir se tornar her6i na-
cional. Ele seria mais um reles bandido,
sem direito algum. Nem A integridade
do pr6prio cadaver, que nao p6de ser
velado por parents e amigos.
Os donos dos jornais e seus homes
de confianga (e, As vezes, caes de guar-
das), os editors, sabem muito bem
quando se excedem. Sabem quando as
fotografias, mais do que documents de
valor hist6rico ou meros registros da
rotina do cotidiano, se tornam instrumen-
tos de neg6cios, recurso para vender
mais o produto, mercadoria. E raro co-
meterem abuses 6ticos ou morais por
inadvert8ncia. Consumam o sensacio-
nalismo e a exploragao de caso pensa-
do, por prdtica de comercio, nao pelo
jornalismo. Que apregoam depois, para
ocultar suas marcas. Essa advertancia
comeqa antes mesmo de os jornais che-
garem ao pdblico, quando sao distribuf-
dos aos revendedores, os baderneiros.
As cobrangas por mais sangue sao di-
tadas por exclusive interesse commercial
e, por esse mesmo crit6rio, atendidas.

Os excesses do
passado, em condig6es
semelhantes as atuais,
levaram a imprensa a
suspender a espiral de
sangue e passar a dar
um tratamento mais
adequado ao noticiirio
policial, apesar das presses dos
insaciiveis revendedores e de certo pd-
blico. Sumiram as fotos de "presuntos",
tdo avidamente disputados pelos rep6r-
teres, e o espago para o noticidrio poli-
cial diminuiu. Foi uma caracteristica
auto-regulamentaCgo: nenhuma forga
coercitiva impos a mudanga. Foi a
exaustao da formula e certa reagao do
leitor mais bem informado e mais exi-
gente. Nao foi um fen8meno apenas
local: o Pard fez parte de uma tend8n-
cia national, numa onda que tamb6m era
international
A nova realidade, compativel com o
jornalismo decent e ben6fica ao leitor,
foi quebrada e revertida, com agravan-
tes, pelo Didrio do Pard. 0 journal foi
al6m de tudo que fizera a imprensa pa-
raense at6 entao: ao inv6s de uma ou,
no miximo, duas pdginas num caderno
(espago geralmente dividido com o no-
ticidrio esportivo ou mesmo de varieda-
des), o journal do deputado federal Jader
Barbalho criou um tabl6ide de seis pi-


ginas exclusivamente para as "mat6ri-
as de policia". A criatura se encaixou
no modelo de jornalismo popular que o
Didrio adotara.
O efeito nao foi s6 o de aumentar as
vendas: abriu o mercado dos andncios
populares, possibilitando aojomal expan-
dir seu caderno de classificados, um
mercado no qual O Liberal nunca tivera
competitor. O cidaddo das faixas de
menor renda, al6m de passar a comprar
o jomal para acompanhar o inico notici-
drio no qual 6 personagem (embora in-
variavelmente na caracterizagdo de ban-
dido), tamb6m comecou a fazer peque-
nos andncios, oferecendo ou buscando
servigos, e a ler os andncios. Criou-se
uma especializa~ o: anincios do interesse
do "povdo" s6 saiam no Didrio. 0 Li-
beral dominava da classes m6dia para
cima, um segment de elite. Equilibrio
que se manteve at6 que o journal dos
Maiorana entrou em queda de parafuso.
Esse foi um dos efeitos do aumento
do poder aquisitivo das faixas de ren-
da mais baixas, fenomeno iniciado com
a estabilizacgo monetdria no governor
Fernando Henrique Cardoso (quando
pobre comegou a comer frango sem
para isso ter que ficar doente) e am-
pliado com o redistributivismo sob Lula.
Nao foi um objetivo conscientemente
buscado pelo Didrio do Pard, mas foi
uma coincid6ncia providencial ou bem
aproveitada. O conteddo dos classifi-
cados do journal a partir dessa 6poca
comprova o fato.
Outra prova 6 dada pela discretissi-
ma e surpreendente, para os padres
da "casa" rea go de O Liberal A or-
demjudicial, em contrast flagrante com
a campanha didria que ojoral dos Bar-
balho desencadeou sobre o tema, fo-
mentando a repercussao. Provavelmen-
te o journal dos Maiorana nao se senate
tao prejudicado, do ponto de vista co-
mercial, que 6 o que prevalece, quanto
seu adversario, que pode perder em
vendagem de exemplar e de andncio.
Talvez porque O Liberal ji nao tenha
condig6es de recuperar o terreno per-
dido na exploragao do filao que se abriu.
Se a elevaqio do poder de compra
das camadas C, D e E 6 o motor desse
dinamismo, a realidade, que deu a Be-
16m o titulo de a segunda capital mais
violent do Brasil, abaixo apenas de Re-
cife, e, nao por coincidencia, a de renda
per capital mais baixa (e das maiores ta-
xas de desemprego e ocupag~o informal),
6 a matdria prima que a grande impren-
sa tem explorado ao maximo, sem velei-
dades 6ticas ou morais. Ela armou o pi-
cadeiro e escolhe os personagens con-
forme o impact de suas trag6dias. I)


2 Journal Pessoal MAIO DE 2009 1a QUINZENA







|L Ha fartura de viol8ncia no cotidiano
da capital e no interior, com os tipos mais
escabrosos de fatos para transformar
as paginas dos cadernos policiais em
mostruArio escabroso, capaz de chocar
e provocar o interesse m6rbido. A rea-
lidade da viol8ncia existe e a demand
pelo sangue, tamb6m. Como uma em-
presa commercial qualquer, a imprensa
paraense apenas empacota os fatos e o
oferece ao pdiblico, avido por esses pro-
dutos, faturando tamb6m os andincios do
povo. E neg6cio em s6rie com a mis6-
ria alheia. E o detalhe 6 decisive: alheia.
Sim, porque nao se v8 nenhuma trag6-
dia envolvendo os donos dojomal, seus
parents e amigos, os editors, a cor-
poraqSo como um todo.
Nao importa que esse jomalismo de
cifrdo transform bandidos em estrelas,
crie famas indevidas (e convenientes)
entire policiais, estimule o desrespeito a
vida, induza em jovens e criangas a no-
9do de que matar 6 tdo natural quanto
brincar ou se divertir numa "balada", e
at6 sugira que, se nao ha outro jeito de
escapar ao massacre do anonimato ou
ter acesso as delicias da vida modema,
o crime 6 o atalho possivel, o inico meio
de conquista.
E um abuso que a imprensa come-
te de ma f6: o corpo ensangiientado de
um "bacana" do topo da sociedade nao
tem a exposiSqo a que 6 submetido o
"Z6-Man6". Os donos dos jornais e os
seus segurancas, que det8m cargo de
confianga ou coluna de opiniao, sabem
que os verdadeiramente ricos e pode-
rosos nao aceitam participar do por-
tf6lio do sangue impresso. Usam sua
influ8ncia para prevenir essa explora-
gco ou seu dinheiro para acionar os
responsAveis, indo direto ao seu ponto
mais sensivel: o caixa.
Por isso, mesmo quando as imposi-
96es do offcio ou do com6rcio exigem a
abordagem do "beautiful people", an-
tes hi confabulagqes e tratativas para
definir como sera editado o material.
Quando 6 gente comum a envolvida, o
que decide 6 o apelo sensacionalista, a
possibilidade de vender mais. Nenhum
journal mostrou em posigao frontal o cor-
po do advogado (ou diretorjuridico) do
grupo Lider, o segundo maior do com6r-
cio de varejo do Estado (e grande anun-
ciante), assassinado durante uma ten-
tativa de assalto em sua pr6pria resi-
dencia, com suspeitas de crime de en-
comenda. Nenhum reporter policial en-
trou na missa de 7 dia ou fotografou os
familiares consternados desse cidadao.
Mas qual seria o comportamento da
imprensa se o alvo fosse uma pessoa
an6nima ou humilde?


Os abusos foram se sucedendo, sem
respeitar qualquer limited. A opiniio p6-
blica comegou a reagir, manifestando
sua desaprovacgo, sua revolta e, por
fim, seu repddio aos excesses, que eram
evidentes e perfeitamente caracterizi-
veis do ponto de vista legal. Havia uma
tendenciosidade editorial e prevalecia na
cobertura o crit6rio commercial, compro-
metendo a legitimidade dos argumen-
tos que as empresas passaram a usar
em defesa do exercicio da liberdade de
informaqro. Enquanto as cenas de san-
gue ocupavam espaqo cada vez maior
nas paginas, faltavam informagaes ao
noticiario e dele eram expurgados te-
mas ou enfoques considerados incon-
venientes ou indesejiveis pela direqao
das empresas jornalisticas, que querem
ser arbitras absolutas nessa mat6ria.

Os jornais seguiram
sua rotina de
sensacionalismo,
indiferentes a
opinion piblica. Ignoraram as
sugest6es de discutir a cobertura ou es-
tabelecer um pacto arbitrado pelo fiscal
da lei, o Minist6rio Piblico, ou qualquer
forma de auto-regulamentagao, que ex-
purgasse os exageros flagrantes. A agao
civil p6blica proposta pelas tr6s entida-
des perante a justiga do Estado nao foi
um fato sibito, ao arbitrio dessas institui-
C9es, mas a culminagao de um process
demarcado pelo comercialismo a qual-
quer custo das empresas jornalisticas e
sua indiferenga em relagao a sociedade.
De fato, 6 sempre delicada ou te-
meraria a intervencgo de um poder ins-
titucional numa seara na qual os fato-
res subjetivos e os juizos de valor tnm
um peso considerivel. O ideal 6 que a
regulacio result do movimento natu-
ral de divulgagdo de informagaes e de
seu eco na opiniao pdblica, cada parte
desempenhando o papel que lhe cabe
numa sociedade livre e democratic, uns
apoiando e outros criticando. Mas qual
a contribuicgo que ojomalismo policial
da imprensa paraense di a esse estado
democratic de direito, no qual s6 pen-
sa quando seu interesse econ8mico 6
alcangado? Os jornais nao podem con-
tinuar a cobrir livremente todos os fa-
tos sem carregar nas tintas vermelhas
da fotografia? Qual o prejuizo verda-
deiramente editorial que essa privagao
causa A informa~io dos leitores? Nao
esta na hora de as empresas pensarem
um pouco mais no pao do que no circo,
que transformaram em arena dos hor-
rores por sua irresponsabilidade?


Elas podiam discutir esses temas cor
a sociedade, por sua pr6pria iniciativa,
ou quando suas responsabilidades fos-
sem cobradas. Como a ago civil pibli-
ca nao foi concedida liminarmente pelo
juiz de primeiro grau, Marco Ant6nio
Castelo Branco, para quem o process
foi distribuido, as empresas acionadas
nem se deram ao trabalho de contestd-
la. At6 hoje nao foram intimadas a se
manifestar na instrugao processual, que
estancou. Como sempre acontece nes-
ses casos, os oficiais de justiqa nao con-
seguiram encontrar os responsaveis pe-
los tr8s jornais, que se protege e se tor-
nam inacessiveis aos geralmente longos
bravos (ou tentAculos) da justida.
Por causa dessa omissdo, a desem-
bargadora Eliana Abufaiad, relatora do
recurso contra a decisao de Castelo
Branco, precisou intimar a parte adver-
sa para poder haver contradit6rio no
agravo de instrument, que foi acolhido
pela cmnara civel, sem a manifestaqdo
dos agravados. Esse 6 o respeito que
as empresas tnm pelajustiqa, o cidadao
e o direito a livre informaqdo?
E uma responsabilidade grave porque
acontece de um direito subjetivo, como 6
o da imprensa, colidir com outro direito
subjetivo, o da image e da dignidade da
pessoa. O crit6rio para a definigqo de qual
deles deve prevalecer pode ser o da pro-
porcionalidade, como foi o principio ado-
tado pela desembargadoraAbufaiad, atra-
v6s do qual ela concluiu que houve "ver-
dadeiro abuso" do direito de informar por
parte das empresas sobre o respeito a dig-
nidade da pessoa e aos mortos.
Como as empresas nada fizeram es-
pontaneamente, acreditando que podem
usar o seu poder de coaqdo para evitar o
debate ptiblico ou esmaga-lo atrav6s da
manipulagqo da informanio, a sociedade
espera que sejam agora obrigadas a fazer
o que era seu dever original. Talvez, com a
manutenao da proibido que 6justa, le-
gitima e legal o Parn consiga voltar ao
status que havia quando o Didrio do Pard
criou o seu tabl6ide de policia e 0 Liberal,
surpreendido, saiu atras do prejuizo. Nes-
sa corrida ao sensacionalismo o que sem-
pre esteve em causa nio foi bem informar
a sociedade, mas explora-la. O castigo, se
castigo hi, foi e 6 merecido.
Quem diz que dele pode resultar in-
voluqao na ordem democratic pode at6
entender de ordem, mas nada sabe de
democracia. Em nenhum moment ela
foi ameaada pela decisao da 4a cama-
ra civel da justiga paraense. Pelo con-
trario: talvez, se os ventos da boa inspi-
ragao continuarem a soprar, os jornais
encontrem um novo rumo, melhor do
que o mau caminho que adotaram.


MAIO DE 2009 1a QUINZENA Jornal Pessoal 3












Como voc8 reagiria a acusaCgo de
ter abusado sexualmente de uma menor,
que levou para a pr6pria casa e passou a
tratar como filha? Se inocente, com jus-
ta indignacqo. Para essa indignaqgo ser
just, ela ter que ser pronta, imediata,
absolute. O ex-deputado Luiz Afonso
Sefer nHo reagiu assim. Podia ter come-
qado a se defender no dia seguinte A di-
vulgagao p6blica do fato, o que nao fez.
Os dias foram passando e ele, se agiu,
foi s6 nos bastidores. Manifestou-se por
provocacqo, quando a questdo extrapo-
lara limits controlados.
Diga-se, em defesa do ex-parlamentar,
que ele enfrentou as duas primeiras expo-
siqges pdblicas. Naprimeira, noo havia uma
acusa~ao direta, explicit, assumida: ele se
pronunciou, no plendrio da Assembl6ia
Legislative, como suspeito do abuso, crime
brutal. E suas palavras foram aceitas por
seus pares, que at6 o cumprimentaram pela
manifestagao. Parecia ter-se livrado do
aperreio. Na segunda, jA estava na condi-
9ao de investigado pela Comissdo Parla-
mentar de Inqu6rito do Senado Federal, A
frente da qual estA um professional no tema,
o senador Magno Malta.
Sefer tentou que a audiencia fosse se-
creta. Argumentou que preservaria a me-
nor, a ele e A familia, embora tivesse leva-
do familiares consigo, certamente para
mostrar a uniao do cla em torno da sua
presunqao de inocencia. Nao convenceu.
Convenceu menos ainda pelo conteido do
seu depoimento, que durou cinco horas e
foi mais pat6tico do que consistent.
Mas ele tinha suas armas, documents
que provariam a leviandade da acusagao e
a qualidade ruim da acusadora. Essas pro-
vas nTo reverteram a tendencia em plena
expansao contra ele, tanto no pr6prio par-
lamento quanto perante a opinion piblica.
Por que? Porque todos os que o acusam


soo manobrados pelos seus "inimigos poli-
ticos". Devem ser inimigos muito podero-
sos para agir cor tal efici8ncia, sem preci-
sar aparecer. Efici8ncia e que parece lan-
gar seus poderes sobre o pr6prio ex-depu-
tado, que at6 hoje nao deu os nomes des-
ses inimigos e quais sao seus objetivos.
Chamado a depor novamente, desta
vez na CPI estadual, Sefer mudou de com-
portamento, ou de estrat6gia: usou o di-
reito de permanecer calado e nao produ-
zir provas contra si, por conselho profissi-
onal do seu advogado, agora ao seu lado.
Seria porque nio acredita mais na lisura
e na isenSgo dos seus julgadores, consi-
derando-se previamente condenado.
Um cidadao injustigado, vitima de ma-
nobra t~o torpe, que tenta incrimini-lo por
um crime que choca qualquer pessoa sa,
teria preferido preservar seu mandate po-
litico a defender sua honra pessoal (e a da
familiar) at6 o iltimo moment e desde
sempre? Pois o deputado Sefer preferiu
renunciar para nao correr o risco de ser
cassado e nao poder se apresentar nova-
mente como candidate na eleigao do pr6-
ximo ano. Com isso, impediu a CPI de puni-
lo por violagao do decoro parlamentar.
Ele prometeu que vai provar sua ino-
cencia na outra via desse contencioso, a
judicial. Mas essa 6 uma instincia reser-
vada, na qual o process deveri ser de-
morado, sujeito a variag9es, mas sempre
A distancia do centro do interesse ptiblico,
cada vez mais circunscrito aos autos. Um
cidadao vitimado por conspira9oo political
moral, como essa, da qual o ex-deputado
se diz vitima, hi de preferir essa via, que
tern ritmo lento, sem esgotar a anterior,
que tem impact imediato? NZo tendo re-
agido de pronto A indignidade, manifes-
tando sua just revolta, o m6dico Luiz
Afonso Sefer pode ter-se condenado a
ter uma vit6ria de Pirro. Se tanto.


Intimidade
O Jornal Pessoal foi quem revelou para a opinido piblica o fim do casamento
de Jader Barbalho corn Elcione, contando a hist6ria complete. Ja a separagao do
deputado federal do PMDB de sua segunda mulher foi tema de ligeiras "indiretas"
nos blogs antes de aparecer aqui, na edigao passada, com todos os nomes dos
personagens e os detalhes que diziam respeito a vida piblica dos dois protagonis-
tas. Muitos outros detalhes, relacionados As vidas pessoais de ambos, foram deixa-
dos de lado e continuario a ser ignorados. Apimentam as fofocas correntes, mas
s2o da intimidade de cada um. Este journal, que nao 6 Caras nem tem interesse em
exibir conhecimento sobre o vaudeville papa-chib6, s6 voltari ao tema quando ele
preencher seus crit6rios editorials. Ou seja: disser respeito A vida pdblica.


Deputado pode ter

uma vit6ria de Pirro


4 Jornal Pessoal MAIO DE 2009 1a QUINZENA


Vontade real

O PT p6s fim aos 12 anos de hege-
monia tucana na political do Pard, mas
nao instalou uma nova forma de go-
vernar no Estado. As mudangas foram
mais cosm6ticas e ret6ricas. As conti-
nuidades 6 que prevaleceram, de alto
a baixo. Um pequeno exemplo a mais
dessa constatagao 6 oferecido pela sor-
te da Estagao das Docas. O projeto foi
combatido como uma intrusdo onero-
sa do poder p6blico num espaqo essen-
cialmente privado. A um custo final
mais do que dobrado em relagao ao
orgado e tropelias pelo caminho, a Es-
tagao foi concluida, inaugurada e ad-
ministrada imperialmente pelos delega-
dos do arquiteto Paulo Chaves Fernan-
des. A frente do neg6cio, para efeitos
legais, estava uma organizaqgo soci-
al, a Pard 2000. Mas ai de quem nao
cumprisse as determinaqoes urbi et
orbi do voluntarioso super-secreti-
rio (que era apenas de cultural, para
quem quisesse acreditar).
O PT mudou a Estag9o das Docas?
NMo de inicio, mas agora, sim. O local
6 uma das pedras de fantasia do colar
(de bijuteria) oferecida a um novo ali-
ado politico. As pessoas indicadas pelo
Partido Verde entendem do riscado? A
julgar pelo panico que se estabeleceu
entire os donos de restaurants e de-
mais pontos comerciais do espago, nao.
Querem salaries, DAS, vantagens, sta-
tus e o que couber no butim. Um es-
forgo de ajuste e corregdo de rumos,
que estava em curso, foi langado A bafa
das conveni8ncias political e do arbi-
trio do executive.
A OS Pard 2000 morreu, sem fita
vermelha, se 6 que nao nasceu morta.
Atender aos interesses da clientele, res-
peitar a integridade dos conselheiros,
servir ao ptiblico? Balela. 0 baile da ilha
Fiscal acabou e os convivas estao A
espera do "cristo" para voltar aos seus
domicflios. 0 povo passa fome? Que
coma brioches, pensa a Maria Antonie-
ta ao tucupi. O exemplo da Estagao 6
apenas um. Hi muitos outros, bem mais
graves. Mas 6 pelo dedo que se conhe-
ce o gigante. Quem ocupa o trono emi-
te de 1i os 6ditos reais e faz valer sua
vontade: na Estagao, no Hangar, na
Seduc et caterva. S6 nao em Brasilia,
onde, ao que parece, Lula nao mudou a
primeira opinido sobre o governor petis-
ta do Pard. A primeira impressao ficou.









A dignidade da familiar


e as suas circunstancias


Por determinagao judicial, ojomalista
Juv8ncio Arruda retirou do seu blog Quin-
ta Emenda expresses consideradas
ofensivas pela famflia Sefer. Essa foi uma
media liminar, adotada no dia 8 pelajuiza
da 3a vara civel de Bel6m, Teresinha Nu-
nes Moura. Ela concede antecipagao de
tutela h a~io de obrigagao de nao fazer,
combinada com indenizagao por danos
morais, proposta no dia anterior por 13
integrantes da familiar Sefer. Da iniciati-
va, por6m, nao tomou parte o ex-deputa-
do estadual Luiz Afonso Sefer, a quem as
expresses tidas por ofensivas se dirigi-
am. Ele, que era lider do DEM, renunciou
ao mandate para evitar um process de
cassag~o na Assembl6ia Legislativa, por
quebra de decoro parlamentar. O m6dico
6 acusado de pedofilia contra uma menor
num period de tr8s anos, dos 9 aos 12
anos de idade.
A liminar judicial determinou ao res-
ponsivel pelo blog, um dos mais acessa-
dos pela internet no Pard, que "retire ime-
diatamente e, ainda, se abstenha de vei-
cular em seu blog ou em qualquer outro
meio de informagao de sua autoria expres-
soes ofensivas como: seferizagao, seferi-
ce, seferizada e Sefer Sport Clube ou qual-
quer outra expressao similar e, ainda, uti-
lizar expresses sexuais e outras cong8-
neres". Se descumprir a ordem, teri que
pagar multa didria de mil reals.
A agao foi assinada pelo pai e a mae
do ex-deputado, seus tr8s filhos, e por seus
tr8s irmaos, tamb6m com os respectivos
filhos. Sua irma, Ana Am6lia, que foi se-
cretiria de Estado na administragao do
PSDB, mais o marido, e dois sobrinhos
do parlamentar, Ricardo e Tiago, atuam
tamb6m como advogados (considerados
por eles pr6prios "de renome") em causa
pr6pria e como procuradores dos paren-
tes. Eles disseram ter tomado a iniciativa,
depois de muita tolerancia a agress5es e
respeito h liberdade de imprensa, para
defender a fammlia. Admitem que Luiz
Afonso, por sua extensa atividade parla-
mentar (um mandate de vereador e cinco
de deputado) e por usar o sobrenome
Sefer, "contribuiu para dar ainda mais vi-
sibilidade ao nome da fanmlia, situag~o que
sempre foi administrada pelos demais
membros coin certa tranqiiilidade".
Na petig~o, os demais Sefer, "inte-
grantes de traditional e conhecida famf-
lia no seio da sociedade paraense, popu-


larmente conhecida pelo sobrenome Se-
fer, dnica entidade familiar com este so-
brenome no Brasil", nao explicam por
que essa tranqtiilidade nao 6 absolute, mas
relativea". Indicaria, talvez, certa restri-
qao ou reserve em relalio a algum as-
pecto da atuaqao do mais notivel mem-
bro do cla atualmente? Luiz Afonso subs-
tituiu nessa posigCo o pai, Elias Sefer, que
foi director da atual Ufra (antiga Fcap),
coordenador do Incra e superintendent
da Sudam, por indicagao do ex-governa-
dor e ex-ministro Jarbas Passarinho, du-
rante o regime military.

Apesar dessa
relativizagao, ou por
causa dela, os Sefer da
aaio defendem o
ex-deputado da denuncia
de abuso sexual de menor,
que esti sendo apurada pela justiga es-
tadual de primeira instancia, mas nao de
forma extensive. Mais important ainda
6 que a adao deixou de lado esse aspec-
to, o mais grave da questao, para enfrentar
as cinco expresses (ou neologismos)
criadas por Juv8ncio Arruda a partir do
nome de familiar de Luiz Afonso, imputa-
das como ofensivas e passiveis de repa-
ragao atrav6s de indenizagao pecunidria
(cujo valor os Sefer nao estabeleceram,
deixando para ser definido pelojulgador,
no final da demanda.
Sobre a pedofilia, limitam-se a negi-
la, pelo fato de conhecerem tanto o acu-
sado quanto a menor que o acusou, "sa-
bendo portanto que as acusacges sao
fantasiosas". Alegam que houve tenden-
ciosidade na conducao das apuragqes
no ambito pdblico, feitas a base de jui-
zos de valor, "mesmo que a maioria o
tenha feito com base em fofocas, infor-
magSes imprecisas e invenqces patro-
cinadas por inimigos politicos" do ex-
deputado. Luiz Afonso tamb6m bateu
na mesma tecla, mas at6 agora, assim
como os seus parents, nao deu os no-
mes a esses inimigos nem identificou
suas motivagSes.
Com arg6cia, os 13 Sefer tangenci-
aram esse ponto e concentraram sua in-
vestida sobre outros juizos de valor, os
que os atingem direta ou indiretamente.
Se conseguirem caracterizi-los como ili-


citos e comprovarem a conexao causal
com os danos que dizem estar sofren-
do, poderao levar a juiza do feito a de-
terminar o pagamento de indenizagao.
Eles estao certos de alcangar esse ob-
jetivo, a partir da premissa de que a li-
berdade de imprensa "nao pode se so-
brepor ao direito A privacidade". O des-
fecho, por6m, nao 6 tao certo quanto
pode parecer.
Ajuiza Teresinha Moura acolheu li-
minarmente o pedido e antecipou a tu-
tela, para evitar dano irreparavel aos
integrantes da familia que requereram
sua proteqao, por ver verossimilhanga
no pedido. Mas nao mandou vetar to-
das as expresses indicadas pelos au-
tores da a9ao. Eles queriam que o blog
tamb6m fosse obrigado a deixar de fa-
zer referencias A famflia Sefer "ligadas
a expresses como: canalhices, safade-
zas, truculencia, perversoes sexuais e
outras congeneres".
Proibir o uso de neologismos, como
os que Juv8ncio Arruda criou a partir
do nome da familia, 6 uma coisa, que
pode ter clara conotagao pejorativa e
expressar um animo subjetivo. Esten-
der essa proibicao a expresses cor-
rentes do verniculo, cada uma delas
devidamente dicionarizada, que serve
para qualificar determinados fatos, sem
que seus pressupostos estejam demons-
trados, seria arbitrio total. Significaria
dar ao direito A intimidade um valor ab-
soluto, que ele nao tern, ao contrario
do que sentencia a famflia Sefer na
petigao. E precise confrontar esse di-
reito com o outro, no caso, o da infor-
magao, ambos com previsao constitu-
cional, por haver um nitido conflito en-
tre eles, cada um ponderado por suas
circunstancias. Para tal, 6 precise ha-
ver a instrugao processual, com o dii-
logo e o contencioso entire as parties,
at6 que uma delas prove a verdade.
De fato, a familiar Sefer "tem pou-
cos integrantes, mas todos de grande
projecao no meio social paraense", con-
forme argumentam os 13 integrantes do
cla. A projecao, contudo, nem sempre
foi positive, como parece reconhecer a
pr6pria pega, ao dizer que tem adminis-
trado a atual pol8mica, mais uma na tra-
jet6ria dos Sefer, "com certa tranqiiili-
dade". O absolute, na atual pol8mica,
como nas anteriores, 6 indevido.


MAIO DE 2009 1A QUINZENA Jornal Pessoal 5









A renuncia da vereadora


Antes de decidir ingressar
na carreira political, Va-
nessa Vasconcelos veio
at6 a minha casa com o
seu marido, official da Po-
licia Militar, como ela.
Queria ouvir minha opi-
ni~o. A consult era motivada por algu-
mas ligaq6es que tinhamos. Fui colega de
escola do pai dela no "Paes de Carvalho"
e, depois, sempre mantive relaao cordial
com Am6rico. Namorei sua tia, Maria do
Perp6tuo Socorro, tamb6m minha colega
de CEPC. Aprendi a admirar os tres ir-
mros Lima de Vasconcelos. Eles freqiien-
taram na mesma 6poca o col6gio, que ain-
da sobrevivia como instituigao de ensino
de refer8ncia: eram honestos, decentes,
aplicados e inteligentes. Pessoas de ori-
gem humilde, que venceram etapas na
vida gracas aos seus m6ritos.
Al6m dessa relagdo mais antiga, fui
professor de Vanessa no curso de co-
municaqgo social da UFPA e pude me-
dir sua inteligencia. Quando o entao
governador Almir Gabriel mandou pren-
de-la, num ato de puro arbitrio, fui ao
quartel da PM manifestar de pdblico
minha solidariedade a ela. E escrevi uma
mat6ria de capa sobre sua situacao,
nesse moment agindo apenas como
jornalista, que, por dever de oficio, abs-
trai as circunstincias pessoais. O caso
dela merecia o destaque devido, nao em
si, mas por revelar o espirito truculento
de um falso democrat.
Certamente, agora, Vanessa Vascon-
celos nao me procurari para pedir mi-
nha opiniao sobre o seu novo "caso",
que contrast com o anterior. Mas eu
you dar-lhe publicamente minha opiniao:
renuncie ao mandate e tente recome-
gar, incorporando a liqgo ruim desse
escandalo mini, talvez, no seu alcan-
ce, mas chocante. Nao hi nada quejus-
tifique ou atenue o erro da vereadora.
Usar sua empregada dom6stica como
intermedidria para receber mais dinhei-
ro piblico do que o autorizado legalmen-
te, 6, na minha opiniao, clara quebra de
decoro parlamentar, delito sujeito A pena
de cassacgo do mandate.
Sei que a ilegalidade praticada pela
vereadora do PMDB 6 generalizada.
NMo apenas na Camara Municipal de
Bel6m, mas em todas as cmnaras mu-
nicipais do Brasil, em todas as assem-


bl6ias Legislativas, na Camara Federal
e no Senado. Essa generalizag~o pode
at6, pelo espirito corporativo dos pares,
sujeitos A mesma punicao, salvar a ca-
bega de Vanessa. Ela tamb6m pode ale-
gar que o dinheiro extra foi usado em
iniciativas political, que sem essa ver-
ba marginal os parlamentares nao con-
seguem desempenhar sua fungdo infor-
mal de assistentes sociais e que sem
esse assistencialismo, num pais pobre e
injusto como o nosso, nao 6 possivel
colher votos na horta eleitoral.
Tudo isso 6 verdade. Em nada, entre-
tanto, diminui ou atenua sua imoralidade.
Se um parlamentar for flagrado no delito,
ter que ser punido. A nao ser que, reco-
nhecendo seu erro e o purgando, renun-
cie ao mandate, devolva o dinheiro pdbli-
co indevidamente embolsado e se sujeite
as responsabilidades civeis e penais do
ato. Quem ji agiu assim? Quem agiri?
Os deputados federal, por exemplo, fla-
grados abusando de passagens areas
para o exterior, se defended dizendo que
a faculdade era legal, como diz o paraen-
se Vic Pires Franco. Mas ningu6m tem
ddvida de que era- e continue a ser, mes-
mo com o novo vemiz- moral. Mas quern
liga para a moralidade?

Quando um parlamentar
renuncia, e apenas para
evitar a cassagao e poder
retomar a carreira
political na eleigao
seguinte. Esse moment surge, em
geral, ji numa fase avangada do manda-
to, em tempo 6til para pular para o man-
dato seguinte sem o desgaste maior da
mem6ria social, que dura pouco. E nao 6
por acaso que se firmou tal regra: entire a
constatago do fato ilicito e sua punigo,
quando esse caminho de Damasco che-
ga a ser trilhado, decorre muito tempo.
Ele 6 consumido pelas indecis6es, relu-
tincias, manobras protelat6rias e pela ago
do espirito corporativo. Falar de ilicitude
no parlamento 6 como fazer refer8ncia A
corda em casa de enforcado.
Seria falso moralismo condenar o
parlamento por ser assim, retrucam seus
defensores incondicionais (porque dele
se beneficial): a casa das leis apenas


reflete o estado da nacgo (vale o cac6-
fato). Nao por acaso, o Brasil 6 consi-
derado, em todas as listas internacio-
nais que sao feitas, um dos pauses mais
corruptos do mundo. E verdade: o re-
presentante politico 6, em certa medi-
da, a image do representado. O pro-
blema 6 que o parlamento 6 um retrato
concentrado do pais: quando se quer, v8-
se melhor essa realidade em escala de
detalhe. Mais ainda do que isso: boa
parte dessa onda de maus costumes que
se espalha pelo territ6rio national tem
sua origem no parlamento. Ou entao ele
funciona como posto de pedigio.
E entao que surge uma opor- 4
tunidade inica para aqueles que
defended a verdadeira moraliza-
9ao pdblica: 6 ir atris do rastro
do dinheiro. Foi assim que se re-
velou o maior escandalo da vida
pidblica do pais que costume
nos servir de modelo (tanto
para exaltd-lo quanto para
execri-lo), os Estados Uni-
dos. A partir de um cheque
depositado no M6xico pelo
chefe da campanha eleitoral, *
e que depois voltou aos EUA,
dois rep6rteres do Washington
Post, Bob Woodward e Carl
Bernstein, levantaram a hist6ria
do Watergate. Era tanta lama que
nao restou a Richard Nixon, ree-
leito com toda gl6ria pouco antes, se nio
renunciar ao segundo mandate de pre-
sidente dos Estados Unidos para nao so-
frer o primeiro process de impeach-
ment da hist6ria americana.
No Brasil, Fernando Collor de Mello
nao renunciou, foi submetido ao impea-
chment e teve seu mandate cassado. Nao
foi uma puniqao injusta, muito pelo con-
trario. Mas Collor foi condenado nao pe-
los seus maiores erros e sim por seus pe-
cadilhos. Na reconstituigSo da trajet6ria
do dinheiro illegal, os investigadores fica-
ram nas perfumarias e estancaram nos
umbrais do que mais fedia. Ficaram no
Fiat Elba e nas cascatas da Casa da Din-
da. Desde entao, ir atris do primeiro di-
nheiro sem explicaao que se detecta tem
sido a mais promissora pritica do Brasil
republican dos nossos dias.
Ainda assim, 6 raro que os investiga-
dores cheguem ao verdadeiro ponto de ori-
gem da tram6ia. Eles costumam partir para


6 Journal Pessoal MAIO DE 2009 1- QUINZENA









e a moralidade public


a longa e civica viagem sob o espocar dos
foguetes e as luzes dos refletores da mi-
dia. Mas chegam sozinhos ao apice dessa
peregrinacio, o que significa minimizar os
efeitos concretos da missed. Se 6 que che-
gam mesmo. Com isso, o Brasil nao desce
do ranking mundial da corruppao.
Ja houve melhora nos hibitos piblicos,
mas ela 6 residual. Ha mais peixes de pira-
nha nas aguas, mas 6 ainda maior a mana-
da que passa em surdina para o outro lado,
o dos paraisos fiscais, das fortunes sibitas
inexplicadas (e inexpliciveis), das despe-
sas imoderadas e do abuso continuado na
gest2o e uso do patrimonio piblico.
Como quase todos os protagonists
tem o que temer, o jogo que prati-
cam, mesmo quando involuntari-
amente levados A arena pidblica
para prestar contas, nao 6 fran-
co. Escondem suas cartas, ma-
nipulam seus arguments, sone-
gam informagSes.
A imprensa, que devia fun-
cionar como porta-voz da soci-
eedade e fustigadora dos maus
homes pdblicos, nao costume
ser persistent, competent e
S sincera nesse oficio. Uma vez te-
cido um enredo verossimilhante,
capaz de satisfazer o olho do in-
gl8s (para o qual 6 montada a en-
cenag~o, conforme o ditado popu-
lar), todos se consideram satisfeitos e
voltam aos seus afazeres de antes no pais
que 6, invariavelmente, como o quartel de
Abrantes. A elite, quando senate a ameaga
real de perigo, encontra modos e meios de
refazer o pacto da cumplicidade para man-
ter o status quo, mesmo quando ele 6 re-
pintado de vermelho e a taxa de pedAgio
social 6 reajustada acima da inflagao. Pais
muito rico, principalmente no cendrio que
fica nos bastidores, o Brasil tem gordura
para dar e vender (como, antes, tinha ba-
nana).
Refazer os passes do dinheiro ilicito
que se descobre continue a ser o me-
Ihor m6todo para identificar a exata oca-
siao em que o recurso pdblico foi desvi-
ado da sua rota legal. Como esse des-
vio n~o se process por metaffsica, nem
os anjos sdo seus alquimistas, os agen-
tes da mudanga podem ser apontados
por seus nomes e responsabilizados.
Claro que 6 precise considerar suas cir-
cunstdncias e elas tamb6m devem ser


esclarecidas por inteiro. S6 nao devem
servir de pretexto para ignorar que, ao
report nos cofres do eririo o recurso
espoliado e punir o agent da pilhagem,
haveri mais verba para investor em be-
neficio de todos e nao de um grupo de
malandros e aproveitadores. Este 6 o
objetivo principal. Sua realizaqgo pode
ser efetivada sem que se deixe de lado
as condicionantes political do fato.

No caso de Vanessa
Vasconcelos, por exemplo,
nao ha difvida que
ela foi vitima de
uma conspiragAo. A informa-
qgo sobre o uso de um "laranja" para
permitir o desvio de dinheiro pdblico pela
vereadora teria sido fornecida por um
dirigente da pr6pria CUmara, umjorna-
lista, que antes trabalhara na assesso-
ria direta do prefeito de Bel6m, Ducio-
mar Costa. A mat6ria que revelou o es-
candalo nas piginas de O Liberal foi
escrita por uma reporter do journal, que
tamb6m atua na assessoria de comuni-
caqao da prefeitura. A incompatibilida-
de 6tica no desempenho simultineo das
duas funq5es ficou tao evidence que
Micheline Ferreira deixou de assinar as
sucessivas mat6rias que escreveu so-
bre o caso. A partir daf, o sentido de
campanha se tornou ainda mais marcan-
te. Como o seu vicio de origem.
O prop6sito da trama era mdltiplo,
mas complementary: desviar o interes-
se da opinido pdblica, que vinha se
concentrando na crise da sadde pi-
blica no municipio; tentar fulminar a
CPI instalada na camara para apurar
os escandalos no setor, atingindo a
principal articuladora do movimento;
deixar mal o PMDB e, como ineviti-
vel, atingir por tabela o deputado fe-
deral Jader Barbalho.
O prefeito Duciomar Costa, que ja-
mais olha nos olhos do seu interlocutor,
tem se revelado um mestre no uso de
informaqSes "de cocheira" contra os
seus inimigos e adversdrios. Como uns
outros poucos politicos, tem servigo pr6-
prio de inteligencia, voltado justamente
para evitar que essas informaq6es pri-
vilegiadas se tomem de dominio pdbli-
co. Para ter os devidos efeitos particu-


lares, 6 precise que sejam usadas em
circuit fechado. O povo s6 6 convoca-
do para arrematar as tramas urdidas
nos gabinetes do poder, sejam eles ins-
titucionais como informais.
Nem por isso os cidadaos devem
desistir de tentar chegar aos verdadei-
ros pontos de partida e aos verdadeiros
pontos de chegada, contando a hist6ria
real, identificando seus personagens e
exigindo que a moral pdblica, ao inv6s
de servir de arma para os donos do po-
der, seja um instrument de reform
social, um pardmetro para melhorar a
qualidade do pais. Para que essa pers-
pectiva seja fortalecida, dou o conselho
que a vereadora Vanessa Vasconcelos
nao me pediu e que o interesse piblico
impBe, se ela ainda 6 capaz de ouvi-lo:
renuncie ao mandate e tente recome-
gar sua vida political, de outra maneira.

Interesse p6blico
No vizinho
Em 2005 a Secretaria de Obras
Piblicas do Estado contratou a B
& M para construir a cobertura da
quadra poliesportiva do Cassazum.
Passados quase quatro anos, a obra
nao esti pronta: o prazo para sua
conclusao foi prorrogado 11 vezes.
Outros dois aditamentos foram para
acr6scimo de servigo e reequilibrio
econ6mico do contrato. O 14 ter-
mo aditivo foi assinado em margo,
para adicionar mais de 18 mil reais
ao contrato original, por conta de
novos servigos.
Fago a Seop as seguintes per-
guntas:
1) Qual ajustificativa para o Es-
tado realizar obras num clube soci-
al particular?
2) Qual o valor original do con-
trato?
3) Quanto ji foi gasto at6 agora
na tal quadra polivalente?
4) Qual a l6tima previsdo para
sua conclusao?
O Tribunal de Contas podia fa-
zer suas as perguntas e cobrar as
respostas. O Minist6rio Pdblico do
Estado, tamb6m AAssembl6ia Le-
gislativa, idem. O sil8ncio 6 que
precisa ser rompido.


QUINZENA Jornal Pessoal 7


MAIO DE 2009 1









0
















O


CARNAVAL
As escolas de samba de
Bel6m ensaiavam para o car-
naval saindo pelas ruas da
cidade. Ndo deixavam de
fazer uma parada em frente
A sede da Folha do Norte,
o mais influentejoral, como
fizeram, em 1956, tanto o
"Quem Sdo Eles" quanto os
"Bo8mios da Campina", (os
Bo8mios foram os campe6es
do ano anterior). Do alto da
sacada do pr6dio, o entao oc-
togendrio Paulo Maranhdo
respondia A batucada, quan-
to mais intense, melhor. Mas
pelo menos era carnaval.

BATALHA
Nesse mesmo carnaval, a
SeSgo de Divulgagdo e Tu-
rismo da Prefeitura de Be-
16m avisava "ao povo em
geral e aos diretores dos con-
juntos carnavalescos inscri-
tos no concurso official do
Bosque Rodrigues Alves, que
deliberou, por motive da com-
pleta ornamentagao da Pra-
9a da Repdblica, adiar para
1 de fevereiro vindouro a
batalha de confete", que es-
tava programada para a noi-
te de 31 de janeiro. Estimu-
lava as escolas de samba e
os foli6es a estarem "a pos-
tos" para participar dessa
"monumental batalha de con-
fetes", que teria a "coopera-
Cgo" do Grande Hotel, o
melhor de entao.

CASTANHAIS
Ha virios anos os casta-
nhais estdo na origem de vi-
rios dos principals conflitos
de terra do Pari, como os
do banqueiro Daniel Dan-
tas, mais recentemente. O
problema ganhou dimensIo
hi meio s6culo: foi em 1956
que o governador Zacarias
de Asssuncgo, autorizado
por lei que conseguiu apro-
var na Assembl6ia Legisla-
tiva, comegou a distribuir ti-
tulos de aforamento para a
exploracgo dos castanhais,
que proporcionavam uma
das principals atividades


econ6micas no Estado. Ti-
veram prioridade os deten-
tores dos contratos de ar-
rendamento. Esta era a f6r-
mula juridica adotada at6
entao para permitir o uso das
terras pdblicas para a extra-
9co dos recursos florestais.
A relaCgo, estabelecida com
os "coron6is" de barranco,
jamais foi risonha e franca.
No minimo, engendrava um
compromisso politico. Mas
tinha tamb6m seus derivati-
vos financeiros no mundo do
extrativismo.
Tdo logo a lei que dispu-
nha sobre a concessao dos
aforamentos entrou em vi-
gor, AssungIo deferiu 100
titulos de aforamento, "ad-
referendum" do poder legis-
lativo. A hist6ria, que come-
gou torta, nunca mais deixa-
ria de ser torta.

ESTRADA
E de regra atribuir a Janio
Quadros uma frase bom-
bistica, mais uma de seu
long repert6rio: de que a
rodovia Bel6m-Brasilia era
um caminho de onqa. O ver-
dadeiro autor do dito, por6m,
foi o president da Associa-
gao Comercial do Rio de Ja-
neiro, Rui Gomes de Almei-
da. O pr6prio Janio, quando
em campanha pela presi-
dencia da repdblica, em se-
tembro de 1959, em Bel6m,
deu essa informagqo ao jor-
nalista Santana Marques,
que a revelou em sua colu-
na na Folha do Norte, no
ano seguinte. Janio disse que
jamais diria algo semelhan-
te, por ser um absurdo. Na
6poca, ele sabia que a es-
trada ji fora aberta a trife-
go, conforme constatou o
pr6prio Santana. Quatro
dias antes ele percorreu a
B-B e contou cinco cami-
nhoes cruzando corn ele,
que ia numa comitiva visi-
tar a ponte sobre o rio Gua-
mi. A contabilizagao foi
feita num percurso de 40
quil6metros. Sem cruzar
com qualquer onqa.


8 Jornal Pessoal MAIO DE 2009 1- QUINZENA


VESUVIO
O Vesdvio anunciava, em 1958, que "rece-
beu diretamente de Liverpool pelo Vapor
'Sallust'", o whisky White Horse, que tam-
b6m atendia quando chamado de Cavalo Bran-
co, em alta octanagem. Era uma das bebidas
preferidas do distinto piblico nessa epoca, em-
bora nem sempre fosse o legitimo puro san-
gue em malte (o contrabando era feroz, pre-
dominando sobre a atividade legal). O produto
ji estava h venda, "em caixas e garrafas", na-
quele inesquecivel estabelecimento comerci-
al, no "canto" da avenida Presidente Vargas
com a Manoel Barata. Antes da era dos su-
permercados, em regra ass6pticos e impesso-
ais, era o local das maravilhas do alto consu-
mo com nome e sobrenome. E distingo.

PROPAGANDA

0 1 anivers rio
A TV Marajoara, a primeira do Pard e da
Amaz6nia, comemorou seu primeiro ano
de funcionamento em setembro de 1962.
O ponto alto foi um program realizado
no audit6rio da co-irma, a Rddio Mara-
joara, que era mais antiga, no largo de
Nazard, transmitido "ao vivo", como hoje
se diz. Alem das atragoes nacionais, como
Orlando Silva (o nosso Frank Sinatra) e
Carminha Mascarenhas (instrumentista do
acordeom, que era tocado por 10 dentre
10 mocinhas), havia um grande "cast"
local. De tudo que havia, resta, hoje, a
Rddio Marajoara.


HOJE
DIRETAMENTE
EDOAUDITTRIO DA
RADIO MARAJOARA






S,00- -0--0--0-00


dl







FOTOGRAFIA


O poeta Bruno L
Bruno de Menezes, todo de '
branco (ate os cabelos), au-
tografou das 17 4is 19 ho-
ras seu livro de poesia
"Onze Sonetos", na livraria
Dom Quixote, do tambim
escritor e advogado r.
Haroldo Maranhdo, na ga- ".:
leria do Paldcio do Rddio
(que dava para a travessa
0 de Almeida, pr6ximo ai
avenida Presidente Vargas),
em setembro de 1960. 0 li- V
vro continha os versos par-
nasianos de Bruno, premia-
dos pela Academia Paraen-
se de Letras, da qual ele fa- -
zia parte. Ld estava, para ..
receber seu exemplar, o tam-
bim academico e major da
ativa do Exercito Jarbas
Passarinho, que tambdm
langaria nesse ano seu "Terra Encharcada", premiado pela APL no ano anterior e, portanto, cinqiientendrio
agora. Entraram ainda na fila (e na foto) da acanhada (mas bem fornida ) livraria o colunista Cunha Gongalves e o
major Pedro Tupinambd, tambim autor de quadras. 0 poeta asinava de p9, entire admiradores e prateleiras.


PESCA
Por que peixe custa tao
caro numa cidade amaz6ni-
ca como Belem, situado em
pleno estuario? A pergunta
admite diversas respostas.
Mas a Pesca Amaz6nica
acreditava no mercado. Tan-
to que, em 1960, anunciava
a inauguraqgo do "maior fri-
gorifico para peixe fresco do
Norte do Brasil" e a instala-
9do de "postos de venda de
peixe inteiro diretamente ao
consumidor" em postos de
venda espalhados por "diver-
sos bairros da cidade". Ga-
rantia entregar o produto a
domicilio e gratis. Tamb6m
vendia em alguns locals: Bar
Madrid (Encanto), Super-
mercado Azebar, Mercadi-
nho Muniz e Casa Gouveia.

ENDERE(O
Os m6dicos Manoel Aires,
Vitor Cardoso e Heber Mon-
9ao comunicavam "aos seus
amigos e clientss, em 1960,


a mudanga do seu consult6-
rio para o 2 andar do ediff-
cio Palicio do Radio, na ave-
nida Presidente Vargas,
"onde ficam a disposiqgo de
todos, no hordrio habitual".

BELEM
Bel6m nunca tirou provei-
to da sua condigao litoranea,
com duas frentes em angu-
lo, para a bafa do Guajari e
para o rio Guami, tendo
como v6rtice o forte do Cas-
telo, cor essa dupla mira-
da. Ao inv6s disso, cresceu
para o interior, ignorando a
ocupagdo desordenada e
feia da sua orla. Em 1960,
abordando esse tema recor-
rente na imaginagdo (e na
melancolia) da cidade, al-
gu6m que se dizia de origem
portuguesa e sob o nome de
Pedro Teixeira escreveu um
interessante artigo na Folha
do Norte. Convidou seu lei-
tor a fazer "uma excursao
fluvial de Val-de-Caes at6 a
Condor, na qual haveriam de


notar "que as construgoes
dos armaz6ns de porto, hor-
rorosos barrac6es de zinco,
tomaram de frente a vista
panoramica da cidade e,
desta para a bafa, o seu as-
pecto mais empolgante".
0 cais, "que deveria ter
sido projetado para dar a fu-
tura avenida beira-rio, de
Icoaraci, at6 Conceiqgo, no
Guami a qual iriam fluir
as travessas que partem do
Guajard teve, por6m, o
seu ponto morto no mole
antigo (ji desmoronado), ali
entire a rampa do Ver-o-
Peso e o galpdo Mosqueiro-
Soure", observava o articu-
lista inteligente e perspicaz,
condenando todos os urba-
nistas que atuaram na cida-
de por sua obtusidade e im-
previdencia: "Ja pensaram
como mudaria a fisionomia
da cidade se o projeto au-
dacioso dessa avenida a bei-
ra-mar, como as t8m Reci-
fe, Fortaleza, Sao Luiz, Vi-
t6ria e Santos?".


O que agora se tenta fazer
6 remediar com obras de sus-
peita consistencia t6cnica e
obscura fonte financeira.

MOCAMBO
No mesmo artigo, Pedro Tei-
xeira critical a concentraqao da
preocupagdo dos planejadores
corn o "devassamento acele-
rado e desordenado de outras
areas de Bel6m, na diredo de
Ananindeua", enquanto deixa-
vam para solugdo future "os
mocambos da Sacramenta, Ter-
ra Firme, Queluz e outros aglo-
merados urbanos, novas fave-
las em piano horizontal".
Mocambo foi, at6 recente-
mente, uma expressed corren-
te no linguajar local, inclusive
urban, masque nao se reduz a
umaidentificaoo 6tnica, de cr.
t mais social e econ6mica, aco-
modando-se as caracteristicas
da topografia de Bel6m. Os
amocambados eram ficeis de
identificaco territorial: confina-
vam-se as baixadas, as terras
inundiveis da cidade.


MAIO DE 2009 1, QUINZENA Jornal Pessoal 9









CARTASAOEDITO


BECADO
Cheguei ontem (1604/2009), depois de
mais de 15 horas de v6o entire Paris, Rio de
Janeiro e Belem cor um inico prop6sito:
abragar meus filhos e minha mulher. No en-
tanto seu artigo no JP n 439, no qual voce
me obsequia corn o novo codinome "lua pre-
ta" terminou por me estimular a escrever-
Ihe estes esclarecimentos, muito embora
as vezes voce nao faga jus, mas como sou
daqueles que "nio pode ver defunto sem
chorar", aiv~o eles.
Lamentavelmente, nlo h como deixarde
admitirquedefinitivamentesua "maiorano-
fobia" 4 uma patologia cujo sintoma mais
evidence 4 o detransmuta-lo para as raias da
insensatez, apenas uma mente obinubilada
pelos eflfvios biliares que voce destila contra
a familiar Maiorana sio capazes de engen-
drara fabula quevoc escreveu noseujomal
pessoal, pelo menos no que me diz respeito.
A relagFo de Beldm cor Pontassieve e a
Provincia de Florena, na regiio Toscana co-
megou ainda na gestio do ex-prefeito Ed-
milson Rodrigues em 2001, no entanto s6
se materializou em abril de 2005 quando
inauguramos o Sistema de Abastecimento
deAgua do Bairro de Aguas Negras no Dis-
tritoAdministrativo de Icoaraci quevinha
se arrastando, desde entgo, sem nenhuma
soluglo pritica. Foi uma experi&ncia extre-
mamente positive, pois o objetivo inicial que
era de abastecer 1200 families se ampliou
para 4000 o que chamou a atencgo dos
nossos parceiros Italianos, pelosimplesfato
de significar uma demonstraggo de serie-
dade e de correcao no trato do dinheiro p6-
blico investido.
De 16 pr6 c6 ocorreu um estreitamento
nos lagos de amizade entire nossas cidades
estimulado pelo exemplo de Aguas Negras
que permitiu uma ampliag o dos nossos ob-
jetivos, resultando, no ultimo 0904/2009
em Pontassieve, na assinatura de 03 acor-
dos de cooperaaoo international quevisam
a implantaglo de um Projeto de Desenvol-
vimento Urbano Sustent6vel para a Ilha de
Cotijuba sem emissao de poluentes incluin-
do a restauragio do educandario Nogueira
de Farias, denominado pelos nossos par-
ceiros italianos de "Carbon Free", a Revita-
liza~io do nosso Centro Hist6rico corn a im-
plantag5o de uma Escola de Restauro em
Belem e a realizaggo de um festival annual
de ArteToscana na nossa cidade.
Esse iltimo projeto foi que me levou,
atendendo um pedido de iltima hora do
Prefeito Mairaghi, a procurara 6nica repre-
senta io diplomatica da Italia existente em
Belem, cuja consulesa honoraria ou vice-
consulesa 4 a Dr. Roberta Maiorana que nao
se encontrava, naquele moment, na cida-
de, razto por que estabeleci contato o Dr.
Ronaldo Maiorana que concordou em nos
receber na sede dojornal 0 Liberale, gen-
tilmente, nos convidou para almogarmos na
Cantina Italiana sob o seu patrocinio. No
entanto, quando estivamos saindo da sede
dojomal ele recebeu um telefonema do Dr.
R6mulo Maiorana Jr., que se quer sabia da
nossa presenga, pedindo que o encontras-
se no restaurant da empresa e assim ter-
minamos almogando no pr6prio local. Foi,
portanto, uma sucessao de coincidencias,
nada mais que isso.
Eu nunca tive pai que me desse 'carta de
apresentagio' para estudar no Col4gio Pe-
dro II no Rio deJaneiro, nao condeno quem
teve essa oportunidade. Estudei no grupo
escolarJusto Chermont, no Paulino de Brito,
no Col6gio Deodoro de Mendonca, no Sou-
za Franco e megraduei duasvezes pela Uni-
versidade Federal do Para, como ge6logo e
depois como advogado, trabalho desde os
13 anos de idade para garantir meu susten-


to e na minha primeira infM
para complementary a renda
Quem vem de onde eu
onde cheguei, ter raizes pr
das na dignidade e no respei
as, aprende ser destemido,
ponsavel e nao leva desal
como minha mle me ensir
meu carojornalista, nio pos
sivamente, a maneira grosse
siria cor quevoce metratol
Noo sou "lua negra" ou "lu
voce grafou. De um lado po
te6rico de coisa nenhuma, a
les de botequim que reform
da vida. De outro, muito me
fanatico, a noo ser pela verd
nestidade de prop6sitos. La
ses predicados sejam cada v
de emergir da sua pena. Sua
agredir quem ter mais not
voce para se manter em ev
nas esperta, mas nao se con
teligencia. Ecansativa e Ihef
cr4dito a cada dia. Reflita sob
mudar essa pratica, sob pen
falandosozinho.


MINHA RESPOSTA
0 compromisso que assun
naintegra, todasas cartas en
sito de matrios destejornal
ouvirliSesde moraledejornc
ndo tern autoridadealgumop
cometi nem oerro de dara R
importncia que ele ndo tem.
umdetalhesecunddrionotext
quefoi citado marginalmen
faut). Nem o uso do express
para definirsuaproximidade
Duciomar Costa tem o sentid
ele fez questdo de Ihe dar, p
textararesposto e enumerar
tem a menorpertinncia com
artigo. Nele, a referncia ao al


incia catei lixo atdhoje(ecujadivulgagdomeseriobendfica
a familiar, no litigdncia cor osfilhos). Nenhum deles
vim e chegou jamaisseapresentoudepdblicoparaques-
ofundas finca- tionar meusartigos, quelhescausaram inc6-
to pelas pesso- modo exatamenteporqueforam levadosao
sem ser irres- conhecimentode todos.
foro pra casa, Desafioqualquerpessoaaencontraruma
nou. Portanto, unica materia said nestejornalsobre os
;so aceitar pas- Maiorana que ndo pertenca a esfera pdbli-
ira e desneces- ca, de legitimo interesse social. Os cabegas
u no seu artigo. do corporagdo querem todos os proveitos
a preta", como do circunstdncia de terem poderde influen-
orque nao sou cia e dissuasao sem as condig6es que ela
naoserdaque- Ihes impoe, que e o de terem seus atos
ou nas sarjetas pdblicos avaliados e questionados. Na to-
nos ainda sou refa de impediro acesso a essas informa-
lade e pela ho- g es, contam cor seu pr6prio poder e a
mento que es- ajuda dos dulicos e sabujos.
ez mais dificeis Noo tenho uma origem tOo humilde
i estrategia de quanto a de Raul Meireles, mas trabalho
toriedade que desde os 16 anos, de forma permanent
idbncia 4 ape- em empresasprivadas, como autonomo ou,
ifunde cor in- episodicamente, em instituig~es pdblicas,
'az cair no des- como prestador de servigo especifico, sem
re isso e tente vinculo. Estudei em escolas pdblicas, como
la de terminar o Grupo CamiloSalgado, o CEPC, a UFPA e a
USP. Mesmo no episddio por ele referido,
Raul Meireles do meu acesso ao "Andrd Maurois" (outra
escola pdblica), o pedido do meu pai a um
amigo sd me permitiu participar do list de
li-depublicar, inscrigdes que seformova para a nova ins-
viadas opropd- tituigdo carioca de ensino: submeti-me aos
--me obriga a mesmos testes de seleao dos demais, e
alismodequem fui aprovodo. Sempre me submeto 4 avali-
ara dd-las. Nao agoo dos pessoas, abrindo democratica-
aul Meireles a mente a possibilidade de questionamento,
Ele era apenas comofago aqui.
todo artigo em Se no possodizerquelideicom olixo ma-
te (comme-il- terialno inicio do carreira, possome conside-
do "lua preta" rarespecialista em lidarcom o lixo moralque
com oprefeito seme apresentapelascircunstcnciasdo exer-
o ofensivo que ccio de umafungdo que sempre me atrai a
ara assim pre- malquerenco dospoderosos e dosseus esta-
dados que no fetas. Mas, depois de trato-loprofilaticamen-
oconteddodo te, mando-o emfrente, sem me deixarconta-
moco tem sen- minorporele, comofa o agora.Ao lixo, olixo.


tido apenas por causa do origem dafamilia
Maiorana, a mesma dos convidados, por
causa do traje de Romulo Jdnior e pela au-
sencia do refrigerate do casa, o inefdvel Fly
(quem toma?), numa mesa dominada por
produtos concorrentes.
Diante do truculencia estudada de Raul
Meireles, que ele utilize para prestarservi-
co aos verdadeiros destinatdrios das minhas
critics, dispensados de respond4-lospela
presteza do auxiliar, de agora em diante ele
voltard a ser integralmente o que e: uma
circunstancia no vida p6blicaparaense. Urn
mensageiro do leva-e-traz do politico local,
cor uma competencia que come porse
revelarno conteddo dasua carta. Desta vez
a reproduzo sem apreocupagdo de ajustd-
la bs normas do lingua portuguesa. Repro-
duzo-a talqualfoiescrita. Por isso, perddo,
leitores. Agora, o texto o retrato sem reto-
ques do outor, a tratarpordoutoros pode-
rosos (qualseria a outra razo para Romulo
Junior receber esse titulo no carta?), dese-
joso de usarsua origem apenas como ele-
mento de troca. Como fez quando era vere-
ador de Belem, sob a bandeira do PT e ten-
tou me caluniar, com a devida cobertura do
grupo Liberal.
Desminto outra vez minha alegada ob-
sessco pelafamilia Maiorana. Os membros
dafamilia que sdo pessoas pdblicas apare-
cem nestejornal emfungo de atos de in-
teresse p6blico. Nenhum dosfatos aquino-
ticiados foi jamais desmentido. Tudo que
pertence 4 intimidade dos Maiorana sem-
prefoirespeitado. Os dnicos que meproces-
saramforam trs dos oitointegrantes docla,
incluindo a matriarca, D6a, a quem endere-
cei duas Iongas cartas, mantidas sob sigilo


IMPBENSA
Acompanho e apoio sua batalha mais
uma!-pela dignidade e bom senso das re-
portagens, nas paginas policiais de nossos
jornais locals, notadamente, quanto as fotos
publicadas, cor elevado teor de barbarie.
Ngo sei o que os outrosjornais publicam,
mas como consigo ter estomago apenas
para folhear o Didrio do Pard, esta havendo
uma avalanche de protests de "leitores"
contra a censura, no entender deles, porcon-
ta da decision judicial, limitando o direito de
publicarfotos, nas paginas policiais, que cau-
sem constrangimento. Para variar, nao ha
opinibes contrarias. Muito estranho! Ainda
bern que temos um espago democratic,
comooJomal Pessoal, para emitiropinibes.
Admito ate que haja alguma razto de
alguns, quando se trata da censura em si.
Mas a questao nao est6 colocada nestes
terms, a nio ser pelas empresasjornalis-
ticas, por6bvio. 0 que setrata e da possibi-
lidade de que alguem, que tenha passado
por uma situagio de violencia, seja violado
ainda mais na sua intimidate pela publica-
Cgo de suasfotos, sem que tenha odireitode
se manifestar sobre se concorda ou nao.
Alem do que, ha um direito implicito em
cada um de nao quererser incomodado por
estasfotos. Convenhamos, quando ha "pre-
suntos" (cadaveres) expostos nas publica-
S6es, quantosjornaleiros noo se aproveitam
da cena dantesca para expor aos transeun-
tes a foto, de maneira ostensiva e, cor isso,
conseguirem seu objetivo de vender?
Gostaria ate de levantar uma question:
em ocorrendo um caso fortuito de violencia
a um parent de uma dessas pessoas favo-


raveis, ele concordaria em expor o fato da
forma como o vemos publicado em nossos
jomais? No meu caso, minha resposta e nao.
O que se quer, entendo ate que esta 4 a
luta dojornalista Licio Flavio Pinto, 4 que as
reportagens continue sendo feitas, cor
prudencia. Ninguem, em s conscibncia,
tendo passado e vivido epis6diostio lamen-
taveis de censura, nos tempos da ditadura
brasileira, pode sera favor de tal pratica. Ao
fim e ao cabo, como diria um grande pro-
fessor, o que se pretend e que reste esta-
belecido o bom senso de entender quais
cenas devem ser mostradas. Se os editors
fossem iluminados e equilibrados para en-
tenderem isso, nao precisariamos que hou-
vesse um juiz para obrigd-lo a fazI-lo. Ou
poroutra, se nao estivessem tio preocupa-
dos em vender seus folhetins, ao invds de
equilibrar isso cor a obrigatoriedade de
bem informar, nao estariam sendo impeli-
dos, como define a decisao judicial.
Dessa forma, merecem aplausos todos
aqueles, inclusive oJomal Pessoal, que con-
tribuiram para que tal pratica tenha ter-
mo. O ideal, se 4 que 4 possivel, 4 que nao
precisemos recorrera tais mecanismosju-
diciais para alcangar estes objetivos. Mais
do que a imposicao, o que precisamos e
refletir sobre tais condutas.
CaudioBacelar

RIQUEZAS
E bem provivel que a maioria dos leitores
sentiu o peso eficou estarrecida corn a crue-
za dos ndmeros citados na materia com o
titulo "A riqueza acaba", publicada noJornal
Pessoal n. 436, s6 noo se pronunciou por-
que sabe, como era de convir, que a situagao
exposta e decorrbncia do colonialismm" a
que sAo submetidos os Estados brasileiros
fora do eixoSul/Sudeste, principalmente os
da Amazonia. Esta pratica 4 bem velha e
recua na amplidio do tempo. Agora, nao
podemosaceitarqueojogodesleal executa-
do pelos "colonialistas" seja fruto da "incons-
ci@ncia geral" dos paraenses, conforme evi-
dencia a nota postada na 6ltima pagina doJP
n.2438. Prefiro, porjustiga, apontar mais di-
retamente, como responsivel pela "hemor-
ragia dos recursos naturals", a classes privile-
giada, aonde se agasalham os intelectuais,
os empresarios, os militants da academia,
os politicos, enfim, aquelas pessoas creden-
ciadas que o editor dessejornal disse, certa
vez, terem "musculatura, ossatura e inteli-
gkncia", mas se omitiram.
Em resume, 4 a tal da classes dominant,
que exerce o mando de campo neste infeliz
Estado ha mais de 30 anos, quase o tempo
de vigencia da instalaglo dos maiores pro-
jetos minerarios, sem o respective item de
industrializacgo da materia-prima no seu
planejamento global. Ninguem reclamou
de verdade, minime vero. Se houve questi-
onamentos ostensivos, entenda-se como
mera mise-en-sckne. Poderiamos declinar
os nomes de alguns desses luminares que
ainda reinam noambientedo poderat esta
data, cuja omissio, incompetbncia ou con-
veniencia responded pelo nosso desenvol-
vimento, como voce diz, "para tris, como
rabo de cavalo".
Encerro este pequeno comentario rejei-
tando oteor da nota contida a pag. 11, ver-
so, do JP n. 438, no que concern a compa-
raoo do cenario econ6mico atual com o
"milagre brasileiro" da ditadura (ditabran-
da, segundo a Folha) military. 0 Brasil de hoje
e o pals mais atrativo para receber investi-
mentos, nos pr6ximos doze meses, s6 per-
de para a China. Estamos liberando nossas
quotas do FMI para socorrer nagbes em
maiores dificuldades...
Rodolfo Lisboa Cerveira


- Jom al Pessoal Diagramag9o e ilustraq6es: L. A. de Faria Pinto Contato: Rua Aristides Lobo, 871 CEP: 66.053-020
Editor: Ltcio Flvio Pinto Fones: (091) 3241-7626 E-mail: Ifpjor@uol.com.br jomal@amazon.com.br Sie: www.jomalpessoal.com.br



10 Jornal Pessoal MAIO DE 2009 1 QUINZENA








0 cangaceiro do cimento


Joao Santos exibiu a prova derradeira
de que era um verdadeiro sertanejo an-
tes de tudo, um forte: viveu com intensida-
de at6 o 6ltimo dos seus dias. Uma parada
cardiac encerrou, com a melhor das mor-
tes, a sibita, sua trajet6ria, no dia 15, em
Recife. Ele tinha 101 anos. At6 dois anos
antes, ainda freqientava a sede do seu
imp6rio, um dos maiores do pais e o tercei-
ro de maior expressed originirio do Nor-
deste, que ele montou, pega por peca, ao
long de 70 anos. O centro desse neg6cio
era o cimento, um produto essencial e que
foi consumido A larga durante a era do
"milagre" economic do regime military, en-
riquecendo os dois cart6is do setor: o mais
poderoso, do grupo Votorantim, que domi-
nava a regiao mais rica do pais, o Centro-
Sul, e o de Joao Santos, que controlava o
Nordeste e o Norte. Nao exatamente por
acaso, as duas empresas familiares eram
de Pemambuco. Os Ermfrio de Moraes se
mudaram para o sul, se tomando cosmo-
politas. Joao Santos permaneceu field a sua
terra natal, Serra Talhada. a mesma onde
nasceu outro sertanejo famoso: Virgulino
Ferreira, o cangaceiro Lampiao.
Foi com um cangaceiro sofisticado
que eu me defrontei em 1977. Era um
sibado A tarde. Marcilio Vianna, ao te-
lefone, me perguntou se eu aceitava ir
conversar cor o "seu" Joao, no escri-
t6rio da Cibrasa, na travessa Padre Pru-
dencio. Ja nao havia mais expediente,
nem parecia um dia apropriado, mas tro-
quei de roupa e fui. Marcilio, velho ami-
go do meu pai, era um cavalheiro.
O poderoso capitao da indistria, en-
tdo pr6ximo dos 70 anos, me esperava
atris da escrivaninha, numa sala auste-
ra. Ja no cumprimento senti a barra: a
mao que apertou a minha era forte, de-
cidida. O olhar sugeria determinagao.
A voz era de comando, voluntariosa. A
conversa ia ser a dois. Marcilio, advo-
gado do grupo, esperou do lado de fora.
Joao Santos me fez uma proposta di-
reta: queria patrocinar um giro meu pelo
mundo. Eu iria visitar as principals fibri-
cas de cimento, com despesas e pr6-la-
bore pagos por ele. "Quero que voc6 seja
ojornalista que mais conhece a inddstria
cimenteira", me disse, com naturalida-
de. Estava certo de que eu aceitaria a
tentadora oferta. A16m dos conhecimen-
tos acumulados e do prazer de uma lon-
gajomada international, eu voltaria comr
muitos d6lares no bolso. E nao tinha com-


promisso na volta: podia escrever o que
quisesse. "Eu sei que o senhor 6 inteli-
gente e 6 capaz. Entenda o que Ihe ofe-
rego como um pr8mio e uma demons-
traqgo de admiracgo", observou ele, para
vencer eventual resist6ncia.
Mas eu nao queria aquele premio.
Agradeci pela iniciativa. Ja conhecia o
suficiente para me permitir analisar o
que estava em causa: uma nova f6brica
de cimento do grupo Joao Santos na
Amazonia. Havia dois projetos emper-
rados na pauta do Conselho Deliberati-
vo da Sudam. O mais antigo, da Caima,
previa a instalagao de uma fibrica no
Para. Quando a jazida inicial, a da Mu-
lata, em Monte Alegre, se mostrou ina-
dequada para cimento, o local foi des-
locado para Itaituba, onde havia dep6-
sito enorme de calcirio.
O interesse imediato de Joao Santos,
que adquirira a Caima, era pelo merca-
do de Manaus. Ele queria levar o min6-
rio paraense para ser processado no
Amazonas e manter em banho-maria o
projeto de Itaituba, sentando em cima do
mercado para ningu6m o ameagar (e ele
impor seus pregos). O Pard desempe-
nharia mais uma fungdo colonial, esta em
dimensdo regional, e o cartel se revigo-
raria. Eu ji escrevera virios artigos, na
coluna diria que tinha em O Liberal,
combatendo essa id6ia. Apoiava a posi-
qgo do govemo do Estado, de implanta-
iao simultanea das duas fibricas ou can-
celamento de ambas. O governor acabou
recuando e aceitou esperar pelo crono-
grama do grupo: de imediato, Manaus;
quando desse bom tempo, Itaituba. Deve
ter-se convencido do compromisso as-
sumido pelo empresirio.
O jogo estava nessa tensdo quando
houve a nossa conversa. O velho sertane-
jo tentou contraditar meus arguments, a
principio com bonomia. Minha resistencia,
porrm, despertou sua impaciencia e fomen-
tou sua fdria. Ele nao estava disposto a'
engolir uma recusa, que nao constava do
seu repert6rio. O tom de voz se elevou e o
confront parecia iminente. Pressentindo
o pior, Marcilio entrou na sala e me resga-
tou no moment certo, indo me deixar em
casa. Foi a primeira e dltima vez que con-
versei cor o grande personagem.
Mantive minha posigo e pude conti-
nuar a expressd-la no jomal. Mas as coi-
sas decorreram como Joao Santos queria:
um dos primeiros atos de Jos6 Samey como


president, no lugar que devia ser de Tan-
credo Neves, em 1985, foi inaugurar a fi-
brica de Manaus. A de Itaituba esperou
mais de uma d6cada. Nesse period, fun-
cionou como ponto de passage (e dejus-
tificativa) de peas e equipamentos indus-
triais da corporago para outros lugares.
O poder do perambucano Joao San-
tos era muito maior do que ele se permi-
tia sugerir. Todos os anos uma ordem de
Brasilia baixava para a Sudam em Be-
16m cumprir: a destinagao de recursos
de incentives fiscais para seus empre-
endimentos, com selo pr6-fixado. Ele ti-
nha um mrtodo ao mesmo tempo sedu-
tor e esmagador de fazer a sua vontade
prevalecer, sem aparecer (raramente deu
entrevistas ou se permitiu fotografar). Se
tinha um objetivo a alcanqar, passava por
cima das barreiras que surgissem no ca-
minho da sua execugao, como um trator.
Quando a isengao de imposto que
recebeu do govemo do Para, na primei-
ra administraqao do tenente-coronel
Alacid Nunes, ameagava ser questio-
nada, pela sua ins6lita exclusividade, a
sede da Cibrasa (que ele adquiriu do gru-
po Pires Carneiro) pegou fogo, com to-
dos os pap6is dentro. Foi acidente, dis-
se a pericia. Ao deixar o cargo, Alacid
passou a chefe do escrit6rio da empre-
sa em Bel6m, sem quarentena.
Outros militares e politicos, inclusive
o legendrio general Cordeiro de Farias,
integrante da Coluna Prestes, estavam
na sua folha de pagamento. Para os
agregados, havia sempre um jatinho da
Weston disponivel. Joao Santos, al6m de
inteligente, era um home de sensibili-
dade, afeito as artes, amigo de Brennand
e outros intelectuais. Aos recalcitrantes,
por6m, a firia.
Ele viveu muito e viveu bem. Fez
hist6ria. Mas, ao contrdrio dos Ermirio
de Moraes e outros notiveis, sua hist6-
ria ainda nao foi escrita. Talvez porque,
se o enredo nao o agradasse, ele podia
reagir como no confront comigo. No
final, por6m, como outros sertanejos e
cangaceiros, que tamb6m foi, cor ver-
niz de alta civilizagao, seu grande ami-
go Assis Chateaubriand, fundador de
outro imprrio, o das comunicaqges, ele
acabaria por aceitar a desfeita. E, quem
sabe, no intimo, perdoar o desafeto. Joao
Santos era, conforme a desgastada -
mas inevitivel image, uma forga da
natureza. At6 o l6timo dia.


MAIO DE 2009 1a QUINZENA Jornal Pessoal 11








Alcool em Belem: na cabega


O morador de Bel6m era o terceiro que
mais bebia nas capitals brasileiras em 2007.
Em 2008 pulou para o primeiro lugar. Ja a
belenense, que estava nos iltimos lugares, foi
parar na quarta posiqgo no mesmo period.
O desempenho do casal pingugo foi notivel,
colocando a capital paraense no alto da oc-
tanagem national. Os dados, do minist6rio da
Sadde, foram apresentados por S6nia Zaghe-
to, jornalista paraense que mora em Brasflia,
atrav6s do Didrio do Pard.
Eis af um bom motivo para se interrogar:
por que o belenense abusa do cooll e em
escala crescente? Efeito retardado da propa-
ganda institutional que se acentuou a partir de
1987, com a revisAo e revalorizagdo da
expressao "papudinho", antes carregada de
significado negative, e desse ano em diante
relacionada a bonomia, palhagada, irrespon-
sabilidade? Ou 6 desilusao com os dirigentes
da cidade e corn ela pr6pria? Ou,deixando de
lado as representaq6es ideol6gicas e indo di-
retamente A realidade, 6 produto mesmo da
mis6ria cada vez maior dos seus habitantes?
S6nia se surpreendeu com o senso de res-
ponsabilidade ao volante dos nossos bebuns:
"O estudo revelou que, ao contrdrio da ten-
dencia national, em 2008 caiu o n6mero de
motorists alcoolizados ap6s ingestdo exces-
siva de bebidas alco6licas", diz ela, registran-


MVineragao
A Vale nao desistiu de ampliar a
jazida de ferro de Carajas. Vai co-
megar a sondar a Serra Arqueada,
em Ourilandia do Norte, no sul do
Pard. A empresa tamb6m continue
atris de cobre e ouro. Selecionou
quatro alvos num bloco de pesquisa
denominado Cururu, em Parauape-
bas, onde pretend fazer furos de son-
dagem. Nao haveri entressafra de
min6rios nessa regiao.


do que o indice caiu de 1,6% para 1,1%, pu-
xado um pouco para cima porque os homes
sdo menos responsiveis (a queda foi de 3,4%
para 2,3% entire eles).
Antes que a nossa reporter no DF come-
more a faganha, ainda de olho no dia a dia
concrete dos belenenses, caberia perguntar
de essa reduqgo, ao inv6s de resultar da res-
ponsabilidade dos consumidores de alcool
quando sobre rodas, nao se deve:
1) A aus6ncia dos fiscais da Ctbel.
2) A ausencia de qualquer agent piblico
na fiscalizacao urbana.
3) Ao motorist mentir mais do que a m6-
dia national sobre sua condigio n2o-etflica.
4) Ao fiscal nao poder discernir a mentira
da verdade por sua condicio no mesmo que-
sito ou pior.
Haveria um quinto component, ainda
mais subjetivo, que seria encontrar a ligagao
entire o alcoolismo olfmpico e o local pdblico
no qual os pingugos (cor todo respeito, 6 cla-
ro) tnm seu melhor abrigo: a coluna faustiana
do Elias Ribeiro Pinto (mestre no fundamen-
to) no mesmo Didrio do Pard. E a maior
quantidade de cartas de levantadores de copo
por centfmetro quadrado da imprensa nacio-
nal. Este feito, o Minist6rio da Sadde ainda
nao anotou e a S6nia Zagheto nao reportou.
Mais uma injustiqa contra o Pard.


Corregoes
Simro Jatene foi eleito successor de Almir Gabriel
em 2002 e nao 2004, como saiu na ediqao passada,
por negligencia do redator em ir ver A folhinha.
A deputada Simone Morgado tem 41 anos e nao
37/38, como Ihe atribuf, por falta de uma folhinha
para a confirmacao de resto, desnecessaria (e
at6 deselegante).
A Sudam agiu por conivencia (mas tamb6m por
conveniencia, como apareceu no texto) em relagao
aos Gueiros do estaleiro.
Perdao, leitores.


Hangar sempre
No ano passado a Secre-
taria de Meio Ambiente do
Estado assinou um contrato
com o Hangar Centro de
ConvenqSes para usar o es-
paqo como local para a rea-
lizagao do projeto de "elimi-
nagdo de passivos ambien-
tais" da secretaria, que du-
raria de maio a 17 de dezem-
bro de 2008. Pagaria pela
locagdo quase R$ 125 mil.
Nesse mesmo ano, o contrato
foi aditado duas vezes. O ter-
ceiro termo aditivo ji foi as-
sinado em margo deste ano,
para elevar o contrato em R$
93 mil, em virtude da "repac-
tuagdo dos valores referen-
tes ao aumento da quantida-
de de equipamentos e mate-
rial utilizado".
Pergunta-se:
1) O valor adicional 6
para cobrir um rombo que
ficou no exercicio anterior
mesmo? Houve previsdo na
conta de "restos a pagar"?
2) Por que houve um erro
tdo grande de previsao da
quantidade de equipamentos
e materials?
3) Um contrato pode ser
aumentado em mais de 70%
do seu valor original?
4) A tal da repactuaqgo do
passive nao podia ocorrer em
lugar menos oneroso?


Novos livros
Ja estao a venda os tr6s livros que lancei desde o final do
ano passado. Um deles abriga a primeira coletanea da
Memoria do Colidiano, secao deste journal, cor as reprodu-
Sc6es da propaganda e as fotografias de epoca. E para avi-
var a memoria dos leitores mais antigos e introduzir os mais
novos na hist6ria recent da cidade e do Estado. O outro
Slivro e um documentario sobre a agressao que sofri ha qua-
tro anos, comelida por Ronaldo Maiorana. Reconstitui a rede
de solidariedade, mais ao tema do reporter, a Amaz6nia,
que comove mentes e coraq6es por todo mundo. Muitos
dos meus leitores s.o tambem autores desse livro. O ter-
ceiro foi concebido para o F6rum Social Mundial, mas 6 a
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express o de uma voz amaz6nica permanent contra a e
poliagdo da regiao.
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