Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00333

Full Text







orA AG Pessoal
A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO


ELEICAO


O Para disse nao

Desta vez a manipulaqdo polfticafracassou em Belem, onde estd um quarto do
eleitorado paraense. A capital se recusou a voltar ao passado recent, que despachou
na eleicdo de 2006. Mas ainda ndo pode concretizar os projetos de mudanca que
deram a vit6ria ao PT dois anos atrds. Qual serd o quadro politico em 2010?


O Pard se comportou na eleicgo
do dia 5 como uma enorme ji
( b6ia, a "jiboiar" a sua hist6ria.
A hist6ria 6 enorme. Por isso compli-
ca a digestao, tornando-a lenta e so-
frida. Ndo quer dizer que, uma vez
concluida a apuragao dos votos, fei-
tas as andlises, inventariadas as per-
das e ganhos, e acertadas as contas
de chegar, tudo tenha permanecido
como esta. A situaqco p6s-eleitoral
pode nao ser melhor do que a de an-
tes. Mas 6 diferente.


A principal novidade, mais no senti-
do de ser surpreendente do que de ser
propriamente nova, surgiu na capital.
Priticas de manipulagao de votos de
certa forma ji velhas pelo uso, ainda
que se valham de tecnologias de iltima
geraqdo foram as grandes derrota-
das no principal col6gio eleitoral do Es-
tado, corn um quarto de todos os votan-
tes. O Ibope, como em eleiqBes recen-
tes, voltou a pontificar na tentative de
se tornar personagem, ao inv6s de exer-
cer a funSgo t6cnica que Ihe cabe, de


int6rprete da realidade. Contratado pelo
grupo Liberal, outra instituiiao com pa-
pel trocado, o Ibope inflou o quanto p6de
o balao da candidate do DEM e dos tu-
canos, Val6ria Pires Franco.
Em tr8s pesquisas sucessivas, a
fez subir atW o alto das supostas pre-
fer8ncias dos entrevistados, posigao
que ela nunca ocupou no mundo real.
S6 na quarta pesquisa o institute cali-
brou sua sondagem, ainda sem con-
ceder por inteiro A dinamica dos fa-
............. A A ...
CONTINUA NA PAG


PAG. 11 FIM DO LATIFINDIO DE DANTAS? PGs. 6/7


OUTUBRO
DE 2008
2"QUINZEN


No 427
ANO XXII
R$ 3,00


MARABA CHEGA A BELEM







CONT'UAVAO DACAPAWW WO O
tos. E nio p6de fazer o ajuste defini-
tivo, na v6spera da eleicao, porque o
contratante da pesquisa desistiu de
apresenti-la. S6 voltou a realidade na
pesquisa de boca-de-urna, por um
motive nao declarado: abandonar a
canoa que afundava para voltar a atra-
car na nau de Duciomar Costa.
Na apuragSo dos votos, Val6ria fi-
cou em distant 4 lugar. Se a eleicao
demorasse mais alguns dias, Amaldo
Jordy, do PPS, poderia encostar nela
ou, quem sabe, ultrapassi-la. A16m da
posiqao artificial nas pesquisas, ao ser
confrontada nos debates pelos outros
candidates, a ex-vice-governadora se
revelou uma figure inconsistent. O
papel de "mae dos pobres", uma ver-
sao postiga de Eva Per6n, nao se ajus-
tou a sua personalidade. Ela foi para a
votagao como a legitima representan-
te de uma classes m6dia incapaz de per-
ceber a pobreza visceral de uma cida-
de com quase 1,5 milhao de habitan-
tes. Cidade com ilhas e bolsSes de ri-
queza, cercada por um continent de
miseria e com perspective de future
incerta e nao sabida.
O povo votou certo do que nao que-
ria: a volta dos tucanos e de tudo de
elitista que eles representam, cada vez
mais isolados num discurso perfunct6-
rio, esquizofranico, egoista. Esse mun-
do da fantasia, ordenado, 16gico e coe-
rente, cabe numa ret6rica formal. Nao
resistiu, por6m, ao choque dos opostos,
a dindmica do conflito, que 6 uma das
marcas definidoras da capital paraen-
se. O discurso de oposicgo soou incon-
vincente para um eleitorado que, nas 61-
timas eleicqes, optou pela mudanca e
ainda estA atrds dela, embora ji mani-
festando desilusao e impaciencia com
o porta-voz dessas transformagqes em
2006, o PT.
Quando a pesquisa utilitaria e o ma-
rketing manipulador se mostraram in-
suficientes para vender o produto pr6-
fabricado, Val6ria Pires Franco adotou
a linguagem do passado, anti-Jader
Barbalho. Nos dias finals da campa-
nha a cidade foi coberta por panfletos
contra o Anhangd, o genio do mal: o
deputado federal Jader Barbalho. Va-
16ria retomou o discurso sobre a cor-
rupcqo na Sudam, tentando colar a
image ruim no patrono do PMDB.
Mas Jader nao apareceu na campanha
do primo, Jos6 Priante. Nem mesmo
na do filho, Hl6der Barbalho, na vizi-
nha Ananindeua. Por que se ocupar
com ele, que nao estava em cena? O


"povao", que a candidate do DEM ima-
ginou poder lagar cor sua roupagem
de enfermeira social, virou o rosto.
O que o povo quer terb que ser
balizado, no 2 turno, pelo que Ihe
sera oferecido: uma alternative tam-
b6m pobre. De um lado, a adminis-
traqdo espasm6dica de Duciomar
Costa, do PTB, minoritario dentre os
prefeitos de capitals brasileiras que
nao conseguiram se reeleger ji no 1
turo e lider national em rejeigao nas
metr6poles. E posiqao muito distant
de ser confortivel. De outro lado, o
populismo de Jos6 Priante, do
PMDB, inspirado pelo mago do par-
tido, ainda capaz de tirar cartas da
manga (ou do colete).
Jader Barbalho renasce outra vez
das cinzas como o lider do partido mais
forte nos municipios paraenses, apre-
sentando suas armas para 2010. Apoi-
ari sua incerta aliada do PT, a gover-
nadora Ana Jilia Carepa, que tentou
descarta-lo, ou saird para uma dispu-
ta majoritiria, recorrendo a Priante ou
a outro apandice peemedebista (ou,
ainda, a uma nova alianca)? Sim, por-
que, mantendo-se bem realista, Jader


Streap-tease
Costuma-se dizer que a melhor de-
fesa 6 o ataque. Na vida pfiblica, essa
orientacao 6 nefasta. Grupos rivals,
nao tendo arguments para se defen-
der, adotam o ataque como uma for-
ma de despistamento. Desviam a opi-
niao public dos seus tetos de vidro
atirando pedras no telhado do adver-
sario, que, igualmente instalado sob
cobertura vitrea, se defended atacan-
do. No final, verifica-se que ambos s6
tem razao quando atacam. Mas 6 pre-
ciso ir atris das acusagqes que sem-
pre deixam sem resposta, por nao lhes
interessar. As vezes, esses fatos sao
tao importantes quanto o desnudamen-
to que fazem do outro.
E o que esta acontecendo com O
Liberal e o Didrio do Pard. Depois
de restringirem, suas escaramugas a
alfinetadas e indiretas, desde o dia 7
eles estio novamente em guerra aber-
ta e violent. O uiltimo confront des-
sas proporq6es ocorreu durante a
campanha eleitoral de 1990 e, em es-
cala um pouco menor, na de 1994. O
Liberal acusa o Didrio de manipular
a margem de erro das pesquisas do
Ibope realizadas em Ananindeua para
beneficiary a candidatura de Helder


ira se empenhar para dar a volta por
cima no Senado, sem arriscar em de-
masia um onirico terceiro mandate de
governador. Mas procurando fazer o
novo governador.
0 PT do Pard nao p6de ou nao teve
competencia suficiente para pegar a
melhor onda no mar encapelado de po-
pularidade do president Lula, que ago-
ra bate na praia. Fisgou mais prefeitu-
ras do que algum dia p6de sonhar sua
militancia nos magros anos de oposigao,
mas nao tanto quanto ja arrastaram em
sua rede partidos estabelecidos no alto
do poder. Menos mal que a base aliada
federal saiu amplamente vitoriosa no
Estado, em amplitude ainda maior do
que a base estadual.
A questdo estA no prego que Ana
Julia precisard pagar ao long dos pr6-
ximos dois anos para que sua reeleigao
tenha viabilidade real em 2010. Uma
das conseqtiancias sera a perda ainda
maior de identidade do partido com o
seu passado, a custa de um mimetismo
crescente cor o fisiologismo e o com-
padrio de hoje, para former uma alian-
ga de maior expressoo electoral.
CONCLUrm PAG 3


Barbalho A reeleiqgo. O Didrio do
Pard sapeca a mesma acusaqgo a 0
Liberal, que favoreceu a candidatura
de Val6ria Pires Franco em Bel6m.
Sem em nenhum moment desfazer
as acusaq6es contra si, os doisjornais
repetem um contra o outro as mes-
mas denulncias. Sup6em, talvez, que
quanto mais pesado baterem, mais in-
duzirao o antagonista a recuar. E uma
batalha de ameagas: se nenhum de-
sistir da escalada, ambos continuarao
a abrir seus basis de maldades, que
nao sao pequenos.
O povo ji sabe que a grande im-
prensa s6 se dispbe a abrir esses bads
quando se senate ameaqada. Ai ela
perde a cautela contumaz e revela o
que, em regra, guard para as esca-
ramuqas de bastidores. Os dois mai-
ores grupos de comunicaqao do Pard
vivem novaente um moment de
grande tensdo. Seus interesses poli-
ticos e econ6micos entraram em co-
lisao e ameagam um ao outro. No de-
sespero da dispute, nao parecem per-
ceber que nao travam urn bom corn-
bate. O que fazem 6 uma sessao de
streap-tease moral, que revela quem
6 a elite paraense.


2 OUTUBRO DE 2008 .2 "QUINZENA Jornal Pessoal














Na eleiqgo de 2006, Jader Barbalho
foi o p6ndulo da balanqa, que decidiu
em favor de Ana Julia Carepa na dis-
puta comAlmir Gabriel. Na eleiqao des-
te ano ele ameaqa se tomar a pr6pria
balanga. O PMDB devera fazer a mai-
or quantidade de prefeitos e de verea-
dores do Estado. Essa ji 6 uma vit6ria
quantitativa nada desprezivel. Mas ela
devera ir al6m: sozinho ou corn seus ali-
ados, acima ou abaixo deles, o PMDB
teri conquistado os votos da maior par-
cela do eleitorado e nos principals cold-
gios eleitorais do Estado. Nos dois mai-
ores, conforme o desfecho, batendo um
inimigo poderoso: o grupo Liberal.
Como essa realidade p6s-eleitoral
contrariou as previsoes fei-
tas antes da campanha? Ha
um mist6rio, mas ele 6 de -
desvendamento simples. Ja-
der Barbalho foi mais uma
vez apontado como um dos :
parlamentares mais influen- j
tes no Congresso. Logo, /
quase indispensdvel para
quem quer obter maioria no A ,
parlamento federal. E como consegue
esse poder de influenciar se quase nao
aparece em plendrio e na produgqo de
projetos ou pareceres?
Antes de se tornar um dos cones
do desvio de recursos publicos e do en-
riquecimento ilicito no pais, Jader j era
um manobrista competent pelos des-
vaos do Congresso. Tanto por conhe-
cer os homes como porter dominio dos
processes necessarios para faz8-los se
mover e decidir quest6es. Essa habili-
dade lhe conferiu faculdades premoni-


t6rias. A capacidade de antevisdo se
baseia nao em poderes paranormais,
mas em experiencia.' Sempre que sur-
ge um desafio no Congresso, Jader 6
ouvido para apontar o caminho das pe-
dras e seus desvios.
Gragas a essa habilidade, que nao 6
comum, ele 6 recompensado pelos de-
tentores do poder central corn o direito
de fazer indicagqes para fungSes plibli-
cas, mesmo que nao haja sua marca
digital explicita no ato (marca profun-
damente desgastada junto ao pfblico).
E essa prerrogativa que permit a um
politico menor, como o ex-deputado fe-
deral Jos6 Priante, desgastado por dois
anos sem mandate e as repercuss6es
negatives dos seus prepostos
n em alguns postos da adminis-
tragdo estadual, como a Se-
cretaria de Saide, surpreen-
der a opinioo pfiblica com seu
Screscimento eleitoral. Algu-
mas pedras importantes fo-
Sram mexidas para multiplicar
a pot8ncia de votos do candi-
dato, mas poucos podiam per-
ceber esses movimentos na pr6pria oca-
siao em que eles eram efetuados.
O poder de Jader Barbalho tern se
assemelhado ao dos series anaer6bios,
que nao precisam de oxig6nio para se
desenvolver. Crescem em ambientes
hostis porque sao desenvoltos a sombra,
como tern sido Jader Barbalho, um poli-
tico que nao precisa aparecer para ven-
cer, nem ser limpo para persistir. Alids,
ji ha algum tempo, niao deve aparecer.
O paradoxo diz alguma coisa sobre as
liderangas do Pard atual. E do Brasil.


CONCLVSAODA PAG 2


Tudo igual num Estado cuja pobre-
za torna essas caracteristicas quase
compuls6rias? Nao exatamente. Ha
uma dinamica diferente no interior do
Para, que nao se subordina mais to-
talmente a capital. Pelo contrario: a
tendencia 6 que Bel6m passe a ceder
as influ8ncias de nficleos em ascen-
sao no interior, sobretudo na area do
provivel Estado de Carajis, cada vez
mais provivel. Ou entao, se relutar na
sua idiossincrasia elitista, Bel6m fica-
ri a falar sozinha com seus botoes
anacr6nicos, sem poder de lideranga


e de comando sobre a vastidao de pro-
blemas do Pard.
O Pair que surpreendeu os manipu-
ladores da opiniao p6blica esta ansiosa-
mente atrms de num lider politico a altu-
ra de sua grandeza fisica e econ6mica,
e de sua forga humana explosive. Al-
gum lider com essas qualidades surgird
do catilogo de nomes desconexos e bi-
ografias inexpressivas que atulhou as
listas de votagIo no dia 5? Se surgir,
sera esta a grande novidade de outubro
de 2008. E das boas. Por enquanto, po-
r6m, ainda 6 uma quimera.


Jader Barbalho,

maior vencedor


Journal Pessoal *2o QUINZENA OUTUBRO DE 2008 a


Manipulagao
0 Liberal cedeu a capa da sua
ediqdo dominical da eleiqgo e uma
pagina internal para que o dirigente
da Transpar8ncia Brasil, Claudio
Weber Abramo, desancasse com a
alegada manipulagdo da pesquisa do
Ibope feita pelo rival Didrio do
Pard para beneficiary o candidate da
casa a reeleiq~o em Ananindeua.
Falava-se de corda em casa de en-
forcado. Como falar em manipula-
gqo sem tocar naquela que os vef-
culos da Organizacqo Romulo Mai-
orana patrocinaram em favor de
Val6ria Pires Franco, a mais escra-
chada dos iltimos tempos?
A acusaq~o mais sugerida em re-
laqgo as pesquisas do Ibope foi o uso
da margem de erro totalmente em
favor da ex-vice-governadora (at6
entao sem voto algum). Mas nao foi
suficiente para induzir a realidade e
a pesquisa teve que se adequar aos
fatos. Criou-se entao uma situaqdo
com potential de desmoralizaqgo
para a corporaqSo. A TV Liberal
preferiu se tornar a fnica das afilia-
das a Rede Globo nas capitals que
nao apresentou a sua iltima pesqui-
sa, na v6spera da eleiq~o. A ausen-
cia de Bel6m na rodada final nao
deixou mal apenas a TV Liberal: lan-
qou respingos sobre a pr6pria TV
Globo, incapaz de obrigar a afiliada
a seguir a norma geral.
A emissora dos Maiorana s6 vol-
tou a sondagem por ocasido da
boca-de-urna, no domingo. Quatro
vezes mais pessoas foram consul-
tadas pelo Ibope e a margem de erro
caiu pela metade, para 2%. Mesmo
assim, como de regra, o grupo Li-
beral perdeu mais uma eleiqgo, e
em dose dupla, na regido metropo-
litana da capital, para o maior inimi-
go, o grupo RBA, do deputado fe-
deral Jader Barbalho.
Foi um resultado tdo desastroso
que jd na primeira mat6ria p6s-elei-
toral, na segunda-feira, o ex-quase-
futuro parceiro, o prefeito Duciomar
Costa, teve direito ao dobro do es-
paqo dos seis outros candidates, re-
duzidos a metade do que coube ao
alcaide, este no topo da pagina. Os
Maiorana voltaram a ser amigos de
infancia de Duciomar. E Dudu deve
voltar a abrir as burras do erario para
os amigos instiveis. O que interessa
6 vencer. Mesmo que seja uma vit6-
ria de Pirro.


~3~11~1~









As contas amargas

do gigante de barro


Em 2006 o journal O Liberal fatu-
rou 33,3 milhoes de reais. No ano pas-
sado sua receita subiu para R$ 37,8
milhoes. Apesar dessa evoluqao de
quase 15%, o prejuizo operacional se
manteve praticamente o mesmo: R$
8,5 milhoes. Mas o prejuizo liquid
melhorou significativamente: de R$
2,5 milhoes em 20065, foi reduzido
para R$ 672 mil no ano passado. A
causa? A receita financeira alcanCa-
da pelo journal dos Maiorana: de qua-
se R$ 6 milh6es em 2006, ela cres-
ceu para praticamente R$ 7 milh6es
em 2007, acompanhando (com acr6s-
cimo de 15%) a evoluqao da receita
bruta. O rendimento financeiro cor-
respondeu a quase um quarto da re-
ceita operacional.
De onde vem o capital que propor-
ciona tais rendimentos se a empresa
acumula prejuizos ha virios exercici-
os (o acumulado 6 de quase R$ 16 mi-
lhoes, superior aos R$ 11,3 milh6es
das reserves de reavaliacao, diminui-
das em quase um milhao de reais em


O Pard sempre foi considerado o
campeao national de fraudes eleito-
rais. Nos iltimos tempos, os respon-
siveis pelas eleiq6es v8m se esfor-
gando para acabar cor essa image
ruim. Montam estruturas, recrutam
pessoas, adotam procedimentos, pro-
metem mudanqas, mas o fen8meno
maligno acaba por se repetir, como se
fosse uma maldicqo dos tempos do
emprenhamento descarado de urnas
e do "mapismo": o Pard 6 o iltimo
Estado da federaqdo a concluir a apu-
raqao dos votos.
Enquanto todas as capitals brasilei-
ras conclufam com rapidez e sem inci-
dentes mais graves a contagem dos
votos, Bel6m dormia sem saber qual
seria o advers-rio do prefeito Duciomar
Costa no segundo turno. Alguma ma-
nobra escusa estaria sendo praticada
nas "caladas da noite", ressuscitando
um bordao de bonomia dos tempos do
contrabando (enquanto Bel6m dorme, o
Jorge age)? Ou tudo nao passaria de
uma s6rie de infelizes e desastradas


relagao ao final do exercicio anteri-
or), nao ter um tostao de reserves de
capital, apresenta patrim6nio liquid
negative de quase R$ 4 milh6es, tern
um exigivel de long prazo que 6 duas
vezes e meia o seu faturamento (R$
95 milh6es) e apresenta capital social
simb6lico (de R$ 657 mil)?
O balango de Delta Publicidade re-
lativo a 2007, divulgado (com o tradi-
cional atraso) no final do mes passa-
do, 6 tdo pobre nas suas demonstra-
c5es que s6 possibility ao analista fa-
zer perguntas e conjecturar situagqes.
Em todos esses exercicios, chegando
a diagn6stico desfavoravel A sadde
econ6mico-financeira de uma empre-
sa cujo poder nao encontra o mais
pilido reflexo em seu balango patri-
monial. Ou, dito de outro modo: o ba-
lanqo nao autoriza o poder que o jor-
nal O Liberal alardeia. Os nfimeros
reunidos, com pobreza de quitanda da
esquina, mostram que a portentosa
estrutura ter p6s de barro. Nao dos
melhores barros, muito pelo contrario.


coincid8ncias? Um ndmero exagerado
de urnas eletr6nicas apresentou reaqao
adversa ao novo program do TSE. Em
Ananindeua, chegou ao nivel de caso
de policia, que, alias, nao foi chamada.
Mesarios pouco adestrados despa-
charam apressadamente os eleitores de
suas seqoes, mandando-os justificarem
os votos que nao, puderam digitar nas
urnas eletr6nicas emperradas, procedi-
mento in6dito na hist6ria eleitoral. Vin-
te urnas foram trancadas na sede da
seqao, obrigando o recurso ao Corpo de
Bombeiros a arrombar porta para res-
gati-las do confinamento inusitado em
plena madrugada.
Toda tecnologia de ponta nao foi
suficiente para tirar a capital do Pard
e seus arredores metropolitanos da in-
gl6ria posiqgo de todas as eleicoes. O
eleitor mais avangado nos anos, com
ou sem motives, deve ter-se pergunta-
do: algu6m agiu como o Jorge enquan-
to a cidade dormia? Mais lendas para
assombrar a maldiqao do passado. At6
a pr6xima eleiqgo?


Infecgdo hospitalar
O Pard conquistou outro titulo
ruim: 6 o segundo em casos de infec-
Iao hospitalar por microbact6rias do
Brasil. O Estado concentra quase
20% de todos os registros feitos pela
Anvisa (a Ag8ncia Nacional de Vigi-
lancia Sanitaria) entire 2001 e agosto
deste ano: 384 casos num total de
2.095. Enquanto em outros Estados
grande parte do problema ocorre em
cirurgias plisticas de lipoaspiraqao, no
Pard a principal fonte de contamina-
qao sao as videolasparocopias para a
retirada de vesicula, ovirio ou apen-
dice. Ou seja: um procedimento mais
comum e atingindo mais pessoas. Dai
a desproporgqo de contaminagqes
num Estado que 6 apenas o nono em
populaqao total.
A contaminaqdo, que causa for-
tes does e outras seqtielas em suas
vitimas, podia ser evitada com me-
lhor desinfecqgo e esterilizaqdo do
material cirdrgico, sobretudo as ca-
nulas. A rigor, esses aparelhos devi-
am ser usados num s6 paciente.
Como sao cars, por6m, eles serve
a at6 tr6s (quem sabe, mais) cirurgi-
as. Em conseqii8ncia, sempre os ins-
trumentos deviam ser esterilizados
ou pelo menos submetidos a desin-
fecgqes mais rigorosas do que as
praticadas no Para.
O problema 6 s6rio e atinge, so-
bretudo, os hospitals particulares, onde
o indice de infecqgo geral 6 elevado;
em alguns casos, escandalosamente
alto. Por que seri que a grande im-
prensa nao di a esses hospitals a aten-
qgo que concentra nos estabeleci-
mentos pdblicos, como se apenas es-
tes pudessem estar explorando, mal-
tratando ou matando o povo?


4 OUTUBRO DE 2008 .2 QUINZENA Jornal Pessoal


Fantasmas redivivos








Os senhores do universe

e o mundo em crise


A atual crise financeira intemacional,
a maior em 80 anos no mundo, desenca-
deada a partir dos Estados Unidos, colo-
cou nas maos de Henry Paulson, at6 en-
tao um extremado defensor da liberdade
de mercado, o poder de dar destinaqao,
no curto period de um mes, a quase um
trilhao de d6lares de recursos do tesouro
dos EUA, que ele dirige hi dois anos, na-
quela que foi definida como a maior inter-
vengao estatal na economic em toda a
hist6ria americana.
Desse total, US$ 285 bilh6es foram
torrados em menos de duas semanas: US$
200 bilhoes para absorver a gestao das
duas maiores companhias hipotecirias
americanas barss de p6lvora monetiria
sob as inocentes e siamesas designagqes
de Fannie Mae e Freddie Mac), que fica-
ram insolventes, e US$ 85 bilhoes para
capitalizar at6 entao poderosa a segura-
dora AIG (como a dose foi insuficiente,
em seguida o governor a estatizou). Os
restantes US$ 700 bilh6es constituem o
fundo atravds do qual a administraqao
Bush, de forma plenipotenciAria, utilizard
para a aquisi~ao de ativos dos bancos que
ficaram com os cofres vazios de dinheiro
(e cheios de pap6is podres).
Por maior que fosse sua capacidade
de previsao, Paulson jamais poderia su-
por que ao aceitar, com relutancia, o con-
vite do desgastado president para assu-
mir o Tesouro, iria protagonizar um capi-
tulo tao conturbado da hist6ria econ6mica
americana, derivada para todo o planet
em funcio do papel que os EUA desem-
penhavam como o gerador de moeda for-
te e de confiabilidade do sistema finan-
ceiro intemacional. Se tivesse consegui-
do recusar a oferta, como era seu piano
original, ainda assim Paulson nao teria tido


compensagao: o Goldman Sachs, o maior
banco de investimento do mundo, que ele
comandava, tamb6m fez agua. Ele teria
que contemplar a imersao como um im-
potente comandante pa sua cabine dou-
rada. Saiu antes.
Quem acompanhar esse capitulo da
novela da crise, muito mais movimenta-
da do que qualquer encenaqao na televi-
slo, descobrird ligag6es entire esses su-
per-poderosos do universe (descritos com
maestria por Tom Wolff em Fogueira
das Vaidades) e o singelo Brasil. Corra-
do Varoli, hoje s6cio de uma firma de in-
vestimento com sede em Sao Paulo, a
(bem previsivel) G5 Advisors, trabalhou
durante 14 anos cor Paulson no Gold-
man, do qual foi s6cio e president para
a Am6rica Latina.
Mas o elo principal desse home de
62 anos e fortune pessoal de mais de 500
milh6es de d6lares com o Brasil 6 pela
ecologia. Paulson 6 tido como um ambi-
entalista fanitico. Foi president da Na-
ture Conservancy, ONG que disp6e de
US$ 3 bilh6es de capital para investor na
proteqo da natureza, com atenCgo espe-
cial pela Amaz6nia e o Pantanal. O pr6-
prio secretirio do Tesouro ji esteve viri-
as vezes no Brasil, realizando excurs6es
pelo interior do pals.
E o olho (outrora) clinic de Wall Street
se imiscuindo na ecologia apenas para
gerar novos lucros, com a mesma sofre-
guidao e desfaqatez? Nao exatamente,
garantem os brasileiros que conhecem
Paulson e outros executives de porte se-
melhante, inclusive por terem trabalhado
ou estudado cor eles em algumas das
principals empresas e instituic6es ameri-
canas. A globalizagqo do mundo aproxi-
mou ainda mais as pessoas, sobretudo os


poderosos. Para eles, as fronteiras nacio-
nais e as rigidas divis6rias dos neg6cios
sao apenas formais.
Essa nova situaqao exige um estado
de alerta permanent, mas tamb6m uma
capacidade especial para perceber o novo
que surge sob as formas rotineiras. Nem
sempre 6 possivel separar ou mesmo dis-
cemir um mundo que desmorona do ou-
tro que se eleva em moments cruciais,
como este que estamos vivendo. Nossa
Terra ficou menor e esta mais frigil. Nao
s6 nas suas relacqes simb6licas, algumas
delas elevadas artificialmente a condiqao
semidivina, como o sistema financeiro,
mas tamb6m na relaqgo fisica do home
cor a natureza.
A ecologia deambula e flutua entire ci-
fries, mas nao hi mais d6vida: tem sua
autonomia. Henry Paulson se ligou ao
meio ambiente como umneg6cio, mas tam-
b6m porque o planet esta realmente
ameagado. E estamos no centro dessa
crise porque o Brasil e alguns dos seus
biomas, como a Amaz6nia e o Pantanal,
sao elements vitais para a said dessa
cruise, menos espalhafatosa e mais gra-
ve do que o mundo financeiro de Wall
Street e derivatives.
Ou seri que chegamos a uma crise
inteiramente nova na hist6ria da humani-
dade, ap6s a qual o impdrio decadente nao
seri substituido pelo imp6rio em ascen-
sao, mas pelo nada, ou pelo fun da hist6-
ria, nao propriamente a dos homes, mas
a da pr6pria Terra? A reflexao, mesmo
exagerada, pode ter o poder de alertar o
homo sapiens para a profunda gravida-
de da crise atual. No susto, pode ser que,
desta vez, ele nao aceite apenas mais um
remendo no planet desgastado. Para nao
voltar a ser apenas homo sapiens.


Informagao necessaria


O Diario official do dia 12 de setembro
publicou cinco acordos de cooperaco t6cni-
ca e financeira atrav6s dos quais a Secreta-
ria de Desenvolvimento, Ci6ncia e Tecnolo-
giarepassou "infocentros" atres sindicatos e
duas associaq6es do interior do Estado. 0
objetivo, segundo ojargao t6cnico, 6 "promo-
ver a capacitagao da comunidade nao-inclu-
ida no uso da tecnologia de infonrmaqo e fo-
mentar a criaqao de contefidos informacio-
naisporpartedacomunidadelocal,bemcomo
facilitar o acesso A intemet e aos serviqos de
informages do Govemo do Estado".


Admita-se que o fim 6 nobre e seu
efeito positive, nao havendo qualquer vin-
culacgo political (ou de propaganda) nos
"infocentros". O custo, por6m, 6 alto: s6
nesses cinco foram investidos 324 mil re-
ais, na m6dia de R$ 60 mil per capital.
Como o ndmero de s6rie do primeiro de-
les publicado no DO 6 23, presume-se
que outros 22 ji foram assinados. O va-
lor do projeto realizado at6 esse momen-
to passa a ser de quase R$ 1,7 milhao.
t pouco dinheiro? No vai-da-valsa
das despesas piblicas, sempre tenden-


tes ao deficit, sim. Mas 6 dinheiro sufici-
ente para algumas provid8ncias acaute-
lat6rias. Como, por exemplo, incluir no
extrato do acordo o nome do represen-
tante da entidade beneficiada. No Diario
Official saiu apenas o nome do ordena-
dor responsivel pela despesa piblica. No
caso, o secretario Maurlio Monteiro.
Em beneficio da transparencia, os
acordos deviam ser republicados. Afi-
nal, hi muita ONG fantasma. E pre-
ciso ter informaq6es para discernir o
joio do trigo.


Jornal Pessoal *2 QUINZENA OUTUBRO DE 2008 5









0 Para nao quer o latifundio 1


No mis passado, duas entidades pa-
tronais da agropecudria paraense premia-
ram a Agro Santa BArbara, do banqueiro
Daniel Dantas. A Federaqao daAgricultu-
ra e PecuAria do Pard concedeu-lhe o
m6rito agropecuArio e a Associagqo Rural
da Pecuaria o titulo de pecuarista do ano.
As honrarias surgiram na contramdo da
execraqao national ao dono da Santa BAr-
bara e do banco Opportunity, envolvido
em numerosos crimes de colarinho bran-
co, al6m de trapalhadas political.
Mas se o baiano Daniel Dantas se
amoldava como luva ao papel de vilao fi-
nanceiro do Brasil e um dos homes pdi-
blicos mais poderosos do pafs, gragas,
em grande media, a essa vilania desen-
freada, no Pard ele se tomou merecedor
do reconhecimento das chamadas enti-
dades de classes. A Faepa e a ARPP arro-
laram, dentre as raz6es para as homena-
gens prestadas a Dantas, o fato de aAgro
Santa BArbara ser "a maior criadora de
bovinos do mundo", mantendo 523 mil
cabecas em 500 mil hectares de pastos
distribuidos em 15 dos 143 municipios
paraenses. No ano passado esse rebanho
rendeu um abate de 110 mil bois.
AlIm disso, a empresa plant cana em
Areas degradadas, maneja matas nativas
produz energia verde, faz reflorestamen-
to e organize loteamentos imobiliArios,
segundo o anincio de pigina inteira das
premiacoes. Para desenvolver projetos de
alta tecnologia, 6 ela que mais faz inse-
minaqao artificial no mundo, cobrindo 42
mil femeas. Ja investiu 1,5 bilhao de re-
ais nesses neg6cios, que criaram 12 mil
empregos diretos e 60 mil indiretos. Man-
t6m 1,6 mil funcionArios com carteira
assinada, e possui relaqao cor 493 for-
necedores, todos da regiao.
Exibidos em andncio destacado na
imprensa, esses nimeros devem ter sur-
preendido os que o leram nos jornais de
Bel6m. At6 entdo, a Santa BArbara era ape-
nas motivo de murmirios, embora eles
viessem se intensificando. Os "bem infor-
mados" garantiam que era lavagem de di-
nheiro para o grupo Opportunity, que gas-
tava a rodo, ou que materializava a asso-
ciaqdo de Dantas com Lulinha, o filho em
maior evid6ncia do president Lula.
Ningu6m podia indicar onde estavam
as fazendas que, somadas, resultavam em
meio milhdo de hectares de pastos e mais
de meio milhao de cabegas de gado (al6m
do mais, numa relagao de um animal
para um hectare de past desaconse-
lhdvel nos frigeis solos da terra-firme do
Pard). Mesmo assim, passou a ser co-
mum para um viajante pelas estradas do
sul do Estado, ao defrontar-se com uma


propriedade, receber a informagao de que
ela era de Dantas ou de Lulinha. Provas
do domfnio, entretanto, ningu6m tinha.
Agora noo hi mais d6vida sobre uma
delas, somando quase 10 mil hectares,
em Xinguara. Daniel Dantas comprou-a
do fazendeiro Benedito Mutran Filho, em
2005. Mas um dia depois que as duas
associaq6es de fazendeiros exaltavam as
excelencias dos im6veis e premiavam seu
dono, o Estado e o Instituto de Terras do
Pard ajuizavam na comarca de Redenqao
uma a9ao civil pdblica para reaver essas
Areas. Alegaram que houve fraude e ile-
galidade na transferencia do patrim6nio
estadual ao particular.

Segundo a aa.o,
o ato de resgate dos
tres aforamentos,
remembrados para
former um unico im6vel,
concedidos pelo governor,
entire 1959 e 1960,
foi illegal. A dois dias do fim do
mandate do govemo de Simao Jatene, a
entao president do Iterpa assinou o ter-
mo de resgate da fazenda Espirito Santo,
constitufda cor base em dois aforamen-
tos concedidos a Alberto Moussalem e
outro a Marcolina de Seixas Rodrigues,
corm rea de quase 10 mil hectares (sem
incluir mais quatro mil hectares de exce-
dentes de terra apurados durante a de-
marcag5o do terreno). Atrav6s desse ato,
Benedito Mutran Filho, que era apenas
detentor do dominio 6til do im6vel, pas-
saria a ser seu proprietArio pleno.
O que a agao do Estado question 6 o
abuso de poder por parte da entao presi-
dente do Iterpa, Rosyan Caldas Brito. O
decreto que Simao Jatene assinou, em
agosto de 2006, nao Ihe delegava a com-
petencia para promover o resgate: apenas
Ihe facultava a possibilidade de proper o
resgate em lugar da mera transfer8ncia do
domfnio 6til a um novo foreiro, que seria
a Santa BArbara. A consumacgo do resga-
te continuava a ser ato privativo do go-
vemador. O decreto de Jatene, baixado
depois que o process ficou estacionado
nos escaninhos oficiais durante dois anos,
foi redigido de uma forma a possibilitar a
interpretacgo de que autorizava Rosyan a
emitir o resgate em seu lugar.
Al6m do mais, Mutran teria modifica-
do a destinacgo da drea, concedida pelo
Estado exclusivamente para a extragqo
vegetal, corn a exploragao da castanha, que
era abundante do vale do Tocantins. Des-


sa forma, rompeu unilateralmente o con-
trato. E teria enganado o governor ao ven-
der as terras para Dantas em 2005, sem
comunicar o fato e obter a autorizagqo
devida, em pleno curso do process de
resgate administrative, requerido em 2002.
Al6m de todos esses fatores, mesmo que
fosse legal, a consumagao do resgate s6
poderia ser consumada cor autorizaqgo
federal, por exceder o limited de autono-
mia do Estado, de 2.500 hectares.
A aqgo civil pdblica requer liminarmen-
te o bloqueio da matricula dos im6veis e a
proibi~go a qualquer ato de transfer6ncia,
alienagqo ou oneragqo das Areas. Pede tam-
b6m a anulagqo do resgate, que consider
"eivado de vicios de legalidade", devol-
vendo-se as terras ao patrim6nio piblico.
Dantas e Mutran passariam entao, como
meros posseiros, a estarem sujeitos "aos
procedimentos legais de regularizaqao fun-
diAria das terras ptiblicas", al6m de terem
que indenizar o Estado pelos danos cau-
sados ao meio ambiente.
Aparentemente, a acao foi proposta
sob a pressao dos acontecimentos que
escandalizavam a opiniio piblica nacio-
nal. A refer8ncia a aquisigqo, por Dantas,
de Areas do poder puiblico paraense para
a formacgo de um gigantesco conglome-
rado de fazendas, ligaria o Estado a teia
de neg6cios escusos do banqueiro. Como
de regra em suas hist6rias, o investimen-
to no Pard poderia envolver trifico de in-
fluencia e corrupqao.
Convinha ao governor do PT se disso-
ciar de pronto desse presumivel mar de
lama e transferir eventual responsabilida-
de venal a administracao anterior. As apa-
rencias sugeriam alguma coisa de escuso
numa transagqo, consumada ao apagar das
luzes do governor de Jatene, depois de 12
anos de hegemonia political tucana no Es-
tado. A aqgo invested diretamente sobre o
abuso de poder da president do Iterpa e
a leniencia do governor cor o desvio de
finalidade do im6vel e a transferencia do
aforamento a terceiros sem a autorizacqo
do senhorio direto, que 6 o Estado. Seria a
prova da omissao ou conivencia do poder
piblico com a ilicitude, que favoreceu
Dantas e Benedito Mutran?
Pelos terms da aqgo civil piblica,
sem ddvida. Mas o Estado e o Iterpa, que
a promoveram, nao apuraram os fatos
atrav6s de sindicancia ou inqu6rito admi-
nistrativo. E prerrogativa da administra-
cao piblica ever seus pr6prios atos, con-
forme admite a pega e recomendou o pro-
curador autArquico do Iterpa, Raimundo
Nonato Barros. Assim, seria possibilita-
da a defesa aos acusados e o contradit6-
rio, para provarem a verdade do que afir-


6 OUTUBRO DE 2008 .2 QUINZENA Jornal Pessoal









Daniel Dantas. Quer o que?


massem. Se assim procedesse, o Estado
podia simplesmente cancelar o resgate e
s6 litigar najustiga se quisesse cobrar os
danos causados pelo foreiro ao patrim6-
nio pdblico e outras faltas. Ignorando a
via administrative, o governor vai ter que
se submeter ao devido process legal,
numa demand desgastante e ins6lita.
Embora os demandados sejam Mu-
tran e Dantas, provavelmente eles irdo
pedir o depoimento da president do Iter-
pa, que poderd chamar A lide tanto o go-
vernador Simao Jatene, que Ihe delegou
os poderes, quanto o entao director do
departamentojuridico do institute de ter-
ras, Carlos Lamarao Correa. O governa-
dor tera que dizer se realmente autorizou
Rosyan Brito a assinar o tftulo de afora-
mento ou apenas a orientou a oferecer
ao foreiro a possibilidade de resgate. La-
mario reafirmard os terms do seu pare-
cer, que fundamentou do ponto de vista
legal o direito do particular ao resgate. E
estard exaurida a possibilidade de provas
quanto a esse ponto da agco, a nao ser
que haja alguma demonstraqao de pro-
veito pessoal de algu6m na operacio.
Um exame mais acurado, por6m, re-
velard a complexidade da situagao. O ins-
tituto do aforamento nao foi mais previs-
to ("recepcionado", na linguagem foren-
se) pelo C6digo Civil de 2002. E por isso
que a prefeitura de Bel6m orientou a par-
tir daf os cart6rios de registro de im6veis
a nao promover mais nenhum ato em re-
lag~o aos aforamentos da capital, muito
mais abundantes no meio urban do que
na area rural. O c6digo apenas confir-
mou uma tendencia da legislagao. O Es-
tatuto da Terra, de 1964, ji recomenda-
va aos 6rgdos agrdrios a extinqao grada-
tiva dos aforamentos.
Essa extincgo, contudo, nao podia ser
feita atrav6s de um ato fulminante do po-
der pfiblico. Ao foreiro foi concedido o
gozo perp6tuo da terra aforada. Por ser
um direito vitalicio, esse institute come-
cou a provocar reaq6es dos que o consi-
deravam anacr6nico, em contradiqdo corn
os postulados de control estatal sobre o
uso da terra transferida a particulares sob
condicionantes (como a da exploragqo
vegetal no "poligono das castanheiras" de
Marabi). A extincgo devia ser processada
ou na transferencia do dominio 6til a ter-
ceiros, que o Estado nao autorizaria, exer-
cendo o direito de preferencia na compra
(chamado de comisso), ou quando o fo-
reiro requeresse o resgate, prerrogativa ex-
clusiva e irrenunciivel do particular.
O resgate devia ser a forma de acabar
com esse institute arcaico, que ainda in-
cide sobre 252 im6veis no Pari, jamais


resgatados (o process de Benedito Mu-
tran foi o primeiro em toda hist6ria). Ao
inv6s disso, o Estado simplesmente per-
mitiu as transfer8ncias, como se elas nao
entrassem em conflito com as normas do
Estatuto da Terra, que ainda 6 o c6digo
agrario brasileiro. O resgate, entretanto,
nao 6 um ato automatico. O foreiro preci-
sa demarcar o seu lote e comprovar que
cumpriu os terms do acordo assinado
cor o poder pfiblico, que 6 a pratica do
extrativismo e o respeito A floresta.

No caso dos seus trs
aforamentos, Benedito
Mutran Filho esta
inadiimplente. Em primeiro lugar
por ter transferido o dominio 6til das ter-
ras sem consultar o senhorio, o que ca-
racteriza uma fraude. E tamb6m por ter
modificado o uso do im6vel, da extragao
de castanha para a pecuaria. Na a9ao, o
Estado e o Iterpa dizem que s6 tomaram
conhecimento do desvio de finalidade
quando da vistoria dos im6veis para o
resgate, em 2003. A afirmativa 6 risonha
e franca: 6 pdblico e not6rio que, desde a
colonizagao da regiao atrav6s da Transa-
maz6nica, os castanhais do Tocantins
vem sendo destruidos. Em 1987 o entao
ministry da reform agrdria, Jader Bar-
balho, comprou 250 mil hectares de cas-
tanhais e converted seu uso para assen-
tamentos rurais, com a aprovacgo do se-
nhorio, na 6poca, representado pelo go-
vemador Hl6io Gueiros, que at6 dispen-
sou o laudemio.
Em grandes, m6dias e pequenas pro-
priedades da regiao, uma caracteristica
comum nas iltimas d6cadas 6 a derruba-
da das castanheiras, hoje reduzidas ao
mfnimo e corn perspectives comprome-
tidas. E que as queimadas, mesmo quan-
do nao atingem diretamente a arvore,
comprometem a polinizagao da flor e fru-
tificagao pela abelha, afastada pela fuma-
qa. Ja os desmatamentos expoem a cas-
tanheira As fragilidades do isolamento,
provocando a sua queda.
No caso dos dois aforamentos, a pe-
ricia nao chegou a definir claramente se
a iniciativa de derrubar as castanheiras
foi do foreiro ou de invasores, estabele-
cendo as parcelas de cada uma das res-
ponsabilidades. Mas como o perito do
Iterpa nao encontrou, em 2003, um ini-
co conflito de terra na fazenda nem a
presenqa de um s6 posseiro, tudo indica
que a derrubada dos castanhais foi deci-
dida pelo foreiro. Desde 1985 ele se de-
dica a pecuaria de corte, praticada de
forma tao intensive (14 mil cabeqas co-


locadas sobre 9 mil hectares de past)
que a reserve legal obrigat6ria represent
apenas 40% da area do im6vel, quando
devia ser de 50%, pelo C6digo Florestal,
de 1965, ou 80%, segundo sua modifi-
caqao posterior. Do ponto de vista ambi-
ental, portanto, o im6vel 6 illegal.
Mesmo que a definiqao t6cnica seja
possivel agora e ainda que o Estado ven-
Ca a demand judicial, havera uma situa-
gqo concrete: como indenizar as benfei-
torias 6teis e necessarias realizadas pelo
foreiro? Se nos tres aforamentos ataca-
dos pela acao civil p6blica estao sediados
alguns dos investimentos descritos pelas
duas entidades patronais que premiaram
a empresa de Daniel Dantas, o valor do
ressarcimento sera alto.
Ainda que o governor se disponha a
assumi-lo, haveria ainda outro problema:
o que fazer na area? Ela parece ser produ-
tiva para a pecuaria graqas ao uso intensi-
vo de tecnologia nos pastos e no rebanho.
Mas poderA ter o mesmo uso em assenta-
mentos de pequenos produtores rurais,
especializados em cultivos alimentares? O
Minist6rio do Meio Ambiente acaba de
acusar os assentamentos do Incra como
os principals responsaveis pelo desmata-
mento recent na Amaz6nia, derrubando
o mito da sua auto-sustentabilidade (se-
quer adequados eles sao para a regiao).
Sao muitas as perguntas que a inicia-
tiva do Estado e do Iterpa podem susci-
tar, provavelmente mais do que seus pro-
motores devem ter imaginado ao investor
contra um personagem tao estigmatiza-
do no moment. Os protagonistas podem
ter suposto criar uma cena de mocinho
contra bandido, mas a complicada estru-
tura fundidria do Pard nao autoriza cam-
pos tao claramente distintos e separados,
pelo menos enquanto houver uma ordem
jurfdica. Mesmo a Constituiqao de 1988,
que se props inaugurar uma nova era
no Brasil, com o predominio dos direitos
civis, reconheceu o direito adquirido e o
ato jurfdico perfeito.
A extinqao dos aforamentos, que de-
via ter sido promovida a partir da edicao
do Estatuto da Terra, hi 44 anos, foi sen-
do protelada por sucessivas administra-
q6es estaduais desde entao. Enquanto
isso, as situaq6es mudavam. S6 que a
dinamica social nao foi acompanhada pelo
poder pdblico. Ele s6 costuma despertar
da sua letargia provocado por conflitos
sangrentos ou presses poderosas. Cos-
tuma agir por impulso imediato, de evitar
sua ligaiao com fatos polemicos e lanqar
culpa sobre o passado. Acaba por criar
problems para o successor, numa das
regras do serviqo pfiblico: a protelaqgo.


Journal Pessoal *2 QUINZENA OUTUBRO DE 2008 7





















































PROPAGANDA

A "miss" Bangu
0 "maior acontecimento social" de 1955foi a eleicdo da
primeira "Miss Elegante Bangu do Pard", uma promo-
qco national realizada nacionalmente pela entdo presti-
giosa fdbrica de tecidos Bangu, que vestia as elegantes
de todo pais. As candidates eram Mary Silvia Azevedo e
Arlene Maneschy Horta, do Clube da Mocidade; Regina
Schmidt de Castro e Margarida Maria Boneff, do Pais-
sandu; Gloria de Barros Cordeiro e Maria da Luz Gon-
calves, da Tuna Luso (que ainda era Comercial e ndo:
Lusa); Mirthes Maria Kouri e Rosa Helena Pernambuco,
da AABB; Mariza Moura Carvalho e Maria Oracilda Cor-
deiro, do Clube do Remo; Janet Maria de Albuquerque e
Bernardina Vivian Mitchell, do Pard Clube; e Tereza
Franco Alves, Luzia Aliete Borges e Beatriz Mauds Ne-
ves, da Assembleia Paraense, que era a patrocinadoral
exclusive do concurso e o realizaria em seus sales "aris-
tocrdticos". Para o baile, era exigido dos homes Sum-
mer ou smoking, e traje de baile (de preferencia, comr
tecidos Bangu) das mulheres. A orquestra de Guides de,
Barros daria o toque musical, enquanto Bene Nunes, "o
poeta do teclado", e o colunista social Jacintho de Thor-
mes, do Rio de Janeiro, seriam as atragoes especiais.,
Vdrias radios fariam a "irradiacdo" do acontecimento,
entire elas a Rddio Clube do Pard. A renda da festa seria
em beneficio do Pavilhio Infantil da Santa Casa.


D


"0 Major Acontecimento Social Do Ano"


















ELEICAO DA PRIMEIRA MIS5S LIGANTE BANGU DO
CANDIDATES:
oMary Silvia Axovdo T
oArlene ManSki Hoarta do Clube do Macidadfl
Regina Sci.ld do Catro
lMarardai MViaria BnMitf, do Paandi Ciub.1
Glotia de Bui,, Cedelro .
Maria do Lu Gonah, da Tun Lear Conrarcilf
bMithe Maria K A Uourl r a li
tuRa Hel..a d mbu-, do A. A. .
Sara Oraildo C oUNs ir d o C olube .d Roem
Mmu- oe o lolmooo ooodidod
Jaone Maiea d N Abluqueqter .
Nerd adin Vivan Mitchell, do Parri Clabo
ToRuo Fmnco Alo., LuRia Aliur borgol o
R.etri Mauod Ncvel, do A Remblilo Panlro
DATAi DeZ de Dembro.
LOCAL: PFalae T o do
INICIOi 23 hoe.
TRAJE Summer o- smokin (para cralhelrm.) a
ba0e, para wahora (de pr;nri, an t.
id. BaDngu).
ORQUESTRA: GulId do Barr.
ATRAI;IO: BENI' NUNES. ". p.ar do teeado",
CRONISTA SOCIAL: JACIHTHO DE THORMES, r.
plcfalmer* eonvidado,
COMITIVA PRISENTE:
Dr. Joaquinm Silvirma o *poa
S'. Aibeio Martins apoas;
Sr. Ferada Jacque. upou.
Sa. JacInto do Ther-in;
Sr. Peuzi GenHI NunU;
Sr. Jor* Ronldo (f.urinlita).
IRRADIA(AO:
Radio Club. do Para, Radio Jonal do Comrcio, do "
SReclfe; RA6dla N-aclnal do Rio do Jonelro do
Sao Paulo.
Orint .or G Iral do DlfilI; Str RIlbil 'Marlm.
Dtreton da Sang.
RBnd. do Furm Em b-nfllcio do Pvillha Int. n-
til da Santa Ca.. (N. M. E. 34.675)


PLACES
A Duplex Propaganda, de
Romulo Maiorana, que se
estabelecera dois anos antes
em Belem, publicava andin-
cio solicitando aos membros
das comiss6es de propagan-
da dos partidos politicos "re-
comendarem As pessoas en-
carregadas da colocaqao de
cartazes" para eyitar "a afi-
xacqo de quaisquer folhetos
sobre os Placards 'Paradas
de Onibus e Estacionamen-
to', a fim de nao prejudicar a
nossa Organizaqco e, conse-
qiientemente, os nossos
anunciantes, como aconte-
ceu nas eleiq6es de outubro
de 1954, que nos causaram
s6rios prejuizos, obrigando-
nos a fazer novas pinturas".
Essas places fizeram sua
estr6iajustamente em 1954,
sendo o primeiro neg6cio de
Romulo na cidade.

BOXE
A Academia Jack Demp-
sey realizou mais um dos
seus programs pugilisticos,
sob o comando de Poti Fer-
nandes. Os boxeadores, to-
dos amadores, se apresenta-
vam no estAdio Rubilar, ar-
mado nos funds da sede do
Clube do Remo, com frente
para a rua Braz de Aguiar.
Podem nao acreditar, mas
um dos lutadores de sucesso
foi o empresirio Altino Pi-
nheiro, depois personagem
do "grand monde", como
entdo se dizia,

POLITICAL
Alfredo Fernandes da
Costa endereqou uma car-
ta indignada A Folha do
Norte. Dizia-se viti-
ma de um comply,
que procurava "des-
moralizar o meu cari-
ter de home e minha U


autoridade", de comissario
de policia do post do Mar-
co. Tudo que ojornal publi-
cara era invencionice de dois
advers6rios, que ji haviam
encaminhado tres abaixo-as-
sinados As autoridades supe-
riores. Eram membros de
"uma corrente da Coligaqgo
que 6 chefiada pelo cidaddo
de nome Palmeira, chefe do
Servigo de Estrangeiros, no
Departamento Estadual de
Seguranqa P6blica, e um sf-
rio que atende pelo nome de
Xerfan".
O Palmeira teria chega-
do ao desplante de enviar a
sede do comissariado 20 ca-
demos de papel almaqo, "a
fim de serem feitas petiq6es
para inscriqao de eleitores",
O comissario se recusou a
tender ao pedido, "uma vez
que recebi ordem verbal do
sr. dr. Chefe de Policia, con-
trdria a qualquer atividade
nos postos policiais". Deter-
minaqao nao suficiente para
impedir o policial de decla-
rar, cor todas as letras, que
no post do Marco "trabalho
sempre sob a orientaqao dos
vereadores Luiz Mota e Ja-
cinto Rodrigues, os quais, no
moment, controlam nossa
political neste bairro". Politi-
ca, diga-se, "baratista", ad-
versiria dos "coligados".
Bem Bel6m.


F-


8 OUTUBRO DE 2008 .2 "QUINZENA Journal Pessoal


Em 1955

















BANCA
A banca de revista entrou
para a paisagem de Bel6m
em 1961. O prefeito Lopo de
Castro admitiu que 18 delas
fossem instaladas. Todas
pertenciam a Raimundo Sa-
raiva de Freitas, dono da Li-
vraria Vit6ria (instalada na
Padre Eutiquio, entire 13 de
Maio e Jodo Alfredo), que
ganhou a concorrencia pfibli-
ca. Tres anos depois o ma-
jor-prefeito Alacid Nunes
acabou com a limitaqao. O
coronel-prefeito Nl6io Loba-
to, achando que havia ban-
cas demais no centro da ci-
dade, a perturbar o movi-
mento dos transeuntes pelas
ruas, tentou acabar corn elas.
Nao conseguiu, felizmente. O
advogado dos donos das ban-
cas foi o fil6sofo cametaen-
se (e professor universitdrio)
Jos6 Carlos Castro.

ESPIGOES
Se errava no ataque As
bancas de revista, o prefeito


N6lio Lobato mirava certo a
especulagao imobiliiria. Um
comentrio no journal O Libe-
ral assinalava:
"Pela primeira vez na his-
t6ria paraense, um prefeito
municipal toma posicao defi-
nida e ostensiva contra a edi-
ficagdo arbitraria e desorde-
nada que estn ameaqando lan-
qar Bel6m numa situaqio ir-
reparivel. As 6ltimas decla-
raq6es do Coronel Nl6io Lo-
bato contra a aprovagao, pela
Engenharia da Prefeitura, de
projetos de grandes edificios
que nao atendem aos mais
comezinhos requisitos de se-
guranqa, de higiene, de como-
didade urbana, valem pela
mais oportuna das reaqSes
contra essa ind6stria urbana".
O comentirio sairia hoje?

HIDRELETRICA
Ningu6m falava ainda de
Tucuruf: a hidrel6trica do
Tocantins se chamava de Ita-
boca, numa referencia As ca-
choeiras desse local. Ao se


Em 1971


C"u 'OTIDIANO


FOTOGRAFIA IE.... -.

Zepellin em terra
Quem circunavega pelos 60 anos "" "" ilt!' ll
deve ter seu batimento cardiaco .... .
acelerado ao contemplar esta foto.
Certamente alguma vez passeou
num destes zepellins, que constitui-
am uma atragdo nas ruas de Belim ...
ate meados da d&cada de 50. Era POWFSa i SI L
emocionante entrar nesses 6nibus
especiais, fruto da criatividade pa-
raense, e circular pelas ruas da ci-
dade. Ndo sei se alguma outra teve
essa idWia, inspirada no sucesso
dos dirigiveis atd a d&cada anteri- .
or. Para a nova geragdo, uma fon-
te de curiosidade. Afinal, ao con-
trdrio do bonde ressuscitado na ad-
ministragdo Edmilson Rodrigues
para ter vida apenas vegetativa, os
zepellins andavam bem em terra. "


Journal Pessoal *2 QUINZENA OUTUBRO DE 2008 a


avistar com o governador
Femando Guilhon, o presi-
dente da Eletrobris, Mario
Bhering, foi claro e direto: a
usina era inviivel, conforme
sugeriam os estudos, inicia-
dos dois anos antes; "levari-
amos seis anos na constru-
gqo e nao haveria compen-
sagao financeira, dado o va-
lor da obra e o centro indus-
trial pequeno para projeto de
tamanha envergadura", re-
gistrou a Folha do Norte de
setembro.
Dois anos depois haveria
o primeiro choque do petr6-
leo, o custo da energia dis-
parou, os japoneses decidi-
ram fechar suas fibricas de
aluminio, que se tornaram
inviiveis, e abrir a maior de-
las do outro lado do mundo.
O governor brasileiro criou a
Eletronorte e o que era im-
pensivel se tomou prioriti-
rio: a quarta maior hidrel6tri-
ca do mundo se materializou
em Tucuruf para torar pos-
siveis duas das maiores refi-
narias de aluminio do plane-
ta. Uma em Beldm, a Albris,
e outra em Sao Lufs do Ma-
ranhao, a Alumar.

ESCADA
A primeira escada rolan-
te de Bel6m foi instalada no
Terminal Rodovidrio. Mas s6


funcionou por alguns minu-
tos depois da sua solene inau-
guracio e pifou. S6 retornou
a operaq~o 10 dias depois.

PARAENSE
Um avido Hirondelle da
Paraense Transportes A6re-
os caiu quando se preparava
para pousar no aeroporto de
Bel6m. De imediato o Minis-
t6rio da Aeronautica deter-
minou a paralisagqo tempo-
raria das atividades da em-
presa at6 a conclusao do in-
qu6rito do Serviqo de Inves-
tigaqgo e Prevengdo de Aci-
dentes Aeroniuticos. Como
a Unido retomou as linhas em
poder da PTA e as redistri-
buiu entire outras companhi-
as de aviaqgo, e assumiu o
control de todo seu patrim6-
nio, o que devia ser tempo-
rdrio acabou se torando de-
finitivo. A Paraense ji esta-
va praticamente morta quan-
do o Sipaer divulgou o rela-
t6rio final, concluindo que
"nenhum dos tres fatores: o
human, material e operaci-
onal, ficou caracterizado ple-
namente como determinan-
te do acidente". Tamb6m
ndo conseguiu comprovar "se
uma conjugaq~o dos tres in-
fluiu, apesar das exaustivas
pesquisas feitas". A Paraen-
se morreu como a Panair: de
morte matada.










Resistencia de 30 anos


Estavamos no inicio de 1967 no Rio de Ja-
neiro. Eu vinha de 6nibus da Lapa, onde traba-
lhava, na redaqao do Correio da Manh&, para
trocar de roupa em Copacabana, onde morava,
e seguir, ainda de 6nibus, para o alto Leblon,
onde estudava, no Col6gio Andr6 Maurois. Era
um estico de canseira. Num desses percur-
sos, a vista passou ripida por livros exibidos
na vitrine de uma livraria da rua Barata Ribeiro.
Dei imediatamente o sinal, desci na primeira
parada e voltei at6 a loja.
Eram, de fato, como vislumbrei do 6ni-
bus, os tres volumes das Obras Escolhidas
de Marx & Engels, na preciosa ediqao de
Mauro Vinhas de Queiroz para a Editorial
Vit6ria. Uma pechincha. Mas no caminho
para o caixa e enquanto esperava o pacote,
olhava para todos os lados. Talvez estives-
se um espiao por perto para flagrar o ato
subversive, tornado possivel porque o li-
vreiro nao sabia distinguir um Marx de um
livro de culinAria infelizmente, a regra nes-
se especial com6rcio.
Desandei a ler as belas ediq6es (a tra-
duqao, por6m, deixava a desejar), nao sem


antes cobrir aquela capa montada com re-
tratinhos dos dois "pais do socialismo ci-
entifico" cor um inocente papel. Ao ler os
demiurgos do comunismo, eu cometia um
ato pecaminoso e illegal, aos olhos dos do-
nos da ordem. Em alguns moments, quan-
do algu6m me fixava em meio A leitura em
ambiente piblico, o corag~o palpitava: "te-
rei sido descoberto?"
Era mais ou menos assim que se lia o
journal Resistencia, que agora complete 30
anos. Quando seu primeiro ndmero circu-
lou, em 1978, o ambiente estava ainda mais
carregado de bruxas e dem6nios. Cheio de
mat6rias sobre temas proibidos, usando lin-
guagem desabrida, a publicacao da Socie-
dade Paraense de Defesa dos Direitos Hu-
manos do Para equivalia a um samizdat. L&-
lo j era correr riscos. Colaborar explicita-
mente com ele envolvia ainda mais riscos. E
assumir sua responsabilidade era uma ati-
tude temeraria, que poucos toparam, pagan-
do por isso um prego alto.
Tr8s anos antes tinhamos feito o sema-
ndrio Bandeira 3, tamb6m uma publicacao


alternative, mas feita segundo crit6rios pro-
fissionais, sem qualquer vinculacao political,
ideol6gica ou commercial. O B3 durou apenas
sete nimeros, mas mostrou que ino era im-
possivel realizar um empreendimento desse
tipo. O Resistencia durou muito mais, at6
1983, quando sua circulag.o se tornou even-
tual, epis6dica. Tinha o respaldo de entida-
des e pessoas que queriam furar o bloqueio
do regime A liberdade de pensamento e de
expressed. Esta era sua forqa especifica, mas
foi tamb6m sua limitagqo: a vinculaq~o Ihe
limitava os movimentos editorials.
Com todos os seus problems, Resis-
tencia personificou uma attitude e um mo-
mento da hist6ria da imprensa no Para, aglu-
tinando pessoas e despertando vocaqbes,
at6 ceder a repressao official, enfraquecido
pelas inevitiveis dissensoes nas quais a
esquerda se enredava (e parece se enredar
sempre, inclusive por sua natureza libertd-
ria, de oposiqao, quando nao assume o po-
der). Os 30 anos do journal mereciam um re-
gistro mais atento e profundo do que o que
esti tendo.


JOURNAL
Achei a anilise que voce fez na materia
de capa do JP426, sob o titulo "quem no 22
turno, bastante elucidativa e que reflete
a realidade de nossa cidade, uma cidade
que nao caminha a passes largos em bus-
ca de solug6es definitivas para problems
antigos, vide esgotos, rede de agua decen-
te, escolas que realmente ensinem, pro-
fessores mais bem remunerados, etc, etc.,
o que nos torna uma das piores capitals da
Amaz6nia para se viver e trabalhar na atu-
alidade (e eu achava que este dia nunca
chegaria). Tudo isto par causa da inope-
rAncia de todos n6s moradores desta ci-
dade, que nos acostumamos a ver somen-
te da janela as maracutaias, os concha-
vos, as aliangas espurias. Eu me sinto en-
vergonhado de ser belenense, quando
vejo a propaganda eleitoral e vejo o pre-
sidente da rep6blica (em mindsculo mes-
mo) pedindo votos para candidates de
dois partidos diferentes (sera que slo di-
ferentes mesmos?) e n6s s6 vendo, ven-
do... Por estas e por muitas outras 4 que
estou pertencendo na atualidade ao par-
tido dos sem voto, PSV, infelizmente. Te-
nho que concordar que o melhor cami-
nho para n6s e o aeroporto.
Quanto 6 materia "0 Liberal e eu", a
unica maneira que eu encontrei para pro-
testar contra a agressao que voce sofreu
do sr. Ronaldo Maiorana foi nunca mais
comprar um journal 0 Liberal sequer, e te-
nho feito isto desde entlo. Sei que 4 mui-
to pouco, entretanto, se todos como eu que
ficaram indignados fizessem o mesmo, o
journal sentiria um grande baque, o que, ali-
as, j6 vem ocorrendo, haja vista a quanti-
dade de exemplares que sobram diaria-
mente. Continue na luta.
Sergio Souza
SITE
Sou simples operario, revisor de textos
em grafica de Belem. Fiquei surpreso e


content com a descoberta hoje, 24-se-
tembro-2008, da pagina digital do Jornal
Pessoal, publicacgo que, sempre que a en-
contro, compro na banca do Nazard da Du-
que de Caxias.. Este site por sinal, gostei
muito do leiaute do journal, muito limpo,
simples e modern ter6, de hoje em di-
ante, visit certa de minha parte. Parab6ns
a voce, Lucio FlAvio Pinto, por sua dignida-
de e por este Jornal Pessoal, quente que
nem plo da manhi, e parabens a sua
equipe, por mais reduzida que seja.
Luiz Octavio Branco

TRIBUNAIS
0 assunto abordado no Jornal Pessoal
n 426, 61tima pagina, sobre os empregos
nosTribunais de Contas (pego licenca para
incluir todos os Tribunals), e o modelo de
escolha dos conselheiros e demais empre-
gados dessas cortes, tem sempre sido ob-
jeto de acirradas critics, mas nunca nin-'
guem tomou uma iniciativa capaz de solu-
cion--los. A opiniio geral 4 que nao se
cumpre com os requisites exigidos, isto e,
os candidates raramente possuem as con-
dig~es que Ihes legitimariam no empre-
go. 0 grande problema 4 fazer-se cumprir
aqueles criterios. Como a recent Sumula
Vinculante do Supremo baniu de vez o in-
gresso de parents e aderentes nas esfe-
ras do executive, legislative e dojudici6rio,
espera-se, portanto, que o legislative, do-
ravante, no preenchimento do cargo de
conselheiro, atente 5s normas estabeleci-
das. Caso contrrrio, estara dando ensejo
de a sociedade recorrer A Suprema Corte
para report as coisas nos devidos lugares.
Onica media viavel no moment.
H6, ainda, a respeito dos Tribunais, in-
cluindo-se os dos Municipios (um penduri-
calho existente em raros Estados, cujos
Conselheiros-pagos regiamente-sio es-
colhidos por criterios nada recomendAveis,
como jA se disse), a questao salarial; en-
quanto uma parte considerivel de brasi-
leiros se situa abaixo da linha da pobreza
(miseria absolute), e outros tantos de 12


milhbes de aposentados percebem mise-
ros R$ 415,00, os jornais anunciam editais
cor proventos basicos de R$ 20.000,00, a
juizes e auditors em inicio de carreira. Nao
vejo justificativas plausiveis para essas re-
munerag es astronbmicas que se enrai-
zaram, nao s6 nos Tribunals, e tambem em
outras felizardas instituig6es, cuja casta de
"maraj6s" e promissora, e tende a perpe-
tuar-se, se nao forem tomadas providin-
cias energicas para sustar o carnaval. 0
quadro 4 de disparidades absurdas, obs-
cenidades talvez.
Rodolfo Lisboa Cerveira

TRABALHO
Objetivando contar cor seu apoio
para combater uma pratica perniciosa em
nosso Estado e a mentalidade provincia-
na de nossos empresarios 4 que estou es-
crevendo. A Rede de Farmicias
Big Ben est6 cor sua promog5o annual
referente ao Cirio de Nazare, onde o cli-
ente, desembolsando uma determinada
quantia, pode adquirir um conjunto de
seis porta-copos cor desenhos alusivos
ao Cirio. Acontece que em um desses de-
senhos, temos o de uma crianga, de bone,
sem camisa e cor um sorriso no rosto,
vendendo fitas de pulso pelas ruas de Be-
1em, em uma clara apologia ao trabalho
infantil. 0 client que adquirir o referido
porta-copos acaba sendo induzido a
achar que essa pr6tica 6 natural. JA de-
nunciei o fato ao Centro de Apoio Opera-
cional da infAncia e Juventude do Minis-
terio Publico do Estado do Para para que
providencias sejam tomadas no sentido
de recolher os referidos porta-copos e
cartazes que fazem aluslo a essa pratica
perniciosa, alem das punigies cabiveis a
empresa. Para muitos, esse fato pode ter
passado desapercebido, justamente por
ser o trabalho infantil tio comum em nos-
so meio, mas acaba refletindo uma cruel
realidade tao present em nosso meio,
mascarada de normalidade.
RicardoCondur6


MEMORIAL
Somos leitores assiduos de seu exce-
lente Jornal Pessoal. A longevidade desse
peri6dico, em sua categoria, traduz a sua
credibilidade nos meios de comunicagio
de nossa terra.
Na edicao n2 423, segunda quinzena de
agosto, na pagina "Mem6ria do Cotidia-
no", no t6pico "Propaganda", em que se
refere a TV paraense, quando o amigo fala
sobre os patrocinadores, diz que apenas
Y. Yamada e Constrular continuam no
mercado. Ai esqueceu da nossa empresa
Radiolux videe a marca na cortesia da pro-
gramag5o no anlncio dentro da pigina).
Em vista disso, informamos ao preclaro
jornalista que a Radiolux continue viva, ate
hoje, com cerca de nove lojas em Belem e
Icoaraci (sendo quatro delas no bairro do
Com6rcio e quatro nos bairros da Pedrei-
ra, Guam6, Sacramenta e Estrada Nova).
Neste mis de outubro, estaremos com-
pletando 57 anos de atividades ininterrup-
tas, como uma empresa puramente para-
ense, e consolidada no comercio varejista
de m6veis e eletros.
Portanto, prezado amigo, como aci-
ma narrado, a Mem6ria do Cotidiano
nao estaria complete sem a nossa par-
ticipacao na hist6ria da TV paraense,
nao 4 mesmo?
Desejando-lhe renovados sucessos em
sua vida professional, agradecemos pela
ateng5o dispensada.
Afonso Monteiro
MINHA RESPOSTA
Estd feito o devida e just inclusdo. A
nota do Memdria fez refernncia aos pa-
trocinadores do programagdo de um de-
terminado dio do TV Morajoara. Nesse
dia, ndo constovo a Rodiolux. 0 nome do
empresa sd aparecio no patrocinio do
anincio do programaopo da TV Morojo-
ora no p6gina de A Provincia do Para e
ndo no programa~go em si, dai a omis-
s6o, agora reparado. Parabens e long
video a muito querida e traditional Radio-
lux, dos Monteiro.


- Jomal Pessoal
Editor: LOcio Flvio Pinto


Diagrama5io e ilustracoes: L. A. de Faria Pinto Contato: Rua Aristides Lobo, 871 CEP: 66.053-020
Fones: (091) 3241-7626 E-mail: jornal@amazon.com.br Site: www.jornalpessoal.com.br


OUTUBRO DE 2008 .2 QUINZENA Jornal Pessoal









Atengao, barges de Belem:


agora, sao os sul que vem


0 grupo Leolar, de Marabi, chegou em
grande estilo A capital do Pard. Primeiro com
sua logomarca impressa na camisa dos jo-
gadores do Aguia, o primeiro time do interi-
or a assumir a representacgo futebolistica
do Estado. A equipe marabaense de futebol
realizou a faganha de ir em frente na iltima
etapa da s6rie C do campeonato national,
enquanto os poderosos Paissandu e Clube
do Remo ficavam para trds. ALeolar 6 o prin-
cipal patrocinador do Aguia.
O segundo marco do grupo econ6mico
marabaense foi o langamento do quarto jor-
nal didrio do Estado, o linico que veio do
interior para montar sua base na capital pa-
raense, num in6dito movimento migrat6rio
de dinheiro. O Publico introduziu um com-
ponente novo na guerra travada pelos dois
grupos monopolistas da comunicagao no
Para: de um lado da famflia Maiorana, corn
O Liberal e o Amazonia Jornal, e do outro
o deputado federal Jader Barbalho, com o
Didrio do Pard.
Num segment de mercado corn forte con-
taminaqao political, e, por isso mesmo, corn
tendencia A bipolaridade de poder, Pdblico
vai tentar retomar a "terceira via", fechada
quando A Provincia do Pard deixou de cir-
cular. O projeto do novo diario maturou corn
excepcional rapidez, destacada ainda mais pelo
volume do investimento exigido e o grau de
risco do neg6cio, que raros aceitaram encarar,
apesar da tentaqgo constant.
O grupo Leolar consolidou posiq6es
significativas no setor de comunicagao an-
tes de dar o grande pass para ojornal did-
rio. Montou uma emissora de televisao e,
em seguida, incursionou por um mercado


com tradicao, mas de resultados inconsis-
tentes para os seus exploradores: o journal
gratuito. Livre completou 50 edig6es distri-
buidas em pr6dios residenciais e alguns
pontos de comercializaqao. Tem 32 pdginas,
boa impressed, mat6rias diversificadas e ti-
ragem de 15 mil exemplares. Abriu caminho
e deveri encorpar a presence da publica-
gFo maior e mais important, o Publico.
Os donos do neg6cio nao deixam dfvi-
da de que pretendem obter lucros na investi-
da e jd mostraram pelo menos algumas de
suas armas para o combat. E claro tamb6m
que o pesado investimento realizado at6 ago-
ra 6 mais do que um neg6cio commercial: 6 a
manifestaqao de um projeto de poder, que
nao se confunde cor o dos Maiorana nem
com o dos Barbalho. Ecoa a mensagem e ca-
nalizamo vigor de Marabi, a capital do sul
do Pard e, provavelmente, do novo Estado,
de Carajas, se ele vier a se constituir.
Bel6m, refrataria por principio a qualquer
redivisao do imenso territ6rio sob suajuris-
di~ao, o segundo maior do pais, nio poderi
mais deixar de ouvir a voz dissonante do sul
do Estado e de observer sua pujanga econ6-
mica. Paissandu e Remo foram suplantados
pelo Aguia. O Liberal e o Didrio do Pard
poderdo ignorar o novo competitor? Mais
grave ainda: suas sobrevivencias de alguma
maneira nao estardo postas em questdo se o
concorrente se apresentar cor qualidades
novas e superiores? Haverd espaco sufici-
ente para abrigar quatro diarios?
Talvez at6 haja, embora nao parega ha-
ver. Independentemente do que acontecer
no segment de jornais, por6m, a penetra-
cao nessa area encouraqada por um grupo


econ6mico origindrio de MarabM e at6 re-
centemente mantido A distancia da capital
tem um sentido ainda mais amplo, que se
ressalta em plena campanha eleitoral em
Bel6m: a perda de expressio e de poder da
atual capital do Estado. Com a possibilida-
de de se tornar a capital da siderurgia para-
ense e, finalmente, assumir sua predestina-
cao hist6rica de centro irradiador e agluti-
nador do vale do Araguaia-Tocantins, Ma-
rabi quer agora muito mais do que Ihe 6
oferecido. Conforme anunciou no seu edi-
torial de inauguracqo, no dia 5, Pdblico se
prop6e a olhar de frente a complexidade da
Amaz6nia, sem a "pequenez e mesquinha-
ria que assola" Bel6m. Nao 6 simples o de-
safio. E precise ter as ferramentas adequa-
das para enfrenti-lo, sob pena de a declara-
qgo cair no vazio.
O projetado Estado de Carajis, com ape-
nas um tergo da populagao do Pard rema-
nescente (se tamb6m for criado o Estado
do Tapaj6s), tem uma receita de exportaqao
que, no ano passado,j ultrapassou o Pard.
Seu saldo de divisas 6 ligeiramente menor,
mas. como possui muito menos populagio
(embora com incremento demogrifico mai-
or), seu PIB/per capital 6 bem mais do que o
dobro do Pard.
Mesmo que nao constituam um piano
integrado, conscientemente articulado cor
essa finalidade, Aguia e Publico sdo sinais
desses novos tempos. Os velhos barges
que se acautelem: sua falsa nobreza parece
estar comeqando a ficar com os dias conta-
dos. Para o bem ou para o mal, o Pard 6
maior do que imaginavam seus tutores en-
castelados na capital.


Matem tica do Morgado


Muitos da minha geraqao optaram pelas
ciencias humans por vocaqao. Mas muitos
seguiram nesse rumo por empacarem na ma-
temitica. O professor de matemitica era tao
temido e odiado quanto o dentist. As
vezes o receio era infundado: vencido o pre-
conceito ou a expectativa falsa, sentdvamos
sem problema diante dos instruments medi-
evais do arranca-dentes e consegufamos de-
cifrar o mist6rio dos nimeros. Mas quando a
complexidade natural do calculo, ou sua trans-
formaqao numa monstruosa operaCqo de al-
quimia, por ma pedagogia de ensino, criavam
um impasse, s6 havia um caminho para o tor-
turado: tomar aulas particulares com o pro-
fessor Jorge Morgado.
Fui um dentre centenas e centenas de alu-
nos que subiram as escadas da fibrica de sa-
patos da familiar, na Cidade Velha, atrds das
luzes aritm6ticas, alg6bricas ou geom6tricas
do guia dos cegos em ntmeros. O aprendiza-
do flufa naturalmente e a carta enigmdtica es-


crita na lousa pelo professor da escola se tor-
nava uma mensagem 16gica, at6 atrativa. Ha-
via alguma dificuldade quando um aluno mais
criativo dava de formular uma questio que
interessasse ao professor. Morgado se desli-
gava do mundo e acumulava cdlculo sobre
cAlculo at6 arrancar a solucgo do problema.
Em quest6es mais intrincadas, o comum dos
mortals desistia de acompanhar o raciocinio
rdpido do mestre e se deliciava com as emana-
96es de paixio no seu rosto pela seduqo dos
ntimeros. EstAvamos diante de um verdadei-
ro matemitico, nao apenas um fornecedor de
formulas prontas.
Mais de 40 anos depois de comegar a car-
reira de professor, Jorge Morgado langa a 2
edigao de seus dois livros, modestos apenas
na aparEncia: Conceitos Matemdticos para o
Dia-a-Dia (cor 203 pdginas, em format gran-
de) e Matemdtica Financeira para o Dia-a-
Dia (125 pdginas, format pequeno). No pri-
meiro, Morgado desenvolve "uma forma di-


ferente de aprender matemitica", atrav6s do
m6todo de ensaio e erro, que possibility ao
ano aprender em um ano o que, por outra via,
s6 aprenderia em quatro anos. O segundo li-
vro se destina aos concursos piblicos, facul-
dades de economic, administraqao, contabili-
dade e direito. Quem usar os dois trabalhos
verificara como 6 mais rdpido e fecundo apren-
der fazendo exercicios, colocando a razdo para
funcionar com um guia competent.
E esforqo em dose dupla para que alunos e
professors usem a matemdtica como a pode-
rosa ferramenta de trabalho e o element da
pr6pria vida cotidiana, que ela 6. Mas que pou-
cos, como Morgado, conseguem encard-la sob
esse prisma. Os livros sHo a sistematizaqao e a
condensaqao das aulas que o professor deu
em quase meio s6culo para milhares de alunos,
reconciliados com a besta-fera que os atormen-
tava at6 a descoberta daquele autEntico Moi-
s6s dos nlimeros, abrindo caminho no mar re-
volto at6 a prometida terra do entendimento.


Journal Pessoal .2 QUINZENA OUTUBRO DE 2008 11













O noticidrio policial dos tr6sjornais didiri-
os de Bel6m 6 motive de critics crescentes
por seu descompromisso 6tico e mesmo pro-
fissional. Nas piginas do caderno de policia
o que interessa 6 tender a morbidez do lei-
tor por sangue e trag6dia e ajudar a vender
mais. Por isso, foi com muito interesse que li
a entrevista de Dilson Pimentel ao 6ltimo Tro-
ppo, o suplemento dominical de amenidades
de O Liberal. Dilson, de 40 anos, esti hi
mais de 10 na reportagem policial. t um re-
p6rter aplicado e uma pessoa atenciosa. Mas
nao consegui associar suas declaraq6es ao
objeto das suas consideraqbes.
Questionado sobre o carterr de espe-
tacularizacgo da viol6ncia"
nos cademos de policia, "prin-
cipalmente em terms de ima-
gens", ele opina:
"Acho que os jornais tem,
sim, que noticiar a viol8ncia, mas
fazer isso sem estardalhago,
sem sensacionalismo. Devemos
nos limitar a noticiar o que esta
acontecendo, que 6 o que faze-
mos no journal O Liberal, sem-
pre tendo muito cuidado na apu-
raqao das informacges. Ha no-
ticias que falam por si s6. Sao
chocantes e fortes em sua essencia. Nao
precisamos realqar isso".
Provocado a estabelecer o limited entire
"a reportagem que denuncia" e a "conde-
naqao antecipada", pondera que esse limited
esti no bom senso: "E precise ter muito
cuidado na hora de divulgar certas infor-
maqSes (...). E melhor deixar de divulgar
certas coisas a publicar uma mat6ria que
poderi destruir reputaq6es".
Em tese, Dilson ter razao. Essa razao,
contudo, nao existe na ediqao do material que
0 Liberal tem publicado. O paroxismo, em
sentido completamente contririo ao das pon-
dera95es do reporter, foi alcanqado na co-
bertura do acidente de carro que vitimou cin-
cojovens no veraneio deste ano em Salinas,
aqui ji comentada (JP 423). A image da
cabega desgarrada do esqueleto de uma de-
las contradisse, em grau absolute, a teoriza-
gqo de Dilson, tornando-a vazia.


Durante toda a semana anterior A edi-
gqo dominical do journal, que trouxe a en-
trevista, o caderno policial desmentia as
declaraq6es do reporter. Na segunda-fei-
ra, 29 de setembro, o caderno, com seis
piginas em format standard, exibia tr6s
fotografias de caddveres. Na terqa-feira,
quatro "presuntos" (sendo tr6s fotos de um
inico morto). Na quarta, s6 um. Na quinta,
quatro. Na sexta, nenhum (a vendagem
caiu?). No sibado, tr8s.
Deve-se dizer, em beneficio de O Li-
beral, que a cobertura do Didrio do Pard,
embora ocupando metade do espaqo (oito
piginas em format tabl6ide, equivalentes
a quatro piginas standard),
consegue ser mais sangrenta.
Ambas, por6m, nao respeitam
a image das pessoas mor-
tas, nao sdo rigorosas na apu-
racqo das informag6es, falsei-
am dados, algumas vezes in-
ventam e, em quase todas as
mat6rias, nao escondem o pro-
p6sito commercial de explorer
o que consideram o leitor-pa-
drao desse tipo dejornalismo.
Se ele 6 assim, atraido pela
face m6rbida da vida, esses
jornais sensacionalistas fazem tudo para
que continue assim. Nao Ihe oferecem
qualquer opcqo para mudar, ou tentar algo
novo. Na apuraqdo final, querem que a
viol6ncia persista ou at6 aumente. Para
que vendam mais jornais.
Pode ser que jornalistas como Dilson Pi-
mentel estejam tentando mudar essa situa-
qao, cada vez mais escrachada. Quem 16 o
seu journal, por6m, nao pode deixar de cons-
tatar que seu esforqo ter sido em vao, ou
s6 consegue efeito residual. A imprensa pa-
raense, como vampiro midiitico, quer san-
gue. Mais sangue. Nao indistintamente, en-
tretanto: do "povao", aquele que 18 esses
"bancos de sangue encadernados", como
dizia o tropicalista Gilberto Gil, e que for-
nece o pr6prio sangue sem reclamar da ex-
ploraqIo de sua image. E s6 assim que a
familiar pode anunciar para a vizinhanca: o
morto, final, virou noticia de journal.


Jornalismo policial:

sangue encadernado


Atraves de Contra o Poder 20 Anos de Jornal Pessoal (uma paixao amaz6nica) tento contar
capitulos da hist6ria recent do Para que jamais teriam sido registrados se nao existisse
este journal. E mostro como o JP conseguiu reconstituir esses fatos e avaliar o seu significado no
mesmo moment em que eles aconteciam. 0 livro e composto de trechos de materials aqui publicadas e
de um meta-texto novo, que comenta, situa e elucida 6 cotidiano de um jornalismo verdadeiramente
independent, que cumpre sua missio mais nobre: ser uma auditagem do poder. Espero que os leitores
ajudem a difundir essas hist6rias comprando o livro, que esta a venda nas bancas e em algumas livrarias.


Imprensa
Ao ler o site do Jornal
Pessoal, Adal Aguilla obser-
vou uma incorreqao na mat6-
ria "Ovo da Serpente" (edigqo
423), sobre o acidente de car-
ro em Salinas, que provocou a
morte de cinco jovens passa-
geiras do Vectra. Ele diz que
Roberta, a condutora do vef-
culo, "nao foi a primeira viti-
ma fatal a ser identificada. Ela
s6 foi identificada no dia 01/
08/2008, pela manhd, e o seu
funeral feito pela parte da tar-
de, no Recanto da Saudade".
A correq~o, o leitor manifes-
tou sua concordancia com as
critics da mat6ria e a sua
defesa de "uma imprensa mais
saudivel" no Pari.
A prop6sito: essa deseji-
vel imprensa, que explorou
tanto o trigico acidente (sob
outra vestimenta 6tica e pro-
fissional), podia agora infor-
mar a opiniao pdblica sobre
as conclusoes do inqu6rito, a
pericia no autom6vel, que
apresentou comportamento
estranho, e as possiveis
ages judiciais das famflias
das vftimas. O silencio atual
em relaqao ao estardalhaqo
anterior nao contribui para a
boa imagem da mfdia.


Formalidade
A Secretaria de Meio
Ambiente do Estado devia
exigir que os atos de comu-
nicaqgo de licenciamento
ambiental contivessem infor-
mag6es minimas para o re-
gistro official. As empresas
que recebem a licenqa estao
reduzindo cada vez mais es-
sas informaq5es. Omitem,
por exemplo, a produgao li-
cenciada, dado fundamental,
que antes constava da publi-
cagdo. Hoje, o "pr6-forma"
6 absolute.