Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00331

Full Text






Sornal Pessoal

A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO
Id taue*


N" 425
ANO XXII
R$ 3,00


ELEICAO


Disputa viciada

Mal informado, desmotivado e manipulado, e assim que o eleitor estd sendo
conduzido para o dia.de escolher o novo prefeito de Belem.
Qualquer nome no qual votar ndo mudard a trajet6ria da capital
paraense: de ndo contar cor um gestor a altura das suas necessidades.


campanha eleitoral deste ano
em Bel6m 6 provavelmente a
ais pobre das que foram rea-
lizadas desde que a capital recupe-
rou o direito de eleger o seu prefeito,
hi duas d6cadas. Ndo tanto pelos re-
cursos materials utilizados pelos can-
didatos, embora tamb6m nesse item
o recuo em relagao a quatro anos
atris seja visivel (em funcao dos es-
candalos envolvendo os funds de fi-
nanciamento, que fizeram os doado-
res se retrairem). A maior pobreza,


entretanto, 6 em relagdo ao conted-
do dos discursos ou sua falta. Ne-
nhum dos candidates conseguiu at6
agora empolgar o eleitor e se apre-
sentar como favorite. O nivel parece
ser o B, ou C.
Os candidates apregoam que sdo
"preparados" e que t8m "propostas
concretas" para melhorar a vida do be-
lenense. Todos, contudo, gravitam em
torno dos mesmos pontos, repetindo
projetos identicos. Deixam a nitida im-
pressdo de que as id6ias foram arran-


cadas A iultima hora, em reunites cor
assessores e marqueteiros, responden-
do a reivindicaq6es e necessidades fla-
grantes da sociedade. Podem resolver
alguns problems, se realmente tive-
rem vontade e meios para executar o
que prometem, mas nao fardo qualquer
mudanqa significativa na vida da cida-
de. Agem por induqao e a partir da ro-
tina. Nao tem um piano para a cidade
nem consideram o context maior no
qual ela se situa.
conTINUA NA PAoG


O ESCANDALO FABRICADO NO HC PAG. 5 0 "FURO" DO BLOQUEIO EM CARAJAS PA. 5


SETEMBRO
DE 2008
2'QUINZEN







coNMNUAVAo DACAPAWWWWWWOMMMOMM
Por isso e pela aus6ncia de infor-
maqbes confiaveis todos os tipos de
especulaqges e interpretaq6es se dis-
seminaram. A omissao da imprensa na
tarefa de esclarecer a opiniao ptblica,
por encolhimento dos pr6prios 6rgdos
de comunicaqao ou em fungao da rigi-
dez da fiscalizacao official, contribuiu
para fomentar a desinformaqdo, a de-
sorientacgo e a desmotivaqgo do elei-
tor. Sobre esse terreno inconsolidado se
desenvolvem todos os tipos de boatos,
que acabam por influir sobre as andli-
ses dos interessados. Daf posicqes tao
dispares no espectro politico.
Um ponto fora de d6vida 6 a alta
rejeicgo ao prefeito Duciomar Costa, do
PTB, que tenta a reeleicqo sem a aure-
ola do "ji ganhou". O indice nao chega
a ser tao grande quanto o que compro-
meteu ou esta afetando outros grandes
lideres politicos, como o deputado fe-
deral Jader Barbalho, do PMDB, e a
governadora Ana Jilia Carepa, do PT,
mas 6 um grave complicador.
Estranhamente, esse fator esti sen-
do mais explorado por uma ex-aliada de
Duciomar. Val6ria Pires Franco, a can-
didata do DEM, integrava a mesma ali-
anqa political que, em 2004, elegeu-a
vice-governadora na chapa tucana de
Simao Jatene e, dois anos depois, colo-
cou Duciomar a frente da prefeitura de
Bel6m. At6 comeqar a atual campanha
eleitoral, Val6ria manteve complete si-
l6ncio em relacao ao prefeito, que s6
comegou a critical a partir de entao.
E ela quem tem sido mais incisiva
nos ataques a administraqgo municipal,
apontando-lhe as evidentes falhas. Ja
seus adversaries nao exploram essa
contradigdo, que revela a motivagdo
eleitoreira da nova postura da ex-vice-
governadora: ela s6 se desgarrou da
teia de interesses da "Uniao pelo Pard",
hegem8nica ao long dos iltimos 12
anos, quando a companhia de Ducio-
mar se tornou inc8moda. Mesmo Va-
16ria, por6m, nao incluiu no seu progra-
ma da propaganda eleitoral gratuita al-
gumas das mais graves den6ncias fei-
tas contra o prefeito, desde que ele
assumiu o cargo.
O tom morno dos programs refle-
te menos a preocupaqao cor a rea-
qao negative do telespectador a even-
tuais "baixarias", como a que possibi-
litou a eleiqgo do azarao Edmilson Ro-
drigues em 1996 (contra os favorites
Elcione Barbalho e Ramiro Bentes), do
que a complicada teia de interesses
politicos que ata os partidos. O PTB 6


da base aliada do president Lula, as-
sim como o PMDB.
O PT municipal esti sendo travado
pela cipula federal para nao inviabili-
zar eventuais e surpreendentes acordos
no 20 turno, o que di ao "professor"
Mario a imagem de candidate "cristia-
nizado", aquele que nao conta com o
decidido apoio dos seus correligiondri-
os para vencer, apenas com suas de-
claracges de intenqSes. Mais uma vez,
Mario Cardoso poderi ter um enterro
de luxo. Contra esse destino anunciado
tenta agir a militancia, superando as
barreiras institucionais.
O PMDB anima-se com o cresci-
mento da candidatura do ex-deputado
federal Jos6 Priante, a que obteve a
maior taxa de incremento, segundo as
pesquisas divulgadas, embora ainda es-
teja a distancia considerivel dos dois
principals contendores, que sao Ducio-
mar e Val6ria. Mas nao pode apimen-
tar as critics ao prefeito porque, na
eventualidade de um 2 turno entire ele
e a candidate do DEM, 6 cor ele que
Jader Barbalho teri que ir. Afinal, do
outro lado estarao seus principals ad-
versarios, incluindo o grupo Liberal.

Simperio Maiorana
dividia seus espagos
entire seus dois
candidates ponteiros,
mas parece ter-se
decidido por Valeria,
seguindo a nova
tendencia apontada na
iltima pesquisa
publicada do Ibope: a ex-vice-
governadora subindo e o prefeito des-
cendo. Sera uma tendencia consolida-
da ou a pesquisa, com uma aprecid-
vel margem de erro, ainda esti na fase
da induqgo do eleitor impressionivel,
que 6 sempre possivel no atual mo-
mento do cronograma eleitoral? Vi-
rias dessas pesquisas se sustentam na
mem6ria fraca do leitor, que esquece
o erro grave porque cometido ainda
cedo, ou na sua suscetibilidade para
ser sugestionado, perfilando-se ao que
diz a pesquisa.
De qualquer maneira, a nao ser
que surja um escandalo envolvendo
algum dos tres principals candidates,
hi possibilidade de aparecer um aza-
rio? Ha certo desalento em torno da
figure de Mario Cardoso: ele poderia


contar com a forqa do apoio esponta-
neo e decidido da militancia petista,
sempre aguerrida, para mais do que
compensar o pouco empenho da dire-
qco partidiria com sua candidatura?
Nao 6 provivel.
Ao deputado Arnaldo Jordy falta
empatia e capacidade de convencer
o eleitor de que, desta vez, ele nao
esti apenas trabalhando o seu nome
numa dispute majoritiria para a pr6-


xima eleigqo proporcional, como em
epis6dios do passado. A Marinor Bri-
to falta quase tudo, exceto sua garra,
determinaqao e nome sem micula. O
apoio do ex-prefeito Edmilson Rodri-
gues ajuda, sem, contudo, decidir. O
delegado Joao Moraes 6 um convida-
do nessa dispute. Pode dizer e fazer
o que quiser: nao decolara.
Como, mais uma vez, ha um vazio
de conteudo no discurso dos candida-
tos, em cujos programs eleitorais sdo
os clips que preponderam, a decisao
ainda depend de uma s6rie de ma-
nobras de bastidores. O que significa
que mudarao os nomes, mas Bel6m
continuara sem dispor do estadista do
qual tanto precisa.

Este artigo ja estava escrito quando, na
segunda-feira, os opositores de Valeria co-
megaram a exibir imagens nas quais ela
aparece ao lado de Duciomar, uma abor-
dagem que destacara a origem comum dos
dois adversarios de hoje. A pr6xima pes-
quisa registrarM qual foi a reagao do elei-
tor. Dependendo dessa reagdo, pode ha-
ver mudangas no topo do ranking. 11


2 SETEMBRO DE 2008 .2 QUINZENA Jornal Pessoal








Bloqueio da ferrovia:

por tras da noticia


No dia 21 de agosto, O Liberal
anunciou, em sua primeira pigina, ter
tido acesso a um piano secret, defini-
do durante reuniao realizada dois dias
antes por representantes de movimen-
tos sociais na sede da CNBB (Confe-
r8ncia Nacional dos Bispos do Brasil),
em Bel6m. "Ha evid8ncias fortes e
virias de que esti em andamento uma
nova interdiqao da Estrada de Ferro de
Carajis, que liga o Estado do Pard ao
Maranhao e 6 operada pela minerado-
ra Vale". Embora a noticia fosse um
"furo" (isto 6, exclusive), ojornal nao a
considerava "nenhuma novidade". Isso
porque "patrim6nios privados, inclusive
e sobretudo os da Vale, sempre estive-
ram na mira de bandidos travestidos de
atores sociais, a expressao que a inte-
lectualidade ou parte dela cunhou
para se referir a criminosos".
Desta vez, por6m, haveria mais do
que uma novidade: nada menos do que
tr8s, na aritm6tica viciada do didrio do
grupo Maiorana. "A primeira 6 de que
o Movimento dos Trabalhadores Sem
Terra (MST) nao agird sozinho, mas au-
xiliado por outras entidades e movimen-
tos sociais; a segunda 6 que se preten-
de interditar a ferrovia em duas fren-
tes, uma no Pari, outra no Maranhao;
e a terceira 6 que os preparativos para
a mobilizaqao que precede a interdicqo"
aconteceram dentro da sede da CNBB.
"Em cada novidade, um excesso, ob-
servou o journal.
0 Liberal sugeriu entdo que "os apa-
relhos de repressao do Estado" se mo-
bilizem em duas frentes, como o fariam
os presumiveis autores da interdigqo, e
de forma concatenada, "para que pos-
sam reprimir na media do necessdrio.
Se uma ilegalidade pode ser engendra-
da racionalmente, por que nao poderi a
policia, tamb6m racionalmente, prepa-
rar sua reaqao?". Quanto a reuniao pre-
parat6ria da interdiqao, ocorrida dentro
de um pr6dio de entidade ligada A Igre-
ja Cat6lica, ojornal achava convenien-
te "associar crimes a pecados e vice-
versa", alertando: "Para pecados e cri-
mes, hi sanq6es".
Todas essas graves informaq6es o
journal disse as ter obtido junto a uma
"fonte an6nima". Essa mesma fonte,
que pediu para ter seu nome resguar-
dado, revelou a 0 Liberal em segui-


da que estava "sendo redigido um do-
cumento para ser entregue ao gover-
no paraense" at6 o final da tarde des-
se mesmo dia, 22. O document mos-
traria que "a ameaqa feita pelo movi-
mento social 6 concretea' e deve ser
investigada".
A uma comissao de representantes
da CNBB, Comit6 Dorothy Stang, Co-
mit8 Intereligioso, Missionarios Combo-
nianos do Brasil Nordeste e Confer8n-
cia dos Religiosos do Brasil, que foi A
reda~io entregar uma nota official so-
bre a campanha "Justiqa nos Trilhos",
responsabilizada pela autoria do piano,
um editor do journal disse que a fonte
an6nima era da secretaria de seguran-
qa do Estado. Os dias se passaram, o
document nao apareceu, a fonte foi
esquecida e 0 Liberal abandonou com-
pletamente o tema. Porta-vozes da ad-
ministraqdo Ana Jilia Carepa, consul-
tados pelo JP, negaram terem recebido
qualquer informaqao sobre o tal bloqueio
da ferrovia, muito menos um documen-
to escrito.
Na nota enviada ao journal, padre
Gustavo Covarrubias Rodriguez, vice-
provincial dos Missionirios Comboni-
anos do Brasil Nordeste, expressou "o
mais en6rgico repfdio" A mat6ria de
0 Liberal. "Nela, entire outras coisas
inveridicas e absurdas, e de colagens
de dados cruzados, desconexos e in-
completos, cita-se a minha presenqa
num encontro promovido pela equipe
coordenadora da campanha 'Justiqa
nos Trilhos', no dia 19 de agosto do
ano present. Indigna-nos, sobretudo,
a forma absurdamente prolixa, ten-
denciosa e difamat6ria da mat6ria, li-
gando-os a hipot6ticos atos ilegais que
afetam a companhia Vale. A pr6pria
campanha, na qual n6s temos repre-
sentantes da nossa entidade, sempre
moveu-se dentro do marco juridico
vigente", disse o religioso.
Os participants do encontro ficaram
intrigados: como o journal conseguiu as
informaqSes se nao mandou ningu6m
para cobrir a reuniao? Dela participa-
ram apenas poucas pessoas, integran-
tes da campanha, que enviou convites
a todos os veiculos de comunicacgo e
apresentou a pauta dos debates atra-
v6s do seu site na internet. Nenhum 6r-
gdo da imprensa se interessou pela pau-


ta. Nao havia estranhos no audit6rio da
CNBB. As exposiq6es consistiram na
apresentaqCo da campanha atrav6s de
um power point e de um folder
A campanha, segundo artigo escrito
pelo jornalista Rog6rio Almeida, logo
depois das mat6rias de O Liberal, foi
criada "para a produq~o de base t6cni-
ca que possa subsidiary um grande de-
bate durante o F6rum Social Mundial,
que tem como Bel6m como sede, em
janeiro de 2009". Seu objetivo 6 "o aci-
mulo de informaqao e forqas no Pard e
Maranhao e exterior para a realizaqao
de grande debate sobre os impacts da
ferrovia de Carajis. Nesse sentido, a
partir de uma parceria cor universida-
des do Maranhao e Pard, vem constru-
indo uma base de dados juridicos e s6-
cio-econ8micos". Outra aqao da frente
6 "a mobilizacqo em municipios impac-
tados pela ferrovia e nas capitals dos
estados, Sdo Luis e Bel6m".
Ao noticiar fato tao grave com base
numa "fonte an6nima" (ou muito mais
precaria do que an6nima), sem fazer
qualquer checagem pr6pria depois, e
abandonando o tema sem esclarecer se
a den6ncia 6 veridica ou falsa, O Libe-
ral mais uma vez desserviu a opinion
pdblica com seu procedimento leviano
no trato com as informaq6es. Uma coi-
sa 6 bloquear a ferrovia de Carajis, uma
concessdo puiblica outorgada a Compa-
nhia Vale do Rio Doce por 50 anos,
como ocorreu seis vezes nos 6ltimos
meses, e outra 6 tentar avaliar o impac-
to que o grande empreendimento repre-
senta para a populacao, e tirar mais be-
neficios do que os disponiveis, notoria-
mente insuficientes e injustos (daf o tf-
tulo da campanha: "justiqa nos trilhos").
Nenhum dado concrete sequer insi-
nuou essa intenqao durante o encontro
realizado na sede da CNBB. Ao anun-
cid-lo de forma estrepitosa e superficial,
sem uma fonte de cr6dito, O Liberal
mostra que seu prop6sito nao 6 manter
os paraenses bem informados, mas va-
ler-se da informaqao para objetivos nao
declarados. Prop6sito semelhante ao
daqueles que sonegam as .informaqces
do pfiblico ou as manipulam para tirar
proveito do poder que tnm. No caso do
jomal dos Maiorana, essaji 6 uma priti-
ca rotineira e, por isso mesmo, lesiva aos
interesses superiores da sociedade.


Jornal Pessoal .*2 QUINZENA SETEMBRO DE 2008 3








0 mais esquecido da Bossa Nova


Quem fizer, com conhecimento de
causa, a relagao das 10 melhores mu-
sicas criadas durante o meio sdculo de
existencia da Bossa Nova tera que in-
cluir pelo menos uma das cancqes do
carioca Carlos Eduardo Lyra Barbo-
sa. Mas se esse pesquisador sair pelas
ruas querendo saber quais os mais im-
portantes compositores da Bossa
Nova, dificilmente ouvird nas respos-
tas o nome de Carlos Lyra. Trata-se
de uma injustiga? Trata-se. Mas ela
esti perpetrada e consolidada. Carli-
nhos Lyra 6 um dos esquecidos for-
madores do maior movimento da mii-
sica popular brasileira.
Ele nao concorda cor isso e tratou
de sair da in6rcia para tentar corrigir o
erro. Sua arma 6 um livro, caprichosa-
mente editado pela Casa da Palavra,
em 254 piginas em papel couch, far-
tamente ilustrado, cor dois CDs en-
cartados um primor grdfico e uma
preciosa selecao das melodies e letras
que resultaram da criatividade do au-
tor de Canago que more no ar, a
mfisica que nao pode ficar de fora dos
hits bossanovistas, dentre outras (como
Marcha de Quarta-Feira de Cinzas,
Minha Namorada, Coisa Mais Lin-
da ou Primavera).
Carlos Lyra esti na origem mais re-
mota da revolucao que a Bossa Nova
provocaria no modo de compor, interpre-
tar e cantar mdsica popular no Brasil.
Ela p6s fim ao reinado do bolero, que
assumiu no pais a fisionomia do samba-
candao, ao se fundir com o ritmo original
do pais, o samba. Aos 15 anos, em 1954,
ele comp6s sozinho Quando Chegares,
que 6 obra pronta e acabada, de alto ni-
vel. Dois anos depois comegou a fazer
sucesso merecido com Maria Ningudm,
outro produto solo. Em 1958, Elizete
Cardoso canta ainda A moda antiga,
com sua sofisticada voz muitas vezes
desperdiqada o disco que alguns con-
sideram fundador da Bossa Nova, Can-
qdo do Amor Demais.
O LP 6 fundamental s6 porque o re-
pert6rio inclui misicas de Tom Jobim e
Vinicius de Moraes, e ao fundo ouve-
se com certa dificuldade a batida
do violao de Joao Gilberto. Nesse mes-
mo ano, Carlinhos Lyra se escora nas
letras de Ronaldo B6scoli com a Can-
gdo que Morre no Ar e mais Saudade
Fez um Samba, Se e Tarde me Perdoa
e Lobo Bobo. Todas, sim, verdadeiras
cancqes bossa nova. Em 1959, o gran-


dioso ano de Chega de Saudade, no
qual Joao Gilberto fornece a regua e o
compasso do movimento, Lyra tamb6m
saiu com seu primeiro LP, reunindo com-
posigqes que ficarao para sempre.
Mas por que ele nao esti no alto do
p6dio com Joao, Jobim, Vinicius ou
Menescal? Como devia realmente es-


tar l6, Carlos Lyra tratou
de inverter os terms da
oragao e deu ao seu livro
o titulo pretensioso de Eu
& a Bossa, sem pretender
humildade ou subordina-
gao, muito pelo contririo.
Ele, em primeiro lugar. 0
texto 6 vasqueiro. Fotos,
virias delas de interesse
apenas do autor, se espar-
ramam pela maior parte do
espago do livro. Satisfa-
zem o ego comprimido de


co. Gravitou entire a fonte da infelicida-
de brasileira, tao combatida pelos mili-
tantes do CPC, o imperialismo ianque,
e o misticismo de al6m-fronteiras, o
mexicano, igualmente invadido pelo ex-
pansionismo sem limits dos vizinhos.
Essa distAncia do Brasil pode ser a
causa maior do progressive esqueci-


CAR


LOQd
EU BOSSA

NMIRA


Carlinhos mais do que informam seus
leitores, exceto por revelar as muitas
faces do autor A procura de uma defi-
nigao, seus muitos experiments e o
aprumo na exibiqao. A obra nao deixa
de ser um ajuste de contas. E embora
nao lhe faltem carradas de razoes, a
impressao que fica 6 de que a respon-
sabilidade pela injustiga 6 mais do ar-
tista do que do pfblico.
Carlos Lyra foi se distanciando da
Bossa Nova justamente quando ela
comeeou a ter sucesso, no inicio dos
anos 60, inclusive international. Em
Influencia do Jazz, de 1962, suas
critics sao precisas, al6m de bem-
humoradas e ironicas. Mas seu pro-
grama de voltas as origens, a uma
pureza national, 6 azedo e contrast
com o tom das critics. Politizado, mas
ortodoxo, ele se fechou numa inspira-
qao cada vez mais empobrecedora
musicalmente para poder destacar
sua mensagem, seu engajamento.
Quando os militares depuseram o
president Joao Goulart, em 1964, e
abriram as portas para o revanchismo
de direita (o revanchismo agora estd na
outra mao, insisted os vitoriosos de on-
tem), Lyra viu a sede da UNE (Uniao
Nacional dos Estudantes), no Rio de
Janeiro, ser destruida e o CPC (Centro
Popular de Cultura), do qual era um dos
principals integrantes, desaparecer sob
o fogo ateado por seus adversarios.
O abalo parece ter sido tao forte que
ele decidiu passar os cinco anos seguin-
tes entire os Estados Unidos e o M6xi-


mento e desmerecimento
de Carlos Lyra, mas ele
contribuiu decisivamente
para os dois efeitos. Podia
ter permanecido no Brasil,
ao menos at6 o AI-5, do fi-
nal de 1968, sem riscos A
sua integridade, como mui-
tos outros intelectuais e ar-
tistas de esquerda. Ao par-
tir para o exilio voluntario,
quando ainda havia espa-
qo para a liberdade de ex-
pressao, Carlinhos envere-


dou por um caminho de exotismo, que
o distanciou do pr6prio pais e o aproxi-
mou de outros.
Dentre eles, o mais acolhedor para
esse tipo de manifestaqao cultural 6 o
Japao, onde ele e outros, como Ivan Lins
e a nossa Leila Pinheiro, encontraram
seu refigio, inclusive commercial, para
manter um bom padrao de vida. Mas a
obra sofreu com esse desvio. E prova
disso o segundo CD, com 23 mfisicas
que podem soar agradavelmente 1~ fora,
como a manifestagao de uma cultural de
exportacao, mas dentro do Brasil pare-
cem ter perdido sua marca original e
sua forqa.
Revista a carreira de Carlos Lyra no
livro e nos CDs, a injustiqa se materia-
liza, mas tamb6m se revela um julga-
mento hist6rico precise, apesar de amar-
go. Amargura que ele destila ao long
da obra sem conseguir se expressar
abertamente, malmente auto-contido.
Ha indicadores sutis da revolta do com-
positor, como ao reproduzir uma carta,
na qual seu parceiro Vinicius de Mora-
es compete, por mero descuido, um erro
Sde portugues crasso (usa o artigo "a"
no lugar do verbo "ha") e Lyra coloca
um sic para ressaltar o erro, ao inv6s
de corrigi-lo.
A amargura vai permanecer em sur-
dina como um rancor mal resolvido,
naquela surdina embriagante e cilida
que constitui a marca maior da Bossa
Nova intimista, que o carioca Carlos
Lyra interpretou como poucos at6 se-
guir por outras sendas, ou labirintos.


4 SETEMBRO DE 2008 .2 QUINZENA Jornal Pessoal








Hospital de Clinicas:

escandalo de 24 horas


Na noite de 14 de agosto, a TV Li-
beral exibiu as imagens de uma repor-
tagem que devia desencadear efeitos
semelhantes aos do escandalo que en-
volveu a Santa Casa de Miseric6rdia
do Pard, tres meses antes. A chamada
da mat6ria ji dizia tudo sobre seu pro-
p6sito: "Descaso e sofrimento dos que
precisam de atendimento psiquiitrico
no Hospital de Clinicas". Uma came-
ra oculta revelava o interior da emer-
gencia psiquiitrica do Hospital de Cli-
nicas Gaspar Viana: pacientes deita-
dos sobre colchoes estendidos no chdo,
se alimentando ali mesmo ou em esta-
do de extrema agitagco, na fila de es-
pera por atendimento.
Quatro horas depois que a reporta-
gem foi ao ar, pouco depois da meia-
noite, o site do Didrio Oficial do Estado
na internet divulgou decreto da gover-
nadora Ana Jdlia Carepa exonerando o
president da fundacao responsivel pelo
hospital, Haroldo Koury Mau6s, e o di-
retor assistencial, Kleber Ponzi. Ao con-
trario da expectativa gerada, por6m, o
assunto morreu: a mat6ria apenas foi
reprisada na a1 ediqao do Jornal Libe-
ral. Nao teve continuidade na progra-
magao da televisao e nao chegou ao
journal O Liberal ou ao Amazonia Jor-
nal. Nenhuma letra nas duas publica-
96es do grupo foi dedicada ao assunto.
Sua utilidade parece ter-se esgotado
com o afastamento dos dois dirigentes
do hospital. Nada de campanha local ou
escandalo national.
Ao contrArio do que tamb6m acon-
teceu com a Santa Casa, a demissao
foi imediata, sem esperar sequer pela
ediqao impressa do DO. No primeiro dia
6til ap6s a exoneracao (segunda-feira,
18 de agosto), decretada no feriado da
adesao do Pard A independ6ncia, a se-
cretdria de saide, Laura Rossetti, anun-
ciou que acabara de assinar conv8nio
com uma clinic particular de psiquia-
tria de Bel6m, como forma de aliviar a
pressao sobre o Hospital de Clinicas e
evitar as cenas chocantes exibidas pela
TV Liberal.
Quatro meses antes foi subitamen-
te cancelado o convenio que a Secre-
taria Estadual de Sadde mantinha com
o Hospital Divina Provid8ncia, de Ma-
rituba, para a reserve de 10 leitos como
retaguarda para pacientes do HC. O


convenio foi adotado em virtude da su-
perlotacao da emergencia psiquiatrica
do Hospital de Clinicas, a inica do
Pard. E esse excess de atendimento
resultou da crise dos Centros de Aten-
cao Psico-Social, a maioria deles ins-
talados pelo Estado, mas sob gestao
dos municipios.
Como os CAPS deixaram de fun-
cionar satisfatoriamente, a emergencia
psiquiitrica do HC teve que se desviar
das suas funS5es origindrias, de aten-
dimento dos casos de alta e m6dia
complexidade, para funcionar como
pronto-socorro. Alguns pacientes pro-
curam o hospital para receber medi-
camentos, que nao sdo fornecidos nos
CAPS. A crise da superlotacao estava
anunciada: a emergencia do HC regis-
trou 15 mil aten-
dimentos em
2005. Em 2006
foram 18.500,
70% dos quais da
area metropolita-
na de Bel6m. En-
tretanto, hi uma
restricao legal
ampliaqao dos lei-
tos psiquiitricos,
que nao podem
passar de 48
(sendo 30 pacien-
tes em internaqdo
e 18 na observa-
qao em emergen-
cia) em um total
de 240 leitos do
HC, o conv8nio
com o "Divina ProvidEncia" foi a al-
ternativa para manter o servigo. O HC
estava recebendo, em m6dia, 60 paci-
entes em 24 horas na urgencia.
Koury e Ponzi, que por virias ve-
zes tentaram a prorrogaqao do conv8-
nio ou uma nova relacao com outro
hospital, foram surpreendidos, ji fora
dos seus cargos, com a contratacao
emergencial de uma clinic particular
em Bel6m, com dispensa de licitacio.
A surpresa do director assistencial do
HC comeqou no moment em que viu
a reportagem ser veiculada pela TV
Liberal. A emissora aproveitou apenas
um trecho curto da entrevista que ele
deu, nao incluindo na reportagem ne-
nhuma das longas declaraqBes presta-


das pelo director de ensino e pesquisa
do hospital, Benedito Paulo Bezerra.
Benedito foi anunciado, quatro horas
depois, como o novo president do HC,
no lugar de Haroldo Koury.
O entdo president da fundag~o
mantenedora do HC procurou a secre-
tiria Laura Rossetti tao logo surgiram
os rumors de que o director assistenci-
al, Kleber Ponzi, seria demitido. Como
a motivagao para a media seria politi-
ca e nao t6cnica, Koury tentou comba-
t6-la atrav6s de contatos politicos. Um
mes antes do ato se consumer, ele dis-
se para a secretiria que nao aceitaria a
mudanqa porque nao fora consultado
sobre a iniciativa, revelada apenas in-
formalmente, e por nao ter restriq~o t6c-
nica ao titular da Diretoria Assistencial,
responsivel pela
coordenaqao de
todos os proces-
sos clinics. Por
causa dessa atitu-
de, Koury caiu
junto com Ponzi.
Afastadas as
pessoas conside-
radas inc6modas
pela c6pula pe-
tista na drea de
saide do gover-
no, as provid8n-
cias que eles co-
bravam sem su-
cesso (e sem
uma resposta se-
quer) da adminis-
traqo o estadual
para aliviar a pressio sobreo Hospi-
tal de Clinicas serio, finalmente, ado-
tadas? E a expectativa que fica do
epis6dio, uma trama political armada
em conluio com o grupo Liberal, atra-
v6s de sua televisao. E hi tamb6m uma
dfivida: como 6 que esse grupo petis-
ta, da Democracia Socialista, o mes-
mo da governadora, conseguiu armar
essa parceria com o grupo Liberal, se
at6 recentemente as parties estavam
desavindas? Como 6 que foi tramado
e consumado o novo acordo?
Tantas perguntas, tio poucas respos-
tas. t a regra na comunicagao piiblica
no Pard, principalmente quando envolve
interesses poderosos, como os casos dos
dois dos maiores hospitals do Estado.


Jornal Pessoal *2" QUINZENA SETEMBRO DE 2008 5









Dialogo pela Amaz6nia a


Dez edicoes do Jornal Pessoal jd estdo disponiveis no
site WWW.jornalpessoal.com.br., ndo s6 para leitura,
mas tambdm para pesquisa, graGas ao servico de
busca atravis de palavras-chave. Ainda de forma
lenta e limitada porque o espaco do journal na internet
adota a mesma diretriz da sua versdo impressa: nao
aceita propaganda. Eventual remuneraqao vai
defender da generosidade dos seus freqiientadores
nas contribuiqFes, absolutamente espontaneas.
Qualquer que venha a ser o future da pdgina, ela
preservard o acervo criado por um jornalismo
comprometido corn uma causa, a da Amaz6nia, e um
personagem, o cidaddo. 0 acesso ao JP deixou de se
circunscrever aos moradores de Belrm e


circunvizinhanca: tornou-se um patrimdnio universal.
Quem quiser, chegard a ele pela rede mundial de
computadores.
Apesar de nio ser um blog, o site jd provocou certa
interatividade. Como amostra significativa, reproduzo
a seguir algumas das mensagens postadas na pdgina.
Elas intensificam a dialitica que o journal impresso
conseguiu estabelecer cor o seu leitor, a servigo do
esclarecimento da opinido public. Quanto mais
didlogo, mais fecundo serd o esforgo de reflexdo
sobre a AmazOnia cor o objetivo de desvid-la do
destino colonial que lhe querem dar. E este o desafio
que se impr e a todos nds, que apostamos na forca da
inteligencia para fazer a hist6ria.


f rnando Zimmer Parab6ns
pela nova fase. Tenho f6 em
Deus que sua luta pelo jornalis-
mo sem "chapa branca" ha de frutifi-
car. As aq6es da Vale tamb6m cairam
fortemente e arrastaram para baixo o
indice Bovespa. Por que a "manada"
correu tanto? Ou sera apenas mais um
"daqueles" ciclos econ6micos?
Rodrigo Silva Fiquei muito sur-
preso ao ver essa reportagem [O mun-
do de Edwaldo Martins, o colunista]
e feliz tamb6m. Estou fazendo uma pes-
quisa sobre hist6ria da mdsica no perfo-
do de 65-74. E entIo acompanhei todas
essas transformagres, a homenagem de
Edwaldo a Licio Flivio, seujeito inico
de escrever a coluna social... A filtima
reportagem que li, foi a entrevista de
L6cio Flavio com Edwaldo Martins,
onde L6cio Fldvio tem aquela percep-
9qo de que as colunas sociais sao ven-
didas, mas depois, reconhece a dificul-
dade de se fazer uma coluna social. Vou
acompanhar mais essas transformages
nojomalismo paraense.
Paulo de Almeida Meu Deus!
Quanto horror e quanta maldade, pois
nao di para negar que a avareza dos
representantes politicos tem culpa nes-
te quadro patol6gico, que eternamente
p6e os interesses do poder na frente de
tudo, com resultados profundamente
dramaticos, como o raro depoimento do
Lficio Flavio Pinto retratou, sem o vicio
comum que tora a midia tao parcial e
tendenciosa.
Marcos Teixeira Temos em Be-
16m um cendrio bastante curioso a res-
peito das eleiq6es, cada candidate corn
suas qualificaq6es e desqualificaqbes.
Podemos optar pelo improbo, e incom-
petente Dudu, que s6 pelo fato de ser


tao mal assessorado ji o faria sucum-
bir. A respeito dele: como pode achar
que uma foto tirada pelo RR Duran pode
livri-lo do inevitivel, a execraqao pi-
blica? Quanto a nossa nada, nada sau-
dosa Val6ria (Vic), que, al6m de bela,
parece ser uma administradora nata,
pois, conseguir comprar um apartamen-
to, no qual mora, em um dos mais cars
edificios de Bel6m, ji denota que essa
menina vai long. Mas quais seriam os
adjetivos que poderiamos atribuir a ela?
Certamente os mesmos que poderiamos
atribuir ao seu marido, Vic Pires Fran-
co, que, como todos sabem, nao sao nada
abonadores. Priante, este tamb6m 6 um
perigoso candidate, nao para ganhar,
pois, propostas, certamente, ele s6 teri
aquelas que concerned a mudar nomes
de aeroportos, mas pelas pessoas que
v8m com ele, se 6 que me entendem.

wuanto ao Mario
Cardoso, uma amiga
que trabalha con ele
disse que a receptividade
ao candidate e muito boa,
mas com aquela cara
de bom velhinho, e con
a consciencia de Ana
Jilia, ou seja, "coisas
ruins, melhor se afastar".
Aqui,, cito o caso da greve dos profes-
sores, que, a despeito de pertencerem
a mesma categoria do educador Mi-
rio, este ficou inerte diante do proble-
ma da sociedade. Jordy, que outrora
apoiou Almir, e posa de bom mo0o, pa-
rece ser algu6m que conhece profun-
damente nosso municipio, mas podera
padecer do mesmo mal de Ana e Dudu,
qual seja, ficar perto de assessores


competentfssimos, 6 o que eles acham.
Marinor represent uma candidatura
6tica, mas sem prop6sitos, nao di para
goverar sem se saber como, e quem
do PSOL vai auxilia-la? O pessoal do
DCE?
Renato Gimenes O que mudou?
Sim, existe a covardia, sem diivida, mas
6 isso apenas? Ha que se perguntar
sobre o que se transformou a carreira
dejornalista, suas possibilidades de atu-
agao e quais os canais a partir dos quais
ele pode falar. Estar em um grande jor-
nal significa ter que aceitar as imposi-
96es da chefia de redagao, do dono do
jomal e dos assinantes, em troca de um
salirio, exposiqao e fama. De alguma
forma o jornalista hoje se transformou
em "celebridade". Isso talvez seja ain-
da mais danoso que a (auto)censura
pr6via do jornalista, ou a censura de-
clarada do pr6prio journal. Infelizmente
a liberdade de opiniao, de imprensa e
de pensamento existe na media em que
umjomal nIo depend do financiamen-
to de "x" ou "y" para sobreviver. Essa
me parece ser uma questao crucial hoje
em dia. Assim, palmas para o Jornal
Pessoal, que conseguiu seguir a trilha
da independ8ncia de escrita, de pensa-
mento, se constituindo em um dos pou-
cos empreendimentos no qual a liber-
dade 6 a razdo de tudo.
Montezuma Cruz Muito agradi-
vel ler o JP cor essas entrelinhas que
facilitam a apreciaq~o de quem ter al-
guma defici8ncia visual. LUcio, reitero-
Ihe o bom gosto na escolha dessa fonte
e os cumprimentos ao Luiz Pinto pelo
alicerce da imprescindivel ilustraqSo.
Leio e releio cor gosto. Apreciei tam-
b6m correr o Google e ver o seu reen-
contro cor Clara Pandolfo. Estao sim-


a SETEMBRO DE 2008 .20QUINZENA Jornal Pessoal









gora atraves da internet


paticissimos na foto. Saide para am-
bos e 6xito!"
Ana Priscila Nunes t lastimavel
saber [atravis da materia sobre a cri-
se da Santa Casa] que existed jora-
listas desumanos, assim como os edito-
res desses jornais, que, ao inv6s de
amenizarem, causam mais panico na
populaqao. E o mais desagradivel 6
saber que tudo isso por interesses mer-
cadol6gicos. E os debates sobre politi-
ca de seguranga ptiblica? Seriam bem
construtivos em cadernos policiais. Mas
parecem ser menos importantes. Que
tipo de opiniao pode ser formada numa
mat6ria que privilegia o "qua" e nao o
"como" ou "porque" de tanta viol6ncia?
Paulo de Almeida "(...) A usina
serai base de carvdo mineral importa-
do, um dos processes mais poluidores que
ha. A16m de anunciar o uso da tecnolo-
gia mais limpa que existe, a Vale argu-
menta em defesa do seu projeto que nao
hi alternative no prazo que Ihe interessa
(...). Se outros grandes projetos do pas-
sado mao desenvolveram de fato o Pari,
estes novos projetos mudarao essa his-
t6ria?" Da agonia ler um neg6cio deste,
principalmente porque a resposta esta
mais nitida do que a pergunta... Mas por
outro lado, 6 um alivio contar corn um
Licio Flavio. Francamente. Pois se al-
gu6m ilumina as trevas, acredito que 6
s6 uma questdo de tempo at6 que este
impulse venha se materializar.
Arthur Dias Fico sinceramente
preocupado pelo fato de que pouca ou
nenhuma repercussao ha, destas and-
lises que voc8 constantemente traz a
respeito de mineraqdo, energia e de-
mais stores industrials no Pard. A nos-
sa intelectualidade parece mais interes-
sada em tratar do varejo, com pregui-
9a ou em defesa de uma conveni8ncia
pessoal. Nao ha um ndmero significa-
tivo de debatedores capacitados a
abordar estas quest6es em p6blico, e
esclarecer as pessoas. NIo 6 natural
que uma empresa sozinha vire o "bo-
nequeiro" do governor. Mas 6 o que
vemos na propaganda da Vale, aquele
nariz empinado do Agnelli, a Ana Jdlia
e o Lula corn aquele sorriso subservi-
ente. E revoltante! Quando teremos
gente corn vontade de estudar a mine-
raqao em seus aspects t6cnicos e mais
ainda politicos? Quando teremos con-
dig6es de confrontar o gigante que nos
escava as entranhas?


Por falar em gigante, lembro de
uma hist6ria contada pelo meu profes-
sor de Ciencia Politica: ele falava de
um grande cientista (nao lembro o
nome), que ao receber uma premia-
qdo por seu trabalho, agradeceu e de-
clarou que "Se vi mais long, 6 por-
que estava nos ombros do gigante",
naturalmente, referindo-se ao conhe-
cimento acumulado pelos seus prede-
cessores. Tempos depois, outro cien-
tista, ao receber o mesmo premio dis-
se: "Se pude ver long, 6 porque es-
tava cercado de anoes..." Lidcio, em-
bora nao seja nada lisonjeiro para o
nosso Estado, acho
tern muito anao es-
palhado em volta da
sua cadeira... -
MINHA RES-
POSTA
Infelizmente,
sua constataqdo e
correta. Onde se
escondeu o intelec-
tual public? Onde
estdo os academi-
cos que recebem o
saber universal
nas universidades A'
para usd-lo em be-
neficio do conhe-
cimento da socie-
dade e da resolu-
~ao dos seus pro-
blemas? Por que
pessoas qualificadas fogem dos te-
mas candentes, graves e perigosos
- e justamente por isso vitais? Hd
circunstancias que explicam esse si-
lencio ominoso. Sua marca princi-
pal, porem, e a covardia, o medo
de desafiar e desagradar podero-
sos, de enfrentar e contrariar os in-
teresses dominantes. A dimensao
desses homes e a que voce retra-
ta, como a retratou Haroldo Mara-
nhdo em Os An6es.
Marcelo Bastos Nao cabe aqui
um estudo mais detalhado sobre sua
contribuiqIo nesse debate sobre o pa-
pel da imprensa e sobre o agendamen-
to que a pr6pria imprensa o faz sobre
a pauta political da cidade. Contudo,
devemos ter um olhar mais human e
pr6ximo da vida de milhares de pes-
soas, que, assim como eu, se esforqa
para sonhar por uma cidade mais ci-
dada, e lendo seus comentdrios fica a


questao se isso 6 possivel. A liberda-
de de imprensa ja 6 uma conquista,
mas jd passou da hora de novas con-
quistas, como, por exemplo, o direito
a uma vida saudavel, a escolas p6bli-
cas cor qualidade no ensino, o direi-
to a se alimentar cor dignidade. Gos-
taria que para al6m das critics, que
sao importantes, pud6ssemos tamb6m
pensar, como livres pensadores que
somos, soluqCo para tais situaq6es, se
nao corremos o risco de cair no va-
zio. Criticas, por mais que sejam fru-
to de uma andlise mais elaborada e
metodologicamente construidas, se
perdem sem a pos-
sibilidade de serem
executadas e dire-
cionadas em outro
sentido. Ji faz mui-
to tempo que a ci-
8ncia foi postulada
como iniciativa hu-
mana, nao pode-
mos mais retroce-
der. Precisamos de
soluq6es!
MINHA RES-
POSTA
Tenho feito um
'i esforqo atraves do
JP para apresen-
tar sugest6es e
proper solug6es.
Se voce reler os
exemplares do jor-
nal encontrard essa agenda. De
1996 para cd, por exemplo. Urma
dessas sugestoes ate a governado-
ra Ana Jdlia, quando vereadora,
incorporou num projeto de lei na
Camara Municipal, que, infeliz-
mente, nao prosperou. Era para a
criaqao da Empresa Municipal de
Neg6cios Imobilidrios, que seria
encarregada de recuperar a parte
histdrica da cidade, comprando
imdveis abandonados de valor his-
torico, recuperando-os e recolo-
cando-os no mercado. Para isso
contando com o apoio da prefeitu-
ra. Gostaria que alguem se dispu-
sesse a levantar todas as propos-
tas feitas por este journal e as sub-
metesse a uma andlise critical para
testar sua consistencia e competen-
cia. 0 inventdrio talvez surpreen-
da quem costuma fazer observa-
Ces apressadas e superficiais.


Jornal Pessoal *2 QUINZENA SETEMBRO DE 2008









Em 1956


ADVOGADOS
A leitura da ata da ses-
sao do seu conselho seccio-
nal de margo mostra o que
era entao a Ordem dos Ad-
vogados no Para meio s6cu-
lo atris. O president era
Aldebaro Klautau. Eram
conselheiros: Emilio Martins,
St6lio Maroja, Paulo C6sar
de Oliveira, Oswaldo Trin-
dade, Otavio Meira, Egidio
Sales, Alarico Barata, Ar-
mando Mendes, Orlando
Bitar, Abel Martins e Silva,
Otivio Mendonga e Cl6vis
Ferro Costa. Foram admiti-
dos provisoriamente como


advogados nessa sessao:
Alberto Fares Akel, Alcin-
do Barbosa, Roberto San-
tos, Paulo Meira, Camilo
Montenegro Duarte, Eduar-
do Grandi, Ubiracy Cuoco e
Geraldo Dantas. As repre-
sentacges contra advogados
eram apreciadas em sessao
secret, mas a OAB nao so-
negava os nomes das par-
tes na demand, como ago-
ra se faz, nem as delibera-
c6es adotadas, conforme a
pritica nos processes judi-
ciais, exceto pelas exceqces
cabiveis e previsiveis na
letra da regra.


CONTRABANDO
O funcionirio piblico
Walter Sarmanho Freitas
devia acreditar em Papai
Noel. Foi uma hist6ria desse
tipo que ele contou atrav6s
de um protest judicial que
apresentou no f6rum de Be-
16m. Estava bem posto em
sua casa quando recebeu te-
lefonema an6nimo denunci-
ando-lhe que, as proximida-
des da Usina Bitar, em Mos-
queiro, "existia, semi-oculta
no mato, uma partida de mer-
cadorias, provavelmente
'whiski', ali ilegalmente de-
sembarcadas".
"Induzido pelo noticiario
dos jomais", que tomaram
pfblica "a existencia de vul-
toso comrrcio clandestine,
nesta regiao, com o exteri-
or", Sarmanho decidiu cum-
prir uma missed cfvica: fre-
tou uma lancha, contratou
alguns braqais e, as suas cus-
tas, tomou o rumo de Mos-
queiro para apreender a mu-
amba "e entregi-la As auto-
ridades competentes". Foi
"sem grande dificuldade"
que encontrou os volumes.
Tratou de lavrar "o compe-
tente Auto de Apreensao",


ap6s o que voltou com o con-
trabando para Bel6m. Cochi-
lava na viagem de volta,
quando foi abordado por uma
lancha daAlfandega e, com-
provando tratar-se de auto-
ridade competent, repassou-
lhe a carga.
Eis que, ao ler os jornais
de dias seguintes, foi o dili-
gente cidadao surpreendido
com a publicaqao de um edi-
tal da Alfandega, "no qual
figuravam como apreenso-
res os funcionirios da fis-
calizaqao" e ndo ele pr6-
prio, o verdadeiro descobri-
dor. Tratou entao de ajuizar
o protest, "para a conser-
vagqo dos seus direitos"
como apreensor, fazendo
jus, na forma da lei, "a subs-
tancial parte do valor dos
generos apreendidos".
Nao deixaria de ser um
present de Papai Noel, ain-
da que fora de 6poca, como
se tomaria comum na Bel6m
de entao.

CINEMA
O Cine Paraiso, que o
comerciante Manoel Morei-
ra colocou para funcionar na
avenida Pedro Miranda, no


PROPAGANDA

Vereador de 1962
A eleigqo municipal de 1962 foi a fltima que se realizou antes dofim da 4aRepfiblica com o golpe military de
1964, que depos o president Jodo Goulart e instalou o mais long regime de excecdo. Vicente Queiroz disputava
a reeleigdo, cor o titulo de "o vereador mais legislator e mais positive do ano", que lhefoi conferido pela
"bancada da imprensa" na Cdmara Municipal de Belim. Era candidate "baratista ", do Partido Social
Democrdtico, o PSD das raposas political. Depois se elegeria deputado e encerraria sua vida pablica como
conselheiro do Tribunal de Contas.


A Bancada da Imprensa na Camata Municipal, escolheu o Vereador mais
Legislador e mais Positivo do Ano:

VICENTE QUEIROZ oun. 2615
Escolha-o tamb6m para sen candidate a

VEREAD OR
P. S D.


SETEMBRO DE 2008 .2 QUINZENA Journal Pessoal


IVlg~RVI DC?








































bairro da Pedreira, sofreu a
acao dos vandalos oito dias
depois de inaugurado, em
margo: a cortina que prote-
gia a tela (ou 6cran) foi ras-
gada, algumas cadeiras da-
nificadas e quebrada uma
lumin.ria a gas neon. Dois
marmanjos foram press
pela policia, autuados e obri-
gados a pagar pelo prejuizo.
A fiscalizagao policial se tor-
nou mais rigorosa a partir daf
contra a molecagem.

TRANSIT
A Delegacia Estadual de
Transito "tem sido sempre
mal vista", em virtude do
fato de que "os donos ou
motorists de veiculos pro-
curam subornar, com propi-
nas", os seus funcionarios,
"a fim de nao serem puni-
dos nas faltas cometidas no
trinsito e poderem livremen-
te infringir os regulamentos
desse setor". Por isso, Ben-
tes Cotta, fiscal rondante da
delegacia decidiu avisar pela
imprensa os proprietarios de
transport coletivo e de car-


ga "que nao autoriza, verbal
ou escrito, a elements da
DET ou estranhos a ela, a
receber qualquer importan-
cia em dinheiro".
Naturalmente, essa cor-
rupqao acabou de vez a
partir daf.

ANUNCIO
Interessante anincio na
seqao de classificados da
Folha do Norte: "Sebastia-
na Bento Siqueira, mae da
menor Maria Siqueira da Sil-
va, precisa falar com essa
senhora na presid8ncia da
Caixa Econ6mica". Tao
enigmitica comunicaqao
teri proporcionado o encon-
tro? O que dele resultou?
Mist6rios em uma cidade
pequena e cheia de manhas.

LADROES
O contumaz meliante
Arigozinho demorou, mas
acabou confessando na
Central de Policia, depois
que foi preso pelo capitao
Camilo Torres, que penetrou
na resid8ncia do doutor Ed-


FOTOGRAFIA

A cidade primitive
Esta e umafoto rara de Belim aproximadamente em
1910. No auge da borracha, ainda era uma cidade
pequena e modest, elevada de categoria por
monumentos erigidos gracas a exploracdo da seringa,
como o Teatro da Paz, aofundo, isolado em sua
majestade numa praga ainda em mutaqao e numa
avenida em delineamento, a entdo 15 de Agosto (atual
President Vargas). Hd modernidade urbana nos
espinhacos de terra-firme fronteiros aos alagados
ainda ndo ocupados. Afotografia e do acervo da
familiar de Jayme Ovalle e foi publicada no livro Santo
Sujo, a biografia escrita sobre o estranho personagem
por Humberto Werneck, com a marca de qualidade da
editor CosacNaify. Livro a comentar


gar Proenga, na avenida
Serzedelo Correa, para fur-
tar j6ias. Devolveu algumas
delas: uma pulseira de pau
d'angola, um anel de ba-
charel cor a inscrigao "Ed-
gard-1932", um anel de
ouro com pedra marinha e
um broche de ouro com
pedra de brilhante.
Ja o lunfa "Rei dos Pis-
saros" foi preso no meio da
rua, quando, por infelicidade


sua, cruzou com o mesmo
delegado (titular da famosa
DIC, Delegacia de Investi-
gaqSes e Capturas), que lhe
deu voz de prisao no ato.
Carregava o ladrao: uma cai-
xa de material cirirgico, tr8s
chaves de boca, uma chave
inglesa, uma chave de fenda
e uma porca de metal.
A fase da bandidagem era
risonha e franca, se compa-
rada aos padres atuais.


Jornal Pessoal *2 QUINZENA SETEMBRO DE 2008 9


CO.TIDIANO













JORNALISTAS
Participei do VI Congresso Estadual dos
Jornalistas, promovido pelo Sindicato dos
Jornalistas do Estado do Part (Sinjor), no inl-
cio de agosto, no Hangar- Centro de Feiras e
Conven(;es da Amaz6nia (verJornal Pesso-
al ng 424). Deixo algumas reflexes sobre o
event e o que presenciei nele. O inusitado
do encontro foi, sem devida, o que aconte-
ceu no segundo dia: a aparigio de cerca de 50
pessoas ligadas a diversos movimentos soci-
ais, como a Via Campesina, Abrago, MSTe Mo-
vimento Estudantil. Eles protestavam contra
a imprensa, em especial contra a Rede Globo.
O grupo entrou no audit6rio no inicio da
palestra de L6cia Leao, paraense que 6 edito-
ra-executiva doJornal Hoje, da Rede Globo.
Ao notar os primeiros cartazes sendo aber-
tos, ela fez o seguinte comenttrio: "Que mei-
gol". Em seguida, retirou-se do local [opresi-
dente do Fenaj, Sdrgio Murillo, tombdm se
retirou do audit6rio nesse moment. LFP] e,
no seu lugar, representantes dos movimen-
tos comeraram a falar. Reclamaram exemplifi-
cando cor algumas situacses especificas
da programaago da Globo e de sua represen-
tante local, a TV Liberal, como o fato de
passarem uma imagem "mentirosa" do Pard
e dos movimentos sociais.
Mesmo sem o som do microfone, cortado
imediatamente pela direggo do Congresso, o
grupo prosseguiu. Mais de umavez, com a ajuda
do coro dos demais participants da manifes-
ta;ao, foram solicitados microfone e espaco
para falar. Eles pediram, inclusive, para compor
a mesa junto cor a palestrante. Em resposta,
uma pessoa da diretoria do Sinjor falou que o
grupo estava desrespeitando o espago de "tra-
balhadores" como eles. Esta pessoa pediu si-
lencio para poder falar, o que foi conseguido
corn a ajuda dos pr6prios integrantes
dos movimentos. Depois de falar, porem, a re-
presentante do Sinjor interrompeu, aos gritos,
a fala do grupo. Depois disso os manifestan-
tes deixaram o espaco.
LA fora, como soube pelos jornais da cida-
de, uma part do grupo foi levada a delegada,
mas liberada depois de algumas horas. O mo-
tivo foi uma acusagao de depredagio do pa-
trim6nio piblico, o que naofoi comprovado.
Em nota, o Sinjor declarou que "trabalhado-
res agrediram outrostrabalhadores". Conver-
sando com alguns estudantes que participa-
vam do Congresso, depois do ocorrido, ma-
nifestei minha opinito contrdria a da maioria
deles, e disse que, cor algumas ressalvas,
apoiava o movimento e repudiava a maneira
como o grupo foi tratado pelo sindicato. Foi
quando uma pessoa da diretoria do Sinjor
(nio sei se da antiga ou da nova, pois alguns
permaneceram na composigao atual), come-
gou a gritar comigo.
Do que eu lembro, entendi que ela
dizia que, se eles queriam se manifestar, que
procurassem antes o sindicato e marcassem
uma pauta. Ate hoje nao consigo acreditar,
por mais quetente, que oSinjor colocaria na
mesma mesa representantes dos movimen-
tos sociais e da Rede Globo. Mesmo que co-
locasse, tenho grandes dividas se a Globo
compareceria. Ou seja, penso que a maneira
que eles encontraram para se manifestarfoi a
relatada, ji que nio tem vez na grande midia,
a qual, alem de ajudar a marginalizd-los, rara-
mente abre espaco para boas noticias sobre
o Part. Atd a Vale foi convidada para falar de
seus projetos, entretanto, o sindicato nio
convidou nem um representante de movimen-
tos sociais, esquecendo inclusive de parcei-
ros hist6ricos, como a Associatio Brasileira
de Radios Comunitbrias (Abraeo) e a Executi-
va Nacional dos Estudantes de Comunicacio
(Enecos).
Ouvi um estudante comentar que os movi-
mentos agem assim para "aparecer" na midia.
Mas se eles nio acham outra forma de conse-
guir espago na midia, farlo o qut, marcarao
pauta cor a direcao dosjomais e das revistas?
Esperarao o Sinjor convidd-los? Nao
consigo entender a nota do sindicato, a


qual faz refertncia ao "desrespeito ao even-
to" e a "agresslo" que uma trabalhadora, LO-
cia Lelo, sofreu.
Natelevisio, durante entrevista dada a uma
TV, uma estudante de jornalismo falou que
sentiu medo e que o Hangar deveriater mais
seguranca. A primeira coisa que foi esclaredda
pelos manifestantes, 6 bom lembrar, foi que a
manifestagio era pacifica. Eles fizeram ques-
tao de falar e repetir isto. E, alem do mais, nao
havia faca ou arma na mao de ninguem. 0 que
serd que deu medo na estudante? E quem sers
que a seguranca do Hangar deve barrar? Pes-
soas negras ou, quem sabe, mal vestidas? Ouvi
falartambdm que a indignagCo da direcio do
event era pelo fato dos manifestantes terem
invadido o espago alugado para o encontro.
Mas e a Globo e outras emissoras, nio agri-
dem e ofendem constantemente estas pesso-
as com informag es irreais, cor matdrias que
nao ouvem devidamente todos os lados das
hist6rias? Sers que nio A principalmente por
esta image que a midia pass que a estudan-
te de jornalismo sentiu tanto medo?
A nota do Sinjor, para usar a mesma expres-
sio do sindicato, me agride enquanto cidade e
jornalista. Nao consigo conceber que, em um
espaco onde se discutetemas como liberdade
de expressio, regulamentagao da
profissao, qualidade do jornalista paraense,
desafios do fazerjornalistico na Amaz6nia, o
papel do jornalista e da imprensa na socieda-
de, movimentos socials hist6ricos de luta nio
tenham tido espago ao menos para falar com
dignidade. Nao consigo entender como, em um
encontro que, na vespera, destacava a impor-
tAncia do jornalista se colocar na posiglo dos
entrevistados para sentir o que eles sentem
(no caso, a povo paraense e amaz6nida), no
dia seguinte mostra este cendrio. Um encon-
tro que, inclusive, teve comotema "OJornalis-
mo na Amaz6nia: Novas Tendencias e Desafi-
os".
Talvez eu consiga entender melhor o incom-
preensivel do que presenciei no dia 2 de agos-
tose lembrar que em um event programado
para discutir o papel fundamental dos jorna-
listas diante das problemrticas de uma das
maiores pautas da atualidade, a Amaz6nia, um
dos grandes conhecedores do assunto, o jor-
nalista L3cio Fldvio Pinto, teve que fazer mila-
gre para falar sobre a realidadejornalistica na
Amaz6nia junto corn mais quatro pessoas -
que somavam cinco, sendo que uma faltou.
Sert que o jornalista nio merecia, ou melhor,
sert que n6s nio mereciamos, uma mesa
temttica tendo ele como expositor, como as
demais mesas do encontro? Ou, ainda, o L6-
cio FIlvio poderia dispor de mais do que al-
guns minutes e dar uma palestra de cerca de
uma hora, nos moldes da que estava prevista
para a jornalista Ldcia Leio.
Talvez, ainda, as respostas estejam tambem
nofato de que as universidades estejam for-
mando apenas tcnicos nesse sentido, con-
cordo com a opiniio defendida por alguns de
que ojornalista precise, principalmente, de for-
magto humanistic. E os jornalistas, por que
nio participaram do encontro? Se na sexta-
feira estavamtrabalhando, cor certeza, no s-
bado, muitos nio estavam.
Apesar de todos estes absurdos, penso que
o maior paradoxo de um congress que tem
comotema SoltaTuaVoz justamente no abrir
espago suficiente para os debates e para a voz
das classes mais excluidas socialmente. Se a
gente fazia uma pergunta, por exemplo, nao
poderia falar depois da resposta do palestran-
te, pela questio do tempo reduzido para os
debates.
Ao final do encontro, houve a posse sim-
b6lica da diretoria. Cor a mesma expression
utilizada, na oportunidade, pela nova presiden-
te, Sheila Faro, durante seu discurso de posse,
por estas e outras "cagadas" que nao preten-
do me sindicalizartgo cedo. Que o inusitado
ocorrido durante encontro sirva ao menos de
alert a nova diretoria e atodos n6s sobre os
reals desafios da profissao e da
Amaz6nia. Enquanto isso, vou soltando minha
voz por aqui mesmo, e, pedindo emprestadas
as palavras do mestre Ismael Guiser (profes-
sor e core6grafo falecido no inicio deste
ano), recarregando minhas energies corn jor-


nalistas ou estudantes que possuem brilho
nos olhos, tenacidade, seriedade, e, acima de
tudo, um amor imenso pelo jornalismo.
Luciane Fidza de Mello

JOURNAL
Fico matutando se as adversidades que
pesam sobre a sua pessoa acabam por ser um
grande impulsionador da sua produc~o. Dos-
toievski pariu ojogadorem uma semana para
honrar uma divida. Gramsci, ainda que encar-
cerado, insistiu em produzir. E que bela produ-
aio, que ainda necessito visitarcom mais aten-
glo, principalmente o principio da hegemonia.
Sade seguiu a mesma linha. Plinio Marcos fez
do seu teatro um ato politico de alinhamento
aos marginalizados da urbe. E nio bajulou nin-
gudm. Vendeu seus livros na pr6pria rua
Assim como a fez/faz o jovem paulistano
Ferez e tantos outros que nao ocorrem agora.
Chega a ser surpreendente a manutengto do
Journal Pessoal, que ora soma 21 anos e a pu-
blicagso dos livros. Ao mesmo tempo em que
enfrentas a pelejajuridica. Em simultSneo mo-
vimento, creio que com a colaboragao de ou-
tros/as, o JP ganh a oplaneta atrav6s de inser-
gao do dito mundo virtual. As modestas linhas
sio uma singela homenagem pelo seu traba-
Iho. Embora muitas vezes discord das suas
andlises. Como o artigo que tratou sobre a cri-
minalizageo dos movimentos sociais. Avalio que
e a seiva da parcialidade que nutre oJudicirio.
E desde o tempo de col6nia ter sido a poder
da grana o vitorioso. Veja a cena de crimes im-
punes contra trabalhadores rurais e seus sim-
patizantes e assessores/as. O n5mero de man-
dantes presos...
RogerioAlmeida

MINHA RESPOSTA
Rogdrio podia citar Balzac, por si acor-
rentado 6 coma para powder escrever sem
descanso, e outros exemplos de como cir-
cunst6ncias desfavordveis, que impuseram
sedentarismoforgado, acaboram porfavo-
recer a atividade criativa de certos intelectu-
ais. Se continuosse a atuar como politico,
Gramsci teria tido tempo para escreverseus
fecundos cadernos do cdrcere? Por outro
lado, se ndo tivesse enfrentado as agruras
do cela dofascismo de Mussolini, ndo teria
durado muito mais? E ndo d a liberdade o
grande fermento do criagdo e osolda video .
ccloro que ndo coibo na comparaoao, exce-
to pelos abuses do generosidade do Rogd-
rio. Ndo posso de um jornalista, um operd-
rio dos palavros (a bengdo, Vinicius de Mo-
raes) em seu oficio professional. Meu traba-
Iho s6 de destaca pelo silAncio em volta dos
graves temas que abordo nestejornal. Afalta
de eco ndo A efeito do irrelev6ncia dos ques-
tbes, masfungdo do omissdo dos intelectu-
ais, que renunciarom e estdo a renunciar a
suafungdo pdblica, reduzidos oo minimo eu
dos seus curriculos e obras. Ate como retri-
buigdo ao que receberam do noado, na for-
ma de preporao~o ocadmica, bolsas e ver-
bas outras, tinham que comparecer ao cha-
mado do realidade e monifestor suas opini-
des, em especial as divergentes, que geram
luz atraves do dialttica do confront em
busca do verdade.

VALE
Brilhante a matdria de capa do JP 424 [Ri-
quezas: nossos ou deles?]. VocA, mais uma
vez, consegue de forma clara e objetiva dar a
dimenseo do que significa a Vale para o Pard.
Gostaria, em especial, de fazer uma reflexao
sobre a qugo grave e nossa incapacidade em
lidarcom a Vale. Chamou-me a atengio ofato
da companhia estar httres anos aguardando
uma licenga ambiental da Sectam e e a partir
deste ponto 6 que faco minha reflexio.
Questiono-me sobre qual o horizonte de
tempo que levariamos para superar nossa le-
targia (e aqui incluo politicos, tdcnicos, em-
pres6rios e etc.), notrato com a Vale. Parece-
me que a incapacidade notrato corn a Vale no
6 s6 political, para tragar uma estrat6gia de de-
senvolvimento para o Estado, mas tamb6m (e
certamente) dos nossos tccnicos espalhados
pelas diversas secretaries dos governor (esta-
dualemunicipais).


Fago essa afirmativa a partir de uma breve
experincia que tive Afrente da Superintendtn-
cia de Desenvolvimento Econ6mico (SUDES)
do Banpart. Alguns projetos de viabilidade eco-
n6mica de empreendimentos financiados pelo
Estado foram analisados "conjuntamente"
pelos ttcnicos do banco e da empresa de con-
sultoria Ernst Young. Era perceptive a grande
diferenga entire as duas antlises. O banco cal-
culava tres ou quatro indicadores de viabilida-
de, os mesmo usados hA decadas. O uso des-
ses indicadores, embora aceitos atualmente,
carecem de ressalvas e de complements a fim
de amenizar as restrigbes. Era essa uma das
virtudes nas antlises da Ernst Young: traziam
mais informagSes e novas tecnicas, ainda dis-
tantes do nosso universe de conhecimento.
Nio demorou muito para que a banco apenas
referendasse os relat6rios da consultoria, in-
cluindo o seu nome como se dele tivesse par-
ticipado ativamente. Nao quero dizeraqui que
o relat6rio "importado" fosse perfeito, mas
sim que demonstrava nossa desatualizagao
tecnica ante ao que se praticava no mercado.
Ressalvada a falta de iniciativa de tecnicos que
nio procuram se atualizar por conta pr6pria,
esse pequeno exemplo denota a desatualiza-
gao dos nossos profissionais.
Mas, enfir, a partirda realidadequevivi me
pergunto: como os tcnicos da Sectam avali-
am as informagbes repassadas pela Vale? Esta-
riam os corpos tdcnicos do Estado e da empre-
sa em pd de igualdade para o debate? Chego 6
triste concluso de que a incapacidade politi-
ca e s6 a ponta do iceberg que salta aos olhos.
O que levaria maistempo, former politicos com-
petentes ou tdcnicos habilitados?
Adilson Freitas

MINHA RESPOSTA
O leitortoca num ponto sobre o qual este
journal insisted h6 anos: a desproporgao de mei-
osentre ura grande empresa, a maiordasquais
ea Vale, e o ente pdblico, responsavel porfis-
calizar, regular, avaliar, controlar, se relacionar
e, eventualmente, se associar a essas empre-
sas, que estio na ponta da linha do process
produtivo. O Estado precise de ossatura e den-
sidade tecnica para poder se mover politica-
mente. As vezes a qualificagio dos seus servi-
dores 6 uma decisdo political, que vem de cima,
por um ato de esclarecimento e lucidez. Mas
h6 moments em que ela deve emergir, como
resultado da pressao dos funcionarios, que
assume sua func8o political, pressionando
os dirigentes atd que eles saiam da letargia e do
despreparo. Infelizmente, o Pard carece dos
dois movimentos. Aformaego de quadros se
estiola no aparelhamento do Estado por pes-
soas em busca de status ou usufruto pessoal.
Viagens ao exterior e comparecimento a en-
contros academicos sio monopolizados por
gente que estd se passage pela carreira p6bli-
ca, gragas a relatges de compadrio e fisiologis-
mo. Bens preciosos, que deviam irrigar a qua-
lificaglo do pessoal tdcnico do setor p6blico,
sao drenados ou dilapidados por ocupantes
de cargos de diregio sem compromisso cor a
causa pbblica. O resultado? As empresas se
beneficiam do seu gigantismo e o Estado 6 um
David ser a parceria divina para enfrentar o
desproporcional Golias. Nio hb final feliz nes-
sa alegoria.

SITE
Meus parabens com a entrada no Internet.
Gostei muito saber que agora o JPtem seu site
onde o mundo inteiro pode consultar seu
conteudo. Para quem nio mora no ParA isso
vai ser de grande importlncia. Possivelmente
tambdm, para quem mora nos confines do Pard.
Almr disso, para todos e important poder
consultar materials anteriores.
A Internet, como o cellular, parece ser uma
destas tecnologias que, por sua pr6pria natu-
reza, vem mais por bem que por mal. Aumenta
as possibilidades da democratizagvo. Pois, o
JPtinha que estar al. Agora estdl
Colocartudo no Internet vai ser um grande
trabalho. Oxald, vai conseguir.
Se for necesssrio: guardei os arquivos dos
JP's (362 408) que tive a sorte de receber
pelo correio eletr6nico.
Johannes van Leeuwen


Jom al P essoal DiagramagAo e ilustraq6es: L. A. de Faria Pinto Contato: Rua Aristides Lobo, 871 CEP: 66.053-020

Editor: Lcioo FlIvio Pinto Fones: (091) 3241-7626 E-mail: jornal@amazon.com.br Site: www.jornalpessoal.com.br




10 SETEMBRO DE 2008 .2 QUINZENA Jornal Pessoal








Visao de banqueiro


O paulista Olavo Setubal ji era um poderoso banqueiro
quando, sozinho, passou em 1982 por Bel6m, indo e vindo de
Monte Dourado. Foi um dos 22 empresirios pressionados
pelo entao todo-poderoso ministry Delfim Neto para assumir
as pressas o control do Projeto Jari. O milionario americano
Daniel Ludwig, que conduzia o empreendimento desde 1967,
se recusou a pagar as primeiras parcelas do empr6stimo que
a Ishikawajima Ihe dera para construir no Japdo, sobre plata-
formas flutuantes, como se fossem navios, uma fibrica de
celulose e uma usina de energia, que transportaria pelos ma-
res e instalaria no Jari. Como o tesouro national era o avalis-
ta, teria que honrar o compromisso e executar Ludwig, esta-
tizando seu polemico imp6rio nas selvas. Horrorizado com
essa perspective, Delfim tratou de convocar A missao civica
empresarios amigos, em especial empreiteiros, vorazes cli-
entes do erario, incapazes de lhe dizer um nao.


Os espigoes de concr


Todos cederam e subscreveram parte das acqes no escu-
ro. Setubal foi o 6nico a se deslocar A jungle para ver o
esp6lio com os pr6prios olhos. No retorno, disse, sem meias
palavras, que o neg6cio era ruim, nao ia dar lucro. Logo, nao
interessava a um banqueiro. Havia um component de prag-
matismo capitalist e avidez financeira no diagn6stico, mas
ele acertou na mosca. O neg6cio, nacionalizado, s6 se man-
teve porque o Banco do Brasil e o BNDES irrigaram com
algumas centenas de milh6es de d6lares os capitalistas bra-
sileiros que substitufram Ludwig. Setubal, pensando no pr6-
prio bolso, antecipou o que ocorreria. Preferiu ficar de fora,
assumindo o risco de desagradar a Delfim.
Um item a mais na sua biografia, que os necrol6gios nao
registraram, quando o banqueiro se foi, na semana passada,
aos 85 anos, por desconhecerem o epis6dio ou preferirem nao
lembri-lo. Mas o criador do Ita6 bem que merecia o registro.


eto Nosso chef


As obras das torres g8meas Sun e
Moon foram retomadas hi duas sema-
nas, depois de uma paralisaqCo de cin-
co meses, e serao concluidas em abril
do pr6ximo ano, anunciou o president
da empresa responsivel, Rodolfo Ishak.
Ele desafiou qualquer pessoa a apre-
sentar um document atestando proble-
mas estruturais nas duas construg6es,
que, segundo boatos correntes na cida-
de, teriam sido a causa da suspensao
dos serviqos. A Construtora Village da-
ria um apartamento ao
autor da faqanha, saben-
do que se trata de mis-
sao impossfvel. Na ver-
dade, as obras ficaram
paradas a espera de
uma de suas novidades,
as pastilhas de vidro que
serao aplicadas a facha-
da. Antes, era precise
fazer o reboco das pa-
redes, tarefa assumida pelo fabricante
das pastilhas especiais, e ji em anda-
mento. Tudo mais nao passaria de boa-
tos, criados ou alimentados pela concor-
rancia invejosa.
Como os concorrentes permanecem
calados, 6 de se esperar que as aleivo-
sias cessem, deixando de atrapalhar o
ritmo das obras, que precisard ser in-
tenso para nao comprometer o crono-
grama, anunciado pelo president da
Village durante entrevista dada ao jor-
nalista Mauro Bonna no program Ar-
gumento, da TV RBA. Se algum com-
petidor inventou hist6rias sobre recal-
que em uma das torres, por algum pro-
blema nas fundaq6es, para causar pro-
blemas a Village, talvez o ambiente fa-


vorivel a disseminaqao dessas inverda-
des contenha um adubo menos delet6-
rio que a acirrada competiqao comerci-
al.
Para a construtora, deve ser motivo
de orgulho levantar os dois pr6dios mais
altos da Amaz6nia, pondo fim a hege-
monia de quase meio s6culo do "Mano-
el Pinto da Silva". Para a parte mais
atenta e sensivel da cidade, os dois es-
pig6es de 40 andares devem ser uma
fonte de inquietagqo, melancolia e tris-
teza. Edificaqoes como
essas, cada vez mais fre-
qiientes, estio roubando
o horizonte da cidade, le-
vantando barreiras a sau-
dcvel e indispensdvel cir-
culado de vento, crian-
do ilhas de calor, estimu-
lando a mentalidade iso-
lacionista da sua elite,
que se enclausura no
"minimo eu" no alto dessas torres de
vidro (e concrete), e multiplicando os
efeitos nocivos de uma corrida especu-
lativa no setor imobilidrio, que, um dia,
apresentard sua conta. Nao somente
aos que a promoveram (e, talvez, nun-
ca a eles), mas a n6s todos. Porque um
pr6dio dessa altura nao 6 tao somente
um element de neg6cio, mas um fato
urban irreversivel, a espalhar seus efei-
tos sobre todos. Os bons e os maus.
O paliteiro de concrete que se es-
praia por sobre a cidade pode ser en-
tendido como indicative de desenvolvi-
mento. Pode ser interpretado tamb6m
como a marca da omissdo dos que po-
diam impedir que a cidade se desnatu-
rasse tanto.


A doenqa tem sido cruel com Paulo
Araiijo Leal Martins nos 6ltimos tem-
pos, mas pelo menos Ihe deu uma ale-
gria: tr8s dos maiores chfs brasileiros
foram visita-lo no seu leito de hospital.
Dois deles estavam na cidade em ativi-
dade professional. O terceiro veio espe-
cialmente a Bel6m para dar um apoio
ao colega e amigo. Paulo 6 um igual
nessa seleta dos melhores.
Claude Troisgros declarou a impren-
sa que a cozinha paraense 6 a mais im-
portante do pais.
Esse titulo deve ser
creditado a conta de
Paulo Martins. Nos
iltimos anos ele an- H 1
dou pelo Brasil e o .
mundo para apresen-
tar a traditional cozi-
nha do Pard, que ji
teve sua originalida-
de reconhecida inter-
nacionalmente. Foi
al6m: junto com a revelagao dos miste-
riosos e ex6ticos quitutes amaz6nicos,
ele introduziu a combinaqao desses in-
gredientes com o acervo da cozinha
universal, sua marca pessoal, altamen-
te criativa, deliciosa. Nessa onda auda-
ciosa, a revelaqao do que hi de mais
autentico na mesa do Brasil aconteceu
junto com o reconhecimento de Paulo
como o maior chf do Para, o finico de
conceito mundial.
Certamente outros seguirao nessa
trilha e a expansao dos neg6cios 6 ques-
tdo de tempo e competancia. O pionei-
rismo 6 de Paulo, que ainda acrescen-
tou um element a esse desbravamen-
to: a qualidade do produto.


Jornal Pessoal *2. QUINZENA SETEMBRO DE 2008 11










Max Martins 6 o maior poeta paraense.
Chega-se a essa conclusao ao final da leitu-
ra dos Poemas Reunidos (1952-2001), ree-
ditados em versao atualizada em 2001 pela
editor da Universidade Federal do ParA. Na
apresentagqo, escrita 10 anos antes, para a
primeira ediqao, Benedito Nunes inclui Max
entire os "poetas-camale6es" do ingl8s Ke-
ats. Pura verdade: em 1952, quando publi-
cou seu primeiro livro, O Estranho, Max era,
na essencia, um pamasiano-simbolista, que
s6 tomou contato com a revolugao moder-
nista brasileira cor atraso de duas d6cadas
em relagdo a Semana de Arte Moderna, re-
alizada em 1922, em Sao Paulo.
Num percurso de meio s6culo como lapi-
dador de palavras dotadas de significado sim-
b6lico, Max transmudou-se e reinventou-se.
Sempre pareceu modemo e sempre um pro-
jeto de future. Manteve o gosto de novidade
na mente dos seus leitores, mas nao deixou
que esse prazer se estabilizasse. A procura
de novas formas, ultrapassou os limits con-
vencionais, ora incursionando pelo espaqo,
explorado com a perspicicia do artist plis-
tico (que ele se revela melhor nos diArios,
cuja publicaqIo em s6rie a Secretaria de
Cultura iniciou no ano passado), ora singran-
do novos dominios do verbo, sangrado e des-
camado para ser elfptico e
direto, como num hai-kai.
Poucos poetas exibem ma-
estria tao ampla e diversi-
ficada como ele, hoje e em
qualquer tempo.
Dois poemas demar- .
cam essa trajet6ria mais do 'V
que qualquerjuizo critic. b
Em "Muand da Beira do ,
Rio", que integra O Estra-
nho, com seu acento amazonicamente drum-
mondiano:
"A velha matriz branca
De palavras largas
Sozinha na praqa
Olhando o rio sujo.

Montaria dangando. Tarde preguigosa.
Rua quieta. Journal do prefeito
Cor santo na primeira pdgina.


E a usina bufando, bufando,
Engolindo lenha.

Na janela do posto do Correio
Um cacho de banana balangando".
E um trecho da "Travessia I (1926/1966)",
cor significativa epigrafe de Guimaraes Rosa
("Existe 6 home human. Travessia"), ar-
rematando a simbiose do poeta cor sua ter-
ra, express em sensualidade e carnalidade
pela uniao das pessoas cor os components
fisicos de sua vida, trecho que tive o privil6-
gio de publicar pela primeira vez em 1971, na
coluna diiria que escrevia em A Provincia
do Pard:
"E veio Amor, este amazonas
fibras febres
e menstruo verde
este ri- enorme, Paul de cobras
onde final boiei e enverdeci
amei
e apodreci".
Esta 6 a mais amaz6nica das poesias, sem
precisar de regionalismos, de expresses lo-
cais remetidas ao significado dicionarizado em
nota de p6 de pigina. E ainda assim (ou por
ser exatamente assim), a mais universal poe-
sia amaz6nica.
Aos 82 anos, Max Martins sofre os dissa-
bores de doengas agrava-
St das na velhice e minimiza-
Sdas pelo apoio que tem re-
'cebido do Curro Velho,
Casa da Linguagem, pro-
S fessores da Unama, equi-
pe m6dica do hospital Por-
S'- -. to Dias e Amarilis Tupias-
[ su, aos quais a famflia ma-
Snifesta seu reconhecimen-
to. Mas 6 precise que o
governor do Pard, em nome de todos n6s, pro-
videncie o que for necessario para dar uma
vida confortivel e digna Aquele que, ainda em
Vida, pode ter sua importancia reconhecida
(e n6s, a satisfaqao de sermos representados
por um coqiterrneo de tanto valor). Al6m de
tudo, Max foi um servidor piblico impecivel,
tanto no governor federal quanto no estadual.
Sua terra se dignificard ao prestar-lhe os ser-
viqos dos quais ele 6 merecedor.


Max Martins: o poeta maior


A traves de Contra o Poder 20 Anos de Jornal Pessoal (uma paixdo amaz6nica) tento
contar capitulos da hist6ria recent do Para que jamais teriam sido registrados se
nao existisse este journal. E mostro como o JP conseguiu reconstituir esses fatos e avaliar o
seu significado no mesmo moment em que eles aconteciam. O livro e composto de trechos
de mat6rias aqui publicadas e de um meta-texto novo, que comenta, situa e elucida o
cotidiano de um jornalismo verdadeiramente independent, que cumpre sua missao mais
nobre: ser uma auditagem do poder. Espero que os leitores ajudem a difundir essas histori-
as comprando o livro, que esta a venda nas bancas e em algumas livrarias.


Imprensa ruim

Algu6m precisa dar um
basta A ignominia, ji que os
personagens responsiveis
por essas "coisas"
mergulharam no cinismo
commercial e no desrespeito
pela sociedade.
O caderno de policia da
ediqao da 6ltima segunda-
feira do Didrio do Pard,
de propriedade do
deputado federal Jader
Barbalho, bateu o record
de violencia impressa. Na
capa, tres corpos de
pessoas desfiguradas pelos
tiros que receberam, em
execugFes sumdrias. O
olho de um dos mortos
esti praticamente fora da
6rbita, pressionado pela
bala que penetrou em seu
rosto, dilacerando-o. E
assim saiu na fotografia,
como se ela estivesse num
laudo cadav6rico, para
circular apenas entire
peritos do institute m6dico-
legal. Dentro do caderno,
mais nove fotos de
"presuntos", incluindo o
olho reprisado.
Como os profissionais
da imprensa resolveram
desprezar os principios
6ticos da profissao e seus
deveres como cidadaos,
cabe a pergunta: os
promotores do Minist6rio
P6blico do Estado que
deviam cuidar dos direitos
humans nao lIem jomal?
Nao incluem a manipulaqao
da imagem dos tr6s "pes"
(pobres, pretos e
prostitutes) e correlates em
suas atribuiqces? E o
sindicato dos jomalistas, o
que faz?
Triste 6 esta 6poca para
ser jomalista no Para.