Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00330

Full Text



SETEMBRO
DE 2008
1QUINZENA


Sornal Pessoal
A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO


RIQUEZAS


Nossas ou deles?

0 Pard e o lugar mais important para a estratigia da Companhia Vale do Rio Doce.
Sjd e hoje e serd ainda mais no future. Essa importancia estd present em todos os
discursos. 0 Estado sabe qual e a parte que lhe cabe nesse bolo ?
0 que lhe caberia se tivesse mais poder sobre essa partilha?


SCompanhia Vale do Rio Doce
investird o equivalent a 59 bi-
lhes de d61ares (em tomo de 100
bilh6es de reais) nos pr6ximos cinco
anos, dentro e fora do Brasil. Poucas
empresas no mundo podem apresentar
um piano qiiinqienal desse porte. Como
a Vale atua em tr6s continents, mar-
cando presenga em virios pauses, o fato
de reservar US$ 20 bilh6es ao Pard (qua-
se 40% do total) mostra a importancia
do Estado na estrat6gia da companhia.
O valor ndo inclui os US$ 5 bilhoes


anunciados na semana passada pelo pre-
sidente da Vale, Roger Agnelli, para a
implantagdo de uma usina de ago em
Maraba. Se quisesse repetir oque a Vale
se prop6e a fazer em cinco anos, o go-
verno do Estado teria que investor du-
rante 60 anos para chegar ao mesmo
valor, o que da uma media da relagao
de forqas entire as duas parties em ma-
t6ria de investimento.
Sdo nimeros tao grandiosos que 6
dificil dimensiona-los, compreend8-los e
interpreta-los. A mesma grandeza que


proporciona discursos ufanistas pode dar
causa tamb6m a constatag6es melanc6-
licas. Dos US$ 20 bilh6es que o Pard
recebera da Vale entire 2008 e 2012,
exatamente a metade se destina A aber-
tura da mina de Serra Sul, que ira pro-
duzir 90 milh6es de toneladas anuais de
min6rio de ferro. Ela tem quase o mes-
mo porte da mina de Serra Norte, em
atividade crescente ha quase um quarto
de s6culo (e que, em outubro do ano
passado, acumulou um bilhao de tonela-
COnTmUA NA PAG2


PAG. 6/7 JP: MAIORIDADE DE 21 ANOS


No 424
ANO XXI
R$ 3,00


A FARSA DA ENERGIA NO JOURNAL


PA. 5







COPNTINCA9&O Dn CAPAOMEAM.:
das extraidas do subsolo paraense).
Quando o primeiro trem de min6rio
saiu de Carajis, o tamanho maximo en-
tdo previsto para a mineragqo era de 25
milhbes de toneladas. Com Serra Sul e
Serra Leste adicionadas a Serra Norte,
a expansdo sera de quase 10 vezes. O
trem de min6rio de Carajis 6 hoje o maior
do planet. Todos os dias, mais de 200
mil toneladas do min6rio com qualidade
sem igual na Terra sao escoados por esse
trem; 60% dessa carga se destinam a
China e ao Japdo, situados a mais de 20
mil quil6metros de distancia.
Em 2012, Carajis, sozinha, estara
produzindo mais min6rio de ferro do que
os Estados Unidos no p6s-guerra. A es-
cala de producao podera exaurir, em no
maximo 150 anos, jazidas que deviam
durar 400 anos. A pergunta que se deve
fazer diante dessa grandiosidade 6: ela
realmente interessa ao Pard? O Estado
recebe uma compensaqao compativel
corn a exaustao do mais rico dep6sito
de min6rio de ferro que ha na crosta ter-
restre? E a sua forma atual de explora-
cao 6 o que de melhor os paraenses po-
dem conseguir no process de transfor-
maiao da mat6ria prima?
Para responder a essas perguntas,
cada vez mais inc6modas, a Vale pre-
parou a grande festa do dia 14, em Bar-
carena, com a presenCa do president
Luiz Inicio Lula da Silva, da governa-
dora Ana Jilia Carepa e de varias ou-
tras autoridades federal e estaduais.
O moment de destaque foi o anincio
do projeto da aciaria de Maraba. O pre-
sidente da Vale fez questao de desta-
car que os US$ 5 bilh6es exigidos por
esse investimento nao faziam parte do
planejamento quinqienal da companhia.
Foram a ele adicionados em funcao das
queixas e reivindicaq6es transmitidas
nos 1ltimos tempos a Vale pelo presi-
dente e pela governadora.
Finalmente, a Vale se convenceu da
fungao colonial que desempenha no Pard
e decidiu corrigi-la? A empresa diz que
nao ira mais exportar apenas produtos
primdrios (como os min6rios) e insumos
bisicos (como alumina e aluminio): ela
dard um salto no p6lo siderirgico. Pas-
sard por sobre o ferro gusa (do qual tern
uma fabrica em Marabi) e a placa de
ago (cujo projeto, gravitando entire o
Maranhao e o Para, jamais chegou a
definir) e entrard diretamente na lami-
nacao do ago.
Ao inv6s de embarcar peas brutas
em navios para serem reelaboradas no
pais do comprador, a Vale podera ofere-


cer chapas de ago aos que se dispuse-
rem a se instalar em torno de Marabi
para produzir dormentes, tubulagao, es-
trutura metilica ou, quem sabe, at6 va-
goes ferrovilrios, dos quais a pr6pria
empresa 6 grande compradora, tanto in-
ternamente quanto no exterior.
Mas ela nao esperard pelo apareci-
mento de possiveis s6cios para iniciar a
nova usina. Essa era a sua regra de ouro
em qualquer coisa que nao fosse a mi-
neracdo. Alegava que nao podia avan-
gar na cadeia produtiva para nao entrar
em conflito de interesses com os com-
pradores do seu min6rio, que fazem o
beneficiamento da mat6ria prima. Por
enquanto, a Vale sera a dnica proprieti-
ria da Agos Laminados do Para, a razao
social da nova empresa. Por isso mes-
mo, avancard com cautela. Dos US$ 5
bilh6es anunciados, s6 US$ 3,3 bilh6es
serdo aplicados inicialmente, para pro-
duzir 2,5 milh6es de toneladas. A dupli-
cacao da produqao, com mais US$ 1,7
bilhao de aplicacgo, dependerd de haver
parceiro e mercado.


A
E claro que o
ingresso de novos
investidores tera de
seguir as regras que
a Vale estabelecer.
Ela e a dona exclusive
do minerio, tern a
maior fabrica de gusa
da regiao e fechara
o primeiro circulo
do beneficiamento
com o ago. Assim, afastari os
grandes concorrentes da mais important
mina de ferro do mundo. Talvez para que


suas palavras ecoem mais long do que
no audit6rio paraense, Roger Agnelli
usou uma metafora nada sutil: que o di-
nheiro que sua empresa aplicard nos
pr6ximos cinco anos tem o tamanho de
uma RTZ.
A multinational anglo-australiana
quer expandir sua presenqa no setor e
comecou a desenvolver um projeto de
bauxita de US$ 2,2 bilh6es em Monte
Alegre. E esse tamb6m o intent de ou-
tra das grandes, a Anglo American, que
usou Eike Batista como ponte para se
estabelecer no Amapi. A Anglo, que
cometeu um erro ao se ausentar de Ca-
rajas ao vender sua parte na Salobo (ver
Jornal Pessoal 423), desenvolve um
novo projeto najazida de niquel do Ja-
car6, localizada a noroeste do Onqa-
Puma, que deverd ser a primeira a pro-
duzir.
Os altos pregos alcanqados pelas
commodities minerals atiqaram os pla-
nos de expansao de todas as minerado-
ras, que entraram numa competiqao fu-
riosa. Mas agora elas deverao comeqar
a experimentar a descida dos valores
para patamares mais ajustados as s6ri-
es hist6ricas. Podem continuar relativa-
mente acima da m6dia, mas nao tanto
como nos cinco iltimos anos, durante os
quais a fome da China desequilibrou to-
das as previs6es. A pr6pria Vale ja ex-
perimentou os efeitos dessa tend6ncia.
Seu lucro liquido no primeiro semestre
continuou record, mas a tend8ncia nao
6 mais para o alto.
Qual a alternative entdo? Produzir em
quantidades ainda maiores para manter
o fluxo de caixa. Carajas, que ja bateu
na marca de 100 milh6es de toneladas
de ferro, 6 o exemplo mais visivel. Mas
os convidados para a festa de Barcare-
na testemunharam outra faqanha: em
pouco mais de 10 anos aAlunorte quase
quadruplicou a sua produqao de alumina
(insumo para o metal de alumfnio), pas-
sando de 1,6 milhao de toneladas em
1995 para 6,3 milh6es com a inaugura-
qao da sua terceira expansao, no dia 14,
que confirmou a sua posiqao de a maior
refinadora do mundo.
Nao s6 a Alunorte pode continuar a
crescer em alumina: Agnelli confirmou
no ato mais uma associaq~o cor a no-
rueguesa Norsk Hydro, que ji atua cor
a Vale em bauxita no Trombetas e na
pr6pria Alunorte. Sera para uma nova
usina em Barcarena, a ABN (Alumina
Brasil Noruega), que ultrapassara a es-
cala de sete milh6es de toneladas. No
moment em que a nova plant for con-
cluida, Alunorte e ABN serlo responsA- |mm


2 SETEMBRO DE 2008 I QUINZENA Jornal Pessoal







ini veis por quase 30% da alumina do mer-
cado intemacional.
O cobre, o segundo produto mais ele-
trointensivo depois do aluminio, segue
no mesmo ritmo. As cinco minas de Ca-
rajas (Sossego, que ji funciona, Salo-
bo, em obras civis para comecar a pro-
duzir em 2010, Alemao, 118 e Cristali-
no) poderao praticamente dobrar a pre-
visao de producao para 2012. Ela era
de 592 mil toneladas e poderi chegar a
um milhdo de toneladas.
Essa voragem expansionista nao tem
fim? Nem tanto, ao que parece. Agnelli
tamb6m comunicou, uma semana an-
tes,-que a Vale deveri sobrestar a im-
plantagdo da fibrica de niquel do Ver-
melho, em Canaa dos Carajis, com in-
vestimento de US$ 1,5 bilhao. Alegou
que a queda do preqo do niquel (para
US$ 18 mil a tonelada), depois de bater
Sno pico de prego de todos os tempos,
em US$ 55 mil a tonelada, recomenda
a retragdo. Mas se queixou tamb6m de
que a secretaria estadual de meio am-
biente analisa o licenciamento ambien-
tal hi tres anos sem uma conclusdo, pre-
judicando os neg6cios. Por isso, a em-
presa manteri apenas o projeto de ni-
quel do Onga-Puma, que deveri come-
gar a funcionar no primeiro trimestre
pr6ximo ano, e talvez outro empreendi-
mento menor, no Piauf.
A questao 6 mais complex do que
parece. Ha um pro-
blema tecnol6gico
e commercial com o
min6rio do Verme-
Iho. Ele 6 oxidado
e nao garnieritico, .,
como os demais,
que entram na pro-
ducao do ferro-ni-
quel. Seri neces-
sario criar uma
nova tecnologia
para o seu aprovei-
tamento, como
aconteceu com o
cobre de Salobo i --
(contaminado por ..
fl6or e muito duro).
Al6m de onerar os custos, essa carac-
teristica limita os compradores potenci-
ais. No Brasil, s6 hi um client desse
niquel para agos oxidados. O grosso da
produgao teri que ser exportado.
Mas nao s6 por isso. A Vale herdou
da Inco, a empresa canadense que ad-
quiriu em 2005 e que 6 a segunda do
setor e tem as maiores jazidas do mun-
do, um projeto do mesmo porte em Goro,
na Nova Caled6nia, no Pacifico Sul, tam-


b6m de niquel garnieritico, que deveri
entrar em operago at6 o fim do ano. Ja
em sua configuragao de multinational, a
Vale parece mais empenhada no neg6-
cio no exterior do que no do Parl. Con-
seqiiencia da vontade da empresa bra-
sileira ou resultado
da preponderdncia
da corporacao ca-
nadense?
A Vale arma
suas decis6es e op-
9oes nesse quadro
maior de interesses
que atravessam os
continents. Ja o
Pari, que vai se
consolidando como
a principal base ff-
sica das riquezas
exploradas pela -.
companhia, nao
consegue nem for-
mular uma estrat6-
gia para acompanhar a Vale nos limits
do territ6rio estadual. Enquanto entrega
ao president e A governadora o projeto
da aciaria de Marabd, como uma res-
posta As presses dos dois homes pi-
blicos em favor de maior grau de bene-
ficiamento das mat6rias primas locais, a
Vale pressiona para a liberagdo de obras
de infra-estrutura suas e do pr6prio
governor que estao associadas aos seus
neg6cios.

A usina de
ago so se
viabilizara
-S 1 se houver
um novo
porto em
Vila do
Conde para
I receber o
w coque
oriundo do
exterior. Para
chegar A plant in-
dustrial, o coque precisard da hidro-
via do Tocantins, que s6 se tornard
operacional com as eclusas de Tucu-
ruf e o derrocamento entire Tucurui e
Maraba. O custo desses servigos
para a Unido, de 600 milh6es de re-
ais, era considerado inaceitivel at6
aparecer o interesse da Vale. Enquan-
to era "apenas".para desenvolver a
regido, nao sensibilizou os tecnoburo-
cratas de Brasilia.


Nao s6 isso: a aciaria precisard de
energia, que ja nao hi em disponibilida-
de na usina de Tucuruf. Logo, a Vale tera
que construir sua t6rmica de Barcarena
para 600 megawats (o que daria para
abastecer de energia todo Pari, exclui-
da a Albris) e usar
o carvao mineral
importado. Ou seja:
o governor precisa
fazer sua parte para
enfrentar e superar
todas as resistenci-
as provocadas por
esse tipo de empre-
Sendimento, muito
criticado pela polui-
S ao que acarreta.
Esse planeja-
mento esti dando
certo. No primeiro
semestre a receita
de exportagqo do
Pard foi de US$ 4,5
bilh6es, gragas aos min6rios e seus de-
rivados, que responded por mais de
85% do total da pauta. O saldo de divi-
sas proporcionado pelo Para, de US$ 4
bilh6es, foi o segundo maior do Brasil,
superado apenas por Minas Gerais. Mas
o Pardi apenas o 22 da federaqIo (que
possui 27 unidades) em desenvolvimen-
to municipal, segundo o indice Firjan (da
Federaqao da Ind6stria do Rio de Ja-
neiro). Bel6m, o primeiro municipio do
Estado em IFDM, 6 o 521 no ranking
national. Barcarena, onde estdo a Alu-
norte e a Albris, 6 o 2 no Estado e o
646 no pais. Canaa dos Carajis, o
municipio mineral que mais prosperou
nos iltimos tempos, 6 o 3 no Pard e o
1.113 no Brasil. O municipio mais po-
bre do Para, Bagre, s6 esti a frente
de outros 16 no total de 5.564 munici-
pios brasileiros.
Essa realidade, para a qual a Com-
panhia Vale do Rio Doce contribui deci-
sivamente, como a maior empresa do
Estado, com capacidade de investimen-
to muito maior do que a do pr6prio Esta-
do, poderi ser modificada a partir de
agora pela nova postura que a Vale anun-
cia? Esta 6 a questao, que cabe aos pa-
raenses formular e responder.
Nao 6 A toa que em solenidades como
a do dia 14 hi uma torrente de numeros,
declaraqbes e promessas. t uma gran-
deza que confunde e anestesia o ptibli-
co, desacostumado a destrinchar tantos
n6s atados na teia dos discursos ufanis-
tas. E 6 assim que a caravana da explo-
ragao das riquezas do Pard passa. E
depois que ela passar, o que ficari?


Jornal Pessoal i" QUINZENA SETEMBRO DE 2008








Diploma de jornalista:


estigma da condenagao


Quem 6 contra a exig8ncia do diplo-
ma do curso superior de comunicacao
social para o exercicio dojomalismo faz
o jogo dos patries. Esta 6 a sentence da
Federagqo Nacional dos Jornalistas,
anunciada pelo seu president, S6rgio
Murillo de Andrade, durante o 60 con-
gresso dos jornalistas paraenses, em
Bel6m, no mes passado. Ele foi incle-
mente e implacavel, sem qualquer pos-
sibilidade de atenuaqao ou excecao na
condenacao. Como eu estava na mes-
ma mesa, a mais lotada de todas duran-
te o event (em todas as demais houve
um tnico expositor e poucos debatedo-
res) e sou contra essa regra, protestei.
Fui president do sindicato dos jor-
nalistas do Para exatamente hd 30 anos,
em 1978. Nossa equipe assumiu suas
funqGes com dois compromissos de
campanha, que nos deram a vit6ria por
larga margem de votos. Um deles era
elevar o padrao de salario e de condi-
cqes de trabalho, que eram ruins. Con-
seguimos, graqas A proposta de dissidio
coletivo que apresentamos, o primeiro
da hist6ria do sindicato.
Os juizes do Tribunal Regional do
Trabalho foram surpreendidos (e os do-
nos das empresas jornalisticas tamb6m)
corn o estudo que fundamentou nossas
reivindicagoes, exercicio em causa pr6-
pria do jornalismo que faziamos pela
causa coletiva. Demonstrivamos, corn
base na andlise dos balanqos das em-
presas, que elas podiam dar um reajuste
muito acima do que estavam querendo
e muito al6m do indice da inflaqco. Nao
s6 para compensar as perdas anteriores
como tamb6m porque tinham disponibi-
lidades financeiras para tanto, ao con-
tririo do que alegavam.
Ganhamos: um aumento excepcional,
salirio professional, delegado sindical e
outras conquistas in6ditas. Elas foram
canceladas depois em Brasflia pelo TST,
sob forte pressao corporativa dos pa-
troes, mas as empresas acabaram ce-
dendo conquistas trabalhistas expressi-
vas, como jamais voltaria a se repetir.
Outro compromisso era corn a repre-
sentatividade da categoria. Excluimos
todos aqueles associados que nunca ti-
veram ou que deixaram de ter relacao
de trabalho em empresas jornalisticas ou
afins. Durante certo tempo muitos se
proclamaram jornalistas para usufruir


odiosas vantagens concedidas pelo go-
verno A categoria (justamente para se-
duzi-la): isenqdo do imposto de renda,
desconto de 50% nas passagens areas
e financiamento integral da casa pr6pria.
O resultado 6 que o sindicato estava ar-
tificialmente inchado: muitos associados
e poucos jornalistas.
Como conseguir aprovar a instaura-
9ao de dissidio coletivo para mudar as
desfavoriveis condicges de trabalho dos
joralistas com uma quantidade enorme
de associados ligados aos donos das
empresas ou sensiveis A sua conclama-
9io? Eles nao dariam o quorum neces-
sdrio para a deliberaqao. O que fizemos
entao? Cumprimos a lei: realizamos um
recadastramento, abrindo largo prazo
para os interessados. Os associados que
quisessem continuar sindicalizados de-
viam comparecer pessoalmente A secre-
taria do sindicato e demonstrar que ain-
da exerciam a profissao.
Logo comegou uma campanha con-
tra n6s, atrav6s da coluna Rep6rter 70,
de O Liberal. Nela fomos acusados de
cassar velhos jornalistas, cometendo uma
iniqiiidade, como os militares vitoriosos
fizeram a partir de 1964. Todos, por6m,
tiveram amplo direito de defesa. Seus
direitos seriam preservados se os com-
provassem. Como? Levando suas car-
teiras profissionais atualizadas. Dissemos
isso em resposta aos venenos destilados
pela coluna, que se recusou a publicar
nossa carta de esclarecimentos. Pritica
contumaz na casa at6 hoje.
Comjomalistas que trabalhavam nas
redaqges, o sindicato conseguiu apro-
var o dissidio, mas nao foi apenas para
isso que combatemos os quintas-colu-
nas. Admitidos como colaboradores ou
recebendo carteirinhas graciosas, eles
faziam ojogo dos patroes. Podiam apa-
recer nas redagoes para cumprir tare-
fas dos profissionais se estes cometes-
sem o despaut6rio de fazer greve, es-
vaziando assim o movimento. Tamb6m
emprestavam seus nomes para matdri-
as encomendadas pela diregdo. Forma-
vam um exercito de reserve de mao-
de-obra. Por isso mesmo, uma de nos-
sas campanhas era para restringir ao
mdximo a figure do colaborador, que s6
devia ter participagao eventual e em
fungdo de um not6rio saber em alguma
mat6ria ou especialidade.


Nunca reivindicamos e sequer pas-
sou pela nossa cabega a id6ia atribuir
ao diploma do curso de comunicaqIo
social exclusividade na admissao a pro-
fissao de jomalista. Estivamos plena-
mente conscientes de que uma das gran-
des deficiencias desse professional era
nao se reciclar, ler pouco, nao adotar
m6todos de andlise e interpreta~go cor
base cientifica e ser um tanto refratdrio
A admissao dos seus erros. Uma passa-
da pela Universidade lhe seria valiosa,
indispensivel, em qualquer curso da drea
de humanidades.
O monop6lio do curso superior de
comunicago bloquearia uma importan-
te vertente de formacqo de jornalistas,
que chegam espontaneamente As reda-
q6es ou tnm idiossincrasia corn o ensino
conventional, movendo-se a base de vo-
caao. Queriamos que as empresas fos-
sem obrigadas a incentivar e promover
a reciclagem dos seus profissionais.
A in6dita obrigatoriedade do curso
de comunicaco social, estabelecida
pelo govemo military atrav6s de decre-
to-lei, em maio de 1969, 6 um produto
coerente com o AI-5, de cinco meses
antes. O autoritarismo que ceifou o que
restava de liberdade no pais impos uma
via tnica para a formaqIo de jomalis-
tas, circunscrita a um curso que apre-
sentava um vi6s de exotismo em sua
origem bastaa lembrar a "comunic6lo-
ga da PUC", personagem criada por J6
Soares na televised). Nao s6 para pa-
dronizar e manter sob control a for-
maqao dos novos profissionais como
para interromper o fluxo natural de ta-
lentos, que garantiu a alta qualidade do
jornalismo na repdblica de 1946 mes-
mo que fosse para exigir nivel superior
de formaqao, evitando rebaixar a pro-
fissdo, por que nao incluir todos os cur-
sos universitdrios?.
No debate no congress dos jorna-
listas, S6rgio Murillo tentou refazer a his-
t6ria alegando que em 1962 houve um
projeto nesse sentido, o que dissociaria
a regulamentacao da profissao do pior
regime politico da hist6ria brasileira, o
da Junta Militar, que assumiu o poder
quando o marechal Costa e Silva adoe-
ceu. Intengao e uma coisa, realidade 6
outra. Foram rejeitadas todas as tentati-
vas de inovar em relacao A tradicqo da
imprensa ocidental, que nio inclui o cri- IIl


4 SETEMBRO DE 2008 I QUINZENA Journal Pessoal







Ii)t6rio adotado no Brasil, 6nico a esfabe-
lecer a condiqao vigente.
S6 a junta dos tres ministros milita-
res, que usurpou a presidencia da repl-
blica, consumou a violencia, nao por aca-
so perpetrada atrav6s da anomalia do
decreto-lei. Tamb6m noo por coinciden-
cia, o jornalismo 6 das raras profiss6es
regulamentadas dessa forma, em capi-
tulo especial no ambito da Consolidagao
das Leis do Trabalho.
Quando nossas divergencias come-
qaram a esquentar o ambiente do deba-
te, S6rgio Murillo saiu-se com mais uma
estocada. Disse que eu estava ali, criti-
cando o sindicato dos jomalistas do Para,
mas s6 estava ali porque esse mesmo
sindicato me convidara para o encontro,
deixando-me falar. Eu nao tivera o mes-
mo tratamento por parte da ANJ.
A Associaqao Nacional de Jornais
lembrou o president da Fenaj se
recusou a incluir a agressdo que sofri,
cometida por Ronaldo Maiorana, como
um caso de violacqo A liberdade de im-
prensa, no site dedicado ao tema, em
conjunto com a Unesco, 6rgao da ONU
para educacqo e cultural. O que acon-
tecera comigo fora simples rixa famili-
ar, como as que marcaram a vida em
Exu, no sertao nordestino, modelo des-
se tipo de refrega.
De fato, essa posiqao, endossada pela
OAB do Pard e mantida at6 hoje pela ins-
tituiqao, que conservou o agressor no co-
mando da comissao dedicada a liberdade
de imprensa, constitui um exemplo vil da
parcialidade dessas organizacges. Elas
nao conseguem superar seus antolhos cor-
porativos e seus interesses comerciais.
Mas a ANJ 6 uma entidade patronal. Ela
esti disposta a violar suas declaraqSes
de intenqces para fazer ojogo do seu as-
sociado, o grupo Liberal. Ja o sindicato
exerce representagao dos trabalhadores
em particular e da sociedade em geral,
quando se trata de exercer a defesa da
liberdade de expressao, sem a qual nao
existejomalismo de verdade (nos gulags,
s6 ha ojomal official .
No meu caso, houve uma combina-
cqo de aberragSes. A entidade patronal
atirou ao lixo a defesa de um principio e
a organizaqdo trabalhista foi incapaz de
ir al6m de um corporativismo estreito, a
fonte de intolerancias, autoritarismos e
tiranias, mesmo quando adotados a pre-
texto de servir a hist6ria. Hist6ria, alias,
que esses campe6es da causa deturpam
e manipulam, alegando que todos os
meios se legitimam pelo fim pretendido.
O que, na maioria das vezes, acaba por
resultar no fim da pr6pria hist6ria.


Celia Trindade Amorim mandou
bem cedo sua mensagem: vamos co-
memorar o aniversdrio do Jornal
Pessoal? Confesso que ndo faria um
texto melhor para a data, nem seria
tdo entusiasmado cor o seu signifi-
cado. Celia faz, cor vantagens, as
honras da casa.

0 aniversario de 21 anos do Jornal
Pessoal chega em grande estilo
para os padres da contemporaneida-
de. Colocar um dos mais radicals e lon-
gevos alternatives do Brasil em ativida-
de na rede mundial de computadores era
algo inimaginivel para leitores e inimi-
gos da publicaqao. Agora, com um cli-
car de mouse, o pequeno journal, que
durante toda sua existencia permane-
cia adepto da velha tipografia de padrdo
gutenberguiano, aparece por meio das
teias da WWW (World Web Web).
No espirito e na letra, como nao po-
deria deixar de ser, o site do alternative
contraria a linguagem da internet. To-
dos os textos do JP de papel nao rece-
bem nenhum tratamento para
se adaptar ao format na ]0rn\ Pe
web. A narrative de Llcio .
Flavio Pinto, que ter a criti- .jo .Jnj
ca como m6todo por excelen- o
cia de fazer jornalismo, con- -
tinua a mesma: extensa, ana-
litica, questionadora. Quem
esperava texto curto, super-
ficial, menos problematizador -
sobre os assuntos que afligem .
a Amaz6nia, terd que procu-
rar outro enderego eletr6nico. Amante
da cultural letrada, Lilcio Fldvio Pinto
ainda anunciou na ediqdo de n. 422, por
ocasido do langamento do site, que o
JP de papel chegard primeiro as maos
dos leitores. Somente depois sera vei-
culado na internet. Al6m de contrariar
a linguagem na web, o Jornal Pessoal
no "ciberespago" tamb6m nao aceitara
publicidade.
O Jornal Pessoal, de Lticio Flivio
Pinto, nao casa com publicidade. E sa-
bido que a publicidade impulsionou o de-
senvolvimento da chamada grande im-
prensa burguesa sobretudo no s6culo
XIX, consolidando a informagqo como
mercadoria. Hoje, como enfatiza Mar-
tin-Barbero, a imprensa, primordialmen-
te polftica na sua gestacao, 6 uma im-
prensa essencialmente publicitiria.


ssO

--_


O Jornal Pessoal nega a forma-
mercadoria-noticia, que faz das pes-
soas meras consumidoras. Desde seu
nascimento, em setembro de 1987, se
dedica a fazer umjornalismo cidadao
na Amaz6nia. Por meio de analise cri-
tico-reflexiva, os textos de Licio Fli-
vio Pinto perseguem de forma cabal
o sentido p6blico da informaqao por
meio da denincia, da publicaqio dos
fatos sociais, do metajornalismo.
O metajornalismo 6 uma reflexao
critical sobre ojornalismo. Toda a his-
t6ria do Jornal Pessoal 6 dedicada
nao s6 a noticiar os grandes e graves
problems da Amaz6nia como traba-
Iho escravo, grilagem de terras, de-
vastaq~o e queimadas, conflitos agri-
rios, a atuagao dos grandes projetos
econ6micos, como os da CVRD, en-
tre outros; mas exterioriza, tamb6m,
um Fazer e um Dever Ser jornalismo
na regiao. Em outras palavras: o peri-
6dico faz e se impoe com um instru-
mental analitico-critico indicando
como se deveria fazer jornalismo. E
tamanha presungao? A res-
.al posta 6 NAO! Quem for
- pesquisar a coleqCo comple-
0 lelnor
ta do JP, que agora chega
aos poucos a internet, pode-
ra conferir a complexidade
.- do seu metajornalismo: a
s capacidade de realizar nao
S s6 critical de midia, ao des-
nudar em 21 anos (1987-
2008) o jomalismo amaz6-
nico, como esta constituido
e como se mant6m, como tamb6m
sedimentar credibilidade, urn jomal que
6 capaz de conjugar principios 6ticos
com praticajornalistica na regiao.
Aqui subjaz a importdncia de ter o
Jornal Pessoal como objeto de pes-
quisa no curso de doutorado, financi-
ado pelo Conselho Nacional de De-
senvolvimento Cientifico e Tecnol6gi-
co (CNPq), cuja tese foi recentemen-
te defendida, em junho de 2008, na
Pontificia Universidade Cat6lica de
Sao Paulo (PUC/SP). Principios 6ti-
cos que a cada dia estao se distanci-
ando das pdginas do nossojoralismo.
Parab6ns, Llicio Flivio Pinto.

C6lia Trindade Amorim 6 paraense, jornalista,
mestre e doutora em ComunicagAo e Semi6tica
pela Pontificia Universidade Catdlica de Sao
Paulo (PUC/SP).


Journal Pessoal l' QUINZENA SETEMBRO DE 2008 5


JP: da velha tipografia

a internet: jornal-ciaddao









As mutag9es da energia


O Liberal dedicou as tres notas de
abertura do Rep6rter 70 de sibado, 9 de
agosto, a um protest do journal contra o
reajuste de 19,25% da tarifa de energia
da Rede/Celpa, decretado pela Aneel, a
agencia federal reguladora do setor, e j
em vigor. O Para, dono "da maior hidre-
16trica genuinamente national, auto-su-
ficiente na produqao de energia el6trica
e fonte de energia para todo o Pais des-
de que os sistemas regionais tornaram-
se interligados", nao podia "aceitar em
silncio" um aumento que era "muito
maior do que o do Espirito Santo, um es-
tado que importa cerca de 80% da ener-
gia que consome, segundo o governor
capixaba diz em seu site".
Para a principal coluna da folha dos
Maiorana, o contrast 6 brutal, ji que o
Espirito Santo 6 o 10 em desenvolvimen-
to human, enquanto o IDH do Pardi o
16 da federaqdo, e ter o segundo mai-
or consume per capital de energia do
Brasil, atris apenas de Sao Paulo: "Me-
lhores afortunados e abastecidos por
Tucurui, considerando-se o sistema na-
cional interligado, coube aos capixabas
uma majoraqao de 6,9%".
Arrematou com ironia o Rep6rter 70,
finalmente endossando critics feitas hi
tempos por outros personagens, que os
capixabas nao t8m culpa "se o Pard aju-
da a Ihes sustentar o crescimento. A
culpa esti em Brasilia. E tamb6m l que
dorme a reform tributiria. Hoje, o es-
tado que compra a energia de Tucurui 6
que fatura o ICMS. O Para, assim, fica
a ver o linhao. Uma das propostas da
reform, combatida pelos grandes con-
sumidores, 6 que a tributaqdo seja feita
na origem, e nao mais no destiny".
A posiq o editorial de O Liberal
nao durou 24 horas. Na sua ediqgo do-
minical, que comeqou a circular na tar-
de do mesmo sibado, o Rep6rter 70
voltou ao assunto, como se a manifes-
taqCo da v6spera nao tivesse existido.
Em duas notas, mudou radicalmente de
discurso. Disse:
"A extensdo territorial do Para, as
grandes distancias entire os municipios e
as dificuldades de acesso a muitos deles
fazem com que o investimento m6dio
para tender a um consumidor de ener-
gia el6trica seja um dos mais altos do
Pais, o que afeta diretamente na tarifa
cobrada pela concessioniria de energia
el6trica do Estado explica a Celpa.
Antes do iltimo reajuste tarifirio, a


tarifa cobrada pela concessioniria de
energia el6trica do Espirito Santo era
mais cara do que a tarifa no Para, moti-
vo pelo qual teve agora um reajuste de
apenas 6,9%. A sorte 6 que os 51% dos
consumidores de energia el6trica do
Pard sao beneficiados pela tarifa de baixa
renda, um dos mais altos indices de con-
sumidores beneficiados do Pais".

Quem leu a coluna
nos dois dias deve
ter ficado perplexo.
O Reporter 70 de sabado
foi completamente
desmentido pelo Rep6rter
70 de domingo. Em respeito ao
leitor, a coluna devia ter admitido que
os juizos de valor de um dia foram for-
mados sobre base falsa, como mostrou
a coluna do outro dia, e pedir descul-
pas a todos por sua injustificada revol-
ta contra a Rede/Celpa. De explora-
dora do povo paraense, como o R70
tragou seu perfil no sibado, ela pas-
sou a ser, na verdade, benfeitora dos
paraenses, conforme demonstrou a
coluna no domingo.
Conclui-se que o redator da do R70
6 leviano porque manifesta opiniao, de-
vidamente editorializada no principal es-
paqo da imprensa paraense, corn todo
destaque devido a assunto tdo grave,
sem fazer a mais elementary pesquisa
sobre o assunto. Ignorou regra de ouro
da profissdo: a apuraqao das informa-
9qes que Ihe forem repassadas. Se foi
esse o mesmo jornalista responsivel
pelas notas de retificacao, ou ele nio
tem brio professional ou a direqao do
jomal entregou o Rep6rter 70 nas mdos
de um leviano. Nao importa o que ele
escreve, num moment levando os lei-
tores a se indignar com a concessioni-
ria de energia el6trica do Estado e no
outro os induzindo a se submeterem ao
reajuste da tarifa, que passou a ser con-
siderada muitojusta e apropriada.
Nao 6 assim que se faz jornalismo,
nem qualquer coisa que mereqa res-
peito. O journal nao podia autorizar as
critics do sibado se elas nIo se am-
paravam realmente em fatos. Conven-
cido, por6m, no dia seguinte, de que
errou, devia ter admitido o erro e pedi-
do desculpas ao leitor e A Rede/Cel-
pa. Com posiq6es superpostas e justa-


postas em intervalo de menos de 24
horas, O Liberal criou confused, des-
norteou a opiniao piblica e contribuiu
para a desinformagao geral sobre uma
das quest6es de maior importancia para
o Estado do Pard.
As duas notas do domingo, 10 de
agosto, nada mais foram do que a re-
producao das informaq6es que a Rede/
Celpa entregou ao journal, verbalmente
ou atrav6s de press-release. O Liberal,
mais uma vez, nao se deu ao trabalho de
checar os dados. A press no fechamento
da edigqo dominical pode ser usada como
justificativa, embora o simples repasse
da versao official, depois de critics tao
duras A concessionaria de energia, dei-
xe o travo amargo de uma
pritica viciada que se tornou
contumaz na imprensa para- Parafuso de
vertica
ense: a voz do anunciante 6 a
voz de Deus. A Rede/Celpa 6
um dos maiores anunciantes
de O Liberal.
A critical sabitica foi um
escorregao do Rep6rter 70,
que escapou A fiscalizaqao
daquele que exerce na reda-
qao o mando em nome dos
donos? Ou foi uma provoca-
qao para que a Rede/Celpa
comparecesse ao journal para
se explicar, esse "explicar"
tornado em sentido "liberal-
mente" amplo? Ou o rei da
cocada preta sofreu algum Brocha para
dissabor pessoal, dom6stico passar tinta
ou professional, por conta de
algum deslize da concessioni-
ria de energia, e mandou trovejar e re-
lampear para advertir o infrator sobre o
crime de lesa-majestade que cometeu?
Independentemente do esclarecimen-
to sobre o m6vel especifico do enredo,
hi o relevant interesse p6blico em cau-
sa. Ele foi esquecido e desprezado pelo
journal, que nao voltou mais ao assunto,
embora o assunto merecesse e muito.
A descontinuidade na abordagem das
quest6es, abandonadas mal tinham sido
formuladas (e formuladas de forma tao
categ6rica quanto arbitriria), prejudice a
formagdo da opiniao p6blica e de uma
cultural a serviqo dos interesses coletivos.
No caso especifico da energia, conside-
raqges como as que o Rep6rter 70 fez,
nesse ins6lito ziguezague editorial, podem
at6 induzir posiqces, mas nao Ihes possi-
bilita a demonstragqo. As pessoas ficam


6 SETEMBRO DE 2008 IQUINZENA Journal Pessoal









no journal e na realidade


contra ou a favor sem saber dizer por que
tomam essas posicqes. Correm o risco
de seguir no rumo errado corn a melhor
das intenq6es. Ou de serem conduzidas
como manadas por (maus) pastores, ou
lideres inescrupulosos.
O Para, com o maior potential ener-
g6tico do pais, tinha tudo para usar esse
fator para acelerar o seu desenvolvimen-
to. Quando a hidrel6trica de Tucurui, hoje
responsavel por quase 10% da oferta
brasileira de energia, comecou a ser
construida, na metade da d6cada de 70
do s6culo passado, todo esforqo intelec-
tual do Estado devia ter sido empregado
(ou criado, em funcao de carencias e
insuficiencias internal) para antecipar in-
vestimentos intensivos de
energia capazes de agregar o
maximo de valor ao produto
que iriam gerar. Energia s6 6
desenvolvimento para valer
anca quando se desdobra na cadeia
rontai de produgIo at6 chegar aos
bens de maior valor possivel.
Esse objetivo requer um
a de pressao
enorme esforqo para anteci-
par a hist6ria, simulando pro-
B cessos econ6micos e tecnol6-
gicos, fazendo ensaios e ex-
perimentos, agindo com com-
petencia para atrair interesses,
combina-los, correlacioni-los,
induzi-los. Mas Tucuruf surgiu
a sombra do mais rigoroso
Porta-papel autoritarismo e vinculada A de-
terminante inflexivel de servir
a um modelo de exportacao in
natural das riquezas do Para.
O professor Aloysio Chaves tentou que-
brar esse verticalismo de mando fede-
ral, a serviqo de interesses internacio-
nais, quando criticou o monop6lio pela
Uniao do planejamento que realmente
decide, mas ficou na intenqao. Logo foi
obrigado a se enquadrar, sob pena de nao
assumir o governor, que exerceu exata-
mente quando o modelo (materializado
no II PDA Plano de Desenvolvimento
da Amaz6nia para o qiiinqtiunio 1975/
79) funcionou a pleno vapor, plantando
as sementes que germinam at6 hoje.
Ao inv6s de avan9ar na cadeia pro-
dutiva, o Pard marcou pass no inicio do
process. O valor da producao cresceu
como ningu6m podia prever, tanto por
conta do salto nos precos das commodi-
ties no mercado mundial, cor a entrada
em grande escala de paises emergentes


como a China e a India, quanto pelo in-
cremento no volume de producqo, em
escala que tamb6m nao esteve ao alcan-
ce dos melhores profetas. O Pard 6 um
produtor de commodities de importan-
cia intemacional. Aenergia se tornou uma
dessas mat6rias primas, que s6 se trans-
forma em insumo industrial quando dei-
xa as fronteiras do Estado.
Ser o 3 maior exportador de energia
bruta do Brasil 6 um titulo que avilta o
Pard. Dos 4,2 milh6es de quilowatts que
a hidrel6trica de Tucuruf gera na sua po-
tencia maxima, engolindo mais de 12 mi-
lh5es de litros de agua do rio Tocantins a
cada segundo, 55% sao transferidos para
outros Estados, 28% sao absorvidos pela
Albris, a 8" maior fibrica de alumfnio do
mundo (e a maior fomecedora individual
de lingote do Japao), e apenas 17% sao
fornecidos h Rede/Celpa, que assim aten-
de o Pard. A empresa nio chega, por6m,
a 25% dos habitantes do Estado. Sao qua-
se 1,8 milhdo de cidadaos at6 hoje exclu-
idos do beneficio proporcionado pela
quarta maior hidrel6trica do planet e a
maior inteiramente national, ji que Itaipu
6 brasileiro-paraguaia.
Nao hi mais energia descomprome-
tida no Pard? Aparentemente, nao. A
expansdo da Albris esta sendo vincula-
da a uma usina t6rmica a carvdo, que 6
mais cara e muito mais suja do que uma
hidrel6trica. Se as usinas de fonte hidriu-
lica estao interditadas, por serem consi-
deradas nocivas ao meio ambiente e a
populacqo native, qual a alternative para
acrescentar mais energia e atrair novos
investimentos para o Pard, al6m de via-
bilizar os que estao em fase de cresci-
mento? Deve-se expandir a geraqao de
energia ou 6 melhor deixi-la como esti?
Sao algumas das perguntas que as
angfistias e impasses vividos atualmen-
te pelo Pard imp6em. As respostas ja-
mais serao alcancadas A base de prima-
rismos, superficialidades, irresponsabili-
dades ou caprichos de alguns podero-
sos. Sentenqas finalists, que sao lavra-
das sem qualquer compromisso corn sua
demonstraqao e fundamentaqgo, aca-
bam criando um mundo de ilusao e fan-
tasia. Pessoas que manifestam uma con-
vicqao tao firme como o redator do Re-
p6rter 70 e depois voltam atras e dizem
coisa completamente diferente, quando
enfrentam argument contrario,estao
desesperados ou sao movidas por ma-
f6 ou leviandade.


O Pard tem pagado um preqo muito
alto pelo despreparo das suas elites. As
vezes at6 elas assume discurso simpa-
tico e bonito, mas nao resistem A contra-
dita daqueles que sao os que mandam de
fato, nem sempre dando a impressao de
que slo mesmo os que contam nas deci-
s6es. Querem fazer demagogia barata,
sem enfrentar as agruras de conhecer a
realidade, ou apenas se servem do povo
para tirar vantage na relaqao conflituo-
sa do Estado com as grandes empresas,
piv6s desse modelo baseado na exaustao
dos recursos naturais atrav6s de expor-
taqSo maciqa, cor o minimo de transfor-
maqao econ6mica e de distribuiqao de
renda. Na maioria dos confrontos, como
o que O Liberal parecia que ia liderar (e,
mais uma vez, frustrou), o povo continue
desinformado e desorientado, enquanto os
espertos (que raramente sao experts)
tiram vantagens pessoais em nome.do
interesse coletivo.
Se o journal dos Maiorana se satisfez
cor as duas notas, mais uma vez aban-
donando o tema, a opiniao piblica deve
continuar a aprofunda-lo para tentar
mudar as regras vigentes, que prejudi-
cam ao inv6s de beneficiary o Para. Para
alertar os leitores sobre o tamanho da
tarefa, nao se deve esquecer que a atu-
aqao da Agencia Nacional de Energia
E16trica se restringe ao ambito da gera-
dora e da concessionaria de energia, sem
chegar ao consumidor. Assim, o reajus-
te da tarifa nao inclui o ICMS, o princi-
pal imposto estadual, que ter no Pard a
maior aliquota national, de 30%.
Ao estabelece-la, os tucanos foram
buscar no bolso do povo a compensa-
qao pela perda tributaria com a lei Kan-
dir (que desonerou as exportaq6es) e a
cobranqa no ponto de recebimento da
energia e nao na origem. Sem enfrentar
a verdadeira causa do problema, o PSDB
atacou seu reflexo, investindo sobre o
lado mais fraco da contend, o povo.
Lado fraco, alids, por ser privado das
informagqes que poderia usar como arma
em sua defesa, caso dispusesse delas
nos moments certos e da forma ade-
quada, e nao fosse manipulado e embro-
mado por liderancas como a de O Libe-
ral. Ou se dispusesse de representan-
tes mais identificados com o pr6prio povo
e os seus interesses. Sem esses elemen-
tos, o Pard tern sido apenas o cendrio da
sua hist6ria, nao o seu autor, como tinha
que ser. E podia ser.


Journal Pessoal I' QUINZENA SETEMBRO DE 2008 7














CASTANHA
Houve manifestaq~o de
protest, em maio de 1953,
contra a demissao de 280 ope-
ririas da Fibrica Chami8.
Centenas de pessoas partici-
param de um comicio realiza-
do na praqa Magalhaes, pr6-
ximo A fibrica. Discursaram
o deputado C16o Bernardo, o
coronel Jocelyn Brasil, o jor-
nalista Raimundo Jinkings, o
operArio Jodo Gomes "e ou-
tros inimeros components da
classes operAria". Depois, em
passeata, eles foram at6 a
sede da Folha do Norte, onde
renovaram o protest.
Ja a Companhia Industrial
do Brasil, proprietdria da Fi-
brica Chami8, alegou em nota
official que a dispensa das ope-


rarias se repetia todos os anos
naquele period, quando a pro-
duqao de castanha diminufa.
Em 15 dias, a atividade esta-
ria normalizada e haveria a
recontrataqao das mulheres
que trabalhavam na cataqao
e limpeza das am8ndoas. "In-
terrup~Ses id8nticas em anos
anteriores nunca deram moti-
vo hs estranhezas e explora-
q6es que ora se v8m registran-
do", disse a empresa na nota.

COMUNISTA
O radialista Avelino Hen-
rique dos Santos fez uma "de-
claraoo necessaria" atrav6s
da Folha Vespertiva, em
maio de 1953. Foi para des-
mentir noticia publicada na
v6spera, segundo a qual era


VICTOR C. PORTELA S. A.


um dos dois jovens comunis-
tas press pela policia ao fa-
zer pichacgo nas ruas. Aveli-
nojuntou declaraqao de bons
antecedentes firmada pelo
comissirio Eymard Pantoja
Cordeiro, responsivel pela
delegacia especial de segu-
ranga political e social, o
DOPS de triste mem6ria.

DECLARAVAO
Ja em 1956 foi o future
prefeito de Bel6m, Lopo Al-
varez de Castro, quem decla-
rou, "a quem interessar pos-
sa", que Cliudio Chaves,
Milton Lisboa, Flivio Bentes,
Ferro Costa, Enem6zio Mar-
tins, Xisto Santana e Efraim
Bentes eram seus "modestos
correligionirios residents
em subdrbios de Bel6m e que
nunca ocuparam fun96es p6-
blicas, nem usufruiram van-
tagens political e economicas
de governor nenhum".
Ma non troppo.

RIO
A Panair fez sete v6os
extras de Bel6m para o Rio
de Janeiro em dezembro de
1959, "corn o intuito de me-
lhor tender ao grande movi-
mento" durante esse mes, "in-
dependente de suas viagens


didrias". O paraense que po-
dia nao ia para Salinas nessa
6poca: estava ainda voltado
para a Belacap (que, com a
imposiqao de Brasilia, a one-
rosa Belacap, passou a ser a
Velhacap). Era o ideal de pra-
zer e status (al6m de exibi-
qgo). Voava-se como princi-
pe (ou princess) no Super-
Constellation e no Caravelle da
Panair, como se fossemos
carregados por asas (confor-
me lembrou Milton Nascimen-
to na sua bela m6sica). Como
havia menos passageiro, o tra-
tamento era quase personali-
zado. Aviao ainda nao se
transformara, para o cidadao
comum, em trem a6reo.

JACARE
No final de 1959, Jorge
Age & Cia., firma proprieti-
ria do Curtume Nacional, avi-
sava "aos seus fregueses e
demais pessoas interessadas
que abriu as compras de cou-
ros de jacar6-tinga de lm50
acima, pagando os melhores
preqos". Os interessados po-
diam se dirigir ao escrit6rio da
companhia, na rua 15 de No-
vembro, ou entrar em contato
pelo telefone 1484. Na 6po-
ca, fato rotineiro, normal. Hoje,
ecologicamente incorreto.


PROPAGANDA

Teatro "ao vivo" na TV
Daniel Carvalho e Nilza Maria eram as maiores
atrapces do teleteatro "Vitdria", exibido pela TV
Marajoara (canal 2) em 1964, cor o patrocinio de
Victor C. Portela. (Valdir) Sarubby de Medeiros foi o
responsdvel pela adaptagdo da obra, do original de
Knut Hamsun (Premio Nobel de Literatura cor o
romance A Fome). A realizaado foi de Raimundo (Mdrio)
Sobral, o comendador de hoje. Do elenco faziam parte
Cldudio Barradas (nosso padre atual), Regina do
Carmo, Adelino Simdo (que se tornaria vereador e
advogado), Eugenia Gomes e Jorge Maia. A decoracdo
ficou por conta de Giulio Toppino, da Casabella. A
dramaturgia paraense na televisdo marcou epoca,
florescendo antes da era dos VTs, os video-tapes. Era
tudo "ao vivo". Ndo acredita? Pois era assim mesmo.


8 SETEMBRO DE 2008 I QUINZENA Journal Pessoal


MOEDRIA nDO O TIANO
I[~Ll l z 'J "^ "'' '."-7'?" -"~l :""::U... ."'f























LOJAS
Foi uma festa a inaugura-
qao das Lojas Severino, que
eram uma, apesar do nome no
plural (como o do Vinicius de
Moraes), no t6rreo do edificio
Palicio do RAdio, na ainda
sofisticada avenida Presiden-
te Vargas, em 8 de dezembro
de 1959. Produtos importados
e por que nao dizer? con-
trabandeados, depois de serem
legalizados pela apreensao da
Alfandega, seguida de arre-
mataao no leilao que a Guar-
da-Moria empreendia, eram a
tentagdo a atrair os clients.

CAMPUS
O campus da Universida-
de Federal do Pard foi insta-
lado numa area de 500 hec-
tares, nos bairros do Guami
e Terra Firme, "uma das mai-
ores utilizadas com fins edu-
cacionais em todo o continen-
te, al6m de estar praticamente
dentro dos limits da cidade".
Desse total, 200 hectares per-
tenciam ao Ipean (Instituto
de Pesquisa Agropecudria do
Norte, atual Embrapa Ama-
z6nia Oriental), que o presi-
dente da repiblica desapro-
priou. O restante eram terras
de propriedade particular, ad-
quiridas dos herdeiros de
Odete Leal Martins e a Ma-
rio Vasconcelos e Laurindo
Teixeira da Costa. O termo
de traspasse dos im6veis foi
assinado em outubro de 1964
pelo reitor da UFPA, Jos6 da
Silveira Neto, que realizou a
implantagdo do campus.

PAL HA
Em virios pontos do lito-
ral de Bel6m funcionavam


pontos de venda de palhas de
ubuss6, "mat6ria utilizada
pela pobreza dos subirbios de
Bel6m para cobertura de bar-
racas". O principal deles es-
tava no porto do Jenipapo,
atendendo principalmente os
bairros do Tel6grafo Sem-Fio,
Acampamento, Pedreira e
Sacramenta, "justamente os
mais habitados pela pobreza".
Corn a proibiqgo A circulag~o
dos carros de boi, estabeleci-
da pela prefeitura em 1964,
havia duplo prejuizo: para os
"carreiros", que ficavam sem
sua fonte de renda, e para os
habitantes mais pobres da ci-
dade, desprovidos do materi-
al mais barato cor que co-
brir suas barracas de madei-
ra, caracteristicas da perife-
ria da cidade nessa 6poca. Os
trabalhadores foram aos jor-
nais pedir ajuda. Debalde.


FOTOGRAFIA

Nas asas da Panair
Voava-se nas asas da Panair cor o Constellation, um
avido elegant e pequeno para os padres atuais, mas
enorme para as expectativas da decada de 50, quando
ele fazia as rotas mais longas, como para o Rio e
Manaus, cor conforto em todos os sentidos. Quem
viajou nesse avido e nessa companhia entenderd o tom
melancdlico da muisica de Milton Nascimento. As asas
da Panair foram cortadas cor violencia para que
surgissem as da Varig, que reinaria nos ceus depois do
regime military estabelecido em 1964.




NAVEGAVAO
Em 1976 o Estado ainda tinha o seu servico de navega-
qao, com sede no inicio da rua 13 de Maio, no centro antigo
da cidade. O vapor Antonina fazia viagem para a regido das
ilhas, parando em Muand, Jararaca, Boa Vista, Araticu, Cur-
ralinho, Pirii, Breves, Ant6nio Lemos, Portel e Afu. A linha
continue necessiria, mas o serviqo desapareceu. Resultado:
populag~o desassistida.


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Journal Pessoal I' QUINZENA SETEMBRO DE 2008


Jornal Pessoal i QUINZENA *


SETEMBRO DE 2008













JORNALISTAS
Em relacao ao artigo de capa da edi-
qFo n* 423, "O ovo da serpente", no
qual voce novamente criticou a prAtica
repugnante, entire os jornais de Bel6m,
da publicaq o de fotografias macabras
de pessoas mortas, creio que nao ape-
nas o Minist6rio Pdblico do Estado deva
ser acionado para tentar dar conta des-
se problema, que nos mostra a dimen-
slo do estado de falencia da grande im-
prensa no Para.
Pergunto-me se o tema aquelas
imagens que reduzem a nada a dignida-
de humana, um atentado, portanto, aos
direitos humans nao causa asco ou
inquietaqio acadCmica entire alunos e
professors dos cursos de joralismo das
faculdades e universidades pdblicas e par-
ticulares do Estado. Slo tao numerosos
na capital! E os grupos de estudos e
defesa de direitos humans dessas insti-
tuiq6es? Os soci6logos da cultural, os
historiadores da midia, os pesquisado-
res de imagem, os professors e estu-
dantes de Direito? O que discutem em
sala de aula, nas reuniBes acad8micas?
HA vinculaqdo entire suas abstraq es e a
vida que corre (ou escorre em sangue)
nas paginas dos jornais da capital onde
moram e trabalham? Por que n.o se
apresentam ao debate pdblico?
Saindo do fmbito academico, e o Sin-
dicato dos Jornalistas, a Sociedade Pa-
raense de Defesa dos Direitos Huma-
nos, a Ordem dos Advogados, as ONGs?
Onde estao todos nesta hora?
Acompanhei A distAncia a cobertura
do acidente de 27 de julho na BR-342.
Lendo seu artigo, no entanto, entendi
por que as families das vitimas da trag6-
dia relutaram, durante dias, em falar a
imprensa. Tim toda razao: como acei-
tar que a imagem de restos dos corpos
de seus parents seja usada para fins
lucrativos? Penso que esta d a hora de
os cidadaos paraenses comeqarem a
compreender que tamb6m faz parte do
exercfcio da cidadania reivindicar uma
imprensa mais digna.
Rose Silveira, jonialista

JURUTI
Acabo de reler no papel seu artigo
sobre o desencontro em Juruti, que ja
havia lido em verslo eletr6nica logo
que o Jornal Pessoal circulou. Gostaria
de agradecer pelo equilfbrio com que
voce analisou o epis6dio, que se pre-
tendia de dialogo e harmonizaqao, mas
infelizmente se transfigurou no opos-
to. Realmente chegamos atrasados, pois
nao havia como os mais altos repre-
sentantes dos acionistas da empresa, que
invested uma enorme quantidade de
seus recursos em Juruti, virem de Nova
York, via Manaus e Santar6m, e sequer
visitarem por alguns minutes a obra que
esses recursos estao viabilizando. Des-
dobramo-nos em pedir desculpas e plei-
teamos que o encontro se realizasse,
pelas palavras emocionadas de Klaus
Kleinfeld e Franklin Feder, as princi-
pais liderangas da empresa no mundo e
na America Latina e Caribe. Foi em
vao. Lamentavelmente, perdeu-se uma
valiosa oportunidade de dialogo entire
comunitArios de Juruti e o mais alto
escalio da Alcoa. Felizmente, por6m,
esse dialogo continue e se fortalece em
outros f6runs e ocasiBes, notadamente
no Conselho Juruti SustentAvel, que re-
One o poder pdblico, empresas e orga-
nizaqBes da sociedade civil, para, em
conjunto, como diz seu artigo, "escre-


ver uma histdria melhor do que a que
esta em curso" para os jurutienses e o
Oeste do ParA.
Nemfrcio Nogueira, director de
Assuntos Institucionais da Alcoa
para Amdrica Latina e Caribe

VIOLENCIA
No dltimo Jornal Pessoal (423), na
materia de capa (O Ovo da Serpente),
voc6 nos fornece elements suficien-
tes para refletir sobre o papel da im-
prensa local na cobertura de aconteci-
mentos tragicos, como o acidente que
ceifou a vida das pessoas no final das
fdrias, quando voltavam do balneario
de Salinas.
A cobertura da imprensa, como a
edig o do 0 Liberal do dia 28 do mes
passado, deixou o jornalista indignado.
Tinha razio. Ao ver a publicaFlo da
foto no journal O Liberal e ler o long
artigo do jornalista, qualquer cidadao
minimamente sensivel nlo poderia dei-
xar de ficar indignado cor a violencia
estampada no journal. Isso me fez escre-
ver esta carta, mais sociol6gica do que
como mat6ria jornalistica. Trata-se de
uma reflexao sobre a midia (e aqui me
refiro, em especial a impressa), a for-
ma como o corpo 6 exposto e tratado
na sociedade.
Suas narrativas me chamaram a aten-
gao: morte das cinco ocupantes do car-
ro, principalmente as observa~ao que o
autor faz da fotografia que pegava em
close o rosto sem vida de Jacilene Ho-
lis. A segunda foi o perfil de Roberta
Freitas, de 27 anos, a "musa do verao
2008" e seu fim fatal. Eis a descriqao
do jornalista:
"Nao se tratava de um corpo despo-
jado de sua pele ao long de dias, meses
ou anos, descoberto por acaso. Aquele
resto de ossos ainda devia estar quente.
Poucas horas antes (talvez duas ou tres),
a dona daquele corpo era uma jovem
bonita, cheia de vida, que atendia pelo
nome de Roberta Freitas, de 27 anos. O
cranio resistira a uma forte explosao,
seguida de incendio feroz: a parte supe-
rior da sua arcada dentAria fora preser-
vada, o que permitiu a identificaiao da
moqa que diria o carro, um Vectra novo,
comprado havia menos de um mes".
Antes, descreveu:
"A lancinante foto ao lado 6 que cau-
sou arrepios. Sd nlo me fez chorar por-
que o estupor e a indignag o foram
maiores. Dentro do Vectra calcinado,
no lugar do motorist, ha apenas uma
cabeqa de um esqueleto, atirado ao as-
soalho nu, despido de tudo que orna-
mentava o veiculo pela agao do fogo".
Aqui temos duas tentativas de narrar
o real, o impossivel, o inenarravel, o
insimbolizAvel, no sentido lacaniano do
termo, pois o horror 6 impossivel de
ser descrito cor todo o seu significado.
Restos de ossos que poderiam star quen-
tes, crAnio esfacelado, a imagem cruel
dos corpos esfacelados, fragmentados.
Foi isso que os leitores do jomal viram:
as imagens chocantes publicadas logo
depois do acidente.
Como os leitores se sentiram quan-
do, na manha seguinte, se depararam
com essas imagens? Passaram rapida-
mente para a pAgina seguinte, ou reti-
veram na retina o horror sem nenhu-
ma indignaqao? Sabe-se que nas gran-
des catistrofes, como nas guerras, por
exemplo, os homes acostumam-se e
convivem com os horrores. Os corpos
esfacelados sao tAo freqiientes e corri-
queiros na vida das trincheiras que os
homes constroem mecanismos de de-
fesa, como se tornassem insensiveis ,
para resistir na guerra.


Por que n.o imaginar que, em menor
proporgao, nIo 6 assim que ocorre com
os leitores dos jornais diarios? Sera que
de tanto verem corpos retalhados, ba-
leados, acidentados nio estao condici-
onados e insensibilizados ao ponto que
naturalizar a morbidez, como nos fil-
me de Spilberg, As Gangs de Nova York?
Mas entra af o que consideroo lado
mais bizarre e revelador do artigo:
"No mesmo dia o outro journal, con-
corrente, publica no tabl6ide Top a
foto em tamanho grande de Roberta
Freitas, de 27 anos. Uma pigina com
quatro fotos de Roberta, em todas elas
de biquini, sorridente, desinibida".
Vemos os corps em dois momen-
tos: um onde se exibe para o leitor o
corpo belo, "desinibido" da "musa do
ver.o 2008", que, segundo o colunista
social, "deixou muitos marmanjos ba-
barem e deixaram as garotas com aque-
la pontinha de inveja por tamanha be-
leza" para, poucas horas depois, trans-
formar-se num corpo esfacelado "um
cranio de caveira, separado do rosto e
destrogado, como os corps das quatro
amigas". Uma ironia tragica!
O que chamo de dupla morte nesse
caso e me refiro, particularmente a
Roberta nao foi s6 a morte fisica da
personagem jovem, mas, tamb6m, a
sua morte simb6lica, que nao deixou
de proporcionar vantagens para os
jornais que faturaram na venda dos
jornais, tanto com a image de Ro-
berta viva, como morta.
Como podemos observer, vemos ai
que o corpo nuo cessa de ser fabricado.
Fabricado n.o s6 pela indistria da bele-
za, com seus cosm6ticos e cirurgias plAs-
ticas, mas pela inddistria cultural que,
desde a era da reproduq~o t6cnica da
fotografia, como ja mostrava profeti-
camente Walter Benjamin, permitiu que
os leitores se deleitassem com suas musas
estampadas nos jornais.
Mas tem o outro lado da moeda: o
corpo tem sentido que ultrapassa a sua
est6tica, pois hi, tamb6m, uma est6tica
da morte que parece despertar os ins-
tintos mais obscuros do ser human.
A midia parece captar essas duas for-
mas e usa o corpo de varias maneiras.
Dependendo das codificagces particu-
lares de cada grupo, ele pode aparecer
nas colunas sociais denotando um per-
sonagem que possui um capital social e
econ6mico relevant para aquela soci-
edade. Pode de acordo cor o "capi-
tal corporal" de seu possuidor, ou pos-
suidora se transformar em modelo, se
for bem tratado e receber atenq o, e
assim por diante.
Em todas as formas, ele nao escapa
de se transformar em objeto mercado-
16gico tanto nas situacqes tragicas da
vida, como nos moments de gl6ria.
Assim temos as disputes da imprensa
local, onde os dois grandes jornais do
Estado parecem disputar quem public
as fotos das mais belas mulheres. Seus
corpos er6ticos e sensuais acabam se
tornando um grande chamariz para a
vendagem dos jornais, como se elas fos-
sem essas recepcionistas de salao que
atraem fregueses Avidos para ver os
corpos inundados de desejo.
O curioso 6 que, quando esses corpos
se transformam em cadaveres retalha-
dos, como vimos, tornando-se despo-
jos de uma trag6dia, como qualifica a
reportagem, passam, tamb6m, a ser
vendiveis pela midia, que diz responder
aos apetites necr6filos dos leitores, jus-
tificando-se que sao conseqiincia de um
mal que estimulam.
Ou seja, o estimulam, pois isso rende
dividend, vende jornais. Sendo mais


direto: a mis6ria moral e sadica de uma
parte significativa de seus leitores 6 o
combustivel que vai alimentar os co-
fres dos donos dos jornais, que, por sua
vez, vai degradar ainda mais a humani-
dade dos homes, que, como sabemos
(desde Durkheim), se torna human ao
long do process civilizatdrio, depois
de refrear seus instintos, sem o qual nao
haveria civilizaq~o.
Freud nos mostrou do preqo que
pagamos por isso: o mal star. E essa
a ambigiiidade por sermos human6i-
des e, talvez, por isso, pagamos um
alto preco.
Por que as populaq6es mais pobres
das cidades slo sensiveis ao consume
desse material?
A chamada pulsao de morte revela-
da nesse consume m6rbido talvez es-
pelhe cor toda a sua crueldade uma
das faces da subjetividade contempo-
ranea. Eis uma tarefa para os pesqui-
sadores atentos ao que se passa nessa
sociedade tao encarniqadamente vio-
lenta. A indiferenga e o nosso mutis-
mo s6 agravara o uso indiscriminado
da midia nesse fascismo sem-vergo-
nha em que todos estamos metido,
como dizia indignado o fil6sofo Gilles
Deleuze no final de sua vida.
Benedito Jose de Carvalho, ... .i.. .

JOURNAL
Tenho o habito da leitura e nao bus-
co contemplaqao como voc8 pensou.
A minha sugestao foi apenas para tor-
nar mais atraente a leitura do Jornal
Pessoal para os mais jovens e o pdblico
em geral. A editoralao do journal com
visuais (fotos ilustrativas e outros mei-
os) de forma alguma significaria que o
mesmo perderia na qualidade da reda-
lao, que no Jornal Pessoal 6 excelente.
De qualquer maneira, obrigada por voce
ter me dado razao.
Lyane Monassa Moreira

MINHA RESPOSTA
Entendi muito ber que a leitora ndo
falou em causa prdpria. Ela se limitou
a expressar uma posi(do partilhada
por muitos leitores e apontou urma de-
ficincia endossada pelo pr6prio edi-
tor do journal. Se pudesse, o Luis Pinto
ilustraria muito mais o JP e o tornaria
mais leve. No entanto, o que mais pesa
no criterio editorial e o texto, que ndo
pode ser sacrificado para tornar mais
atraente a publicac o. Para suavizar
a leitura seria precise diminuir o espa-
co ocupado por materias. Prefiro con-
tinuar arriscando perder leitores do que
restringir o conteddo do Jornal Pessoal
corn mais recursos grdficos. E sei que
jamais perderei leitores como Lyane,
dispostos a enfrentar textos mais lon-
gos e densos quando a qualidade do
tema exigir.

LEITOR
Sou assiduo leitor do Jornal Pessoal
(agora do site tamb6m) e profundo
admirador de sua retidlo e
integridade como jornalista, e como
Ssei que o senhor gosta de dar publici-
dade a paraenses que se destacam. Se-
gue a informagao de que nos dias 12 a
16 de julho, aconteceu em Beldm o
XXVIII Congresso da Sociedade Bra-
sileira de Computaqao (http://
www.prodepa.gov.br/sbc2008/anais/
pdf/arq0021.pdf), do qual participei e
meu artigo intitulado "PitigorasNet:
Um prot6tipo de objeto de aprendi-
zagem para o ensino da Matematica"
(www.pitagorasnet.com), ganhou o
primeiro lugar dentre os melhores ar-
tigos do Workshop de InformAtica na


10 SETEMBRO DE 2008 I QUINZENA Journal Pessoal














A primeira surpresa foi no sdbado,
9 de agosto, quando o jomalista espa-
nhol Bernardo Gutierrez me mandou um
aviso por e-mail: a entrevista que ele
fizera comigo sairia na edigdo domini-
cal do P6blico, didrio editado em Ma-
drid, e jd estava no site do journal.
Quando o acessei, para minha segun-
da surpresa, a materia, publicada com
destaque, jd fora comentada pelos lei-
tores. Em dois dias, 15 deles se mani-
festaram. Reproduzo abaixo a traduFio
que fiz dessas manifestap5es, todas ge-
nerosas e superlativas nos juizos a meu
respeito e sobre o meu trabalho.
Decidi abrigd-las nesta edicdo
como uma forma de comemorar os 21
anos do Jornal Pessoal. A parte exa-
geros na atribuicgo de miritos, as pa-
lavras do public espanhol expressam
uma solidariedade que se reforca pela
combinado da distancia do tema e a
vivacidade do interesse. Os leitores
querem compensar sua impotencia em
participar do enredo amazonico corn
seu ardente desejo de que o drama
mude de direpao. Ndo esquecem (ou
slo lembrados para essa circunstcn-
cia) que precisam tambem pensar no
papel que lhes cabe desempenhar no
prdprio cendrio espanhol e europeu.
Talvez ajudem tanto a longinqua Ama-
zonia estimulando algujm que nela jd
atua quanto influindo sobre seu pais e
o continent, nos quais tem origem al-
guns dos decisivos processes em cur-
so na fronteira. Os elos entire as pes-
soas sdo tdo importantes quanto as ca-
deias das engrenagens mais podero-
sas. Estas funcionam a pleno vapor.
Aquelas precisam estreitar-se.
Partilho cor o leitor paraense do
JP a rede que se formou no blog de
P6blico a partir da matiria de Bemar-
do Gutierrez, que reproduziu opinides
e situaodes jd bastante conhecidas por


aqui, dispensando-me de repeti-las.
Com o sopro de incentive dos espa-
nhdis, o journal prossegue sua jorna-
da depois de alcancada a plena matu-
ridade dos 21 anos. Seguem-se as men-
sagens dos leitores de P6blico.

Felipo Essejomalismo ndo seri sin-
gular no future. Estamos obrigados a imi-
ta-lo se queremos crer na necessidade de
contar o que vemos e achamos.

Teodoro- Muita informaqao, mas que
informaqao? O caso de L6cio Flivio re-
presenta um caso paradigmitico y nos faz
entender que ojornalismo comprometido
eticamente com a ealidade exige muita
valentia, pois 6 perigoso. Nem 6 precise
pensar no Brasil para entender isto: em
nosso pr6prio entorno, nem sempre os
meios de comunicaqao tem a coragem
para delatar as inevitiveis "mifias" eco-
n6micas ou political, tio ativas quanto
bem camufladas. As empresas jomalisti-
cas tnm seus pr6prios interesses (nem
sempre distantes do denunciivel) e aspi-
ram a corromper o mercado mediitico (6
precise ser politicamente corretos) e con-
tinuar a influir sobre ele. A imprensa in-
dependente 6 crescentemente mais ut6-
pica e quim6rica. Licio Flivio nos ajuda
a entender esta triste verdade.

Toni- Estou realmente impressiona-
do com as convicqoes deste home va-
lente em um pais muito perigoso. Todo
um exemplo para ojornalismo atual.

Barracuda Joer, que bem me sinto
ao ler que ainda hi gente que luta e
arrisca a vida- pelo que vale a pena. Va-
mos ver si por aqui conseguimos ficar a
altura tamb6m.

Luisitirrin Medalha de ouro para
Licio Flivio.


Um sopro de alento


que vem da Espanha


Escola. Esse fato 6 muito expressive,
porque eu, como professor de mate-
mitica da UEPA, analista de sistema
da UFPA, t6cnico em desenvolvimen-
to de software do Cefet, p6s-gradua-
do em informatica e educag~o
(UEPA), corn apenas 24 anos, com-
peti com professors doutores e mes-
tres de universidades como USP, PUC,
UFMG, UFRJ, Mackenzie e UFGRS,
entire outras, ou seja, as cabeqas que
fazem informatica no Brasil.


Desenvolvi um objeto de apren-
dizagem (um tipo de software edu-
cacional) para o ensino do teorema
de Pitigoras, como trabalho de con-
clusIo de curso de Sistemas de In-
formaqao da UFPA, em 2006, por
ocasiio da formatura da primeira
turma, do qual sou egresso, sendo
brilhantemente orientado pela pro-
fa. dra. Marianne Eliasquevici, que,
alias, 6 co-autora do artigo
premiado. 0 pr8mio torna-se mais


relevant visto que as concepq6es
pedag6gicas e computacionais fo-
ram desenvolvidas exclusivamente
por mim, enquanto que a USP tern
projetos similares desenvolvidos por
dezenas de pessoas, inclusive com
patrocinio da Microsoft.
Se possivel, divulgue esse feito,
pois 6 important para auto-estima
dos universitArios paraenses, prin-
cipalmente o das publicas, que mui-
tas vezes se perdem pelo caminho


por falta de incentive para iniciacqo
cientifica. Sei que esse tipo de noti-
cia 6 mais ficil o senhor publicar,
pois sou apenas um batalhador, cor
uma iddia, correndo atrAs do que acre-
dita, nao sou filho de ningudm da alta
sociedade, que pode pagar uma nota
nos maiores meios de comunicag~o
deste Estado. Entretanto, seria mui-
to prestfgio e honra, essa noticia sair
nas linhas do Pessoal.
Marcelo SarrafPinho


Jornal Pessoal I" QUINZENA SETEMBRO DE 2008 11


Lego Hurdes Este parece ser um
autenticojomalista que luta contra desigual-
dades, injusticas... Gostaria de ver na sua
situaqo a todos os que se auto-proclamam
'jomalistas" ou "colaboradores dojomalis-
mo" numa infinidade de programs do lixo
televisivo. Este home 6 um exemplo a
seguir e nao essa gente que tanto aparece
na televised de baixissima qualidade.

Mari Felicidades, Ltcio Flvio, por
ser um ser human digno e a Publico por
interessar-se por este tipo de reportagem
de den6ncia.

Luisitirrin Pessoas como Lucio Fli-
vio, de honradez e integridade contrasta-
das, sao das que deveriam cercar-se os
governor democriticos para liderar as
revoluq6es.
Sapo Podeis ver seu enderego na web
em http://www.lucioflaviopinto.com.br/em
portugu8s, por6m algo se entende. En-
viarei seu endereqo a Ana Rosa Quin-
tana e demais pessoas para que apren-
dam a fazerjornalismo.

Francisco Este 6 o pais que forne-
ceu essa grande trapaqa para a esquerda
americana que se chama Lula.

Tamara von Berner Falarei cor
todos os meus amigos e conhecidos do
grande jornalista, Lucio Flivio, e de seu
excelente trabalho para salvar a Amaz6-
nia para que jamais se esquega nem se
ignore o trabalho de um home tio admi-
ravel. Para cima e em frente e muitas fe-
licidades, L6cio Flavio. Homens como tu
valem ouro neste mundo!!!

J. Ramon E A costa do Levante es-
panhol, mas em cinza.

Mallorquin Quero expressar aqui
minha admiraqSo por este valente. Faz
falta mais gente como ele, e, sobretudo,
ajudi-lo a acabar com esta mafia prepo-
tente.

Juan Com pessoas assim ainda hi
esperanqa neste mundo. Em boa hora.























Calor record
Vamos a uma enquete: foi
este o mais violent verao de
suas vidas em Bel6m? A res-
posta podia ser dada com
uma consult ao 6rgao ofici-
al responsivel pela medicao
da temperature na area da
capital paraense. Esse 6 um
dado objetivo, que pode des-
mentir e desautorizar impres-
s6es pessoais. Mas quem
mede as micro-temperaturas
da cidade? Quem apura o
calor no centro do comrrcio
antigo ou na desolagao dos
conjuntos habitacionais da
periferia?
Em alguns desses pontos
da cidade a temperature ja
deve ir al6m dos valores
anunciados. E alguma relacao
essas bolsas de calor tnm
com esse insensato cresci-
mento vertical em concrete,
cada nova torre querendo su-
perar as anteriores nessa bus-
ca de um marfim metaf6rico
(com a protecao de pastilhas
de vidro high-tech em algu-
mas dessas agress6es imobi-
liirias).
Portanto, respond o caro
leitor: voc8 ji sofreu e vai
continuar essa via crucis t6r-
mica mais com esse calor
de 2008? Culpa da natureza
ou do home? Qual home?
Cartas a redaqao.


Paisagem mutante

Na minha 6poca de menino, perambulando pelo Reduto no
inicio da d6cada de 60, sempre tinha olhos especiais para aquele
pr6dio elegant e diferente qde Camilo Porto de Oliveira cons-
truiu num trecho de trifego menor, no final da travessa 6 de
Almeida. O edificio Dom Carlos, com seus quatro andares,
linhas curvas, rampas bem projetadas, um tom r6seo mais cla-
ro nas paredes com frisos r6seos mais escuros, era uma j6ia.
Meu sonho de consume de morar ali, por6m, nunca se reali-
zou.
O pr6dio andou meio decadente durante alguns anos, mas
conseguiu recuperar parte do viqo antigo. Agora esti amea-
cado pela construcao de um novo shopping, que ocupara qua-
se toda a quadra, na Doca de Souza Franco, entire Aristides
Lobo, Quintino Bocaiiva e 6 de Almeida. A febre do consu-
mismo e da moderizaqao a qualquer preqo safida a nova cons-
truqao e ignora os efeitos que ird provocar na vizinhanqa. Os
pr6prios moradores do perimetro nao parecem ter uma id6ia
mais realista das transformaqoes que acontecerao ali. Uma
delas sera sufocar e desvalorizar de vez o "Dom Carlos". O
pr6dio ji comeea a ficar amesquinhado no canto que sobrou
da grande caixa de concrete que sera levantada no terreno,
em fase de instalacao das fundaq~es.
A prefeitura nao se preocupou com o impact do novo centro
de com6rcio numa area francamente residential, enquanto os
moradores esquecem os seus direitos e minimizam o que ird
acontecer. O shopping ter um efeito anest6sico pr6prio de
uma 6poca de consumismo. Ha uma predisposiqao geral para
ele, inclusive do poder p6blico, que saiu subitamente da letar-
gia e passou a limpar o terreno para a passage do temple
das compras.
Uma instituiqao bem paraense, a do carrinho de cachorro-
quente e sandwiches em geral, ji provou o gosto amargo do
novo dono do pedaqo. Os vendedores ambulantes, cor pre-
senqa na area ha muitos anos, foram removidos das proximi-
dades do novo shopping, por razoes que nao parecem ser as
declaradas. A pretexto de organizar a atividade e limar a via


Alraves de Contra o Poder 20 Anos de Jornal Pessoal iuma paixao
amazonica) tento conlar capitulos da historia recenle do Para que
lamais teriam sido regislrados se nao existisse este lornal. E mostro
como o JP consegulu reconstituir esses falos e avaliar o seu signiicado
no mesmo momento em que eles aconleciam. 0 livro e composto de
Irechos de materials aqui publicadas e de um meta-texto novo, que
comenta. situa e elucida o coudiano de um jornalismo verdadeiramente
independence, que cumpre sua missao mais nobre: ser uma auditagem
do poder. Espero que os leitores ajudem a difundir essas hisioras
comprando o Iivro, que esta a venda nas bancas e em algumas livrarias.


Acervo
Os vizinhos da casa que foi
da professor Anunciada Cha-
ves tiveram que chamar os
bombeiros, tres finals de sema-
na atris. O proprietrio do im6-
vel estava queimando os res-
tos do que outrora foi o bosque
no quintal do velho casarao, por
ele posto abaixo sem o menor
constrangimento. 0 terreno
agora j esta quase limpo e tal-
vez nele possa ser erguido mais
um espigao da cidade se a Se-
cretaria de Cultura nao corri-
gir um erro. 0 process de tom-
bamento incluiu apenas a edi-
ficaqao, na esquina da Rui Bar-
bosa com a Boaventura da Sil-
va, mas nao o quintal.
E uma visao equivocada.
As vezes a area com arvores
vale tanto ou mais quanto
o pr6dio de valor hist6rico,
principalmente numa cidade
que se acostumou a despre-
zar e depredar seu patrim6nio
botanico. Agora que o peque-
no e belo bosque foi todo pos-
to abaixo, o minimo que o po-
der pdblico pode fazer 6 im-
pedir a construqao de um pr6-
dio no local.
Ha ainda outra questao: a
biblioteca de Anunciada e da
sua irma, a tamb6m professo-
ra Paula Chaves. Felizmente a
Defensoria P6blica da Uniao,
que se instalou no pr6dio, alu-
gando-o ao novo proprietirio,
ter cuidado muito bem dos li-
vros. Mas 6 precise que o go-
vemo incorpore o acervo e o
coloque A disposiqao do pdbli-
co, A maneira do que foi feito
com a biblioteca de Haroldo
Maranhao, que foi mantida em
espaqo pr6prio. Uma injustiqa
com as duas mestras, que mor-
reram esquecidas, assim como
seus amados livros, poderi ser
corrigida p6s-morte.





Editor: Licio Flcvio Pinto
Ediqio de Arte:
L. A. de Farla Pinto
Contato:
Rua Aristides Lobo, 871
66.053-020
Fones: (091) 3241-7626 E-mail:
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