Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00329

Full Text


DE 2008
2"QUINZENA


SAornal Pessoal
A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO


N' 423
ANO XXI
RS 3.00


VIOLENCIA


0 ovo da serpente

Quem podia supor que um journal do porte de 0 Liberal publicaria a foto de uma
cabeqa separada do resto do corpo pela explosdo de um carro, que se acidentou em
uma das perigosas estradas do Para? Pois isso aconteceu, no paroxismo da guerra da
imprensa por leitores e anunciantes. Ofato e grave. E e uma advertencia aofuturo.


ecidi escrever o present arti-
o para a primeira pdgina desta
ediqao como o escreveria num
journal verdadeiramente pessoal: na pri-
meira pessoa do singular. A decisdo me
veio enquanto contemplava uma das tres
fotos da capa do caderno de policia de
0 Liberal do dia 28 do mrs passado. A
primeira fotografia, a maior, pegava em
close o rosto sem vida de Jacilene Ho-
lis. Ela era uma das quatro ocupantes
de um EcoSport que voltava de Salinas
para Bel6m, tr8s dos quais (o namora-


do dela e uma amiga) morreram quan-
do o autom6vel se chocou de frente
com um Vectra, que ia na direqao con-
triria. Ha hematomas e sangue no ros-
to de Jocilene, mas, como ele estd qua-
se intacto, sua expressao 6 normal.
Abaixo, ao lado, a foto do carro que a
transportava, destruido.
As imagens sao de causar impact,
mas nao discrepam da hemorragia de-
satada em que ge transformaram as pa-
ginas policiais da imprensa paraense. A
lancinante foto ao lado 6 que me causou


arrepios. S6 ndo me fez chorar porque o
estupor e a indignaqdo foram maiores.
Dentro do Vectra calcinado, no lugar do
motorist, hi apenas a cabeqa de um
esqueleto, atirada ao assoalho nu, despi-
do de tudo que ornamentava o veiculo
pela aqao do fogo. Olhei diversas vezes,
em estado de choque, at6 me conven-
cer que um journal do porte de O Libe-
ral, durante longos anos o dono do mer-
cado, que se declarava o maior do Nor-
te e Nordeste do Brasil, se permitira pu-
CONTINIA NA PAG 2


7


~P~P~n~L. I,~crrara,~ssrrrri~aaa~3s~ ~


IDP~b~na~~Li.kr.i


:.~p~,'~B~na~rPa~sasrsrJ~~ r~~l~:*rplCj~_~?~lpj~8~


~s~'.-;;~tr`f8'$rs~s~~,~~~:!sei:-- t; ;.~a;'l sarrsassd~s'ri~sB~~P~.;;-:c,





CONTaUmupAAO DAcaPA :- aN
blicar aquela foto macabra, nojenta,
imunda, s6rdida.
Nao se tratava de um corpo despojado
da sua pele ao long de dias, meses ou
anos, descoberto por acaso. Aquele resto
de ossos ainda devia estar quente. Poucas
horas antes (talvez duas ou tres), a dona
daquele corpo era umajovem bonita, cheia
de vida, que atendia pelo nome de Roberta
Freitas, de 27 anos. O cranio resistira a
uma forte explosao, seguida de incendio
feroz: a parte superior da sua arcada den-
tria fora preservada, o que permitiu a iden-
tificaqao da moqa que dirigia o carro, um
Vectra novo, comprado havia menos de
um m8s. Roberta foi a primeira a ser en-
terrada.
As families de suas quatro acompa-
nhantes,jovens e bonitas tambem, tiveram
que conviver ao long da semana cor a
sofrida e penosa identificaqdo dos cada-
veres. Apenas mais uma delas tinha algum
dente para a reconstituiqao da arcada. As
tres l6timas tiveram que ser identificadas
pelo DNA de algum resto de tecido que
sobreviveu ao acidente. Ji nao podiam mais
ser vistas como series humans: eram des-
pojos de uma trag6dia.
Foi a maior do sangrento final de verao
de 2008 e uma das mais chocantes dos
iltimos tempos no Pard: 17 pessoas per-
deram a vida em acidentes nas estradas
paraenses, praticamente metade na coli-
sao entire o Vectra e o EcoSport. Das oito
vitimas, sete eram mulheres, na faixa en-
tre 20 e 31 anos. No mesmo dia do aci-
dente, que aconteceu quando a tarde do
iltimo domingo do agitadojulho nas praias
comeqava a declinar, o Didrio do Pard
publicou no tabl6ide Top uma pigina corn
quatro fotos de Roberta, em todas elas de
biquini, sorridente e desinibida.
Roberta era "a musa verao 2008". As
razies, explicava o colunista Robson Lima,
amigo da bela mulher e responsivel pela
sua escolha: "A musa fez muitos marman-
jos babarem e deixou as garotas com aquela
pontinha de inveja por tamanha beleza".
Em Salinas, onde curtiu as f6rias, Roberta
"danqou muito nas barracas mais badala-
das" e, "como nio podia deixar de ser, ar-
ranjou o seu namorado de verao".
Roberta provou, segundo o colunista,
que "beleza e simpatia podem muito bem
caminhar juntos". Nao merecia que sua
imagem final (aquela que se costume con-
siderar como a que fica na mem6ria) fos-
se a de um cranio de caveira, separado do
resto do corpo e destroqado, como os cor-
pos das quatro amigas, pela inacreditivel
explosao do veiculo. O que ganhou O Li-
beral com essa cinica demonstraqao de


desprezo pela dignidade do ser human?
Vendeu mais jomal? Vendeu mesmo?
A forca chocante da image contras-
tava com a fragilidade do texto. Mal apu-
rado, ele dizia que os cinco passageiros do
Vectra constituiam uma familiar, "incluindo
pelo menos uma crianqa", e que as viti-
mas "nao tinham sido identificadas". O
concorrente Didrio do Pard nao s6 iden-
tificou as cinco jovens como publicou as
fotos (em vida) de todas, obtidas no orkut,
o canal de relacionamento na interest, aldm
de catadas no pr6prio arquivo do jomal.
Graqas a esse "furo" inicial, o Didrio
manteve uma cobertura melhor e mais
humana do acidente nos dias seguintes,
embora cometesse uma "barriga" monu-
mental? anunciou a morte da nona vitima
da colisao, Daniele Oliveira de Campos, a
inica que sobreviveu no EcoSport, justa-
mente quando ela travava uma luta feroz
pela vida na UTI do Hospital Metropolita-
na graqas a aparelhos, que mantinham suas
funq6es vitais. Ameaqado de process pela
familia, ojomal tratou de atribuir o erro de
informaqio a uma fonte ligada A familiar,
que cedera imagens no dia do acidente.

O journal da famifia
Barbalho pagava
tambem o prego pela
sofreguidso que a
imprensa paraense
manifesta diante de
fatos de previsivel
impact perante a
opiniao piblica, sobretudo os
tragicos. Nesses moments, os jomalistas
mal conseguem evitar que os personagens
dos acontecimentos os encarem como pre-
dadores, sejam abutres ou hienas. E uma
questao national e intemacional permanent
eja teve suas fases agudas. Na maioria dos
veiculos de comunicaqo a definiqo edito-
rial mais sensata permitiu que a cobertura
fosse feita sem exageros de sensacionalis-
mo, mantendo certo padrio 6tico.
A pr6pria imprensa do Pard parecia
estar seguindo essa sauddvel tendencia
quando, nao por acaso a partir da dispute
mais acirrada entire os dois grupos domi-
nantes da comunicaqio local, o dos Maio-
rana e o dos Barbalho, houve uma regres-
sao aos piores moments do passado e,
mais do que isso, superando tudo de ruim
que ji se havia visto. Todos justificam o
sensacionalismo crescente cor o argu-
mento de que o piblico, sobretudo o das
camadas ditas mais baixas da populaqdo,
gosta de sangue e trag6dia. S6 com essa


motivaqao ele se disp6e a comprarjomais,
expandindo a comercializaqao por essa
faixa da populagqo, A qual os impressos
tem dificuldade de acesso. Seria o preqo
inevitivel para vender mais journal, esca-
pando a crise universal dos impresses.
Ainda que esse argument fosse ver-
dadeiro, devia esbarrar em criterios edito-
riais mais respeitiveis. As duas corpora-
qces de comunicaqao podiam estabelecer
e acatar regras de conviv6ncia na selva-
gem competicqo na qual vivem hoje. Ca-
daveres frontais e outras imagens seme-
lhantes podiam ser expurgados das pigi-
nas dos jomais por acerto m6tuo, em con-
sideracqo A funqao civica, educational ou
cultural que cabe A imprensa desempenhar
na sociedade. Sob pena de perder a con-
diqgo de instituiqao e se reduzir a um bal-
cao de neg6cios.
Haveria perda de leitores? Talvez sim,
talvez nao. Certamente o plblico atual es-
treitaria, sobretudo nas faixas C, D, e E, se
simplesmente o noticidrio policial desapa-
recesse (s6 nele o povdo 6 personagem de
destaque). Mas nao desapareceria, se a
imprensa deslocasse seus melhores rep6r-
teres para trabalhar nesse setor. Os joma-
listas costumam virar o nariz para a repor-
tagem policial, de prAtica bastante viciada
em regra. Mas raros foram os grandes re-
p6rteres que nao testaram suas qualida-
des em mat6rias carimbadas pejorativa-
mente com o sinete policial.
Os bons rep6rteres em atividade sem-
pre voltam a esses temas, de maior im-
pacto ou que t6m maior poder simb6lico.
Para melhorar essa cobertura, as empre-
sas podem evitar a setorizaqao, que gera
mais efeitos mal6ficos do que bernficos.
Conseguird abordagens melhores na "re-
portagem policial" atrav6s da alternmncia
dejoralistas, recrutados na "geral", e in-
dicando os melhores para participar de co-
berturas especiais (eles tomam-se melho-
res exatamente por isso).
Muitosjomais perceberam que o acom-
panhamento sistematico dos registros po-
liciais ter como seu melhor resultado pro-
porcionar uma cobertura de qualidade: s6
os fatos de maior repercussao social de-
vem merecer publicaq~o mais destacada,
com capricho. O Jornal da Tarde, o ves-
pertino de O Estado de S. Paulo, foi um
dos que abriram essa trilha pioneira (cor
Percival de Souza), na qual muitos segui-
ram e nela se mantem at6 hoje.
Mesmo os jorais de inclinaqao mais
sensacionalista em tudo que se refere aos
fatos humans, como os tabl6ides londri-
nos, compensam o exagero nos espaqos
abertos e no enfoque adotado para esse
tipo de reportagem com o cuidado na apu- I I


2 AGOSTO DE 2008 .2QUINZENA Jornal Pessoal





*I) raqdo das informan6es. S6 costumam pu-
blicar depois de apurar os dados que Ihes
sao repassados. Sabem que a invenqao ou
mesmo a inexatidao pode ser punida com
cars processes de indenizagqo.
Talvez esse seja o caminho que as pes-
soas devam seguir, conforme ameacava a
familiar da vitima que teve a morte anunci-
ada cor precipitaq~o, para colocar a im-
prensa diante de responsabilidades que nao
assume espontaneamente. Quando se trata
dejomais, por6m, o cidadao comum reluta
em tomar tal iniciativa, por receio de re-
presalias. 0 Minist6rio Piblico do Estado,
sem avanqar um milimetro sobre a liber-
dade de imprensa, podia convocar os vef-
culos de comunicaqao para induzi-los a
definir um c6digo de conduta sobre o noti-
ciario policial e, em particular, as fotografi-
as de cadaveres.
Esta se torou uma questao grave no
Para, um dos Estados mais violentos da
federaqio. Seria hipocrisia impedir que a
imprensa refletisse esse grau de selvage-
ria, que atinge os paraenses do interior e
da capital, das cidades e do meio rural. Na
mesma semana da morte das jovens, uma
adolescent de 14 matou a facadas seus
quatro irmaos menores (de 11, 10, 8 e 6
anos), em Laranjal do Jari, no Amapi.
Laranjal 6 o novo nome dado ao velho
Beiradao, concentraqao precaria de imi-
grantes que se formou na margem esquer-
da do rio Jari, do outro lado da propriedade
agroindustrial do milionario americano
Daniel Ludwig. O acesso a Monte Dou-
rado, sede dos projetos de celulose e cau-
lim, al6m do plantio de floresta homog&-
nea, era controlado pela empresa. S6 quem
ela queria ocupava as casas que construiu,
usufruindo os beneficios da cidade fecha-
da.
A maioria dos que foram atraidos para
o local teve que se contentar em morar
sobre palafitas insalubres, que avanqavam
sobre o rio, e em viver de biscates e nas
atividades dependents indiretamente da
empresa. O Beiradao cresceu com o fer-
mento das disparidades sociais e na mar-
ginalidade, que se expressava em constan-
tes incendios e numa escalada de crimes.
O fratricidio foi o mais chocante de todos,
mas nao deverd ser o ponto final dessa
s6rie, infelizmente
Ela se manifest em outros cenarios
semelhantes, cor o epicentro numa gran-
de aplicaq~o de capital feita para possibili-
tar a exploraqao de recursos naturais atra-
v6s de tecnologia de ponta, da qual resul-
tam produtos que sao comercializados em
distantes mercados. Sempre sobra para os
que se instalam ao redor, o que explica o
poder de atracao do Para como o 3 desti-


no migrat6rio do pais. Mas 6 uma dispute
tao acirrada que s6 os mais fortes (ou os
mais selvagens) sobrevivem.
Muitos dos que decide apostar nesse
jogo vem preparados para tudo e por isso
nao trazem families, pelo menos nao na
primeira aproximacao do alvo. Daf o Para
ser o Estado com a maior populaqao mas-
culina do Brasil: sao 500 mil homes a mais,
boa parte deles imigrantes condicionados
a enfrentar condiq es adversas.

A violencia 6 um
component dessa
cultural, como se pode
verificar lendo os jornais
que circulam nos pontos
de convergencia e
irradiaLao desses
prOCeSSOS (em Maraba, por exem-
plo). Ainda assim, a sangria drenada todos
os dias pelas paginas da grande imprensa
da capital ter um component de sua pr6-
pria patologia, que tem pouco a ver cor a
realidade mais ampla: envolvidos no tor-
velinho de uma acirrada concorrencia co-
mercial, como ha muito tempo nao se via
(se 6 que ja houve alguma em tais propor-
q6es no passado), os dois grupos de co-
municaqao aproveitam qualquer possibili-
dade commercial, indiferentes aos compro-
missos e responsabilidades para cor a
opiniao pliblica. Exploram os mais baixos
instintos humans e, ao mesmo tempo, con-
tribuem para que eles se intensifiquem.
Dizem-se consequincia de um mal que
estimulam. Toram-se um elo do ciclo vi-
cioso, que de fato existe, mas nao 6 inevi-
tavel.
Como, excetuado por certa pluralidade
maior nos segments de televisao e radio,
o mercado de jornais foi cindido ao meio,
hi uma pressao plebiscitria: quem nao 6
a favor passa a ser considerado contra, a
nao ser que compareqa ao caixa de am-
bos e nao resista as convocaqbes. Ha aco-
modaqao de interesses por baixo de uma
conflagracao aberta entire os rivals. O re-
sultado 6 o crescimento das aberraq6es, o
desvio da finalidade dos 6rgaos de impren-
sa, o abuso do direito de informar e inves-
tidas que assume a forma clara mes-
mo quando nao declarada da chantagem.
O ar esta ficando irrespiravel para as pes-
.soas s6rias, decentes, sensiveis e que nao
abrem mao dos seus principios.
A situaiao podia ser outra se a mais
poderosa das empresas que atuam no Para
cuidasse da sua responsabilidade social
com mais do que propaganda, marketing e


ret6rica. Cinco anos atras. em julho de
2003, a Companhia Vale do Rio Doce ajui-
zou uma aqao de indenizaqao por danos
morais contra Delta Publicidade, respon-
savel por O Liberal. A empresa se dizia
vitima de uma "nitida campanha difamat6-
ria, intense e absolutamente infundada",
promovida contra si pelojomal da familiar
Maiorana. Durante tr6s meses, sem inter-
ruppao, O Liberal publicou 24 mat6rias
contend "fatos inveridicos" relacionados
a Vale, sem ouvi-la e nem acolher as car-
tas que enviou, no exercicio do direito de
resposta, "com poucas exceo6es".
A campanha comeqou em abril de
2003, tres meses depois que Delta Publici-
dade encaminhou A Vale um boleto ban-
cario no valor de 400 mil reais, que seria a
primeira parcela do pagamento de um
total de R$ 1,5 milhao pelo patrocinio do
projeto "Andando pelo Para", comandado
pelo principal executive da corporaqao,
Romulo Maiorana J6nior (em rapidas visi-
tas ao interior, acompanhado por um s6-
quito de cortesaos, com despesas pagas
pelo anfitriao). Apesar de nao ter aceita-
qao pr6via (a Vale nao endossou o patro-
cinio), o titulo foi levado A execucio najus-
tica, como se a empresa tivesse se recu-
sado a honrar o compromisso (tratava-se
de um titulo frio, sem lastro).
Em maio, enquanto os veiculos do gru-
po Liberal desenvolviam a campanha con-
tra a Vale, como se defendessem os inte-
resses do Estado contra um agent preda-
dor, a Delta Publicidade cobrou da antiga
estatal patrocinio para um campeonato de
futebol e v6lei amador que promoveria.
Valor da iniciativa: R$ 6 milh6es.
A paci8ncia dos dirigentes da minera-
dora, a segunda maior do mundo, parecia
ter chegado ao fim. Por isso, promoveram
a aqao indenizat6ria, na qual destacavam
a contradigao: "a despeito de tao graves e
criminosas acusaqges" que fazia quase que
diariamente contra a Vale, O Liberal pre-
tendia "auferir alguns milh6es de reais"
dessa mesma empresa, pintada como exe-
cravel e criminosa para os leitores do jor-
nal, "tendo-a como parceira na promogao
e divulgaqao de event esportivo", de des-
proporcional insignificancia para o valor
commercial que Ihe foi atribuido.
A Vale requereu na aqao o reconheci-
mento da ma f6 do grupo Liberal e uma
puniqao cor efeito inibidor e reparador, con-
siderando "a insia desenfreada do r6u em
vehicular matdrias injuriosas, impondo-lhe um
desestimulo ao reiterado desrespeito aos
direitos fundamentals das pessoas mencio-
nadas em suas mat6rias". Quando a inicia-
tiva foi revelada, O Liberal a anunciou cor
CONCLVI NA PAG 4


Jornal Pessoal *20 QUINZENA AGOSTO DE 2008 3





COCLUSAODA PAG 3
manchete em duas colunas e com letras mai-
6sculas na primeira pdgina da ediqao de 29
de julho de 2003: "Vale abre process con-
tra O Liberal por defender o Pard".
A Vale, responsivel por 85% do co-
mdrcio exterior do Pard (o quarto maior
do Brasil) e cor capacidade de investi-
mento 10 vezes maior do que a do gover-
no do Estado, foi a primeira que reagiu a
essa tentative de intimidaqao e chantagem
por parte daquele que era, na 6poca, o maior
grupo de comunicaqao do Norte do pais.
Mas acabou seguindo o exemplo do Ban-
co da Amazonia e da Rede/Celpa, aivos
de presses semelhantes: cedeu e fez um
acordo informal com os Maiorana, acerta-
do durante jantar num dos restaurants
mais cars do Rio de Janeiro.
Tanto a aqio monit6ria de Delta Publi-
cidade quanto o pedido de indenizaqao da
Vale do Rio Doce dormem at6 hoje o sono
artificial dos injustos em duas varas do f6-
rum civel de Bel6m. As palavras do passa-
do foram esquecidas em troca de argumen-
tos sonantes de ambos os lados. AVale pas-
sou a despejar grandes volumes de publici-
dade nos veiculos do grupo, nos quais nun-
ca mais foi publicada qualquer matdria que
pudesse contrariar os agora "parceiros".
No palco' da pantomima ficam os des-
norteados e impotentes cidadaos paraenses.
Alguns deles, como osjomalistas, tm papel
mais direto a desempenhar. Acategoria, ator-
mentada por mis condicqes de trabalho, sa-
lirios reduzidos e mercado restrito, prefer
abstrair-se do cenirio, como se nada hou-
vesse a fazer senao transferir a questio para
a conta do inevitavel, ainda que indesejdvel.
Alimentado por omiss6es e conivenci-
as cresceu um organismo doentio, que,
como os series anaer6bios, dispensa o oxi-
g6nio da verdade para se desenvolver ali-
mentando-se da poluicao que se espalha
nas piginas dos jornais. O que se viu na
cobertura do acidente no iltimo fim de se-
mana do veraneio de julho foi a face mais
vil desse organismo. Mas nao a inica. Ela
voltari a se exibir se o panorama da im-
prensa paraense nao se torar mais sau-
davel, 6tico e honest.


Carro
Um fato que impressionou no aci-
dente que matou oito pessoas na PA-
124: a explosdo do Vectra praticamen-
te no ato da colisao com o EcoSport.
Foi o pior efeito do acidente, muito
maior do que o inc8ndio. Nao devia
ser evitado num carro tao modern e
novo? E a pergunta t6cnica que fica
e que ainda nao foi respondida.


A critical da midia nao 6 fen6meno tao
antigo no Brasil quanto em outros paises,
mas ji ha publicaqces que a empreendem
de forma sistemitica ha alguns anos, como
a Folha de S. Paulo, a TV Cultura de
Sao Paulo e a revista eletr6nica Observa-
trrio da Imprensa. Mas o que distingue o
Jornal Pessoal desses e de outros veicu-
los preocupados em critical a linguagem
jomalistica "6 o fato de que ele nao s6 faz
a critical da midia, isto 6, denuncia os erros
jornalisticos, a falta da verdade dos fatos,
a inexistencia de uma 6tica voltada para o
social, o descaso cor o cidadao; enfim, a
falta de sintonia entire o que diz e o que faz
na prdtica a grande imprensa, mas mostra,
tamb6m, por meio de seu fazerjomalistico
focado na regiao [amaz6nica], que 6 pos-
sfvel realizarjomalismo comprometido eti-
camente cor a sociedade. Uma metalin-
guagem que tem a forqa dupla do Fazer e
do Dever ser jomalismo".
Cor base nessa diretriz, C61ia Regina
Trindade Chagas Amorim desenvolveu sua
tese, "Jornal Pessoal: uma metalingua-
gem jornalistica na Amaz6nia", que rece-
beu nota 10 dos cinco integrantes da ban-
ca examinadora na Pontificia Universida-
de Cat6lica de Sao Paulo. Jos6 Amrlio Pi-
nheiro, Monica Rugai Bastos, Laurindo
Leal Filho, Cecilia Almeida Salles e Jorge
de Albuquerque Ferreira conferiram A pes-
quisadora paraense o titulo de doutora em
comunicaqao e semi6tica, com avaliaqao
positive ao seu trabalho, de quase 300 pA-
ginas. Nelas, Cl6ia Amorim mostra que o
JP "fazjomalismo e se impoe tamb6m com
um instrumental analitico-critico, indican-


Os nuimero!
Nao procede a informaq~o de que O
Liberal estaria em entendimentos para
voltar a se filiar ao Instituto Verificador de
Circulagdo, do qual se desligou hd quase
tres anos para evitar uma nova auditoria.
Na anterior, o IVC constatou que a ven-
dagem real do jomal era inferior A metade
do nimero declarado pelo editor. Na v6s-
pera da chegada dos auditors a Bel6m, O
Liberal pediu sua desfiliaqao, como nun-
ca acontecera em meio s6culo de existen-
cia do IVC, a mais respeitAvel fonte de
informaq6es sobre a circulaqio dejomais
no Brasil. A attitude deve ter sido tomada
porque a venda do jomal dos Maiorana
permanecia em queda.
0 Didrio do Pard continuard a ser o
inicojornal associado ao IVC no Pard, mas
a publicaao de Jader Barbalho nao usufrui


do como se deveria fazerjoralismo". Em
linguagem de rua, mata a cobra e mostra o
pau. Critica o modo de fazerjomalismo da
grande imprensa (ojoralismo "tecno-in-
formacional modemo"), revelando suas
falhas e fraquezas, e pie em pritica o modo
alterativo de fazer jomalismo que apre-
goa, submetendo-se por sua vez a critical
do piblico. Uma imprensa "voltada efeti-
vamente para o cidadio", garante C6lia,
que demonstrou a hip6tese da sua tese
analisando em detalhes 10% de 400 edi-
c6es do Jornal Pessoal. 350 das quais
"apresentam metajomalismo de forma ex-
plicita".
O lugar desse tipo dejoralismo, primo
ji distant dos altemativos que combateram
o Estado autoritirio no period da ditadura
military (1964-1985), 6 assegurado, por con-
tradit6rio que possa parecer, em plena de-
mocracia, por dar prioridade a "tematicas
de interesse p6blico que a grande imprensa
paraense omitiu, manipulou, forjou, por6m,
ao mesmo tempo, mostrando ao leitor o
porqu6de tal tratamentojomalistico".
O perigo que afronta ojomalismo na de-
mocracia ja nao 6 a censura do Estado, re-
tirada das redac6es, "mas as insistentes es-
trat6gias commercial, autopromocional; enfim,
publicitiria, que cerceam a atividade em sua
funfao maior de informer", constata a nova
doutora. Ela fez sua pesquisa como "uma
tentative de dizer Ndo a este tipo de pensa-
mento 'midificado'" que tem distanciado a
imprensa do cidadao. A tentative foi muito
bem sucedida, conforme reconheceu a ban-
ca examinadora ao dar nota maxima ao seu
trabalho.


s dos jornais
dessa condicao como podia por nao divul-
gar os resultados das auditorias que o insti-
tuto tem feito. Ao inv6s dos resultados da
apuraqgo feita pelo IVC, que mensura a
quantidade de exemplares que o p6blico
efetivamente compra, o Didrio prefer di-
vulgar as pesquisas do Ibope, que apenas
medem indices de leitura. A contradigqo
sugere que parte significativa da tiragem do
journal 6 cortesia ou nao se enquadra nas
exigencias do IVC sobre comercializaqao.
O que pode significar que o Didrio ter
maior tiragem do que O Liberal, mas a
vantage 6 menor quando se trata de jor-
nais vendidos. E que em ambos os casos a
vendagem 6 menor agora do que algum
tempo atrds, considerando-se a posiqao que
entlo o lider ocupava. Ou que tudo que
apregoam 6 pouco mais do que fantasia.


4 AGOSTO DE 2008 .2 QUINZENA Jornal Pessoal


A critical do jornalismo






Valeria: uma novidade


para valer na political?


Valdria Vinagre Pires Franco 6 a no-
vidade na political paraense. Pode se tor-
nar a terceira mulher mais poderosa de
todas as que cruzaram a linha demarca-
t6ria do poder (depois de Elcione Bar-
balho e Ana Julia Carepa) ou nao pas-
sar de um fen6meno bi6nico. Nenhuma
mulher comeqou sua carreira tao no alto,
ji como vice-governadora do Estado,
mas Val6ria nao precisou ser votada. Foi
a companheira de chapa do tucano Si-
mao Jatene, na coligaaio formada pelo
PSDB com o entao PFL (hoje, DEM)
para suceder Almir Gabriel, que ficara
no cargo por dois mandates seguidos (e
por oito anos). Nos acertos de entao,
quem contava era seu marido de Val6-
ria, o deputado federal Vic Pires Fran-
co, dono do partido, ji cor uma carreira
political consolidada.
O cacife eleitoral de Vic continuou
send suficiente apenas para garantir-
Ihe em 2006 mais um mandate de depu-
tado. Val6ria foi at6 o final do mandate,
junto com Jatene, para assegurar a re-
taguarda da miquina official para a frus-
trada tentative de retomo de Almir. E
tamb6m para reforqar a presence da
vice-governadora. E provivel que ela
tenha circulado mais pela capital e o in-
terior do que Jatene, valendo-se inten-
samente dos meios proporcionados pelo
seu gabinete e pela secretaria de pro-
mo~go social, que acumulou.
Um politico de visao mais curta teria
se desincompatibilizado para tentar ga-
rantir um mandate politico, mas Val6ria
optou por ficar sem cargo pelos dois anos
seguintes para nao prejudicar a candi-
datura do marido. Em compensaqio, os
dois nao pararam de articular e prepa-
rar o cendrio para a apresentacao de Va-
16ria para a prefeitura de Bel6m neste
ano. O terreno ficou propicio a essa ar-
ticulaqao por causa da tibieza tucana.
Embora os grandes lideres do PSDB
digam defender um projeto, o do "Novo
Pard", o que mais conta nos seus cil-
culos, como na esmagadora maioria da
classes political, 6 o interesse pessoal e
grupal. Por essa 6tica, a melhor estra-
t6gia tucana era a reeleiqao de Ducio-
mar Costa, que, embora do PTB, 6 gen-
te da casa. Ele manteria os compromis-
sos cor os tucanos de maior bico, in-
clusive para a reserve de cargos na
administraqao municipal a parents e


aderentes, e para apoid-los na eleiiao
de 2010. O leque de composic6es era
vasto e podia at6 absorver uma nova
alianqa cor o PMDB.
Essa possibilidade alvoroqou os tuca-
nos que se posicionam contra tal iniciati-
va, agrupados em torno do ex-governa-
dor Almir Gabriel, e abriu uma cunha em
favor da coligaqao PSDB-DEM, mas corn
posiq6es invertidas em relaqio a dispute
de 2006. Agora, os Democratas ocupari-
am a cabeqa de chapa. nao por simples
imposiqgo. Verificou-se que Val6ria nao
6 mais apenas uma Patricinha que se
empolgou com a atividade political e p6de
praticd-la graqas ao
artificio da figure de
vice, que dispute o
cargo sem precisar
ser votado, e 6 eleito
na onda gravitacional
do titular da chapa.
As pesquisas de
opiniao realizadas
at6 agora mostraram
que Val6ria Pires
Franco ja ter iden-
tidade eleitoral: ela 6


a segunda preferida
pelos eleitores con-
sultados e aparece
cor grandes possibi-
lidades de passar
para o 2 turo e ven-


cer seu provdvel
opositor, frustrando os pianos de Ducio-
mar Costa para um segundo mandate de
prefeito de Bel6m. Uma credencial va-
lorizada ainda mais pela circunstancia de
a campanha eleitoral s6 estar comeqan-
do para valer agora. Indicaria a tenden-
cia de Val6ria crescer ainda mais com a
sua maior exposiqao ao p6blico.
Essa interpretaiao, por6m, deve ser
relativizada. At6 aqui Val6ria nao teve
a contrapartida de um combat mais di-
reto. As critics que recebeu a atingi-
ram indiretamente, quando ela ainda nio
era considerada como uma aspirante ao
topo do poder. Poucos apostariam na
sua ascensao, a ponto de se apresentar
como s6ria pretendente a principal pre-
feitura que estard em dispute nesta elei-
gFo. Ela fez intense campanha political
nao declarada enquanto foi vice-gover-
nadora e secretdria estadual de promo-
cao social.


Continuou nas ruas depois que dei-
xou os cargos, faturando o efeito inerci-
al dos beneficios que gerou e da estru-
tura criada para a execuqao dessas
obras, representada por seu ex-s6cio e
secretdrio estadual de said, Fernando
Dourado, alvo constant de mat6rias de
denfincia publicadas no Didrio do Para.
Acusado de praticar atos administrati-
vos irregulares, Dourado teve sua can-
didatura a vereador impugnada pelo Mi-
nist6rio Publico Eleitoral. A impugnaqao
estd pendente de decisao judicial. Pode
ser uma fonte de muniqdo anti-Val6ria.
S6 agora a imagem positive que ela
montou vai ser pos-
ta em questao de
fato. Certamente
S\seus adversdrios ex-
plorarao sua origem,
Sa mesma de Ducio-
mar Costa. Ambos
devem a posiaio que
ocupam ao long rei-
nado recent dos tu-
canos, sem o qual 6
pouco provdvel que
chegassem onde es-
tao, principalmente
Val6ria. Ela conse-
guird se desgrudar
dessa associacio.
protegendo-se do
efeito nocivo da re-
jeiglo ao prefeito?
Mesmo que consiga, ainda tera dian-
te de si outro desafio: demonstrar aos
eleitores que ter autonomia em relaiao
ao marido. Apesar de eleito corn grande
quantidade de votos, o deputado Vic Pi-
res Franco possui tamb6m alta rejeiqio.
A causa esta nos seus infinddveis zi-
guezagues: muda facilmente de posiiao
se seus interesses tamb6m mudam, sem
se preocupar com a sua trajet6ria, o que
cria uma expectativa negative, de des-
confianqa, quase generalizada em rela-
iao ao seu nome.
O exemplo mais expressive das in-
constancias do president do DEM foi
em relaq~o ao grupo Liberal. Vic e a
esposa foram locutores da TV Liberal
e privavam da intimidade do principal
executive da empresa, Romulo Maio-
rana J6nior. Mas como houve desen-
tendimento entire ambos, Vic nao hesi-
CONCLUI NA PAG 6


Jornal Pessoal *2 QUINZENA AGOSTO DE 2008 S


II


I_





cONCLwSAO DA PAG 5
tou, em 1997, em assinar uma aq~o po-
pular para anular o tristemente famoso
"convenio" entire a TV Liberal e a Fun-
telpa (Fundaqao de Telecomunicaqfes
do Para). A relacao, estabelecida no
primeiro governor de Almir Gabriel, foi
considerada illegal e imoral: a Funtelpa
pagava para ceder a TV Liberal seu
sistema de transmissao espalhado pelo
interior. A emissora da familiar Maiora-
na recebeu 30 milh6es de reais dos co-
fres p6blicos em 10 anos e ainda se
poupou de investor na construq~o de
uma rede retransmissora pr6pria.
Bastou, por6m, os Maiorana aceita-
rem restabelecer a conviv6ncia para Vic
Pires Franco retirar o patrocinio da aqco,
sem a menor consideraqao pelo fato de
que a promovera alegando defender o
interesse piblico. A aq~o s6 nao foi ar-
quivada porque o soci6logo Domingos
Conceigqo cedeu seu nome para o pros-
seguimento da iniciativa, que agora de-
pende de recurso a segunda instancia
contra a decisao da polemicajuiza Rosi-
lene Filomeno, que considerou legal o
"conv6nio" (na verdade, um contrato).
A relaqco entire Vic e o grupo Libe-
ral se normalizou, mesmo que nao se
possa garantir que com ela voltou tam-
b6m a confianqa. O que a mant6m sao,
sobretudo, os interesses comuns. O de-
putado federal 6 muito fitil a corpora-
gqo em Brasilia, onde se movimenta
com grande desenvoltura. E o grupo de
comunicaqao retribui promovendo o par-
lamentar e sua esposa. At6 ela lanqar
sua candidatura nas ruas, o candidate
do grupo Liberal era o prefeito Ducio-
mar Costa. Agora, a empresa trabalha
cor as duas hip6teses para manter sua
fluencia de acesso ao poder (e ao cai-
xa) municipal.
Inteligentemente, mesmo sem admi-
tir o fato, Val6ria mant6m-se A distancia
do marido. Quer sugerir ao eleitor que,
al6m de ja ter identidade, ter autono-
mia. Se assumir o palAcio Ant6nio Le-
mos, sera ela quem governard, e nao Vic.
Ha quem consider sincera essa inten-
q~o e decidido o prop6sito. Mas esse 6
um lance que s6 podera ser aceito corn
comprovaqao. A presunq~o dominant 6
a contraria: quem realmente decide e
continuara a decidir 6 o deputado fe-
deral. E, junto cor ele, o grupo Liberal.
Val6ria Vinagre Pires Franco tera que
provar que 6 realmente um fato novo na
viciada political paraense, que veio para
ficar (e nao para "passar uma chuva")
e que agora o projeto de mudanqa nao
sera apenas um adereqo verbal.


Os movimentos social


Ha um novo jargdo em curso fluente
no Brasil: criminalizaqao. Nos ultimos
tempos, ele ter sido usado em defesa
dos movimentos sociais: seus adversAri-
os, contando corn o apoio de uma ala
conservadora do poder judiciario, pas-
saram a criminalizar os movimentos so-
ciais, atribuindo aos seus atos o peso de
delitos penais. Com isso, os enquadram
na letra da lei, submetem-nos ao proces-
samento judicial e, finalmente, os con-
denam, imobilizando-os de vez.
Num pais no qual a questao social cos-
tuma ser considerado caso de policia e a
injustiqa social 6 um traco constant ao
long de todo o process hist6rico, at6 hoje,
a reaqao 6 legitima. Ja 6 hora de as elites
considerarem o povo brasileiro com aten-
gao, respeito e acatamento. A espinha
dorsal de uma nagqo 6 o seu povo, tauto-
logia que raramente escapa da cercadu-
ra dos discursos vazios. Nem por isso,
por6m, os movimentos sociais podem se
conceder direitos absolutos. Nao podem
ser ao mesmo tempo parties no process
e seus julgadores e sentenciadores.
O surgimento (ou ressurgimento) de
certas expresses em determinados mo-
mentos hist6ricos nao 6 fortuito: a lingua-
gem tamb6m express a dinamica social,
6 um canal de voz para os que sao (ou
tentam ser) atores na cena coletiva. Mas
os jarg6es podem perder seu significado
semantico e sua identidade etimol6gica
por uma repetiqao mecdnica, ou pelo mau
uso, condicionado e viciado por interes-
ses que extrapolam a linguagem.
A criminalizacao, de fato, 6 uma ma-
neira de imobilizar os movimentos soci-
ais. Mas essas iniciativas s6 prosperam
porque ha uma ordem legal, que serve
de parfmetro para a vida em sociedade,
cor toda a sua dial6tica. A ordem legal
vigente foi estabelecida atrav6s de uma
constituinte, convocada quando da reto-
mada da democracia no Brasil. As nor-
mas dessa estrutura juridica podem pa-
decer de falhas, desvios, tendenciosida-
des. Nem por isso sejustifica uma meta-
ordem legal, paralela e aut6noma. Do
contrario, nao estariamos numa demo-
cracia, mas sob a vigencia (ou a amea-
qa) de uma nova ordem em estado lar-
var, subterranea, clandestine, mas pre-
tendendo chegar ao pleno exercicio pela
derrocada da ordem institutional.
Certos movimentos sociais dispen-
sam ser criminalizados porque simples-
mente se acostumaram a praticar e rei-


terar crimes. Sua pretensao a inoc6n-
cia, A pureza, A elevacao e, mais do que
tudo, a inimputabilidade, lembra a ale-
goria do rei nu, que queria respeito ge-
ral aos seus trajes ficticios. Esses mo-
vimentos sociais podem, fundamenta-
damente, denunciar que sofrem perse-
guiqao, que ajustiqa 6 tendenciosa ao
apreciar as demands nas quais sao
parties, que ha conluio de magistrados
cor seus perseguidores. Mas nio pode
achar que, como Harry Potter, ter uma
vestimenta especial debaixo da qual se
torna invisivel. Ou que comanda sua vi-
sibilidade, exibindo-a ou ocultando-a
conforme as circunstancias.

E o caso do Movimento
dos Trabalhadores
Rurais Sem-Terra. 0 MST
optou por nao assumir
personalidade juridica,
embora tenha montado uma respeitdvel
estrutura em varias parties do pais, in-
clusive cor recursos p6blicos que lhe
foram repassados, sobretudo pelo gover-
no federal. E uma anomalia no mundo
juridico, mas 6 decisao moralmente sus-
tentAvel (no principio da desobediencia
civil), desde que o movimento se dispo-
nha a pagar o preqo, quando lhe for co-
brado. O pagamento seria mais leve se
ele dispensasse as verbas do erario, mas
nio o faz porque o Estado brasileiro 6
um biombo para o roubo, para a forma-
qio de fortunes individuals.
Caberia ao MST apresentar as pro-
vas e provocar a manifestaqio das ins-
tfncias competentes para apurar o des-
vio de recursos publicos e o enriqueci-
mento ilicito, al6m de varios outros dos
crimes de colarinho branco, e cobrar pro-
vid6ncias concretas, dentre as quais o
processamento, responsabilizaqio e con-
denaqdo dos autores dos crimes contra o
patrim6nio plblico, a serem devidamente
encarcerados e privados de seus bens ili-
citamente obtidos, quando o caso. Nio
pode o MST, como qualquer outra enti-
dade ou movimento, atribuir-se as funq6es
de acusaq~o ejulgamento em circuit fe-
chado. Mesmo que seja nobre a causa e
boa a intenqlo, essa dinimica acaba em
gulags. E gulags sio das mais nefandas
criaq6es aberrantes da humanidade.
Esta certo o MST quando protest
contra o enriquecimento desmesurado da
Companhia Vale do Rio Doce. nao par-


6 AGOSTO DE 2008 .2 QUINZENA Jornal Pessoal






R OS ri inaliza Lula, Ana Jilia
e os desencontros


tilhado na mesma media com a popula-
aio das dreas cujos recursos naturais
explore, e organize manifestaq6es para
chamar a atenqao da opiniao ptiblica para
essa distorqao. Mas erra quando parali-
sa reiteradamente as atividades da em-
presa e, nessa progressao, o ato descam-
ba para a sabotagem, o vandalism e a
vilania. Ainda que a mesma boa inten-
0ao perpassasse essas manifestac6es,
elas teriam a eficdcia dos ataques dos
operarios As mdquinas da nascente in-
dustrializaqao dos s6culos XVIII e XIX.
E o mesmo o context da mais re-
cente das iniciativas do MST, que no mas
passado ocupou um dos im6veis rurais
que o Banco Opportunity adquiriu no sul
do Pard. A bandeira da justiqa social 6
bonita, mas nao pode ser considerada tao
larga que acabe por abrigar qualquer ini-
ciativa engendrada em nome dela. Fala-
se que o grupo econ6mico de Daniel
Dantas ter 500 mil hectares na regiao,
com 450 mil cabeqas de gado espalha-
das por vdrias propriedades, e que um
filho do president da repdblica seria o
abre-alas do banqueiro, recentemente
preso pela Policia Federal sob a acusa-
qao de comandar uma rede intrincada
de neg6cios escusos, dentro e fora do
pais, corn transito pelo mundo econ6mi-
co e os biombos politicos.
Esse boato ter quase tres anos. E sur-
preendente que nesse tempo os 6rgaos pi-
blicos nao tenham conseguido apurar o que
de fato existe por trds de tantas suposi-
q6es. E tao surpreendente que tal imp6rio
se tenha constituido sem o conhecimento
adequado da sociedade. Sdo duas situa-
96es a clamar por providencia. Mas nao
pela mera execuqao de sentenqa putativa
do MST. O mundo da legalidade requer
consideraqao pelos ritos e pelas regras
estabelecidas atd que o delito seja desfeito
e a normalidade restabelecida.
Como terras aforadas pelo Estado
(e que por isso, nao podem reverter
ao dominio da Uniao, ao contrario do
que alega o MST) para a exploraqao
de castanhais acabaram nas maos de
terceiros, usadas para a criaqao de
gado? Quem comprou? De onde veio
o dinheiro usado na aquisiqao e para
onde foi depois? Quais os personagens
desse enredo? Como agiram? Quais os
interesses envolvidos? Estas sao ape-
nas algumas das perguntas que preci-
sam ser satisfatoriamente respondidas
antes do ato executive, que o MST quer


precipitar. De precipitaqao em preci-
pitaqco, aonde chegaremos? Como
chegaremos? Ainda sob uma demo-
cracia? Mas qual democracia?
A principal culpa nao 6 dos movimen-
tos sociais ou dos seus aliados. E do go-
verno e, por trds dessa abstraqao, de uma
elite que manipula os cord6is do poder e
rouba de uma forma criminosa. Ela priva
o pais de usar a renda da sua atividade
produtiva em beneficio do povo, que sofre
em hospitals ruins, em escolas ruins, em
moradias ruins e num conjunto de situa-
cqes desfavoriveis. Enquanto isso, ape-
nas mandarins tiram proveito da excepci-
onal receita que o pais ter obtido, nem
sempre exatamente por seus m6ritos (em
algumas circunstancias, a despeito deles).
Cor quase um quarto de s6culo de vida,
o MST constitui capitulo A parte na frag-
mentada hist6ria dos movimentos sociais
brasileiros. Nem por isso 6 a fonte do di-
reito, da justiqa, da salvaqio. Pais feliz-
mente complex, o Brasil merece nao cul-
tivar movimentos fundamentalists, salvi-
ficos, seja qual for o seu jargao.
O MST 6 um ator na trama social
brasileira, nao o ator, como os outros mo-
vimentos sociais. Eles devem desempe-
nhar seu papel sem querer eliminar os
demais. Nao podem repetir o triste es-
petdculo que deram no encerramento do
VI Congress Estadual de Jornalistas,
no dia 2, quando impediram que uma
jornalista paraense, L6cia Leao, fizesse
sua palestra, simplesmente por ser a
editora-executiva do Jornal Hoje. A
Rede Globo de Televisao jd fez muito
mal ao pais, mas nao tanto que mereqa
uma mordaqa, ainda mais porque o cala-
boca nao foi imposto a empresa, depois
de um process qualquer, mas a uma de
suas funciondrias, de sfibito, sem con-
versa nem apelaqgo.
Se quisessem, mesmo sem convite,
os 80 valorosos militants dos movimen-
tos sociais deviam manifestar sua desa-
prova lo a mensagem da jornalista da
Globo depois que ela falasse e caso,
usando seu raciocinio e nao seus arte-
Ihos, concluissem que ela era apenas
moleca de recado do patrao, a quem
vendeu nao a sua forqa de trabalho, mas
sua razao, sua honra e sua alma. Do
contrdrio, devemos continuar sob a de-
mocracia, o pio r dos regimes, exce-
to pelos outros. Mesmo que seja para
desfaze-la e refaze-la sempre melhor:
na pluralidade e na alternincia.


Logo que os atuais governadores
iniciaram os seus mandates, a revista
Veja atribuiu ao president Luiz Ini-
cio Lula da Silva uma confid6ncia: de
que, para ele, sua correligioniria, Ana
Jilia Carepa, do Pard seria o pior de
todos os governadores. Se realmente
fez a previsdo (que nunca desmen-
tiu), Lula acertou no alvo: as pesqui-
sas de opiniao colocam a governado-
ra do Pard ao lado de Yeda Crusius,
do Rio Grande do Sul, como as mais
impopulares do pais.
Por culpa ou sem ela, por infelici-
dade ou por acaso, Ana Julia sempre
chega a opiniao public national as-
sociada a um fato negativamente po-
16mico. Sua trajet6ria comeqou mal
com a contrataqio de cabeleireira e
manicure. Prosseguiu mal cor o na-
morado piloto. E se manteve no mes-
mo diapasdo mais recent corn a cri-
se da Santa Casa de Miseric6rdia. a
render dissabores at6 hoje. Parece
sujeita a um estigma, como o que ame-
aqou enodoar a brilhante carreira da
cantora Fafd de Bel6m, tida como
azarada.

Fafa se limpou
da mancha,
mas Ana Julia
ainda nao. Os efeitos se fa-
zem sentir no Palicio do Planalto. que
parece nao encard-la cor bons olhos.
O Pard, que ter a 9a maior popula-
cao brasileira, foi o 17 em repasse
de verbas federais entire 1 de janeiro
e 10 de julho deste ano. Teve direito
a apenas a 74 milh6es de reais, ou
2,9% do total, quase a mesma per-
centagem de Roraima (2.8%), Esta-
do que tem populacao quase 20 ve-
zes menor. A frente do Pard, na Ama-
zonia, ficaram o Amapd, do PDT, cor
R$ 100 milh6es, o Amazonas, do
PMDB (89 milh6es), e o Acre, do PT
(R$ 82 milh6es).
Como o crit6rio adotado para os
repasses nao foi 16gico. tomando al-
guma ordem de grandeza como refe-
rencia, o Piauf governado pelo PT fi-
cou em 7 lugar (cor R$ 127 milh6es)
e o Ceard, sob o control do aliado
Ciro Gomes, em 30 (197 milhoes).
Ana Jilia ficou em iltimo lugar entire
os governadores petistas.
Mais um recado de Lula, desta vez
sem usar Veja como mensageira?


Jornal Pessoal *2' QUINZENA AGOSTO DE 2008 7








IFM1RkA DO COTIDIANO


PERSONAGEM
Foi geral a curiosidade so-
bre a moqa bonita ao lado do
velhojornalista Paulo Mara-
nh~o no audit6rio da Radio
Marajoara, publicada na edi-
qao passada. O encanto da
personagem despejou para o
segundo piano a importancia
do document sobre o mais
important jornalista do
Pard. Ela 6 Regina Costa,
viuva do m6dico Joao Cos-
ta, ainda hoje presenqa des-
tacada na sociedade.

PROPAGANDA

A TV paraense
TrOs anos depois de ser
inaugurada, a programa-
aio da TV Marajoara (ca-
nal 2) de 1962 durava mais
tempo aos domingos: come-
cava as duas da tarde e ia
ati as 10 e meia da noite.
Durante quase meia hora a
tela exibia apenas a ima-
gem do padrdo da emisso-
ra e sua abertura. As cenas
s6 entdo apareciam, corn o
"cinema em casa". Depois,
havia a "tarde esportiva",
corn uma rara (e cara) ex-
terna, na cobertura dos jo-
gos de fittebol, cor os pre-
cdrios meios disponiveis.
Corn "Dennis, o travesso",
nos chegava a seducdo do
american way of life, ao
qual nos entregdvamos
quase sem defesas. 0 pon-
to alto da noite era o "Do-
mingo... depois das 9", pro-
grama de jornalismo e va-
riedades comandado por
Roberto Jares Martins, que
abria as portas para o mun-
do da terra num horizonte
de enlatados que jd chega-
vam prontos. Dos patroci-
nadores locais, apenas Y.
Yamada e Constrular con-
tinuam no mercado. Jai, o
Camiseiro, E Aguiar Eccir-
Macon-Pavinorte, Odalis-
ca e Mesbla se foram.


BAILEY
No nimero 299 da aveni-
da Braz de Aguiar funciona-
va um hotel, o Januvalle, que
em 1958, durante o jantar
dancante que realizava todos
os dias, homenagearia o con-
junto musical Os Mocoron-
gos, "o mais afamado de Be-
16m". O violonista Sebastiao
Tapaj6s era um dos integran-
tes do conjunto, formado por
santarenos. Era exigido o tra-
je passeio complete (palet6 e
gravata). Era o traco sofisti-
cado da cidade.
Por incrivel que pareqa, os
"amplos sales" do Teatro da
Paz eram abertos na mesma
semana para uma "reuniao
dancante" promovida pelo


Atl6tico Belenense. Nao dai
nem para pensar nos sales da
casa de 6pera ocupados por
mesas (vendidas na Casa das
Meias e na Barbearia do Ho-
tel Central) e em danqarinos
evoluindo ao som da orques-
tra da Radio Marajoara, sob a
diregqo do maestro Sil6zio
Queiroz. Era o lado predador
da cidade, que se desenvolve-
ria depois da Segunda Guerra
Mundial, sob inspiraqlo do
pragmatismo e funcionalismo
dos vencedores.

NOMES
Por que Cleobery ganhou
esse nome? Porque seu pai
era Albery Monteiro da Silva
e sua mae, Cleopatra da Sil-


va. Como era comum na 6po-
ca, os doisjuntaram suas ini-
ciais e a sapecaram no pim-
polho, que fazia anos em 28
de maio de 1958. Era a mes-
ma a data natalicia da senho-
rita Ivete Lucia, filha de La-
6rcio Menelau Tavares Pi-
nheiro (e Raimunda Amaral
Pinheiro), e da sra. Marly,
"consorte do sr. Arveviades
Pedroso de Albuquerque".

CASTANHA
Em 1958 o maranhense
Le6nidas Almeida era sauda-
do como o recordista na pro-
ducqo de castanha de Mara-
bi. No seu ponto, o Centrinho,
que ficava no castanhal Ma-
caxeira, de Plinio Pinheiro, as
margens do rio Itacaiunas, ele
chegou a tirar numa safra 255
hectolitros, quando a m6dia
por produtor variava entire 50
e 100 hectolitros. Le6nidas,
que ainda era solteiro, vivia na
area como castanheiro desde
1947. Os grandes castanhais
da regido desapareceram.
substituidos pelo gado e plan-
tios de ciclo curto. Dizem que
isso 6 progress.

BELEM
Se viver atualmente em
Bel6m nao 6 bom, nem sem-
pre no passado foi melhor. E
o que mostra uma nota publi-
cada sob pseud6nimo (Rober-
to) na Folha Vespertina do
final de 1959. Acidade convi-
via cor a carencia de ener-
gia el6trica, "a mais cara de
quantas existed no mundo e
tamb6m a mais fugidia". Mo-
radores dos ainda poucos pre-
dios (hoje, demasiados) eram
submetidos ao desprazer de
"descer e subir pelas escadas.
pondo os bofes pelas bocas".
Os ocupantes de casas
t6rreas nao se saiam melhor:
"Chegam em suas resid&nci-
as cansados e esgotados, de-
pois de manterem terrivel luta


8 AGOSTO DE 2008 .2oQUINZENA Jornal lessoal


pa aloie


14,00 PADRAO
14,25 ABERTURA
14,30 CINEMA EM SUA CASA
16,00 TARDE ESPORTIVA (Externa) Patrocinio dr
Y. Yamada & Cia.-Jai, o Camiseiro
18,05 ATI ALIDADES PORTUGUtSAS Patrocinio
de Constrular
18,25--DENNIS, O TRAVESSO Patrocinio do Nbvo
Krcsto
19,05- GRANDE RF. ESF HA ESPORTIVA
19,35 --0 MENINO DO CIRCO -- Patrodnio d- XN6-o

20,015- C(',I i.,u DA ID. L .P'Ti, dn Sa" Pa-
Irocin o de V. .\Aiar & Ci.,
20,-35 ]NTFR POL 0'i,' 1,\ D Patrocinio de Eccir-

,0- I OMINGrO.. Pf! n Patrocinio d'
Odalisca-Co'.y
21,; -TV DE ;-r'-: I A ( n, t,. l ncioSa")
Patrocinio de .Ba;I 22,05-- JU L.F' MUS1CAL MTESaLA Pa.rdocinio
(la Mc'libh; S A
22,;.{1 .. ENCEIKHAdlESTr':





para conseguir um lugarzinho
nesses 6nibus (Deus nos per-
doe se os chamamos de 6ni-
bus!), chegam em casa mais
mortos do que vivos, depois de
dar pulos e mais pulos para
evitar as poqas de lama e can-
teiros de capim e lixo, e assim
que entram no sagrado recan-
to, esti tudo as escuras. Ape-
nas, como na casa do caboclo
do interior, brilha uma fraca luz
de candeeiro. Mas no fim do
mrs muitos dos que nao pos-
suem o medidor de energia
gasta, terdo de pagar a cota
estipulada. gaste ou nao, fora
a despesa corn o telefone".

BANCO
Outro fen6meno perma-
nente na vida p6blica apare-
cia na coluna "Vozes da Rua",
da mesma Folha Vespertina,
na mesma 6poca. Dizia, bern
ao estilo de Paulo Maranhdo
(que escrevia a maior parte da
coluna, ser assini-la): "Este-
ve na cidade de Viseu uma
comissao do B. C. A. [atual
Banco da Amaz6nia], a fir
de proceder a investigaq6es
sobre a existencia de proprie-
dades hipotecadas pelo sr. Ge-
orge Teles da Cruz para rece-
ber certa quantia por empr6s-
timo. A comissao nada encon-
trou. A propriedade hipoteca-
da era uma fazenda de gado.
Interrogado a respeito, o falca-
trueiro disse que o gado fora
passear aos campos de Inaja-
teua, onde hi gado de muita
gente menos dele. Leve o Ban-
co mais esse prejuizo para o
seu tabaco. E bem feito".
A recalcitrancia no erro nio
6, portanto, por desinformaqdo.

COMERCIO
A Casa Loureiro, que fun-
cionava no inicio da rua Ma-
noel Barata, experimentou
pela primeira vez em 1959 dar
f6rias coletivas aos seus fun-
ciondrios entire 1 e 16 de ja-
neiro. "Em virtude do comple-
to 6xito obtido", comunicou no
final desse mesmo ano "as
autoridades federais, estadu-
ais, municipals e eclesiisticas,
aos bancos, As classes comer-
cial e industrial, aos seus cli-


r Ar


FOTOGRAFIA

A livraria do Haroldo
A Dom Quixote foi ura das melhores livrarias que Belim jd teve. 0 escritor e jornalista
Haroldo Maranhdo, em sociedade com os irmdos mddicos Paulo e JuvOncio Dias, a colo-
caram para funcionar em 21 de dezembro de 1959, num ponto que era entdo de primeira:
a galeria de said do Cine-Teatro Paldcio. A loja era pequena e estreita, mas como tinha
um pe direito alto, as prateleiras iam ate o alto, lotadas de livros "de carter filosofico,
obras de ficado e poesia, compendios de pedagogia, psicologia, direito, political, artes,
histdria, alim de farta variedade diddtica, tudo a preqos acessiveis", conforme a noticia
publicada na Folha do Norte (do av6 e do pai de Haroldo). A inauguraado compareceram
o deputado Cldo Bernardo, c6nego Apio Campos, coronel Jocelyn Ribeiro, os "doutores"
Uaracy Palmeira, Eldonor Lima, Mauricio Coelho de Souza, Raimundo Moura, Otdvio
Meira e Wanderley Normando, e os jornalistas Jurandir Bezerra, Eliston Altmann e Ossian
Brito, mais a colunista Regina Pesce. A livraria foi "a melhor novidade" do fim de ano,
"atendendo a uma das mais palpitantes aspiracdes da intelectualidade paraense".


entes e ao piblico em geral",
que repetiria esse "sistema de
f6rias" no mesmo period, em
1960. Tamb6m avisava que,
ao retorar As suas atividades,
manteria o novo horario de
atendimento, que se mostrara
acertado: das 7 As 12 horas e
das 15 As 18 horas.
Muitojusto.

BOATE
A Maloca, boate que, corn
o format de uma habitacqo
indigena, se instalou em plena
praqa da Repiblica, ao mes-
mo tempo movimentando a
cidade e transgredindo suas
posturas piiblicas, foi inaugu-
rada no dia de natal de 1959.
Fiel, portanto, A sua filosofia,
de promover festas sem orto-
doxia. Para atrair ainda mais
a abundante e abonada clien-
tela, a boate mantinha na im-


prensa uma "ronda social",
registrando a presenqa de fre-
quentadores. Entre os que sa-
borearam suas rec6m-lanqa-
das "iguarias regionais" no dia
29 de dezembro daquele ano
estavam, conforme o registro
official: "dr. Cl6vis Malcher e
esposa; Cl6vis Ferro Costa e
esposa; senadorAnt6nio Mar-
tins Jinior; dra. Betina Ferro;
dr. Agostinho Sales e esposa;
dr. Flhvio Moreira e esposa;
dr. Deusdedith Moura Ribei-
ro e esposa; jovem Mario Lei-
te e noiva; dr. Napoelao Fi-
gueiredo e esposa; sr. Hugo
Bechara e esposa; e sra. An-
g6lica Andrade".

AUTOMOVEL
A cultural do autom6vel
chegava para ficar na cidade,
antes insulada, mas que, em
1959, estava na v6spera de ser


invadida pela frente de expan-
sao atrav6s da rodovia Beldm-
Brasilia. Nesse ano, um antin-
cio na imprensa proclamava as
virtudes do desincrustante Wil
Wal, que limpava toda a tubu-
laq~o dos carros sem corroe-
la, pelo contririo, a conservan-
do e assim aumentando o ren-
dimento "para o seu trator,
autom6vel ou caminhio". O
poduto era vendido na Impor-
tadora de Ferragens, Estancia
Tavares, Garagem Central,
Servicentros Esso (um deles
numa das esquinas da praqa
da Repfiblica, do outro lado da
Maloca, e outro na avenida
Senador Lemos), postos
Atlantic (1, 2 e 3), Posto In-
vencivel, Posto Texaco e A
Motorizada. Ja era o inicio de
um circuit de serviqos hoje
imenso. 0 autom6vel 6 o ci-
clope da era contemporanea.


Journal Pessoal .2' QUINZU'JA AGOSTO GE 2008


Jornal Pessoal *2? QUINZENA


. AGOSTO DE 2008








MATERIAL (1)
Li com uma mistura de orgu-
lho e emocao a mrt6ria publica-
da no Los Angeles Times na edi-
qao 422, 1" quinzena de agosto
do JP, sobre como voce mereci-
damente 6 respeitado pela im-
prensa mundial. Orgulho e emo-
cgo porque sei que os que amam
o Pard ainda enxergam em voce
um fio de esperanqa para um Pard
livre e soberano de verdade.
Sergio Souza

MATERIAL (2)
Gostei muito da mat6ria pu-
blicada no Los Angeles Times,
que voce reproduziu no iltimo
JP. E mais um prova da impor-
tancia do seu trabalho e alento
para as provaqoes porque tern
passado por executi-lo berm.
Maura Campanili
Sdo Paulo

MATERIAL (3)
O Pinto lembra Euclides da
Cunha ao mergulhar corajoso na
mat6ria, ou o Tobias Barreto que
tamb6m publicava um journal
pessoal. Coisa rara! Esti cada
vez mais em falta.
Paulo de Almeida, agr6nomo -
Hagen, Inglaterra

SITE (1)
Hoje consegui o meu regis-
tro no site do JP. O site esta ex-
celente! As temrticas organiza-
das por categories permitem urma
busca rapida para pesquisa. A
Amaz6nia agradece mais este
instrument de comunicaqao al-
ternativo e independent. Se
corn o JP de papel os registros
hist6rico-jornalisticos da regiao
nao passaram em branco, agora,
na internet, eles ganharao o mun-
do. Corn o site no ar, teremos
mais uma vez a tua marca
jornalistica: o m6todo critic por
excelEncia de fazer uma boa im-
prensa, aquela assentada na ver-
dade, na liberdade, enfim, na 6ti-
ca. Agora, ningu6m mais poderd
dizer que "perdeu uma edicqo",
que "nao sabe onde comprar".
Celia Amorim

SITE (2)
Uma das melhores noticias
que tive nos 6ltimos dias, essa
do site. Nao que eu va deixar de
comprar o JP na banca, mas 6
que a bagunqa da minha
estate 6 o pior desestimulo para
uma pesquisa decent, sem con-
tar queja nto tern muito espaqo.
Alem do mais, aqui em nossa
umida (por enquanto) regiao,
funciona a critical esfarelenta do
mofo, e nao tern coleqao que re-
sista. E nunca 6 demais repetir:


vida longa ao Jornal Pessoal, o
de papel e o virtual!!
Artur Dias

SITE (3)
Finalmente para n6s, seus
leitores assiduos, voc6 foi
vencido pela tecnologia e para
a nossa alegria e orgulho o seu
site foi lancado na internet. A
partir de agora as pessoas que
nao tinham acesso ao conteu-
do de qualidade das reporta-
gens veiculadas por meio do
Jornal Pessoal, poderAo des-
frutar do mesmo prazer que os
seus leitores sentem ao ir ata a
banca de revista e adquirir as
ediq6es quinzenais deste gran-
de veiculo de comunicaqao,
corn certeza um dos melhores
do mundo em seu genero.
Parab6ns e que o site tenha
vida longa como a do Jornal
Pessoal.
Marcus Santos

VENDA
Sou leitora do seu Jornal Pes-
soal. Na ediqao da 2a quinzena de
2008 de junho, o senhor pergun-
tou ao leitor no artigo "Venda em
queda" se o motive da queda na
venda do journal seria a perda de
qualidade no conte6do. Afirmo
que, a meu ver, nao houve perda
de qualidade. 0 seujornal traz te-
mas de interesse relevant para a
regiao, independents e fi6is ao
verdadeirojornalismo investigati-
vo, inclusive gostei muito do arti-
go sobre ajuiza Clarice do caso da
menina estuprada na cela de Abae-
tetuba. Entao, a questao nao 6 da
perda da qualidade no conte6do.
Em minha opiniao, falta me-
lhorar o layout do journal. Gos-
to muito do layout da revista
Veja, pois ela intercala o texto
com fotografias, pesquisas. Se
pudesse ser feito isto no seu
journal, acho que as vendas au-
mentariam. Bern, esta 6 a opi-
niao de uma leitora preocupa-
da corn que o seu jornalismo
independent divulgado por
meio do Jornal Pessoal conti-
nue tendo eco para os leitores
avidos por informaqro s6ria.
Lyane Monassa Moreira

MINHA RESPOSTA
A leitora tern razdo na sua ob-
jeqdo ao visual do JP. Esse de-
senho, menos favordvel aos
olhos, foi concebido para pro-
piciar a leitura e ndo a con-
templagdo. E pouco espaqo
para acomodar tantos temas
que ndo hd outro jeito. 0 Luiz
Pinto faz milagres (alguns sur-
preendentes mesmo) para ali-
viar a carga dos textos. Espe-
ro que os leitores considered
o conteuido merecedor de cer-
ta tolerdncia formna.


Ausencia

O poder pfiblico continue a encarar o mrs dejulho como se
apenas um par de milhares de pessoas saisse para os balneari-
os. A imprevid8ncia deixa h conta do azar (e da sorte) haver ou
nao acidentes, simples ou graves. A fiscalizaqao nao esta h altu-
ra do fluxo de pessoas e veiculos, tanto em quantidade quanto
em rigor. A condiqao das estradas esta sempre a desejar. Algu-
mas, pela intensificadao sazonal do uso, se tornam pistas da
morte, como a PA-124. Para que o veraneio, elevado A condi-
cao de ato seminal, nao se tome origem de trag6dias, o poder
pfblico tamb6m precisa ir as praias. Mas para trabalhar.


Constatago

Os pais nao estao conseguindo acompanhar os seus filhos,
sobretudo em relaqgo aos que caminham para a independ6ncia.
Caminhante madrugador pelas ruas de Bel6m, ja testemunhei
cenas terriveis de jovens ainda em plena balada, indiferente-
mente ao sol que avanqa no horizonte a alertar sobre os com-
promissos do dia. A reincidancia gera habitos que exp6em es-
sas pessoas a riscos que elas ainda nao estao em condigoes de
bem avaliar, por falta de maturidade. E ou nao ouvem quem
podia ajudd-las ou simplesmente nao hi o que (e quem) ouvir.




Romulo Maiorana Jinior, o principal executive do grupo Li-
beral, vai continuar a ser considerado litigante de mi f6 na aqao
na qual contest a cobranqa da taxa condominial no residential
Lago Azul, um dos mais antigos e mais valorizados na regiao
metropolitan de Bel6m. Atrav6s de recurso, ele questionou o
valor da causa e seu enquadramento na litigancia de ma f6, mas
a 4' Cnmara Civel Isolada do Tribunal de Justiqa do Estado
rejeitou o agravo. Numa area de cinco mil metros quadrados,
formada pela junqao de 10 lotes, o president executive do jor-
nal O Liberal construiu a mais sofisticada mansao do Estado,
mas se recusa a recolher o valor cobrado do condominio.


Ataque

Quem que divulgue notas p6blicas devia se preocupar com o
que diz e como diz. A manifestaqdo dos sindicatos de proprieta-
rios rurais e associaqoes comerciais do sul do Para em defesa
de Daniel Dantas, divulgada na semana passada, nao apenas
ofendeu a razao 16gica: arranhou tamb6m a lingua portuguesa.
Podem-se dizer impropriedades sem agredir o vernculo. Os
dois cometimentos de uma vez 6 dose para boi pirata.


Fotografos

Para quem interessar possa: o paraense Andr6 Penner, que
fez o flagrante da india Tuira no encontro dos povos indigenas
de Altamira deste ano, continue como fot6grafo da AP (Asso-
ciated Press), por6m nao mais em Nova York. Seu domicilio
agora 6 Sao Paulo. Outro paraense, Paulo Jares, que fez a
melhor foto de Tuira quase 20 anos antes, na ocasiio estava
em A Provincia do Part e nao em Veja, que s6 o contratou
depois. O fot6grafo da revista paulista era Paulo Santos. ago-
ra vinculado A ag6ncia de noticias inglesa Reuters e cor sua
pr6pria agencia, a Interfoto, na internet. Jares continue no Rio
de Janeiro, onde se firmou graqas as suas exposiqoes de foto-
grafias como aut6nticas obras de arte.


10 AGOSTO DE 2008 .2 QUINZENA Jornal Pessoal






Juruti: o sentido do desencontro


Henry Ford nunca colocou os pes
nos dois lotes, cor 1,2 milhdo de hec-
tares, que recebeu do governor do Esta-
do no vale do rio Tapaj6s, em 1927, para
plantar seringueiras e produzir borra-
cha. A Ford, a mais poderosa empresa
international da 6poca, permaneceu na
area durante 18 anos e acabou se reti-
rando, em 1945, sem ter conseguido vi-
abilizar a plantaqgo, nem a visit do seu
proprietirio.
Outro americano, Daniel Ludwig,
esteve varias vezes no vale do Jari, en-
tre 1967 e 1982, para ver seu latiftindio,
que imaginava ter 3,6 milh6es de hecta-
res (nao tinha), onde plantou drvores e
produziu caulim e celulose. Mas nunca
conversou corn os moradores locais. Pelo
contririo: comprou suas posses e afas-
tou-os das terras, nas quais se estabele-
ceram muito antes para coletar casta-
nha e produzir borracha.
AAlcoa, maior produtora mundial de
alumfnio, no mercado ha mais de um
s6culo, nao 6 mais uma empresa de um
dono s6, como a Ford foi sob o comando
do seu fundador ou a Jari de Ludwig. E
uma corporaqgo societiria que, por bus-
car parte do seu capital na bolsa de va-
lores, atrav6s da venda de ages, esti
sujeita a mudar de comando por conta
do mesmo mecanismo, ainda que seus
controladores queiram continuar no ne-
g6cio (ver Jornal Pessoal 422).
A alta clipula da Alcoa ji esteve em
Juruti, onde implanta uma nova mina de
bauxita, tres vezes, com escala em Be-
16m. A mais recent excursao foi no fi-
nal do mes passado. Vieram o cidadao
brasileiro que estava deixando a presi-
dencia executive, Alain Belda (que faz
carreira na empresa hi quase quatro
d6cadas), o seu substitute, o americano
Klaus Kleinfeld, e o president da em-
presa para a Am6rica Latina e o Caribe,
Franklin Feder.
Feder saiu de Sdo Paulo, mas Belda
(agora na presidencia do conselho de
administragqo) e Kleinfeld se desloca-
ram de Nova York. Eles se atrasaram
duas horas para o encontro agendado
pela pr6pria Alcoa cor os moradores de
Juruti Velho, que resisted ao empreen-
dimento. O atraso foi considerado um
desrespeito As 40 comunidades da re-
giao, vizinhas da mina, da ferrovia e do
porto, que a multinational americana
esta construindo. Os moradores espe-
raram apenas a chegada da comitiva e
anunciaram o cancelamento do encon-


tro. Nao voltaram atras, apesar dos pe-
didos de desculpas apresentados por
Feder e sua insistencia para que a reu-
nido fosse mantida.
Os comunitarios alegaram que os
dirigentes da Alcoa deram prioridade
a visit a mina e A conversa com em-
preiteiros e fornecedores, ao inv6s de
cumprir o horario marcado com os ha-
bitantes de Juruti Velho. Passaram pelo
local no caminho da mina, sem consi-
derar os prejuizos que causariam aos
convidados, que precisariam retornar
a noite para suas casas, numa nave-
gaq~o dificil pelo Amazonas. Se a con-
versa fosse mantida, o tempo disponi-
vel seria curto demais para possibilitar
questionamentos. Os moradores, refe-
rendados pelos representantes do Mi-
nist6rio P6blico, que estavam no local,
pareciam interpreter a aaio da Alcoa
como cerceamento e manipulaqdo.
Mais um desrespeito na conta das re-
laq6es da corporacao cor os tradicio-
nais habitantes da regiao.

E possivel que
eles tenham razao
e, mesmo sem essa
intengao deliberada,
o atraso da Alcoa
represent uma
desconsideragao da
poderosa multinational
pela propria regiao
na qual vai ampliar
sua presenga (6 co-proprieta-
ria de uma fibrica de alumina e aluminio
em Sdo Luis e s6cia na mineracqo de
bauxita do Trombetas), agora sozinha no
control do empreendimento. Tomar li-
teralmente essa interpretaqgo como ver-
dadeira, por6m, seria atribuir um atesta-
do de burrice e incompetencia a uma em-
presa international que, no caso do pro-
jeto Juruti, vem se empenhando em mu-
dar sua image. E flagrante a contradi-
,o entire a decision de deslocar a c6pu-
la da empresa para o sitio da mina, de
uma forma raramente vista nos sert6es
amaz6nicos (ou sem antecedente mes-
mo), e o grosseiro desprezo para com
os convidados, jd tdo predispostos con-
tra o projeto.
O erro foi cometido e 6 indisfarCg-
vel. Deixa escapar um vicio de procedi-
mento dessas poderosas corporag6es


econ6micas, centradas em seu poder,
metropolitanas na mentalidade, que a
cosm6tica relag6es publicas pode ape-
nas atenuar. Ainda assim, os habitantes
de Juruti Velho e seus assessores nao
deviam simplesmente atirar ao lixo, como
falsa e imprestAvel, a iniciativa da alta
diretoria da Alcoa de ir a area e se ex-
por aos riscos de um debate. Esse gesto
ter seu valor e nio deixa de ser um si-
nal de mudanqa.
Qualquer pessoa que evita seus ini-
migos e adversirios apenas porque eles
sdo seus antagonistas se privard de um
aprendizado valioso e estard ainda mais
exposta ao enrijecimento mental e ao
empobrecimento intellectual. O contato
corn o oposto (e mesmo cor o indese-
jado) 6 mais instrutivo do que parece.
Pode atd reforqar as id6ias que ji se
tinha antes, mas certamente elas fica-
rao mais afiadas, cor melhor fundamen-
taqao, mais pr6ximas do melhor possf-
vel e mais distantes do falsamente me-
lhor. Quem nio precisa de debate, po-
18mica e controversial pode ate conti-
nuar carregado de certezas, mas elas
serdo to valiosas quanto uma pepita
de pirita, o ouro dos tolos. Uma mente
rigida cria uma inteligencia granitica.
refratiria A realidade e, em especial,
ao novo, o motor da hist6ria.
As riquezas amaz6nicas que ja nio
sendo exploradas (e a uma velocidade
espantosa) estao guardadas em algum
lugar, a espera de revelagio e uso. Nao
as protegeremos corn muralhas da Chi-
na nem sentando sobre elas. Se agirmos
assim, o que 6 nosso solo frigil (mas ri-
camente recoberto de vegetaqao, em
toro da qual gravita diversidade de vida
sem igual no planet) e nosso subsolo
portentoso poderi virar miragem ou se
tornar nosso tiimulo. Mesmo que seja
para proteg6-lo, precisamos olhar nos
olhos quem supomos ameaqar nosso
patrim6nio para verificar, cor nossa in-
teligencia, bom senso e instintos, se 6,
de fato, nosso inimigo, que tipo de inimi-
go 6 e se podemos obrigi-lo a incorpo-
rar nosso mundo e nossos direitos, sem
desvirtui-los ou destruf-los.
Como na lenda indigena, a noite pu-
lou para fora do caroqo de tucumi quan-
do algu6m o abriu. A tarefa, agora, 6
conhec6-la e domini-la. Para que nos
permit escrever uma hist6ria melhor
do que a que esta em curso. Se nio,
sera apenas noite, sem qualquer sim-
bolismo iluminador.


Jornal Pessoal *2 QUINZENA AGOSTO DE 2008 11







A Amazonia de fora e a daqui: um duplo


A Amaz6nia 6 um tema international. Sempre foi. Quem
quiser ter qualquer forma de dominio sobre a regiao precisa
girar pelo mundo antes de se situar no terreno amaz6nico. Tei-
as e tramas comeqam ou terminal fora dos seus limits. E
certo que pianos concebidos al6m-mar se efetivam in situ nem
sempre conforme foram concebidos. O exemplo do Jari de
Daniel Ludwig 6 cabal da distancia que hi entire o desenho na
prancheta e sua realizaqao concrete. Al6m de ir hi fora, o ob-
servador precisa checar as coisas na cena e confrontar os
dois pianos, o da imaginacao e o da realidade. S6 assim conse-
gue perceber fissuras, imperfeiq6es e originalidades numa con-
cepqdo de ocupaqSo e uso da Amazonia que 6 a versdo atua-
lizada e ampliada dos esquemas coloniais do passado.
Os donos das decis6es gostariam que, debaixo da camada
cosmrtica de propaganda e manipulacao, tudo fosse igual. O
destiny colonial que querem impor A regiao, por6m, nao estu
escrito de forma irremediavel nas estrelas. Ha efe-
tiva possibilidade de reescrever esse enredo. Mas .
s6 se o candidate a autor estiver armado de s6lidas
informaq6es e puder utilizd-las num rearranjo do
script original.
Daf a necessidade de um posto avanqado para cap-
tar e organizer as informaq6es conforme uma perspec-
tiva de desenvolvimento aut6ctono, aut6geno, end6ge-
no. As decis6es sao tomadas nas metr6poles e nenhum
eco soa no sftio das riquezas. Os poucos que acompa-
nham em cima da hora (em tempo real, na linguagem informitica)
sao ou querem ser parceiros da ciranda da exploraqao. Por isso
nao disseminam as novas (em geral, mis para quem tamb6m
quer ampliar a roda e participar do bolo). E precise que haja um
mirante ou minarete dotado de radares e sensors que captem e
difundam os fatos relatives AAmaz6nia. O melhor local para abri-
gar esse observat6rio 6 a universidade. A sugestLo ji foi dada
neste journal, mas continue no fundo da caixa de id6ias despreza-
das na terra do colonialismo.
Um dos movimentos sensiveis A superficie da percepqao
6 o que o empresario Eike Batista realize junto corn a Anglo
American. A transaqao em curso entire as parties 6 de 5,5
bilh6es de d6lares, bem na dimensao dos "grandes projetos"
amazonicos. Inclui a aquisigqo do control acionirio de dois
neg6cios de Eike: 51% da MMX Minas-Rio e 70% da MMX
AmapA. O valor surpreende, como em quase todos os em-
preendimentos do biliondrio brasileiro. Ningu6m parecia inte-
ressado no remanescente da Icomi no Amapi. Pelo contrd-
rio: a ferrovia, a jazida e o restante da infraestrutura eram
considerados como heranqa maldita, depois que a empresa,
fruto da associaqao do grupo Antunes com a Bethlehem Ste-
el, se retirou da area antes mesmo de findar-se a concessao
de meio s6culo outorgada pela Uniao.


Eike
A OGX Petr6leo e Gas, de Eike I -es ,, ,;
Batista, nao esti apostando apenas r, ere o Pa
no potential do litoral sul: ji reque- n.., ero,,, .e est
reu ao Ibama a licenca de pesquisa reon.iur es
sismica em tras blocos que arrema- mo mornenit, en- que eles a
tou na bacia do Pard e do Mara- de iiaeria. .qui publh iad
nhdo. A licenqa deve ser concedida slu 'e hllk l Lidi..ns d'anoe
porque nao esti previsto o estudo dene c'u cumrpre ua lrni
de impact ambiental neste estigio, podcr Eper que -,s leitre
da pesquisa sismica. prind, iiro. que eI. a. -n


I!


I


Eike ji explorara ouro no antigo territ6rio federal, ao seu
estilo: corn sofreguidio e com um tanto de mist6rio. A Policia
Federal investiu sobre ele alegando que houve irregularidade
no contrato para a nova concessLo na drea da Icomi. As
provas ainda nao foram apresentadas, mas o argument nio
6 inverossimil. No entanto, a hip6tese contriria tamb6m nao
6 menos convincente: o grupo concorrente, que contestou o
resultado da licitacao, nlo tern titulos para se contrapor seri-
amente A pretensLo de Eike. Mesmo que nao tivesse pagado
propina a quem interessar possa, ele era o arrematante de
maior peso.
O que dificilmente algu6m, fora ele, podia imaginar era o
alto preqo atribuido a esse acervo no conjunto da transalio
com a Anglo American. Ter informaq6es privilegiadas 6 o gran-
de capital de Eike, recebido por heranga do pai, o engenheiro
Eliezer Batista, desenvolvido e ampliado. Eike faz a
prestidigitaqgo dos valores, multiplicando-os, por ter
os dados valiosos que Ihe permitem organizer pesso-
as e riquezas, atribuindo-lhes valor que vai al6m da
realidade visivel aos comuns dos mortais, sem acesso
ao topo das decisbes, como ele (e, mais do que ele. o
pai pioneiro).
E evidence que a Anglo, no alto do ranking das
maiores mineradores do mundo, tamb6m disp6e de
informaq6es exclusivas. Na quinzena passada tanto
a multinational quanto Eike, depois de encontros re-
servados em Londres, anunciaram que a investida da Policia
Federal sobre o bunker do dono das empresas cor X no titulo
nao interrompera o cronograma dos seus neg6cios. Eike assu-
miu a sua parte no prejuizo, dispondo-se a pagar uma indeniza-
qao pessoal a Anglo caso a empresa sofra algum prejuizo por
irregularidades que vierem a ser comprovadas na licitacLio fei-
ta no Amapai.
A Anglo tamb6m aceitari a sua parte na cota de desgaste
porque precisa reparar um erro cometido no passado, quando
se afastou de Carajis, deixando as jazidas de cobre para o
dominio absolute da Companhia Vale do Rio Doce. Multinaci-
onais nao sao perfeitas, ao contririo do que elas sugerem, pre-
sunqao incorporada por seus adversirios ortodoxos, que a com-
batem a partir dessa premissa (porque tamb6m consideram a
hist6ria um trilho 16gico sem variantes). Ao elevar a hist6ria a
um totem monolitico, submetem o home sob essa estrutura
opressiva tanto quanto o opressor que combatem. Deixam de
ver a hist6ria como o f6rtil terreno das possibilidades, que se
abrem A fecundaqao do ator armado com as informaq6es ne-
cessarias para imprimir sobre o papel em branco a sua face
nova e forte. A hist6ria 6 um caminho a abfir na Amaz6nia. O
problema 6 o seu ritmo veloz, que a atropelar estaq6es e pas-
sageiros desavisados que estiverem pela frente.


ra .. P.-, r :) A.-A i,,'. i I,.rii P ',,.,i
r.*'llf l IC'l'eilO conrilr .Jpi|lulo, dJa Iiiso-
rJ uI .uc dr1a1i Ctrihn', 'dJo rc iiLrjd,.i e
Siornal E n.i-.tro com'i-i .1 J1 u P.
lI'a c i ah l1 i o c u mgnL' Lit do i-,-ii'.-
'nlecCam iU1 I1h ro c .m'olipoo de Jt irc'clio
c die urri i'lcia-lj r,,.'.' quCe L'iTicnllj
jmn lorna.i llmlo .eridade.ranienic Irdeprn.
.1, nij., nobrih .'cr unli, J.udli.,iTm Jd,
Jludelni a dliun ir j -,, io-ria, un.-
"Ida nl h jies Lc ,'l ulumau ij h I ,rl ,


Editor: Lucio FIavio
Edlqio de Arle:
L A de Faria Pinlrt
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