Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00328

Full Text



AGOSTO
DE 2008
V"QUINZENA


ornal Pessoal
A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO


N" 422
ANO XXI
RS 3,00


GRANDES PROJETOS


De volta ao Para


A Vale anuncia uma grande aciaria e o governofederal diz que desta vez saird a
hidrelitrica de Belo Monte. Sto bilhoes e mais bilh5es em investimentos.
Desta vez o Pard ird mesmo se desenvolver ou e mais uma ilusdto?


H a uma nova onda de grande
investimentos desabando simul-
taneamente no Pard. Um de-
les foi anunciado com todas as letras
na quinzena passada: a Companhia
Vale do Rio Doce garante que, desta
vez, dard um pass a mais na transfor-
maqao do min6rio de ferro, que extrai
ha um quarto de s6culo das minas de
Carajis, em escala crescente (o que fez
o horizonte da exploragqo cair de 400
para menos de 150 anos). A empresa
disse que investird seis bilh6es de d61a-


res numa fibrica que produzira 2,6 mi-
lhSes de toneladas de places de ago em
Maraba, no Pard.
t neg6cio de causar impact em
qualquer parte do mundo, mas sobretu-
do no Pard, que hi seis anos vem dispu-
tando essa obra com o Maranhdo. A Vale
ainda juntard no pacote algumas outras
iniciativas para ajudar o Estado a sair do
mero extrativismo mineral, para cuja
manutengao a ex-estatal tem dado sua
decisive colaboraqdo. Mas o governor
tera que fazer a sua parte, que nio sera


pequena. Uma das contrapartidas pode-
ri ser o licenciamento ambiental da usi-
na de energia que a Vale planeja cons-
truir em Barcarena, com capacidade para
600 mil kW (o equivalent a quase duas
das 21 turbines que funcionam na hidre-
16trica de Tucurui), uma das maiores do
program de termel6tricas no pais.
A usina serai base de carvao mi-
neral importado, um dos processes mais
poluidores que ha. Al6m de anunciar o
uso da tecnologia mais limpa que exis-
O............A NA AG
coNTmmA NA PAG2


M


~-..;~-,c;sFr;i. :au;:k







CONTRWUAFAO DACAPA ..
te, a Vale argument em defesa do seu
projeto que nao h6 alternative no prazo
que Ihe interessa para permitir a ampli-
acgo da capacidade de producgo da
Albris, a 8a maior fibrica de-aluminio
do mundo, instalada em Barcarena. A
Albris estagnou, por causa de sua in-
tensa demand de energia nao suprida,
enquanto a vizinha Alunorte, que pro-
duz alumina, o insumo para o metal,
cresceu tanto que se tornou a maior do
mundo, por exigir muito menos energia.
De fato, nao ha nenhuma outra pos-
sibilidade de curto prazo para adicionar
a quantidade de energia exigida por uma
fundigIo de aluminio como a da Albris.
Por isso mesmo, o governor federal to-
mou provid8ncias para colocar o proje-
to da hidrel6trica de Belo Monte na
prancheta de execuqgo. Numa ofensi-
va orquestrada, o Conselho Nacional de
Political Energ6tica decretou que have-
ri um inico aproveitamento na bacia
do Xingu, o de Belo Monte. O governor
renunciou a construir mais tres barra-
gens que estavam incluidas no progra-
ma de obras da Eletronorte para nao
causar maior impact ecol6gico nem
efeitos nocivos aos indios e ao restante
da populaq~o da area. Com tal com-
promisso, o complicado e acidentado li-
cenciamento ambiental podera final-
mente sair.
Em sd consci8ncia, ningu6m pode-
ria se opor a uma obra que produzira
um terco de energia a mais do que Tu-
curuf, a quarta do mundo, inundando uma
Area sete vezes menor, o que proporci-
onaria o menor custo por kW instalado
do mercado. A facilidade com que os
dados sdo manipulados, conforme as
diferentes configuragoes dos projetos
apresentados pela Eletronorte, por6m,
nao cria nenhuma seguranga entire os
que analisam a partir de fora o plano
energ6tico para o Xingu. O pr6prio di-
retor-geral da Aneel (Agencia Nacio-
nal de Energia E16trica), Jerson Kelman,
foi claro: a decisdo do governor de se
limitar a uma hidrel6trica no Xingu foi
political e nao t6cnica. Do ponto de vis-
ta t6cnico, ele nao ter ddvida de que
seria viavel implantar os outros tres
aproveitamentos, que resultariam em
mais 3,5 mil megawatts adicionados aos
11,8 mil MW de Belo Monte. Se, no
future, com outro governor, a vontade
political mudar, o curso do planejamen-
to inicial podera ser retomado. Nada ha
que o impessa.
Continue a predominar entire os tdc-
nicos independents a convicCqo de que,


sozinha, a usina de Belo Monte nao tem
viabilidade econ6mica, independente-
mente da avaliagqo dos seus impacts
socioambientais. O compromisso com
uma inica barrage seria apenas uma
manobra tatica para criar o fato consu-
mado do primeiro aproveitamento e as-
sim possibilitar os demais, que acumu-
larao Agua a montante do rio para usi-
la nos periodos de estiagem (quando a
vazao pode cair at6 30 vezes), incre-
mentando a potencia de geraqao.
HA, contudo, uma saida, ha muitos
anos defendida por este journal: modifi-
car a concepqao sobre o desenvolvimen-
to na Amaz6nia. O planejamento seria
feito a partir das bacias hidrograficas,
que sao a mais s6lida refer8ncia fisica
na regiao. Antes de definir qualquer uso
para o Xingu, por exemplo, o governor
federal teria que remeter ao congress
um projeto de lei sobre o piano de de-
senvolvimento para o vale por long pe-
riodo (15 ou 20 anos), no qual um dos
itens seria o uso energ6tico.

Se for sincera e
convict a decisAo
de so erguer uma
finica barragem no
Xingu, a lei sobre o
desenvolvimento do
vale estabelecera
esse compromisso,
conferindo-lhe valor legal.
O descumprimento caracterizaria a pri-
tica de um delito, punivel na forma da
legislacao penal e civel. A palavra do
agent do governor deixaria de ser ape-
nas palavra, que o vento das conveni-
8ncias leva.
Talvez a partir daf seja possivel um
debate s6rio e maduro sobre a possibili-
dade e a conveni6ncia de o pais prosse-
guir no uso dos rios para fins energ6ti-
cos. E claro que ha certa press na to-
mada de decis6es, em funcao das gran-
des transformag6es que ocorrem neste
moment em todo mundo. Essas mudan-
cas atingem a Amaz6nia, mas nao po-
dem se refletir na regiao apenas como
eco. AAmaz6nia precisa ter voz pr6pria
e algum poder de iniciativa, de criagqo.
O efeito reverse dos tremores, que tnm
seu epicentro fora da regiao, nao pode
ser sempre de acordo corn os interesses
dos que criam esses efeitos e estao ar-
mados das melhores informacqes.
O esgotamento das fontes de ener-
gia na Amaz6nia para incrementos sig-
nificativos da produqao 6 um fato, em


boa parte resultante da imprevid8ncia
dos que monopolizam o poder decis6-
rio. Esse fato pode ser atenuado e, em
alguns casos, resolvido por outras fon-
tes de energia, inclusive as nio propri-
amente alternatives, como o gas, cujas
pesquisas no litoral amaz6nico sHo man-
tidas num banho-maria inexplicado (e
inaceitAvel). Quando a demand 6 ur-
gente, essas respostas deixam de ser
satisfat6rias porque as pesquisas, mes-
mo que venham a ter o apoio merecido
que hoje nao tem, nao dardo resultados
imediatos. Mas a equaq~o da solugqo
nao pode ser montada apenas pelos
agents produtivos.
t realmente do interesse do Pard que
a Albras produza mais lingote de alumi-
nio, produto de baixo valor agregado, A
custa de muita energia, com tarifa favo-
recida, e sem gerar o principal imposto,
o ICMS, porque a exportaqgo de semi-
elaborados nao 6 taxada? Na ponta do
lipis, nao. Pode o governor fornecer a
energia no volume requerido e por pre-
go atrativo se a Vale do Rio Doce insta-
lar unidades de transformaqgo do metal
bAsico, que criarao melhores empregos,
irdo gerar mais renda e pagardo impos-
to? Por que nao colocar essa exigencia
na mesa de negociacqo?
A Vale nio estd sozinha nem 6 a
dona do mercado (veja adiante mate-
ria sobre a Alcoa). Apesar de toda a
sua propaganda e relaq6es p6blicas, a
Vale ainda nao conseguiu criar uma
image de companhia sustentavel por-
que seu discurso esta sempre colidindo
com os fatos. Apesar do enorme dinheiro
que gastou para langar a sua nova mar-
ca, a novidade nao se estendeu ao con-
ceito de responsabilidade social de tal
maneira a convencer os audit6rios mais
exigentes no mercado mundial, justa-
mente o seu alvo. Esse desempenho
result da dificuldade que a empresa
tem para praticar jogos que nao sejam
aqueles nos quais p6e sua marca, os
quais quer sempre ganhar.
Diga-se tamb6m que esse jogo 6 vi-
ciado porque do outro lado nao ha con-
tendores s6rios e conseqientes. No
moment em que essa onda de novos
grandes projetos" vem bater no territ6-
rio paraense, empurrada pelo mercado
mundial, constatar que a interlocuqao nao
6 s6ria da uma sensacgo de desalento
que nenhum marketing 6 capaz de reto-
car. Mesmo porque a maquilagem dura
pouco, como estamos vendo.Se outros
grandes projetos do passado nio desen-
volveram de fato o Pard, estes novos
projetos mudardo esta teoria?


2 AGOSTO DE 2008 f QUINZENA Jrnal Pessoal









Decisao para Alcoa pode estar no Para


Como foi mera coincidencia, ningu6m
se referiu a ela: no mesmo dia 4 dejulho em
que os Estados Unidos comemoravam mais
um aniversario da sua independencia, uma
das mais representatives empresas ameri-
canas doava 405 mil reais a tres entidades
que atuam em Bel6m na inclusao social de
crianqas, adolescents e jovens. A entrega
dos cheques, em solenidade simples no ho-
tel Hilton (de bandeira americana), era o
primeiro ato da ampliaqao da presenga em
Bel6m da Alcoa, a maior produtora mundial
de aluminio, em atividade no mercado ha
130 anos, que faturou 15 bilh6es de d6lares
no primeiro semestre deste ano, cor lucro
liquid de mais de US$ 850 milhoes. O se-
gundo moment sera at6 o final do mes,
quando a empresa pretend inaugurar a
Casa Alcoa na capital paraense.
O president da multinational para Am6-
rica Latina e Caribe, Franklin Feder, admite
que sua empresa demorou, no Pard, mais do
que em Minas Gerais e no Maranhao, os
Estados brasileiros anteriores nos quais se
implantou, para marcar presenga na respec-
tiva capital. Na d6cada de 90 a Alcoa fincou
uma de suas pernas em Oriximina, quando
se tornou s6cia da Mineracgo Rio do Norte
na exploracqo dajazida de bauxita do Trom-
betas. Desde 2005 vem implantando um pro-
jeto de mineraqao todo seu do outro lado do
rio Amazonas, em Juruti.
Talvez por causa da resistencia local
que enfrentou, a Alcoa descurou a impor-
tancia de Bel6m como centro de ressonan-
cia e de formaIao de opiniao em todo Es-
tado. Agora com o apoio de 89% da popu-
lagao de Juruti, segundo resultado de pes-
quisa do Ibope que anunciou, a Alcoa pa-
rece considerar que essa frente esta em
vias de se resolver. Ao marcar presenga


maior em Bel6m a partir deste mes, quer
convencer a sociedade que veio para ficar
no ParA. Nao sera apenas uma multinacio-
nal predadora, que extrai recursos natu-
rais sem compromisso com a hist6ria do
Estado.
Mesmo que se ponha em ddvida a sin-
ceridade de prop6sitos da empresa, ha um
dado inquestionavel que contextualiza a
sua estrat6gia: o Para se tornou mais im-
portante para a economic international, so-
bretudo para o setor de aluminio e espe-
cificamente para a Alcoa. A empresa vem
sendo alvo de ofertas hostis de compra
feitas pela Companhia Vale do Rio Doce,
sua s6cia na MRN, e por outras empresas
mundiais. A hostilidade se caracteriza pelo
m6todo de aquisicqo adotado, com oferta
de compra apresentada aos acionistas atra-
vds da bolsa.

Feder disse que a diregao
da Alcoa espera que a
empresa continue em
atividade por pelo
menos mais 130 anos,
mas ela precisara de arguments s6lidos para
manter o control da empresa se os preten-
dentes A compra fizerem propostas de maior
apelo commercial aos detentores dos pap6is
da companhia. O ParA 6 o melhor local para
ela fortalecer sua espinha dorsal, que 6 a
integracdo produtiva, desde a mina at6 a fun-
di io do metal. Em poucos lugares do mun-
do a multinational ter condiq6es para man-
ter essa integracqo produtiva em patamares
elevados de produqao.
Por isso, certamente a Alcoa nao preten-
de manter a mina de Juruti em 2,6 milh6es de


toneladas anuais. t uma escala de producqo
modest, ainda mais para quem esta inves-
tindo pesado em infraestrutura, cor mina,
ferrovia e porto. Na entrega dos cheques,
Feder disse que a Alcoa continue pensando
em chegar at6 a metalurgia de aluminio, mas
que para isso precisa de uma definicqo do
governor, sobretudo para garantir o forneci-
mento de energia el6trica na escala necessi-
ria para uma inddstria de alumfnio, a mais
eletrointensiva de todas.
De fato, sem uma definicao do governor,
a expansao do planejamento da Alcoa 6 te-
merAria, por varios motives, inclusive os
ecol6gicos e de responsabilidade social. Um
projeto modelar no ParA, entretanto, pode
afastar o risco de que a Alcoa venha a ser
absorvida por qualquer das suas concorren-
tes vorazes, como a BHP Billiton, a Rio Tin-
to e a Vale. E um moment propicio para que
o governor, em troca de compromisso com o
suprimento de energia, consiga quebrar a
barreira estabelecida pela Albras na escala
de transformaqio do metal primario. Uma
nova plant industrial limitada ao lingote
pode ser interessante para a Alcoa, mas nao
tem o mesmo interesse para o Para, que ja
experiment os beneficios e as fortes limita-
q9es de um empreendimento como o da Al-
bras ha quase um quarto de s6culo. E preci-
so ir al6m desse limited, chegando aos trans-
formados de alumfnio.
Se a Alcoa quer ser parceira nessa tra-
vessia, 6timo (desde que, naturalmente, o
possivel novo aproveitamento hidrel6trico
se ajuste a um modelo diferente dos atuais).
Caso contrArio, melhor que seja essa mina
de m6dio porte que no pr6ximo ano comeqa-
ra a funcionar em Juruti. Comeqando sob o
nome de sua atual bandeira e, quem sabe,
logo passando para outra.


A melhor mina e o pior trabalho


O Minist6rio Publico do Trabalho de
Maraba devera ajuizar uma a~go civil pi-
blica para apurar o acidente que matou um
trabalhador na mina de Caraj s, em Parau-
apebas, no sul do Pard, ha um ano. Entre 3
e 4 horas da madrugada de 28 dejulho de
2007 o auxiliar de serviqos Thiago Santos
Cardozo, de 20 anos, foi esmagado por um
caminhIo de 140 toneladas, que operava
najazida N4 Norte, onde a Companhia Vale
do Rio Doce produz min6rio de ferro.
O inqu6rito instaurado j esta em fase
de conclusao e fornecera os elements
para o Minist6rio Piblico proper a acgo
najustiqa. A demora deve-se ao reduzido
nimero de procuradores, atualmente
tr8s, atuando numa area com demand
explosive. Ha tamb6m uma resoluqao do


Conselho Superior do Minist6rio Piblico
do Trabalho que recomenda a conversio
de todas as representacqes e procedimen-
tos preparat6rios antigos em inqu6rito
civil, arquivando-os ou ajuizando a acao
devida, de acordo com o que for apurado
na analise.
Um dos pontos principals em relaqao a
CarajAs 6 a excessive terceirizaqao das ati-
vidades na mineraq~o, que tem dado cau-
sa a acidentes e reclamarqes dos traba-
lhadores. Ha mais dois acidentes com mor-
tes em Carajas que o MPT de Maraba esta
apurando. Duas varas dajustiga trabalhis-
taja foram instaladas em Parauapebas, mas
as reclamagoes contra as condig6es de tra-
balho em Carajds, queja passaram de oito
mil, sobrecarregam a tramitagao dos pro-


cessos. Das 23 mil empregadas na produ-
9qo de mindrio em CarajAs, apenas 10%
sao contratadas pela Vale. A empreitada e
subempreitada se disseminaram tanto que
possibilitam acidentes, como o que viti-
mou Thiago Cardoso, um raro native de
Maraba, a mais important cidade na area
de influencia de Carajas.
Ele estava na hora errada, no lugar
errado, numa relaqao de emprego errada
e o caminhao que o esmagou procedia
erradamente ao nao contar com camera
e luz traseira. Essa 6 uma realidade que
enodoa uma das maiores minas de ferro
do planet e sua proprietAria globaliza-
da. Mas parece-se mais a um cenario de
dois s6culos atras em mat6ria de rela-
9go trabalhista.


Journal Pessoal i" QUINZENA AGOSTO DE 2008 _


t~Pl~a~









Pesquisa electoral vira


jogo de cartas marcadas


A pesquisa de opiniao se tomou uma esp6-
cie de santo graal no ambiente pr6-eleitoral em
Bel6m. Todos estao atrds dos seus resultados,
como se eles fossem uma exata antecipagao dos
votos que ser5o depositados nas urnas em ou-
tubro. Como hd uma quantidade desproporcio-
nalmente maior de pesquisas na boataria que se
espalha pela cidade do que no protocolo do
TRE, ter acesso a ndmeros se tornou um trof6u,
quase um talisman.
A supervalorizag~ o das pesquisas tem uma
causa bem visivel: a falta de informagao na im-
prensa. Os grupos de comunicaqdo tratam a elei-
cao municipal deste ano, sobretudo a da capi-
tal, como tema secunddrio. Acobertura 6 buro-
crdtica e fraca. Arazdo? Os dois principals gru-
pos, o Liberal (dos Maiorana) e aRBA (de Jader
Barbalho) tem candidates da "casa", in pecto-
ri, na dispute. Como fazem tudo para prejudicar
o outro lado, mas nao querem expor seu pr6prio
lado, esvaziam o noticidrio enquanto intensifi-
cam a movimentagdo nos bastidores. O (e)leitor
6 deixado ao Deus dard, desinformado e ansio-
so. E terreno f6rtil para o jogo das pesquisas,
nem sempre praticado corn regras claras (fre-
qientemente, sem qualquer regra).
Toda informaqao que escapa ao redil 6
vista com desconfianca ou hostilidade, como
um baldo de ensaio dos adversarios ou, quan-
do verdadeira, como uma ameaqa que cumpre
evitar. Daf a troca de acusacges e as medidas
para impedir a divulgacao de pesquisa, quan-
do ela 6 montada em bases t6cnicas. Final-
mente, vencendo a barreira que Ihe antep6s o
PTB, o partido que estd na prefeitura, a pri-


meira pesquisa desde a homologaqdo official
dos candidates, encomendada pelo DEM (ex-
PFL) foi apresentada.
Estranhamente, ela apareceu apenas em O
Liberal e, ao contrario do que se podia espe-
rar, nao foi para a primeira pdgina do journal,
nem corn uma simples chamada, e nao teve
continuidade no dia seguinte. 0 journal teria
resistido o quanto p6de a reproduzi-la e s6
concordou em noticid-la porque o segundo co-
locado tamb6m recebe suas bencqos. O Did-
rio do Pard ignorou a pesquisa, o que talvez
possa indicar que o jomal de Jader Barbalho
vai tentar colocar o candidate da "casa", o ex-
deputado Jos6 Priante, no 2 turno. E, nao con-
seguindo essa faganha, apoiard o atual prefei-
to, se ele passar pela primeira prova de fogo.
A pesquisa do Ibope, dando 29% a Ducio-
mar Costa contra 24% de Valdria Pires Franco,
do DEM, em empate t6cnico em fung~o dos
4% de margem de erro (sempre alta quando
realizada em period mais distant da eleicao),
praticamente coincidiu com muitas das espe-
culacoes que estavam send feitas na cidade.
Tamb6m confirmou as previsoes de que o atu-
al prefeito sofrera uma queda no 2 turno se
enfrentar um candidate mais forte (na simula-
qao do Ibope, Val6ria venceria por uma dife-
renga de 14 pontos percentuais). Mas hi tanta
sonegaEio de informacges adicionais que mes-
mo essa sintonia entire os boatos e a mensura-
qlo t6cnica ainda deixa muita desconfianga.
A cautela 6 ainda maior em funcao do fato
mais important nesse inicio de corrida a pre-
feitura de Bel6m: o indice de rejeicgo de Ducio-


mar Costa, que nio foi divulgado por O Libe-
ral. Se ele tem uma rejeiao cristalizada em um
patamar elevado, ainda que seja candidate for-
te a passar para o 2 tumo, na nova eleiqio suas
possibilidades deverao se tornar muito meno-
res, qualquer que seja o seu concorrente.
Como 6 que um prefeito no exercicio do car-
go pode ter rejeicqo tao forte nas ruas e apare-
cer na midia como um nome credenciado A ree-
leigqo? O aparente paradoxo tem uma explica-
qao: Duciomar comprou o apoio da grande im-
prensa. Esse compadrio oneroso Ihe permit pro-
jetar uma imagem positive, que reduz as possi-
bilidades de iniciativas contra ele canalizando a
hostilidade que provoca.
A Enfase 6 mais acentuada nas camadas
mais pobres da populagao, justamente nas
quais recrutava antes a sua clientele. O prefei-
to trocou de parceiro e agora usa a conivencia
da elite para tentar escapar aos efeitos de sua
administrator desastrada. At6 agora, conse-
guiu essa faqanha: a lava de maus feitos que
circula pelos ambientes informais da socieda-
de, nas ruas e nos lares, nao transborda para
as vitrines, a mais vistosa das quais 6 a midia.
Bonitinha, mas ordindria, como na famosa pega
de Nl6son Rodrigues.
De nada adiantou o engenheiro Luiz Otvio
Mota Pereira, na condigao de secretrio de sa-
neamento e tamb6m de urbanismo durante um
ano na administragao de Duciomar, ter ido ao
Ministdrio Piblico do Estado fazer cinco gra-
ves acusaqoes contra o prefeito, quase um ano
e meio atrs, juntando documents comproba-
t6rios dos fatos alegados. At6 hoje nao houve
a apuraqao das irregularidades e ilegalidades
apontadas na coleta de lixo, em contratos de
serviqos superfaturados ou em servigos reali-
zados sem contrato. Diante desse hist6rico,
mais important do que especular sobre se o
prefeito conseguird se reeleger 6 inquirir sobre
como conseguira se manter como candidate.


Brasil: pais de crises
Juiz que fala publicamente sobre proces-
sos nos quais funciona se torna passivel de
suspeiqao. O president do Supremo Tribunal
Federal, Gilmar Mendes, violou essa regra ele-
mentar do direito: criticou corn dureza o com-
portamento do president do inqu6rito polici-
al que, transformado em dentincia pelo Minis-
t6rio Ptblico e acolhido pelo julgador de pri-
meira instancia, estava pendente de sua deli-
beraqao. Mas nao ficou nisso: Gilmar Mendes
ignorou as instancias intermedidrias do recur-
so e julgou o habeas corpus que lhe foi apre-
sentado diretamente, em favor do banqueiro
Daniel Dantas. Ao rechaqar a segunda ordem
de prisao contra o complicado proprietdrio do
banco Opportunity, enviou seu despacho para
o Conselho Nacional de Justica, do qual 6 pre-
sidente nato na condigao de president do STF,
numa pressao indireta mas nada sutil e me-
nos ainda aceitAvel contra ojuiz da instancia
inferior. O ministry teria o mesmo comporta-
mento se quem estivesse em causa fosse um
Joao da Silva?
Mendes e ojuiz Fausto de Sanctis bateram
boca fora dos autos, aos quais deviam se cir-
cunscrever suas manifestaq6es sobre o rumo-


roso caso. O magistrado foi condescendente
com os evidentes abuses de fung~o do dele-
gado Prot6genes Queiroz, president do in-
qu6rito na PF de Sdo Paulo. Ambos partilha-
vam o entendimento de que seus superiores
iriam favorecer o rico personagem principal de
uma trama que remonta a quatro anos e por
isso deviam conduzir apurag6es independen-
tes e excessivas.
As escutas foram exageradas e descontro-
ladas, das investigagSes participaram agents
nao autorizados, como os da Abin, o 6rgao de
inteligencia que substituiu o nefando SNI, e o
que devia ser uma apuragao t6cnica (de gran-
de envergadura dada a sofisticag~o dos mui-
tos crimes financeiros e funcionais cometidos)
se confundiu corn um discurso politico. Dis-
torcdo, de rest, quase inevitdvel em funqio
dos interesses politicos e pessoais envolvi-
dos em toda a trama.
Por esses e muitos outros epis6dios, o
"caso Daniel Dantas" 6 um retrato pungente e
dramitico de um amplo compartimento do po-
der no Brasil. O enredo nao deixa d6vida: nao
hd mocinhos na hist6ria. Mesmo os que se
apresentam como paladinos da verdade, do
direito e da justiga escondem suas verdadei-
ras identidades ou sofrem de dupla persona-


lidade, para nao ir mais fundo na verificagao
da pluralidade das mdscaras que usam. Ja os
bandidos sao muito mais perigosos do que
aparentam suas faces, trabalhadas por uma es-
pessa camada de glamour de marketing e rela-
6ses ptblicas. Tudo A custa de muito dinhei-
ro, dinheiro esse quejorra por dutos clandes-
tinos, cravados sob o solo podre do pafs, in-
capaz de proporcionar a renda de que necessi-
ta sua populacao trabalhadora e legalista para
ser feliz. Porque essas ervas daninhas e seus
predadores se apoderam da riqueza natural cor
seus m6todos de seducao e corrupgo.
Ao final da leitura de milhares de pap6is, a
sensagao que fica 6 a de desamparo. O Brasil
continue sem dispor de uma espinha dorsal
no setor pdblico e nas instituig6es privadas
capaz de bem defender os cidadaos cor o uso
da lei para combater os seus aproveitadores e
manipuladores. Mesmo as fachadas mais im-
ponentes nao conseguem cumprir sua missao
porque entire o texto das normas e sua aplica-
9ao hi a interfer8ncia de compromissos cor
grupos e pessoas, corn um projeto de poder
que s6 se consolida porque favorece uma mi-
noria e exclui a maioria. Estamos a contemplar
a mais uma crise brasileira, nao se sabe exata-
mente de se crescimento ou de necrose.


4 AGOSTO DE 2008 I QUINZENA Journal Pessoal


&&a~L~









Ajustiga do Para post em question


O ano de 2002 foi decisive na vida de
Ana Tereza Sereni Murrieta. Primeiro, aos
62 anos, ela alcangou o apice de sua car-
reira, 37 anos depois de inicid-la como.ju-
iza no interior: foi promovida a desembar-
gadora pelo Tribunal de Justica do Estado
do Pard e por merecimento. Mas exerceu
o cargo por pouco tempo: ao saber de uma
queixa-crime proposta contra si pela OAB
do Pard, Murrieta pediu sua aposentado-
ria e a obteve: foi para casa cor direito a
mais de 20 mil reais por mes.
Podia ter a partir daf uma vida tranqiii-
la se o process judicial instaurado nao
provasse que ela se apropriou do dinheiro
depositado em nome dajustiga por pesso-
as que litigaram perante a a1 vara civel do
f6rum de Bel6m. Sem se importar com os
seus jurisdicionados 6rfdos, interditos
e ausentes a magistrada retirou 1,6 mi-
lhdo dos 3 milh6es de reais das contas sob
sua jurisdigao, atrav6s de terceiros ou di-
retamente na ag8ncia bancdria onde o di-
nheiro estava depositado, a espera da de-
cisdo das causes em litigio.
Como os fatos da apropriagao ind6bita
- ou peculato foram comprovados in-
questionavelmente, a defesa da desembar-
gadora aposentada teve que apelar para
um ardil: provar que Murrieta nio tinha o
dominio dos seus atos ao fazer os saques.
Obviamente, a insanidade mental da acu-
sada nao foi provada: ela praticou o extra-
vio ao long de sete anos, sem que, nesse
perfodo, houvesse qualquer suspeita so-
bre a sanidade do seu comportamento pi-
blico extravagantt, as vezes, mas nio
aberrante).
Na semana passada, ojuiz Pedro Pinhei-
ro Sotero, da 5" vara penal da capital, conde-
nou-a a 13 anos e quatro meses de prisao,
em regime fechado, al6m do pagamento de
multa de R$ 145 mil reais, a ser recolhida 10
dias ap6s a intimacgo da sentenciada.
A decisao 6 hist6rica. O juiz foi tole-
rante por um lado: nao acolheu os pedi-
dos da promotoria piblica para o seqties-
tro dos bens de Murrieta, por nao ter en-
contrado nos autos prova da existencia de
bens m6veis, sobretudo j6ias, que a ma-
gistrada teria adquirido com o dinheiro dos
dep6sitos judiciais. Tamb6m nao aceitou
decretar a perda do cargo porque a puni-
~go s6 6 aplicdvel aos servidores da ativa.
Rejeitou, por fim, enquadrar a ex-desem-
bargadora por 157 vezes em crime de pe-
culato, conforme o ndmero de retiradas por
ela efetuadas na agencia do Banpard. Tal
enquadramento resultaria em pena minima
de 314 anos e maxima de 1.099 anos, o que
afrontaria a dignidade da r6, que o C6digo
Penal procura preservar.
Mas o juiz Pedro Sotero foi determina-
do na aplicacgo da pena que imp6s na sen-
tenga: a condenada terd que cumprir os


268 meses de prisIo em regime fechado,
por ser necessario "assegurar seu afasta-
mento do convicio social". Se a pena co-
megasse a ser executada no pr6ximo ano,
a magistrada ficaria na cadeia at6 os 82
anos de idade, no caso de cumprimento
integral da sentenga, o que dificilmente
ocorrera diante dos abrandamentos pre-
vistos em lei. Mas, pela primeira vez, um
representante da mais alta magistratura do
Pard ira para tras das grades.

Nomo hi cono
condescender a sorte
da desembargadora
Tereza Murrieta: ela
cometeu de forma
conseiente um ato
nefando, do ponto de
vista pessoal, e de
grave repercussiio social,
que abalou a credibilidade dajustiga peran-
te a opinido pdblica. A sentence que a con-
denou foi tao serena e consistent que A
defesa restart apenas se insurgir contra o
regime fechado da prisao e a acusaqao, se
for o caso, por considerar "branda" a deli-
beranao, insistir em puniqao mais dura, po-
r6m apenas no sentido de carregar nos efei-
tos morais da penalizag~o.
O process de aplicaqao conseqiiente da
justiga, contudo,ja sofreu um ligeiro desvio
de rumos: na condigao de president em exer-
cicio do TJE, a desembargadora Maria Hele-
na Ferreira acolheu pedido de habeas cor-
pus da defesa de Murrieta e decidiu que ela
responderd ao process em
liberdade, suspendendo a
execugdo do mandado de pri-
sao, expedido pelo juiz de 10
grau (que p6de deliberar so-
bre o process porque, apo-
sentada, a desembargadora
perdeu o foro especial a que
teria direito se ainda estives-
se na ativa).
Nada ha demais na decisdo, que estA
perfeitamente no ambito deliberative da re-
latora do pedido. Mas a concessao do HC
pode ser a primeira manifestaqao concrete
do desejo do tribunal de rever a decisao de
primeira instancia nao pela andlise isenta do
conteddo dos autos, a partir dos quais 6
impossivel nIo concluir pelo dolo da acusa-
da, mas por espirito de corpo.
Na condenaqgo de Murrieta esta implfci-
to certo grau de culpa da clipula dojudicid-
rio paraense. Todos os desembargadores do
tribunal ignoravam o procedimento illegal de
sete anos da titular da 1a vara civel do f6rum
de Bel6m, de sacar nas contas sob sua res-
ponsabilidade, inclusive comparecendo pes-
soalmente ao caixa da agencia bancdria? A


movimentacao aconteceu nao uma nem 10
vezes, mas em 157 ocasibes. Nunca a boata-
ria que circulava pelos corredores forenses
chegou aos ouvidos da alta magistratura
estadual? Ou serd que o diz-que-diz nao teve
tanto impact porque esse procedimento
nao era exclusive dajuiza Murrieta, que ape-
nas podia estar agindo de forma mais de-
senvolta do que outros magistrados, ou
mesmo servidores piblicos?
De qualquer maneira, agiu com correnao
o TJE ao promover por merecimento umajuiza
em torno da qual havia uma n6voa de dis-
sens6es e suspeicqes quanto ao seu proce-
dimento jurisdicional? Nenhum dos questi-
onamentos foi absorvido e incorporado a
sua ficha funcional? Surpreendentemente,
os assentamentos de Tereza Murrieta eram
exemplares, como imaculadas se encontra-
vam as fichas de juizes anteriormente pro-
movidos por merecimento ao desembargo,
apesar de suas carreiras temerdrias, por en-
volvimento piblico com fatos polImicos, ou
abertamente irregulares ou ilegais.
Parece que nem o stibito pedido de apo-
sentadoria influiu no animo de desembarga-
dores dispostos a ser mais tolerantes do que
o aceitdvel para com os desvios de conduta
da nobre colega. Murrieta acabou sendo fa-
vorecida por um erro cometido em 2005 pelo
entao president do TJE, desembargador
Milton Nobre. Ele ignorou a determinaqao le-
gal do juiz natural para funcionar no caso,
que devia ser escolhido por sorteio. Quando
apenas tr8s magistrados se declararam sus-
peitos (em 19 alternatives possiveis), Milton
Nobre designou um juiz especial para o feito.
Paulo Jussara rapidamente concluiu a
instrugao e condenou Murrie-
ta (em sentenCa considerada
"amena" pelo Minist6rio Pibli-
co do Estado), mas o Superior
Tribunal de Justiqa anulou o
process, pela violacao do
principio do juizo natural, fa-
zendo-o voltar ao ponto de par-
tida. O novo juiz responsavel
pela aqao, Pedro Sotero, deter-
minou a prisao da desembargadora, mas logo
ela foi solta por ordem superior. E ai pode
estar um dos fatores para que o process
acabe prescrito, em funqdo dos recursos pro-
telat6rios que vierem a ser usados pela de-
fesa e da lentidao da sua tramitaqdo.
O epis6dio se repete agora, mas espera-
se que tenha sido apenas uma divergencia
de entendimento processual e nao o inicio
de uma revisao por inteiro da sentenga de 1
grau, bem fundamentada no conteido dos
autos. Se for assim, mais do que a desem-
bargadora Tereza Murrieta, estara em causa
o judiciario do Pard: ele se dispora a cortar
na pr6pria carne para cumprir seu dever ou
falard mais alto aos seus ouvidos o canto de
sereia do espirito corporativo?


Jornal Pessoal I QUINZENA AGOSTO DE 2008 5







POR REED JOHNSON,
LOS ANGELES TIMES
[Esta materia foi publicada na edigao
de 18 de maio do Los Angeles Times,
um dos mais importantesjornais
americanos. E reproduzida praticamente
na integra. Eu podia fazer algumas
retificagdes e complementos ou adaptar
o estilo americano ao brasileiro no
uso do pronome, por exemplo. Fago
apenas uma observaago: que Ronaldo
Maiorana indique qual a confidgncia
que seu pai me fez e que eu tornei
public. Foi essa a justificativa que
apresentou ao jornalista americano para
me agredir, tres anos e meio atrds. Sem
pretender cometer vituperio, gostaria de
proper ao distinto leitor a seguinte
questdo, a prop6sito da materia a
seguir: por que ojornal de maior
prestigio da costa oeste dos Estados
Unidos deu tanto espago para uma
publicacao de aparencia tao humilde
quanto esta e ignorou osjornais
poderosos, de aparencia tao faustosa?]

elem, Brasil Em 42 anos de re
ortagens sobre a Amaz6nia, Licio
livio Pinto tem sido amaldigoado,
chutado, machucado, repetidamente amea-
gado de morte e processado 33 vezes. Mais
da metade desses processes foram impetra-
dos pelo seu antigo empregador, O Liberal,
o maior e mais important veiculo de comu-
nicagdo da regiao, cujo patriarca da familiar
foi um dos melhores amigos de Pinto.
Corn ex-amigos como O Liberal, Pin-
to dificilmente precisa de inimigos, ape-
sar de te-los bastante. Politicos tnm ten-
tado cald-lo ou compr&-lo por anos, sem
sucesso. Os militares brasileiros tnm sido
alvo da caneta afiada de Pinto. Criadores
de gado, fazendeiros e madeireiros, que
pretended devastar a bacia de rio Ama-
zonas e converte-la em pastagem e area
para cultivo da soja, um process que
poderia ajudar a alimentar o planet corn
fome de proteinas, mas que, segundo ci-
entistas, causaria a emissTo de toneladas
de gases na atmosfera.
No moment, hi uma empresa estatal
de energia, a Eletronorte, impulsionando
a construqgo de mais barragens que iriam
aumentar a oferta de empregos, mas ala-
gariam terras e prejudicariam a forma de
subsistencia de colonos e pescadores. E
um conglomerado de multinacionais su-
gando ricos veios de aluminio, carvIo e
ago da maior floresta tropical do mundo.
Durante sua longa carreira, o reporter
- aos 58 anos de idade, ele se compare ao
antigo personagem mit6logico grego Pro-
meteu, mas ainda se recusa a carregar um
telefone cellular tem enfrentado todos
eles. Com isso, ganhou reputagAo como
uma criatura at6 mesmo mais rara que o
peixe-boi amaz6nico, em extingao: umjor-
nalista autoritario e teimoso, que nao se


Livros e

Liicio FlAvio Pint

Ojoralista brasileiro tem passado mais de quatro dcadas tenta


amedronta ao confrontar alguns dos mais
poderosos interesses do Brasil
"As pessoas sabem, quando come-
gam uma briga comigo, que eu nunca
irei me submeter a seus poderes", disse
Pinto cor sua voz media e suave. "So-
mente as pessoas que dizem a verdade
me impressionam".
Nem o seu isolamento nem suas con-
tendas legais o tnm impedido de escrever
e publicar o Jornal Pessoal, uma publica-
9qo bimestral de 2.000 exemplares, com
12 piginas. A produqgo do j ornal tem sido
feita a partir de sua modest casa, ao lon-
go de 20 anos, depois que desistiu de tra-
balhar para O Liberal, em 1987. Ojornal
vive de sua renda para cobrir seus cus-
tos. Nao traz comerciais porque Pinto,
autor de muitos livros, acredita que, acei-
tando at6 mesmo um centavo de promo-
9qo commercial, mancharia a integridade de
sua publicaq9o.
Separado de sua esposa, com tr8s dos
quatro filhos adults morando em outros
lugares, Pinto demonstra uma devoqao
monastica ao seu trabalho solitario. Ins-
pirado pelo lendiriojomalista investigati-
vo americano I. F. Stone (que tamb6m
publicou umjomal pessoal), Pinto estuda
relat6rios obscuros do governor, a conta-
bilidade da companhia de aluminio e ou-
tras miniicias em busca de detalhes, com
resultados significativos. Ele public toda
carta que recebe, mesmo que tenham 10
piginas, cheias de ameagas.
Entre os desafetos de Pinto, hi um gru-
po atualmente em relagao ao qual ele se
acautela: jufzes locals, que, ele acredita,
irao coloci-lo na cadeia se ele nao com-
parecer ao tribunal por conta de suas ind-
meras disputes legais. Ha dois anos e
meio, Pinto deixou de ir a Nova York re-
ceber um premio da Imprensa Internaci-
onal do Comite de Protegao dos Jornalis-
tas, porque temia que se deixasse Bel6m,
mesmo por um dia, seus inimigos, imedi-
atamente, anunciariam uma nova data de
julgamento e o condenariam enquanto es-
tivesse fora da cidade.
No Brasil, assim como em outras par-
tes da Am6rica Latina, jornalistas sao muito
mais vulneraveis a processes legais do que
seus colegas nos Estados Unidos. Mes-
mo que tudo que escrevam seja verdade,
eles podem se deparar com acusagces
criminals e civis se algu6m achar que isso
pode denegrir sua reputagno, prejudicar
suas finangas ou ofende-los de outra for-
ma, as vezes definido vagamente. A16m
do mais, o pais ainda vive sob a censura


da Lei de Imprensa de 1967, baixada pe-
los militares que governaram o Brasil de
1964 a 1985 (26 dos processes contra
Pinto sdo baseados nessa lei)
Apesar de Pinto ter sido condenado
em quatro dos processes contra ele (tres
dos quais subseqtientemente expirados
porque a corte de apelag~o n5o conse-
guiu cumprir prazos), ele diz: "Nunca
provaram nada de errado em nenhum dos
fatos essenciais". Ele ainda pode ir pre-
so por conta de um process criminal
no qual foi condenado, por referir-se a
um empresario local (ji falecido) como
um "grileiro de terras".
Pinto ve os processes, os quais con-
somem 80% de seu tempo, como uma
tdtica para desviar sua atencao e dissuadi-
lo da prAtica dojornalismo.
"Eu nao aceitarei mentiras e hi um es-
forgo para me calar usando o sistemaju-
diciario, porque me matando teria um im-
pacto muito grande" diz. Ele nao parece
abater-se por esses riscos, mas admite
uma preocupaqio didria. "Eu tenho tido
muitos problems porque esqueci de usar
o protetor solar".
A reportagem agressiva de Pinto im-
poe respeito nessa quentissima cidade por-
tuAria de 1,6 milhbes de habitante na cos-
ta atlantica. "Voce pode nao acreditar em
tudo que ele diz, mas quem mais 6 o inde-
pendente dos jornalistas locais?" diz Da-
vid Mc Grath, professor de geografia da
Universidade Federal do Pard. "Eu acho
que a Amazonia 6 abenqoada por ter um
jornalista desse tipo".

HONESTIDADE
PODE SER MORTAL

Mas no Pard aqueles que falam a ver-
dade para o poder com freqtiincia pagam
com suas pr6prias vidas. O Estado, um
dos seis [oito] que formam a Amazonia
brasileira, 6 notoriamente conhecido como
sendo um dos mais violentos do pais, atra-
sados e corruptos, uma percepqao enfati-
zada pelo assassinate, em 2005, da missi-
ondria americana Dorothy Stang, que es-
tava ajudando pobres agricultores em suas
disputes com criadores de gado.
Parcialmente por causa desses escan-
dalos, a Area ter sido alvo de observacgo
nesses dltimos anos. Interesses interna-
cionais (muitos brasileiros diriam "inter-
ferencia international") na regiao amaz6-
nica estao aumentando, ajudados pelo au-
mento da ansiedade pela biodiversidade e
aquecimento global.


6 AGOSTO DE 2008 I' QUINZENA Jornal Pessoal









SAutores

fala da Amazonia

9 reverter as injustigas enquanto permanece vivo efora da prisdo.


Ainda uma coisa de que esta supera-
bundante regilo ainda carece 6 cobertura
jornalistica em detalhes de seu entrelaga-
do desafio human e ambiental. At6 mes-
mo o maior journal didrio do Brasil como
Folha de S. Paulo e 0 Estado de S. Paulo
(para o qual Pinto trabalhou como cor-
respondente), geralmente tem mandado
somente um reporter para cobrir a vasta
regiao, de acordo corn Marcelo Beraba,
president da Organizacao Brasileira de
Jornalismo investigative.
A voz mais poderosa da midia na re-
giao pertence ao grupo O Liberal, o qual
public um influence journal cor o mes-
mo nome, cor uma circulag~o didria de
35.000 exemplares. Tamb6m public um
journal semelhante a um tabl6ide, Amazo-
nia, recheado de noticias esportivas, fo-
focas e crimes e comumente mostrando
uma mulher de biquini na capa. Mas a
maioria dos brasileiros obt6m noticias
pela televised. Para muitas pessoas, jor-
nais, apesar de relativamente baratos, ain-
da sao cars.
Beraba diz que as areas inacessiveis e
de ocupa~ao perigosa tnm um niimero li-
mitado de rep6rteres como Pinto, que
cresceu numa famflia de classes m6dia em
Santar6m, no meio do caminho entire as
duas maiores cidades da Amaz6nia brasi-
leira, Bel6m e Manaus. "Em Bel6m e no
Pard 6 como se ele fosse o dnico", diz
Beraba. "Nao hi outra fonte diversificada
e independent na cena jornalistica".
Apesar de Pinto ser bem conhecido na
Amaz6nia Oriental, poucos brasileiros nas
mega-cidades do Rio de Janeiro e Sao
Paulo, centenas de milhas ao sul, reco-
nheceriam seu nome. Ao inv6s de seus
muitos contatos profissionais, ele 6 um
autodidata, um dnico home em opera-
qao, dependent, acima de tudo, de sua
intelig8ncia e vigor.
Profissionalmente, ele combine inves-
tigagao cientifica de fatos mensuriveis
com igual paixao da dinamica humana (ele
estudou sociologia na universidade). Evi-
ta gravadores e computadores, dependen-
do das anotag6es e de sua prodigiosa me-
m6ria. Recusa-se a carregar o cellular por-
que eles "brutalizam" as pessoas.
Para lidar com o estresse, pratica
exercicios respirat6rios. "Eu sou uma
pessoa muito controlada", ele diz, "mas
quando estou s6 extravaso dou murros
na parede, grito e dango. Especialmente
corn m6sica. Mdsica 6 minha terapia".
Requiem, de Mozart, 6 seu favorite em
particular


Quem poderia imaginar que Pinto qua-
se teve o seu Mozart a todo volume hi
tres anos, quando foi fisicamente atacado
pelo director editorial do journal O Liberal,
Ronaldo Maiorana, e dois guarda-costas
enquanto almogava com amigos. De acor-
do com Pinto, Maiorana deu-lhe um soco
e depois que caiu ao solo os tries homes
repetidamente o chutaram.-"Se eu nao
mati-lo agora, o farei mais tarde!" Maio-
rana gritava. O ataque veio depois de dois
dias em que Pinto publicou uma hist6ria
de tres p6ginas sobre a familia e proprie-
dades dos Maiorana.

Em seu eserit6rio no
0 Liberal, Maiorana,
39, parecia contrito,
reconhecendo que
sua ahao foi "estupida"
e "errada". Sentado a poucos me-
tros de onde ele mant6m um quadro em
homenagem A mem6ria do pai, Maiorana
reconheceu que a hist6ria de Pinto foi ba-
seada em fatos corretos.
Mas ele disse que Pinto traiu a confi-
anga de seu pai, Romulo Maiorana, ao re-
velar coisas ditas em confidencia. (Pinto
desistiu de O Liberal depois da morte do
velho Maiorana numa discussao sobre um
testemunho politico escrito por Pinto que
o journal se recusava a publicar.)
"Eu me ofendi nao por causa de mim
mesmo, mas porque ele falou sobre as-
suntos muitos intimos", disse Maiorana
cuja mae vifva, irmao mais velho e irma
tamb6m administram os neg6cios da fa-
mflia. Al6m de dois jornais, os Maiorana
tamb6m controlam uma estagao de TV
regional, emissora de radio, uma empresa
a cabo e um portal na Internet.

"ELE ME VIA
COMO UM FILHO"

Falando com Maiorana e Pinto fica
claro a rivalidade quase-familiar no cora-
g9o de suas disputes. "Ele sempre sonhou
em ter um filho jornalista", diz Pinto so-
bre o velho Maiorana. "Ele nunca teve um
filhojornalista porque seus pr6prios filhos
nao eram jornalistas bons o suficiente.
Entao ele me via como uma esp6cie de
filho adotivo".
Ennio Candotti, 65 anos, professor uni-
versitario e ex-presidente de Sociedade
Brasileira para o Progresso da Ciancia,
descreve os processes na justiQa (inclu-


indo os 18 impetrados pelo grupo O Libe-
ral) contra seu amigo de longa data como
"abusos" disparados pelas elites de "um
estado andrquico" que "nao se ajustaram
a democracia e justiga". Eles resolve
seus conflitos atrav6s de meios financei-
ros e atrav6s da forqa porque nao podem
resolve-los pela palavra escrita ou a razao
e os meios democriticos", diz.
Embora cor recursos muito limita-
dos, o Jornal Pessoal regularmente pu-
blica mat6ria que nao aparece na midia
brasileira. Como exemplo, Pinto aponta
para uma hist6ria explicando como a in-
terrupqao temporaria de uma hidrel6tri-
ca na Amazonia alguns anos atris cau-
sou um aumento nos preqos do aluminio
na bolsa de metais de Londres, porque
o Brasil estava permitindo que um con-
s6rcio brasileiro-japones de aluminio
comprasse energia com tarifa subsidia-
da pelo governor.
Para cobrir a Amaz6nia adequadamen-
te, Pinto diz, um reporter tem que saber
sobre assuntos ambientais, neg6cios, hi-
drel6tricas, contabilidade, fisica, quimica
e gerenciamento de agua (que observou na
Holanda). "O dnico m6rito do jomalista 6
fazer a pergunta certa", ele diz. "A divida
6 mat6ria prima para um jomalista".
A regiao deve crescer, ele acredita, se
perder seu status centendrio de pobreza e
atraso. A questao 6: como? Mas primeiro,
ele diz, o mundo deve abandonar a ilusdo
de que a Amazonia "6 o lugar do Pecado
Original", um Eden perdido que de algu-
ma forma pode ser recuperado.
Ele 6 c6tico a respeito dos cliches con-
temporaneos sobre "desenvolvimento sus-
tentivel", que ele acredita ser "nao mais
do que ideologia at6 agora, usado como
placebo, para amenizar a opiniao pilblica
interacional" e acalmar a consciencia dos
que ele chama consumidores "coloniais",
ambos dentro e fora do Brasil. Fazer cor
que os humans aprendam "como usar"
a Amaz6nia "sem destruf-la" 6 o maior
desfio da regiao, ele diz.
Ajudar seus leitores a entender essas
complexidades 6 o que faz Pinto escrever
e lutar na justiqa. E se sua missao as ve-
zes pareca ter um toque quixotesco, ele
sugere que seus algozes, nao ele, caiam
para enfrentar a realidade.
"A attitude daquele que nao quer enca-
rar os fatos e a verdade 6 muitas vezes
comparado h avestruz," ele diz.
"Eu nao acredito nisso tamb6m, en-
tao pesquisei um pouco e descobri que a
avestruz enfia a cabeqa na area nao para
nao encarar os fatos, mas por causa de
sua alta sensibilidade". Cor a cabeca
dentro do buraco ela pode determinar a
direqao de onde o perigo esta vindo, cap-
tando o som.
"Eu mergulho a cabeca na terra, como
uma avestruz, porque eu quero saber o
que esta acontecendo".


Journal Pessoal i" QUINZENA AGOSTO DE 2008














POLITICAL
0 entdo deputado estadu-
al Armando Mendes (at6 hoje
em plena atividade na vida p6-
blica) se viu numa situaqao in-
s6lita. Ele indicou ao seu par-
tido, o PSP (Partido Social
Progressista), o nome do seu
colega, Jos6 Maria Chaves,
como candidate A presid8ncia
da Assembl6ia Legislativa. O
PSP era um dos partidos que
estava no govemo, como in-
tegrante da Coligaqao Demo-
critica Paraense, que derro-
tara o "baratismo" em 1950 (e
seria derrotada pelo PSD em
1955, com a volta de Maga-
lhaes Barata ao poder).
Reunido, sob a presidencia
de Cattete Pinheiro, o diret6rio
nao aceitou a sugestao. E foi
al6m: aprovou o nome do au-
tor da sugestao para o cargo.
ImediatamenteArmando Men-
des rejeitou a honrosa distin-
qdo, com uma argumentagdo
pra li de cartesiana: "Dificil-
mente poderia ser explicada, de
modo satisfat6rio, a grande
parte do piblico, por que ma-
neira foi substituida a primeira
indicaqao lembrada por aque-
le que dera essa lembranga".
Ainda mais porque "ja anteci-
padamente se falava na minha
pessoa como se iria tomar o
lugar de Jos6 Maria Chaves".
A aceitagqo da decisao do di-
ret6rio "haveria de parecer a
muitos como apenas confirma-
gao de manobra a que prova-
velmente nao teria faltado o
meu consentimento".
Uma liqao de habilidade e
coerencia para os politicos
atuais.

LUZ
Em 1954 o prefeito de
Bel6m, Celso Malcher, ini-
ciou com os diretores da For-
qa e Luz do Para (J. Dias
Paes, Ant6nio Martins J6nior
e Camilo Nasser) os enten-
dimentos para transferir A
nova empresa, estatal, o acer-


vo da companhia que fora
extinta, a Pard El6tric, a par-
tir de pareceres do consultor-
geral do municipio, Orlando
Costa, corn o consultor da
Forga e Luz, Oswaldo Trin-
dade. A transferencia da rede
de transmissdo de energia foi
logo acertada: venda pelo
mesmo prego da usina.

TEATRO
"Como cansei de Ver-o-
Peso", o espeticulo teatral
paraense que mais vezes foi
apresentado em todos os tem-
pos, comegou sua carreira
em novembro de 1971. Ge-
raldo Sales decidiu criar o
grupo Experienciajustamen-
te para encenar peas da dra-
maturgia local, reunindo ato-
res jovens (m6dia de idade-na
6poca da fundagao: 18 anos)
e sem experiencia (nenhum
freqiientava a Universidade
Federal do Pari, que manti-


nha o 6nico curso de forma-
cao de ator). O grupo inicial
tinha Celina Bezerra, Ant6nio
Carlos Cunha, Ruy Santa
Helena e Luiza Bezerra. O
texto era uma colagem com
vdrias origens. Um artigo que
escrevi na minha coluna dii-
ria, Quark, em A Provincia
do Pard, foi uma das inspi-
ragses. Como me cansei vol-
tou a ser encenada neste ano.

BARULHO
O advogado Egydio Sales
se cansou de ser interrompi-
do em seu labor professional,
no entao bem posicionado es-
crit6rio, no pr6dio da Lobris
(a famosa "4 e 400", na rua
Jodo Alfredo), pela voz esga-
nigada e amplificada do "Bu-
raco" com o seu Serviqo de
Alto-Falante "A Voz do Dia",
que percorria as ruas da cida-
de apregoando publicidade e
fazendo comentdrios sobre os


passantes. Em 1962, o "Ma-
ninho" requereu ao secretirio
de seguranga p6blica, "em
long trabalho de representa-
gao", a aplicaqgo da lei con-
tra essa tonitruante contraven-
cao legal. Alegou que o sono-
ro volante "divulga m6sica e
an6ncios com todo o volume
aberto, perturbando o trabalho
intellectual" dos que possuiam
escrit6rio na principal rua do
com6rcio. Como testemunha,
arrolou os doutores Fldvio
Moreira, orlando Souza Filho
e Jodo Jos6 de Ara6jo Moura,
que tamb6m labutavam na
area e igualmente eram per-
turbados pelos decib6is do
alto-falante.
De li para ci, o barulho
mudou para continuar o mes-
mo na permissive Bel6m do
Para. Ja o doutor Egydio, que
estava long de ser pianissi-
mo, subiu para muito al6m da
zona de turbul8ncia.

PROPAGANDA

Campanha

professional

A campanha eleitoral
atravis dos jornais
comegava a se sofisticar em
1962. Prova e este andncio
das candidaturas de Cattete
Pinheiro e Cleo Bernardo
para o senado, preparado
profissionalmente, por
agnncia. Cattete fora
ministry da saide no
governor de Janio Quadros
no ano anterior e continuou
sua carreira political, que
atravessou a fase
turbulenta do golpe military
de 1964. Clio, que fora
deputado estadual e tentara
sem sucesso chegar a
prefeitura de Belim, estava
no fim da carreira,
antecipada por sua
cassaVao pelos militares,
dois anos depois deste
anuncio.


8 AGOSTO DE 2008 I QUINZENA Journal Pessoal


a-






'p i senaacres












Is
Sfaa como e











































FOTOGRAFIA

Lazer do jornalista


Uma foto rara, provavelmente do finalzinho da dicada de
50 ou de 1960/61: o jornalista Paulo Maranhdo, dono
da terrivel Folha do Norte, assisted, ao lado da esposa,
Waldomira, a um espetdculo no audit6rio da Rddio
Marajoara, dos Didrios e Emissoras Associados, de Assis
Chateaubriand. 0 velho Maranhdo, nessa jpoca corn
mais de 70 anos, morava bem ao lado, no largo de
Nazarj, e ia cor assiduidade ver os programs


radiof6nicos "ao vivo", como hoje se diz, que eram a
principal atragdo da cidade (ainda ndo fora inaugurada
a primeira emissora de televisdo de Belim, a Marajoara).
Mas, ao que parece, este e o inico document da sua
presenga, ao lado da esposa, em pleno lazer Na fileira de
trds, o reporter Hordcio Siqueira corn a mulher,
Terezinha, ambos de A Provincia do Pard. Ela na
administragdo e ele na reportagem policial.


INTOLERANCIA
Id6ias tem que ser combatidas com id6i-
as. Mesmo quando os que as apresentam
usam-nas como pretexto para qualquer tipo
de aqdo nefasta, justamente por isso tornam-
se suscetiveis ao desmascaramento, al6m de
estarem ao alcance da responsabilizagao le-
gal. O Brasil s6 atravessard o terreno lodoso
da truculencia, que o faz marcar pass na
escala civilizat6ria e na consolidaqao do ver-
dadeiro regime democrdtico, quando o res-


TIRAGEM
E paradoxal a posi~go do Didrio do
Pard. Com razao, proclama seu orgulho de
ser o inicojornal da terra filiado ao Institu-
to Verificador de Circulagao. Mas na hora
de divulgar sua vendagem, recorre ao Ibo-
pe, que 6 fonte de pesquisa muito menos
autorizada em mat6ria de impresso do que
o IVC. O Ibope mede audiencia, enquanto


peito A manifestagao do pensamento for ab-
soluto. Ningu6m deve sofrer violencia pelo
que diz e escreve. Deve ser contestado no
mesmo piano, o da apresentaqao de id6ias,
ou levado a responder judicialmente pelos
malfeitos cometidos.
t incrivel que essa regra elementary nio
seja acatada, como acontece neste momen-
to em Santar6m. Em 6poca de eleiq~o, o pa-
roxismo dessas vilanias assume o carter de



o IVC atesta a circulag o realmente paga. O
que deduzir dessa contradiqdo? De que
muitos exemplares do Didrio circulam como
cortesia ou por alguma forma de comercia-
lizagdo que o IVC, muito rigoroso na aferi-
ago, nao concordaria em computer, prova-
velmente porque a receita da venda nao
cobre o custo de produzir o journal. O Did-


um ato de lesa-sociedade, como parece ter
ocorrido com o jornalista Jeso Carneiro. Da
mesma maneira como ter fas, ele ter adver-
sdrios e inimigos, cor ou sem razdo. Depois
de perder seu blog, ele quase perde sua casa
num inc6ndio provavelmente criminoso. Es-
peram todos os paraenses de boa f6 que as
autoridades nao deixem esse crime impune e
desestimulem esse clima de caqa As bruxas,
de intolerancia e perseguicao.



rio paga caro para manter-se no IVC, mas
nao usufrui seu principal servico, que 6 o
selo atestando a circulacao vendida.
Quando teremos a divulgaqdo do primei-
ro boletim do IVC sobre ojornal do deputa-
do federal Jader Barbalho? E a pergunta que
a empresa, se quiser impor respeito, precisa
responder. Quanto mais cedo, melhor.


Jornal Pessoal Il QUINZENA AGOSTO DE 2008


e~6~











EDUCAMAO
Excelente mat6ria de capa a do
ultimo JP (edigao 420). O "gover-
no da mudanga" mostrou-se total-
mente despreparado para govemar
este estado no epis6dio da greve dos
servidores pdblicos da educagdo. O
governor mentiu descaradamente
para n6s, profissionais, mentiu para
a sociedade, mandou a policia bater
em trabalhador. Esses mesmos
"companheiros" que durante mui-
tos anos apoiaram as manifestag6es
grevistas de trabalhadores, foram os
que entraram najustiga contra a gre-
ve. Sera que os "companheiros" es-
queceram a sua hist6ria de lutas?
Creio que sim, ja que esqueceram
atd as promessas de campanhas,
quando a agora governadora dizia
que a educago seria prioridade em
seu governor. Que prioridade 6
essa? Prioridade dando um auxflio
mis6ria em forma de vale alimenta-
g9o de R$ 120 (nfvel superior) eR$
60 (nfvel m6dio e fundamental), au-
mento de 6,5% para os professors
AD4, 9,75%paraosADI eapenas
10% para os de nfvel fundamental?
O govemo "popular e democrati-
co" justificou essa esmola dizendo
que um aumento maior comprome-
teria as contas do Estado e desres-
peitaria a lei de responsabilidade
fiscal, mas deu um aumento subs-
tancial aos seus ADS de mais de
100%. O "govemo da mudanga"
propagandeia que um professor
AD4 cor 200hs tera ganho de mais
de 2.800 reais cor esse "reajuste",
que, segundo os "companheiros",
foi um dos maiores do Brasil. Ima-
ginem os menores. Essa propagan-
da 6 uma fabula, 6 s6 qualquer cida-
ddo ou cidada solicitar e inspecionar
o contracheque de um professor com
200hs que comprovara que esse
governor tem a mesma postura do
govemo passado: muita propagan-
da e pouca agao. O "Para de Direi-
tos" 6 ret6rica para ingl6s ver. N6s,
da educagdo, nos sentimos humi-
lhados, senhora governadora. Pas-
samos anos fazendo trabalho de for-
miguinhas, para a senhora ter nos
virado as costas, para a senhora ter
sujado as suas mdos de sangue de
trabalhadores espancados por seu
brago armado. A Policia Militar, que
6 uma das piores do Brasil, deveria
nos proteger e ndo bater em cida-
d5o em trabalhadores. O "govemo
da mudanga" lavou as maos em re-
lagdo a educagdo. Ja a nossa mdo
continuara suja de giz e de pincel,
de lama, de poeira das escolas cain-
do aos pedagos. Nosso trabalho de
formiguinhas continuara, nao para
doutrinar nosso aluno(a)s, mas para
conscientizA-los que governor vem
e vIo, e o seu passara, mas n6s fica-
remos tentando, lutando, sem es-


quecer nosso ideas por um novo,
decent ejusto Estado do ParA. Um
Pard verdadeiramente de direitos
para todos. Viva o Pard e Viva
a Educagdo.
Alex Ruffeil
Santar6m PA

CADAVERES
Li a mat6ria sobre as paginas re-
pletas de cadaveres nosjornais O
Liberal, Amaz6nia Jornal e Didrio
do Para. Realmente nenhum dos ca-
daveres cujas imagens sao publi-
cadas nos cademos de policia 6 de
alguma pessoa distinta na socieda-
de paraense. Fica-nos a pergunta:
se algum parent ou amigo dos
proprietirios desses jornais vies-
se a falecer de modo violent e tri-
gico, suas fotos seriam publicadas
nos cadernos policies desses vef-
culos da imprensa? Sinceramente,
acho que nao.
Matheus Assumpago

SANTA CASA (1)
(0 autor desta carta pediu para
ndo ser identificado, o que acatei
emfungdo da importdncia das in-
formaCoes e observa ges que
prestou. Espero que quem de di-
reito leve em consideraqdo essa
manifestacgo e respond aos ques-
tionamentosfeitos. Quero apenas
fazer um comentdrio: sou a favor
da elevagdo dos saldrios do pes-
soal de sadde como um todo, con-
siderando-se a relevancia dafun-
gdo, e assegurando-se a melhor
remuneradqo para o professional
de maior qualificacdo requerida,
que e o medico. Assim se podia
corrigir a distorgdo que hd em to-
das as unidades de sadde do Esta-
do, nas quais a atividade-fim e
desvalorizada pela atividade-
meio. Umprocuradorganhapelo
menos cinco vezes mais do que o
medico, considerando-se o inicio
de carreira, mesmo quando tra-
balha em hospitals, o que e um de-
satado absurdo. Se a categoriaju-
ridica conseguiu se valorizar, in-
clusive por ser a responsdvel pela
elaboraqdo, observdncia e execu-
Fdo das leis, estd na hora de ajus-
tar esse conceito professional a
cada setor especializado. Em uni-
dades de sadde, asfunVdes vitais
sao desempenhadas por medicos,
enfermeiros e seus auxiliares. Se
um medico acaba acumulando os
beneficios de efeitos-cascata inde-
vidos, que sejam cortados ospri-
viligios pessoais em beneficio da
dignidade geral de uma atividade
essential ao bem coletivo.)
Sobre seu (ltimo artigo no Jor-
nal Pessoal (Santa Casa: a sadde
manipulada), sou de pleno acordo
cor quase tudo o que ali foi expos-
to. Menos ao que se refere a inex-
periencia dos profissionais contra-
tados via concursos pdblicos na for-


ma da lei, com prova de titulos e de
conhecimentos.
Ldcio Flavio, talvez voc8 nao
saiba, mas, muito antes da divul-
gagio dos editais dos concursos
para a Santa Casa, a pr6pria insti-
tuicao contratou cursinhos prepa-
rat6rios particulares para os servi-
dores temporarios. E esses prepa-
rat6rios eram realizados dentro da
Santa Casa. Mesmo com essa "aju-
dazinha", qual foi o percentual de
aprovagdo que tiveram? Muito
baixo, voc8 pode averiguar!
Outro fator important 6 que, no
iltimo concurso, foi contado tem-
po de servigo pdblico como prova
de titulo, deixando, af sim, os re-
c6m-formados em desvantagem!
Mesmo assim, quem conseguiu
alcangar 8xito nessa concorrencia
piblica ainda teve que mostrar os
titulos de especialista, mestrado e
at6 de doutorado. Titulos conquis-
tados a duras penas. Muitos tive-
ram que passar anos fora do Esta-
do do Para para que possuissem
tais qualifica6bes. Sem falar na ex-
periencia anterior adquirida em
outras instancias do governor e
mesmo na vida privada.
Agora, voce nao acha que alguns
atores resolve aparecer neste ce-
nario urubulino s6 para tirar provei-
to pr6prio? Aquela ilustrag~o na
capa do Jornal Pessoal mostra
muito bem o oportunismo de alguns
stores em cima do dramavivido pela
Santa Casa. Por exemplo, o Sindica-
to dos M6dicos quer um aumento
astron8mico em seu piso salarial,
algo em toro de 7.500 reais. E di-
zem que os m6dicos s6 nao pararam
ainda por insistencia do pr6prio sin-
dicato. Cade a compaixao humana?
A vocagao pela arte m6dica? Dizem
que preferem a iniciativa privada
porque pagamelhor! Nossa, LF, isso
me deixa muito indignado! E os ou-
tros profissionais de sadde que ga-
nham bem menos do que eles?
Outra: os mddicos da Santa Casa
recebem o salario, ganham por es-
cala de sobreaviso (mesmo que nao
sejam chamados), ganham por
plantao dado e muitos ainda tem
cargos de DAS! Somando tudo
isso, da um salario muito bom para
quem s6 trabalha 20 horas. Isso
quando vao trabalhar. S6 que mui-
tos nem sequer comparecem na
Santa Casa. Vamos averiguar?
E por falar em DAS, por que
existem tantas pessoas recebendo
essa gratificagoo na Santa Casa? A
maioria nem 6 concursada. Tem ni-
vel m6dio nao-concursado receben-
do DAS e exercendo funcao priva-
tiva de nivel superior. E por que a
diretoria administrativo-financeira
6 exercida por uma bi6loga nao-con-
cursada, enquanto contadores, ad-
ministradores, economists con-
cursados estao nos escal6es basi-
cos da atual administragdo? Nao


seria um caso tipico de nepotismo e
desvio de fungio?

SANTA CASA (2)
Quero parabeniza-lo pelo exce-
lente artigo "A Sadde Manipulada"
(JP n 421). De forma clara e obje-
tiva voc8 fez um panorama geral da
situag~o da Santa Casa e, por tabe-
la, da situago da sadde em nosso
Estado e na capital. Depois de tan-
tas reportagens tendenciosas publi-
cadas em nossos jornais, 6 muito
bom ler uma mat6ria isenta e lcida,
exemplo de como deve ser o bom
joralismo. Trabalho na Secretaria
de Sadde do Estado e confess que
poucos dentro da secretaria tem a
visao da satdde que voc6 demons-
trou. S6 estranhei um pouco a cita-
gFo que diz que a maioria das inter-
nag6es 6 de indigentes, talvez mais
pela forga da palavra (sinonimo de
pobre), pois acaba nos remetendo a
image de que os internados sao
pessoas sem renda ou familiar que
vivemjogadas pelas ruas das cida-
des (o que nao 6 o caso). Aprovei-
to a oportunidade para uma peque-
na observagio no artigo que trata
sobre o Correio do Tocantins. No
pendltimo paragrafo 6 colocado
que o Correio se tornou fonte in-
dispensavel para se saber o que
acontece na regiao "as vezes defor-
ma chocante, como na sem-ceri-
mdnia de exibirfotos de caddve-
res..." (coisa que voc6 combat nos
jornais da capital); logo em segui-
da 6 escrito: "Parabdns e longa vida
ao Correio do Tocantins". Con-
fesso que ficou estranho.
Ricardo Conduru

MINHARESPOSTA
0 leitor tem razdo quanto a ex-
pressdo "indigente". Tecnicamen-
te, estd incorreta. Mas e usada
como equivalent de pobre. Quan-
to ao desejo de longa vida aojor-
nal de Marabd, a despeito de ele
abusar no noticidrio policial, que
descamba para o sensacionalismo,
ndo hd contradigdo: espero e dese-
jo que ojornal corrija a sua dire-
triz editorial e para isso e precise
que exista. Mesmo corn essa nddoa,
o Correio e umafonte necessdria a
recorrer sobre o que acontece em
Marabd. Infelizmente, muita coisa
que ld acontece e ruim mesmo e o
noticidrio da imprensa apenas a
reflete. Mas podia fazer alguma
coisa para mudar essa situagdo,
como conferir mais dignidade i
cobertura dos acontecimentos da
drea de policia. Como tambem po-
diamfazerosjornais de BelMm, que
chegaram ao mdximo de aprovei-
tamento de imagens fortes na co-
bertura policial. Nem por isso de-
sejo que acabem, muito pelo con-
trdrio: acredito que poderdo durar
muito mais apostando na boa qua-
lidade e ndo na ruindade.


10 AGOSTO DE 2008 I QUINZENA Jornal Pessoal








JP esta no ar

A surpresa foi geral quando
a noticia comecou a circular: o
Jornal Pessoal, finalmente, tem
seu enderego na internet: 6 o
www.jornalpessoal.com.br. Quando
as pessoas comeqaram a acessar, o
site j encontraram duas edig~es do
journal para consultar. Agora ha qua-
tro. Devagar e sempre irdo aparecen-
do as edigoes mais antigas e as mais
recentes, que poderdo ser pesquisa-
das atrav6s de palavras-chave, at6
que todo conte6do esteja disponivel.
Havera apenas um intervalo de tres
ediqoes em relacao a que estiver cir-
culando. t a maneira de preservar o
journal no seu format traditional, em
papel, que 6 o mais valorizado pelo
editor do JP. Ainda 6 o format mais
nobre de apresentacao de uma publi-
cagao impressa e assim esperamos
que continue a ser, com o apoio dos
leitores e dos amigos deste journal.
Na internet, eles terao ao seu dis-
por os mecanismos de interativida-
de, que inexistem na forma estitica
do papel. Contudo, 6 sobre o papel
que se faz a melhor reflexIo, as me-
lhores anotag6es e 6 tamb6m o
meio de armazenamento nao supera-
do (e, talvez, insuperAvel) da mem6-
ria. Gragas ao meu filho, Angelim, res-
ponsavel por toda parte t6cnica, a
partir de sua base professional, em
Sdo Paulo, podemos partilhar com o
mundo esta voz genuinamente ama-
z6nida. Sem a falsa grandiloqtiUncia
da legendaria radio pernambucana,
6 para o mundo que estamos agora a
falar, em voz modulada, mas decidi-
da. Esperamos que o mundo se inte-
resse em nos ouvir.
Muitas mensagens de apoio e es-
tfmulo nos foram mandadas. Uma das
primeiras foi a de Marcos Klautau,
um estimado companheiro. Disse ele,
com estilo:
"Nem sei o porque, mas o inicio
das atividades de seu Blog me faz
lembrar 'A voz que fala e canta para
a planicie', slogan da antiga PRC-5,
a Radio Clube do Para, propalado,
principalmente, pelo saudoso e que-
rido amigo Edyr de Paiva Proenga.
Parab6ns, amigo! Renascemos,
ao praticar uma faganha.
Intelig8ncia e cultural, irmanadas
com a verdade e a dignidade nunca
sao demais.
N6s, que as temos, sabemos
que estao a mingua.
I necessario dizer e repetir que
elas existem, mesmo perpetrando vi-
tup6rio.
Ja fiz minha inscricao no seu -
nosso Jornal Pessoal".


O centro j foi a melhor parte de Bel6m, quan-
do concentrava as atividades comerciais, cultu-
rais e political. E o direito de ir e vir era respeita-
do, assim como o trabalho ainda nao fora avilta-
do. Eu podia descer do escrit6rio, dobrar a es-
querda para ir a livraria Martins ou A direita, para
enfrentar o Dudu em seu "sebo". Se atraves-
sasse a rua, ia pesquisar nos c6dices da Biblio-
teca eArquivo P6blico, com direito a cafezinho,
as vezes tapioquinha (quem servia era a gentil
dona Olga) e a conversa requintada do profes-
sor Ernesto Cruz.
Saindo do Arquivo, dobrava para a direita: ia
buscar o livro encadernado por ningu6m menos
do que mestre T6 Teixeira, com sua oficina de
encadernago de um inico e pobre compartimento
na travessa 13 de Maio. Ou deixar-lhe mais um
volume para seu serviqo. Af conversavamos em
ritmo de valsa. Seus dedos, queimados pela cola,
perderam a sensibilidade para o dedilhar das cor-
das do violao, que fazia como raros, e at6 mesmo
complicavam a arte final do seu
offcio, que era sua marca. Mas
a cabega, entao completamen-
te branca, aos 82 anos, conti-
nuava afiada e serena. T6 era
a classica imagem do escravo
negro, a coluna dobrada, arras-
tando as pernas, a cor da pele
acentuado pelo contrast com
os cabelos de algodAo.
Com a repeticqo das mi-
nhas visits, ele passou a me
presentear com pequenos ma-
nuscritos. Em pedaco de pa-
pel de encadernaqao, recons-
titufa pedacos de sua longa e movimentada vida.
Estava preocupado com a hist6ria, que dificil-
mente Ihe seria just, na media certa do seu
merecimento. Queria que eu nao perdesse ne-
nhuma das anotaqges: colocava a r6gua e es-
crevia sobre ela, compensando a ausencia de
pauta no papel para manter as letras num trilho
e torn-las o mais inteligivel que podia.
A algaravia da vida de um reporter engoliu
vidios desses pap6is, que tamb6m foram alvo
dos insaciiveis cupins. Dias atras, consegui
recuperar um desses pap6is. Nao vou perder a
oportunidade de garantir-lhe a perenidade. Tra-
to de repassa-lo ao distinto p6blico, que nio
encontrard as informaqces fornecidas por T6
Teixeira em nenhum outro lugar. Tem valor para
a hist6ria da mrisica popular no Para.
O titulo dessa pequena cr6nica 6 "Lembran-
9a do Umarisal [com "s" no original] 1920 a
1950 Coisas da vida". Reproduzo o que T6
escreveu (em 4 de marco de 1977), conform
escreveu, pelo valor adicional do seu estilo, fiel
as suas origens:
"O meu contemporaneo violinist Arthemio
Pontes de Souza o 'BEM-BEM'. Mesmo quan-
do tivemos um pouco diferente dizia: O T6 Tei-
xeira sabe tirar o som do violao. Ningu6m acom-


panha um choro etc. aqui no Pard melhor que o
T6 Teixeira; ele com o Mocinho na flauta e o
Passarinho no cavaquinho (TRIO DESEJADO),
faz o que quer no violao, e sobretudo os choros
compostos por ele, muito bem ensaiado, 016! a
gente tem impressao que 6 um disco do grupo
do clarinetista 'Louro' do Rio de Janeiro.
O extinto flautista Joao Damasceno Guer-
reiro sempre foi o portador dessas mensagens.
Note-se: Bem-b6m era conhecido como violo-
nista da elite paraense. O exfmio contrabaixis-
ta Cipriano Monteiro e outros colegas diziam
que: As mfisicas do T6 Teixeira s6 mesmo acom-
panhadas por ele T6 Teixeira. Julguem, digam
o porqu8...
Um amido meu... da onca, disse a mim mes-
mo: se a Eneida Moraes tivesse um orat6rio,
colocaria o TO TEIXEIRA dentro; s6 porque
ele, o 'meu amigo', leu um artigo que ela escre-
veu no Rio de Janeiro; imagine! Meu citado
amigo com certeza achou ruim; 6 a tal coisa dos
amigos da preguiqa. Deus nos
perdoe os pecados, e ele que se
cuide. Verdade?"
T6 acrescentou mais uma nota
do outro lado do papel:
"O escritor e poeta Dr. De
Campos Ribeiro, em uma das
suas felizes publicaq6es, assim
expressou-se:
'A primeira orquestra de misi-
cos que conheci no famoso bairro
do Umarizal [como estd citando,
T6 grafou a palavra com "z ". su-
gerindo nio concordar com essa
forma adotada em relagio ao seu
bairro] foi dos Teixeiras, sob a direqgo do Sr.
Ant6nio Teixeira do Nascimento e seus filhos.
Por6m, a iltima foi do seu filho T6 Teixeira, que,
por sinal, escreveu 15 ladainhas tocadas e can-
tadas para quase todos os festeiros do bairro e
chegou ao auge; tocou 5 ladainhas e uma pro-
cissao para S. Sebastiio no dia e noite de 20 de
janeiro de 1962.
T6 nunca deu chance a inimigos. Sempre tra-
tou de si conforme os conselhos de seu pai'".
Nessa 6poca, T6 estava orgulhoso. Graqas
ao seu amigo e maior pesquisador, Vicente Sal-
les, fora o tema de um compact duplo ("La vem
tio T6"), com quatro de suas composiqdes. Ou-
tra delas aparecera no LP Misica Popular do
Norte. Ambos foram editados por Marcos Perei-
ra, em Sao Paulo. Foram os 6nicos discos dele
em vida. Cinco anos depois, aos 87 anos, T6
morria, no mesmo bairro no qual nasceu e onde
passou toda sua vida, o Umarisal que tanto amou
e animou, ele e seus quatro irmdos, todos m6si-
cos e alguns ainda compositores, comandados
pelo pai, Ant6nio Teixeira, nascido em Santa-
r6m, a cidade mais musical do Pard.
Ant6nio Teixeira do Nascimento Filho, o gran-
de T6 Teixeira, se foi ha 26 anos. Mas jamais
sera esquecido.


Journal Pessoal io QUINZENA .


PAPERS DA HISTORIC


0 grande T6 Teixeira


AGOSTO DE 2008







Boca rica
Ant6nio Fattore, assessor
especial da governadoria,
recebeu 23 didrias para tratar
de "assuntos de interesse do
Estado" na China e na ItAlia,
entire os dias 20 dejunho e 12
de julho. Quais sao esses
assuntos que demandam
tanto tempo e recursos (s6 de
diArias, nao menos de sete mil
d6lares)? Conforme registrou
a ediqao anterior e varias
outras deste journal, ha uma
enxurrada de viagens ao
exterior por detentores de
cargos comissionados no
executive, que transborda os
limits do bom senso e da boa
moral. E sem um a
contrapartida da apresentac.o
dos servigos que essas
onerosas excursoes causam
ao erArio.
O governor do Estado nao
presta contas dessas
despesas, mas esses dados
estdo disponiveis nos
arquivos oficiais digitalizados
do governor federal. Eles dao
uma media do que
represent essa rubrica. No
ano passado Brasilia gastou
2,9 bilh6es de reais com seus
servidores itinerantes. O valor
global j 6 de impressionar.
Choque ainda maior vem no
detalhamento: pouco mais de
R$ 1,7 bilhao dessa conta
deve-se ao auxilio-
alimentagao concedido aos
viajantes, quase tr8s vezes o
custo com passagens e
locomo6oes (R$ 563 milh6es)
e com diArias (R$ 615
milhoes), e 50% a mais do que
a soma desses dois itens. O
valor da uma id6ia da mesa
pantagru6lica dos
tecnoburocratas federais
brasileiros.
Pensam que essa orgia de
gastos piblicos vai diminuir?
Na melhor das hip6teses, o
valor ira se repetir, j que no
primeiro semestre deste ano a
despesa foi de R$ 1,2 bilhao.
Com um agravante: o peso do
auxilio alimentaq~o (de quase
R$ 950 milhoes) se tornou
maior. Certamente porque deve
ter crescido a panga dos bem
alimentados marajAs do Brasil.
Pelo menos nesse aspect,
conseguimos nos nivelar a
India, um.dos quatro pauses do
Bric, o conjunto de nag6es
emergentes do mundo,
integrado por India, China e
Rfssia, al6m do Brasil.


Os moradores da regiao do Alto Camarapi, em
Portel, estlo sendo submetidos a um extremeo es-
tado de espoliacqo e violencia" pelas empresas
ABC (AgropecuAria Brasil Norte) e Cikel. Por cau-
sa dessa "grave situaqao", o advogado Ismael Mo-
raes embargo a decisdo do juiz substitute da 5"
vara federal do Pard. Carlos Almeida Campelo ha-
via decidido interromper, por 120 dias, a acgo civil
pidblica proposta pelo advogado. Dentre outros
objetivos, a acqo pretend cancelar os registros
imobiliarios de 127 mil hectares adquiridos ha 30
anos pela Cikel num leildo feito pelo Iterpa (Insti-
tuto de Terras do Pard) e arrendadas a Cikel, em-
presa certificada para extraq~o florestal.
Cor o embargo, o advogado renova o pedido de
tutela antecipada apresentado na a9ao inicial, para a
suspensao dos efeitos dominiais do registro em nome
da ABC, a suspensio de toda atividade das empre-
sas na Area e tamb6m de qualquer licenciamento e
autorizaao novos. Tudo porque as empresas "acos-
tumaram-se a barbarizar as florestas" da regilo. O
"diagn6stico social" que ojuiz pretendeu incorporar
ao process durante os quatfo meses da suspension
"nao ter e nem teria o condo de superar a grave
ameaga", argument o advogado, em nome da prefei-
tura de Portel, de uma associaqdo e do sindicato dos
trabalhadores rurais do municipio.
Nos 6ltimos tempos, por6m, as inicas noticias
sobre essa grave situagao sao as que aparecem no
jomal O Liberal e, especialmente, na coluna Rep6r-
ter 70, sem assinatura. Sao notas que parecem menos
voltadas para enriquecer a instruqao processual da
acao do que para intimidar as empresas, talvez para


O IDH (Indice de Desenvolvimento Humano) 6
um indicador social criado pela ONU (Organizagao
das Naqpes Unidas) ha quase 20 anos. t formado
pela renda per capital, expectativa de vida e indice
de escolaridade. Permite uma mensuraglo mais qua-
litativa do que os indicadores meramente quantita-
tivos, mas j comeqa a apresentar algumas deficien-
cias. A melhoria de certas condig6es sociais nao
implica necessariamente melhoria das condig6es de
vida, ou nao na proporgao que se podia esperar.
t uma grande conquista o aumento da longe-
vidade do ser human, mas para muitos deles sig-
nifica que enfrentarao grandes dificuldades para
sobreviver por mais tempo. Da mesma forma, a es-
colaridade crescente pode ocultar o analfabetismo
funcional: as pessoas sabem ler e escrever, mas
nao entendem o que 18em e escrevem num patod
que esta se aproximando da ininteligibilidade.


Atra\ es de Contra o Poder- 20.4nos de Jornal Pessoal
(Uima paLiao aicma:6ica) tento conrar capitulos da histo-
na recenie do Para que jamais team sido registrados se
S niio esisnsse este Jomal. E mosrro como o JP conseguiu
reconstirulr esses tatos e a% aliar o seu significado no mes-
mo moment em que eles aconteciam. O II\ ro 6 compost
de trechos de matirias aqui publicadas e de um meta-texto no\o. que
comenra. si rua e elucida o coudiano de um journal smo \ erdadetramente
Indepnendente, que cumpre sua rrussio mais nobre. ser uma auditagem
do pN:er. Espero que os leitores ajudem a difundir essas hjsrnas com-
prando o li\ro. que estda \ enda nas bancas e em algumas jltranas


um acordo. Um dos alvos dessa agao, A qual foi atri-
buido o valor de 200 milh6es de reais, 6 a indenizagFo
dos moradores, ofendidos e prejudicados pelas em-
presas. Atrav6s do inefivel Rep6rter 70, Ismael Mo-
raes declarou que nao abrird mao dos seus 20% de
honorArios, mas reservard uma parte do que ira ga-
nhar ao Instituto Ofir Loyola, como prova de que nao
estA na causa pelo seu lado material.
O Iterpa contestou o embargo. Considerou-o
intempestivo por ter sido apresentado ji fora do
prazo legal. E interessante observer que o despa-
cho do juiz Campelo, suspendendo o process por
120 dias, "em face da noticia da realizagdo de diag-
n6stico da situagao fatica a ser efetuado pelo mu-
nicipio de Portel" (ver, a prop6sito, a edigao 420),
foi publicado duas vezes. A primeira, no dia 3 de
junho. A segunda, sem nenhumajustificativa para
a republicaq~o, no dia 17. Como o recurso do advo-
gado Ismael Moraes foi protocolado no dia 18, es-
taria a destempo, se considerada a primeira publi-
cagdo, mas no prazo diante da republicacgo da v6s-
pera. O problema 6 que ele retirou os autos do car-
t6rio no dia 9 dejunho. Assim, seu prazo terminaria
no dia 16, dois dias antes de protocolar o embargo.
Al6m disso, argumentam os advogados Flavio
Mansos e Fernanda Sequeira, em nome do Iterpa,
o recurso utilizado, o embargo declarat6rio, nao 6
cabivel ao caso por nao haver obscuridade, con-
tradig9o ou omissdo no despacho do juiz. Nao se-
ria esse o meio adequado para renovar o pedido de
tutela antecipada, que 6 o que o proclamado defen-
sor dos povos tradicionais de Portel tentou obter.
A palavra estd com ojuiz Campelo. De novo.


O mais recent ranking do IDH do Pard ilustra
essa necessidade de rever o indice como referen-
cia da melhoria de vida da populagao. O indice 1 6
o limited mAximo do IDH. Quem chega a ele atingiu o
melhor desenvolvimento social. Os municipios pa-
raenses estao distantes dessa meta e, em geral, abai-
xo da m6dia national. Os mais bem posicionados
soo Bel6m (0,81),Ananindeua (0,78), Curuqa (0,78),
Barcarena (0,77), Tucuruf (0,76), Novo Progresso
(0,76), Almeirim (0,75), Santar6m (0,75), Castanhal
(0,75), Tucumr (0,75), Altamira (0,74), Xinguara
90,74) Parauapebas (0,74), Redeng~o (0,74), Salin6-
polis (0,74), Capanema (0,73) e Sapucaia (0,73).
A maioria dos piores se localiza na ilha do Ma-
raj6. Sao Melgaqo (0,53), Cachoeira de Piria (0,55),
Chaves (0,58), Sao Jodo do Araguaia (0,58), Garra-
fao do Norte (0,58), Santa Luzia (0,59), Anajas (0,60)
eAfui (0,61).


Editor: Lucio Flavio Pinto

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Caso de Portel: nova investida


Desenvolvimento?