Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00326

Full Text


JULHO
DE 2008
1"QUINZENA


orna Pesso a
A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO


>1


Contagem regressive

Ana Julia Carepa e apontada como a pior governadora do pais, ao lado de Yeda
Crusius, do Rio Grande do Sul, em pesquisa realizada em nove Estados brasileiros. 0
sinal amarelo acendeu para o PT: sua permanencia i frente da mdquina public
poderd ser breve. Bem menor do que o period de 12 anos do PSDB de Almir e Jatene


comeqa a parecer pouco pro-
Svvel que os petistas consigam
reeditar a faqanha dos seus ad-
versirios tucanos, que ficaram 12 anos
seguidos no poder no Para, cor dois
dos seus maiores lideres, o m6dico Al-
mir Gabriel e o economist Simio Ja-
tene. Incluido pela primeira vez num le-
vantamento national, do Vox Populi
instituteo de pesquisa de opiniao corn
sede em Minas Gerais), que abrangeu
outros oito Estados, o Pard se manifes-


tou tio insatisfeito cor o desempenho
da goveradora Ana Jilia Carepa quan-
to o Rio Grande do Sul corn Yeda Cru-
sius, do PSDB.
De 700 pessoas ouvidas no Para,
28% condenaram a gestao do PT no
Estado, considerando-a p6ssima(15%)
e ruim (13%). Os que a aprovaram fo-
ram 23%, divididos entire a avaliacqo
6tima (5%) e boa (18%). Como a mar-
gem de erro da pesquisa foi de 4%, 6
incontestivel que a balanca da opinion


pdblica se inclina desfavoravelmente ao
desempenho de Ana Jilia em quase um
ano e meio como goveradora.
Ao fazer a desagregaqao dos vo-
tos regulars e reagrupi-losjunto cor
os demais, o Vox Populi chegou ao
seguinte resultado: 17% de avaliaCio
positive, 41% regular e 41% negati-
va. E um resultado bem pior do que o
atribuido pelo institute a Duciomar
Costa, do PTB, na prefeitura de Be-
CONTINmA NA PAG2


~:t~'4


N' 420
ANO
RS 3.00


__T' "T711






CONTINuAAO DA CAPA""""""""
16m. Seus indices foram 27% positi-
vo, 37% regular e 15% negative. Se
estivesse no banco escolar, a gover-
nadora teria sido reprovada cor to-
dos os dem6ritos.
0 povo costuma ser mais genero-
so com os governantes quando eles
ainda estio no primeiro terqo do seu
mandate, como 6 o caso atual. Por
isso, a avaliagqo foi mais positive para
os outros sete governadores incluidos
na aferigdo do Vox Populi (Sdo Paulo,
Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia,
Parand, Pernambuco e Ceara). Uma
image tdo negative quanto as de Ana
Jdlia e Yeda Crusius pode vir a ser-
Ihes fatal cor o desgaste natural do
exercicio do poder. A situaqdo 6 ainda
mais complicada para a goveradora
paraense: alguns indicadores sugerem
que sua tend6ncia a partir de agora
sera declinante, cor mais problems
do que soluq6es. Nao s6 por influen-
cias exteras, mas por efeitos interns
de ma administraqCo.
O desempenho da maquina pdbli-
ca no ano passado foi flagrantemente
desequilibrado: enquanto aumentaram
as despesas de custeio (sobretudo
cor pessoal), os investimentos de ca-
pital encolheram. No quinqiienio 2004/
2007, apenas 57% dos 40 programs
previstos no PPA (Plano plurianual) fo-
ram executados. Para um orqamento
global de oito bilh6es de reais em
2007, a capacidade de investor do Es-
tado mal chegou a 10%. Menos da
metade dos R$ 700 milh6es, entretan-
to, foram de fato aplicados em obras.
A arrecadagqo pr6pria mudou de
rumo: depois de crescer seguidamen-
te, estancou e comeqa a diminuir. No
ano passado, a queda foi de 6.46%.
Eximios nas criticas, os petistas podem
ter comecado a se defrontar com difi-
culdades inesperadas para comandar
a maquina official.
Essa complicaqao pode ter levado
o governor a dar um golpe de Joao-
sem-braco nos demais poderes, espe-
cialmente ojudiciirio, para reduzir o
volume das transferencias constitucio-
nais, manipulando a base de calculo
para neutralizar e reverter o efeito da


modificaqgo na aliquota destinada aos
outros poderes. O sinal de alerta soou:
6 precise fazer caixa se o PT quer fa-
zer obras para conquistar simpatias e
poder aspirar a continuidade no gover-
no. Depois de passar boa parte de
2007 atribuindo a "heranca maldita" a
parte maior das responsabilidades pela
sua inocuidade, o governor do PT pre-
cisa agora encarar as pr6prias limita-
96es e os enormes desafios que tern
diante de si.


0 desempenho
do Para no campo
das commodities.


uma colaboradora para todas as ocasi-
6es (e vice-versa).
Essa lei 6 uma espinha grande e afi-
ada na garganta do Pard. Mesmo os
beneficios que a reform tributiria po-
dera trazer ao Estado, ao fazer incidir
o imposto no consume e nao na pro-
duqgo das mercadorias, poderao se
transformar em prejuizo se uma das
conseqtiancias for o desestimulo a ins-
talaqio das inddstrias nos Estados con-
sumidores cor aliquotas mais altas de
imposto. O Pard, graqas aos tucanos,
tem o ICMS mais caro do pafs. A fome
de mais arrecadaqao, para dar conta


que tambem significa
a perda de capital i.. /
natural sem -
reposigao, nao
se traduz na ,
melhoria da capacidade
de investimento compulsive. As
do governor (e muito menos nas e encargos soci
condiq6es de vida da maioria da po- 25% entire 2007
pulaqao). Independentemente da qua- reais (desconta
lidade da gestdo estadual, em geral despesas de capi
ruim ou sofrivel, esse descompasso se de em igual peri
explica pelos mecanismos de vazamen- Talvez o gove
to de renda que atuam no Estado. Den- vitima de sua prC
tre eles, a desoneraqdo da exportaqao pacidade de ir al
de mat6rias primas e semi-elaborados. da, tamb6m uma
So justamente esses os produtos de dos tucanos. Ao
exportaq.o do Para, que nto pagam mudanqa, ela in
ICMS, graqas a chamada "lei Kandir" certo na hora cert
(proposta pelo entdo deputado Ant6- eleger. O povoji
nio Kandir, dentre outros motives por discurso vazio d
nao prejudicar Sao Paulo). Se nao um desenvolvim
houvesse essa isencao, a capacidade zia na vida didria
de investimento do Estado imediata- 6rica propaganda
mente duplicaria. Mas como o q
Os tucanos paraenses nao mugiram nas uma bandeir
e nem tossiram porque Kandir era do trabalhar sua con
PSDB, o mesmo partido do entio pre- causa e nao apai
sidente da repdblica, Fernando Henri- petir promessas
que Cardoso (que tamb6m arrancou a bolas de sabdo e
f6rceps a privatizacqo da Companhia qgo popular num
Vale do Rio Doce, sem um gemido con- se materialize. N
tririo do cirurgido Almir Gabriel, ape- cana, 6 process
sar dos danos ao Estado). Os petistas vras e nao atos.
imitam-lhes o exemplo porque nio que- Um ano e me
rem criar mais marolas para o presiden- popular come a
te Luiz Indcio da Silva, que tern na Vale como a sobrevid


de uma maquina
cada vez mais in-
chada, por fisiolo-
gismo e compa-
drio, 6 saciada da
forma mais rudi-
mentar: cor mais
imposto. A vora-
gem tributAria 6
lespesas com pessoal
ais aumentou quase
Se 2006, em terms
da a inflacio). JA as
tal cairam pela meta-
odo.
;mo Ana Jilia se tone
pria ret6rica, da inca-
6m de sua propagan-
Sdas causes da queda
assumir a bandeira da
corporou o discurso
a. Assim conseguiu se
ndo agientava mais o
o PSDB em tomo de
ento que nao se tradu-
.Existia apenas na fe-
a.
ue o PT tinha era ape-
a, ao chegar a hora de
ipetancia foi posta em
eceu. Continue a re-
de palanque e a criar
m torno da participa-
planejamento que nio
a melhor tradicio tu-
e nio produto, pala-

io depois a paciencia
a se esgotar. Assim
a do governor petista.


JULHO DE 2008 I QUINZENA Journal Pessoal








A tries meses da eleigao,

Belem nao tem opgao


A quase tres meses da sua realizaqao,
a eleicao para prefeito de Beldm esti in-
definida e imprevisivel. Esta 6 a principal
conclus~io a tirar da primeira pr6via reali-
zada na capital paraense, de responsabi-
lidade do Vox Populi, sob encomenda do
Didrio do Pard. Divulgada pelo journal
no dia 15, a pesquisa 6 pobre de dados
para autorizar interpretaqSes mais pro-
fundas. Primeiro, por nao ter sido publi-
cada na integra. Em segundo lugar, por
uma lacuna grave: nao fez qualquer si-
mulaqao para o 2 turno, embora um de
seus resultados importantes seja o de
que nao haveri decisao no 1 turno, pela
dispersao dos eleitores entire os various
candidates possiveis, e pela enorme
margem de indecisos e recalcitrantes.
Em terceiro lugar, por nao ter incluido
outros candidates potenciais, como o ve-
reador Zeca Pirao e o deputado estadu-
al Amaldo Jordy, nem ter simulado mais
alternatives jd para o 1 turn.
Provavelmente o institute mineiro de
pesquisa recebeu um prato feito para apli-
car na pesquisa, preparado pelo dono do
journal, o deputado federal Jader Barba-
Iho, independentemente de qualquer rigor
metodol6gico (que inexistiu). Uma de
suas encomendas teve um destinatirio
certo: seu primo, Jos6 Priante, que pre-
tende ser candidate pelo PMDB mesmo
sem a aprovaqdo de Jader. Priante nem
foi lembrado pelo eleitor na consult es-
pontanea. Na sondagem estimulada, apa-
rece em 4 lugar, corn 8%, praticamente
metade dos 15% de Val6ria Pires Fran-
co, do DEM, que ficou em terceiro lugar.
E a confirmaqao num6rica da posiqao
que Jader sustenta: o PMDB poderia at6
apresentar candidate pr6prio no 1 turno,
ao contririo do que pretend o ex-gover-
nador, mas na perspective de apoiar um
nome mais forte, que levara a decisao para
o 2 tumo e poderia suplantar o outro can-
didato cor maiores possibilidades de fa-
zer tambdm a travessia, o prefeito Ducio-
mar Costa. Aparentemente, a fungqo de
pendulo na balanqa seria a do ex-prefeito
Edmilson Rodrigues, agora no PSOL.
Na intenqao espontinea de voto, ele re-
cebeu 9% contra 12% de Duciomar (Va-
d1ria ficou bem atras, com 3%). Na res-
posta estimulada, passou a frente, com
29%, contra 22% do prefeito. Se os dois
fossem para o 2 turno, o fiel da balanqa
passaria a ser o PMDB porque os tuca-
nos se reuniriam em torno de Duciomar,
por carancia de v6o pr6prio, e os petis-
tas, continuando 6rfaos de um nome com-


petitivo, adotariam a diregqo que Ihes 6
mais natural na derrota: a dispersoo.
Tudo definido? Muito pelo contrario.
A forga de Edmilson media na pesqui-
sa nao parece estar no que ele fez, mas
no que seu successor deixou de fazer de
bom e fez de ruim, sobretudo contra os
mais pobres. Projetado a partir de um
present desagradavel, o passado ten-
de a parecer mais r6seo. Mas se a me-
m6ria for aproximada do que foi de fato
a administraqdo de Edmilson Rodrigues,
no calor da dial6tica da campanha, pode
ser que o eleitor reavive a rejeiqo aos
petistas e deixe de separar Edmilson,
agora sob o glamour do oposicionista
PSOL, do que ele foi entao. E prova-
velmente por isso que o ex-prefeito tern
a segunda maior rejeiqao (17%), s6 su-
perado pelo atual alcaide, cor 28%,
bem mais do que a soma do legado bar-
balhista, de 14% (os 9% de Elcione
acrescidos dos 5% de Priante).
Ou seja: o povo nao quer optar pelo
menos pior, que 6 a alternative que Ihe 6
oferecida, inclusive na pesquisa induzi-
da. O problema estaria em nIo encon-
trar nenhum nome novo, nem proposta
nova. Alias, a rigor, o perfodo de pr6-
campanha se caracterizou por haver pas-
sado em brancas nuvens: sem proposta
alguma. Os candidates, quase-candida-
tos e ex-candidatos gastaram suas ener-
gias e consumiram seu tempo em arti-
culaq6es de bastidores. O povo, por en-
quanto, 6 detalhe, o que pode levar to-
dos eles a cometer um grande erro.
Desta vez, por6m, nao Edmilson Ro-
drigues. Logo em seguida a divulgaqao


Quem acessar o site da Companhia
Vale do Rio Doce podera consultar o ba-
lanqo annual da empresa s6 at6 2004. Des-
se ano em diante estao disponiveis ape-
nas os balanqos trimestrais. Foi em 2004
que pela l6tima vez as demonstrates fi-
nanceiras sairam em edicao impressa, na
forma de livro. A partir daf a versio com-
pleta das contas ficou restrita ao Diario
Official da Unido e a raros jornais nacio-
nais. Ao inv6s do balanqo, o produto no
qual a empresa mais invested 6 o Relat6-
rio de Sustentabilidade. A versao deste
ano sera lanqada em agosto.
Outras empresas adotam esse proce-
dimento, mas 6 de estranhar que a mai-
or corporaqao privada do pais e do con-


da pesquisa ele foi chamado para uma
entrevista pelo Didrio do Pard. Disse
que, definitivamente, nao sera candida-
to na pr6xima eleiqo. Usou como justi-
ficativa o doutorado que esti fazendo em
Sao Paulo. A alegaqao tem seu peso, mas
nio 6 o principal. O PSOL nao tem cai-
xa para bancar a campanha. Nao pode
compensar ou aproveitar ao maximo seu
curto tempo no program eleitoral obri-
gat6rio na televisao, inferior a um minu-
to. Edmilson tem uma divida de 760 mil
reais na justiqa eleitoral, remanescente
da eleiqao anterior. Se nao quiti-la at6 o
dia 30, estari legalmente impedido de
concorrer. Sem uma estrutura minima,
mesmo que saia na frente, 6 pouco pro-
vivel que tenha f6lego para chegar em
primeiro lugar no fim. E uma derrota
poderia encerrar sua carreira. A renun-
cia espontanea, feita sob razdes nobres,
pode preservA-lo para 2010, cor poten-
cial para lugares alternatives, inclusive
o governor do Estado.
Confirmada a said de Edmilson da
raia, em seu lugar entrando a vereadora
Marinor Brito, a pesquisa servira de
arma para Jader Barbalho se apresen-
tar na pista novamente como o fiel da
balanca, podendo decidir a dispute para
o lado pelo qual optar. Na verdade, para
o periclitante lado do prefeito Duciomar
Costa, o dnico que cabe no figuring do
deputado federal peemedebista e em
condiqces de bancar a alianqa (a nao ser
que o PT, surpreendendo a todos, passe
para o 2 turno). Novamente o ex-depu-
tado Jos6 Priante sera o chamariz para
um acordo, cor uma diferenqa: tera
menor peso do que na eleicao de Ana
Julia Carepa para o governor, em 2006.
Por incrivel que pareqa, o rejeitado
Jader Barbalho continue a ser o princi-
pal personagem nas eleiqdes no Para.
O que di uma media da political para-
ense atual.


tinente, e a segunda maior mineradora
do mundo, interrompa uma boa tradiqio.
Os interessados na Vale aguardavam
cor certa ansiedade a publicaqao do seu
balanco em papel para analisa-lo deti-
damente, tendo uma visao complete das
miltiplas atividades da empresa. Agora
essa visao 6 fracionada e de acesso mais
dificil. Nao deixa de contrastar cor os
gastos cada vez maiores da empresa em
propaganda e publicidade. A Vale nao
parece mais interessada em fornecer
informaq6es: pretend conduzi-las em
domicilio, prontas para digestao. Talvez
assim reduza a margem de critical. Nio
surpreende: a empresa acostumou-se a
ouvir apenas elogios.


Jornal Pessoal I QUINZENA JULHO DE 2008 3


Vale: contas fragmentadas








A musica distant

de Socorro e Celia


Com muita honra, estejornal foi com-
panheiro de viagem de duas jornalistas
paraenses que "venceram no Sul" e bern
podiam cerrar fileiras no Ex6rcito do
Para, concebido por Jayme Ovalle (que,
finalmente, virou biografia em livro lan-
qado neste mrs). Socorro Veloso e C6-
lia Amorim passaram do mestrado ao
doutorado em tr8s dos mais importantes
cursos de comunicaqSo social do pais
(Unicamp. USP e PUC), apresentando
dissertaq6es e teses sobre o Jornal Pes-
soal. Em todos os casos, com nota 10,
louvor e recomendaqao para publicacgo
dos seus trabalhos.
Claro que nao haveria esse sucesso
se Socorro e Cl6ia nao tivessem resisti-
do as dura provaqbes a que foram sub-
metidas na transiqao das redaq6es para
o ambiente acad6mico. Provaram pos-
suir embasamento te6rico suficiente para
conquistar os titulos de doutoras peran-
te bancas examinadoras de alto nivel,
exigentes e rigorosas. E uma gl6ria para
o jornalismo paraense ter sido a base de
lanqamento de carreiras como as que as
duas agora consolidaram.
Quando comecei na profissao, poucos
jornalistas se dispunham a concluir o
curso superior, iludidos pela auto-sufici-
6ncia presumida do oficio. Corn a rotina
de trabalho, que desgasta o viqo do sa-
ber, acabavam se reduzindo a escribas
sem valor documental, sem acumular
informacqes para a percepqdo maior dos
acontecimentos, naquela abordagem
compreensiva que denominamos de his-
t6ria. Deixavam de aproveitar o que de
melhor tem a oferecer uma universida-
de: m6todos para pensar e de pesquisar.
C6lia e Socorro conquistaram essas fer-
ramentas corn muita aplicaqgo, discipli-
na e competEncia.
Pude acompanhar de long suas evo-
lug6es na maestria academica. Terem
mantido este journal como objeto de es-
tudo foi uma decisao delas que me en-
vaideceu. Afinal, o JP esta muito long
do figuring exigido nesses ambientes.
Graqas a elas, uma Gata Borralheira foi
apresentada as bancas examinadoras
sob a roupagem de Cinderela. Nao te-
nho a falsa humildade de ignorar o con-
te6do por tras de uma apar8ncia tao
modest quanto a deste journal. Mas sei
que nao sao numerosos nem constituent
a regra aqueles que se disp6em a apre-


ciar a qualidade intrinseca deste jornal-
zinho. E precise ter a coragem de ver
em profundidade.
A 6inica pretensao que tem o Jornal
Pessoal 6 de ser submetido aos testes
de consistencia mais exigentes. Nao pre-
tendendo nunca ser uma leitura facil, o
que quer 6 que a leitura dificil seja ques-
tionadora. Se nao tem substancia, o jor-
nal perdera qualquer valor, pois despre-
za as formalidades e a superficialidade
da apresentagao. Cl6ia e Socorro tive-
ram a bravura de levar o JP a um pdbli-
co seleto, armado dos instruments para
aferir a qualidade da publicaqao e de-
vasta-la, se ela nao tivesse solidez.
C6lia Amorim, a iltima a conquistar
neste semestre o titulo de doutora corn
tese sobre este journal, mandou um su-
mario para mim, emocionante da
sessao, realizada no dia 9, na PUC de
Sgo Paulo. Um dos integrantes da ban-
ca, o professor da USP, Laurindo Leal,
que tamb6m foi orientador de Socorro
Veloso, "reafirmou que a experiencia do
Jornal Pessoal 6 6nica no Brasil e que
por isso merece, sim, ser investigado".
Ja o professor Jorge Albuquerque inda-
gou sobre "quem iria substituir o jorna-
lista nesta experiencia ag6nica, caso
voce nao mais estivesse aqui", me es-
creveu Celia.

Por ser pessoal,
este journal s6 existira
enquanto seu umico
integrante existir
ou puder (e quiser)
escreve-lo. Nao
havera sucessao
na "casa". 0 JP caminha para 21
anos, mas sua vida e precaria como
uma luz de vela. Paradoxalmente, po-
r6m, projeta sua luz sobre audit6rios
longinquos muito mais do que sobre
seus vizinhos. Sobre ele se volta um
ambiente sufocante, emanaq6es nega-
tivas de areas contiguas, que por ele
se sentem incomodadas.
No ultimo dia 16 houve um epis6dio
dessa conspiragao silenciosa. Uma ami-
ga que estava no audit6rio da Federa-
gao das Indistrias fez uma pergunta para
o palestrante da noite de lanqamento do
pr6mio Danilo Remor. Vilma Reis que-
ria saber se o jornalista Alexandre Man-


sur, da revista Epoca, conhecia este jor-
nal. Embora a sua tivesse sido a tercei-
ra pergunta encaminhada a mesa, foi a
inica das 15 indagaq6es feitas por es-
crito a nao ser lida para o destinatirio.
Vilma o procurou depois e recuperou sua
pergunta no meio dos pap6is deixados
sobre a mesa da reuniao para faz6-la di-
retamente a Mansur. Foi esquecimento
ou censura? A responsivel pela triagem
trabalha no grupo Liberal.
Haveria ai uma causa explicit para a
exclusao da pergunta, por se referir a
personagem interditada pela corporal5o,
embora a coordenadora do encontro nao
estivesse ali na condigio de represen-
tante do seu veiculo? Mas e em ou-
tras situag6es menos ostensivas? Des-
de que Manuel Dutra provocou o assun-
to, varias pessoas ji se manifestaram
sobre essa mi-vontade para com o JP.
Dos seus adversarios e inimigos nao se
hi de esperar que mandem flores, como
ja advertiu a famosa pega teatral de
Pedro Bloch. Mas e de intelectuais que
se dizem representantes do povo e arau-
tos da hist6ria?
Tenho observado que varios deles ex-
cluiram o JP da sua agenda de leituras.
O expurgo parece ser simultaneo a ou-
tra iniciativa: esses intelectuais, que ou-
trora faziam declaraq6es piblicas e re-
agiam aos temas provocantes da con-
juntura, estao optando pelo sil6ncio ob-
sequioso. Decidiram dar prioridade as
suas carreiras, academicas, burocrati-
cas ou mesmo empresariais, conquis-
tar a fama e deitar na cama. Nio que-
rem mais conflitos nem aceitam mais
ter suas consci6ncias perturbadas pe-
los questionamentos destejornal, sem-
pre a encrespar o pensamento acomo-
dado e a postura sincr6nica. Deram um
basta as causes p6blicas. Todo poder
ao minimo-eu.
Nesta circunstancia, o eco de reco-
nhecimento que soa a partir dos esfor-
cos empreendidos por Socorro Veloso e
C6lia Amorim chega aos meus ouvidos
como os acordes de uma sonata, que s6
concede a harmonia da inteligencia.
Como bradou Unamuno diante dos fran-
quistas: abaixo a morte, viva a intelig6n-
cia. De Cl6ia e de Socorro, dentre as
que se mant6m vivas e produtivas. Ex-
postas como bandeiras do saber ao ven-
to que sopra nas ruas.


4 JULHO DE 2008 i QUINZENA Jornal Pessoal








0 caboco que deu vida

a um mundo em extingao


Em 1971 minha temporada paulista foi
interrompida por alguns meses em Be-
16m. Logo que aqui cheguei, Benedicto
Monteiro me entregou os originals de um
livro que pretendia publicar. Com sur-
presa, vi que o ex-politico, entio no exer-
ccicio da profissdo de advogado, escre-
vera um romance. Mas nao um roman-
ce qualquer: era uma grande obra de fic-
qio. Voltei a Bend e Ihe mostrei os ori-
ginais, com muitas anotaq6es minhas,
manifestando-lhe meu entusiasmo. De-
via publicar logo: Verde Vagomundo cer-
tamente iria causar impact national.
Ele me confessou que ji havia mandado
os originals para tres ou quatro pessoas,
autoridades locais em literature, mas nao
recebera qualquer resposta.
Para estimuld-lo ainda mais, escrevi
uma sdrie de tres artigos em A Provin-
cia do Pard, dando minha opiniio: a
Amaz6nia voltava a ser tema literdrio de
primeira linha. Num moment em que o
mundo da natureza, no qual o home
native era ainda um detalhe, comeqava
a ser destruido pelo colonizador, Bene-
dicto Monteiro, com fina sensibilidade e
conhecimento intimo das coisas que di-
zia, nos reconciliava com a "nossa"
Amaz6nia, sem dissocid-la da nova aven-
tura em que era metida, por conta dos
caminhos abertos no seu interior para
migrants de todo pais (e captados pe-
las ondas hertzianas do radio).
Tdo logo Verde Vagomundo saiu, lan-
qado no Rio de Janeiro por uma peque-
na editor de um amigo de Bend, L6cio
Abreu, mandei um exemplar para Ldo
Gilson Ribeiro, em Sio Paulo. Critico de
respeito, Ldo tamb6m se encantou corn
o romance. Escreveu uma pigina de elo-
gios no Jornal da Tarde, o vespertino
de O Estado de S. Paulo, abrindo as
portas do pafs a excelente novidade vin-
da do distant e mal-conhecido Norte.
Empolgado, Benedicto partiu para o se-
gundo e igualmente bem-sucedido livro:
0 Minossauro. Abri para ele a capa do
Bandeira 3, o semandrio que editava em
1975, e espaqo para uma longa entre-
vista e um artigo sobre o novo livro.
Parecia que terfamos um novo Dalci-
dio Jurandir, desviado do Maraj6 para o
Baixo-Amazonas, centrado na siciliana
Alenquer. Mas os redutos sulistas nao
se renderiam como as muralhas de Je-
rusal6m As cornetas de Josud. Nem os


d.

Estafoto ter meio sdculo: o candidate a deputado estadual Benedicto
Monteiro discursa no comicio, realizado em agosto de 1958, pela candida-
tura de Elias Pinto a prefeitura de Santarem. 0 vice-presidente da replbli-
ca, Jodo Goulart, do mesmo partido, o PTB, dd o seu apoio a campanha.


elogios e nem a acurada andlise de um
paraense cosmopolita, como Benedito
Nunes, deram a Bend o reconhecimen-
to que ele merecia s6 pelos dois livros,
melhores do que obras incensadas pela
critica auto-suficiente do eixo dominan-
te da cultural (e de tudo mais) do Brasil.
Nao era de admirar: o que acontecia
ao escritor se repetia em tudo na rela-
q~o entire a periferia e o centro do pafs.
Mas Bend era um caboco valente e de-
cidido: foi lanqando um livro depois do
outro. No meu entendimento, como os
dois primeiros romances continuaram a
ser o modelo, tiveram com os demais a
relaqio de uma base concentrada com
sua diluigqo. Houve perda de qualidade
na super-exploragqo dos motives origi-
nais, que constituiam a grande forqa de
Verde Vagomundo e Minossauro.
Ben6 n~o gostou das critics, que se
estenderam ao campo da sua atuaqdo
piblica, como procurador-geral do Es-
tado e politico, de volta a atividade de-
pois da quarentena compuls6ria pela
cassaiao. Como havia um afeto m6tuo,
desenvolvido durante a fase de relacio-
namento mais constant que tivemos,
foi preferivel evitar os atritos, cada um
levando a pr6pria vida e nela procuran-
do fazer o melhor, para si e os demais.


Continue a acompanhar a atividade de
Benedicto Monteiro a certa distancia,
mas com grande interesse e inabali-
vel admiraqco.
Se nao fosse advogado, politico e es-
critor, Bend ji justificaria o carinho ge-
ral que conquistou como pessoa. Era um
tipico caboco (nio caboclo) do Baixo-
Amazonas, eficiente cultivador de suas
raizes, companheiro alegre e generoso,
prosador em6rito. Suas qualidades pes-
soais foram realqadas e multiplicadas
pela companhia de sua mulher, Wanda,
que morreu quatro antes do passamento
do marido. Benedicto Wilfredo Montei-
ro se foi no dia 16, depois de incrivel re-
sistencia, aos 84 anos. Enfrentou como
um bravo as sucessivas doenqas que in-
terromperam nos filtimos anos seu cur-
riculo de home saudivel. S6 cedeu
quando, entire does, comeqou a sentir o
chamado da mulher que amou. Virou-se
para quem estava pr6ximo e pediu que
o deixassem ir. E assim, como um aman-
te de tudo que a vida ofereceu, foi atris
de Wanda. Entre n6s, muito vivo, deixou
Miguel dos Santos Prazeres, o maior dos
filhos que concebeu em seus escritos. e
a familiar, que em torno dele viveu e ar-
mada de sua mem6ria, abrira novos tem-
pos na sua hist6ria.


Journal Pessoal Io QUINZENA JULHO DE 2008








0 caso de Portel:


decisao protelada


O juiz substitute da 5" vara federal do
Para, Ant6nio Carlos Almeida Campelo,
decidiu suspender por quatro meses a
instruqao da aqgo civil pdblica que tenta
anular a titulaqao feita pelo Iterpa numa
area de 127 mil hectares, que o institute
alienou a particulares em Portel, 30 anos
atras, e cobra indenizaqao em nome dos
moradores tradicionais da regiao. A aqo,
patrocinada pelo advogado Ismael Mo-
raes em nome da prefeitura de Portel,
de uma associaqao e do sindicato dos
trabalhadores rurais, foi avaliada pelo seu
autor em 200 milh6es de reais.
A suspensao por 120 dias foi decidida
pelo juiz "em face da noticia de realiza-
gdo de diagn6stico da situacqo fltica a
ser efetuada pelo Municipio de Portel
com as empresas ABC e Cikel", bene-
ficiadas pela venda das terras. O juiz de-
cidiu abrir o prazo "a fim de possibilitar
a juntada de relat6rio desses trabalhos
aos autos". Esgotado esse tempo, "com
ou semjuntada de diagn6sticos", decidi-
ra sobre os autos.
A decisao de Ant6nio Campelo cau-
sou surpresa. Nao 6 comum que umjuiz
decide baseado em noticias, que sequer
constam dos autos do process. O res-
ponsavel pela 5' vara federal nem espe-
cificou de que noticia se trata e quem a
divulgou. Nada lhe foi dito pelas parties
na audiEncia marcada para o dia 29 de
abril, a primeira da instruqao processu-
al, mas que nao se realizou porque fal-
tou energia no pr6dio da justiqa federal
na ocasiao, Mesmo assim, o juiz man-
dou tomar por termo a "reuniao infor-
mal" que decidiu assim mesmo realizar,
mas sem a assinatura das parties que a
ela compareceram, s6 a do pr6prio ma-
gistrado. Representantes de Portel, da
Cikel e da ABC Agro-
pecuiria Brasil Nor- .
te e do IerpJ esti- '


tro. nma s
ncnhum.
.. --
S.-


referencia fizeram ao tal diagn6stico.
No seu despacho, o juiz Campelo ad-
mite que o hipot6tico "diagn6stico da si-
tuacdo fatica" ainda esta por ser efetu-
ado. Quem garante que sera iniciado e
concluido em quatro meses, se 6 que al-
gumas das parties o tem em seus pia-
nos? A 6nica citaqao a respeito de um
possivel levantamento das ocupaq6es na
area apareceu em reportagem escrita
pelojornalista Carlos Mendes e publica-
da em O Liberal, atribuindo ao Iterpa o
interesse por tal iniciativa. Mas nada de
concrete houve. E a mat6ria tamb6m nao
foi juntada aos autos.
O juiz Campelo decidiu pela suspen-
sdo do process antes mesmo de tomar
conhecimento das contestaqbes apre-
sentadas pelo Iterpa e o Minist6rio Pi-
blico Federal, assim como da ABC Agro-
pecuaria, juntada na "reuniio informal"
de 29 de abril. Os oponentes da aqao
civil pliblica argumentam que ela 6 inep-
ta, porque seus objetivos nao sao com-
pativeis com esse tipo de procedimento,
e que ji esta prescrita, tres d6cadas de-
pois de feita a venda das terras e efetu-
ado o seu registro imobiliArio, e que a
antecipaqao de tutela 6 totalmente des-
cabida, por ser tao ampla, praticamente
equivalendo a um pr6 julgamento. Teria
que ser requerida em procedimento or-
dinario pr6prio.
Se examinasse o conteido das contes-
taq6es antes de determinar a suspensao
da instruqao, talvez ojuiz pudesse deixar
a apresentaqao de novas provas (e ainda
mais sendo provas a serem produzidas)
para a fase devida da instruqao: o exame
de mdrito. Ou, quem sabe, chegar logo a
uma conclusao quanto a natureza da em-
preitada que ha por tras da defesa de ale-
gados direitos coletivos di-
..,.- fusos da populaqCo tradi-
cional de Portel. Em lon-
c.i s niterias publicadas
S em edic6es anteriores,
'. ._ este journal ja disse
lual 6 a sua con-
S- c' clusao: uma ma-
I. nipulaqdo dos
direitos e ex-
pectativas
desses cida-
duos. Em pro-
veito dos que a
promovem.


Quase metade dos 7 milh6es de ha-
bitantes do Pard vive na "linha de po-
breza", em families com renda men-
sal inferior a meio salario minimo per
capital, ou pouco acima de 200 reais.
Sdo exatamente 3.491.389 pessoas
nessa condiqao, com renda insufici-
ente para custear necessidades mini-
mas, segundo o iltimo mapa da ex-
clusdo social apresentado pelo gover-
no do Estado. De 2004 para 2005, a
legiao dos pobres cresceu 1,29%, in-
corporando mais 44.496 pessoas.
Esse 6 o period mais atualizado da
pesquisa, que acompanhou as de-
monstraq6es financeiras do Estado re-
lativas a 2007.
O PIB per capital do Pard equivale
a menos da metade do indicador na-
cional. Houve uma discreta elevaq~o,
de 2%, nesse indice entire 2004 e
2005, mas nao mudou a situacqo: en-
quanto a participaqio m6dia de cada
brasileiro na riqueza national somou
R$ 10,7 mil reais, ao paraense coube
a cota de R$ 5,3 mil. A concentraqio
da renda no Estado 6 das maiores do
pais, chegando a 0,76 na escala GINI,
que vai de 0 (a igualdade ideal) a I (a
desigualdade maxima).
Al6m de nao dispor de renda para
sair da linha de pobreza, o paraense
enfrenta condioqes de vida mais ad-
versas do que o cidaddo m6dio por-
que evolui mais lentamente. De 2005
para 2006 a proporgao dos que tem
acesso a rede geral de agua passou
de 47,31% para 48,30. A m6dia bra-
sileira, por6m, 6 de 83,21%. Se o sa-
neamento basico 6 ruim, a moradia e
pior porque involui: no mesmo perfo-
do o deficit habitacional subiu de
49,15% para 50,52%. Seguiu tend6n-
cia inversa do comportamento do in-
dice national.
O Pard continue a ser isso.


6 JULHO DE 2008 I* QUINZENA Jornal Pessoal







O "senado" tem, final,

o seu livro de mem6ria


Fernando Torres, com seu blazer ele-
gante, autografava exemplares de O
Senadinho, no restaurant de Paulo
Martins, outro dos "senadores", na Es-
taqao das Docas, onde a publicaqao foi
lanqada, na quinzena passada. Fernan-
do nao escreveu uma s6 das linhas que
se estendem pelas quase 100 paginas do
optsculo. No entanto, 6 quem mais apa-
rece no album fotografico. Muita gente
achou estranho e at6 fez muxoxo ou bi-
quinho dengoso. Por linhas tortas, por6m,
a bagunqada instituigqo escreveu certo:
nada mais a represent do que a ima-
gem do Fernando.
Num moment ele se apresenta s6rio,
prestativo e atento, como ter que ser
um relaq6es-p6blicas, sua profissao e f6
de oficio. Em outro moment, 6 como
um lapidador feroz e mortal de frases e
definiqao de arrasar quarteirao, elipticas
e precisas. Com um lado da
mao acaricia. Cor o outro
lado, esbofeteia. Metaforica-
mente falando, 6 claro. Mas
cor efeitos quase reais.
Assim 6 a confraria que,
todas as sextas-feiras (mas
sem fanatismo), se re6ne em
algum restaurant da cidade
para celebrar a vida As ve-
zes dificil e chata, mas uinica,
sem direito a corretivo ou re-
missao. Durante uma fase
dos seus 25 anos de existen-
cia, os "senadores" gravita-
ram em torno do jornalista
Roberto Jares Martins, o
Bob. Desde sua morte, o pos-
to foi ocupado pelo cartori-
rio Reginaldo Cunha, o Peli-
cano, devidamente present
ao lanqamento e, quando obri-
gado a autografar um exem-
plar, permitindo-se resumir a
dedicat6ria com um RC.
Talvez na esperanga de
que, no future, os arque6lo-
gos interpreted as duas le-
tras como sendo as iniciais do
rei Roberto Carlos. No fun-
do, Reginaldo nem esperava
ganhar dinheiro, mesmo por-
que o vil metal Ihe chega,
generoso, sem exigir que ele
o v. buscar: o que sempre


desejou foi ser musico como o pai, o
competent e fugaz "Maqaneta", tam-
b6m Reginaldo, que se foi de s6bito quan-
do o filho ainda estava com as calas
curtas dos sete anos.

Na mesa do
anarquico "Senado"
sentam-se realizagoes
e frustrag6es,
consumag6es e projetos,
grandiloqii6ncias e
humildades, branduras
e agressividades. Nunca, po-
r6m, os arranca-rabos (figurativamente
falando, 6 claro) resultaram naquilo que
a cr6nica policial, destiny de tais even-
tos, classifica como desforqo fisico. Ja-
mais os contendores, mesmo quando no












WtWkd/4.o


auge dos toreios verbais (cada vez mais
verbais entire convivas cheios de acha-
ques pela chegada ou ultrapassagem
- dos 60 anos), precisaram ser aparta-
dos. Inclusive porque ha, no ceniculo,
mais Neros do que bombeiros (os que
batem ponto, contudo, incendiariam va-
rias Romas de uma vez).
A unica agressao fisica veio de fora
(e, felizmente, por uma unica vez, con-
tra este escriba), perpetrada por quem,
cor essas refregas olimpicas, nio ter
a menor intimidade, algu6m incapaz de
conviver na diverg6ncia, que beira a in-
sanidade no "senadinho". A loucura, fe-
lizmente, dura por alguns moments: se-
ria impossivel suportar a violaqao do li-
mite de decib6is, ainda mais quando o
feito chega a marcas recordistas pelas
cordas vocais de um Mauricio Coelho
de Souza ou do pr6prio Fernando Tor-
res, que joga em todas as
posiq6es e ainda desempe-
Snha a funqao de juiz e trei-
Snador (e cartola).
O "Senadinho de O Ou-
Stro" (que nao existe mais,
Snem por isso desencarnan-
do do titulo e da mem6ria
da nefanda institui~lo) 6
um microcosmo da cidade.
Cont6m parte representati-
va das qualidades e defei-
tos de Bel6m, sobretudo a
alegria de viver e o princi-
pio do prazer, que sao ou
S foram, atd recentemente -
Sas caracteristicas maiores
da muy hermosa Santa
Maria de Bel6m do Grao-
s Pard. Um hedonismo que se
lixa para a coer6ncia. Tanto
prova que o autor do titulo
do apolineo "Senado" nun-
ca dele participou, exceto
como convidado especial: o
colunista social Edwaldo
Martins. Daf porque ne-
nhum "senador" pode pre-
tender qualquer prerrogati-
va da fungio. Sabe que. se
for ao ar, perdera o lugar.
Lugar cativo. so no ceu,
onde (quanto mais tarde.
melhor) os "senadores" pre-
tendem chegar. Afinal. o ceu
6 o limited.


Jornal Pessoal i QUINZENA .* ULHO DE 2008









S1\m RIA DO CaTI A 10


0 mundo de Edwaldo Martins, o colunista


Hi cinco anos morreu Edwaldo de Souza Martins, o mais
important colunista social da imprensa paraense. Por acaso,
verifico que hi 40 anos me tornei o primeiro dos seus interi-
nos: enquanto Edwaldo saia de f6rias, para 25 dias no Rio de
Janeiro (onde tamb6m carregaria algumas pedras, cobrindo a
final do concurso de Miss Brasil, ainda de grande prestigio na
6poca), no dia 3 de julho de 1968 safa, em A Provincia do
Pard, a primeira coluna inteiramente escrita por mim. Nenhu-
ma refernncia ao interino, que, nessa 6poca, ainda estava a
caminho dos 19 anos: a coluna continuou a ostentar o nome ja
destacado do seu titular.
Ao retomar ao batente, por6m, Edwaldo foi elegant e cari-
nhoso, como de hibito, Escreveu uma nota de agradecimento,
revelando para o distinto pdblico quem garantira a continuidade
do espaqo: "L6cio Flivio Pinto, bom amigo e companheiro e
excelente professional, foi quem esteve com voces, diariamente,
'em frente' da coluna, durante a ausencia do titular. De sua
atividade neste espaqo lucraram os leitores. E s6 quem conhece
bem a vida de um journal sabe com que sacrificio L6cio Flivio
assumiu a responsabilidade, ele que tem mile um afazeres, como
jornalista, publicitirio e universitdrio. Corn o registro, o agrade-
cimento muito grande do colunista Aquele que tao bem soube
informar, nestes 25 dias, aos leitores de 'EM Frente'".
De fato, nao foi ficil. Exatamente nesse period eu passava
a manhl inteira e parte da tarde na reportagem de A Provin-
cia. Enquanto os turnos se revezavam, eu escrevia a coluna.
Depois corria para a Mercirio de Publicidade, de Abilio Cou-
ceiro, onde fis mete6rica carreira. E emendava para a ocupa-
cqo das faculdades, como parte do movimento national dos
estudantes universitarios contra o acordo MEC-USAID, va-
rando as madrugadas insone. Ah, a imortalidade dajuventude!
Numa das vezes em que produzia a coluna, numa redagao
quase vazia, emerge um colundvel irado. Eu antecipara a no-
ticia do seu noivado, tirando a surpresa que preparava para a
noiva e sua familiar. Nao conhecia pessoalmente o distinto, s6
de ouvir falar. E me limitara a repassar o potin, mandado por
uma das tradicionais fontes do Edwaldo. O home gritava e
gesticulava (mais que a media certa para seu oficio), vi-me
obrigado a uma soluqao cir6rgica: "Esti certo, o senhor tem
razao. A partir de agora vou cortar tudo que me chegar a seu
respeito". O cidadio desconversou, se explicou, retificou e foi
embora, desprovido de sua surpresa, mas com freqiUncia ga-
rantida na mais prestigiosa das colunas sociais.
Ajudei Edwaldo a conceber e executar a primeira delas,
que, antes de Em Frente foi Alegria, Alegria, sucedendo
sua pigina dominical sobre mulheres, tamb6m em A Provin-
cia (Elas sdo noticia). Fiz o desenho, dei o titulo principal
(comeqando com suas iniciais, desenhadas) e nomeei as se-
q6es fixas, como faria em todas as outras. Voltei a ser inte-
rino e, enquanto estive por perto, fui uma de suas fontes cons-
tantes, mesmo quando ele se mudou dos DiBrios Associados,
sua melhor casa, para O Liberal, onde eu ji era desafeto.
Trabalhar com ele sempre foi uma fonte de aprendizado para
mim. Didi Martins era um excelente reporter e tinha um tex-
to de primeira. A16m disso, era muito mais organizado do que
eu e mais atento para os detalhes.


Sua curiosidade era inesgotivel e sua disposiqao para aten-
de-la, invejivel. NIo falava outra lingua al6m da sua, mas po-
liglotas o procuravam atris de dicas e observaq6es sobre pa-
ragens do exterior. Sempre interessado em tudo, Didi conse-
guia arrancar informac6es incriveis, que guardava na sua
mem6ria prodigiosa.
Era um dos melhores guias de Nova York, Miami e Paris, as
cidades que mais visitou e das quais mais gostava. Quando a
doenqa nao lhe permitiu mais viajar, ele definhou. Nos iltimos
10 anos de vida nao foi uma 6nica vez ao exterior. Al6m do
mais, estava pessoalmente falido. Nao por nao ganhar bem,
mas por gastar demais, sobretudo com os outros. Seu coracao
era do tamanho da sua alma: um latif6ndio. Quando nio p6de
dar vazio ao que gostava de fazer, desistiu de viver. Nio se
suicidou, por convicqao e por lhe faltar um tanto de coragem
louca, a mesma que nao teve para certas definiq6es essenci-
ais A sua vida. Mas se entregou As doenqas que se sucederam,
a partir do diabetes. Foi duro estar ao seu lado nos moments
finals. Quem merecia morrer fulminado por um enfarte numa
festa ou em alto-mar, aos 80 ou 90 anos, foi-se em meio a
dores horriveis, que precocemente o devastaram. Cavalheiro
como s6 ele, morreu emjulho, quando o socialite estava fora
de Bel6m. S6 os amigos voltaram a tempo de enterra-lo.
Quantos? Uma migalha da fdrtil semeadura a que ele se
dedicou nos 35 anos continues e intensos de colunismo social.
O genero 6 muito dado A futilidade, que 6 mesmo sua marca
registrada. Mas uma coisa 6 desenvolver estilo, agir cor gra-
qa, impor uma marca de sofisticaqao e um padrio de excelen-
cia. Outra 6 esse passar o chap6u a que se reduziu a part
preponderante do colunismo social em Bel6m. Edwaldo de
Souza Martins escolhia e selecionava cor crit6rio, impondo
exig6ncias aos eleitos, cuidando de que a consagraqio de uma
elite fosse mais do que operaqio de compra e venda. Al6m
disso, era um verdadeiro agitador cultural, algu6m que agluti-
nava pessoas, por mais diferentes e at6 opostas que fossem,
desde que tivessem valor. Pelo exercicio dessas qualidades,
se transformou numa instituigqo de Beldm, numa de suas mais
f6rteis referencias. Porque fazia o que gostava e o que sa-
bia fazer, como nenhum outro, antes e depois dele. Nio sur-
preende que tenha deixado um vacuo enorme, sem possibili-
dade de preenchimento.
Esta ediqao da Memdria homenageari nao s6 o amigo, que
partiu hi cinco anos, no dia 17 dejulho. Ela 6 dedicada, sobretu-
do, ao grande jomalista que ele foi. Selecionei algumas das no-
tas que escrevi para a coluna nos 25 dias de sua ausencia, na-
quele 1968 que chegava ao maximo do seu brilho, exatamente
para depois declinar e eclipsar. Mesmo no Rio de Janeiro, mais
distant do que hoje pelas dificuldades de comunicaqao, Edwal-
do nao deixava de ligar, pedir informaq6es, fazer observaq6es e
avaliar a coluna sob o interino, ainda "cheiro verde", meu apeli-
do de adoqao aojomalismo, dado por Carlos Gomes Lopes. De
vez em quando despachava um malote atrav6s da Varig, que
era uma extensao do seu escaninho na redacao do journal.
As noticias da Bel6m que merecia ir para a "coluna do
Edwaldo", escritas ao estilo do dono, com destaque para "tout"
Bel6m no veraneio na buc6lica Mosqueiro:


8 JULHO DE 2008 I QUINZENA Jornal Pesso;al







* O jornalista (e bacharel) Jos6
Gorayeb, um desses talents
que o Pard tem exportado para
as praqas do Sul (d hoje "copy-
desk" de "O Globo") continue
na terra e, anteontem A noite, foi
alvo de homenagem que lhe fi-
zeram, conjuntamente, os anti-
gos confrades e amigos do de-
saparecido "Jornal do Dia": um
jantar dos mais movimentados
no "Corujao", durante o qual a
inalterivel mod6stia do Z6 foi
bastante agredida pela eloqiiUn-
cia de alguns companheiros
que se fizeram ouvir. Entre os
presents, ClAudio Augusto de
Sa Leal, Guaracy de Brito, Ota-
vio Avertano, Joao Marques,
Eduardo Grandi, Cd1o Bernardo
(que fez um belissimo discurso),
Irapuan Sales, Oziel Carneiro,
Rafael Costa, Ayrton Quares-
ma, Walter Guimaraes, Joao
Alvaro, Walcyr e Walbert Mon-
teiro, Odacyl Catette, o bacha-
rel e vereador Fernando Velas-
co e outros.
Precedendo o jantar houve
coquet6is Ron Montilla e Royal
Label.
* A senhora Norma Barata de
viagem programada ate a Gua-
nabara. Saudades do filho
Paulo Andrg, que estd ld, fazen-
do sucesso.
* Dentro de mais um pouco es-
tard sendo lanqado nos cinemas
da Guanabara, atrav6s de distri-
buicio da Mundial Filmes, o
mais recent filme de Libero Lu-
xardo, "Um Diamante e Cinco
Balas", que traz no elenco Luiz
Linhares, Maria Gladys, Helena
Velasco, Angelito Mello, Fernan-
do Neves e Claudio Barradas.
* Acaba de serfundada em Be-
lin a Associaqdo dos Compo-
sitores, Letristas e Interpretes,
presidida por Dilermando Gue-
des, tendo na vice-presid&ncia
Altino Pinheiro e no setor ar-
tistico Ruy Barata, Jodo de Je-
sus Paes Loureiro e De Cam-
pos Ribeiro. A associaado vai
promover festivals de musica,
proteger os compositores, tra-
tar dos direitos autorais, etc.
* A boate Porao reabiu. E, corn
os irmaos Abud a frente, tem es-
tado uma parada: bom ambien-
te, boa misica, bons "drinks".
Para comemorar a reabertura da
casa, os irmaos Abud deverio
oferecer, durante a semana, co-
quetel A imprensa.
Alias, a loja Carnaby, dos ir-
maos, vai lanqar cor exclusivi-


dade as l6timas novidades em
mat6ria de moda psicod6lica para
a juventude.
* No "Corujao", que tem hoje
a tartarugada como a maiorpe-
dida, encontro em papo anima-
do Romulo Maiorana, dr Jodo
Paulo Mendes, Ltcio Piedade,
Pedro Lazera e Isaac Soares.
* Ja se encontra em Bel6m,
ap6s boa temporada no Rio,
com escala em Sao Paulo, o ca-
sal dr. Amilcar (Ivone) Tupias-
su, que chegou quinta-feira fl-
tima, trazendo na bagagem boa
parte do enxoval do beb8 que
vem ai. O dr. Amilcar foi um dos
(mais aplaudidos) conferencis-
tas do II Simp6sio sobre a Ama-
z6nia, do qual tamb6m partici-
param o Pe. Carlos Coimbra, o
dr. Armando Mendes e o escri-
tor Leandro Tocantins, como
expresses mais vivas de nos-
sa inteligencia.
* Guides de Barros deverd in-
cluir mais quatro violinistas ao
seu conjunto, isto para a festa
de 15 anos de Elna Maria, para
o toque da valsa, mais especi-
almente. Alias, nafesta de Elna
deverd reaparecer no conjunto
o cantor Jose Ribamar, que se
encontra atualmente em firias
na GB. Walt Ramoa, que tem
cantado ultimamente, tambdm
continuard no conjunto depois
da volta de Ribamar.
* Um modern e luxuoso hospi-
tal, da mais alta categoria, sera
inaugurado no pr6ximo dia 21,
na antiga residencia do ex-pre-
feito Moura Carvalho. Trata-se
do Hospital Sao Marcos, de pro-
priedade de um grupo de m6di-
cos paraenses, drs. Dh6lio Gui-
lhon, Garibaldi Viana, S6rgio
Pandolfo, Hamilton Franco,
Scyla Lage Filho, Fortunato Athi-
as, Ant6nio Carlos Fonteles e
Heraldo Neves.
* Nas livrarias, os livros mais
vendidos foram: Senhora na
Boca do Lixo ", de Jorge Andra-
de; "Oposes da Revoluqdo na
Amdrica Latina", de Miguel
Urbano Rodrigues; "Ulisses",
de James Joyce; "6 Mulheres",
de Origenes Lessa; Revista Paz
e Terra n 6; "0 Triunfo", de
John Kenneth Galbraith;
"Mundo do Sexo", de Henry
Miller, e "A Revoluq~o dentro
da Paz ", de D. Holder Camara.
Nas casas de disco, os mais
vendidos da semanaforam: LP
da Bienal do Samba; compac-
to de Dori Edson; A Distdncia,


compact de Os6
Brasas; Goldi n
Hits, LP de J. -
hnny Rivers; Sa
Marina, co,-
pacto de Wilson
Simonal; San
Francisco, coin
Bobby Solo.
LP Viola Enlu- j ..
arada, de -
Marcos Valle;
LP The Fe-
vers, volume
3; Momento j,,~
de Amor, de
Elizete Car-
doso; Volume ,
3, de Sergio i'
Mendes.
* PETITES A
morena Leida
Hesketh frequen-
tando assiduamen-
te o curso de frjnce',
da Alianqa. *' A
Maloca animadissima ,
na sexta, s.bjid,. e
domingo. Frequencij
enorme da JG I.lo ,em
Guarda]. *** Br'or ajnima-
dos de Salinas EIzj Ribeiro. .
Vera Figueirec, Pero.ll Ben-
chimol, Maria Augusia Bin-
tencourt, Silvjan e Sandrj Ca-
repa e Elza SjntoL Aindj
esta semana retornand..' de Bra-
silia o broto Grjaq Sabo: "\ **
Ronald Pastor. ,ntrem.. colhendo
entrevistas entire esportistas so-
bre o jogo de hoje. Para o seu
program "A Grande Vesperal",
que continue liderando a progra-
maqdo do hordrio. *** 0 sr. Ger-
mano Martins adquiriu um lote
de terras no Lago Azul para all
edificar uma modema e ampla vi-
venda. *** Das mais animadas
a tert6lia de ontem A noite no
Clube do Remo. Uma volta aos
velhos tempos dos bailes do
Ledo. *** O sr. Silvio Silva esti
esperando o lanqamento do
Chevrolet-Opala para trocar o
seu Gordini. *** Solange Cou-
to foi a grande revelagqo das
peladas de voleibol no Mosquei-
ro. Chegou a ser comparada a
Edmirce Lage, estrela do Clube
do Remo, que tamb6m brilha la
na Vila. *** Por sinal, quase to-
das as estrelas do voleibol pa-
raense fazem ponto no Mos-
queiro: C61ia, Vera e Sandra Bar-
balho, Edmirce, Edna, Maria
Helena Andrade, sra. Maria Lu-
iza Andrade, sra. Tereza Silva e
muitas outras. O Estado-Mai-


or dos seresteiros do Mosquei-
ro deixou de ser o caramanchao
do Chap6u Virado para se loca-
lizar no Hotel do Farol. *** Ro-
mances muito certinhos na Ilha
[de Mosqueiroj: Fernando Lei-
te e Gutinha, Jovina Souza e He-
ber Monqao, Abnader Logo e
Maga Meira, S6rgio Couto e Vera
Meiura, Chico Assis e Barbara
Rotundo, Cleto da Fonseca e
Rosa Sozinho Souza. *** O
"Matapi", em grande movimen-
to todas as noites, faz do Ari-
ramba o pedago mais movimen-
tado das noites mosqueirenses.
*** A baia do Sol foi descober-
ta como um dos recantos mais
bonitos da buc6lica e vem sen-
do muito freqientada. *** O
c6mulo da esnobaaio aconte-
ceu no Mosqueiro: um senhor,
cor pinta de "lord", desceu com
um pequeno aviao anfibio na
praia do Farol... apenas para to-
mar sorvete Gelar.


Journal Pessoal QU)NZENA JULHO DE 2008


* JULHO DE 2008


,.,,,
* rn
r. ;
~I ~


S.4 -,


Jornal Pessoal i QUINZENA








a.ritas ao Editor

PREFEITO
Quando escrevi o editorial do
iltimo journal do SAAEB (abril/
2008) jamais me passou pela cabe-
qa que um texto sem maiores pre-
tens6es adquirisse tamanha notori-
edade e chamasse a atenq~o de dois
p6los opostos da imprensa local:
O journal O Liberal que o publicou
com destaque na sealo "Cartas na
Mesa" na ediclo do dia 03/04/2008
e o Jornal Pessoal que na edicgo da
2" quinzena de abril trouxe uma lei-
tura critical, feita pelo dono do jor-
nal, ojornalista Ltcio Flavio Pinto,
sob o titulo "Palavras Municipais".
Ao journal O Liberal, externo os
meus agradecimentos pela publica-
q~o que se quer solicitei. Agora, ao
escriba investigative dono do JP,
tenho que dedicar algumas linhas
para reparar as afirmaqoes incorre-
tas e mal intencionadas expelidas
contra mim e o Prefeito Duciomar
no artigo ji mencionado.
Desde logo deixo consignado
que consider o Ldcio um dos me-
lhores jornalistas que ji apareceu
por estas plagas. Repito: um dos
melhores jornalistas e s6!
O problema 6 que ele nao se
consider apenas isso. Ele se julga
detentor de um grau de erudiqao que
o torna capaz de discorrer sobre as
mais variadas freas do conhecimen-
to human, por mais complexes que
sejam, cor a mesma facilidade corn
que escreve um texto sobre a Vale
ou a grilagem de terras praticada
pelo finado C. R. Almeida no muni-
cipio de Altamira. A rigor, para ser
contemplada sua versatilidade e a
magnitude do seu talent o L6cio
deveria ser reconhecido, por todos
n6s, como o "Google do Jomalis-
mo Nacional". Desse modo, sem-
pre que nos assaltasse uma divida
poderiamos acessar o sitio
www.lucioflaviogoogle.com.br e
os nossos problems estariam
resolvidos.
Ocorre que na pratica a teoria 6
outra e, nesse Ambito, o L6cio esta
a ano-luz de ser um Google e muito
pr6ximo de um velho Almanaque,
daqueles que nos ensinava, p. ex.,
que Agripina mae de Nero, morreu
no ano 59 da era cristd, o que nao
passa de uma informacao absoluta-
mente inftil e ainda que reencamrs-
semos por diversas vezes nunca
precisarfamos dela para nada.
E exatamente assim o Lucio
quando envereda para o campo da
andlise de conjuntura political, nes-
sa esfera sua cultural 6 de Almana-
que, sabe nada de quase tudo, esbo-
qando leituras superficiais que o
confundem cor o senso comum e o
equiparam a um dirigente de gremio
estudantil secundarista, com todo
respeito a esses iltimos.
No artigo "Palavras Munici-
pais" inicia afirmando que tenho me
"apresentado como ide6logo da ad-
ministragio Duciomar Costa" e que
transformei minha funcqo no Saaeb


"em mirante para ver e propagan-
dear um conteddo e uma apardn-
cia da Prefeitura que o cidaddo
comum nao encontra. Porque nao
existe"(sic). Jamais me apresentei
como ide6logo de qualquer political
especifica, muito menos da admi-
nistraqAo Duciomar como um todo.
A afirmaqao 6 desprovida de ampa-
ro factual.
O nosso "Destutt de Tracy
Tupiniquim" sabe, e muito bem que
esses litterati nouvelle mani6re nao
tem vez no nosso governor, com
todo respeito aos trabalhadores in-
telectuais. A razao 6 simples: essas
figures que de maneira otimista ou
ing6nua, acreditavam que poderiam
influenciar a political dos principes
viviam e contemporaneamente
vivem concebendo grandes proje-
tos de reform da sociedade sem
qualquer embasamento na realida-
de ou sem tender um minimo com-
promisso com a coer8ncia. Inclusi-
ve algumas dessas figures conside-
ram-se a si mesmos "intelectuais in-
dependentes", se orgulham de nun-
ca terem se filiado a qualquer parti-
do politico e, em alguns casos che-
gam a desenvolver projetos estrita-
mente pessoais como demonstra-
qao dessa suposta coerencia. Na
verdade a carreira que eles gostari-
am de seguir 6 a de "conselheiro de
principles ocorre que estes 6ltimos
nao estdo dispostos a ouvi-los e,
muito menos, acatar seus conselhos.
Mais adiante, critical o fato do
artigo ter expressado como marca
da gestlo Duciomar a conduta de
entendimento e conciliagqo que con-
tribuiu decisivamente para por fim
as brigas entire Prefeitura de Bel6m
e Governo do Estado de triste me-
m6ria para todos os cidadlos desta
cidade. Nesse sentido desenvolve
uma curiosa argumentaqco, pra nao
dizer tola, segundo a qual "Ducio-
mar adotou uma esperta estrat6gia
de emudecer oficialmente e agir ape-
nas nos bastidores, procurando ali-
anqas de conveniencia e oportuni-
dade at6 poder tomar uma decisao,
As v6speras da eleidao deste ano,
que ird novamente disputar" (sic).
Lucio, sinceramente quando
vejo uma argumentaqio como esta,
custo acreditar que vocA algum dia
foi estudante do mestrado em poli-
tica da USP, ainda que inconcluso,
menos ainda aluno do Prof. Olivei-
ros da Silva Ferreira. Das duas uma:
ou voce nao aprendeu nada, ou fal-
tava muita aula. Pero sin, pero non,
vou preencher a lacuna deixada.
Preste bem atencao!
Em political, no instant mes-
mo em que se articula uma determi-
nada alianca 6 6bvio que ela tem que
ser a mais convenient e oportuna
possivel, ningu6m faz alianca incon-
veniente e nem inoportuna, ainda
que depois possa se tornar.
Em political, o que voce carac-
teriza como "esperta estrat6gia",
chama-se "inteligencia", "habilidade
political" que voc6 nfo ter a digni-


dade de reconhecer por falta de hu-
mildade, ou quem sabe voce gostaria
que o Prefeito Duciomar passasse o
maior tempo de sua gestdo disper-
sando, ao inv6s de unir, litigando, ao
inv6s de conciliar, brigando demago-
gicamente ao inv6s de trabalhar. O
povo de Bel6m nao esquece a irraci-
onalidade do ex-prefeito Edmilson
Rodrigues que chegou ao ponto de
negar o "habite-se" da Estaqao das
Docas, tentou embargar o Mangal
das Garqas e o Forte do Pres6pio e
protagonizou, cor o ex-govemador
Almir Gabriel, o epis6dio ridicule
da Praqa da Biblia, felizmente esse
tempo acabou.
Em political, Ldcio, o sucesso
de um determinado projeto, sera
mais ou menos factivel, quanto
maior for a genialidade e a paciencia
dos protagonistas de tomarem as
decisbes no tempo certo, nunca an-
tes, nem depois.
Mas calma! As bobagens e le-
viandades, do artigo do L6cio nHo
param por ai. Misturam ignorancia
cor uma dose cavalar de miopia
urbana. Quando fala de Bel6m se
comporta como aquele rapaz que
entrou num quarto absolutamente
escuro A procura de um gato preto,
cor uma diferenqa, o rapaz sabe o
que 6 um gato.
A arrogdncia do L6cio sempre
o levard a achar que as realizaqOes
da Prefeitura sao como a Conceiqao
da canq~o, por uma razao muito sim-
ples: ele nao conhece a cidade. Sua
visao segregada ao local onde mora
nao lhe deixa conhecer o que esta
acontecendo nos bairros como
Aguas Lindas, Tapand, Pratinha,
Bengui, Pedreira, Marambaia, Mar-
co, Terra Firme, Guamr, Cremaqco,
Jurunas, diversos conjuntos habi-
tacionais, etc.... Sao, at6 agora, quase
50 km de rede de drenagem pluvial,
700 ruas pavimentadas que corres-
ponde a uma area de 1.600.000 m2
de vias asfaltadas.
Sobre o Projeto da Vila da Bar-
ca, como se trata de pura ignorancia
do nosso jornalista investigative,
sugiro que investigue no site do
Minist6rio das Cidades e saberf que
este 6 o maior projeto de habitaqdo
social em execuqdo no pais e cujo
valor 6 de R$ 60.000.000,00.
O Portal da AmazBnia esta
aberto a visitacqo pdblica ha mui-
to tempo, tome coragem e va ate ld
ver in loco uma obra transforma-
dora que muda definitivamente a
face da nossa cidade e que mesmo
para pessoas como voce 6 impos-
sivel de ser ignorada.
Definitivamente o Lucio nao
conhece Bel6m, quando fala das
questes urbanas da cidade se pa-
rece cor o Karl Marx que escre-
veu O Capital no Museu Britani-
co, cujos dados primrrios foram
baseados fundamentalmente nos
relat6rios dos fiscais da Inglaterra,
sem nunca ter entrado numa fibri-
ca e menos ainda entrevistado um
inico operdrio.


Para nao alongar demais, vale
dizer que jornalistas nao sao isen-
tos de ideologias, nem mesmo o
Lucio, mas ao menos devem guar-
dar alguma fidelidade aos fatos, caso
contrArio se transformam em me-
nos que ide6logos e se converted
em meros enganadores.
Fica o convite para visitarmos
uma Beldm que voce desconhece
constituida por um povo simples.
trabalhador, masque ter a dignida-
de e a humildade de reconhecer as
coisas positivas que a nossa admi-
nistraqio esti realizando, a "Revo-
luqao Sem Grito".
Raul Meireles.

MINHA RESPOSTA
Nuncafugi de debates. Ndo que
os procure ou provoque: eles sur-
gem como decorrencia do men es-
tilo, de dizer o que penso, sem me
preocupar corn as conseqiiencias
ou as conveniencias (mas procu-
rando pensar o mdximo possivel
no que penso, para que seja rele-
vante o que digo e escrevo). Ao res-
ponder aos meus artigos, a maio-
ria dos interlocutores deixa de lado
osfatos, as informaqOes e as idcias
para transformar a minha pessoa
no alvo dos seus ataques. Tento
desviar a poldmica para utn nmbi-
to mais do interesse ptblico, mas
os oponentes insisted em persona-
lizd-la. As vesperas da fase sexa-
gendria da vida, esse tipo de deba-
te deixou de me interessar: acho que
ndo precise mais defender minha
biografia nem estar a enfatizd-la.
0 tempo se torna cada vez mais
escasso, como minhas energies,
para desperdiqd-lo corn esses tiros
na dgua e dar atenCdo a bate-boca
de geral de campo defiutebol.
E o caso dos ataques que me
faz Raul Meireles. Jd tivemos o
moment de terqar arms em cor-
po-a-corpo. Ele era vereador e me
atacou da tribune da Cdamara Mu-
nicipal de Belim. Informado, fri Id
e o procure para umna converse
pessoal. Enquanto esperava as no-
tas taquigrdficas da sessdo, ele me
fez uma reconstituiqdo de suas pa-
lavras infiel ao que reaClente ha-
via dito, como pude constaiar ao
ler as transcriFoes, jdi de volta ao
escritdrio. No dia seguinte escrevi
um artigo contestando tudo que ele
disse, apropdsito do contract que
eu tinha para montar num banco de
dados sobre a Amaz6nia no Fun-
telpa (material redescoberto s6 al-
gum tempo atrds, sob o compro-
misso da direado da fundaqdo de
ndo permitir que desaparecesse de
novo, dando-lhe curso e uso, o que
parece ter ido para as calendar
gregas).
Autorizei a Funtelpa a abrir
todos os documents a quem qui-
sesse verificar que o vereador Raul
Meireles mentira do principio ao
fim do seu pronunciamenio. Desa-
fiei por escrito o PT o partido de
entdo do edil, a fazer acarea~ao


10 JULHO DE 2008 .I QUINZENA Jornal Pessoni







entire nos para verificar quem dizia
a verdade. Sefosse ele, eu deixaria
a profissdo. Caso contrdrio, ele e
que devia renunciar ao mandate.
0 PTsefez de paisagem. 0 verea-
dor ndo voltou mais ao assunto.
Novamente, tenta me desmere-
cerde umaforma infantil, com criti-
cas levianas, injustificadamente dci-
das, desprovidas de base factual. Ndo
you levar mais em consideraago a
parte pessoal do que disse. Isto pos-
to, o que sobra do que ele disse? Que
nada sei do que digo quando digo
algo sobre Belim. Em que se baseia
o executive do operoso servigo de
dguas do municipio, tdo operoso nos
limits dafantasia do seu dirigente,
para me declararjejuno na matiria ?
Nao me ver andando pelas obras
municipals. S6 se disporia a me con-
ferir o titulo de iniciado na matdria se
eufizesse visits dirigidas a cidade,
levado pelos integrantes do poder
municipal. Raul confundejornalista
(sem adjetivo acompanhante) com
porta-voz, cor professional chapa
branca. Quem anda pela cidade me
v4 andando pela cidade, em todos os
hordrios, inclusive os mais matuti-
nos, comojd ocorreu ate entire opre-
sidente do tdo famoso servigo de
dguas e eu, na feira da CremaFdo,
por casualidade.
A Vila da Barca eu acompanho
desde estudante e circuleiporld di-
versas vezes antes e depois da exe-
curdo do projeto, que Duciomar
Costa herdou de Edmilson Rodri-
gues. Aquijd escrevi sobre oproje-
to, sempre me opondo a ele. E con-
tinuo a achar que e uma iniciativa
equivocada e de efeito negative,
como se verd no future que jd
estd comefando, alids. Raul ndo se
lembra disso, como parece ndo se
lembrar que tudo o que disse da
produqdo de Marx sobre o capital,
no Museu Brit&nico, sem contato
direto cor a realidade, jd apare-
ceu diversas vezes aqui neste jor-
nal. Se ndo foi aqui que absorveu
as informag~es, pelo menos ndo
deviafalar sobre elas cor um tom
de novidade e originalidade, que
faltam a tudo que disse.
Como a carta demorou dois
meses para ser produzida, seu au-
tor contou cor tempo suficiente para
ndo enche-la de ar, ou de lingiiia,
como se diz no patod jornalistico.
Nao trouxe informacoes nem suas
contestacdes sdo fundamentadas.
Seu chefe e campedo da refeigdo
pdblica e esse e o seu maior titu-
lo. De efetivo, s6 teve uma conquis-
ta: seqiiestrou meu espago vital. t
em homenagem a democracia que o
cedo para a manifestaago natimor-
ta do ex-vereador que, impropro-
priamente (reconhego), chamei de
idedlogo. 0 que ele o povo deno-
mina de uma maneira mais crua,
mas, em homenagem ao cavalhei-
rismo, chamarei de hagi6grafo.

HIDRELETRICA
A mat6ria do Jornal Pessoal
n 419 (Belo Monte, Hidrel6trica
Amaldicoada) nos mostra com toda


a clareza a situaqao tensa e dramiti-
ca nas relaq6es entire fndios e bran-
cos nos empreendimentos hidrel6-
tricos na Amaz6nia. Tensao que
permanecera por muito tempo, tal-
vez at6 que o iltimo rio em poten-
cial seja explorado nesse vasto e
problemitico territ6rio national,
que possuf uma das maiores reser-
vas de Agua doce do mundo.
Aqui, como nos mostra a mat6-
ria do jomal, se defrontam duas cul-
turas opostas, dois paradigmas civi-
lizat6rios, se formos mais exatos: a
modern e sofisticada civilizagdo
branca, cor todo o seu aparato tec-
nol6gico e sua racionalidade instru-
mental, e a cultural chamada impro-
priamente primitivea", a dos povos
da floresta, cuja relaqao com a natu-
reza passa por outras mediaq6es ex-
tremamente diferentes dos primeiros.
O que ocorre em Belo Monte,
como e possivel perceber no artigo,
serve de material para longas refle-
x6es antropol6gicas, sociol6gicas e
econ6micas sobre a Amaz6nia,
como muitas outras publicadas pelo
Jornal Pessoal.
O que vemos diante de n6s,
considerando que estamos vivendo
num moment de capitalism glo-
balizado? Quais as diferengas e se-
melhangas do capitalism do s6cu-
lo XVIII e XIX, a era denominada
da "acumulagao primitive do capi-
tal"? Qual sAo as singularidades e o
significado dos fatos que Ldcio Fl-
vio nos oferece para reflexdo?
Na minha modest opinido de
soci6logo, temos af nao s6 um fato
dramitico, mas emblemitico ocor-
rido em pleno s6culo XXI, quase
repetindo um cendrio que foi visto
nos seculo XIX e que nao deixam
de nao nos remeter a Marx e suas
reflexes sobre o colonialismo.
Refiro-me, particularmente, aos
seus artigos de 1853, chamados "A
domina~go BritAnica na india" e
"Resultados Futuros da Domina-
qao Britnica".
Marx afirma enfaticamente que
a Inglaterra ter que cumprir uma
dupla missao: uma destrutiva, ou-
tra regeneradora a aniquilagao da
velha sociedade asitica e o estabe-
lecimento dos fundamentos mate-
rials da sociedade ocidental (leia-se,
capitalist) na Asia. Acreditava que
somente os ingleses, exatamente
porque representavam a introducao
do modo de produqao capitalist na
regiSo, conseguiriam arrebentar corn
a estrutura milenar da India. Ou
seja, sem a progressive introducao
do capitalism na india nao haveria
moderidade, portanto, civilizacao.
Mostrava-nos, tamb6m, que a
colonizaqao inglesa estava atraves-
sada de uma ponta a outra pelo uso
da violencia sobre os primitives po-
vos natives. Dizia ele: "Tudo que a
burguesia inglesa possa ser forqada
a fazer nao emancipara nem reme-
diar, materialmente a condirlo so-
cial da massa do povo, que depen-
de nao apenas do desenvolvimento
dos poderes produtivos, mas da
apropriagqo pelo povo".


Marx, portanto, ter uma posi-
ao muito clara sobre aintroducqo do
capitalism em sistemas sociais de
tipo feudal. "Tal fato tem um carter
historicamente progressive no con-
texto de entAo, mas ter uma nature-
za abertamente opressiva sobre os
povos. Tal process de colonizacqo,
porque C conduzido pela classes dos
exploradores, 6 inevitAvel e desgraqa-
damente destruidor para os povos
recem colonizados". Pergunta-se:
"Alguma vez afetou um progress
sem arrastar os indivfduos e os po-
vos pelo sangue e pela lama, pela
mis6riae peladegradagio?" (Nao sera
esse o future de nossos indios?)
Esse pensador alemao era pro-
duto do iluminismo e profunda-
mente marcado pelo evolucionis-
mo, como todos os pensadores mo-
dernos. Por isso suas interpreta-
q6es o qualificam como um auten-
tico europeu etnocentrico, uma
espCcie de apologista do colonia-
lismo britanico.
Nio 6 minha intenqio discutir
isso neste moment. Posso afirmar,
no entanto, que Marx nos mostrou
com todas as evidencias que o pro-
cesso de expansio do capitalism
por todo o planet 6 uma inevitabi-
lidade, dado a superioridade da t6c-
nica, econ6mica e military do capita-
lismo sobre os restantes modos de
produqao pr6-capitalista.
O que o joralista nos mostra
nesse dramitico acontecimento de
Belo Monte, mesmo sem recorrer
a denominaqao capitalismm" (6 in-
teressante como falar em capita-
lismo hoje parece fora de moda), 6
exatamente o que vem ocorrendo
hf muitos anos na Amaz6nia, se
entendermos "Amaz6nia" como
uma denominacqo simb61ica para
denominarmos nio s6 uma region
geogrAfica, mas um conjunto de re-
laq6es entire series humans situa-
dos socialmente de forma diferen-
ciada na estrutura social: indios, ca-
boclos, classes m6dia urbana e ru-
ral, homes e mulheres, brancos,
negros, etc.).
Nos tempos atuais, no entan-
to, existem muitos fatores que se
diferenciam da 6poca de Marx no
que diz respeito a colonizacao.
Uma dela 6 a desnaturalizaqao de
conceitos evolucionistas e finalis-
tas (teleol6gicos) que previam que
a hist6ria caminharia numa direqio;
a direclo do progress. O indio
deixa pouco a pouco de ser visto
como simbolo do atraso, mas como
parte de um ecossistema. Um ecos-
sistema ameaqado por esse mesmo
progresss" que, na verdade, vem
significado para os ditos "civiliza-
dos" a destruiq6es dos recursos na-
turais que, hoje, percebem-se, fini-
tos. O progresss" tal como era
compreendido ha pouco tempo
atras pode nos levar a ruina nesse
modo de produqao impulsionado
primordialmente pelo lucro e o cres-
cimento a todo culto.
Por outro lado, cresce tamb6m
a consciencia 6tica sobre o meio
ambiente, considerada nao s6 como


"recursos naturais", mas o home
fazendo parte dessa mesma nature-
za e do meio ambiente de uma ma-
neira em geral.
Essa consciencia ecol6gica s6
foi despertada recentemente e ain-
da mal compreendida ou ininteli-
givel na Amaz6nia, que possui, pa-
radoxalmente, um dos maiores ca-
pitais em recursos naturais, que vao
al6m daqueles aparentemente mais
rentaveis, como a madeira e outros
bens. E principalmente nos paises
do primeiro mundo (Europa e dos
Estados Unidos) que essa consci-
encia 6 mais aguqada e se espalhou
para os pauses menos desenvolvi-
dos, como o Brasil.
A grande constataqao nos dias
de hoje sao os desmatamentos numa
regiao importantissima como a
Amaz6nia. O silencio da floresta e
o silencio sobre a floresta foram
perturbados porque as labaredas
dos troncos de frvores gigantescas
foram avistadas por satl6ites dis-
tantes e ganharam o mundo atrav6s
dos meios de comunicaLao que co-
munica para todos a catastrofe em
tempo real.
Mas, hoje, tamb6m, ha sinais
de destruiqo ambientais graves que
se fazem sentir pela poluigqo das
grandes cidades, as chuvas Acidas,
pelo efeito estufa e muitos outros
fen6menos ligados a degradaq~o
ambiental.
Essas quest6es nao estavam
colocadas dentro do jogo de poder
na 6poca em que se fazia apologia
do progress. E por isso que a situ-
aq~o dos indios da Amazonia assu-
me essa dramaticidade, com contor-
nos bem diferenciados.
Se quisermos pensar a questao
indigena na Amaz6nia temos que
buscar outros paradigmas e nao os
alicerqados em id6ias que pregam o
desenvolvimento a qualquer custo.
cor vista a um imaginario "bem
estar da naq~o", que 6 uma concep-
gqo altamente abstrata e que nao leva
em conta a heterogeneidade das ra-
qas, das classes que comp6e a po-
pulagio desse pafs.( Bem estar de
quem? Bern estar para quem?)
A-pergunta que faz Ldcio Flavio
me parece certeira: "Por que Belo
Monte? Para quem?" Essas duas
perguntas deveriam ser feitas para
pensar todos os projetos da Ama-
z6nia de grande impact social.
Ao ler a hist6ria da hidrel6trica
de Tucurui narrada no livro de Licio
podemos verificar como sao decidi-
dos os projetos na Amaz6nia. Na
maioria das vezes nos gabinetes da
tecnocracia em Brasilia, ou de Sao
Paulo, onde nem a maioria dos "ca-
ras-palidas" nem os "primitivos" tem
direito de manifestar suas opini6es.
E esta "racionalidade" que esta
sendo posta na pratica cor relaqgo
aos projetos de hidrel6tricas.
Volta a pergunta: por que Belo
Monte? Para quem Belo Monte?
Abra-se o debate pdblico e neces-
sario. Acorda, Pard!
Benedito Carvalho Filho,
soci6logo


Journal Pessoal l~ QLJINZENA JLJLHO DE 2008


Jornal Pessoal /I QUINZENA


- JULHO DE 2008








"Seu" Alfredo
Quem entrava A noite no gabinete de Romulo Maiorana, na
sede de O Liberal, dificilmente deixaria de reparar num dos
presents a essas reunites fechadas, que comeqavam no fim
de tarde e se estendiam at6 o dono do journal dar o toque de
recolher (cada um para seu destiny ou numa continuacqo em
conjunto). Alfredo Pinheiro ficava cor o rosto colado ao apa-
relho de televisio, acompanhando corn avidez as novelas. Nem
desviava o olhar para responder ao cumprimento de quem
chegava ou para se servir de uma dose discreta de uisque no
copo ao lado, reabastecido pelo quase-mordomo, sugestiva-
mente chamado Bernardo (o mesmo nome do cio que socorre
os perdidos nas neves europeias com sua raqao de uma agua
ardente qualquer). Nos intervalos da novela, Alfredo dedicava
a mesma atenqao a frases mordazes ou observaq6es arrasa-
doras, que fazia com ar candido, brejeiro. Em todas, pordm,
tendo o cuidado de nao apimentar o chiste, de tal maneira a
evitar constrangimentos ou nao acarretar desentendimentos
sem retomo. Tinha que ser arrematada por risos
"Seu" Alfredo morreu, no 6ltimo dia 14, aos 77 anos, sem
deixar inimigos. Muito pelo contririo: todos que receberam a
noticia do seu fim tinham hist6rias engracadas a contar do
relacionamento corn o home que, at6 algum tempo atris, era
um abastado empresario, herdeiro de uma das parties de um
alentado patrim6nio deixado pelo pai. Nao seria como empre-
endedor que Alfredo Pinheiro havia de se notabilizar. Mesmo
na 6poca de vacas gordas da Livraria e Papelaria Globo, era
comum encontri-lo atris de um journal, no centro da loja, corn
entrada por duas ruas (a Jodo Alfredo e a Padre Eutiquio).
Nao num gabinete fechado, mas atras de uma mesa, exposto
a todos, sempre bem disposto e receptive, simples e singular.
A riqueza nao o afetou, assim como as vacas magras nao
turvaram seu modo de viver. Se tinha muito, gastava. Se pou-
co, encolhia-se na toca. Permaneceu encolhido nos iltimos
tempos, sem perder o viqo. Partiu cedo, mas pelo menos sem
sofrimento nem imobilizaqgo. Atd a v6spera fez sua caminha-
da pela manhd e tomou sua agua ardente A noite, diante da
televisio e ao lado de muitos amigos. Como um home born.


Humor
A coluna Rep6rter 70, a principal de O Liberal, resolve
fazer graca corn as trag6dias do deputado estadual Arnaldo
Jordy: como ele foi vitima de assalto e seqiiestro-relampago
no dia das mdes e no dia da imprensa, alertou-o sobre o dia dos
namorados, que estava chegando quando a nota foi publicado.
Espera-se que o journal tenha o mesmo senso de humor (um
tanto negro) se seus funcionarios forem vitimas de violencia
mais uma vez: todos os sete assaltos coincidiram corn dias nos
quais o caderno de policia de O Liberal agredia a 6tica, a
moral e o bom senso com uma quantidade abusiva de fotos de
cadiveres os presuntos, na linguagem policial. Como, alids,
quase todos os 365 dias do ano.


"0" jornalista
Quase todos os meus amigos jornalistas trabalharam cor
S6rgio de Souza. Eu, ndo. Sempre fui leitor do grande
jornalista, que morreu tres meses atras, em Sio Paulo.
Serjao, conforme o tratamento informal, foi uma figure rara
na profissao: um verdadeiro alquimista. Tudo em que ele
tocava virava primor de criatividade, de intelig6ncia, de
ousadia e de refinamento. Em 42 anos de profissao, deixou
uma arvore coberta de frutos maravilhosos, de Realidade a
Caros Amigos. Em todas essas dezenas de publicaq6es que
criou ou das quais participou ficaram poucos dos seus textos.
O que ele fez de mais constant foi conceberjornais e
revistas, nutri-los de pautas, corrigir textos destituidos da
qualidade final que passaram a ter depois do seu imprimatur,
e editar capas e piginas cor um aprumo sem igual na
imprensa brasileira.
Na retaguarda, mas ativo e solidario como se estivesse na
linha de frente, foi a sorte grande para as centenas de
jornalistas que tiveram o privil6gio
de trabalhar cor ele (sob ele.
seria a expressao mais ;,
apropriada). Por isso,
era ojornalista dos
jornalistas, os mais
credenciados a ,
aprecid-lo melhor. O
que explica a
antol6gica ediqlo I h
especial que Caros
Amigos lhe dedicou no
m6s passado, para ler e
guardar. A inspiraqdo de
todos que participaram da
ediqdo foi transmitida
justamente pelo personaem ,
principal, que, indo, deixou "
sua marca em todos n6~.
seus parceiros ou leitores.
Grande S6rgio, corn o
olhar curioso e
determinado de
umjovem aos
74 anos, a .
imagem
surpreendente
que nos
deixou,
como suaI
obra
definitive


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dente. que cumpre ,Lu.i mis i ., ma n-bre: ,er umaj udinagem dJ:i ptde I:-prt que s .- -
lelt 're' a.ludem ni di tundir e-.j hir. _-. r s ci mprindo I ,i'., que e i c d.i ri.a n' baik _.
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Editor: LLcio Flavio Pinto
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