Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00325

Full Text



JUNHO
DE 2008
2"QUINZENA


orA A Pessoal P
A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO


BELO MONTE


Hidreletrica amaldi oada

Os indios reunidos em Altamira declararam que ndo querem saber da hidreletrica de
Belo Monte no rio Xingu. Disseram-se dispostos a morrerpara impedir a obra. Mas
ndo hd unanimidade entire eles, como ndo hd entire os broncos. A questdo e mais
complex do que eles parecem convencidos. E mais dramatica.


Aintenqao de extrair energia do
rio Xingu, no Pard, tem 28 anos.
Foi em 1980 que comeqaram os
inventirios sobre o potential hidrel6-
trico da bacia, que drena as aguas de
7% do territ6rio brasileiro. Em 1989 o
projeto para o primeiro aproveitamen-
to energ6tico foi brecado pelos indios.
S6 dois anos depois a Eletronorte se
recuperou do abalo que a india Tuira
causou quando esfregou seu facao no
rosto do director da empresa, Ant6nio
Jos6 Muniz Lopes, para demonstrar a


rejeiqao dos primitivos habitantes da
regiao ao empreendimento. A nova in-
vestida dos indios contra o principal
responsavel pelos estudos para a cons-
truqao da usina de Belo Monte, o en-
genheiro Paulo Fernando Vieira Souto
Rezende, hi 37 anos funcionirio da
Eletrobris, interromperi a continuida-
de do projeto e por mais quanto tem-
po? Seri o seu golpe de morte, defini-
tivo? Ou, pelo contrario, dard ao go-
verno armas para executar para valer
o empreendimento?


Muniz Lopes sofreu apenas um gran-
de susto quando Tuira partiu para cima
dele, pintada para guerra, gritando e
manejando sua arma intimidadora. Re-
zende, por6m, ficou com um golpe pro-
fundo no braqo e com escoriaq6es ge-
neralizadas, resultado de murros e chu-
tes dados por virios indios, e nao mais
apenas por Tuira, hoje corn lideranga
excepcional para uma mulher por conta
da sua decisive participaqao nos dois epi-
s6dios, com intervalo de 19 anos.
CONTiSVi'iA A PA


WftW.UA~iV.V 'I It'1 --BI ILk I II i7l -- a 6& a --- .


N" 419
ANO XXI
RS 3.00


- -
BEL


L*I~






CONTNUAAO D&CAPA .....


O incremento de agressividade en-
tre os dois moments .serviria de indi-
caqao de que agora a paciEncia dos
indios do Xingu se esgotou e eles sim-
plesmente nao querem mais usina al-
guma no rio. Sua disposiqao 6 morrer,
se precise for, at6 o iltimo deles, mas
nao permitir a execuqao da obra,
conforme anunciaram no comunicado
final do encontro, realizado entire 19 e
23 de maio, em Altamira. As cenas cho-
cantes criadas por guerreiros furiosos
investindo cor faces, bordunas, lan-
gas e flechas sobre o corpo do enge-
nheiro carioca, atirado ao chao, rodou
pelo mundo, provocando espanto, per-
plexidade, indignacao e revolta. Mas
tamb6m preocupaq~o e medo.
Depois dessas cenas, ainda mais aber-
rantes para moradores de paises que ji
nao convivem com os primitivos ocupan-
tes de seus territ6rios, completamente
absorvidos ou eliminados, qual seria o
primeiro pass para sair da in6rcia do
susto? De imediato, e ao menos de for-
ma explicit, o estado de beligerancia foi
interrompido pelas duas parties. Os indi-
os, na avaliaqao internal que fizeram, no
dia seguinte ao incident, ainda em Al-
tamira, admitiram que se excederam e
cometeram um erro grave. Pareciam
conscientes que, a partir de agora, terio
que recuperar o apoio da opiniao p6bli-
ca, que condenou seu ato, para pode-
rem sustentar o veto A hidrel6trica, pro-
jetada para substituir Tucurui, no rio To-
cantins, como a quarta maior do mundo
(ao menos em potencia nominal de ge-
ragqo de energia).
Mas tamb6m a reaqao do engenheiro
foi de surpreendente compreensao e to-
lerancia em relacqo A pr6pria agressao
sofrida. Surpresa tanto maior quanto se
conhecem as caracteristicas da perso-
nalidade de Paulo Rezende no curso dos
tr8s anos como chefe dos grupos que
estudam a viabilidade s6cio-ambiental de
Belo Monte. Ele teria refreado seus im-


pulsos, perfeitamente naturais, para
aproveitar os efeitos desgastantes sofri-
dos pelos indios, transferindo para a Ele-
trobris a lideranqa do long e acidenta-
do process pelo qual a hidrel6trica tern
passado, por conta da sistemitica resis-
tencia dos seus critics e opositores?
Outro fato p6s-agressao parece indi-
car nesse sentido: a manifestaqao do
cacique kayap6 Jair Bepe Kamr6, da
aldeia Topkr6, e da india chipaia Maria
Augusta, desaprovando a agressao dos
guerreiros kayap6 e a favor da usina.
Esse primeiro apoio declarado comeqa
a causar fissuras num movimento at6
entao aparentemente monolitico. Em
menor escala, essa reversao de situa-
qao ji aconteceu em outros casos de
conflitos semelhantes na Amaz6nia. A
mineradora Paranapanema conseguiu
mudar a attitude dos indios waimiri-atro-
ari quanto a exploraqao dajazida de cas-
siterita do Pitinga, no Amazonas: de ra-
dicalmente contra, a postura se tornou
tdo favorivel que os indios afastaram da
area antigos aliados, que nao os acom-
panharam nessa mutag~o. Tamb6m a
Companhia Vale do Rio Doce atraiu para
si os indios xikrin do Catet6, vizinhos das
minas de Carajas e primos dos kayap6s.
Como essa conversao foi obtida atra-
vds de aplicaq6es significativas em
obras e em dinheiro vivo, al6m de mui-
tas relaq6es piblicas, 6 bem provivel
que os mesmos m6todos sejam repeti-
dos em favor de Belo Monte. A Eletro-
norte ter bastante experiencia na ma-
tdria e ja vem atuando dessa maneira
junto a algumas tribes na Brea de influ-
6ncia da usina de Tucurui, como os pa-
rakanas, e em abordagem cautelosa no
Xingu. Cor a retragqo dos kayap6s
depois da agressao ao engenheiro, o
campo esti mais favoravel a esse tipo
de empreitada. E as lideranqas do mo-
vimento indias e ndo-indias sabem
nao s6 dessa possibilidade, como dos
seus efeitos quase inevitiveis, conside-
rada a receptividade a tal iniciativa por
parte de varios grupos indigenas.
Assim, nao 6 de se esperar incurs6es
justiceiras ou intimidat6rias, como de uma
carga de cavalaria A moda do oeste ame-
ricano, que no Brasil assume a forma de
manobras como a desencadeada pela
Operaqao Arco de Fogo, e sim trabalho
de proselitismo e convencimento, A base
de beneficios concretos e de dinheiro
vivo nas maos dos lideres tribais. Para a
eficicia dessa investida contribuird o
prosseguimento das medidas policiais vol-
tadas para a apuraqao da agressao em
si e dos seus antecedentes.


Ainda que a Policia Federal de Alta-
mira identifique individualmente os
agressores e os enquadre penalmente,
de tal maneira a autorizar seu indicia-
mento, dentincia e eventual pronuncia,
o process seguird um rito long e com-
plexo at6 poder produzir algum resul-
tado concrete, se 6 que chegard a tan-
to. As implicaq6es antropol6gicas do
ato sao um fator suficiente para que o
caso acabe prescrito ou fenega pelo
meio do caminho. Mas a identificagio,
caracterizaqio e puniqao da co-auto-
ria, atrav6s dos supostos autores inte-
lectuais do delito, pode ser uma rami-
ficaqao mais expedida.
O delegado Jorge Eduardo Ferreira,
da PF de Altamira, que preside o inqu-
6rito, quis chegar logo aos "finalmen-
tes" reconstituindo de pronto a trama.
Organiza6bes Nao Governamentais,
sobretudo estrangeiras, e religiosos da
prelazia do Xingu e do Cimi (Conselho
Indigenista Missionirio) planejaram o
ataque, doutrinando os kayap6s para
que eles repetissem, cor um tom de
agressividade a mais, o rito de 19 anos
antes. Tudo teria sido providenciado
para o revival, agora adicionando ao
personagem principal, Tuira, seus co-
adjuvantes, os guerreiros, municiados
da ferramenta indispensAvel para con-
ferir dramaticidade a cena: os faces.

Foi facil ao delegado
compor uma hist6ria
complete a partir das
images da camara de
televisao da loja
na qual os faces
foram comprados por um dos
religiosos envolvidos na programacao do
encontro. Ja estabelecer o nexo causal
numa instruqfo processual najustiqa seri
muito mais problemitico e talvez ate
in6cuo. Se algumas pessoas ou grupos
realmente articularam a repetiqao da
danca do facao de Tuira de 1989, nao
podiam ter imaginado o ambiente tenso
que se formaria em torno da palestra do
engenheiro da EletrobrAs. Mais do que
apresentar o projeto, como fez Muniz
Lopes 19 anos antes, ele comunicou a
todos uma decisdo: a Eletrobris vai rea-
lizar Belo Monte de qualquer maneira,
por estar convencida de que isso 6 o
melhor para o Brasil e que a usina 6 in-
dispensavel para assegurar energia para
os brasileiros, evitando o risco de apa-
g6es e racionamentos.
Rezende declarou que Belo Monte
teri a menor relaqao area inundada/ca-


2 JUNHO DE 2008 .2 QUINZENA Jornal Pessoal







)pacidade instalada de energia. Seu re-
servat6rio terd 440 quil6metros quadra-
dos, mas metade dessa drea jdi afoga-
da todos os anos pelo Xingu. Esses 220
km2 seriam a 6nica intervenqao do bar-
ramento porque a Eletrobrds decidiu que
s6 construiri uma usina no Xingu, aban-
donando os sete aproveitamentos pre-
vistos em 1987, que provocariam a sub-
mersdo de 18 mil km2, ou os 4 mil km2
da versao anterior do complex de Belo
Monte. Para um engenheiro, esses ni-
meros soam como a mdsica de Bach
para outros ouvidos.
Os brancos responsdveis pelo gran-
de projeto nao t6m dado a devida aten-
qao aos indios que ocupam vdrios pon-
tos da bacia, considerando-os meras fi-
guras decorativas, sem poder decis6-
rio. Acham que podem impor-lhes fa-
tos consumados, como fazem aos de-
mais brancos, que sup6em menos fa-
vorecidos em fosfato (dai certa arro-
gancia dos t6cnicos) e sabem que pou-
co pesam (quando pesam) na balanqa
do poder. A exposiqao do engenheiro,
no segundo dia da programaqdo do en-
contro, transcorria normalmente, mes-
mo cor seu tom enfitico, at6 o momen-
to em que um grupo reduzido de estu-
dantes, num setor das arquibancadas do
gindsio (que exibia grandes claros), co-
meqou a vaid-lo.
Como seria de esperar nessa circuns-
tancia, Paulo Rezende tentou ironizar a
reaqco, contrapondo aos apupos algu-
mas informaq6es que julgava de efeito.
Lembrou que no ano passado a muito
criticada hidrel6trica de Tucuruf, que co-
mecara a citar exatamente quando co-
meqou a manifestaqao dos estudantes,
rendera 44 milh6es de reais aos muni-
cipios na sua area de influencia. Belo
Monte, se j tivesse operando, iria pro-
porcionar ainda mais: R$ 65 milhoes.
"Voc6s acham pouco? Eu acho bastan-
te. Mas a sociedade 6 que ter que ava-
liar o quanto representa, disse ele,
mostrando que a participaqao da Ama-
z6nia no sistema national de energia
subird de 8,9% para 9,3%.
Sua voz jd nao era ouvida. Uma das
organizadoras, ao lado, pediu aos mani-
festantes para deixarem o engenheiro
concluir sua palestra, que ji estava na
faixa de prorrogaqao de cinco minutes,
"se nao ela vai ficar ainda mais longa".
Ao que Rezende aduziu: "Se eles con-
tinuarem, vou ficar aqui a tarde toda".
Mas quando ao barulho dos estudantes
seguiram-se cantos e gritos dos indios,
ele se sentou na sua cadeira, na ponta
da mesa colocada num dos lados da


quadra de esportes. Armada do seu fa-
cgo, Tuira se dirigiu a ele, cantando e
danqando, como da outra vez. Outros
indios cercaram o engenheiro e come-
garam a agredi-lo.
O que prenunciava um massacre,
contudo, acabou com bem menos da-
nos do que os gestos sugeriam. Talvez
porque providencialmente o engenhei-
ro se manteve inerte e submisso (quem
sabe, por pavor), ou porque, no fundo,
os guerreiros soubessem do limited para
aquele ataque. Se fosse um impulse
completamente natural, 6 pouco prova-
vel que dele nao resultassem ferimen-
tos mais graves. E uma das caracteris-
ticas dos kayap6s quando agridem: po-
dem se tornar muito violentos quando
contrariados. Outro funciondrio da Ele-
trobrds, que defended seu colega, viu o
facto de um indio subir e descer vdrias
vezes, roqando ameaqadoramente sua
nuca. Mas nao foi ferido.

Uma vez vencido
o susto imediato,
nem se preocupou
mais em se defender,
concentrando sua
atengSio em Rezende. Ficou
claro que, esgotada a mise-en-scene,
todos escapariam. Nao se pode dizer,
entretanto, que o arranjo nao tenha sido
mais obra dos pr6prios kayap6s, ades-
trados nesse tipo de prdtica, do que algo
eventualmente sugerido por terceiros.
Esses indios sabem muito mais sobre o
que querem e os meios de alcanqar seus
objetivos do que os brancos costumam
estar dispostos a admitir, sejam parcei-
ros deles ou seus contrdrios.
A maioria da opiniao piblica pode ter
sido convencida pelo enredo apresenta-
do quase de pronto pelo delegado e, a
seguir, ecoado e enriquecido em unisso-
no pelos defensores da usina, dentro e
fora do governor, incluindo a imprensa:
corporaq6es internacionais ou paises
poderosos estao por trds das ONGs que
deram suporte ao novo encontro dos
povos indigenas do Xingu, usando como
base local a prelazia e suas ramificaqces.
Esses personagens nao querem que o
Brasil cresqa e se tome um concorrente
no mercado intemacional. Gostariam que
o pais permanecesse atrasado ou dei-
xasse que seus vastos recursos naturals
continuassem a ser explorados por agen-
tes externos. Os indios sao um instru-
mento precioso dessa estrat6gia: qual-
quer coisa que faqam tem repercusslo
em todo mundo, reforqando um ambien-


te contrario ao Brasil, uma das quatro
potencias emergentes do planet.
Esse 6 um script que pode ser aplica-
do a qualquer lugar e a qualquer tema
da Amazonia, independentemente da sua
demonstraqoo. E lanqado sobre qualquer
grupo que contrarie os exploradores de
came e osso que atuam na regiao, ou
que question as aq6es oficiais, tenden-
tes a favorecer estes seus parceiros.
Como hd realmente empresas e paises
interessados em conquistar uma presen-
Ca mais ativa na vasta fronteira amaz6-
nica, hi sempre verossimilhanqa nesse
discurso, mesmo que ele nao resista a
um teste minimo de consistencia.
Se existed competidores interessados
em sabotar o Brasil, hd tamb6m aqueles
com projetos especificos para o nosso
pais. Um dos mais importantes 6 trans-
ferir para a Amazonia empreendimen-
tos eletrointensivos com baixo valor agre-
gado, como a mineraqao, a siderurgia e
a metalurgia bAsicas. Essas atividades,
que v6m sendo descartadas no primeiro
mundo, demandam grandes quantidades
de energia. As fontes amaz6nicas efeti-
vas de energia estao exauridas, mas a
pressao desse setor produtivo estd em
expansao. Logo, ele precisa de mais
energia em grande quantidade. Nao hd
alternative em prazo comercialmente
viavel al6m da fonte hidrica para esses
empreendimentos. Do contrario, se qui-
serem ter continuidade (e querem), eles
terao que recorrer a hip6teses ainda mais
imediatas, como o carvdo, vegetal ou
mineral, que 6 eldstico, al6m do gas, li-
mitado, ao menos por ora.
Pelo menos esses interesses, que sao
concretos e podem ser apontados sem
maior elucubraqao, estao empenhados
em que saiam do papel projetos como o
de Belo Monte para o Xingu e os de Ji-
rau e Santo Ant6nio para o Madeira. Sao
interesses incorporados pelo establhish-
ment, tanto no piano federal quanto es-
tadual e municipal, no que se convenci-
onou chamar de "os desenvolvimentis-
tas", quase sempre a qualquer preqo
(embora haja os mais sofisticados).
Se muitos defendem as hidrel6tricas
por acreditar sinceramente nelas, hi os
que as combatem dotados da mesma
sinceridade. Boa intenq~o, por6m, nao
costuma ser o crit6rio da verdade. Ela
se firma pela demonstraqao e s6 pode
faz&-la aquele que domina os elemen-
tos do raciocfnio, que sao os fatos.
Mesmo que consigam barrar de vez
Belo Monte e qualquer usina no Xingu,
os indios garantirao a paisagem natu-
CONCLm NA PAG4


jornai ressoal *2 QUINZENA JUNHO


DE 2008










CONCLUAO DA FAG 3


ral, o mundo selvagem que integram, ou
pelo menos uma abordagem mais pon-
derada dos seus recursos?
Impedirao que o desmatamento pros-
siga, as vezes com a decisive colabora-
qao de alguns dos pr6prios grupos indi-
genas? Se a hidrel6trica pode vir a ser o
arremate dos males, na situaqao atual
nada assegura que at6 la os fazendei-
ros, madeireiros, assentados, minerado-
res, garimpeiros e outros "pioneiros" nao
continue a contribuir para que esse
arremate venha a ter importancia decres-
cente. O mal maior eles jA estdo cau-
sando e a oposiqao que os indios Ihes
move tem tido eficicia menor.
Em relaq~o a essas frentes, a ofensi-
va hidrel6trica, por ser incomparavel-
mente mais concentrada como epicen-
tro, ter uma vantage notivel: ela pode
ser mediada por provid8ncias acautela-
t6rias embutidas no licenciamento am-
biental, inexistente ou meramente formal
no caso das hordas de madeireiros, fa-
zendeiros, assentados, garimpeiros e
outros atores atomizados, por6m corro-
sivos como cupins.
Pouco antes da cena de impact em
Altamira, o Tribunal Regional Federal
autorizou a retomada dos estudos ambi-
entais de Belo Monte, sustados um pou-
co antes. Para isso, os empreendedores
aceitaram descartar a clausula de sigilo
desses levantamentos, algo completa-
mente absurdo. Mas nao foi tocada ou-
tra cliusula igualmente inaceitivel: os
futures realizadores da obra tratando da
sua viabilidade s6cio-ambiental, suspei-
qao que devia ser acatada como ques-
tao de principio. Por conta desse deta-
lhe relevant 6 de se prever mais um
capitulo de litigio nessa novela protago-
nizada pelo grupo EletrobrAs e o Minis-
tdrio P6blico Federal.
A hist6ria poderia seguir um rumo mais
racional e conseqiiente. Proponho uma
sugestao a exame. A Eletrobrds colo-
caria na rua um edital para a elabora-


qao dos terms de refernncia para o
EIA-Rima de Belo Monte, com prazo
curto (30 dias, por exemplo). Uma co-
missao decidiria sobre a melhor propos-
ta, comissao da qual participariam re-
presentantes das instituioqes federais de
pesquisa da regido e do setor el6trico.
O an6ncio da decisao seria feito em
sessao p6blica, cor direito a questio-
namentos a deliberaqgo. Definidos os
parametros dos estudos, uma nova se-
ria imediatamente aberta para os inte-
ressados em produzir o EIA-Rima. A
mesma comissao examinaria e delibe-
raria sobre as propostas, anunciando o
resultado em nova sessao piblica, aber-
ta aos interessados, excluidos os que
pretendessem participar da fase exe-
cutiva de obras.
O estudo de impact ambiental seria
financiado por um fundo pdblico a ser
criadoocom esse objetivo. Os gastos se-
riam apropriados como encargos da
obra, a serem ressarcidos pelo constru-
tor, obrigado a adotar as normas do
EIA-Rima, elaborado independente-
mente da engenharia, mas incorpora-
das a ela. O EIA-Rima seguiria o pro-
cesso de audi6ncias p6blicas at6 ser
submetido aos Conselhos national e
estadual do meio ambiente e aprovado.
Qualquer cidadio poderia denunciar
desvios do projeto e o Conama teria que
abrir procedimento de apuraqCo, em rito
sumarissimo, mas prestando contas ao
distinto p6blico.
Essa alternative forneceria todas as in-
formaq6es necessirias para responder
a virias quest6es, que ainda nao foram
atendidas pelos projetistas de Belo Mon-
te. Desde uma definigao convincente
sobre a viabilidade t6cnica e econ8mica
da usina, contestada por gente capaz, at6
mostrar se 6 possivel manter a integri-
dade do Xingu, conforme as aspiraq6es
dos indios, ou se esse 6 apenas um deli-
rante sonho de verao. Ao inv6s de partir
do pressuposto de que 6 precise viabili-
zar a hidrel6trica, deve-se tomar como
premissa uma pergunta ainda maior: por
que Belo Monte? E para quem?
Para comeqar pelo verdadeiro ponto
de partida, essa pergunta ter que con-
siderar a atual crise de energia, mais uma
vez demarcada pelos preqos records do
petr6leo, a maior e ainda a mais barata
das fontes massivas. A crise dos hidro-
carbonetos esti acelerando o estudo e a
implementagqo de alternatives, desde as
mais conhecidas (e temidas), como o
carvao mineral, at6 as verdadeiramente
revolucionirias, como a solar, a e6lica e
a fusdo nuclear. Cada um desses cami-


nhos tem seu cronograma e suas condi-
q6es. E precise considerar com acuida-
de cada um deles para decidir bem so-
bre aquela alterativa que, num exame
meramente superficial, parece a mais
evidence na Amaz6nia: os rios.
Podemos cometer o erro de travar o
fluxo de agua em rios fantdsticos para
criar uma energia que podera vir de fon-
tes com menor impact ambiental e so-
cial e, o que agravard ainda mais o
erro, mais baratas quando podiamos
dar a essas paisagens selvagens um uso
mais avanqado e nobre (cor a ciencia e
a tecnologia ajustados para esses fins),
na forma de produtos de muito maior
valor agregado do que aqos ou metais.

O scenario mundial
podera mudar
drasticamente se a
fusao nuclear, que
produzira energia a
base de Agua, sem o
efeito radioativo da
fissao nuclear, se
mostrar viavel. Mas quanto tem-
po sera precise esperar por essa revolu-
qFo? E de que maneira nos inseriremos
nela? Seremos autores ou apenas espec-
tadores nesse novo capitulo da hist6ria
da energia produzida pelo home? At6
lI, como resolveremos os problems de
hoje, alguns deles se torando de ontem?
Respostas a essas e muitas outras per-
guntas s6 serao dadas se os especialis-
tas examinarem o ambiente, com os pro-
p6sitos do saber e do conhecimento, an-
tes que outros personagens se apresen-
tem, com outros pap6is. O beneficio de
projetos de grande porte como o de Belo
Monte 6 que eles permitem esse traba-
lho pr6vio, de inventirio, de sondagem.
Sem os vicios que o process apresenta
atualmente, o EIA-Rima da hidrel6trica
pode ser a oportunidade de ouro, que
falta nas outras frentes, como a dos
madeireiros ou dos agricultores.
O protest dos indios do Xingu pode
servir para dar inicio a esse moment,
mas nao como resposta para as d6vi-
das, que subsistiram e i cena de viol6n-
cia. A partir daf, a busca tera que ser
coletiva. Neste cendrio, ningumn 6 o
finico artist nem o dono da verdade, por
mais que tenha um discurso pronto e
acabado (ainda que lacunoso), como
certos critics das hidrel6tricas, ou te-
nha uma roupagem cenogrifica de im-
pacto e um direito primal, como os indi-
os. O Brasil 6 formado por todos, mas e
muito maior do que cada um.


4 JUNHO DE 2008 .2QUINZENA Jornal Pessoal













A regiao amaz6nica vem batendo seguida-
mente records de demand instantanea de
energia, conforme os registros do Operador
Nacional do Sistema. O 6ltimo, at6 o fecha-
mento desta edicqo, foi no dia 20 do mes pas-
sado, quando seus reservat6rios estavam com
quase 99,7% da sua capacidade de armaze-
namento de agua, no auge do inverno. As
18h52 desse dia, o consume no norte do pais
alcanqou 4.197 megawatts, deixando para tris
o record anterior, registrado na v6spera, de
4.182 MW. Nesse mesmo moment a deman-
da de energia em todo o Brasil tamb6m era
record, com 65.019 MW. Mas a maior mar-
ca national anterior foi atingida num espaqa-
mento maior do que a amaz6nica, em 11 de
abril. A causa geral dos records, segundo o
ONS, foram as altas temperatures registra-
das em todo o territ6rio national.
No Norte o record teve uma causa adicio-
nal: nesse dia estava praticando um "elevado
intercambio" com as regi6es Nordeste e Su-
deste: transferindo para elas nada menos do
que 3.180 MW. Como conseqiiencia, aumen-
taram as perdas na rede de transmissao do
subsistema. A16m disso, o ONS observou que
houve acr6scimo de carga no ponto de medi-
qdo da Albris e da Alunorte em torno de 31
MWmddios em relacqo ao 6ltimo record ve-
rificado, al6m dos acr6scimos de carga nos
demais consumidores industrials.
O record de consume ocorreu exatamente
no dia em que os indios kayap6 atacaram o
engenheiro Paulo Rezende, responsivel pelos
estudos da hidrel6trica de Belo Monte, em Al-
tamira. A coincid&ncia devia recomendar cau-
tela, discerimento e lucidez na andlise da ques-
tdo energ6tica na regilo. A Amaz6nia contri-
bui com quase 9% da geraqgo national de
energia. A usina de Tucurui responded por 80%
dessa potencia.
No dia do record de consume, quase metade
da geraqdo energ6tica da regiao foi transferida
para o Nordeste e o Sudeste. De pouco mais da
metade usada internamente, acima de 50% fo-
ram absorvidos pelas duas fibricas de aluminio,
a Albris, em Barcarena, e a Alumar, em Sdo
Luis, os maiores consumidores individuals do
Brasil (com 3% do total). A outra metade foi
partilhada por 25 milh6es de habitantes, em suas
residencias e locais de trabalho, pagando uma
energia muito mais cara do que os dois empre-
endimentos eletrointensivos, que tnm direito a
tarifas incentivadas. Metade desses 3 mil MW
tem origem t6rmica, A base de 61eo diesel e gas.
Esse 6 o marco de referencia a considerar na
hora de definir o que se pretend fazer corn a
energia jd disponivel e com aquela que precisa


ser adicionada ao potential instalado. A manifes-
taqao dos indios 6 um dos components nessa
equacqo, de relevincia, enquanto int6rpretes au-
torizados e qualificados a falar sobre o mundo da
natureza. Mas nao podem ser considerados como
a tnica voz, a decis6ria. Eles pr6prios precisam
ponderar sua vontade pela realidade maior, se nao
quiserem ficar s6s ou criar elements para uma
negociaqao que acabard nao servindo ao interes-
se coletivo, nem ao sentido do verdadeiro pro-
gresso da regiao. Precisam obter informaq6es,
checi-las, aplici-las ao seu mundo e encontrar
um denominador comum, o que, evidentemente,
pressup6e sua consult e audiqao.
A usina de Belo Monte 6 um element estra-
nho e agressivo ao modo de vida deles e A pr6-
pria regiao que habitam. Mas os tupis, os caraf-
bas e os aruaques tamb6m foram (e continuam
a ser) invasores das terras dos j8s, grupo ao qual
os quais os kayap6s pertencem. Nem por isso
se vai aceitar que prossigam as escaramuqas do
passado, quando eles eram os unicos que dispu-
tavam o dominio do que hoje 6 conhecida (im-
propriamente, alias) como Amaz6nia.
As frentes lanqadas sobre o sertlo pelos
brancos colonizadores sao incomparavelmente
mais perigosas e destruidoras. Tribos como a
dos kayap6 tnm se tornado uma barreira a ex-
pansio dessas hordas agressivas e um susten-
ticulo da integridade do espaqo original, A es-
pera de melhor conhecimento para uso mais
nobre. No entanto, a vontade dos indios nao
tem sido suficiente para center essas frentes
da mesma maneira como vem conseguindo em
relagao a Belo Monte.
Na simulaqao que fez recentemente, atrav6s
de um poderoso software de computador, o "Si-
mAmaz6nia", o LBA (Programa da Grande
Esfera-Atmosfera da Amaz6nia, o maior em-
preendimento cientifico sobre a regiao) chegou
a conclusao de que, mantida a tendencia atual
de desmatamento, em 2050 a bacia do Xingu
teri perdido dois terqos da sua vegetaqao. Isto
6, sern considerar o efeito Belo Monte, que
podera incrementar ainda mais essa tendencia,
mas traz consigo tamb6m a possibilidade de se
examiner e reenquadrar a questdo, que as ou-
tras frentes nIo oferecem.
A combinaqao do voluntarismo guerreiro dos
indios, enfdtico entire os kayap6s, e certa into-
lerancia marcante entire seus aliados brancos,
individuals ou institucionais, que manejam a ver-
dade como se ela fosse parte de uma tibua das
leis, s6 acessivel a eles, os escolhidos, pode at6
sepultar o projeto da hidrel6trica, que at6 hoje
nao foi convincente, mas nao refard a realida-
de, que prossegue e prosseguird por outros ca-
minhos. Provavelmente piores.


Realidade e fantasia


no mundo da energia


Jornal Pessoal *2 QUINZENA JUNHO DE 2008 5


Uma
biografia

Seu nome complete pou-
ca gente conhecia: Jos6 Je-
fferson Carpinteiro Peres,
uma aliteraglo imponente.
Talvez o nome que melhor
o definisse fosse o Carpin-
teiro. Foi a impressao que
tive nos tres contatos pes-
soais com ele, um em Ma-
naus e dois em Brasilia.
Mesmo senador, se aproxi-
mava cor verdadeira curi-
osidade e sincera vontade
de aprender. Ouvia cor
atenq~o e absorvia as pala-
vras antes de, como regra,
contraditd-las. Feio, peque-
no e magro, tinha uma apa-
rencia nada simpatica. Mas
logo cativava por um com-
ponente da sua personalida-
de que a political praticada
no Brasil ter corroido gra-
vemente: a autenticidade.
Combinada cor honesti-
dade, essa virtude 6 de fa-
zer a desgraqa de um politi-
co professional. Mesmo as-
sim, Jefferson Peres teve
voto bastante para chegar ao
senado sem fazer qualquer
concessoo fundamental. Foi
um produto tao surpreenden-
te da manifestaqgo do elei-
torado do Amazonas quan-
to, virias legislatures antes,
o tamb6m senador Evandro
Carreira, que destronou o
todo-poderoso Flivio Brito.
Cor a substantial diferen-
qa de que Jefferson Peres
nao fez feio no desempenho
de sua missao political, mui-
to pelo contrario.
Quando sentiu que sua
permanencia num senado
mediocre e triste poderia
afetar sua integridade, deci-
diu nao concorrer mais a
uma nova eleicqo. Infeliz-
mente, a morte se antecipou
a mais essa demonstragqo
de lucidez. De qualquer for-
ma, por6m, o bravo senador
amazonense se credenciou
a algo cada vez mais raro
nas elites brasileiras: trans-
cender a morte com seu tes-
temunho de vida.










O deputado federal Jader Barbalho, um
dos coveiros da Sudam, extinta hd sete
anos em meio a denincias e processes
sobre corrupao no uso dos recursos dos
incentives fiscais, n~o compareceu ao ato
de renascimento da Superintendencia do
Desenvolvimento da Amaz6nia, na sema-
na passada, em Bel6m. O president Luiz
Inicio Lula da Silvajustificou indiretamen-
te essa ausEncia quando disse que os cor-
ruptos devem ser punidos, mas a institui-
qao precisa sobreviver.
A declara~go nao foi uma refer8ncia
direta ao ex-ministro, responsivel pela in-
dicaqao dos iltimos superintendents da
Sudam, mas a associaqao seria feita de
imediato por muitos dos ouvintes. Se nao
assumiu a responsabilidade pela critical en-
viesada, e mesmo que essa nem tenha sido
a sua intengdo, Lula foi fiel ao seu estilo:
tirar proveito das duas faces da mesma
moeda. Ficou ao lado dos que teriam re-
chaqado a presenqa de Jader ao ato, mas
nio fechou a porta ao ex-govemador, que
6 um dos seus principals aliados no Pari.
0 eixo condutor de Lula, em meio a tan-
tos ziguezagues, 6 a preservaqao do po-
der que ji tem e a execuqao dos seus pia-
nos para mais poder. O alto indice de po-
pularidade Ihe permit recuperar eventu-


No dia 29 a Federaqao das Indistrias do
Pard concede a medalha de m6rito indus-
trial Simrio Bitar ao president da Compa-
nhia Vale do Rio Doce, o paulista Roger
Agnelli. Nesse mesmo dia o Didrio do Pard
dedicou ao acontecimento um cademo es-
pecial com oito piginas, tres delas de antin-
cios. O Liberal s6 reagiu no dia seguinte ao
tratamento mais destacado dispensado pelo
concorrente a um dos maiores anunciantes
da imprensa paraense (e national): Roger
apareceu na maior e mais destacada foto da
primeira pigina dojomal, ao lado de tres di-
retores da corporaqao, dentre eles o seu se-
gundo executive, Ronaldo Maiorana (o pri-
meiro, Romulo Maiorana Junior, andou de-
saparecido nesse periodo.
A visit a Bel6m do president Lula fi-
cou na parte de baixo da capa, em espaqo
muito menor. O president da Vale rece-
beu mais tr8s pdginas no primeiro cadermo
do jomal, uma delas s6 de fotografias, no
melhor estilo das colunas sociais de Be-
16m. A cobertura continuou a ser tao ge-
nerosa na ediqao dominical, tanto de O
Liberal quanto do Didrio do Pard, que
foi precise repetir fotografias A falta de


ais desgastes por seus constantes escor-
regies estilisticos e impropriedades de lin-
guagem. Foi assim que ele procurou com-
por os variados e conflituosos interesses
da sua ampla base de apoio politico. Se
Jader Barbalho nao estava no palanque, li
se encontrava seu filho e herdeiro politico,
o prefeito de Ananindeua, Hdlder Barba-
lho, que assinou convenios para obras do
PAC (Programa de Aceleraqao do Cres-
cimento). Na plat6ia, a ex-esposa, a depu-
tada federal Elcione Barbalho.
Quando a claque petista comegou a apu-
par o prefeito petebista Duciomar Costa,
como pai compreensivo, Lula alertou-a
que, comportando-se assim, estava dando
motives para a imprensa dar maior desta-
que a esse fato lateral do que aos aconte-
cimentos principals da solenidade. A ree-
leiqo do prefeito, que 6 tambdm aliado,
depend da potencia da maquina official,
reforqada pelas verbas federais liberadas
ou autorizadas, para puxi-lo, e do indice
de rejeigqo, que 6 alto, mas ainda nao che-
gou a escala inviabilizadora. Conv6m, por-
tanto, nao queimar essa altemativa: de o
PT national nao ter prejuizo, muito pelo
contririo, de uma derrota em Bel6m para
Duciomar.
E assim que Lula vai.


opqoes visuais (ji que a image prevale-
ceu sobre o texto e este foi redundante
na hagiografia).
Quanta diferenqa do tratamento que O
Liberal dispensou A Vale e a Agnelli at6
cinco anos atris. Por dias e dias a empresa
foi alvo, em 2003, de sucessivas matdrias
de critical e de editorials, um dos quais ocu-
pou mais espaqo na capa dojomal do que a
inflada e adjetivada cobertura da premia-
qdo. Afolha dos Maiorana explicou a razao
de mudanca tZo radical? Nao, claro: pibli-
co foi feito para comprar journal, nao para
saber da verdade atrav6s da sua leitura.
Mas todos sabem: a ofensiva virulenta
foi uma represilia do grupo Liberal a de-
cisdo da Vale de nao aderir a uma das
promoqdes caqa-niqueis da corporaqgo.
E o endeusamento atual result da farta
verba publicitaria que a Vale passou a
destinar A midia. O beija-mlo ficou tao
desbragado que o efeito pode ser o in-
verso do pretendido: ao inv6s de transmi-
tir credibilidade, a untuosa cobertura dis-
pensada pela imprensa A Vale acabara por
desacredita-la. Todos sabem que os far-
tos elogios custam 30 dinheiros.


Political no palanque


6 JUNHO DE 2008 .2 QUINZENA Jornal Pessoal


Ilegalidade
As v6speras de mais uma eleiqlo,
se intensificou o movimento de exo-
neraqao e nomeaqao de assessores
especiais da governadoria. O fluxo
segue o sentido dos interesses politi-
cos, eleitorais e clientelistas da che-
fa do poder executive. Para o funci-
onamento da administraqco piblica
estadual significa rigorosamente
nada. E o apandice mais oneroso da
miquina official.
Enquanto isso, o executive continue
a ser o 6nico dos poderes institucio-
nais a nao publicar o demonstrative
da remuneraqao de pessoal. O gover-
no de Ana Jilia Carepa jd descum-
priu por oito vezes essa exigencia da
Lei de Responsabilidade Fiscal e nin-
gu6m faz nada para obrigi-la ao ato
legal. Copiando exatamente o que fez
o governor anterior do tucano Simao
Jatene, o govero do PT provavel-
mente nao quer revelar A opiniao pi-
blica essa imoralidade que 6 a sua as-
sessoria especial, gravitando em tor-
no de mil cargos.
O Para continue a ser a triste terra
na qual lei 6 potoca.


Homenagem
Este jomal foi um dos homenagea-
dos durante a realizacqo da Semana
da Comunicaqao 2008, realizada pelo
curso de comunicaqao social da Una-
ma (Universidade da Amazonia), en-
tre os dias 26 e 30. A semana deste
ano foi dedicada aos 200 anos da im-
prensa no pais, com a circulaq~o do
primeirojoral brasileiro (embora edi-
tado em Londres), o Correio Brazili-
ense, de Hip6lito da Costa, em 1808.
A Radio Clube do Pard, agora inte-
grando o sistema RBA, da familiar
Barbalho, tamb6m foi homenageada
por completar 80 anos de funciona-
mento. O JP mereceu a distinqao "pela
luta para manter viva a voz da Ama-
zonia nestes 20 anos de Jornal Pes-
soal, exemplo que inspira a todos n6s".
Agradeci, realmente comovido, a ini-
ciativa dos alunos e professors do cur-
so, que, al6m das atividades acad6mi-
cas, mant6m uma emissora de televisao,
outra de ridio, um comunicado sema-
nal (que esti pr6ximo de 1.500 ediqaes)
e um jomal-laborat6rio. E uma faqa-
nha, A qual a semana, a mais antiga do
meio universitario, se agrega como pro-
va da fecundidade do curso. E da ge-
nerosidade dos seus integrantes.


Louvagao desbragada







Boa intengao nao falta,


mas a Amazonia diminui


Em margo, quando ainda era minis-
tra do meio ambiente, a acreana Mari-
na Silva assinou uma portaria recomen-
dando ao Conselho Monetario Nacio-
nal a suspensao, a partir de 1 de julho,
do cr6dito agricola official em 527 mu-
nicipios localizados no bioma Amaz6-
nia e na faixa de transigqo do Centro-
Oeste para a regiao. A media provo-
cou grande reaqao dos proprietarios ru-
rais, que usaram o governador Blairo
Maggi como porta-voz, ja que Mato
Grosso seria o Estado mais atingido pela
restriqao. Maggi, que tamb6m 6 um dos
maiores produtores de soja do mundo,
nao se fez de rogado: girou sua metra-
lhadora verbal sobre a ministry, que cai-
ria menos de dois meses depois.
Na semana passada, quase 20% dos
municipios da lista original de Marina
foram dela excluidos, por ato assinado
pelo president Lula e endossado pelo
novo ministry do meio ambiente, o cari-
oca Carlos Minc. Ao contrario dos de-
mais, que serao punidos corn a privaqao
de cr6dito p6blico (o mais barato e de
mais long prazo), por terem desmatado
al6m do limited legal, 100 municipios lo-
calizados na area de transiqao da vege-
taqao aberta para a mata densa amaz6-
nica receberao recursos do tesouro na-
cional para recompor as suas reserves
legais (ocupando 80% da area do im6-
vel rural) e assim poderem se habilitar
novamente ao cr6dito agricola.
A verba reservada a essa operaqao 6,
aparentemente, significativa: um bilhdo
de reais. Mas da, em m6dia, R$ 10 mi-
lhbes por municipio. E quase inexpressi-
va, se comparada aos valores embuti-
dos no PAC (o Programa de Acelera-
gao do Crescimento, a versao pe-
tista quase sem novidade dos
"projetos de impact" do regime
military e do "Avanqa Brasil" de
FHC). S6 o Pard recebera do
PAC (se efetivamente receber)
R$ 6 bilh6es por ano durante tres
anos, at6 2010.
Ainda assim, seria uma iniciati-
va complementary e corretiva A
portaria de marqo da ja novamen-
te senadora Marina Silva. Ela ape-
nas punia. O MMA pragmatico
(apesar de tonitruar em falsete) de
Minc 6 mais positive: ele oferece
os meios para que as proprieda-


des que se tornaram ilegais pelo exces-
so de desmatamento possam corrigir o
mal que causaram A natureza e ao pais.
E um esforqo in6dito, ao qual sejunta-
ra, cada vez mais, a boa-vontade inter-
nacional. Com o mesmo objetivo, de
manter a floresta amaz6nica em p6, de-
pois de extirpada ou substituida em 17%
do seu territ6rio pela aqgo dos pioneiros,
6 governor da Noruega se comprometeu
a aplicar 500 milh6es de d6lares durante
o pr6ximo qiinquinio. A Dinamarca pre-
tende fazer o mesmo e ja reservou 100
milh6es de euros para o program de
Areas Protegidas da Amaz6nia, o Arpa,
"o maior program de conservaqao de
florestas tropicais do mundo", que Lula
herdou de Fernando Henrique Cardoso.
Seria muito bom se pudesse ser de ver-
dade. Se o dinheiro vier e na escala
prevista, de dimensdo amaz6nica ha-
verd como controlar a sua aplicaqao, im-
pedindo que desvie por desvaos especu-
lativos ou simplesmente in6cuos? O go-
vero brasileiro tem sido pr6digo corn uma
das maos, a que sustenta a frente produ-
tiva, e escasso cor a outra, a que procu-
ra ajustar a atividade econ6mica As re-
gras do bom uso dos recursos naturais,
englobadas pelo embrulho do desenvolvi-
mento sustentavel. Acaba por criar, com
essas distintas ponderaq6es, um desequi-
librio estrutural, que procura corrigir nos
efeitos, raramente atacando suas causes.
Novos tipos de neg6cios, engendrados
pela preocupaqao com a saide fisica do
planet, atacada pela aqao transforma-
dora do home, ji estao em curso. Como
sempre, a iniciativa privada se antecipa
ao governor e, assim, o manipula. A corri-
da as terras amaz6nicas foi aquecida e





.


* .4


as areas com cobertura vegetal native
comeqam a ter outro atrativo para os in-
vestidores. O efeito dessas correntes
pode ser o incremento da grilagem de ter-
ras e o uso especulativo de projetos cor
aparencia de seriedade e cientificidade.
O governor, retardado no compasso des-
sa dinamica, tenta, mais uma vez, recu-
perar o tempo e as acqes perdidas. O
ministry Carlos Mine prometeu concluir
o zoneamento ecol6gico-econ6mico, que
6 a r6gua e o compasso para o novo de-
senho territorial, at6 o pr6ximo ano. Ha
15 anos essa ladainha 6 entoada. O atra-
so j comprometeu parte do seu potenci-
al: o que havia para organizer, agora deve
ser corrigido se tal 6 possivel.
O descompasso entire os que querem
corrigir e os que pretended manter o
mesmo tipo de procedimento na Ama-
z6nia constitui a razao do baixo signifi-
cado de iniciativas positivas, como as que
foram anunciadas em Bel6m. O gover-
nador Blairo Maggi, o grande vitorioso
no abrandamento das puniq6es e na
ampliaqao dos beneficios aos produto-
res rurais desmatadores, garante que
dois terqos dos municipios do seu Esta-
do fazem parte do Centro-Oeste e nao
da Amaz6nia, devendo ser reenquadra-
dos pelas political publicas.
Se hi certo fundamento geografico no
argument do dono do grupo Maggi, ele
se torna insatisfat6rio na esgrima verbal
do vizinho Estado de Rond6nia, que tam-
b6m reivindica essa desclassificaqdo,
principalmente para se livrar do limited de
80% de reserve imposto pela legislagqo
aos im6veis situados em areas de flo-
resta amaz6nica. Com boa ou mi inten-
qao, a adaptaqgo da aqdo p6blica a essa
realidade, se tem o efeito saudi-
vel de possibilitar sua atenuaqdo,
considerando-se que o leite ji
esta derramado, lanqa uma fuma-
qa sobre o future da Amaz6nia,
tao densa e nefasta quanto a que
ocupari os c6us da regiao ao lon-
go dos pr6ximos meses.
A temporada annual de queima-
das e desmatamentos, mais ou
menos agressiva, tem sido a ga-
rantia de um fato constant, in-
dependentemente de quem este-
ja sentado no trono de Brasilia: a
Amaz6nia esta cada vez menor.
E mais pobre.


Journal Pessoal *2" QUINZENA JUNHO DE 2008










LUZ
Bel6m ainda era uma cida-
de As escuras hi meio s6cu-
lo. Foi s6 em 1958 que vias
importantes da cidade rece-
beram redes de iluminaqao
public, instaladas pela For-
qa e Luz do Pard (a Forluz,
que antecedeu a Celpa). Re-
ceberam o beneficio a aveni-
da Generalissimo Deodoro,
em toda sua extensao; a Sao
Jer6nimo (atual Govemador
Jos6 Malcher) at6 a praqa
Floriano Peixoto; a Senador
Lemos, entire o Igarap6 das
Almas (Doca de Souza Fran-
co) e a praqa Brasil; a tra-
vessa D. Pedro II, at6 a pra-
qa Brasil; as praqas da Ban-
deira e D. Pedro II, e a rua


Jodo Diogo, no trecho por tris
do palacio Ant6nio Lemos,
sede da prefeitura.

INDIOS
Como a imprensa de Bel6m
noticiou que indios kayap6 ti-
nham sido mortos por traba-
lhadores do seringal Laranjei-
ra, no rio Iriri, Francisco Mei-
reles, que era inspector do SPI
(Serviqo de Proteq~o ao In-
dio, antecessor da Funai), foi
hi ver com os pr6prios olhos.
Tranqiiilizou o dono do serin-
gal, Raimundo Oliveira, de
Altamira: a noticia nao pas-
sava de boato. Chico Meire-
les foi um dos maiores serta-
nistas do Brasil. Seu filho,
Apoena, seguiu a carreira.


\MQ7\LAIi DO


Ambos ji morreram. Os
kayap6s foram a estrela prin-
cipal do encontro da semana
passada em Altamira.

CANAL
0 DNERu (Departamento
Nacional de Endemias Ru-
rais) foi quem deu inicio aos
trabalhos de saneamento e
canalizaq.o do igarap6 das
Almas (ou das Armas), que
hoje constitui uma das vias
mais conhecidas de Bel6m, a
Doca. Como o dinheiro da
SPVEA (Superintendencia do
Piano de Valorizaqao Econ6-
mica da Amazonia, que ante-


cedeu a Sudam) saia pinga-
do, as obras se estenderam
ao long da ddcada de 50.
passando para o decenio se-
guinte. Em 1958 parte do ca-
nal estava construido e o
DNERu, chefiado pelo mddi-
co Luis Scaff, lanqou dois
grandes tubos sob o leito da
avenida Senador Lemos. nos
quais foram adaptadas duas
comportas para fazer o con-
trole das aguas. Tambem
prosseguia o aterramento das
margens do igarap6 entire a
avenida e as docas do porto
de Bel6m. Obra autintica de
Santa Engricia.


ESTRADA
Na mesma 6poca. o supe-
rintendente da SPVEA, o pes-
sedista Waldir Bouhid, lanqa-
va nota official para rebater
critics feitas pelo deputado
estadual Ferro Costa (de opo-
silao ao PSD, que dominava
a political local), sobre irregu-


PROPAGANDA

Cinema de
lagrimas

Ainda era um bomn programia,
no final da dicada de 50, ir
aos cinemas de sublrbio, que
existiam em quantidade
razocvel e ofereciam algum
conforto aos seus
freqiientadores (e o mais
important: um digno
escurinho). Dos melhores era
o Cine Arte, na praca Brasil,
substituido por um dos
tempos da igreja do bispo
Edir Os files franceses se
alternavam corn os dramas
mexicanos e italianos, como
os deste anuincio, corn muito
motive para tensdo e
choradeira. Os cinemas eram
um dos elements marcantes
na composiifo da paisagein
suburban que
desapareceram.


JUNHO DE 2008 .2 QUINZENA Jornal Pessoal


EM 1958


DOMINGO. AS 10 HORAS
EM AVANTE-PREMIfRE


HOJE is 13,30 15,30 17,30 19,30 21,30
horas HOJE






Pai. MAHIMEAlI


Domingo, as 10 horas, em avant-premi6re: "CONDENADAS PELO MUNDO"
corn Amedeo Nazzari.












































FOTOGRAFIA

Recuperagao, final
Parece que, desta vez, a cathedral de Belim finalmente
serd restaurada. Demorou tanto que vdrios
components da paisagem no largo da Se
desapareceram ou se descaracterizaram, como mostra
esta imagem da ddcada de 50. Espera-se que as obras
consigam recompor a harmoniaque havia, mais
compativel com a Cidade Velha, que caminhava para
se tornar Cidade Desaparecida.


laridades na construqao da
rodovia Bel6m-Brasilia, em
pleno curso. 0 parlamentar da
UDN apontava irregularida-
des e favorecimento na obra.
A nota garantia que ela seguia
"o mesmo crit6rio adotado
para a construgao da rodovia
Rio-Sao Paulo" e que recebia
do governor (de Juscelino Ku-
bitscheck) "maior importancia
e ainda maior urgencia em sua
execucao" do que a conferi-
da a famosa via Dutra. Se era
verdade entao, deixi-lo-ia de
ser, como bem podia dizer o
successor de JK, o perform-ti-


co Janio Quadros. A B-B fez
a primeira ligagoo por terra de
Bel6m ao restante do Brasil,
atrav6s da capital federal que
Juscelino tamb6m levantava
entao: Brasilia.

TELEFONE
O service telef6nico entire
Icoaraci e Bel6m voltou a
funcionar em agosto, depois
de muitos anos de desativa-
Cao. O 6nico aparelho colo-
cado a disposiqao foi insta-
lado no mercado municipal
da vila e o interessado podia
usi-lo por at6 tres minutes.


De Icoaraci para a capital o
funcionamento era automa-
tico. No sentido inverso, o
usuirio tinha que discar o 01.
A prefeitura e a companhia
telef6nica planejavam insta-
lar uma banca com 25 apa-
relhos. Em anos anteriores
havia linha direta cor o Cur-
ro Maguari, a usina Concei-
qio e a Ponta Grossa.

ESCRITOR
John dos Passos, um dos
maiores escritores america-
nos do s6culo passado, este-
ve em Bel6m h6 exatos 50
anos. O famoso autor de ro-
mances como USA e Dinhei-
ro, visitou a capital paraense
em agosto de 1958. Foi ho-
menageado pelo Centro Cul-
tural Brasil-Estados Unidos
corn um almoqo no entio
muito ativo consulado ameri-
cano. Tanto que havia o "Ge-
orge Colman Club", em ho-
menagem ao consul, que pro-


movia festas e tertulias artis-
ticas. Na 6poca em que veio
a Bel6m, Dos Passos ji nao
era mais esquerdista.

CINQUENTENARIO
A agencia do Banco do Bra-
sil comemorou os 50 anos da
sua instalagio em Bel6m cor
um baile de gala na sede do
Autom6vel Clube do Brasil.
para o qual convidou os asso-
ciados da seqao local do fa-
moso clube, que jamais pro-
moveu uma s6 cornida de car-
ro entire n6s. O traje era rigor.

NASCIMENTO
Como era de bom tom na
6poca, Carlos Alberto e Ma-
ria Rende Fidalgo Chady co-
municaram, atrav6s de nota
paga na imprensa. o nasci-
mento de sua primogenita.
Tania Maria, ocorrido na
Beneficente Portuguesa,
"aos cuidados m6dicos do
Dr. Carlos Costa".


Journal Pessoal .2' QU/NZENA JUNHO DE 2008


. JUNHO DE 2008


Jornal Pessoal *2 QUINZENA


CO' r-"

I_____________ ________









Venda em queda


A vendagem do Jornal Pessoal cai
hi seis ediq6es seguidas. Se for pela per-
da de qualidade no conteido, os leitores
devem se manifestar. Pela minha avalia-
gao, ojornal nao sofreu qualquer mudan-
qa significativa que pudesse afetar sua
receptividade entire seus clients. Gosta-
ria, por6m, que defensores de opiniao
contriria se manifestassem. Enquanto
essa resposta nao vem, outras causes pos-
siveis do fato podem ser arroladas.
A mais evidence delas 6 a dificuldade
do leitor para ir atris do journal nas ban-
cas de revista, seu principal ponto de co-
mercializaqio. O pliblico do JP se acos-
tumou eja se viciou a receber as pu-
blicaaqes do seu interesse em casa, atra-
v6s de assinatura, principalmente no caso
das revistas nacionais, ou pelojomaleiro,
quando se trata da imprensa local.
Muitos profissionais se limitam ao cir-
cuito casa-trabalho nos dias de semana


e nem sempre se dispiem a sair do ca-
sulo de lazer (cada vez mais em ambi-
entes fechados) nos fins de semana (e
as bancas estIo expostas no mundo pe-
rigoso das ruas, que recendem a reali-
dade). O desligamento do centro nervo-
so da cidade 6 quase total para muitos
que converge para locais mais afasta-
dos, como o campus da UFPA. E fre-
qiiente que s6 se apercebam da ediq~o
do journal quando ela jd foi recolhida.
Para os que ainda se apresentam dis-
postos a de alguma maneira ajudar ojor-
nal a sobreviver, minha sugestao tern sido
simples e curta: comprem-no. Se possi-
vel, mais de um exemplar. As vezes sou
levado a achar que para esses volunti-
rios 6 mais viavel meter a mao no bolso
e tirar uma cddula de dinheiro para doar
ao journal do que adquiri-lo. S6 a segun-
da hip6tese me agrada. Mas ela parece
em franco declinio, mais do que tudo por


comodidade do leitor, ainda mais se ele
for do g6nero intellectual.
Outras raz6es podem ser ainda enfilei-
radas: a concorrencia da internet, o pre-
qo, a aparancia desanimadora da publi-
caqdo, etc. Mas nenhuma 6 mais desani-
madora do que, depois de um elogio ao
joral, o interlocutor, questionado sobre
sua leitura, responder que, infelizmente.
nao conseguiu obter a tiltima edidio (ou
as iltimas). Ir atris do journal parece ser
uma atividade exaustiva. Geralmente ela
reflete o estado intellectual do declarante:
em extrativismo mental, A espera do pro-
duto acabado da verdade, entregue em
domicilio (ou delivery, como conv6m).
Enquanto isso, o mundo gira e a Lusi-
tana roda. E, naAmaz6nia, um mundo e
criado a cada quinzena, sem que nos
apercebamos dele. Provavelmente s6
quando ele se houver transferido para
outro mundo.


JADER
Ao ler o texto jomalistico "Pa-
trim6nio de Jader 6 bloqueado (por
ora)" da ediCio n" 418 do Jornal
Pessoal nao pude deixar de comen-
tar a afirmaqao do advogado do ex-
senador de que a aqao civil pdblica
movida pelo Minist6rio Publico
Federal estaria prescrita.
Tal assertive nao esta correta,
haja vista que, salvo engano, a aqao
judicial objetiva obter o ressarci-
mento dos prejuizos causados ao
erario. Nesse caso, o pardgrafo
quinto do artigo 37 da Constitui-
cqo Federal de 1988 disp6e que "A
lei estabelecerd os prazos de pres-
criqio para ilicitos praticados por
qualquer agent, servidor ou nao,
que causem prejufzos ao erario,
ressalvadas as respectivas ages
de ressarcimento."
O que a Constituicao quer di-
zer 6 que nio haverd prazo de
prescriq~o quando a a~o judicial
buscar reparar dano ao patrim6-
nio piblico. Ou seja, nao existe
um prazo maximo para pedir a
condenaqco de algu6m a devolver
recursos ptiblicos que, no caso da
Sudam, possivelmente tenham
sido utilizados indevidamente
(desviados) pelas pessoas que
obtiveram o financiamento.
Portanto, como costuma-se di-
zer em Direito, o ressarcimento ao
erario 6 imprescritivel, e o rest 6
conversa fiada.
Marcel Macedo

PERIFERIA
Lendo seu jomal (maio de 2008,
da 1 quinzena), me deparei cor sua
mat6ria a respeito da defensora pi-


blica assassinada em seu apartamen-
to. E concluiu a mat6ria, enfocando o
novo period de eleiices political
para os municipios, e acho fundamen-
tal que n6s, cidadaos, devamos esco-
Iher nossos representantes, tanto da
esfera municipal como das outras, da
forma mais cautelosa possivel.
Sou soldado da Policia Militar
ha dois anos, e trabalhojustamente
nos bairros da Terra Firme e Gua-
mi (dois dos mais violentos bairros
de Bel6m), e 6 comum, nas rondas
de rotina, encontrar um grande ni-
mero de crianqas pelas ruas a qual-
quer hora da noite, brincando por
cima das pontes improvisadas, ou
jogando futebol em cima dos caro-
qos de acai, usados para aterrar as
ruas, e parties alagadas. Aliais, 6 o
6nico contato que essas crianqas
terdo com o aqai, pois sua polpa 6
exportada, dificultando o acesso a
este produto, devido ele encontrar-
se mais caro no mercado interno.
Sinceramente! Sinto vergonha
de trabalhar num local desses como
policial, pois a dnica forma que o
Estado atua nesses bairros (e mui-
tos outros), 6 como repressao.
Como voc8 bem falou, o Estado nao
procura investor (ou invested pouco,
e muitas vezes por pressso das clas-
ses populares exigindo melhores
condic6es de vida) nesses bairros
perif6ricos, deixando de lado as
political p6blicas voltadas para o
bem-estar social, nio visando a in-
clusao social dessas crianqas como
cidadaos ativos, fazendo corn que
se sintam incluidos no espaqo, e
como transformadores deste.
Da forma como o Estado vem
lidando cor essa situaalo, essas
criancas se tornaram os futuress
infratores", dando problemss para
policia", que sempre procura legiti-


mar a aqao do Estado, este como
reflexo das elites burguesas. Mas
tamb6m, pudera! Aq6es piblicas
como essas n~o geram votos de for-
ma instantinea. O que gera votos
sao as "obras que aparecem". Acre-
dito que para resolvermos o pro-
blema da violencia (pelo menos ame-
nizi-lo), temos que agir na "raiz do
problema" para poder sani-lo, e a
chave, esti nas crianqas.
O Estado tem que oferecer uma
boa estrutura, como: escolas de in-
formiticas, cursos profissionali-
zantes, creches, escolas de futebol,
natalio, v6lei, entire tantas outras.
Mas nIo apenas isso: o Estado
deve construir moradias populares
para essas families, e pavimentar
as ruas em que elas moram, ofere-
cendo empregos com carga horaria
reduzida e bons salirios para os
pais dessas crianqas, construindo
varias praqas e outras Areas de la-
zer nesses bairros. A implantaqgo
desses projetos, deve vir com ful-
cro em political voltadas para a
permanencia dessas pessoas nes-
sas dreas (pois os pobres tamb6m
tem direito ao centro da cidade),
para que nio ocorra o process de
expulsdo desse moradores para
outras areas perif6ricas.
Desde ji, parabenizo-o pelo
excelente trabalho que voc6 vem
desenvolvendo, publicando materi-
as acerca dos diversos problems
do Pard, e principalmente de sua
estrutura political, que os jornais
locals procuram omitir, e publicar
as informaq6es de acordo cor seus
interesses.
Sinceramente!
"Chegou a hora de sermos
cabanos!"
Edionisson da C. dos Santos,
soldado da Policia Militar do Pard


JOURNAL
Al6m dos comentirios de Ma-
nuel Dutra e Benedito Carvalho.
reforqando o seu compromisso
com a verdade, ao fazer um jorna-
lismo comprometido corn a pro-
blemitica amazonica. desmistifi-
cando as political desenvolvimen-
tistas nao comprometidas cor o
native desta regiao. gostaria de
acrescentar que. como leitor e
professor assiduo do seu journal.
tenho utilizado sistematicamente
o conteido das suas rcportagens
como material diditico, tanto na
rede piblica estadual nas discipli-
nas hist6ria e sociologia como
numa institui.ao particular corn a
discipline political e gestao ambi-
ental. Entretanto, ao tecer comen-
tdrios sobre o conteddo de suas
reportagens, principalmente com
relaaio i questao ambiental e os
bastidores da political, a minha
surpresa fica por conta do desco-
nhecimento da existencia do
seu journal. tendo em vista que os
guias academicos tem enfoque
voltado para a realidade amazoni-
ca. Somente a partir dos comen-
tarios que a indagagio: aonde pos-
so adquirir esse journal?
De qualquer maneira. Licio,
como santareno, fica a minha gran-
de admiraqro pelo seujornalismo
comprometido e pela sua persis-
tkncia em manter o Jornal Pesso-
al por mais de vinte anos, enfren-
tando todas as adversidades.
Mario Liicio de Souza
Monteiro
MINHA RESPOSTA
0 Journal Pessoal pode ser
adquirido na maioria das bancas
da cidade e em algiumas livrari-
as, como a News Time, no Shop-
ping Iguatemi.


JUNHO DE 2008 .2 QUINZENA Jornal Pessoil








0 jornalismo e Gramsci

Decidi atirar eisfavas os escripulos de pudor e dividir corn os leitores o prazer e a alegria de partilhar um texto que
MarcoAurdlio Nogueira inseriu (sem consult nem avisoprevio) no seu blog Possibilidades de Politica, no dia 27, sob o
titulo "Ldcio Flavio Pinto, Gramsci e o Jornal Pessoal". Marco d professor titular da Unesp, a Universidade do Estado de
Sdo Paulo, no campus de Araraquara. Soci6logo desde 1972, obteve o titulo de doutorpela USP e o de p6s-doutor
pela Universidade de Roma. Tern vdrios livros publicados sobre sociologia, ciencia political e hist6ria.


Estudei corn Lucio Flavio Pinto na
Escola de Sociologia e Politica de
Sao Paulo nos primeiros anos da d6ca-
da de 1970. Foi la que nos conhecemos
e nos tornamos amigos.
Para que se dimension bem o fato,
foi cor ele que li pela primeira vez os
Cadernos de Gramsci. Viramos dias e
noites discutindo as notas sobrejornalis-
mo e revistas culturais que integravam
Os intelectuais e a organizagao da
cultural e agora estao no volume 2 da
edigFo brasileira dos Cadernos do Cdr-
cere (Rio, Editora Civilizagao Brasilei-
ra), organizada e traduzida por Carlos
Nelson Coutinho e Luiz S6rgio Henri-
ques. As notas de Gramsci funcionavam,
para n6s, como fermento te6rico e poli-
tico para editar a revista Di...fusao, que
faziamos no centro acad6mico da esco-
la junto cor Reginaldo Forti, Claudio
Kahns, Bruno Liberati, Raul Mateos
Castells, Leon Cakof, Vera Lticia Cal-
das, um agregado de gente boa, plural e
politicamente diferenciada, que se unia
na amizade e na vontade de estudar e
combater a ditadura military.


Lilcio vinha de Bel6m, trabalhava no
Estado de S. Paulo, o Estadao. Era um
motor em terms de id6ias e criativida-
de. Mas nao parava de pensar na Ama-
z6nia, sua causa apaixonada, sua razao
de ser como intellectual ejornalista. Ter-
minou o curso e voltou para Bel6m,
como correspondent do Estadao. Tor-
nou-se rapidamente uma referencia in-
ternacional na drea, um dos mais impor-
tantes e consistentes se nao o maior
de todos analistas das aventuras e des-
venturas amaz6nicas. Permaneceu com-
bativo como poucos, sem fazer qualquer
concessio aos poderosos. Seu jornalis-
mo independent, de denuncia e opiniao,
s6 fez crescer. Quando as portas dos
grandes jornais da regiao (O Liberal,
Didrio do Pard) comeqaram a se fe-
char para ele, deu um basta e foi fazer o
Jornal Pessoal, um quinzendrio sobre
a Amaz6nia, custeado, redigido e distri-
buido a ferro e fogo por ele mesmo qua-
se sem interrupqIo hi 21 anos, com uma
tiragem de 2 mil exemplares.
E algo de altissimo nivel, que deve ser
conhecido e divulgado. No inicio de abril


deste ano, Lucio Flavio publicou seu 100
livro, igualmente dedicado ao Pard e a
Amaz6nia, mas desta vez tendo como
eixo a experiencia do pr6prio Jornal
Pessoal. Atrav6s do livro, ele "tenta
contar capitulos da hist6ria recent do
Pard que jamais teriam sido registrados
se nao existisse este journal E jornalis-
mo a quente, feito no calor da hora. no
moment mesmo em que os fatos acon-
teceram. Um exemplo de joralismo ver-
dadeiramente independent, que cumpre
"sua missdo mais nobre: ser uma audi-
tagem do poder".
Lendo as reportagens e os textos vi-
brantes que estao no livro, fica ficil per-
ceber porque L6cio Flavio Pinto inco-
moda tanto a elite da regiao, a ponto de
ser vitima constant de perseguiq6es e
processes judiciarios estapafiirdios. Coi-
sa que, de resto, jamais o abateu on o
intimidou. Ao contrario, o animou a afiar
e apurar sempre mais a pena, alqando
v6o para al6m do Para.
Nao por acaso, o livro se chama Con-
tra o Poder 20 anos de Jornal Pessoal
(una paixio ama i.,;it ,) E excelente.


Nao ha problema nas torres da Doca


A construtora Village se consider vi-
tima "da desleal e mediocre concorren-
cia que, sem capacidade financeira, tenta,
sem sucesso, atingir o grande marco da
engenharia paraense", denunciou o pre-
sidente da empresa, Rodolfo Ishak, em
nota incluida numa pagina de anuincio na
grande imprensa, no dia 25. Ele garantiu
que esse 6 o objetivo dos "falsos boa-
tos" espalhados pela cidade, segundo os
quais as duas torres de 40 andares, que
a Village constr6i na Doca de Souza
Franco, as mais altas de Bel6m e do
norte do pafs, estariam corn suas obras
paralisadas por causa de problems es-
truturais, possivelmente de fundacao.
Esses boatos acrescenta Ishak nao
atingirao a credibilidade de sua empre-
sa: "O povo do Pard confia na Village",
decreta, dando por encerrada a questlo,
"que nao contribui em nada para o de-
senvolvimento de nosso Estado".
Ele proclama que a Village 6 "a pri-
meira e inica construtora do Norte a ter
a ousadia e, principalmente, a tecnolo-


gia para construir duas torres cor 40
pavimentos, cercadas pelos melhores
profissionais da drea e cor recursos fi-
nanceiros para inicio e conclusao do pro-
jeto". Ela seria a 6nica monitorar todas
as suas obras, atrav6s de conv6nio corn
a Universidade Federal do Para, que lhe
possibility controlar a resistencia do con-
creto, control de recalque, control de
compressao e carga dos pilares.
O concrete que usa "6 todo usinado e
de altissima resistencia", como nao hi
igual no mercado. "At6 nossa argamas-
sa 6 usinada, ao contrario das outras que
usam, at6 hoje, betoneira e nao passam
por nenhum control de qualidade", in-
forma Ishak. 0 program de calculo para
o concrete armado 6 o mais renomado
do mundo, que preve a influEncia desde
rajadas de vento at6 acomodag6es de
solo e pequenos abalos sismicos. Por
isso, os t6cnicos podem acompanhar o
movimento do pr6dio desde o inicio da
construqao, cor o control do process
em todos os detalhes.


O cronograma das duas torres estaria em
dia e apenas aguarda a chegada de 28 mil
metros quadrados de pastilhas de vidro re-
ciclavel, que serao utilizadas pela primeira
vez no Brasil no Village Sun e no Village
Moon. Por causa da qualidade da obra, to-
das as unidades ji foram vendidas e a Vi-
llage inform que ampliou os beneficios aos
compradores, ao comprar um im6vel fron-
tal para aumentar a area condominial, sem
6nus adicional.
As insinuaq6es nao afetam a posigao
da Village, hi 26 anos no mercado, agora
como "lider absolute". Por isso, a empre-
sa consider encerrado o epis6dio. Mas
como fez graves refer6ncias aos concor-
rentes em geral, conviria a quem de di-
reito apurar essa concorr6ncia desleal e
ruinosa, que constitui crime e ameaqa os
interesses difusos da sociedade. A Villa-
ge falou, como convinha, para dar uma
resposta aos "falsos boatos". Mas a ilti-
ma palavra ainda esta por ser dita: preci-
sa vir das autoridades competentes para
lidar com a questao.


Jornal Pessoal *20 QUINZENA JUNHO DE 2008 11









Loas ao doutor Roberto

Para o bem e para o mal, Roberto Marinho foi um dos homes mais
influentes no Brasil do s6culo XX. Os efeitos dessa influEncia se fazem
sentir at6 hoje e ainda persistirao, ao menos enquanto seu imp6rio de
comunicaq6es se mantiver. Embora tenha comecado a atuar na imprensa
na segunda metade da d6cada de 20, quando herdou do pai, subitamente
falecido, ojornal O Globo, por ele fundado um ano antes, Roberto Mari-
nho s6 se tornou um potentado depois do golpe military de 1964.
Nao podendo confiar no cangaceiro do achaque Assis Chateaubri-
and e em seus Didrios e Emissoras Associados, os dominantes da im-
prensa nas quatro d6cadas anteriores, os militares apostaram suas fi-
chas no doutor Roberto, como ele gostava de ser tratado. E ele nao os
desapontou, muito pelo contrario: estendeu As comunicaqces o projeto
de reformismo conservador e autoritario do regime de exceqao e corn
resultados ainda melhores.
E pr6prio de um pais acomodado com o Brasil, que nao gosta de
revolver suas feridas, at6 hoje nao haver uma biografia s6ria sobre o
fundador da Rede Globo de Televisao. A que Pedro Bial escreveu 6 pou-
co menos do que uma hagiografia. Perdi o gis antes das ultimas piginas.
E resisti durante quatro anos a ler Roberto & Lily, o relato memorialistico
da iltima das tres mulheres do doutor Roberto, publicado em 2004 (Edi-
tora Record, (181 piginas, mais caderno fotogrifico). Venci a resistancia
pela curiosidade de penetrar um pouco mais na personalidade de dona
Lily, quando ela decidiu sair da mansdo do Cosme Velho, vender todos
os seus bens, dividir a renda e retornar ao seu apartamento de Copaca-
bana. Uma decision l6cida, que a poupa e aos herdeiros da batalha
campal que costuma se seguir A morte de algu6m de muitas posses.
O livro 6 como daqueles presents embrulhados corn tal maestria e
sofisticaqdo que decepcionam, uma vez retirados do seu maravilhoso
inv6lucro. Lilly 6 uma mulher de personalidade, sofisticada, gentil, aten-
ciosa, marcante e bela. Essas e outras qualidades foram desperdiqadas
pela sua obsessao (que ela consider um element natural o seu modo
de ser) de ocupar sempre a posiqao de esposa fiel. Ela, por sua vontade,
ou pelas circunstancias da hist6ria, foi colocada ao lado (ou um tanto
mais atris) de dois homes de relevancia na trajet6ria da imprensa brasi-
leira: Horacio de Carvalho, cuja riqueza lhe permitiu manter um dos me-
lhoresjornais do Rio de Janeiro e do pais, o Didrio Carioca, e Marinho.
Dos 45 anos de casamento fiel (por parte dela) corn Horacio resta-
ram fiapos de mem6ria. Sobre a convivencia de 15 anos cor o podero-
so magnata da midia ha apenas narrativas dom6sticas, cosm6ticas e
auto-elogiosas. Embora em alguns moments ela deixe escapar confis-
s6es que poderiam resultar em hist6rias muito interessantes, se se
dispusesse a ir em frente (ou abaixo), esses moments sao mete6ricos.
Sempre acabam provocando a frustraqgo no leitor mais interessado em
outras dimensOes da vida que nao sejam a glorificaqdo da vidva, embo-
ra cor algum requinte na preocupaqao em parecer modest. No caso, a
mulher por tris do grande home s6 se tornou grande pela vizinhanqa
topografica.
O livro 6 uma sucessdo de caixas glamorosas que escondem o dimi-
nuto present colocado ao final da iltima dessas caixas, um present
que, a rigor, 6 mais promessa do que realidade. Exceto para a autora do
livro. Ela conseguiu transforma-lo num passaporte para passar a um
novo estagio de vida, agora (ou por enquanto) sem um grande home
para estender-lhe sua grandeza. Quem sabe, ja em jornada individual,
dona Lilly decida-se a patrocinar a edicao do seu livro na lingua em que
o escreveu, o frances das suas origens e do seu expressar natural. Talvez
assim a sensaboria desapareqa.


Jornalismo xinfrim

Em 1989, a mais usada (e mais impressionante) fotografia da
india Tuira esfregando o facdo no rosto do entao director da Ele-
tronorte (atual president da Eletrobris) Ant6nio Muniz Lopes
foi batida pelo paraense Paulo Jares. Neste ano, a mais destaca-
da foto do ataque dos indios kayap6 ao engenheiro Paulo Re-
zende, da Eletrobris, em Altamira, foi de autoria do paraense
Andr6 Penner. No primeiro caso, Jares estava a serviqo da revis-
ta Veja. Ja Penner veio de Nova York em missao da ag&ncia de
noticias norte-americana Associated Press.
Sao dois dos paraenses que "venceram no sul" (ou no nor-
te), graqas ao seu talent. Continuariam a vencer se tivessem
permanecido na terra natal? Provavelmente, nao. Nenhum journal
de Bel6m mandou fot6grafo para cobrir o novo encontro dos
povos indigenas do Xingu contra a hidrel6trica de Belo Monte.
Nem mesmo reporter. O Didrio do Para ainda compensou a falha
publicando, no dia seguinte ao incident, as fotos de Andr6 Pen-
ner. O Liberal teve que usar image de arquivo, completamente
fria, e se basear nos relates dos enviados especiais da imprensa
national, bem menos numerosos do que 19 anos antes.
Apesar do vexame explicit dado por uma imprensa que nao
consegue estar present aos acontecimentos de grande impact
dentro do seu pr6prio territ6rio, o president executive das Or-
ganizaq6es Romulo Maiorana nao hesitou em encerrar a semana.
marcada profundamente pelos acontecimentos do dia 20 em Al-
tamira, cor um editorial na primeira pigina da ediiao dominical.
Cor seu inefivel retrato ao lado, Romulo Maiorana Junior anun-
ciou a modernizacgo da marca das ORM, "construida cor base
na percepgio de um mercado agil e um mundo amplo, que nos
permit estar present em todos os lugares".
Mas em qual mundo, final, reside este cidadao, que nao
manda seus jornalistas para Altamira, a 460 quil8metros de
distancia de Bel6m, para testemunhar um fato de alta relevAn-
cia para a opinido p6blica, mas nao se vexa em proclamar o
ajuste da sua empresa ao tal do "mundo piano", a requerer "a
velocidade inteligente de uma empresa que se encaixa no mer-
cado como uma luva"? Fantasia tern ora e oportunidade. No
caso, 6 um ultraje A capacidade de percepqio e raciocinio do
leitor dojornal.
E qual a inovaqao a justificar um enfatuado e pretensioso
editorial de primeira pigina? O ajuste da marca da casa ao padrao
global de design. A montanha pariu um rato. A montanha?

Corregao


Um pequeno "o" compro-
meteu o sentido da frase no pri-
meiro parAgrafo da mat6ria so-
bre 1968, no nimero anterior.
Era para ter said "... o mais
long dos maios o daquele
ano...". Era tamb6m para ter-me
referido a Mauro Vinhas de
Queiroz como o excelente ar-
tista grifico das obras de Marx
e Engels para a Editorial Vit6-
ria, primorosas (a traduqio,


SAtraITje de Coina o Pioeh' 21 wioo) de Joml Pciw. iima pdIaii
au.aiIa,1c i lento contar Cdpitulok da hi-l'rld recenie do ParJ
que lJmals i ricm sido regis trdos se n.io eliissIe etie tjrnal. E moStro .omO o JP con-.e-
guIu reconstiuir esNe,, tjlo e aJliar o seu %sgni icljd no mesmo m omeni i em que ele%
..oInCmc idm OI-)l roe compo.to de trech -, de malrend qui public i.'cad.L e deum neur -leo .-i\o
novt que cilmerli. itua eelucida o ciiidijnode urn omrnll-sm -'erdtldetramente indepepn- -'.
denie, que cumpre ,ua mi.sju mais nobre. ser uma audiJlgem do poder. Eperw que i-O
leIloric iludem a difundir es>as hiqiriojs comprando o lih ro. que eslj j endj nas hainca
eem .ilgunmasiirarsna


nem tanto, e a seleq~o dos tex-
tos, a desejar). O lugar foi in-
devidamente ocupado pelo ir-
mio dele, Mois6s, menos bem-
sucedido nas suas interpreta-
96es de sociologia rural, embo-
ra tenha permanecido mais ci-
tado. O melhor, por6m, foi o dis-
creto Mauro.
Outros errinhos ficam lan-
qados no passive deste journal.
Perdao, leitores.





Editor: Lucio Flavio Pinto

Edigao de Arle:
L. A de Fara Pinio
Contato:
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Fones: (091) 3241-7626 E-mail-
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