Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00324


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Full Text


JUNHO
DE 2008
I'QUINZENA


ornal Pessoal
A AGENDA AMAZ(NICA DE LOCIO FLAVIO PINTO


CRIME


0 mandante sumiu

A absolvi~do dofazendeiro acusado de mandar matar a missiondria Dorothy Stang
quebra o elo na cadeia do crime efavorece a forma mais usada para a prdtica dos
crimes de encomenda: o cons6rcio de interessados. Mas e precise seguir as regras
legais para que uma causa nobre ndo acabe desservindo a democracia, que admite
surpresas, mesmo as chocantes, e pode permitir sua correqdo depois.


GScons6rcio, a t6cnica de matar
or encomenda que fraciona e
4 isola os elements da cadeia de
comando e execuqao do crime, acober-
tando seus mandantes, foi o grande ven-
cedor no segundojulgamento sobre o as-
sassinato da missioniria americana Do-
rothy Stang, realizado entire 6 e 7 do mrs
passado, em Belem. O pistoleiro assu-
mido Rayfran das Neves Sales, mais co-
nhecido por Fogoi6, foi condenado a 28
anos de prisao (um a mais do que no
primeirojulgamento). Ele confessou que


disparou A queima-roupa os seis tiros que
mataram a missioniria cat6lica, de 73
anos. Disse mais: que fez isso por vin-
ganqa pessoal, porque a religiosa tenta-
va expulsi-lo da drea que ocupava no
PDS (Projeto de Desenvolvimento Sus-
tentivel), por ela apoiado, na regido da
rodovia Transamazonica, no Pard.
Rayfran era o terceiro integrante do
cons6rcio criminoso a receber condena-
Flo do tribunal do jri. O primeiro, julga-
do e sentenciado em abril de 2006 a 17
anos de prislo, foi Amair Feijoli da Cu-


nha. Apelidado de Tato, ele foi preso
como o intermedidrio entire os pistolei-
ros e os supostos mandantes do assassi-
nato. Um deles, Vitalmiro Bastos de
Moura, o Bida, fora condenado, junto
com Rayfran, em maio do ano passado,
a 30 anos de prisao, a pena mais pesada
de todas, por ser enquadrado em homi-
cidio triplamente qualificado. Mas no
mes passado ele simplesmente foi ab-
solvido e pelo mesmo resultado de um
ano antes: 5 a 2. Um terceiro condena-
COTINIUA NA PeAG


RU DE, JADE *UQED 9_ 1 g8 Ii, *. *6'


N" 418
ANO ..
RS 3,00


ELETf t 64- ItTE NAO VMA I F;ME S







CON1ATOJUA D.&. lafA
do, a 17 anos, 6 Clodoaldo Carlos Batis-
ta, c6mplice de Rayfran no assassinate
de Dorothy. Ele esta preso em Bel6m,
mas sua pena ji foi atenuada para o re-
gime de semi-liberdade porque cumpriu
um sexto do prazo da condenagao
A surpresa e o espanto diante da
nova decisao provocaram indignaqao em
Bel6m, no restante do pais e pelo mun-
do afora. O efeito pritico imediato da
mudanqa radical no resultado entire os
dois julgamentos populares, separados
pelo intervalo de um ano, foi a acelera-
qSo na tramitaqao e a aprovaqao de um
projeto que dormia na Camara Federal.
A partir de sua sanqao pelo president
da repdblica, nao havera mais, necessa-
riamente, novojulgamento popular quan-
do a pena da condenaqao for superior a
20 anos, razao da realizaqao do segundo
juri para o fazendeiro. A repetiqao dojul-
gamento deixard de ser automitica. Pas-
sara a defender do exame de mrrito
sobre o recurso que a defesa dos r6us
vier a submeter ao a instania superior
dajustiqa, que poderd indeferir o pedido
e encerrar a causa.
O process penal serd corrigido e
melhorado com essa provid6ncia? Talvez
fosse melhor simplesmente acabar com
o tribunal do jdri, instincia sujeita a inten-
sa pol8mica desde o seu nascedouro.
Apesar dos excesses de teatralizaqao e
dos riscos de manipulaqao dos jurados que
cont6m, a manutenqao dessa instituigqo
tem sido defendida. Argumenta-se que
assim os processes criminals escapam ao
anonimato dos autos, retidos em cart6rio
e nas varas judiciais, sujeitos a delibera-
qao individual (ou monocrdtica) de umjuiz,
e os submete a toda a sociedade, repre-
sentada por um grupo de cidadaos que
tmr seu nome sorteado para apreciar os
piores delitos, os crimes contra a vida, em
nome de todos.
Sob impulses emotivos e sentimen-
tais, os jurados estariam supostamente
mais sujeitos a cometer erros do que um
professional do direito, que domina a t6c-
nica. Justamente por isso, r6us conde-
nados as penas mais pesadas deveriam
ter uma oportunidade para voltar a apre-
sentar sua defesa, o que preveniria even-
tuais erros judiciais clamorosos, que irao
afetar grande parte de suas vidas, ou
quase toda a vida que ainda teriam. O
novo julgamento 6 mecanismo com mais
mdritos do que dem6ritos na estrutura
dojiri popular.
No caso de Vitalmiro Bastos de Mou-
ra, a radical inversao na sentenqa seria
a prova automdtica de que o resultado


foi forjado e que uma conspiraqao ar-
mada pelo cons6rcio criminoso conse-
guiu se infiltrar no corpo de jurados e,
quem sabe, tamb6m em outros segmen-
tos do tribunal. Isso pode ter acontecido
de fato, mas, debaixo de muitas suposi-
9qes e interpretacqes, faltam provas con-
cretas. Os que reivindicam justiqa para
os assassinos da irma Dorothy Stang po-
dem ter-se deixado levar por mais emo-
cao e subjetividades do que os pr6prios
jurados ou outros integrantes dessa his-
t6ria chocante.
A partir do r6u confesso da execu-
cao da missionaria, consumada de for-
ma fria e sem maior preocupaqao corn
sua ocultaqao, os elos da cadeia monta-
da para o crime se baseavam em pro-
vas testemunhais. Fogoi6 admitiu que re-
cebeu dinheiro de Tato para matar a frei-
ra. Tato disse que s6 agenciou o pisto-
leiro (e mais Clodoaldo, que nao atirou
na freira) porque todos seriam remune-
rados por Bida e por outro fazendeiro,
Regivaldo Galvao, o finico que ainda nao
foi a julgamento e o aguarda em liber-
dade, graqas a um habeas corpus con-
cedido pelo Supremo Tribunal Federal.
Quando o assassin e o intermedidrio
do crime mudaram seus depoimentos, ino-
centando Bida da responsabilidade que Ihe
haviam imputado antes, o elo causal pro-
bat6rio se desfez. Ha fundados motives
para acreditar que foi forjado um artifi-
cio: os dois podem ter recebido dinheiro
para desdizer o que declararam em juizo
(e documentado em video gravado, que
os acusadores no julgamento deixaram
que fosse exibido, sem impugnarem a pro-
va, como podiam fazer, jd que ela nao
constava dos autos, talvez por excess
de confianqa na renovaqao automdtica do
resultado do primeirojiri).
Mas se as aparencias sao pela frau-
de, a rigor, nao se pode dizer que a nova
sentenqa, de absolviqao de Bida, contra-
ria tao ostensivamente as provas dos
autos, como diz o recurso de apelacao
da acusaqao, que requereu ao tribunal a
anulaqao do segundo julgamento. A pro-
va principal, que era testemunhal, sim-
plesmente deixou de existir quando os
dois acusadores do fazendeiro trocaram
seus depoimentos. O novo testemunho
teria forqa menor de convencimento so-
bre os jurados se contra ele houvesse
mais provas documentais do que as reu-
nidas no process.
Se quiserem voltar a obter a conde-
naqao de Bida e impedir que Regivaldo
Galvao, conhecido por Taradao, tamb6m
escape do destiny que lhe querem im-
por, esses grupos de pressao vao preci-


sar nao apenas tentar convencer a opi-
niao piblica sobre o crime, mas tamb6m
enriquecer os autos cor outras provas
ou robustecer as ja existentes. Simples-
mente deblaterar contra a sentenqa pode
ter efeito contririo ao pretendido, suge-
rindo que esses grupos apenas protes-
tam porque nao conseguiram o que que-
riam. Federalizar o julgamento, como
defenderam, seria mero casuismo, aldm
de tudo, in6cuo: mesmo sob jurisdiqao
federal, outro jdri teria que ser convoca-
do. Na mesma praqa, 6 claro.
Aceitar uma relaqao de causa e efei-
to entire suas teses e o resultado do j6ri
seria prejulgar os r6us e substituir o con-
selho de sentenqa, que 6 instituiqao legal
e legitima, por um tribunal ad-hoc. Mes-
mo com bons prop6sitos, o que se estaria
a propugnar seria uma situaqao de exce-
q~o, que, reproduzida e multiplicada, le-
varia a um regime de excecao. Com cau-
sa nobre, mas antidemocritico.
Parece que o tempo, ao menos numa
sociedade como a nossa, que se acostu-
mou a conviver com crimes de toda na-
tureza com um grau maior de tolerancia,
parece agir em favor do r6u, contribuin-
do para reforqar sua image de vitima,
do que em beneficio da vitima verdadei-
ra da viol8ncia. Principalmente quando
os r6us tim instruments para incenti-
var ainda mais essa tendencia a se apre-
sentarem como coitadinhos.
Independent do desdobramento que
tera o jtri do mes passado, por6m, a sen-
tenqa de absolviqao de um dos supostos
mandantes do assassinate tem um signi-
ficado muito grave: fortalece o acober-
tamento dos que realmente mantem e
intensificam os crimes de encomenda,
mais comuns na Amazonia do que sua
pretensao a civilizaqao pode aceitar. Por
consequencia, reforqa a impunidade dos
principals personagens dessa engrena-
gem de violencia.
E totalmente il6gica a situaqio que
resultou da sentenqa. Se Rayfran real-
mente estivesse em litigio com a missi-
onaria, ele teria cometido a violencia
num moment em que as diferenqas,
numa escalada, o levassem a um ato
sibito de agressao, extravasando de vez
suas diferenqas com a desafeta. Mas
ele agiu como um matador professional,
cor frieza, eficdcia e sem nenhum si-
nal aparente de envolvimento pessoal
com sua vitima. Dorothy recebeu os ti-
ros depois de puxar a biblia que carre-
gava na bolsa e comeqar a 16-la para o
pistoleiro, que a atingiu por tris, na nuca
e nas costas. JA o fazendeiro Bida fora
CON;LU NA PA 3


2 .JUNHO DE 2008 I QUINZENA Jornal Pessoal








Leilao florestal: mais um desvio?


O primeiro leilao de madeira illegal do
Brasil foi realizado no dia 15, em Santa-
r6m, pelo governor do Para, atrav6s da
sua secretaria de meio ambiente. Dois
dos tres lotes oferecidos, contend pou-
co mais de 3,6 mil metros c6bicos de
madeira, foram arrematados por duas
empresas por 1,3 milhao de reais. A
madeira leiloada foi apreendida em
aqces de fiscalizaq~o do Instituto Brasi-
leiro dos Recursos Naturais e Renovi-
veis (Ibama). Dentre virias esp6cies
havia ipe, maqaranduba, tauari, angelim,
jatobd e jatuarana.
Os lances superaram em 15 a 20% o
preqo minimo definido para o leilao. Foi
bom neg6cio para quem comprou e aten-
deu a exig6ncia legal feita ao governor pela
justica para autorizar o leilao, seguindo a
pauta de valores estabelecida pela Secre-
taria da Fazenda. Aparentemente, nao
houve um cartel entire os pretendentes,
embora poucos se apresentassem e a dis-
puta tenha sido pequena. Uma das ma-
deireiras vencedoras, a do lote maior, com
3.585 metros cibicos, era do Rio de Ja-
neiro. Espera ter bom lucro na comercia-
lizadio em Maca6, onde o preqo 6 bem
mais alto do que o que ela pagou. O outro
arrematante 6 de Itaituba, que levou ape-
nas 63 m3. Um terceiro lote, ainda me-
nor, nao teve interessado. Vai ser usado


em um novo leilao, ji marcado para o dia
10 em Anapu, no Xingu.
Foi entao uma boa experiencia? Di-
ante da alternative de deixar a madeira
apodrecer nos dep6sitos do Ibama ou ser
doada, segundo crit6rios e formas nun-
ca completamente conhecidos, como vi-
nha acontecendo, nao ha d6vida que foi
melhor. Mas nao 6 soluqao para o pro-
blema da exploraqdo illegal de madeira
na Amaz6nia. Sempre pode-se repetir
em relaqao A madeira procedimento ado-
tado correntemente no Pard d6cadas
atris para fazer introduzir no Estado
carros, perfumes, uisques, sanddlias e
outros produtos. O pr6prio contrabandis-
ta denunciava a sua carga para que a
alfandega a apreendesse e depois a ar-
rematava no leilao, legalizando-a. Claro
que esse process s6 era adotado no
caso de produtos de maior valor e que
possibilitassem ao contrabandista ser o
inico ou o mais poderoso pretendente a
arremataqgo, como os autom6veis (ou
"cutias", na linguagem da 6poca). Ele
tirava uma peqa vital do carro, afastan-
do os possiveis concorrentes.
Seria possivel reeditar esse m6todo
nos leil6es de madeira? No primeiro, nao
houve esse expediente. Mas se as ven-
das de avolumarem e se amiudarem, a
possibilidade podera comeqar a se tor-


nar factivel. Determinadas empresas ou
madeireiros individuals podem se inte-
ressar por atrair a apreensao, principal-
mente se puderem tamb6m armar lici-
taq6es combinadas. Mesmo que o pro-
cesso for limpo e seguro, a rotina dos
leil6es provocard o aparecimento de
predadores, que se apresentarao nes-
sas vendas. O melhor mesmo 6 promo-
ver o fomento florestal.
O dinheiro arrecadado com o leilao
sera usado no aparelhamento e na infra-
estrutura da secretaria estadual e do Iba-
ma, para fortalecer a recomposiqao flo-
restal e o combat ao desmatamento no
Pard. A questao 6 a criaqao de uma de-
pendEncia desses recursos, que pode ser
acentuada pela pouca prioridade de fato
que o governor ddi floresta amaz6nica,
colocada de lado a decoraqao ret6rica.
O governor pode achar que agora nao pre-
cisa mais destinar ao setor as verbas que
sao necessarias para montar um serviqo
florestal A altura da tarefa, com uma guar-
da florestal de respeito (e que hoje ine-
xiste) e um corpo t6cnico competent,
al6m de meios materials para que o Esta-
do realmente assume o control da ativi-
dade florestal na Amazonia.
Sonho de uma noite de verao? Por
enquanto, sim. E os leil6es nao vao aju-
dar a tornar esse sonho em realidade.


CoNCUsAO 1a PAGE


levado pela irma Dorothy ao Ibama e
ao Minist6rio P6blico do Trabalho por
denuncias de crime ambiental e traba-
Iho escravo, que resultaram em multas
aplicadas contra ele.
Qualquer pessoa com elementary in-
telig&ncia e alguma informacao sobre um
ato desse tipo nao tera d6vida em con-
cluir que o pistoleiro cumpria um trato.
Algu6m contratou seus serviqos especi-
alizados e o pagara, professional como
ele 6 (e jamais desmentiu sua condiqao
de pistoleiro). Atris dele, na rede, esta-
va o intermedidrio entire o requisitante
do serviqo e o executor. Logo, havia
mais algu6m na outra ponta da linha.
Com a sentenqa, o mandante sumiu e a
engrenagem ficou sem sua conexdo,
solta no ar. Sem que a lei da gravidade
seja abolida, a hist6ria teria que cair. Sua
sustentaqao e, pois, artificial.
O que estd acontecendo em relacao
ao assassinate da missioniria Dorothy
Stang, ocorrido em 12 de fevereiro de
2005, em Anapu, lembra bastante o caso


da morte do ex-deputado estadual Pau-
lo Fonteles de Lima, em 10 de junho de
1987. Tr8s personagens diretamente
envolvidos na trama criminosa (os dois
pistoleiros e o intermedidrio) foram iden-
tificados e dois deles press. Um dos
pistoleiros conseguiu escapar, mas teve
o mesmo destino do outro: tornou-se vi-
tima de queima de arquivo.
O agenciador do crime, que era o
personagem mais famoso, o "capitao"
James Vita Lopes, foi julgado em 2001
e condenado a 21 anos de prisao. Em
sil8ncio (quebrado apenas para, finalmen-
te, aceitar conversar com este reporter,
que o acusara ao long dos anos seguin-
tes ao crime), James cumpriu na prisao
um terqo da pena (incluido o tempo de
prisao antes dojulgamento) e foi libera-
do por bom comportamento. Foi embo-
ra para sua terra, Braganqa Paulista, e
dele nada mais se ouviu.
Crime solucionado? Nao. Os verda-
deiros mandantes jamais foram citados,
exceto por este journal. Escaparam inc6-


lumes, graqas A posiqao assumida por
Vita Lopes, um home disciplinado e
determinado. Todos se consideraram
satisfeitos com o desfecho, ainda que
incomplete. Mas como o cons6rcio or-
ganizado para calar de vez o cidadao
inc6modo continuous com sua cabeqa, nao
s6 pode ter continuado em aqao como
serviu de estimulo e modelo para novas
engrenagens desse tipo serem formadas,
conseguindo o mesmo sucesso.
Para enfrenta-la e venc&-la a dis-
posiqao 6 fundamental, mas nao sufici-
ente, ao menos se se busca um resulta-
do no ambito das formas legais e insti-
tucionais dejustiqa. As vezes os defen-
sores da justiqa perdem por numa for-
malidade, mas eles precisam se conven-
cer de que detalhes tamb6m sao impor-
tantes quando se lida com estruturas tao
complexes. Um erro desses pode se
tornar o caminho de fuga, que acaba
por favorecer os selvagens crimes de
encomenda por trAs das porteiras sem
lei da Amaz6nia.


Jornal Pessoal t QUINZENA JUNHO DE 2008


~IPj~l~,~STb~6~g~,~








Entre maio e dezembro, ha 40 anos,


Uma frase define o que foram os tem-
pos em tomo de 1968, cujos 40 anos co-
megaram a ser comemorados no mis
passado, o mais long dos maios daquele
ano que nao terminou, na frase feliz que
Zuenir Ventura cunhou retrospectivamen-
te. Quem disse essa frase lapidar foi um
military que nasceu no Acre e se formou
no Pari, tornando-se uma das mais im-
portantes personalidades de todo period
republican no Estado adotivo. "As fa-
vas os escripulos de consciencia", trom-
beteou o entio ministry do trabalho, co-
ronel Jarbas Gonqalves Passarinho, do
alto dos seus 48 anos na 6poca.
Na longa mesa escura da sala de jan-
tar do Palacio Laranjeiras, no Rio de
Janeiro, em torno da qual se reunia o ple-
nirio do Conselho de Seguranqa Nacio-
nal, o ex-governador paraense pronun-
ciou, naquele 13 de dezembro de 1968,
a senha definitive para o rito de passa-
gem da ditadura envergonhada A dita-
dura escancarada, conforme outra defi-
niqao post-facto, dada por outro jorna-
lista, Elio Gaspari.
Alguns dos integrantes do CSN ainda
estavam atados a alguns escnipulos de
consci8ncia, que os mantinham constran-
gidos diante de um ato que se assumia
por escrito como "ditadura pura e sim-
ples", como tamb6m disse Passarinho. A
prova do delito estava ali, no papel, no
qual teriam que consignar suas assinatu-
ras. Pelo menos essas pessoas sabiam
que a hist6ria nao esperaria para julgi-
las: ojulgamentojd estava contido no pr6-
prio texto do papel nefando, o Ato Institu-
cional n6mero 5. E por mais que a seguir
praticassem as obras mais fecundas,
aquele moment era de vilania para com
a naqao brasileira e sua hist6ria. Passari-
nho as tirou do estado de hesitaqao e as
lancou, de vez, nos anos de chumbo.
Mas nao era uma frase simples, mera-
mente bajulat6ria, dita sem reflexao, ape-
nas para lanqar a ordem de ataque A de-
mocracia e servir de c6digo para que se
abrissem os ponies do regime e deles emer-
gissem os guerreiros encapsulados nos
"bols6es sinceros, mas radicals", em ou-
tra definiqCo de especialista nessas entra-
nhas, o general (e future president da re-
p6blica) Emesto Geisel. Ou a "tigrada",
segundo a fraseologia de Delfim Neto, um
mestre da prestidigitagCo, ainda fazendo
graqa (A custa da desgraqa alheia, ofcour-
se) aos 80 anos, rec6m-comemorados.
A frase sufocava um halo machadia-
no, que devia perpassar a mem6ria de um


leitor do bruxo do Cosme Velho (o bruxo
seguinte do bairro, mas com outro perfil,
d6cadas depois, manipularia tessituras
midiiticas globais: Roberto Marinho).
Qualquer leitor de Machado de Assis.
guard dele frases eternas, como "ao
vencedor, as batatas"; ou a shakespea-
reana d6vida: "mudou o Natal ou mudei
eu?". Os militares foram os vencedores
nos idos de marco de 1964. Era a primei-
ra surpresa, desmoralizando o "esquema
military" do "general do povo", um deles,
promovidos bionicamente por Joao Gou-
lart. Argemiro Assis Brasil garantia pro-
teqao absolute ao president populista
com a fantasia da intocabilidade. Tudo isso
desmoronou a partir do movimento de tro-
pas de Minas por um figurante secundi-
rio no.enredo, o general Olimpio Mourao
Filho, autodenominado "vaca fardada".
Sem esperar pelos "cabeqas", ele mugiu
e tussiu, liberando o que estava compri-
mido nos quart6is.

A segunda surpresa
foi que nas ruas,
a partir daquele
maio de 1968, havia
um furacao human
a se atribuir forga
inexoravel no rumo
de uma revoluiao coman-
dada por uma classes social transit6ria, a
dos estudantes. Sem vinculaqao organi-
ca a nada, senao as suas convicq6es, os
estudantes desempenhariam a missao
salvifica que enganosamente Karl Marx
colocara nas maos dos operirios, aque-
le moment interessados em penetrar no
paraiso do consume, como mostrou o fil-
me famoso de Elio Petri, com o ator cult
daqueles tempos, Gian Maria Volont6.
Os operirios se haviam tornado a ou-
tra face da moeda em curso no mercado.
Nao podiam mais derrubar as estruturas
da opressao, queriam apenas encontrar
seu lugar nessa nova cathedral secular. Todd
poder A imaginaqgo, a libertaqco, exigia um
anarquismo curtido nas ruas, sem muita
retaguarda intellectual, uma "forga da na-
tureza", para usar conceito neo-rousseau-
niano (cor perdco do notnvel fil6sofo). A
nao-classe acabaria cor todas as classes.
Quem quisesse que embarcasse no trem
na nova hist6ria. O comboio j desatraca-
ra da estaqao, divisava o mineiro Milton
Nascimento, ainda entio o Bituca.
Tolerancia ter hora para acabar,
decidiram os senhores da ordem, con-


templando o que, para eles, se apresen-
tava como caos, enquanto, para seus
promotores, era a onda de novidade tra-
zida A praia dos homes pelo mar da
aventura. Os vencedores nao podiam
receber batatas como trof6us, nem fi-
car na retaguarda de uma reform que
queriam conduzir A unha, conforme os
pianos que conceberam e maturaram em
seus laborat6rios doutrindrios, principal-
mente na Escola Superior de Guerra,
nossa Sorbonne castrense, e depois es-
palharam por gravidade feroz entire uni-
dades operacionais, como o DOI-Codi.
Os lideres do primeiro governor mili-
tar, gravitando em torno do marechal
Humberto de Alencar Castello Branco,
cultivavam seus escripulos. Muitos de-
les nao tinham ido ao combat nos cam-
pos da Italia para defender a democra-
cia contra o fascismo? Nao foram eles
que trouxeram a nova (e efemera) de-
mocracia no alforje, tornando invidvel a
permanencia do "pai dos pobres" A frente
do seu Estado Novo corporativista, que
se inspirou nos c6digos fascistas de
Mussolini? Como, agora, iam emprestar
seu nome a um regime tao fascista quanto
o que contribuiram para destruir?
A situaqao brasileira exige mais
acuidade para ser entendida do que
permit a ortodoxia dos c6digos de in-
terpretacqo disponiveis no almoxarifa-
do ocidental. A classes estudantil 6
transit6ria na sua materialidade huma-
na, mas os militares se unificam numa
instituiqao permanent, que independe
da circulacqo de pessoas. Infelizmente
para todos, inclusive para os militares
nao militaristas, essa instituiqao, que
devia ser professional, t6cnica, se trans-
formou em partido politico, o inico pe-
rene e o mais forte de todos.
Um dos erros mais desastrosos da
elite brasileira foi nao ter se empenha-
do em desviar os anseios das cada vez
mais numerosas classes m6dias para
um partido com o qual elas se identifi-
cassem e para ele drenassem seu im-
pulso de participaqao e de interven-
qao tamb6m, no sentido de ruptura -
na vida political do pais.
No imp6rio, o imperador exerceu o
poder moderador, mas esse poder s6 teve
significado porque se baseava nao no
cajado do rei, mas no bastao de coman-
do do chefe military. O marechal Deodo-
ro da Fonseca dormiu como amigo fiel
de D. Pedro II e amanheceu como o
condestdvel da repdblica. O povo viu a


4 JUNHO DE 2008 I QUINZENA Jornal Pessoal








o Brasil perdeu a sua consciencia


)mutaqao madrugadora "bestificado",
conforme observou outrojomalista, Aris-
tides Lobo. A partir dai os centuries nao
parariam de lancar golpes de mao para
corrigir os rumos da naqao, com o ins-
trumento moralizador mais intimidat6rio:
suas espadas. Nao hi pedagogia que
resista a esse corretivo, de efeito trau-
matico. O autoritarismo se tomou uma
das maiores caracteristicas do Brasil, do
seu inconsciente coletivo, conforme a
elucubraqao feita por J. O. Meira Pena
no delirante Em Bergo Esplendido.
A esquerda, que nunca gostou de
perder (e quem gosta?), estigmatizou os
adversirios como representantes da ne-
fanda direita (e quem gosta de ser con-
siderada da direita?). Inteligente como
6, a esquerda sempre ganha no terreno
das id6ias e perde no campo (e no tape-
tao). Ganha, mas nao leva exceto do-
loridos cascudos. Acabou sendo vitima
de suas boutades criativas, sim, mas
nem sempre (ou raramente) corretas. Os
militares passaram a ser desdenhados
como milicos, macacos. Foram coloca-
dos numa camisa-de-forqa conceitual
que se tornou fonte de incompreensoes
e de distorq6es, muitas vezes fatais.
O military 6, por natureza, conser-
vador. O peso desse element se acen-
tua quando a instituiq~o age nao s6
como corpo professional, mas tamb6m
como partido politico, como 6 o caso
no Brasil. E ainda mais quando os vi-
zinhos civis desse espectro ideol6gico
partilham o mesmo conservadorismo.
S6 que os lideres civis das rupturas
havidas no pais at6 1964 sempre ado-
taram um conservadorismo mais mati-
zado do que seus aliados da caserna.
Depois do rompimento, comandaram
a conciliaqdo. Freqiientemente, com os
inimigos da v6spera.
Sucessivos chefes militares se senti-
ram logrados na partilha que se seguiu
aos tipicos "pronunciamentos" latino-
americanos, a vergastar constantemen-
te a plantinha da democracia, quejamais
conseguiu se desenvolver at6 a plena
maturidade. Haveria de acontecer o que
houve em 1964: os militares nao devol-
veram mais o poder aos civis. Com a
significativa diferenca de que no novo
pronunciamentoo" o estabelecimento
military jd estava sofisticado e adensado
o bastante para p6r em pritica um pro-
jeto por inteiro: a reform do pais numa
moldura autoritiria, a mais extrema de
toda repiblica.


Os civis, que se sucederam depois de
Deodoro, Hermes da Fonseca, dos te-
nentes, de G6is Monteiro e de Dutra,
desta vez iam ser mantidos no cercado.
Havia jovens turcos para ocupar todos
os postos de mando na estrutura do Es-
tado, treinados para executar os exerci-
cios realizados intensamente nos anos
anteriores pela ESG (ou o IPES), com
uma 6nica e decisive falha: sem enten-
der mais profundamente a economic (o
que explica o poder plenipotenciario do
sagaz e amoral Delfim Neto, ou do d6s-
pota esclarecido Reis Veloso, ou do si-
bio distraido Mirio Henrique Simonsen).
Desta vez, seria total o exercicio do
poder, usado em numerosos casos para
usufruto pessoal, mas, em outras nume-
rosas situacqes, para realizar um proje-
to: materializar o velho sonho de gran-
deza do "gigante adormecido". Para
despertA-lo e coloci-lo para trabalhar em
ordem unida, se necessario, ainda que
fosse doloroso, era precise mandar is
favas os escripulos de consci8ncia, que
Jarbas Passarinho possufa, mas que con-
siderou descartAveis, sup6rfluos, compli-
cadores na march batida na qual os jo-
vens turcos iam colocar a naqao. Daf o
slogan: "Pra frente, Brasil!"

Homem culto
para o padrao do
home public
brasileiro, certamente
Passarinho nao teve
divida ao ler o AI-5: ele
era a certiddo de nascimento do mais
feroz (e, nao por acaso, mais long) pe-
riodo de exceqao no Brasil. Ao receber
o telegrama da Agencia Meridional na
redagqo de A Provincia do Pard, na-
quela noite de 13 de dezembro de 1968,
tamb6m nao tive d6vida: aquela luz bru-
xuleante que brilhara nos c6us brasilei-
ros (e nos de vdrios outros pauses espa-
lhados pela Terra), graqas As tochas dos
chienlit ruidosos, se apagara em defini-
tivo. A era da tolerancia abara.
Lembro bem que, encerrada a leitu-
ra daquelas quatro laudas, que continham
o preambulo do ato e seus 12 artigos as-
sombrosos, em estado de choque, peguei
um pedaqo de bolo do Chico e uma xi-
cara de caf6, e fiquei a comer com len-
tidao, talvez, sem perceber na hora, para
tentar deglutir melhor aquela coisa mons-
truosa. O regime da barbirie nao tinha
tempo para terminar, ao contririo do pri-


meiro dos atos institucionais, que se pre-
datara e se imaginara inico (tanto que
nao recebeu nem n6mero).
Um institute milenar de civilizaqao
humana, o habeas corpus, foi suspense
para que os press fossem submetidos
a interrogat6rios e torturas por pelo me-
nos 10 dias de incomunicabilidade ap6s
a prisao (esse "cuidado", o 1ltimo vesti-
gio de apego a formalidade da norma
antes da total bestializaqao, foi esqueci-
do pela rotina dos desmandos seguintes).
Todos estariam sujeitos a visit inespe-
rada do inquisidor, que desencadearia
processes tao ou mais irracionais do que
aqueles que, meio s6culo antes, Franz
Kafka antecipara com sua imaginacao
sofrida e involuntariamente prof6tica.
Foi o moment mais traumrtico na
vida ptblica da minha geraqao, cor re-
percussao arrasadora sobre a persona-
lidade de cada um, chaga ainda hoje ex-
posta e a engendrar sequelas. No dia 1
de janeiro de 1969 eu ji estava em Sao
Paulo, onde passaria os anos seguintes
mirando o olho do furacao. A hist6ria
toda se transferiu para Sao Paulo, mes-
mo que a capital national continuasse a
ser Brasilia e o Rio de Janeiro tudo fi-
zesse para parecer-se A capital cultural
do pais. O que havia de bom e de ruim
marcou nas ruas da capital paulistana o
local para suas justas.
Ali, perdemos a inoc8ncia. Como no
poema de Bertolt Brecht, a partir daquele
moment a ingenuidade seria apenas
prova de insensibilidade por parte de
quem ainda nao sabia das "iltimas". Em
pouco tempo, haviamos experimentado
boa parte das possibilidades ao alcance
de um povo. As vdsperas de completar
cinco anos de idade, decorei a carta-tes-
tamento de Getilio Vargas, que passou
a ser o mote das minhas exibiq6es pibli-
cas nas rodas de politicos e amigos em
torno do meu pai, em Santar6m. Seis
anos depois estava nas ruas distribuindo
a espada do marechal Lott (eu tamb6m,
hein?), um prussiano mal-incorporado A
nossa bagunqa democratic, mas refor-
mista (se o vencedor tivesse sido ele, nao
seriamos os 6rfaos de Janio, conforme
Millr Femandes nos batizou).
Acompanhei os p6riplos do meu pai
pelo universe do janguismo, mal-impres-
sionado com ojeito bonachdo, camarada
e inconseqiiente do president, em quem
se podia confiar para tudo que nao dis-
sesse respeito aos neg6cios p6blicos. Ten-
CONCLVI NkA PAiG6


Jornal Pessoal i0 QUINZENA JUNHO DE 2008







c&iiid obiBii" iioi* i' d
tei entender o que aconteceu a partir da-
quela longa noite de 31 de marqo para o
fatidico 1 de abril de 1964, colado ao ri-
dio que chiava, sem qualquer venda ideo-
16gica (que nao cabia numa cabeqa exis-
tencialista). Ingressei no jomalismo pro-
fissional em maio de 1966, exatamente a
meio caminho entire o primeiro golpe,
mediado pelos escrdpulos dos udenistas
de quepe, e a liberaqdo de Leviatas e
Behemoths, atrav6s do c6digo do AI-5.
Depois dos violentos traumas do pri-
meiro ano, sob as ordens dos Torque-
madas aboletados nos IPMs, a vida vol-
tou a ser rica e deslumbrante em todo
Brasil. Assistimos, fascinados, a espe-
ticulos como Liberdade, Liberdade,
Opinido, Os Pequenos Burgueses. Os
melhores filmes das nossas vidas, n6s
os vimos nos redutos dos cines-clube. A
ansiedade com a qual esperivamos pe-
los novos n6meros da Revista Civiliza-
Vdo Brasileira ou da Brasiliense, ou
pelos novos livros da editor de Enio Sil-
veira (com sua marca indefectivel, dada
por Eugenio Hirsch), ou aqueles livros
graficamente maravilhosos de obras
marxistas (com seu apice nos tres volu-
mes das obras escolhidas de Marx e
Engels) produzidos por Mois6s Vinhas
de Queiroz para a Editorial Vit6ria, nun-
ca mais se repetiu. E tinhamos jomais
como o Pif-Paf, efemera obra solo de
Miller, ou o mais mete6rico Reunido, ou
a revista do Diner's, reediqao de Senhor
em papel couch por Paulo Francis, ou
os cadernos especiais de jornais como
O Estado de S. Paulo, Correio da Ma-
nhd e Jornal do Brasil. Um mero indi-
ce analitico de tudo que se fazia ocupa-
ria uma ediqao inteira deste journal.
Foi um dos moments mais fecundos
da cultural brasileira. Talvez por haver
um inimigo explicit em campo e um ris-
co evidence de enfrenti-lo, aprimorava-
se o valor do criador, que sentia o efeito
de sua obra desafiadora (As vezes de
forma contundente no cocoruto, alcan-
qado pelos cassetetes da lei). Lembro a
tensao na qual assistimos ao espeticulo
de cantoria e aqao no teatrinho da UAP,
pelos artists locais, depois que o espe-
tdculo nao p6de ser apresentado no Te-
atro Sao Crist6vao, da Uniao dos Chau-
fferes do Pard, porque a policia, mesmo
nao convidada, chegou antes e impediu
a sessao. Todos foram para a ji muito
visada sede da Uniao Acad8mica Para-
ense, na entao SIo Jer6nimo (atual go-
vernador Jos6 Malcher), avenida para-
lela, a alguns quarteir6es de distancia,
em cortejo civico.


Um olho estava no palco, outro olho
na entrada do pr6dio e o coraqao pul-
sava a mil. Quando houve um estrondo
s6 me dei conta de onde estava, do outro
lado do quintal, quando comeqou a risa-
da: uma inocente cadeira 6 que cafra, seu
som amplificado pelo nosso medo. Tao
grande que pulei, nao sei como, por sobre
a estaca de madeira que demarcava os
funds de terrenos naquela 6poca. Pas-
sado o susto, encerrada a apresentaqao,
fomos para o bar do Parque. Estivamos
inc6lumes e muito vivos. Comemoramos
at6 o amanhecer, como se tiv6ssemos
said da batalha das Term6pilas. Felici-
dade 6 uma palavra que pode ter a ilusao
como sin6nima. Mas viverfamos nossos
sonhos sem uma boa dose de ilusao?
Nao viveriamos. Foi assim que enfi-
leiramos as noites insones na ocupaq~o
das faculdades, culminando com a ela-
boraqao de uma proposta alternative ao
rejeitado acordo MEC-Usaid, que p8s
fim aos ensaios de humanismo nas uni-
versidades brasileiras. Datilografei mui-
tas folhas de papel durante dois dias e
duas noites para que nosso document
fosse entregue ao general-presidente,
que o repassou a um assessor, que en-
tregou a outro, que atirou aquela inutili-
dade no lixo do banheiro do aeroporto
de Val-de-Cans quando sua excelencia
embarcou de novo.
O AI-5 acabou com todas as nossas
ilus6es quanto A sobreviv6ncia daquele sol
de intelig8ncia que continuara a brilhar
sobre o c6u azul do Brasil, mesmo depois
do golpe de 1964. Leviatas e Behemoths
foram liberados das teias dos escr6pulos,
a pretexto de dar a devida resposta dos
donos do poder A Camara Federal, que
absolvera o deputado Mircio Moreira
Alves, por nao poder puni-lo pelo que
havia dito de supostamente ofensivo As
Forqas Armadas em um discurso pronun-
ciado da tribune da casa, sob a sagrada
salvaguarda da imunidade parlamentar.
O que se seguiu foi o primado da
forqa, em um e no outro sentido, na ma-
nutenqao do projeto iniciado de refor-
ma compuls6ria, com mao de ferro, e
na teitativa de interromp8-la pelos que,
na oposiqao, finalmente conseguiam
uma teoria oportuna para a luta arma-
da, at6 entlo preconizada e praticada
no desert da aceitaqao, cor as armas
da fantasia onerosa.
Desde entIo, a geraqao que sobrevi-
veu a esse invemo da razao espera que
nunca mais o Brasil precise fazer qual-
quer coisa A custa dos escrdpulos de sua
consciencia. Se colocarem essa frase na
nossa tumba, morreremos satisfeitos.


Livros

estao salvos
SA biblioteca das professors Ma-
ria Anunciada e Paula Chaves nao esti
perdida. Pude verificar esse fato al-
vissareiro ao visitar a sede da Defen-
Ssoria P6blica da Uniao, na semana
Spassada. A visit resultou do contato
T do chefe da defensoria, Anginaldo Vi-
Seira, que decidiu se manifestar sobre
a mat6ria da ediqao passada. Os livros
S chegaram a ser retirados da resid6n-
f cia das mestras pelo novo proprietirio
Sdo im6vel, mas eleja devolveu grande
Spare dos volume* que sobreviveram
A aqgo dos cupins. Mesmo cor recur-
Ssos limitados, a defensoria ja esti re-
colocando os livros nas estantes e essa
foijustamente uma das exig8ncias fei-
Stas para a locaqio do im6vel.
S Ai esta o detalhe relevant, que
precisa ser corrigido: a defensoria ape-
nas alugou o velho casarao para po-
Sder se instalar em condiq6es mais dig-
Snas do que as de sua sede anterior, no
Sedificio Infante de Sagres. O proprie-
Stario 6 um particular, que adquiriu o
Sim6vel do esp6lio. Como a resid6ncia
ji estava separada do quintal e da vila
Sde casas cor frente para a rua Quin-
Stino Bocaidva, foi ele que mandou der-
Srubar todas as arvores do belo bosque
Sque ali havia at6 o mas passado, pro-
Svavelmente para levantar um pr6dio no
Local. A defensoria nao tern qualquer
Sresponsabilidade por essa acgo dano-
Ssa. Pelo contririo, como me mostrou
SAnginaldo Vieira, tudo que estava ao
Salcance da instituiqgo foi feito para
preservar o patrim6nio, apesar das
condiq6es desfavoriveis.
Agora a tarefa de manter esse bem
Sde grande interesse p6blico depend
Sda sensibilidade das pessoas cor al-
gum poder de ag o. Ja houve omissdo
Sdemais quando ainda estavam vivas as
duas mestras paraenses. Aqui neste
Sjornal sugeri que o governor desapro-
Spriasse o im6vel, deixando-o em usu-
| fruto das suas moradoras. Elas teriam
apenas a obrigaqlo (prazerosa para
Selas) de acolher estudantes e pesqui-
sadores, orientando-os nos trabalhos
Sque precisassem fazer na biblioteca.
Quando morressem, o Estado assumi-
ria o dominio de todo patrim6nio e o
transformaria num centro de cultural,
cheio de vida e capaz de atrair e irra-
Sdiar saber pela area em torno.
Agora, a question 6 remediar a fal-
Sta. Enquanto 6 tempo.


6 JUNHO DE 2008 I QUINZENA Jornal Pessowl








Eletronorte ficara mesmo em Brasilia


Ainda existe opinion pi6blica no Pard?
E a d6vida que surge quando uma infor-
manao relevant 6 lanqada ao vento sem
provocar qualquer eco. Foi o caso da
noticia publicada na ediqdo passada,
anunciando que a Eletronorte iria com-
prar, por 60 milh6es de reais, um pr6dio
para torn-lo sua sede definitive em Bra-
silia. Significava dizer que a empresa
jamais ird se instalar na sede da sua an-
tiga jurisdiqao, ou, especificamente, no
Pari, o Estado da Amaz6nia no qual ex-
trai 80% da energia que comercializa.
A sociedade paraense permaneceu
indiferente ao fato, o que facilitou mais
duas providencias no sentido de consu-
md-lo. O conselho de administrator da
estatal, em reuniio realizada no dltimo dia
14, autorizou a diretoria a abrir a licitaqco
para a aquisicao da sede. E o novo presi-
dente da Eletronorte, Jorge Palmeira, ape-
sar de paraense, indicado para o cargo
por outro paraense, o deputado federal
Jader Barbalho, referendou a decislo
anterior, do igualmente paraense Carlos
Nascimento, para que a empresa noo saia
da ilharga do poder, na capital federal. Nos
Estados que constituem a sua drea de
atuaqdo, vai apenas instalar representa-
q6es, certamente para poder se comuni-
car cor os nativos, na tipica relaq~o co-
lonial metropolitan, o traqo marcante no
perfil autoritdrio da empresa.
Timidamente provocado pelojornal O
Liberal a se manifestar, a novel autori-
dade saiu-se cor este raciocinio, que
faria Cecil Rhodes babar de inveja:
"Por que transferir para Bel6m e nao
transferir para Manaus? Entao, nao s6
o Estado do Pard, mas outros Estados
tamb6m reivindicariam. Essa, digamos,
6 a primeira dificuldade. A segunda 6 de
ordem t6cnica. Em Brasilia, fica o pes-
soal mais especializado, o pessoal que
elabora estudos, projetos, o pessoal nor-
mativo. Outra questdo 6 como levar esse
pessoal que 6 extremamente especi-
alizado de Brasilia, sem perder mao-
de-obra na transferencia, seja para que
lugar for. E outra questao 6 de aspect
logistico. Quando a gente comeqa a fa-
zer conta, verifica que, para sair de Bra-
silia e chegar a Porto Velho, eu chego
direto. Mas para sair de Bel6m e che-
gar a Porto Velho, eu tenho que obriga-
toriamente passar por Brasilia. todos os
estudos feitos at6 hoje concluiram pela
manutenqao da sede em Brasilia".
Inacredituvel. Um esforco menos
sofismitico de raciocfnio daria ao


novo president, home de longa e
discreta carreira na empresa, as de-
vidas respostas. O Pard merece mui-
to mais ser a sede da Eletronorte do
que Recife, por exemplo, que 6 a sede
da Chesf, ou o Rio de Janeiro, de Fur-
nas. Que arguments Manaus ou Por-
to Velho poderiam apresentar contra
as credenciais de Bel6m, capital do
Estado que ter a maior hidrel6trica
inteiramente national do Brasil, res-
ponsdvel por 9% da energia que cir-
cula em todo pais?

A restrigao t6cnica
6 uma ofensa a
universidade na qual
Palmeira se formou
engenheiro e a todos os
integrantes do mundo
academico e intellectual
do Para. Suponho que ele se sinta na
Londres de um s6culo atrds se dirigindo
aos siditos asidticos (e a India, em al-
guns stores, jd superou a metr6pole,
como aconteceu conosco em relaqao a
Portugal). Nao passou pela cabeqa do
president que a vinda da Eletronorte
pode ampliar e acelerar os efeitos posi-
tivos dessa iniciativa, de alguns dos quais
a pr6pria empresa jd participa, atrav6s
da Universidade Federal do Pard?
Finalmente: se 6 mais caro ou cus-
toso triangular entire as cidades da
Amaz6nia e a imperial Brasilia, que


sejam cancelados os constantes p6ri-
plos do pessoal da empresa ao planal-
to central. Seu reduto principal de atu-
aqao 6 a Amaz6nia, se 6 precise lem-
brd-lo do detalhe, assaz important. O
que nao vale para a Eletrosul, na re-
mota Porto Alegre, vale para a escon-
dida Bel6m do Para.
Mesmo nao havendo mais dreas re-
servadas a uma unica empresa, como
antes, o fato de ter permanecido em
Brasilia, ao lado dos tecnoburocratas
que mandam, nao deu a Eletronorte ne-
nhuma vantagem nas licitacbes em an-
damento para o aproveitamento hidrel6-
trico do rio Madeira. Sua participaqlo
nesse capitulo t~o important da ener-
gia na Amaz6nia ter sido decorative. E
nada garante que ela vd para a linha de
frente no caso de Belo Monte, se o pro-
jeto para o rio Xingu continuar. Todas as
regimes foram abertas h competico, sem
reserve de mercado, num sentido inver-
so ao da posicqo da Eletronorte, que per-
maneceu soberana e estdtica em Brasi-
lia, achando que assim se torna mais
competitive. Mera ilusdo?
Quanto ao Pard. Ora, o Pard. O Es-
tado parou no tempo. Virou abstraqao.
Ou, quando materializado, assume aquela
forma invertebrada dos series parasiti-
rios. Sem lideranqa a altura, que d& con-
sistencia A sua coluna vertebral, o Pard
virou butim de guerra. De pirataria, me-
Ihor dizendo. Ainda mais exposto A pi-
lhagem pela omissdo ou a traiqio dos
que o deveriam defender: seus filhos.


Passarelas
A piefeitura ai in' esirsete milhoesde reais \ alorde projeto. elaborado
dois anos aras. corn 90'. do dinheiro send de origem federal numa passa-
rela luxuosa em frente ao shopping Castanheira. que e particular. a preie\to
de ser este o pdrtico que Belem de\e ter na sua entrada per rodo\ ia. Para
contrabalanqar um pouco esse dispendioso discurso utililario. a prefeitura
podia restabelecer a modest passarelj que foi post abai\o. em outro ponIlt
da mesma a\enida. para no comproinetero \ visual do palicio do Tribunjl de
Justica do Estado. restaurado. reformado e ampliado a conta de mani de 301
milhoes de reais.
Como as belas escadarias do antigo Instituio Lauro Sodre permaneceni
sem qualquer uso. porque o ingresso frontal foi interditado o acesso e late-
ral. inteiramente desconfori\iel e ae nmesmo hostul para quem njo busca a
justiqa de% idamente motorizadoi. e as janelas dispoem de pesadas cortmina
contra o barulho e\iemo. o poo ajradeceria se aquela pasagemn de pedes-
ires na A.lmiranie Barroso fosse restabelecida. Pouparia o transeunte e\en-
tualinenie interessado nos sert icos jurisdicionais do tribunal de crninhada
mais long e penosa.


Jornal Pessoal I QUINZENA JUNHO DE 2008







FOTOGRAFIA

A colunista ecletica
Elanir Gome% da Sil'a. cin pleno %clwinlro tic 1964. cra Jca-
nette Blanche. "com ersaido coin voci... ". intlo de l. toina
dominical, de quase iniiir p.gilna. qim assinala in A. Pii'n-
cia do Pari. .-indt era a bela Idana di iocicdacde.
em trdnsito parl SL' lo 1017ar 1111
intelec-
tual, das
poucas H
que con-
seguiu fi-
zer tal pe -
curso. cR-
sa colunta, ",, ,
des ta q u "e
para duaj.io-





miaAmocdod Lt-
bato e Sc/ ma
Braga, a miii im -
prensa i/chlit cle/ cr A
ano. Notas sbrch
gente VIP flutilida-
des, amcnidad..,.
negdcios o hudo. ..
cultural, aic,,m das
informa(e's tle
fora", recorntahi\ds dtoi
ainda dificeis joriina
"do sul do ", pa ". Lq
chegavain par poniicos
em Belrm, ii ,eme'nia- t
vam a coluna dati atn r
Lana, que jd se oi, mas deixou muitas lembranas, como esta.


MUDANEAS
0 marechal Alexandre
Zacarias de Assunqao foi
eleito governador do Pard,
em 1950, com o compromis-
so de mudanca "para a re-
dencao do Estado". Iria aca-
bar com o despotismo do
PSD "baratista", estabeleci-
do no poder desde 1930.
Mas no final de 1953 o go-
verno da liberdade e da de-
mocracia praticaria seu pri-
meiro ato de viol8ncia ao re-
primir a marcha da fome",
corn o uso tambem de forqa
federal. Virios manifestan-
tes foram press, entire ope-
ririos e estudantes, e'o se-
cretirio-geral do Partido So-
cialista Brasileiro, Raimundo
Jinkings.


Cldo Bernardo, president
do PSB, tentou atravessar o
cordao de isolamento policial
para entregar ao govemador
um memorial "pedindo medi-
das contra a crise que esfo-
meia a populaqao, e indican-
do-as concretamente". Foi
impedido pelo irmao, Silvio
Braga, e por outras pessoas,
receosas de que ele acabasse
sendo assassinado. Um ofici-
al do Ex6rcito arrancou dos
ombros de Cl6o a bandeira
brasileira com a qual popula-
res o haviam coberto. Silvio
Braga procurou o comandan-
te interino da base area, co-
ronel Cabral, para Ihe fazer um
apelo. Depois de saber do que
se tratava, o official bradou que
"deputado nao vale nada".


CiRIO
E quem nio fazia a sua
paradinha na loja O Cfrio, no
inicio da Jodo Alfredo, e na
fibrica de M. Machado da
Silva, na Dr. Assis, na Cida-
de Velha? Era a fabrica de
velas, muito usadas exata-
mente durante a festa annual
em honra de Nossa Senhora
de Nazar6. Mas a loja conta-
va com um complete sorti-
mento de imagens e artigos
religiosos, terqos, livros, es-
tampas e santinhos. Era es-
pecialista em saches de ras-
pa de madeiras cheirosas
para perfumar a roupa. Tinha
tamb6m grande variedade de
defumaq6es e de banhos: des-
carga de Sdo Jorge e Felici-
dade, Santa Terezinha, Nos-
sa Senhora das Gragas, egip-
cia e indiana. Era uma festa
para os olhos e a curiosidade
atravessar a loja, entulhada
mas organizada.


PRODUTOS
Umn anfincio de journal era
o autlntico mosiruario do e\-
traitiismo \egeral e animal.
que ainda constiruia a aji\i-
dade econ6mica preponde-
rante na Amaz6nia na ddca-
da de 50, um pouco antes das
estradas e sua integraqao
econ6mica (n6s, como forne-
cedores de mat6rias primas
e consumidores de produtos
elaborados). Eram ofereci-
das peles de boi, catiti, quei-
xada, capivara, veado, mara-
caji e onqa, o mais valoriza-
do (o equivalent a compra
de 160 exemplares dejornal,
o que, hoje, na mais cara das
hip6teses, aos domingos, re-
sultaria em 400 reais).
Os demais produtos anun-
ciados: maqaranduba, curud,
azeite de andiroba, 6leo de
copaiba, cacau, cumaru, ba-
baqu, tucuma, grude de pes-
cada e de gurijuba, algoddo
em pluma e em caroqo, fibra
de juta, de uacima e malva, e
jutaicica.


8 JUNHO DE 2008 I' QUINZENA Jornal Pessoal


i'-







,- -- -"

1 ., .. :.



INDUSTRIAL
Era ampla a lista de produtos da Fibrica Nazar6 e do Mo-
inho Guarani, de Neves Dias & Cia., estabelecidos em Bel6m,
na travessa Frutuoso Guimaraes 211/223, e em plena ativida-
de na d6cada de 50. No ramo de bebidas havia as aguardentes
Coaraci e Nazar6, a bagaceira Rosa, a cachaqa Doiro por
Ela, o conhaque de alcatrao Machado, o quinado D. Pedro II
e xaropes diversos. No outro setor, farinhas de arroz, carima,
araruta, macaxeira e surui, al6m de pimento e azeites de dend8
Flor, de patui Tupi e Lagosta.

PROPAGANDA

Nossa televisao
A TV Marajoara, dos Didrios Associados, comemorou
seus tries anos com um "grande show", em setembro de
1964. As principals atraodes eram os cantores Angela
Maria, Miltinho e Marion Duarte, mas tambdm haveria
lugar, no curso das tres horas de espetdculo, para os
astros e estrelas do "cast" regional, que era numeroso.
Tudo "ao vivo", diretamente do auditdrio da Rddio
Marajoara, que ficava na praga de Nazare (substituido
por um prddio residential). A intense carreira do canal
2, com tantas histdrias, se acabou por um ato de forga
do governor military que completou a ascensdo de um
novo impirio, da Rede Globo.


EM COMEMORACAO AO
T CANAL
-TV M R&JOARA 2

DIRETAMENTE DOAUDITORIODA RADIO MARAJOARA
:T Nossa fiesta de anivernsao -- o GRANDE SHOW" te.a Angela Maril
I: I Miltinho e Marion Duaite. "Asttro" e estrlas' do "cast regional desllarao,
nI_ tanmbnm, para VoeC, apresentando seu:e maiores sucesos. Prometemos trI ho0
i i las de espetaculo movmmentndo. cheio re surpresas e aIragoes. Convidamo-lo a
i AflUilHiC r estar present e temos certeza de que Voce n.io faltaal!
t '... .... !
PRECO DOS INGRESSOS: CiS 1.000,0 -- A VENDA NA PORTARIA DE.
A PROVLNC! A DO PARA.


S0 alto e os baixos
Nagib Charone 6 um dos poucos academicos que se
Sexpbe ao debate p6blico em Bel6m. Uma vez por semana
ele enfrenta o desafio de um tema de interesse imediato
com um artigo em O Liberal. Nem sempre concordo cor
So que ele diz, mas aprendo tanto na diverg6ncia quanto na
afinidade. Sua iltima manifestacqo 6 sobre tema relaciona-
do a uma nota publicada na ediq~o anterior deste joral.
SNao hi motive para panico nem para press, mas 6 precise
estudar melhor o subsolo no sitio de Bel6m, que esta sendo
submetido a uma pressao que ningu6m, baseado no proces-
Sso hist6rico da cidade e no bom senso, podia prever.
Quem constr6i seu espigdo faz sondagem no terreno do
seu estrito interesse. O que aconteceri ao redor e mais
al6m nio 6 alcanqado por essa abordagem, marcadamente
commercial, mesmo quando respaldada na melhor ciencia e
na mais modern t6cnica. A tarefa cabe ao poder piblico,
que, prevenindo-se desde logo, devia inibir e nao fomen-
tar desbragadamente, como esti fazendo a hipertrofia do
Screscimento vertical na capital paraense.
Quando Jerzy Lepecki encomendou o projeto de uma
usina t6rmica nuclear para enfrentar a carencia de energia
em Bel6m no final da d6cada de 60, essa alternative foi
descartada porque o terreno nao oferecia seguranqa para
absorver a vibracao gerada pelo funcionamento dessa ter-
mel6trica: Quem 6 vizinho dojornal O Liberal senate quan-
Sdo a possante rotativa entra em agqo, mesmo com os cui-
dados tornados na construgao do piso especial para a mi-
quina. Numa padaria perto das torres gameas que a Village
esti levantando (tema da nota do JP), sente-se quando um
veiculo mais pesado passa na rua. Nao sei se as rachadu-
Sras cada vez mais visiveis em uma das paredes do estabe-
lecimento t6m a ver cor essa influencia. Mas 6 impossivel
Sno fazer associaqao imediata cor a image que define o
subsolo do terreno: um colchio de lama.
A prefeitura podia se unir a Universidade Federal do
SPara para um levantamento amplo sobre a estrutura do sub-
Ssolo e os efeitos que ele ji deve estar sofrendo pelo aden-
samento dos grandes pr6dios erguidos na cidade, um cada
vez mais pr6ximo do outro, e cada vez mais altos. As ob-
Sservaq6es feitas por Nagib Charone, ponderadas e equili-
bradas, dao o tom da necessidade desse trabalho, que, nao
tendo precedido as construq6es, precisa, agora, mediar sua
expansao. E, talvez, interromper seu fluxo exagerado. Mes-
mo que os construtores de espigoes adotem a titica do si-
1 lncio ou do barulho alugado, promocional.


Propaganda
"Para, terra de direitos", proclama a propaganda do go-
verno do Estado, fartamente veiculada na imprensa, inclu-
sive em O Liberal, recolocado na programaqao. Nosso
humor nao chega a tanto. Como naquele sempre lembrado
epis6dio de Garrincha com os russos na Copa de 1958, es-
queceram de combinar cor a realidade, inclusive nos dias
da panfletagem onerosa.





seniana~ ~ ~ deiao ooeuvoaannesitn


Jornal Pessoal / QUINZENA JUNHO DE 2008 9








Ministra vai, ministry vem: e a Amazonia?


Diz o ditado popular que s6 nos da-
mos conta do valor de alguem quando o
perdemos. No caso de Marina Silva, se-
ria melhor dizer que sd Ihe damos valor
ao verificar quem a substituird
no Ministerio do Meio Ambiente. Assim
como havia o general da praia, hd o eco-
logista da praia e Carlos Minc o per-
sonifica bem. Se Marina ndo tinha uma
visdo complete da AmazBnia, sendo a
Amazonia a prioridade do MMA, a de
Minc e incomparavelmente mais distor-
cida. Nao exatamente pela distancia fi-
sica, que pesa, mas pela idiossincrasia
intellectual.
Marina e um produto tipico da reali-
dade amaz6nica enquistada no Acre, corn
um "vies" de matriz international, em
fungao do culto de Chico Mendes ldfora.
Mas Minc e a consolidaCdo do exotismo
que contamina e nega validade a visdo
defora para dentro da regido. 0 estere-
6tipo e o maneirismo, alem dos arranjos
programdticos, passarao a vigorarde vez
no Planalto no trato com a Amazonia.
Gragas aos respaldos internacionais,
Marina conseguiu abrigar eproteger uma
equipe decididamente empenhada em evi-
tar a escalada da devastagdo na Amazd-
nia. Essa equipe sofria de macrocefalia,
um mal danoso quando falta ao orga-
nismo braVos para atuar diretamente na
realidade. Boas ideiasficaram inconclu-
sas ou irrealizadas. Sua execugdojamais
seria tranqiiila num governor "desenvol-


vimentista", como o de Lula (nesse as-
pecto, como em vdrias outros, uma ex-
tensdo do governor FHC, cor outra re-
tdrica e um populismo mais consequen-
te). Mas como a ministry decidiu engo-
lir todos os sapos (sobretudo os barbu-
dos) para continuar ta frente do ministe-
rio e conduzindo a causaa", essa tole-
rancia acabou desfigurando-a e imobi-
lizando-a. 0 ato de maior efeito
em todos os seus cinco anos foi o que
tomou ao decidir sair, de natureza essen-
cialmente political, fundamental para o
seu future, que e politico. Mas sem con-
seqiiencia para a Amazonia, agora su-
jeita as ordens de um ecologista de praia.
Dei esta resposta ao Elias Ribeiro Pin-
to, que me fez a pergunta sobre o que
iria acontecer cor o pedido de demis-
sao de Marina no dia seguinte ao ato para
publicar na sua coluna no Didrio do
Pard. Passados os dias, nao sinto a ne-
cessidade de corrigir essa primeira im-
pressao, que me veio tao logo soube da
apresentacqo da carta da ex-ministra
Depois de perder varias quedas-de-bra-
go, cor competidores fora e dentro do
governor, sendo humilhada em algumas oca-
si6es pelo president Lula, a tiltima delas
quando ele transferiu ao ministry sem pas-
ta (e com muitos sonhos, ou delirios) Man-
gabeira Unger a conduqao do PAS (Pro-
grama Amaz6nia Sustentivel), Marina deu
o troco. Mais do que compensou, cor essa
tirada essencialmente political, que lhe rea-


bre uma posiqao de respeito no Senado,
tudo que precisou engolir at6 entao. Uma
vit6ria pessoal incontestivel e um lance
de sagacidade de admirar. Deu o primeiro
rabo de arraia no inatingivel Lula.
Mas o que isso represent parea a
Amaz6nia? Essencialmente, nada. Saben-
do que hi muita espuma num mar que
pode nao estar para peixe, Carlos Mine
(at6 este domingo, 18, em que vos escre-
vo) resolve, para usar expressao do se-
tor, viajar na maionese. Se Marina cali-
brou para sair cor honra de um cargo
que a ameaqava enterrar, Minc soprou
mirfades de bolinhas de sabao para, se for
o caso, n5o assumir com honra o minis-
t6rio, voltando aos seus muitos afazeres
praianos (e parisienses tamb6m, que nin-
gu6m 6 de ferro).
Mas se tudo for para fazer de conta,
nada impedird que Lula, depois de apre-
ciar o jil6 de sua velha aliada, tamb6m
entire na danqa e aceite tudo que o qua-
se-futuro (mas-quem-sabe-talvez-ex)
ministry exigiu, para, depois, acertarem
o que vale de vera. Muito menos do que
o que se diz para o distinto piblico.
O mundo virtual tudo aceita e, ao
que parece, o midiatico tamb6m. AAma-
z6nia real, aquela que tamb6m existe
al6m da tela do computador, dos tra-
qos dos mapas e das linhas no papel,
esta, ao que parece, continuara a ser
destruida. Com mais jeito, provavel-
mente. Mas sempre.


Carts ao Ithit-or'


JORNALISMO
Ao ler o comentario de Manuel
Dutra sobre a tese de sua confrade
de Icoaraci, nao pude center a mi-
nha vontade de participar desse de-
bate, porque o autor deste texto toca
em quest6es importantes para dis-
cutir, nao s6 a chamada "questao
amaz6nica", como o papel das uni-
versidades neste imenso e contradi-
t6rio pafs.
Quando eu terminei a minha gra-
duaqao na Pontificia Cat61ca de Sao
Paulo, pelos idos de 80, conheci uma
professor de Sociologia Rural que
conhecia o Ltcio dos tempos em que
ele era aluno da antiga Faculdade de
Sociologia. Record claramente de
uma observaqao feita por ela sobre
o seu trabalho intellectual
A observaqao foi a seguinte: "Lii-
cio Flavio 6 brilhante. Pena que aban-
donou a pesquisa (academica, certa-
mente) e tenha enveredado pelo jor-
nalismo". Aquilo me intrigou. 0 que
motivou a professor a rebaixar a ati-


vidadejomalistica? Por que desqua-
lificar a atividade e a prticadojoma-
lista, principalmente quando sabe-
mos que grandes soci61ogos, como
Florestan Femandes e muitos outros,
antes de se tomarem soci6logos, tra-
balhavam emjomais, fomecendo ri-
cas contribuiq6es para o conhecimen-
to da realidade brasileira? Por que a
academia 6 tao resistente ao trabalho
jomalistico, mesmo sabendo que um
dos grandes pensadores da socieda-
de, como foi Karl Marx, foi um bri-
lhantejomalista?
Ao ler as observaq6es do
Dutra nao pude de deixar de me in-
dagar: ora, um bom jomalista deve
possuir, entire outras qualidades, a
capacidade de fazerperguntas, inquirir
a realidade e desenvolver aquilo que
Pierre Bourdieucharnavade "descon-
fianqa epistemol6gica". O bom jor-
nalista, assim como um bom cientis-
ta social, exerce fundamentalmente um
papel onde a critical e a busca de fun-
damentos que sustente os seus argu-
mentos sao os elements centrais de
seu trabalho intellectual. Sao pessoas
antenadas com o que se passa no


mundo e profundamente comprome-
tidas com o seu desvelamento. Ojor-
nalista vai em busca dos fatos, assim
como o cientista social procura os
interpreter, sem que as fronteiras se-
jam tao demarcadas.
O que pode estar ocorrendo 6 que
a academia foi gradativamente per-
dendo a sintonia com o mundo real,
pois se tomou incapaz de dialogar
como o que acontece na contempo-
raneidade e tamb6m com o mundo
em seu redor. Aqui no Para, por exem-
plo, onde os grupos que controlam a
midia sao incapazes de aliar-se com
a intelectualidade, o jomalismo ten-
de a esclerosar-se, virar balcao de ne-
g6cios, e nao uma instancia critical
cominteresses mais universais Ojor-
nalismo e a universidade, ao perde-
rem a perspective hist6rica, divorci-
am-se do mundo, apequenam-se, su-
cumbindo aos interesses imediatos,
transformando-se numa esp6cie de
conservea cultural", onde se vende
gato por lebre.
Ldicio FlIvio torna-se "invisi-
vel" para esse tipo de cultural por-
que em tal situaq~o de "mis6ria cul-


tural" torna-se impossivel a sua
absorqco por parte de uma elite lo-
cal, que, sem visao hist6rica, 6 in-
capaz de conviver de uma forma
plural cor o contradit6rio, princi-
palmente quando eles ferem os in-
teresses privados. Na verdade, o
jomalismo de Ldcio Flivio incomo-
da porque 6 modern, porque ex-
p6e os fatos e os interpreta a luz
do raciocinio 16gico, sem receio de
melindrar interesses. Ojornalismo
que ele faz represent o ideal da
modernidade, porque rompe cor
os interesses patrimonialistas. Faz
um jomalismo modern numa soci-
edade arcaica e paga um preqo por
isso. Como ter talent e um senti-
do da hist6ria, sabe o preco que se
paga por ousar em ser modemo. Seu
livro "Contra o poder", por exem-
plo, 6 um verdadeiro simbolo e re-
sistencia ao provincianismo arcai-
co, que um dia virara fantasmas ron-
dando a hist6ria. A forqa das id6ias
nio 6 tao irrelevant quando imagi-
na certo materialismo mecanicista.
Ele sabe disso.
Benedito Carvalho


10 JUNHO DE 2008 tI QUINZENA Jornal Pessoal


i~i~c~i~EI~








PAPEIS DA HISTORIA

Jornalistas: o alvo


Os ares nunca foram muito bons para
jornalistas critics (ou independents) no
Para, antes, agora e ao que parece sem-
pre. Em 1928, duas charges da grande im-
prensa do Rio de Janeiro (entao a capital
federal) apregoavam essa mi fama. Numa
delas, do Jornal do Brasil, um cidadao ele-
gante pergunta a outro, alquebrado, se ele
foi "vitima de uma trombada de auto". Res-
posta do acidentado: "NIo, senhor, sou jor-
nalista no Pard". Na outra charge, publicada
em O Globo, outro cidadao aprecia o muque
de um musculoso personagem, mas logo
observa que, se fosse jornalista no Para, o
"Bentescovavam". O neologismo era refe-
rencia explicit: ao entao governador Dioni-
sio Bentes de Carvalho.
Depredaqao de instalaq6es fisicas e
agressao aos integrantes das redaq6es sem-
pre acompanharam a trajet6ria da imprensa
paraense, quando ela divergiu do poder es-
tabelecido. Ele se tornava ainda mais vio-
lento quando combinava o dominio politico
cor o econ6mico. Os registros a esse res-
peito slo numerosos, mas em 1950 eles atin-
giram o paroxismo por conta de uma das mais
violentas eleiq6es ja disputadas no Estado.
O poder estabelecido em torno de Maga-
lhdes Barata pretendia se manter de qual-
quer maneira e a oposiqao queria se ver livre
de um dominio hegem6nico iniciado em 1930,
que at6 entao resistira aos golpes eventuais
dos adversarios e dos correligiondrios que
mudavam de lugar, conforme a regra da trai-
qao de oportunidade.
A perseguigqo aos jornalistas comeqou
em 11 de abril daquele ano, cor o banho de
fezes que os "baratistas" deram em Paulo
Maranhlo, o dono e principal jornalista da
Folha do Norte, a mais feroz cidadela "anti-
baratista". Esse epis6dio 6 mais conhecido,
ja foi relembrado neste journal algumas vezes
e se tornou incontroverso: nao ha mais dii-
vida sobre a autoria do vil atentado contra o
velho Maranhao, comandado por Armando
Corr8a, entao secretario-geral do Estado no
governor de Moura Carvalho.
Ja o outro epis6dio, de 20 de maio, con-
tinua pol6mico. Humberto Vasconcelos, ca-
pitao do Ex6rcito, que estava lotado no De-
partamento Estadual de Seguranqa Piblica,
depois de atuar na assessoria do general Za-
charias de Assumpqao (que venceria a elei-
qao para o governor, derrotando Barata),
quando ele era comandante da 8" Regiao
Military, matou o jornalista Paulo Eleut6rio
Filho na sede de O Liberal.
Vasconcelos decidiu cobrar satisfacqes
do autor de mat6ria da ediqao do dia anterior
dojornal, que levantava d6vidas sobre a sua
masculinidade. O official atribufa a ofensa ao
deputado Joao Camargo, gerente dojornal,
que era 6rgao official do PSD, o partido "ba-
ratista", cor quem conversara na v6spera,
no plenario da Assembl6ia Legislativa.
Camargo realmente fizera observaq6es
sobre o modo de vestir do military, que imagi-
nara um relaxado, mas que se parecia a um
dandi. Aparentemente, nao questionara a


virilidade do military. A insinua-
gqo maldosa surgiria no artigo
publicado no dia seguinte, sem
assinatura, mas de autoria de
Joao Malato, um dos mais agres-
sivos articulistas da imprensa
paraense, que era entlo reda-
tor-chefe de O Liberal.
A versao mais corrente, cri-
ada pelos "baratistas", era de
que o military invadira a reda-
qFo do journal, no inicio da ma-
nha, depois de passar algum ,
tempo observando o pr6dio do 'i
outro lado, na Central de Polf-
cia (hoje, Seccional do Comdr-
cio). Nao encontrando Camar-
go, que saira um pouco antes, investira
sobre Paulo Eleutdrio, que escrevia um ar-
tigo, matando-o, depois de terem trocado
tiros. Por tras do ato de defesa da honra,
havia uma questdo political: usando o pseu-
d6nimo de "Cabano", o capitao escrevia ar-
tigos duros na Folha do Norte, inclusive
contra os "baratistas".
Carlos Rocque, na biografia que escre-
veu sobre Magalhdes Barata, publicada em
dois volumes pela Secretaria de Cultura, re-
produziu pelo menos tres verses para 6 fato.
A de Joao Camargo reconhece que Vascon-
celos matou em legitima defesa, reagindo ao
ataque de Eleut6rio, que acumulava o traba-
Iho no journal corn a chefia do gabinete do
governador. Foi por assim entender que o
Tribunal de Justiga do Estado o absolveu
por unanimidade, anos depois, quando ele
ja era major e exercia o primeiro e dnico man-
dato de deputado estadual.
Ja La6rcio Barbalho, pai do deputado fe-
deral Jader Barbalho, diz que Eleut6rio rea-
giu as palavras asperas que ouviu do military
puxando seu revolver (era comum as pesso-
as andarem armadas nessa 6poca) e trocan-
do tiros com ele na redaqao. Ao ficar sem
balas, o jornalista tentou fugir, mas foi sur-
preendido pelo capitao e morto. Rocque tam-
b6m reproduz, na integra, carta do professor
Paulo Eleut6rio Senior, que ataca ferozmen-
te o military (aproveitando-se at6 da mutila-
qFo que sofreu, cor a perda de um dos bra-
qos, durante uma aula de instruq~o que dava
sobre o uso de granada) e o acusa de ter
assassinado covardemente seu filho, versao
endossada na manifestaq~o official do PSD e
a mais difundida desde entao.
Mas nem Rocque nem outros historia-
dores deram atenqao ao depoimento que,
quatro anos depois do crime, foi prestado
pelo acad8mico de direito Francisco Nunes
Salgado e reproduzido pela Folha do Nor-
te. Salgado, cor 24 anos na 6poca do cri-
me, era um dos dois rep6rteres que esta-
vam na redaqao, localizada no segundo
andar do prddio, quando o capitao chegou,
procurando por Joao Camargo. Ao saber
que o gerente trabalhava no andar t6rreo, o
military "voltou incontinenti pelo mesmo ca-
minho, e ao passar pelo gabinete do dr. Pau-
lo Eleut6rio Filho, que entao estava em sua


banca de trabalho, dirigiu-lhe as seguintes
palavras: 'estas armado".
Salgado nada mais ouviu porque Eleut6-
rio "imediatamente alvejou o military com di-
versos tiros de um revolver que tinha A cin-
tura". Humberto Vasconcelos "procurava
defender-se das balas", mostrando-se "bas-
tante calmo". Desfez-se das luvas e do que-
pe que usava, mas nao chegou a empunhar
a arma que tinha (o future advogado nao
soube precisar se era revolver ou pistola).
Foi "atingido duas vezes, uma do lado direi-
to e outra do lado esquerdo, na altura da
clavicula". Para escapar dos tiros, Humber-
to Vasconcelos "recuava em direqgo a uma
cabine de rAdio, localizada na redaqao do
journal, do lado oposto ao dos gabinetes dos
redatores dojornal", onde se escondeu, en-
quanto Eleut6rio descia as escadas na dire-
cao da ger8ncia.
O capitao o seguiu j de revolver em pu-
nho. Salgado diz que "ouviu muitos tiros de
revolver, ou armas de fogo, tanto no pavi-
mento t6rreo do journal como para os lados
das ruas Santo Ant6nio e D. Macedo Costa"
Salgado s6 p6de prestar seu depoimen-
to quatro anos depois. Disse nao entender
porque nao foi ouvido no inqudrito instau-
rado no quartel-general da 8" Regido Mili-
tar, embora fosse testemunha do aconteci-
mento. Ja no process judicial ele dep6s
como testemunha referida "debaixo da im-
pressao causada pelas ameaqas de morte
de dois capangas policiais, que exerciam
pressao" sobre ele para "adulterar os fa-
tos, daf a razio de nao ter feito declaraqoes
reais de acordo com o que teve a oportuni-
dade de observer".
Tinha 28 anos quando finalmente de-
p6s. Era entao secretario-geral da Associa-
qio Comercial do Para, inspector federal
concursado do ensino commercial e traba-
lhava na redaqao de A Provincia do Para.
Estava no 4 ano do curso de direito. Seu
testemunho deve ter contribufdo para a
absolvicao do military, que depois sairia de
Bel6m para nunca mais voltar, morrendo em
Vit6ria, no Espirito Santo, onde passou a
residir desde entao, numa especie de auto-
exilio. A viol8ncia ter sido uma forma de
expulsar personagens inc6modos aos po-
derosos no Pard. Poucos resisted.


Jornal Pessoal /I QUINZENA JUNHO DE 2008 1 1








Patrim6nio de Jader e bloqueado (por ora)


Todos os bens do deputado federal Jader
Barbalho foram bloqueados na semana passa-
da, por decisao da desembargadora federal Se-
lene Maria de Almeida, president da quinta tur-
ma da Ia regiao do Tribunal Regional Federal,
com sede em Brasilia. A mesma decisao atingiu
os patrim6nios de outras 10 pessoas, denuncia-
das pelo Minist6rio Ptiblico Federal do Tocantins
por desvio de recursos dos incentives fiscais da
Superintendencia do Desenvolvimento da Ama-
z6nia. Extinta em 2001, por causa de uma s6rie
de escandalos como esse, a Sudam deveri vol-
tar a funcionar regularmente a partir do dia 30,
com a primeira reuniao do seu Conselho Delibe-
rativo, em Bel6m, da qual o president Luiz Ind-
cio Lula da Silva participari.
A decretaqao da indisponibilidade dos bens
dos envolvidos visa garantir o ressarcimento
aos cofres da Uniao de 18 milh6es de reais,
dos quais eles se teriam apropriado graqas A
malversaqao de recursos em projetos que con-
seguiram aprovar perante a Sudam, conforme
a aqao proposta em abril de 2007 pelo MPF
de Tocantins, em funqao de a empresa incen-
tivada, a Imperial Agroindustrial de Cereais,
ter sua sede nesse Estado. A media 6 de na-
tureza apenas civel, ndo questionando mat6ria
penal. Se for plenamente vitoriosa, promove-
ri a devolugqo do dinheiro ilicitamente obtido.
O deputado Jader Barbalho teria influido para
a aprovaqao do projeto, destinado A produqco e
beneficiamento de grios e sementes de arroz, e
cultivo de milho para produqao de raqco. Em
troca, receberia 20% do valor da liberaqao, se-
gundo a inicial do Minist6rio Piblico. A empresa
deveria investor R$ 58 milh6es de recursos pr6-
prios para ter direito a outros R$ 58 milhoes de
colaboraqao fmanceira. Para comprovar seu pr6-
prio investimento, a empresa teria usado docu-
mentos falsos, emitidos por outras empresas, que
participavam da trama, muito freqtente at6 a ex-
tingao da Sudam.
Pela forma corn que a noticia foi dada em
0 Liberal, como segunda manchete da primei-


ra pdgina, pareceu que, finalmente, a justiqa
acertou suas contas com o ex-ministro, tutor da
Sudam nos iltimos anos de funcionamento da
superintendEncia. Mas nao 6 bem assim. O blo-
queio dos bens foi decisao isolada da presiden-
te da turma, em liminar. Os outros desembar-
gadores ainda irao votar. O que estd sendo apre-
ciado 6 um recurso do Minist6rio Ptblico Fe-
deral do Tocantins (agravo de instrument) con-
tra decisao do juiz federal Jos6 Godinho Filho,
da 2a Vara Federal do Estado, onde a aqao tra-
mita. No dia 27 de fevereiro o juiz rejeitou o
bloqueio dos bens dos denunciados.
0 juiz considerou frdgil o fundamento do
pedido porque a aqao de ressarcimento se
baseia num 6nico depoimento, o -de Amauri
Cruz dos Santos, que se apresentava aos do-
nos dos projetos como intermediador, em nome
de Jader Barbalho, para conseguir a liberaqIo
da Sudam. Mas o advogado do ex-govema-
dor, Edison Messias de Almeida, que tamb6m
6 juiz federal aposentado, diz que Amauri s6
se referiu ao nome do ex-govemador ao pres-
tar depoimento na sede da PF, em plena ma-
drugada, diante de um grupo de policiais, dele-
gados e procuradores. At6 entao, omitira qual-
quer referencia ao ex-senador. E nunca apre-
sentou um 6nico document comprobat6rio da
sua ligaqao corn Jader. Amauri foi considera-
do revel na aqao no Tocantins porque, mesmo
citado, nao compareceu As audiencias marca-
das para ouvi-lo. Messias sustenta ainda que
a pretensao do MPF estd "irremediavelmente
prescrita", porque o fato apontado como ilici-
to ocorreu hd mais de cinco anos.
Talvez por todas essas circunstdncias, o
Didrio do Pard p6de dar mais um pass no
caminho da sua at6 agora instdvel profissio-
nalizaqao: deu em manchete de pdgina intema
mat6ria sobre o bloqueio dos bens de seu dono,
media que alcanqou o pr6prio journal. Nesse
quesito, O Liberal nao tem condicqes de al-
canqi-lo: algu6mji viu alguma matdria contra
os Maiorana no journal da familiar?


Dinheiro
Cena que ndo se via hd muito tempo, se e que jdfoi vista: o Banco do Brasil antecipando ao Estado, atravis
de empristimos, royalties a serem recebidos pelo Estado por conta da exploraido dos seus recursos
minerals e hidricos. Os 56 milhies de reais serdo usados nas obras do Fdrum Social Mundial, que se
realizard em Belem no pr6ximo ano. Os recursos poderdo dobrar. Quem sabe o banco ndo podia adotar o
mesmo esquema em outras obras, de efeito mais perene e mais direto para o Estado ?


^ I II Atra\'es de Coltra o Poder 20 .4nos de Jorial Pc soatl ao nu
Sptai\io tainlc(;iica) tento contar capitulos da historic re-
cente do Pari que jamais teriam sido registrados se nio e\istisse este jomal. E
mostro como oJP conseguiu reconstiruir esses fatos e a aliar o seu significado no
mesmo moment em que eles aconieciam. 0 li\ ro 6 compost de trechos de male- F
rias aqui publicadas e de um meta-te\to no\ o. que comenta, situa e elucida o cotidi- ,!
anode um jomalismo erdadeiramnene independent. que cumpre sua miksjo mais -
nobre: ser una auditagem do powder. Espero que os leitores ajudem a d ifundir essas '-
historias comprando l\ ro. que esti a %enda nas hancas e em algumas li\ rarias.


I


Siglas
A montanha (o governor
federal), que ji parira um rato
(o PAC, Programa de Acele-
raqio do Crescimento), produ-
ziu outro, tamb6m onomatopai-
co (o PAS, Programa Amaz6-
nia Sustentdvel), depois de cin-
co anos de conjuminagqo.
Com tantas mdes e pais, se
apresentando ou sumindo, o
parto virou uma esb6mia.
Retrato
Retrato da crise: o outrora
todo-poderoso Romulo Maiora-
na Junior aparece (cor direito
a bis) abraqando Silvia Randel,
uma das poderosas da prefeitu-
ra de Bel6m sob Duciomar, cor
poder decis6rio sobre a propa-
ganda municipal. Nada melhor
do que um dia (de vacas ma-
gras) depois de outro (de vacas
gordas). Na segunda tempora-
da a foto seria impensivel.

Coincid ncia
A prefeitura, alias, vai em-
belezar e melhorar a Braz de
Aguiar ("repaginar", como diz
o jargao), rua onde, por coin-
cidencia, comeqa a ser ergui-
do, lentamente, o hotel do qual
RM 6 um dos proprietirios.


Revista
A indigitada fotografia foi
batida durante o lanqamento da
revista C & D, publicaqdo quin-
zenal que comeqou a aparecer
encartada em O Liberal na
semana passada. Para seus
prop6sitos, de serviqo, sem lai-
vos critics, o primeiro ntimero
mostrou qualidades. Pode con-
quistar um segment ainda vir-
gem na imprensa paraense.
Serviu de resposta A altura para
o atraso de O Liberal em rela-
qao ao concorrente, o Didrio
do Pard, que lanqou na frente
o seu jomal digital.




Editor: LOcio Flavio Pinto

EdiqFo de Arte:
L. A de Faria Pinlo
Contato:
Rua Aistides Lobo. 871 b 66 053 020
Fones: (091) 3241-7626 E-mail:
lornaldamazon com br




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