Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00323

Full Text


MAIO
DE 2008
IjQUINZENA


A Aornal Pessoal
A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO


- 4" d. -


~ S~--'t'p
jr~fV &.


DECISAO


Hidrel6trica: nunca mais?

Quase 20 anos depois, Altamira voltard a abrigar no final do mes, um encontro dos
que se opem a construCdo da hidreletrica de Belo Monte. Poderd ser o golpe de
miseric6rdia no projeto da grande usina, que seria uma das maiores do mundo. E o que
a Amazonia quer? E o que e mesmo que a Amazonia quer?


O rojeto da hidrel6trica do Xin-
u foi concebido originalmente
pela Eletronorte para seguir a
trilha aberta pela usina de Tucuruf, que
comeqou a ser construida em 1975 no
rio Tocantins e foi inaugurada nove anos
depois, para se tornar a quarta maior do
mundo. Mas a trajet6ria de grandeza in-
questionivel foi interrompida em 1989,
quando dezenas de indios de diversas
tribes da regiao foram reunidos em Al-
tamira. O novo grande aproveitamento
energ6tico ruiu no moment em que a


fndia Tuira esfregou seu facdo no rosto
do principal executive da Eletronorte
present ao encontro, Jos6 Antonio Mu-
niz Lopes, atual president da Eletrobras.
A image do assustado engenheiro ma-
ranhense tentando se livrar do ass6dio
de aparencia feroz circulou pelo mundo
como um simbolo da resistencia dos na-
tivos ao empreendimento agressor. A vida
natural (ou a vida selvagem) vencia a
tecnologia metropolitan.
Um segundo encontro dos povos in-
digenas de Altamira estr marcado para


os dias 19 a 23 deste mes. O objetivo
dos seus organizadores, alguns dos quais
tamb6m responderam present ao even-
to de quase 20 anos atris, 6 dar o coup
de grace na usina do Xingu, selando de
vez a sua (mi) sorte. Uma plendria cor
centenas de indios a carter, brandindo
suas armas e exibindo sua indumenti-
ria, pode arrematar cor mais esta
image forte do mundo primitive ama-
z6nico, projegao de edens e paraisos
ameaqados de perdicio a rejeiqao
CONTINUE NA PAG


II'O.X RM I U IRI I Y RW 1 40 171U Do Ra w Of l l 1;IH


N" 417
ANO ,
' 3,00Q


nasllssllllslmrrssIlrr~--r~---s~


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JLlllllllllllllsl~l11111111111111111


Irrrrrr~l~lrrrrllllr"r~Lurrrrr~






CONTINUAVAO DACAPA "-" Y- -
mundial da consciencia ambiental (ou
mauvaise) ao represamento de rios ama-
z6nicos cor o objetivo de gerar ener-
gia. Hidrel6tricas, nunca mais?
Provavelmente sim para quem for-
mou sua convicqco i distincia, mesmo
que impulsionado pelo mais profundo sen-
timento de solidariedade pela Amaz6nia,
formado a base de estudos e pesquisas.
Mas o cidadio da regiao esta mesmo dis-
posto a nunca mais tentar extrair quilo-
watts dos seus intimeros cursos d'agua,
que constituem a maior bacia hidrogra-
fica do planet? Desse ponto de vista,
nao ha a mesma unanimidade que move
os militants das causes nobres, sejam
ecol6gicas como sociais.
Uma parte da opinido pdblica local (e
tamb6m national) se recusa a arquivar e
esquecer o potential de hidreletricidade da
Amazonia, que pode dobrar a capacidade
instalada atual do pais. Sobretudo os de
mentalidade (e pratica) barragista querem
seguir em frente, aplicando o que apren-
deram. Ao ignorar as mudancas havidas
na mentalidade e na pr6pria realidade mun-
dial, por6m, colocaram diante de si barrei-
ras que ja nao estdo mais em condiq6es
de superar pelo simples voluntarismo.
A hist6ria do projeto da hidrel6trica do
Xingu 6 o exemplo acabado desse ana-
cronismo, cujo residuo 6 excepcionalmen-
te forte no setor privado da construqdo
pesada e entire os seus associados no
govero, na area das minas e energia, comr
destaque para a mais autoritiria das sub-
sidiarias do sistema Eletrobras, a Eletro-
norte. Sem falar no que as grandes em-
preiteiras significam para o fluxo de di-
nheiro nao contabilizado nas campanhas
eleitorais, mais popularmente conhecido
como "caixa dois".
Depois do estrago da india Tuira, pri-
ma do maior lider indigena de entdo, o ca-
cique kayap6 Paulinho Payakan, hoje em
desgraga, a hidrel6trica mudou de nome
para se livrar da carga emotiva: deixou de
se chamar Karara6 e passou a ser Belo
Monte. Nessa linha de raciocinio, a nomen-
clatura deixou de ser a traditional UHE
(Usina Hidrel6trica) e passou a ser AHE
(Aproveitamento Hidrel6trico).
As mudancas cosm6ticas, adotadas
para agir no inconsciente coletivo, foram
adicionadas transformaq6es de conted-
do: a barrage de Babaquara, que pro-
vocaria enorme inundaqio, desapareceu
do prospect do Xingu. A Eletronorte
jurou que s6 iria fazer um barramento
no Xingu. Mas nunca conseguiu conven-
cer os analistas mais t6cnicos, principal-
mente porque continuou a garantir que


Belo Monte seria capaz de gerar os
mesmos 11 mil megawatts de energia
mesmo sendo reduzida a uma usina qua-
se a fio d'agua, sem o reservat6rio, que
estava previsto para garantir essa po-
thncia, com area de 1,2 mil quil6metros
quadrados (no novo projeto, reduzida
para 400 km2, equivalent a area das
grandes cheias anuais do Xingu).
Claro que para garantir uma energia
firme com viabilidade econ6mica, seu
construtor teria que contar cor novas
regularizac6es a montante no Xingu. Sem
esse acuimulo de agua rio acima, para
manter a usina em funcionamento duran-
te o perfodo de estiagem, Belo Monte se
torna tecnicamente inviavel. Nio se pode
nem avancar sobre as importantes ques-
t6es sociais, antropol6gicas e ambientais,
que pesam muito menos nesse projeto do
que influfram no caso de Tucuruf: Belo
Monte nio ter energia firme capaz de
justificar o alto investimento para cons-
truf-la e estender longas linhas de trans-
missdo de sua energia at6 os grandes cen-
tros consumidores. Ela simplesmente nto
vale a pena economicamente.
Ao inv6s de enfrentar os enormes de-
safios que o projeto imp6e, seus execu-
tores e defensores preferiram adotar a
estrat6gia de tentar criar fatos consu-
mados para dar carter de irreversibili-
dade a hidrel6trica. O risco de um co-
lapso no fornecimento 6 sua arma pre-
ferida: sem Belo Monte o Brasil pode se
sujeitar a blecautes, como o que aconte-
ceu na administraq o Fernando Henri-
que Cardoso, e a Amaz6nia pode ser
privada de investimentos de alto impac-
to, que somam bilhoes de reais. O risco
existe, mas nao a relagqo de causa e
efeito com o projeto do Xingu.
Outras provid6ncias (como a repoten-
cializa go de velhas usinas, redugqo das
perdas na transmissdo, uso de fontes al-
ternativas), todas ja apontadas, foram ig-
noradas pelos que querem continuar a
abrir grandes frentes de obras (as mais
mastod6nticas sendo as hidrel6tricas),
menos suscetiveis a fiscalizaq.o e con-
trole externo. E investimentos, mesmo em
altas cifras, podem acabar provocando
mais custos do que beneficios, como ja
se esta cansado de ver na Amazonia.
Novas hidrel6tricas nao devem ser
descartadas, como se nio passassem de
item pecaminoso num decalogo tio dog-
matico quanto a situaSqo anterior, para
a qual deviam ser a correqco. Mas para
que sejam construidas, 6 precise que
seus responsaveis convencam a opiniao
public de que elas sio realmente van-
tajosas. Nio basta enunciar grandezas


quantitativas, como antes, na era de
mamutes como Itaipu e Tucurui.
Os autores do projeto de Belo Monte
sequer demonstraram sua boa inteniao.
perdendo legitimidade e autoridade em
cada um dos muitos incidents na aciden-
tada trajet6ria do empreendimento. O
mais recent 6 inacreditivel. Depois de
marchas e contramarchas na batalha ju-
dicial cor o Minist6rio Piblico Federal,
contrario a obra, a Eletrobras conseguiu
autorizacao para iniciar os estudos sobre
o impact ambiental que o represamento
do Xingu pode provocar, se vier a ser fei-
to. Mas simplesmente dispensou a neces-
saria licitagao piblica, sob a alegaaio do
iminente risco da falta de energia no pais,
evitou a realizaqdo de contrato atraves
de um mal disfarqado acordo, e transfe-
riu a tarefa, que era sua, para tr6s em-
presas, as mais interessadas em construir
a usina: Andrade Gutierrez, Camargo
Correa e Norberto Odebrecht. Na popu-
lar image, entregou o galinheiro aos
cuidados das raposas.
Talvez a empresa tenha se inspirado
na privatizaqio da Companhia Vale do
Rio Doce, 11 anos atras. Um dos encar-
regados de aprontar o modelo da venda
foi o Bradesco, que, naturalmente, teve
acesso a alcova da entao estatal. Uma
das normas da modelagem previa que
quem dela participasse nao podia entrar
no leilao. Apesar dessa regra salutar, hoje
o Bradesco 6 um dos donos da Vale e
um dos seus executives preside a ex-
estatal. A japonesa Mitsui tamb6m 6
acionista, embora outra norma vetasse
o acesso de compradores ao capital da
Vale. That's all folks, como proclama-
va o final dos desenhos animados ame-
ricanos de tempos atris. Ou, como su-
geriu uma manchete de protest na pri-
meira pagina de O Estado de S. Paulo
na 6poca da censura sob o regime mili-
tar: agora 6 samba. Da ilha Fiscal.
Mas nio 6. 0 juiz federal Ant6nio
Carlos Almeida Campelo, no dia 15 do
m6s passado, acolheu liminarmente a
pretensdo do MPF e suspended a reali-
zacgo dos estudos acertados, suspensio
que poderd se tornar definitive quando
da decisdo de m6rito sobre a adao. O
Tribunal de Contas da Uniio, chamado
a intervir, poderi jogar sua pi de cal no
caso, enterrando-o administrativamente.
A Eletrobras, nos recursos que porven-
tura apresentar contra essas decis6es.
podera invocar todos os arguments pos-
siveis sem tocar no que 6 essencial para
definir a conduaio do assunto: os dire-
tamente interessados nao podem dele
participar como frbitros. E o que os es-


MAIO DE 2008 I"QUINZENA Jornal Pessoal







Studios significam 6 exatamente a arbitra-
gem sobre a viabilidade do aproveitamen-
to hidrel6trico. Bons estudos ajudardo a
balancear os fatores e discernir se deve-
se ou nao executar o projeto.
Uma soluqio para esse problema 6
mais facil do que pode parecer: bastaria
former um fundo, a partir de deduqgo
de pequenissimo percentual sobre o fa-
turamento cor a geraqao de energia,
para financial todos os Eias-Rimas do
setor, conduzidos pelo governor, sujeito a
um colegiado t6cnico, cor maioria de
entidades cientificas do pr6prio setor pi-
blico, seguindo um roteiro de debates
cor a sociedade. O setor privado espe-
cializado participaria dando consultoria
ou como parceiro nas pesquisas. As
empresas de construcio e de energia
entrariam nos moments seguintes, da
definimao commercial das usinas, sua cons-
truqio e sua operaqgo.
A trajet6ria pode ser longa e compli-
cada, mas sera coerente cor o significa-
do que obras desse porte representam
numa regiao como a Amaz6nia. Ji ha co-
nhecimento e experiencia suficiente para
a regiio saber o que nao lhe interessa e
quais os condicionantes que suas carac-
teristicas ffsicas impoem a esse tipo de
empreitada. Uma delas 6 o veto a barra-
gens de alta queda, que tnm efeito desas-
troso numa regiio cor baixa declividade
natural, por alagarem extens6es inacei-
tiveis de terras. Outra circunstancia fun-
damental 6 o regime de aguas dos rios
amaz6nicos, que varia muito entire o peri-
odo de chuvas e de estiagem. E precise
definir uma potencia de geracao que nio
torne necessario former grandes reser-
vat6rios, para reter agua quando as des-
cargas naturals do rio forem minimas, 30
vezes inferiores ao maximo do inverno,
como no Tocantins.
S6 esses dois fatores seriam sufici-
entes para decretar a morte das gran-
des hidrel6tricas na Amazonia? Aparen-
temente, sim. Ainda mais porque o inte-
resse econ8mico regional nao se conci-
lia mais com a condenaibo da Amaz6-
nia, na political federal, a ser uma usina
de energia bruta, a ser levada, atrav6s
de custosas e longas linhas de transmis-
sio, para outras areas do pafs (e, disfar-
qadas de semi-elaborados, para outros
pauses). O que se quer 6 transformer
essa energia em produtos de maior va-
lor agregado na pr6pria regiio, para que
ela se livre dessa imposiqio colonial.
Mas nio h~ demand local para gran-
des blocos de energia na pr6pria Ama-
z6nia. E verdade, mas s6 em parte. A
Vale do Rio Doce esti tentando enfiar


goela abaixo a termel6trica de Barcare-
na, que usard a mais suja de todas as
tecnologias (a carvao mineral), porque
nao ha disponibilidade de energia para
expandir a capacidade da Albras, que
marca pass ha anos, enquanto sua vizi-
nha, a Alunorte, bate seguidos records
de produqao, tendo se tornado a maior
do mundo em alumina.
O problema 6 real e merece ser con-
siderado, mas nao ao feitio da Vale:
deve-se condicionar oferta nova de ener-
gia ao compromisso da empresa de ir
al6m do aluminio primario, o unico bem
que produz ha quase um quarto de s6-
culo. Parte da adiqio de energia podia
servir a expansao da Albras, mas outra
parte tinha que ser usada para produzir
aluminio secundario. S6 assim o Pard
sairia realmente ganhando.
Considerada como component de
uma political maior, de desenvolvimento
para valer, a energia passaria a ser uma
alavanca de progress e nao apenas uma
maquiagem neocolonial. Belo Monte po-
dia vir a ter viabilidade se estivesse co-
nectada ao empreendimento que a Al-
coa conduz em Juruti, desde que a Al-
coa nao ficasse na mineragio, nem na
alumina, nem no aluminio primirio. Des-
de que se comprometesse a ir alam de
onde a Albras se mant6m desde que
comecou a funcionar.
Desligadas de sua funq~o espoliativa,
as hidrel6tricas podiam tamb6m incorpo-
rar uma concepqio ajustada a paisagem
amaz6nica. Belo Monte at6 hoje nao fez
esse ajuste, mas as usinas previstas para o
rio Madeira deram um pass h frente. Ji-
rau e Santo Ant6nio foram concebidas sem
reservat6rios e mesmo assim preveem
grande geraqio de energia e potencia fir-
me viAvel. Essa equacio se resolveria pela
tecnologia das turbines que vai usar, as
bulbos. Elas nio exigem grande queda para
funcionar: produzem alinhadas com o flu-
xo natural da agua, que 6 horizontal.
Essa solucao foi resolvida nas duas
usinas? Se o foi, ningu6m ainda explicou
como elas poderio utilizar tantas turbi-
nas bulbo de grande potencia. Ngo ha
nenhuma hidrel6trica em operaqgo no
mundo com essas caracteristicas: algu-
mas se valem de turbines de maior por-
te, mas pouco numerosas, enquanto ou-
tras tem quantidade maior de turbines,
s6 que de baixa potencia. A combinacao
de 44 turbines de grande potencia, como
a que foi concebida para cada uma das
usinas do Madeira, 6 dado absolutamen-
te novo. At6 hoje o acalorado debate
sobre esse novo empreendimento hidre-
16trico na Amaz6nia nio incluiu esse "de-


talhe" fundamental, que aparece apenas
lateralmente em alguns lugares.
No blog de Luis Nassif, por exemplo.
Benedito Domingues do Amaral advertiu
que as hidrel6tricas a fio d'agua do Ma-
deira podem "gerar uma cascata de re-
servat6rios (nacionais e o IIRSA), que
vai funcionar como uma bacia de decan-
tacgo dos sedimentos". E que o Madeira
contribui cor 50% dos sedimentos que
drenam para a bacia do rio Amazonas e
com 1/3 do fluxo hidrodinimico, que nu-
tre de vida as virzeas ajusante dos futu-
ros barramentos de Jirau e Santo Ant6-
nio. Um dos efeitos prejudiciais maiores
sera sobre as virzeas do nosso Baixo-
Amazonas, que ter um dos maiores del-
tas interns do planet, chega a mais de
100 quil6metros de largura perto de San-
tar6m. "Uma cascata de reservat6rios no
padr~o de grandes lagos, vai ser uma ca-
tastrofe sem precedentes para o sistema
amaz6nico", preve o professor Amaral na
sua mensagem ao blog de Nassif.
Admitindo a imagem muito usada para
essa situaqio, de que nao da para fazer
omelete (gerar energia para o desenvol-
vimento da atividade humana) sem que-
brar os ovos (meio ambiente), ainda as-
sim o pesquisador alerta: "da forma como
esses t6cnicos pensam, vai quebrar a fri-
gideira at6 o fogao". Como construir hi-
drel6tricas 6 um mal necessario,sugere
que seria melhor somente a construqao
da usina de Santo Antonio cor fio d' gua
"e partir para outros rios cor menor car-
ga de sedimentos, como o Tocantins".
No entanto, originalmente, o projeto
da hidrel6trica de Tucurui previa um des-
carregador no fundo da barrage justa-
mente para dar passage aos nutrients,
evitando a conseqtiincia nefasta ajusan-
te, com a perda da fertilizaqao natural das
margens do rio, realizada semestralmen-
te, e o empobrecimento (ou mesmo o de-
saparecimento) da vida nesses locais,
sobretudo em suas ilhas. O descarrega-
dor foi suprimido sob a alegagio (nao
comprovada) de que podia afetar a esta-
bilidade da estrutura e porque era caro.
Mais seu custo de projeto, de 200 milhoes
de d6lares, equivaleu ao que foi gasto na
vila residential permanent da obra.
Se nio foi aplicado em Tucuruf, po-
r6m, esse descarregador de fundo pode
ser exigido a partir de agora nos cursos
d'agua que transportam volumes signi-
ficativos de sedimentos, como o Madei-
ra. Pelo menos para ver se as turbines a
bulbo, que representam por um lado
avanqo tecnol6gico em relaaio as turbi-
nas convencionais, exigentes de maio-
CONCLUI NA PAG 4


Journal Pessoal i QUINZENA MAIO DE 2008 3








0 crime e o silencio na cidade que more


A Defensoria P6blica da Unito me-
receu louvores quando, no ano passado,
decidiu comprar, recuperar e manter o
belo casarao das professors Paula e
Maria Anunciada Chaves, na esquina da
Rui Barbosa cor a Boaventura da Sil-
va. Parecia que a velha construqgo es-
tava a salvo da sanha dos saqueadores
urbanos de colarinho branco. Pura ilu-
sao. A valiosa biblioteca das duas mes-
tras sumiu -- e o cupim levou a fama
ruim (mais uma rima sem soluqio). Os
freqtientadores daqueles sales continu-
os, cor suas paredes ocupadas por es-
tantes repletas de volumes, sabiam que
eles estavam sujeitos A a~io dos elemen-
tos da natureza, favorecidos pelo clima
quente e dimido. Mas jamais podiam ima-
ginar que tivessem provocado um efeito
tao devastador.
Suspeita-se que suas costas largas
tenham servido de biombo para outros
predadores. Mas at6 hoje nao se p6de
esclarecer essa questao porque os 6r-
gaos piblicos, apesar de ji convocados
a se apresentar por quatro vezes, tanto
neste journal quanto em outros 6rgaos da
imprensa, quedam-se mudos e surdos
aos apelos do p6blico. Por espirito cor-
porativo ou insensibilidade mesmo?
A recuperaqco do solar foi obra de
1,99, como diria o arquiteto Paulo Cha-
ves, o ex-secretirio plenipotenciirio de
cultural & tudo mais no Estado tucano.
Foi serviqo tao ruim que suas marcas ji
se evidenciam na parte externa da cons-
truq~o. Obrou mal o responsavel ou a
verba alocada para o serviqo estava muito
aqu6m das suas necessidades? Nao se
sabe ainda e o motivo 6 o mesmo: quem
devia cobrar explicaq6es e providencias
continue a ouvir estrelas ao meio-dia.
Se quase nada se consumou de tudo
de bom que se esperava ver a partir do
moment em que o 6rg~o pdblico fede-
ral se assenhoreou do velho casarao, o
que de ruim podia acontecer foi al6m das
expectativas. Algu6m responsavel pela


Defensoria Pdblica da Uniao determi-
nou o corte raso de todas as arvores do
pomar formado nos funds da casa, um
patrimonio botinico valioso, o mais im-
portante dessa area central da cidade.
Nao era s6 um bem da familiar Cha-
ves, iniciado pelo pai das duas queridas
mestras, que ja nao estao mais neste
mundo para ver a ignominia praticada
contra uma das varias obras benfazejas
que edificaram em sua terra natal: era
uma conquista da mui massacre cidade
de Bel6m do Grao-Pard. A maioria dos
habitantes da capital dos paraenses cos-
tuma nao dar valor a essa concentracao
de frvores, mas esse 6 um pecado da
cegueira mental e cultural que cumpre
denunciar e corrigir. Nio podemos mais
permitir que, por pretextos f6teis ou pre-
guiqosos, caprichosos ou estdpidos, ar-
vores de grande porte, plantadas e culti-
vadas por varias pessoas, para si e seus
semelhantes, ao long de tantos anos,
venham abaixo impunemente, por alve-
drio de um huno qualquer (ou, pior ain-
da: por um Barberini a solta).
Mais de uma vez manifestei aqui mi-
nha preocupagao cor o patrim6nio que
o acaso na gestao de um 6rgao piblico
colocou sob a guard de um determi-
nado cidadao, que chefia essa defen-
soria pdblica, da qual s6 passamos a ter
noticia quando ela se instalou na resi-
d6ncia adquirida dos sucessores das
duas professors. Sugeri que o quintal
arborizado fosse transformado num
pequeno parque pdblico, franqueado,
sobretudo, ao passeio matinal de babas,
cor crianqas sob sua guard, ou aos
idosos, que se beneficiariam das som-
bras e da clorofila.
Nenhum retorno sobre a proposta,
nenhuma palavra sobre os livros, ne-
nhum mugido ou tugido quanto is obras
sofriveis de recuperaqgo da edifica-
qio. Quem somos n6s, pobres contri-
buintes, cidadaos comuns e homes
sem qualidade, como diria Musil, para


cobrar responsabilidades de autocra-
tas acantonados em cargos nos quais
deviam prestar contas ao public, nesta
rdstia de repdblica?
A cidade que se lixe: o que interessa
6 espaqo vazio para os carros dos dis-
tintos. O home pedestre precisa de
irvores, de sombra, de oxig6nio? Azar o
dele: protegido no alto dos seus tablados
de concrete, os colarinhos brancos ig-
noram o que vai r6s ao chio. Quanto
mais alto, melhor. Nem a cacofonia des-
sa bacia das almas perturba seus afina-
dos ouvidos nem seu cheiro emana para
suas narinas fechadas.
Essa 6 uma caracteristica bem arri-
vista, de quem aqui chega, muitas vezes
contrariado pela remoqgo, e age como
um pr6-c6nsul romano, no maximo como
um Herodes, sempre tendente a lavar
as maos para as picuinhas nativas. Mas
nao s6 isso: foi de cortar o coraqao quan-
do os herdeiros do bravo Justo Chermont
mandaram derrubar, a socapa, as belis-
simas frvores do jardim da mansarda.
na esquina da governador Jos6 Malcher
cor a dom Romualdo Coelho, na con-
fluencia toponfmica de alguns dos gran-
des das elites locais. E tamb6m nessa
ocasiao ningu6m mugiu nem tugiu, para
usar expressio frequente na linguagem
dos representantes dessas elites.
E assim que a cidade vai ficar diante
de mais esse crime que sofre, praticado
por um 6rgio levantino, que aqui se en-
contra em nome da Uniao, como se Bra-
silia nao fosse o produto da soma fede-
rativa, mas sim a usurpaqio de suas von-
tades distintas? Como se Bel6m fosse
uma abstraq~o geogrifica para esses
aprendizes de sitrapas? A cidade per-
deu definitivamente sua vontade, sua dig-
nidade e sua alma?
Se for assim, que os tocos de drvo-
res centenirias sirvam de sinete para
esta Bel6m infame, vitima de um dos
piores pecados da vida em coletividade:
a indiferenqa.


conLrLUSAoDA PAGB


res quedas d' agua, podem ter seus efei-
tos adversos neutralizados. E assim se
tentar ainda produzir energia nos gran-
des e complexes rios amaz6nicos.
Mas por que quest6es como essa
nao entraram ainda nas agendas deci-
sivas sobre as barragens na Amazonia?
Talvez porque a "questdo hidrel6trica"
seja definida por atores que atuam fora


da regido, nao sendo incorporada pelos
nativos, aqueles que vivem na Amaz6-
nia e dela tiram o seu sustento, mais
magro do que em todas as outras regi-
6es brasileiras, exceto o Nordeste. A
Amaz6nia pode estar mais ou menos
devastada, mais ou menos desenvolvi-
da, mais pr6xima ou mais distant de
padres civilizados de vida, mais ou


menos atualizada ao saber universal,
mas de uma coisa nao hi ddvida: nao
influi nas decisbes sobre o seu pr6prio
destino. Por isso, pode ir para um lado
ou para outro dos atores que querem
decidir se ainda se pode construir hi-
drel6tricas dentro de suas fronteiras ou
se essa possibilidade foi eliminada de
vez das suas considerac6es.


MAIO DE 2008 I QUINZENA Jornal Pessoal








A guerra nas ruas e o jogo de cena


O Liberal iniciou uma campanha con-
tra a violencia: deu na primeira pigina
editorial a respeito e vem martelando o
assunto em suas colunas. A causa 6 no-
bre; seu promoter, nem tanto. 0 journal
reclama de sete assaltos praticados em
sucessao contra seus veiculos, exemplo
- mais um da escalada de violencia
que inquieta e amedronta a cidade. Tern
toda razao em cobrar mais resultados
das autoridades. Mas qual a contribui-
9ao efetiva do grupo Liberal para pre-
venir e combater a violencia? Suas seis
piginas de noticidrio policial sao gaso-
lina e nao agua no fogar6u da cri-
minalidade que lavra em Bel6m, como
no Estado e no pais.
Na hora de faturar, o journal manipula
mercadoria e nao uma causa. Trata a
noticia como simples neg6cio, que pre-
cisa crescer, e nao como um element
fundamental da vida social. Cor uma
mdo maneja o interesse coletivo e com
a outra, a destra, a compulsdo comerci-
al. Reagiu como porta-voz da opinion
p6blica quando pisaram no seu p6, mas
ignora ou sufoca a verdadeira missao que
devia desempenhar se de fato fosse o
paladino da causa nobre, interpretando
e expressando os anseios de todos.
E seu direito e at6 seu dever sair
em defesa dos seus funciondrios e do
seu patrim6nio, como qualquer cidadao
faria (ou devia fazer) ao ser atingido por
um ato de agressao e viol6ncia. Mas um
journal nao 6 uma pessoa, nem mesmo
um neg6cio qualquer. O Liberal tinha a
obrigaqCo de ver a si nao como um caso
isolado, mas como um element da pa-
tologia social. No editorial, ojornal ava-
lia o ultraje como mais grave do que o
prontuario cotidiano que reproduz em
suas paginas policiais, justamente por ser
um veiculo de comunicaqgo de massa,
cuja influencia transcende o tamanho do
seu capital (no caso, alias, inexplicavel-
mente baixo demais).
Essa condiq~o, entretanto, pode in-
fluir para atenuar ou agravar sua situa-
qdo. Se o journal 6 efetivamente um por-
ta-voz da sociedade, a sociedade teri
estima especial por ele. Se nao respeita
esse compromisso, pode acabar se tor-
nando alvo de represilias e de um ran-
cor mal acomodado no inconsciente. Os
rep6rteres esportivos do grupo Liberal
ji experimentaram bastante dessa rea-
qao nos estidios de futebol, por conta
de tratamento editorial desastrado dis-
pensado aos clubes, sobre o qual nem


sempre ou raramente podem influir.
A logomarca dojornal, queja imp6s res-
peito, pode agora estar avivando agres-
sividades. Essa 6 a interpretaq~o alter-
nativa a manifestada pelo journal sobre
os assaltos contra seus veiculos. Convi-
nha aos seus donos refletir sobre esse
"sinal dos tempos".
De qualquer maneira, a campanha,
se nao for apenas mais um item nojogo
de pressao exercido sobre o governor,
capaz de refluir se houver acerto en-
tre as parties sobre a cota de publici-
dade, pode servir para forgar as auto-
ridades a sair da frente de espelhos vi-
ciados. O secretario de seguranca (a
designacqo que subsiste debaixo da de-
nominaq~o de "defesa social" dada a
secretaria, por mera ret6rica) ji disse
que, nao havendo crime organizado em
atividade na cidade, a policia esti per-
dendo a guerra para bandos de margi-
nais p6s-de-chinelo.
t esse criminoso primitive que ator-
menta todos os dias a vida do cidadoo e
que escapa inc6lume a vigilAncia poli-
cial depois de praticar toda sorte de de-
litos, a maioria deles ji As claras. Be-
16m se tornou um vasto campo de bata-
lha. A soma das pequenas escaramu-
gas, atingindo pessoas isoladas, mas
que contribuem para uma soma expres-
siva de incidents, criou um estado de
panico coletivo.
Mesmo que nao seja exatamente
assim, nao deixa de ser mais ou me-


nos assim. O problema 6 que esses
bandos de rebeldes primitives (para
usar a expressao de Eric Hobsbawn)
saem todos os dias para exercer seu
oficio e voltam cor produtos do sa-
que, repassado aos nefandos (e inc6-
lumes) receptadores ou negociado di-
retamente em mercados abertos a pi-
lhagem. Os circuitos da criminalidade
se expanded e se sofisticam em Be-
16m. A cidade esti se acostumando a
eles, mas essa rotina nao exclui seu
carter de violencia, que pode resultar
em mortes.
A banalizacao apenas camufla o
agravamento da doenqa. Beldm se
tornou uma das cidades mais violent
tas do pais. Se os criminosos sao ris
ticos e nao formal organizaq6es po-
derosas, e porque, em fungqo da con-
diq~o de vida da esmagadora maioria
da sua populaqao, Beldm 6 uma das
capitals mais pobres e precarias do
pais. E precise ser generoso para nao
dizer que, corn seu porte, nto ha ne-
nhuma pior no Brasil.
O secretirio tem razao num ponto:
seria mais ficil combater esse tipo de
criminalidade se houvesse maior von-
tade de agir com eficiencia para com-
bate-la, e nao apenas encarando pela
6tica do fato criminal. Mas para isso
seria precise que os atores participas-
sem da cena com sinceridade e dispo-
siqSo, a comeqar por personagens mais
influentes, como ojornal O Liberal.


Campanha

Corn o distanciamento do Diario do Paai. que replete ai tude de e\pec-
talita e ,ondagem do ceu donor. o deputado federal Jader Barbalho. a candi-
datura a reeleicao de Duciomar Costa agora No tern o patrocinio de 0 Liberail
entire os grande jornais. Nlas para le antar a bola do alcaide. \ale tudo. prin-
cipalmente no Reporter 70 A coluna faz coniorcionisnimo de circo para \ en-
der seu product. Comno prefeio Ifaz muita propaganda e fala Ie faz i pouco.
o R-7(0 e antelcpou para informal ao distnto ptiblico que sua e\celencia
apro\etlara a indugurago do primeiro trecho ide um quilnmerro' do Portal
da Amiaznmia, no pro6\no mes ia enesima prorrogaqgao para anunciar que
dipuiard a reeleilo
Logo a jeguir. no rnmemo di. a Inota\el coluna intorma que o alcaide esta
se reunindo coin o e\-go\ernador Simjo Jauene pard papo, que "\i a de ad-
ministraqcot a politica. principalmenie sobre d pro~inma eleico n municipal". De
tanto u\ ir. o dubibitali\ o aucanoe ei licando mudo e ee silenciO prolongado.
embora u pico. pode deljocj-lo do ei\o das decisoes. Tjl\cz Jatene estela
coin um dilado popular ii cabega "quem pariu Nlateus que o embale". O
problema e que e esse Maeus e mulo pesido.


Journal Pessoal i, QUINZENA MAIO DE 2008 5







0 meu maior capital, human e professional, eu o
formei nas numerosas viagens que realize pela Amazonia, 0
sobretudo entire 1966 e 1992. Nesse ciclo de jornadas
continues pelo interior da regido, alguns dos .nomentos
mais fecundos (combina ao da plenitude professional com o
prazer pessoal) eu os vivi ao lado de pessoas como o amigo
santareno Manuel Sena Dutra. Era quando o rio Amazonas
tufava, a enchente entrava na pauta da imprensa e eu chegava
a Santarem para verificar a situaqdo "in loco", como se gosta de dizer
(nada melhor do que impressionar em latim, mesmo o de botequim). Avisado,
Dutra aparecia corn o roteiro, que cumpriamos montados em uma
"voadeira", pilotada por um native. Saiamos por rios, furos e parands,
vendo tudo e conversando sem parar, na melhor relagdo maidutica, a
academia fora-dos-muros.
A mem6ria desses dias ferteis me veio ao ser surpreendido pelo aviso
(atraves de outro amigo da terra, Jota Ninos) de que Dutra escrevera a meu
respeito no site Pard Neg6cios, do meu irmdo, Raimundo Jose Pinto. A
media que avangava no texto, a emoCdo ia crescendo. Ao final, as
consideraoqes de Manuel Dutra me deram uma reconfortadora sensagdo de
dever cumprido. Apesar de tudo que nos une, e tambdm por isso, ele fizera
uma andlise profunda, ndo por louvar meu trabalho, mas por colocd-lo
diante de um enigma, de um desafio e de uma perplexidade. A provocacdo
estd complete no titulo do artigo: "Trabalho de Lucio Fldvio Pinto atrai mais
atenCdo fora da Amaz6nia".
Durante quase um m&s permaneci indeciso se reproduzia ou ndo o artigo
aqui. Acabei decidindo pela publicagdo por um motivo principal: a andlise
de Dutra poderd motivar uma reflexdo coletiva, que talvez leve a uma
posigdo mais ativa dos nossos intelectuais, sobretudo dos que se encastelamn
atrds dos muros universitdrios e de curriculos reluzentes, ardorosos
cultivadores da forma e desastrados depreciadores da substancia das coisas
e das oportunidades que a histdria nos propicia por estarmos exatamente
aqui, na Amaz6nia. A referencia ao meu nome e circunstancial: o que
interessa e colocar frente a frente o jornalismo e a ciencia.
Manuel Dutra e Socorro Veloso sdo dois exemplos de jornalistas que ndo
se intimidaram em encarar o ordculo do Guamd e enfrentar a esfinge da
escoldstica. Cor os pes firmes na terra e o olhar voltado para a histdria,
eles passaram das redadoes menos exigentes para as bancadas cheias de
metodos & modos, sem se deixar imobilizar pelo beijo do encantamento
academico. A conjugaCdo da vivacidade do cotidiano, materia prima as
vezes maltratada pelos jornalistas, com o rigor do saber organizado nas
universidades, constitui a marca desses jornalistas-pesquisadores (ou
cientistas), que, felizmente, comecam a se multiplicar e a avanvar sobre
dominios externos. E esse e um dos alentos de esperanqa, num universe de
acomoda5oes, que nos faz crer que ainda e possivel desbravar um caminho
novo na abordagem dos desafios que a Amazbnia nos apresenta todos os
dias. Com a reprodugdo do artigo, espero contribuir para que outros se
sintam estimuladas a singrar essa rota intellectual tdo fertil.


P uco depois de eu assistir a mais
uma exposiq~o pdblica do sofri-
mento do jomalista L6cio Flivio
Pinto, no Museu Goeldi, (o termo pa-
lestra ji se vulgarizou em excess) so-
bre o tema que se confunde com sua
pr6pria vida, que 6 esta Amaz6nia ob-
jeto de tantos discursos controvertidos,
tive o privil6gio de tomar parte da ban-
cajulgadora de uma tese de doutorado
realizada na Escola de Comunicacqes
e Artes, a ECA, da Universidade de Sao
Paulo, no dia 18 de margo.


Trata-se de uma pesquisa de
executada pela jornalista parae
Icoaraci, Socorro Furtado Veloso,
d6cada e meia trabalhou em O I
dos velhos tempos, quando as pa
reportagem, a apuragao e a ediq
da constituiam o pano de fundo d
te6dos que o jornalismo paraens
duzia e o tornaram refer6ncia na
e international sobre o sem-ndim
quest6es amazonicas.
Consider a tese citada como
interessante trabalho sobre a tra


f6lego
nse de
que hd
Liberal
utas, a
do ain-
os con-
se pro-
icional
ero de

o mais
jet6ria


jornalis



m rela


hist6rica, as suas raizes, as motivaqoes,
o context s6cio-hist6rico que geraram
o Jornal Pessoal. Quem, a partir de ago-
ra, interessar-se pelo legado de Ldcio e
pelo que ele ainda escreve, pensa, es-
creveri e pensari, tern que primeiro ler
o trabalho de Socorro Veloso.
A autora da tese leu, releu e leu de
novo 400 edicges do Jornal Pessoal,
mais aquela edicio extra da Agenda
Amaz6nica em que o journal saiu cor
capa preta, em sinal de luto pelos ab-
surdos da carta enviada a Licio pelo
ex-governador Hl6io Gueiros [a edigio
a que Dutra se refere 6 do nuimero uni-
co do Bandeira 3, em maio de 1991].
Leu as ediq6es dos 20 anos do JP, en-
tre 1987 e 2007, esquadrinhou cada
parigrafo, analisou, expondo um fen6-
meno impar, na sua categoria, da.hist6-
ria da imprensa no Para, at6 hoje tao
mal estudada e contada.
Embora o jd long period de luta
do jornalista paraense esteja present,
em forma de citagoes e andlises em in-
contiveis autores de teses acad6micas,
livros brasileiros e estrangeiros, revis-
tas cientificas ou nao, todo o manancial
mais interpretativo do que informative
produzido por Lticio tem chamado pou-
quissima atenqgo (nenhuma seria exa-
gero) dos jornalistas, autores, pesquisa-
dores e intelectuais paraenses e ama-
z6nidas em geral.
Diz Socorro Veloso, na introducio:
"Desde o inicio desta pesquisa, em ja-
neiro de 2003, foram encontradas alu-
soes ao trabalho de Lticio Fldvio Pinto
em livros, teses de doutorado, disserta-
q6es de mestrado, monografias e num
incalculivel n6mero de artigos cientifi-
cos, ensaios, entrevistas e reportagens
disponiveis em veiculos impressos, na
internet e nos meios audiovisuais, tanto
no Brasil como no exterior.
As id6ias do editor do JP interessam
nao s6 a jornalistas e/ou pesquisadores
de jornalismo, mas a estudiosos dos
mais diferentes campos do conheci-
mento. Da hist6ria da imprensa alter-
nativa ao jornalismo cientifico e/ou am-
biental, da andlise geopolitica da Ama-
z6nia aos estudos sobre liberdade de
imprensa, as id6ias de Lticio, de forma
direta ou indireta, emergem em uma


a MAIO DE 2008 QUINZENA Jornal Pessoal









.o e a academia:



o mais fecunda


diversidade de produg6es relevantes.
Nesses trabalhos ele 6 freqientemente
apresentado como um jornalista que
vive e trabalha na fronteira amaz6nica,
sem que tal condiqio o impega de de-
monstrar uma imensa capacidade de re-
flexdo acerca das quest6es globais".
Mais adiante, na introdugqo, prosse-
gue: "A despeito da reconhecida signifi-
cancia do trabalho de Ldcio Flivio Pin-
to, at6 outubro de 2006 havia apenas uma
dissertaqgo de mestrado no acervo da
Universidade Federal do Pari tendo
como objeto central de estudo as id6ias
do jornalista. Sob o titulo 'L6cio Fl1vio
Pinto x Eletronorte: A vit6ria do papel -
Uma leitura argumentativo-polif6nica', o
trabalho de autoria de Maria da Graqa
Ferreira Leal foi defendido em 1993 no
program de p6s-graduacqo em Lingtiis-
tica do Centro de Letras e Artes".

Eclaro que L6cio 6 citado em,
talvez, muitos trabalhos de pes-
quisa realizados no Pari, mas a
&nfase e a importancia dadas a essas re-
ferencias 6 insignificant, quase sempre
como fonte de dados, informag6es jorna-
listicas, mas quase nada sobre a substan-
cia da vida-obra desse jornalista.
Na minha fala, por ocasiao da apre-
sentaqdo piblica da tese de Socorro Ve-
loso, na ECA-USP, na qualidade de exa-
minador externo, eu disse o seguinte, a
respeito do fen8meno da quase invisibili-
dade de Ldcio e de seu JP nos relat6rios
de pesquisa da intelligentia amaz6nica:
"... o fato de que o trabalho de Lticio
6 mais estudado fora do Pard. E parece
que o pouco que existe [na Amaz6nia]
se resume ao Estado do Pard. Nao vi
refer8ncias [na tese] a outros Estados
da regiao amazonica. Interessante seria
indagar o porque desse, digamos, receio
da Academia ao esquivar-se da andlise
desse fen6meno que chama a atenqgo
de pessoas e instituiqoes de fora da re-
giao e de outros pauses. Por que os lo-
cais se esquivam? Os muitos premios e
distinc5es recebidos pelo author e reda-
tor do JP se original fora da Amazonia,
procedem de outras regi6es do Brasil e
do exterior. O reconhecimento local
existed, tanue, iniciativa de poucas pes-
soas e grupos geralmente de fora do


ambiente academico. Alguma coisa a
partir de instituiq6es ptblicas. Nada das
instituicoes privadas. Medo de contami-
naqio? Receio de comprometer-se corn
os poderosos provinciais e provincianos,
mesmo tendo Ldcio estado present na
Universidade Federal do Pard e outras
instituiq6es pdblicas de pesquisa na Ama-
z6nia? Ou por nio compreender a uni-
versalidade de um fen6meno que se pro-
duz na provincia?"
Minha hip6tese vai em duas direc6es:
a primeira me diz que a invisibilidade re-
lativa do trabalho de L6cio pelos inte-
lectuais regionais 6 imediatista e utilita-
ria. Resumindo: nao me comprometa, se
nao caio no index librorum prohibitorum
com todas as conseqiiencias indeseja-
das para.o meu capital social e intelec-
tual (leia-se, sinceramente, nao toquem
na minha mediocridade!).
A segunda, em duas vertentes: se eu,
que sou pago para pesquisar, nao pes-
quiso, ou pesquiso apenas o feijio-com-
arroz que nao contest nem con-
fronta nem inova nem serve pra
nada, por que, final darei visibili-
dade a quem se mata em busca
do conhecimento, e o confront
com a mediocridade geral, ainda
mais por tratar-se de algu6m de
fora da "comunidade" dos sibios
oficiais? E ainda: por que dar aten-
cao ao trabalho diuturno de al-
gu6m que vive a levantar ques-
toes de fundo desta Amaz6nia da
qual poucos se atrevem a falar em
profundidade, quando eu prefiro a
superficie tal qual aquele piolho in-
ventado por Jostein Gaarder, em
O Mundo de Sofia?
Obviamente, o grande m6rito
do trabalho de Ldcio nio o coloca
acima do bem e do mal. No 6
dono da verdade como, alias, ne-
nhum ser human o 6, e como ele
pr6prio o escreve quando instiga
o seu leitor a controversial. Mas
pouca d6vida hi de que a rarefei- /
ta discussao local/regional sobre
o pensamento de Ldcio reflete o
enfado e a preguica de discutir-
mos a Amaz6nia, a qual nao de-
sejamos possuir por nao desejar-
mos conhece-la.


Se algum progress houve nos tlti-
mos dois s6culos na cabeqa dos iulicos
"pensadores", esse progress do pen-
samento esta tro pr6ximo que se con-
funde cor outro "pensador" palaciano
de antanho, Ant6nio Baena, no Ensaio
Corografico sobre a Provfncia do Para,
de 1839: "Os paraenses na generalida-
de sdo essencialmente d6ceis, amantes
das delicias dos festins, do repouso e
branduras da vida".
Ou, a velha cantilena que aduba o
senso comum, mesmo em ensaios "ci-
entificos" que v6m a Amaz6nia como
algo distant, "ao lado de Bel6m", como
escreveu algu6m. A frase de Baena
poderia compor um desses relat6rios
hodiernos: "S6 resta que destes peque-
nos ensaios se passe a um cultivo mais
difuso: e que nio esperemos que ve-
nham estrangeiros de escalpelo nas
mdos e microsc6pio patentear-nos os
produtos naturals que nos di o nosso
solo, e que devemos aproveitar pois o
seu valor e preciosidade podem vir a
former nesta provincia o mais rico e
opulento dos paises conhecidos".
Nio 6 s6 a forma da linguagem, mas
a sua essencia que permanece, e que
faz cor que, tentar romper com a velha
mesmice, pareqa extemporaneo, como
o trabalho de Llcio Flivio Pinto.


Journal Pessoal i QUINZENA MAIO DE 2008 7







ESTUDANTIS
Os integrantes da Ala Juvenil do Partido Socialista Brasileiro
em Bel6m decidiram organizer a Frente Democritica Estudantil
para participar das atividades polfticas no imbito da UECSP (Unido
dos Estudantes dos Cursos Secundaristas do Pari). A frente, li-
derada por Gilberto Danin, decidiu, em janeiro de 1954, mandar
um oficio ao president da UECSP (leia-se uesp), o estudante de
direito Irawaldyr Rocha. Queriam que ele convocasse um comi-
cio destinado a protestar contra o aumento da passage de 6ni-
bus (apara dois cruzeiros), j i ent~o solicitada ao govemador Za-
charias de Assumpao pelos proprietarios das empresas.
S6 que a frente cometeu um erro: exigiu resposta no prazo de
24 horas e indicou logo o local para onde a mensagem devia ser
destinada. De imediato Irawaldyr replicou que nio era "emprega-
do temeroso das ordens do patrao" e que por isso deixaria de tomar
conhecimento do pedido da frente. Aconselhava ao seu president
que retomasse "em terms e terf a atencao desta presidencia. Do
contrdrio, se a petulincia persistir, jogaremos os pedidos subse-
qientes no dnico local convenient: A LATA DE LIXO".
Bern ao estilo do future president do ("meu") Tribunal de
Contas dos Municipios.

INAUGURAIAO
No dia 10 de julho de 1963 foi inaugurada a linha regular entire
Brasilia, a nova capital da republica, e Bel6m, atrav6s da tamb6m
rec6m-construida rodovia Bel6m-Brasilia. Na primeira viagem saiu
de Brasilia uma caravana cor tres 6nibus de luxo transportando se-
nadores, deputados e outras autoridades. A viagem durou tres dias.


FERROVIA
Na d6cada de 60, pela pri-
meira vez a corrente political
que controlava a direaio da
Estrada de Ferro do Tocan-
tins perdeu uma eleiaio em
Tucurui. Era a manifestaaio
da insatisfaqio do municipio
com as condio6es de funcio-
namento da ferrovia, princi-
pal fonte de renda na regiao.
Logo depois viria a ser erra-
dicada, juntamente cor a
outra linha f6rrea que funci-
onava no Estado, a de Bra-
ganca.

FILM
Numa das notas da colu-
na, Vozes da Rua registrava,
em julho de 1963: "Andava o
reporter deste p6 de coluna


FOTOGRAFIA

Esquina do passado
A esquina, unma das mais famosas e charmosas da cidade (Gama Abreu corn Presidente
Vargas, Serzedelo Correa e Nazard), mudou pouco na aparencia. Uma mirada atenta,
porem, revelard as transformaqoes, sutis e significativas. 0 revestimento de paralelepipedo
na rua, cor os trilhos de bondes, jd sem uso, mas presents. No lugar do antigo transport
coletivo, os 6nibus acanhados, simples, com seus efeitos ruins (goteiras, desconforto) e
bons (maior contato humano. 0 trdfego ainda era pequeno e por isso as vias eram de
mdo dupla. E um complement raro: um guard de transito encostado ao poste. Ao fundo, a
antiga sede de A Provincia do Para, que se transformou no Instituto de Educacao do Pard
depois do incindio criminoso, de 1912, que destruiu o journal vanguardista do intendente
Ant6nio Lemos. Mais a direita da foto, provavelmente do inicio da decada de 60 do seculo
passado, seria instalada uma das primeiras bancas de revistas de Belim, da Livraria Vit6ria.


de passeio noturno pela ave-
nida Osvaldo Cruz quando
viu chegar uma aparelhagem
de cinema e entrar na Malo-
ca. Iam filmar aspects inte-
riores do local para o film
que se esti rodando, 'Um Dia
Qualquer', de artists para-
enses [dirigido por Libero
Luxardo]. Natural que se
aproximasse da porta, mas
nesse intent quase 6 atrope-
lado pelos casais que safam
apressados. E que virios ca-
valheiros ai se encontravam
a cear em boas companhias,
mas estas nao eram as res-
pectivas esposas, e daf o ago-
damento da retirada em tro-
pel, pois nio queriam eles
aparecer depois naquele fla-
grante, como 'pontas' de do-
cumentario..."

CONTRABANDO
Em setembro de 1959 a
alfandega de Bel6m apreen-
deu o barco "Cel. Lima"
quando ele navegava no rio
Maguari, as proximidades da
vila de Macacuera. Trans-
portava dois autom6veis, um
Plymouth e um Pontiac, e
108 caixas de uisque de di-
versas marcas. O barco foi
levado para o Ver-o-Peso,
onde a carga foi desembar-
cada. Quando a aduana con-
cluiu a retirada dja merca-
dorij. r, trinlteinJdo qucL-
tao para o airnbitl di P',lici-a
Maritime e d.i Capitania Ji'
Porto,. 0 bjarc c i ','l'luiiL I
fugir -\ fillia d,.' \,,, dJo
diid ,e LIIIle C 1llci'.l II ILi e
esse tluab ""c'tl, Nl' [i0 l iiidnl
dIwrrlqijeiro HIll hjirc .'. t.|.1-
dc ,preendidi, k.w', [' p n,
deelnbiialquc ,i> x mel,.'d,-
ri..,. o''ri tU21ir"
Co11o(i deJdobhrniilcnwoi


tribahaldeadads CI'1iii Ic% .il0 1 .l
hcilIio publi .', \ entI.li.J I CI'm
Zer.I'il atn cWltrii b tndiiitd L '
assim legali/ d.id


MAIO DE 2008 QUINZENA Jornal Pessoal














Na instalacao

dos novos telefones,


OS PRIMEIROS


SERAO


OS PRIMEIROS
dow dl. d o mo h"T o 010B
para a tn ttlao doe toelfoo do
nvo eatema teol6tnlto de Bei m.
u t.o ma cd v# .. incv* r
mes rApido srei o e.ion..


0s Oltlm.os s..ra QOe tlmo..


MUSICOS
No final de 1941 Walt Dis-
ney pernoitou em Bel6m, a
caminho dos Estados Unidos.
Para encontri-lo, veio do Rio
de Janeiro Celestino Ribeiro,
da Ridio Globo. Os dois se
hospedaram no Grande Ho-
tel, que jd era o mais impor-
tante da cidade, mas ainda
nao recebera os melhora-
mentos que lhe dariam pa-
drdo international. No salao
de refeiq6es'onde jantava, o
famoso cineasta ficou inco-
modado por um quartet de
m6sicos, que "tocava pessi-
mamente" m6sicas america-
nas, "no infantil desejo de sa-
tisfazer o ilustre h6spede e sua
comitiva".
Disney queria mesmo era
ouvir mdsica brasileira e nao
jazz, escreveu Mario de Mo-
raes, em artigo publicado na
revista O Cruzeiro de 1963.
Silveira foi at6 os mdsicos e
Ihe pediu que mudassem o
repert6rio. Cor relutancia, o
quartet pouco depois passou
a "assassinar barbaramente a
notivel composiq~o de Ary
Barroso [Aquarela do Bra-
sil], o mesmo fazendo corn
outras misicas brasileiras".


O cronista Theodoro Bra-
zio e Silva estranhou, na Fo-
lha do Norte, a observagao
de Mario de Moraes: "Ha
muitos anos que nesse quar-
teto tocam Mario Rocha, sem-
pre considerado um excelen-
te violinist, e Waldemar Go-
dinho, pianist acompanhador
de grandes m6ritos, lendo par-
titura de primeira vista, tiran-
do-a sem necessidade de en-
saio". Ficou a duvida.

LAVADEIRAS
Uma edigao da coluna
Vozes da Rua, da Folha Ves-
pertina, em marco de 1964,
admitia que os antncios mais
freqtientes no journal eram os
de contratagio de cozinheira
e lavadeira. Nessa 6poca, as
famflias comeqavam a usar os
serviqos de lavanderias e as
maquinas de lavar para subs-
tituir as tradicionais lavadei-
ras. Seria uma mudanga lenta
porque as miquinas ainda
eram caras e os servigos das
lavanderias, al6m do preco,
ainda demoravam na devolu-
dio das peas. Mas as lava-
deiras, cor suas trouxas e
seus filhos, comegavam a de-
saparecer das ruas de Beldm.


Empreo diAedm nto Aimdo poL
CT-Ir MBEL "NCO NCIONL
Compania deTlefon do M pio de BeMm DE ~o~o
KE. 66931


Aguia
A Vale informa que nao patrocina o Aguia, de Marabi. Mas se
tivesse tido essa iniciativa, seus dividends no futebol paraense
ji teriam superado os que alcanqou no Espirito Santo. Em sendo
assim, o mdrito do clube marabaense 6 ainda maior: ele reflete,
cor a bola, a importfncia crescente da regiao, sem dispor de
induqio do principal personagem em aq~o no local.


Boataria
Fervilham boatos em torno da suposta paralisaqao das obras
nas duas mais altas construq6es de Bel6m, as torres gemeas da
Doca de Souza Franco, cor seus 40 andares. A construtora Villa-
ge, responsivel pelos dois enormes palitos de concrete, a turvar
o horizonte da cidade, devia dar explicaq6es ao p6blico para afas-
tar de vez a torrente das mais desencontradas especulaq6es.


PROPAGANDA

Os novos telefones
Em agosto de 1970 a Cotembel (Companhia de Telefo-
nes do Municipio de Belem) langava a campanha para o
novo sistema telef6nico em Belem, prometendo que os pri-
meiros seriam os primeiros e os iltimos, os altimos mesmo,
numa epoca em que aparelho telef6nico era investimento
de capital. Das pessoas que serviram de models na foto,
na pega da Mendes Publicidade, quem se apresenta hoje?


Realidade
Dos 17 piores cursos de medicine do pais, quatro sdo de universida-
des federais, duas das quais na Amazonia: as do Amazonas e do Pard. Os
responsAveis por essas instituiq6es podem apresentar toda contestaaio
que quiserem aos critdrios de avaliaqio do Ministdrio da Educaqao. corn
base no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes. o Enade. Nio
conseguirio evitar o mal ji causado a image desses cursos (e da Uni-
versidade) e o abalo na credibilidade dos profissionais que formam.
O que interessa agora, depois de um exame de consciencia mais rigo-
roso, 6 mudar a situaq~o. Sujeita a exageros e distorcqes, ainda assim ela
reflete a realidade, como bem sabem alunos e professors que vao as
aulas (e tamb6m os que ji nao vao. desenvolvendo suas atividades al6m-
sala).
Se nao houver mudanqa para valer, o dano sera ainda maior. E se a
mudanqa for cosmetica, todos achario que o resultado s6 existe porque
houve intervengio branca do minist6rio nas duas instituig6es e nas
outras 15 em condigio sofrivel de ensino.


Jornal Pessoal I QUINZENA MAIO DE 2008 9









Caso de Abaetetuba: ainda em aberto


No dia 20 a Comissao Parlamentar de Inqu-
6rito instalada na Camara Federal para investi-
gar o sistema carcerdrio brasileiro deverd apre-
sentar seu relat6rio final sobre o caso da ado-
lescente presa na delegacia de policia de Abae-
tetubajunto com 20 homes. Durante 24 dias a
menor sofreu violencias, inclusive estupro. A
CPI acusard a entaiojufza da 3" vara criminal do
municipio, Clarice Maria deAndrade, de ter sido
negligente e assim contribufdo para a longa
permanencia, illegal, da menor na cela.
A maior prova contra ajuiza serao os de-
poimentos do director e da secretdria da vara.
Em depoimento a CPI, em Brasilia, Graciliano
Mota e Ana Maria Rodrigues disseram que
adulteraram a data e o contetdo de um oficio
a corregedoria de justiqa do interior para es-
conder a demora da juiza no atendimento a
um pedido de transfer6ncia da presa para a
penitenciAria feminine, em Bel6m. R6us con-
fessos, os dois serventuarios garantem que
foram induzidos A fraude pela pr6priajufza.
A magistrada se consider vitima de uma
conspiragio armada contra si pelos dois fun-
cionArios da vara, ambos concursados e em
atividade hd muitos anos. Ela diz que Gracili-
ano inventou a hist6ria, com a cumplicidade
de Ana Maria, para se vingar da escuta tele-
f6nica montada contra ele pela Policia Fede-
ral, com autorizaq~o dajuiza. Graciliano foi
apontado como suspeito de vinculagqo a
uma quadrilha de trdfico de drogas em Abae-
tetuba. A escuta nao resultou em nenhuma
prova contra o director de secretaria, mas a
juiza assegura que isso s6 aconteceu por-
que Graciliano foi alertado sobre o "grampo"
e p6de evitar se comprometer.
As verses sio conflitantes, mas poderiam
ser esclarecidas de imediato se o Tribunal de
Justiqa do Estado nao tivesse decidido rejeitar o
pedido de inqufrito da corregedoria. Diretamen-


te interessada, ajuiza podia ter concordado com
o procedimento disciplinar-administrativo. Con-
firmada a sua reconstituiqo dos fatos, ela se
veria livre de qualquer process e poderia pro-
clamar sua inocincia. Numa situaqio parecida,
em outra instancia judicial, ela est exercendo o
seu direito de defesa.
E najustiqa do trabalho, onde tramita con-
tra ela, desde o ano passado, reclamaq o pro-
posta por Orindia dos Santos Brito. Orindia
cobra direitos nio pagos pela juiza, em cuja
residencia trabalhou como empregada domds-
tica. Clarice Maria de Andrade foi condenada
em primeira instancia a pagar 1,1 mil reais a
titulo de aviso pr6vio, 13 salArio, fnrias e sal-
do de saldrio. O element decisive para a sen-
tenqa condenat6ria foi o depoimento da recla-
mante, que disse ter assinado um recibo em
branco e ter recebido apenas 100 reis e nao
um saldrio minimo, como constou no docu-
mento. O valor teria sido preenchido posteri-
ormente, sem seu conhecimento.
Na sua decisao, ajuiza trabalhista admite
que "a rela~co de trabalho dom6stico goza
de uma certa informalidade, por6m tal carac-
teristica nao pode dar azo a fraudes", cuja
prova "se faz por todos os meios admitidos
em direito, notadamente por indicios, con-
jecturas e presunq6es simpless)". Conside-
rou-se convencida de que no caso "estao
presents indicios de fraude no preenchimen-
to do recibo, valendo a velha maxima a apre-
goar que 'quem paga mal, paga duas vezes'".


Ajuiza Maria Clarice nao foi a audi6ncia
de conciliaaio e julgamento na 8a vara do
trabalho, sendo representada pelo marido,
que funcionou como preposto. Nio concor-
dando cor a sentenqa, recorreu, mas seu re-
curso nao foi aceito porque ela deixou de
recolher R$ 62,88, valor da contribuiqao pre-
videncidria patronal, e por isso a causa foi
considerada desert. Ajuiza se insurgiu no-
vamente, atrav6s de agravo, para destrancar
o recurso ordindrio. Sua principal alegaqao 6
de que o valor pendente 6 infimo quando
comparado com o dep6sito judicial, que ja
fez, para garantir os direitos em causa. nao
permitindo assim a declaraaio da deserqao,
e que a reclamante nao apresentou prova ma-
terial do que alegou, nem contraprova em
relaqao a defesa feita. Ao acolher a reclama-
;Ao nessas condiqdes, ajuiza trabalhista te-
ria invertido o 6nus da prova.
O process ainda prosseguird at6 deci-
sao final. Por analogia, ajuiza Maria Clarice
devia rever sua posiqio no outro process,
no qual tamb6m 6 acusada, o da menor presa
em Abaetetuba, para que as provas sejam
finalmente produzidas em torno da questao,
afastando-se as dtividas e suspeiqoes que
ainda persistem. Se a justiqa paraense nio
fizer essa revisao espontaneamente, tera que
fazi-lo por pressao externa, tanto do Conse-
Iho Nacional de Justiqa quanto da CPI da
Camara Federal. Por motives mais do que fun-
damentados.


Corregoes
Onde se le juntas de conciliagdo e julgamento, na matiria de capa da edicdo passada,
leia-se varas trabalhistas. A denominaqdo mudou e eufiquei na anterior
Os bondes pararam oficialmente em Belem em 1950 e ndo cinco anos depois, como a
Mem6ria do Cotidiano registrou, tambem no ndmero anterior, ao tratar da tentative de
faz&-los voltar a circular pela cidade.


IMPRENSA
Reproduzo mensagens envi-
adas ao site do Observat6rio da
Imprensa, as anicas repercus-
sdes da materia "O Liberal vol-
ta a atacar", da edicdo passa-
da. Mais razdo para as obser-
vagdes feitas pelo jornalista
Manuel Dutra, em outro lugar
desse nminero.
Jd faz muito tempo que acom-
panho o seu trabalho competen-
te af no Pard. JA tentei, no ano
passado, acessar o site do seu
journal, mas nao consegui. Apa-
receram muitas informagqes jun-
tas e fiquei cor a impressao de
que nao existia o site. Gostaria
muito de tornm-lo um dos meus
favorites, pois admiro muito a
sua competencia professional,
honestidade e coragem na luta
contra a midia tubarao ai do seu
Estado. Parab6ns e obrigado!


Professor Joio Carlos Rosa -
Blumenau/SC

"O Banco da Amaz6nia, que
em 2002 publicou no jomal .ape-
nas uma vers8o resumida das
suas demonstrates contdbeis in-
tegrais, divulgadas por inteiro
apenas na grande imprensa naci-
onal, foi punido com uma campa-
nha de hostilidades que s6 se in-
terrompeu quando houve a vei-
culaqao desejada". Pelo visto, o
tilintar das moedas no caixa teve
um efeito calmante no espirito do
ind6mito jomal paraense abortan-
do sua campanha contra o ban-
co... E claro que essas coisas s6
acontecem no Estado do Pard pois
sabemos todos que, nos demais
estados do Brasil, as campanhas
midiiticas obedecem, tnica e ex-
clusivamente, aos compromissos
inquebrantdveis da midia com os
interesses maiores do povo brasi-
leiro... Parabdns L6cio Fldvio. Que
o seu exemplo frutifique.


Jose Orair Silva (bancirio) -
Belo Horizonte MG

DIVIDA
Sobre o texto "O Brasil de-
pois do novo milagre" (JP n.
416), que apareceu quase escon-
dido no vdcuo da seqio "Me-
m6ria do Cotidiano", faqo duas
breves observaq6es:
1) o "endividamento" nacio-
nal agravou-se sobremaneira na
gestao do Sr. Juscelino Kubits-
chek de Oliveira, sem comentdri-
os. O saldo atual da divida inter-
na 6 o resultado da consolida-
Fio de todos os d6bitos dos Es-
tados Brasileiros, iniciativa do
governor FHC, na tentative de
sanear as contas pdblicas e ini-
bir o comprometimento crediti-
cio dos membros da Federaqao.
Ressalte-se que cerca de 80%
(oitenta por cento) desse valor
coube aos Estados mais indus-
trializados, sendo Sao Paulo o
principal devedor;


2) as obrigaq6es contraidas
no governor atual sao as usuais
no mercado, nada que venha a
prejudicar o desempenho das
contas nacionais. Um outro de-
talhe, 6 que a dfvida cor o FMI
foi paga antecipadamente, e te-
mos reserves substanciais, se-
gundo anunciam as autoridades.
Quanto a utopia, ela existe e
persiste, assim como os republi-
canos continuam gostando de
beneficiar-se dos cargos pibli-
cos, da cumplicidade cor as
multinacionais e da indefiniqao
burocrdtica national. E um ata-
vismo, pois nao!
O Sr. Delfim Neto 6 um pAnde-
go incorrgivel. Todos os brasilei-
ros conhecem o seu humor negro.
De qualquer forma suponho que
ele acertou quando sugeriu trocar
a poupanqa intema pelas reserves
amaz6nicas. Alias, essa "bouta-
de" ele ja havia declarado quando
da instalagio do Programa Gran-
de Carajds, salvo engano.


10 MAIO DE 2008 I QUINZENA Jornal Pessoal








Ha mesmo o que comemorar?


Reproduzo, abaixo, a entrevista que
concedi ao blog do Barata,
respondendo a um questiondrio que me
foi enviado pelo jornalista Augusto
Barata. Assim partilho o registro que
ele fez do "dia da comunicaqdo "
Espero que os leitores tambem.

No Dia Mundial da Liberdade de Impren-
sa,que comemoradoneste sbado, 3 de maio,
osjornalistas brasileiros tim o que festejar?
Geralmente os jornalistas aproveitam
para se queixar que nao ha liberdade sufici-
ente ou que faltam motives para comemorar.
Mas acho que melhor seria refletir sobre
outra questdo: os jornalistas estlo mesmo
utilizando a liberdade que tnm para informar
melhor a opinido ptiblica? E impossivel nao
perceber o paradox: poucas vezes se teve
tanta liberdade de imprensa combinada corn
tanta autocensura. Essa auto-limitaq~o re-
sulta dos compromissos das empresas jor-
nalisticas, antes de mais nada. Mas para ela
di sua contribuiqao o medo, a omissao e o
concurso lesivo dos jornalistas enquanto
individualidades. Eles se acomodam e tam-
bdm condicionam o exercfcio da profissdo
aos interesses pessoais, econ6micos, ideo-
16gicos ou mesmo fisiol6gicos.

Qual a sua leitura a prop6sito das de-
nincias, feitas inclusive pelos barges da
comunicaio, de que o Judiciario estaria
promovendo a censura previa, a pretexto de
fazer Justica?
A iniciativa mais perigosa nosjulgados a
esse respeito 6 a antecipaq~o de tutela para
pessoas que alegam o risco de sofrerem le-
sao em seus direitos subjetivos pelo que ji
foi publicado e, o que 6 muito mais grave,
pelo que ainda sera publicado. Em certos se-
tores da magistratura os direitos da persona-
lidade, que sempre sio subjetivos, estlo se
sobrepondo ao direito B informaq~o e a liber-
dade de pensamento, que sao de natureza
objetiva ou que envolvem o interesse coleti-
vo. Um dos exemplos mais dramiticos foi a
retirada de circulaqao da biografia nao-auto-
rizada de Roberto Carlos. Se prevalecer esse
entendimento, para o qual concorreu a tibie-
za da part oposta, a Editora Planeta e mesmo
do autor, as biografias a partir de agora s6
poderao ser as autorizadas ou as autobiogra-
fias. t uma violaqao do estado democrdtico
de direito e um retorno ao obscurantismo. Ha
um impulse de famosos & poderosos de as-
sumir o control de tudo que Ihes diga res-
peito, alegando direitos latifundiirios da per-
sonalidade, e de certos stores da justiqa de
abrigar esse excess. Cor isso, a autocensu-
ra, que ji 6 grave, se tornarA fatal.

Quais poderiam ser as alternatives ca-
pazes de garantir a liberdade de expres-


sao sem preterir o direito de se recorrer
a Justiqa diante dos excesses que possam
tipificar crime?
Ha muitos anos defend teses que pare-
cem no sensibilizar ningu6m. Nenhum ci-
dadao poderia recorrer A justiqa contra es-
critos que consider ofensivos sem antes
esgotar a via administrative. Teria que es-
crever uma carta ao veiculo que publicou ou
divulgou a mat6ria considerada ofensiva. Por
sua vez, se o vefculo deixar de reproduzir a
manifestaq~o do direito de resposta at6 48
horas depois de hav8-la recebido, comeqarA
imediatamente a ter que pagar uma multa di-
aria. A recusa comprovada ao direito de res-
posta jd seria crime, passivel de multa e,
depois de certo tempo, de detenqao. Todas
as empresas de comunicaq~o teriam que ter
um conselho consultivo e um ouvidor (ou
ombudsman). Aquelas que editam jornais e
revistas teriam que abrir seu capital a partir
de certo volume de tiragem ou de audi-n-
cia, no caso das emissoras de radio e tele-
visAo. Ningu6m, direta ou indiretamente,
poderia subscrever mais do que 1% das
aqCes. Mas Ihe seria garantido o direito de
acionista minoritArio. Assim poderia haver
realmente a democratizagao.

Qual e a sua avalialio sobre a grande
imprensa brasileira e a imprensa regional,


A a'enida 25 de Setembro e umn do,
inelhores lugares parj \ ierem Belern. -
razIl Jdec". qudlldade e o canleiro cen-
tral arhonzado de:ja artenj. henel'i'iique
'e etClende a algumja de 'uda tran'\er-
,als. principalmente a Barao do Trintno.
quc ainda se di o lu\i de preser\.r ca,-
as de estilo. corn amplo, jardins a frente
e quintaS arbo'rizado' no< tundos
\'irinos prefeltos tentaram acabar cornm
o tradjdo i inuos' da ajenida. que Ihe
as.'egura 0 ajspeco hucolico. e reduii-Ia
ao pajro d da \ ai de intenso tralego.
.ornmol a, iznhas Duque de Ca\Jas e Pe-
dro Ikliranda. .Assim o, rro' lenrim umn
tll\Oo mIn rapid e o Irdninsto ,e desc'in--
eq.ionari. E jdsimn a .idaddc oniinuaria
a er [rac.add, comno er a imipoiente da
dialdurd dJo carri,,.
.lI que e\i'te e.sj e\ceJo. por que
ellllni-la' Sc o crescimento urhano
I-ji Io''Le I.Io col Jik comro e. detrmi-
nado pelo interes'e ind\ dual. terijmo-s
Inel.a dJudj ci do n moradores jd 215.
quLe tem ar\ores a piort. silncio c c.'l-


mais particularmente sobre a grande im-
prensa no Para?
Ela nao se mostra A altura do moment.
A Amaz6nia 6 um dos lugares mais impor-
tantes para o trabalho jornalistico em todo
mundo. Mas os vefculos locais da imprensa
invested pouquissimo para manter a opiniao
piblica razoavelmente informada sobre o que
ocorre na regiao. Ha mais assuntos excluf-
dos e ignorados do que os registrados na
imprensa. A marginalia e a posta-restante
crescem desproporcionalmente, enquanto o
registry documentado emagrece. E um des-
perdicio incrivel.

Qual a sua leitura sobre o destiny da
imprensa, diante do advento de novos tipos
de midia, como 6 o caso da internet?
A imprensa de qualidade, capaz de pro-
duzir anilises, interpretaqoes e proposiq6es
subsistirl porque a internet nao 6 o sitio
adequado para a manifestacio desse mate-
rial de maior substAncia. Um dos 6rgios da
imprensa international que mais investiu
nessa opgao foi a revista inglesa The Eco-
nomist. 0 resultado 6 que sua tiragem do-
brou em 13 anos, subindo de 500 mil para um
milhAo de exemplares, como mostra Matias
M. Molina em um substancioso livro sobre
os melhoresjornais do mundo. A maioria dos
quais ter mais de um s6culo de vida.


na para \ i\ er melhor do que a ecmaga-
dora miaoria dos, mroradore- de Bel6m.
A utopia 'erin multiplicar ,esa e\ceqio
i'olada e njo elnini-la-. maid' [rjnsfor-
nmndo rujs emL \ Ia. e\pre,,a,,s para b6-
lides agre-oras Sc a tendenL ia domi-
name e .t em \ ior. ganha quem quer
que todd' cidade %e imiodilique ILc e bru-
halize i para que ele possa circular com
scu Iransporte indij\dual. cada vez
maior 11> cmo a' ic'minnhonele, I para ser
dlnda mai' agrestiii%
Inlelmnienle. e essa a 'itud a.,o que
pre',,ale.e N preleitura crinou hindrio
Pedro -Al are- Cahral-Senador Lemos em
clmar dle Lum planta cariolralicL.'d. de nu-
miero"- e 'uhbmissda a a e\eltincia, o
\et'ulo Jautlinoltor N populaLi'l de cin-
co bh.rros po pulares qule Ce '. re para
anddl inuio nlmjl, para lornar 'eu inibus
e liqutc ma' C\po.st ati's jssaltos. Mes-
mn. iomrando milha re' de eele % ui\s, eles
I.\ el' I de Ielll')O-' qLue <.o eCm trivadir
c'ssds ahtra i'ls puhlicitalU,


Jornal Pessoal Io QUINZENA MAIO DE 2008


Cidade submissa













Fui de uma das ultimas turmas do Co-
16gio Estadual Paes de Carvalho benefi-
ciadas por uma de suas maiores qualida-
des: reunir representantes da elite e pes-
soas do povo. Como seu ensino ainda era
de qualidade, as "melhores families"
mandavam seus filhos para o CEPC.
Esse fluxo circular era fundamental: o
col6gio s6 era procurado por ser bom e
sua qualidade era investimento de retor-
no ao governor, que o mantinha, porque
rendia dividends entire a elite.
O ingresso sofria a influencia de pis-
toloes, que acobertavam os bem-nascidos,
mas as portas do "Paes de Carvalho" tam-
b6m se abriam a gente simples, sem "pos-
ses" ou padrinhos. A convivencia entire
pessoas de tao diferentes origens, forma-
q6es e mentalidades, colocadas em com-
petiqgo ou cooperacqo, era a melhor con-
tribuigao da escola piblica a qualificaqao
individual dos seus freqtientadores e ao
bem comum (impossivel de se repetir em
locais homogeneos ou discriminat6rios
como as escolas particulares mais procu-
radas agora). Mesmo sujeita a distorq6es,
essa relagao iria depurar qualidades, ca-
racteres e personalidades. Seria fecunda.
At6 que a qualidade desapareceu e tudo
desmoronou. E o estado atual da arte.
A passage pelo CEPC se tornou mar-
cante porque nenhuma de suas turmas dei-
xou de se destacar na vida pdblica ou na
atividade privada. Acompanhar a trajet6-
ria que seguiram depois dos bancos esco-
lares 6 um excelente exercicio de andlise


sobre a dinamica social. Ha material para
a reconstituicao de families, o delineamen-
to de carreiras individuals e a hierarquiza-
cqo de valores na vida em sociedade. Cada
turma conteve em si uma amostragem sig-
nificativa da sociedade paraense. Ao se-
guirem seus rumos, os seus integrantes con-
tinuaram a desenvolver as suas aptid6es
naturais e o bem que Ihes foi acrescido pela
rica convivencia entire diversos e contrari-
os: o respeito as diferencas.
Outro dia partilhei, a distancia, o su-
cesso de um dos colegas de turma do
CEPC. Edison Rodrigues recebeu um ti-
tulo de reconhecimento por sua atuaqao
no com6rcio varejista de materials de
construcqo. Ele foi um dos principals edi-
ficadores da poderosa Oplima e depois
saiu da corporaqdo familiar para sua car-
reira solo por opqao. A tarefa que se im-
p6s era dura, mas em pouco tempo, colo-
cou a nova empresa no topo do setor.
Vejo-o numa foto, feliz, ao lado da
bela familiar, e me lembro particularmen-
te dos aperreios que passou para ser
aprovado numa prova de frances da exi-
gente professor Fernanda, um dos mui-
tos epis6dios da nossa vida escolar na-
quele velho e saudoso casarao da praqa
da Bandeira. Ali, o filhinho de familiar rica
ja se preparava para enfrentar e resol-
ver problems sem necessariamente pre-
cisar recorrer a titulos nobilidrquicos,
mesmo os de provincia. O CEPC prepa-
rava cidadaos para o mundo. Podia vol-
tar a realizar essa missao.


Present
Amor Blue 6 um dos discos mais bonitos que ouvi neste ano. Tem as vozes de
Nana Caymmi, Maria Bethania e Simone. Tern mdsicos de primeira e bons
arranjos. E tem composicqes e a voz (al6m do piano) de Sueli Costa, caso
excepcional de maestria feminine em triple: criaygo e interpretaco vocal e
instrumental. Mas para chegar a esse CD 6 precise ter acesso ao que se produz
em Juiz de Fora, Minas Gerais. Foi de li que Luiz S6rgio Henriques, um dos
parceiros de Sueli, me mandou esse present fino, patrocinado pela prefeitura
municipal. Faqo este registro para que a grande Sueli Costa se torne acessivel a
mais gente que gosta de ouvir cor emoqao.


\Al truoe de Coniui ( Prih' 2i UAo, ,h jrnirl Pt%,,,dl iuni
_--L\z=l,' /i'tltI'i, .'""i )i)j tel o llc i' r Ic.ipiul da hitirn. re-
Cente do ParJ que jamariis ernlaim ido registrads ee nio e\N[isie cte jornil. E
Il mstlro comnl a JP consieulu reconsLiiiIr esses Itl, sc atlar o seu signitlcado iino
mesmo mo eno em que eles acoileclam. O lt roe composiode trecho, de mnte- --_',a '- i
rids qulI publcadas e de tn mel-[c\lo n oo.quc q 'omenfa. siU eelucida U -d
11nod- de UI Iornl ritIino erddc'irirnenle independenle. que cumIpre suj m ainssu .r .a,.
inobr-e Lr unJa Juditaemi do powder. Espero que s leiiores aiudenm a diundir e,.i,
hisniod.si comprandoo lit Io. que estd i t enda nia, baicas e 'lm al unmas lim ra.nrs.


CEPC: escola


public ausente


0 SB


Editor: Lucio Flavio Pinto

Edigio de Arte:
L A de Faria Pnrto
Contato:
Rua Arsidaes Loto 871 66053-020
Fones: 1091n 32j- 7626 E-mail:


I


iornal@amazon corn tr


Barbarie
Ja sem qualquer ddvida, Bel6m se
tornou uma das cidades mais barulhen-
tas do mundo. Mas nao 6 s6 por exagero
da cacofonia caracteristicamente urba-
na. Ha elements agravantes dessa pa-
tologia. E crescente o nimero de para-
enses que confundem decib6is cor mi-
sica e mdsica com essa coisa chamada
tecnobrega (e outros bregas mais). Quem
ouve isso jamais reencontrara o fio da
meada musical. Para agravar. as pesso-
as ditas civilizadas deixaram de perce-
ber quando produzem barulho na sua ro-
tina cotidiana, multiplicando a poluigao
quando se acham em gaiolas coletivas
de concrete, nos cada vez mais numero-
sos e altos edificios residenciais.


Sintoma
Dois terqos dos municipios paraenses
pediram forqa federal para garantir suas
eleices neste ano. Isto, sim, 6 lidima sen-
saqao coletiva de inseguranca.


Jap o, aqui
O Consulado Geral do Japao abriu
inscriq es, que vao at6 4 de julho, para
quem estiver interessado nas bolsas de
estudo que oferece. A Universidade Fe-
deral do Pard podia aproveitar a oportu-
nidade para preparar um grupo de pes-
quisadores e estudantes para um progra-
ma de pesquisa aproveitando as bolsas.
O objetivo seria inventariar e copiar os
documents japoneses referentes a Ama-
z6nia. Eles serao fundamentals para es-
crever e entender hist6ria contempori-
nea da regiao. E uma mina ainda inex-
plorada.
Talvez jb haja arquivos disponiveis
para consult no governor e nas empre-
sas japonesas que atuam na Amaz6nia e
particularmente no Pard. O Japao 6 um
dos maiores clients e parceiros exter-
nos do nosso Estado, mas continuamos
de olhos fechados para essa realidade.
Esti na hora de abri-los, os nossos e os
dos nossos distantes vizinhos de emprei-
tada. A simbologia 6 oportuna, como o
oferecimento das bolsas.