Jornal pessoal

MISSING IMAGE

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00319


This item is only available as the following downloads:


Full Text


MARCO
DE 2008



A oornal Pessoal
A AGENDA AMAZONICA DE LOCIO FLAVIO PINTO


NEPOTISMO


Uma praga no Para


A carreira political estd sob controlefamiliar no Pard. Essa situagdo engendra abusos no uso do
poderptblico e impede o surgimento de novas lideranCas. E tdo flagrante o abuso que comeca a
provocar reaC6es, como a dos leitores destejomal. Quem mais se apresenta ao debate?


Muana 6 uma festa? Segundo
o testemunho de um leitor, que
provavelmente por ser da
irea pediu para nao ser revelada sua
identidade, Muand 6 uma festa irres-
trita para a familiar do prefeito. Os
Cunha sao os donos virtuais do muni-
cipio, na ilha do Maraj6, que concen-
tra os piores indices de desenvolvimen-
to do Estado (e do pais), sendo renti-
vel apenas para uma casta de admi-
nistradores piblicos e suas extens6es
familiares e patrimoniais. Eles ocupam
numerosos cargos pdblicos, sao pres-


tadores de serviqos para o municipio e
exibem sinais de prosperidade raros de
surgir na area.
Os leitores comegam a responder
A conclamaqdo feita por este journal
para um levantamento sobre as fami-
lias de politicos e suas priticas nepo-
tistas. Nao se trata de caqa As. bru-
xas (que, no entanto, las hay, sin
embargo). E que o cidaddo estA mes-
mo descrente dos politicos: o ndmero
record de cartas sobre o tema reve-
la esse estado de espirito, que exigiu
a abertura de espaco para ecoar a voz


rouca das ruas. Pela primeira vez,
seus personagens ocupam a capa des-
tejornal pessoal.
Ha families que se destacaram por
abrigar verdadeiros politicos, corn par-
ticipagdo destacada na vida national,
como os Nabuco ou os Mello Franco.
O que os distingue dos que apenas se
serve da political como instrument de
interesses pessoais 6 defenderem id6i-
as e assumirem posiq6es que se sus-
tentam em argumeritos, em causes, em
id6ias. Nao serviram de barreira g re-
COiNTlUTA nA PAG


N' 413
ANO XXI
RS 3,00


TR D OT :QEl, SEBENEFI., PA6/7


I AMZ6NADEASUA-AVDASP0DE.r Pk."-






CONTINTRA^AO DACAPA
novaqgo da representaqgo political da
sociedade, nem se tornaram donos de
partidos. Tamb6m nao provocaram as-
salto aos cofres piblicos, ou gastos imo-
derados, insensatos.
E sobre estes que se volta a mira des-
tejornal, com a participaqgo dos seus lei-
tores. O objetivo 6 oxigenar a political no
Para, tIo anemica ha tempos, incapaz de
ter participacgo ativa e eficaz na dificil
hist6ria do Estado. Se possivel, mudar al-
guns habitos, mesmo os que acarretam
pecados veniais, sanados com alguma
explicaqdo, mesmo a esfarrapada.
Na 6ltima segunda-feira, por exem-
plo, o deputado estadual Joaquim Pas-
sarinho apareceu numa coluna social ao
lado de servidores do seu gabinete. A
nota destacava seu gesto, de homena-
gear as mulheres que Ihe prestam servi-
go na Assembl6ia Legislativa no dia que
Ihes 6 dedicado universalmente. S6 que
essas distintas e operosas cidadds so-
mam nove servidoras. Como conseguem
se acomodar num dos pequenos gabine-
tes reservados aos parlamentares na As-
sembl6ia Legislativa do Pard? E realmen-
te o nobre deputado precisa de nove au-
xiliares, todas do extinto sexo fraco? Se
o pagamento saisse do seu bolso, che-
garia a tanto?
Os nossos perdularios representan-
tes politicos, assim como seus desaten-
tos eleitores, deviam fazer uma visit ao
parlamento ingles, a mais exemplar re-
fer6ncia em mat6ria de democracia re-
presentativa modern. Se a visit se pro-
longar, verlo deputados chegando ao
local de trabalho de bicicleta ou sem-
pre em seus pr6prios carros. Nao tnm
motorist, seus assessores sao servido-
res de carreira, concursados, em mime-
ro reduzido. Nao dispeem das verbas de
representagao que fazem a delicia e sao
a tentagao dos nossos parlamentares. E
ganham muito menos do que nossos Li-
curgos, embora nao sejamos propriamen-
te mais ricos do que os stiditos de sua
majestade, a rainha.
Al6m de extrapolarem os padres
aceitaveis de fruigao do poder, nossos
politicos querem exercer control cada
vez maior sobre a formagao dos qua-
dros partidirios, impondo com mao de
ferro seus interesses. Essa 6 uma das
principals causes da pobreza de alter-
nativas em mais uma eleiqdo no Para.
Ou melhor: da falta de alternatives para
um eleitor que ainda acredite em mu-
dangas. Nao hi liderangas novas nem
de credibilidade.
As vezes at6 surgem valores indivi-
duals, mas logo eles sio absorvidos pe-
los vicios da pratica political. A perspec-
tiva que abriram se fecha rapidamente
e o eleitor 6 obrigado a encarar sempre


as mesmas figures, como acontecera,
sobretudo, na capital. Qual dos candida-
tos em potential a prefeitura de Bel6m
pode representar uma novidade? S6 se
aparecer um azarao de iltima hora, um
desses acidentes salutares que renova a
utopia e adia o sepultamento definitive
da esperanga.
Para tentar mant8-la viva, vamos as
cartas dos nossos leitores.

Visao panoramica
Eu deveria preparar uma nota sobre
as quest6es agririas, assunto que o Jor-
nal Pessoal n 411 abordou e vem dan-
do muita 8nfase nas suas ltimas edi-
goes. Pordm, quando adquiri o JP n6-
mero 412, da primeira quinzena de mar-
go, mudei de opinido, e resolvi fazer um
rApido comentario acerca dos patr6es da
political (politicalha seria o termo mais
adequado), nesta terra fundada por Fran-
cisco Caldeira de Castelo Branco.
Aprovo de pronto a id6ia de se acom-
panhar desde a sua origem as estripulias
atuais essa fauna privilegiada, que mui-
tas explicaqces deve A populagao; mas nio
queremos iguais aquelas que o sr. Hl6io
Mota Gueiros resolve inserir na sua pa-
gina dominical, do Didrio do Pard, atri-
buindo a si uma postura que nunca exibiu.
Um acinte do tamanho... No domingo pas-
sado voltou cor a mesma patranha
Preferia nao nominar os donos das
delinqiincias, mas para ser coerente corn
o escopo do program, e tamb6m para
evitar que pessoas jovens e incautas com-
prem gatos por lebres, enumero em se-
guida algumas figures de destaque, des-
se mundo politico totalmente equivocado.
Em primeiro lugar vem o sr. Jader
Barbalho, dono absolute do PMDB o
maior partido, segundo ele coadjuvado
por sua ex-mulher, filhos (o prefeito de
Ananindeua, Helder Barbalho, 6 o prefe-
rido para futuras opqges), irmlos, primos,
etc. Ainda conta corn a decidida influ6n-
cia de Jos6 Sarney, atual senador pelo
Estado do Amapi, sendo natural do vizi-
nho Maranhao, onde manda e desmanda
de acordo com as suas conveniencias.
Em seguida temos o sr. Gerson Pe-.
res, no comando exclusive do PP. O par-
lamentar se orgulha de empregar quase
toda a familiar no seu gabinete de depu-
tado federal, mas faz apologia da 6tica e
dos bons costumes nos seus artigos se-
manais na imprensa local. Informa-se,
tamb6m, que o distinto cametaense mora
(ha anos) numa casa na travessa Mau-
riti, pertencente ao complex educacio-
nal Senai, do qual foi seu director, salvo
engano. Umas das razbes de defender
os quatro esses, de forma veemente.
O PSB vem cor o Ademir de An-
drade. Confesso que acreditava nele,


cor oja fiz com outras personagens, mas
os acontecimentos e cenas recentes ti-
raram-me as esperanqas. O filho, Cas-
sio Andrade, ja esta falando como legiti-
mo successor. NMo tern pra ningudm!
Cor a desergao do ex-goverador
Almir Gabriel, o PSDB esti a deriva.
Os tucanos, como sempre, ficam em
cima do muro (ou das arvores). Nenhu-
ma familiar assumiu a posse do partido;
geralmente os intelectuais e os oportu-
nistas se servem, e muito bem, dele.
Finalizo a minha lista cor o sr. Gio-
vanni Queiroz, forasteiro que prega a
divisao territorial do nosso Estado, ou-
trora trovejante lider do PDT, que se
acha ameaqado nessa posiqgo pelo ex-
taxista, ex-falso mddico, ex-vereador, ex-
senador, hoje prefeito de Bel6m, Ducio-
mar Costa. Que perfil!
Como as eleiq6es municipals se apro-
ximam, espero que todos colaborem para
exibirmos A populaqgo paraense, cor
todas as tintas e cores, os retratos des-
ses entes afortunados.
Rodolfo Lisboa Cerveira
P.S. Esqueci do Demo Cratas, de pro-
priedade exclusive do deputado federal
Vic Pires Franco e de sua Val6ria. Fica
para pr6xima ocasiao.


Levantamento

familiar

Como leitor desde jomal, estou envi-
ado minha colaboragao.
Jader Barbalho, Elcione Helder Bar-
balho, Jos6 Priante, Izane Zaluth, Jodr-
cio Barbalho.
H6lio Gueiros, H61io Gueiros Jr.
Carlos Santos, Silvio Santos.
Mirio Couto, Mario Couto Filho.
Jodo Menezes, Eduardo Menezes.
Rosa Hage, Gandor Hage, J6nior Hage.
Mariaudir Santos, Mariaudir Santos Jr.
Ademir Andrade, Cassio Andrade.
Regina Barata, Amaury Barata.
Z6 Geraldo, Lenir Trevisan.
Everaldo Martins (pai), Maria do
Carmo, Carlos Martins.
Anivaldo Vale, Licio Vale.
Manoel Pioneiro, Z6 Carlos Antunes.
Clovis Begot, Z6 Begot.
Suleima Pegado, Daniel Pegado.
Lourival Cunha (Pai), Lourivalzinho
Cunha, Ana Cunha.
Juv6ncio Dias, Andr6 Dias.
Vic Pires Franco, Val6ria Pires Franco.
Jarbas Passarinho, Ronaldo Passari-
nho, Joaquim Passarinho.
Jorge Costa Neto, Eduardo Costa.
Adamor Aires: seu pal era prefeito
em Cachoeira do Piria, o irmdo era vice
em Santa Luzia, a mae vereadora em
CONCLUI NA AG 3


2 MARCO DE 2008 .2 QUINZENA Jornal Pessoal








Antes que tarde


Em nove meses, dois acidentes no fun-
cionamento da fibrica de caulim da Imerys
Rio Capim Caulim, em Barcarena, acen-
deram o sinal vermelho para a empresa,
controlada por um grupo frances. A IRCC
assumiu a culpa no primeiro caso, de ju-
nho do ano passado: indenizou ou se com-
prometeu a indenizar os moradores da re-
giao prejudicados pelo vazamento de cau-
lim para as drenagens pr6ximas e a pagar
multa de quatro milhoes de reais. O dinheiro
nao seria aplicado no pr6prio local, como
se podia supor, mas no aparelhamento do
Institute Evandro Chagas, inclusive para
que ele possa realizar andlises sobre im-
pactos ambientais na irea.
O dinheiro ainda nao saiu porque a
empresa contest que no meio da argila
que vazou por causa do rompimento de
uma das bacias houvesse metais pesa-
dos. A constataqao foi feita em laudo pe-
ricial da policia e, se verdadeira, agrava-
ria muito a poluiqao causada, com efeitos
extremamente nocivos A vida humana. O


process de lavagem do caulim nao in-
clui metais pesados e sua presenqa ca-
racterizaria uma anomalia, que precisa-
ria ser investigada. O mais provivel 6 ter
havido um erro de interpretaqco. No en-
tanto, 6 inquestionivel que o rejeito da
produqao, se escapa da bacia de conten-
qao, 6 agressivo ao meio ambiente. O
primeiro acidente caracterizou a negligen-
cia da empresa no trato ambiental.
O segundo acidente foi uma reprise do
anterior? Nao parece. De imediato a em-
presa minimizou o acontecimento. Garan-
tiu que houve apenas um transbordamento
da barrage de contencao do liquid que
result da lavagem dos equipamentos na fi-
brica e nao do vazamento (ou rompimento,
como no primeiro caso) das bacias de de-
posiqao do rejeito industrial. A falha teria
resultado de uma combinaqao de fatores
aleat6rios: o excess de chuvas no dia 2,
um domingo, e a falta de energia, que colo-
cou fora de uso as bombas de esgotamento
da agua. O acidente durou pouco tempo,


foi logo sanado e o efeito do vazamento foi
pequeno e de curta duraqao.
A versao da empresa 6 satisfat6ria?
Tamb6m nao, mesmo se admitindo que o
segundo acidente foi de proporqoes mui-
to menores do que o anterior. At6 mesmo
por crit6rio estatistico, ji esti na hora de
o poder ptiblico fazer uma inspeqao rigo-
rosa na Imerys e nas demais unidades
industrials instaladas em Barcarena, cor
acompanhamento de consultores nacio-
nais ou intemacionais, para definir novos
padres de atuaqao tanto para as empre-
sas quanto para o pr6prio govemo, den-
tro de um piano director compativel com a
expressao desse distrito industrial. Sob
pena de continuarmos a assistir, quase
impotentes, a novos acidentes e a um bate-
boca as vezes constrangedor entire os que
deviam servir de refer6ncia e guia para a
sociedade. Al6m do 6nus de, como sem-
pre, sermos convocados para compare-
cer na reparaqao do prejuizo, em sua
maior parte nosso.


CONCLUSAODA .PAGS2 i*' i4 !


Santa Luzia, o tio, Barard, era deputa-
do. Prefeita em Garrafao.
C6zar Colares, Marisa Colares.
Failsal Samen, Bel Mesquita (antes
da separaqao).
Josefina + (prefeito do Baixo
Amazonas).
Duciomar Costa, Waldeth Costa.
Zenaldo Coutinho, Guto Coutinho.
Familia Mutran.
Newton Pereira


Pequeno feudo
Lendo seu recent artigo no Jornal
Pessoal a respeito da transmissao de feu-
do politico, me lembrei do president do
PSB regional, Ademir Andrade, e do seu
filho Cissio Andrade, que recentemente
romperam corn o governor do Estado. Ou-
tro comentirio 6 sobre o senhor Helio
Gueiros, que, na sua coluna de domingo,
continue a escrever as sandices, como
aquela que tao bem voc6 lembrou agora.
Flfvio dos Reis



Festa marajoara
Prefeito municipal de Muand: Rai-
mundo Martins Cunha. Chefe de gabi-
nete: Neto Cunha (filho). Secretdrio de
administraqao: Jean Randel (cunhado).
Tesoureiro: Vanessa Cunha (filha). Se-
cretdria de assistencia social: Nilza Cu-


nha (esposa). Assessor especial I: Ro-
ger Cunha (filho). Assessor especial I:
Edmundo Cunha (filho). Secretdria de
gabinete: Raquel (irma). Secretdrio de
educaqao: Jos6 Caetano (cunhado)
Director de turismo: Antonio Azevedo
(cunhado). Director de arrecadaqao: Jii-
nior Azevedo (primo). Cerimonial: Ro-
drigo Azevedo (primo).
A esposa do chefe de gabinete tam-
b6m trabalha na prefeitura, al6m de ou-
tros parents facilmente identificados na
prestaqao de contas da Prefeitura Mu-
nicipal de Muand.
1) Todos os serviqos de hospedagem sao
direcionados para o Hotel Sao Francisco,
que pertence ao pai do Sr. Junior Azevedo.
2) Todas as refeiqces fomecidas me-
diante o Conv8nio n 18/2006 (R$
22.464,00) celebrado com o govero do
Estado, atrav6s da Susipe, sao fomecidas
pelo Restaurante Opqao, que pertence A
sra. Raquel e ao sr. Antonio Azevedo, fun-
ciondrios comissionados da prefeitura.
3) O pr6dio onde funciona o servigo
de fisioterapia pertence A familiar do pre-
feito e estd alugado para a prefeitura.
4) 0 pr6dio onde funciona o dep6sito
da merenda escolar pertence ao rr. Ro-
drigo Azevedo (primo) e que tambrm 6
funcionario.
5)0 fomecimento de combustivel para
a prefeitura 6 realizado pelo posto de pro-
priedade do sr. Jean Randel (secretdrio de
administraqao e cunhado do prefeito).


Bens adquiridos em tras anos de ges-
tao Raimundo Cunha por sua familiar:
-- Veiculos: Neto Cunha: Honda
Civic/2005, Corolla/2006, Pick-ups S10
em 2007 (fato que causou grande im-
pacto junto A sociedade muanense, pois,
a cidade possui poucos carros), moto
Falcon/2005, moto Shadow 750. Roger
Cunha: carro Golf, moto Bross. Edmun-
do Cunha: caminhao (presta servico
para a prefeitura com contrato de R$
2.500,00/m6s). Vanessa Cunha: carro
Peugeout.
Embarcaq6es: barco Comandante
Junior de Ponta de Pedras (comprado
do sr. Josafd, em Ponta de Pedras). iate
Golfinho. barco Navegantes: comprado
do sr. Valdemar em Muand
Fazenda localizada nas cabeceiras
do Rio Tejuquaquara (comprada da sra.
Araci), que hoje conta com cerca de 400
cabeqas de gado e 200 cavalos.
Estancia no Porto Jacar6 (rodovia
Arthur Berardes-Bel6m) comprada do
sr. Raimundo Castro no valor de R$
150.000,00
Posto de combustivel no municipio
de Santo Antonio do Taud, onde mora
um irmao do prefeito conhecido como
Pinduca, que administra o neg6cio, jun-
tamente com uma granja.
Apartamentos: edificio Jos6 Anto-
nio Nunes (rua Avertano Rocha n 398,
em Bel6m), al6m de outros adquiridos
pelos filhos do prefeito.


Jornal Pessoal *2 QUINZENA MARCO DE 2008 3









0 blecaute de 1991:


Passavam 21 minutes do meio-dia quan-
do faltou energia em Bel6m naquela sexta-
feira, 8 de marqo de 1991. Nenhuma novi-
dade para os belenenses em particular e os
paraenses em geral: o Estado atravessou o
s6culo XX convivendo corn crises peri6di-
cas de energia. Quando os blecautes se tor-
navam insuportAveis, alguma remediaqao
era providenciada e a energia voltava a nor-
malidade. Logo depois recomeqavam os
racionamentos ou mesmo a escuridao. A
concessiondria inglesa do serviqo em parte
dessa hist6ria, a Pard Eletric, terminou seus
dias desmoralizada, como "a paralitica", por
suas constantes paralisias.
A partir de 1982, a energia passou a ter
fonte hidriulica e ndo mais t6rmicas A base
de derivados de petr6leo, algumas das
quais verdadeiras peas de museu: uma
grande linha de transmissdo comeqou a
trazer para Bel6m a energia do Nordeste,
principalmente da hidrel6trica de Boa Es-
peranqa. Dois anos depois a regilo come-
qaria a ser alimentada pela usina de Tucu-
ruf, em tempo de garantir o suprimento para
a fibrica de alumfnio da Albris, que logo
se tomaria o maior client em todo Brasil,
exigindo uma vez e meia mais energia do
que a vizinha Bel6m, a maior cidade da
Amaz6nia, e 2% de toda demand nacio-
nal de energia.
O que, naquele dia 8 de marqo de 1991,
podia ser mais um epis6dio rotineiro de ble-
caute na area metropolitan de Bel6m, que
causaria transtornos a um milhao de habi-
tantes da capital paraense (exatamente no
"dia national da cerveja"), se transforma-
ria em "um dos mais longos blecautes so-
fridos por uma produtora de aluminio em
todo o mundo". E a classificaqao dada por
Mauricio Schettino no livreto Blecaute -
12 horas sem energia elitrica na Albrds,
publicado oito meses depois, a instdncias
do entdo superintendent geral de opera-
qao da empresa. A publicaqao reuniu "os
depoimentos de quem viveu esses momen-
tos de ang6stia e incertezas".
A falta de energia, por longas 12 horas,
aconteceu "um mrs ap6s ter sido ligado o
iltimo fomo da segunda fase da Albris,
que a transformava na maior produtora de
aluminio do Brasil, com capacidade para
produzir 340.000 toneladas por ano", ob-
serva Schettino. A Albris absorvera 1,3
bilhdo de d6lares de investimento (metade
financiado pelo Japao, s6cio da Compa-
nhia Vale do Rio Doce no empreendimen-
to), corn capacidade de faturamento de
US$ 600 milhbes ao ano.
A principio se imaginou que os 864 for-
nos estariam irremediavelmente perdidos
ou que sua reativaqao fosse impossivel.
Depois, houve divida se seria econdmico


retomar a fibrica. Finalmente, a questao
foi sobre o m6todo a ser utilizado para a
repartida. T6cnicas jamais tentadas antes
em nenhuma outra fibrica foram usadas
no religamento dos fornos da Albris, que
entraram progressivamente em linha (com
in6ditas partidas a frio e quente), graqas
ao esforqo dos seus dois mil funciondrios
e a ajuda dos empreiteiros e consultores
interacionais contratados. At6 uma con-
corrente, a Alumar, de Sao Luis, colabo-
rou. Em novembro, quando o precioso li-
vreto foi publicado, a fibrica ji trabalhava
normalmente. Todos os fomos estavam re-
cuperados. Uma batalha foi vencida.
Infelizmente, a 6nica fonte documental
intera 6 esse pequeno livro, que se tomou
possivel gracas a clarivid8ncia de Mauri-
cio, um dos integrantes de uma familiar mi-
neira, os Schettino, de intense participaqao
na hist6ria da Vale do Rio Doce (um ir-
mao, Francisco, foi o iltimo president da
CVRD da fase estatal, que durou 52 anos).
Passados 17 anos, o epis6dio continue pra-
ticamente a margem da historiografia ama-
z6nica, embora seja um acontecimentoji
inscrito na hist6ria mundial do aluminio,
como o mais grave acidente que indistria
do metal ji sofreu por causa da falta de
energia. O fato foi imediatamente regis-
trado e interpretado na Bolsa de Metais
de Londres, mas ainda nao faz parte da
mem6ria regional (nem da estadual).

Nessa epoca
eu suspendera
temporariamente a
circulaaio deste
journal para me
dedicar ao projeto
do Bandeira 3. Por causa da
carta obscena de Hl6io Gueiros, o jomal
s6 circulou uma vez. Antes de voltar ao
Jornal Pessoal, ainda mantive por algum
tempo uma coluna de andlise, publicada tres
vezes na semana (terqa, quinta e domin-
go) em A Provincia do Pard, at6 uma
tentative de censura, contra a qual me in-
subordinei. No dia seguinte ao blecaute
escrevi o primeiro artigo sobre o acidente,
que saiu na coluna dominical.
Nele, mostrei o contrast: enquanto os
dirigentes daAlbris eram "as mais angus-
tiadas vitimas do blecaute", porque o es-
friamento dos fornos "pode ser fatal em
certas circunstancias", em Slo Luis do
Maranhao, onde estava a fibrica da Alu-
mar, a segunda maior produtora de alumi-
nio do pafs. "em menos de duas horas o


abastecimento da empresa foi restabele-
cido porque ela 6 conectada A hidrel6trica
de Tucurui por duas linhas. Ja a interliga-
qgo Tucuruf-Albris 6 singular. Ha alguns
anos se desenrola a novela (e o novelo)
sobre a duplicaqao da linha, orqada em 60
milhoes de d6lares. Os japoneses querem
que o investimento fique por conta da Ele-
tronorte, que nao rejeita propriamente o
encargo, mas alega nao dispor de dinhei-
ro. O fundo Nakasone, que poderia finan-
ciar a obra, exige duas iniciativas pr6vias
brasileiras: quitaq~o da divida atrasadajun-
to aos agents financeiros japoneses e a
aprovagqo do FMI ao piano do governor
brasileiro para sua divida externa".
E complete:
"AAlumar (cons6rcio Alcoa-Shell, re-
forqado por dinheiro da Construtora Ca-
margo Correa), consciente do risco da li-
nha singular, financiou a duplicaqlo e esta
se ressarcindo em encontro de contas com
a Eletronorte. Os japoneses preferem con-
tinuar sua titica de reduzir ao minimo a
aplicaqao de capital de risco e forqar ao
miximo os investimentos brasileiros, o que
lhes permitiu economizar US$ 1,3 bilhdo
no projeto da Albris (o equivalent a uma
fibrica inteiramente nova)".
Concluf um novo artigo, publicado emA
Provincia do dia 17, no qual narrava as
conseqiiencias operacionais do acidente,
retomando a questao da duplicaqao da li-
nha de mais de 300 quil6metros, a causa da
gravidade que o acidente representou para
aAlbris (comprejuizocalculado inicialmente
em at6 US$ 340 milhoes, antes do seguro
seis vezes o valor da nova linha):
"Como explicar que a Albris tenha
negligenciado, durante mais de cinco anos,
a questao vital da seguranqa no forneci-
mento de energia? Nao hi explicaqces 16-
gicas ou plausiveis. A empresa acreditou
na Eletronorte, que se comprometera a
construir a segunda linha Tucuruf-Vila do
Conde. Tr8s ministros (Minas e Energia,
Planejamento e Fazenda), ainda na admi-
nistraq~ o Sarey, aprovaram a execuqao
da obra por conta do govemo, mas a Ele-
tronorte nio recebeu os recursos neces-
sarios (60 milh6es de d6lares). A Albris
fez de conta desconhecer a insolv6ncia da
Eletronorte e esperou tr6s anos pelo cum-
primento da ordem dos ministros".
Durante virios dias fui atris de infor-
maqgo exclusive, que recebi de uma fon-
te, sobre a verdadeira causa do acidente.
Nao era o que dizia a versao official, dada
pela Eletronorte: um raio. Esta foi a expli-
caqao que comeqou a circular no dia mes-
mo do blecaute e foi aceita desde entao
por todos. No livreto patrocinado pela Al-
bris, Jos6 Maria Pacheco Neves, do setor )


MARCO DE 2008 .2QUINZENA Jornal Pessoal









acidente hist6rico


de manutengao/utilidades, lembrou: "No
demorou e tivemos a noticia de Tucuruf de
que um raio havia danificado uma das tor-
res do linhdo e que o problema era muito
grave". A informaqao de Raimundo Agui-
ar Matos, que lidava com treinamentos e
relaqces industrials, era de que, as 11 ho-
ras da manhl, "um raio caiu na linha de
transmissao, que liga Tucurui a Vila do Con-
de". Teria sido a aproximadamente 100
quil6metros da hidrel6trica.
No iltimo fim de semana de abril de
1991 consegui levantar a hist6ria verda-
deira e, depois da iltima verificagao, publi-
quei em A Provincia do dia 25 a matdria
que 6 a 6nica a contar o que realmente
causou um dos maiores acidentes j sofri-
do por uma indfstria de aluminio.
Dizia a mat6ria, que reproduzo por seu
valor documental:
Ndo foi um raio que provocou o aci-
dente na linha de transmissdo de ener-
gia da hidrelitrica de Tucurui no dia 8
de marco, ao contrdrio do que procurou
fazer crer a Eletronorte, em nota official
divulgada logo ap6s o episddio. A cau-
sa foi a fadiga mecdnica de uma peca
metdlica de sustentacdo dos cabos, con-
forme o resultado de uma andlise reali-
zada em laborat6rio da Eletrobrds, a
pedido da Eletronorte, que ainda ndo
divulgou o resultado do trabalho.
A peMa entrou em colapso menos 10
anos depois de ser instalada, quando de-
veria durar pelo menos o triple de tem-
po. E que, ao invts de ser em ferro for-
jado, ela era em ferro fundido. Mesmo
ndo estando dentro das especificaCdes
ticnicas estabelecidas pela prdpria Ele-
tronorte, a peca foi recebida ("comissi-
onada, segundo o jargdo tecnico) pela
Engevix, consultora contratada para re-
alizar esse serviCo. Ningudm percebeu a
falha ate ocorrer o acidente.
Cada uma das torres metdlicas da
linha de transmissdo possui tres peas
semelhantes i acidentada. Haveria
aproximadamente tries mil no total. A
Eletronorte precisard rever todas as tor-
res e, se encontrar as mesmas peas,
terd que substitui-las. A possibilidade
de que todas essas peas sejam iguais
leva automaticamente ao risco de um
novo acidente, que poderia se repetir a
qualquer moment.
Quando o equipamento de localiza-
Cdo de defeitos instalado na linha de
transmissdo de Tucurui, a mais extensa
do pais, registrou o acidente no dia 8, os
ticnicos da Eletronorte perderam duas
horas ate decidirem que interpretacdo
dar ao registro eletronico. Ao sairem
para a linha, jd chovia intensamente e


escurecia, dois fatores que dificultaram
o trabalho da equipe de reparos. Um
helicdptero s6 foi contratado depois que
a inica empresa cor aparelho disponi-
vel, a Lider recebeu as dividas atrasa-
das e ate entdo ndo pagas pela Eletro-
norte. A combinacdo de falta de treina-
mento das equipes de linha, erro na and-
lise dos dados apontados pelo sistema
de localizagdo de defeitos e abandon
dos investimentos acabou resultando no
mais grave acidente sofrido por uma fd-
brica de aluminio em todo o mundo.
Em conseqiiuncia, a Albrds, fdbrica
implantada pelo consdrcio japones
NAAC e a Companhia Vale do Rio Doce,
ficard sem produzir em condicJes nor-
mais durante seis meses. Nesse perio-
do, o metal obtido serd de qualidade
inferior, que a Albrds poderd vender a
preco menor ou decidir simplesmente
ndo colocd-lo no mercado para ndo afe-
tar ainda mais os precos, ou entdo pre-
servar o pagamento do seguro por lu-
cros cessantes. Teoricamente, a Albrds
perderia 160 mil toneladas, equivalen-
te a 250 milhoes de d6lares.

Co o acidente,
a Albras ficou
praticamente ser
caixa para pagar os
impostos que deve
ao Estado e quitar
sua conta de energia.
A empresa paga todo m&s o equivalent
a sete milhoes de ddlares i Eletronorte
por uma conta que represent uma vez e
meia o consume de BelMm e 2% do con-
sumo national de energia. Por um con-
trato assinado em 1984 para ter vigen-
cia de 20 anos, a Albrds ter direito a
tarifa especial, 15% abaixo do que qual-
quer outra inddstria e vinculada aos pre-
Cos internacionais do aluminio. Este e o
lado do contrato favordvel i empresa.
Mas outro dispositivo estabelece que,
consumindo ou ndo, a fdbrica paga uma
cota contratada, no moment de aproxi-
madamente 600 mil kW Mas como a pa-
ralisacdo foi provocada pela Eletronor-
te, a Albrds sd quer pagar um setimo do
estabelecido contratualmente. Se ndo for
atendida, responsabilizard a concessio-
ndria de energia pelos danos sofridos.
0 seguro poderd fazer o mesmo.
Qualquer que seja o desfecho da
negociagdo, que vem sendo feita muito
cautelosamente, algum braco do gigan-


tesco corpo governmental saird perden-
do e muito. Tudo porque no Brasil,
agora, mais do que nunca, inauguram-
se obras monumentais que depois, por
md ou inexistente manutenqao, entram
em deterioraado e se transformam em
fontes explosives de problems, capazes
de estourar a qualquer moment. Na li-
nha de Tucurui, a preocupaado agora e
com a corrosdo nas torres metdlicas, cuja
manutengdo ndo ter sido satisfatdria.
Pode ser um novo capitulo.

HOJE
A Eletronorte reagiu atrav6s de outra
nota. Corrigiu a anterior: a causa do desli-
gamento "foi a ruptura de uma ferragem
acoplada A cadeia de isoladores" e nao o
raio, como dissera. Mas "no moment da
ocorrTncia" do acidente a hip6tese do raio
"era bastante viavel, por nao haver entdo
"informaqres mais precisas". Nao expli-
cou por que, de posse de tais informaqres,
quase dois meses depois, nao corrigiu es-
pontaneamente a primeira versao, s6 o fa-
zendo por causa do meu artigo.
O resto da nota tratava do secundario
em relaqao a denincia da falha no comis-
sionamento da peqa, em defesa da com-
petencia da Eletronorte, que nao teria de-
morado para agir, nao teria ficado sem o
helic6ptero por falta de pagamento a em-
presa proprietiria e nao estaria deficiente
na manutenqco. Garantiu que estava cui-
dando do problema da corrosao para que
um novo acidente semelhante nao se re-
petisse, embora considerasse "normais"
essas ocorrencias "para uma linha de trans-
missdo com 10 anos de operaqao".
Relembrar esse epis6dio pode ser itil,
exatamente quando o deputado federal
Jader Barbalho tenta conseguir aprovar
a indicaqao que fez, do nome do enge-
nheiro Livio Assis, atual director do De-
tran, para a presid~ncia da Eletronorte.
Se Jader consumer essa faqanha, pela
primeira vez a maioria da diregao da es-
tatal sera ocupada por representantes do
Par, incluindo a presidencia. Apassagem
de paraenses pela direqao da Eletronorte
no passado nao resultou numa providen-
cia elementary, reivindicada ha muito tem-
po pelo Estado, responsdvel por 80% da
oferta de energia da empresa: fazer a sua
sede ser instalada na Brea 'que Ihe cabe
porjurisdiqao. A Chesf fica no Nordeste,
Furnas no Leste, a Eletrosul no Sul, mas
a Eletronorte nao descola de Brasilia. Os
pretextos usados para essa estranha ter-
ritorialidade (nem o Distrito Federal nem
Goids integram a Amaz6nia) di uma me-
dida do que tem sido a pr6pria Eletronor-
te: uma empresa colonial.


Jornal Pessoal *2 QUINZENA MARCO DE 2008 5









Terras de Portel: o que


"Ribeirinhos querem a posse de ter-
ras", dizia a manchete de pigina internal
de O Liberal do dia 10, reabrindo a ques-
tao sobre a venda das terras de Portel,
tema de tres edi6es recentes deste jor-
nal. A volta ao assunto, em mat6ria de
pagina inteira, foi motivada pela decisdo
do juiz substitute da 5' vara federal de
Bel6m, Carlos Almeida Campelo, de re-
ceber aqao civil piblica, no valor de 200
milh6es de reais, proposta em dezembro
do ano passado pela prefeitura municipal,
o sindicato dos trabalhadores rurais e uma
associaqao de moradores.
Os autores querem, dentre outros pe-
didos, a anulaqao da venda das terras, com
o cancelamento dos registros imobilidrios
em nome de uma empresa, a ABC (Agro-
pecuiria Brasil Norte), a confirmaqao da
ocupaqao dos moradores da area e o pa-
gamento de indenizaqao pelos "danos mo-
rais coletivos" que sofreram em conseqii-
&ncia do que dizem ter sido uma "grilagem
official a licitaqao de terras do loteamen-
to Joana Peres, em 1978.
Por serem direitos humans, que se so-
breporiam a outros direitos civis, como o ti-
tulo de propriedade e o registro cartorial, eles
ainda poderiam ser acatados, 30 anos de-
pois, por serem imprescritiveis. Para con-
firmi-los, os interessados estariam dispos-
tos a recorrer a cortes intemacionais dejus-
tiqa, se nao forem atendidos no pr6prio pais.
A mat6ria, dojomalista Carlos Mendes,
n~o faz refer8ncia ao inico fato concrete
desde o recebimento da ac~o, em despa-
cho de 18 de fevereiro: a apresentagqo, ao
juiz da causa, das informaq6es prestadas
pela Procuradoria Geral do Estado, no dia
3. Destaque 6 dado A antecipaqio da defe-
sa que o outro r6u, o Iterpa (Instituto de
Terras do Pard), tamb6m intimado, ainda
ird oferecer. As outras parties no process
sao a pr6pria empresa e a Uniao.
O chefe do departamento juridico do
Iterpa, Flivio Mansos, sustentou na entre-
vista posiq~o divers da que seu chefe fun-
cional, o coordenador fundidrio da procu-
radoria, Rog6rio Frizza Chaves, manifes-
tou por escrito na peqa, assinada tamb6m
pelo procurador Carlos Lamarao, ex-pre-
sidente do Iterpa.
Um leitor desatento da reportagem po-
deria entender que o ato do juiz federal tem
alguma conotagao valorativa sobre o con-
te6do da aqao civil p6blica, patrocinada pe-
los advogados Ismael Moraes e Marcelo
Moraes Dantas. O responsivel pela 5a vara,
por6m, se limitou a tomar conhecimento da
alegaqAo dos autores de que seus constitu-
intes reivindicam as terras que ocupam. Por
estarem As margens de dois rios, o Cama-
raipi e o Pacajds, elas podem integrar a fai-


xa dos terrenos de marinha e se tomam,
por essa circunstncia, de interesse da Uniao,
parte legitima no process. Diante da infor-
maqao, o magistrado tinha obrigatoriamen-
te que se julgar habilitado a funcionar no
feito, o que fez.
Recebida a aqao, ele intimou as parties
adversas a prestarem informaq6es sobre
as medidas antecipat6rias requeridas pe-
los autores. Antes mesmo do exame de
mdrito da questao, os advogados dos ribei-
rinhos querem a suspensao das atividades
desenvolvidas na drea litigiosa pela Cikel,
empresa que ali implantou um manejo flo-
restal certificado cor base em arrenda-
mento das terras A ABC, e as outras pro-
vid8ncias requeridas.
A Procuradoria do Estado, em sua de-
fesa, se op6s A concessao da tutela anteci-
pada, argumentando que a questao 6 com-
plexa, delicada e grave. S6 pode ser escla-
recida no curso da instruq~ o processual re-
gular, com a instauraao do contradit6rio. A
questao principal consiste em saber se as
500 families de ribeirinhos, em nome das
quais os advogados se apresentaram, ocu-
pam realmente areas que foram vendidas
pelo Iterpa em 1978. Se elas, de fato, estao
instaladas As margens dos rios e o lotea-
mento Joana Peres nao abrangeu suas ocu-
paq6es, a questao 6 da competincia da
Uniao e nao do Estado. Diz respeito A regu-
larizaqao possess6ria e nao a um conflito
de propriedade.
Em entrevista ao reporter de O Libe-
ral, o director do departamento juridico do
Iterpa disse que um levantamento recent
realizado pelo institute (cuja existencia s6
entio foi revelada publicamente) constatou
que nas areas pr6ximas aos rios da regiao
"nao houve titulaqao". Se a ABC ou a Ci-
kel, esta com o suposto uso de pistoleiros e
de violencia, conforme a dendncia do advo-
gado, estao em conflito com os posseiros, 6
porque ultrapassaram o limited das glebas que
foram vendidas pelo Iterpa, apropriando-se
de mais terras p6blicas, jA ocupadas pelos
moradores tradicionais. O contencioso se-
ria entao entire os posseiros e as empresas.
Nao com o Estado.
Essa questao tem que ser apurada em
aco judicial pr6pria, mas nao atrav6s da
media que tramita pela 5a vara federal, ou
entao por meio de procedimento adminis-
trativo, seja do Estado ou da Uniao. Os pa-
tronos dos ribeirinhos deram a sua aq~o um
alto valor, que vai ser apurado na sentenqa,
mas que ji serve de referencia sobre seus
prop6sitos. A contend pode vir a ser resol-
vida atrav6s de acordo, o TAC (Termo de
Ajuste de Conduta) sugerido por Flavio
Mansos, entire todas as parties, que "pode-
ria ser a soluq~o conciliat6ria para evitar o


prejuizo a qualquer dos interessados", mas,
a rigor, nao o do Estado.
Com esse procedimento, o director do
Iterpa nao chegaria a adotar a posiqao pro-
posta pelo advogado Ismael Moraes, para
que todos os 6rgdos piblicos envolvidos in-
gressassem no p6lo positive da aqao, como
litisconsortes, deixando do outro lado ape-
nas a ABC, mas chegaria bem perto. Mes-
mo num acordo, o Estado teria que arcar
com os 6nus da sucumbencia, "que serao
altos", conforme admite mais uma vez o
advogado. Em carta enviada a este journal,
ele defended seus honoririos na questao,
atribuindo a minha reaqdo a esse ganho a
uma inveja, de quem nao quer v&-lo milio-
n6rio, como ficard, mesmo que seus hono-
ririos sejam fixados em 1% sobre o valor
da causa (nesse caso, R$ 2 milhaes).
Poupar o erdrio ja 6 preocupaqao sufi-
cientemente nobre para acautelar os repre-
sentantes do Estado na demand e reco-
mendar redobrada atenqio por parte dojul-
gador. Mas h ainda outras quest6es de porte
semelhante envolvidas. Nao hi duvida que
o Iterpa, sob pressdo do govemo federal e
compelido por escdndalo na venda direta
por requerimento, evoluiu ao decidir discri-
minar as terras as quais pretendia dar uso e
fazer a alienaqao atrav6s de concorr8ncia
ptblica. Esses prop6sitos positives foram
comprometidos porque o 6rgio recorreu A
temeraria arrecadagqo sumaria, feita A base
de consult cartorial, na presunqao de que
a drea estava sem ocupaqao, e porque to-
dos os lotes licitados acabaram, graqas ao
artificio de usar prepostos, nas maos de um
unico comprador, a ABC.
Esse fato era piblico e not6rio para os
que acompanharam de perto as vendas,
como o agrimensor e advogado Paraguas-
sd Eleres, que realizou a demarcaqao dos
lotes atrav6s de sua empresa, Setentrional,
a partir de 1979. Em relat6rio encaminhado
ao president do Iterpa, em marqo de 1984,
ele disse que 58 lotes de terras contiguas do
Loteamento Joana Peres foram adquiridos
"por diversas pessoas que comp6em o cha-
mado Grupo Garcia", dono da ABC, sigla
atrav6s da qual passaria a ficar conhecido
(hoje, 6 ABN). E faz outras referencias a
esse proprietario inico dos lotes alienados.
A contestagqo judicial desses atos, en-
tretanto, s6 foi promovida tres d6cadas de-
pois da alienaqao. Nesse period, o Estado
concede os titulos provis6rios com clausu-
las resolutivas, aprovou as demarcaq6es dos
lotes, verificou o cumprimento do piano de
aproveitamento econ6mico, recebeu o pa-
gamento integral e expediu os titulos defini-
tivos de propriedade, que foram matricula-
dos no cart6rio de registry de im6veis. Essa
base legal foi fundamento para diversos ti-


6 MARCO DE 2008 .2 QUINZENA Jornal Pessoal








a reportagem nao disse


pos de operaq6es comerci-
ais e econ6micas, que s6
foram postas em questao e'.
recentemente.
Se os atos sdo nulos de
pleno direito ou nao; se, no
caso de irregulares, podem
ser corrigidos; se as respon-
sabilidades pelas fraudes
precisam ser apuradas e co-
bradas, tudo isso pode ser -
feito atrav6s de revised ad-
ministrativa pelo pr6prio Es-
tado, o inico competent
para tal. No Ambito da aao
civil piblica proposta peran-
te a 5" vara federal, o que
cabe verificar 6 se a licita-
qao do Iterpa 6 causa direta dos danos so-
fridos pelos ocupantes tradicionais da Area.
Se eles nao ocupam terras que foram titula-
das pelo institute em favor da ABC e seus
prepostos, o reconhecimento dos seus legi-
timos direitos serb feito pelo Estado ou pela
Uniao A margem do contencioso judicial jA
instaurado, sem pagamento de indenizaq~ o
a eles ou honorarios aos seus advogados.
E esse o m6rito da questao e nao, como
estranhamente disse o director do Iterpa, os
direitos humans territoriais dos moradores.
Estes direitos terTo que ser reconhecidos
pelo poder p6blico, caso fique provado que
as ireas por eles ocupadas, sendo de fato
ribeirinhas, nao foram abrangidas pelo Lo-
teamento Joana Peres I e, portanto, estio
najurisdigqo da Unido, que intervird no caso
atrav6s da sua gerencia patrimonial ou atra-
v6s de procedimento discriminat6rio.
Na eventualidade de uma segunda aqao,
se nao houver entendimento amigivel, o po-
der piblico podera ser litisconsorte ativo ou
at6 autor, litigando contra quem viola direi-
tos possess6rios estabelecidos ji ha tanto
tempo. Mas no primeiro moment 6 dever
dos seus representantes defender os inte-
resses do Estado contra uma iniciativa que,
se apresentando comojusta e correta, pode
ter uma essencia diferente da sua apar6n-
cia ou, pelo menos, "nao t~o igual".
Assim, nao deixa de ser surpreendente
que o director do Iterpa tenha se apressado
a dar atestado de ilegalidade (e inconstituci-
onalidade) A venda antes de uma prova ca-
bal e defmitiva, que surgird da instruqo do
process. Afastou de imediato a preliminary
da prescriqao da aq~o antes mesmo que
ela pudesse ser apresentada e sustentada.
Discutiu no moment indevido, o da tutela
antecipada, que 6 media preliminary, sobre
dano iminente de dificil reparacqo e direito
liquido e certo, quest6es de m6rito, a serem
tratadas no curso da acqo, depois de provas
e contraprovas.


/ "

Mesmo que a fraude tenha sido pratica-
da unilateralmente pela empresa, ela foi
coonestada pelo long silancio do poder
piblico e dos seus representantes, que nao
apenas nao denunciaram os ardis como os
convalidaram cor seu sinete. Ha respon-
sabilidades envolvidas, a acarretar direitos
regressivos, num quadro de refer8ncia que
tem a legislaqgo civil como parimetro.
Al1m disso, 6 precise esclarecer quem
slo os autores do pedido, quando se instala-
ram em suas ocupac6es, em que areas, para
quais finalidades e quais os seus direitos.
Esses dados surgirio da prova pericial, com
o uso de levantamentos de campo e ima-
gens de sat61ite, desde a realizagao do lote-
amento, em 1978, at6 agora, para acompa-
nhar a evoluqao da presenqa humana na
Area e definir limits. A aaio de Portel pode
se tomar um precedent perigoso, aqulan-
do outros personagens a cobrar a respon-
sabilidade civil do Estado de forma tao am-
pla e arrasadora.
No seu relat6rio de 1984, Paraguass6
Eleres alertou o president do Iterpa que s6
poderia encerrar a demarcacqo dos- lotes
da ABC se o institute desse uma soluqao
para a "questao dos posseiros das margens
do rio Camaraipf, problema suscitado logo
no inicio dos trabalhos de campo e que at6
hoje nao teve qualquer soluqgo por parte do
Iterpa". Nas vistorias que fizeram, suas
equipes verificaram a "tradicao de muitas
families ali estabelecidas, quer nas margens
dos rios que informam os limits das terras,
sobretudo as do Grupo ABC, que sao os
rios Pacajis, Camaraipf e Jacunda".
Por causa dessa presenqa, diz o relat6-
rio, "o Iterpa alijou da licita~io alguns
lotes que, entretanto, nao foram regulari-
zados pelos ocupantes tradicionais e, no pro-
cesso de ocupaqao da Area, o Grupo ABC
foi negociando lote por lote, de maneira
que, presentemente, det6m a preferencia
para proper a regularizaq~ o fundiAria da-


quelas terras, sem que possa haver qual-
quer problema fundiArio".
A plant geral elaborada pela Setentrio-
nal, cor base na cartografia e nas informa-
coes de campo, que possibilitaram a demar-
caqao, "cont6m as posiq6es desses lotes e,
inclusive, os levantamentos topogrificos,
feitos sem a menor oposi o dos anti-
gos ocupantes, posto que ja indeniza-
dos pelo Grupo ABC".
Estas informaq6es, velhas de quase um
quarto de s6culo, mostram que as Areas
contestadas pelas pessoas que entao se
encontravam no local foram excluidas da
licitaqao, mas a empresa assumiu o contro-
le dessas terras, comprando os direitos pos-
sess6rios desses ocupantes para poder se
habilitar a uma future regularizaq~o fundid-
ria, que parece nao ter vindo.
Mesmo sem cinco dos 58 lotes originals
licitados, a soma das demais 54 glebas deu
uma Area 6% maior (de 127 mil hectares)
do que a soma prevista no levantamento
cartorial do Iterpa, atrav6s da chamada "dis-
criminat6ria branca" (que 6 feita nao in situ,
mas no papel). A diferenqa result de im-
perfeiqao cartogrAfica, usada como base
para o loteamento da Area, apurada no tra-
balho de campo.
Esses dados sao suficientes para acau-
telar contra afirmaq6es categ6ricas, defi-
nitivas. Se a empresa usurpou na apropri-
aqao de terra que era sua, nao 6 improvi-
vel que se constate fraude possess6ria, nem
impossivel que haja reivindicaqao de direi-
tos ilegitimos. Para prevenir os erros, nada
melhor do que submeter tudo a uma revi-
sao, cor os novos recursos t6cnicos de
que se disp6e.
Hd ainda sutilezas t6cnicas na emprei-
tada, a exigir andlise ponderada e profunda,
para que se possa resguardar direitos e de-
finir procedimentos. Embora apresentada
em defesa de 500 families de antigos mora-
dores da regiao, a aqao foi patrocinada pela
prefeitura, pelo sindicato e por uma associ-
aqao de trabalhadores, que dividirao entire
si (em parties desiguais: 70% para a primei-
ra e 15% para cada uma das outras duas) o
valor dos danos morais coletivos a serem
arbitrados pelojuiz, se a aqao chegar ao seu
final, tendo como escopo o valor a ela atri-
buido por seus autores, de R$ 200 milhoes
(que, quando nada, servira para definir os
honordrios advocaticios). O dinheiro sera
aplicado "em beneficio das comunidades
respectivas envolvidas", mas quem sera o
fiel da balanqa?
Neste "affaire", como nos atos huma-
nos em geral, a precipitaqCo pode acabar
invertendo os pap6is e desservindo a no-
breza da causa empunhada como bandeira
pelos novos Robin Hood, reais ou falsos.


Jornal Pessoal *20 QUINZENA MARCO DE 2008 7








Belem

em 1928

A Semana foi a melhor e
mais duradoura das revistas
editadas no Para, a 6nica pu-
blicada semanalmente. Ha
80 anos, em 20 de marco de
1928, no seu n6mero 516, ela
anunciou que completava 10
anos de circulacao. "Em dois
lustros, numa terra onde ou-
tra revista nenhuma alcanqa
senao efemera existencia,
n6s podemos circular de si-
bado a sibado, hi dez anos",
comemorava.
Embora o editorial se re-
ferisse a 1918 como o ano
inaugural, no expediente a
data citada era 1919. A pu-
blicapqo, na verdade, apenas
iniciava entao o seu 10" ano,
que s6 se completaria em
marqo de 1929. Nenhum pe-
ri6dico comeqa no ano 0.
Quando sai seu primeiro ni-
mero, no cabeqalho coloca-
se o ano I. Sua primeira d6-
cada se complete exatamen-
te quando comeqa o ano XI.
Mas isso 6 detalhe.
Essa ediqao de aniversi-
rio teve 112 piginas, embora
a revista nao as numerasse.
Pouco mais da metade des-
sas piginas (59) eram de
an6ncios, o que da uma me-
dida do suporte econ8mico
que garantiu a longevidade da
revista. Alcides Santos era o
diretor-proprietArio da revis-
ta, que tinha sua redaqao e
administraqao na travessa 7
de Setembro, 33.
A edicqo da um panora-
ma da cidade nesse ano.

NOTICIAS
* O senador Sousa Castro
retornava ao Rio de Janei-
ro, depois de meses de per-
manincia em Bel6m, "onde
veio abraqar seu venerando
progenitor, o Barao de Ana-
jis, e repousar das fadigas
parlamentares". Como de
hdbito, amigos e correligio-
nirios foram ao bota-fora
do ex-governador, que em-
barcou no paquete Pedro I.


* Quem embarcou no mesmo
navio foi Artaxerxes Teixeira
de Lemos, director do Banco
Commercial do Pard "e chefe da
poderosa firma Teixeira, Mar-
tins & Cia., proprietdria do
Grande Hotel, do Palace Tea-
tro, do Olimpia, etc.".
* O Grande Hotel era "o mai-
or e mais important de todo
o Norte do Brasil e o finico
que apresenta a feiqgo e o
conforto dos grandes hot6is
modernos". Dispunha de
"quartos mobiliados com ele-
gAncia e corm agua canaliza-
da. Apartamento de luxo, com-
posto de gabinete, quartos de
dormir e sala de banhos e to-
alete. Restaurant amplo e
ventilado. American Bar. Ten-
nis court. Vastas terrasses.
Instalaq6es sanitirias de pri-
meira ordem. Cozinha euro-
p6ia. Iluminaqgo el6trica".
* Ja pelo vapor Hildebrand,
regressava da Europa "a gra-
ciosa senhorinha Hildebran-


MEMORIAL DO


dina Gomes, precioso orna-
mento da nossa sociedade e
filha do estimado capitalist,
sr. Jos6 Fernandes Gomes,
chefe da firma Gomes e Fi-
Iho desta praqa".
* Eurico Vale, "o mais jovem
dos nossos senadores", 6
motive de um artigo laudat6-
rio que Ribeiro Pontes escre-
veu, provavelmente para sal-
dar um favor que recebeu do
ex-goverador, quando o pro-
curou na capital federal, ele
ainda deputado.
* A revista louvava a admi-
nistraqao do engenheiro
Crespo de Castro como in-
tendente (prefeito) de Bel6m,
que em pouco tempo fez mui-
to pela cidade. Tanto que A
Semana nem tentaria apre-


______________ _________ A 1.11ANA ____________________

hMluslrias Ileunidas A. Pinheir Filib & C mp. Limitada
al-n uSi ta 1 1 4 A ~ I A4 a to I -a 0

Seceao de Chapeos de Palha
e GuarnicOes
'.Trrme,,a QtUnilnno IucawLyuna
m 'lijnums da rut Laarn S'adr4 I
-- E1,L -- PAR, --.--
Il1u1r'rep,, toegartaphieo RUSTIC
Co Iu potatl, 275 Telephones, A-
orand., rarledmae do palhas clasikasi a
I f.ilnIkas j pllfa~u e bina*skl, iapor-
1A. I.I.raetaPn e onstaintamento 40j, wiis
reputados Iranlqu eadorEs inglteyS
0 allissok .

R OaE E ,P1 ,Tz[ STOCK DE AL tto a: P.L1t PARA H)M[l;. RA'UAlE CRIAWAS


Para atiemCiisttsi I'Proas ea cnantll'iop @r%4 exewion'ta
A;? I armtt de v.ans 4 rt;-~ """'." '' ;; "


sentar "uma relaqao dos ser-
viqos, realmente vultosos, que
ji tem prestado". Lembrava,
por6m, as "rodovias abertas
ao trifego, rompendo-se ao
long dos nossos sub6rbios",
as "ruas, praqas e avenidas
onde a acao municipal tem
empreendido os mais urgen-
tes serviqos, realgando, pavi-
mentando, consertando (com
"c" no original), desviando
tropeqos, derrubando pardiei-
ros, construindo muros, pas-
sagem, valas, reduzindo, en-
fim, a drea imensa que ainda
hi por consertos, por mode-
lar, por construir". Tudo dito
genericamente, sem exem-
plos. E sem o marketing ma-
quiador de hoje.
* Apesar do nome, George
Sumner era um caso de "pa-
raense que venceu no sul",
um dos motes do orgulho lo-
cal. Tornara-se engenheiro
ge6grafo e civil pela Escola
Polit6cnica no Rio de Janeiro
e professor catedritico de ff-
sica no Col6gio Pedro II.

ANUNCIOS
* O Banco Comercial do
Pard, fundado em 1969 e es-
tabelecido na rua XV de No-
vembro (na 6poca, ainda a
Wall Street belenense), ofe-
recia juros de 5% ao ano a
quem abrisse uma conta es-
pecial, a partir de um conto
de r6is (quantia suficiente
para comprar dois mil exem-
plares da revista). As retira-
das eram livres.
* O concorrente era o Ban-
co do Pard, que expedia sa-
ques e ordens telegrificas
"para todas as cidades do
Brasil", vendia cambiais
"para todos os paises da
America e da Europa", e
aceitava dinheiro a premio.
Funcionava na Jodo Alfredo
das 9,30 As 11,30 e de uma
is tres e meia da tarde. A
sesta era sagrada. Como o
dinheiro, claro.


MARCO DE 2008 .2QUINZENA Jornal Pessoal









COTIDIANO


I


A avenida Presidente Vargas 80 anos atrds: pouco a
ver cor a situagdo atual. Nenhum pridio, casas
humildes e ainda sem urbanizaqdo na praga da
Reptiblica. As mangueiras apenas haviam sido
plantadas. Uma cidade que desapareceu.

A




.A -
4 ^


'-'


* O Moreira Gomes tinha
sua segqo bancAria, no n6me-
ro 42 da 15 de Novembro,m
e a seq o de ferragens no n
7 da mesma rua.
* A FRbrica Perseveranga,
de Martins, Jorge & Cia. (li-
derada por Ant6nio Gonqal-
ves Martins), se apresentava
como "a grande e pr6spera
ind6stria do Pard". Nao sem
razao: em 1896 reinaugurara
sua fibrica de cordas, esto-
pilhas, fio de vela, sacos e
barbantes, que ocupava dos
numeros 1 a 9 da Rui Barbo-
sa e de 2 a 8 da Quintino
Bocai6va, no Reduto, o bair-
ro industrial de Bel6m.
0 A fibrica de artefatos de
cimento de A. Pinheiro Filho,
na Quintino Bocaidva, come-
qara a funcionar recentemen-
te, em grandes e modernas
instalaq6es, tamb6m no Redu-
to. Estava preparando seu
catilogo ilustrado de produtos,
que seria bem variado, na "re-
putada Litografia Amaz6nia".
E anunciava a pr6xima fabri-
caqao de telhas de cimento


"Water Seal", tipo Marselha,
e tubos boeiros. A firma tinha
ainda uma seqao de chap6us
de palha e guami9qes, ofere-
cendo produtos importados
"dois mais reputados branque-
adores ingleses e sufqos".
* A Manufatura a Vapor de
Fumos Guara oferecia o ci-
garro Rainha das Operdrias
a favoritea linda dum sultao"
e o Presidente a "elite social
de Bel6m".
* A Farmicia Central (tao
conhecida que dispensava o
seu endereqo no antincio), de
Albino Fialho, era "a 6nica
casa em Bel6m que ainda
mant6m o servigo noturno
permanent, para receitudrio
de urgencia, atendendo soli-
citamente a sua clientele". O
seu receituirio, "o maior de
Bel6m", inclufa produtos
como: Boldoina Fialho, que
curava ictericia e inflamaq6es
do figado, e regularizava a
funqao do intestine, "sendo
um poderoso dissolvente do
acido irico"; Laverina, para
a cura de impaludismo, ma-


leita e sez6es; Vizulina, para
"qualquer inflamaqao dos
olhos"; Vinho Fialho, exce-
lente reconstituinte; Peitoral
de Nair, "o melhor desinfec-
tante dos br6nquios e pul-
m6es; e o Bilsamo Dr. Nair,
o medicamento "mais en6r-
gico para matar qualquer dor
de fundo reumdtico ou ner-
voso". Os hipocondriacos
estavam bem servidos.
* The Amazon River Steam
Navigation Company, fundada
por Percival Farquhar em 1911
(que viria a dar na Enasa), ofe-
recia seu serviqo de navega-
q~o do rio Amazonas e afluen-
tes e linhas maritimas do Oia-
poque e Pirabas, cor partidas
dos vapores em datas fixas. A
mais extensa viagem, de 45
dias redondos (ida e volta), era
entire Manaus e Iquitos, no
Peru. De Bel6m a Porto Ve-
lho, no Madeira, eram 32 dias,
corn 24 frequincias anuais. A
empresa dispunha de uma fro-
ta de 11 embarcaq6es tipo gai-
ola (a maior era o "Rio-Mar",
de 609 toneladas), e 10 navios


de roda A popa (o maior era o
"Inca", de 250 toneladas). E
mais cinco rebocadores e lan-
chas. Possuia escrit6rios em
Paris, Londres, Nova York e
Rio de Kaneiro.
* A Fabrica de Perfumes Ori-
on, de A. Gomes, na Frutuoso
Guimaraes (aonde ainda se
encontra), produzia sabonetes,
iguas de colonia, locqes, ex-
tratos, brilhantinas, p6 de arroz,
p6 de sabdo, pastas para den-
tes, Agua de quina, talco, etc.
* O City Club, na Praqa da
Rep6blica, era "o melhor cen-
tro da fina bodmia de Bel6m",
cor um bar "e excelente ser-
vigo de restaurante. Todas
as noites havia "divers6es e
bailes ao sor de afinada or-
questra e jazz-band".
* Pinheiro e Silva era o "Vin-
te e dois", alfaiate "premiado
cor medalha de ouro na
grande exposiqgo do cente-
nirio do Brasil". Sua casa
commercial, na Jodo Alfredo,
fazia "confec5io esmerada
de fatos, que hoje s6 conhe-
cemos como palet6s.


Jornal Pessoal *2 QUINZENA MARCO DE 2008 n








Liberdade de verdade?


Os relat6rios dos inspetores de fi-
brica na Inglaterra do s6culo XIX, corn
capas azuis (ou pretas), ficavam em
ante-salas, gabinetes e prateleiras. Qua-
se ningu6m lia aquelas maqarocas. Mas
Karl Marx as leu com extremada aten-
qio. Esses minuciosos e rigorosos rela-
t6rios foram sua base empirica para con-
ceber a primorosa morfologia do capita-
lismo concorrencial, sobretudo em O
Capital. Sua outra fonte foram as des-
criq6es e andlises de seu amigo, Friede-
rich Engels, o inico que transp6s a so-
leira de uma fabrica (mas na condiqdo
de patrao). Marx tinha a teoria. Os ins-
petores Ihe deram a pritica. Da alqui-
mia resultou o mais important livro de
economic de todos os tempos.
Uma das grandes deficiencias do
debate intellectual 6 que os contendores
nao vao As fontes primirias. Falam de
orelhada ou baseados em int6rpretes. E
chato e di muito trabalho ler os docu-
mentos originals. Preferem-se os resu-
mos ou as chaves decodificadoras. Dai
result debates in6cuos, ou contrapro-
ducentes, e uma desintelig8ncia geral.
Esse viciado (e vicioso) habito inte-
lectual ajuda a explicar a inaniqao de cer-
tos debates. Como o recent, sobre a
decisdo do ministry Carlos Ayres de Brit-
to, do Supremo Tribunal Federal, depois
corroborado pelo plenario, em manifes-
taqao inicial sobre uma Argiii~ao de Des-
cumprimento de Preceito Fundamental do
deputado federal Miro Teixeira, do PDT
do Rio de Janeiro. A suspensdo tempori-


ria de todos os processes que tramitam
najustiqa por "delito de opiniao" corn base
na lei de imprensa, de 1967, atW o pronun-
ciamento final do STF sobre a manuten-
qao ou nao de quase um quarto dos 77
artigos dessa lei, foi saudada como se fora
o ato inaugural da liberdade de expres-
sao no Brasil.
No que nao 6 in6cua nem prejudicial,
a ADPT proposta pelo ex-ministro das
comunicaq6es do governor Fernando
Henrique Cardoso nao toca no constran-.
gimento que sempre 6 imposto ao exer-
cicio da plena liberdade de imprensa.
Nao de hoje: desde a fundaq~o da na-
qao brasileira (e, ji antes, e pesadamen-
te, durante a col6nia). Lendo e relendo
a argiiiao do lider do PDT e o voto do
ministry do STF me veio A mem6ria a
frankesteiniana primeira emenda, de
1969, A constituiqao outorgada manu
military, em 1967. E tanta citaqao, re-
missao, vai e volta, suprime e mant6m,
que fica uma sensaqao: ao inv6s de lim-
par a drea, apenas se renova a sujeira.
Acho que alguma coisa bem simples
talvez tivesse maior efeito e utilidade.
Por exemplo: impedir os litigantes de ir
direto a via judicial em busca de tutela
contra delito supostamente cometido
contra si atrav6s da imprensa. Seria ne-
cessirio esgotar a via da negociaqao e
do didlogo antes de recorrer a justiqa.
Toda pessoa que se sentisse ofendida por
publicaqgo na imprensa teria que se di-
rigir A redagqo atrav6s de carta para se
defender, explicar e (ou) contra-atacar.


Mas tamb6m a recusa a publicaqao
dessa carta, no mesmo espaqo e cor o
mesmo destaque do texto alegadamente
ofensivo, ji caracterizaria o crime. Bas-
taria ao autor da carta comprovar que ela
foi entregue ao responsivel pela publica-
dao e nao foi divulgada em 48 horas para
caracterizar o crime de desobediencia a
lei. A empresajornalfstica, solidariamen-
te corn o responsivel pessoal pela publi-
caqdo da carta, comeqaria imediatamen-
te a pagar multa didria, que perduraria pelo
tempo da recusa da veiculagqo. O recur-
so dos r6us nao suspenderia a obrigagqo
de publicar a carta, a nao ser por decisdo
de m6rito da questdo. Quantas vezes o
peri6dico voltasse ao tema que ensejou a
reapqo do leitor, tantas vezes o cidaddo
teria o direito de obrigar o editor a repro-
duzir sua carta, sujeitando-o a nova mul-
ta se nao o fizer.
Com isso, a liberdade de imprensa
serviria A democracia, ao esclarecimen-
to das id6ias, A caracterizaqIo do con-
tradit6rio, A pedagogia piblica. Se o su-
posto ofendido nio se considerar satis-
feito com a publicaq~o de sua carta, ai
podera recorrer a justiqa para a repara-
q~o do dano pessoal. Mas antes teri que
tender ao interesse piblico provocado
pela manifestaqCo da imprensa a seu res-
peito, ao inv6s de confinar o assunto aos
autos dos processes, desviando-o do
ambito social.
Talvez assim, finalmente, democra-
cia e liberdade de expresslo comeqas-
sem a se afinar.


VALE
Meus cumprimentos pelo
excelente e esclarecedor
artigo "A Vale nos vale?".
Almirante Mario Hermes
Niter6i RJ

BISSEXTO
Nem seria precise dizer o
quanto seu comentirio sobre o
Bissexto me deixou feliz. Mas
digo, porque nao 6 comum a
gente ver publicado um texto
assim, sem rebugos, com tao re-
donda franqueza. E me deixou
feliz nao simplesmente pela opi-
niao positive, vi l1, pelo elogio,
mas tamb6m, e talvez, sobretu-
do, pelas ressalvas "se nao
fosse preguiqoso, se fosse mais
audacioso"" quando voc8 fala
de um possfvel e desejivel re-


trato de Bel6m, tao grande e tao
alto quanto o que Ferreira Gullar
fez de Sao Luis no Poema Sujo.
(Meu Deus, quem me dera!) Tal-
vez haja mesmo um tanto de pre-
guiqa na minha bissextia, mas,
nos dltimos dois anos, tenho me
esforgado arduamente para ser
menos bissexto, sem ser prolifi-
co, no tempo que me sobra em
minha faina professional (isso
talvez explique por que o Bene-
dito Nunes me defina como um
"falso bissexto", nao?). Tenho
mesmo arrancado, a duras penas,
algum tempo a esse tempo tao
escasso. E mesmo af, trabalhan-
do a poesia, muitas vezes, at6 nas
horas da madrugada, eu tenho
que enfrentar as limitaq6es do
meu ritmo e do meu f6lego.
Quanto A audacia, bem que eu
tento, e talvez alguns poemas
sejam a prova de que procuro
ousar, pelo menos um certo tipo


de ousadia. Explico, mas naojus-
tifico. E nada contest,
porque nada me cabe contestar.
O livro agora vive sua pr6pria
vida e tem que enfrentar as chu-
vas e as trovoadas das opini6es.
Tenho a esperanqa e, procure
entender, at6 a pequena vaidade
- de que valha a pena ser lido.
Por isso seu comentirio me fez
tao feliz. Do amigo agradecido
Pedro Galvio

PARTICIPA OAO
Sou leitora do Jornal
Pessoal, o qual consider um
enorme privildgio que temos na
Amaz6nia. Ao ler suas notfcias
e me deparar cor sua ousadia e
amor pelo que faz, eu tamb6m me
sinto encorajada e convict da
riqueza do moment hist6rico em
que vivemos. Eu sou uma escri-
tora de ficqao infantil e infanto-
juvenil iniciante em minha car-


reira, por6m tenho tamb6m um
amor apaixonado pela nossa
Amaz6nia como ela 6. Sua bele-
za, riqueza, mas tamb6m confli-
tos, present, future, cultural e,
principalmente, o povo amazo-
nida sao a minha comoqao como
professional.
Ao ler seujornal, eu tamb6m
sinto anseio em poder participar
desse moment hist6rico da 6l-
tima fronteira do mundo fazen-
do algo, quem sabe, inteligente,
destemido e altruista como o se-
nhor (com as minhas limitaqoes).
E muito triste assistir nosso
povo dormindo profundamente
e muitos nao querendo acordar...
Desejo humildemente esti-
muld-lo a que continue levantan-
do alto sua voz. Quem sabe
aconteqa cor muitos outros,
que, como eu, queiram sejuntar
ao senhor.
Alaide Xingu


10 MARCO DE 2008 .2QUINZENA Jornal Pessoal







Nossa terra: devastada


Em abril de 1982 vieram a Bel6m o
secretdrio-geral do Programa Grande
Carajds, Nestor Jost, e o president da
Companhia Vale do Rio Doce, Eliezer
Batista. Foi para o lanqamento de um
program que implantaria um p6lo side-
rdrgico e metalhrgico em torno de Ma-
rabd, corn base no min6rio de ferro da
serra dos Carajds. Mas para que as usi-
nas de silicio metdlico, ferro liga e ferro
gusa pudessem funcionar, era precise
oferecer-lhes um novo energ6tico: o car-
vao. Carvao a ser extraido da floresta.
"Ao inv6s de destruirmos a floresta
com fogo, como tem sido muito comum,
vamos usd-la para produzir carvao", sen-
tenciou o president da CVRD, entao
estatal, e seu principal executive em to-
dos os tempos, "como se queimar a flo-
resta na producqo de carvao vegetal re-
presentasse muita vantage sobre o
simples incendio", escrevi na ocasiao, na
minha coluna didria em O Liberal.
Depois de ouvir as exposiq6es dos
dois renomados t6cnicos sobre as fon-
tes de suprimento de carvao vegetal (os
babaquais do MaranhIo e o florestamen-
to e reflorestamento no Pard, que subs-
tituiria a mata native), anotei na coluna:
"Isso significa que na drea pr6xima a
Marabd surgirao grandes plantios de es-
p6cies ex6ticas destinadas a se transfor-
marem em carvdo. A atual floresta, den-
sa, rica, heterogenea, formada ao long
de s6culos, estd condenada ao desapare-
cimento se alguma coisa em contrdrio nao
for realizada. Os castanhais, em duas
d6cadas, serao referencia museol6gica.
Antes que os srs. Jost e Batista fizes-
sem suas palestras, os responsiveis pelo
program Carajds jd haviam espalhado
pelo pais dois estudos bem impresses,
fartamente ilustrados, sobre a floresta
amaz6nica, de responsabilidade de tr8s
t6cnicos muito conhecidos: Glycon de
Paiva (inspirador do Polamaz6nia, entire
muitas faqanhas, que incluem o estudo
sobre as jazidas de mangan8s de Serra
do Navio, no Amapd), Edson Ant6nio
Balloni e Hellidio do Amaral Mello.
Os dois trabalhos procuram demons-
trar que a substituicao da floresta native
amaz6nica por um plantio homogeneo corn
esp6cies ex6ticas 6 vantajoso e, ecologi-
camente, um avanqo. Para tanto, os auto-
res recorrem a dados defasados, superdi-
mensionando a extensao da cobertura flo-
restal em relaqao a area total da Amaz6-
nia e subdimensionando a produqco ma-
deireira da regiao. Fica a sugestao de que
esse acervo botanico 6 indtil ou ocioso.
O raciocinio do trio, corn maior sofisti-
caqao, 6 o mesmo dos executives de Cara-
jds. A floresta de Marabd que se acautele".


Passados mais de 25 anos, sem acau-
telamento, a floresta desapareceu ou
esta desaparecendo. Mas nunca houve
uma mobilizaqao igual a que o governor
federal, em conjunto com o governor es-
tadual, desencadeou em torno de Tailan-
dia contra os vorazes desmatadores.
Quem batizou a cidade, tres d6cadas
atras, pensava em tornm-la um centro
agropecuirio da fronteira, com ocupa-
qao ordenada pelo impulsionador dessa
frente, o Iterpa, que ali montou um ni-
cleo pioneiro para a colonizaqco official
dirigida. Mas acabou prevalecendo a
matriz asidtica, que emprestou inspira-
gqo circunstancial ao batismo.
Na sucessao de cenas (bloqueio de
estrada, atos de vandalism, repressao
policial armada aos manifestantes furio-
sos e tropa de ocupaqao, com 300 ho-
mens, chegando com maior aparato b6-
lico para confiscar os produtos da sel-
vageria e da ilicitude), 6 impossivel nao
remeter a mem6ria a Indochina. Somos
a fronteira de um pais que nos quer, nos
respeita e nos admira, ou a possessao
colonial a ser submetida, amansada, ven-
cida, transformada a image e seme-
lhanga do colonizador e da sua cultural?
E um absurdo que um bem fabricado
ao long de s6culos pela natureza, com
esmero e capricho, depois de posto abaixo
e serrado vire tabua para a construq~o ci-
vil usar ao deus-dard e depois repassar para
a pizzaria ou a padaria da esquina lanqar
ao fogo. Se vai mesmo ao fogo, que vire
carvao vegetal, propuseram Jost & Elie-
zer, dupla de homes ilustres, mas sem
sangue amaz6nico, sem ethos amaz6nico.
Agentes da ocupaco ao modo asiatico,
sob despotismo oriental.

Sim, sao positives
varias das iniciativas
desencadeadas pelo
governor a partir do
sinal de alerta do
crescimento de 10%
do desmatamento
na Amaz6nia
no ultimo ano. Algumas at6
sao in6ditas e outras atendem o clamor
de muitos anos dos especialistas e dos di-
retamente interessados na mat6ria. Mas
mudardo o rumo traqado pelos distintos
senhores um quarto de s6culo atras e
por outros tantos distintos senhores
mais anos antes? Indio bom 6 indiocmor-
to, dizia o colonizador americano, 38 em
punho. O nosso teve que center essa


selvageria, mas ainda pode dizer: flo-
resta boa 6 floresta abatida. Junto com
a pistola, a motossera, atualizaqao tec-
nol6gica do machado.
A floresta 6 o nosso bem mais precio-
so, que estamos a desperdiqar com um
barbarismo de causar engulhos a Atila, o
huno (se aceitamos nossa versao etno-
c8ntrica). Nao sera corn tropa armada
(embora mal municiada, mal alimentada
e sem-diarias), com espalhafato, cor
medidas no papel, e mesmo corn algu-
mas providencias certas, que se desviard
a floresta do destiny que a aguarda, ge-
ralmente de tocaia: virar madeira s6lida,
extraida sem deixar maiores marcas; fi-
nanciando com isso a formaqao do past,
que vird depois (e ja entao de forma es-
cancarada, que qualquer sat6lite fotogra-
fa, identificando plenamente este vilao);
permitir que serrarias se multipliquem,
fornecendo residues para a siderurgia
transformar em carvdo, at6 que, em sen-
do o estupro inevitivel, relaxando-se e
aproveitando, comeqarem a surgir fornos
primitives as dezenas, centenas e milha-
res, sangrando a terra, sangrando o ho-
mem, revivendo da mis6ria. E, como co-
bertura requintada, o agroneg6cio, mais
intensive em capital, menos exposto a
caracterizaqao do crime, mais sofistica-
do. Embora nao menos letal.
Quem ja viu tudo isso, rev6 o novo
"isso" corn enfado, desalento, indigna-
gqo e revolta. Todos passario, exceto a
floresta, que ficard, insepulta, na forma
de cinzas ligeiramente nutrients, car-
v6es, tabuas e outros traqos degenera-
dos de sua existencia exuberante e pro-
missora. Enquanto o govemo e o coloni-
zador nao conhecerem a Amaz6nia e a
respeitarem, e, quem sabe, a amarem,
passarao por ela como furac6es de mo-
tosserras e aceiros, de homes armados
e justiceiros velozes. Nao ficard o que 6
perene e consistent, como campi de
centros de graduacqo e p6s-graduaqao
no meio da mata, cor gente jovem e
competent que aprenda fazendo, olha-
da por verdadeiros mestres, com infra-
estrutura e apoio financeiro, sob a pro-
teqao devida, fazendo manejo florestal
de verdade, com o melhor da mais avan-
qada ciencia, a demonstrar que floresta
se utiliza sem devastar e que assim se
ganha muito mais dinheiro.
Daqui a 25 anos, se ainda houver flo-
resta, as palavras se torarao prof6ticas
sem querer. Mas nao s6 prof6ticas: irao
adquirir o significado amargo de epitAfio.
Pela mata que desapareceu e pela nossa
inteligencia, que nunca deu o ar da sua
graqa na nossa terra devastada. Que nao
serd mais nossa nem nada. Nonada


Journal Pessoal *2 QUINZENA MARCO DE 2008








Universidade e sociedade


E de admirar o potential human da
Universidade Federal do Pard e sua bai-
xa significaqao para a populaqao do Es-
tado no qual funciona. A UFPA 6 a se-
gunda maior do pais em nimero de alu-
nos. Seu quadro docente exibe uma ex-
pressiva quantidade de mestres e douto-
res, com qualificaqdo feita em centros
de formaqao de conceito no pais e fora
dele. Ha crescente atividade de pesqui-
sa dentro do campus. Os cursos de gra-
duaqao e p6s-graduaqao se multiplicam
e se aprimoram. Mas o que sai do mun-
do academico para a vida social e pe-
queno e, na maioria das vezes, em des-
compasso cor as necessidades da po-
pulacao. Sai defasado no tempo e deslo-
cado no espaqo.
Penso numa maneira de estreitar e
intensificar o didlogo entire a UFPA, a
maior instituiqao do ensino superior na
Amaz6nia, e a comunidade (sob o foco
da realidade): a criaqdo de um plantao
do conhecimento. Diariamente, um gru-
po de professors e pesquisadores da
universidade se revezaria num plantao
para tender as demands da socieda-
de e, ao mesmo tempo, tomar a iniciati-
va de propor-lhe quest6es de vanguar-
da. Essa equipe ficaria numa sala com
computadores e telefones de acesso
gratuito aos interessados para tender
consultas. Ao mesmo tempo, a asses-
soria de comunicaqao da UFPA esta-
beleceria ligagqo cor a imprensa, ofe-
recendo-lhe esse serviqo de informaqao,
intermediando as relaq6es entire os do-
centes e os jornalistas.
Cada plantlo seria definido pela es-
pecializaqao dos seus integrantes. Num
dia, por exemplo, estariam disponiveis
professors e pesquisadores de ciencia
political. No outro, de biologia. Mas ha-
veria tamb6m plant6es multidisciplina-
res. O atendimento podia ser individual
ou coletivo, atrav6s de teleconferenci-
as, que seriam montadas conforme as
circunstdncias. Um acidente, como o va-
zamento de caulim em Barcarena, le-


varia a organizaqao de um plantio te-
mitico A esclarecer e problematizar em
cima desse fato.
Seria uma esp6cie de "gabinete da
crise" (produto que nao falta no merca-
do amaz6nico), com o objetivo de con-
frontar o conhecimento organizado e sis-
tematizado de uma universidade com a
dinamica da realidade de uma regiao
carente de informaqoes, como a Ama-
z6nia. Periodicamente a opiniao p6blica
se senate desorientada diante de aconte-
cimentos que a surpreendem ou que nao
consegue entender. Outro exemplo: no
dia em que a Companhia Vale do Rio
Doce anunciou a instalaqao da primeira
sider6rgica de grande porte no Pard, o
plantao seria multidisciplinar (engenhei-
ros, soci6logos, economists, ge6logos)
para analisar o significado desse fato.
As sessbes do plantao, que podia du-
rar quatro horas diariamente, seriam gra-
vadas e transcritas, formando um ban-
co de dados, plenamente acessivel atra-
v6s de um site especifico cor esse fim
na internet. A universidade proporia a
TV Cultura e A TV Unama que retrans-
mitissem um sumdrio dos encontros dos
professors com seus interlocutores, cu-


Blogs
Para alguns tipos de leitores, os blogs na internet constituem leitura complemen-
tar. Para outros, 6 alterativa mesmo. Entre estes, se incluem os leitores paraenses.
f a limitaqao da imprensa conventional a principal causa do sucesso dos blogs, que
abrem espaqo livre para seus leitores e divulgam informacqes vedadas na grande
midia. Qual seria a resposta adequada dos jornais? Melhorar a qualidade dos seus
textos, nao s6 ortograficamente, mas e, sobretudo em informaq6es. O Liberal
preferiu vestir a carapuqa e criou uma pdgina dedicada A blogsfera. Presta um ser-
vico aos seus leitores, 6 claro, embora cuide de selecionar blogs cor menor interfe-
rencia local. Mas deserve a si, ao revelar um tanto de sua inocuidade ou inutilida-
de. Sugere, mesmo sem querer, que o melhor a fazer 6 ler os blogs, nio o journal.


jas visits seriam previamente acerta-
das, seguindo uma agenda temitica. Os
participants do plantdo receberiam uma
gratificaqao por sua atuaqao, que ren-
deria ainda cr6ditos em curriculo. Fun-
cionaria tamb6m como uma avaliaqao
do corpo docente da universidade, afe-
rindo a capacidade de cada professional
de responder aos desafios na sua drea
do conhecimento.
Espero que valha a pena pensar na
sugestao. Assim, a universidade mostra-
ria o seu valor e conquistaria o respeito
dos cidaddos, que sao os responsaveis
por sua manutenqao. A regiao, penhora-
da, agradeceria por poder ajustar a sua
agenda didria ao ritmo da hist6ria. Numa
regiao colonial, o descompasso entire os
acontecimentos cotidianos e sua compre-
ensao 6 a principal causa da condiqao
colonial, que 6justamente a nossa. Mas
nao esta escrito nas estrelas que neces-
sariamente seja assim. Os astr6nomos
da UFPA poderiam mostrar que nao 6
assim, dispondo-se, como lhes prop6e
estaid6ia, a enfrentar os desafios de uma
dinamica refratiria A rigidez esquemiti-
ca do conhecimento universitirio isola-
do nas torres de marfim do campus.



Novo livro
Atra\es de COinnra o Podii 211 -l,,
de' Jo17 tal Pt ,\ll lll I\ 1 l\it l(I ll-
:.iiicl(l Ie nt ontar cdpitulos dj Illso-
nj recent do Par, que j.amaj.s terira
sido regisirados we njo e\ist~is eqe
jonal. E nmostro conmo JPconleguiu
reconstituir esses ts f c ac aliia o 0Ccu
significado no niesno
nmomento em que eles ...
aconteciam. () Ii. ro e
composto de trecho,
de materis aquui publi- --'
cjddas e de um meu- -
te\lo no%\o. que co-
mentu. siltu e elucidi "-":""
ocltidianode um ior-
nlismo e\rdadeira-
mente independent. que cumpie suj
miss.-o mais nobre: ser uma Juditanem
do powder. Espero que OI. letnores Ull-
dem a diundires as 1historia cnompran-
do o li\ ro. que est j \ enda inas banci
e emnalgumas li raris




Editor: Lkcio Flavio Pinto
EaOF o de Arte. L. a de Fana Pnl.: *Conlato Rua A.isliiu e
LOWF: 71a I 66 riOm
Fones: 1091i 2'I 76'6. E-m3l. w tr. r-,rl .' m ,.'




Full Text
xml version 1.0 encoding UTF-8
REPORT xmlns http:www.fcla.edudlsmddaitss xmlns:xsi http:www.w3.org2001XMLSchema-instance xsi:schemaLocation http:www.fcla.edudlsmddaitssdaitssReport.xsd
INGEST IEID E8EN3S8BO_9S7XJ4 INGEST_TIME 2012-03-26T15:40:54Z PACKAGE AA00005008_00319
AGREEMENT_INFO ACCOUNT UF PROJECT UFDC
FILES