Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00316


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Full Text


JANEIRO N" 409
DE 2008 ANO XXI

QNZNA Tornal Pessoal iI


IMPRENSA


0 novo Liberal

Algum tempo atrds, ninguem podia sequer pensar nestefato: 0 Liberal nio ser
mais o lider dos jornais. 0 Diario do Para, autor do feito, porem, ameaca repetir
os males para os quais devia ser a alternative. Hd um novo didrio official na
praga, em busca de seus interesses e dofaturamento. Como antes.


N ingudm mais p6e em d6ivida
que o Didrio do Pard, do
deputado federal Jader Bar-
balho, deslocou O Liberal,
dos Maiorana, de uma lideranqa na qual a
publicaqdo se manteve durante tres d6ca-
das, em vdrios moments superando os 90%
de indice de leitura. Nem mesmo O Libe-
ral question essa nova e surpreendente
situagdo. Ao contrArio: a empresa vem re-
cuando de posiqdo, exposta a ficar num lu-
gar cada vez mais distanciado do concor-
rente, algo inimaginivel pouco tempo atrds.


A derrocada, que ji era comentada
nos bastidores, se tornou explicit quan-
do O Liberal se desfiliou as pressas do
IVC (Instituto Verificador de Circula-
qao), em 2006, para nao ser flagrado
mais uma vez fraudando os ndmeros da
sua tiragem, em queda vertical. Em se-
guida ojornal sofreu mais duas derrotas
nesse front: foi obrigado pelo Conar, o
conselho responsivel pela auto-regula-
mentaqao da propaganda no Brasil, a nao
usar mais o titulo de "o maiorjornal do
Norte e Nordeste do Brasil" (o que, a


rigor, nunca foi), e, agora, a tamb6m jo-
gar fora a marca que passou a usar quan-
do novamente pego na mentira: "o me-
lhor journal do Norte e Nordeste".
Outro golpe duro foi a perda da pu-
blicidade do maior anunciante privado do
Estado, o grupo Y, Yamada. A Yamada
se tornou a primeira empresa a reagir
As imposiqces de veiculaqao dos Maio-
rana, que continuavam a cobrar por uma
tabela de preqos sem respaldo merca-
dol6gico e a interferir na mfdia dos anun-
conrrjm A NA PAG 2


P $0 RIC E MA 6: POR Pk. 5


LEI AINDA E, POTOCA






CONTINUAAO DACAPA MMsmmMMMO -
ciantes para evitar a programaqao no
concorrente. A Companhia Vale do Rio
Doce, que 6 a maior empresa em atua-
ao no Pari, embora sediada fora do seu
territ6rio, tentou reagir e at6 ajuizou uma
aqao contra O Liberal, mas acabou re-
cuando e compondo com os Maiorana.
Os Yamada mantem a decisao de ex-
cluir os veiculos das OrganizaqSes Ro-
mulo Maiorana da sua propaganda, ex-
ceto em moments excepcionais (o Ci-
rio de Nazard e o Natal).
Nesse context, a constataqao da
realidade at6 dispensaria os ndmeros da
apuraSgo t6cnica. Na segunda-feira,
qualquer observador verificara pilhas de
exemplares remanescentes da edidao
dominical de O Liberal a espera de re-
colhimento, que geralmente tarda. Nas
principals bancas da cidade, 6 comum
haver de tres a quatro pacotes, cor mais
de meio metro de altura, de encalhes do
domingo, quando a circulaqio dos jor-
nais dobra. Varios vendedores ji pedi-
ram a reduqao da tiragem, mas a em-
presa nao lhes di atengdo.
Esse 6 um mist6rio: por que O Libe-
ral se permit suportar encalhes de mais
de 60% da tiragem, jogando papel fora
ou o vendendo para reciclagem, a pre9o
que nem 6 de banana? Sera para nao
ter que admitir uma circulaqao paga equi-
valente a um tergo ou menos da que ti-
nha na 6poca de fastigio, quando era o
dnico journal do Pard e um dos dois
dnicos da Amaz6nia auditado pelo IVC,
sinal de forca e prestigio? E tamb6m para
nao admitir que a tend6ncia a queda 6
constant, quem sabe, irremediavel?
Ha, agora, um mist6rio ainda maior
do que esse: por que, mais de um ano
depois de ter-se filiado ao IVC, o Did-
rio do Pard nao divulgou um dnico re-
sultado de auditagem do institute, uma
das entidades de maior credibilidade no
pais? No dia 6 ojornal publicou mais uma
pesquisa do Ibope, realizada no mes an-
terior, confirmando a existencia e a ex-
pansao da sua lideranqa, que 6 incon-
teste. Fez ripida referencia ao IVC, mas
continuou silent sobre a aferiqao do ins-
tituto. O que estava em causa era a pes-
quisa do Ibope, mas ela sempre foi en-
carada com reserves pelo mercado de
jornais impresses. Nao por suspeita de
manipulaqao ou coisa que o valha: sim-
plesmente por ser inadequada aos fins
pretendidos.
O Ibope mede indice de leitura, en-
quanto o objetivo do IVC 6 a circulaqao
paga. Um journal pode ter um indice de
leitura descolado da quantidade de


exemplares realmente adquiridos pelo
leitor. Qualquer pesquisa sobre o Jor-
nal Pessoal, por exemplo, sera distorci-
da pela circunstancia de que ha uma
m6dia de leitores por exemplar muito
maior do que o indice de leitura padrao,
que 6 de tres leitores. Uma sondagem
empirica mostrou que o JP 6 lido, em
m6dia, por 10 e at6 15 leitores, porque e
de pequeno tamanho, permitindo c6pias
xerox, e por ser emprestado de mao em
mao graqas a sua periodicidade mais
demorada. Assim, pelo indice de leitura,
6 provavel que ele esteja competindo
cor o Amaz6nia Jornal, o fona dos
didrios em Bel6m.
O indice de leitura 6 levado em con-
sidera go, sem ser, no entanto, o fator
principal para a programadao de anin-
cios. O IVC e a Folha de S. Paulo tra-
varam feroz batalha, alguns anos atrds,
em torno da circulaqao efetivamente
paga do journal dos Frias, que conquista-
ra a lideranqa national, passando a frente
de O Estado de S. Paulo e 0 Globo.
O IVC queria excluir exemplares que
eram repassados ao piblico por preqo
que considerava inferior ao de custo,
al6m de outras divergencias t6cnicas,
nao endossadas pela Folha.

Sem conciliaao,
o journal se desfiliou
do institute, mas nao
abruptamente nem mudo,
como fez O Liberal, que saiu na v6spe-
ra da chegada de uma equipe do institu-
to incubiria de fazer a primeira audita-
gem de 2006, depois de constatar as
fraudes no exercicio anterior. O rompi-
mento entire a Folha e o IVC foi tao
danoso para o mercado publicitdrio bra-
sileiro que logo apareceram os interme-
didrios para promover a recomposiiao.
Nao houve essa iniciativa no caso de O
Liberal porque a said do journal dos
Maiorana foi uma fuga pela porta dos
funds da credibilidade.
0 Didrio do Pard nao conquistard
esse respeito enquanto nao se souber os
resultados de sua primeira auditagem.
Fontes do journal alegam que esses nd-
meros sao confidenciais, que s6 sao di-
vulgados se houver interesse e que ne-
nhum outro veiculo toma essa iniciativa.
Todos esses arguments e mais alguns
- sao falaciosos. A Folha de S. Paulo
divulga sua tiragem todos os dias, na pri-
meira pdgina. O Estado de S. Paulo nao
faz o mesmo porque perde diariamente
para o concorrente, mas aos domingos,
quando sua circulagao cresce e hd cer-
ta eqitidade, li estd a tiragem, tamb6m


na capa. Os nimeros constam de bole-
tins especializados, que podem ser aces-
sados, embora cor alguma dificuldade.
Mas todos os filiados ao institute rece-
bem seus resultados. A fraude de O Li-
beral s6 se tornou pdblica porque uma
das empresas filiadas ao IVC vazou seu
relat6rio. O maior suspeito pela inconfi-
d&ncia foi A Tarde, de Salvador, cujos
dirigentes se cansaram de ver a propa-
ganda anunciando O Liberal como o
maior journal do Norte e Nordeste, pri-
mazia do diirio baiano.
Sera que nao hai nmeros do IVC
sobre a circulagao paga do Didrio do
Pard porque o institute nao concluiu sua
primeira auditagem do journal do deputa-
do federal Jader Barbalho? E nao a con-
cluiu porque a empresa ainda nao se
ajustou as suas exig6ncias? Serai que
concluiu e o Didrio nao divulga os re-
sultados porque eles nao sao tao favo
raveis quanto supunha? Serai que hi
grande contrast entire o indice de leitu
ra e a vendagem real, deixando h mos
tra manipuladao na comercializaqao,
atrav6s de gratuidades, cortesias, pre-
qos rebaixados, excesses na bonificaqao
de andncios e outros fatores?
Como ha muitas dividas, ha muitas
especulacoes tamb6m. A forma mais
cabal de elimind-las 6 a divulgadao dos
nimeros do IVC, que o Ibope nao ter
como suprir, ainda mais porque a divul-
gaqgo feita pelo Didrio das sondagens
do mais antigo institute de pesquisa de
opinion 6 tao canhestra (ou mais) do que
as de O Liberal.
A apar8ncia de repetiqao de proce-
dimentos 6 reforqada pela posicao edi-
torial do novo lider. Ao inv6s de investor
no conteddo editorial, o Didrio decide
aplicar em miquinas e equipamentos, em
promonoes comerciais e na cada vez
mais estreita vinculagao ao maior de to-
dos os anunciantes: o governor. O journal
esti cada vez mais chapa branca, quase
aquele Diirio Oficial diifano que foi O
Liberal nos 12 anos de tucanato. Nao
ha mais mat6rias critics sobre a prefei-
tura de Bel6m e o governor do Estado.
Quando muito, pilidas referencias, noti-
cias escondidas.
O cidadao comum ja comeca a per-
ceber que fatos desfavoriveis aos dois
governor podem ocorrer a vontade que
nao aparecerao no Didrio, mesmo quan-
do seus rep6rteres tenham estado no lo-
cal para a cobertura. O estigma do co-
mercialismo, que destr6i o jornalismo,
comeqa a rondar a torre da avenida Al-
mirante Barroso, depois de ter devasta-
conTImNJA NA PAG 3


2 JANEIRO DE 2008 .2QQUINZENA Jornnl P~cssoall








Distancia c6smica


As redaqdes de O Liberal e do Ama-
zonia Jornal, os didrios da famflia Mai-
orana, sao contiguos no mesmo espago.
Mas parece que esta em mundos distin-
tos e at6 opostos. O Amazdnia noti-
ciou um fato grave, que representou
ameaca a um de seus jornalistas dentro
da redaqao. O Liberal, carro-chefe do
grupo, simplesmente o ignorou, como se
nao tivesse acontecido.
A redacqo do irmio mais novo foi
invadida pelo vereador Jdnior Rabelo,
tido como filho do prefeito de Breves,
Luiz Rabelo, tamb6m um dos maiores
armadores fluviais da regido, de familiar
que domina o Maraj6 e arredores. Acom-
panhado por dois homes fortes, um dos
quais armado, apresentados como "as-
sessores", mas aparentando serem se-
guranqas, tentou impor seu direito de
responder a uma mat6ria publicada na
ediqgo de 29 de dezembro dojornal, dois
dias depois do fato.
Ela informava sobre a prisao do ve-
reador e de um investigator da policia
civil, flagrados por integrantes da De-
legacia de Crimes Funcionais em ten-
tativa de extorsao contra um atraves-
sador de madeira (tamb6m analista de
sistemas), em Bel6m, no estacionamen-
to de uma loja de departamentos locali-
zada na avenida Doca de Souza de
Franco. O vereador pagou fianqa e foi


CONIINUAQAO DA PAB
do a credibilidade da folha situada no
quarteirao seguinte, nos funds do bos-
que Rodrigues Alves (hoje, horto flores-
tal). Daqui a pouco os profissionais da
casa comeqardo a ser hostilizados pelo
p6blico, como ocorreu quando a arrogan-
cia dos donos de O Liberal se tornou
desmedida, levando-os a decidir em lu-
gar de toda a comunidade, ignorando-a.
Essa auto-sufici8ncia fez os Maiora-
na perderem o senso das oportunidades
e das medidas, obcecados pelo fatura-
mento commercial. Usando o enorme po-
der de que desfrutaram (e agora j bas-
tante atenuado por sua fragilidade eco-
n6mico-financeira, com baixa liquidez),
impuseram as regras do jogo a todos
quantos queriam entrar na danca.
O resultado 6 que opinido piblica
passou a ser mercadoria, em transaqgo
de compra e venda no mercado restrito
das ORM. Uma posicao a favor se tor-


solto, depois de permanecer preso me-
nos de um dia no quartel do Corpo de
Bombeiros, em cela especial. O inves-
tigador continuou na penitencidria de
Americana, em cela comum, por nao
ter o dinheiro da fianqa nem quem se
dispusesse a pagd-la. O inqu6rito estd
em curso.


O texto que o vereador
apresentou na redagao
como direito de resposta
nao foi aceito pelo
representante do journal que o
atendeu porque, "ao inv6s de defende-
lo das acusaq6es, procurava atacar a
vitima da suposta extorsao, um analista
de sistemas que nao teve o nome divul-
gado". Nao era texto de defesa, mas de
acusa~io, o que autoriza legalmente a
recusa da publicaqco, poupando-se da
replica e da rixa. Irritado, o vereador se
exaltou e seu "assessor" armado, iden-
tificado como Nonato, comeqou a cir-
cular pela redaqao, numa attitude de inti-
midaq.o, registrada pelo circuit interno
de televisao dojornal.
Com as imagens, a ocorrencia foi
comunicada ao delegado-geral de Poli-
cia Civil, Justiniano Alves Junior, que
determinou a abertura de inqu6rito para
apurar a alegada tentative de intimida-



nava subitamente contra, se houvesse
pagamento, ou vice-versa, em nao ha-
vendo. Quem tivesse dinheiro para fa-
zer os lances se dava bern, mas o resul-
tado foi a desmobilizaqco da verdadeira
opiniao pdblica, o descr6dito geral, esse
clima de indiferenqa e cinismo que tanto
mal faz ao Pard, destituido de eco, de
vontade, de iniciativa. Corn opinito pu-
blicada e nao corn opiniao pfblica, que
virou visagem.
No caso do Didrio, a promiscuidade
6 agravada pelos projetos politicos do
dono, que planeja voltar ao epicentro do
poder, agora de forma mais calculada,
especializado em surdina e nos bastido-
res. Jader Barbalho tenta compor inte-
resses variados (e conflitantes, como os
de Duciomar Costa e Ana Jdlia Care-
pa), ao mesmo tempo em que induz a
prevalencia do seu interesse, num cam-
po de batalha que pode degenerar para


qao, sob a presidencia do delegado An-
t8nio Benone, tamb6m da Delegacia de
Crimes Funcionais (Dcrif), onde esti
sendo investigado o caso de extorsao do
qual o vereador 6 acusado.
0 Amazania ainda publicou una
nota que lhe foi enviada pela secreti-
ria de finanqas de Breves, Elizabeth
Maria da Silva Lima, esclarecendo que
uma informaqio publicada pelo journal
nio estava "a luz da verdade". Por isso,
o prefeito do municipio, Luiz Furtado
Rebelo, se sentia obrigado a solicitar
direito de resposta, "no sentido de es-
clarecer que o vereador citado na re-
portagem, nao se trata de seu dnico
filho, Luiz Furtado Rebelo Filho". Pe-
dido feito civilizadamente.
Nada disso apareceu em O Liberal,
como se o 6rgdo mais influence da cor-
poraq~o n.o se sentisse obrigado a noti-
ciar um fato relevant e menos ainda a
garantir a integridade dos seus rep6rte-
res. Integridade cada vez mais ameaqa-
da nas ruas, como atestou a morte re-
cente de dois integrantes da TV Liberal,
durante viagem no desempenho de suas
tarefas. O trigico acontecimento fez a
direqgo da empresa cancelar as festas
de fim de ano. Mas nio a criar seguro
de vida para seus funciondrios, que
exercem funqio de alto risco, semco-
bertura de seus patroes.



uma eleiqio violent, por falta de con-
teddo ou por excess de culpabilidade
(deixou de haver inocentes na arena).
Numa eleiqio em que mocinho dificil-
mente entrard, o grande problema 6 sa-
ber quem 6 menos ruim, ou menos noci-
vo, ou, quem sabe, um tantinho melhor.
A imprensa desempenharia um pa-
pel vital na pedagogia e na profilaxia
political, desde que tivesse algum grau
de distanciamento, de independ6ncia, de
capacidade de avaliaqio. Mas ela esta
em campo para faturar e para servir aos
interesses dos donos, mais do qualquer
outra coisa. Sua gangorra funciona, mas
o poder que sobe equivale ao poder que
desce. O Didrio do Pard, que realizou
a incrivel facanha de destronar O Libe-
ral, fonte da maior parte do discriciona-
rismo que se espraiou pelo Estado, ame-
aca repetir o mal.
Pobre Pard.


Jornal Pessoal *2 QUINZENA JANEIRO DE 2008








E se a desembargadora


for mesmo insana?


Diz a sabedoria popular que s6 6 doi-
do aquele que rasga dinheiro. Por esse
crit6rio, a desembargadora aposentada
Ana Tereza Sereni Murrieta 6 plenamen-
te sa: ao inv6s de rasgar dinheiro, ela o
colocou na pr6pria conta. S6 que esse
dinheiro era de terceiros e estava depo-
sitado, na forma de cadernetas de pou-
panqa, em agencia do Banco do Estado
do Para, por conta de processes que tra-
mitavam perante a 1a vara civel de Be-
16m, com exigencia de que o valor da
causa fosse depositado. Como titular
dessa vara, Murrieta sacou quase 1,4
milhdo de reais dessas contas, entire ou-
tubro de 1995 e maio de 2002. O valor
nao inclui os juros, a correcgo moneti-
ria e o recolhimento da extinta CPMF,
que reajustariam a soma para R$ 3 mi-
lh6es. Em 2002 ajuiza foi promovida ao
desembargo, por merecimento. E apo-
sentada rapidamente, quando o escan-
dalo estourou, logo depois, a partir de de-
ndncia do Minist6rio Pdblico do Estado.
Aposentada com vencimento integral, de
mais de R$ 20 mil.
Sua defesa requereu que a desem-
bargadora aposentada fosse submetida
a pericia sobre sua sanidade mental. Mas
impugnou o primeiro laudo, conseguindo
anuli-lo. Alegou vicios formais. Devera
repetir a dose em relaq~o a
segunda avaliacqo, realizada na
semana passada, pelo Centro
de Perfcias Cientificas Renato
Chaves. Novamente argtiira
irregularidades de forma. O
objetivo do advogado Osvaldo
Serrao, evidentemente, 6 im-
pedir o exame de m6rito na
agdo instaurada contra sua cli-
ente. Nao hf como negar que
ela sacou ilegalmente das con-
tas usando sua condiqdo de
guardian dos dep6sitos judiciais.
Esse crime 6 gravissimo,
mas nao parece singular. Ha
suspeitas de outros exemplos
no f6rum de Bel6m. Existe
tamb6m outra prntica constan-
te, a da adulteraqgo das datas
de despachos e senten9as nos
autos, ou na correspondencia
administrative do judiciario.
Um exemplo em apuragqo sur-
giu no caso da menor presa e
violada em Abaetetuba. Se


caracterizados os delitos, o tribunal tera
que adotar as medidas cabiveis para ini-
bir esse tipo de cometimento. Daf, no
process contra a desembargadora Mur-
rieta, as medidas protelat6rias da defe-
sa para evitar a sentenqa. O objetivo
seria de que a prescriq.o antecipe o fi-
nal da instrucgo, sem chegar B substan-
cia dos fatos.
Esse objetivo foi facilitado por um
erro cometido pelo ex-presidente do TJE,
desembargador Milton Nobre. Na sofre-
guidao de apresentar um resultado para
o process e impedir o prolongamento
da causa, pela seguida declaradgo de
suspeiqCo de tries juizes, que estavam
sendo sorteados para receber os autos,
ele designou logo um juiz especial. To-
mou essa decisdo antes que o principio
da celeridade processual pudesse ser
sustentado em oposigdo a outro princi-
pio, o do juiz natural (definido por sor-
teio), que deve prevalecer.
O advogado da magistrada recorreu
e ganhou. O process, que ja estava em
plena instrugao, voltou ao inicio. A de-
mora prejudicou o desfecho do caso,
que, em m6rito, esta definido, e favore-
ceu a postergaqco e, por conseqtien-
cia, a prescricao. Mas ela s6 sera al-
canqada ao fim de 14 anos e comegou


a contar no ano passado, ressalva o
Minist6rio Piblico.
Al6m da prescrigqo, entretanto, ha
tamb6m o risco da nulidade do proces-
so. O pedido de suspeigqo do juiz que
decretou a prisio da desembargadora,
ao inv6s de seguir para o desembarga-
dor que concede o habeas corpus, ao
qual estaria prevent, foi para sorteio.
O problema 6 que todos os magistrados,
exceto o ex-presidente Milton Nobre, jA
juraram suspeicqo no caso. Qual a saf-
da para o process?
Nada ha que sugira a insanidade da
desembargadora. Durante os sete anos
em que retirou dinheiro dos dep6sitos
judiciais, ela exerceu normalmente sua
funqdo jurisdicional (se cor acerto ou
nao, 6 outra questao, que nio interessa
ao caso). Numa remota hip6tese de com-
provaqao de sua insanidade mental para
efeito dos saques bancirios, os prejudi-
cados por suas decis6es poderiam pedir
a anulaqio dos seus processes. Se ela
nao estava si para administrar os dep6-
sitosjudiciais, tamb6m nto tinha capaci-
dade legal sobre os processes.
O tumulto decorrente dessa situaaio
seria terrivel. Nio apenas sobre a clien-
tela dajustiqa: colocaria em causa o pr6-
prio poder de tutela dojudicidrio. Como
6 que seus administradores nao
perceberam que aquela magis-
trada era insana? Para que ser-
ve o mecanismo correctional de
que o poder dispbe?
Seriam perguntas embara-
Fosas, na imaginiria hip6tese
de um laudo positive sobre as
faculdades mentais da desem-
bargadora aposentada. Tudo
pode nao passar de fantasia,
proporcionada pelo amplo direi-
to de defesa que cabe aos acu-
sados em geral, mas a situacio
podia ser tomada em conta pela
justiqa paraense para um exa-
me de consciEncia e uma re-
flex~o critical sobre seu pr6prio
funcionamento. Ha mais coisas
entire a sanidade e a insanida-
de eventual dos seus integran-
tes que pode especular a va
opiniio pliblica. Mas ela aca-
bard por perceber. A maneira
de Franz Kafka, de que esse
vacuo nao 6 vazio.


JANE/PC CE 2008 .2 QU/NZENA Jornal Pes~oa I


*2QUINZENA Jornal Pesso-l


I I


JANEIRO DE 2008








Para: campeao de problems


O Pard 6 o Estado que, proporcio-
,nalmente, tem mais homes do que mu-
Iheres no pais: 7,3% e nao 3% como
saiu na edi9io anterior. O segundo lu-
gar 6 de Mato Grosso, com 5,4%. Vem
a seguir: Tocantins (4%), Rondonia
(3,4%), Roraima (3,3%), Amazonas
(1,7%) e Acre (1,6%). Todos, portan-
to, Estados que integram a Amazonia
Legal. Todos caracterizados como
frentes de expansao, fronteiras de um
pais que avanqa cor celeridade e pou-
ca sensatez.
Ha quase 500 mil homes a mais do
que mulheres no Pard. A estatistica pode
provocar brincadeira, mas 6, antes de
tudo, o quantitative de uma trag6dia. Sao
cidadios que abandonam sua terra na-
tal, onde deixam as families, para aven-
turar uma situaqdo melhor no lugar que
lhes 6 apresentado como um Eden, ou
pelo menos um campo aberto a novas
possibilidades, que se acham interdita-
das na origem. HA muita coisa aconte-
cendo no interior do Pari, quase sempre
grandiosa. Imagina-se que esses "gran-
des projetos" abram possibilidades para
todos. Nio por acaso o Pard 6 o tercei-
ro principal destino migrat6rio do pais.
Sem families ou sem mulheres, es-
ses imigrantes enfrentam uma sdrie de
problems e criam outra s6rie deles para
quem jA esta no local. A tensdo e o con-
flito sdo inevitiveis. A Canad amazoni-
ca 6, ao mesmo tempo, uma miragem e
uma realidade. Ela nao conseguird ab-
sorver grande parte da mro-de-obra que
atrai nem tera recursos ou disponibilida-


Ciencia Hoje, a primeira revista de
divulgacio cientifica do Brasil, comple-
tou 25 anos na sua iltima ediqao, a 244,
de dezembro. E uma faqanha. No seu
percurso, conseguiu manter em alto ni-
vel os textos que publicou, sem conce-
der ao facilitario da grande imprensa nem
ceder ao patoa do qual muitos cientistas
costumam se utilizar para falar entire
seus pares e esnobar o distinto p6blico.
Esse tom equilibrado e 6nico foi a gran-
de contribuiqdo de Ennio Candotti, o pre-
sidente da entidade mantenedora da re-
vista, a SBPC (Sociedade Brasileira para
o Progresso da Ciencia), que encerrou
seu mandate no ano passado, realizando
a 59" reunido annual em Bel6m.


de para ajudar a acomodar a gente
que exclui. Do lado de fora da sua
porteira, o que se costume
chamar de mercado 6 uma
selva humana. Nela proli-
feram virus agressivos:
prostituic5o (inclusive infan-
til), subemprego (tamb6m o in-
fantil), criminalidade, banditismo,
colapso dos services piblicos,
caos. Algumas empresas ja
nio tentam se isolar em
quistos, mas seus esforcos
para combater os anticorpos
dos seus empreendimentos sao cos-
m6ticos. Apenas arranham um teci-
do engrossado pelo atrito social.
Ja estd claro que o Pard avanqard
pouco, se avanqar, diante desse desgas-
te human profundo. O Estado foi im-
pedido de partilhar a riqueza dos gran-
des projetos, sobretudo dos que sao be-
neficiados involuntariamente pela valo-
rizaqdo dos precos internacionais das
commodities que produzem e exportam,
desoneradas do principal imposto, o
ICMS. Mas tem que tender a deman-
da criada por suas mazelas. O deficit,
al6m de not6rio, 6 crescente, apesar de
os municipios sob a influencia da maior
de todas as grandes, a Companhia Vale
do Rio Doce, apresentarem indices eco-
n6micos e sociais superiores aos dos de-
mais municipios.
As compensaq6es nao compensam
verdadeiramente o dano. Sao, quando
muito, paliativos; e os indicadores positi-
vos nio oferecem ainda (poderdo ofe-



A REVISTA DA CIENCIA

Conheci Ennio exatamente um quar-
to de s6culo atris, quando ele chegou a
Bel6m esbaforido de energia, sua carac-
teristica at6 hoje, para editar um numero
especial da nascente revista dedicado a
Amazonia. A id6ia da Cidncia Hoje sur-
giu exatamente naquele ano de 1982, du-
rante a 34a reuniao annual da SBPC, em
Campinas. Houve um debate memoravel
sobre o Grande Carajis, cor a participa-
Fio do secretirio-executivo do conselho
interministerial do program, Nestor Jost.
Num dos moments da discussio, lem-
brei uma frase infeliz sobre a floresta
amazonica, declarada senil. Respondi que
a dnica utilidade da tese era de permitir
rima rica na resposta. At6 o doutor Jost


recer algum dia?) garantia de sustenta-
qCo. Logo, 6 necessario criar fontes no-
vas de recursos para se antecipar aos
males e tentar equalizar a balanca que
pesa os ingressos da atividade produtiva
e a que suporta o seu onus social. Do
contrrio, o Pard vai explodir. Ja esti sob
esse risco.
E o que indica a ameaca de uma epi-
demia de febre amarela silvestre e da
volta da febre amarela urbana, mais de
meio s6culo depois de erradicada, num
cenario que comeqa a se tornar recepti-
vo a essa trag6dia (cor o mosquito trans-
missor ajudando a grassar a dengue,
agora hemorrigica, e a espera de nova
infecqao). A propaganda, nesse caso,
apenas ajudard a manter a ilusao, mas
sua duraqdo nao serd prolongada.


riu. Ele nao era destituido de senso de
humor, ao contrario dos seus pares.
Acho que em fungdo dessa partici-
pacao, Ennio me reservou espaco na
ediqio, que saiu excelente, servindo de
modelo para o tipo de abordagem que
Ciencia Hoje procura ter at6 hoje, nem
sempre com a m6dia de sucessos que
Ennio Ihe proporcionou, o que nao 6 de
estranhar: ele 6 uma pessoa excepcio-
nal, um autintico brainstorming indivi-
dual, uma central de id6ias, de atos e de
solidariedade. Um amigo raro e valioso,
que conv6m lembrar, especialmente por
conta do aniversirio de uma das muitas
criaturas que ele ter espalhado pelo pais,
tornando-o um pouco melhor.


Jornal Pessoal *2" QUINZENA JANEIRO DE 2008 5







PAPEIS DA HISTORIC


A viol ncia do poder contra a imprensa


aTo Pard os atentados a impren-
sa sdo uma constant. Muitos
I e graves foram praticados
no periodo republican, que devia
aboli-los (a monarquia foi mais tole-
rante). Em alguns, a violencia chegou
a more, como no caso de Paulo Eleu-
terio Filho, assasinado a tiros, na ofi-
cina de 0 Liberal, pelo capitdo (de-
pois coronel) Humberto Chaves, que
fora cobrar satisfac5es sobre artigo
escrito por Jodo Malato, mas se de-
sentendera corn Eleuterio, desafeto
antigo. Paulo Maranhdo teve que se
homiziar durante sete anos, com toda
sua familiar, nos altos da antiga sede
da Folha do Norte, durante o apo-
geu no poder do intendente e sena-
dor Ant6nio Lemos, a quem comba-
teu comn ftria tambem. Quatro deca-
das depois, em 1950, Paulo Mara-
nhdo, exatamente no dia em que com-
pletava 84 anos de idade (ainda per-
duraria ativo por mais 10 anos), vi-
veu um epis6dio ins6lito: ao chegar
a sua casa, as 10 e meia da noite,
recebeu um banho de fezes, despe-
jado por algudm que o espreitava
desde cedo para atacd-lo, as proxi-
midades de sua resid8ncia, no Largo
de Nazard (onde se encontra atual-
mente a Clinica dos Acidentados).
Era 11 de abril, jd em plena cam-
panha eleitoral, quando todas as for-
qas political se coligariam para en-
frentar (e vencer) o poderoso PSD
(Partido Social Democrdtico) de Ma-
galhdes Barata, que estabeleceu sua
oligarquia no Pard a partir de 1930,
na onda positive de mudanCas cria-
da pela revolugdo da classes media
(tendo os "tenentes" cono porta-ban-
deiras, dentre os quais o pr6prio Ba-
rata). 0 ambiente era de paix6es e pa-
roxismos. A Folha do Norte, o princi-
pal reduto do anti-baratismo, preci-
sava ser golpeada, de preferencia de
uma forma humilhante, vexatdria.
Paulo Maranhdo atribuiu o piano de
cobri-lo de fezes ao secretdrio-geral
do governor, Armando Correa (que
passaria a ser tratado na Folha por
Armando Trampa, termo chulo e ar-
caico para merda). 0 historiador Car-
los Rocque, baseado em Miguel Sil-
va, o maior confidence de Barata, diz
que o verdadeiro autor do atentado
foi Lindolfo Mesquita, cortesdo dos
Maranhdo e colaborador da Folha,
muito premiado por Barata. Sua iden-
tidade foi mantida em sigilo ate que


Rocque, depois de ouvir Miguel Sil-
va duas decadas depois, fez a incon-
fid&ncia. Traicqes desse tipo ndo sdo
incomuns nessas histdrias.
Depois de se limpar das fezes com
dlcool (o fornecimento de dgua para
o bairro fora cortado deliberadamen-
te),. Paulo Maranhdo ndo pretendia
revelar o fato constrangedor. Mas
como Armando Correa (grafado como
Correia no artigo e assim mantido por
mim) instaurara imediatamente um
inquerito policial, decidiu fazer a re-
velaqdo, d sua maneira. Nao no prin-
cipal journal da casa, mas na Folha
Vespertina, como que para manter
certa ressalva da sujeira. Embora de-
clarando que o ato fitido ndo o de-
sonrava, o velho jornalista estava re-
almente constrangido. Sua reacdo foi
menos feroz do que o imagindvel por
seu padrdo de conduta em situagoes
andlogas, embora ndo tdo ins6litas.
Seu estilo era dcido e cortante, mas,
como nos melhores moments, reple-
to de imagens e de ironia, no estilo
castiCo e cldssico que o consagrou.
Republic o artigo no moment em
que outro atentado, o que sofri, no dia
21 de janeiro de 2005, complete tres
anos. Meu agressor, Ronaldo Maiora-
na, director corporativo do grupo Li-
beral e ainda coordenador da comis-
sdo pela liberdade de imprensa da OAB
do Pard, que manteve sua posicqo de
encolhimento diante do epis6dio, tent
alguma relagdo corn os baratistas que
atacaram Paulo Maranhdo: e filho de
uma sobrinha do maior caudilho do
Para e primeiro dirigente do journal,
que foi de Barata.
Eu jd experimentara o fel dessa
corrente political em 1991, quando o
ex-governador Hilio Gueiros, o prin-
cipal redator de 0 Liberal no period
de 20 anos em que o journal foi o 6r-
gdo official do PSD, me mandou uma
carta pornogrdfica para tentar me
intimidar Ele estava certo de que, re-
cebendo a porcaria, eu me calaria.
Pensou tdo errado quanto Armando
Correa, quatro decadas antes.
Essa e uma formula constant, a
que o poder recorre para combater
jornalistas independents e defender
seus interesses, sufocando a verdade
e impondo a sua versdo. Deve-se con-
tinuar a denuncid-la para que a vio-
lencia ndo se estabelega e a impren-
sa livre possa, um dia, ou por algum
dia, prosperar Para o bern de todos e


felicidade geral da naqdo e ndo
para a satisfagdo apenas dos pode-
rosos eventuais.

O sr. Armando Correia fez ontem
pela ridio, corn ritmo pendular,
que mandara abrir rigoroso in-
qu6rito sobre um banho de trampa que,
em noite de 11, fizeram aplicar no dire-
tor das FOLHAS, sendo a mat6ria ex-
traida de suas pr6prias entranhas pelos
sodomitas oficiais.
Ja que o poder pdblico do Estado faz
questio de que se conheqam os seus
processes de represilias contra os jor-
nalistas que o combatem, vamos narrar
o fato como na realidade se passou.
O Sr. Armando Correia resolvera
brindar, por essa forma, o director das
FOLHAS, que naquele dia fazia anos.
Desde as 19,30 horas, o subdelegado
de Policia, por apelido Lamarao, em com-
panhia de um investigator, estacionava no
cliper da praqa Justo Chermont, em posi-
cqo de espionagem a resid6ncia do nosso
companheiro. Um amigo deste, que tam-
b6m se encontrava no mesmo local, ob-
servando a insistencia corn que o referido
individuo ali permanecia, tendo como alvo
constant de curiosidade o ponto indicado,
procurou-o para Ihe comunicar o que ocor-
ria e aconselhi-lo que nio saisse.
O director das FOLHAS, que se en-
contrava A porta da rua, agradeceu o ca-
rinhoso interesse, mas comoji esti numa
idade que se Ihe torna indiferente viver
ou morrer, pois que ha muitos anos trans-
p6s o limited normal da existencia huma-
na, e Deus nio Ihe assegurou, quando lha
concede, que esta seria eterna, foi onde
tinha que ir e As 22,30 voltou. Ainda esta-
va plantada, no "super-cliper-Brasil", a fi-
gura policial de Lamarao. A vitima que ia
ser das artes laboriosas do Sr. Armando
Correia, tirou do bolso a chave da porta
de sua resid6ncia e como enxerga pouco,
procurava introduzi-la na fechadura,
quando, ex-abrupto, recebeu um jato f6-
tido do liquido em que o mesmo Armando
se extravasara. O an6nimo encarregado
da facanha praticara-a de tal maneira ata-
rantado um pobre diabo em mangas de
camisa, como em mangas de camisa
anda o poder piblico que tratou de se
distanciar, As carreiras, do palco de sua
africa, e embarafustou pelo terreno onde,
logo adiante, campeia a tavolagem de Joio
Baltazar. O nosso companheiro, pondo-
se de frente, gritou ao fugitive: "Volta,
bandido, para receberes o castigo que me-
reces!". LA do seu miradouro assistira a


6 JANEIRO DE 2008 .2 QUINZENA Jornal PessoAl








Sangue impresso


Quantos jornais brasileiros ainda tmrn
um caderno todo dedicado aos fatos poli-
ciais? Talvez ainda haja algum em cida-
des menores, mas nas metr6poles ape-
nas os jornais de Belnm mantem esse
pdssimo hfibito ou vicio editorial. Du-
rante algum tempo, s6 o Didrio do Pard
cultivou essa excrescencia, em format
tabl6ide. Talvez para compensar o tempo
perdido, O Liberal veio em seguida corn
o dobro de paginas e em format stan-
dard. Computados os dois jornais, sio 18
paginas em tamanho tabl6ide todos os
dias. E ha ainda as fornidas piginas poli-
ciais do Amaz6nia Jornal, tamb6m dos
Maioranas, mas de menor repercussio.
A cobertura policial 6 important, es-
sencial mesmo. Mas o espaco compuls6-
rio didrio acarreta os exageros, o sensa-
cionalismo e a mf-f6. De abuso em abu-
so, chega-se a um jornalismo de engu-
lhos. Tive nausea e asco no, dia 29 do
m6s passado, ao ver um cadaver ("pre-
sunto", na linguagem do setor) corn as
visceras expostos em uma foto aberta
numa das paginas de O Liberal. Algu6m
se permitiu o sadismo de puxar a camisa
do defunto para que seu venture ficasse a
mostra para o flagrante fotografico. Foi
a imagem mais chocante nessa escalada
de insensatez e desrespeito.
O espaqo ocupado pela foto chocan-
te podia ter sido usado com texto mais



tudo imperterritamente o sub-delegado
Lamario, que ali fora localizado por or-
dem do Chefe de Policia, o necessitado
Sr. Pereira Brasil, para defender o man-
datirio da porcalhada, em caso de revi-
de. Este, por6m, nio se deu. O director
das FOLHAS tinha nos bolsos apenas a
caneta corn que vergasta o lombo dos ba-
ratistas, e nada mais. Mas nio precisaria
de arma para se defender. A velhice ain-
da nio Ihe atrofiou os m6sculos.
Lamario deixou o ponto de mira
onde estivera, por mais de duas horas,
guardando a retirada do intermediirio de
Armando Correia, atravessou a rua e foi
confabular corn aquele na tavolagem de
Baltazar, aos funds do Teatro Nazare.
Paulo Maranhio os viu a ambos em
intimo col6quio, de uma das janelas in-
ternas de sua casa, e depois retirar-se
Lamario para ir dar contas, provavel-
mente ao Sr. Francisco Brasil, e este ao
Sr. Armando Correia, de como se reali-
zara a incumbencia.
Esclarecemos agora ao autor intelec-
tual do ato o que ele deve estar ardendo


extenso do que o registro desinteressa-
do da mat6ria. O crime ocorreu em Cas-
telo dos Sonhos, onde a populaqio diz
que ha uma morte a cada dia e dificil-
mente algu6m 6 preso (e muito menos
punido). Castelo dos Sonhos fica a mil
quil6metros da sede do municipio, Alta-
mira, que ocupa quase 15% da superfi-
cie do Pard, Estado que ter quase 15%
do tamanho do Brasil. Essa distincia in-
flui na selvageria do local?
Claro e ai estio, evidentes, alguns
dos maleficios da distorloo territorial do
Estado, que precisa ser diagnosticada e
corrigida e sera tema enfatico em 2008.
Mas a sede do municipio vizinho, Novo
Progresso, esti a apenas 155 quil6me-
tros. Novo Progresso foi desmembrado
em 1991 de outro super-municipio para-
ense, Itaituba, mas nem por isso faz jus
ao nome: a viol6ncia 6 quase igual, o pro-
gresso 6 quimdrico.
No ano passado, uma crianca de
nove anos degolou ali outra de cinco.
Como 6 que uma mente infantil p6de
conceber e executar um ato tio violen-
to? Nao foi por patologia individual: a
violencia esti na cara de todos, a luz do
dia, grassando como malaria. E os jor-
nais se incumbem de se tornar hospe-
deiros desse virus mortal. Nio se pejam
de abrir fotos de cadAveres cercados por
criancas alegres e saltitantes, cena co-



em brasa por saber. A sua trampa, con-
tra a qual os perfumes da Arabia nio
bastariam para desinfectar ninguem, s6
atingiu o chap6u e a manga esquerda do
casaco da vitima. Tudo o mais ficou li-
vre do arremesso da mat6ria, que 6 uma
das armas da pan6plia situacionista.
Quanto ao inqu6rito, obstrua com ele
o canal excret6rio de onde foi puxada a
podridio da sua vinganca.
Quem 6 que nio v6, na claridade
transl6cida do ambiente politico em que
respiramos, a mio do canalha que ma-
nipulou a facanha?
Tivemos constrangimento de noticii-
la. Ela nio nos desonra. Cada um da o
que ter, e o governor do nosso Estado
nio ter senio merda para dar. Foi ain-
da por amor a esta terra infeliz, tio en-
vilecida e desmoralizada no conceito
geral, que silenciamos em torno das fe-
zes do sr. Armando Correia.
Por que inqu6rito sobre um fato do
qual nio houve queixa a autoridade
nem divulgaqio pdblica? O governor
nio tinha, portanto, base para assu-


mum na periferia criminosamente aban-
donada de Bel6m. Aquela alegria apa-
rente na image estatica esconde um
dado finebre: a inocencia dos anos pri-
maveris j acabou. Depois, o fogo, como
diz o titulo biblico de um romance do
negro e homosexual James Baldwin
sobre esse tipo de viol6ncia nos Estados
Unidos. E aqui?
E possivel que qualquerjornal se veja
obrigado a abrir piginas para o noticid-
rio policial se o fato em coberturajustifi-
car. Mas nio a abrir espaqo desmesu-
rado sistematicamente, todos os dias.
Essa enfase nio pode ser apontada como
causa direta do crescimento do indice
de criminalidade, mas nio hi divida que
contribui para tanto lateralmente. Nio 6
pequena a quantidade de criminosos que
se deleita corn sua foto publicada, sua
image exibida na televisio, ou suas fa-
qanhas narradas pelas emissoras de ra-
dio (que estio se tornando um caso a
parte de policia).
A exibidio escancarada de mat6rias
policiais todos os dias tern uma conse-
qtiUncia certa: vulgariza e banaliza a vi-
olencia, anestesiando a consciencia e
amolecendo a vontade. O efeito 6 ime-
diato e local. Comeqa pelo pr6prio edi-
tor dessa mis6ria humana, que lida corn
ela destituido daquilo que 6 fundamen-
tal: a sensibilidade humana.



mir essa attitude. De outras ocorren-
cias, corn repercussio ampla, temos
sido, reiteradamente, vitimas, sem
nenhuma provid6ncia legal. A press
no inqu6rito denuncia a procedencia
do atentado. O que se objetivou foi
escandalizar. Ha, por6m, mais. Logo
no dia seguinte, pela manhi cedo, o
sr. Francisco Brasil foi a Faculdade
de Direito e narrou o fato a um dos
lentes que ali se encontravam., ho-
mem de grande circunspeccio, que de
nada sabia e nada lhe perguntara.
Ora, aquela e esta circunstancia e ain-
da a presenqa obstinada do sub-dele-
gado Lamario no local, deixam claro
a origem da ignominia.
No tempo do velho Lemos ha
quantos anos! davam-se banhos nos
adversaries, mas de piche. E o famoso
dominador rolou para o ostracismo sob
as pedradas e as vaias populares.
Salvou-o da morte Lauro Sodr6. E
os banhos eram de piche, repetimos.
Agora slo de merda. A vossa Rocha
Tarpeia estia vista, bandidos!


Jornal Pessoal *2 QUINZENA JANEIRO DE 2008 7







FIM DE JOURNAL
Em janeiro de 1973 a outrora
todo poderosa Folha do Nor-
te vivia seus estertores, sete
anos depois da morte do seu
condutor, Paulo Maranhio.
Seu successor natural, o filho,
Joao Maranhao, que durante
50 anos (completados em
1971) trabalhara como geren-
te dojornal, fora afastado por
uma manobra do irmao, C16-
vis Maranhio, que nao mo-
rava em Bel6m havia virios
anos. Mas Cl6vis conseguiu
a adesSio das irmas e assu-
miu o control dojornal, co-
locando na chefia da empre-
sa o marechal Augusto Ma-
gessi, que estivera no Par.


como comandante military da
Amaz6nia. Magessi trouxe
uma equipe do Jornal do
Brasil, do Rio de Janeiro, que
introduziu melhorias e equipa-
mentos na Folha, sem con-
seguir, no entanto, desvid-la
do fim. Apenas dourou a pi-
lula da morte.
Pressentindo-a, Joio Ma-
ranhao, pai do escritor Harol-
do Maranhao (que tinha tudo
para ser o melhor substitute
do av6 na redaqio, menos a
aprovaqao de Paulo Mara-
nhao, que o considerava es-
querdista demais), publicou
uma nota em A Provincia do
Pard de janeiro de 1973, ji
que nao dispunha mais de es-


FOTOGRAFIA

JK e Barata
Meio seculo atrds, o president Juscelino Kubitscheck
em rdpida visit a Belem, ao lado de Magalhdes
Barata, que estava no fim do seu primeiro exercicio
como governador eleito pelo voto direto dos
paraenses, depois de ter sido interventor e senador no
Estado. Ao lado, atentos, os jornalistas Moacir
Calandrini e Mdrio Couto, que tambdm jd se foram
para a histdria, deixando saudades. Todos eles, cada
um a sua maneira, como personagens marcantes nos
enredos de que participaram.


MEMORIAL DO


paCo no seu pr6priojornal, do
qual continuava s6cio-cotista.
Documento que e um signal
dos tempos e um alerta para
quem vive situacio idWntica.
Diz a nota:
A FOLHA DO NORTE
publicou, ontem, extensa e
confusa matdria editorial.
Nao obstante a algaravia
da mi redaqio, o leitor mais
distraido perceberdi que la se
poderao center grosserias e
infamantes referencias a
gestao que exerci na EM-
PRESA DE PUBLICIDA-
DE FOLHA DO NORTE
LTDA., embora nio fosse
meu nome enunciado senao
implicitamente, eis que hi
provivel menqao a minha
administracao de quase cin-
qtienta anos, terminada em
agosto de 1971, quando de-
leguei os poderes gerenciais
para que na Empresa se im-
plantassem modernos m6to-
dos de administration.
Para ressalva de minha
honra pessoal, tinico patrim6-
nio meu, de meus filhos e ne-


tos, ingressarei em juizo cor
a necessiria interpelacao ju-
dicial, para que o director da
FOLHA DO NORTE, sr. Au-
gusto Magessi Pereira. com-
pareqa perante a Justiga, em
dia e hora que Ihe serao apra-
zados, a fim de que respond.
afirmativa ou negativamente,
se aquelas alus6es se referem
a Joao Maranhao: e 6 claro
que, na primeira eventualida-
de, incontinenti, ajuizarei a
competent queixa-crime.
Porque nao permitirei que
se possa enxovalhar uma ges-
tao que manteve a FOLHA
DO NORTE em alto grau de
respeitabilidade e de honra-
dez, cor seu credito comer-
cial nunca posto em dtvida,
o que provarei, em juizo ou
fora dele, se necessario for.


QUINZENA Jornal Pessoal


JANEIRO DE 2008 ,2"!









COTIDIANO


SV i8ero, 0o2
LEGEND
-* C.D.P.




i.,#., .






'*'*..Vote em quem merece o sou vote
: VOTE

AD'RIANO GONCALVES
PARA DEPUTADO FEDERAL

(3a, i -. 3-20!

PROPAGANDA

Em campanha
Agora que estd para comegar mais uma campanha
eleitoral, convem fazer uma retrospective de outras
eleiqoes. Nesta peqa, jd cor um toque rudimentar de
marketing, Adriano Gonqalves, com o bigodinho da
modd, pede o voto para se eleger deputado federal pela
Coligaqdo Democrdtica Paraense, formada em 1950
para combater o baratismo, conseguindo venc-lo. Mas
sua unidade duraria pouco e Barata retornaria ao
poder A coligaado se transformou num arquipdlago de
liderancas, como a de Adriano.


FESTAS
Nao foi permitido o traje
branco na festa danqante de
fim de ano dos engenheiros
que se formaram em 1955. S6
quem estava a rigor podia val-
sar ao som do "conjunto de
boite" de Guiies de Barros,
no Palace Teatro (nos funds
do hotel Hilton). A festa dos
humanistas do Col6gio Mo-
derno no mesmo ano, apesar
de ser na Assembl6ia Para-
ense, era a passeio, tamb6m
ao som de Guides. No mes-
mo m6s, a Associaqgo Des-


portiva Recreativa Bancr6-
vea (dos funciondrios do atu-
al Banco da Amaz6nia), "o
clube das grandes realizaq6es
sociais", abrilhantava seu re-
veillon com Armando Sousa
Lima, "o rei do solovox" (tra-
zido diretamente "da televi-
sio e das noites paulistas"),
e mais o conjunto de "boite"
de Armando Lima e o jazz
da Radio Marajoara, sob a
diredio de Sil6zio Queiroz,
"corn os iltimos sucessos do
carnaval"


INTERESSE PUBLIC

Quem responded?
Hi pessoas do governor nas quais (ainda) confio e admiro.
Sdo s6rias, pensam no interesse piblico e querem acertar, ou
ao menos tinham esses prop6sitos quando entraram para a
administracao piblica. Por acreditar nesse remanescente de
espirito public, decidi retomar a seqio atrav6s da qual cobro
informaq6es ou o esclarecimento de d6vidas de representan-
tes do governor sobre assuntos de interesse de todos.
Eu podia procurar essas informao6es em contato direto
cor as fontes, mas a cobranqa piblica tem duplo prop6si-
to pedag6gico: lembrar os servidores p6blicos do seu de-
ver de prestar contas ao contribuinte e fazer os cidadaos
participarem de um didlogo em busca da elucidaqao dos
temas piblicos. Nem os servidores devem se sentir acu-
sados com o pedido de informaq6es, nem o comum dos
mortais devem temer cobrar o que 6 direito seu: saber o
que se passa no governor.
Um dos objetivos desta seq o 6 tornar mais informati-
vos os atos do governor publicados no DiArio Oficial, en-
quadrando-os nas exig6ncias normativas do Tribunal de
Contas do Estado (que nio parece se dar a esse trabalho e
nas demais exig6ncias legais). Uma das falhas comuns nos
extratos dos contratos 6 a falta do nome do responsivel
pela empresa privada contratada, como ocorreu com a
Casa Civil da Governadoria, ao contratar a MGM Arquite-
tura para reformar e adequar o t6rreo, subsolo e Diretoria
de Logistica, al6m de reformar e urbanizar o Palicio dos
Despachos (por R$ 340 mil), sem aparecer o nome do res-
ponsivel pela empresa.
Ja o que chama a atenqio nos conv6nios da Acio Social
Integrada do Palacio do Governo 6 o valor razoivel transfe-
rido para entidades desconhecidas executarem projetos que
nao sao auto-explicativos. A Aqio Cultural Bagaqo de Cana,
por exemplo, recebeu R$ 60 mil atrav6s de dois conv6nios
para fazer "arte e inclusao social" e "gestar talentss. Ao
Institute Marlene Mateus coube R$ 100 mil para o projeto
"geraqio de renda e cidadania". A mesma quantia foi trans-
ferida ao Instituto Florestal Araji para o projeto juntoss se-
remos fortes". Nada menos do que R$ 250 mil animaram o
"natal de brinquedos" da Organizaiao de Defesa dos Muni-
cfpios Paraenses; R$ 150 mil mantiveram o "sonhar acor-
dado" da Fundacao Miezinha Milagrosa de Nazari de Co-
municacao, e assim por diante. Convinha ao Minist6rio Pi-
blico do Estado fazer uma verificadio em todos esses con-
venios para comprovar a seriedade dos beneficidrios e a
utilidade das verbas p6blicas.
Desejava tamb6m que a secretaria de justiqa e direitos
humans, Socorro Gomes, informasse sobre a destinaqio
de 1,1 milhio de reais transferidos para a Sociedade de
Defesa dos Direitos Humanos. Houve quatro transfer6nci-
as, a titulo de "outras contribuig6es": R$ 730 mil, R$ 240
mil, R$ 241 mil e R$ 40 mil. Para pagar "outros equipamen-
tos e material permanente, a secretaria destinou mais R$
18 mil a SDDH, um valor respeitivel, que nio dispensa es-
clarecimentos. Ainda mais porque a sociedade sempre vi-
veu h mingua, mas cumprindo sua missao.
O chefe da Casa Civil, Charles Alcantara, foi h Espanha
(por tres dias) e o secretirio de administration, Cliudio Puty,
a Italia (por uma semana), com didrias pagas pelo eririo
estadual. O que trouxeram de bom para o Para que justifi-
que o investimento?


Jornal Pessoal *2 QUINZENA JANEIRO DE 2008 9








BELEM
No final do livro Revela-
qo, mais conhecido como
Apocalipse, do Novo Testa-
mento, atribuido a Jodo, hd
uma advert8ncia deveras tri-
gica: "Se algu6m lhes fizer
qualquer acr6scimo, Deus
lhes acrescentari os flagelos
escritos neste livro." Recuso-
me a acreditar que as profe-
cias tenebrosas arremessa-
das a babilonica Copacaba-
na, objeto da cr6nica antol6-
gica, do ano de 1958, do es-
critor Rubem Braga, publica-
da integralmente no Jornal
Pessoal n. 408, o primeiro de
2008, possam estar aconte-
cendo e aditadas cor os
acr6scimos preditos no texto
biblico citado no inicio desta.
Mais, que todas essas abomi-
naveis sentenqas devem es-
tar, tamb6m, reservadas a
Bel6m, conforme vaticina
esse escriba.
Lamento, meu caro LUcio,
que a humanidade esteja ca-
minhando de forma inexora-
vel a degenerescencia total
dos costumes e, neste caso,
vai s6 confirmar o "estalo" do
grande cronista num momen-
to de inspiraqio, digamos, di-
vina. Esse journal pelo me-
nos em tres artigos do iltimo
ndmero desnuda categori-
camente essas iniqiiidades
que uma minoria chamada de
"elite" ostenta de modo abu-
sivo e quase intolerivel, na va
ilusao de ser um ser diferen-
te.
Rodolfo Lisboa Cerveira

PARU
Na mat6ria Terras e di-
reitos humans (JP 408, 1"
quinzena de janeiro) esti dito
que "a exigencia de demar-
caq6es pressup6e a identifi-
cag9o fisica da area e nao
apenas uma pesquisa em pa-
p6is" e por isso escrevo para
ressalvar que, pelo menos
nesse setor do Loteamento
Joana Peres I, a demarcaqao
de cada um dos 58 lotes foi
rigorosamente executada,
conforme comprovou vistoria
feita pelo Diretor do Depar-


tamento T6cnico do Iterpa,
engenheiro Jorge Santos.
Para demarcar os 58 lo-
tes que seriam adquiridos
dos licitantes originals pela
ABC fui nomeado pelas por-
tarias 032 a 080 da Presiden-
cia do Iterpa (23 de janeiro
de1980), publicadas no Dia-
rio Oficial do dia 29 seguinte,
e para formalizar os proces-
sos publiquei Edital Demar-
cat6rio no journal A Provincia
do Pard (10.fev.1984) e no
DO (9.jun.1984), inclusive
cor a plant do loteamento
cor as novas linhas muda-
das de limits naturais (diff-
ceis de implantar por causa
da mars diuturnas) por linha
retas o que, no conjunto,
envolvendo areas intersticias
projetadas entire lotes, aumen-
tou em cerca de 8.000 hec-
tares a area dos 58 lotes, os
quais foram efetivamente
demarcados (e nao estimados
na cartografia, procedimento
comum, a 6poca), sendo o
poligono total georreferenci-
ado por rastreamento de sa-
t6lite geod6sico (hoje uma
exigenciada Lei 10.267/2001,
com o uso de GPS), de for-
ma que nos Memoriais Des-
critivos os lotes estao posici-
onados geograficamente por
coordenadas UTM (exigen-
cia legal inexistente a 6poca).
No que concern aos an-
tigos moradores da regiao, de
que trata a mat6ria do JP, o
Iterpa nao inclufra na licita-
cgo para venda das terras al-
guns lotes nas margens do rio
Pacajd, e em relaqio aos que
minhas equipes de topografia
identificaram no curso das li-
nhas retas, o fato foi comuni-
cado ao Iterpa, para as pro-
videncias no ato da aprova-
Cgo das demarcaqoes e, con-
seqtientemente, para a expe-
diqgo dos Titulos Definitivos.
Outras obrigaq6es ditadas
pelas normas da licitaqio e
que condicionavam a titula-
qo definitive com Cliusulas
Resolutivas, podem eventual-
mente nao ter sido cumpridas,


mas a demarcaq~o, esta, corn
certeza, foi executada.
Paraguassii Eleres.

BRADESCO
Um leitor do Amazonas
me mandou o comentario a
seguir, que decidi reproduzir,
sem identificar a fonte, por-
que ji havia checado exata-
mente o que ela comentava
na sua mensagem, em forma
confidencial. Nao sera sur-
presa se o Bradesco assumir
uma posicio de destaque no
Amazonas, graqas a sua as-
sociaqio com o governor es-
tadual. Sem o mesmo peso
que a Companhia Vale do Rio
Doce ter no Para, 6 claro,
mas tamb6m cor muito me-
nos atrito. Corn a aparencia
de instituidio sustentivel, es-
pecializada em meio ambien-
te, o Bradesco veste desde
logo uma roupagem cujo fi-
gurino a Vale ainda nao con-
segue incorporar tao bem.
Por isso mesmo, a questao
precisa ser examinada corn
mais atenqao pelos que corn
ela se preocupam em outros
lugares e em relagao a outras
instituiq6es.
Gostei de sua nota sobre
o assunto em pauta [uma
edigdo especial de 0 Esta-
do de S. Paulo sobre a
AmazOnia]. Embora tenha
visto pedagos das "Grandes
Reportagens" sobre a Ama-
z6nia, nao vi todo e nao cap-
tei o vicio que voc6 comen-
tou. Tern mais: o Bradesco
comprou o Banco do Estado
do Amazonas no final do ul-
timo governor Amazonino
Mendes e ganhou a folha de
pagamento do Estado junto.
No inicio de 2007 (se nao me
engano) o prazo do control
da folha terminou. 0 que ouvi
6 que o governor Braga "ne-
gociou" a extensao do con-
trato sob a condiqao que o
Bradesco contribuisse R$ 20
milh6es para o "desenvolvi-
mento sustentavel" do Ama-
zonas. Logo ap6s esta "ne-
gociaqgo" apareceu a FAS,


( /,1 'J'i A (11 ) A );)W)'j'0)( i


JANEIRO DE 2008 .2~ QLJJNZENA jornal Pessoal


a bolsa floresta, e, mais re-
centemente, o Banco do Pla-
neta! O Banco do Planeta
parece ser um lance propa-
gandistico excelente para o
Bradesco colocar uma cara
sustentivel no pagamento
que foi forqado a fazer.



PERDAO
Pela primeira vez, o Jor-
nal Pessoal nio foi impresso
no seu traditional papel. Em
falta no mercado, ele teve que
ser substituido por produto de
qualidade inferior, prejudican-
do a apresentaqgo do JP. Por
isso, perdio, leitores. E tam-
b6m por mais alguns daque-
les errinhos chatos, pelos mo-
tivos jA apresentados.



NOVO LIVRO
AiraTe, de Ccrnim ,
Poith 21 -I lli cI
Jo'tHill Pc' i tiul lthia
eiltO Caiuio.ll' Cn aii i til
(endo con hr capiiulo o
da historic recenic do
Pari que jmaiauls teruma
'ido registrado. se nao
e\ it ise e tie lornal. E
mnosro como o JP
consegulu reconsliluir
es ,es tjl'i, e Ja Uliar o
,,eu ,ignitic.ido no
ine Ini i moniell eni
que ele, aconteclam.
0 I|iro e conmp>',lo de
trechoe de miateri,
aque publicada, e de
umn mneta-te\lo nof .
que comenia. silua e
elucida o cotidlano de
umin ornalilmo1
erdadeiramnene
independence, que
cumpre mnais nobre: , audiiamem do powder.
Espero que os leiiore,-
a.ludern a difundir ess,,
hioas coiinpiandU 0
ii% ro. que
esn'd ) .. ... ,
% enda da,
bancas e -.
em n
algumas
li rarinas.


JANEIRO DE 2008


*2QUINZENA Jornal Peessoail













Em marco de 1996 havia 400 servi-
dores lotados no gabinete do governa-
dor do Estado, um ano depois de o me-
dico Almir Gabriel assumir o cargo, di-
zendo horrores sobre a "heranqa mal-
dita" do seu antecessor, Carlos Santos,
o vice que substituiu Jader Barbalho
quando ele se desincompatibilizou para
concorrer ao Senado (e vencer). Des-
ses 400 funcionarios, 178 ocupavam
cargos comissionados, dos quais 139
eram assessores especiais e 33 asses-
sores de gabinete. Havia ainda 114 tem-
pordrios. "Apenas" 115 eram servido-
res estatutarios.
O governador Almir Gabriel tinha
fundamento na sua pregadao moralista
contra os dois governadores anteriores.
Coube a Jader Barbalho o onus de
transformar o gabinete do governador
numa gel6ia geral, em terreno fertil para
o exercicio da permissividade particu-
lar com o uso do dinheiro piblico. De-
zenas de clients, parents e aderentes
foram abrigadas nessa caixa de pando-
ra para acomodar interesses e saciar
conveniencias.
Obrigados a comparecer para quitar
a conta, os contribuintes pelo menos ti-
nham um refrig6rio, gracas a Lei de Res-
ponsabilidade Fiscal, uma das poucas
herancas positivas de Fernando Henri-
que Cardoso, que s6 se tornou possivel
corn o jamegao do Banco Mundial: o
governor era obrigado a revelar trimes-
tralmente, no DiArio Oficial, o tamanho
do rombo. Jader fez isso em todo o seu
segundo governor. E a cada vez que
o quadro aparecia no DO, corn os
quantitativos fisicos, os vencimen-
tos, as vantagens de qualquer es-
p6cie e as gratificaq6es por fun-
oqes por unidade orqamentiria dos
6rgaos da administration direta, in-
direta e funcional do poder execu-
tivo, eu gastava horas para analisar os
ntmeros e registrar o despaut6rio neste
journal. Havia gritos e ranger de dentes,
mas a publicacao nao falhava (esta 6 a
gl6ria e a limitaqao do populismo: faz sem
esperar consequincias do ato).
Fiz o mesmo serviqo durante o go-
verno do doutor Almir, provocando o
mesmo efeito. 0 problema 6 que enquan-
to Jader Barbalho calava, seguindo a li-
9ao do ditado popular sobre o cabrito
esperto, que nunca berra, o lider dos tu-


canos insistia na litania do moralismo. Na
pritica repetia a imoralidade dos ante-
cessores. O contrast se tornava cada
vez maior, chegando ao limited do insu-
portavel quando o quadro de pessoal lo-
tado no gabinete do governador passou
dos tres digitos. O que parecia inimagi-
navel se tornou realidade: os tucanos
moralistas superaram, nesse item, os
"decaidos" jaderistas.
O paradoxo tinha uma explicaqio:
cor menos empatia e carisma, os pes-
sedebistas precisavam de maior fisiolo-
gismo para manter seus currais eleito-
rais. O que o lider do PMDB conseguia
is vezes cor sua mao boba, dando tapi-
nhas nos ombros dos correligionirios,
magnetizados por esse gesto aparente-
mente inofensivo, o doutor Almir, aves-
so por natureza a um contato fisico mai-
or cor o eleitor (mas achando-se soli-
dirio mentalmente com ele), por pudor
ou impericia, ti-
nha que com-
pensar a falta
,'" .N de carisma
Scom o agra-
do materi-
Sal. Daf o
incha-
mento a
II elefan-


No Para, a lei continue


a ser apenas "potoca"


Jornal Pessoal *2 QUINZENA JANEIRO DE 2008


tiase do gabinete, sobretudo do ex6rcito
de assessores especiais.
Por que passou a ser tao numeroso o
rol desses cidadaos? Como justificar a
necessidade especial que tinha o execu-
tivo de fulano de tal, cujas qualidades
eram desconhecidas da opiniao p6blica?
Quem era aquele ilustre desconhecido
nomeado assessor especial II, se Ihe fal-
tava a presumida notoriedade requerida
pela funq o? Onde se destacara aquela
untuosa senhora para merecer nomea-
cao para igual cargo? O que fizera aquele
outro personagem, ate entao metido ape-
nas na messe de arrebanhar eleitores?
O enredo ji estava assumindo a con-
di go de 6pera bufa quando o doutor em
economic e professor universitirio Simio
Jatene resolve cortar o n6 g6rdio A sua
maneira: simplesmente nunca mais publi-
cou o quadro de pessoal do executive.
Todo trimestre o Diirio Oficial trazia as
estatisticas dos demais poderes, mas nao
o daquele poder que mais pode, ao me-
nos em mat6ria de cofres pdblicos.
Os trimestres foram passando e nin-
gu6m, exceto este jornalista chato, se in-
comodou com a ausincia da publicacio.
Muito menos ainda com a bendita Lei
de Responsabilidade Fiscal, que, no
Pari, se tornou uma esp6cie de belo
Antonio (belo para efeitos externos ape-
nas, sem funcionar). Finalmente, o tri-
mestre tucano emendou no trimestre pe-
tista. A governadora Ana Jilia Carepa
comemorou seu primeiro ano cor farin-
dolas publicitirias e bugigangas de ma-
rketing, mas nada do quadro de pessoal.
Ela teri seus motives para a omis-
sao e a desobediencia a lei, que carac-
terizaria crime de responsabilidade se o
legislative estivesse funcionando de
verdade, se o Tribunal de Contas do
Estado estivesse atento a sua finali-
dade ou se o Ministdrio Pdblico do
Estado se lembrasse, para as ques-
St6es graves, que o fiscal da lei.
Mas como vingou a geleia geral
implantada por Jader Fontenele
Barbalho, seguida por Carlos Santos,
adubada por H6lio Gueiros, multiplicada
por Almir Gabriel, prosseguida por Si-
mao Jatene e arrematada por Ana Jilia
Carepa (todos, exceto o apresentador e
comerciante, detentores de diploma uni-
versitirio, que lhes garante celas espe-
ciais na eventualidade de condenacao ju-
dicial com.pena de prisao transitada em
julgado), a lei que esta em vigor no Parn
atende pelo caput de: pernas pro ar que
ningudm 6 de ferro. E assim o mundo
gira e a Lusitana roda li fora. Ate
quando, Catilina?








EstadSo mais velho e a cruise destes dias


0 Correio Braziliense, o Jornal do
Comercio de Recife e o Jornal do Co-
mercio do Rio de Janeiro sao mais anti-
gos, mas essa anterioridade conta apenas
para efeito cronol6gico. De fato, o journal
mais antigo do Brasil, em plena circula-
qao, 6 0 Estado de S. Paulo, que no dia
4 completou 133 anos. Num pais que co-
mecou a ter publicaq6es peri6dicas corn
um s6culo de atraso em relaqdo aos de-
mais pauses do novo continent (e 400 anos
de defasagem em mat6ria de universida-
des), 6 uma data important.
Em periods anteriores, a ampulheta mu-
daria de posicio sem sobressaltos. Nesta
6poca de crise aguda do jornalismo impres-
so e corn ventos de incerteza soprando na
direcoo especifica do tradicionaljomal pau-
lista, um ano a mais tern um valor redobra-
do. Ha uma sugestdo nada sutil, para todos
osjomais, de que talvez nao haja aniversario
a comemorar no ano seguinte. A crise 6 real
e, provavelmente, inevitivel. Nem por isso
seus resultados sao necessariamente ruino-
sos. Uma 6poca esta chegando ao fim de
verdade, mas talvez sejapossivel moldar em
boa media a 6poca que esta a se anunciar
ou a chegar pra valer.
Certa melancolia me invade quando
pass por uma banca de revistas, com
ndmero crescente de publicaoqes, exceto
dejornais, que cabem num escaninho das
prateleiras. Desde o dia 1 nao 6 mais pos-
sivel comprar em Bel6m um exemplar de
0 Globo. Por ironia, exatamente quando
volta a ter um correspondent fixo na ci-
dade, com a designacqo de Ronaldo Bra-
siliense para o posto, ojoral dos Marinho
desaparece de circulaqdo. A melhor co-
bertura local 6 para enriquecer o portal de
0 Globo, que passard a ser a 6nica fonte
de contato para os seus leitores paraen-
ses (assim tamb6m para outros mercados
espalhados pelo pais, como Manaus, cor-
tados da distribuicgo dojornal).
Nao leio jomal na internet, mas podia
me permitir esse hibito se decidisse abdi-
car A cognicgo que s6 uma folha impressa
me abre. A leitura na tela de um computa-
dor 6 rdpida, desatenta, insossa. Debru-
qado sobre uma pdgina, reflito, saio em
devaneios, imagine, crio. As telas de um
computador sao 6timas para executar o
que concebi antes. Provavelmente perde-
rei o contato cor O Globo, da mesma
maneira como o Jornal do Brasil, a Fo-
lha de S. Paulo e a Gazeta Mercantil
desapareceram do meu horizonte. Esta 6
a razdo do gosto melanc6lico que me sobe
A mem6ria quando pass pelos supermer-
cados de publicaqses coloridas e elfpticas,
nos quais as bancas se transformaram.
Lembro vivamente quando as primei-
ras bancas de rua foram instaladas em
Bel6m, novidade trazida atrav6s da primei-
ra rodovia de integragqo (e sujeigqo) naci-


onal, a Bel6m-Brasilia, que nos trouxe tam-
b6m o agressivo pais vizinho, o Brasil, no
inicio da d6cada de 60. Antes, tinha que ir a
Livraria Vit6ria, na padre Eutiquio, para
pegar as publicaqces "do sul" (ji cor o
glamouroso carimbo "via rodovidria" na
capa,justificando o atraso, mas garantindo
a modemidade), ou esperar pelo retorno do
meu pai das numerosas viagens que fazia
a esse paraiso da imaginacqo nesta rema-
nescente terrinha portuguesa (e que assim
se manteve, apesar da Cabanagem).
Um dia, descobri uma banca plantada
na praqa da Repdblica, em frente ao Ins-
tituto de Educaqio do Pard, o IEP das
adoriveis "piramutabas", nossas norma-
listas lindas, bem perto de casa. Depois,
passei a comprar o JB, o Correio da
Manha, a Ultima Hora e, as vezes, o
Estaddo em outra banca, na avenida Por-
tugal, esta vizinha do CEPC, onde entio
estudava. Era cor voldpia que me apos-
sava desses jornais e em estado de graca
os levava para casa, para longas e ricas
jornadas de leitura e anotaqio. Nunca
quitarei meu d6bito com os profissionais
que deram a esses jornais uma estatura
que hoje esti fora do padrio, na relaqao
inversa corn suas raquiticas possibilidades
t6cnicas (agora infinitas).
Nao seriamos as pessoas em que nos
tomamos sem a leitura desses jornais, e
de mais algumas publicaqces epis6dicas,
a nos incutir capacidade critical e uma dose
de audicia. Freqtientar as redaqies do JB,
do Correio da Manha e do Estaddo
equivaleu a fazer os cursos fundamentals
da minha vida professional, sempre fora da
escola: confirmed e multipliquei as liqoes
que j tomara sozinho, ao ler com admira-
Cio e proveito as piginas desses jornais.
Nenhuma influ8ncia foi mais marcante do
que a do Estaddo, simplesmente por ter
tido nele uma posiqao ativa ao long de 18
anos, como seu reporter.
Por esse passado que se desvanece, o
registro sobre os 133 anos do journal em
suas pr6prias piginas foi burocrdtico. Pa-
rece que a notoriedade do Estaddo inibe
uma abordagem mais profunda da sua his-
t6ria, como se ela jd tivesse sido contada
e fosse piblica e not6ria. No entanto, ain-
da abriga um conjunto de inc6gnitas, mis-
tdrios, mitologias e omiss6es. De uma de-
las fui testemunha: a subestimaq~o do pa-
pel de Jtlio Mesquita Neto.
De forma discreta, mas clara, a ver-
sdo official da cr6nica da casa diz que Julio
Neto foi uma figure apagada, ainda mais
quando colocado ao lado do pai e do av6.
Era Ruy Mesquita quem estava habilitado
a suceder Jdlio Mesquita Filho quando ele
morreu, em 1969, sete meses depois de
romper estrondosamente corn os militares,
com os quais contribuira para a derruba-
da do governor Jodo Goulart, em 1964. Fiel


aos seus principios, o "doutor Julinho"
achou que o AI-5, de 13 de dezembro de
1968, era dose demasiada para uma de-
mocracia, mesmo a fardada (ao gosto ude-
nista). Por isso, escreveu o editorial "Ins-
tituiq6es em frangalhos", que provocou a
invasdo dojomal e o inicio da censura ofi-
cial na sua redago.
De fato, Ruy era o mais intellectual dos
filhos do "doutor Julinho". A inica vanta-
gem de Jilio Neto sobre ele era a idade,
peso decisive no crit6rio sucess6rio. O
novo director sabia disso. Sabia tamb6m que
era uma sombra do pai, que durante 42
anos imprimira a marca d'Agua dojornal,
baseada na sua inquietagio, insubmissio
e coerencia pessoal, mesmo quando com-
prometida por inconsistencias externas
(resultantes, dentre outros fatores, do pa-
radoxo do surgimento do liberalism bra-
sileiro sob a ordem escravocrata, numa
democracia de privil6gios e autocracia).
Poucos homes piblicos tiveram uma
personalidade tao forte quanto a de J6lio
Mesquita Filho. S6 um pequeno exemplo:
ao visitar Salvador, na metade da d6cada
de 60, dispensou as honras oficiais e as
comitivas que foram busci-lo no aeropor-
to e desceu no fusquinha da correspon-
dente, Zild Moreira, que ia estupefata ao
volante. E ajudou a empurrar o velho car-
ro quando ele pifou, em plena avenida.
A fraqueza, por6m, foi a forqa de Jilio
Neto. O Estaddo se tornou a melhor usi-
na de informaaqes sobre o Brasil da dita-
dura gracas ao apoio que ele deu aos
jornalistas dispostos a enfrentar a censu-
ra, fugir a seducio do poder e romper corn
os profissionais chapas-brancas. Patroci-
nou pessoalmente a cobertura enfitica da
abertura da frente amaz6nica pelo gover-
no e a iniciativa privada, a melhor fonte
de refernncia sobre tudo que aconteceu
na maior fronteira de recursos naturais do
planet nos anos do regime military.
Foi tSo critico e precise esse acompa-
nhamento que criou embaraqos para a casa:
muitos dos criticados eram seus amigos,
bandeirantes quatrocentbes. A tensdo in-
terna foi constant at6 que, enfim, o Esta-
ddo deixou de ser dnico e ndo s6 nas
questoes amaz6nicas. Hoje, 6 mais um no
panorama geral dos que encaram a crise
real da midia impressa mais como uma
questdo-de marketing do que como postura
editorial. Talvez por isso o registro do ani-
versirio deixe um tom de desinteresse e
de falta de curiosidade, que tanto mal faz
ao jomalismo, agora e sempre.



Editor: Lucio Flavio Pinto
Edlgho de Arte: L A de Faria Pir,.r~
Contato: Rua Ansues Lto 671, 66 053-0
Fones: I091) 324 I 6r26
E-mall. jorlnai'amazr, corm tr




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