Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00315


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Full Text


JANEIRO
DE 2008
1"QUINZENA


ornal Pessoal


/J A AGENDA AMAZONICA DE LOCIO FLAVIO PINTO


_^^^^_ _h_-- ffrBr

CIDADE


Ai de ti, Belem

0 journal inicia o ano servindo-se de um dos mais pungentes textos da literature
brasileira, no mais genuine dos seus generos: a cronica. A que Rubem Braga escreveu
hd meio seculo serve de abre-alas para o ano que comeqa. Espera-se que realmente
novo. Troque-se Copacabana por Belem e a mensagem serd certeira.


que eu jd fiz o sinal bem cla
ro de que e chegada a vis
pera de teu dia, e tu ndo vis-
te; porem minha voz te abalard ate as
entranhas.
2. Ai de ti, Copacabana, porque a
ti chamaram Princesa do Mar, e cin-
giram tua front cor uma coroa de
mentiras; e deste risadas ebrias e vds
no seio da noite.
3. Jd movi o mar de uma parte e de
outra parte, e suas ondas tomaram o
Leme e o Arpoador, e tu ndo viste este


sinal; estds perdida e cega no meio
de tuas iniqiiidades e de tua malicia.
4. Sem Leme, quem te governard?
Foste iniqua perante o oceano, e o
oceano mandard sobre ti a multiddo
de suas ondas.
6. Grandes sdo teus edificios de ci-
mento, e eles se postam diante do mar
qual alta muralha desafiando o mar;
mas eles se abaterdo.
6. E os escuros peixes nadardo nas
tuas ruas e a vasa fetida das mares co-
brird tua face; e o setentrido laniard
as ondas sobre ti num referver de es-


pumas qual um bando de carneiros em
pdnico, ate morder a aba de teus mor-
ros; e todas as muralhas ruirdo.
7. E os polvos habitardo os teus
pordes e as negras jamantas as tuas
lojas de decoragoes; e os meros se
entocardo em tuas galerias, desde
Menescal ate Alaska.
8. Entdo quem especulard sobre o
metro quadrado de teu terreno? Pois
na verdade ndo haverd terreno algum.
9. Ai daqueles que donrem em leitos
de pau-marfim nas camaras refrigera-
CONTINUA NA PAG 2


!Mtk 'E AJIIBIi'^^


N" 408
ANO
2: 3,00


[j'l. O DA






CONTINUAVAO DACAPA

das, e desprezam o vento e o ar do Se-
nhor e ndo obedecem a lei do verdo.
10. Ai daqueles que passam em seus
cadilaques buzinando alto, pois ndo te-
rdo tanta press quando virem pela fren-
te a hora da provaqdo.
11. Tuas donzelas se estendem na
area e passam no corpo dleos odorife-
ros para tostar a tez, e teus mancebos
fazem das lambretas instruments de
concupiscencia.
12. Uivai, mancebos, e clamai, mo-
cinhas, e rebolai-vos na cinza, porque
jd se cumpriram vossos dias, e eu vos
quebrantarei.
13. Ai de ti, Copacabana, porque os
badejos e as garoupas estardo nos po-
gos de teus elevadores, e os meninos do
morro, quando for chegado o tempo das
tainhas, jogardo tarrafas no Canal do
Cantagalo; ou lanaardo suas linhas dos
altos do Babil6nia.
14. E os pequenos peixes que habitam
os aqudrios de vidro serdo libertados
para todo o nimero de suas geragdes.
15. For que rezais em vossos templos,
fariseus de Copacabana, e levais flores
para Iemanjd no meio da noite? Acaso
eu ndo conhego a multiddo de vossos
pecados?
16. Antes de te perder eu agravarei
s tua demencia ai de ti, Copacaba-
na! Os gentios de teus morros descerdo
uivando sobre ti, e os canhoes de teu
prdprio Forte se voltardo contra teu
corpo, e troardo; mas a 6gua salgada
levard milenios para lavar os teus pe-
cados de um sd verdo.
17. E tu, Oscar, filho de Ornstein,
ouve a minha ordem: reserve para le-
manjd os mais espaoosos aposentos de
teu paldcio, porque ali, entire algas, ela
habitard.
18. E no Petit Club os siris comerdo
cabegas de homes fritas na casca; e
Sacha, o homem-rd, tocard piano sub-
marino para fantasmas de mulheres si-
lenciosas e verdes, cujos nomes passa-
ram muitos anos nas colunas dos cro-
nistas, no tempo em que havia colunas
e havia cronistas.
19. Pois grande foi a tua vaidade,
Copacabana, e funds foram as tuas
mazelas; jd se incendiou o Vogue, e ndo
viste o signal, e jd mandei tragar as arei-
as do Leme e ainda ndo ves o sinal. Pois
o fogo e a dgua te consumirdo.
20. A rapina de teus mercadores e
a libaqdo de teus perdidos; e a osten-
taqdo da hetaira do Posto Cinco, em
cujos diamantes se coagularam as 1d-
grimas de mil meninas miserdveis -
tudo passard.


21. Assim qual escuro alfanje a
nadadeira dos imensos caCoes pas-
sard ao lado de tuas antenas de tele-
visdo; porim muitos peixes morrerdo
por se banharem no uisque falsifica-
do de teus bares.
22. Pinta-te qual mulher pdblica
e coloca todas as tuas jdias, e aviva
o verniz de tuas unhas e canta a tua
ultima cangdo pecaminosa, pois em
verdade e tarde para a prece; e que
estremeCa o teu corpo fino e cheio de
mdculas, desde o Edificio Olinda ate
a sede dos Marimbds porque eis que
sobre ele vai a minha fdria, e o des-
truird. Canta a tua ultima cancdo,
Copacabana!

Fr i assim, tornado por esse furor
biblico, que Rubem Braga come-
gou o mes dejaneiro de 1958 no
alto da sua cobertura, no bairro
de Copacabana, no Rio de Janeiro. Ha
exatamente meio s6culo, esse capixa-
ba de espirito forte e aparencia intimi-
dadora (um urso sentimental, como se
dizia) escreveu a mais bela cronica que
jd li na minha vida. Ela me veio a me-
m6ria, no final do ano passado, ao to-
mar ciencia de que uma menina de sete
anos se afogara na piscina do Clube
do Remo, manh ja alta, e nenhum dos
integrantes do "senadinho" azulino, que
ali se reine para conversar e come-
morar, se levantara para ao menos ir
ver a trag6dia, manifestar solidarieda-
de A familiar abalada pelo acidente bru-
tal. A menina chegara ao clube corn
irmios e amigos, escapara a fiscaliza-
qio de todos, pulara o alambrado e na-
dara para a morte, absurda, indtil, mas
que ali estava, materializada, sem pro-
vocar a devida comoqao.
Ai de ti, Bel6m, pensei, tomando de
empr6stimo a Copacabana do cronista
irado e inspirado. Ai de ti, metr6pole
da Amaz6nia, que desconheces teus do-
minios, que renuncias is tuas responsa-
bilidades, que te isolas nos altos das tor-
res de aqo e concrete, que se multipli-
cam, como poleiros da alienaq~o. Ai de
ti, cidade de series frivolos, que armam-
se de armaduras c6modas de griffe ao
amanhecer e vio para os seus templos
do corpo sao em busca dos models sa-
rados de Apolos sem alma. Que s6 cir-
culam pela cidade em suas m~quinas de
muitos cavalos, com peliculas escuras,
ar condicionado ligado, ambiente artifi-
cial (ou digital) que os protege do calor
reinante na realidade para a transigqo
entire o topo dos pr6dios e seus escrit6ri-
os, gabinetes e consult6rios, tornando-se
ilhas, abstraindo o oceano human a ir e
vir nas vagas violentas. Ai de ti, Bel6m:


de tua mediocridade, do teu eu-minimo,
de tua arrogancia, de tua insensatez.
A cidade que cresce nao ecoa vida.
Parece que, nela, s6 a futilidade tern eco,
ou os itens de uma agenda de ilus6es e
de egoismos, que nega sua topografia e
desdenha a sua hist6ria. Bel6m quer ser
grande sem ter grandeza, quer ser lider
sem criar lideranca, quer aceitaqio sem
demonstraqao. Nio adianta propor-lhe as
quest6es mais relevantes, de importan-
cia crucial: ela s6 quer ganhar dinheiro,
fazer fama e deitar na cama (nao por
coincid6ncia, o colchio, fabricado local-
mente, 6 o produto que se tornou mais
evidence na praca).
As causes piblicas foram riscadas do
caderninho. As anomalias e anomias fo-
ram segregadas. Os sublirbios se torna-
ram dep6sitos de excluidos pessoas e
temas que fluem por canais subterrine-
os e clandestinos, i distincia do beaeati-
ful people. Mas de vez em quando ha co-
lisoes e ameaqas de acidentes isolados se
transformarem em crise. A proteqio 6 mais
ilus6ria do que real quando a pobreza e a
criminalidade assume a dimensio de tra-
g6dia. O primeiro assalto na hist6ria do
Lago Azul, o primeiro condominio fechado
da metr6pole, 6 um indicador, agravado pela
postura exclusivista de quem sequer acei-
ta contribuir para sua pr6pria seguranqa e
a condominial. Bel6m, que servia de pari-
metro superior na compara5lo corn Cal-
cut~, hoje esta passando para o patamar
inferior. La, como aqui, as autenticas cas-
tas julgam que podem passar um imper-
me~vel sobre a mis6ria e colocd-la no re-
frigerador para congelar.
A demand nao 6 s6 na Area direta-
mente de influencia. O comando de Be-
16m sobre o Estado 6 cada vez mais fri-
gil. A continuar assim, a perda de territ6-
rio sera inevitdvel e mais breve do que
parece. Que necessidade positive o Oes-
te e Carajds t6m da capital? Qual a ser-
ventia de Bel6m para eles, que s6 a veem
como causa de estorvos e problems?
Seria diferente se a capital lhes apresen-
tasse um olhar reflexive, compreensivo,
de entendimento. Mas a capital invested
pouco na intelig6ncia aplicada a esse seu
imenso e conturbado territ6rio. Mesmo
suas elites intelectuais estao tratando 6.
de se "arranjar": num emprego, num ca-
bide do poder, numa bolsa remunerativa,
numa ONG de ocasido para receber ver-
ba official. Ja nao se expoem, jd nao fre-
qientam a praqa p6blica. Querem curri-
culo, titulos, excelencias, unanimidades,
sucesso, brilho.
Ai de ti, Bel6m do Pard: ainda hi tem-
po de escapar da maldiqio que o poeta-
cronista lanqou sobre Copacabana. Mas
nao muito.


JANEIRO DE 2008 IQUINZENA Jornal Pessoal








Os donos do poder descerao a rinha?


De passage por Belmi, antes
de retornar ao seu atual
domicilio, no Rio de Janeiro, o
soci6logo paraense Benedito
Carvalho me mandou um
artigo sobre meu utltimo livro.
E a primeira reagdo a
provocagdo que o livro faz. Por
isso e pelo conteaido da
resenha, que me chega como
apropriado retorno ao tema de
capa desta edigdo reproduzo-
a a seguir. Benedito e PHD em
sociologia, com dois livros
publicados.

Oiltimo livro do jornalista para
ense Lucio Flivio Pinto, Contra
o Poder 20 anos de Jornal
Pessoal: Urma paixao amaz6nica, me
causou espanto, indignaqio e, por que
nao dizer, nausea. O que mais me im-
pressionou no livro de Ldcio, que somente
da seqtiancia ao seu livro anterior, nio
foram as denincias bem apuradas e fun-
damentadas dos personagens, muitos
deles freqtientadores das colunas soci-
ais dos jornais locais, mas a demonstra-
qgo inequivoca e inquestiontvel do se-
qtiestro da coisa pdblica por atores pri-
vados. Apropriacgo de terras, do dinheiro
ptblico, do poder para fortalecer os inte-
resses particulares em uma regiao.
Em um Estado paup6rrimo, onde,
como demonstra o jornalista, "apenas
23 mil pessoas num Estado que tinha
3,4 milh6es de habitantes, dos quais
pouco mais de um milhao eram consi-
derados economicamente ativos, ga-
nhavam acima de 20 salaries minimos
por mes" (p. 212); onde as grandes
mineradoras, apoiadas pelos sucessi-
vos governor, convivem e nao se res-
ponsabilizam pela populaqco onde im-
plantam seus projetos, isentos de tri-
butos nos seus enclaves colonials, como
o caso de Oriximind e outras provinci-
as minerals, 6 perfeitamente compre-
ensivel a razdo da classes dominant
local (e seus aliados internacionais) ser
denominada de predadora.
O livro fornece dados fartos que jus-
tificam esse adjetivo. E espantoso como
no Estado, no Pard e na maioria dos Es-
tados brasileiros, a coisa piblica seja
apropriada como coisa privada, fen8me-
no que nao pode ser atribufdo somente A
heranqa caudilhesca de Magalhdes Ba-
rata, mas a pr6pria cultural das classes


dominantes, desde a col6nia, como ji nos
advertia Caio Prado Junior no clissico
livro Histdria Economica do Brasil.
A sociedade brasileira 6 uma socie-
dade autoritaria como formaqdo social.
Nao s6 por suas origens escravistas, pois
muitos paises, dentre eles os Estados
Unidos, tiveram uma origem escravista
e, apesar disso, existe cidadania. Na Ida-
de M6dia europ6ia tamb6m existiu es-
cravismo e 1a a cidadania se constituiu.
O que aconteceu no Brasil 6 que a es-
trutura escravista da sociedade patriar-
cal passa pelo interior da vida republica-
na e n6s vamos ter sempre repdblicas
oligarquias, e nao res-pfublica.
O Estado 6 um patrim6nio privado de
determinados grupos e determinadas fa-
mflias (o que nos mostra o livro com toda
clarividencia e sem rodeios). Isso faz corn
que as relaq6es sociais no Brasil nunca
se estabeleqam a partir de principios an-
tigos, que nao sao principios revolucio-
nirios, mas principios puros e simples do
liberalism, dentre os quais a nopqo de
cidadania 6 uma delas. A cidadania pres-
supoe como condig9o que, do ponto de
vista das relaq6es sociais e political, os
individuos sejam vistos como iguais, mes-
mo que sejam desiguais do ponto de vis-
ta econ6mico.
Ora, isso nunca se estabeleceu no
Brasil. Aqui todas as relaqdes socials se
estabelecem entire um inferior e um su-
perior, entire um mandante e um manda-
do. As relaq6es sao sempre de obedien-
cia, de submissdo, de silencio cimplice
porque a maioria depend do poder do
coronel de plantHo, como ocorre aqui no
Para. Sao relaqces que aparecem evi-
dentes na familiar, na escola, no trabalho,
na rua. Um expresso muito comum en-
tre n6s 6 a famosa frase: sabe com quem
estd falando?

Quuando voce faz
essa pergunta ao outro
esta dizendo para ele
que voce e superior a ele. Na
expresso norte-americana, correspon-
dente a nossa, por exemplo, o interlocu-
tor diz: quem e que voce pensa que e
parafazer isso comigo? A primeira fra-
se nao estabelece relaq6es horizontais de
simetria, de reconhecimento da igualda-
de, dos direitos e das diferenqas. 1 por
isso que no Brasil nunca surge a figure
do cidadao. Isso transparece cor muita
clareza, por exemplo, na nossa dificul-


dade de considerar que os nossos gover-
nantes seja no poder executive, seja
no poder legislative sao nossos repre-
sentantes e que estao li para realizar a
nossa vontade e nao a deles.
No Brasil a relaqio nio se da entire o
representante e o representado. Basta
voc6 eleger algu6m para que ele se sinta
numa posigdo de poder, estabelecendo
relaq6es de favor e clientele. Voce pas-
sa a ser client pedinte de um favor. Isso
torna impossivel o surgimento do espaco
ptblico, pois esses espacos sao apropri-
ados privadamente.
Ltcio se interroga estarrecido por que
o "distinto pdblico", como muitas vezes
ele denomina os cidadaos paraenses, fi-
cam apaticos diante de fatos tdo estar-
recedores que acontecem diante de seus
olhos. Em uma charge no JP, o jornalista
publicou uma caricature de uma mulher
num pelourinho, juntamente com cidadios
trafegando indiferentes ao seu brutal so-
frimento (referia-se o caso da adolescen-
te de Abaetetuba).
Cidadania, cidadaos, assim como a
noSqo de "povo", como ja dizia o velho
Osny Duarte Pereira, num livrinho pu-
blicado pela Editora Civilizaqgo Brasilei-
ra, 6 um conceito sociologicamente am-
biguo, pois coloca no mesmo rol situa-
qoes e posiqoes de classes que vivem
cotidianamente de maneira radicalmen-
te diferente, tanto no piano econ6mico
como no simb6lico.
O livro Contra o Poder 20 anos
de Jornal Pessoal: uma paixdo ama-
z6nica 6, inegavelmente, um obra preci-
osa e imprescindivel para compreender
os ardilosos e tortuosos caminhos do po-
der, sem descambar para o denuncismo
panfletdrio, como estamos acostumados
a ver em determinado tipo de imprensa.
O jornalismo, ao revelar um fato, checa
cor rigor o que apura no meio da selva
de desinformaqdo e achismos que en-
contra diante de si, coisas que ele apren-
deu cor os grandes jornalistas brasilei-
ros e do exterior.
A grande resist6ncia que ele encon-
tra no meio da chamada elite paraense
e seus patr6es, que tnm seus neg6cios
na Amaz6nia, nao esta no que mostra
para o "distinto pdblico", mas na impos-
sibilidade que eles tam de contestar os
fatos que narra cor provas. Esse talvez
seja o maior 6dio de seu leitor enraiveci-
do, que, mesmo enfurecido, l1 com assi-
CONTINUA NA PAG4


Jornal Pessoal I- QUINZENA JANEIRO DE 2008 I







duidade o JP, porque
mao6es que, muitas
para enfrentar a feroz
a elite age disputando
zes inimigos que se d
Nas piginas inicia
cio Fldvio exp6e cla
cor seujornalismo:"
a amaz6nica, cuja con
sultante de sua impos
pacidade) de tomar a
t6ria, o diagn6stico d;
ve elucidativa. Cor e
qoes materials de per
cio dos fatos, no me
que elas ocorrem (ao
forem provocadas pa
talvez consiga ajustar
ci6ncia hist6rica, disf;
(geralmente insosso e
Pergunto: quem s
sas chamadas elites,
car os novos corona
rinha"? A decadent
Pard, que vive num
passado imaginario, c
novos donos do pod
poder, ou corn um poc
b6lico, que vemos fi
inumeraveis colunas s
de asfalto?
O velho Marx nos
brilhante sarcasmo q
hist6ria sao os vencec
"hist6ria dominant e
se dominante" Nio
mento nenhum movie
de fazer cor que ele
A hist6ria das lutas so
mados republicans,
glamour de p6s-mode
os ideas B cadaveres
dos donos do poder. N
brou que a relacqo s
sempre sao sim6tric
possui sabe capitalize
E important abrir
livro do jornalista 6 u
xao. O distinto public
Ja esta mais que em


AUTOM
A prefeitura de Sant
an6ncio de meia pa
0 Liberal de 25 d
mesma ediqio a pre
Carmo Martins rece
coluna Rep6rter-70
tornar seu um an
supermercado: I


encontra ali infor-
vezes, lhe sio 6teis
concorrencia, pois


Colunas sociais: espaqo a venda?


o poder com fero- As colunas sociais dos jornais sem-
igladiam entire si. pre tiveram um component commercial,
is de seu livro, LOi- mas era acess6rio na maioria das colu-
ramente sua opcio nas, onde o que hoje chamamos de mer-
Numa region como chandising entiree n6s batizado de
idicio colonial 6 re- "chen") era feito cor certa discriago e
sibilidade (ou inca- at6 sofisticaqgo. Nos l6timos anos o pro-
s r6deas da sua his- blema se agravou e se transformou numa
as elites 6 uma cha- praga na imprensa: a maioria das colu-
ela tnm mais condi- nas sociais passou a ser usada como
cep9io e antecipa- gazua para faturamento escancarado,
)mento mesmo em sem qualquer retoque. Usadas por pes-
menos em tese), se soas inabilitadas, virou uma excrescen-
ra descer da rinha, cia dojornalismo. Servem apenas aos in-
o tempo ao dacons- teresses dos que as assinam, incapazes,
armada de cotidiano is vezes, at6 de responder pelo que sai
sem glamour)", debaixo de seus nomes. Por um motive
do e onde estio es- simples: total incapacidade para lidar com
capazes de provo- a ferramenta de trabalho de quem es-
is para "descer da creve, o 16xico national.
Sclasse m6dia do Mas ha exceCqes: colunas corretamen-
bovarismo de um te escritas, bastante inventivas e bem in-
:ooptada pelos seus formadas, mesmo quando varias de suas
er? Essa elite sem notas nao passem de vitrines comerciais
ler meramente sim- (tanto para o colunista quanto para a em-
reqtientemente nas presa que lhe cede o espaqo, ambos par-
ociais dos coron6is tilhando a ciencia de que os registros fei-
tos nao sHo risonhos e francos, muito
lembrava cor seu menos gratuitos). Inebriados pelo suces-
ue quem escreve a so, alguns desses colunistas ultrapassaram
lores, e, portanto, a os limits que se imp6em (ou, a falta de
a hist6ria da clas- acatamento voluntario, sao impostos) aos
vislumbro no mo- que praticam o jornalismo, ainda que in-
mento social capaz devidamente. Essas colunas estio se tor-
es desaam a rinha. nando ntcleos de propagaqio de precon-
ciais, os ideas cha- ceitos ou de um elitismo rastaqiiera, pra-
tio em moda nesse ticado por quem sejulga cosmopolita (em-
rnidade, condenou bora tenha come9ado ontem a conhecer
s para a felicidade o mundo), autorizado a servir de padrio
lichel Focault lem- de refer8ncia, presumindo-se detentor de
aber e poder nem amplo dominio cultural (na verdade, de al-
:as, mas quem os manaque), mas nao passa de elite de mos-
ar em seu favor. truario de venda.
r essa polemica. O Pelo menos nesta primeira aborda-
im convite A refle- gem, nio 6 indispensavel citar nomes.
o que se manifeste. Assim previnem-se chiliques e poupam-
tempo. se desgastes pessoais, mas a individuali-
zaqio se tornara necessaria se houver
nova abordagem da questio. Pessoal-
mente, fico indignado ao ler em colunas
ITICO sociais que fulano de tal mereceria o v6-
TICO mito como reaqdo "se fosse o Geraldo
tar6m programou peixeiro"; que nio merece client a "gor-
gina na ediqao de ducha" que vende pupunha ao lado da C
e dezembro. Na & A; a nova loja, alias, al6m de situada
ufeitura Maria do num ponto sujeito a furtos e assaltos, pelo
beu um elogio na ac6mulo de vendedores ambulantes,
). O journal podia merece d6 por ser frequentada "por tan-
tigo slogan de ta gente feia"; a mesma gente feia atra-
)agou, levou. ida para a (supostamente) area clean,


em torno da Doca pela mA novidade da
instalac;o, ali, de um posto do Detran.
Esse tipo de visio consolida o Brasil
(cor nnfase especial no Para) como o pafs
mais discriminador que ha no planet, o
mais injusto e, cada vez mais, um dos mais
violentos. Porque se o inferior nio encon-
tra o seu lugar, 6 precise bater nele para
que se reduza a posiqio que cabe nessa
sociedade quase estamental, de casta.
Mesmo que a repressio se express atra-
v6s de palavras e conceitos, como os que
germinam qual praga nas colunas sociais.
Roberto Jares Martins, que foi um dos
primeiros colunistas sociais (cronologica-
mente e pelo crit6rio de qualidade), costu-
mava dizer que esses espaqos tem que ser
discriminat6rios. Mas no sentido de que
seus freqtentadores s6 devem se tornar
noticia por merecimento, seja o pessoal
quanto o institutional; e, tamb6m (no que
se constitui seu sentido discriminat6rio), por
tradiqio. Estes sao os integrantes de fami-
lias que se toraram elite hi algumas gera-
qbes, usufruindo um patrim6nio construido
pelo trabalho dos antecessores, ainda que
uma parte dessa fortune geralmente se te-
nha formado A base do dinheiro public (o
que levou Proudhon a sentenciar: toda pro-
priedade 6 um roubo). Mas 6 assim que
caminha a humanidade, ou caminhou, at6
que os mecanismos de protecio do erdrio
se toraram mais eficazes (sem se torna-
rem nunca 100% seguros, meta ut6pica).
Pessoas assim costumam ser inteligen-
tes, simpaticas, encantadoras ou bonitas.
E o charme discreto da burguesia, ironiza-
do e execrado por Luis Bufiuel, ainda as-
sim um encanto. E um residue do ancient
regime, que sobrevive aos grilh6es da mas-
sificaqgo, is vezes confundido cor iguali-
tarismo. Ter, nessa dimensio, sua legiti-
midade, inclusive para figurar em colunas
sociais atentas a esse acervo atemporal.
Mas em colunas sociais como as que se
tornaram padres desse tipo dejornalismo
e dessa maneira se afirmaram, como as
de Jacinto de Thormes e Z6zimo Barroso
do Amaral. Em supermercados de notas
pagas, como sao a maioria das colunas
sociais da terrinha, nas quais vira estrela
ou se torna sucesso quem comparece ao
caixa, isso 6 escmnio, uma ofensa A socie-
dade, ao jornalismo e As regras elementa-
res da civilidade.
Que esses colunistas se olhem no
espelho da consciencia, mesmo aquela
de curto f6lego, e contenham-se. Pelo
que soo e nao pelo que pensam (e di-
zem) que sao.


4 JANEIRO DE 2008 I QUINZENA Jornal Pessoal








A universidade do Tapaj6s


A primeira universidade federal do
interior da Amazonia devia chamar-se
Universidade Federal do Tapaj6s, corn
sede em Santar6m, conforme o projeto
original. O nome simbolizaria seu com-
prorisso cor o rio: geografico, concei-
tual, human e social. A tiltima hora o
governor pediu para fazer um novo ba-
tismo e a instituicio passou a chamar-
se Universidade Federal do Oeste do
Pard. A sigla 6 um desastre: UFOPA.
Al6m da sonoridade ruim, devera pro-
vocar associacio imediata mesmo que
inconsciente cor os UFOs, os obje-
tos extra-terrestres. Estara condenada
aos mal-entendidos e a ironia.
O primeiro foi justamente o que im-
p6s a troca do nome. O governor deu
mais importancia A possivel interpre-
taqao de que a universidade sera mais
um pass talvez decisive para a
emancipaqgo do Oeste do Para, ban-
deira de luta que periodicamente 6 des-
fraldada e gera passionalismos, como
agora. O projeto, por6m, nao faz qual-
quer refer6ncia ao separatismo. Nem
devia: a iniciativa ter um horizonte
mais largo, sem vinculaqio a conjun-
turas, por mais importantes que elas
sejam. A universidade deve existir in-
dependentemente de os atuais munici-
pios paraenses continuarem como es-
tao ou se tornarem uma nova unidade
federativa.
A supressao do Tapaj6s nada con-
tribui para manter o status quo ou mo-
difica-lo quanto A organizaio jurisdici-
onal da regiao. Mas suprime uma sim-
bologia que daria singularidade a nova
universidade no conjunto das instituiq9es
de ensino superior do Brasil. A Amaz6-


nia precisa urgentemente de uma fonte
de saber comprometida com seu perfil
fluvial, identificada corn sua cultural ri-
beirinha. Nao apenas para recuperar
essa identidade, violada pelo rodoviaris-
mo colonial e pelo saque as terras altas
da regiao, vilipendiadas e degradadas,
vitimas de uma ocupagao acelerada (e
celerada), que nao lhes da a oportuni-
dade de ajustar seu uso as suas deter-
minac6es naturais.
A Amazonia precisa tamb6m de um
centro de conhecimento que traga para
a sua bacia hidrografica a experiencia
de outros povos em areas semelhantes
e projete um modo de conciliaqgo en-
tre a presenqa humana e essa paisa-
gem, que, apesar de tudo, ainda cons-
titui a feiCgo mais amaz6nica dos ecos-
sistemas e da conformacqo humana da
regiao. Esse centro se comprometera
a mostrar ao Brasil e ao mundo que
essa 6 a grande reivindicacao da Ama-
z6nia, sua maior aspiraqao, seu direito
superior: retomar a sua hist6ria aquati-
ca, a margem dos grandes cursos
d'agua, projetada para o future.
O projeto, formulado pela diregio da
Universidade Federal do Para, aprova-
da pelo governor federal e em tramita-
gao no Congresso surge exatamente
quando o IBGE anuncia que a Amaz6-
nia foi a regiao brasileira que mais ex-
pandiu sua area plantada no pais entire
1996 e 2006: enquanto a expansao na-
cional foi de 83,5%, a regional atingiu
275,6%, praticamente triplicando em
uma d6cada. Na Amaz6nia o crescimen-
to foi tanto da lavoura quanto da pecu-
aria, que se estabeleceram em areas
novas, derrubando floresta.


Isso 6 um absurdo. A pecuaria de-
via estar restrita, intensificando-se tec-
nologicamente onde ja se acha estabe-
lecida. Derrubar arvores para former
capim 6 um tra9o da irracionalidade na
expansao da fronteira que ja devia ter
sido abolido na Amaz6nia. Quanto aos
alimentos, deviam ser produzidos nas
varzeas, 150 mil quil6metros quadra-
dos de terras marginais que o Amazo-
nas fertiliza anualmente, sem o sacrifi-
cio das matas de terra firme, a floresta
verdadeira (ou kaapor), segundo os
indios. Uma universidade comprome-
tida com essa "dltima pagina do Gene-
sis" podia, finalmente, possibilitar que
o home se muna de r6gua e compas-
so para escrever inteligentemente essa
pagina, expurgando os garranchos des-
sa escritura inventive.
O projeto da UFPA habilita a nova
.universidade a tender as demands do
present, que sao intensas e estao mo-
dificando a fisionomia multissecular do
antigo Baixo-Amazonas (hoje, para a
redivisao ou a manutengao, tratado por
Oeste do Para), mas precisa de ajus-
tes. Nao da a enfase necessaria as var-
zeas, nao ter um setor forte em hidro-
logia, hidrografia, limnologia, pesca,
monitoramento de sat6lites, meteoro-
logia, etc. E uma lacuna a ser preen-
chida, a engenharia naval, que daria
continuidade a larga e rica tradi~io dos
estaleiros nativos.
E precise afastar a bitola do separa-
tismo e do anti-separatismo da nova uni-
versidade para que ela brote, no f6rtil
terreno do Tapaj6s, como o humus da
inteligencia no reino da natureza, final-
mente conciliada cor o home.


E DEPOIS DAS COMPRAS?


Na 6poca do "milagre eco-
n6mico" criado pelo regime
military, na d6cada de 70 do
s6culo passado, o Brasil che-
gou a ser a 8a economic mun-
dial. Depois baixou at6 a 14a
posiqdo. Agora voltou a ser o
100 lugar e pode reocupar a
8a posiqao. Mas quem garan-
te que desta vez alcangard fi-
nalmente o lugar de grandeza
que lhe esta reservado no
mundo ("grande pela pr6pria


natureza", como garante a le-
tra do hino national)? O go-
verno Lula, que nunca se can-
sa de se proclamar como o
principio de muita coisa e um
marco de refer8ncia em ou-
tras coisas, proclama que des-
ta vez a coisa vai.
A comprovaqao esta nas
ruas: milhares de pessoas fi-
zeram deste fim de ano o de
maior movimento commercial
Sp6s-64. Os pr6dios nao param


de subir. Os estoques de car-
ros se esgotaram. Muito con-
sumo. Pouca poupanqa real.
O consumismo,se tornou uma
febre graqas ao cr6dito facil
e long, cr6dito que se alimen-
ta do ingresso de capital es-
trangeiro, que permanece aqui
alimentado pelos juros mais
elevados dentre todos os pai-
ses de expressao do mundo.
Quando essa pilastra cair, ha-
vera um efeito domin6. E 6


provavel que, quando isso
ocorrer, o pafs nao esteja ain-
da em condiq6es de andar
cor as pr6prias pernas. Como
ocorreu, antes, na 6poca do
"milagre econ6mico", do des-
perdicio de d6lar dos anos
Dutra e no "encilhamento",
que deu inicio a todas essas
orgias republicans, coman-
dadas pelas cigarras de sem-
pre. As formigas continuam a
pagar o pato.


Jornal Pessoal 1- QUINZENA JANEIRO DE 2008








Terras e direitos humans


Uma inusitada aqco civil piblica foi
ajuizada perante a justiqa federal de Be-
16m, no final do ano, contra o Estado do
Para, o Iterpa, a Uniao e uma empresa
privada. Se for acolhida integralmente,
resultara no pagamento de indenizaqao
aos demandantes no valor de 200 milh6es
de reais, dentre outras conseqtincias.
Moradores de Portel, cor o apoio da pre-
feitura municipal, alegam a violacao dos
seus direitos humans pela venda frau-
dulenta de terras piblicas ao grupo em-
presarial ABC. O Iterpa teria praticado
uma autintica grilagem official, transfe-
rindo de forma ilicita Area do patrim6nio
ptblico habitada ha virias geraq es por
nativos, que, a partir daf, passaram a ser
perseguidos e expulsos de suas glebas.
A aqco foi proposta 30 anos depois
da realizagCo da venda. Depois de tanto
tempo decorrido, o fato gerador ja esta-
ria prescrito, fora do alcance do questio-
namento judicial. Mas os patrocinadores
da causa alegam que essa restrigqo nao
se aplica ao caso porque argiiem viola-
cao a direitos humans, que sao impres-
critiveis. Por isso, estao dispostos a re-
correr a corte international se a deman-
da nao for acolhida pela justiqa brasilei-
ra. Usardo como fundamento tratados e
conven96es internacionais, dos quais o
Brasil, como signatdrio, se comprome-
teu a reconhecer.
A longa pega, de 52 paginas, acresci-
da de numerosos anexos documentais,
devera provocar uma rica polemica, se
a aqao realmente for acolhida pelajusti-
ca. Independentemente da instruqao que
seguir, ela renova a atencqo embora
tao tardiamente sobre um fato impor-
tante na hist6ria fundidria do Para. Sur-
preende que a questao s6 esteja sendo
suscitada depois de tanto tempo, ja que
na 6poca o fato foi noticiado, comentadcr
e criticado na imprensa, ainda que ape-
nas por uma pequena fraqCo dela. Antes
de avaliar o questionamento judicial pro-
priamente dito, conv6m rememorar esse
epis6dio. Essa revisao poderA contribuir
para prevenir ou purgar novos erros se-
melhantes, que estao sendo repetidos.
A aqgo ataca aquela que foi a primei-
ra discriminat6ria de terras feita no Es-
tado. At6 entao o governor simplesmente
servia de instrument as iniciativas dos
particulares interessados no seu patrim6-
nio fundidrio. Uma pessoa requeria de-
terminada Area, indicando-a ao 6rgao pi-
blico, que procedia como se fora um cor-
retor imobiliArio. Durante certo tempo
houve um rendoso com6rcio de meros
requerimentos, que passavam de mdo an-


tes de qualquer ato official. O Estado fa-
zia de conta que providenciava a verifi-
caqgo no local e o particular simulava
seriedade na identificaqio fisica do ter-
reno. Tudo, por6m, nao passava se si-
mulaqio no papel. Daf a expedicio de
titulos sobre uma mesma area ou cor
localizaqgo muito diferente da declara-
da. Como resultado, a confusao, o caos,
a grilagem.
Em 1976 o govero federal conseguiu
aprovar uma lei (a 6.383) regulamentan-
do a agao discriminat6ria de terras da
Uniao. O Conselho de Seguranca Naci-
onal, que a inspirara, praticamente inter-
veio no Iterpa, designando para presidi-
lo Iris Pedro de Oliveira, que jd atuara
no Incra no Pard. Corn uma linguagem
de tecnocrata e anunciador de novos tem-
pos, ele chegou para mudar os procedi-
mentos do passado, que eram uma das
causes dos graves problems fundidrios
do Para. O ponto de partida foram qua-
tro discriminat6rias: Joana Peres I e II, e
Altamira I e II, no vale do Xingu.

G ragas as duas
primeiras, o grupo ABC
tangenciou duas vezes
as leis para conseguir
former uma das maiores
propriedades rurais
da Amaz6nia e receber incentives
fiscais da Sudam. 0 grupo adquiriu 58
lotes de terras, totalizando 127 mil hec-
tares (Area equivalent a do antigo Esta-
do da Guanabara), na concorrencia pd-
blica aberta pelo Iterpa em 1978. Como
a legislaqao fundidria impedia a venda
de Areas superiores a tres mil hectares
sem a aprovaqao pr6via do Senado, o
grupo econ6mico requereu os lotes atra-
v6s de 58 pessoas diferentes, sobretudo
membros da familia Garcia, controlado-
ra do conglomerado empresarial.
Emjulho de 1978 o grupo pagou me-
tade do preqo de cada um dos lotes (a
um baixo valor, entire 150 e 300 cruzei-
ros da 6poca por hectare) e recebeu
os titulos definitivos de propriedade. A
expediqao desses titulos foi irregular:
como o Iterpa impunha ao comprador o
atendimento de certas exigencias, ao in-
v6s de um document definitive de pro-
priedade, devia ter expedido um titulo
provis6rio, que substituiria quando os
compromissos fossem atendidos.
Eram tres as exig6ncias estabeleci-
das na licitaqdo: implantaqgo de um pro-
jeto de aproveitamento econ6mico da
area, a ser previamente submetido ao
Iterpa; em dois anos, 10% das metas do


projeto deviam estar executados; e o lote
teria que ser demarcado nesse period.
Se essas condiq6es nao fossem atendi-
das, o titulo seria cancelado e as terras
reverteriam ao patrim6nio pdblico, evi-
tando-se, assim, seu uso especulativo.

As irregularidades,
no entanto, cometaram ja
na divisao do Loteamento
Joana Peres, em uma
area pwaticamente
inexplorada de mata densa,
a dois grupos econ6micos: o ABC e o
Alair Martins. Para tangenciar a lei, os
arrematantes se utilizaram de prepostos
e o Iterpa referendou a burla ao admitir,
na regularizaqio da titulaqSo, que o gru-
po ABC substituisse os requerentes in-
dividuais dos lotes. Embora os proces-
sos tivessem sido formados nos nomes
de pessoas fisicas, o grupo ABC (Agro-
pecuaria Brasil Central) foi quem assu-
miu a titularidade da Area, ja entio cor
a razao social de ABN (AgropecuAria
Brasil Norte). E agrupou os lotes indivi-
duais, de 1,5 mil a 3 mil hectares, numa
propriedade dnica, ignorando o projeto de
uso de cada uma delas.
Em 1984 o Iterpa fez uma vistoria na
Area e constatou que a empresa se limi-
tara a former uma pastagem de 1,3 mil
hectares, dos 5 mil que anunciara, a rea-
lizar alguns cultivos agricolas e a extrair
madeira a margem do rio. Nao ocupava
nem 5% da Area total. Tamb6m nio rea-
lizara a demarcaq~o do terreno. Essas
inadimplencias autorizavam o institute a
cancelar os titulos e reaver as terras. Mas
o Iterpa dizia nao ter dinheiro para pagar
a indenizacao e receava as complicaq6es
juridicas da decisdo.
Ao inv6s de expedir um titulo provi-
s6rio, que seria substituido por um do-
cumento definitive quando as condiq6es
estabelecidas em contrato fossem sa-
tisfeitas, o Iterpa concedera titulo defi-
nitivo cor clausula resolutiva. Para os
efeitos legais, as condicionantes nao
teriam forqa para sustar a transferen-
cia definitive das terras para o particu-
lar beneficiado pelo titulo, que fizera o
registro no cart6rio imobiliario como
propriedade plena.
Mesmo sem concluir a titulacao, po-
r6m, o grupo ABC conseguiu com as ter-
ras a aprovagao da Sudam, em 1983, de
um projeto madeireiro e pecuario de 1,1
bilhio de cruzeiros (valor da 6poca) para
a criaqCo de 3,1 mil cabeqas de gado em
5 mil hectares de pastagem, e a produ-
9do de 6,6 mil metros ctbicos de madei-


JANEIRO DE 2008 IQUINZENA Jornal Pessoal








30 anos depois em Portel


ra beneficiada. A aprovaqio do projeto
na Sudam foi acidentada: ja estava em
vigor uma resoluqgo do pr6prio 6rglo
proibindo incentives fiscais para fazen-
da a ser instalada em area de floresta
native. Era exatamente o caso. S6 num
dos lotes vendidos pelo Iterpa foram iden-
tificados tres mil p6s de sucupira, arvore
de grande valor commercial. Como o De-
partamento de Recursos Naturals se re-
cusava a aprovar pecuaria em area de
floresta densa, a superintendencia sim-
plesmente enviou o projeto diretamente
ao Conselho Deliberativo, sem subme-
t&-lo ao seu pr6prio 6rgao t6cnico, que
certamente o vetaria.
Essa hist6ria volta novamente ao pi-
blico cor a agio civil piblica. O estra-
nho 6 o pedido de indenizaqao, de 200
milh6es de reais, para os ribeirinhos que
teriam perdido duas terras e foram viti-
mas de violencia por parte da empresa.
Era de se esperar que uma iniciativa des-
se tipo visasse o beneficio direto dos seus
autores para que se mantivessem nas
suas areas, ou nelas fossem restabeleci-
dos, cor apoio do governor para suas ati-
vidades produtivas e a restauracao do
que perderam. E nao a divisao do valor
da indenizaqao entire a prefeitura de Por-
tel (que ficaria corn 70%), a Associaqio
dos Trabalhadores Agro-Extrativistas do
Alto Camarapi (15%) e o Sindicato dos
Trabalhadores Rurais (15%).


Para levar a esses objetivos, a alega-
cqo da violacqo dos direitos humans
pode ser reconhecida como causa inter-
ruptiva da prescrigqo, passados 30 anos
da venda das terras sem qualquer aqio
ou um protest judicial que fosse para
anula-la ou ao menos contesta-la. O pe-
dido de indenizaqio em dinheiro, ao in-
v6s de remeter para um arbitramento
international, sujeita a aiao as normas
da legislaqao civel brasileira, na qual 6
muito mais problematico argtiir a impres-
critibilidade do ato do Iterpa, em nome
do Estado.

A aao 6 de boa
inspiragAo e prop6sito
ao empunhar os direitos
humans dos antigos
moradores da regiafo, mas de-
via prosseguir na linha de conduta que
ja recebeu a acolhida do juiz da comar-
ca, Roberto Valois, que deferiu a pre-
tensao dos ribeirinhos contra a empre-
sa, conforme a pr6pria aqao informa,
num contencioso que s6 veio a se esta-
belecer em 2002, a partir de uma de-
manda possess6ria da ABC e nao dos
moradores (que, se defendendo, conse-
guiram a tutelajudicial). Ela podia tam-
b6m cobrar um efeito declarat6rio do
dano acarretado pelo Estado ao fazer
uma titulagao leviana. Podia at6 mos-
trar a contradiq~o dos atuais conduto-


res do Iterpa, que combateram a legis-
laqao autoritiria e agora utilizam um dos
seus dispositivos mais draconianos, con-
tido no artigo 28 da lei 6.383, de 1976.
Esse instrument permit a arreca-
dacqo sumdria de areas consideradas de-
socupadas, bastando ao 6rgao arrecada-
dor verificar os registros e transcriq6es
imobiliarias. A consult 6 feita nos mes-
mos cart6rios apontados como coniven-
tes cor a grilagem, com seus assenta-
mentos inconfiaveis. A16m disso, a exi-
g6ncia de demarcaqao pressupbe a iden-
tificaqao fisica da area e nao apenas uma
pesquisa em pap6is. A indefiniqio de
ontem perdura e 6 negative, ainda que
agora se aleguem bons prop6sitos em
favor de moradores tradicionais e qui-
lombolas. Os autores da aqao de Portel
usam esse argument contra seus defen-
sores, que agora dirigem o Iterpa. A con-
tradiqao, por6m, nao autoriza a cobran-
qa da elevada indenizaqio. O Estado nao
pode ficar com a cabeqa sujeita ao cute-
lo dos justicadores indefinidamente. Hd
uma ordem legal a se impor para distin-
guir o piano da reparaqao hist6rica do
ressarcimento material. Os ribeirinhos
merecem ajustiqa reparadora, mas che-
gar i indenizaqio e no valor estabele-
cido parece um excess, que se esta-
belece diante do silencio dos represen-
tantes do Estado diante de questao des-
sa importancia.


Funtelpa e TV Liberal:por mais um semestre


A direcqo da Fundaqgo de Telecomu-
nicaq6es do Pard anunciou, no final do
ano, que o sinal da TV Cultura retorna-
ra, no inicio de 2008, a 13 localidades do
interior do Estado, depois de 10 anos re-
transmitindo a programacao da Rede
Globo, atrav6s da TV Liberal. Emjunho
o sinal da emissora chegara em mais 65
municipios. Assim, todos os 78 retrans-
missores que a Funtelpa cedeu durante
uma d6cada inteira para a emissora da
famflia Maiorana, e ainda por cima pa-
gando-lhe 35 milh6es de reais durante
esse period, a titulo de "conv6nio", se-
rio reincorporados ao patrim6nio da fun-
dagqo estadual.
Mas a direqao da Funtelpa nao es-
clareceu qual a relaao juridica que man-
tera sua estranha relagqo com a TV Li-
beral por pelo menos mais seis meses,
nesse period ja sem qualquer tipo de
cobertura legal, mesmo a sujeita a ques-


tionamento. Para todos os efeitos prati-
cos (e juridicos), ainda que em junho os
78 retransmissores sejam retomados, at6
1a a Funtelpa continuard a transmitir a
programaqao original da Globo, via emis-
sora afiliada de Bel6m, para os 78 ou 65
municipios do interior.
Em 31 de dezembro de 2006 o go-
verno anterior prorrogou por mais um
ano, atrav6s de aditivo, o "convenio"
(na verdade, um contrato) entire a Fun-
telpa e a TV Liberal. O novo governor
anulou o "convenio" e deixou de pagar
i emissora, mas continuous a transmitir
a programaqao dela. A TV Liberal re-
correu da decisao administrative da
Funtelpa. Argumentou que estava cum-
prindo seus compromissos e que inves-
tira em equipamentos e pessoal para
transmitir para o interior uma progra-
maq o voltada para a integraqgo do
Para, conform Ihe fora exigido.


Se essa programaqio continuava a ser
veiculada pela Funtelpa, naturalmente
esse direito (de receber uma mensalida-
de para prestar o serviqo) continuava a
poder ser reivindicado, ainda mais por
contar corn uma decisto a si favoravel da
lavra dajuiza Rosileide Filomeno, a mes-
ma envolvida em den6ncias de trafico de
influ&ncia a partir de grava96es feitas pela
Policia Federal. A quebra unilateral de
contrato devera ser cobrada em juizo, corn
as multas e indenizaq6es previstas.
Se essa situaqao perdurara, nao con-
tando nem mesmo cor a prorrogaqio
adotada no final de 2006 para vigorar at6
31 de dezembro de 2007, mais fortes se
tomarao as razies que a TV Liberal po-
dera usar se recorrer a via judicial para
definir o contencioso. A hist6ria, que ja
era torta, a cada tentative de correqao ou
retoque fica cada vez mais torta. Alias,
essa 6 uma das marcas do atual governor.


Jornal Pessoal QUINZENA JANEIRO DE 2008







COME;O
Romulo Maiorana chegou a
Bel6m exatamente no dia 3 de
julho de 1953, quando a cida-
de se preparava para abrigar
o Congress Eucaristico Na-
cional. Do aeroporto de Val-
de-Cans, o director da Duplex
Publicidade seguiu direto para
a redaCgo da Folha do Nor-
te, acompanhado do s6cio,
Nelsindo Valenra, que o an-
tecedera na nova praqa (que
viria a se tornar seu domicilio


definitive). Tinha press em
anunciar que sua empresa ins-
talaria na capital paraense as
mesmas places de sinalizagio
que ji colocara em Fortaleza,
no Ceard, de onde viera. A
autorizaqao fora dada pelo
governador Alexandre Za-
charias de Assumpcao, mas
o servigo nao oneraria o era-
rio: a receita da Duplex viria
da venda de andncios nas pla-
cas, que ficariam nas paradas
de onibus.


FOTOGRAFIA

Lojista


Sete anos depois da chegada de Romulo Maiorana a
Bel6m, era assim que se apresentava, em 1960, a primeira
loja da rede que formaria nos anos seguintes, a RM
Magazine Jodo Alfredo. Uma das suas inovagoes era o
piso, cor o dernier-cri da epoca, o Vulcapiso, que, aldm
da aparencia agraddvel, era "de fdcil adaptagdo,
rigorosamente talhado, em cores diversas e bonitas, e
perfeitamente lavdvel e de extrema resistencia contra
desgaste", como dizia a propaganda (antecipando o
merchandising. 0 que distinguia a pequena loja era a sua
funcionalidade, que atraia os fregueses.


MEMORIAL DO


Romulo se tornaria depois
colunista social da Folha e
viria a adquirir o pr6dio e o ti-
tulo dojornal 20 anos depois,
na escalada do seu imp6rio de
comunicaq~o, iniciado em
1966, cor a aquisiqgo de O
Liberal.


BALE
Em 1955 Augusto Rodrigues
realizou o V Festival de Bal-
let do seu Conjunto Coreogrd-
fico, o mais important da ci-
dade. Bailaram nesse ano no
palco do Teatro da Paz: Nel-
ma Age, Lays e Yeda Farah,
Elisa e Beatriz Kup, Nizete
Sampaio, Julieta Cunha, Hel-
ga Sofia e Maria Helena Pe-
reira. Era o fino.

LIVRARIAS
Ainda em 1955, Rainero Ma-
roja lanqou seu romance Azar,


que ficou a venda em sete li-
vrarias: do Estudante, Moder-
na, Clissica, Contemporinea,
Carioca, Loyola e Papelaria
da Moda. Talvez houvesse
mais livraria do que hoje, meio
s6culo depois.

PROCURA-SE
Sob o titulo "Pede-se", a Fo-
lha do Norte
publicou, em
1955 mes-i -j
mo, o seguin-
te andncio: "A
pessoa que aco-

uma pequena de 15
a 14 anos, de cor escu-
ra, forte, a fineza de avi-
sar a rua Padre Prudin-
cio 340 pr6ximo ao Largo
da Trindade, de onde a mes-
ma fugiu".
Retrato da 6poca.


8 JANEIRO DE 2008 IQUINZENA Jornal Pessoal


~~









COTIDIANO


Carednho
Cr$ 5,00
Canudlnho
Cr$ 20,00
Pastels
Cr$ 25,00
Empadas
Cr$ 25,00
Unlras
CrS 35,00
Qulbp
Cr$ 35,00
DeUcklso
Casaulnho
de
Caransuejo


.LANCHONETE


FTkZANO


RUA MANUEL BARATA, 713
EM FRENTE A PALMEIRA
(Sempre aos Domingos E. 9535)


PROPAGANDA

A lanchonete
0 Fazanofoi uma das primeiras mlichonaeies
modernas de Bel'm. Ficava em frente a imensa
Paleiria, na rua Alanuel BaraLa (onid e hoje o
buraco uniic'ipal). A despivporpdo entire o
estabelecinmento mais aitigo e o maiis rnoo tdva
uma media de como o avango no lempo ocorreu
paralelamnene a um encollimento na qualidade.
Afesmo assimn. fazia-se unm lance pra ld de decent
no Fazano: eram bons canudinhos, pasieis,
entpadas, unihas, quibes e casquinhaos de
caranguejo, alem dos products nais convencionais,
comno .anduidches e sundaes. A cidade crescia, Imas
(inda mantinha sua identidade corn o passado.
Lameniando o que passoLu, e verdade.


Para que nao pairem divi-
das, como a que me foi suscita-
da, ressalto: Tito Barata foi o
autor do convite para minha
participaqlo no seu antol6gico
program de entrevistas na TV
Cultura, Roda de Fogo, duran-
te o qual Almir Gabriel pratica-
mente se relancou candidate e
fez revelacqes atd entao in6-
ditas sobre fatos que o leva-
ram a abandonar a dispute para
a prefeitura de Bel6m, um ano
antes, de forma surpreendente
e misteriosa. O contato a que
me referi na matria de capa da
ediqAo anterior, corn uma pes-
soa ligada ao ex-governador, foi
a margem do program, uma es-
p6cie de sondagem sobre o que
se poderia esperar de mim. Con-
tato que me levou a ter com o
entao senador uma conversa
antes de entrarmos no est6dio
para participarmos do progra-
ma comandado por Tito.
Tamb6mjamais pretend in-
sinuar (estas coisas eu nao in-
sinuo: digo claramente) que
Tito chamou o intervalo para
favorecer o entrevistado, ou


Nas festas do Top-Set de Al-
berto Mota, a partir das oito da
noite de domingo, no ultimo an-
dar do edificio Palacio do Radio
(sede do Autom6vel Clube), nos-
sos olhos adolescents corriam
atris das meninas. Inevitavel-
mente, acabdvamos dando corn
Walt Ramoa. Era para ele que se
dirigiam muitos dos olhares fe-
mininos. A voz e a estampa Ihe
garantiam a condiqgo de gala.
Oito anos mais velho, ele j esta-
va na condiq~o de home, en-
quanto n6s navegAvamos nessa
direq~o. Por isso o admirivamos,
invejivamos e, as vezes, detes-
tavamos. Como quando a garota
visada s6 tinha olhos para ele. O
jeito era aceitar a desigualdade e
curtir as musicas que ele inter-
pretava. Literalmente.
Quatro d6cadas depois, Walt
Ramoa se apresenta em casa, atra-
ido pela sua foto e o registro da
sua atuag~o, que fiz na Mem6ria
do Cotidiano. Trouxe trns CDs
que gravou, alguns deles precio-
sidades daqueles "anos doura-
dos". Walt soltou seu vozeirio
numa das fases mais importan-
tes da mdsica brasileira, na tran-


porque algudm o pressionou a
tal, ou que houvesse algum
acerto de bastidores para pou-
par o senador tucano. Tito
achou que a situaqio estava fi-
cando inc6moda para todos,
inclusive e, sobretudo o te-
lespectador, e receou um con-
fronto mais pessoal, fora de
control. Nio partilhei esse en-
tendimento, como nao o acato
at6 hoje, mas respeitei a deci-
sdo de Tito, o responsivel pelo
program e quem Ihe dava o tom.
Feito o intervalo e restabeleci-
do o modus vivendi entire as
parties, faltou clima para uma
nova investida, que af, sim, se
transformaria num gesto de in-
civilidade ou de teimosia.
Alias, a TV Cultura bem que
podia produzir um CD reunindo
as entrevistas do program Roda
de Fogo. Elas s~o verdadeiro do-
cumento hist6rico, hoje cor cer-
to tom de saudosismo. Ja nio
ha programs de entrevistas tio
acesos na televisao, como os
daquele period na Cultura, que
conseguiu ser realmente um f6-
rum mais pluralista.


siqio da era dos boleros e sam-
bas-canq6es para a bossa nova
e a MPB. Brilhou nos dois mo-
mentos. Na primeira fase, corn sua
voz lembrando Anfsio Silva,
cheia de trinados e modulaq6es.
Na segunda, se aproximando de
Dick Farney, no estilo mais inti-
mista, contido e sincopado. Bri-
lhou nos dois moments, como
mostram as gravaq6es, algumas
da 6poca do charmoso Grande
Hotel, outras do Top-Set, jA pas-
sando da metade da d6cada de 60.
Foi um presentlo do grande
crooner da orquestra de Alberto
Mota (e de Os Musicais, em se-
guida). Por que nio dividi-lo corn
o p6blico em geral, sobretudo
com os senhores maduros dos
nossos dias, que certamente
gostariam de voltar a ouvir a voz
grave e doce de Walt? Simples:
basta colocA-lo de novo no estd-
dio para novas gravaqaes e re-
masterizar (ou digitalizar) as que
eleji tem, produzindo um belo e
hist6rico CD, representative de
uma fase da hist6ria de Belem
que nao temos o direito de es-
quecer. E, pelo contrArio, ganha-
remos em prazer por lembrar.


Jornal Pessoal / QUINZENA JANEIRO DE 2008 9


ESCLARECIMENTO


A VOZ DE OURO








ABAETETUBA (1)
Ia escrever para comentar o
fato da manchete de capa da
edigio do JP da 1a quinzena de
dezembro, o caso da menina,
falar da minha revolta, de como
a terra sobre a qual escrevo
(Abaet6 do Tocantins) nao exis-
te mais. Mas tive vergonha.
Lamento muito. O que houve
aqui 6 somente mais um fato
dentre os lamentaveis que ocor-
rem na Amaz6nia, entregue ao
banditismo e a corrupqao. Eis
outro: uma mulher, moradora
aqui num rio na regiao das ilhas,
recebeu R$ 3 mil pelo pagamen-
to da venda de um motor. Ficou
com medo de guardar esse di-
nheiro em casa pois os nossos
rios estao infestados de pirates
e foi pedir ao pai dela que o
guardasse. O pai disse para ela
nao ter medo e mandou que vol-
tasse para casa. A noite, ela foi
visitada por pirates encapuza-
dos que reviraram a casa e rou-
baram o dinheiro. Quando eles
iam fugindo na ponte, ela, re-
voltada, apanhou a espingarda
da casa e deu um tiro em um
deles, que caiu morto. Os ou-
tros fugiram. Quando os vizi-
nhos vieram acudir e tiraram o
capuz, ela constatou horroriza-
da que o pirata era seu pal. Fi-
cou em estado de choque e mu-
dou-se para Abaetetuba, onde
vive atormentada.
Num lugar onde os valores
humans estao desse jeito,
como ter esperanca? NMo 6 uma
questao de justiqa, direitos hu-
manos, coisas desse tipo. E algo
de ruim corn a humanidade, vio-
lentada pelo capitalism e pelo
desejo de consume a ponto de
esquecer o amor entire pais e fi-
Ihos. A lei passa a ser a do cHo, o
vale tudo para se conseguir o
que se deseja. Esses sao os dra-
mas da Amaz6nia... Quem pensa
que a mais terrivel
viol8ncia esta nas grandes
cidades 6 porque nos grotbes a
grande imprensa nao chega e a
da capital paraense esta entregue
a interesses outros que nao noti-
ciar o horror da ocupagqo da
Amaz6nia pelo bwana.
Que voc8 tenha um natal de
paz e um 2008 abenqoado. Que
o ano que chega nao seja como
o Ambrose Bierce descreve: 365
sucessivas decepq6es. Abra-


qos, cor amargura, mas since-
ros em desejos de paz e amor.
PS -Arefer6ncia simb6lica ao
"Bico da Chaleira" 6 perfeita. A
chaleira social jd ferve hd tempo
e aproxima-se da ebuliqao tumul-
tuada, como dizemos na quimica.
Outro simbolo: a desordem do
transito em Abaetetuba 6 sinal da
desordem social e institutional
que toma conta da cidade.
Jorge Machado
Abaetetuba PA

ABAETETUBA (2)
Estava ansioso para conhe-
cer sua visao da hist6ria horri-
vel desta mocinha abusada du-
rante quase um mes por pesso-
as cor quem compartilhava uma
c6lula policial em Abaetetuba,
PA. Como j esperava: seu texto
me fez entender melhor o acon-
tecido e seu context local.
Meus parab6ns tamb6m para L.
A. de Faria Pinto pelo excelente
desenho que ilustra muito bem
a situaqao da moqa e a atuaqao
das autoridades.
Recorreu-se ao program de
proteqao a testemunhas. Acho
que foram incluidos a moqa, sua
mae, seu padrasto e o ex-preso
que denunciou o caso. Correto?
Parece-me que o program de
proteqao a testemunhas 6 um ins-
trumento pesado e caro, ao qual
apenas se recorre tratando-se de
poderosos grupos do crime or-
ganizado. Pois, seu uso talvez
sugira a existencia de algo bem
maior, um esquema de colabora-
qao entire press e guards (e
sabe-se quem mais dos poderes
do estado e municipio). Agora dd
para entender que os policiais en-
tregaram a moqa como presenti-
nho sexual aos press. (Deveri-
am ter sabido perfeitamente que
isso 6 illegal, mesmo executando
ordens legais. Para disfarqar cor-
taram o cabelo da moga e, mais
tarde, mandaram-na fugir.)
Para minha surpresa, as fon-
tes atrav6s das quais acompa-
nhei o assunto (TV Globo, Veja,
Folha de Sao Paulo, JP) nao fala-
ram dessa (provdvel) cooperalao
entire criminosos presss e nao
press) e policiais. Minha inter-
pretagao estd errada? Onde?
A cooperaqao criminosa en-
tre press e suas guards nao 6


tdo incomum, como mostra uma
noticia recent.
Jo~o Le~o
Manaus AM

MINHA RESPOSTA
0 JP apontou essa promis-
cuidade, que sugere a existen-
cia (ainda ndo provada) de
acordo entire press e policiais.
E o aspect estritamente polici-
alesco mais grave do enredo, a
exigir apuraqdo.

ABAETETUBA (3)
Estava indeciso se fazia uma
breve nota abordando o caso
da menor L.S.P., publicado no
Jornal Pessoal n. 406 (matdria
de capa), ou sobre os 61 anos
dojornal dos Maiorana (JP n.
405), quando comprei o dltimo
exemplar do Jornal Pessoal,
trazendo na seqao "Cartas ao
Editor" a correspondencia elu-
cidativa e "realista" do senhor
Francisco Edson, optei pela
primeira hip6tese.
Inicio o parigrafo condenan-
do veementemente os atos dele-
t6rios praticados por homdncu-
los despreziveis homiziados nes-
ta sociedade, attitude certamente
assumida por todas as pessoas
de bem deste pais. Do mesmo
modo, rejeito a celeuma e o alari-
do national que se formou em
torno do assunto. E um lugar co-
mum um bordao, se quiserem -
mas todos n6s sabemos da fragi-
lidade do sistema correctional (e
nao 6 s6 material). A precarieda-
de dos presidios, prisbes isola-
das e delegacias 6 uma realidade
de fato degradante. A superpo-
pulaqCo, a escassez de alimentos,
a absolute falta de higiene propi-
ciam a troca de atos promiscuos
entire os detentos, daf a degene-
ragao final a que se chegou, mas
que, obviamente, nao foi o pri-
meiro event. Noticias posterio-
res confirmam a existencia de ca-
sos no Pard e nos outros Esta-
dos da Federacao. Mesmo assim,
ningu6m pode, de forma alguma,
ignorar essas car8ncias e suas
conseqtiUncias perversas. As
vezes os executives prisionais
nao tem opq6es e seus superio-
res conhecem essa rotina.
Cd para n6s, foi corn muita
hipocrisia, seguida de baita tea-


C L I 10 3 ,-1 l'IT r l1


JANEIRO DE 2008 I" QUINZENA Journal Pessoal


tralidade e exibicionismo, que as
autoridades, principalmente
aquelas "de fora", trataram e es-
tao tratando do assunto. Os de-
putados da CPI CarcerAria, da
Camara Federal, acham que so-
mos todos uns pervertidos por
abonar de forma indireta o des-
virtuamento dos costumes. Des-
figurados, no meu entender, sao
eles, que, eleitos pelo povo, se-
quer legislam e fiscalizam o exe-
cutivo, antes tratam de seus in-
teresses particulares e dos gru-
pos aos quais pertencem. Gaze-
teiros contumazes, mas embol-
sam mensalmente cerca de
R$100.000,00.
Ojudiciario por sua vez, corn
a lentidao sobejamente conhe-
cida, perde-se nos aranz6is in-
ternos, cor leis obsoletas e re-
gulamentos conflitantes (con-
forme acentua o missivista Fran-
cisco Edson), tudo isso entra-
nhado num cipoal burocratico
sem fim, torna-o inoperante para
julgar ages criminosas de na-
tureza diversas que crescem as-
sustadoramente em todas as ca-
pitais brasileiras.
De todas as terriveis agruras
porque passamos (al6m da finan-
ceira), os grandes jomais (JP ter
denunciado) limitam-se a forne-
cer somente as noticias bombis-
ticas que vendem o seu produto.
Ndo ha reportagens critics e re-
flexivas capazes de ajudar a po-
pulacqo a discutir e encaminhar
propostas concretas para a solu-
qao de suas pendencias nas are-
as de educaq~o, seguranca pu-
blica, saide, etc.
Rodolfo Lisboa Cerveira

INSENSIBILIDADE
O JP, por meio de teus arti-
gos oportunos e quase sempre
inicos quanto a abordagem de
certos assuntos, me deixa angus-
tiado. Todavia, 6 uma angustia
que me faz bem, que me agua o
espirito solidario. E pena que
cada vez mais verifico que o ego-
ismo se propaga sob diversas for-
mas, revelando uma insensibili-
dade que contradiz o ser huma-
no. Tenho a impressao de que a
humanidade caminha para outra
esp6cie, A semelhanqa de rob6,
que s6 faz o que estA programa-
do. O pensar estd fora do cotidi-
ano e os gestos de amor estao
cada vez mais formais.
ArmandoAvellar








Escandalos prosseguem.


E a vez do judiciario?


Os escandalos nao acabam em pizza no
Brasil: terminam mesmo 6 em samba. Consi-
derando esse element do inconsciente co-
letivo, um editor de O Estado de S. Paulo
colocou um antncio da Radio Eldorado no
alto da primeira pdgina dojomal para substi-
tuir uma mat6ria censurada pelo governor (que
mantinha um censor de plantao na redaqao)
sobre a rendncia de um dos ministros do go-
verno M6dici (Cime Lima, da agriculture), que
deixava o cargo rompido cor o sistema, em
1973: "agora 6 samba", dizia a peqa, em letras
garrafais. Ou seja: suspenda-se a seriedade,
estamos no reinado de Momo, primeiro e dni-
co. Tudo 6 folia e gandaia.
O pais ainda 6 apenas samba quando se
trata de escandalos pdblicos? E a impressao
que fica no povo, autor de um ditado duro,
triste e realista, sobre os tres "pes": s6 vai
para a cadeia pobre, preto e prostitute. O cri-
me de colarinho branco continue impune. Os
"mais iguais", porque sao todos brancos,
acabam por se entender. E tudo volta a ser
como dantes no quartel de Abrantes.
Os escandalos, que se multiplicaram no
executive e no legislative, agora estao pipo-
cando na seara dojudiciario e em torno dele.
Por diferentes motives, uns consistentes,
outros usando o formalismo como argumen-
to de defesa, nao receberam ainda uma res-
posta adequada ou satisfat6ria. A opiniao
piblica espera que, encerrado o recesso do
final de ano, comecem as providencias. Como
em relaqio ao iltimo desses epis6dios, cor a
divulgaq o de gravaq6es telef6nicas feitas
pela Policia Federal no Pard durante a opera-
gAo Remora, em novembro de 2006, cor du-
raqio total de seis minutes.
Nao ha prova conclusive, por enquanto.
E precise submeter os indicios ao process
regular de apuraqgo, que inclui o amplo direi-


to de defesa dos acusados, mas a gravidade
do tema requer urgencia nas iniciativas. Ain-
da mais porque as gravac6es, depois de te-
rem perdido o sigilo que tinham na justiqa
federal, tornando-se acessfveis aos que con-
sultem os autos, foram divulgadas por verea-
dores da Camara de Bel6m, prejudicados por
decis6es da principal autoridade apontada
nessas gravaq6es. O nome dajuiza da 3" Vara
do f6rum civel da capital, especializada na
fazenda p6blica estadual, Rosileide da Cu-
nha Filomeno, foi usado em tratativas visan-
do a troca de sentenqa por suborno e favore-
cimento para ascensao ao
desembargo no Tiibunal de l
Justiqa do Estado (TJE).
O que aumenta a impor-
tancia do material 6 a presen-
qa, nas conversas telef6ni-
cas, do empresario Joao Ba-
tista Ferreira Bastos, mais
conhecido por Chico Ferrei-
ra, que foi preso em novem-
bro de 2006, junto cor Mar-
celo Gabriel, filho do ex-governador Almir
Gabriel. Ambos foram acusados e press pela
Policia Federal como formadores de uma qua-
drilha, que superfaturou contratos pdblicos
durante os oito anos da gestao de Almir e se
manteve em atividade nos quatro anos se-
guintes de Simdo Jatene.
Chico Ferreira tamb6m foi, logo em segui-
da, preso e condenado pela justiqa paraense
a 80 anos de prisio pelo assassinate dos ir-
maos Ubiraci e Uraquitan Novelino, aos quais
devia cinco milh6es de reais. Parte do dinhei-
ro pode ter sido aplicada em campanhas elei-
torais em 2006 e em outros neg6cios de Chi-
co, em algum deles talvez at6 em parceria corn
Marcelo Gabriel. E uma complete improprie-
dade incluf-lo na trama que resultou no as-


NATAL


Recebi e retribuo as mensagien- de
'nm de ano de Reginaldo Forii. Adrinno e
Elemni Guglielmo. Nelson Tembra. Alcoa.
\'jle. LUGT. lrcelo Gil Ca.ielo Branco.
Alunorte. temple. Agropalni. \ale. Rom-
mel Bezerra. re ikia Ecp-2 nMarci An-
dijde. Boiiempo Olga. Editorial. Brick-
mnnn & A;ssocidos. Jojqulm Lira NMaRe.
\era e Fernando Castro. Bernadele Sou-
lo. Clara Lenmo,. Luiz Eg. prode Cerquei-
ra. Heloisa Bellini. Bethinia Meirelles.,
Antonio Jinkings. Cristina Moreno. Ta-
linaj de Abreu Si. Ro'al\ Brio. Paulo
Olbieira. Juarez Regis. Jorge O&car Mi-
randa, Carlos MNarins. Fernanda \as-


ques. Milena Vale. Consernaiio Inter-
naicional. Roberto Garnma e Sil\a. Urua-
TaperaFrian.sinete Florenzano. Jose
Nlari Bassalo. Guilherme Si-cu. Cassan-
dra Pamplona. base. Agenicia Linama.
Guilherme Car\alho. Alba e Nlano Her-
me,. Ana Hage. \ ailer Pomjr. Paulo Sil-
'a de Castro. Alcoa. \\alter Jr., Joti Ni-
nos, Marluce Sil a. Jiunna Martins. Lu-
clano Salgado Campos. Paulo \ieira.
Hello Nlairat Tnij Mlendes. Mauro
Furlan. Rose Silkeira. Roasna Cha\es. Jo-
hannes \an Lee'en, Claudia Leijo. Ed-
son Gillet Bra.,il. Mariana Gorenqsem.
MNrcia Andrade, Na and Feio.


sassinato, mas nao 6 impossivel que, atrav6s
de linhas pontilhadas e redes cruzadas, a teia
o alcance. No por assassinate, como e o caso
do s6cio, mas por andar em tal companhia.
Na gravagqo corn implicaC6es mais graves,
uma voz identificada como sendo o marido ou
parent da juiza garante para Chico Ferreira
que o assunto do interesse dele "estara resol-
vido", bastando que se comprometa em "falar
cor o dr. Almir" (na 6poca no governor) so-
bre a "vaga de cima", de desembargador, que
estava em dispute. O interlocutor do empre-
sario ainda Ihe aconselha: "va la [presume-se
que ao gabinete da desem-
bargadora] na segunda-fei-
ra, junto cor o Cl6vis [ir-
mdo de Chico], tome um ca-
fezinho corn ela, consiga seu
document, ouga os pedidos
dela e atenda; voce nao vai
Sperder mesmo".
S..". O empresArio nao foi,
S mas seu irmao compareceu
ao gabinete. De hl, telefonou
para informar que tudo "esti sendo resolvi-
do". Cl6vis pediu entdo para Chico Ferreira
procurar a juiza para tratar de um "assunto
importante. Em outra conversa, o empresa-
rio e algu6m que se identifica como Euldlio
comemoram a decision da juiza de conceder
liminar ao Conselho Regional de Administra-
9go, cancelando uma licitaqgo requerida pela
entidade. Antes de desligar, os dois comen-
tam que as coisas "comeqaram a melhorar".
Ha outra conversa comprometedora de Pau-
lo, o suposto marido ou parent da juiza liga
para Chico Ferreira do gabinete de Rosileide
Filomeno no Tribunal Regional Eleitoral, onde
ela tamb6m atuava, para antecipar uma decision
favoravel ao prefeito de Igarap6 Aqu, Vicente
de Paula Pedrosa, do PMDB. Depois, volta ao
tema: quer saber se "aquele esquema morreu,
nao tem mais nada". Cl6vis responded prome-
tendo que ira "falar cor o homem, seu irmao.
Paulo insisted para ele dar um toque e ver se "vai
cover mais alguma coisa na horta".
O president da Camara Municipal de
Bel6m, vereador Jos6 Wilson Aradjo, mais
conhecido como Zeca Pirdo, e a vereadora
Marinor Brito, que participaram da difusao
das gravacqes, requereram de imediato a Cor-
regedoria do TJE e ao Conselho Nacional de
Justiqa o afastamento da juiza do cargo en-
quanto a dentincia estiver sendo investiga-
da. Mas o pr6prio CNJ jd havia instaurado
procedimento administrative e intimado a
magistrada a apresentar sua defesa pr6via. 0
Tribunal de Justiqa do Estado devera adotar
providencia semelhante agora, ao final do re-
cesso de fim de ano. A juiza ainda nao fez
qualquer manifestaqdo piblica. Enquanto
isso, o tempo decorre.


Jornal Pessoal I QUINZENA JANEIRO DE 2008 11








MINHA ARVORE

Nota 10 para a assessoria de im-
prensa da Vale no final de ano.
Conseguiu me surpreender, me
fazer sorrir e at6 me emocionar
cor sua gentileza. Dentro de um
envelope, recebi uma fotografia
emoldurada (cor fibra de casca
de arvore prensada, presumo) e
um cartao anunciando: entire as
arvores plantadas pela empresa
no mes passado na Floresta Na-
cional de Carajas hi uma cor o
meu nome. Ela fica numa area de
seis mil metros quadrados onde,
at6 2002, funcionou a mina de
arenito. Desativada, virou local
de preservaqdo.
A Vale anuncia no cartao que,
nos iltimos 12 meses, "aumen-
tou em 76% seus investimentos
em meio ambiente", ajudando a
preservar 3 bilhies de arvores ao
redor do mundo, "no maior pro-
grama de revegetaqao e preser-
va ao ambiental da Am6rica La-
tina". A meta 6 plantar mais 346
milh6es de arvores "em todos os
pauses onde atuamos".
A iniciativa renova a confian-
qa na manutenqlo de uma rela-
q&o civilizada e respeitosa cor a
empresa, que esta sempre na mira
da minha atenqao. Meu objetivo,
ao acompanhar cor rigor as ati-
vidades da Vale, 6 exclusivamen-
te bern informal o public e aten-
der os interesses do meu Estado,
da minha regiao e do meu pafs,
em sintonia cor o avanco da
humanidade, sempre que tal com-
binaqao de pianos 6 possivel (de-
sejavel, sempre 6).
Quem me conhece dentro da
Vale sabe muito bem que o Jor-
nal Pessoaljamais estara a ven-
da. A inica coisa que quero e
informaqdo. Analisando-a, pro-
cessando-a e repassando-a A so-
ciedade, ou devolvendo minha
cobranga para dar-lhe credibili-
dade, cumpro minha func o. Nao
adianta adotar qualquer das t6c-
nicas de compra ou seduA.o do
marketing. Mas uma iniciativa
como essa, que me coloca sim-
bolicamente present no "cora-
9:o da Amaz6nia" (titulo que dei
ao meu primeiro livro sobre Ca-
rajas, publicado em 1980), me co-
move olimpicamente. Sabemos,
o autor e o destinatario da gen-
tileza, que se trata de um ato de
cavalheirismo, recebido corn re-
conhecimento. A relaqdo entire a
pol8mica fonte de informacao e
ojornalista critic podia ser sel-
vagem, ou podia simplesmente
nao haver. Mas hd e 6 reconhe-


cida pelas parties como importan-
te para ambos e para a opiniao
piblica.
Interpreto tamb6m essa sim-
bologia como um compromisso
por parte da empresa: ao mesmo
tempo em que cuidara do cresci-
mento da arvore que plantou em
meu nome em Caraj6s (vou po-
der monitora-la pela internet),
continuara a fornecer as informa-
9qes que Ihe forem requisitadas
para ndo permitir que fenega a
arvore do conhecimento, da in-
teligencia e da dignidade huma-
na, fundada no direito a eqiiida-
de entire as parties.
Um ano de muitas arvores
frondosas e de informaqdes
abundantes para a assessoria da
Vale. E para todos n6s.


BISPO
Houve uma 6poca em que os pri-
mos circulavam pelo pais como
arautos da dignidade humana, em
nome da Igreja, o principal nd-
cleo de resistencia ao regime mi-
litar. Ambos bispos, eram admi-
rados por seu combat tenaz a
violagqo dos direitos humans
naquela 6poca. Ao cobrir suas
atividades, por6m, osjornalistas
precisavam dedicar-lhes uma pe-
quena atenq~o, para nao errar
nos nomes: dom Ivo era Lors-
cheiter; ja dom Aloisio era Lors-
cheider. Quando faziamos refe-
rencia ao detalhe, riam. Nao eram
destituidos de humor, mesmo nas
solenidades. Dom Aloisio, um
dos mais atuantes presidents
que a CNBB (Confer8ncia Nacio-
nal dos Bispos do Brasil) ja teve,
se foi na v6spera do natal, aos 83
anos. Com seu lugar garantido:
aqui e l. E na nossa mem6ria. Um
home de bern, um verdadeiro
pastor de ovelhas espirituais.


PRESS FALHA
O pistoleiro Rayfran das Neves
Sales, assassino assumido da
missiondria americana Dorothy
Stang. deverd ser submetido ao
terceirojulgamento em tres anos.
O segundo, realizado em outubro,
que confirmou novamente por
unanimidade sua condenaq~o a
27 anos de prisao, foi anulado
porque foram cometidos peque-
nos errors processuais durante a
realizacqo do tribunal dojtri. Dois
jurados que tecnicamente nao
podiam participar da sessdo e um
evidence cerceamento de defesa
constitufram as causes inquesti-
ondveis da nulidade. O impressi-


onante 6 que essas falhas, embo-
ra evidentes, tenham passado
pelo crivo da presidencia do jiri.
O m6rito da questdo esta decidi-
do, o r6u 6 assassino confesso,
mas tudo tera que ser refeito para
que haja uma sentenqa legal.
A press se revelou, mais uma
vez, inimiga da perfeiqdo. Mas
quando ha previd&ncia, ela ndo 6
inevitdvel. Talvez nem gratuita.


PRECIOSIDADE
0 Didrio do Pard reproduz, as
quintas-feiras, uma das melhores
programs de leitura que se pode
ter na imprensa. Sdo pequenos e
antol6gicos ensaios escritos por
Kenneth Maxwell, que nasceu in-
glas, se tomou americano por op-
qao e 6 luso-brasileiro por devo-
qao. O texto 6 compact e denso,
nao pelo que esta contido na meia
ddzia de paragrafos, mas pela cul-
tura que comanda a escrita. Comn
sutileza, ironia e humor (do tipo
verdadeiramente sard6nico, insus-
cetivel A dilui~go aqucarada), Ma-
xwell vai dajomalismo & hist6ria,
volta do cotidiano aos tempos pas-
sados, salpica de arte o econ6mi-
co ou politico, transit sem abalo
pelos continents e por todos os
temas, e, por fim, inocula a duvida,
suscita a incredulidade, desarruma
o bem-posto e desfaz raciocinios
cristalizados. E uma fonte de esti-
mulo permanent ao exercicio do
pensamento. Um classico em con-
ta-gotas de cristal.
Periodicamente, Kenneth
Maxwell nos brinda com livros
iluminados. Uns, de s6lida e de-
purada pesquisa, se lancam so-
bre temas da nossa hist6ria, tor-
nando-se fontes de referencia
indispensdveis sobre a inconfi-
dencia mineira e o marques de
Pombal. Outros sdo "insights"
sobre a conjuntura, na linhagem
do melhor ensaismo britanico,
que sempre me remetem a Ber-
trand Russell. Mas Maxwell nao
produz a partir de uma torre de
marfim: sempre faz incursoes aos
sitios do seu interesse intelectu-
al, inclusive Beldm do Para.
Agora que temos a preciosa
possibilidade de aprecia-lo sema-
nalmente, conv6m nao perder ne-
nhum dos seus artigos. Trata-se
de mat6ria impossivel de encon-
trar nos supermercados da praqa.


DESEQUILIBRIO
O Pard coleciona indicadores
quantitativos brilhantes e se es-
vai em indices sociais ruins ou


mesmo vergonhosos. Agora se
consolidou o que faltava: o Esta-
do ter mais homes do que mu-
lheres, que somam 3% a mais da
populaqgo. E o resultado do fa-
roeste geral em que o Pard se
transformou, atraindo aventurei-
ros, dispostos a tudo e capazes
de tudo suportar, ainda sem po-
der trazer a familia ou firma-la. Por
isso perdeu em graqa e charme. E
ganhou em tensdo.


ERRATA
A carta que escrevi para Rodrigo
Mesquita, da Agencia Estado
(verseqdo Pap6is da Hist6ria, da
ediqdo anterior), 6 de 27 de de-
zembro de 1988, tr6s dias depois
da morte de Chico Mendes, e nio
de 1989, como erroneamente saiu.




NOVO LIVRO
AItra e- de Corai ,.
Poder 2- A11,o), l
Jori'al Pet ''%l I all lti
ptti I'o tlI/1Ih (.IlIL L I i1lk)
contar capitulo, da
hiit0ria recenic do Pard
que jalmdils leriam sido
registrado,, se nIo e\iltis-
se este journal. E mosrro
C01110 JP co.'LneegtIu
recontituir eses tato. ce
au aliar o seu Mignificado
no mlesllmo mnlomenllo em
que eles aconteciam. O
li\ ro e cormpopio de
trechoes de mntaermas qul
publicudas e de um metu-
texto noo. que comenlJ.
situa e elucida o condiano
de um jornalismo i erda-
deiramenre Independenie.
que cumpre sua mlisn1o
rna11 nobre- ser umna
auditagem do powder.
Espero que os leitores
ajudem a dilundir essas
hit6orias comprando o
li ro.que
esti a ---"'"
venda da[s
bancas e
em algu- -,., .

li rarias.





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