Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00313

Full Text


BOI VAI COMER
DINHEIRO DA SUDAMPAGINA 3

oal POLITICOS FOGEM
A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO DA REDIVISAO


ABRIL DE 2007* 2*QUINZE 0


PAGINA l


POLITICAL



Quem ainda vota em Jader?


Em 1974 ojovem advogado e deputado estadualJader Barbalho era o lider inconteste
da oposi(go no Para, como lembrou o president Lula em Brasilia.
Tres decadas depois, quantos dos seus eleitores continuam votando em Jader?
Sua trajet6ria de enriquecimento pessoal engoliu seus dividends politicos.


Q Quem, no Pard, nao votou em
C Jader, em 1974?" A pergunta
foi feita, no dia 11, pelo presi-
dente Luiz Inmcio Lila da Sil-
va, durante um jantar com a bancada do
PMDB, na residencia de Renan Calhei-
ros, president do Senado, em Brasilia. O
president do partido, Michel Temer, deu
uma resposta indireta a Lula: "Jader 6 um
injustiqado. Todo mundo sabe que foi um
dos mais destacados parlamentares do
PMDB autentico e o quanto foi importan-
te para a conquista da democracia".


t verdade: s6 ndo votou em Jader
Barbalho, torando-o o mais votado de-
putado federal do Pard em 1974, quem
estava content com o regime military ou
tinha alguma idiossincrasia pessoal com o
simpitico e carismitico integrante do grupo
dos peemedebistas autEnticos (em oposi-
qao aos fisiol6gicos). Mas quantos desses
eleitores ainda votam em Jader atualmen-
te? Quantos optaram por ele nas mais re-
centes eleiqses realizadas no Estado?
O contingent original sofreu uma
profunda diaspora nas iultimas tr8s d6-


cadas. O motive apareceu, mais uma
vez, nas pdginas de Veja tres dias de-
pois do jantar do PMDB com Lula:
com grande destaque, a revista paulis-
ta acusou o parlamentar paraense de
ter utilizado um artificio legal para se
livrar de uma divida de 82 milh6es de
reais junto a 6rgdos federais, com pri-
mazia para o imposto de renda. O de-
putado comandou a transferencia da
concessdo do seu canal de television
(afiliado A Rede Bandeirantes), do am-
CONTINUA NA PAG 2






CONTINuAAO DACAPA
bito da RBA, empresa "bichada" por
seus d6bitos, para a 6rbita do Sistema
Clube do Pard, que esta saneado. Gra-
cas A manobra, habilitou-se A renova-
gqo da concessao do canal at6 2017 e
ainda deixou os credores sem garanti-
as reais para responder pelo pagamen-
to dos d6bitos. A primeira operaqao foi
aprovada pelo vice-presidente Jos6
Alencar, noexercicio da presiddncia'em
virtude de uma das miltiplas ausencias
do titular; a segunda, pelo pr6prio Lula.
Veja abriu espaqo e selecionou pa-
lavras duras para acusar o ex-ministro
de ter recebido um "presentaqo" do go-
verno petista, no valor de mais de 80 mi-
lhoes de reais, como compensaqco pelo
apoio que tem dado ao president Lula,
ainda que mais nos bastidores do que
explicitamente. Desta vez, Jader se de-
fendeu, numa entrevista a Carlos Men-
des, de O Estado de S. Paulo. Susten-
tou que a transfer8ncia da concessao
nao representou qualquer irregularida-
de, porque feita ao amparo de normas
legais. Nem representou uma tentative
de fuga da responsabilidade pelas divi-
das, porque os s6cios da Radio Clube
s5o os mesmos s6cios da RBA, deten-
tora at6 entdo da outorga do gover-
no. A nova'organizaqio societaria teria
sido adotada para que a RBA passasse
a figurar como holding do grupo, inclu-
indo o Sistema Clube do Para.
O resultado pratico imediato da mu-
danqa 6 a manutengqo da televised dos
Barbalho em atividade. Sem a reorga-
nizaqao, a RBA estaria ameaqada de
ter as suas atividades suspensas por
sua inadimpl8ncia junto a Receita Fe-
deral, INSS e FGTS. E tamb6m de per-
der patrim6nio no caso de execugqo da
divida, que soma R$ 82,4 milhoes. Mas
os credores poderao continuar a bus-
car ressarcimento, s6 que agora por vias
mais tortuosas, aproveitando-se da so-
lidariedade dos s6cios, mesmo com o
remanejamento dos d6bitos de uma
empresa para a outra, jd que Jader, a
ex-esposa e os filhos aparecem como
cotistas de todas elas.
O artificio pode ser caracterizado
como fraude ao credor? Essa a uma
questao para os especialistas responde-
rem, mas as respostas nessas deman-
das dificilmente sao obtidas com rapi-
dez ou clareza (por isso mesmo hi os
especialistas, advogados que costumam
cobrar caro para transitar nas lacunas e
obscuridades legais). De qualquer ma-
neira, se houvesse fraude, o president,
o vice-presidente e o ministry das Co-


municacqes poderiam at6 ser alcanca-
dos pelo crime de responsabilidade; em
outra situaqio, por uma capitulaqao mais
grave ainda.
Essas quest6es nao sao tdo simples
como foram apresentadas em Veja.
Tanto a revista quanto Jader estao di-
zendo a verdade, mas nao toda; e ocul-
tando mentiras, mas nao com pleno
sucesso. As zonas cinzentas existed e
6 por elas que os advogados transitam
para firmar uma ou outra posiqgo, sem-
pre corn fundamento legal (ou nao), em
socorro de seus clients. Entre a lei e
sua transgressao costuma haver mais
coisas do que pode imaginar a filosofia
de rua do cidadao com seu problemiti-
co senso comum.
Inegavelmente, por6m, a administra-
qao federal foi condescendente com Ja-
der, para dizer o minimo: providenciou
uma ripida tramitaqlo dos seus inte-
resses, consumados em um semestre,
e ignorou as restriq6es potenciais A
transacao, corn 6nus para o interesse
pdblico (e, sobretudo, o eririo), em be-
neficio do maior grau possivel de tole-
rancia legal. Fez vista de ingl8s e ouvi-
do de mercador para tender o aliado.
Nao faria o mesmo cor um adversirio
ou um desconhecido.
Esses favors sempre foram con-
cedidos a empresas jornalisticas ami-
gas e a parceiros politicos. A Editora
Abril ji recebeu varios desses presen-
tes e outros "capitaes da imprensa",
tamb6m. Alguns mais destacados e
com presents bem mais cars do que
o ex-governador do Pard. Mas por que
sempre Jader?
Tendo feito muito menos e com me-
nor poder ofensivo, ele incorporou a ima-
gem do ex-governador paulista, o etemo
candidate a president Ademar de Bar-
ros, celebrizado pela frase "rouba, mas
faz". Quando, em qualquer lugar do pais,
o inconsciente coletivo vaga atras da ima-
gem do politico corrupt, inevitavelmen-
te encontra Paulo Maluf ou Jader Bar-
balho. Outra vez a grandeza de Maluf
deveria reservar a Jader um lugar secun-
ddrio, mas isso nao acontece: os refleto-
res da acusaq~o se dirigem cada vez com
mais insistencia sobre o politico paraen-
se, ou ao menos nao na proporao de seus
ativos mal explicados.
O problema nao 6 tanto nem s6 -
a falta de origem certa e clara para o
patrim8nio acumulado por Jader, um
mal ativico na classes political (e epid6-
mico entire empresarios). O que torna
sua situaqco especial 6 seu investimento
em um grupo de comunicaqao. Poucos


politicos foram tao bem sucedidos nes-
se tipo de neg6cio quanto ele. Alguns
politicos logo se desligaram do setor.
Outros mantiveram seu imp6rio da mi-
dia, mas sairam da militancia political,
como o paulista Orestes Qu6rcia, cuja
image e carreira sao freqiientemen-
te associadas a Jader (e, de certa for-
ma, o precederam). Para o grupo do-
minante da corporaqao jornalistica, o
deputado federal do PMDB 6 uma com-
panhia inc6moda e um concorrente
que conv6m afastar.
O sucesso como politico e empresi-
rio fez Jader superestimar a pr6pria ca-
pacidade e subestimar seu ba6 de difi-
culdades. Esquecendo o amplo telhado
de vidro e o extenso rabo de palha, con-
frontou um par muito mais poderoso, o
baiano Antonio Carlos Magalhaes, e o
derrotou na mediq~o pessoal de forqas.
Mas foi de Pirro a vit6ria que conquis-
tou. A partir dela, acumulou derrotas nos
seis anos seguintes. Alguns revezes,
como a rentincia ao cargo de senador e
a prisao pela Policia Federal, derrotari-
am uma pessoa comum. Mas Jader tem
resistido ao arquivamento e a aposenta-
doria compuls6ria. Continue tentando re-
cuperar ao menos parte do poder que ja
teve. E umjogo arriscadissimo, confor-
me o constant recrudescimento de ma-
t6rias na grande imprensa atesta. At6
quando ele resistira? Qual 6 o seu obje-
tivo nessa luta?
Os observadores mais bem informa-
dos nao tnm d6vida de que o ex-sena-
dor jamais voltara A linha de frente na-
cional. Estigmatizado, s6 se manteri
vivo em papel secundirio, atuando nos
bastidores. Sera alvejado nao s6 quan-
do se colocar para fora dessa area de
confinamento, mas tamb6m quando for
interessante alvejar por ricocheteio a
quem estiver servindo. A iltima mat6ria
de Veja parece visar menos o pr6prio
Jader do que Lula, constrangendo o pre-
sidente a receber uma resposta inespe-
rada (e desagradavel) A pergunta que
fez no jantar na casa do president do
Senado. E a engolir a resposta como um
sapo, de razodveis proporoqes.
Jader Fontenele Barbalho foi escul-
pido pela imprensa como o mais exem-
plar batrdquio da desastrada fauna dos
politicos que tiram vantage pessoal
atrav6s do exercicio desmesurado do
poder que tem. Mesmo que, de fato, nao
seja tudo isso, nem o conteido das acu-
saq6es seja exatamente o que parece,
nao interessa: Jader 6 o anti-teflon. Tudo
que jogarem contra ele, cola. Ao que
parece, vdo jogar sempre.


2 ABRIL DE 2007 2" QUINZENA Jornal Pessoal








Dinheiro Sudam:


o boi vai comer?


O juiz federal de Altamira, Her-
culano Martins Nacif, provocou
um novo impact national corn
mais uma decisao polemica. Ao
sentenciar 17 processes propostos
pelo Minist6rio Piblico Federal
contra diversas pessoas acusadas
de desviar 58 milhies de reais (va-
lor nao atualizado) da Sudam, atra-
v6s de fraude na aplicaqgo de re-
cursos dos incentives fiscais em
projetos incentivados, o juiz deci-
diu extinguir os feitos sem julga-
mento do m6rito. Alegou que o
MPF nao tinha legitimidade para
proper as aq6es, por improbidade,
porque em nenhuma delas ha ser-
vidores pdblicos federais envolvi-
dos, apenas particulares. Se preva-
lecer o entendimento do juiz sin-
gular, o dinheiro pdblico desviado
dificilmente poderA ser ressarcido.
Essa possibilidade se tornard
mais remota porque a extinqao dos
processes, se confirmada na instan-
cia superior, desbloqueard de ime-
diato os bens dos empresirios en-
volvidos nas demands, apontados
nos inqu6ritos como responsAveis
pela mi aplicaqao dos recursos a
eles repassados pela Sudam para a
implantaqao de empreendimentos
econ6micos, na irea da Transama-
z6nica, no Pard. O bloqueio dos
bens, atrav6s de medidas cautela-
res anteriormente concedidas pela
justiCa, juntamente com a quebra
do sigilo dos acusados, visava ga-
rantir a devolugao do dinheiro pui-
blico, no caso de sentenqa conde-
nat6ria. A partir da ratificacao da
decisao do juiz de Altamira, cessa-
ri essa limitaqao: os proprietirios
dos bens voltardo a dispor livre-
mente deles. Poderdo vend6-los, se
quiserem, pondo fim a garantia.
O MPF anunciou que recorrera
ao Tribunal Regional Federal para
impedir a extincao dos processes
e, principalmente, o desbloqueio
dos bens. O MPF manifestou a con-
vicq2o de que as instancias superi-
ores poderdo reverter a decisao de
1 grau, que se baseou em uma
"tecnicalidade ultrapassada", js


sem sustentaqgo jurisprudencial e
doutriniria.
De acordo cor o porta-voz do
MPF, farta jurisprudencia de tribu-
nais superiores autoriza processar
responsiveis por desvio de dinhei-
ro piblico federal, independente-
mente de haver ou nao servidores
envolvidos. Lembra que, em situa-
qao id8ntica, de process iniciado
na justiga federal do Pari, os acu-
sados de desviar verbas da Sudam
utilizaram o argument de ilegiti-
midade do MPF no Tribunal Regi-
onal Federal da la Regiao e foram
derrotados. Mas se o entendimen-
to do juiz Nacif for referendado,
quem seria a parte legitima para
processar os responsaveis pelos
desvios comprovados de dinheiro
da Sudam?
Como os processes penais con-
tinuam a tramitar contra as mesmas
pessoas pela comarca de Santar6m,
que era o foro competent antes da
criacqo da vara federal de Altami-
ra, poderi surgir uma situaqao pa-
radoxal: os fraudadores irem para
a cadeia, se condenados criminal-
mente em iltima instancia, sem
serem obrigados a devolver o que
roubaram, pela extincao dos pro-
cessos cfveis.
Isso ocorreria por um excess de
formalismo (ou formalismo supera-
do) do juiz de Altamira, ou porque
o MPF cometeu o erro de nao de-
nunciar, junto com os empresarios,
os servidores piblicos que, come-
tendo ato de improbidade (privati-
vo da carreira funcional), permiti-
ram a fraude? Como os corruptores,
que sao os empresarios, foram apon-
tados, seria de se esperar que apare-
cessem tamb6m os corrompidos, os
funcionarios da Sudam. Os desvios
s6 aconteceram porque as fiscaliza-
q5es falharam, por incompetencia,
omissdo ou conivencia, deixando
de constatar a mI aplicaqco (ou fal-
ta de aplicacio) do dinheiro pdbli-
co. No Maranhao e no Tocantins a
reconstituicao da conexao crimino-
sa foi completada. No Para, ao que
parece, nao.


ABUSO DE AUTORIDADE
S No dia 23.o gene da Policia Fede-
ral Alessandro Olieira matou um ho-
mem que praucaa um assallo em fren-
t e ao colegio onde estuda seu filhu e fe-
riu o ouiro assaltanie. No dia seguinle.
4 ficou irritado ao %er uma equipe da TV
SRecord no local para repercutiro faro da
% espera. Estaa no seu direiCo quando
Sot ale a equipe e a% isou-a de que nao
, aceitaria ser filmado. O \eto se escendia
Sao filho. Nlas a partir dai abusou da au-
toridade e agiu sem a serenidade que
Ssua fungao de policial Ihe impoe.
Nlesmo que os jornalistas njo uie,-
sern acatado o seu pedido e agido de tor-
Sma elicamenie incorrela. nada .iutlifi'ca-
riaoque aconeccu em seguida. O polici-
Sal foi para cima da equipe. quebrou pane
do equipamento do cnegrafista Edilson
SMatos ao tentar e\trair a fila. ameagou a
t codos com seu re6ov1er. algemou-oseos
le\ou press para a delegacia.
A reporter Clla Pinho. lider da equl-
pe. que reconstituu os facos. esta a aba-
lada e indignada. "Em 2.i anos de profis-
s5o. e a primeira \ez que isso aconteiL
1, comlgo. E uma humilhaiqo ququluer pro-
Sfissional sofrer uma arbitrariedade como
essa", disse. Segundo ela. no moment
do incident. os jornalisas njo %\cram
nem ocasilo de ir alem de defender-se e
ao seu material de irabalho: "nao hou.e
nenhum tipo de desacaio. e a pessoa so
foi se identificarcomo policial quando ji
esiaamos na delegacia".
L., os professionals ficaram incomu-
nicdeis e uma outra equipe da emissora
foi impedida de filmar no local. C'elia.
Edilson e Marcelo foram liberados de-
pois de seis horas. Depois. fizeram e\a-
me de corpo de delio e registraram um
boleum de ocorrencia.
Oepis6dio. por ser muito grae. pre-
cisa ser apurado com rigor e receber o
acompanhameniodo linisteno Ptiblico
e do Sindicalo dos Jornalistas. Se corn-
pro\ ado o abuso de autoridade e a \ iolen-
cia por part do agenie federal, a puniJo
emn que serir de inibiq.o ia repeni7 o
desse tipo de pra'ica. noci1a canto para a
imprensa como para a imagem da corpo-
ra o. Se os aconiecimentos da \espera
abalaram a estabilidade do policial. era
de prudencia dar-lhe um descanso e rei -
ra-lo da fungao. Aplicando o que apren-
deu na sua formaqao. o agent poderia
tentar outros meios para defender os seus
legitimos direilos de cidadao. sem preci-
sar agredir os direitos alheios, como fez.


Jornal Pessoal 2" QUINZENA ABRIL DE 2007 2








Passado condena


A goveradora Ana Jdlia Carepa cum-
priu uma missao explicit na visit que fez,
no dia 17, A "curva do S", em Eldorado
dos Carajis: reconhecer o grave erro co-
metido pelo governor do Estado 11 antes,
quando reprimiu uma manifestag~o de pro-
testo dos sem-terra, provocando a morte
de 19 deles e ferimentos em quase 60. Ha
controv6rsias sobre quem iniciou a agres-
sao e quem Ihe deu motives. Mas nao hi
divida alguma de que, ocorridas as esca-
ramucas iniciais e dados os primeiros ti-
ros, a Policia Militar fez uma execuqIo,
matando A queima-roupa e por tris.
A admissao de culpa tem a conseqii-
8ncia pritica de p6r fim A desgastante liti-
gancia judicial em tomo de indenizagqes e
pensoes para as vitimas do "massacre de
Eldorado". Para quem perdeu os paren-
tes ou ficou sem condic~o de manter a


pr6pria sobreviv8ncia, nao se trata de algo
destituido de valor. O gesto da govema-
dora, portanto, tem nobreza e 6 relevant.
Mas ele tem um residue politico: o
tema, que podia comeqar a seguir para o
arquivo, foi reavivado e requentado para
poder ser usado politicamente, inclusive
na pr6xima eleicao, a municipal. Vai per-
manecer como um cutelo pendente so-
bre a cabeqa do PSDB e, particularmen-
te, do ex-governador Almir Gabriel, o
mais graido dos personagens da hist6ria
- e o que se safou dela mais rapidamen-
te, o que sempre envolve algum tipo de
arranjo ou artimanha, sujeito a ser des-
feito a qualquer moment. Se realmente
pretend voltar A linha de frente, apre-
sentando-se como candidate a prefeito
de Bel6m em 2008, Almir vai ter que pen-
sar vdrias vezes; muitas.


Misterios da midia
Por que o grupo Liberal nao tern repercutido as iltimas investidas da imprensa nacio-
nal contra o seu arquiinimigo, Jader Barbalho?
Por que o Didrio do Pard nao reproduziu a entrevista que seu maior proprietirio, o
mesmo Jader, concede a 0 Estado de S. Paulo, defendendo-se das acusaqes da
revista Veja?
Por que 0 Liberal reproduziu a mat6ria de Veja contra Ana Julia Carepa, ao mesmo
tempo em que da passage As notas oficiais da govemadora? Morde e assopra?



0 foco da revista


Hi alguma ma vontade da revista Veja
em relagao ao Para? A dtivida caberia dian-
te de duas mrt6rias seguidas contra dois dos
principals lideres politicos do Estado, Jader
Barbalho e Ana Jtilia Carepa. Mas, eviden-
temente, a desconfianqa nao cabe. At6 pro-
va em contrario, Veja nao tern implicincia
com o Pard. Nossos politicos 6 que, por sua
qualidade, estAo sempre expostos as criti-
cas. A revista da Editora Abril estaria, por-
tanto, em mais uma cruzada civica pela me-
lhoria de um dos mais decisivos segments
da elite national? Tamb6m nao, 6 claro. A
manobra de Jader com a concessao do ca-
nal de TV fez jus A denuncia. Mas a descri-
qao do assunto e o tamanho da reportagem
guardam proporqao com o significado do
tema? Bem que a revista podia aproveitar o
mote e ampliar a deniincia a todos os donos
de empresas de comunicaqco que ja fize-
ram, estao fazendo ou planejam fazer a mes-
ma coisa ou coisas semelhantes. Seria um
bom "gancho", no qual prenderia muitos
exemplos dessa pratica.


JI quanto A mat6ria sobre a gover-
nadora, as informac6es em si sao cor-
retas, embora nem sempre caracterizem
a ilegalidade apontada pela revista. Ana
Jiulia expos um vasto flanco, que a esta
levando a ser apresentada como a rai-
nha do nepotismo no Brasil, mascara que
ja estd colando em sua image definiti-
vamente. Mas, a rigor, todas as infor-
maq6es ji haviam sido divulgadas, al-
gumas inclusive pela pr6pria revista.
Nesse caso, o objetivo principal nao
foi informar o distinto piblico, mas exe-
crar a personagem. Tudo se resume a
Ana Julia? Obvio que nao: o zoom de
Veja vai em Lula, de uma forma tal que
o jornalismo passa a ser instrument de
neg6cio. A revista faz as duas coisas, mas
a reincidencia na linguagem de panfleto
ja permit dizer que o neg6cio preponde-
ra sobre o jornalismo quando os dois an-
dam juntos. Devia ser o contrario. Mas
justamente porque a face da revista mu-
dou, nao 6 mais.


SITUA AO CRITICAL
O govemo imprimiu e recolheu uma
revista de 16 paginas, impressa em co-
res, com papel de primeira, que devia
registrar os primeiros 113 dias da admi-
nistragao Ana Jdlia Carepa. O resultado
nao era mesmo de boa qualidade editori-
al. Mas a publicaqao abrigou uma denin-
cia muito grave: de que s6 no ano passa-
do a previd8ncia estadual acumulou um
deficit de 475 milh6es de reais. Para
2007 a previsao 6 de que esse buraco
aumente 50%. Cor o vermelho ultrapas-
sando um bilhao de reais em dois anos,
trata-se de uma bomba de efeito retar-
dado. O cofre pfblico vai estourar, ainda
mais porque o novo governor diz que re-
cebeu do antecessor dividas de R$ 255
milh6es e 99 das 143 prefeituras munici-
pais que tiveram suas contas apuradas
devem ao Estado.
Se o quadro 6 verdadeiro, o govemo
devia publicar urgentemente um relat6-
rio detalhando essa terrivel situaqao, par-
tilhando o drama cor a populaqao. Pelo
menos assim Ihe apresentard o motive
forte de haver pouco o que mostrar nes-
ses 113 dias. Com ou sem revista de pro-
paganda. Initil e cara.


SILENCIO OFFICIAL
O governor de Ana Julia descumpriu
mais uma promessa: de restabelecer a
transpar8ncia nos assuntos ptblicos.
Nada, at6 agora, da demonstraqao dos
gastos com pessoal, por setor da admi-
nistraqao, com valores respectivos. E
uma exigencia da Lei de Responsabili-
dade Fiscal, irresponsavelmente igno-
rada durante os quatro anos da gestao
de Simro Jatene. O trimestre acabou,
o quadrimestre chegou ao fim, e nada
da publicaqco.
Tamb6m continue a esperar por uma
resposta do governor, da Funtelpa e da
colega Regina Lima: por que, ao inves
de suspender o pagamento da espuiria
inensalidade A TV Liberal, a direqao da
fundaq~o simplesmente nao revogou o
14 termo aditivo, assinado no dia 31 de
dezembro do ano passado pelo radialis-
ta Ney Messias, entao president da
Funtelpa, que prorrogou o vergonhoso
"conv6nio", mantendo-o no mundo dos
vivos at6 hoje? A revogaqao tornaria o
monstrengo nulo de pleno direito, exter-
minando-o do universe, sem qualquer
6nus ou ameaqa de prejuizo future aos
cofres piblicos.
Quem cala, esconde.


A ABRIL DE 2007 *2QUINZENA Jornal Pessoal








Redivisao do Pari:


sem embromaaio


Os deputados anunciaram a decisao de
convocar um plebiscito sobre a redivisao
do Estado, novamente no foco dos deba-
tes. A iniciativa, afora ser in6cua, apenas
complica o tratamento da questao. O ple-
biscito nao 6 uma faculdade, mas uma eta-
pa obrigat6ria do process de emancipa-
qoo territorial, quando deferido oficialmen-
te. Ser a favor da consult popular signifi-
ca apenas ser a favor da lei, da qual nin-
gu6m pode sequer alegar desconhecimen-
to. Logo, 6 pura embromaqao.
Embromar 6 a posiqao de muitos que
nao querem se comprometer, sobretudo
os politicos. Mas certamente nao 6 ficil
dar uma opiniao sensata a respeito. Ao
contririo do que aconteceu com Mato
Grosso e Tocantins, os 6ltimos parceiros
incorporados a federaao national, a re-
divisao do Pard nao 6 consensual; na ver-
dade, 6 conflituosa. O Estado atual nao
quer perder suas parties, que reivindicam
a emancipaqao. E os candidates a novos
Estados nIo conseguem demonstrar a
unidade-matriz que a separaqao fard bem
a todos. Por isso os atores litigam. E por
isso a autonomia ainda nao saiu.
Como em casa onde todos falam nin-
gu6m tem razao, 6 um diilogo de surdos
por conveni8ncia. Imagina-se que a vit6-
ria vira no grito. E raro o caso do prota-
gonista que nao tenha firmado sua posi-
cqo mais por paixao do que por razao.
Quando nao apenas por impulse da von-
tade, por achar que precisa ser assim e
ponto final. Se fosse exatamente assim,
a celeuma nao estaria se arrastando por
tanto tempo. No caso do Baixo-Amazo-
nas, hi mais de s6culo e meio.
Agora a conjuntura esta finalmente
amadurecida para gerar os novos frutos
federativos? Talvez, mas essa hist6ria ji
foi repetida muitas vezes. Se os paraen-
ses nio conseguem uma linguagem co-
mum para apresentar sua proposta ao
Congress Nacional com um minimo de
unidade e coerencia, qual seria a motiva-
cqo do pais pela plataforma, que vird one-
rar os cofres do governor federal e san-
grar a partilha dos Estados?
Durante boa parte do regime military,
havia interesse da Uniao de impor seus
objetivos, em associacqo cor os "gran-
des projetos", sem a intermediaqao do
Estado, que cobrava a sua parte no bu-
tim e na divisao de poderes. Uma figure


nova no direito piblico, o "territ6rio ad-
ministrativo", por pouco nao saiu dos la-
borat6rios do Dr. Golbery para a algibei-
ra de um parlamentar amigo e, dai, para
o ementario legislative. Mas, e hoje?
S6 a vontade nio 6 mais suficiente e
raz6es morais nao bastam. E precise de-
monstrar a eficicia da redivisao, mesmo
que seja precise submet8-la a um balanqo
de pr6s e contras para tirar o saldo positi-
vo, se a prova dos nove for impossivel de
usar. Essa conting8ncia imp6e a andlise
racional. E como faz8-la se o debate 6 a
base da improvisaqao e do grito?
E precise p6r em pritica um projeto
de pesquisa sobre a territorialidade do
Pard, que venha a apresentar um resul-
tado final, abrindo caminho para uma
decisao sobre a controversial e nao mais
embromaqao. O lugar certo para essa
pesquisa ter curso 6 o governor. Mas sem
o control do governor. O Estado cederia
espaqo, recursos e ferramentas, al6m de
material human. Criaria um comit8 exe-
cutivo, que elaboraria os terms de refe-
rencia para contratar consultoria especi-
alizada, com a qual viria o diagn6stico. O
document seria exaustivamente discu-
tido em Bel6m e nas sedes dos pretendi-
dos Estados para ser testado. Uma vez
consolidado, serviria de base para proje-
tos-de-leis a serem submetidos ao Con-
gresso Nacional e A Assembl6ia Legisla-
tiva, consumando essa longa hist6ria. Ela
esti pedindo para ser escrita de vez. O
que falta 6 o autor.


CONTA E FICHA
Na entrevista dada ao Estaddo e ig-
norada pela imprensa local, Jader Bar-
balho aproveitou para mandar um reca-
do a quem interessar possa na polftica
local. Garantiu que nao ficou com a fatia
do ledo na divisao do bolo do poder esta-
dual, conquistado pelo PT, mas com sua
decisive participagqo. O acordo inicial
previa para o PMDB paraense um tergo
dos cargos, mas o partido ficou "apenas"
cor a Secretaria de Safde (cujo secre-
tario foi indicado pelo ex-deputado Jos6
Priante), o Detran, a Cosanpa, a Junta
Commercial e a Loteria do Estado, 6rgdos
do segundo escalao.
Jader nao se queixou do "esquecimen-
to". Pelo andar da carruagem, deve acre-
ditar que ela voltarn ao ponto de partida,
por falta de habilidade do seu condutor.
Se essa hip6tese se confirmar, 6 provi-
vel que Jader apresente uma nova conta
da alianqa, mais cara do que a anterior.
Ja quando questionado pelo reporter
Carlos Mendes se poderia fazer a trans-
fer8ncia da concessao do canal de tele-
visdo exatamente quando seus bens es-
tavam bloqueados pela Justiqa, por seu
envolvimento em desvio de recursos da
Sudam, o deputado responded que esta-
va havendo uma confusao, misturando-
se no mesmo balaio sua pessoa ffsica com
sua facejuridica. Garantiu que dentre seus
bens patrimoniais nao se inclui uma con-
cessao de televisao: "Isso tudo nao pas-
sa de uma grande idiotice", protestou. E
acrescentou: "Nao ter tamb6m um do-
cumento, uma coisinha sequer, que pro-
ve qualquer envolvimento meu no episo-
dio Sudam".
Ningu6m contestou ainda essas afir-
mativas polemicas de Jader Barbalho.


ECONOMIC
O grupo Liberal continue a adotar medidas administrativas para reduzir os seus
custos e ajustar a corporagqo aos tempos de vacas menos gordas do que as que pasta-
vam nos campos da empresa at6 recentemente. As providencias se concentram na
area de jomais. No inicio do mes o AmazOnia Jornal saiu do pr6dio onde at6 entao
funcionava e se instalou na redagao de O Liberal, onde as duas equipes foram fundi-
das e prosseguiu a reduqco de quadros, com novas demiss6es de jomalistas. Agora os
jomalistas que foram mantidos t6m que escrever para os dois jornais, indistintamente.
O leitor, atraido para fazer assinaturas com o argument de que as duas publicaq6es sao
diferenciadas, descobrirn que comprou gato por lebre. Sem a possibilidade de vice-versa.


INQUILINA
O Creci devia dar a governadora Ana Julia Carepa o titulo de inquilina do ano: antes
de ocupar um im6vel particular, com valor venal de 350 mil reais, nele mandou fazer
obras de R$ 150 mil. No pr6ximo ano deveri voltar A resid8ncia official, no Icuf, se ela
estiver em condiqao de recebe-la. Obras na antiga granja sairao A razao de quanto?


Jornal Pessoal 2 QUINZENA ABRILDE2007 5








Hospitals p6blicos: present de grego?


O governor Simdo Jatene decidiu privati-
zar a gestao dos quatro hospitals que cons-
truiu, ao custo de 220 milhaes de reais. Disse
que se inspirou na experi8ncia de Sao Paulo.
Nao precisava ir long nem sair de sua pr6-
pria estrutura: no moment em que inaugu-
rou a primeira unidade dessa nova rede, a
metropolitan, um pouco antes de encerrar
seu mandate, todos os demais hospitals es-
taduais de Bel6m funcionavam razoavelmen-
te, bem ou muito bem. Um dos m6ritos da
administraqao tucana anterior foi ter recupe-
rado as instituiq6es hospitalares ji existen-
tes. O caso mais exemplar desse process foi
o da Santa Casa de Miseric6rdia. Mas em to-
dos os outros o balanqo foi positive.
Por que, entao, mudar? Por que nao con-
tinuar, corrigir e melhorar a rede de hospitals
p6blicos, ao inv6s de pagar para um gestor
privado cuidar das novas casas? Novas, em
terms: o hospital de Marabi 6 uma estrutura
mambembe que, A custa de muita propagan-
da e tintura superficial, foi passada ao erdrio
por preqo muito superior ao do seu valor real.
A campanha eleitoral arrematou esse erro de
origem: os hospitals foram inaugurados, ex-
ceto o Metropolitano, sem condigIo de fun-
cionar imediatamente ou plenamente.
Independentemente dessas circunstanci-
as, o governador que safa e a governadora
que entrava acertaram um termo de transi-


qao: os pol8micos contratos seriam honra-
dos, mas apenas pelo prazo de um ano. De-
pois, o novo governor decidiria como prosse-
guir. Se isso foi acertado, isso devia ser cum-
prido. Certamente seria um erro porque difi-
cilmente em um ano seria possivel mudar a
gestlo dos hospitals a s6rio, sem causar pre-
juizo ao usuario do service ou prejudicar o
interesse p6blico. O mal era mesmo de con-
cepqao: o poder pdblico, que recuperou seus
hospitals em funcionamento, devia estar A
frente dos novos hospitals. Agiria certo a
governadora Ana Jilia Carepa rejeitando o
modelo que lhe queria repassar Simao Jatene
e tratando logo de estender aos novos esta-
belecimentos o padrao da rede estadual.
Mas nao fez isso e fez pior: criou uma
incerteza nesse setor, produto da indefini-
qFo e da mi definiqgo de posiqIo do gover-
no. Sem falar de uns tantos components de
obscuridade e tendenciosidade que alimen-
tam interpretaq6es e boatos nada saudiveis
para a political piblica de sa6de. O problema
mais grave 6 no hospital de Santar6m, o 6ni-
co que nao comeqou a funcionar, bem ou
mal. Nao quer dizer que nos outros os pro-
blemas foram resolvidos. O mais provivel 6
ter havido uma "composiqao" de interesses,
que nem sempre (ou raramente) result em
beneficio ptiblico (sobretudo ao erdrio). Em
Santar6m, nao houve.


O proprietirio da Organizagio Social
Maternidade do Povo, Paulo Monteiro, ji
pediu inqu6rito ao Minist6rio Piblico e dis-
tribuiu nota protestando contra o tratamento
da Secretaria de Satde, que acabou rompen-
do o contrato, na semana passada. Sinai de
que estava disposto e preparado para enfren-
tar a apuraqdo dos fatos e das causes reais
por trAs da posicio official, de nao honrar o
contrato assinado com a OS.
Se tivesse denunciado de pronto esse con-
trato, o governor se pouparia do desgaste que
esta sofrendo e abriria o peito para enfrentar a
controversial de frente, jogando limpamente.
Mas os dias foram se passando sem uma deci-
sdo clara, o que serviu de abrigo para a forma-
qdo de uma camada especulativa de interes-
ses. E enquanto isso cresce a perplexidade e a
revolta de uma populaqo maltratada hi muito
tempo pelo descaso do governor do Estado
pelo problema de saide no municipio e em
toda a regilo que gravita em tomo dele. E difi-
cil aceitar que uma cara estrutura plblica, ji
finalizada, ainda que inconclusa, permaneqa
fechada A terrivel demand local.
Os petistas recolheram o present de gre-
go dos tucanos, levaram-no para casa e pare-
ce que nao sabem o que fazer com ele. Nao o
rejeitando no moment certo e na forma devi-
da, agora tem que tratar dele como se fosse
seu. Castigo merecido.


Nova comunicagao do governor: ja era


Ajornalista Fatima Gonqalves assumiu a
Coordenadoria de Comunicacqo Social do go-
verno prometendo colocar em pr~tica um pro-
jeto bem professional: informar abundante-
mente (como continue a ser feito) a imprensa
sobre os atos oficiais (e, mais do que sobre
eles, numa administraq~ o petista: sobre as in-
ten95es e promessas). Manteria, por6m, cer-
ta distancia do governor para poder funcio-
nar com competencia no leva-e-traz entire o
poder e a sociedade.
Quando fui convidado para fazer uma
palestra para toda a equipe da Coordenado-
ria, em plenb Palacio dos Despachos, com
alguns aderentes na platdia, mas sem a pre-
senqa da governadora Ana Jilia Carepa, fi-
quei feliz. Voltei A sede do governor, onde ra-
ramente pus os p6s, e falei o que quis, ouvin-
do o que meus questionadores quiseram per-
guntar, A vontade, num ambiente descontraf-
do, favorivel A liberdade de expressao.
Mas ao inv6s de o projeto comeqar a to-
mar forma na direqao sugerida, foi levado A
fritadeira e torrado at6 virar nada. Agora hi
um novo projeto em curso, cujo conteddo


ainda se desconhece, mas nao a ponto de
nao se saber algo elementary: nada tem a ver
cor o anterior. Se algu6m tinha d6vida, a
"mudanqa-da-mudanqa"ji foi declarada. E os
primeiros agents da primeira mudanga fo-
ram logo mandados passear em outro terrei-
ro. Fatima Gonqalves ainda esti li, mas rebai-
xada A condiqao de gerente, uma fundio con-
denada A efemeridade. Logo, o que prometia
ser s6lido se teri desmanchado no ar viciado
dos ambientes soturnos.
Com esse ziguezague retilineo, o PT
confirm no Pard sua matriz de grupo con-
fessional, irmandade dogmdtica, confraria
fechada. Nessas estruturas as pessoas
caem em desgraqa ou sdo reabilitadas sem
conhecer as causes reais da sua subida ou
da queda. A linguagem 6 simb6lica e as
motivacqes sao obscuras. Ha sempre gen-
te brilhante envolvida nessas maquinaiqes,
mas quando os mecanismos sHo postos em
funcionamento o que deles result costu-
ma surpreender e chocar pela contradicgo
entire a origem e o resultado, entire o que se
diz e o que se faz.


Foi assim que aconteceu cor a lumino-
sa geraqao de bolcheviques a partir da re-
voluq~o russa. No final da embrulhada, ou
da sua parte mais terrivel, os comunistas
giravam desnorteados atris do famoso re-
lat6rio secret de Kruschev sobre os cri-
mes de Stalin, meio s6culo atris. Precisa-
vam de um novo eixo. O da v6spera perdera
qualquer utilidade.
Faqo a referencia porque hi novos tur-
cos e apparatchicks convocados para for-
mular e executar a "nova political de comu-
nicaqdo social" do governor do PT. Talvez
essa novidade nunca se materialize como
uma verdadeira political. Nem se haveri de
saber o que provocou o cancelamento da
anterior, ainda nas preliminares. Mesmo
porque as palavras escondem a verdade,
ao inv6s de expressi-la.
Mas 6 bem sintomitico que gente do
pedaqo, professional testado na relaqao
da comunicaqo official cor a imprensa
e a sociedade, seja substituida por san-
tos inquisidores. A comunicacao petista
trumbicou.


6 ABRIL DE 2007 *2"QUINZENA Jornal Pessoal









Grande projeto: quem



paga conta de chegada?


Quando a hidrel6trica de Tucuruf comeqou
a ser construida, em 1975, ainda nao havia a
exigencia de estudo pr6vio de impact ambien-
tal, o EIA-Rima, que emergiu no mundojuridico
cor a leva ecol6gica a partir de 1981: AEletro-
norte apenas encomendou um levantamento,
realizado pelo pesquisador americano Robert
Goodland, autor (juntamente corn Howard Ir-
vin), de um livro de impact na 6poca: "Amaz6-
nia Do inferno verde ao desert vermelho"
(censurado, na ediqao em portugues, por um
mestre da USP, Mario Guimaraes Ferri, que Ihe
expurgou o capftulo sobre os indios). O traba-
lho de Goodland inventariou situaq6es e pro-
blemas e fez recomendaces. Serviria de um bom
termo de referEncia, mas a Eletronorte preferiu
continuar pela superficie.
Trinta anos depois, a Cargill construiu um
terminal de graos ao lado do porto de Santar6m,
destinado a ter maior movimentaqao de carga
do que o seu vizinho e antecessor, o porto de
carga geral da CDP. Depois de muito puxa-en-
colhe ejogo de cena, a multinational americana
concluiu e p6s em funcionamento o seu porto
sem fazer o EIA-Rima.
Ela e seus licenciadores ambientais de en-
tao, na Sectam (Secretaria de CiEncia, Tecnolo-
gia e Meio Ambiente) partiam do pressuposto
de que o impact ji fora causado pelo porto de
carga geral, do qual o pier da Cargill era pratica-
mente uma extensao (emborade maior vulto). Os
militants ecol6gicos, fazendo exigEncias espe-
ciosas, queriam, na verdade, sabotar o empreen-
dimento. Ou medir forqas num cabo-de-guerra.
Mesmo que tivessem razao, os "desenvol-
vimentistas" tinham que cumprir a lei. Por falta
dela, no inicio da d6cada de 70, a Eletronorte
p6de comandar uma das obras de maior impac-
to ambiental na Amaz6nia sem uma forma de
avaliaqao sobre a sua presenqa compativel com
a grandeza da intervenqao que faria na nature-
za. Se fosse um pouco mais sensivel, a empresa
teria compensado essa lacuna legal corn anteci-
paqao espontinea do que s6 viria a ser obriga-
t6rio depois. Bastava aproveitar as boas e mis
experi8ncias no trato com o ambiente, como em
Assua, no Nilo (Egito), ou em Boneville, no
Colimbia (EUA).
Mas no caso da Cargill a exig8ncia do EIA-
Rima era clara, categ6rica. Mesmo que fosse
para o cumprimento de uma formalidade, a em-
presa tinha que produzi-lo e se submeter A sua
avaliaqao. Mas apostou no fato consumado e
foi atropelando tudo. Agora, obrigada pelajus-
tiqa federal, tera que voltar atrds e cumprir o
dever. Mesmo que seja apenas para ingles ver,
a decisao dajustiqa foi correta sob esta dimen-
sao do litigio que Ihe foi submetido. Mas tam-
b6m por outra perspective: determinou o resta-
belecimento das atividades do terminal.

Jornal Pessoal 2" QUINZENA ABRIL DE 2007


O melhor seria que inviabilizasse tudo, pu-
nindo o evidence infrator, renitente e desres-
peitoso, com a pena maior? Para responder
sim, seria necessdrio comeqar a refazer muita
coisa (ou quase tudo) com as mesmas r6guas
e compassos aplicados a Cargill. Um terminal
de graos fincado A beira de um rio plenamen-
te navegdvel, situado em posiqao commercial
estrat6gica, e corn raio de influencia sobre
uma grande maciqo florestal, 6 uma bomba de
efeito retardado sobre toda essa area. Equi-
vale a um ponto de compra de carvao vege-
tal, como os que surgiram e se multiplicaram
em Carajis, incrementando a expansao dos
fazedores de desert, a praga mais ativa na
expansao da sociedade humana sobre o mun-
do vegetal.
Um empreendimento econ6mico de impac-
to surge numa fronteira sob uma aur6ola po-
sitiva: vai gerar tantos empregos, criar tantas
demands, desencadear tantos efeitos. Os as-
pectos positives, muitos deles reais e signifi-
cativos, slo inflados e conquistam conven-
cimento social mais em funqao dos recursos
de marketing e propaganda da empresa do
que da qualidade intrinseca (e extrinseca) do
seu projeto.
Mas os aspects negatives, quase tlo
ou mais numerosos, sempre sao subestima-
dos, quando nao simplesmente sonegados
do conhecimento da opiniao pdblica. Ela s6
se di conta do saldo do balanqo quando a
conta Ihe 6 apresentada. Af o "estado da coi-
sa" 6 irreversivel. Cabe aos poetas lamentar a
fraude e a perda. Carlos Drummond de An-
drade fez isso por todos passados, presen-
tes e futures na sua Itabira mineira.
Mas se o jogo fosse completamente lim-
po, corn todos os dados postos a mesa, e
houvesse a franquia decis6ria, a populaqao
abriria as alas da complac8ncia para esses
"grandes projetos"? Bem informada sobre os
pr6s e os contras, estaria em coro unissono
corn a empresa? Ou teria preferido continuar
menos desenvolvida e menos miserivel como
estava antes, dilacerada por contrastes bru-
tais, que s6 se vao encontrar no infinite?
Nao pretend dar qualquer resposta em
nome dos demais. No caso do porto de Santa-
r6m, por6m, gostaria de lembrar um epis6dio
que contei recentemente na "Mem6ria de San-
tardm", seqao parecida A "Mem6ria do Cotidi-
ano", que public quinzenalmente em O Esta-
do do Tapaj6s, ojornal do Miguel Oliveira.
No dia 1de janeiro de 1972 a construtora
Cobrasil comeqou a construqao do cais de
Santar6m, que substituiria o antigo trapiche,
uma estrutura simples de madeira, com redu-
zida capacidade de carga. Era o inicio da ma-
terializaq~o de um antigo sonho da popula-


q~o, mas nem todos tinham motives para co-
memorar, como registrou o professor Ant6-
nio Pereira, em artigo que saiu ainda em janei-
ro em O Jornal de Santarem, a publicaqao
peri6dica de maior duragqo no municipio.
Esse document pode servir de motivo
para uma reflexao dos santarenos sobre o sen-
tido e o valor do tal do desenvolvimento. Res-
salta um custo desse process que raramen-
te 6 considerado e avaliado. Diz o artigo no
seu trecho mais significativo:
"Domingo 6ltimo, o sr. Jos6 Esteves Dias
(Cazuzinha), ex-proprietirio do pitoresco re-
canto carinhosamente denominado 'Ponta do
Sal6', desapropriada para a construcio da
grande obra, reuniu seus amigos e familiares
para, pela fltima vez, usufruirem a reconfor-
tante paz e tranqiilidade oferecida pelo 'Man-
gueirao'. Mas, apesar das excepcionais con-
diqves oferecidas pela ensolarada manha, da
acolhedora sombra da frondosa e secular
mangueira que emprestou o nome A aprazivel
vivenda, das cristalinas aguas que se espre-
guiqavam na forma de ondas, na alvura das
areas acariciantes; apesar ainda dos estimu-
los oferecidos pelas bebidas e tira-gostos, a
alegria nao era complete, pois todos tinham
present no pensamento, se nao a tristeza,
mas a certeza de que era a iltima vez que ali
se reuniriam para uma confraterizagqo ou um
fim de semana.
Em breve, o 'Sal6', a 'Vera Paz' e a velha
'Caieira', tradicionais recantos cuja beleza foi
cantada em prosa e verso, desaparecerao do
cendrio mocorongo para dar lugar ao majes-
toso cais, por onde se escoarao nossa mat6-
ria prima e os produtos manufaturados das
indlstrias que tamb6m aqui surgirao".
A releitura da cena me encheu de emo-
qco. Minha mem6ria santarena voltou a per-
correr aquela paisagem maravilhosa, acessi-
vel a um ripido deslocamento da cidade, a
pd, sempre pisando na areia alva e fofa da
praia, que nos rejuvenescia e alegrava. Tudo
isso desapareceu corn a construcao do porto
e, logo em seguida, do novo aeroporto.
Claro que ambas as obras tinham que ser
feitas. Mas precisavam ser feitas daquela ma-
neira, ignorando a paisagem, atropelando a
hist6ria do povo, acabando com suas priti-
cas seculares, vedando-lhes o melhor que a
natureza Ihes oferecia, fazendo-o ignorar o
que e viver na Amaz6nia (que esti cada vez
mais sem identidade ambiental)? Sempre "de-
senvolver" significard privar o que se tinha
em troca do que vira (se vier e se for melhor)?
Nunca conseguimos uma resposta satis-
fat6ria para esse dilema, que realmente existe
e 6 complex, por causa da pritica do fato
consumado, pela vontade de quem, tendo
mais, pode mais. E faze acontece.
Portanto, quando por nada, pela recolo-
caqao desse dilema, deve-se impor o EIA-
Rima a Cargill e fiscalizd-la muito bem para
que nao se limited a cumprir uma formalidade.
Tem que prestar contas pelo que nao fez de
bom e pelo que fez de ruim, deste lado da
conta talvez fazendo mais do que do outro
lado. Infelizmente e mais uma vez.









Diilogo de surdos: usinas do Madeira


Estd havendo um didlogo de surdos
entire as parties do governor que divergem
sobre a construqao das duas hidrel6tri-
cas previstas pelo PAC (Plano de Ace-
leragao do Crescimento) para o rio Ma-
deira, em Rond6nia: as usinas de Jirau e
Santo Ant6nio. Em um relat6rio de 256
paginas, os t6cnicos do Ibama (Instituto
Brasileiro do Meio Ambiente e dos Re-
cursos Naturais Renovaveis) sustentam
que o EIA-Rima 6 deficiente e nao ga-
rante que dois graves problems nao sur-
girlo em conseqti8ncia do represamento
do rio: o desaparecimento de um tipo de
peixe, que vive entire os cursos de jusan-
te e de montante, e a acumulaqao de se-
dimentos a montante da barrage, redu-
zindo consideravelmente o tempo de vida
itil do seu reservat6rio.
A dissensao 6 tao inverossimil que, ao
chegar ao conhecimento do president
Luiz Inacio Lula da Silva, o fez desabafar
bem ao seu estilo: "Jogaram um bagre no
meu colo, mas o que e que eu tenho a ver
corn isso?", queixou-se ele, cobrando uma
definiqCo claro, favoravel As hidrel6tri-
cas. Mas Lula confundiu o bagre com a
dourada, que ter um valor commercial su-
perior, para dizer o minimo. E, sem aces-
so A integra do relat6rio e tendo do debate
informaqres secundarias, de qualidade
parecida a do president, a opinion pibli-


ca pode ficar cada vez mais desinforma-
da sobre uma questao que nao devia estar
causando tantos embaraqos.
Represas nao deveriam ser mais fonte
de problems para os peixes. Ha uma pro-
videncia t6cnica ji largamente dominada:
a escada de peixe. A primeira foi construi-
da na d6cada de 50, na usina de Boneville,
no rio Colimbia, nos Estados Unidos, para
salvar uma esp6cie ainda mais valiosa que
a dourada (e o bagre metaf6rico do presi-
dente): o salmao. Os pescadores ameaqa-
ram dinamitar a barrage se nao fosse
garantido aos salmnes subir pelo rio para
desovar do lado do Canada, no alto Column-
bia. Para eles e para todos salmao va-
lia mais do que quilowatts.
Quanto aos sedimentos, eles podem dei-
xar de ser ameaqa se for construido um
descarregador de fundo. Esse
mecanismo estava previsto no projeto ori-
ginal da hidrel6trica de Tucuruf porque a
bacia do Tocantins-Araguaia tamb6m ar-
rasta muitos sedimentos, embora nao tanto
quanto o Madeira, que lanqa metade do
material em suspensao que chega ao Ama-
zonas atrav6s dos seus afluentes.
Mas o descarregador de Tucuruf foi can-
celado. Por dois motives. Um, o risco que
poderia representar para a estrutura de con-
creto, com 75 metros de altura a partir do
leito do rio. Ela suporta 50 trilh6es de litros


de agua acumulados e a vazao do rio, que
pode chegar pr6xima de 70 milh6es de li-
tros por segundo, no pique da cheia, acar-
retando intense vibraqCo. Mas esse fator
era secundirio: a engenharia daria conta
dele. O principal foi o custo: quando Tucu-
rui era calculada em US$ 2,1 bilh6es (e jd
passou de US$ 10 bilh6es), o descarrega-
dor sairia por R$ 200 milh6es, ou 10%. A
Eletronorte preferiu bloquear a passage
de sedimentos pelo fundo da barragem. E
esqueceu o assunto. At6 quando?
A possibilidade desse descarregador em
Santo Ant6nio e Jirau nao podia ser retoma-
da agora? Provavelmente a questao ji foi
levada em consideraqo. A Eletrobras disse
que contratou para estudar as duas usinas o
mais especialista em sedimentologia do mun-
do. Mas da mesma maneira como a estatal
alega nao conhecer o relat6rio do Ibama, os
mortais comuns nada souberam do resulta-
do da consultoria do expert.
Resta-lhes, como invariavelmente acon-
tece em tais moments, esperar o final do
banquet de sonegaqIo para recolher as
sobras de desinformaqao e tentar former
umjuizo. Como informaqao 6 poder, quem
a possui tenta usa-la para impor sua vonta-
de. E s6 liberal o acesso quando a decisao
esta tomada. O cidadao s6 vai tomar co-
nhecimento do fato consumado quando
chegar a hora de pagar a fatura.


Sapo da Lua: brabo e bom


Fui fazer minha despedida de solteiro no an-
tigo Corujdo, o melhor bar-restaurante da 6poca
(1971), apesar dele pr6prio. Eduardo Araijo e
Silva apareceu, ji a noite alta. Informou-se do
que havia e sumiu. Reapareceu pouco depois
sobragando um champanhe frances:
Vamos comemorar disse, excepcional-
mente discreto, deixando a garrafa no meio da
mesa e indo buscar sua cadeira. Ficou at6 a hora
de irmos embora, eu para tomar um banho e
casar, as sete da matina, sob o comando do pa-
dre Carlos Coimbra, na igreja da Trindade. Ele,
para continuar suas muitas atividades, encerra-
das prematuramente dias atras, por uma parada
cardiac, um dentre virios problems de sauide
que se foram acumulando no posto-restante da
vida do popularissimo "Sapo da Lua".
Permito-me grafar o apelido indesejado (por
ele) porque Eduardo nao vira agora me ameaqar
com uns sopapos. Raros foram consumados, na
verdade, e nao pela falta de forqas forqa e de
disposiqao doprotagonista. Eduardo estava sem-
pre disposto a armar, comprar, trocar ou empres-


tar uma confusao. Acumulou-as ao long do tem-
po. Facilidade, simplicidade e quetais nao eram
com ele. Nunca se convenceu de que a reta 6 a
menor distancia entire dois pontos e que um mau
acordo vale mais do que a melhor briga. Brigou a
vontade, principalmente com os amigos. Mas bri-
gou, sobretudo, com ele mesmo.
Nunca deixou que Eduardo Silva fosse um
legitimo vencedor. Quando faltava um mero
complement a grande obra que realizava, dei-
xou de lado o complement. Se o belo arranjo
dependia de um gesto de gentileza, mandava o
gesto is favas. Aquele arremate ao enorme ta-
lento que tinha ficava na fila de espera e nao era
atendido. Atrajet6ria brilhante de Dudu foi uma
Via Lactea repleta desses incidents, desses
"quase" que faltaram para garantir-lhe o que ele
merecia ter, a despeito dele mesmo.
Jamais conseguiu manter sob control a pr6-
pria trucul8ncia, que condenava suas conquistas
e gl6rias a serem efemeras. Um pouco mais de
discipline o teria feito recolher a selvageria que
ocultava seu lado doce, gentil, cavalheiresco,


sem fazer mal a sua intelig8ncia carrascante.
Falo A vontade porque travel corn ele algumas
pol8micas nem sempre acima da camada de
turbul6ncia, Certa vez, quando estavamos um
tanto desavindos, liguei para ele, que estava corn
sua tenda cigana armada entao na rua Alcindo
Cacela (sem abrir mao do luxo e ostentagio,
como de regra).
SQueriaveruns exemplares 0 Cruzeiro, jiem
decadencia, por causa do assassinate de Alexan-
dre von Baumgarten, que usou a revista em seus
neg6cios escusos corn o SNI. Eduardo sabia onde
eu queria chegar e mesmo nao ignorando que ia
sobrar para a publicaqgo, da qual era represen-
tante, me deu acesso a todos os exemplares. Esse
seu lado prestimoso, nem os muitos adversarios
que criou podiam ignorar. Mas se esquecessem,
ele trataria de lembra-los cor imprecacqes e ame-
agas de tabefes. Ao long de sua curta vida, Eduar-
do Silva fez e aconteceu. Ningu6m haveri de
dizer que as nuvens permaneciam brancas a sua
passage. Mas uma delas deve t6-lo conduzido a
bom termo, generosamente, tal qual ele.


a ABRIL DE 2007 *2QUINZENA Jornal Pessoal









Belo Monte: governor


se retira da grande obra


O impasse em tomo da construqao da
hidrel6trica de Belo Monte, no rio Xingu,
ja completou cinco anos na sua segunda
versao, a atual. Na primeira versao, a Ele-
tronorte foi derrotada pelos adversarios da
obra, de forma simb6lica, em 1999, quan-
do a india Tuira esfregou seu facao pr6xi-
mo ao'rosto do coordenador da presid8n-
cia (e depois presidente, o maranhense
Jos6 Ant6nio Muniz Lopes (a Eletronorte
6 mais feudo de Sarey do que de qual-
quer outro politico paraense). Tecnicamen-
te ficou impossivel aceitar a construq~o
das duas barragens propostas, que sub-
mergiriam uma area duas vezes e meia
maior do que a de Tucurui, formando o
maior lago artificial do pafs.
Tr8s anos depois o projeto foi reapre-
sentado, ji com uma lnica barrage e a
irea inundada reduzida a um terqo do ta-
manho do reservat6rio previsto original-
mente para essa 6nica usina. A barrage
de Babaquara, que alagaria uma area su-
perior a 6 mil quil6metros quadrados, foi
definitivamente suprimida. Com as corre-
qoes feitas, o impato ecol6gico e huma-
no da hidrel6trica de Belo Monte podia ser
muito menor. Mas os analistas mais exi-
gentes do projeto da Eletronorte continu-
avam duvidando que a obra fosse viivel
economicamente.
Ao inv6s de enfrentar abertamente as
resistencias, aceitando discutir com todos
os dados A mesa, a Eletronorte faz firulas
e volteios para tangenciar as falhas e in-
sufici8ncias do seu projeto. Como sem-
pre, quer impor sua vontade goela abaixo
da sociedade, por achar que esta em suas
maos um aut8ntico mania energ6tico, ca-
paz de prevenir as ameaqas de novo "apa-
gao" nos pr6ximos anos, com energia su-
postamente farta, barata e limpa.
O que mais me tem impressionado nao
6 a solidez dos arguments do Minist6rio
P6blico Federal, o principal antagonist da
obra, mas a falta de seriedade da Eletro-
norte (e, agora, tamb6m da Eletrobrns, que
assumiu o front pelo lado official) ao en-
frentar a polemica em torno de Belo Mon-
te. Estou convencido de que um tratamento
s6rio e consciencioso poderi minimizar a
um grau at6 aceitivel os efeitos negatives
da usiia sobre a populaqao, sobretudo a
indigena, e o meio ambiente.
O que nao me convince, desde a re-
apresentaqao do projeto, em 2002, 6 a
engenharia econ6mica, a viabilidade t6c-
nica da hidrel6trica, nao como uma obra
de construqao civil, mas como uma fon-


te de energia capaz de se auto-susten-
tar. Ao menos nao com a equaqao que 6
possivel se montar com os dados forne-
cidos pela Eletronorte.
Mesmo nao sendo um especialista na
mat6ria, saio dos documents produzidos
pela empresa sem me convencer da po-
tencia de projeto da usina, da energia fir-
me que pode fornecer, do preco vidvel
para gerar e transmitir por grande distan-
cia e de sua viabilidade enquanto empre-
endimento isolado, que 6 como ter sido
apresentada A sociedade.
Nao acredito que a Eletronorte sone-
gue informaq6es ou forneqa informacqes
incompletas e inconcludentes por desaten-
qao. E atavismo autoritirio: nao esta dis-
posta a ir al6m do ponto que delimitou como
a fronteira para sua prestaqao de contas
A opiniao puiblica. Quer realizar Belo Monte
de qualquer maneira e depois partir para
os demais aproveitamentos, que adiciona-
riam 15% a mais A capacidade de gera-
qao de energia do pais. Mesmo sempre
dizendo o contririo: que Belo Monte 6 vi-
avel sozinha, E nao 6.
Em mais um capitulo da litiginciajudi-
cial, o Minist6rio Plblico ajuizou nova aao
civil piblica argiiindo que a Eletronorte,
agora direta e explicitamente sob o manto
protetor da Eletrobras, pretend iniciar a
elaboraao do EIA-Rima sem dispor dos
terms de referencia para o estudo e o
relat6rio de impact ambiental. Se a acu-
sagqo realmente procede, trata-se de uma
leviandade da estatal que nao pode ser
aceita. Sem um rigoroso termo de refe-
rencia, o poder piblico renuncia a sua res-
ponsabilidade e delega o poder decis6rio
aos empreiteiros particulares.
Isso significa uma grave involucao
institutional. O govemo Lula estari pra-
ticando um ato que nem o mais radical
neoliberal sonhou um dia ser possivel.
Nem nos Estados Unidos (ou, sobretu-
do, li) hi tal lavar de maos do poder
plblico na conduqao de uma obra de in-
fraestrutura de grande impact, como 6
a hidrel6trica de Belo Monte. O Acordo
de Cooperaqao T6cnica assinado em
julho de 2005 pela Eletrobris com as em-
preiteiras Camargo C6rrea, Andrade
Gutierrez e Odebrecht, 6 a materializa-
qao desse encolhimento.
Atrav6s do acordo, as empresas, dire-
tamente interessadas na obra, se compro-
meteram a elaborar um novo EIA/Rima,
a revisao do inventario de potential hidro-
energ6tico da bacia do rio Xingu, o estudo


de natureza antropol6gica, a avaliaqao am-
biental integrada da bacia e o respective
Program de Desenvolvimento Regional
SustentAvel.
Esse novo context explica um docu-
mento, datado de janeiro deste ano, que
os procuradores da Repiiblica anexaram
a sua ago. Nesse document, uma em-
presa de consultoria (a e. labore, contra-
tada para realizar os estudos de interaqao
social do empreendimento, por nao dispor
ainda do termo de refernncia, recomenda
as seguintes aqces:
"Mudar, devido As circunstancias
emergenciais, o escopo do nosso discurso
estrat6gico, se provocados pela mfdia e/
ou sociedade, para explicar a realizaqao
dos atuais estudos, antes da consolidaqao
do Termo de Referencia.
(...)
Em carter institutional, sugerir A su-
perintend6ncia /diretoria do Ibama, em
Brasilia, autorize que o escrit6rio de Alta-
mira tome as seguintes inciativas:
Expedir, em carter emergencial, um
Termo de Referencia Padrao/Gen6rico, a
ser apresentado aos responsiveis pelo pro-
jeto, em que os estudos complementares
de Inventdrio, ora em execuqao, possam
servir como complementaqao;
Expedir document official, solicitando
que os responsdveis pelo Projeto comple-
mentem o Termo de Refer8ncia Padrao/
Gen6rico, alegando deficiencia infra-estru-
tural e podendo aproveitar os estudos de
inventirio em consecuqao".
Cor razao, os procuradores federal
apontam para a gravidade dessas afir-
maq6es: "O licenciamento ambiental de
um empreendimento que ird afetar diver-
sas comunidades indigenas e populaq6es
tradicionais e custard bilh6es de reais 6
tratado como mera formalidade a ser
cumprida para a desejada implantagqo.
Se existe alguma deficiencia basta ludi-
briar a populaqlo e comunidades afeta-
das Ou, em uma terminologia mais ade-
quada, '(...) Mudar, devido as circuns-
tancias emergenciais, o escopo do nosso
discurso estrat6gico'".
O que enfatiza essa gravidade diz
ainda o MPF 6 que nao se trata de uma
afirmativa isolada "mas, um consenso no
setor el6trico". Lembra que em audian-
cia piblica sobre o mercado energ6tico
realizada na Camara dos Deputados no
dia 12, o diretor-geral da Agencia Nacio-
nal de Energia Eldtrica (Aneel), Jerson
Kelman, defendedu o fim do licenciamen-
to ambiental para projetos do setor ener-
g6tico reconhecidos como de interesse
national. O objetivo, segundo ele, 6 dar
agilidade A aprovaqao dos projetos, que
dependeriam da andlise de uma comis-
sao piblica de alto nivel".
Ao governor restart entao o qua? Pa-
gar, provavelmente.


Jornal Pessoal 2 QUINZENA ABRIL DE 2007 9








MEMORIAL DO COTIDIANO
IIII-_ __ M _


Aurelio
.j^^.^ '" ^'*"W
:&HteA~


O jovem advogado Aur6lio
Correa do Carmo, que viria a
ser governador do Estado e
desembargador, em outubro
de 1958 assumiu o cargo que
o projetaria na vida pdblica e
na political: chefe de policia.
Ou, oficialmente, diretor-ge-
ral do Departamento Estadual
de Seguranqa P6blica
(DESP). Ao empossi-lo, oito
meses antes de morrer, o go-
vernador Magalhaes Barata
foi curto e grosso:
"Sou governor em que nin-
gu6m pressiona, seja qual for
o motivo. O sr. l na policia
tem toda a liberdade de aqgo,
e s6 quem lhe restringe essa
liberdade sou eu e mais nin-


gu6m. Seus atos serao base-
ados na minha administraqco.
Pode determinar certo de que
agiu de acordo com o meu
pensamento. O sr. sabe como
penso, pode agir confiante no
meu apoio.
O agradecimento do novo
chefe de policia foi em pou-
cas palavras. Como devia.

Tartaruga
O primeiro projeto de prote-
qio a tartaruga foi iniciado em
novembro de 1965, num dos
tabuleiros do rio Trombetas,
em Oriximind, sob o comando
do engenheiro agr6nomo Ru-
bem do Vale, da agnncia local
do Departamento de Recur-
sos Naturais Renoviveis. As
primeiras pesquisas acabaram
com um mito: de que a tarta-
ruga precisava de 100 anos
para atingir o porte m6dio e
vivia 400 anos. As observa-
oqes na praia de desova mos-
traram que cor 10 anos a
carapaqa da tartaruga ji al-
canqava 60 centimetros de
comprimento. Na 6poca, o
animal estava ameaqado de
extinq~o.

Assembl6ia
A Assembl6ia Legislativa do
Estado tinha 115 funcionirios


em 1965. O grupo mais nume-
roso era o dos datil6grafos: 27.
Os taquigrafos somavam 10.
O efetivo foi multiplicado por
20. Logo, inchou.

Prisao
Em setembro de 1966 o Su-
perior Tribunal Militar negou
habeas corpus em favor de
Ruy Barata, Raimundo Serrio
Sobrinho e Raimundo Jinkin-
gs, que estavam press em
dependencias do Ex&rcito, em
Bel6m, acusados de crime
contra a seguranqa national.
Apenas os ministros Pery
Bevilacqua, Ribeiro da Costa
e Alcides Carneiro votaram a
favor da libertacqo. O gene-
ral Olimpio Mourdo Filho foi
o relator do voto vencedor.

Industria
A Fdbrica Jat de confecq~es
masculinas tinha nada menos
do que 200 funcionirios quan-
do, em 1966, levou os joma-
listas a visitar suas instalaq6es,
no bairro da Sacramenta.
Cada visitante foi presentea-
do corn um short de nylon, da
linha que a empresa lanqaria
logo em seguida. Mas a Jad
acabaria abatida pela concor-
rencia national, como virias
inddstrias do seu tipo. Apesar


de todo esforco em contririo
que fizeram.

Televisao
Foi uma faqanha: em 22 de
julho de 1969, apenas 48 ho-
ras depois que os astronau-
tas americanos Neil Arms-
trong e Edwin Aldrin pisaram
na Lua, a TV Marajoara exi-
biu "o filme complete" do
acontecimento. 0 documen-
tirio p6de ser apresentado no
Pard "graqas aos esforcos"
da direqao da empresa para
conseguir o video-tape o mais
rapidamente que era possivel.
Culminou assim o acompa-
nhamento didrio da Apollo-11,
desde o seu lanqamento, "exi-
bindo filmes, documentarios e
tapes enviados diretamente
de Houston". O VT foi um
sucesso em toda cidade.

Pr6mio
Os primeiros lugares nos ves-
tibulares da Universidade Fe-
deral do Pard de 1971 foram
obtidos por Orlando Medeiros,
Raquelita Athias, Miako Ku-
rasawa, Cristina Vasconcelos,
Francisco de Assis Fidza e
Vasni Esquina. Receberam
premio da Folha do Norte,
que nao destacava apenas as
rainhas do carnaval.


ABREM-SE AS URNAS


Nas junfas da apuracao,


onde o calor e insano, pedem

o juix e o escrivao: deem-nos


KOLA "SOBERANO"!
(F. 22069)


PROPAGANDA
A kola mais votada
0 borddo era muito conhecido e repetido:
a Kola Soberano comeqava com K e
acabava com a sede. Mas havia diversas
variacges. E numa dpoca em que os
refrigerantes locais disputavam
intensamente o mercado, a Soberano se
orgulhava da sua popularidade, como
mostra esta tosca publicidade, de 1958.
Tosca, e verdade: mas criativa.


I( A6RIL DE 2007 2" QUINZENA Jornal Pessoal






FOTOGRAFIA

As palmeiras

imperiais
A avenidri a 16 tde Norembro fli urna ldas
-ias mnais cle'ranlis de Belc;r. igra(s as
sita.s painiras imnperials. Ilipoiientes. clat
einarcavan t a rilha (de e.\pansnio da ci-
datd. danedo-lhie ItI atr ao 111Ces11io I'tempo
hcilico e sofisiicadlo. Altas por filia de
atren'tio. forain caindo ine.\oran'ell 2
Iictlc. ANio pot ohbai tia nallarct. iits ldo


. Esta. pittc restava na esquita da .:
a coin "Largo Ido Redondto". foi .,i ,'.' .: '.

qluaillo a paisatgemi aindta era o de ..
idadt'e qatse campt.v.Sitr nessc local. ..
7 16 dtc Novembro ua 'idI .n. ...
a. conto (a maioria tdas arcirilis ic .....
iao dc Belmn..

one
0:. : ... ::: ..::
ouco mais de sele e meia da noite de .
naio de 1972 quando o ministry das
cao6es. H ginoCorseni. pegou um dos


idrios telefones instalados no tver do Tea-
tro da Paz e fez uma ligafio para o presiden-
te Emilio Garraslazu Medici. que estava em
Brasilia. Depois passou o aparelho para o
go\ emador Fernando Guilhon tanmbm con-
\ ersar rapidamente corn o general. Assim foi
inaugurado o sistema de Discagem Direta a
Distincia. o DDD. que permitiu aos morado-
res de Belem falar com qualquer pane do pais
e do mundo sem a necessidade de telefonis-
ta. E de form instantinea. ou quase.
Do lado de Iora. a Celpa tambem apro-
'eitou para inaugural a no a luz de mercui-
rio. projetada sobre o predio do teatro e as-
sim moditicando o seu \ isual.


S.. .
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z,-,ia .;.



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-Lt. -1 a4..,aai..C-aI It* 4 TlaI T;GaI s.M h -7


Belas mulheres


Nio era incomum, ao cruzar pela travessa Santo
Ant6nio, encontrar dona Zafra Csar Santos Passarinho,
entre as ddcadas de 60 e 80. Em qualquer horirio. ela
estava sempre impecavelmente elegance. A canicula
Sornaa ainda mais encantador o guarda-sol que usava.
Parava. ouvia, fazia uma obsernaqco delicada e sempre
Sseguia deixando a forte impressAo de que fora uma honra
nos encontrar, por mais que estivdssemos convencidos de
que o privilegio era mesmo do seu interlocutor. Dona
Zaira nao concedia as exigEncias do trato civilizado.
Partilhava-o conosco. fazendo-nos crer que nem tudo
estava perdido naquele mercado persa, no qual sua bela
farmicia submergia.
Dona Maria Helena Malcher de Araijo transmitia a
mesma sensa io. Em tomo dela ha' ia um territ6rio


imaginirio da civilizaqCo, acessivel aos que tinham
relaq~o cor ela. Uma mulher bonita. fina, perceptiva e
discreta. como conv6m (ou convinha) as damas. Tinha
muitas hist6rias para contar. Sabiamos disso pelo pouco
que se permitia revelar, deixando A sombra do seu recato
muito mais, apenas sugerido. Sua conversa. quase em
sussurro, contrastava com a da irma. a quituteira Ana
Maria, do restaurant Ld em Casa, que era s6
interjeiqces entire gargalhadas. Foi uma enorme alegria
poder panilhar a mesa corn as duas. Foi uma tristeza
ficar sabendo que dona Maria Helena se foi. Discrera.
apesar das does no fim da vida. Foi-se corn uma
coerencia ji fora de moda, como tantas coisas que
formaram a sua marca muito pessoal. de um mundo que
j.i no parece estar no meio do nosso mundo.


Jornal Pessoal 2" QUINZENA ABRIL DE 2007


hlOlienl

posta i
1972.'.
n11111 ci
Hojc. i




Telef
Eram pi
17 de n
Comuni








Veja: a revista que se perdeu


Era impossfvel enfrentar Veja naquele final da d6cada de
60, quando a revista surgiu, comandada por Mino Carta. Em
entrevistas coletivas, por exemplo, o reporter de Veja apenas
acompanhava a cena, enquanto nos digladiivamos para tirar
do personagem informaqSes que ele nao tinha ou nao queria
fornecer. Encerrada a coletiva, o entrevistado ia dar uma ex-
clusiva ao reporter de Veja, sem se preocupar em melindrar os
pobres trabalhadores das letras, deixados ao relento. O presti-
gio da revista entao era semelhante ao do reporter da Rede
Globo, guardadas as diferenqas de fundo (e que fundo!).
Depois passei a freqiientar a redaq~o de Veja, como parte da
equipe de Raimundo Rodrigues Pereira na edicgo especial de
Realidade sobre a Amaz6nia e, em seguida, como correspon-
dente da revista em Bel6m. Tinha grandes amigos e excelentes
mestres. Perdi a pista de alguns deles que me eram muito cars,
como Mauricio Benassato (que depois foi agitar a Gazeta Mer-
cantil e em seguida sumiu). Outros continuaram como refer6n-
cias, mesmo quando discordivamos, o que era freqiiente.
Cor todos os exageros e abuses dos seus yuppies e dan-
dis, Veja mereceu o respeito que teve durante boa parte da
sua hist6ria. A informaq~o era apurada cor rigor, os textos
eram escritos cor cuidado, as pautas eram brilhantes e os edi-
tores sabiam o que faziam. O produto que ia para as pratelei-
ras das suas piginas tinha o melhor valor de mercado em cada
moment de apresentaaio da revista. Sujeita ao banzo da 6po-
ca, subindo e descendo conforme a pressdo, Veja era uma re-
fer8ncia, uma leitura obrigat6ria.


Essa Veja, por6m, nao existe mais. Mesmo quando ela apura
suas mat6rias com aplicaqdo e competencia, ao dar-lhes forma
as distorce ou traveste cor uma linguagem de rinha de briga de
galo. O que aprendemos a admirar naqueles primeiros tempos
de convivencia com rep6rteres da revista era o que resultava
dessa apuraqao: um texto elegant, que nao abdicava do princi-
pal, a informaqao correta. Hoje a linguagem 6 um desvario, na
qual tudo 6 permitido, da grosseria ao humor de maus bofes.
As mat6rias publicadas recentemente sobre Jader Barba-
lho e Ana Jilia Carepa abrigam informaq6es que precisam ser
consideradas, porque sao verdadeiras. Mas a forma nega o
contetido. A forma 6 acess6ria, mas quando quem a elabora
lhe concede o primeiro piano, compromete a credibilidade da
revista junto ao seu leitor, ainda quando a publicaqao tenha ra-
zao. E impossivel, sem deixar de considerar a razao, e at6 mes-
mo dando-lhe prioridade, nao deixar de perguntar a que inte-
resses da revista serve essa razao.
Jogando fora padres e principios que Ihe deram a excepci-
onal perenidade que alcanqou, Veja provoca a desconfianqa do
leitor. Seria como se aparecesse com p6rolas nas maos uma
pessoa metida na lama entire os porcos. Pode-se pensar que
essas p6rolas nao sao de quem as carrega, mas que foram
roubadas. Ou sao falsas. Veja, infelizmente, parece que des-
ceu a essa condiqao, talvez derrubada do seu pedestal pelas
trapalhadas e circunstancias da Editora Abril. Nao sera assim
que a empresa ird se Tecuperar. Sera exatamente assim que
uma revista important desapareceri, se continuar assim.


Tiroteio intense na terra da gusa


O tiroteio estd mais intense e pesado do que
aparenta na terra do ferro gusa de Carajis. Cada
grupo de interesse puxa a brasa para o seu alto-
forno. Nessa dispute as regras de civilidade nem
sempre sao respeitadas e o que interesse 6 ga-
nhar. Mas a partida parece decidida contra os
que querem simplesmente continuar a manter
seus procedimentos tradicionais: estes deverao
ser colocados para fora do mercado, inclusive
pelos que defended o carvao vegetal nao como
o vilao da hist6ria, mas como o grande her6i da
siderurgia dita amaz6nica.
Argumentam que a indiscutivel vantage
do carvao vegetal como fixador do carbon deve
servir de estimulo para os guseiros formarem
bons projetos de reflorestamento, utilizando dre-
as j degradadas ao long da ferrovia de Cara-
jis. Teriam suprimento garantido, estariam li-
vres das acusaqes de recorrerem a m6todos de
produqgo sujos (desmatamento, carvao illegal,
trabalho escravo) e teriam ganhos de produtivi-
dade, incluindo a utilizagdo do gas nobre da quei-
ma do carvao vegetal.


Mas por que esse modelo ainda nao esta em
pritica em nenhuma das siderirgicas, um quar-
to de s6culo depois do inicio da sua implantaqao
na regiao? Por que ainda nao 6 assim na area
mais antiga, a de Minas Gerais? E se hi disposi-
qo de fazer o melhor, de onde virao os recursos
para financial esse novo padrao?
Os defensores do "gusa tropical" dizem que
essas perguntas logo estarao respondidas, em-
bora nao possam apresentd-las ainda porque os
plantios nao alcanqaram tamanho e condiqao
t6cnica que garanta a sustentabilidade da side-
rurgia local. Mas acusam os que defendem ou-
tra soluqo, como o carvao mineral, de estarem
adotando process ainda mais poluente e sem
qualquer avanqo social, al6m de ajudar a man-
ter a matriz dos derivados de petr6leo, criticada
e sujeita a esgotamento, e de comprometer divi-
sas cor essa opqao.
ACompanhia Vale do Rio Doce esta A fren-
te dessa trilha. Aempresa j montou uma estru-
tura para trazer carvao da Asia e da Africa como
carga de retomo do min6rio de ferro que export


para essas regi6es. Ganhard como vendedora
de hulha ou coque, garantird sua faixa de domf-
nio mercadol6gico e poderi usar o carvao mine-
ral como instrument de pressao e deslocamen-
to de concorr8ncia. Entre n6s, o primeiro alvo 6
Barcarena, que deveri receber uma t6rmica com
capacidade equivalent a 600 megawatts, o su-
ficiente para tender o consume de Bel6m intei-
ra. E a mais grave ameaqa A qualidade do ar no
estuirio do rio Par.
Entre os dois principals grupos antag6nicos
hi diversas variaq6es de interesses e objeti-
vos. Por enquanto, pode-se apenas ter uma id6ia
da profundidade e do alcance desses interes-
ses, mas nao um quadro complete da situacqo.
S6 esse esboqo, por6m, mostra que a tecnolo-
gia e as condicges de produgo siderdrgica em
Carajis estdo muito long de ser satisfat6rias e
de estarem atualizadas as transformagqes que
ocorrem atualmente no mundo. Continuamos a
reagir As ondas de fora, freqiientemente como
o marisco: entire a rocha e o mar. Nao podemos
ter destiny melhor?


Novo livro
Ja estA nas bancas e livrarias meu livro mais recent, O Jornalismo na Linha de Tiro. Tern um pouco do primeiro
volume, o prometido segundo volume e alguns acrescimos e atualizag9es. Apesar de volumoso, cor mais de 500
paginas, custa apenas 30 reais, o mesmo prego do anterior, corn 300 paginas. Entre os documents que introduzi
agora estA a carta que escrevi a Romulo Maiorana quando do nosso rompimento, em 1986, e a Helio Gueiros,
antes e depois de ele ser governador do ParA (1987-1991).


Editor: Lucio FIAvio Pinto
Edl ia de Arte: L. A oe Faria Pinto
Coanata: Rua Adrisldes Lobo. 871 '66 053-020
Fon: (091) 3241.7626
E-mail: lomal@eamazon com or