Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00312


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Full Text



TUCURUI: LAGO
FICOU MAIOR

ornal PessoalBELO MONTE:
A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO AGORAVAI?


ABRIL DE 2007* laQUINZENA NP 389 ANO XX R$ 3,00
----------------- f.-- ----- -- -
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DESENVOLVIMENTO


0 que fica:


o buraco


Ha meio seculo comegou o ciclo dos "grandes projetos" na Amazonia, cor o embarque do
primeiro carregamento de manganes do Amapa. Os projetos se multiplicaram desde entio, as
historias se repetem, mas ninguem parece interessado em tirar as lig6es que elas podem
oferecer. Por isso, repetem-se os erros.


E mjaneiro de 1957 o primeiro na-
vio desatracou do porto de San-
tana, no Amapa, carregando 20
mil toneladas de manganes
destinado aos Estados Unidos. Depois
de quatro d6cadas de ausencia do mer-
cado international, em conseqtiencia da
estrondosa derrota de sua borracha para
os concorrentes asidticos, abstinencia in-
terrompida apenas durante a Segunda
Guerra Mundial, no esforqo para abas-
tecer de latex os paises aliados, a Ama-
z6nia voltava a oferecer um produto de
interesse mundial. Era o inicio de um


novo ciclo, o dos "grandes projetos", que
conectaria de vez a regiao a um planet
crescentemente globalizado e faminto de
mat6rias primas.
A Icomi, responsivel pela explora-
qao da rica jazida de mangan8s da Ser-
ra do Navio, conseguiu uma concessdo
de 50 anos junto ao governor federal para
realizar a lavra, numa parceria do em-
presirio Augusto Trajano de Azevedo
Antunes com a americana Bethlehem
Stel1, entdo a segunda maior siderdirgi-
ca do mundo. Mas ndo precisou de tan-
to tempo: antes do prazo contratual nao


havia mais min6rio corn teor commercial.
A empresa simplesmente p6s fim As suas
atividades e devolveu aos amapaenses
o rescaldo do seu pol8mico projeto.
At6 hoje o Amapi nao conseguiu dar
conta do desafio de retomar ou refazer
essa hist6ria. O meio s6culo do comeqo
da extraqao de manganes se completou
sem sequer um registro na imprensa. A
hist6ria acabou e ninguem mais parece
interessado nela, como se dela nada
mais se pudesse extrair, ji que nio ha
mesmo mais minerio para explorer.
CONTINUE NA PAG 2


PAGINA 6


PAGINA 7







CONTINUAAO DACAPA
E um erro. Quando o "grande proje-
to" do mangan8s ainda estava em fase
de implantacqo, o governador Janary
Gentil Nunes, o "fundador" e dono do
Amapa, juntamente com o irmao, Coa-
racy, apresentou-o como a salvaqao do
Territ6rio Federal, desmembrado do Pard
em 1943 como uma unidade federativa
de novo tipo, semente de um amadureci-
do Estado no future. Disse Janary, no
festivo discurso de inauguraqao da IX
Exposiqgo de Animais e Produtos Eco-
n6micos, quatro anos antes da primeira
viagem de mangan8s amapaense:
"Quais sao os reais objetivos que per-
seguimos? A exploraqao do mangan8s,
que muito breve sera realidade. A Usina
Hidrel6trica do Paredao, que transforma-
ra o Territ6rio no maior centro industrial
do Norte. A industrializaqao de manga-
nes, ferro, bauxita, papel, madeira, fibras
e 6leos vegetais. A instalaqao no porto
de Macapi de terminals de combustiveis
para a exportagao do petr6leo de Nova
Olinda. A duplicacao da atual produqao
de borracha do pais pelos seus seringais
de cultural. A pesquisa sistematica de toda
area territorial para identificacao de no-
vas fontes de riqueza. O povoamento dos
vales dos rios Jari, Cajari, Maraci, Vila
Nova, Amapari, Araguari, Amapi Gran-
de, Calqoerie, Cunani, Cassipor6, Ua~g
e Oiapoque. A conclusao da rodovia AP-
BR-15, espinha dorsal political e econ6-
mica do Territ6rio. A multiplicapqo das
searas e dos rebanhos. A construqFo da
cidade de Tumucumaque. A criaqlo do
Estado do Amapa".
A hidrel6trica do Paredao (batizada
com o nome de Coaracy Nunes) saiu,
embora com 15 anos de atraso em rela-
cio a previsao inicial. Mas de todos os
investimentos indicados por Janary, ape-
nas uma usina de ferro-liga resultou de
perene (embora precario) do projeto da
Icomi. Todas as combinaqaes possiveis de
produtos a partir do mangan8s para indus-
trializar o Amapi ficaram no papel.
Um piano de industrializaqao chegou a
ser elaborado, em 1955, prometendo que
desta vez a mineraqgo resultaria "num oi-
sis de paz e prosperidade". Ela nao repeti-
ria "a triste hist6ria de outrora, resumida
em esgotamento e mis6ria", prometia o
economist responsavel pelo piano, a pedi-
do do govemo territorial, Edouard Urech,
ex-integrante da Missao Klein & Saks.
Depois da extraqao de 19 milhoes de
toneladas de mangan8s de alto teor, ao
long de quatro d6cadas, o Amapi era
pouco mais do que "esgotamento e mis6-
ria", edulcorada pelo suspeito privil6gio de
estar sendo comandado politicamente por
um January mais bem-sucedido, o senador
e ex-presidente Jos6 Sarney. Nada de
novo, portanto, na linha das regimes colo-


niais da Terra. Nem mesmo corn a multi-
plicaqao de projetos semelhantes aos da
Icomi, agora revestidos de uma encader-
naCao caprichosa, ajustando-os as "res-
ponsabilidades socioambientais".
Se a data redonda do capitulo do
mangan8s, "velha" de apenas meio s6-
culo, passou em brancas nuvens, efe-
m6rides mais recentes precisam ser tra-
zidas a consciencia dos contemporane-
os. A descoberta da jazida de mindrio
de ferro de Carajis, a melhor do plane-
ta, farA 40 anos em julho. Certamente
haverA comemoraqao, agora que a dona
da mina, a Companhia Vale do Rio Doce,
estA mais atenta as exigencias de fazer
amigos & influenciar pessoas.
Mas ji passou batida a data anterior,
a da descoberta da jazida de mangan6s
do Sereno, tambrm na provincia mineral
de Carajis, feita pela Codim, em 1966,
que inaugurou formalmente a nova cor-
rida do setor as mineralizaqces do mes-
mo filIo que possibilitou o mangan8s (e
outras substancias, s6 recentemente mais
bem avaliadas) no AmapA. Era resultado
da fixagAo dos Estados Unidos corn a
"pedra preta". O pais, que safra da 2a
Guerra como o mais poderoso (de entao
e de todos os tempos), em 1950 s6 obti-
nha em seu pr6prio territ6rio 7% do man-
gan8s usado nos altos fornos das suas
siderdrgicas, que processavam mais de
um terqo do ago do mundo. Nesse ano,
os EUA iam buscar no exterior 50% de
todos os min6rios que consumiam. O
Brasil era o segundo principal destino,
superado apenas pelo vizinho Canada.
Um 6rgdo foi entao criado, atendendo
sugestivamente pelo nome de Comissao
da Political das Mat6rias Primas, e um re-
lat6rio foi produzido (o Paley Report) para
assegurar o fluxo de minerios em direqio
ao gigante do Norte pelas duas d6cadas
seguintes. Naturalmente, muita teoria uti-
litAria foi gerada na matriz do saber e dis-
seminada nos seus sat6lites.
O "piano de industrializaqao" produzi-
do por Urech em 1955 para o governor do
AmapA se colocava dentro dessa moldu-
ra analitica. Ele garantia que o "interesse
direto ja manifestado pelos americanos
pela exploraqao das jazidas ricas, no La-
brador, Africa, Venezuela e Chile, torna a
posiqao da 'Cia. Vale do Rio Doce' um
tanto sombria no future. Somente um
estado de emergencia daria, talvez, gran-
de impulse a uma exportaqao rentivel dos
min6rios de ferro brasileiro".
Coerente cor essa presungqo, a Uni-
ted States Steel, campeao mundial da si-
derurgia nessa epoca, nao obtendo na
margem norte do rio Amazonas o mesmo
sucesso que sua competidora, a Beth-
lehem, conquistou na margem sul, em
1977, desinteressada pelo ferro de Cara-
jis, desfez a sociedade corn a CVRD, re-


cebeu 55 milh6es de d6lares de indeniza-
qao pelo que realizou em toda d6cada an-
terior, pioneiramente, e af ouviu o canto
do cisne da sua posiqao no topo da side-
rurgia. Nunca mais foi a mesma.
Nesse ano, em que a Vale, ainda es-
tatal, passou a executar sozinha o proje-
to Carajis (mais uma data redonda: 30
anos), o desafio nao era nada desprezi-
vel. A mina ficava a quase 900 quil6me-
tros do litoral, no meio da selva amaz6ni-
ca, num nivel surpreendentemente ele-
vado entiree 500 e 600 metros de altitu-
de) para a planicie na qual a regiao era
reduzida nos manuals explicativos. Para
ir do porto at6 ela era precise abrir uma
longa ferrovia, que absorveria metade dos
tres bilhdes de d6lares de custo previsto
do empreendimento. Viria a ser a maior
ferrovia de uma inica via ji construida
no Brasil. Em seu eixo a regiao era in6s-
pita a uma obra desse porte: depois de
Santa Ines, no Maranhao, no rumo oes-
te, a primeira cidade estava a quase 500
quilometros de distancia.
Do ponto de vista da engenharia, foi
um sucesso, embora o terreno piano te-
nha ajudado: nao foi precise construir um
s6 t6nel e as obras de arte, com 63 pontes
e viadutos, nao ultrapassavam 11 quil6me-
tros de extensao. Mas em marco de 1985
(mais uma data, ainda que nao redonda) a
ferrovia foi inaugurada. E sua estrutura
era tao s6lida que, mesmo em linha singe-
la, di conta atualmente de escoar 100 mi-
lh6es de toneladas de min6rio, quando o
projeto ferro de Carajis previa "apenas"
35 milhoes de toneladas. Foram construi-
dos tantos patios e terminals que, hoje, falta
pouco para a ferrovia estar duplicada. E 6
isso que assusta quem se mantem um pou-
co mais atento as hist6rias, preocupado em
que elas nao sejam a repetiqao do enredo
de sempre e as promessas de novidade
nao passed de conversa fiada.
Se a Icomi levou 40 anos para esgo-
tar a rica jazida de mangan8s do Amapi,
a CVRD ja exportou mais do que as 20
milh6es de toneladas em metade desse
tempo, na posiqao de maior vendedora
de min6rio de ferro do planet (respon-
savel por um terqo desse mindrio em cir-
culacao entire os oceanos). Serra do Na-
vio durou pouco menos de 50 anos. A
mina do Azul nao ira muito al6m de 30
anos. Os fabulosos dep6sitos de ferro,
projetados para 400 anos de lavra, talvez
apenas ultrapassem o primeiro s6culo.
Com mais tempo e menos exploraqao, os
amapaenses um dia alimentaram o so-
nho de se tornar "um oasis de paz e pros-
peridade". Na conflituosa e saqueada
provincia de Carajas, num Pard que se
tornou exportador de energia bruta, nao
nos permitimos sequer sonhar. O future,
por isso, passarn rapido, deixando bura-
cos na terra e o apito do trem no ar

ABRIL DE 2007 I'QUINZENA Jornal Pessoal








Chega ao fim a era do carvao vegetal?


Parece que a 6poca do faz-de-conta
no p6lo siderirgico do Pard chegou ao
fim. As sete empresas do setor ji perce-
beram que nao poderio mais continuar a
fazer de conta que estao preocupadas
com a legislaqao ambiental e empenha-
das eri se enquadrar nas exigencias para
uma produq~o menos predat6ria. Ja o
governor comeqa a despertar da letargia
burocritica, na qual se limitava a preen-
cher pap6is e fazer de conta que suas
normas estavam sendo cumpridas. Mais
por pressdo vindo de fora do que por au-
toconsciencia, os dois atores principals
desse autentico drama estao buscando
novos papdis.
A farsa se exauriu traumaticamente.
Repercutiram no exterior, principal mer-
cado para os produtos siderirgicos pro-
duzidos a partir de Carajis, den6ncias de
trabalho escravo, produqao illegal de car-
vao, desmatamento desenfreado e rela-
9qes sociais perversas. Compradores e
financiadores, ameaqando se retrair, exi-
giram providencias para melhorar a ima-
gem da atividade, que os atinge pelo efeito
bumerangue (embora o local de lanqa-
mento-seja menos visivel do que o ponto
de chegada).
No mrs passado foi a vez de uma ofen-
siva do govemo do Estado nos distritos in-
dustriais de Marabd, onde estlo instala-
das seis usinas, e de Barcarena, que abri-
ga apenas uma delas. A apuraq~o dos da-
dos mostra que antes do final desta d6ca-
da essas
ft bricas
eslarao


produzindo mais de quatro milh6es de to-
neladas de produtos sidernrgicos. O forte
6 a gusa, mas pelo menos duas dessas uni-
dades ja estarao na fase da aciaria e se
expandindo pela laminaqco.
O crescimento da producao e sua mai-
or diversificaqao deverao conduzir a um
resultado inevitavel: o fim do uso de car-
vao vegetal. Espera-se que isso ocorra o
mais rapidamente que for possivel. O p61o
nao deveria ter-se constituido e crescido
cor base nesse insumo, que provocou
uma terrivel devastacao florestal na re-
giao e submeteu o seu habitante a um
trabalho vergonhoso, quando nao flagran-
temente repulsive, sem oferecer qualquer
compensaqao.
Nessa fase inicial as empresas agi-
ram com selvageria. Algumas ainda man-
t6m esse padrao e relutam em se ajustar
A realidade, como se pudessem manter o
passado sombrio em vigor. Mas ji h~
avancos tecnol6gicos no setor e 6 de se
prever que comecem os ajustes no prazo
de 15 dias dado pelo governor, depois da
blitz de fiscalizaqao. Alguns altos fornos
ja comeqam a ser alimentados por min6-
rio sinterizado, que aumenta o rendimen-
to da produqao e diminui os efeitos nega-
tivos. A aciaria da Cosipar em Barcare-
na deveri usar carvao mineral da Co-
16mbia. O gis pobre, obtido no alto for-
no, ji esti alimentando usinas t6rmicas,
com a possibilidade de ser substituido por
gds natural, permitindo expandir a capa-
cidade de geraqao sem agre-
diromeio -


9* -


ambiente. Ao inv6s de apenas gusa, as
usinas tamb6m laminarao o ago, como
estA previsto para Marabi.
As mudanqas no mercado internaci-
onal autorizam e estimulam essa diver-
sificaqao, mas o fen8meno 6 individual.
O governor nao imp6e as empresas uma
political de padronizaqao e melhoria do
nivel de produqao, fazendo o setor criar
efeitos ben6ficos para a economic lo-
cal, que, por enquanto, sao minimos.
Mesmo as empresas que manifestam
interesse na formaqao de pessoal quali-
ficado nao vdo al6m da intencao. Seu
relacionamento corn a sociedade em tor-
no 6 tenue. Os projetos de refloresta-
mento, quando existem, avanqam corn
inaceitivel lentidao. A substituiqao do
carvao vegetal, que devia ser uma re-
gra determinante imediata, 6 deixada
para depois.
Mas as empresas ji sabem que a ati-
tude anterior se tomou impossivel, por
virios fatores. Um deles 6 o agravamento
da dependencia e da sujeigqo A Compa-
nhia Vale do Rio Doce. Alim de ser a
6nica fomecedora de min6rio de ferro, a
Vale imp6e exigencias aos seus clients
para vender-lhes a menor quantidade pos-
sivel (o mercado asiAtico a remunera
muito melhor) e compensar por outra via
o preqo mais baixo que recebe (condici-
ona a venda, por exemplo, ao uso da sua
ferrovia). Com a celeuma em torno do
carvao illegal, ameaqou suspender o abas-
tecimento das guseiras
e se elas nao se regula-
rizarem. Aparece
Scomo mocinho com-
batendo os bandidos e
ainda faz bom neg6cio.
O cendrio mudou
e os pap6is tamb6m
estdo sendo redistri-
buidos. Espera-se
que nessa nova con-
juntura o poder ptlbli-
co revele o que Ihe
tem faltado at6 ago-
ra: seriedade, compe-
tencia e permanencia.
Talvez assim seja
possivel atualizar a si-
derurgia que se faz no
Pard a uma 6poca um
pouco mais pr6xima
do s6culo XXI.
Atualizi-la por in-
teiro parece utopia.


Jornal Pessoal I" QUINZENA ABRILDE2007








Cerveja privilegiada


A Cerpasa ameaqa ir embora do
Para. A empresa diz que a concorr8n-
cia da Schincariol 6 desleal. A nova fi-
brica de cerveja conta com incentives
fiscais, que nao beneficiam mais a Cer-
vejaria Paraense S/A. Cada uma das
caixas de cerveja que produz 6 desone-
rada por apenas centavos, enquanto os
incentives estaduais desobrigam a con-
corrente de reais.
A Cerpa deixou de ter o mesmo tra-
tamento porque deve 47 milhoes de reais
ao eririo estadual. O valor ji foi superi-
or, mas a empresa renegociou a divida e
comeqou a pagi-la em prestaq6es. O
saldo, por6m, ainda 6 alto, tantas foram
as infraqoes fiscais e tributirias cometi-
das pela Cerpasa. A principal foi o nao
cumprimento de sua obrigaqao de con-
tribuinte substitute: ela recolhia o impos-
to devido pelo revendedor, mas nao o re-
passava para a Secretaria da Fazenda,
caracterizando a apropriaq~o ind6bita.
A reiterada pritica de irregularidades
se alimentava da omisslo ou conivencia
da autoridade ptiblica. A Cerpasa parece
ter tornado um hibito utilizar seu monu-
mental caixa 2 para agradar e influenci-
ar pessoas poderosas. Um dos instrumen-
tos era o financiamento de campanhas
eleitorais, que propiciavam um encontro


de contas com o politi-
co beneficiado. O Mi- i
nist6rio Piblico do Tra-
balho e a Receita Fe-
deral comprovaram a
pritica ilicita em 2005,
resultando em novas
atuagqes, no total de
R$ 4 milh6es.
Ainda que a Cerpa-
sa nao se tivesse acos-
tumado a esses maus
procedimentos, sua
queixa seria considera-
da risivel num pais de
capitalism a s6rio. A
empresa funciona hi
40 anos. Ha muito saiu
da fase de implanta-
q~o, quando certo grau
de incerteza, pelo inves-
timento em area distant
dos grandes centros (ou pioneira), expli-
ca (quandojustificado) o subsidio pfbli-
co, para atrair capital e reduzir suas in-
certezas. Mas incentive fiscal apropria-
do como capital fixo no orqamento annual
de uma empresa privada 6 risivel. Vira
achincalhe de mau gosto em pais pobre,
como o nosso, e regilo ainda mais pobre,
como a Amaz6nia.


A Cerpa ji teve
todo auxilio possivel -
e impossivel do go-
vemo. Se nesse perfo-
do se contentou em mo-
lhar as mlos de santos
de pau oco do poder, o
problema 6 seu. Ela s6
tem razdo ao chamar a
S atenqao ao tratamento
tributirio diferenciado
da Schincariol. Vale a
pena rev6-lo. Se as
condiq6es sdo seme-
lhantes is concedidas
A Cerpasa na sua im-
plantaqdo e ajustadas A
realidade atual, muito
bem, ndo se deve to-
car nelas. Mas se hi al-
guma irregularidade,
precisa ser corrigida, se
ndo for o caso de cancelamento.
Afora isso, a Cerpa quer, hoje, ter uma
situagqo parecida ao monop6lio do qual
usufruiu por largo tempo, por ser a tinica
fabricante local. Se 6 para restabelecer o
monop61lio, entdo 6 melhor a empresa ir
cantar em outra freguesia. Com duas fa-
bricantes, o que o consumidor deve dese-
jar 6 a melhor concorr6ncia possivel.


M6sica para criancas


Durante'seus primeiros anos de vida,
meus filhos dormiam sob meu canto e
a despeito dele. Numa dessas sessoes
noturnas, cantei Borandd, de Edu Lobo
e Ruy Guerra, que fala da saga do mi-
grante nordestino tocado de sua terra
pela seca. No dia seguinte, quando ia
me retirando cautelosamente do quarto,
minha filha, entao com seus tres anos,
um olho aberto e outro fechado, sussur-
rou sua ordem infantil, bem ao seu esti-
lo: "Ainda nao dormi, pai". Seguindo-se
um pedido, estilisticamente meloso:
"canta aquela mfisica". Tomei um sus-
to. Era Borandd, mdsica dificil, nada su-
postamente infantil, que cantava mais
para mim (aproveitando-me da plat6ia
indefesa) do que para minhas vitimas
incautas. Essa passou a ser a canqao


preferida de Juliana, minha primeira fi-
lha, na alvorada da paternidade.
Sempre que penso em m6sica para
crianqas (acho impr6pria a expressao "in-
fantil"), esse epis6dio me vem a lembran-
qa. Qual 6 realmente o gosto infantil? Fa-
zer m6sica para crianqas significa produ-
zir para gente primiria, sem exig8ncia, sem
gosto apurado, que engole qualquer nota?
Ou n6s associamos infantilidade a (qua-
se) superficialidade por desconhecermos
nossas crianqas? Arbitrariamente impo-
mos a elas nossos preconceitos e presun-
oes, empobrecendo suas complexes ca-
becinhas, maravilhosamente surpreenden-
tes, desafiadoramente novas.
Sabah Moraes, uma paraense de ex-
portaqao, comp6s e cantou a melhor
misica infantil em O mundo e cheio de


sonhos, um CD praticamente artesanal,
que criou em parceria cor o marido,
Ney Couteiro, e a ajuda de gente muito
talentosa. Quem quer dar um precioso
present ao seu filho deve ligar para
Sabah em Goiania, onde ela mora (62-
81272697), ou Ihe mandar uma mensa-
gem (sabahmoraes@bol.com.br). Ou-
vindo as composicqes, na voz afinadfs-
sima de Sabah, nao tive divida: consigo
seguir na vida porque carrego como meu
patrim6nio a crianqa que nunca deixei
de ser, o projeto de pessoa que nunca
deixa de ser uma semente.
Sou suspeito para dizer, porque sou
amigo da artist e um dos seus primeiros
ouvintes fora da imensa e talentosa fami-
lia dela; mas digo: 6 o mais bonito disco
para crianqa que ji ouvi na minha vida.


ABRIL DE 2007 I"QUINZENA Jo'rnll Pesso11


I I EMNAMM M '.*~-^IlsL~ "' "'A -t, M ,' ,








Nosso crescimento: como rabo de cavalo


O Pard 6, ao mesmo tempo, o s6timo
maior produtor e o terceiro maior expor-
tador de energia bruta do pais. E um Es-
tado sem reserve de energia para a ativi-
dade produtiva. E um paradoxo acacha-
pante. Ao inv6s de utilizar a energia bru-
ta que gera em seu territ6rio como insu-
mo para produzir bens de maior valor
agregado, dentro de sua pr6pria divisa,
favorecendo os seus habitantes, o Esta-
do transfer essa energia para outros
Estados, nos quais se realizard o efeito
multiplicador do investimento.
Provavelmente se o cilculo dessa
exportagao ruinosa incluisse, ao menos
parcialmente, a energia que vai para o
exterior embutida em produtos eletroin-
tensivos, a posiqao do Pard nesse
ranking desastroso pulasse para o se-
gundo lugar entire os Estados que trans-
ferem.energia bruta para fora dos seus
limits territoriais. Na melhor das hip6-
teses, a sangria energ6tica aumentaria
em 50% se abrangesse a said do lin-
gote de aluminio, que 6 o produto manu-
faturado que mais absorve energia. E a
perspective, com a metalurgia do cobre,
o beneficiamento do niquel e a reativa-
qao do silicio, 6 a situacao piorar.
Por imprevidencia e falta de disceri-
mento do governor, a energia que 6 trans-
ferida faz falta na matriz energ6tica es-
tadual. Como converter a siderurgia de
Carajds para que ela nao continue a de-
vastar a regiao em tomo das usinas? Esti
evidence que as indistrias sem base flo-
restal pr6pria nao podem mais usar o
carvao vegetal, que, alids, devia ser sim-
plesmente suprimido desse setor (mes-
mo o reflorestamento 6 um 6nus para o
meio ambiente, apenas atenuando os gra-
ves problems causados pela presenqa
das guseiras numa regiao de floresta na-
tiva). Mas, se ainda 6 possivel aceitar que
elas continue a funcionar, qual seri o
seu energ6tico?
Quando a hidrel6trica de Tucurui co-
meqou a funcionar, mais de 20 anos atris,
ela devia garantir o suprimento dos em-
preendimentos eletrointensivos. Comn a
interligacao dos sistemas energ6ticos e a
gestao centralizada do governor federal,
o fato de o Pard ter em seu territ6rio a
segunda maior usina de energia do pafs e
a quarta do mundo nao Ihe faculta a pos-
sibilidade de dispor do bern. 0 operator
national do sistema transfer energia de
uma regiao para outra indiferentemente
a qualquer political estadual (e, no nosso


caso, nem political estadual de energia hi).
A isenqao do ICMS concedida ao com-
prador da energia e cobrada do produ-
tor agrava essa situaqao.
Ela se manifesta agora de forma
aguda no p6lo de Barcarena. AAlunor-
te, projetada para 1,1 milhao de tonela-
das de alumina, vai chegar a 7,2 mi-
lh6es, como a maior do mundo. A sua
irma, a Albras, que comecou com 320
mil toneladas, nao expandiu nem em
20% a sua producao. Se acompanhas-
se o crescimento da vizinha, teria pas-
sado de dois milh6es de toneladas e
tamb6m seria a maior refinaria de alu-
minio do planet.
Claro que nao hi uma simples rela-
q~o direta entire as duas fibricas. O in-
vestimento no aluminio 6 muito maior do
que na alumina e o mercado nao com-
portaria uma multiplicaqao, na Albris, do
porte do que experiment a Alunorte.
Mas realmente a metalurgia estagnou
comparativamente A sua etapa anterior,
de transformagao qufmica. O principal
fator para essa restriqao 6 a inexistencia
de oferta de energia compativel, em
quantidade e preqo, mais at6 no primeiro
fator do que no segundo (o contrato de
fomecimento de energia foi renovado por
mais 20 anos e a tarifa foi acertada pelas
parties em negociaqco).
A Albris tem que crescer. Ja devia
estar maior, para aproveitar a mar6 al-
tista das commodities. Para contornar
o problema da energia, a Companhia
Vale do Rio Doce esta definindo o pro-


jeto de uma usina termel6trica, que pode
ser a gis ou a carvao mineral. Ecologi-
camente, deve-se dar prefer8ncia pelo
gas, que nao ter o impact ambiental
do carvao. Mas a logistica do estudo 6
complex porque o Pard nao ter gas
nem carvao mineral. Qualquer dos ener-
g6ticos precisari ser importado e o cus-
to 6 o xis da questao.
Aparentemente, a CVRD esta tratan-
do sozinha do assunto. Se assim for, 6
um absurdo. O governor ter que entrar
nessa hist6ria. Se for para ajudar a mon-
tar a equacao da viabilidade, deve exigir
contrapartida. Nao com patrocinio A cons-
trugao de casas ou para a orquestra sin-
f6nica tocar no Teatro da Paz: ter que
exigir a destinaqao do metal primirio para
transformaqao no pr6prio Estado. A vizi-
nhza Alubar nao chegou ainda A sua ca-
pacidade instalada de producao por falta
de aluminio (que ela utiliza na forma li-
quida). t precise ampliar sua cota. Mas
exigir dela mais do que o grau de benefi-
ciamento atual. E tentar atrair outros pro-
jetos que atuem mais al6m, na escala da
transformagao industrial.
O problema 6 s6rio demais para que
a sociedade s6 saiba dele quando um
raio informative cisca pelo ar, indicando
que pode vir temporal por ai. A pior bor-
rasca que assola o Pard 6 a de mant8-lo
na sua atual condicao colonial. Tao mas-
sacrante que nem o prejudicado se inte-
ressa por saber o que se passa. S6 vai
tomar conhecimento quando o leite ji
estiver derramado.


Venda


Aos domingos, mulher nua. As
quartas-feiras, livro espirita a cinco
reais para quem comprar o journal.
Nao hi fronteiras para o marketing
de vendas de O Liberal. Tudo pelo
caixa.
Mas a folha dos Maiorana devia
indicar precisamente, na capa, o
preqo do exemplar, ao inv6s de ape-
nas informer que aos domingos ele
custa R$ 2,50 e, nos dias iteis, R$
1,50. Assim, evitaria a divida do
comprador do exemplar nos feria-
dos, como o da sexta-feira santa: 6
preco dominical ou de dia 6til?


Uma curiosidade: aos 60 anos, O
Liberou circulou, nesse feriado. com
sua edicio 31.711. No mesmo dia. o
Didrio do Pard, que tem 24 anos e
sempre circulou todos os dias da se-
mana, ao contririo do seu concorren-
te, estava cor a sua edicio 8.316.
Abstraindo os meses de diferen-
Ca, seria como se em cada ano cir-
culassem 520 ediq6es de O Liberal
e 350 do Didrio. Ou seja: para a fo-
iha dos Maiorana o ano tern muito
mais do que 365 dias. Como quem
I 0 Liberal acredita, a vida ficou
mais longa.


-.~ ---i-rrrn-u---- all~i~u-~-- ~ -


Jornal Pessoal 1' QUINZENA ABRIL DE 2007 5


Cl~9111 -- 5-~--u -II~-~--~----------'Y1 !~








Tucuruf: lago ficou maior


O reservat6rio da hidrel6trica de Tu-
curui, no Para, que constitui o segundo
maior lago artificial do Brasil, aumentou
quase 5%: passou de 2.875 quil8metros
quadrados para 3.007 km2. Ficou um
pouco mais pr6ximo ao reservat6rio da
usina de Sobradinho, na Bahia, o maior
do pais, com 4.200 km2. Quem consultar
o site da Eletronorte, responsdvel pela
obra, ou outras fontes oficiais de infor-
maq6es a respeito, encontrard os dois
nimeros, o que estava em vigor at6 bem
recentemente, e o novo, que surgiu sem
que ningu6in explicasse a sua razao.
O crescimento nao 6 nada desprezi-
vel: de 123 km2 (ou mais de 12 mil hec-
tares, o equivalent a aproximadamente
10 mil campos de futebol). A nova mar-
ca reativou um process que parecia en-
cerrado: o da expansao do reservat6rio
de Tucurui, a segunda maior hidrel6trica
brasileira e a quarta do mundo. Inicial-
mente projetado para 1.160 km2, ele foi


espichando tanto em funcio de levant
mentos mais detalhados e precisos cor
da ampliaqdo da capacidade da using
Mas os 2.875 km2 pareciam ser a marc
definitive, agora mais uma vez ultrapas
sada. Havern mais uma?
Mesmo com o novo acr6scimo, o v
lume de.igua estocada permaneceu
mesmo: 50 bilh6es de metros c6bicos d
agua (ou 50 trilhies de litros), dos qua
35 bilh6es usados para a geraqIo d
energia, situados acima da cota de 6
metros. Das 23 maquinas previstas n
duas etapas do projeto, 20 estao em ope
raqco (a l6tima autorizada a funcionar n
iltimo dia 4). A potencia de cada turbin
varia entire pouco menos de 370 e pouc
mais de 380 megawatts. Para atingir ess
capacidade, cada maquina precisa de 38
a 680 metros c6bicos de agua por segur
do. A potencia final maxima de Tucur
sera de 8.370 MW, pouco menos de 10O
da capacidade energ6tica brasileira.


Voz official


Ja esti quase para se tornar uma
verdade a explicaqlo official de que
a contrataqco da cabeleireira e da
esteticista da governadora Ana JIi-
lia Carepa foi causada por um des-
cuido qualquer de um burocrata
qualquer do gabinete. Ao invds de
mandar pagar pela prestaCao do
serviqo, abrangido pelas previs6es
Sde cusleio pelo poder p6blico (por
ser mordomia legalizada), o barna-
b6 fez a contrataclo.
O problema 6 que o decreto foi
assinado pela beneficiAria. Decreto
esse de contrataqgo das duas pro-
fissionais como assessoras especiais.
SSera que a governadora nao se da
ao trabalho de pelo menos saber
quem sao os assessores que contra-
ta sob o titulo de especiais? Ou esse
escaninho da governadoria continue
a ser o que sempre foi: uma bacia
das almas, dep6sito de convenienci-
as, abrigo de interesses?
Mudanqa para qua?
Na nota official sobre o problema,
alids, o governor do Estado reafirmou
"sua compreensio da importancia do
.-^- -..^.-- c*U -pD^"^*sl*^f^ffiU*llamll*


papel fiscalizador da imprensa e que,
em qualquer circunstincia onde te-
nha sido cometido equivoco ou fa-
lha administrative, o fato sera ime-
diatamente apurado e sanado. como
sempre foi a pritica da governado-
ra e do Partido dos Trabalhadores".
Por levar a serio a declaraco.,
gostaria de renovar, pela terceira vez,
minha pergunta: por que, ao inv6s de
suspender o pagamento da mensali-
dade do "'convenio" da Funtelpa com
a TV Liberal. o governor nao deier-
minou. pura e simplesmente, a revo-
gaq~o do 14 termo aditivo, assina-
do em 31 de dezembro do ano pas-
sado pelo entlo governador SimAo
Jatene, que prorrogou o "convenio"
atW o final deste ano?
Bastaria essa provid6ncia para
poupar o erdrio de vir a ser cobrado
pela suspensao da mensalidade (de
476 mil reais), que equivale a rom-
pimento unilateral da relaqlo e im-
p6e o pagamento de multa. Se isso
acontecer, a administraq o perista
terd proporcionado uma poupanqa
compuls6ria a TV Liberal.
rr*^w^?ffla.K~~~~sia~i~apfi^@aiisi


a-
0
a.
a
s-


o
e
is
e
2

e-ELOY
0
la Todas as tardes Eloy Santos sortea-
o va n6meros de places de carro entire mo-
a toristas de praqa no seu popularissimo
0 program de radio. Todos sabiam que
i- esse era apenas um artificio que ele usa-
ii va para anunciar os resultados do jogo
% do bicho, entao (e ainda?) uma contra-
venCao penal.
Um dia, escrevendo mat6ria a respeito
para O Estado de S. Paulo, decidi co-
brar uma confirmarao com o pr6prio Eloy.
Ele estava em sessao na Camara Muni-
Scipal de Bel6m. Sempre afavel comigo,
ouviu a pergunta, me olhou cor certa
incredulidade e com seu vozeirao a ple-
Snos pulm6es confirmou a versao, de co-
nhecimento p6blico. Publiquei a informa-
qao, imagine que haveria repercussao,
mas deu em nada. Eloy continuou a sor-
tear as places at6 que algu6m achou que
Sja era hora de parar e o obrigou a procu-
Srar outra atraqgo.
Ele era um tipo, uma figure, um per-
| sonagem. A voz era a razao do seu su-
cesso, mas achou de juntar a ela sua apa-
Srncia, sua elegancia e sua linguagem,
que nao estavam no mesmo nivel de seus
decib6is. Graqas a sua excelente locu-
S do, acabou sendo o porta-voz do gover-
nador Fernando Guilhon (1971-75), um
home discreto e timido, necessitado de
Sum para-raios (ou um atira-raios), como
Eloy, para lidar com o p6blico. Mas da
mesma maneira como fazia, Eloy desfa-
Szia. Sua carreira foi um ziguezague, que
chegou ao fim no inicio do m8s, de forma
Striste e imerecida, atropelado por uma
motocicleta numa das ruas da cidade.
S No sei se algum dia Chico Anysio
conheceu Eloy Santos. Mas um dos seus
melhores personagens, Alberto Roberto,
era, sem tirar nem por, o pr6prio Eloy.
SQue, assim, por vias a travessas, se imor-
talizou, conforme pretendia.


SABRIL DE 2007 I"QUINZENA Journal Pessoal








Justiga decide por Belo Monte


A justiqa nao devern ser mais empe-
cilho para que a Eletronorte realize os
estudos de impact ambiental da hidrel6-
trica de Belo Monte, no rio Xingu, no Pari,
dando partida efetiva ao inicio das obras
logo em seguida. Posiqgo em favor da
usina foi dada tanto pelo juiz natural, o de
Altamira, como na instancia final de re-
curso, o Supremo Tribunal Federal, atra-
v6s de manifestaq~o da sua president,
ministry Ellen Gracie.
A sentenqa do juiz federal de Altami-
ra, Herculano Martins Nacif, dada no dia
27 do mnes passado, em grande. parte se
fundamentou no entendimento da presi-
dente do STF. Se em Brasilia ainda nao
houve um exame de m6rito da litigancia
entire o Minist6rio Puiblico Federal e os
6rgios do Executivo responsaveis pelo
empreendimento, em Altamira a questao
foi exaurida. E dificilmente eventuais re-
cursos A instancia superior conseguirAo
mudar um entendimento unanime: nao ha
impedimento legal A realizaqao do EIA-
Rima, que incluird a consult posterior As
populaoqes indigenas da drea sob influ-
encia direta e indireta do projeto.
Na sua sentenqa, de 58 piginas, ojuiz
Nacif se mostra mais impressionado com
os arguments em favor da hidrel6trica
de Belo Monte do que com as raz6es
apresentadas contra a obra pela Procu-
radoria Regional da Reptiblica. A preo-
cupaqao maior 6 corn a possibilidade de
novos "apag6es" energ6ticos no pais, se
as obras de geraq~ o e transmisslo pro-
gramadas pelo governor nao forem exe-
cutadas (agora no ambito do Programa
de Aceleraqao do Crescimento, o PAC),
e o risco de desnacionalizaqao da Ama-
z6nia atrav6s de uma manipulaqao de
causes indigenas e ambientais por insti-
tuiqces ou governor estrangeiros.


Se os ambientalitas podem ter exage-
rado nos efeitos do represamento do Xin-
gu sobre os menos de 400 indios que ha-
bitam areas pr6ximas, na maioria dos
casos a uma distancia expressive, os que
se colocam do lado da usina demonstram
falta de rigor na incorporagqo de dentin-
cias inconsistentes sobre os interesses
estrangeiros envolvidos na questao. Ha
principios em causa, mas eles nao sao
claramente expostos e nem considerados
analiticamente. E uma hip6tese a consi-
derar a transformaqao do Xingu num
patrim8nio national de valor paisagistico
e, por isso, infenso a obras de transfor-
maqao como uma hidrel6trica. Mas essa
hip6tese resistird a um teste de consis-
tencia? Simplesmente formula-la nao 6 o
bastante para apoia-la. O Xingu ji so-
freu tantas laceraq6es praticadas pelo
home que sua concepqco como monu-
mento da humanidade pode nao ser con-
firmada por uma verificaqao rigorosa.
Mas 6 um raciocinio que merece ser de-
senvolvido experimentalmente.
A parte esse pressuposto, o que esta
faltando 6 uma andlise t6cnica pluralista
sobre o projeto da hidrel6trica de Belo
Monte e uma confianqa na empresa res-
pon'sivel pela obra, a Eletronorte. De fato,
o perfil original do empreendimento mu-
dou bastante na seqiitncia das sucessi-
vas verses apresentadas pela empresa.
A drea a ser inundada 6 tr8s menor do
que a primeira previsao, o impact sobre
Altamira pode at6 ser ben6fico pela re-
gularizaqao do nivel do Xingu A altura das
enchentes anuais, apenas a aldeia Paqui-
qamba seri diretamente afetada (mas
nao haveri falta de agua a jusante gra-
gas A introdugao da barrage auxiliar, a
montante da tomada de agua da usina de
forqa) e a relacqo km2 submerso por


megawatt gerado torna Belo Monte ex-
tremamente vantajosa.
Mas sera que a usina ter viabilida-
de econ6mica, poderi funcionar auto-
nomamente, sem nova barragem rio aci-
ma, uma ou mais? Nesse caso, nao 6
recomendivel discutir de uma vez to-
dos esses aproveitamentos, ao inv6s de
abordd-los no varejo?
Continue sustentando o ponto de vista
de que 6 precise mudar a forma de de-
senvolver a Amaz6nia, acabando corn o
modo rodovidrio, que a desnaturou e tan-
tos males Ihe causou, e voltando A 6tica
fluvial. O desenvolvimento seria reali-
zado atrav6s das bacias, no sentido das
suas aguas, e cada uma delas teria sua
ocupaqao orientada por um plano de de-
senvolvimento, transformado em lei, de
cumprimento obrigat6rio.
Assim, independentemente da defi-
niqao do EIA-Rima de cada usina, a Ele-
tronorte teria que colocar todas as suas
cartas na mesa. Se quisesse realizar
mais de um aproveitamento energ6tico
no Xingu, teria que apresenti-los todos
aos formuladores do piano de desenvol-
vimento da bacia, sob pena de nunca
mais poder executar o que nao fosse
contemplado pelo planejamento, cor o
horizonte mais amplo possivel.
Acho que dessa maneira seria pos-
sfvel montar a equaqao e chegar a um
resultado sobre o qual a sociedade ama-
z6nica poderia decidir sobre o que me-
lhor lhe interessa. De outro modo, cor
as manifestacqes recentes dojudicidrio,
o enredo estard definido, seguindo a his-
t6ria das hidrel6tricas anteriores. Quan-
do a trama comega, todos estao cheios
de boas intenq6es. Mas quando ela se
consuma, nem sempre o produto favo-
rece a regiao. Muito pelo contrario.


ERRATA


Peco desculpas aos leito-
res por alguns erros, peque-
nos, mas chatos. Devem-se
A nada recomendivel cir-
cunstancia de ter que escre-
ver este journal no fim-de-se-
mana, circunstancia ja sufi-
cientemente apontada, mas
insistentemente mantida em
funqao da perseguiqao judi-
cial que sofro.


Em funqao dessa contin-
gencia, que afeta a vigilan-
cia na hora de escrever,
Marcilio Monteiro apareceu
na mat6ria de capa da edi-
qao anterior como pai do fi-
lho mais velho de Ana Jtilia
Carepa, do qual, na verda-
de, foi padrasto, na condi-
qao de segundo (e ji ex)
marido da governadora.


Graqas ao jatinho da ORM
Air, fretado pelo Estado,
p6de ir A festa familiar de
formatura, realizada em
Belo Horizonte.
A economic mensal de 5
reais, proporcionada pela re-
duqgo da aliquota do ICMS
sobre os pequenos consumi-
dores de energia, 6 "per ca-
pita" domiciliar e nao por


morador do Estado. Faqo o
esclarecimento, ji que a ex-
pressao resultou em confu-
sao por rirte de alguns lei-
tores da mat6ria. 0 mais
correto seria escrever mes-
mo por domicilio. Mas, para
bom entendedor, deveria fi-
car claro: o beneficio 6 por
im6vel e nao pelo nimero de
pessoas que o habitam.


Jornal Pessoal I' QUINZENA ABRILDE 2007 7


, 0 't 11 man "I a I







----~-- L-ll ~ l~rl*Lc~A~w,'


Grilagem
Ja havia torado conhecimen-
to da mat6ria que voc8 abordou
no seu JP, ediq~o n388, 2a.
quinzena, marqo/2007, sobre de-
cisao da Justiqa Federal na qual
o juiz determine a desocupaqao,
pela Incenxil, de extensa Area do
Xingu, sob fundamento de
evidence grilagem, praticada ou
acobertada pelo grupo empresa-
rial C. R. Almeida.
Tal decisao me alegra parti-
cularmente por dois motives: o
primeiro deve-se ao fato de que,
ao assessorar a CPI da Grila-
gem, na Assembl6ia Legislativa,
ha uns 8 anos, pude constatar,
de cara, que havia algo de "po-
dre" na situaqao legal da referi-
da area. Era tudo muito 6bvio.
Qualquer pessoa deputados,
servidores, depoentes -perce-
biam que havia tido maracutaia
no registro daquela imensidao
de area. Voce, inclusive, foi uma
das testemunhas, e apesar de
ja Ihe conhecer e ao seu journal,
e admira-los, passed a respeita-
lo muito mais. Portanto, como
cidadao brasileiro, fico feliz corn
a decisao judicial.
Meu segundo motivo de j6i-
bilo 6 que, por ser um leitor-ad-
mirador seu, tal decisao veio
como que um desagravo contra
a absurda decisao do judiciario
estadual, que lhe condenou por
danos morais, a favor desse imo-
ral grupo empresarial.
Ojuiz federal nao diz com to-
das as letras, mas sua
decisao nos remete A conclusao
de que a Incenxil e seus proprie-
tArios ou controladores, sao gri-
leiros da pior esp6cie, ou, como
voc8 os classificou, salvo
engano, piratess fundidrios".
Parab6ns ao Minist6rio Pd-
blico Federal, A Justiqa Federal,
a pessoas como voc8 e tamb6m
ao vereador de Atamira, o
qual nao me record o nome,
mas foi autor das denuncias de
grilagem que originaram aquela
CPI e que, absurdo dos absur-
dos, foi cassado pela Camara
Municipal de Altamira, pelo "cri-
me" de ter sido corajoso em en-
frentar o poderoso grupo.
Arthur Carepa

Biombustivel
Levei um susto quando vi que
parties de meu e-mail a voce fo-


ram citadas literalmente pelo Jor-
nal Pessoal no 368. O objetivo da
minha mensagem apenas foi mo-
tivar-lhe a aceitar mais uma "car-
ta-de-leitor" minha, uma vez que
ji tinha aceitado outra.
Se tivesse previsto que par-
tes dessa mensagem iam tornar-
se pdblicas, a teria redigido corn
mais cuidado e nao as pressas
como foi o caso. A mensagem que
mandei nao foi muitojusta corn o
CPATU. Teria sido melhor escre-
ver que, em geral (sem mencio-
nar o CPATU), os especialistas
agroflorestais (eu inclusive) se
tem dedicado demais a constru-
qao de belos sistemas agroflores-
tais, criando, sem querer, peque-
nas ilhas "ecologicamente corre-
tas" em um mar de agriculture
uniform, sem contribuir, nota-
velmente, para a mudanca dessa
agriculture para uma de maior
sustentabilidade. Observava de-
pois que seria melhor que os es-
pecialistas agroflorestais pesqui-
sassem a integraqao de Arvores
na agriculture; por exemplo, ela-
borando e testando op,6es agro-
florestais para o dendA.
Pensando bem, o CPATU ja
ter trabalhos que buscam essa
integraqdo de rvores na agricul-
tura. Por exemplo: as pesquisas
sobre o prepare de Area sem o
uso do fogo e as sobre sistemas
silvipastoris implantados por
produtores. Al6m disso, o CPA-
TU acaba de organizer um semi-
nArio sobre dende que, entire ou-
tros, tratou do interesse dessa
cultural para o "pequeno" agricul-
tor. Vi isso no site do CPATU
(http://www.cpatu.embrapa.br/)
que devia ter visitado antes.
Pois, nao estava muito certo,
quando escrevi que no CPATU
"ningu6m parece estar estudan-
do as opq6es para o dend8 na
pequena propriedade".
Trabalhando na Amaz6nia te-
nho tido diversos contatos corn o
CPATU, final, o mais important
centro de pesquisa agropecuaria
da regiao. Sempre foi recebido e
ajudado de forma exemplar.
Vi que a participagao no de-
bate sobre a Amaz6nia nao 6
tao facil.
Johannes van Leewem

Belem
Sobre a mat6ria "Para o bem
de Bel6m" (JP n 388) e a possi-


vel discussao de um projeto para
Belnm por ti proposto, tenho um
questionamento a fazer.
Sera possivel discutir Bel6m
sem discutir o Pard e suas vela-
das (em nfvel de opiniao public)
quest6es que t6m no baixo nivel
de renda e na violancia suas fa-
ces mais visiveis e agudizadas?
Logicamente que, se formos
levar a questao a fundo, terfamos
que primeiro discutir o Brasil e o
mundo, mas penso que para ini-
cio das coisas a Amaz6nia e o
Para, chegando at6 Bel6m, jA es-
tariam de bom tamanho e dariam
para o gasto.
Mesmo que se discuta a
Amaz6nia o Pard e Bel6m, nao
chegaremos a nenhuma socieda-
de modelo, mas o pior de tudo 6
nao discutir, 6 nossa incapacida-
de de pelo menos buscar equaci-
onar nossos problems. Resolve-
los seria uma outra etapa que
dependeria de nossa eficiencia.
Minha "tese" 6 que todos n6s
somos sapientes e demasiada-
mente donos da verdade, daf
nossa incapacidade de sentar-
mos A mesma mesa para um de-
bate proficuo, com isenqao de
animos e sem as prevenqoes e
jarg6es, batidos e rebatidos de
tantos tempos, que vem vitiman-
do a todos faz tempo.
Que se faz necessario um
novo insight para essa discus-
sao e que a mesma "envolva as
pessoas de bons prop6sitos", se
6 que realmente elas existem.
Minha proposta: que o JP
seja um elo e agregue essas pes-
soas para essa discussao (nao 6
para o L6cio fazer, 6 para o JP
agregar).
Assim, poderemos discutir a
Amazonia e o Para, logicamente
sem perder Bel6m de vista, o que
seria o objetivo final nesse caso.
Para isso, necessitariamos de
isenqao de animos, disposiq~o,
lucidez e acima de tudo assidui-
dade e pontualidade, que nao fa-
zem parte do nosso cardApio e
que tanta falta nos fazem.
Cor isso, poderiamos em-
pregar nessa "engenharia soci-
al", as mesmas ferramentas e
m6todos empregadas nas inici-
ativas de sucesso, sejam elas
empresariais ou nao.
Se continuarmos dispersos,
sem procurar o "conjunto inter-
cessao", dentre os varios con-


juntos de interesses que temos
numa sociedade estratificada
como a nossa, nao chegaremos
a lugar algum.
Esse conjunto comporia da-
dos para a elaboraqAo de um
projeto. Executa-lo seria outra
questao e af, sim, teriamos pelo
que "lutar" com cobranqas e
correqbes de rumos nos devi-
dos tempos.Nao ficarfamos tao
tontos.
Como nao sabemos nem o
que queremos, estamos perden-
do de goleada e o tempo da parti-
da esta findando. Sera que tere-
mos outro tempo?
Dos partidos, cor suas limi-
taq6es devido a seus projetos
individuals de poder, esse deba-
te nao vai sair. De onde saira?
Cor a palavra as pessoas de
bom prop6sito.
Alonso Lins

Voto
Lendo os artigos O encanto
acabou bem como "A chama da
hist6ria", fez-me lembrar que
durante o mes que antecedeu as
ultimas eleiqies, fiz solitariamen-
te, em meu estabelecimento co-
mercial, uma campanha no sen-
tido de conscientizar as pesso-
as a votarem nulo em todos os
cargos eletivos, por achar que
os candidates de entao nao es-
tavam qualificados para assumi-
rem tais cargos, ora por escan-
dalos que os envolviam, ora por
achar que os mesmos nao ti-
nham propostas concretas e
duradouras para o nosso Esta-
do. Como acho que o voto nulo
6 um instrument pacifico e de-
mocratico de mostrarmos nosso
descontentamento com aqueles
que tratam a coisa p6blica como
se a mesma fosse o seu quintal,
me empenhei, pelo menos no
"meu" pedaqo, para alertar as
pessoas que o que estamos ven-
do hoje, tinha tudo para acon-
tecer. Fico envergonhado de fa-
lar para os meus amigos que
moram em outros estados de ter
como governadora, uma pessoa
que nao esta nem af para as
quest6es 6ticas, desrespeitan-
do frontalmente aqueles que
nela acreditaram. Pobres de n6s.
Paraenses que mais uma vez ve-
mos nosso Estado caminhar de
march a r6.
Sergio G. Moraes de Souza


R ABRIL DE 2007 I"QUINZENA Jornal Pessoal








A voz do intellectual


Por considerar "muito instigante"
a pergunta que fiz na edi~go
anterior deste journal ("Quem 6 o
grande intellectual universitirio na
linha de tiro desta fronteira
selvagem?"), uma leitora me
mandou, informalmente, suas
reflexes a respeito. Njo queria,
por6m, v6-las publicadas, por
uma questao de foro intimo.
Depois de minha insist6ncia,
concordou que eu usasse sua
mensagem como uma forma de
manter a discussio acesa. Alem
das relevantes quest6es que
suscita, essa foi a 6nica tentative
feita por um acad6mico de
enfrentar a pergunta.
Escreveu a leitora:

Admito que minha reaqdo possa
ser para confessar mea culpa,
mas noo inteiramente, jd que nIo
me consider nem pr6xima do que voc6
classifica como grande intellectual.
Sua pergunta fez-me lembrar de ou-
tra de um aluno, ao final de uma aula:
"Professora, a senhora tamb6m trabalha
ou s6 di aula?" Naquele exato momen-
to, pensei que deveria parar e repensar
minha vida e a carreira que escolhi.
Ensinar, entao, nao 6 trabalho digno e
produtivo? Ou ainda, como voc8 mesmo
responded, sobre o que fazem os "intelec-
tuais p.tblicos: (...) eles estio se qualifi-
cando academicamente, pesquisando,
escrevendo e ensinando." Mesmo se
considerarmos que tais atividades sdo in-
suficientes e que a pesquisa aplicada
(para n5o falar da pura!) em pouco con-
tribui A sociedade, realizi-las nao seria
um exercicio de cidadania? Um profissi-
onal bem formado n5o 6 um bom produ-
to para a arena do cotidiano? Uma pes-
quisa de qualidade nao serve de subsidio
a transformaq~o da realidade?
Talvez nos faltem, sim, hoje em dia,
intelectuais capazes de exercer virias ati-
vidades simultaneamente e de forma bri-
lhante. Isso nao seria reflexo da pr6pria
complexidade e abrangencia do conhe-
cimento cientifico? O que fazer para
atraf-los para a academia? O regime de
dedicacqo exclusive surgiu da necessi-
dade de atrair para a vida academica pro-
fissionais que antes teriam que dividir seu
tempo com atividades que garantissem
seu sustento. Seria sua sugestdo que a


academia voltasse a ser uma atividade
marginal para professors, que "traba-
lham" o dia inteiro e A noite lecionam para
alunos que tamb6m trabalham, e por isso
exaustos nas carteiras?
Tenho defendido o desenvolvi-
mento de uma ciencia de ponta na
Amazonia, sem concessdes ao popu-
lismo e as condiC6es de pobreza da
regido. Os intelectuais formados nos
centros universitdrios precisam estar
em condiCdo de dialogar em igual-
dade com os intelectuais de qualquer
outro lugar do mundo. Devem ter
acesso aos conhecimentos mais atu-
alizados e a cada um dos escaninhos
especializados do saber universal.
Mas ndo podem se desligar do coti-
diano, da terrivel demand por res-
postas e orientacdo da sociedade. Os
intelectuais precisam se expor ao pri-
meiro combat da histdria, ao inves
de esperar que o furacdo passe para
submete-lo a aut6psia. E precise fa-
zer ciencia e hist6ria. Provavelmente


ndo estamos fazendo na Amaz6nia
nem uma coisa nem outra.
Nao quer dizer que ndo haja cien-
tistas realizando um bom trabalho em
seu campo de especializaCdo. 0 que
tem faltado e uma presenga desses in-
telectuais nos moments em que as
decisdes sdo tomadas ou quando al-
gum novo empreendimento e anuncia-
do. E facilmente perceptivel a desori-
entaado da opinido ptblica, que bus-
ca referencias para se esclarecer e
nao as encontra. H6 uma tendencia
das "grandes cabegas" a se resguar-
dar para garantir uma carreira bem-
sucedida. As polemicas sdo conside-
radas despropositadas, um risco a ser
eliminado. E do que mais a Amaz6nia
precisa e da discussdo de ideias, das
divergencias, do confront de posi-
cdes. Talvez assim ela consiga sair do
trilho pelo qual escoam as suas rique-
zas. Nem todas materializadas. Como
nunca, o que e s6lido se desmancha
no ar quente e umido.


Eclusas: para valer?

A novela da eclusa de Tucuruf, no rio Tocantins, ja se aproxima da
sua terceira d6cada. Numerosos capitulos apresentaram a mesma
promessa: a obra agora sera concluida. O governor Lula, em seu
segundo mandate, renova o compromisso nao cumprido do primeiro.
Desta vez, seria para valer: antes de passar a faixa ao seu successor
(ou, quem sabe, voltar a envergi-la), Lula ird inaugurar o sistema de
transposiqao da barragem, iniciado em 1979.
O que pode dar algum grau de credibilidade ao anincio nao 6 a
palavra do president, que muda como as nuvens no c6u, mas a press
de alguns grupos econ6micos, a frente a Companhia Vale do Rio Doce.
O crescimento das exportaq6es de mat6rias primas e insumos, sobretudo
os minerals, principalmente a partir de Carajis, exige a abertura de uma
nova via de fluxo. A ferrovia da CVRD ji nao di conta do recado.
Mesmo sua duplicacao nIo sera um acr6scimo significativo: ji foram
construfdos tantos patios e desvios na linha singela em uso que essa meta
esti quase para ser alcanqada.
Ainda que desta vez o governor assegure os recursos necessdrios
para concluir a transposiqao da hidrel6trica, nao 6 hora de soltar
foguetes para comemorar o feito. Deve-se urgentemente checar o
orCamento da obra, pr6ximo de 700 milh6es de reais, para expurgi-lo
'dos seus contumazes exageros e manipulaq6es. Al6m disso, 6
necessario tratar logo da gestao da eclusa. O governor federal, que a
construiu, tera que operi-la? De que forma?
Talvez essas quest6es possam parecer contagem dos pintos antes
de a galinha botar os ovos. Mas como ji estamos acostumadas a um
cacarejar no vazio, nao estranharemos se desta vez colocar os pintos
antes dos ovos.
Mw ^


Jornal Pessoal I" QUINZENA ABRIL DE 2007 9










MEMORIAL DO COTIDIANO
,MI I11 II IIII ....


Advogado
Irawaldir Rocha foi o ora-
dor official da turma de bacha-
r6is em direito da Universidade
Federal do Pani em 1961. Fez
um discurso long e contunden-
te, que provocaria impact na
plat6ia do salio nobre da Facul-
dade, no Largo da Trindade, e
na opinion pdiblica. Repercus-
sdo que the renderia maciqa
votaqao para se eleger verea-
dor de Bel6m logo em seguida.
No trecho mais caloroso do
discurso, Irawaldir criticou os
intelectuais, que "fogem da and-
lise dos nossos problems, con-


vertendo-se em imitadores da
cultural europ6ia e aduladores
dos poderosos". Investiu tam-
bem contra os politicos, "guin-
dados ao poder graqas a um sis-
tema eleitoral cediqd, que Ihes
permit a compra de conscien-
cias, disseminando a corrupeio,
e utilizando-se do mapismo e da
fraude, tio logo se veem elei-
tos se divorciam do povo, para
servir unicamente aos interes-
ses dos grupos econ6micos que
lhes dio a vit6ria".
Ja osjuizes, "dominados pe-
las paix6es political e no louco
prop6sito de enriquecerem fa-


SEJATAMBEM, UM DOS
N SOS 0 I,,4% tr:; o :;2ts h .m.n.:
NOSSOS ol nd


SA N D U Sao nones bem onehardos que
Uenontrnm no Paysandu as maioros alegrla
qu e s um clube pronto a m funcionamento
pode o.fer .c.,
Venna para o Paysanou VocA val lunaf
S lod, as comoddads de um clube eam
A CA client loca-l11a.lo. o cenlro d. cidad.
quer Voce como s6cio. do: 0
Para issue Ie olerece sm tilo a precs a condlcies excepcionais:
Time de futabol a gents tom.. Mas um club
s "cio-resreivo a gents eacolhe. E o Paysandu 0 a Na p r ., a t
o;PIo sensatl a Intelgpsant., Nl, S4i El... .s eS
0 PaysandO 1 tea. islna., Sloo do Fesall. Gindalo pe ano o S al, o ttulos
Cob rto, Sal o de Jogo. Ble.I. Judo, Boite, Bar do Paysando es6t o sndo
RflSure.nt., Saun,. FiIlot.,rpla, Modemo Estidlo d langcdos A venda em
Fulebol A SAde NIuIIa.
E. ainda vai ticar muitl melho,


VerrOque as prebos dos 20 mensalidad s
outros clubes Cu.noae do apenas
Vela o lmenso parnmdno"
que garant a cre1 fte 100,00 cruzeiros.
valorizabo do eu itIulo


cilmente, conspurcam as suas
togas, leiloando suas sentenqas
e alugando suas consciencias".
Irawaldir Rocha foi uma
luz que brilhou no firmamento
da vida p6blica paraense e
eclipsou cedo demais.

Hotel
Carlos Daninger assumiu a
gerincia do Grande Hotel, em
1963, reabrindo o Amazon
Room, que era, at6 poucos anos
antes, o ponto de encontro pre-
ferido dos que avanqavam noi-
te adentro. No restaurant pas-
sou a ser admitida a presenqa
de traje esporte, antes vetada.
Os jantares na boate eram corn
m6sica "ao vivo". Mas todo
esforqo nao conseguiu salvar o
sofisticado hotel, que nao viu a
d6cada acabar.

Romulo
Uma nota bem caracteris-
tica do estilo de Romulo Maio-
rana, em sua coluna "Sempre
aos domingos", na Folha do
Norte, em 1963:
"Em conversa com o Dr.
Mario Teixeira, ex-superinten-
dente do PVEA [SPVEA], por
diversas vezes, fiz exposiqao do
meu desejo de instalar em Be-
16m uma ind6stria de confec-
qoes tipo popular e m6dio para
abastecer a Amaz6nia. E por
diversas vezes o amigo Mario
Teixeira, sendo a iltima no
'hall' do Grande Hotel, me de-


sanimou afirmando que a
SPVEA nao tinha verba espe-
cifica para indistria daquela
natureza. Hoje estou sabendo
que aquele 6rgao federal aca-
bou de larger a bagatela de oi-
tenta milhaes de cruzeiros para
o mesmo tipo de indtstria..."

Palhago
Manoel Angelo Oliveirapou-
cos conheciam. Mas o palhaqo
Nequinho era famoso: ele fez
dupla com Alecrim (Erasto Ba-
nhos) durante virios anos, na TV
Marajoara, canal 2, como os mais
populares palhaqos do Para. Mas,
como de regra, morreu pobre, em
1967. Foi precise organizer um
espet~culo ("O palhaqo, que d?")
para arrecadar funds em bene-
ficio de sua desamparada fami-
lia. O espet~cul-beneficente foi
coordenado por Advaldo Castro
e Daniel Carvalho. Dele partici-
param os locutores da Ridio
Marajoara: Ronald Pastor, Wla-
dimir Conde, Jos6 Guilherme e
Adamor Campos. Mais os can-
tores Jurema Cordeiro, Carmem
Eunice, Conceiqao Torres, Au-
gusto Silva, Walter Ramra e Lau-
ri Garcia. Tamb6m os atores e
radioatrizes Lindolfo Pastana,
Mendara Mariani, Iracema Oli-
veira e Val6ria Oliveira. E os co-
mediantes Tacimar e Ticito Can-
tutria, Femando Matos, Carlos
Garcia, Armando Pinho, Feman-
do Neves, Astrogildo Corrra e
Amaldo Santos.


PROPAGANDA

0 "grande neg6cio"
Tres torcedores ardorosos do Paissandu aceitaram posar
para esta peCa, preparada certamente por um "papdo"
ainda mais inflamado (Abtiio Couceiro, apesar da falta da
assinatura da Mercurio), para vender novos titulos sociais
do clube, que pretendia se expandir, em 1974. Altino
Tavares Pinheiro, Wilson Almeida, Aurelio Souza, Jodo
Drummond, Paulo Castro, Hermdgenes Conduru, Ant6nio
Soares e Orlando Guilhon garantiam que, independente
de todas as vantagens proporcionadas no campo social-
esportivo", comprar uma ado do Paissandu Sport Club
era "o melhor investimento de capital".
Como diria um remista: pois sim!


4n ABRIL DE 2007 I"QUINZENA Jornal Pessoal


So melhor INVESTIMENTO DE CAPITAL ndeo.noenle de lodas as .antagens
proporcionadas no campo social-tsportlvo
t>. 7 PAYSANDU
SSPORT CLUB
S I N ar, 404 Fn. : 2-737_

























.- ""''"'-- ':- -- a
FOTOGRAFIA

A ferrovia: antes do fim
Uma foto rara registra a inauguragdo do trecho entroncamento-cais do porto da Estrada de Ferro de Braganva, em
30 de dezembro de 1960. 0 trem "Sd Pereira" acabou de chegar a entdo praca Maud (hoje, Pedro Teixeira),
pr6ximo a traditional "escadinha" do cais, um dos "cart6es postais" da cidade nessa epoca, cendrio de muitos
acontecimentos importantes na vida de Belem. Mas a ferrovia iria durar apenas cinco anos depois desse flagrante:


considerada deficitdria e invidvel, foi extinta pelo governor do marechal Castelo Branco,
regime military Morreu sob alguma prosa, mas sem vela ou fita amarela.


o primeiro do ciclo do


I. J *-' n, A


Chance
Avelino do Vale e Luluca
Martins, que compunham e
cantavam, al6m de serem na-
morados, tiveram seu momen-
to de fama ao representar o
Pard na semi-final do progra-
ma "A Grande Chance", que
Flivio Cavalcanti apresenta-
va na TV Tupi, dos Diarios
Associados, no Rio de Janei-
ro (entao Guanabara). Mas s6
puderam viajar porque a Men-
des Publicidade lhes bancou a
viagem. Oswaldo Mendes e
Ant6nio Diniz entregaram as
passagens ao casal.

Palacios
A construq~o da nova
sede do Tribunal de Justiqa
do Estado, na praqa Filipe
Patroni, na Cidade Velha, foi
iniciada em 30 de agosto de
1968. Era um pr6dio moder-
no, com quatro andares e oito
mil metros quadrados de area
construida. Ficava ao lado da
Cipab, a companhia estadual
de abastecimento, depois ab-
sorvida na expansao fisica do
TJE, que engoliu ainda vdri-
as outras edificaq6es atW ser
isolado pelo palacio de 32


milh6es de reais, no antigo
Liceu Lauro Sodr6.
Nesse mesmo ano o Es-
tado, numa febre de obras
modernosas, comeqou a
construir tamb6m o Palicio
do Legislative, com os mes-
mos quatro andares, o Tribu-
nal de Contas e o anexo do
Institute de Educaq~o do
Pari, o IEP. Fssa onda foi
bater na muralha do verea-
dor e historiador Augusto
Meira Filho. Ele combateu os
dois palacios porque suas li-
nhas arquitet6nicas agrediam
a paisagem da Cidade Velha
e ultrapassavam o limited de
tres pavimentos, fixado numa
lei proposta pelo pr6prio "na-
morado de Belim".
O secretArio de obras do
Estado, engenheiro (e tam-
b6m historiador) Jos6 Maria
Barbosa, responsivel pelos
novos palacios, se aproveitou
de uma omissdo da lei, que
fixara o gabarito para edifi-
caq6es particulares, comerci-
ais e de uso misto, sem se
referir explicitamente aos
pr6dios pfiblicos. Assim, ma-
quiavelicamente, infiltrou
seus projetos por esse vao.


Quanto A quebra da uni-
dade do bairro, Barbosa ar-
gumentou que no mesmo
quarteirlo dos palacios mo-
dernos havia bangal6s,
"que jA quebraram hi mui-
to a linha arquitet6nica con-
servadora", al6m do que as
ruas da Cidade Velha ji es-
tavam asfaltadas, com isso
sepultando o calqamento
traditional.
Isto posto, foi em frente
na descaracterizaqao.

Pimenta
O advogado japon8s
Makinosuku Ussui chegou
ao Pard em 1933. Trouxe na
bagagem 20 mudas de pi-
menta-do-reino, uma esp6cie
ex6tica. Das que plantou em
Tom&-Aqu, apenas tr8s mu-
das vingaram. Mas elas fo-
ram as matrizes para o sur-
gimento e expansao da mais
bem sucedida cultural agrico-
la commercial do Estado. Em
1968 Ussui recebeu do go-
verno a medalha de serviqos
relevantes, "como preito de
gratidao e como estfmulo"
por sua contribuiq~o ao de-
senvolvimento paraense.


Navega4ao
Em setembro de 1968 a
Enasa (Empresa de Navega-
qao da Amaz6nia) tinha seis
navios em sua frota, cobrindo
os rios da regiao. Eram: 3 de
Outubro, Lauro Sodr6, Augus-
to Montenegro, Almirante Ale-
xandrino, Fortaleza e Leopol-
do Peres. A linha cor maior
quantidade de escalas era a
Xingu-Tapaj6s, que parava em
Sao Sebastiao da Boa Vista,
Curralinho, Araticu, Portel,
Breves, Ant6nio Lemos, Guru-
pi, Porto de Moz, Vit6ria, Al-
meirim, Prainha, Monte Alegre,
Santar6m, Belterra, Boim, Avei-
ro, Fordlandia, Brasilia Legal,
Barreiras e Itaituba. A linha de
Iquitos saia de Santar6m, pa-
rando em Itacoatiara, Manaus,
portos do rio Solim6es, Leticia
e terminando em Iquitos.
Mas a Enasa aceitava bal-
deaqao em Manaus para os
portos do Jurui, Mau6s, Ca-
racaraf (em Roraima), Japu-
ri, Iqi, Javari e Madeira at6
Porto Velho. Um mundao
aquitico que ficou ao desam-
paro com a extinqao da em-
presa estatal, depois de uma
longa agonia.


Jornal Pessoal i' QUINZENA ABRILDE2007 11








TORRE
Ficar isolado em sua
torre 6 mais do que figure de
ret6rica para o ex-
governadorAlmir Gabriel: de
vez em quando, por
problema nas instalaq5es do
pr6dio onde mora, a Torre de
Alhambra, no centro da
cidade, ele nao pode descer.
Os 21 andares, entretanto,
nao constitufram obsticulo
para o "seu" senador, Mario
Couto, a dar-se cr6dito a
uma nota de fim de semana
de O Liberal, que o dava
como vencedor desse
impressionante desafio.
Melhor sorte ter nessas
situaqces a ex-vice-
governadora e quase-
candidata a prefeitura de
Bel6m, Val6ria Pires
Franco. Seu apartamento 6
no quarto andar.


TUCANOS
Como diziam os colunistas
sociais: nao convidem os ex-
governadores Almir Gabriel
e Simro Jatene para o
mesmo galho. Pelo jeito, o
mais velho dos tucanos
ficard com a posiqao official
para a pr6xima dispute
eleitoral. 0 outro
provavelmente ird cantar em
outra freguesia.


PREFEITOS
Depois do prefeito crianca,
Bel6m tem agora o prefeito
voador, aquele que esti
sempre voando, sobretudo
para Brasilia.


SIGLA
Um partido que nao
consegue descolar uma sigla,
vai encontrar um rumo? E
dificil crer que os pefelistas
serao verdadeiros
democrats.


Minhas leitoras
Babai foi uma das minhas melhores leitoras. Mal eu entra-
va na casa dela, aparecia com comentarios sobre meu artigo
daquele mesmo dia, ou de dias anteriores, se minha ausencia
fosse mais prolongada. Lera, de fato. Mais do que isso: lera
muito bem. Nessa 6poca, ja tinha mais do que 60 anos, quando
ter essa idade pesava muito mais do que agora. Era baixinha,
um tanto gorda. Mas seus olhos traiam sua vivacidade de espi-
rito, sua sutileza e at6 a sua malicia. Na apar8ncia, a figure da
vov6 clissica, com uma cabeleira de algodoes muito brancos.
Por dentro, uma mulher adiante do seu tempo.
Babai dialogava melhor corn a neta, a poeta Annamaria
Barbosa Rodrigues, do que com a filha, Alzira. Por forqa das
circunstancia, se comportava dentro do figuring que cabia a
uma dona de casa. Mas o terno "seu" Ladislau, o companhei-
ro lusitano, nao ia al6m do desempenho do seu papel de cor-
reto coadjuvante: ria das ousadias verbais da mulher e acata-
va suas heterodoxias.
Por dentro, Babai era um vulcao de vitalidade, de inteli-
g6ncia e de sensibilidade. Estaria mais bem acomodada algu-
mas d6cadas depois, mas nao reclamava de nada, deixando
que sua alma brilhasse para dentro, se nao podia investor con-
tra as limitaqces das suas circunstancias. Mas quando en-
contrava uma oportunidade, partilhava com os convidados a
riqueza do seu interior.
Fui um privilegiado h6spede de Babai, Ladislau, Anna e Ire-
ne na mansarda da familiar, que se espalhava entire as ruas
President Pernambuco, Arcipreste Manoel Teodoro e Ferrei-
ra Cantdo (a velha Bailique), no entoro do Largo do Carmo.
La me refugiava para lautas refeiqces, jogo de cartas, passeios
pelo jardim, aspirando o perfume do jasmim nas noites sem
hornrio definido, ouvindo misica e jogando papo fora. Um pon-
to alto desses programs mai8uticos eram os comentarios de
Babai sobre meus artigos, que entao safam em A Provincia do
Pard. Minha leitora exigente me ajudava a corrigir meus erros
e suprir minha ignorancia.
Sempre pensei em Babai (nunca consegui tratA-la pelo nome
verdadeiro; nem sei se alguma vez algu6m me disse o nome de
batismo dela) nos moments em que convivi com um ser hu-
mano da mesma estirpe, Elizabeth Carvalho de
Moraes. "Dona" Beth era uma das mais fi6is
e atentas leitoras destejornal. Mal o exem-
plar chegava e ela o confiscava para si. '
Nas minhas ripidas passadas pela sua
casa, fazia algumas observances, que
sempre me faziam recuar tres d6ca- /
das, trazendo-me aquele olhar doce,
calmo, sereno e inteligente de Ba-
bai. Ambas eram pessoas boas, ho-
nestas, integras, bonitas.
Digo "eram" porque donaa"
Beth tambrm se foi, aos 68 anos,
no dia 2. Foi-se fisicamente. Agora
que 6 s6 mem6ria, tornou-se pro-
priedade dos que a querem dentro
de si para sempre.


IMITA AO
Quanto mais aquele
colunista social imita
Edwaldo Martins, mais
saudade se ter do original
- e autentico.


REDIVISAO
O governor podia levar a
s6rio o tema da redivisao
territorial do Pard. Uma
nova onda de interesse pode
ser mais do que uma
exploraqao political
momentanea. Mas por
enquanto o comando da
questao esta em maos
oportunistas e
aproveitadoras. Elas poderao
acabar retendo os principals
dividends, repassando a
sociedade o 6nus de um
encaminhamento distorcido.
At6 hoje o tema nao foi
discutido tecnicamente. As
paix6es se antecipam as
razoes, sufocando-as. Um
comit8 executive para definir
uma gestdo territorial
favorivel ao atual Estado do
Pard e as novas unidades, se
for diagnosticada a
conveni8ncia da sua criaqao,
poderia servir de terreno
neutro para as discusses,
sem que elas descambem
para a linguagem de geral de
campo de futebol.


Novo livro


Ja estA nas bancas e livrarias meu livro mais recent, OJornalismo na Linha de Tiro.
Tern um pouco do primeiro volume, o prometido segundo volume e alguns acr6scimos e
atualizag6es. Apesar de volumoso, com mais de 500 paginas, custa apenas 30 reais, o
mesmo prego do anterior, com 300 p.ginas. Entre os documents que introduzi agora
esta a carta que escrevi a Romulo Maiorana quando do nosso rompimento, em 1986, e a
Helio Gueiros, antes e depois de ele ser govemador do Para (1987-1991).


Editor: Licio Fldvio Pinto
Ediglode Arle. L A Fr.sa F n.~
Contalo: Rue AniiTges LD., B. I
66 053-020
Fone: (011 3241-7626
E-mall: jornal@amaz"n corn cr




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