Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00311

Full Text


4- JUSTIqA FEDERAL
o rno DESPEJA GRILEIROAGNA 7

IMPRENSA: AONO
A AGENDA AMAZ(NICA DE LOCIO FLAVIO PINTO E QUEM MANDA I


MAR(O DE 2007* 2nQUINZENA N 388 ANO XX R$ 3,00


PAGINA I


GOVERNOR


0 encanto acabou?

A cabeleira e a esteticista da governadora se tornaram assessoras especiais do governor. Ficaram nos cargos
por um mes, at6 a denuncia pela imprensa. Obrigado a demiti-las, o governor diz que foi um acidente. 0
culpado? Ora, o mordomo. Sao confuses secundarias ou ha essas confuses porque s6 o secundario
predomina? TrWs meses depois, Ana JOlia Carepa chega a midia national. Mas isso ndo e merito.


dente Luiz Inicio Lula da Silva
previu que a administraqao da
sua correligionaria Ana Julia
Carepa no Pard sera "um desastre". E
dificil provar que realmente o presiden-
te fez a inconfidencia, mas se a nota nao
passou de maldade da revista, a gover-
nadora do PT esta contribuindo para
dar-lhe credibilidade. Antes de comple-
tar tr8s meses no exercicio da mais ele-
vada funqao p6blica no Estado, Ana Jd-
lia adquiriu notoriedade national. Nao


por algum feito administrative excepci-
onal, que ainda nao apresentou, mas por
fatos escabrosos, que podem dar-lhe um
pdssimo estigma: a de camped do ne-
potismo na atual temporada.
Para esse tipo de deslize o president
Lula ji deu sua contribuiqgo, mandando
buscar o cdozinho da familiar em carro
official, com ar condicionado e tudo, ou
ao patrocinar excursdo do filho cor os
amigos ao Palacio da Alvorada. t sem-
pre assim: os notaveis costumam enca-
rar o serviqo piblico como uma exten-


sao de suas vidas privadas, permitindo-
se todos os tipos de desfrutes do poder.
Mas Ana Jilia exagerou: ela simples-
mente assinou os decretos que, no dia 14
de fevereiro, autorizaram a contrataqao
de sua cabeleireira, Manoela Figueiredo
Barbosa, e de sua esteticista, Franciheli
de Fatima Oliveira, como assessoras es-
peciais, lotadas no gabinete da governa-
doria. No dia 22, um mes depois, os fatos
foram noticiados pela Folha de S. Pau-
lo. No dia seguinte o assunto foi para a
CONTINUE NA PACG






CONTINUA;AO DACAPA
primeira pigina do journal, dono da segunda
maior tiragem na imprensa national.
Segundo uma fonte, tamb6m duas
enfermeiras pessoais da govemadora, que
Ihe deram assistencia no hospital Porto
Dias, onde Ana Jillia foi operada, acaba-
ram na assessoria especial do govero.
A falta dos nomes, nao foi ainda possivel
apurar se a informagqo 6 verdadeira. Em
fevereiro havia 649 assessores especiais
na govemadoria ji 6 quase dois tercos
do ex6rcito de aspones ao fim da gestdo
de Simao Jatene.
Em resposta A mat6ria do journal dos
Frias, a Coordenadoria de Comunicacao
Social divulgou nota official. Disse que
as duas profissionais foram contratadas
indevidamente, por um "equivoco admi-
nistrativo", mas ja estavam sendo exo-
neradas (o que foi efetivado na edigqo
do Didrio Oficial do dia seguinte) "e os
valores pagos serao devolvidos aos co-
fres publicos".
Para livrar-se da situaqao inc6moda,
o govemo tratava de reafirmar "sua com-
preensdo da importancia do papel fisca-
lizador da imprensa e que, em qualquer
circunstancia onde tenha sido cometido
equivoco ou falha administrative, o fato
sera imediatamente apurado e sanado,
como sempre foi a pritica da governa-
dora e do Partido dos Trabalhadores".
Boa declaraqgo de principios, mas
o leite ji estava derramado. Para a con-
sumaqao do acidente, varios equivocos
foram cometidos. A governadora assi-
nou os dois decretos sem atinar para
os nomes da sua cabeleireira e da sua
esteticista. Nao 6 incomum que autori-
dades firmem sua rubrica em pap6is
oficiais sem dar maior atenq~o ao que
estao fazendo. O escorregao nao re-
comenda o gestor, mas o pecado pode
passar de venial a mortal em virtude
de suas conseqii6ncias.
Qual 6 o aulico palaciano que, conhe-
cendo as duas profissionais da beleza, se
precipitou em contrati-las sem consultar
a govemadora? Foi o mesmo que fez che-
gar os escorregadios pap6is A sanqFo de
Ana Jdlia, sem adverti-la sobre a circuns-
tancia dos atos? Esse desastrado servi-
dor ji foi identificado e punido com a
demissao, para ser coerente com o des-
tino dado A cabeleireira e a esteticista? E
as duas, se pudessem, nao iriam justiqa
cobrar os dias que efetivamente traba-
lharam, dinheiro que perderio pela retro-
atividade de suas demiss6es?
A correqCo de iniciativas erradas,
quando feita as pressas, costuma ser,
como a emenda, pior do que o soneto. A


nota official incorreu nessa falha. Ao lei-
tor rigoroso, deixa claro que o governor
procurou um bode expiat6rio nao perso-
nalizado para crucificar, poupando a che-
fa. Ao leitor condescendente, teri pare-
cido que a governadora 6 uma rainha da
Inglaterra, que reina (com sua corte de
cabeleireira, esteticista, enfermeiras e
quetais), mas nao govera. O deslumbra-
mento com as seduces do poder a esti
desviando das obrigaq6es de oficio.
Depois de viajar em avi6es de carrei-
ra (que permitiram ao Estado economi-
zar R$ 103 mil), Ana Jdlia Carepa deci-
diu voltar atris na promissora intenqao
inicial e utilizar ojatinho da ORM Air, tao
largamente requisitado pelo seu anteces-
sor, o tucano Jatene. A mudanqa de hi-
bitos e costumes foi literalmente para o
espaqo e o discurso moralizador da v6s-
pera azedou. Mas nao satisfeita em ir de
Bel6m a Brasilia no caro v6o fretado, a
governadora decidiu esticar para Belo
Horizonte. S6 que a primeira pernada ti-
nha pelo menos motivaq~o official: uma
audiencia com o president da Repdbli-
ca. Ja a segunda era program estrita-
mente particular: participar da festa de
formatura de um filho.
Mas o erario pagou as duas contas.
Os 4.529 quil6metros percorridos pelo
Citation de Romulo Maiorana Jdnior, en-
tre Bel6m, Brasilia e Belo Horizonte, sa-
fram por R$ 101.844,18. As informaq6es
fornecidas pela assessoria de imprensa
do govemo nao permitiram desmembrar
a despesa para saber em quanto exata-
mente os cofres pdblicos foram onera-
dos pela extensao estritamente privada
A capital mineira, mas pelo menos per-
mitiu constatar que o ex-marido da go-
vernadora, Marcilio Monteiro, secreti-
rio extraordindrio de projetos estrat6gi-
cos, a acompanhou para abragar o ven-
cedor, filho do casal. Foi uma festa em
famflia, por conta do contribuinte. Ou-
tras poderao ocorrer no future, dado o
elevado numero de parents e agrega-
dos que Ana Julia carregou consigo para
o governo e extens6es.
Os observadores mais tolerantes des-
sas sucessivas cenas de abusos e de con-
tradi~go explicita debitam-nas na conta
dos fatos secundirios. A classificaqao
valeria, realmente, se a contrapor-se a
elas houvesse o cr6dito das realizaq6es
substantivas. Mas, embora um ou outro
setor do atual govero possa apresen-
tar algum fato concrete dotado de algu-
ma significaqao, o balanqo geral indica
muita conversa (at6 bem articulada) e
pouca aqao de maior envergadura. Ou,
em certos casos, confusao pura. Ji esta


claro que, de certa forma surpreendido
pelo resultado da eleiqao, o PT nao ti-
nha um program alternative de gover-
no para colocar em pratica quando as-
sumisse o governor.
O que de melhor pode oferecer nes-
se primeiro trimestre surgiu exatamen-
te depois da embrulhada das assesso-
ras especiais de salio: a ampliaqdo da
faixa de isencao dos consumidores de
energia de baixa renda, de at6 100 kw
h, e a reduqao do ICMS nas contas dos
consumidores da faixa seguinte, entire
101 e 150 kwh.
A rigor, por6m, esses presents t6m
pouca expressao: o Estado perderi pou-
co mais de dois milh6es de reais por mes
de imposto, mas o desconto dos que pa-
garao menos seri, em m6dia, de R$ 5
per capital. O efeito substantial seria al-
canqado se o Estado, corrigindo um abu-
so dos govemos tucanos, reduzisse am-
plamente as extorsivas aliquotas do
ICMS, tanto sobre a tarifa de energia
quanto de telefone. Mas renunciar a fa-
tias maiores de receita nao 6 algo que os
govemantes, viciados em political pibli-
cas tributaristas, se disp6em a fazer.
Tres meses ja se passaram. At6 ago-
ra, o governor da mudanqa continue a ser
uma promessa. Espera-se que epis6dios
cabulosos, como o das assessoras indevi-
das, nao indique um roteiro mais trigico:
de que terminou sem ter comeqado.



Journal pessoal
V6rios leitores ja me pro\oca-
ram com a questao: qual a diferen-
qa entire um joral con\encional e
um journal pessoal? O JP de\ia ser
a resposta viva. digamos assim. Na
maioria das vezes, pordm. nio tlao
um journal pessoal. Escrevo sobre
lemas que a conjuntura me impoe
ou obrigo meu leitor a tonar conhe-
cimento do que Ihe de ia interes-
sar, mesmo quando nao da a mini-
ma bola ao assunto. Escre\vo a par-
tir de uma perspective pessoal, mas.
bi.,alado pela agenda do cotidiano.
como se n~o fosse dono da pr6pria
iniciativa. Mas nesta edicio pretend;
dar uma resposta demonstrative.
Ainda nio 6 exatamente o que sem-
pre gostaria de escrever, a partirdas
minhas entranhas, mas esti mais '
prdximo disso do que as ediqoes
anteriores.
Atenqio. pois: este e um journal
pessoal.


2 MARCO DE 2007 2"QUINZENA Jornal Pessoal








Para o bem de Belem:


program antes do nome


JA comeqou a corrida a prefeitura de
Bel6m, que tera seu ponto de chegada
na eleiqao do pr6ximo ano. A mais assu-
mida candidate 6 a ex-vice-governadora
Val6ria Pires Franco, do PFL. Seu maior
cabo-eleitoral 6 o marido, o deputado fe-
deral Vic Pires Franco, dono do partido.
Atrav6s do program obrigat6rio pelo ri-
dio e a televised, ou marcando presenqa
em blogs, alguns dos quais Ihe sao com-
pletamente receptivos, Vic vai trabalhan-
do a image da esposa, apresenta-a sob
roupagem t6cnica e isenta de facciosis-
mo, para isso retocando seu passado re-
cente (o 6nico que se pode politicamente
considerar, dada sua iniciaqco, diretamen-
te na vice-goveradoria).
Apesar do seu continue e ruidoso des-
gaste, Duciomar Costa, do PTB, sera
candidate a reeleiqao, a nao ser que um
process traumatico (como o impeach-
ment, cogitado ainda apenas especula-
tivamente) o impeqa. Hoje, seu nome 6
considerado fraco, mas a maquina ofi-
cial nao pode ser subestimada. Ele pr6-
prio, se hostilizado pelos aliados de on-
tem, podera Ihes causar muitos estra-
gos, sobretudo aos tucanos, sem os quais
o falso m6dico nao podia ter sido candi-
dato do m6dico de verdade e ainda
vencer. O PSDB pagard bem caro por
essa attitude leviana (mesmo que a con-
ta seja apresenta-
da ao successor do
m6dico Almir Ga-
briel, oeconomis- Mlaldifi
ta Simro Jatene).
Uma outra can- A Funai inform
didatura potential logos, ambos corn
6 a do ex-deputa- do vai agora empe
do federal Jos6 ficil que muitos cr
Priante, do dente da FundaqCc
PMDB. Depois nistracqo plblica
de sua decisive direta sobre nao n
colaboraqao para brasileira) pode se
a eleiqao de Ana as qualificadas, cc
Jdlia Carepa no A resposta verr
ano passado, ele uma outra ordem
esta esperando o national e, do pon
b6nus. 0 problema que ocupar a presi
6 que, cor pro- sempre limitado p
cessos na justiqa, velmente a criar cr
ao menos no mo- o Chacrinha, em m
mento, esta diffcil mas para confundi
coloca-lo numa


posicqo visivel sem atrair raios e troves
por conta das mas refer8ncias. Da pre-
sidencia da Eletronorte ele resvalou para
a direqdo da Funasa e, sem ancorar em
nenhum dos cargos, esti caindo pelas ta-
belas. Se nao encontrar um patamar se-
guro, tera que esperar para disputar ou-
tro cargo eletivo. O primeiro ao seu al-
cance 6 a PMB.
Mas e os petistas: passarao em bran-
co? Irno se contentar com o lugar de
vice? Mario Cardoso, o nome sempre
lembrado, se satisfez cor a secretaria
de educaqdo? O ex-prefeito Edmilson
Rodrigues estara disposto a tentar de
novo, mesmo que seja pelo PSOL, par-
tido decididamente nanico?
Nao faltam perguntas, nem nomes.
A ladainha 6 a de sempre e a procissao,
a mesma. Tentando fugir dessa bitola,
propus as pessoas de bons prop6sitos,
qualificaqao e vontade para que aqui dis-
cutissemos um projeto para Bel6m, an-
tes de aceitarmos submet-lo aos can-
didatos, que geralmente tem nomes sem
ter projetos. Infelizmente, a resposta foi
nenhuma, at6 que, duas semanas atrds,
ojuiz do trabalho Jos6 Alencar se mani-
festou, provocando o ingresso na roda
de um dos possiveis candidates a pre-
feito. Reproduzo a seguir as anotaq6es
por ele feitas no seu blog.




o de cima
a: sai M6rcio (Gomes), entra Mdrcio (Meira).
nomes a zelar. O primeiro gastou seu capital or
nh--lo numa missio espinhosa. Tao desconc
iaram logo uma bolsa de apostas: quanto tern
Nacional do fndio agientard no cargo mais ir
federal? Como 6 que a diretqo de um 6rgao
nais do que 400 mil cidadios (menos de 0,3t
r to explosive, a ponto de desgastar ou mesm
>mo as que a ocuparam?
Stanto da condicio especial dos tutelados da
de grandeza: suas terras, que representam 8
to de vista qualitative, t6m expressed maior. (
dencia da Funai fara menos do que pode porq
ela r6dea curta de quem manda mais acima, te
ises para evitar o cumprimento da missao da in
at6ria de political indigenista, o govero nao ve
ir.


Reconhecendo ser impossivel apre-
sentar soluq6es executives para os pro-
blemas de Belim, como desafiou Lucio
Flavio Pinto no seu Jornal Pessoal, con-
sidero possivel e realizdvel pelo menos
um mrtodo para buscar essas solucoes.
Ofereco a contribuicdo para os fu-
turos candidates a Prefeito. Pelo me-
nos para um deles jd o fiz pessoalmen-
te efui bem acolhido conforme men-
sagem abaixo transcrita parcialmente.
1 Ratificando a conversa de ontem,
registro nesta mensagem as seguintes
ideias: e precise organizer a compreen-
sdo da realidade da cidade (e do Esta-
do) sob quatro perspectives (da socie-
dade, das finangas, dos processes in-
ternos e dos servidores), elegendo um
conjunto equilibrado de indicadores
para cada uma delas. Para a perspecti-
va da sociedade proponho o uso do IDH
(da cidade e do Estado) e pesquisas de
opinido (quantitativas e qualitativas).
Para a perspective dos servidores pro-
ponho pesquisas sistemdticas de clima
organizacional. Para as finangas referi
especificadamente a receita pdblica to-
tal per capital, sugerindo outros quatro
para compor um mix de cinco indicado-
res relevantes para cada perspective (e
invidvel acompanhar e gerenciar uma
batelada de indicadores). Para os pro-
cessos internos ndo tenho indicaCdo a
fazer, neste moment, mas eles existem.
2 Ndo estou inventando nada, ape-
nas propondo a aplicacdo do modelo
mais atual de gestdo baseada em indi-
cadores, denominado Balanced Sco-
recard BSC (de Kaplan & Norton,
dois professors de Harvard).
3 Sugiro buscar
"relatores" para
cada uma dessas
perspectives e para
cada uma das dreas
Ambos antrop6- que formam o IDH,
original. O segun- mencionando espe-
ertantemente di- cificamente Lucio
po o novo presi- Fldvio Pinto, Rober-
nstivel da admi- to Santos, Armando
corn jurisdicio Mendes, Tereza Ca-
% da populalqo tivo e Mdrio Ribeiro,
o destruir pesso- dentre outros nomes.
4 Enfim, nas mi-
Funai quanto de nhas circunstdncias
!% do territ6rio eu sou eu e elas e
)ualquer pessoa a contribuicdo que
ue o que pode 6 posso dar para ten-
ndendo invaria- tar melhorar a situ-
stituiqco. Como acdo da cidade e do
m para explicar, Estado e estimular
sua candidatura a
Prefeito de Belim.


Jornal Pessoal 2" QUINZENA MARCO DE 2007


-- --








Agua mineral: questao grave


Voc6 tem certeza de que 6 realmente
mineral a agua que bebe? Sabe de que
fonte ela prov6m? Pode assegurar que e
de melhor qualidade do que a agua enca-
nada? Raros consumidores se fazem es-
sas perguntas, ou outra qualquer. Com-
pram e servem-se da agua sem sequer
olhar o r6tulo. Ivonilson Silva Souza fez
todas as perguntas. Constatou, perplexo, que
de 24 r6tulos de agua mineral produzidas
no Pari, que analisou, apenas um estava
de acordo com as especificaq6es do Re-
gulamento T6cnico Metrol6gico (RTM),
anexo a portaria n6mero 157, de 19 agosto
de 2002, que disp6e sobre a mat6ria.
Ivonilson nio se satisfez em transfor-
mar sua pesquisa ("A importancia da pa-
dronizaqao do leiaute dos r6tulos das
embalagens das aguas minerals explota-
das na Regido Metropolitana de Belem,
no period 2004 e 2006") em um excep-
cionalmente exemplar trabalho de con-


clusao do curso de ci8ncias sociais na Uni-
versidade da Amaz6nia. Com os dados
checados em maos, em 17 de janeiro en-
caminhou dentncia ao pr6prio Inmetro,
que, at6 a semana passada, nenhuma pro-
videncia havia adotado, apesar da gravi-
dade do assunto.
O consume de agua mineral cresceu
explosivamente em Bel6m. Nao e preci-
so fazer qualquer pesquisa para compro-
var a impressao. Ela se apresenta a qual-
quer um que transit pela cidade. Os pon-
tos de armazenagem e venda se espa-
lham agora por todos os locais, inclusive
na periferia. As pessoas confiam cada
vez menos na qualidade da agua forneci-
da pela Cosanpa. Duas d6cadas atris o
fen6meno ji estava em curso. Durante a
polemica sobre o risco de salinizacao da
agua potivel de Bel6m, em fungqo do
fechamento da barrage de Tucurui,
descobriu-se que na casa do president


da companhia de aguas do Estado a agua
consumida era mineral. O exemplo, por-
tanto, era negative para a Cosanpa.
A corrida para um produto de maior
confiabilidade fez o sucesso das firmas
particulares. Mas ningu6m parece ter-se
preocupado a sdrio em impor padres ri-
gorosos e exigir seu cumprimento. Apes-
quisa de Ivanilson, mesmo restrita aos
r6tulos, mostra que se nem na embala-
gem sao seguidos os requisitos minimos
estabelecidos nas normas t6cnicas, pode-
se confiar em que no process produtivo
Iaja essa preocupaqao?
O trabalho de Ivanilson precisa ser
publicado o mais rapidamente possivel,
para alertar e conscientizar a populaqlo
para uma questao vital. E sua den6ncia
deve ser considerada na media de sua
pr6pria importancia. Assim, o dia inter-
nacional da agua deste ano nao seria ape-
nas uma refer6ncia na folhinha.


A chama da hist6ria


Nossa missed, naquele final de 1969, era
deixar debaixo das poltronas panfletos de-
nunciando a farsa das eleicqes. Queriamos
que o cidadao consciente anulasse seu voto
para desmascarar a ditadura. Entramos na
primeira sessao do Cine Metr6pole, em Sao
Paulo, com centenas desses papdis, que pre-
paramos no mime6grafo do Diret6rio Aca-
d8mico da Escola de Sociologia e Politica,
sob nosso control. Nenhum de n6s era fi-
liado a qualquer partido ou ligado a grupos
da esquerda armada. Eramos livre-atirado-
res, iconoclastas. Mas nao queriamos pas-
sar em branco naquela hist6ria cinzenta.
Nao me lembro exatamente de todos
que foram ao cinema naquele inicio de tar-
de. Mas nosso grupo incluia o atual promo-
tor de cinema Leon Cakoff, o professor
Marco Aur6lio Nogueira, o cartunista Bru-
no Liberatti, o cineasta Cliudio Kahns e
virios outros. O problema 6 que, al6m da
tarefa civica (ao menos para n6s), irfamos
ver o documentirio sobre o festival de Woo-
dstock, realizado poucos meses antes, nos
Estados Unidos.
Acabamos ficando por duas ou tr8s ses-
s6es a mais, hipnotizados pela t6cnica re-
volucioniria do film (o primeiro a dividir a
tela em tr6s pianos simultaneos de cenas)
e pela imagem dos mtsicos, pela vitalidade
da sua apresentagqo. Nas minhas retinas
ficaram impressas para sempre as apre-


sentaqbes de Jimmy Hendrix, Janis Joplin,
Joe Cocker e Richie Havens. Todos os
demais foram magnificos (at6 mesmo os
suaves Arlo Guthrie e Joan Baez), mas es-
ses quatro se tomaram inesqueciveis, ca-
valeiros de um apocalipse iminente.
Hendrix e Joplin morreriam pouco de-
pois de overdose. Estiveram expostos a
esse desfecho jd no palco de Woodstock,
mas, talvez, se nao fosse por essa circuns-
tancia, nao teriam feito o que fizeram ao
recriar o hino americano (que nao 6 hino),
no caso de Hendrix, e Summertime, na vez
de Joplin. A palavra visceral, repetida sem
pertin6ncia no atacado, 6 a expressao cor-
reta para definir os dois epis6dios. Ali,
Jimmy e Janis foram aos pincaros da cria-
qao. 0 que iriam fazer depois? Qualquer
comparaqao diminuiria tudo que viessem a
fazer. Morreram tragicamente, mas com a
missao cumprida. Safram sem descer. Fo-
ram no impulse sem freios. Ao al6m.
Nao foi o caso de Joe Cocker. Ele tam-
bem enfrentaria a barra pesada da droga
na d6cada seguinte e quase desapareceria
do primeiro piano da m6sica. Emergiu de
novo em 1983 e tres anos depois se apre-
sentou no Festival de Montreux, o mais im-
portante da Europa. Estou escrevendo esta
nota porque acabo de ver a apresentaqao
dele num dos canais da televisao fechada.
Como nao podia deixar de ser, o n6mero 6


With a little{I ^
help from my .
friends. Mas
6 um pastiche
do que vimos
em 1969, naquela
sessao do Cine
Metr6pole, no
ponto que era o
mais charmoso
da Sao Paulo daquela 6poca, antes da de-
cadencia do centro da cidade.
Uma ddcada e meia depois, o coro
tamb6m era formado por duas negras es-
tupendas, com a combinaqao de vozes dis-
sonantes que os americanos fazem como
ningu6m mais. O conjunto tamb6m sus-
tentava a vibraqao criada pelo arranjo, que
botara fogo na placidez mel6dica original
dos Beatles. Cocker tentava reconstituir
a mise-en-scene de tocar uma guitarra
imaginiria e incorporar a energia ensan-
decida de antes. Mas, como Marx lem-
brou, corrigindo Hegel, a farsa sucedeu o
drama na repetiqao. O resultado, para um
contemporaneo de Woodstock, se mostra-
va pat6tico. Desliguei antes do fim e vim
partilhar com meu leitor a chama viva que
reacendeu nos arcanos da mem6ria, viva
porque inimitivel. Assim 6 a vida. Assim,
a hist6ria. Ou monta-se no cavalo selado
ou vai-se comer poeira para sempre.


4 MARCO DE 2007 *2"QUINZENA Jornal Pessoal









Amazonia pode ganhar cor a "onda verde"?


A importancia do assunto me imp6s pu-
blicarfora da secdo especifica uma segun-
da mensagem que me foi enviada por Jo-
hannes van Leewen. Ela foi motivada por
matiria da ultima edigdo do JP, que "tocou
diversos aspetos da ocupacdo (invasdo, con-
quista) agricola da Amaz6nia". 0 Coorde-
nador do Nutcleo Agroflorestal do Inpa (Ins-
tituto Nacional de Pesquisas da Amazonia,
de Manaus) decidiu se manifestarpor achar
que "o melhor entendimento de certos as-
pectos t&cnicospode melhorar o debate". Em
seu entendimento, o dende "da verdadeiras
possibilidades para a inclusdo social. Os ca-
sos da Maldsia e Indonesia mostram isso cla-
ramente. Acredito que no Brasil as grandes
empresas ndo sao afavor mesmo que algu-
mas jd trabalhem parcialmente cor agricul-
toresfamiliares. Do outro lado hd o Minis-
terio de Desenvolvimento Agricola, que pres-
siona, e pode dar incentives fiscais". Mas,
lamenta o pesquisador "o MDA ndo parece
ser uma organizaCdo muito eficaz. Por isso
o debate piblico e muito importante. Ele
constatou, surpreso, "que no CPATU (Em-
brapa-Belim), cor tantos especialistas agro-
florestais (meus colegas), ninguim parece
estar estudando as opCges para o dende na
pequena propriedade".
Segue-se a carta de Leewen e, em segui-
da, minha resposta.
O dltimo Jornal Pessoal (edicqo 387)
6 muito feliz quando chama a aten-
gqo para as importantes mudanqas
que comeqam a ocorrer na agriculture da
Amaz6nia. Neste context gostaria de co-
mentar a "onda de energia verde" (artigo
"Energia") e o plantio da seringueira, men-
cionado na mesma ediqao. O Jornal Pes-
soal enumera criticamente diversas razoes
para o entusiasmo pela crescente onda de
energia verde, uma delas: "as plants locais
serao privilegiadas".
De fato, nao hi esp6cies locals para pri-
vilegiar nos plantios para energia verde.
Apenas hi funds para pesquisar esp6cies
nativas de possivel interesse no future, um
future provavelmente bem distant, se che-
gar. No atual estado de conhecimento, as
dnicas esp6cies de interesse para a energia
verde sao duas ex6ticas: o dende, para o
biodiesel, e a cana-de-aqicar, para o etanol.
O dende possibility a participaqao da agri-
cultura familiar, a cana-de-aqdcar nao. O
dende 6 uma palmeira africana (nao 6 nati-
va como escreve a mesma ediqao do Jor-
nal Pessoal comentando um artigo de H6-
lio Jaguaribe), que chegou ao Brasil junto
com os escravos. Desde entdo, foi cultiva-
da na Bahia, por agricultores familiares.
Faz meio s6culo que comeqou o cultivo
do dende no Pard, em grande escala, por

Jornal Pessoal 2' QUINZENA MARCO DE 2007


empresas que combinam extensas planta-
iqes com ffbricas para a extracqo do 6leo.
(Originalmente considerava-se que uma fi-
brica precisava de uma plantaqao de pelo
menos 5.000 hectares, atualmente admitem-
se tamb6m "mini-usinas" abastecidas por
Areas de 500 ha de dende.) O exemplo da
Asia (e o da Bahia) mostra que 6 possivel,
ou at6 melhor, que a empresa se limited a
extracao do 6leo dos cachos de dend8 pro-
duzidos por agricultores familiares. Isso se
explica pelo tipo de plant usada neste caso.
O dende 6 uma palmeira de grande porte
para a qual a colheita e a manutencqo do plan-
tio nao se prestam facilmente a mecaniza-
q~o. Sem mecanizaqCo, grandes Areas con-
tiguas nao resultam, necessariamente, em
uma economic de escala. Pelo contrdrio, gran-
des Areas de monocultura facilitarao a pro-
pagaqao de doenqas e pragas. Al6m disso, as
palmeiras slo plantadas com grande distan-
cia entire elas (na ordem de nove metros).
Nos primeiros anos, as plants jovens nao
ocupam esse espaqo todo. O agricultor fa-
miliar sabe usar esse espa9o ocioso bem
melhor que a grande empresa especializada.
A cana-de-aqdcar 6 um caso bem diferente.
Aqui nao se trata de plants muito grandes,
separadas umas das outras, que precisam de
um tratamento individualizado, mas de uma
cobertura vegetal fechada e contigua, que
facility o tratamento e a colheita mecaniza-
dos. Assim sendo, a participaqo de agricul-
tores familiares, em novos plantios de cana-
de-aqdcar, 6 pouco provivel. Neste aspect,
a cana-de-acicar nao 6 diferente da soja,
outra cultural que avanga na Amazonia e que
aumenta a exclusao social.
O artigo "Latex invisivel", do mesmo
Jornal Pessoal, parece critico acerca do
plantio da seringueira foraa da terra native
da Hevea brasiliensis" "no Maranhao ou no
Espirito Santo". Infelizmente, a experien-
cia ensina que, salvo raras exceq6es, as plan-
tacqes de seringueira nao dao certo em sua
Area de ocorrencia natural, a Amazonia. Os
programs PROBOR (1972-1986) que fi-
nanciavam o plantio da seringueira na Ama-
z6nia resultaram num fracasso retumban-
te, equivoco que, segundo o falecido pro-
fessor Benchimol (1989, p. 95), custou um
bilhao de d6lares ao erdrio.
Nunca vou esquecer o que vi durante
uma visit a um plantio de seringueira, pr6-
ximo a Manaus, propriedade de uma em-
presa que levou muito a s6rio seu projeto
agricola, que Ihe permitia certos incenti-
vos fiscais. Visitei uma Area de 1.000 hec-
tares, corn manutenqao impecavel, o solo
coberto, por complete, por uma legumi-
nosa, assistencia t6cnica de alto padrao,
administraqao s6ria (um dos dirigentes da
empresa passava a cada semana alguns


dias no empreendimento agricola) e ou-
tras atividades agricolas muito bem suce-
didas. A plantacgo nao produzia nada, s6
havia, a perder de vista, seringueiras min-
guando e morrendo.
A explicaqdo: cor algumas centenas de
Arvores por hectare o normal para uma
plantaqao de seringueira a doenqa cha-
mada mal-das-folhas toma-se muito gra-
ve e condena a produq~o. Na floresta na-
tural, onde hi apenas algumas seringuei-
ras por hectare, a doenca estA present,
mas nao causa danos graves. Temos aqui
o lado dificil da tao jubilada biodiversida-
de: muitas esp6cies da floresta diversifica-
da nao se prestam bem para a monocultu-
ra, uma vez que a monocultura facility so-
bremaneira a atuagqo de seus inimigos na-
turais. Conseqientemente, as principals
plantacqes de seringueira se encontram fora
de sua Area de ocorrencia natural, em paf-
ses onde essa doenqa nao ocorre (Asia)
ou em locais, onde a menor umidade do ar
dificulta o ataque deste fungo, como nos
estados de Sao Paulo e Mato Grosso.

Benchimol, S.. 1989. Amaz6nia:
planetarizacgo e morat6ria ecol6gica.
Sio Paulo: CERED, 144p.

MINHARESPOSTA

Convdm esclarecer desde logo, que He-
lio Jaguaribefoi quem nacionalizou o den-
dc, plant africana para cd transplantada.
Apenas o citei, sem me ater a algumas bar-
baridades que ele cometeu, devidamente
corrigidas em alguns artigos, como o de
Anibal Bega.
Hd muito tempo deixei de ter qualquer
ilusdo sobre o plantio homogeneo de serin-
gueira na Amaz6nia, capaz de ter escala
commercial competitive, confonne verificard
quem consultar a colecao deste journal (te-
nho batido continuamente no mito de que
perdemos a hegemonia no setor porque os
ingleses contrabandearam as sementes do
Tapajds, quando a said pelo porto de Be-
lm foi regular legal). Nesse campo, acho
que a ecologia derrotou a regido: embora
native da Amaz6nia, a seringueira s6 e vid-
vel na terra native no grau de dispersdo na-
tural dafloresta native heterog&nea. Warren
Dean demonstrou essa verdade no livro so-
bre a borracha, que comentei na mesma dpoca
em quefoi langado, no final decada de 80.
Portanto, ndo reivindiquei na nota o cultivo
racional de seringueira na Amazonia. Pelo
contrdrio: procurei indicar que o projeto em
Carajds ndo tem base sdlida. Sao sementes
ao vento. Os industrials do ldtex nao olham
mais para a Amaz6nia. No caso, olham para
o Maranhdo e Espirito Santo.









0 mundo fascinante dos livros usados


Ha pessoas com horror pelo livro usado.
O meu fascinio por eles 6 ilimitado. Nao e
apenas uma fonte de informaqao e conheci-
mento que conquistamos quando os compra-
mos: eles estabelecem uma cadeia sucess6-
ria da qual nos tornamos o mais recent ou
iltimo elo. Observados com atenqHo, esses
livros transmitem algum traqo dos proprieti-
rios anteriores, como peas de um mosaico
maior ou de um quebra-cabeqa em sutil
arqueologia dos sinais. E um prazer as vezes
tao intense quanto a apreciaqao do conteui-
do impresso. t o meta-universo do livro, sua
rica marginalia humana.
Dentro de um livro que comprei certa vez
no Arque6logo havia o convite para a pri-
meira comunhao de uma grande amiga. Por
acaso, encontrei Eduardo, o irmao dela, uns
dois ou tries dias depois da descoberta. E
por outra coincidencia, essa amiga, Maria
Eugenia Barros, faria aniversario dias depois.
Mandei o santinho como um present vali-
oso, inesperado. Mas o irmao me devolveu
a reaqao da destinataria: de decepglo. "Ago-
ra ja sabes a idade dela", explicou, cor um
levantar de sobrancelha que remetia ao an-
tigo segredo na verdade, tabu feminine
(hoje, inversamente, as mulheres revelam
logo a idade, na expectativa do comentirio
que se tornou usual nesta era de academias
de beleza e rejuvenescimento: "mas voc8
parece ter muito menos...").


Nao conheci o professor Edgar Pinheiro
Porto, fundador e inspetorde escolas, for-
mador de geraq6es. Mas aprendi a respeiti-
lo por seus livros e anotaqoes antes mesmo
de ler alguma coisa de sua autoria. Onde?
Pelos livros da biblioteca do professor Fran-
cisco Braga Eloy. Eles foram vendidos por
sua familiar para o Bai, o sebo do Denis Ca-
valcante, de onde resgatei uma porqgo de-
les. Presumo que o professor Braga Eloy
fosse genro ou algo assim do professor Ed-
gar Porto (ou, quem sabe, apenas amigo ou
successor; no moment nao me disponho a ir
apurar a informaqao, que 6 secundaria para
os prop6sitos desta nota).
Virios dos livros foram originalmente do
mestre mais antigo, selecionados cor inteli-
gencia e gosto. Fiquei sabendo, por um de-
les, que em 1927 a Suiqa tinha um consulado
em Bel6m, que remeteu um guia daquele pais
ao professor Edgar Porto (em francs, natu-
ralmente, lingua que o obsequiado domina-
va, como muitos intelectuais ou outros mem-
bros da elite de entao). Os livros, as anota-
qces e os penduricalhos da biblioteca de Por-
to merecerio um dia um tratamento mais de-
talhado. Sua mem6ria nao ter recebido dos
contemporaneos e sucessores o tratamento
merecido. Muito pelo contririo.
Mas tambem era preciosa a biblioteca do
professor Braga Eloy. Ele foi meu professor
de hist6ria no primeiro ano (6nico que fiz em


Bel6m, continuado em Sao Paulo) do curso
de Ciencias Sociais, no antigo Centro de Fi-
losofia e Ciencias Humanas da UFPA, dirigi-
do pelo grande Orlando Silva e agitado por
nossa lider, Laise Sales, uma versao compac-
ta de energia explosive. Por algum incident
que meu atrevimento juvenile costumava en-
gendrar, o professor e eu terqamos forqas
durante todo ano. Na prova final, eu precisa-
va de 10 para passar. Vieram cinco quest6es,
todas discursivas, cada uma requerendo um
tratado. Precisei de mais folhas de papel para
concluir as respostas, nas quais apliquei tudo
que sabia. Mas temia que o esforqo fosse em
vao: havia a ma-vontade por parte do dono
da correcao e da nota. Para minha surpresa,
ele me deu 10 e passei.
S6 ao folhear os livros dele que adquiri
consegui a confirmaqao, muitos anos depois,
para a intuigao que me viera do epis6dio: di-
vidindo-se entire o diligente escrit6rio de ad-
vocacia e a banca do magisterio, o professor-
advogado ndo podia dedicar a esta, que re-
munerava muito mal, o tempo que a outra Ihe
exigia para dar-lhe os meios mais efetivos de
subsistencia, para ele e sua familia. Mas era
um leitor aplicado e criterioso. E se tivesse
melhores condiq6es teria feito muito mais pela
formaaoo dos seus alunos. A mim, pela via da
circunstancia aleat6ria, acabou beneficiando
muito. Escrevo esta nota para agradecer-lhe
e ao seu antecessor, Edgar Porto, por terem
sido excelentes leitores.


-Saft ad"Ww-wa-k- -*W.41& -.1,


0 mestre entire os seus

Victor Pinheiro voltou de uma temporada na Alemanha, onde aprimorou a lingua e a
cultural, efoi passando para, em todos osfins de semanaa, como um muisico de Hammelin, se
cnfimrnar coin vdrias outras pessoas atraidas por seu sopro mental, dispostas a "sacrificar"
o lazer conventional de sdbado e domingo, para usufruir umra academia maicutica de
verdade, em plena regido metropolitan de Belim, entire a selva que some e a urbe que nao
se assume. Durante o dia inteiro ouvem o mestre, Benedito Nunes, e corn ele dialogam sobre
literature, filosofia, estetica, muisica e tudo que e human.
Se algum dos participants dessas sessdes esperava encontrar um palestrante professoral,
academico (no mau sentido) e hermntico, deve ter partilhado a agradivel surpresa de todos
os interlocutores mais antigos de Benedito, que e um conversador invejdvel, um atiqador da
curiosidade alheia e da propria coin todos os generos de interesse, da alta cultural aI
resiliencia cultural nas telenovelas.
Victor, um herdeiro e provavelmente continuador do mestre, preparou um texto-convite
para as saisons (grctis e abertas a todos), que vale a pena reproduzi: Diz ele:


Opapel desempenhado pela literature
na cultural ocidental pode ser enten
dido como fundante. A nossa civili-
zaqio 6 pautada em grandes livros, em docu-
mentos literarios que condicionaram a forma-
qio da arquitetura spiritual de nossa hist6ria.
Certamente uma arqueologia do pensamento
europeu, extensive ao latino-americano, que
ignorasse os monumentos literArios estaria
fadada ao insucesso e a incompletude.
0 prof. Benedito Nunes, extremamente
consciente da importancia central desta ati-


vidade no desenrolar hist6rico do pensa-
mento ocidental, ter sido verdadeiro ar-
que6logo literArio. Conhece os textos corn
intimidade matrimonial, os coloca em dife-
rentes pontos de vista, os coteja, os com-
para, os question, os relaciona com seu
context politico, filos6fico, histdrico. Nio
os ressuscita visto que vivem, nao nos
museus gloriosos do passado, mas nas
entranhas do nosso pensamento, da nossa
cultuia. Desperta o Homero, o Virgilio, o
Dante, o Cervantes, o Shakespeare que tra-


zemos o intimo do nosso ser, quer queira-
mos ou nao, quer saibamos ou nio. Por
vezes corajosos como Aquiles, por outras
sonhadores como Quixote, apaixonados
Roneus suspirando por Julietas; enfim, ler
os clissicos implica em decifrar este Ho-
mem que somos nos.
Cor a maturidade, oriunda do tempo e da
experiencia, o prof. Benedito Nunes apren-
deu a ler as entrelinhas, o subliminar, o nao-
dito; a encontrar referEncias ocultas, privil -
gio dos que escavam o solo ate a profundi-
dade, seguros da existancia de f6sseis, raises
secrets, lenq6is de agua. A atividade inter-
pretativa (hermeniutica), responsive pela
celebridade national do prof. Benedito Nu-
nes, reside na aproximaqao filos6fica dos tex-
tos literArios. Armado de afiado instrumental
de cognigao filos6fica, ele prop6e verdadeira
nudez literaria, sem jamais perder o encanto
da sublimaqao estCtica da genuina poesia.
O Curso de Hist6ria da Literatura Leito-
res de Homero que ora o Centro de Cultura e
Formarao Crista da Arquidiocese de Beidm
prop6e aberta e gratuitamnente ao pfiblico re-
forca o esforco que esta instituicao vem de-
monstrando para sedimentar um calendirio
cultural intense, constant e proficuo, alicer-
qado na forca e brilho da intelectualidade do
prof. Benedito Nunes.


SMAKRCOU DE 2007 *2"LQUINZENA ornal Pesn:ii








Justiga federal manda irar grileiro do Xingu


O grupo controlado pela Construtora
C. R. Almeida vai comeqar a ser despe-
jado da maior Area grilada do mundo: o
juiz federal Herculano Martins Nacif de-
terminou, na semana passada, que a In-
cenxil desocupe imediatamente o im6vel
Fazenda Curua, cor supostos 1,3 milhio
de hectares, uma das parties de um con-
junto de terras, que poderia ter de cinco
milh6es a sete milh6es de hectares, em
Altamira, na regiio central do Para, tam-
b6m conhecida como Terra do Meio.
O juiz aceitou reconsiderar, a pedido
do Minist6rio P6blico Federal, decisao
judicial anterior, que admitiu a permanen-
cia da empresa na area sob litigio, que o
poder p6blico tenta reaver ha mais de 10
anos. Ela se sobrep6e a tres terras indi-
genas (Xipaya, Kuruaya e Bad) e tres
unidades de conservaq~o: Floresta Na-
cional de Altamira, Estaqao Ecol6gica da
Terra do Meio e Reserva Extrativista
Riozinho do Anfrisio. Se nio cumprir a
ordem, a Indistria, Com6rcio, Exporta-
qao e Navegaq~o do Xingu Ltda. podera
pagar multa diaria de 100 mil reals.
A media foi fundamentada em ra-
z6es t6cnicas e provas, juntadas pela Pro-
curadoria Regional da Republica, de-
monstrando que as terras jamais foram
desmembradas do patrimonio p6blico
para a propriedade privada. As evidenci-
as da fraude cartorial, que supriu essa
ilegalidade, tamb6m sio convincentes,
admitiu ojuiz federal: "De fato, uma area
que era pequena e do Estado do Pari,
arrendada para extrativismo, depois se
transformou num colosso de terras,
abrangendo inclusive Areas de reserves
indigenas, nio pode ser considerada da
Incenxil assim, sem mais nem menos".
Concluiu ser "materialmente impos-
sivel" se falar na posse de uma extensao
de terras de quase cinco milh6es de hec-
tares por parte de umra inica empresa.
"A titulo de ilustraqio", apresenta um
raciocinio: "se fosse contratado apenas
um preposto para ocupar cada fragao de
1.000 ha (o que ja 6 uma irea muito gran-
de) da suposta Fazernda Curui, seriam
necessArios nada menos que 4.700 man-
datArios. Em uma perspective otimista, a
empresa gastaria cerca de R$
21.000.000,00 (vinte e um nidlh6es de re-
als) por ano s6 para manter a posse da
Area, o que e economicamente inviavel".
Constatou ainda o magistrado errorss
crassos na conducgo da fungio notarial"
por parte da cartoriria Eugenia Freitas, que


acabou perdendo a funnao, por ato do Tri-
bunal de Justiqa do Estado, depois de res-
ponder a 29 procedimentos criminals na
justiqa federal. Ela segundo a sentenqa -
"parecia averbar tudo sem o minimo de
confer6ncia. Ela parecia permitir a multi-
plicaqo de ireas semqualquer crit6rio, sem
nenhuma checagem, baseando-se em de-
claraq6es e plants sem suporte na obser-
vaio direta, tudo substituido praticamente
por um Darf conforme disse em interro-
gat6rio perante estejuiz".
O juiz federal tamb6m tomou como
base para sua sentenqa o depoimento que
Ihe prestou Roberto BeltrIo, filho de Ce-
cilio do Rego Almeida, em interrogat6rio
durante a instruqio processual. Identifi-
cado como "provavelmente o real res-
ponsivel pela Incenxil", Beltrio "admi-
tiu que, na pratica, a empresa foi criada
com um inico real objeto: comprar ter-
ras no Pard. Disse, em interrogat6rio no
process criminal correlato a este: 'ape-
nas sabia [ele, Roberto] que, comprando
a Incenxil, estaria verdadeiramente com-
prando as terras da referida empresa'".
Sobre a compra em si, Roberto Beltrao
declarou pouco saber, observa ojuiz federal:
"Disse pouco saber tamb6m da regularida-
de da opera~ o e da idoneidade dos corre-
tores que a teriar viabilizado. Mais impor-
tante: em nenhum moment, no process
criminal, que vem desde 2003, ha uma cabal
e consistentemente embasada afirmaaqo.
pelos r6us, de que haja uma perfeita cadeia
dominialquejustifiqueapropriedade, por uma
empresa realmente inexistente, de urna irea


riquissima de quase 5 milhies de ha. Sem
isso, tudo estd muito frigil".
O juiz Nacif esclarece que, para si,
"vale muito mais a declaraiao do pr6prio
Roberto Beltrao em interrogat6rio: 'que
nio ter noticia de onde seria a sede da
empresa, nunca viu seus s6cios, nao ter
idCia de qual seria seu objeto social, nio
conhecia outros bens eventualmente de
propriedade da Incenxil, nem tinha infor-
magces diretas sobre sua atuacqo, sobre
seu funcionamento, sobre a idoneidade de
seus s6cios'. Se a Empresa 6 tio atuante
assim, como diz ser, nao seria natural que
Roberto Beltrao, um dos responsiveis por
ela, soubesse disso?", observa.
Cor tais informaqoes, chegou a deci-
sio de que, "qualquer ocupaqao ou explo-
raqao da terra, pela Incenxil, que nao a fei-
ta atrav6s de natives e colonos, em condi-
qio de agropecuaria ou extrativismo de base
comunitiria ou familiar, deve cessar imedi-
atamente. Assim como deve cessar tain-
b6m a utilizaqio indevida de forca policial
military em beneficio de interesses especi-
ais da Incenxil".
A decisao dojuiz Herculano Nacif ainda
nio dc um basta definitive a audaciosa grila-
gem. HA batalhas pendentes a decidir. Mas
provavelmente elas terao o mesmo resulta-
do: a derrota dos grileiros. Um agravo impe-
trado pela Incenxil junto ao Tribunal Federal
de Recursos, em Brasilia, foi rejeitado A una-
nimidade pela 4" turma da corte A gri lagem
se tomou descarada demais para continuar
a ser toierada: esse 6 o recado da justice
federal para quem quiser ouvi,.


Antes que caiam


A prefeitura age con, acerto ao investor
contra as moradias abandonadas para evitar
que elas se transformed em criat6rios do
mosquito transmissr da dengue, Devia fazer
isso tamb6m por outro motive de relevant
interesse public: impedir a deteriorac~o da
paisagem e da pr6pria vida urbana. De posse
de um bom cadastre sobre as edifica6es de
interesse hist6rico e de valor arquitet6nico, a
prefeitura levantaria a situaqio tributaria dos
im6veis para verificar seus debitos de IPTU.
Em seguida, publicaria editais convocando os
proprietirios a regularizar sua situaqgao.
Findo o prazo, sem a apresentag~o do
interessado e a quitahao da divida, a prefei-
tura atravis de um mecanismo legal que
sua assessoria juridica indicasse declara-
ria a ... i'.'i, do im6vel, o recuperaria e o


colocaria em oferta. atraves de edital, para
a cessao em comodato, conform norma
contratual a ser definida, cor a imposig5o
de obriga6oes ao novo ocupante. A receita
dessa transalio formaria um fundo de de
senvolvimento urban, que financiaria a coi-
tinuidade do projeto e suportaria qualquer
questionamento judicial, sem possibilidade
de ter seu uso desviado.
Talvez se evitasse o que vai acontecer de
outra forma: pr6dios que estao completando
um s6culo desabarno. Na esquina da Genera!
Gurjao com a Ferreira Cantio, por exemplo,
ha um deles, muito bonito, que se tornou cen-
tendrio exatamente neste ano. Sem uma in-
tervengao do poder puiblico, a festa sera subs-
tituida por seu fim. A hist6ria da cidade nio
merece ruir dessa maneira.


Journal 'Pessoal 2 QUNiZENW *% MARO DrE2?O










A voz de Maraba


Nasci em Santar6m, com muito orgu-
Iho. Mas meu segundo lar, adotivo, 6 Ma-
rabi. Talvez tenha estado mais vezes li,
nestes dltimos anos, do que na terra na-
tal, por motives outros, que independem
da minha vontade (se ela pudesse preva-
lecer, estaria no Tapaj6s constantemen-
te). Afeiqoei-me aos marabaenses, que
sempre me trataram muito bem. E sou
um apaixonado por seus temas, que con-
tem a ess8ncia do drama amaz6nico.
Em 1971 eu escrevia uma coluna did-
ria (Quark) em A Provincia do Pard,
quando fui surpreendido por um texto de
primeira: "Marabd: terra mesopotimica do
sol". Publiquei a cr6nica, de acento po6ti-
co, e fui atris do autor, que se escondia


atris de um cargo burocritico na empre-
sa de telefonia e telegrafia Western (de
cuja importancia, naqueles tempos, as pes-
soas mais jovens nao podem ter iddia).
O autor daquele texto encantador era
Ademir Braz, "o pagao", um outsider que
navegaria entire Lima Barreto e Rimbaud
se nao tivesse voltado ao seu sitio, no
"Cabelo Seco", que o Tocantins enchar-
ca nas suas enchentes semestrais, em
algumas delas exagerando na dose. Vol-
tou, de certa forma se amansou um pou-
co, mas continuou um observador agudo
da cena local e um inspirado escritor, mais
inspirado do que produtivo.
Agora vejo que Ademir criou seu blog,
sugestiva e poeticamente batizado por Qua-


radouro. Uma pigina digital bem nascida
promete bons frutos. Da primeira safra co-
Iho uma nota, pequena e profunda, que diz
muito sobre o desperdicio e a dilapidaqao
dos talents da terra. Observa Ademir:
"Ex-prefeito, ex-deputado estadual e
federal e ex-secretario de Estado, o en-
genheiro sanitarista Haroldo Bezerra tem
seu nome ajuntado ao do ex-prefeito
Nagib Mutran Neto e da ex-vereadora e
ex-deputada estadual Elza Miranda numa
suposta dispute A Camara Municipal.
Em algum lugar desta biboca tem al-
gu6m lidando com vudu".
Grande Marabd. Triste Marabala.
Como profetizou Caetano, o Haiti 6 ali -
e aqui. Saravd, grande Ademir.


- -- Lc i' ii i
ae Lciicr


Francis
Paulo Francis na lixeira da
hist6ria?
Gostei do artigo sobre Paulo
Francis no Jornal Pessoal, edigqo
386, segunda quinzena de fevereiro
deste ano, mas nao rotularia de "efe-
mero" seu livro, Trinta Anos Esta
Noite 1964: o que vi e vivi, publica-
do em 1994. Sem menciona-lo, o Jor-
nal Pessoal sentencia: "Os demais
(livros), sobretudo os de ficqdo, sao
ef6meros: o vento da hist6ria os var-
rera das prateleiras". Segundo a capa,
Trinta Anos Esta Noite... cont6m as
lembranqas de Paulo Francis ao golpe
military e ao period que o antecedeu.
E muito bem escrito. E repleto de da-
dos interessantes e sugest6es para lei-
tura. O indice das pessoas As quais
essas pouco mais de duzentas pagi-
nas se referem, ocupa nove (nove!)
paginas. Querendo entender melhor
um trecho das melanc6licas pAginas
finals ("O 1964 fez de mim, da minha
geraaqo, homes adults. Viviamos de
ilusdes..."), encontrei os impressio-
nantes livros de Primo Levi, ganha-
dor do Prrmio Nobel. O Paulo Fran-
cis de 1964 era jovem (31) e tinha
uma filosofia political radical, era
trotskista. O Francis que, trinta anos
depois, reflete sobre este ano, 6 o das
"ilus6es perdidas da idade madura".
Resultou um depoimento important
sobre um moment chave da hist6ria
recent do Brasil, que nao deva termi-
nar tao cedo na lixeira da hist6ria.
Johannes van Leeuwen
Manaus -AM

Desenvolvimento
Diante da avalanche de notici-
as, parte delas reunidas no Jornal
Pessoal n. 386, pagina 5, e muitas
delas confirmadas, principalmente
no Para, a economic mineral tende a
seguir o seu long period de suces-


so. Aqui por estas bandas, como fi-
cou dito antes, ja temos uma regular
lista de projetos com planejamen-
tos definidos (incluindo a plant el6-
trica, item do detalhamento que o
JP diz nao terms reserves, e estar-
mos atravessando uma possivel cri-
se energ6tica), alguns deles aguar-
dando somente o veredicto dajusti-
qa, em cima de aq6es promovidas
pelo MPF e instituiq6es diversas.
Mas isso 6 uma outra est6ria. A
questao relevant 6 o despreparo do
Estado para enfrentar uma situaqao
que, convenhamos, ja deveria ser
bem conhecida, avaliada, filtrada e
delimitada em todos os seus pontos
vitais incluindo a articulaqao polf-
tica. Posiqio que nos permitiria, pelo
menos, a amarrar localmente part
da industrializadao desses min6rios.
Esta seria, no moment, uma solu-
qao de escape do Estado, para inici-
ar a tao sonhada fruicqo de sua ri-
queza geol6gica. A nossa utopia de
crescimento e desenvolvimento.
Suponho que esta hip6tese nao 6
crivel (assunto fartamente aborda-
do nesse journal) porque nao hA ain-
da estudo nesta plenitude nos arrai-
ais paraenses, o que 6 uma pena.
A academia deveria funcionar em
consonancia cor o governor, ofere-
cendo embasamento cientifico e su-
porte t6cnico as aqGes de planejamen-
to estrat6gico e/ou execucqo de polf-
ticas adequadas ao seu desenvolvi-
mento econ6mico e social. O alhea-
mento da Universidade As causes pt-
blicas facility o ingresso no primeiro
escalao do govemo de uma gama de
oportunistas, "os que manobram a
sombra da inconsciencia do pdblico
e acabam dando as cartas nessejogo
viciado", que s6 laboram em provei-
to pr6prio e de seu grupo, constitu-
indo-se, destarte, o empecilho do
nosso devaneio maior: fugir da desi-


gualdade, integrar-se a Patria e con-
correr para tirar o pais do caminho
do apocalipse.
Rodolfo Lisboa Cerveira

Revista
Acabo de ler mat6ria sobre sua
batalha pela justiqa, usando como
(inica arma a palavra, na revista Ro-
lling Stone n 5, de fevereiro. Con-
fesso que fiquei admirado cor seu
empenho, como um vigilante da ver-
dade. Sei que voce vive de congratu-
laq6es e tapinhas nas costas, mas se
tiv6ssemos neste pais, pelo menos
1/1000 iguais a voce, o descaso e a
corrupqao, e todas as mazelas politi-
cas deste pais, estariam, digamos,
pelo menos mais "contidas". Por isso
que digo que a democracia de fato
nHo existe, nao como os livros nos
ensinam: um governor do povo, para
o povo e pelo povo. O que temos na
verdade 6 democracia dos ricos.
E triste ver que voce ter lutar s6,
contra tudo e contra todos.
Procurei naWebporseujomal, mas
nao encontrei, acho que voce nao tem
um site do jomal. E uma pena, voce
poderia colocar uma versao na internet,
hoje cor os programs de editoraqao
esta mais facil, pois eles ja exportam
direto paraPDE De qualquer modo fica
a sugestao. Ficariamais ffcil adivulga-
gao em todo o Brasil. E no Mundo.
Parab6ns pela sua luta, porque,
como o her6i Neo de Matrix, voce
esta lutando por todos n6s.
Carlos A. Andrade

Estrangeiros
Em dois moments do JP 387
(paginas 6 e 12) tratas de assunto que
vejo com preocupaqo: a produqao
de etanol e biodiesel no Brasil (corn
Wnfase, certamente, nas terras livres
da Amaz6nia), assunto que
trouxe Bush (preocupadissimo com


o aquecimento da Terra) para con-
versar com Lula (pr6-ocupado com
o ponto G...). O assunto nao 6
novo: no final dos anos 80 o grupo
ABC, de UberlAndia, ensaiou mon-
tar uma usina para aproveitar tron-
cos, raizes e galhos das Arvores der-
rubadas para converter em etanol. O
mercado visado, dentre outros, era a
Celpa, desde que aceitasse trocar os
bicos ejetores dos geradores das usi-
nas do interior do Estado, mas a em-
presa nem aceitou discutir. No que
diz respeito As opinides de Hdlio Ja-
guaribe, o mestre envereda pelo ca-
minho mais facil (e irresponsavel) da
afirmaqao sem base cientifica, borde-
jando pelo lado emotivo do naciona-
lismo. Sobre a ameaga de as terras in-
digenas se transformarem em novas
naq6es, balcanizadas, isso tamb6m es-
taria embutido na proposta de arren-
damento de terras que Hamilton Rice
teria feito ao governor brasileiro
(1922?) no extreme noroeste do Ro-
raima, formando um territ6rio que
envolveria as bacias do Orenoco (Ve-
nezuela) e Uraricoera/rio Branco. E
de Id para c, muitos estrangeiros, na
version nao confirmada de alguns jor-
nais, t6m tentado ficar cor um peda-
go daAmaz6nia (Ford, Ludwig), o que
nao 6 verdade. Nao acredito nessa hi-
p6tese da posse territorial, at6
porque as colonias de hoje sio mais
ocupadas a forqa pelo colonizador. A
CVRD (que 6 daqui) 6 o exemplo
perfeito: exploradesbragadamente as
riquezas deste Estado, contando cor
a benevolencia (ou inacao e incompe-
tencia de agir) dos nossos goveman-
tes. Quando muito, patrocinam um
event civico-ecol6gico-cultural e
bombardeiam as vantagens em estar
aqui, e pronto. Quanto ao professor
Jaguaribe, no que me toca, aAmaz6-
nia ainda 6 minha.
Paraguassti Ileres.


8 MARCO DE 2007 2 QUINZENA Jornal Pessoal








Universidade federal no Baixo-Amazonas


A governadora Ana Jdlia Carepa ji
anunciou qual vai ser o seu present na
festa de 500 aniversario da Universida-
de Federal, no dia 3 de julho: a criacao
de uma universidade federal no Oeste
do Estado. Ela teria conseguido em Bra-
silia, durante uma audiencia no Palacio
do Planalto, o compromisso do presiden-
te Luiz Inicio Lula da Silva de estar em
Beldm na data para assinar o ato que
formalizard a existencia da nova univer-
sidade, cor sede provavelmente em
Santarem, a capital regional. Uma ou-
tra unidade federal tamb6m poderia sur-
gir no Sul do Estado.
O ministry da Educaqdo, Fernando
Haddad, aprovou preliminarmente a ini-
ciativa. Considerou que as dimensbes
do Para, a segunda maior unidade fe-
derativa, e a sua diversidade, justificam
o surgimento de uma universidade fe-
deral autonoma, no mesmo Estado que
ji tem a UFPA.
A governadora ndo sabe, mas se esse
anincio se concretizar, o surgimento de
uma universidade p6blica no Oeste do Pard
ocorrerd exatamente 40 anos depois que
foi plantada em Santarem a primeira se-
mente do ensino superior na regiao. Ja era
pleno verao, naquele dia de agosto de
1967, mas chovia forte quando, em frente
ao pr6dio do Seminirio Pio X, do outro
lado da pista da rodagem (que 6 hoje a
estrada Santar6m-Cuiabi), muitas pesso-
as se reuniram para testemunhar o lanqa-
mento da pedra fundamental da Faculda-
de de Filosofia do municfpio. Um dos


"populares" presents, depois de ouvir o
discurso do entio prefeito, Elias Pinto, en-
cerrando a solenidade, lembrou que na
posse dele tamb6m chovera copiosamen-
te, o que considerou um bom augirio.
O apoio ao lanqamento do projeto
da primeira escola de
ensino superior foi
total, principal-
mente por par-
te dos estu-
dantes, que
constituiam
a maioria do
pdblico pre-
sente Aquele
pequeno descampa-
do na mata (ainda ha-
via remanescentes da
vegetacqo native). O pri-
meiro orador foi o enge-
nheiro Jos6 Alberto Costa,
que seria um dos construto-
res do porto de Santar6m,
para ele a future sede "do mais
novo Estado do Brasil".
Eliomar Mafiago, engenheiro
florestal da Sudam, que falou depois, sus-
tentou que a Amaz6nia seria o celeiro do
mundo, da mesma maneira como Santa-
r6m se tornaria o celeiro da regiao. O
vereador Ronan Liberal, ele pr6prio tam-
b6m estudante, agradeceu, em nome da
classes, "a concretizaqao de tao magno
empreendimento". O professor secundi-
rio e radialista Ant6nio Pereira elogiou o
alcance "da obra portentosa". E frei Pe-


dro, reitor do seminario da prelazia (hoje
diocese), ao abenqoar o marco, lembrou
que o bispo, dom Thiago Ryan, de nacio-
nalidade americana (ji falecido), ajudara
o prefeito "na consecuqao de sua obra".
0 Jornal de Santarem de 19 de
agosto de 1967, re-
gistrou desta ma-
neira o restante
da cerim6nia:
"Ap6s
Frei Pedro
ter falado,
pronunciou-
se o jovem
SLcio Pinto,
que cursa o 3 ano
cientifico de um cold-
gio de Bel6m, e que,
centre outras coisas, dis-
se que: 'Esta Faculdade
de Filosofia sera o braqo
forte da Amaz6nia'. Neste
instant, as ligrimas perola-
vam o rosto de Elias Ribeiro
Pinto, que revia no filho os do-
tes que o colocam tdo alto entire
os oradores do Brasil".
Os sonhos e emoqges daquela tarde
se tornariam nada mais do que chuva de
verao pouco tempo depois, quando San-
tarem ingressaria numa das mais graves
crises political da sua hist6ria. Se a Uni-
versidade Federal Autrnoma do Baixo-
Amazonas (fica a minha sugestao de ti-
tulo) surgir, por que ndo lembrar os pio-
neiros dessa longa e dificil caminhada?


Intelectual: ausente


Sao plenamente justificados os mo-
tivos para comemorar o cinqienteni-
rio da Universidade Federal do Pard.
Nio s6 e infactivel voltar a urna 6poca
antes dela, como nio e desejdvel. A
qualidade do ensino, a capacidade de
pesquisa. a utilidade da educaq~o. a
competencia de pessoal. a amplitude
de quadros por esses e v6irios outros
titulos a contribuiFiio da UFPA para
Belm. o Pard e a Amaz6nia 6 valiosa.
Tudo bem: mas onde esldo os in-
telectuais piblicos que a UFPA sedu-
ziu e parece que engoliu nos seus cam-


pi"? Eles estAo se qualificando academi-
camente, pesquisando. escrevendo e en-
sinando. Mas nio se apresentam na are-
na do cotidiano para os desafios e de-
bates da inteligencia. Os intelectuais. en-
quadrados na (e pela) academia. redu-
zidos a sacerdotes do saber (ou 6racu-
los de uma Delfos pri ada) sao os gran-
des ausentes do dia-a-dia mais recent.
Talvez se tenham tornado mais sibios,
mas. para o povo, ficaram menos tieis.
Para a hist6ria, dispensiveis.
Antes da UFPA, eles estavam nas
redacoes dos jornais. nos parlamentos,


nas praqas, nos bares, nas ruas. Es-
tavam expostos a todos os riscos. mas
se apresenta% am como interlocutores
de qualquer questao, mesmo quando
nao muito bem preparados para es-
clarece-las. Hoje, como regra. estdo
tratando da propria carreira, para a
qual pouco contribuem entrevistas a
imprensa (quando nao. muio pelo con-
tririo). Quem e o grande intellectual
universitArio na linha de tiro desta
fronteira selvagem?
Convinha pensar na resposta a
esia pergunta antes de cortar o bolo
do aniversirio.


Jornal Pessoal 2" QUINZENA MAR

I -PCI -C C~- I 'CIIIC~--II~ -----r~ -- -----~----C---------- -~









MEMORIAL DO COTIDIANO


Televisao
Em maio de 1963 a TV Ma-
rajoara, dos DiBrios e Emis-
soras Associados (de Assis
Chateubriand), comecou a
exibir o program "Sete Dias
em Destaque", apresentado
(ao vivo, como nio podia dei-
xar de ser antes do video-
tape) por Abilio Conceiro e
cor o patrocinio da Casa de
M6veis Imperador. 0 objeti-
vo era premier com "artisti-
cas estatuetas" as pessoas
que se destacassem durante
a semana. Mas o program
nao durou tanto quanto pre-
tendiam seus idealizadores:
ou por falta de destaques ou,
talvez, de estatuetas.

Programa9ao
Nesse mesmo mes e ano, alias,
a TV Marajoara comegava a
semana, As segundas-feiras,
cor a seguinte programacqo:
18,00 Padrdo
18,30 Abertura
18,40 No Reino Encantado
- Patrocinio de C6sar Santos
[umafarmdcia] e Caixa Eco-
n6mica Federal do Pard
19,10 Todos os Esportes -
Pat. Importadora Braga
19,25 Tapete Migico -
Guarasuco
19,45 Pepe Legal Marcosa
20,15 Rep6rter Marajoara -
Banco Comercial do Pard
20,30 Danger Man -
Camisas Torre
21,00 Orquestra Alberto
Mota Victor C. Portela e
Sapataria Batista Campos
21,30 Imagens do Dia
21,50 Alfred Hitchcock -
Banco Moreira Gomes
22,20 Romance dos Muni-
cipios DER [Departamento
de Estradas de Rodagem]
22,50 Encerramento

Radio
Nas emissoras de radio o must
eram os programs de audi-
t6rio. Os6as Silva comanda-
va na Marajoara, As oito ho-


ras da noite, o "Ridio Diverti-
mentos", com a participaqio
do "cast" associado, que in-
cluia Carmen Silvia, Miriam
Matos, Jurema Cordeiro, Ema-
nuel e Jos6 Ramalho, mais a
participaIao do Conjunto de


Orlando Pereira, que, nesse
mesmo ano, iria ao Rio de Ja-
neiro gravar o seu primeiro LP
(o disco bolacha preta da era
das eletrolas). Os ingressos
eram vendidos na bilheteria do
audit6rio. O program prome-


GUARASUCO



PIRDII ESPORIVI

ula rw n P d." no
id 0 no M moI ~. I0*eJdolJ









p g m ^^-" ** 2* &U*a.*.0& 1, *u,
poiImo Wns W wsit do ws oids












IA O
Isg 2. a Ub.s 6 10:30












de mais guaranl j


indispensvel nas fiestas. Ivo realmente comandava uma
dirios e uma resenha dominical, commando logo depo









das 11 da note. Tinha a concorrsncia terrivel da
equip Ae aEdir Proena na Rsdio Clube e de Jaime
dBastos na Guajar. Muita gente competente para um
futebol que valia a p ena ver. Hoje...
PR 0 PA GANDA


Ivo Amaral e EGuarasuc stanado em todas: o joaem






Bastos na Guajard. Muita gente competent para umr
futebol que valia a pena ver. Hoje...


tia "mlisica, alegria e muitos
premios". Lotava.

Cinema
Foi com Viridiana, do espanhol
Luis Buiiuel, que o Cinema de
Arte de Bel6m comeqou sua
hist6ria em novembro de 1967,
sua carreira de longos em-
bora precarios anos de cul-
to aos "filmes de autor". A
sessao, inicialmente As 10 da
manha de sibado, no Olimpia,
era um desafio A disposiqio
dos cinemaniacos. Mas a pro-
gramalqo compensava: de-
pois de Viridiana vieram O
Homem do Prego, de Sidney
Lumet, e A Fonte da Donze-
la, de Ingmar Bergman.
Quem viu, jamais esqueceu.

Canal
Para completar o alargamento
do igarap6 das almas, transfor-
mando-o no canal da Doca de
Souza Franco, o DNOS (De-
partamento Nacional de Obras
de Saneamento) condenou a
demoliqao 13 casas que se en-
contravam na rota da retifica-
gqo. Os moradores remaneja-
dos foram indenizados e sairam,
no final de 1967, mas nao por
gosto pr6prio. Se dependesse
deles, todos ficariam. O lugar
era central, a vizinhanqa era
boa e o bairro era sossegado.
Tiveram que passar a morar
mais long (no Guamd e na
Terra Firme), pagaram mais
caro pela nova casa e sentiam
saudade de onde ji estavam
pelo menos havia seis a sete
anos. Quem comandou a obra
de substituiqao do igarap6 na-
tural por um canal revestido foi
o engenheiro Manoel Pantoja,
director do DNOS. O mesmo
que assumiu o pol8mico proje-
to do saneamento da Estrada
Nova com o pedido de demis-
soo do entao responsAvel, Luiz
Otdvio da Mora Pereira, ex-se-
cretario de urbanismo do mui-
to menos polemico prefeito
Duciomar Costa, o Dudu.


1 0 MARCO DE 2007 2"QUINZENA Jornal Pessoal






FOTOGRAFIA

0 grande reporter

Urna foto rara: Paulo Ronaldo, come ando na carreira de
reporter, em 1967, entrevista uma das moradoras do igarape
das almas, que seria obrigada a mudar de pousada por cau-
sa das obras do canal da Doca de Souza Franco. De uma
familiar de classes midia, corn seu estilo agressivo, irdnico e
inteligente, mas as vezes escrachado, Paulo Ronaldo atuou
na imprensa escrita e no rddio, torando-se o jornalista mais
popular (e mais amado) de sua 4poca. Credenciou-se para a
carreira political, se elegendo deputado estadual pelo MDB
cor uma enorme votagdo. Mas cometeu um erro factual numa
dentncia sobre o Esquadrdo da Morte, do que seus inimigos
se aproveitaram para provocar a cassacdo do seu mandate e
prende-lo, em meio a uma autentica revolta popular
Por causa de uma matiria sobre fuga de press, quando
eram levados para tortura na ilha de Cotijuba, e sua recap-
tura violent, com cenas chocantes de policiais atirando a
queima-roupa, foi enquadrado na Lei de Seguranga Nacio-
nal. Por ter publicado a reportagem no Encarte, suplemento
que criei e editei em 0 Liberal na metade da decada de 70,
fui junto. Fomos identificados, palmilhados e hostilizados
na Policia Federal, entdo uma guard pretoriana (felizmen-
te, hoje profissionalizada). Mas a Auditoria Militar desqua-
lificou o alegado crime (de jogar a populagdo contra as


I "P AIMs~





1 71.


autoridades, apontadas como abusivas) e a justiga comum
nos inocentou (o que jd ndo faz, em plena -democracia), par
evidence o absurd.
Encontramo-nos logo depois, casualmente, numa festa de
carnival no Pard Clube. Abra(amo-nos afetuosamente, come-
morando por continuarmos livres, leves e soltos naquela sai-
son d'enfern. Sd iria reencontrd-lo definto: um ataque cardfa-
co o fulminou durante uma pelada de futebol de fim-de-sena-
na. Paulo subiu entire atabaques e turbulos, como merecia.


Barata
Aguarda quem por ela se inte-
resse a hist6ria de Frederico
Barata, uma rara combinaq~o
de cientista,jomalista, critic de
arte e home pdblico, hoje qua-
se esquecido. Ele veio para
Bel6m, a mando de Assis Cha-
teaubriand, organizer ojomal A
Provincia do Para, a TV Ma-
rajoara e a Radio Marajoara,
atuando entire n6s durante qua-
se 15 anos. Morreu no Rio de
Janeiro, em maio de 1962. Lem-
brei-o mexendo papeis. Minha
primeira matdria saiu na capa
de A Provincia do Pard, em 6
de maio de 1966, ao lado de um
anuncio que convocava para a
missa de 40 ano de falecimento
desse grande, insondivel entio
e ainda insondado personagem.

NAEA
O Nicleo de Altos Estu-
dos Amaz6nicos da Universi-
dade Federal concluiu, em
1972, a montagem de sua es-
trutura para powder funcionar
no treinamento de pessoal em
nivel de p6s-graduaqgo para
assim realizar a identificaqio,
descrigqo, andlise, interpreta-
cgo e soluqio dos problems
regionais amaz6nicos, confor-


me sua audaciosa proposiqio.
Vinculado diretamente ao rei-
tor (na 6poca, Aloysio da Cos-
ta Chaves) e coordenado pelo
sub-reitor Armando Mendes,
tinha dois conselhos.
Do primeiro Conselho De-
liberativo fizeram parte Mirio
Pinto de Moraes (Ciencias
Biol6gicas), Francisco de
Paula Mendes (Letras e Ar-
tes), Domingos Barbosa da
Silva (Centro Biom6dico),
Orlando Costa (Filosofia e
Ciencias Humanas), Otivio
Mello (Ci&ncias Exatas e Na-
turais). Jos6 Marcelino Mon-
teiro da Costa (Centro S6cio-
Econ6mico), Jussi6 Gonqalves
de Souza (Centro de Educa-
qao) e Alfrio C6sar de Olivei-
ra (Centro Tecnol6gico).
Ji o Conselho Consultivo
era formado pelo pr6prio Ar-
mando Mendes (sub-reitor de
pesquisa e planejamento), Nel-
son Figueiredo Ribeiro (sub-
reitor de administraqao acad&-
mica e serviqos de apoio),
Maria Anunciada Chaves
(sub-ieitora de extenslo e de
natureza estudantil), Paulo Al-
meida Machado (Inpa Insti-
tuto Nacional de Pesquisas da
Amaz6nia), Jorge Babot de


Miranda (Banco da Amaz6nia,
do qual era presidente, Ole-
girio Reis (Sudam), Jayme
Santiago (Cendec) e Manoel
Ferreira (da Confederacao
Nacional da Ind6stria).

Cametaenses
O governador morava num
casario imponente e feio, ao
lado da igreja da Trindade. O
govemador era o iracundo ge-
neral Magalhaes Barata, que,
querendo usufruir a traditional
sesta, deu ordens para que o
sino vizinho permanecesse
inerte. Mas o paroco atendia
pelo nome de Miguel Inicio e
para ele s6 a vontade divina
podia comandar o bimbalhar da
ferramenta da f6. O governa-
dor pigarreou forte, mas o pa-
dre era tinhoso. Resultado: os
fi6is continuaram a ser convo-
cados pelo baque do bronze
pendurado na torre da igreja e
o governador teve que acomo-
dar seu sono ao rito eclesial.
Morador do largo da Trin-
dade, fui coroinha do padre
Miguel (tamb6m do padre Cu-
pertino Contente, que li apa-
recia semanalmente para rezar
sua missa telegrifica) e bada-
lei esse sino conflituoso no exer-


cicio de minhas obrigaq6es, al-
guns anos depois do quase-cis-
ma. A autoridade do vigArio
vinha de ter implantado a pa-
r6quia, inicialmente subordina-
da A igreja do Rosario e, de-
pois, faz6-la se tomar uma nova
matriz, dividindo entao suaju-
risdiqao cor religiosos new
face, como o padre Carlos
Coimbra, idealizador do Clube
da Juventude, cor sessoes aos
sibados A tarde e domingos de
manhai. E que fez meu casa-
mento, ali mesmo na igreja, as
sete da matina.
Padre Miguel era cameta-
ense, mas ficou 40 anos, depois
de ordenado, sem retornar a
sua terra. S6 quando comple-
tou a boda de ouro 6 que voltou
a cidade dos Romualdos, conlo
lembrou o monsenhor Leal, em
sugestivo artigo publicado em
1967, no qual registrou o en-
contro, 40 anos antes, na pia ba-
tismal da igreja do Rosario, dos
dois cametaenses ilustres: pa-
dre Miguel e o ent~o bachare!
Deodoro de Mendonqa. "coro-
nel" no rio Tocantins e pai do
advogado Otavio Mendonca.
que recentemente subiu a ter-
ceira instAncia depois de mais
de gloriosos 80 anos.


Journal Pessoal 2' QUINZENA MARCO DF 2007 11








Imprensa: de novo, s6 a voz do dono


Havia a expectativa de que Ana Jud-
lia Carepa, quando assumisse o gover-
no, faria do grupo RBA seu aliado e do
grupo Liberal seu opositor. Era a dedu-
q~o automitica da alianqa eleitoral que
ela fez com o PMDB do deputado fe-
deral Jader Barbalho, o dono do grupo
de comunicaqao oposto ao da famflia
Maiorana. Os veiculos das Organiza-
q6es Romulo Maiorana participaram ati-
vamente da campanha pela eleiqao de
Almir Gabriel, depois de terem sido os
principals parceiros dos 12 anos de he-
gemonia tucana no Estado. Fizeram tudo
que podiam para evitar a vit6ria da can-
didata do PT, s6 tornada possivel por
uma manobra political de Jader, que reu-
niu votos suficientes para funcionar
como o pendulo da balanqa. Para onde
ele foi, o vencedor tamb6m foi.
A prova dos nove da defmicngo foi dei-
xada por Sim~o Jatene no ultimo dia do
seu mandate. Era uma casca de banana
parecida aquela que Hdlio Gueiros colo-
cou no caminho do seu successor na pre-
feitura de Bel6m, o tamb6m petista Ed-
milson Rodrigues. A principio, Edmilson
tomou attitudes hostis aos Maiorana e pa-
recia que nao iria pagar a divida de Guei-
ros com o grupo. Mas logo nao s6 se en-
quadrou como foi de uma generosidade
inimaginavel cor os Maiorana.


Jatene mandou o president da Funtel-
pa, Ney Messias, prorrogar por um ano o
"conv8nio" com a TV Liberal, no dia 31 de
dezembro, para engolir 476 mil reais por mes
do orqamento da Fundaqo de Telecomuni-
caq~es do Para. Se a mudanqa prometida
por Ana Jlilia fosse para valer, ela simples-
mente determinaria a revogaqao do termo
aditivo que prorrogou o tal "convenio". Ao
inv6s disso, adotou uma soluao lateral, que
parece endrgica, mas, na verdade, 6 con-
temporizadora: suspended os pagamentos,
mas manteve em vigor o "conv6nio".
De fato, a perda 6 significativa para o
caixa da TV Liberal, mas o pior muito
pior seria ficar sem a rede de retransmis-
sao da Funtelpa, sem qualquer expectativa
de direito (que ainda subsiste com o "con-
venio" em curso, mesmo sem pagamen-
tos). O desencaixe se agravaria um tanto
mais com a dispensa do jatinho fretado da
ORM Air. Mas depois de anuncios decidi-
dos, a governadora voltou atris e retomou
o uso do aviao. Uma vez provado o gosto
da mordomia, dificil sera dispensi-la. Sem-
pre haveri motivo a apresentar para justi-
ficar recorrer ao jato privativo.
Ja circula em circuit fechado a in-
formaqgo de que outra compensaqgo esti
em cogitaqgo para a suspensao do men-
saldo da Funtelpa: a publicidade official
nos veiculos das ORM sera a base de


"tabela cheia". A expressao significa que
o governor pagari exatamente o valor que
consta da tabela de preqos do grupo Li-
beral, uma das mais elevadas do pais, dis-
pensando os descontos, As vezes subs-
tanciais (de mais de 50%), que sao con-
cedidos aos bons clients.
Mas por que o grupo RBA nao reage
A altura desse realinhamento da gover-
nadora cor seus inimigos de ontem? De
fato, o grupo de comunicaqao do deputa-
do Jader Barbalho nao tem feito qualquer
mat6ria que indique descontentamento
corn Ana Jilia, muitissimo pelo contririo:
os temas inc6modos sao expurgados ou
minimizados. At6 mesmo a hostilidade
aos Maiorana foi atenuada. A volta da
governadora ao jatinho da ORM Air, por
exemplo, passou em brancas nuvens.
Estaria Ana Jdlia conseguindo agradar
a gregos e troianos? Ou, melhor ainda: esta
fazendo a multiplicaqao dos paes, tirando-
os de um armario depenado e distribuindo-
os entire os convidados especiais? Para en-
contrar respostas, agora o cidadao comum
ter que ir al6m da grande imprensa local.
Exceto quando ela 6 obrigada a reproduzir
material de agencia, suas paginas voltaram
a refletir integralmente a vontade do dono
e nao mais a realidade ao redor. Isso 6 bom
para o poder, mas 6 danoso para ojomalis-
mo e a opiniao p6blica.


Poucas pessoas que conheci
tinham um cumprimento tao
caloroso quanto o santareno
Jos6 Maria Matos. Era quase
impossivel nao ficar logo seu
amigo depois de receber um
abraqo e um apertar de m~o
en6rgicos, quando nao antece-
didos ou seguidos de um "ca-
boclo", dito afetuosamente,
com a entonagao pr6pria dos
moradores do Baixo-Amazo-
nas. Gracas a essa simpatia, Z6
Maria foi president de clube
de futebol, vereador e vice-
prefeito. A political era seu lei-
to natural. Mas as esquinas da


vida interromperam uma car-
reira que podia ter sido brilhan-
te e proveitosa para ele e sua
terra native. Provavelmente
jamais se recuperou dessa
frustraq~o. E nunca a enten-
deu. Foi embora, no inicio do
mrs, em Bel6m, onde se exila-
ra afetivamente, carregando
essa cruz, que pesava muito
mais do que Ihe cabia, sem fa-
zer-lhe justiqa.
Com a morte de Jos6 Ma-
ria Matos, perdi mais uma das
refer8ncias vivas da Santar6m
da minha infancia e adolesc6n-
cia. Menino, indo em f6rias de
Bel6m, chegava no bangalo
onde sua famflia morava e su-


bia para um quarto, no qual me
trancava para ler as revistas que
ele comprava. S6 voltava a vida
quando convocado para o almo-
qo. A hospitalidade sem limited
era uma das avenidas do imen-
so coraqao do Z6. At6 parece
que nao, mas fard muita falta.


POLUIAO
Os 6nibus voltaram a circular
impunemente cor suas des-
cargas desreguladas, espa-
lhando poluiqao pela cidade. A
ofensiva da Ctbel contra os in-
fratores parece que teve f6-
lego curto, mais uma vez. Nao
se pode elogiar.


Novo livro -- .,.
Ja esta nas bancas e livrarias meu livro mais recent, OJomalismo na Linha de Tiro.
Tem um pouco do primeiro volume, o prometido segundo volume e alguns acr6scimos e
atualizag6es. Apesar de volumoso, com mais de 500 pAginas, custa apenas 30 reais, o
mesmo prego do anterior, com 300 paginas. Entre os documents que introduzi agora
estA a carta que escrevi a Romulo Maiorana quando do nosso rompimento, em 1986, e a
Helio Gueiros, antes e depois de ele ser govemador do ParA (1987-1991).


JUST AS
A justiga federal 6 categ6rica
na sua sentenqa: o grileiro 6,
de fato, grileiro e, como tal, cri-
minoso, contra quem se aplica
o rigor da lei. Mas na justiqa
estadual, mais diretamente res-
ponsivel por esse ameaqado
patrim6nio piblico fundidrio,
que constitui suajurisdigqo ter-
ritorial, quem chama o grileiro
de grileiro tem que ser punido,
por crime de ofensa ao distinto
cidadao. Najustiqa federal, tal-
vez eu at6 fosse elogiado. Na
justica estadual, sou condena-
do por dizer a verdade.
E Kafka nem e paraense.




Editor: Lcklo FlAvio Pinto
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