Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00308

Full Text






ornal Pessoal
A AGENDA AMAZ(NICA DE LOCIO FLAVIO PINTO
JANEIRO DE 2007 1'QUINZENA N9 383 ANO XX R$ 3,00


NOVO ;OVh; j.
SEM CARENCIA
PAGINA S
FULINTELPA: (.()/ V '%, .
NOVAI-DA-VAKL.. PAGINA4
_________________PAGINA


HIDRELETRICA



Tucuruf: maior ainda

A Eletronorte guard a sete chaves um novo projeto: construir uma terceira casa de maquinas
na hidreletrica de Tucurul, no rio Tocantins. A barragem da usina, que e a segunda maior do
Brasil e a quarta do mundo, seria prolongada pela margem direita para aproveitar a agua
excedente no pique do inverno, como agora. 0 assunto ja esta na Presidencia da Republica.


AEletronorte pretend am-
pliar a hidrel6trica de Tucu-
rui, no Para, a segunda
maior do Brasil e a quarta
do mundo. O projeto original da usina
jS foi concluido, corn a instalagio das
23 miquinas que estavam previstas nas
duas fases de implantaqgo, alcancando
a potencia nominal maxima, de 8,3 mil
megawatts, s6 inferior a de Itaipu. Mas
a subsididria da Eletrobr.s quer prolon-


gar a estrutura de concrete pela mar-
gem direita do rio Tocantins, onde atu-
almente hi uma barragem de terra, no
municipio de Breu Branco.
O objetivo 6 utilizar a agua que 6 ver-
tida por dentro da barrage sem apro-
veitamento energ6tico. No auge do pe-
riodo de cheia, entire janeiro e abril, o
rio Tocantins pode descarregar uma
m6dia de 35 milhoes de litros de agua
por segundo atrav6s do ponto onde esti


a hidrel6trica, mas o consume de todas
as suas turbines ndo chega a metade
dessa oferta. Mais de 15 milh6es de li-
tros por segundo passam pelos verte-
douros e formam um enorme salto na
said, o maior desse tipo que existe, ser
produzir energia.
O prolongamento da barragem, que
a Eletronorte quer construir, permitiria
a instalaq o de novas maquinas para
aproveitar a energia que.&.desperdica-
CONTINUA NA PAG 2






CONTINUAAO DA CAPA
da no pique do inverno amaz6nico por
causa do excess de agua. Os estu-
dos, que ja teriam sido submetidos a
Presidencia da Reptblica, garantiriam
a viabilidade dessa que seria a 3" eta-
pa da usina, nao prevista no projeto
original. Esses estudos estdo sendo
mantidos em sigilopelo governor. Apr6-
pria Eletronorte ainda nao se manifes-
tou a respeito.
As poucas informages disponiveis
nao especificam o tamanho da nova
casa de forga, que seri menor e s6
poder6 ser utilizada durante parte do
inverno, permanecendo inativa durante
todo verao, em mais da metade do
ano. Seu custo tamb6m sera muito
menor porque a atual barrage de ter-
ra da margem direita do Tocantins fun-


cionara como ensecadeira. Depois
que a nova estrutura de concrete for
concluida, essa barrage sera desfeita
e o rio tamb6m passard a fluir pelo
novo vertedouro. O trifego de veicu-
los, que atualmente passa pela barra-
gem, sera desviado atrav6s de uma
ponte, a ser construida ajusante (abai-
xo) do rio, isolando o conjunto da
usina e da transposiqco da barrage
(as eclusas).
Esse projeto exigira um novo plane-
jamento para integrar a operaqdo dos
reservat6rios das hidrel6tricas na bacia
do Araguaia-Tocantins. O reservat6rio
de Tucuruf, o segundo maior lago artifi-
cial do pais, que acumula quase 50 tri-
IhMes de litros de agua numa area de
2.875 quil6metros quadrados, nao po-


deri mais ser ampliado. Para acrescen-
tar 100 megawatts potencia da usina,
a Eletronorte elevou em dois metros o
nivel operacional do reservat6rio, para
a cota de 72 metros.
Novas adigqes de agua terao que
vir dos lagos que se formarem a mon-
tante do rio, corn as hidrel6tricas que
forem sendo construidas. Tres delas j
estdo em operago. As duas em pro-
jeto sio as de MarabA, no Tocantins,
e de Santo Ant6nio, no Araguaia. Pe-
las previs6es oficiais, a bacia poderia
alcanqar a potencia de quase 20 mil
MW de energia at6 2015, com 10 ou
12 aproveitamentos no curso dos dois
rios. Mas essa meta 6 questionada pe-
los critics da construcao de hidrel6-
tricas na Amaz6nia.


Agua: apenas para produzir energia?


Itaipu Binacional anunciou num
press-release que os turistas que visi-
tam a hidrel6trica, no rio Parand (a
maior do mundo at6 a complete mo-
torizacao de Tr8s Gargantas, na Chi-
na), neste perfodo, tem uma atraqgo
a mais: por causa do excess de chu-
vas na regido sudeste, uma das calhas
do vertedouro foi aberta. O escoa-
mento da agua nao usada para a
produqao de energia chegou ao ma-
ximo, quase 2,5 milh6es de litros de
agua por segundo, na madrugada do
dia 8. Nesse moment, o volume era
maior do que toda a vazdo das Cata-
ratas do Iguaqu na mesma tempo-
rada. Os saltos do Iguaqu, uma das
maravilhas da Terra, desaparece-
ram cor o enchimento do enorme
reservat6rio da usina, inferior, po-
r6m, ao de Tucuruf.
O vertedouro foi aberto na v6s-
pera do natal. Desde entho, ficou
fechado apenas nos dias 2 e 3. No
dia 4 voltou a escoar a agua ex-
cedente. E, de acordo corn a Di-
visdo de Hidrologia de Itaipu, de-
veri permanecer aberto por um
long period.
O reservat6rio de Itaipu recebe
agua de toda a bacia do Parand,


uma das maiores do continent, que in-
clui rios de Minas Gerais e de Soo Pau-
lo, onde as chuvas esto sendo abun-
dantes. Como a hidrel6trica utiliza para
a produqao de energia aproximada-
mente 11 milhoes de litros (ou 11 mil
metros cdbicos) de agua por segundo,
que chegam pelo reservat6rio, e como
o lago atingiu sua cota maxima, de 220
metros acima do nivel do mar, o exce-
dente 6 escoado pelo vertedouro.
Garante a binacional que, mesmo
sem a atraqao do vertedouro, que abriu
poucas vezes no ano passado, quase
600 mil turistas visitaram a usina de Itai-


pu. Pelo lado brasileiro, foram 422.421
pessoas, procedentes de 120 pauses e
territ6rios. No lado paraguaio, do inf-
cio de janeiro at6 o iltimo 21 de de-
zembro do ano passado, foram
150.951 mil turistas. Se cada um gas-
tou ao long dessa visit 100 d6lares,
numa estimativa extremamente conser-
vadora, foram 60 milhbes de d6lares
de rendimento apenas por um dia de
perman8ncia de turistas na area.
Quanto renderia um turismo ecol6-
gico e inteligente em Tucuruf? Ahidrel6-
trica ter o segundo maior vertedouro
do mundo. Esseja 6 um atrativo. Mas
ha outro, ainda maior apenas por
esse aspect: a agua que passa pelo
vertedouro 6 atirada para o alto pelo
maior salto em esqui do mundo. O
visitante pode passar por dentro
desse tinel e sentir o impact e a
vibraqdo da massa de agua. Qual
sera o seu maior rendimento: geran-
do turistas ou energia?
Essa 6 uma divida que o projeto
daEletronorte para uma terceira casa
de forga imediatamente provoca.
Claro que o poder competitive de
STucuruf esta prejudicado pela horf-
vel paisagem das arvores submersas
no reservat6rio e seus efeitos negati-


JANEIRO DE 2007 I1QUINZENA Journal Pessoal


I -e I II C--l IC~-I~L-L -~ ----~--D-~P--C~I-dl~L1~~


-- ~OI







vos, nao s6 sobre turistas, mas e prin-
cipalmente sobre a populaqao local. O
aspect negative poderd ser compensa-
do se for encarado sem engodos: certo
tipo de turista seria guiado para ver corn
os pr6prios olhos o impact de barra-
gens de alta queda nas regi6es tropicais,
de baixa declividade natural, e at6 parti-
ciparia dos esforcos realizados para com-
bater esses efeitos, se tais esforqos real-
mente forem empreendidos e puderem
ser exibidos como um esforgo decidido
da ciencia para conciliar o home cor a
natureza. Por esse Angulo, Tucuruf seri a
um alvo privilegiado de um turismo de
base cientifica, para instruir e nao para
enganar ou manipular.
Mas essa iniciativa s6 trard resulta-
do, e nio apenas para fins turisticos, se
os responsiveis pela usina agirem is cla-
ras, com transparancia, honestidade e
competencia. Quando um amigo me deu
a primeira informal~ o sobre a nova ini-
ciativa da Eletronorte, que at6 ent~o eu
desconhecia, tentei obter informaq6es
junto a empresa. Mais uma vez, sem su-
cesso. Minhas mensagens nio tiveram
resposta. Talvez, como de outras vezes,
a empresa prefira criar mais um fato con-
sumado, ao inv6s de debater previa-
mente sobre seus prop6sitos.
Pode ser que a Eletronorte esteja
completamente certa ao dar maior ren-
dimento energ6tico possivel a agua do
reservat6rio de Tucuruf, mas se essa
maximizagao em nenhum moment an-
tes foi considerada, o que 6 que a tor-
na viavel, exequivel ou desejAvel ago-
ra? O fantistico salto em esqui se tor-
nou anacr6nico? Foi um erro ou ex-
cesso do projeto original? O uso que a
empresa esti recomendando 6 mesmo
o mais adequado? Nio haveri impli-
cacges maiores sobre a operacio da
fgua em toda bacia? Essa modificacao
nao vai influir sobre a concepcao dos
barramentos a montante, exacerbando
o aproveitamento energ6tico, com de-
pleiqes ainda mais acentuadas?
Estas sdo apenas algumas das per-
guntas que o projeto suscita. As respos-
tas poderio ajudar a refletir melhor so-
bre outras usinas, inclusive a de Belo
Monte, no Xingu, ainda em fase de pro-
jeto. Conv6m, portanto, fazer a Eletro-
norte se explicar.

Jornal Pessoal I- QUINZENA JANEIRO DE 2007


Sem fantasia da propaganda


Com 34,1 bilh6es de reais, o PIB do
Pard o 9 Estado em populag~o 6 o
12 do Brasil. JA nao 6 mais o primeiro
da Amaz6nia: foi superado pelo do Es-
tado do Amazonas, que tern metade da
populacqo paraense, de R$ 35,8 bilh6es.
Em renda per capital, o Pard cai para a
18" posigqo no ranking national, de 27
lugares (estd no tergo mais pobre da fe-
deraqio). A renda m6dia paraense, de
R$ 4.992,00, 6 quase quatro vezes infe-
rior A da maior renda per capital, a de
Brasilia, que supera R$ 19 mil. E 6 a
pior da Amaz6nia Cldssica, ganhando
apenas do Maranhao e de Tocantins na


Etica jornalistica

As ameaqas de morte feitas contra o
bispo do Xingu, dom Erwin Krautler, mo-
tivaram a CNBB a divulgar uma nota ex-
cepcionalmente dura e certeira sobre essa
prdtica tristemente rotineira na Amaz6nia,
de desprezo pela dignidade e a vida hu-
mana, atrds da qual estd uma cultural da
morte, "assumida conscientemente por al-
guns segments influentes da sociedade
paraense, que colocam a disposiqao do
crime o dinheiro, a midia e os pistoleiros".
Segundo o comunicado da Conferdn-
cia Nacional dos Bispos do Brasil, "cer-
tos meios de comunicaqao social no nos-
so Estado nem sempre resisted a tenta-
Fio de veicula~ao professional da menti-
ra, da utilizaqao de meias verdades e at6
do silencio criminoso". Esses vefculos
acabam se prestando A proliferagqo de
listas piblicas de pessoas marcadas para


Amaz6nia Legal (ji estd atrds at6 do
Acre). A renda m6dia do amazonense,
a 6" do pais, 6 de R$ 11.434,00. A do
matogrossense, a 10, 6 de R$ 10.162,00.
A posiqgo em IDH (Indice de Desen-
volvimento Humano) s6 6 melhor porque
nos outros dois dos components desse
indice, a alfabetizaq~o e a expectativa de
vida, o Pard tem melhor desempenho. Por
isso, estd em 150 lugar no conjunto naci-
onal. Mas o IDH do Amazonas, de 0,713
(o mdximo alcanqivel 6 1), jd estd bern
pr6ximo do 0,723 do Pard.
Isto 6 o Pard, sem a fantasia da
propaganda.


morrer, o que vem ocorrendo "vergonho-
sa e impunemente ao long dos anos em
nosso Estado". Dessa maneira, acabam
fortalecendo o poder oculto das organi-
zaqoes criminosas, ao inv6s de coibi-las,
evitando que realize seus objetivos, de
"eliminar a vida, os direitos da pessoa e
escarnecer a dignidade humana".
O Sindicato dos Jornalistas, que nes-
ta semana promoveu um encontro aca-
demico para discutir o novo c6digo de
6tica da categoria, podia usar as obser-
vaq6es e advertencias da CNBB como
pauta para colocar em prdtica a preocu-
pacqo com o papel dos meios de comu-
nicaqio. Nao em tese, mas concretamen-
te, dando nomes as abstraq6es da nota e
reconstituindo os fatos sugeridos. Fazen-
do valer e nao apenas dizer. A questao,
gravissima, exige. Sem prosopop6ia.


Jornalista Raimundo


Pouca gente conhece Raimundo Ro-
drigues Pereira, um pernambucano de
olhar inquisidor, de 65 anos: provavelmen-
te por mera coincidencia, ele mereceu ma-
tdrias de quatro paginas nas edic6es deste
mrs das revistas Imprensa e Histdria
Viva. Oito pdginas nas duas publicaq6es
pode parecer muito para um personagem
que raramente aparece na grande impren-
sa, mas ao final da leitura constata-se que
foi muito pouco para traduzir o significado
desse "gigante da imprensa nanica", con-
forme a manchete de uma das matdrias.
Raimundo comandou o Opinido, que
no comeqo de 1973, em pleno regime mi-
litar, concorreu acirradamente em ven-
dagem cor a revista Veja, embora fosse


um David pelejando contra um Golias. Os
dois semandrios se nivelaram em tomo
de 40 mil exemplares vendidos quando a
censura, agindo com ferocidade maior
sobre o alternative, o forqou a ir ficando
para trds, at6 desaparecer, quatro anos
depois, nao sem antes assinalar sua pre-
senqa como a mais gloriosa de toda ge-
nealogia dos jorais de combat, oposi-
cao ou altemativos.
A leitura das duas mat6rias, confron-
tada com a raquitica bibliografia a respei-
to, leva A conclusao de que uma hist6ria
mais satisfat6ria sobre esse period e essa
variante da imprensa ainda estd distant
de ser escrita. Mas pelo menos as novas
geraqSes foram apresentadas ao tema.









Dinheiro pdblico: interesse privado?


O goverador Simao Jatene autorizou
sua assessoria a publicar, apenas em O
Liberal, um suplemento de 96 piginas,
em format tabl6ide (equivalentes a 48
piginas em tamanho normal), com a pres-
tacao de contas dos seus quatro anos de
mandate. A16m da relaqao de obras, o
caderno, todo em papel especial, trouxe
22 fotografias do governador. Segundo o
cilculo feito pelo Didrio do Pard, ex-
cluido da divulgaq~o, a propaganda cus-
tou 350 mil reais, faturados exclusivamen-
te pelo journal da familiar Maiorana.
Se nao houve adiantamento no paga-
mento, a conta deveri ser quitada pela
governadora Ana Jilia Carepa. Nesse
caso, ela estari partilhando uma experi-
encia que seu ex-correligionario Edmil-
son Rodrigues viveu. Ao assumir a pre-
feitura de Bel6m, eleito pelo PT, em 1996,
ele encontrou uma divida de propaganda
do seu antecessor, Hdlio Gueiros, com o
grupo Liberal, que chegou a ser calcula-
da em R$ 2 milh6es.
Pagar ou nao pagar, pagar tudo ou
s6 o que fosse comprovado, foi a pri-
meira casca de banana que ele encon-
trou em seu caminho. Mugiu e tossiu,
como deve ter dito Hl6io Gueiros, assis-
tindo o drama de camarote. O prefeito-
crianqa prometeu dobrar os Maiorana,
mas acabou se submetendo a eles. At6
co-patrocinou a comercializaqao de vi-
deos de filmes da corporagqo, apesar do
sentido commercial da iniciativa.
Ana Jdlia ji se defronta com vdrias
cascas de banana deixadas pelo caminho
do novo govero por Simao Jatene. Algu-
mas delas relacionadas ao grupo Liberal,
podiam servir de mote para uma reflexao
mais profunda e conseqiiente por parte dos
novos gestores dos recursos p6blicos.
Jatene mandou publicar seu cademo
de propaganda apenas em O Liberal
porque ojornal de Jader Barbalho 6 con-
siderado adversario. Mas nao estava nes-
se enquadramento no inicio do govemo,
quando Jatene e Barbalho ensaiaram um
acordo. Nessa 6poca nao havia distincio
entire O Liberal e o Didrio do Pard para
a mfdia governmental. Quando os ar-
ranjos politicos, dando em nada, se desfi-
zeram, a propaganda official sumiu do
Didrio, que tamb6m mudou o tratamen-
to editorial dado ao governor do Estado.
Nao aos poucos, mas drasticamente.
Na sua mensagem onerosa de fim de
governor, Jatene reserve duros ataques A
folha dos Barbalho, da qual foi alvo prefe-


rencial nos iltimos meses. Se sua admi-
nistraqao foi apresentada no jomal como
exemplo de descalabro, Jatene lembra o
tempo passado, "em que o descalabro ad-
ministrativo era, lamentavelmente, bem
mais do que manchete de jomal cotidia-
no", que classifica de "tendencioso". Pro-
clama ter conseguido elevar a auto-esti-
ma dos paraenses e restaurar a credibili-
dade e a confianqa do govemo, "mesmo
diante de campanhas contrdrias orques-
tradas por veiculos de comunicaqao que
nao conseguem esconder a parcialidade
de sua orientagao political .
E verdade. Mas foi gratuito e desin-
teressado o apoio integral e absolute -
que os dois governor tucanos obtiveram
do grupo Liberal? O noticiario dos veicu-
los da familiar Maiorana foi mais isento e
verdadeiro do que o dos Barbalho? Re-
fletiu, de fato, a verdade e expressou os
interesses da opiniio pdblica? Resultou
de uma diretriz editorial ou ecoou o mo-
vimento do caixa? t essa a "imprensa
s6ria" a que se refere o ex-goverador
na sua iltima manifestaqao official?
t incrivel que um intellectual, profes-
sor universitirio com titulo de mestre e
servidor pdblico ha 30 anos, como Simlo
Robson Jatene, se permit apresentar
como verdades afirmativas tao falsas, tao
simploriamente enganosas, tao primirias.
E coloque no ambito da sua responsabili-
dade atos como a renovaqao do "conv-
nio" entire a Funtelpa e a TV Liberal, con-
taminado de ilegalidade e imoralidade.
A prorrogaqco foi assinada no dia 28
de dezembro para ter vig8ncia no dia 31,
sendo publicada, por6m, no Diario Ofici-
al do dia 2, quando o fato jd estava con-
sumado e o responsivel em 61tima ins-
t~ncia pela excresc6ncia estava fora do
cargo, poupando-se do odor ruim da cri-
atura disforme.
O conteddo do "convEnio" e a forma
adotada para a prorrogaqao da sua vig6n-
cia sugerem ao cidaddo um comportamen-
to irresponsivel e leviano por parte do
gestor piblico. O aprendiz de feiticeiro que
concebeu a malfadada peqa, o governa-
dor Almir Gabriel, ao encerrar seu segun-
do mandate de 8 anos, em cinco dos quais
avalizou a inusitada relaqao entire o poder
pfiblico (que pagava para ceder seu patri-
m6nio) e uma empresa privada (que dis-
punha do bem e ainda recebia 200 mil re-
ais por mes, reajustveis, para dele se ser-
vir), assinou um termo aditivo prolongan-
do a existencia do monstro por mais tres


meses; apenas tres meses. E seu suces-
sor era o correligionario, amigo e "lua pre-
ta" Simao Jatene. Ja o mesmo Jatene, ao
transferir a alta magistratura do Estado a
uma adversiria, assinou um aditivo para
prorrogar o prazo do "convenio" por um
ano inteiro, at6 31 de dezembro de 2007.
Qual a 6tica, o respeito e a decencia
nessa decisao? Uma aberraqao juridica,
que sobrevive ha nove anos, alcanqard o
dec8nio graqas ao 14 termo aditivo edi-
tado durante o imp6rio tucano, ao arre-
pio de normas categ6ricas em contrario
da lei sobre licitaq6es publicas e das re-
gras que visam preservar o interesse p6-
blico, simplesmente ignorado pelos donos
da verdade no Para.
Essa 6 uma trajet6ria inevitivel? Aos
amigos, os favors da lei; aos inimigos, os
rigores. Seri sempre assim, mesmo quando
o instrument para acertos ou vingangas
6 o dinheiro do povo? Noo 6 possivel criar
uma instdncia independent para media
essas relaqces, definindo o que o governor
pode e o que nao pode fazer quando esti-
ver decidindo sobre a aplicaqao do dinhei-
ro pfblico? No Pard, um dos Estados que
mais gasta corn propaganda official, a anun-
ciada "democratizaqio da informaqio"
continuard a ser apenas peqa decorative
de uma estrat6gia de marketing?
A cautelosa reaqlo do novo governor
ao legado que assumiu, e particularmen-
te em relaqao ao "conv8nio" Funtelpa/
TV Liberal, nao indica respostas segu-
ras e confidveis a essas inquietaq6es. A
esta altura do estado do conhecimento
sobre a questao, solicitar um novo pare-
cer e dar a esse trabalho, requerido em
carter de urgencia, uma lenta tramita-
qao, de 15 dias, renoviveis por mais 15,
pode levar os observadores a achar que
a definiqao esta sujeita a um tratamento
cosm6tico e a uma tentative de concilia-
qao baseada em conveniencias, nao na
afirmaqao do interesse piblico.
Nao se esta defendendo a simples
anulaqdo do convenio. Denuncid-lo, no
entanto, pode ser um comeqo adequado
para rever suas cliusulas nocivas e pre-
servar pontos nevrilgicos (como a trans-
missao do Jomal Nacional e das novelas
da TV Globo ao interior do Estado), ao
menos no moment, em carter emer-
gencial, at6 a complete regularizaqao da
situaqao, para ajustd-la A letra da lei.
Se Ana Julia veio para mudar, convi-
nha mudar a quadratura desse circulo
vicioso e nao ficar a burilar suas bordas.


JANEIRO DE 2007 IQUINZENA Jornal Pessoal








Governo Ana Julia: respostas imediatas


O primeiro ato de Ana Jilia Carepa,
a primeira mulher e a primeira petista a
assumir o govemo do Para, foi former a
linha de frente da sua equipe, incumbi-
da de responder ao desafio de mudar a
fisionomia do Estado depois de 12 anos
de comando tucano. Como uma misi-
ca popular garante que o que nasce torto
acabard inevitavelmente torto, 6 interes-
sante verificar como nasceu a equipe da
governadora que o povo paraense ele-
geu para mudar o Estado, pondo fim a
contradicio entire continue crescimento
econ6mico e crescente pobreza social.
Ana Jilia nomeou tr8s secretarios
extraordinirios, sem indicaqao de pas-
tas no decreto, embora todos tenham
assumido estruturas administrativas j
existentes. A cautela pode serjustifica-
da pela intenqgo da nova goveradora
de extinguir as secretaries especiais, cri-
adas na administragio Almir Gabriel, e
remanejar a composicao das secretari-
as executives, as que sobreviverio.
Essa decisao dependera da sorte das
mensagens do executive na tramitaqgo
legislative. No atual parlamento, a base
de apoio do governor ainda 6 minoriti-
ria, o que nao chega a ser um grande
problema dada a ampla margem de
manobra que sempre tem o dono da
caneta que admite e exonera, corta e
liberal recursos pdblicos.
Carlos Mario Guedes, um dos ho-
mens fortes do grupo, foi nomeado ao
mesmo tempo secretdrio de planeja-
mento e assessor especial II. Por que a
acumulagao? S6 para encorpar os ven-
cimentos de um t6cnico que vem de
Brasilia e 6 gadcho de origem, pela pri-
meira vez se estabelecendo no Pard?
A advogada Vera L6cia Marques Ta-
vares, combative dirigente da Socieda-
de Paraense de Defesa dos Direitos Hu-
manos, foi designada para exercer o
cargo de secretiria especial de defesa
social, ao mesmo tempo em que acu-
mula a secretaria executive de seguran-
Ca ptiblica. Extinta a primeira, ficard
apenas corn a segunda. Assim sera evi-
tada nova troca de cargos, mas at6 1 a
acumulagio sera realmente saudavel?


Permitird dar conta de um setor tao pro-
blematico e vital?
Os chefes de 12 6rgaos p6blicos fo-
ram nomeados em carter precdrio, ape-
nas respondendo pela titularidade, at6
ulterior deliberaqio, no Detran, Emater,
Paratur, Cohab, Funtelpa, Iterpa, Fun-
dacao Cultural, Imprensa
Official, Fundagao Curro
Velho, Fundaq~o Carlos
Gomes, Instituto de Artes e
Institute de Assist&ncia. Na
maioria dos casos, a efeti-
vaiao depend de delibera-
cqo dos conselhos desses
6rgaos, alguns dos quais fo-
ram desfeitos pelo govema-
dor Simao Jatene.
Mesmo assim, nem to-
dos os cargos do primeiro
escalao foram preenchidos no pontap6
inicial da nova governadora. Falta de
quadros suficientes? Falta de intimida-
de corn todos os escaninhos da admi-
nistraiao p6blica? Dificuldade em com-
por interesses e agradar aliados? Tudo
isso e mais alguma coisa?
De qualquer maneira, a formaq~o
do governor nao foi complete nem sa-
tisfat6ria. Essa dificuldade nao chega
a surpreender nem 6 embaraqosa: afi-
nal, 6 a estr6ia de um novo grupo po-
litico no poder. Mas ela inquieta por
causa das demands que j oneram o
novo governor.
A ser correto o inventirio realizado
da administraqao que chegou ao fim,
feito pelos novos donos da situaqao, o
legado 6 mais amargo do que foi apre-
sentado. Dos 700 milh6es de reais re-
servados a investimentos no orqamen-
to em curso, serao possiveis, quando
muito, R$ 400 milh6es. Esse seria o
prego do ajuste das contas nominais ao
seu conteido de realidade, desconta-
das as antecipacqes de receita, as ma-
quiagens contabeis e as manipulaq6es
de rubricas.
Se o diagn6stico do governor Ana
Jdlia for correto (e at6 agora seus an-
tecessores nao o contestaram de pd-
blico), o primeiro ano do PT no Esta-


do sera de ajustes e arrumaq6es inter-
nas, tanto para corrigir a heranca como
para transport o program da opositgo
para o piano executive official. Varios
dos integrantes do secretariado e do
primeiro escalao (14 mulheres num to-
tal de 49) sao pessoas qualificadas,
corn titulos academicos e
conceito pessoal. Mas
poucos tem experiencia de
gestao, dentro ou fora do
S governor. Essa 6 uma con-
diqdo favoravel para a mu-
danca, mas complica a
4'F continuidade, criando vi-
cuos e bolhas de incompe-
Stncia na trajet6ria. Ain6r-
cia pode ser mais demora-
da do que o recomendavel.
O efeito do tempo de-
pendera da tolerfncia do pdblico e da
conjuntura political. A expectativa de
transformaq5es imediatas nao devera ser
satisfeita. Os petistas terio que aceitar
e conviver com virias das marcas dos
tucanos, dentre elas a grande dependen-
cia da receita originada de elevadas all-
quotas de ICMS sobre serviqos de co-
municaqoes, energia e combustiveis, das
maiores do Brasil, respondendo por
quase metade da arrecadaqio desse
imposto, que represent mais da meta-
de dos recursos do Estado.
Apesar do incremento da receita gra-
qas a essa cobranqa abusiva instituida
pelos tucanos, o deficit fiscal 6 uma das
realidades de 2007, provocado pelo
crescimento da despesa acima do de-
sempenho da receita. Em inicio de ca-
minhada, nao ha soluqoes magicas ou
manipuladas para o atual governor. Ele
tera que comprimir os gastos sem abrir
mdo de receitas. O resultado dessa
equaq.o 6 a impopularidade.
Como nao cair nesse buraco e man-
ter a nau navegando, apesar dos vaza-
mentos que ha nela e do mar encapela-
do, sera o primeiro grande desafio do
govero do PT. Teri que responder a
ele antes que o combat eleitoral muni-
cipal do pr6ximo ano chegue as ruas.
Nao teri muito tempo, portanto.


Jornal Pessoal 1- QUINZENA JANEIRO DE 2007 _~








Os simbolos tucanos: hipertrofia do mando


O home 6 um animal simb6lico.
Por isso sua hist6ria 6 demarcada por
simbolos. A Estaqio das Docas 6 o
maior sfmbolo do modo tucano de ges-
tao pdblica. O secretirio de cultural,
Paulo Chaves Fernandes, um dos pou-
cos que permaneceu durante os 12 anos
do PSDB no poder, decidiu que o por-
to de Bel6m, solidamente construido
pelos ingleses hi quase um s6culo, de-
via mudar. Decidiu e pronto e ponto
final como de seu estilo, um despotis-
mo iluminista maneirista.
Ao inv6s de servir a sua finalidade tra-
dicional, de terminal de carga, o porto
passaria a ser um p6lo turistico. Logo o
polemico Paulo Chaves conseguiu assu-
mir o control de um bloco de tres gal-
p6es, cedidos atropeladamente pela
CDP, onde implantou seu pr6prio proje-
to arquitet6nico. Nos dois anos de cons-
trugqo e reconstruqCo, o orqamento se
multiplicou por quase quatro vezes, indo
de pouco mais de R$ 6 milh6es para R$
22 milhoes. Artificios e desvios, inclusive
a divisdo de um projeto 6nico em dois,
permitiram driblar o limited legal de rea-
justes, que seria de 25% de acr6scimo
sobre o valor original.
A Estaqio das Docas esti af, con-
troversa, a espera de uma nova admi-
nistragqo e uma solugqo para o impas-
se no qual vive at6 hoje: sem subsidio
piblico, nao 6 possivel mant6-la funci-
onando cor cinco restaurants em li-
nha, poucos services adicionais, e rf-
gidas regras de conviv6ncia, que ad-
mitem o public em geral, mas s6 atra-
em seletivamente.
Para o grande pdblico, a grande obra
seria o terminal de passageiros, cinco
galp6es adiante, na parte menos (ou
nada) nobre do cais do porto. E por ali
que passam milhares de usudrios do
transport fluvial, nao s6 os maltratados
nativos, que vao e voltam pelos precd-
rios rios, como tamb6m turistas atraf-
dos pelo maior chamariz de visitantes
na area de influencia de Bel6m, que 6 a
ilha de Maraj6 (a despeito de tudo, in-
clusive da mi-vontade dos supostos
promotores do turismo).


A Companhia Docas do Para cedeu
os tres principals dentre os 10 galp6es
do porto de Bel6m com o compromis-
so de que sairia o terminal de passagei-
ros simultaneamente com a Estaqgo das
Docas. Nada havia entao sobre um pos-
sivel centro de conveng6es, id6ia que
emergiu na f6rtil imaginagqo de Paulo
Chaves depois, quando ocupou mais
dois galp6es com a feira do livro, re-
passada exclusivamente para abrigar
esse event. E por que nao definitiva-
mente? imaginou ele.
Mas a situaqio comeqou a mudar no
harmonico relacionamento CDP-Esta-
do: o processo de transfer8ncia, por
parte da Uniao, da gestao dos demais
galp6es da CDP para o Estado" foi in-
terrompido, inviabilizando o "in6dito
Centro de Convenq6es", que seria
construido na orla da cidade, "numa sin-
tonia lidica com o rio". Em conseqiin-
cia, foi inviabilizado tamb6m o terminal
de passageiros, que serviria aos ribeiri-
nhos, explica o governador Simao Ja-
tene no suplemento de propaganda di-
vulgado atrav6s de O Liberal.
O compromisso cor o terminal an-
tecedia o Centro de Convencqes, inte-
grando o projeto da Estaq~o das Docas.
UY'~I~r~uur~-r~r-r~~, ~ifL1-r. ;


E uma obra de grande alcance social e
de necessidade premente. Todos os dias
centenas de pessoas se sacrificam para
embarcar ou desembarcar no tosco ter-
minal, expondo-se a riscos para chegar
all por ten-a e dali em diante por igua.
Nem por isso a obra foi realizada.
Quanto ao Centro de Convenq6es,
transferido para outro local, tornou-se
a mais cara realizaqco da administra-
gqo Jatene, custando quase cinco ve-
zes a Estaqio das Docas. E acabou ir-
realizada, depois de semanas de servi-
qo sem parar, 24 horas por dia, em-
pregando cinco vezes mais gente do
que at6 entao.
Mais um simbolo de um modo de
gestao que decide por impulse, aten-
dendo a caprichos, procurando impor
sua vontade, independentemente do
custo que isso acarreta e do fim da obra.
Com o imponente Hangar Centro de
Convenq6es inconcluso, depois de ab-
sorver quase 100 milh6es de reais, R$
20 milh6es a mais do que a ponte estai-
ada sobre o rio Guami (individualmen-
te, a obra mais cara do governor Almir
Gabriel), o governor Jatene morreu na
praia. Os 7% que faltaram simboliza-
ram o dedo do gigante.
a *.-TS .L,-^-i "--- t* ^- A-


SURPRESA
Os tucanos foram completamente surpreendidos pela derrota.
Tao profundamente que s6 se deram conta da nova situalao as v6speras de
entregar o trono ao novo usuirio. E a conclusao que se chega ao final da
transigao de Jatene para Ana Jilia. Nao houve tempo para preparar
adequadamente a mudanqa de inquilinos. Foi precise se contentar cor o d6cor
na troca de faixas. Por tris do cendrio, gritos e ranger de dentes.

A
AGENCIA
As agnncias de regulaqao e control de services piblicos, criaqao do governor
Fernando Henrique Cardoso, seriam uma proveitosa novidade se fossem realmente
independents e tivessem condiq6es de se impor aos controlados. Mas elas
acabaram subordinadas ao poder executive e, como regra, se reduziram a
carimbadoras de pap6is e confirmadoras de decis6es das empresas "controladas".
E o que explica o ex-governador Simao Jatene nomear o diretor-geral da
Arcon, a agencia estadual, no 61timo dia do seu mandate, garantindo ao nomeado
manter-se no cargo at6 10 de janeiro de 2008. Para ter autonomia, a agencia devia
estar subordinada a um conselho de consumidores e contribuintes, nao ao chefe do
poder executive ou ao president do legislative. Quando muito, eles poderiam ter o
poder de veto, sujeito A avaliacao do conselho, que poderia derrubi-lo com maioria
absolute de votos contrarios.


fi JANEIRO DE 2007 I"QUINZENA Jornal Pessoal








0 debate sobre a imprensa


no f6rum dos internautas


Sempre que possivel, aproveitarei
alguns debates travados em blogs
locais, sobretudo aqueles queficam
a distdncia do interesse da grande
imprensa, mas que abordam
questoes de real interesse ptblico.
Ou que repercutem temas suscitados
nestejornal, mas interditados na
midia conventional. Reproduzo
trechos de uma das discusses
recentes no blog Quinta Emenda, de
Juvencio Arruda, que dizem respeito
diretamente ao JP e a algumas
interpretadoes feitas a respeito dele.

A n6nimo disse Soujomalista
e nao consigo entender como
um journal pode ter o titulo de
Jornal Pessoal. Se 6jomal, nao pode
e nao deve ser pessoal. Deve ser sim
impessoal. E se 6 pessoal, nao pode
serjomal. Acho que faz um ano ou mais
que encontrei cor um conceituadojor-
nalista em Sao Paulo e comeqamos a
falar do Para. La pelas tantas ele per-
guntou sobre o paradeiro do L6cio,
pois haviam trabalhado juntos em um
grande journal. Eu respond a ele que o
Lucio tocava o seu pr6priojornal. E
quando eu disse a ele o nome dojor-
nal, o sujeito ficou pasmo. Jamais ima-
ginaria, comojomalista, um jomal corn
esse nome. E creditou o desapareci-
mento do Lucio da grande imprensa
national ao seujornal pessoal. Final-
mente ele me fez uma inica pergunta:
como um leitorpode acreditar numjor-
nal cor esse nome se de said ele se
chama pessoal?
Se 6 pessoal, 6 s6 o que ele pensa
e mais nada. E se n6s pararmos pra
pensar, o L6cio ficou famoso mesmo
depois que levou uns sopapos do Ro-
naldo Maiorana. Finalmente, o L6cio
bem que poderia trocar o nome do seu
journal, para "Jornal do LGcio". Seria
mais autentico.
Juvencio Arruda Bem... Em pri-
meiro lugar voc8 nao 6 umjornalista. E


urn imbecil. E dA varias garantias disso.
Vamos aela.
1. Se d journal, ndo pode e ndo deve
serpessoal. Deve ser sim impessoal.
E se e pessoal, ndo pode serjornal.
O sofisma, de terceira categoria,
pode ser facilmente destruido por mui-
tos caminhos.Vou escolher um, o mais
simples: a hist6ria de credibilidade da
publicapqo, que comprova que se ha
pessoas diferentes de outras como ha
diferencas entire voc6 e L6cio 6 pos-
sivel have'rjomais pessoais muito mais
"jomal" que os ditos impessoais.
2. Acho que faz um ano ou mais
que encontrei corn um conceituado
jornalista em Sdo Paulo e conmea-
mos afalar do Pard. Ld pelas tantas
ele perguntou sobre o paradeiro do
Lutcio, pois haviam trabalhado jun-
tos em um grande journal.
t estranho que um "conceituado"
jomalista do Estaddo desconheca o pa-
radeiro de Llicio, que sempre escreve
no Observat6rio da Imprensa, passa-
gem de nivel obrigat6ria a qualquer con-
ceituado jornalista. LA pode ser lido o
"paradeiro" de LFP.
3. E creditou o desaparecimento
do L cio da grande imprensa nacio-
nal ao seu journal pessoal.
Com boa dose de razdo, 6 possivel
que suas escolhas tenham Ihe afastado da
grande imprensa.Qual publicaCqo "impes-
soal" iria acolher um jomalista "pessoal"?
Mas creio que suas atividades editorials e
autorais tamb6m contribuiram para seu
afastamento dosjomais didrios.
4. E se n6s pararmos pra pensar,
o Licio ficou famoso mesmo depois
que levou uns sopapos do Ronaldo
Maiorana.
De novo, aqui, voc8 mostra que nao
6jomalista e que 6 um reles mentiroso.
Quem deu os sopapos em L6cio nao
foi Ronaldo Maiorana e sim o segu-
ranca covarde que estava a seu servi-
9o. Sua tentative de atribuir a fama de
LFP ao epis6dio ilustra de forma ine-


quivoca seu carter e seus objetivos
neste comentArio.
5. Finalmente, o Ltcio beni que
poderia trocar o nome do seu jor-
nal, para "Jornal do Lucio ". Seria
mais autentico.
Se voc6 tivesse assinado seu comen-
tario cor seu verdadeiro nome se e
que algum dia voc8 sabera qual 6, ver-
dadeiramente ele nao se tomaria au-
tentico. Continuaria sendo a marca de
um pulha. Autentico.
Juvencio Arruda Aos leitores do
Quinta: permit esta p6rola de comenti-
rio para que voces possam avaliar o nf-
vel, a intengqo e a inveja que grassa en-
tre os detratores de LFP, uma corja.
Elias Tavares Grande, mestre Ju-
vencio! A fama do LFP- realmente in-
vejavel decorre, sobretudo, da quali-
dade do que ele escreve, onde quer que
escreva. A "grande imprensa" nio ter
lugar para LFP? Pior pra ela! Cor ele, a
"grande imprensa" seria maior. E melhor.
Juvencio Arruda Oli, veneravel
Elias (vai cor v minisculo para nao as-
socia-lo ao grau maq6nico). Perfeito co-
mentario, obrigado. E o poster tem, de
vez em quando, que administrar estas
chatices, por seu carter pedag6gico,
pelo que mostra a superficialidade e o
mau-caratismo dos detratores do Lu-
cio. Evidentemente o an6nimo desco-
nhece o Quinta e menospreza a inteli-
gencia de seus leitores.
Lticio FlAvio Pinto Meu caro
Juv6ncio: seu texto e o do Elias muito
me honram. Para merecer de verda-
de os conceitos que expressaram vou
ter que me esforqar muito mais. Obri-
gado pela generosidade. Para ajudar
o debate, informo:
1. O Jornal Pessoal comecou como
uma pagina dominical, que eu mandava
de Sao Paulo (onde entao morava) para
Bel6m, em A Provincia do Pard, em
1972. Nessa 6poca eu trabalhava na
grande imprensa, na qual fiquei at6 1988
CONTINUE NA PAG 8


Jornal Pessoal I0 QUINZENA JANEIRO DE 2007 7







CONTINUAAO DA PAG7
e da qual saf por opcqo (tamb6m pes-
soal). Portanto, nao hi incompatibilida-
de entrejomalismo pessoal e grande im-
prensa. Nem entire imprensa altemativa
e grande imprensa (eu trabalhava em O
Estado de S. Paulo e, ao mesmo tem-
po, escrevia em Opinido).
2. Ojomal 6 pessoal porque 6 feito
por uma dnica pessoa. Nao por egola-
tria, mas por ser o inico tamanho viavel
para mant8-lo. Uma pessoa a mais no
custo o levarda fal8ncia. O subtitulo do
JP 6 A Agenda de Ltcio Fl6vio Pin-
to, incorporando a Agenda Amaz6nica,
semanario que criei e escrevi sozinho,
pelos mesmos motives economicos -
durante dois anos. Encerrada a Agen-
da, dela a Mem6ria do Cotidiano pas-
sou para o Jornal Pessoal. Daf o sub-
titulo. Que tamb6m serve para indicar o
jornalista responsivel pela publicaqao,
exigncia da legislaiio sobre imprensa
a lei 5.250, de 1967.
3. Dois meses depois de me ter tor-
nadojomalista professional, em maio de
1966, assinei minha primeira coluna, se-
manal, em A Provincia do Pard: De
Arte, Gente, Fatos & Livros. Meujor-
nalismo, portanto, sempre comportou a
opiniao. Sempre demonstrada, basea-
da em fatos, como exige ojomalismo.
4. Eu fui agredido tanto por Ro-
naldo Maiorana quanto pelo seu se-
guranqa, sugestivamente conhecido
como "Saddam" evidencee associagio
com o violent ditador iraquiano, que
acaba de ser enforcado). Ambos fo-
ram poupados de process penal por-
que admitiram a culpa e negociaram
uma pena alternative com o represen-
tante do Minist6rio P6blico do Esta-
do, materializada (sem qualquer pos-
sibilidade de intervenqao na transaaio
por parte da vitima eu) no pagamen-
to de cestas basicas no valor de 50
salarios minimos (pelo empresario) e
um salirio minimo, pelo PM-seguran-
qa. Quando fui agredido euja estava
com 39 anos de profissao, 22 deles
na grande imprensa, sendo 17 em O
Estado de S. Paulo, no qual ganhei
tr8s Pr8mios Esso com outros profis-
sionais dojornal.
Esses os fatos e eles sao sagrados.
Em torno deles, as opini6es sao livres.


PASSADO
Minha mem6ria pode estar me traindo,
mas, se nao estiver falhando, ela me diz
que o atual coronel Luiz Claudio Ru-
ffeil, novo comandante da Policia Mili-
tar, estava entire os militares que carre-
garam o entao professor e future depu-
tado estadual Edmilson Rodrigues, a
mando do govemador H6io Gueiros, no
final da d6cada de 80, e o colocaram
para fora do Palacio Lauro Sodr6. Guei-
ros deu a ordem por achar impertinente
o comportamento de Edmilson, um dos
lideres do movimento dos professors,
durante uma audiencia na entao sede do
governor (hoje Museu do Estado). O
major Arruda (depois coronel, ji fale-
cido) comandou a operacgo e quase foi
mordido por Edmilson, que tentou re-
sistir a imobilizagao e "conducqo coer-
citiva", como diria o escrivio policial.
Alias, aguarda-se a efetivag~o da
primeira media anunciada para a Poli-
cia Militar pela govemadora: a volta aos
quart6is e as ruas de todos os PMs ce-
didos para terceiros. A soma deve che-
gar ou superar a mil, o que represent
5% de toda corporaqio. Alguns nao se
apresentam nas unidades nas quais es-
t~o lotados ha anos. Sua presenqa 6 vir-
tual. Continuam a funcionar como se-
guranqas de figures da terra. Quando
chamados a se identificar, dizem que sao
"amigos" dos ditos cujos.


CIENCIA UNIDA
O Museu Paraense Emilio Goeldi, de
Bel6m, e o Instituto Nacional de Pes-
quisas da Amaz6nia, de Manaus, inter-
ligaram no mes passado, em tempo real,
seus sistemas e bancos de dados cienti-
ficos. t uma iniciativa inteligente e efi-
caz, que j devia ser tomada ha muito
tempo. Essa base comum vai tender, a
partir de agora, as demands de cada
instituiq~o, maximizando beneficios, re-
duzindo tempo e economizando recur-
sos. Sera garantida a integridade e a
replicacgo automatica dos dados pro-
duzidos pelas duas instituiq6es, sem so-
lugqo de continuidade quando alguma
delas apresentar falha de comunicaqco.
Este 6 um pass important para che-
gar a um resultado ainda mais amplo: a


programaqao conjunta Inpa/Goeldi, in-
tegrada, harmoniosa e complementary, o
primeiro comjurisdicao sobre a Amaz6-
nia Ocidental e o segundo sobre a parte
oriental. A ci6ncia podern atuar em con-
junto em toda regiao, sem prejuizo de sua
diversidade e especificidade. Pode ser
que assim d8 mais um salto, passando
da retaguarda para a vanguard das
ages humans na fronteira amaz6nica.


ATENAAO
Devia-se iniciar uma campanha em fa-
vor da credibilidade da informaqao for-
necida ao pdblico, sobretudo pelo go-
verno. Podia comecar com uma revi-
sdo dos nmmeros dos telefones e ende-
regos dos 6rgaos estaduais indicados no
Didrio Oficial, na maioria dos casos com
erros. Devia continuar por impor aos
servidores pdblicos como uma de suas
obrigaqoes essenciais a de tender ao
telefone (norma que podia ser estendi-
da as redaqces da imprensa, com 8nfa-
se sobre os rep6rteres que fogem do
risco da noticia). E podia atingir as lis-
tas telefonicas, que mais desinformam e
irritam, dentre outros motives porque
ignoram quem ndo 6 anunciante ou se
recusam a ceder a qualquer das exigen-
cias feitas para faturamento.
O distinto pdblico agradeceria a
atenqgo.

DEFINIAO

Nove anos depois que a aqo popular
contra o "conv8nio" entire a Funtelpa e
a TV Liberal foi ajuizada no f6rum de
Bel6m, o representante do Minist6rio
Piblico p6de se manifestar no proces-
so. O parecer do promoter Nelson Me-
drado foi contrario a anomalia legal,
conforme se esperava. Mas como a tra-
mitaqgo do feito tem sido em ritmo de
preguiqa, a boa novidade pode nao sig-
nificae que logo a questao sera defini-
da. O governor do Estado podia, entre-
tanto, acertar com o autor popular, que
no moment 6 o soci6logo Domingos
ConceiqCo (porque o deputado Vic Pi-
res Franco desistiu de sua iniciativa),
anular o "conv8nio", pondo fim a de-
manda, cujo fim, embora demorado, 6
previsivel: o acatamento do pedido.


8 JANEIRO DE 2007 I/QUINZENA Jornal Pessoal







MIRAGEM
O ent~o govemador Simio Jatene garan-
tiu aos integrantes do corpo consular de
Bel6m, reunidos em festa de confraterni-
zacqo no Manjar das Garqas, que quatro
dias depois inauguraria o Centro de Con-
ven6es do Estado em perfeitas condic6es
de funcionamento. Trls mil luxuosos con-
vites foram expedidos para o ato. No ca-
demo de propaganda que mandou encar-
tar em O Liberal do iltimo dia do ano,
Jatene afirmou, na mensagem de abertu-
ra, que o Hangar surgia "como simbolo
de compromisso com o novo pensar pa-
raense e marca da capacidade de superar
desafios da nossa gente".
A surpresa manifestada pelo govema-
dor ao chegar ao local e encontrar uma
obra inconclusa, obrigando-o a transfor-
mar a festa de inauguracio num constran-
gido ato de prestaqio de contas, diz mui-
to sobre a capacidade de sua administra-
qio de saber o que realmente acontecia e
de planejar o que seria capaz de fazer. O
govemo acreditou na fantasia que criou.


ONIBUS
Hi uma onda ameacando o mais carente
e desprotegido dos cidadaos urbanos: a
dos aumentos dos 6nibus. Em Marabi e
em Santar6m a ameaca ji se concreti-
zou. Em Bel!m, ela se apresenta para
chegar ao patamar comum: a tarifa de R$
1,70. Os donos de 6nibus argumentam
que sem o reajuste irio quebrar. Os usu-
irios retrucam que o peso do transport
coletivo no orgamento dom6stico vai se
tomar insuportivel.
Qualquer que venha a ser a decision
official a respeito (espera-se que atenda
aos parametros do interesse pdblico),jqi 6
hora de o govemo do Estado criar urma
instancia official para se transformar em
f6rum do transport urban no Pard. A
jurisdiqio da question 6 municipal, mas as
prefeituras nio podem mais tratar de um
problema tio vital sem a menor sintonia,
ignorando-se mutuamente. E o Estado a
fazer de conta que nada tem a ver.
Esse f6rum iri permitir cruzar infor-
maq6es e trocar experiEncias, estabele-
cendo uma diretriz goveramental sobre
mat6ria que toca tio diretamente a vida
da esmagadora maioria dos cidadaos.


Belem: como sair da cruise?


Todas as capitals de Estados daAma-
z6nia registraram aumento de participa-
cgo no Produto Intero do Brasil entire
1999 e 2004, segundo dados divulga-
dos no mes passado pelo IBGE. A inica
exceqgo foi Bel6m. O maior ganho per-
centual foi o de Manaus, com 0,4%. A
capital amazonense tamb6m teve o me-
lhor desempenho national. No ultimo
perfodo avaliado, entire 2003 e 2004, o
maior ganho de riqueza no Pari aconte-
ceu em Barcarena (mais 3,5%), em vir-
tude das expanses nas ind6strias meta-
lirgica e quimica daAlbrfs e daAlunor-
te. O segundo maior incremento,
de 2,5%, foi em Tucuruf, que
abriga a segunda maior hi-
drel6trica do pais. Eo ter-
ceiro melhor desempe-
nho foi o de Marabi
(1,4%), em funcio da
sidemrgia (produ~ o de
ferro-gusa), da indds-
tria alimentar e de be-
bidas. Mais de 200 mi-
lh6es de reais estUo
sendo investidos na
ampliaqio da produgqo de gusa e em no-
vos frigorfficos em Marabi, onde a cota-
parte do ICMS, crescendo 125%, j'
supera os repasses do Fundo de Partici-
paaio dos municipios, que 6 federal.
Entre 1999 e 2004, Manaus apre-
sentou o maior ganho na participacqo
percentual entire as capitals (0,4%), en-
quanto Sio Paulo, apesar de possuir o
maior PIB desse grupo, teve a maior
perda (-2,5%). Enquanto as capitals das
regi6es Sudeste, Sul e Centro-Oeste
(exceto Brasilia) perderam participacio,
as da regiao Norte, cor exceqio de
Bel6m, ganharam.
Em Rond6nia, Tocantins e Parafba,
as capitals aumentaram sua participaaio
relative no PIB estadual, em detrimento
dos demais municipios. No outro extre-
mo, no Para, Rio Grande do Norte, Rio
de Janeiro e Santa Catarina, os munici-
pios fora dos grandes centros urbanos
ganharam mais espaqo. Em 2004, quase
metade do PIB do pafs estava fora do
entorno dos grandes centros urbanos.


No period de 1999 a 2004, essa par-
ticipaqio cresceu 3,4%.
Tal desconcentraqgo tem seu aspect
positive, distribuindo melhor os efeitos da
atividade econ6mica. Mas para Bel6m
imp6e anecessidade de compensar o nfti-
do esvaziamento. Se demograficamente
a capital responded por um quarto da po-
puladio do Estado, economicamente sua
participagiojd cai abaixo de 20% e deve
continuar nessa tendencia. Se a mudan-
qa nessa matriz 6 necessaria, 6 precise
tamb6m redefinir a posiq~o de Bel6m no
conjunto estadual. Os govemos munici-
pais nio apresentaram at6
agora nenhuma perspective
nesse sentido.
Mal comeqa um novo
govero, j' esti nas ruas a
primeira especulaqao sobre
inomes possiveis para a suces-
S io de Duciomar Costa. Nomes,
ao que parece, nio faltario para a
dispute. Mas e programs? Hi muito
tempo os pretendentes A prefeitura se
restringem a compor um conjunto de
obras de maior ou menor custo, maior
ou menos repercussio, sem uma visio
de conjunto sobre o municfpio nem uma
intencio prospective, de long prazo.
Independentemente dos candidates
que se consolidarem na corrida para a
qual ja esti sendo dada a largada, con-
vido meus leitores para um brainstor-
ming sobre Beldm. Gostaria que os lei-
tores apresentassem reflexes, id6ias.
sugest6es e mesmo projetos para com-
por uma verdadeira plataforma de trans-
formnaces para Bel6m. Nao precisam
ser propostas prontas e acabadas, mas
deve-se aplicar o miximo de empenho
nas formulacqes. Elas devem ter uma
boa base de informag6es, sem se esgo-
tar num diagn6stico. Talvez se conse-
guirmos construir um program, por de-
rivagqo chegaremos a um bom candi-
dato, invertendo o process, que, no
mais das vezes, result em frustraqio.
Quem sabe ndao conseguiremos ajustar
o nome ao conteddo?
Pode-se, pelo menos, tentar. Toma-
ra que os leitores tentem.


Jornal Pessoal I' QUINZENA JANEIRO DE 2007 9









MEMORIAL DO COTIDIANO
*7._ '- .. .--, ... .' .. .. ..


Belem
Em janeiro de 1958 o Arqui-
vo P6blico do Pard colocou
em exposiqdo c6pia de uma
carta do capitdo Andr6 Pe-
reira, datada de 4 de setem-
bro de 1616, com a primeira
refer8ncia A data da funda-
qdo de Bel6m, em 12 de ja-
neiro do mesmo ano. O do-
cumento, obtido na Bibliote-
ca Nacional de Madri pelo
historiador Ernesto Cruz, que


era director do Arquivo, aca-
bou com a d6vida sobre esse
atW entdo controversy deta-
Ihe da hist6ria da cidade, que
agora comemora 391 anos de
existencia.

Futuro
Em 1962 o paulista Paulo
Quartim Barbosa, pecuaris-
ta e director da inddstria de
autom6veis Willys Overland
do Brasil, comprou 70 mil al-


PROPAGANDA
Telefones em expansion
Com financiamento do BNDE (que ainda ndo
incorporara o S de um quimerico social), a Companhia
de Telefones do Municipio de Belem (Cotembel)
esburacava a cidade para a primeira grande expansdo
da linha de telefones na cidade, em 1969. 0 investimento
compensava e muito: era um autintico garimpo, tal o
valor de uma linha.




Nestes buracos

enterramos milhoes

de cruzeiros.












Vboc acha que iamos gastar
todo esse dinheiro s6 para incomodar?
Os buracos incomodam, mas trabalham
para voce, para a ddade.

Estamos cocando os fios do seu telefon.

U COTEMBEL Zmm.O So. 0 Mp(
U "aq ia o s d o llfc a cb ea U n i d p o d o O W N w w o uLi


queires (280 mil hectares) de
terras na divisa do Pard corn
o Mato Grosso. Em 1966
veio a Bel6m pedir o apoio
das autoridades para suas
atividades pioneiras. Forma-
ra 200 alqueires (800 hecta-
res) de past cor capim co-
lonido, no qual pretendia cri-
ar gado Nelore e Santa Ger-
trudes, instalou uma serraria
e ia abrir uma pista de pou-
so. Disse que as terras do
Estado eram excelentes tan-
to para a pecuaria quanto
para a exploragqo de min&-
rios, "que ali existem em
abundfncia". Ali estava o
future do Brasil, garantiu. O
que restou desse future? O
berro do boi?

Igreja
A agenda do arcebispo me-
tropolitano de Bel6m em dois
dias de agosto de 1964, me-
nos de cinco meses depois do
golpe military que mudou o
governor, era bastante repre-
sentativa da 6poca. No dia 25
dom Alberto Ramos recebeu
no Paqo Arquidiocesano
(atual Museu de Arte Sacra)
os chefes militares e os ofi-
ciais que haviam participado
do Dia do Soldado, momen-
tos antes, e decidiram cum-
primentar o artistite.
Registrou o arcebispo em
sua coluna: "Perto de 30 ofi-
ciais estiveram no velho pa-
licio de dom Macedo Cos-
ta, apreciaram a ExposiqIo
Vocacional, e depois se reu-
niram na sala do trono. O
official mais graduado, briga-
deiro Armando Serra de
Menezes, saudou o sr. Arce-
bispo, em brilhante improvi-
so. Dom Alberto agradeceu
relembrando o local hist6ri-
co donde dom Romualdo
Coelho salvou a cidade de
Bel6m, aconselhando os Ca-
banos a evitarem o incendio
e o saque, donde dom Ma-
cedo Costa partiu aprisiona-
do para o Arsenal de Mari-


nha e mostrou a bandeira que
os Voluntirios Paraenses
trouxeram da Guerra do Pa-
raguai e confiaram a guard
do Cabido de Belem".
No dia 26, na Casa do Ta-
bor, em Icoaraci, dom Alber-
to foi o anfitrido da III Reu-
nido Geral dos Prelados da
Amaz6nia, que contaria corn
a assessoria de um padre en-
viado pela CNBB e de uma
integrante da Comissio Cen-
tral do Movimento de Edu-
caqio de Base, o MEB, em
relaqdo ao qual os militares
guardavam desconfianqas.
O soci6logo Amilcar Tupias-
su, que tamb6m nio era bem
visto na 6poca, faria uma ex-
posicqo sobre a realidade
amaz6nica.

Teatro
A temporada de teatro de
1966 em Bel6m prometia.
"Hdcuba", a peca clissica
de Euripedes, seria apresen-
tada, sob a diredio de Ro-
drigo Santiago. Pela primei-
ra vez uma peca de Monte-
verdi seria encenada no Bra-
sil: "Ligrimas doAmante no
Sepulcro da Amada", tendo
a frente Marbo Giannacci-
ni. Haveria ainda peas me-
nores: "Quarto de Emprega-
da" e "Sarapalha". Para dar
conta de tantos espeticulos,
os alunos da primeira turma
da Escola de Teatro da Uni-
versidade Federal do Para.
formados no ano anterior, e
os que ainda a estavam cur-
sando. Tanta e tio qualifi-
cada atividade justificava a
vinda de celebridades das
artes c8nicas, como Sarah
Feres, uma das mais cre-
denciadas cen6grafas do
pais, responsivel pelos
grandes cendrios montados
no Teatro da Paz.
A onda de atividade e in-
teresse foi li no alto, caiu e
depois desapareceu. Talvez
nunca mais tenha voltado a
ficar tlo elevada.


10 JANEIRO DE 2007 I"QUINZENA Jornal Pessoal














































Justiga
De uma s6 vez, em 1966, 32
advogadas foram nomeadas
pelo governor para ocupar 32
pretorias no interior do Es-
tado, cargos que dispensa-
vam concurso p6blico. Corn
isso, o Pard se tornou o Es-
tado brasileiro a empregar
maior nimero de mulheres
nos altos postos da magistra-
tura. Posiq~o que mant6m
at6 hoje.


Igual
"Quanto aos recursos, pare-
ce-me indispensivel repetir
constantemente ao povo e
seus representantes que se-
jam quais forem os esforqos
para melhorar a receita e
comprimir a despesa, pou-
co poderemos fazer, corn
grandeza e durabilidade,
apenas com os nossos pr6-
prios meios". Da primeira
mensagem do governador
Alacid Nunes a Assembl6ia
Legislative,
emjulhode
1966.

Imprensa
A Folha
do Norte
ainda se anun-
ciava como "o
matutino de mai-
or circulaqlo
no Norte do
Pais" quan-
do, em ja-
neiro de


FOTOGRAFIA

TV papa-chibe
Que tal o modelinho do Coldgio Moderno em 1966? Foi
cor esse uniform que a equipe de tres alunos saiu-se
vencedora na 13" rodada do Campeonato Colegial que a
TV Marajoara, Canal 2, promovia, coin o patrocinio de
GuaraSuco, o guarand que estava em todas. A turma do
Coldgio Magalhdes Barata tambdm venceu. Os
perdedores foram o Souza Franco e o Santa Rosa, que
nao conseguiram responder satisfatoriamente as
perguntas da mestra de cerimonia, assistida pelo
apresentador do program, o boa praga Adwaldo
Castro, jd falecido. 0 program, realizado "ao vivo",
tinha grande audiencia. E muita torcida. Ndo resistiu a
avalanche das redes nacionais e suas fornadas de
programs.


1971, contratou Fernando
Augusto Pinto como seu se-
cretirio, uma fonte de poder
apreciivel na 6poca. Com
experiencia de 21 anos na
imprensa brasileira, Fernan-
do assumiu o cargo prome-
tendo "imprimir uma nova di-
mensdo" A Folha, que cin-
co anos antes ficara sem seu


comandante, Paulo Mara-
nhao. Mas em 1974 a Fo-
lha, jd em franca decaden-
cia, foi comprada por Romu-
lo Maiorana, que ocupou o
legendirio pr6dio, nele insta-
lou O Liberal e tirou o con-
corrente de circulaqio. E
assim a roda da hist6ria esti
sempre a girar.


Jornal Pessoal 1 QUINZENA JANEIRO DE 2007 I 4






A
AMBIVALENCIA

O Didrio do Pard e 0
Liberal estdo numa nova
temporada de guerra. A dis-
puta 6 tanto pelo mercado
quanto por um lugar no go-
verno de Ana Jdlia Carepa.
Os Maiorana, depois de
tudo fazer pela vit6ria de Al-
mir Gabriel, agora adotam
uma tatica de morder e as-
soprar: uma critical a nova
administraqco (como mat6ri-
as seguidas anunciando que
tudo continuari na mesma em
matdria de political fiscal e tri-
butaria) 6 seguida pelo culto
a personalidade da nova man-
datiria estadual, cor fotos e
mais fotos nas colunas soci-
ais e adjacencias. O grupo
Liberal manobra a chibata
com uma m5o e com a outra
acaricia cor luva de veludo.
O Didrio fustiga a heran-
Ca maldita do govemo Jate-
ne e a associa aos seus alia-
dos da imprensa, que doura-
ram a pilula at6 a und6cima
hora, enquanto relembra os
compromissos de mudanqa
da candidate eleita, mostran-
do como sao incompativeis
cor a conciliaqao com os
adversarios da v6spera.
Ana Jdlia evita se definir,
mandando sinais ora em fa-
vor de uma interpretaqao
combative dada a sua postu-
ra, ora a um entendimento
conciliador. Esta se equili-
brando numa faca s6 lmnina.
Enquanto isso, faz consultas
quase diArias ao deputado fe-
deral Jader Barbalho, seu
maior aliado politico, como
se ele ndo fosse tamb6m o
dono do grupo RBA.




Editor: LOcio Fldvio Pinto
Edli;o de Arte: L. A. de Farla Pinto
Contalo: Tv.Benjamin Constant
845/203/66.053-040
Fones: (091) 3241-7626
E-mail: journal amazon .com.br


Amazonia global: o glamour na TV,


ff


Novo livro
Ja esti nas bancas e livrarias meu livro mais recent, O Jornalismo
na Linha de Tiro. Tem um pouco do primeiro volume, o prometido
segundo volume e alguns acr6scimos e atualiza96es. Apesar de
volumoso, com mais de 500 pdginas, custa apenas 30 reais, o mesmo
prego do anterior, com 300 pginas.Entre os documents que
introduzi agora esta a carta que escrevi a Romulo Maiorana quando
do nosso rompimento, em 1986, e a H6lio Gueiros, antes e depois de
ele ser governador do Pard (1987-1991).


I


Amaz6nia De Galvez a Chico Men-
des podia nao ser mais uma incurs2o do Sul
ao Norte, na qual, invariavelmente, este se
torna mat6ria prima para a modelagem da-
quele. Anovelista Gl6ria Perez, autorada mais
nova mini-s6rie da TV Globo, em plena exi-
bicao, 6 acreana de nascimento. Logo, nao
esta descobrindo a p6lvora nem inventando
a roda. Ao contrario, seu texto defended uma
tese, conforme ela a expressou em entrevista
a Paula Loredello, para O Liberal.
"A conquista do Acre explica porque a
Amazonia nao deixou de ser brasileiraja no
micio do s6culo XX. Certamente o mapa do
Brasil seria diferente, e o da Bolivia tamb6m,
se o Bolivian Syndicate (cons6rcio interna-
cional criado pela Bolivia para administrar o
Acre) tivesse se estabelecido li, cor direito
de explorer a regiao economicamente por
30 anos e de manter tropas regulars ali".
Se o que a ficcionista conjecture tivesse
se consumado, o Acre nao seria brasileiro:
continuaria a ser boliviano. Jarbas Passari-
nho faria seus discursos em castelhano e Jos6
Vasconcelos apresentaria suas bromas. Este
seria um fato O sindicato international se
apossaria tamb6m de territ6rio brasileiro?
Esta seria uma hip6tese, mas pouco prova-
vel. Nao havia uma naqao por tras desses
aventureiros estrangeiros, ao menos cor dis-
posiq~o para entrar na cena.
Os pioneiros do Brasil 6 que se impuse-
ram a forqa regular da Bolivia. Mas o litigio
s6 nao se prolongou mais porque o Barao
do Rio Branco encontrou uma soluqao ins-
tantfnea e incruenta: comprou o territ6rio bo-
liviano, transformando-o no Acre, ainda o
Estado menos integrado do pais e o mais
pobre da Amaz6nia (a relaao, por6m, nao
6 necessariamente de causa e efeito).
Ainda que a Bolivia tivesse mantido sua
soberania sobre essa regiao e os especula-
dores estrangeiros avancassem alnm-fron-
teira. em nenhum moment a AmazOnia po-


deria deixar de ser -
brasileira. Duas d6ca-
das depois nosso go-
verno concede um
milhao de hectares no
vale do Tapaj6s a Hen-
ry Ford, que devolveu a
concessdo em menos de 20 anos de ten
tativa de implantar a heveicultura, sem fi
car cor um pedaqo sequer de terra. Mai!
20 anos e outro americano, Daniel Ludwig
comprou uma area maior (pensava que ti
nha 3,6 milhoes de hectares), no Jari. Fra
cassou e se foi 14 anos depois. Ford e Lu
dwig tinham interesses econ8micos ape
nas. Ndo trouxeram consigo mariners ot
a CIA. Se ganharam mais do que devian
ou abusaram, a principal responsabilidad
6 do governor brasileiro.
Nossa Amaz6nia, evidentemente, atra
cobiqa e provoca apetites. Ontem e hoje
Mas a sua manutenqgo integra e brasileira
em pacifica convivencia com suas demai;
fraqOes continentais, por tanto tempo e
despeito de sua fragilidade, revela que
ameaa estrangeira sempre foi latente, mas j
nunca se tomou explosive. Os portugueses,
que mantiveram o control do pais por gran-
de parte da sua hist6ria de matriz europeia,
com mais intensidade na Amaz6nia do que
em qualquer outra parte do territ6rio naci-
onal (somos o Brasil tardio), foram eximios
guerreiros e estrategistas de mio cheia. Sua
predominincia colonial, por6m, tamb6m se
explica pela visdo dos seus competidores i
em potential. Mais sofisticados, ou, talvez,
mais bem informados e atualizados, eles
adotaram outra forma de abordagem. Ou
adiaram para quando desse bom tempo.
O nosso tempo de hole.
A declaraao de Gl6ria Perez 6
ret6rica. Atrai glamour. mas naio a
verdade. E o padroo T\' Globo.
rnais uma \ez.