Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00304


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Full Text






ornal Pessoal
A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO
OUTUBRO DE 2006 2aQUINZENA N= 378 ANO XX R$ 3,00


DIAS ESTAO 0 OrJ [ A D I S
PARA GRUPO L. IBEEA ?
PAGINA9
CVRD: A GIGANTE
COM PES DE UrA O
PAGINA /7


ELEICAO



Ana J6lia ganhou. E dai?

Chega ao fim o reinado de 12 anos dos tucanos no governor do Para. 0 povo preferiu a
mudanca, ainda que nao saiba em que ela consiste e como fazer para alcanpd-la. Provavelmente
nem a candidate vitoriosa sabe. 0 governor do Estado, fora da realidade local, se tornou um
poder decorative diante de tantos desafios graves que o Para dos nossos dias impoe.


Ana Jilia Carepa, do PT,
nao se mostrou qualificada
a comandar a mudanqa no
Estado, pelo qual se elegeu, cor qua-
se 55% dos votos vilidos no 2 turno.
Para os observadores mais atentos da
campanha, ficou a impressao de que a
senadora nem sabe exatamente por
que a mudanqa 6 necessaria nem como
faze-la. Ela foi a vencedora, a despei-
to de sua fraqueza, gragas a virias


circunstancias, que independeram dos
seus m6ritos, todos components se-
cundirios na personalidade de quem
passa a ter diante de si tantos desafi-
os: a simpatia, o carisma, a energia;
mas n.o a profundidade, o conheci-
mento de causa, o discernimento, a
capacidade de mando.
Al6m de se beneficiary do efeito po-
sitivo do populismo de novo tipo de
Lula (que obt6m dividends politicos
pela via indireta dos resultados econ6-


micos), enfatizados nas regi6es menos
desenvolvidas e entire a populacgo mais
pobre, Ana Julia foi favorecido por um
lance de sagacidade do seu principal
aliado, o deputado federal Jader Bar-
balho, do PMDB, e pelos erros do
PSDB, um partido sem vertebra deci-
s6ria, que se submeteu a auto-escolha
daquele que por primeiro deu um mur-
ro na mesa para assegurar sua vontade:
o ex-governadorAlmir Gabriel.
CONTINUE NA PAG2


- 15c~-







CONTINUAqAO DACAPA
A campanha eleitoral tambdm reve-
lou, para surpresa de muitos, que Almir
voltou do seu retire voluntirio desatua-
lizado, sem um program adequado ao
Para dos nossos dias. Se era simples-
mente para dar continuidade ao "novo
Pard", que seu successor vinha execu-
tando, complementando-o cor pitadas
do populismo, derivado das transferen-
cias de renda realizadas mais intensa-
mente pelo govemo Lula atrav6s de ini-
ciativas como o Bolsa Familia (Almir
prometeu mais uma s6rie de bolsas),
entio a tentative do in6dito terceiro
mandate como governador, pelo voto
direto, nio passava de capricho pesso-
al por parte de uma pessoa cor vaida-
de sem limited.
Se Simio Jatene tentasse a reelei-
qgo, o resultado provavelmente seria fa-
vor6vel ao PSDB, que podia ainda ele-
ger Almir para o Senado e encontrar uma
boa posi~go para Mirio Couto, que
emerge da derrota como um dos mais
qualificados pretendentes ao governor
entire os tucanos daqui a quatro anos (o
que da ura media da qualidade da
political paraense).
Mas saindo corn um candidate ex-
posto a contradiq6es, o flanco de Almir
Gabriel foi explorado espertamente por
Jader Barbalho. Ele foi diretamente ao
Palacio do Planalto montar uma estra-
tdgia cor o president Lula. Jos6 Pri-
ante sacrificaria uma reeleicqo certa
para a Camara Federal, a ser compen-
sada no future (provavelmente comju-
ros e correqgo monetiria), para tirar do
PSDB os votos que Ihe dariam a vit6ria
j.i no 1 turno. Estaria garantida a reali-
zacao do 2 turno, quando o favoritis-
mo tucano podia ser revertido com uma
frente unida contra o prosseguimento de
uma hegemonia de 12 anos.
O acordo em torno desse piano foi
selado em Brasilia, tendo como condi-
aio a substituiq5o de Mario Cardoso
(deslocado para o Senado) por Ana
Juilia Carepa, que Jader considerou
muito melhor no voto.
A senadora nao restou a altemativa de
negar a intimacio, que, em outra circuns-
tincia, podia recusar. Sua vulnerabilidade
era 6bvia: depois de pular de mandate em
mandate, completando apenas um dos
varios que o eleitor Ihe conferiu, ela niao
tinha nenhum trunfo que pudesse qualifi-
cA-la para um cargo administrative ou
consistencia para enfrentar um debate


mais exigente. Aretaguarda peemedebis-
ta, corn o aval de Lula, entretanto, supriria
essa deficiencia grave.
A candidatura de Priante surpreen-
deu a todos, embora os almiristas con-
tinuassem a subestiml-la. Os n6imeros
do 1 turno mostraram que, sem ela,
mesmo Almir Gabriel teria decidido logo
a dispute. Para o 2 turno, a transferen-
cia desses votos foi fatal para os tuca-
nos: a diferenca entire Ana Jdlia e Almir,
de 300 mil votos, correspondeu exata-
mente a votaio de Jader para deputa-
do federal, a maior do PMDB em todo
pais e a segunda, proporcionalmente,
entire todos os candidates 5 Cimara.
A sombra, como 6 o seu estilo atual,
o ex-senador foi tio cumprimentado e
festejado quanto a vencedora a frente
dos holofotes. Os tucanos bateram in-
sistentemente nessa tecla durante toda
a campanha, acreditando que o efeito
seria devasta-
dor para os pe- .
tistas, flagrados .. .
numa aliana
espiria e num
ato lesivo aos .
interesses do
Estado.
O eleitor nio
partilhou essa
convic`io. Pa-
rece ter repeti-
do o recado da
eleicqo anterior:
quer que o ex-
governador fi-
que a distancia
do control do governor estadual, onde
sua presenqa 6 majoritariamente consi-
derada nociva, mas nao quer arquivi-lo
como seu representante politico. Num
Estado tao carente de lideres e anmrico
de liderangas de expresso national, Ja-
der 6 uma excecio. Ainda que seja caro
o preqo de mant6-lo em atividade.
O ex-ministro retribuiu a essa leni-
encia popular fazendo a penit8ncia que
cabe a um politico professional no am-
bito da democracia brasileira: conce-
beu e executou um estratagema eleito-
ral eficaz, ressurgindo das cinzas, nas
quais se ter mantido desde que esca-
pou, pelas portas dos funds do Se-
nado, a puniqao que o aguardava (e
apressadamente sepultado pelo seu
maior inimigo, ojornal O Liberal. Sem
ele, certamente os tucanos j d estariam
se preparando para comecar o 13 ano


seguido no control do governor do
Estado, cor perspective de chegar a
16 ou a 20 anos, como nenhum grupo
politico foi capaz no Pard.
Mas o que 6 o almirismo, ou oja-
tenismo, ou mesmo o barbalhismo,
senio respostas organizadas aos mias-
mas do Para, acomodaq6es a sua pa-
togenia colonial? Essa 6 a fauna acom-
panhante da realidade, uma realidade
extremamente complex, que dela tira
proveito, que a ela serve de cenirio,
moldura ou biombo, sem poder criador,
transformador ou mesmo de compre-
ensio. Quem confrontar a pauta desen-
volvida em tr8s meses de campanha elei-
toral cor a agenda real do Par5 nesse
period verificarA, sem muito esforco,
o descompasso entire elas.
Enquanto Ana Jilia Carepa e Almir
Gabriel tricotavam quinquilharias e abo-
brinhas, em debates melanc6licos,
exasperantes e
J- desanimadores,
-, dividindo dados
s incorretos e inter-
pretaq6es distorci-
das, no final da
campanha, Roger
Agnelli, president
da CVRD, a em-
presa que respon-
de por 70% do
comercio exterior
do Pari e fatura
muito mais do que
o Estado no qual
atua, fazia um lan-
ce de compra no
Canada em valor equivalent a duas
vezes o PIB do Estado, tendo como
base material para esse neg6cio, o mai-
or j feito por uma corporacio priva-
da latino-americana, duasjazidas de ni-
quel do subsolo paraense.
Nenhuma palavra a respeito foi dita
pelos candidates. Nada de aproveiti-
vel sobre algumas das pendencias e im-
passes que realmente podem decidir o
present e o future do Estado. E nada
que pudesse ser levado em conta pelos
atores que realmente participam dessas
decis6es. Assim, ndo import quem es-
teja no comando do governor do Pard
se seu mando nio se estende al6m des-
se cubiculo a que se restringe a admi-
nistraqio estadual, incapaz de se expor
li fora, onde pulsa a vida real.
O poder, no Para, 6 uma miragem.
E como d6i na parede.


2 OUTUBRO DE 2006 *2'QUINZENA JornAl Pesso.lJ









0 fim de Almir Gabriel: um castigo merecido?


Quatro anos atris, Almir Gabriel anun-
ciou seu candidate a pr6pria sucessao.
Depois de oito anos seguidos como go-
vernador do Para, um feito que o institu-
to da reeleigao Ihe conferiu (e do qual
nenhum outro chefe do poder executive
p6de usufruir), escolhia um nome do pei-
to, de absolute confianqa pessoal: seria
seu principal secretirio e auxiliary, o eco-
nomista Sim5o Jatene, o ide6logo do tu-
canato paraense.
Nessa 6poca, em meados de 2002, o
governor garantia que seus indices de
aprovagao popular estavam pr6ximos de
90%. Almir Gabriel confiava em poder
transferir de 30% a 40% de sua popula-
ridade para o seu candidate e assim ele-
ge-lo, ainda que eleitoralmente falando
o simpitico Simio Jatene fosse entao
pouco mais do que um poste.
Em entrevista ao program Sem Cen-
sura, da TV Cultura, que escolheu para
fazer o antincio do novo principle, e re-
produzida no journal O Paraense, criado
para apoiar o herdeiro, Almir proclamou,
corn todas as letras superlativas:
"Eu tive quase um milhio de votos.
Nunca nenhuma pessoa teve no Pard
tantos votos como eu tive. Eu consider
da minha responsabilidade poder coman-
dar o process sucess6rio do Estado do
Pari. Por um lado por causa dessa auto-
ridade moral e autoridade politico-admi-
nistrativa, e, por outro lado, pela autori-
dade political. Eu tive o maior ndmero de
votos que qualquer pessoa teve neste
Estado. Eu consider que o piano do Es-
tado 6 para ser levado adiante, o plano
ao qual eu estou umbilicalmente ligado,
para o bem da nossa genee.
E acrescentou, fulminante, a partir do
trono do executive, encantado pela con-
jugagio do verbo poder na primeira pes-
soa do singular:
"Foram quatro vit6rias, duas vit6rias
para o governor do Estado e duas vit6rias
nas campanhas municipals. N6s ganha-
mos na maioria das prefeituras nas cam-
panhas municipals. Hoje n6s estamos corn
118 municipios dentro da Unioo pelo Pari.
Ganhei a primeira e a segunda dispute
pelo governor do Estado em 1994 e 1998
e vamos ter a quinta que vai ser a do
final deste ano. Eu consider impor-
tante que eu prossiga, exatamente por-
que a minha visao 6 que este Estado pre-
cisa continual no mesmo projeto. N.o 6
ter continuismo, 6 ter continuidade de
projeto, principalmente na drea da pro-
duqio. N6s s6 vamos melhorar a renda,
a quantidade de emprego, o acesso das
pessoas a um patamar melhor de vida na
media em que soubermos aproveitar


Jorn1al Pessoal 2 QUINZENA OUTUBRO DE 2006


melhor nossos bens naturais, nossa ter-
ra, nossa chuva, nosso sol, nossos meios
de transport. Por isso, a producao me
parece que e a mais significativa e a mais
important de todas as ages. Nao que-
ro dizer que abandon o social, nao que-
ro dizer cor isso que abandon a infra-
estrutura, mas a produiao tern que ser o
carro puxador do conjunto".
Entregue a tdbua das leis e sufici-
entemente assinalado quem a conce-
beu e cunhou, passou o cetro ao su-
cessor, embora nio pela via da decisao
rdpida, no 1 turno, como pretendia. Foi
precise sofrer at6 o 2 turno, mesmo
diante de uma candidate de pouca ex-
pressao, como a atual prefeita de San-
tar6m, Maria do Carmo Martins. Os
atropelos, por6m, foram transferidos
aos ombros largos do candidate afi-
nal, eleitoralmente, um poste.
O ex-governador acabou nao dedi-
cando mais do que uns pares de dias ao
que seria a sua dedicaqio durante o 6cio
cor dignidade. O orquidfrio do Coquei-
ro n~o tinha a feiaio de uma Colombey-
les-deux-Eglises, a residencia campestre
na qual outro personagem hist6rico, o ge-
neral Charles de Gaulle, se isolou depois
de destronado do poder na Franga, ape-
sar de sua aura de her6i da Segunda
Guerra Mundial.
Almir nio esperou pelo chamado dos
paraenses para recolocar-se no ringue
politico: a reaproximagio de Simio Ja-
tene a Jader Barbalho, ao qual servira
durante seis anos, entire o governor do
Estado, o Minist6rio da Reforma Agrd-
ria e a pasta da Previdencia Social, o
colocou em alerta. Deixou de lado as
orquideas mal cuidadas e foi tratar da
horta do poder.
Como aqueles personagens que s6
veem perspective de future apagando os
rastros do passado, muitos deles enlame-
ados, o doutor Almir execrou o pass
dado por seu pupilo, restabelecendo a
ponte para o carcomido, o ign6bil, o ho-
mem maculado, mas sem o qual um poli-
tico destituido de magnetismo popular -
como Almir -jamais teria dado, cor seus
pr6prios p6s, os passes que o levaram ao
cargo piblico mais alto, qualquer que seja
o m6rito dessa trajet6ria.
No circulo mais intimo dos almiris-
tas, Simio Jatene passou a ser tratado
como o r6probo, o traidor. Essas ondas
reprovadoras chegaram ao Palacio dos
Despachos e o governador se submeteu
a elas, desfazendo o caminho percorri-
do. Cor isso, Simio Jatene comegou a
recuar tamb6m no intent que parecia
6bvio diante da exist&ncia dessa aberra-


iao republican recent no Brasil: a ree-
leiqao.
Aos poucos o seu antecessor consti-
tuiu um autentico governor paralelo, apro-
veitando-se ainda de duas caracteristicas
de Jatene: a inaptidio para a prdtica de
alguns dos ritos do poder, sobretudo o
atendimento pessoal aos parceiros e vas-
salos, e a consciencia de que nio teria
dado um salto, indo em um unico im-
pulso de zero a 80 na carreira political.
sem o suporte da mdquina official, coman-
da corn mo de ferro por Almir.
Ao permanecer no cargo ate o final
do mandate para poder eleger seu suces-
sor (do contririo o risco seria muito alto)
e nao se candidatar eleiqao seguinte,
para a prefeitura de Bel6m, parecia que
realmente Almir Gabriel estava send
coerente: o que importava era o projeto
do "Novo Part" e nao quem estivesse a
frente dele.
O mais capacitado, nesse caso, era
mesmo Simio Jatene. Afinal, mais do
que Almir, ele podia ser identificado
como o principal formulador dessa em-
preitada, uma combinacio de t6cnicas
de propaganda cor obras de infraestru-
tura, ambas mudando significativamen-
te a superficie da hist6ria sem, contudo,
nela penetrar. Muita espuma para pou-
ca agua. Muita zoada para pouco mel.
Crescimento sem desenvolvimento. Ri-
queza e pobreza. Opulancia e margina-
lidade. Combinaq6es de um liberalism
sempre a sombra da casa-grande, con-
cebido corn ret6rica azeitada para usu-
fruto concentrado.
Quando, sem consultar as parties, Al-
mir emergiu de vez das sombras pronto
para ser o candidate, sem admitir con-
testaq6es, o projeto de Estado se trans-
formou num delirio de poder pessoal.
Desde entao, uma sucessao de erros le-
vou ao desfecho melanc6lico, culminan-
do cor detalhes de alto valor simb6lico.
A hist6ria foi caprichosa ao preparar o
cendrio para o eclipse politico de Almir
Jos6 de Oliveira Gabriel.
Suas 6ltimas apariqoes no hordrio da
propaganda eleitoral e dos debates pela
televisao foram pat6ticos. O home de
expressio fluente se atrapalhava na lei-
tura de textos preparados por sua as-
sessoria. Quando precisava improvisar,
seu raciocinio era lento e claudicante.
Diante de uma adversairia frigil e pri-
maria, corn a defesa vulnerivel, seus
golpes niao tinham forqa.
O eleitor acabou optando pela prome-
tida mudanga, convencido nao pela ret6ri-
ca vazia da senadora Ana Julia Carepa,
COiiNTIA NA PiA 4







CONTINUA;AO DA PAG 3
mas pelo anacronismo do seu adversario.
Sua presenqa fisica era o atestado do en-
velhecimento do PSDB (nio podia te-lo
mandado para o Senado ou Ihe imposto a
aposentadoria?) e do esgotamento do seu
discurso (o Para rico cai pelas tabelas no
ranking national de desenvolvimento, corn
indicadores sociais negatives).
As urnas dizem que 6 melhor arriscar
no desconhecido, mesmo que venha a se
revelar frustrante, do que aceitar o risco
de uma crise iminente, que transparece
na image do ex-governador. Almir Ga-
briel. Ele foi vitima do mesmo erro que
ajudou a selar, 20 anos atris, quando ca-
rimbou a aposentadoria de Jarbas Pas-
sarinho. Pagou caro por esse privil6gio.
O feitiqo fulminou o feiticeiro.



O fim de

Passarinho

Quando o senador Jarbas Passarinho
chegou a Bel6m em 1994 para participar
da campanha para o governor contra Al-
mir Gabriel, fui visiti-lo no escrit6rio do
seu sobrinho, Ronaldo Passarinho. Fiquei
impressionado: o estado clinic do ex-go-
vernador era de depressio, visivel, grave.
Acompanhando-o depois pela televi-
sdo, percebi que sua condigio psicol6gi-
ca piorara quando nio definiu a parada
no 1 turno, embora A frente do candida-
to do PSDB. O sucesso do Piano Real
devastara o campo dos adversaries do
governor federal em todo pais. No Pari,
o abulismo de Passarinho, irreconhecivel,
tinha outra explicaq~o: ele estava numa
camisa-de-forFa como candidate de Ja-
der Barbalho, negando a si e i sua hist6-
ria. Pagava um preqo alto demais pela
gentileza do seu ex-inimigo de oito anos
antes, quando mandara cuidar de sua
esposa, Ruth, gravemente enferma, e o
elegera senador (como fizera cor o pr6-
prio Almir Gabriel).
No inicio do 2 turno voltei a me en-
contrar com Passarinho, ji entio no co-
mite da sua campanha (onde hoje estd a
casa de recepqio de Maria Clara). A con-
versa foi a dois, a porta fechada, admitin-
do-se sinceridade total entire dois conten-
dores de longa data. Saf dali convencido
de que, mais do que o Piano Real e de
Almir Gabriel, quem derrotara fragorosa-
mente um dos principals politicos gesta-
dos pelo regime military depois do golpe de
1964 foi o pr6prio Passarinho. Ele sabia
que estava se violentando e servindo de
instrument. Mas ja nio podia fazer nada
para afastar de si esse cAlice amargo.
Beb6-lo era o ato final da sua carreira.


Hospital Sarah esta


em terreno da Enasa


O terreno no qual foi construido o
Hospital Sarah de Bel6m estL cadastra-
do na Gerencia Regional do Patrim6nio
da Uniio em nome da Empresa de Na-
vegagqo da Amazonia S/A (Enasa), corn
as taxas de ocupaqao de terreno da ma-
rinha em dia. A transferencia desse ter-
reno para o Estado do Pari nao foi con-
cluida "por falta de peas t6cnicas que
permitiriam caracterizar perfeitamente a
area a ser transferida".
Em 11 de marqo do ano passado a
GRPU notificou a Enasa sobre o fato,
mas at6 28 dejulho de 2005, quando pres-
tou informaCqes ao Minist6rio Pdblico
Federal, a pedido do MPF, nio recebera
resposta. Tamb6m nao recebeu qualquer
tipo de solicita~ao para a construqio do
hospital nessa area.
A Enasa, que era uma empresa fede-
ral, foi estadualizada na administration Al-
mir Gabriel. Depois de uma ripida tentati-
va de reativaqao, foi submetida a um pro-
cesso de liquidaao, ainda nio encerrado.
O problema 6: a transfer&ncia do im6vel
da Enasa para o Hospital Sarah foi realiza-
da legalmente? A resposta parece ser nao.
Existe apenas o term de cessio de
uso entire o Estado do Pard e a Associa-
qao das Pioneiras Sociais, responsivel pelo
Sarah, referente ao terreno para instala-
qdo do hospital. Mas nao ha nenhum do-
cumento sobre o moment anterior, a pas-
sagem da area da Enasa para o governor.
O governor do Estado 6 o controlador da
empresa de navegacio, mas a venda, do-
agao ou qualquer outra forma de transfe-
rencia precisa ser efetuada conforme as
exigencias legais. Se tal nao existe, tudo o
mais deixa tamb6m de existir em funSgo
desse pressuposto. O hospital, dessa ma-
neira, nao foi apenas construido num local
inadequado, mas em area que nao Ihe per-
tence nem lhe foi delegada regularmente.
E tem mais. A Secretaria Municipal de
Urbanismo, 6rgao responsavel pela expe-
diq~o dos alvards de construgqo e habili-
taqao e do projeto do hospital, disse a Pro-
curadoria Regional da Repiblica, no pro-
cedimento instaurado no ano passado para
apurar as dentincias feitas sobre o hospi-
tal, que nao lavrou auto de infraqao e no-
tificaqio porque, quando foi ao local, a
equipe de fiscalizacSo encontrou a obra
concluida. Ji o process de licenciamen-
to, submetido a Secretaria Municipal de
MeioAmbiente, nio foi concluido.
Apesar de a construqio do hospital ser
financiada integralmente corn recursos
federais, a Secretaria de Controle Exter-


no do Tribunal de Contas da Uniio comu-
nicou ao MPF que nio tramitava na 6po-
ca da consult (agosto de 2005) "proces-
so especifico" sobre a realizaqao da obra.
Disse tamb6m que, tendo em vista a ne-
cessidade de obter informaq6es sobre a
aplicagio dos recursos da Uniio, "promo-
veu dilig6ncia ao Minist6rio da Saide e ao
Governo do Estado do Pard para detalhes
acerca do investimento". Tamb6m disse
que encaminhou o questionamento i 4a Se-
cretaria de Controle Externo (Secex) do
Tribunal de Contas da Uniao, em Brasilia.
Em abril deste ano a secretaria disse
que as contas da Rede Sarah/Associa-
gqo das Pioneiras Sociais referentes a
2004 e 2005 nio haviam sido apreciadas
pelo TCU. A Secex tamb6m disse que
recebeu informaqoes da Associaqio das
Pioneiras Sociais de que: a) os recursos
utilizados na obra do hospital sao prove-
nientes de dotaqio consignada anualmen-
te no Orcamento da Uniio; b) a obra foi
aprovada tanto pela prefeitura quanto
pelo Corpo de Bombeiros; e, c) que a
continuaaio da obra depend da aprova-
cio do Orqamento. Por fim, a Secex dis-
se que sera investigado qualquer indicio
de irregularidade sobre a obra que che-
gar ao conhecimento do TCU.
No entanto, no inicio de 2002, quando
lancou a candidatura do seu secretario
especial, Simao Jatene, como seu suces-
sor, Almir Gabriel declarou numa entre-
vista a TV Cultura, reproduzida pelo jor-
nal O Paraense, criado para apoid-lo:
"N6s ji estamos batalhando essa
question do Sarah ha bastante tempo. Sou
inclusive membro do Conselho do Sarah.
Essa negociaaio vinha acontecendo com
muita dificuldade, mas agora ji esta re-
solvida. O Sarah vai ser construido em
Bel6m em um terreno da Enasa, sendo
uma extensao de mais de 5 mil metros
quadrados de area construida. Sera um
post avancado. Para tanto, o minis-
tro Jose Serra jA liberou R$ 5 milhoes
para compra de equipamentos, n6s
conseguimos incluir no ornamento do ano
que vem cor uma participaiao boa da
nossa bancada, particularmente dos de-
putados Anivaldo Vale e Giovanni Quei-
roz, mais recursos para a construqao do
Sarah. O Sarah vai sair cor certeza
absolute e eu espero inaugurA-lo ain-
da no meu governor .
O govemador que fez, que faz e que
fari ficou s6 na promessa. O candidate a
repetiu,ji agora sustentando o compromis-
so com inverdades. Para dizer o minimo.


4 OUTUBRO DE 2006 2 QUINZENA Jornal Pessoul









Carajas: os fndios e a mineradora


No final da d6cada de 70 a Compa-
nhia Vale do Rio Doce decidiu implantar
uma mina de ferro em Carajas, no cen-
tro-sul do Para, a mais de 800 quil6me-
tros do litoral. O projeto exigiria 3,5 bi-
lh6es de d6lares. Havia ceticismo quan-
to a sua viabilidade. Afinal, a maior side-
rdrgica do mundo, a americana United
States Steel, se retirara da sociedade corn
a entao estatal. O papel da USS no em-
preendimento erajustamente abrir o mer-
cado americano, at6 entao fechado ao
min6rio brasileiro, para que ele absorves-
se grande parte da produqio de CarajAs.
A mina s6 se consolidou quando o
Banco Mundial aprovou um empr6stimo
para a CVRD. O valor, de US$ 300 mi-
lh6es, nem era expressive: ficava abaixo
de 10% do total do investimento. Mas sig-
nificava a bengao do BIRD, vencendo
resistencias e descrenqas da comunida-
de financeira e econ6mica international.
Antes de liberar o dinheiro, o banco
fez uma exig6ncia: a Vale devia aplicar
recursos na proteiao das comunidades
indigenas situadas na area de influencia
da ferrovia que levaria o min6rio at6 o
porto da Ponta da Madeira, na ilha de
Sao Luis. O projeto da mineradora sim-
plesmente se esquecera deles.
Nao era uma omissao voluntaria: ela
se repetia no Polonoroeste, em Rond6-
nia. Mais uma vez, foi o BIRD que obri-
gou a inclusio de um capitulo sobre os
indios, ignorados pelas autoridades do
pais. Pelo menos no papel e para efeito
de image, a lacuna foi preenchida.
No eixo de Carajds, onde ha uma po-
pulagio de 3 milh6es de pessoas, a
CVRD presta algum tipo de assistencia
a 3,5 mil indios (0,1% do total). Mas a
relagio cor as parties esta long de ser
risonha e franca. No dia 17, 200 indios
Xikrin de duas aldeias pr6ximas, Catet6
e Djudjek6, que congregam mais de 800
habitantes em uma drea de 440 mil hec-
tares, irromperam no alto da serra arma-
dos e pintados para a guerra.
Durante dois dias interromperam os
embarques de min6rio: 500 mil toneladas
deixaram de seguir para o exterior, cau-
sando a empresa prejufzo de 15 milh6es
de d6lares. Quinze usinas de ferro-gusa
que funcionam a margem da ferrovia,
produzindo 3,5 milh6es de toneladas, tam-
bdm ficaram sem sua mat6ria prima.
Os principals danos, por6m, nao po-
diam ser facilmente transformados em
nimeros. Num moment em que os pre-
gos do min6rio de ferro estao excepcio-
nalmente altos e a oferta mal di conta
da demand, cor uma competitividade
acirrada entire vendedores, nao permi-


J)oI;ral I'Pssoul *2' QUINZENA OUTUBRO DE 2006


tindo a formagio de estoques seguros,
o incident p6e em xeque o dominio da
CVRD sobre a logistica do Sistema
Norte. Um dos segredos fundamentals
do neg6cio 6 o cumprimento de contra-
tos de long prazo, que a Vale ter se-
guido corn rara pontualidade.
Problems trabalhistas na drea de
Carajas tnm sido reduzidos e localizados.
A freqtiincia maior 6 de conflitos corn
indios, posseiros e garimpeiros, o mundo
em torno do enclave da mineracio e suas
extensoes diretas. O control sobre esse
setor depend tambdm ou, sobretudo -
do governor. Quando a CVRD era esta-
tal havia certa simbiose entire os dois per-


sonagens. Agora, eles tern delineamen-
tos distintos. Nao podem mais se con-
fundir, sob pena de criarem uma promis-
cuidade nociva ao interesse pdblico.
A Vale, nessas circunstancias, alega
sempre que cumpre a sua parte. Esgota-
dos os recursos que destinou aos indios
por imposiFao do Banco Mundial, seus
investimentos nesse segment se torna-
ram voluntarios, uma liberalidade. A em-
presa garante que tern cumprido integral-
mente o contrato assinado cor os Xikrin,
com intermediaiao da Funai (Fundacio
Nacional do Indio), no valor de nove mi-
lhoes de reais por ano.
O valor, que di quase R$ 800 mil
mensais, nao 6 insignificant. Possibili-
ta um razoavel program de fomento nas
aldeias. Mas 6 insuficiente para susten-
tar um custeio crescente dos indios. A
segunda ocupaqao da mina de Carajas
nao foi, segundo as verses correntes,
para suplementar o projeto de manejo
florestal conduzido na area (sem bons
resultados) nem qualquer outra obra co-
munitiria, mas para quitar a dfvida na
quitanda da compra de comida e bebida
entiree I milhao e 2 milh6es de reais).
Como acontece cor os indios que tnm
acesso a uma fonte de renda regular e
razoavel, que independe de seu traba-


Iho, o consumismo se espraiou pela tri-
bo, como ja ocorrera em escala me-
nor corn os Gavi6es.
Os Gavi6es se tornaram o primeiro
grupo indfgena brasileiro a ingressar no
sistema financeiro, gragas ao dinheiro
recebido como indenizaqio pela passa-
gem, atrav6s da reserve Mae Maria, as
proximidades de Maraba, da linha de
transmissao de energia da hidrel6trica de
Tucuruf e da ferrovia de Carajas. Mas
eles se mostraram menos dependents
dessa verba do que os Xikrin.
Essa diferenqa talvez se deva ao fato
de que realmente a Vale nao ter a obri-
ga go legal de ressarcimento em rela-
gFo a eles. A mineraq5o 6 apenas
limftrofe da reserve indigena, nao se
confundindo cor ela. E claro que a
atividade produtiva repercute sobre
a area e a vida dos Xikrin, mas a
empresa ter razao, sob esse ponto
de vista, quando argument que a
situaqao seria muito pior corn outro
tipo de atividade. A Vale mant6m a
maior firea verde da regiao (e a ini-
ca contigua), exercendo sua influ-
encia sobre 1,2 milhao de hectares.
Ao redor, o desmatamento 6 cres-
cente, devastador.
Al6r disso, o dinheiro recebido
serve mais para os indios se aproxi-
marem das frentes econ6micas e para
incorporar seus costumes do que para
preservar sua identidade 6tnica e cultu-
ral. Logo, evidencia-se a necessidade de
uma intermediaqao mais convincente
entire a empresa e os Xikrin. Simplesmen-
te destinar mais dinheiro aos indios pode
nao resolver ou atenuar o problema. Ao
contrAirio, 6 capaz de agrava-lo ou torni-
lo definitivamente insolivel.
A ligaqao, o acompanhamento e o
control deviam ser desempenhados pela
Funai, mas a instituiiao nao tem cum-
prido esse papel. Nao sera de surpre-
ender que essa antiga funaio tenha sido
ultrapassada pela dinamica humana. De
qualquer maneira, por6m, a situaqao atu-
al 6 pior, corn tendencia a se agravar. A
empresa pode adotar mecanismos mais
rigorosos de prevenaio e protefio con-
tra a repeticao do incident. Num co-
municado, a Vale insinuou que ira bus-
car ressarcimento para seus "pesados
prejuizos". JA os indios podem se sentir
estimulados a seguir o mesmo caminho,
em sentido oposto, ainda que sem fun-
damentacio legal e nenhuma legitimida-
de, praticando uma "chantagem", con-
forme a empresa a definiu. A causa pode
nao ser just, mas o cenario cria pre-
textos para o drama.










CVRD multinational no Canada:


A compra da mineradora canaden-
se Inco pela mineradora brasileira
CVRD beneficiou o Canada. Foi o que
o ministry da indistria daquele pais de-
clarou no dia 19, ao final da analise dos
documents sobre o neg6cio, que re-
sultou na aprovaqao da operaqio, de
acordo cor o Investment Canada
Actted. 0 governor canadense levou
mais tempo do que os acionistas da Inco
para dar o seu referendo. E s6 o fez
depois de estabelecer uma s6rie de
condic6es a Companhia Vale do Rio
Doce. A empresa brasileira se compro-
meteu a tender a todas elas, mesmo
porque nao tinha alternative.
Segundo essas exig6ncias, a Vale
nao sujeitari suas operaq6es canaden-
ses a uma reduiao de pessoal por pelo
menos tries anos e o nimero total de
empregos nessas operac6es nao pode-
ra ser inferior a 85% dos niveis atuais.
Os investimentos no Canadi serao ex-
pandidos em diversas areas, incluindo
exploraaio, pesquisa e desenvolvimen-
to, tamb6m pelo mesmo period de tr6s
anos. Havera programs de qualifica-
qdo de aprendizes nativos (os aborigi-
nes), de estagio e recrutamento, de edu-
caaio e de treinamento. E tamb6m
mais recursos para preservag.o ambi-
ental no Canada. Sera como se nada
tivesse mudado em Sudbury, no Esta-
do de Ontario, e Thompson, em Mani-
toba, onde a Inco ter suas minas.
A oferta de compra da Vale, apresen-
tada no dia 11 de agosto, era tao boa que
duas concorrentes, a americana Phelps
Dodge e a canadense Teck Cominco, se
afastaram quase imediatamente. A pro-
posta de aquisiqao de todas as aq6es or-
dinarias da mineradora, por6m, s6 seria
consumada se conseguisse a adesao dos
detentores de ao menos dois terqos das
aq6es ordinfrias (cor direito a voto).
Logo, os controladores de 75,66% das
quase 175 milh6es de aq6es ordindrias
se prontificaram a negociar seus pap6is,
recebendo 86 d6lares canadenses por
cada aaio, cor ganho de 13,3 bilh6es de
d6lares. Os possuidores das aq6es ordi-
narias restantes que seguirem o mesmo
caminho ficarao corn outros US$ 4,5 bi-
lh6es, dinheiro que sera pago praticamen-
te a vista, de uma s6 vez, corn prazo de
adesao at6 o dia 3. No total, serao US$
18,5 bilh6es (mais de 40 bilh6es de reais,
o dobro do PIB do Pari)
Graqas a essa irrecusavel proposta,
a Vale se tornou a autora da maior aqui-
sicao ja realizada por uma empresa pri-
vada latino-americana no mercado mun-


dial e controladora integral da Inco, que
6 a segunda maior produtora de niquel
do mundo e a primeira em reserves, corn
7,8 milh6es de toneladas de niquel con-
tido e jazidas no Canada, na Oceania e
na Indon6sia.
Os n6meros decorrentes dessa au-
daciosa investida sio impressionantes,
tanto pelo seu valor em si quanto pela
repercussao que Ihes foi dada pela gran-
de imprensa national. De quarta maior
mineradora do mundo, a Vale 6 agora a
segunda maior, atras apenas da anglo-
australiana BHP Billiton.
A consultoria financeira Economiti-
ca estimou o faturamento annual da Vale
em US$ 16,4 bilh6es, que crescerA para
US$ 21 bilh6es cor a incorporaqdo dos
US$ 4,6 bilh6es da Inco. Cor esse ta-
manho, a CVRD subiria 28 colocaq6es
no ranking das maiores empresas, pas-
sando da 102" posigio para o 74 lugar
por receita entire as companhias aber-
tas dos Estados Unidos e da Am6rica
Latina, segundo o journal O Estado de
S. Paulo. A empresa brasileira cor a
melhor colocaqio nesse levantamento 6
a PetrobrAs, que ocupa a 15a posicio,
cor US$ 68,47 bilh6es. Mas a Vale pas-
sarou a frente de gigantes, como o
McDonald's, a Bellsouth, a Goodyear e
a Coca-Cola.
O president da Vale, Roger Agne-
lli, assegurou: "A aquisiqgo beneficia to-
dos os envolvidos, a Vale, os acionis-
tas, funcionfrios e fornecedores da
Inco, as provincias e comunidades no
Canada onde ela atua".
Mas se o neg6cio foi bom para todos
esses personagens, foi mesmo bom para
o Brasil? Em particular, foi bom para o
Para, detentor das duas -justamente as
maiores -jazidas de niquel de proprieda-
de da Vale em territ6rio brasileiro?
Ao que parece, essa 6 uma questao
absolutamente secundaria. Todos entra-
ram no canto em unissono da louvaqgo,
como se o que for bom para a Vale se
torna, automaticamente, bom tamb6m
para o Brasil e nio se fala mais nisso.
Essa postura lembra a frase de Vasco
Leitao da Cunha, ministry das relaoqes
exteriores do primeiro governor military p6s-
64, o do marechal Castelo Branco: "O
que 6 bom para os Estados Unidos, 6 bom
para o Brasil", disse ele. A gentileza foi
retribuida pelo president americano Ri-
chard Nixon: "Para onde o Brasil for, a
Am6rica Latina iri atras".
Mas nem o governor brasileiro imitou
o canadense, submetendo os documen-
tos da transaqdo a uma verifica5io rigo-


rosa, nem a opiniio pdblica foi ouvida ou
cheirada, ao menos nos 14 Estados onde
a companhia atua. O Parti, na pior das
hip6teses, 6 o segundo mais important
do conjunto. Devera crescer proporcio-
nalmente mais do que Minas Gerais, que
ainda 6 o primeiro.
Mas nio em niquel. Nessa substan-
cia, a posidio paraense ji 6 preponde-
rante. A Vale, que ji era dona da jazida
do Vermelho, comprou o Onga Puma,
tamb6m em Carajis, no sul do Pard, de
outra mineradora canadense, a Canico.
Corn essas duas minas e mais uma do
Piauf, podia tornar o Brasil auto-sufici-
ente nesse min6rio e ter alguma grande-
za international. Cinco anos antes, esse
era um setor cor pouca capacidade de
atrair investimentos. O que esti haven-
do agora 6 uma mudanca radical.
Para poder dar o salto para o primei-
ro lugar, a Vale precisou mudar de ca-
misa. A area de niquel passa a ser corn
petencia da CVRD Inco. Nao 6 de es
tranhar que a ex-estatal brasileira utili-
ze o nome da empresa canadense, que
ter uma marca estabelecida e conheci-
mento consolidado. Mas daf a manter
sua sede em Toronto, Ontario, no Ca-
nadi, comandada por um director de ope-
racqes e a maior parte da administra-
cqo canadense, vai uma grande distfn-
cia (e nao 6 s6 geografica).
Em matdria de niquel, para poder se
tornar uma multinational, a CVRD dei-
xou de ser national. Pelo peso das mi-
nas, tornou-se, na verdade, canadense.
Segundo suas projeq6es, a produqio de
niquel devera alcangar 400 mil toneladas
em 2011, sendo 300 mil toneladas no
Canada e 103 mil no Brasil, num merca-
do consumidor mundial estimado em 1,5
milhio de toneladas naquele ano. A pro-
ducio da Inco para este ano 6 estimada
em 250 mil toneladas.
E a partir dessa perspective que a
CVRD vai administrar as jazidas de Ca-
rajas, que tem grande relevancia nacio-
nal. Conseguira combinar os dois pianos?
Ou sera que, mais do que a camisa, mu-
dou a bandeira? Agora, a presenqa inter-
nacional da empresa, que era de 2%,
passard a ser de 30%, proporq.o in6dita
em relagio a qualquer outra corporai.o
privada brasileira.
Se a operaqao reafirma os aspects
positives do estilo ousado de Roger Ag-
nelli, disposto a passar de um extreme a
outro tao rapidamente, tambem revela
o outro lado desse modo de agir: o seu
elevado grau de risco. O risco faz parte
do neg6cio e ningu6m conseguirn cres-


6 OUTUBRO DE 2006 *2"QUINZENA Jor0nal PCssoalI









o Brasil tambem saiu ganhando?


cer, ao menos dessa forma, sem assu-
mi-lo. O problema 6: quantos sabem exa-
tamente em que consiste esse risco?
Numa iniciativa empreendida cor tal
rapidez e com tro pouco control por
parte do governor e da opiniio piblica
brasileira, o que esti faltando 6 exata-
mente o dominio sobre o verdadeiro en-
redo da 6pera. Ou seu libreto integral.
As agnncias de risco e as instituiq6es
financeiras avalizaram o neg6cio, mas
seus comunicados sugerem que o fize-
ram sob certas reserves e garantias. Irho
bancar e generosamente a transa-
qao, mas provavelmente cor uma com-
pensaaio mais generosa (ou leonina).
Ao anunciar a compra, a Vale infor-
mou que possui uma linha compromis-
sada de financiamento de dois anos com
quatro grandes bancos: os suifos Credit
Suisse e UBS, o holandes ABN AMRO
e o espanhol Santander, que formaram
um pool de instituiq6es financeiras, dis-
postas a oferecer at6 US$ 34 bilh6es
para a empresa brasileira utilizar.
O financiamento, de long prazo, se-
ria fechado nos pr6ximos 18 meses. Mas
deveri incluir poupanqa national. Para
isso, o BNDES (Banco Nacional de De-
senvolvimento Econ6mico e Social) ja
esti sendo chamado a comparecer. A
Vale assegura que, al6m do aporte de


aproximadamente US$ 2 bilh6es do seu
caixa, nio venderd qualquer outro item
do seu patrim6nio para gerar mais di-
nheiro para nio prejudicar o piano de
investimentos que ji definiu. Recorreri
mesmo a dinheiro alheio.
Mas logo em seguida a aquisiaio
protocolou junto h Comissao de Valo-
res Mobiliirios pedido de registro de
distribuilio p6blica de debentures sim-
ples, nio conversiveis em aqoes, no
valor de 5 bilh6es de reais. O valor apu-
rado com a colocadio desses pap6is
sera utilizado para amortizar parcial-
mente a divida resultante do empr6sti-
mo-ponte cor o grupo de bancos. Des-
sa maneira, a empresaria preservaria
a "vida m6dia" da sua divida "em nfvel
pr6ximo ao registrado antes da aquisi-
Cio das ages da Inco, a manutengao
de um perfil de endividamento de bai-
xo risco e a minimizaqdo do custo pon-
derado do capital, assegurando desta
forma a consolidation de sua boa repu-
taqio nos mercados financeiros glo-
bais", segundo o comunicado distribuf-
do na ocasiio.
Esse 6 o ponto mais delicado para as
agencies de risco. A divida da CVRD,
que atualmente esti pr6xima de seis bi-
lhoes de d6lares, quadruplicarA cor a
compra financiada da Inco. O valor cor-


responded a dois anos e meio de fatura-
mento da empresa, considerando o re-
sultado record do ano passado. A gran-
de Companhia Vale do Rio Doce, de
fato, entra numa nova fase da sua his-
t6ria de mais de 60 anos.
Um dos principals efeitos da incor-
poraqdo da Inco 6 a reduaio da depen-
dencia da empresa dos produtos ferro-
sos, de 74% para 56% das suas recei-
tas globais, prevenindo-se para uma pos-
sivel queda de preqos do mindrio de fer-
ro no mercado international num mo-
mento em que o valor do niquel (que
passard a responder por 20% do fatu-
ramento da empresa, em segundo lugar)
chega ao ponto mais elevado em 20 anos,
de quase US$ 30 mil por tonelada (mil
vezes o valor do mindrio de ferro), corn
a possibilidade de se manter nesse pa-
tamar por mais tempo. A Inco obteve o
maior lucro da sua hist6ria, de US$ 653
milh6es, justamente no iltimo trimestre,
entire julho e setembro.
Corn esse movimento, a presence in-
ternacional da CVRD cresce 30 vezes.
Mas a empresa ingressa tambdm num
cenirio de sombras, que s6 ela pode ilu-
minar completamente. Mais uma vez, a
sociedade foi surpreendida por esse mo-
vimento de cena. E ainda nao se recu-
perou da surpresa.


Credito curto
O campeio na eleicao deste ano no Bra-
sil foi A6cio Neves, do PSDB, que se reele-
geu governador de Minas Gerais no 1 tur-
no, cor 77% dos votos vilidos. Qual a ra-
zio do sucesso do sobrinho de Tancredo
Neves (que, como o pai, se criou politica-
mente h sombra do tio)? Escolher as pesso-
as certas e deixar que elas trabalhem, fa-
zendo o que sabem fazer. Graqas a isso,
A6cio p6de se dedicar a um eficiente servi-
co de relaq6es p6blicas, aproveitando as
qualidades da sua imagem.
Ana Jilia Carepa podia tomar o governa-
dor mineiro como exemplo. Numa inversio
do que ocorreu corn o candidate do partido
de A6cio a presidencia da Reptiblica, ela per-
deu todos os debates cor Almir Gabriel; ain-
da assim, conseguiu se eleger. E de espantar
que nio tenha conseguido domar um leio que
perdeu os dentes, como Almir. Ou, melhor
comparando, um boxeador que voltou ao rin-
gue, insensivel is advertencias do corpo en-
fraquecido (alguns bons m6dicos costumam
ser pacientes irracionalmente teimosos). A ca-
beqa parecia dar ordens ao candidate, mas


seus reflexes nio podiam mais atende-las.
Mesmo assim, sua adversiria nao aproveita-
va essa lentidao. Pior ainda: expunha-se mais
a golpes fatais do que o contender. A fraque-
za natural de Ana Jdlia era maior do que os
danos do envelhecimento de Almir Gabriel.
Uma parcela que votou nela agiu assim por
considerar a opcio disponivel pior. Mas a le-
gi5o de um milhio de eleitores (mais de um
quarto do total, contra 18% no primeiro turno)
que nao foram votar no 2 turno serve de ad-
vertencia sobre a fragilidade da delegaqdo de
poder que Ihe foi conferida. Se nao levar em
conta essa condicionante, Ana Jdlia pode se
condenar a repetir, no piano estadual, a expe-
ri6ncia de Edmilson Rodrigues, que nao fez
seu successor, teve uma votaqlo insignificant
como candidate ao governor pelo PSOL e criou
um estigma sobre o PT na capital.
Boa parte do future do novo governor vai
defender da primeira decision que Ana Jdlia
precisari tomar: a formacio de sua equipe.
Conforme a apresentar, ela nio tera direito a
um novo cr6dito. Gastard tudo cor uma pri-
meira decision desastrada.


Semn

prova

SA Companhia i le
do Rio Doce alirmnou
e realirmou que
c Iump re
intieralmente o
acordo aslnado corn
os indlos Xikiin. Ma,
consider que e'se
nao e unl document
ptblico. Por iso.
quando in-i.ada a
apresenlar a pro\ a
dos noI c. recuoLu.
Por c,,s e
ouiras. a emlpres, e
Sacusada de
arrogance. Nao
gos'a. M.s n1Jo
prova que nuo e.


Journal 'Pssoal 2" QUINZENA OUTUBRO DE 2006 7


~~ _LI I _____









Foi-se o livreiro (o Dudu ficou)


Eram duas quadras mnigicas para
quem gostava de ler aquelas duas da
Travessa Campos Sales, entire Manoel
Barata e Joao Alfredo, ali por meados
da d6cada de 60. Na parte de baixo, a
Livraria (antiga Agencia) Martins nos
oferecia a atualidade. "Seu" Gama en-
comendava catilogos completes de boas
editors, como a Zahar e a Civilizaaio
Brasileira, 10 exemplares de cada livro.
Ele queria que subissemos ao andar de
cima para "ver as preciosidades". Pru-
dentemente, por6m, pediamos que as fi-
zesse baixar ao grande salao, entupido
de lanaamentos, campo aberto adequa-
do contra eventual acidente indesejado
de canto escuro.
Mais acima, era o sebo do Dudu,
quase em frente a (entao) Biblioteca e
Arquivo P6blico do Part, tendo em um
dos lados o edificio Justo Chermont e
do outro a capela da familiar Pombo,
centro de um dos mais belos conjuntos
arquitet6nicos da cidade, hoje descarac-
terizado e em ruinas.
A primeira vez que entrei na Livraria
Econ6mica, de Eduardo Failache, foi aos
13 anos. Sai sobragando almanaques por-
tugueses do Porto e Bertrand, que for-
neciam municio para minhas garatujas
pr6-jornalisticas. Voltaria muitas outras
vezes para exaurir esse estoque de curi-
osidades e informay6es supostamente
initeis. Mas nem tanto: virios dos epis6-
dios e "causos" desses almanaques ser-
viram de "inspiraqao" veja s6 para
Guimaries Rosa. Tenho-os anotados em
algum lugar para o
ensaio menor que um
dia espero escrever
sobre o magnffico au-
tor de Grande Ser-
tao: Veredas.
Ao long de 30
anos devo ter retira-


do do tugirio de Dudu nao menos de qua-
tro mil volumes, ora pagando uma pechin-
cha, ora deixando meu sangue, na forma
de cheques pr6-datados, a vencer ao lon-
go de meses de trabalho corresponden-
te. A negociaqdo hs vezes era dura, qua-
se degenerando em combat aberto. Mas
quando a tensio nos lances do leilao a
dois ameaqava comprometer a bela ami-
zade de tanto tempo, eu me retirava, es-
perando que os fados soprassem em meu
favor na queda de braco (na verdade, de
cifr6es) com o possuidor do objeto do
meu desejo.
Para minha sorte, durante a maior
parte desses anos fui vizinho do Dudu.
Primeiro quando trabalhei em A Provin-
cia do Pard, em varios periods descon-
tinuos entire 1966 e 1991 ("passando a
chuva em Bel6m", como observava a
dona Ruth Sampaio, inquieta cor meus
hibitos ciganos). Depois, ao long de 13
anos, como ocupante de um dos escrit6-
rios do "Justo Chermont", base operaci-
onal de O Estado de S. Paulo.
Quando achava que estava sendo
ameaqado de esfolamento em vida pelo
livreiro cruel, me recolhia ao meu pos-
to. E quando algum atropelo profissi-
onal me incomodava, ia espairecer en-
tre as prateleiras empoeiradas daque-
le lugar um tanto medieval no seu jogo
de sombras e, na figure daquele se-
nhor rotundo, a quem o bigode recur-
vo salientava o tom ironico dos olhos,
a finura das observao6es ber humo-
radas ou o fio de aqo cor que se ar-


mava para terqar armas pelo preco da
compra e venda.
Dudu foi o maior e mais lidimo -
como diria? seboso, livreiro, alfarra-
bista, mercador, tutor de livros do Pari.
Foi um privil6gio lidar cor ele ao long
de tantos anos, seja como client, ami-
go, aprendiz ou oponente. Por isso, avi-
sado em cima da hora de sua morte, no
dia 24, sai chispado de uma palestra para
o cemit6rio de Santa Izabel. Nao podia
deixar de me juntar aos familiares, que
Ihe davam o iltimo adeus. Dudu nao
resistira a dois enfartes sucessivos que
sofrera na v6spera. Mas, conforme
mereceu, nao sofreu.
No dia 13, completara 92 anos corn um
daqueles events que ele gostava de pa-
trocinar e acompanhar a distincia, diver-
tido e satisfeito, rejuvenescido, por ter ao
redor as pessoas das quais gostava e que
bem Ihe queriam, dentre as quais a iltima,
Vera, se tornou a primeira, sempre uma
companheira field, atenta e solicita.
Irmios, filhos, netos, certamente bis-
netos, todos estavam ali quando o coveiro
lhe aprontou a morada final. Como che-
guei um tanto em cima da hora, nao posso
dizer se Dudu se foi levando um livro pre-
cioso debaixo do braqo. Mas se levou,
conforme bern provivel, a esta alturajij
juntou uns bons trocados em seu novo
domicilio. Mais do que qualquer outro,
podia conseguir o miximo do comprador
se, na hora de fechar o neg6cio, nao aca-
basse dando um belo desconto para que o
livro fosse parar na mao certa. Se ele nio
chegava a ler o volume,
do seu conteido sabe-
-... ria ouvindo quem o le-
j vasse. Fosse quem fos-
se, virava seu amigo.
I Eduardo Failache,
final, acima de tudo,
era um home born.


V ~ ~ '~~V ~


CARTAS

Solidariedade
A defesa dos nossos inte-
resses (amaz6nidas) devia ser
resguardada sempre. Lutar
por estes direitos 6 uma das
coisas que mais vemos sua fi-
gura piblica fazer, os defen-
dendo corn hombridade e, sem
duvida, cor sobriedade inve-
jivel a qualquer critico que a
regiao Norte possa ter. Me
entristeco corn a noticia, mas
ainda acredito que haverf es-


paco para a lucidez em nossa
Justiqa, mfope, mas que nao
consider completamente
cega, a ponto de deixar impu-
ne tal descompasso perante os
nossos olhos. Mantenha-se
sempre na luta. Seus amigos
jornalistas sempre Ihe ap6iam.
Glauco Melo
(estudante de
jornalismo)

Personalidade
Quero cumprimentk-lo
pela inclusao, na ediqio n
377 do apreciado Jornal


Pessoal, da foto do meu ir-
mao, Dom Alberto Ramos,
cor o Prof. Paulo Mara-
nhao, o jornalista que nunca
se curvou aos poderosos.
Manter a "mem6ria" de nos-
sa terra 6 uma obra merit6-
ria. Nao podemos esquecer
as personalidades que ajuda-
ram a construf-la. Por isso
voce foi citado mais de uma
vez no livro Dom Alberto -
0 Pastor da Amaz6nia, que
estarei lanqando em dezem-
bro pr6ximo.
Jose Ramos


Aniversario
Escrevo esta carta corn
certo atraso, mas antes tarde
do que nunca, para parabeni-
zi-lo pelo seu aniversirio e
pelo aniversirio do JP. Espe-
ramos, eu e meus alunos, que
essas datas se repitam por lon-
gos anos para que possamos,
aqui dos confins amaz6nicos,
aprender cada vez mais sobre
nossa regiio atraves de voc6
e seu JP. Vida longa a voc6 e
ao Jornal Pessoal.
Alex Ruffeil
Belterra Para


8 OUTUBRO DE 2006 *2" QUINZENA JoI'l-ll PI.S ,I).I









0 jornalismo de campanha



pode chegar ao fim no Pard?


At6 o o1 turno o grupo Liberal, mes-
mo apoiando o PSDB, manteve uma
aparencia de equilfbrio. Fustigava Ana
Jiulia, mas nio sistematicamente. Levan-
tava a bandeira de Geraldo Alckmin, mas
nio fulminava Lula. Os Maiorana pare-
ciam convencidos, a semelhanca dos
tucanos de alta plumagem, que a elei-
cio seria decidida ja no primeiro con-
fronto, sem muito esforqo.
Frustrada essa expectativa, volta-
ram 5 agressiva posiqdo de campanha
de 1990, quando declararam guerra
aberta e total a Jader Barbalho e usa-
ram todos os recursos possiveis em
favor de Sahid Xerfan, o oponente do
peemedebista na dispute pelo governor
do Estado. Nao fizeram qualquer es-
forgo para mascarar essa beligerancia
corn algum escripulojornalistico.
Em 1990, como agora, os Maiora-
na perderam a guerra. O epis6dio pode
ter desdobramentos imediatos ou mais
demorados. A tendenciosidade das Or-
ganizaq6es Romulo Maiorana nio ape-
nas se nivelou a parcialidade do grupo
RBA, de propriedade de Jader: desta
vez, a superou.
Esse 6 um dado extremamente gra-
ve. Os vefculos de comunicaq5o do de-
putado federal do PMDB tem frustra-
do as tentativas de profissionalizaqio,
sem a qual jamais alcangardo a plena
credibilidade, pelas constantes recai-
das em partidarismo durante o perio-
do electoral. A condiqio political do
dono compromete a razio de ser da
empresa jornalistica.
Mesmo que nenhum dos Maiorana
seja politico, por decision pr6pria ou con-
ting6ncia superior (Ronaldo e Romulo
Junior tentaram sem exito essa opqio),
seus veiculos de comunicaqco se com-
portaram nesta eleicio ainda pior do que
em 1990. Era natural e at6 desejivel que
fizessem uma opcio eleitoral, como qual-
quer 6rgio da imprensa o faz em qual-
quer lugar do mundo: na pAgina editori-
al. Ou, mesmo em outro lugar, num fa-
vorecimento sutil, atenuando-o para nao
comprometer o que 6 fundamental e in-
dispensivel numa empresajornalistica:
nao sacrificar os fatos, a informacio.
Ao long da campanha para o 2 tur-
no, O Liberal evoluiu (ou involuiu, con-
forme a 6tica) para um paroxismo de
parcialidade, de unilateralidade, de com-
pleto desequilibrio. No dia da nova elei-
qio, a manchete do journal destacava o

Journal Pessoal 2- QUINZENA OUTUBRO DE 2006


empate t6cnico entire os dois candida-
tos ao governor, segundo pesquisa do
Ibope, colocando em segundo piano a
vantage de dois pontos de Ana Jilia
sobre Almir Gabriel.
O material reforgava essa intendio
ao comparar o resultado da 61tima pes-
quisa Ibope cor a pol6mica sondagem
anterior do institute, que dera 53% para
a petista e 43% para o tucano. A con-
clusio do titulo de primeira pigina: "Ana
Julia cai, Almir sobe". E o primor de ma-
nipulaqio da informalaio: pela angula-
gio da ilustraqdo, mesmo estando dois
pontos atris, Almir aparecia a frente da
competidora.
A ediq~o do dia 29, cor o dobro da
tiragem dos dias de semana, fazia tudo
que estava ao seu alcance para conven-
cer o leitor de que Almir Gabriel rever-
tera a tend6ncia e iria veneer o 2 turno
(o que parece ter sido o prop6sito da
l6tima pesquisa, desconexa em relaq o
A anterior). Para nao perder seu voto, o
eleitor tinha que votar no ex-governa-
dor novamente. Manchetes, noticias e
reportagens caminhavam em unissono
nessa dire~io, ignorando completamente
os mais elementares crit6rios editorials
de tratamento da informaqio e as mais
simples regras 6ticas no trato dos fatos
- e no respeito i opiniio piblica.
Se pudesse, O Liberal viraria a mesa
e daria um golpe politico para evitar que
a vontade do povo se consumasse. Ojor-
nal precisava desesperadamente de uma
vit6ria do home que, em 1995, p6s em
pritica uma relaaio nunca antes regis-
trada entire o poder piblico e uma em-
presajornalistica.
Atrav6s de um convenio, dessa for-
ma escamoteando a necessidade de lici-
ta9ao piblica, que se imporia ao contra-
to, o governor obrigou sua Fundaqao de
Telecomunicaq6es, responsavel pelas
emissoras Cultura de ridio e televisio, a
desnaturar sua razio de ser e cometer
um ato lesivo ao interesse piblico.
A Funtelpa teve que ceder a TV Li-
beral sua rede de retransmissao de sinal
de television, montada para levar uma pro-
gramaaio cultural (que nio 6 commercial)
ao vasto interior do Estado, cumprindo
assim uma funqio piblica; e, al6m de vei-
cular a programaaio da Rede Globo, re-
transmitida pela TV Liberal, pagar A
emissora particular por essa cessio. Nada
de tao abusive foi concebido e aplicado
no setor, mantendo-se at6 hoje.


Todo mes a TV dos Maiorana rece-
beria 300 mil reais por essa ins6lita par-
ceria (valor que, reajustado e atualiza-
do ao long desses 11 anos, ji deve ter
passado do total de 40 milh6es de re-
ais). Aprofundada e amiudada a rela-
c o, mensalmente algo entire 1,5 milhao
e 2 milh6es de reais, por diferentes vias,
saem dos cofres do erdrio para o caixa
do grupo.
N.o surpreende mas ainda assim
choca ver a poderosa corporaiao abrir
mao de todos os escr6pulos profissionais
para se engajar na campanha eleitoral de
um candidate que Ihe foi tio generoso,
engrossando um partido politico que Ihe
fez a vontade. E lixando-se para o distin-
to pdblico, para os fatos, para a informa-
qao, para a verdade.
Assim, a contraposidio do grupo Li-
beral ao grupo RBA foi muito al6m de
manter o equilibrio entire os confrontan-
tes politicos. Significou uma autentica
sabotage a candidatura de Ana Jilia,
que at6 entao era interlocutora constan-
te do mais novo dos Maiorana,justamente
o responsivel pela redaqio, Ronaldo, e
contava cor certa boa vontade da
"casa". A mudanqa brusca de tratamen-
to representou uma verdadeira declara-
9go de guerra. Brusca e unilateral.
Vitoriosa, tendo ao lado o grupo de
comunicacio de Jader Barbalho, a
nova governadora ird retaliar os Maio-
rana, que tudo fizeram para derroti-la?
E o que alguns dos seus correligionAri-
os desejam e garantem que ela fari.
Quando Edmilson Rodrigues, entao
tamb6m no PT, derrotou o candidate
apoiado pelo grupo Liberal A prefeitura
de Bel6m, Ramiro Bentes, ele pr6prio
anunciou, reiteradas vezes, que o po-
deroso grupo de comunicaaio iria pa-
gar caro por sua arrogancia. Chegou a
organizer um comicio em frente a sede
do journal para dizer diatribes contra os
Maiorana e mandou seu secretario de
finanqas (o atual desembargador Ge-
raldo Correa Lima) iniciar uma devas-
sa contra a empresa.
Logo voltou atris. E foi al6m de to-
das as expectativas na reversao: pa-
trocinou a venda de um video de uma
campanha commercial do grupo Libe-
ral, algo tamb6m in6dito na relacao -
frequentemente promfscua entire go-
verno e empresa jornalistica. Nem
assim Edmilson conseguiu eliminar a
CONTINUE NA PAG 10







antipatia que os Maiorana Ihe dedica-
vam, ainda quando brindassem a par-
ceria temeraria.
O comprometimento do grupo Libe-
ral ultrapassou todos os limi-
tes da 6tica, da dec6ncia e do
profissionalismo. Ainda assim,
uma represilia vingativa ou um
facciosismo do governor do PT
em favor do grupo RBA dimi-
nuird e aviltard a gestio de Ana
Julia. Pondo fir a essa parce-
ria danosa, ela podia tamb6m
inovar, adotando um padrao
s6rio e em favor da sociedade
no trato corn os grupos locais
de comunicaqio.
Em matdria de jornalismo
impresso, por exemplo, podia
comprar uma cota de exem-
plares de um journal didrio de
cada grupo para distribuir bu
como leitura em sala de aula :. :.
aos estudantes da rede pibli-
ca de ensino m6dio e superi-
or. Formar leitores de journal 6
uma tarefa pedag6gica e cf-
vica important.
Mas para fazer a aquisiqio,
proporcional ao universe a ser
atendido, o governor devia exi-
gir dos pretendentes que se fi-
liassem ao IVC, atestando sua
circulaao (a compra seguiria
a proporcionalidade da tira-
gem); que fossem sociedades
an6nimas de capital aberto, oferecendo
agSes ao pdblico em cada aumento de
capital, sem que os donos perdessem o
control aciondrio; que criassem um con-
selho de redaaio, com a participaFio de
leitores, como entidade de consultoria edi-
torial; que adotassem a figure do ombu-
dsman, para regular a relaaio cor o pi-
blico; e que indicassem seus represen-
tantes, obrigatoriamentejornalistas, para
debater periodicamente o conte6do de
suas ediq6es corn os estudantes.
Talvez assim se obrigassem a res-
peitar sua missio, que 6 fazerjornalis-
mo, sempre que se vissem tentados a
servir-se dojornalismo para tender ex-
clusivamente seus interesses pessoais
e comerciais. O governor, enquanto re-
presentante da sociedade, nio precisa-
ria se comportar como macaco em loja
de louca para lembrar esse respeito,
imiscuindo-se no neg6cio privado, como
6 a tentaaio dos que defendem o pro-
jeto de cria.ao do Conselho Nacional
de Jornalismo. Mas nio cederia seus
favors para a perpetradio dos abusos
que se viu nesta eleigio. Todos ganha-
riam cor isso, at6 aqueles que, por pro-
blema de personalidade, s6 querem
ganhar e sempre sozinhos, o mixi-
mo, o inaceitivel.


MEMORIAL DO


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FOTOGRAFIA

Canal da Tamandare
Hd 40 anos, em 1966, o DNOS (Departamento Nacional de Obras de Sanea-
mento) iniciou a construqdo de pontes de concrete para substituir as de madei-
ra sobre o canal da avenida Tamandard, dando inicio a concretagem do antigo
igarape e a pavimentacdo das duas vias laterais. A paisagem sofreria unma
transformacdo radical: a vegetagdo, incluindo o mato rasteiro, seria completa-
mente eliminada e as casas de madeira desapareceriam. 0 que era um tipico
suburbio belenense se transformou em centro urban. Sem marca pr6pria.

Ziguezagues da political
Uma fotografia rara e exemplificativa da political do Pard, ontem como hoje.
Document a primeira visit que o entdo senador Alexandre Zacharias de As-
sumpcdo fez, em agosto de 1966, a sede da Alianga Renovadora Nacional (a
Arena, partido do regime military, sucedido pelo PDS e o atual PP). 0 carioca
Assumpcdo chegara ao Pard como general (depois marechal, patente extinta no
Exdrcito), depois da Segunda Guerra Mundial. Comandou profissionalmente a
regido military ate o dia em que chamou o coronel Magalhdes Barata ao seu
gabinete, escondeu seus inimigos atrds de uma cortina e o humilhou, aos berros.
Indo para a reserve, Assumpcdo se elegeu governador do Estado, em 1950,
por uma coligagdo anti-baratista. Prosseguiu sua carreira political como sena-
dor, ainda pela oposiido a Barata. Mas em 1965 foi derrotado na dispute pelo
governor, com o apoio dos antigos inimigos, que tentavam ressuscitar o PSD. 0
eleito foi um politico do novo regime military, o tenente-coronel Alacid Nunes,
apoiado pelo governador de entdo, o coronel Jarbas Passarinho. Menos de um
ano depois, Assumpdio pulou para o lado dos adversdrios, pretendendo ser
deputado federal. Na sua estreia na Arena, foi recebido pelo pr6prio Passari-
nho, pelo entdo senador Gabriel Hermes Filho e pelo deputado estadual Gerson
Peres, o unico a ainda permanecer em atividade, agora eleito deputado federal.


10 OUTUBRO DE 2006 *2"QUINZENA Jornal Pess()al









COTIDIANO






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0I1lll a eI 1th') d it I) 1 / 1t I 1' I/f 'It Il llllt C I l ilt. 1 lr t l i L

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I r /lht C il l t I Il llllt l ilt l it i/ ( I t rtl I ./I'. /it L/t I.
/tt( t '*tt hi rIl/ li h lll \ti tl ill ll i fl' l l l *' Htt tll / t t /
t/( t/;tn Jl fl tll lll*


Jornal Pessoal 2 QUINZENA OUTUBRO DE 2006


4


V1
=4x
i ? '


Se I nao houvesse
outras bbas razoes para
V. preferir o oleo dora,
bastaria esta:


eum
produto da
olpasa!

lsio e de hole que v coreicce
Olen DORA
Graw, a Dlie V ja rtEcteu
Inumaros elegos potr sus pltj3l
smboraso.
E corn DORA V ga'il menos
poique DORA rerde p-a valor
& venda no seu fornecedor


:-ar
-- --


. .. I el Btem... -' s .:n V_ .


JULXCI








NOVO LIVRO
Ji esti nas
bancas e li-
vrarias meu
livro mais re-
cente, O Jor-
nalisnmo na
Lignha de
Tiro. Tem um
pouco do pri-
meiro volume, o prometido
segundo volume e alguns
acr6scimos e atualizaqoes.
Apesar de volumoso, com
mais de 500 piginas, custa
apenas 30 reais, o mesmo pre-
qo do anterior, com 300 pigi-
nas. Graqas ao apoio de ami-
gos de f6, pude baratear o
preoo para que os comprado-
res do livro anterior (apresen-
tado como primeiro volume)
nao se sintam prejudicados e
para que mais leitores possam
ter acesso a moments rele-
vantes da hist6ria recent do
Par6. Entre os documents
que introduzi agora esti a
carta que escrevi a Romulo
Maiorana quando do nosso
rompimento, em 1986, e a
H61io Gueiros, antes e depois
de ele ser governador do
Par (1987-1991).
Pretendo usar o livro como
abre-alas para debates a res-
peito do seu conteudo nos lu-
gares que se dispuserem a
abrigar o seu lanqamento.
Pode ser um bom moment
para avalia6es critics e re-
visio de mitos is vezes apre-
sentados como verdades.


CUR OS IDADE
Rio Grande do Sul e Pari,
em dois extremes do pais, ji
estiveram pr6ximos algumas
vezes. Em 1835, por exem-
plo, irromperam em seus ter-
rit6rios as duas mais expres-
sivas insurreiq6es populares
no inicio do imp6rio brasilei-
ro: a Cabanagem aqui e a
Farroupilha li.
Mais de um s6culo e meio
depois, uma nova circunstin-
cia hist6rica, sem a grandeza
e a dramaticidade anterior:
ambos os Estados elegeram as
duas novas governadoras mu-
lheres do Brasil (a outra, Vil-
ma de Faria, no Rio Grande
do Norte, foi reeleita) e as pri-
meiras representantes femini-
nas a chegarem h chefia dos
seus executives estaduais.


0 fim do charme discrete

da burguesia nacionalista


Os brasileiros que formaram sua conscien-
cia durante a IV Repdblica, entire 1946 e 1964,
gravitaram em torno de duas entidades miti-
cas: o inelutivel proletariado e a indispensivel
burguesia national. As forgas agrupadas em
torno dos dois personagens variaram entire a
conciliacao e a reform, como realidades poli-
ticas, e a revolucio, como utopia quimerica.
Como o proletariado era forca de long prazo,
no dia a dia competia lidar cor a burguesia
nationall ou nacionalista, conforme a infase).
Nos livros e manuals era relativamente sim-
ples identifici-la. Grande parte da esquerda,
que produzia esses conceitos, raciocinava por
esquemas, em geral importados. Propunha-se
um pais ideal independentemente do pais que
existia. A realidade nio importava tanto quan-
to a sua racionalizaqao. O burgues era um tau-
maturgo, uma figure seminal difusa no ar. V&-
lo em care e osso era dificil. Mas se havia o
burgues progressista, seu nome era o do pau-
lista Fernando Gasparian.
Ele morreu no dia 6, mas seus apressados
obituirios nio fizeram justiqa ao que fez e ao que
representou nas teorizaq6es de conciliadores,
reformistas e revolucionirios. Gasparian ganhou
bastante dinheiro e podia ter deixado de lado as
id6ias que desenvolveu, as mais primitivas discu-
tidas com dois importantes amigos desde a ju-
ventude no interior de Sdio Paulo, Femandos como
ele: Henrique Cardoso e Pedreira.
FHC, o mais bem sucedido como intelectu-
al, foi tamb6m o que mais alto chegou hs esca-
darias do poder. Pedreira trocou a trincheira
jornalistica pelo governor, nio resistindo ao can-
to de sereia de FHC, que Ihe ofereceu um
emprego de alto nivel em Paris.
Gasparian foi o 6nico que combinou esses
dois elements a outro, que faltou aos amigos:
o de empresirio. Chegou ao maximo, cor sua
Am6rica Fabril, uma indistria de tecidos, quan-
do Joio Goulart foi president da repiblica.
Seguiu-o no declinio. Perseguido pelos novos


Ambas tiveram percentu-
ais parecidos (Ana Jdlia Ca-
repa corn 54,93% e Yeda Cru-
sius cor 53,94%), assim
como seus adversirios (Al-
mir Gabriel corn 45,07% e
Olivio Dutra cor 46,06%).
Enquanto Yeda Crusius, do
PSDB, consolidou a derrota
do PT no Rio Grande, que
comeqou cor a perda da pre-
feitura de Porto Alegre (to-
mada exatamente pelo derro-
tado Dutra), depois de 16
anos de vit6rias, Ana Jdlia
p6s fim ao imp6rio dos tuca-
nos no Pari.


donos do poder, passou um tempo dedicado a
atividades academicas na Inglaterra. Retornou
ao Brasil convencido de realizar o projeto de
criar um peri6dico independent, democrAtico
e altivo, conforme models europeus inspira-
dos em alguns dos melhores jornais de esquer-
da ou liberals do continent.
Desse compromisso surgiu Opinido, em
1972, em pleno governor M6dici, o mais violen-
to do period military. Opinido foi o mais bem
sucedido empreendimento da imprensa alter-
nativa, embora prejudicado por alguns erros de
concepqio, que subestimaram o animo repres-
sor do regime. A afiada tesoura da censura,
que comecou a agir no numero 9 e se tornou
devastadora a partir da 23" edicio, desfazia o
empenho da redacio. Mas as dissensoes in-
ternas tamb6m prejudicaram o semanirio.
Quando a equipe liderada por Raimundo
Rodrigues Pereira se retirou, por nio conseguir
acertar-se cor o dono, Fernando Gasparian
chamou Argemiro Ferreira para ser o editor. Opi-
nido perdeu muito em qualidade informative, na
capacidade de acompanhar os acontecimentos,
mas ganhou densidade analitica. Tornou-se pa-
recido Bs publicao6es europ6ias nas quais Gas-
parian se inspirou. Infelizmente, por6m, o Brasil
nio era a Europa e o journal nio resistiu h sabo-
tagem do governor. Mas morreu, em 1977, de-
pois de 231 edic6es, cor a dignidade que faltou
aos iltimos dias do Pasquim, a publicacio al-
ternativa de maior sucesso.
Gasparian perdeu a batalha, mas nio de-
sistiu da guerra. Voltou ao front cultural atra-
v6s de outros peri6dicos, como Argumento, e
se tornou editor de livros, comprando as edito-
ras Saga e Paz e Terra e dando-lhes uma linha
editorial de alto nivel. Nao visava apenas ne-
g6cios: queria espalhar id6ias, defender pro-
posic6es, assumir uma posiqio piblica, a da
lenddria burguesia nacionalista. Tentou at6 o
fim. Merecia acompanhamento melhor a sua
filtima morada.


Parece haver certa 16gi-
ca nos dois fen6menos: 6
quando se aproximam que os
dois Estados tao distantes
mostram como sao distintos.


AVISO
Esta ediaio traz mem6-
rias do cotidiano reduzidas
em fundio do material so-
bre a eleiqio, fechado a
todo vapor para que o jor-
nal chegue aos leitores an-
tes do feriado. No pr6ximo
numero a sebio deverd sair
normalizada.


Editor:
LOcio Flavio Pinto
Edigfo de Arte:
L. A. de Faria Pinto
Contato:
Tv.Benjamin Constant
845/203/66.053-040
Fones:
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