Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00302


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Full Text





oral
A AGENDA AMAZOr
SETEMBRO DE 2006 2


Pessoa%
NICA DE LUCIO FLAVIO PINTO
-QUINZENA N 376 ANO XX R$ 3,00


ATACAR R";`: m


PAGINAS6/7


ENDIVIDAMENTO
PAGINA 5


ELEIAO



0 perde e ganha

Mais incerto do que os resultados da eleigao do dia 10 sera o dia depois. Um pals em busca
do novo pode frustrar ainda mais suas esperangas. As formulas magicas e ficeis perderbo
seus efeitos. 0 que vira depois delas? E a pergunta a responder a partir do dia 2.


EleiSao direta e patrimonio valio-
so dos brasileiros, que a mal-
nascida repiblica costuma pri-
var do direito de escolher seus
dirigentes. O voto 6, portanto, um bem a
defender e cultivar. Mas certamente a
eleiqio de 1 de outubro deverA ser mais
um ingredient de intensificaqgo da crise
do que um component da sua resolu-
gio. Uma erva daninha, mesmo ainda ger-
minante, ji a sufoca e ameaqa-lhe a so-
brevivincia: o institute da reeleigqo.
Anomalia no que se pode considerar
- nio sem muita generosidade como


tradigqo republican brasileira, por isso
mesmo a possibilidade de reeleiqio foi
arrancada a f6rceps do 6tero do pais.
Fernando Henrique Cardoso, o mais lidi-
mo intellectual que ji chegou a presiden-
cia, agiu como vereador dos cafund6s do
sertio para assegurar sua continuidade
no trono, mirando o Palacio do Planalto e
atingindo a hist6ria.
O poder executive, desbragadamen-
te poderoso, agindo a margem do equilf-
brio institutional entire os poderes, mol-
dado formalmente na letra da lei maior,
corrompe quase absolutamente. A ree-


lei lo foi o combustivel que tocou fogo
no poder p6blico, incrementando ainda
mais sua promiscuidade multissecular
corn o poder economic.
Mesmo cor o desconto da publicida-
de, que agora a corrupgio passou a ter, e
do combat que a ela a Policia Federal
tem dado, como nunca antes (o que, en-
tretanto, nio 6 garantia de lisura ou de
resultados definitivos), nunca se roubou,
se prevaricou, se fez mais trifico de in-
fluencia e outros delitos assemelhados
(geralmente sob o colarinho branch)
CONTINA NA PAG 2






CONTINUA;AO DACAPA
como agora. A reeleiglo foi o rastilho de
p6lvora para os incendios morais.
Espera-se que os traumas sucessivos
levem a naqio a retirar do seu corpo po-
litico esse element de perturbaqlo, vol-
tando a impedir a reeleiqio dos que con-
trolam as chaves de acesso ao tesouro
p6blico. Se o refinado intellectual nao re-
sistiu h tentadlo de prolongar seu poder
pessoal, o mais legitimo dos homes do
povo a conquistar o topo do poder nio se
mostrou menos suscetivel a seduqgo.
O que pode ter impedido Lula de mon-
tar uma verdadeira nomenklatura no
Brasil, recrutada em quadros sindicais
aboletados na miquina estatal e desen-
voltos no transito pelos bastidores eco-
n6micos, foi o excess de confianqa e
tamb6m, numa equalizaqio do desvio que
nivela personagens tao distintos quanto
ele e FHC: a vaidade.
A pilhagem do eririo, a base da con-
centraqao de poder, engendrou uma elite
dirigente supinamente adestrada no cri-
me sofisticado. Um plutocrata brasileiro,
agora quase tanto quanto um chefe de
trafico de drogas, que Ihe copiou os ensi-
namentos, pode apresentar osjeitos mais
engenhosos de transferir dinheiro pdbli-
co para contas privadas, a rodo. E de
construir uma engrenagem capaz de
manter esse fluxo ininterrupto.
Lula, convencendo-se de ser uma for-
qa vital da natureza, conforme seus ami-
gos intelectuais o definiam, achou que ti-
nha o dom natural de ser invisivel. Essa
legitimidade Ihe garantiria a prerrogativa
de andar cor quem quisesse sem que a
mi companhia definisse seu carter, ao
contrdrio do que ensina a sabedoria po-
pular. O profeta esti acima dessas mis6-
rias humans. Por isso colocou varios
Greg6rios Bezerras ao seu lado, no Pa-
licio do Planalto, certo de que um verniz
de civilidade os manteria na linha.
O resultado 6 essa algaravia de mer-
cado, a indicar uma crise que nao se
ter qualificaqlo para mensurar. Nes-
se clima de anti-razao e irrisao, todos
os exageros sao autorizados e a socie-
dade, sem parametros confiiveis, age
como barata tonta alias, a melhor
conceituaqao dada i classes m6dia, ain-
da hoje aquela que bate o bumbo para
anunciar o espeticulo, mesmo aquele
no qual nao 6 protagonista.
O home que presidiri a reuniao do
dia 1 entrou nessa voragem de impreci-
sao, distorqio e histeria. O president do
Tribunal Superior Eleitoral, Marco Aur6-
lio de Mello, disse que a crise, agravada
pelas operag6es sujas em torno de um
dossi6 contra Jos6 Serra, candidate do
PSDB ao governor de Sao Paulo (o car-
go politico mais disputado depois da pre-
sid6ncia), 6 pior do que o "esc.ndalo


Watergate", que obrigou Richard Nixon
a renunciar para nao se tornar o primeiro
president dos Estados Unidos a ser afas-
tado atrav6s de impeachment.
A crise, de fato, ter alguma seme-
lhanqa. Mas nao 6 igual nem pior, ao
menos at6 agora (e exceto se o ministry
tem informaaqes exclusivas para o seu
negro pessimismo). A identidade que se
pode encontrar entire o Nixon de tr6s
d6cadas atris e o Lula de hoje 6 que
nenhum dos dois precisava de uma ma-
nobra suja para garantir a reeleiqio.
Nixon massacraria de qualquer jeito o
candidate do Partido Democritico, Ge-
orge McGovern, sem escuta clandesti-
na na sede do commit& eleitoral do adver-
sArio. A vit6ria de Lula, ji no 1 turno,
em nada tiraria proveito do pifio dossier
dos Vedoin contra Serra, nem poderia
funcionar como abre-te-s6samo para a
fraca candidatura de Aloisio Mercadante
em Sao Paulo.
At6 ai o president do TSE tern ra-
zio para acusar Lula e o president
da Repdblica para se defender, reivindi-
cando a presunqio da inocencia. Mas e
se Lula estiver mentindo, como Nixon
mentiu descaradamente? O epis6dio do
lltimo dossier de sujeiras nao seria isola-
do ou an6malo, mas sistemitico; nao
uma aberracio, senao uma rotina. Ni-
xon nao mandou invadir a sede do Par-
tido Democrata apenas para vencer
McGovern: desde que assumiu a presi-
dencia americana, vinha fazendo escu-
ta illegal, patrocinando operac6es escu-
sas, usando dinheiro de origem illegal,
gravando todas as conversas no sacros-
santo Salao Oval da Casa Branca. Um
home cor sopro de estadista era um
vendaval de velhacaria.
A sistemitica negative de Lula a ad-
mitir conhecimento pr6vio das maracu-
taias petistas e de assessores 6 sonsa,
oportunista e inverossimil. Mas at6 ago-
ra nao ha um elo concrete entire ele e
suas p6ssimas companhias. Hi motives
suficientes para negar-lhe a presuncio
de inocencia, mas nao h~ ainda uma pro-
va vdlida de acusaqio. Se e quando -
houver, talvez revele um submundo tao
espantoso quanto o que Nixon transplan-
tou para a sede do governor dos EUA.
Mas a antecipaqio de um home p6bli-
co corn a responsabilidade que tem o pre-
sidente do TSE, um julgador por f6 de
oficio, faz muito mal A inst~vel democra-
cia brasileira. E ao conceito que de um
magistrado deve-se fazer.
Manifestaq6es desse tipo ameaqam
esse bem essencial e atestam o recru-
descimento da praga do golpismo, que
tanto ronda as instituiqoes nacionais?
Talvez nao, mas inegavelmente serve
de mau exemplo. Ao inv6s de aceitar-
mos a tentaqlo de seguir mais um desvio


corretivo, ao inv6s de continuarmos a
praticar os exercicios da vida political de-
mocritica, o mais recomendivel 6 forta-
lecer a sociedade civil e enfraquecer o
poder p6blico, desconcentrando o poder
e estabelecendo circulos concentricos de
control social e ecos irradiantes de dis-
seminaqlo de poder, no salutar movimen-
to de ida de vontade ao topo da hierar-
quia e de volta de mando para a sua base.
Esse equilibrio pressup6e que ojogo
depend de um component indispensi-
vel: a capacidade de agir de cada cida-
dio. Essa capacidade se estabelece, cres-
ce e se fortalece cor information, corn
conhecimento e corn saber numa socie-
dade que propicia tais conquistas e a
valoriza. Na campanha eleitoral deste
ano um candidate h presidencia tentou
dar prioridade a esses fatores, sintetizan-
do-os numa palavra migica (por isso mi-
tica): educaqlo.
O candidate Crist6vam Buarque -
6 fraco, por virios aspects, inclusive de
marketing electoral. Mas sua fraqueza nao
esta na pregaqao que faz: a fraqueza se
concentra no audit6rio, sem ouvidos afi-
nados para o discurso da novidade, sem
condiq6es de descobrir a verdadeira no-
vidade. A necessidade, contudo, 6 tao
gritante que o fracasso da candidatura
nao impediu que o discurso do candidate,
sem a minima possibilidade de exito elei-
toral, se irradiasse para os concorrentes
com efetiva capacidade de vit6ria. O
Brasil sonha corn uma solucio, mas, por
nio acordar para a realidade, o que po-
dia ser utopia se degenera em pesadelo.
Quando nao tanto, em frustraiao.
O Brasil precisa de uma novidade,
mesmo que cara e falsa, como a que Jus-
celino Kubitscheck lhe ofereceu. A de
Lula se resume ao pr6prio Lula. O que
ele fez em quatro anos 6 uma continua-
qao quase integral dos mandamentos se-
guidos pelos antecessores tucanos, sob
uma conjuntura international muito mais
favorivel e uma realpolitik ajustada para
funcionarjunto h clientele do novo presi-
dente (em FHC a transferencia de ren-
da, da classes m6dia para os pobres, era
suplementar; em Lula, 6 fundamental; por
isso, os banqueiros ganharam como nun-
ca e o superivit primirio nao caiu, mas a
carga fiscal pesou mais e o deficit do setor
pdblico se agigantou, enquanto o reinves-
timento de capital produtivo minguou).
Como a 6nica ou maior novidade 6
o (ex) operirio-presidente, o que preo-
cupa ou assusta 6 ele mesmo, nao o
que faz. Ele faz diferentemente do que
diz, no essencial. Mas e se mudar? A
elite de sempre exalta Lula e quer que
ele ganhe, sob certas condic6es, mas
nao confia nele. O president se pare-
ce cada vez mais a essa elite, nos mi-
metismos e maneirismos que adotou,


2 SETEMBRO DE 2006 2" QUINZENA Journal PessoWll









Uma esperanga de justiga, enfim


A juiza Luzia do Socorro Silva dos
Santos, da 4a vara civel de Bel6m, rejei-
tou a acqo de indenizacao por danos
morais e materials, cumulada com tutela
inibit6ria e antecipat6ria, proposta por
Ronaldo Maiorana, Romulo Maiorana
Junior e Delta Publicidade contra mim e
o journal Didrio do Pard. Os donos de O
Liberal se consideraram ofendidos por
mat6rias divulgadas pelo Didrio sobre a
agressio praticada de Ronaldo Maiora-
na no ano passado, no Parque da Resi-
dencia. Al6m de cobrar indenizacio, pre-
tendiam impedir que tanto o jornalista
quanto o journal voltassem a escrever so-
bre o assunto, considerado ofensivo.
A juiza, em sentenca datada de 30 de
agosto, acatou a preliminary que suscitei,
de ilegitimidade passiva para figurar
como reu na acio. Argumentei que nao
tinha responsabilidade sobre as mat6ri-
as, publicadas por iniciativa do Didrio do
Pard, que noticiaram e repercutiram um
fato testemunhado por dezenas de pes-
soas, em local piblico. Examinando o
m6rito da demand quanto ao journal, a
magistrada concluiu que o Didrio se li-
mitou a transmitir ao piblico fato de efe-
tivo interesse, sem se configurar em abu-
so do direito de informaaio, sem a inten-
qio de lesar a imagem de terceiros, "no
exercicio regular do direito de expresso
e informaiao".
Quanto ao pedido de direito de res-
posta dos Maiorana, argumentou que eles
nio comprovaram que houve resistencia
do journal h veiculaqio de sua versio so-
bre os fatos, nem recorreram a via judi-


cial especifica para exerce-lo. Sobre as
tutelas requeridas, mostrou que impedir
novas noticias a respeito seria praticar a
censura pr6via a imprensa, vedada pela
Constituiqao Federal.
Os Maiorana ajuizaram 12 ac6es e
uma interpelacio no f6rum de Bel6m
contra mim ap6s a agressao, sendo nove
criminals (cor base na Lei de Imprensa,
por alegada calinia, injliria e difamacio)
e quatro civeis, de indenizacgo por ale-
gado dano moral e material. Ainda esta-
va em curso uma outra ag o, de Rosan-
gela Maiorana Kzan, irma de Ronaldo e
R6mulo e diretora administrative da em-
presa. Ela pretend impedir o Jornal
Pessoal de a ela se referir para sempre.
A aqio decidida pelajuiza Luzia dos
Santos 6 uma das duas que tramitam na
4" vara. HA mais uma na 9" e outra na
11" vara, ainda sem decisao. O process
instaurado contra Ronaldo pela agressao,
a partir de denincia do Minist6rio Pibli-
co do Estado, cor base em inqu6rito po-
licial, foi arquivado. O agressor pagou
uma multa de 15 mil reais e ficou livre.
Esta 6 a segunda vez que comero ga-
nhando em 32 processes instaurados con-
tra mim desde 1992. A outra ocasido foi
justamente na acio civel de Rosangela,
equivalent a censura previa atrav6s da
justiga, que a juiza Eliana Abufaiad (hoje
desembargadora) rejeitou, como titular da
8 vara. Nas outras comecei perdendo. E,
invariavelmente, terminei perdendo aqui,
revertendo a situaqio apenas em Brasilia
ou quando as a6oes prescreveram. Por
isso meus perseguidores ainda nao alcan-


qaram um de seus intentos: acabar cor a
minha condigio de r6u primirio,
Nenhum dos autores dessas ay6es exer-
ceu o direito de resposta, atrav6s do qual
podiam contestar as mat6rias jomalisticas
supostamente ofensivas. Quando interpe-
lado pelos Maiorana, garanti-lhes que pu-
blicaria integralmente a carta que me re-
metessem, no uso desse direito fundamen-
tal, sem fazer comentirios a respeito na
mesma ediqio. Mas nio escreveram car-
ta alguma, nem utilizaram o recursojudicial
cabivel para faz&-la publicar. Preferiram
aproveitar as aoqes de indenizaqio para
requerer a antecipagio da tutela.
Sem motive plausivel nemjusteza, a
pretensao foi indeferida pelajuiza Luzia
do Socorro dos Santos. Espero que sua
decision se torne refer&ncia para as de-
mais apreciaqoes judiciais e um indica-
dor de justiqa no horizonte.



TABA INDUSTRIAL
A Federacgo das Indtilsrias no Etsa-
do do Pari iem 311 empre,.iros na
s,11 direidria e\eculi ta. coin nada
menos do que II \ ice-pre'idecnes,
alem de seis conelliciros e Inai unm
delegado. o senador Fle\ Ribeiro. do
PSDB ie e\-presidenme di enlidde),
que ndo faz panre da direioria 0 pie-
sidenie d& Fiepa e tambem o prc-t-
dente dos conselhos regional, do Sesi
e do Senai.
NMoe muitochete para potuco fndio.'


CONTINUAqAO DA PAG 2 .::^i^ M'a5*a -. ;. 3i..


contrariamente a sua origem. Mas nio
6 da turma. Nio 6 mais um estranho,
mas ainda 6 um postiqo.
Talvez a crise fosse ainda mais gra-
ve se Lula tivesse tentado ser realmen-
te o novo, um novo que nunca antes hou-
ve nas prateleiras das elites brasileiras,
disposto a encarar os desafios que Ihe
foram propostos pelas parcelas da elite
que divergem da formula pronta de sem-
pre e atendesse as aspiraa6es dos que,
nesse espeticulo, nunca foram al6m do
"sereno", se a tanto chegaram. Mas
essas "forqas da natureza" costumam
ser centripetas, o que explica as mis
companhias, nem tio danosas (ainda)
como foram as de Stalin, o ideal perver-
tido (mas inevitivel) de Lenin e dos que
o tomam como modelo.
O Brasil anseia pelo novo, mas,
como nao reformou a estrutura mais
alta do poder, o que esta eleiibo deixa


na alma e no c6rebro 6 um ranqo de
desilusio: as alternatives oferecidas
pela mAquina eletr6nica sio insatisfa-
t6rias e a perspective derivada da de-
cisio do dia 1 desanima.
Se no Brasil 6 quase assim, no Pard
6 exatamente assim. A alternative aos
12 anos de hegemonia tucana 6 ruim,
mas a manutenqio dessa oligarquia 6
ainda pior. O mal que a persistencia do
populismo em Jader Barbalho causou ao
Estado nio pode ser subestimado. Os
seus sucessores se estabelecem de for-
ma persistent cor um 6nico cartucho
em sua arma: o anti-jaderismo. Basta a
contraposigio a um passado de vilanias
para que o cidadio, martelado por uma
milionaria e sistemitica propaganda, se
convenca de que as melhorias acresci-
das sio reais e naio miragens. Aplican-
do sua competencia professional ao di-
agn6stico do Para, o m6dico Almir Ga-


briel bem podia dizer, a maneira do ge-
neral Garrastazu M6dici, que a econo-
mia vai bem, mas o povo vai mal.
Nio hi outra maneira de definir o
"novo Para", que o PSDB quer conti-
nuar a encenar. O Estado cresce eco-
nomicamente e esti mais organizado
para continuar a crescer (nio por mui-
to tempo, por6m, porque os seus prin-
cipais produtos acarretam a exaustio
dos seus muitos e poderosos recursos
naturais). Cresce ainda mais a massa
dos que nio foram e nunca serio con-
vidados para esse banquet. Uma
mesa melhor estard sendo servida no
dia 1? Nio. O Pari 6 um Estado rico
em natureza e pobre de lideres. Assim
6 e assim, infelizmente, ainda serd de-
pois de 1 de outubro.
Mas a democracia ainda merece
que acreditemos nela. A despeito dos
democratsas.


Journal Pessoal 2. QUINZENA SETEMBRO DE 2006









Romulo Maiorana chega a Belem: 53 anos atris


Ha 53 anos o pernambucano Romu-
lo Maiorana chegou a Bel6m. Num dia
de setembro de 1953 ele apareceu pela
primeira vez na "terrasse" do Grande
Hotel, o principal ponto de encontro da
elite da cidade naquele ano, marcado pelo
Congress Eucaristico Nacional, reali-
zado na capital paraense, e pela maior
cheia de todos os tempos do rio Amazo-
nas. A16m de freqiuentar a boate do so-
fisticado hotel, Romulo tamb6m danqa-
va na sede do Bancrivea, que ficava
nos funds.
Conversava ficil, era simpptico e in-
sinuante. Criava ambiente favordvel para
seu maior interesse naquele moment:
comeqar a fabricar flamulas e places
publicitirias. Era ao que se dedicava a
sua Duplex Publicidade, estabelecida em
Natal, no Rio Grande do Norte, em soci-
edade com Nelson Valenga.
Romulo estivera antes em Fortaleza
e Sao Luis, mas nao se convencera so-
bre esses mercados. Bel6m parecia mais
receptive e era, de fato: os bons resul-
tados o levaram a usar pela primeira vez
o silk-screen em publicidade e a langar
o Guia Duplex, inventariando as oportu-
nidades locais de neg6cio. Uma vez fi-
xado um p6 no com6rcio, o outro foi fin-
cado no jornalismo: a experiencia de Ro-
mulo se desenvolvera nessas dois senti-
dos, ainda i cata de um sucesso que,
quando ocorria, era efemero. Mas nao
lhe faltavam persistancia e auddcia.
Corn 14 anos, foi mandado para a ter-
ra de origem de seus pais, nascidos na
Calabria e estabelecidos inicialmente em
Recife. Concluiu na Italia de Mussolini o
curso cientifico e iniciou o primeiro ano
na Faculdade de Ciencias Econ6micas.
Serviu na guerra, mas sem entrar em
combat: sua participaqao se limitou a
retaguarda, como datil6grafo.
Finda a Segunda Guerra Mundial, em
1946, voltou ao Brasil, mas para Natal,
onde sua famflia montara uma confeita-
ria, depois de deixar Pernambuco. Ro-
mulo passou a dividir o seu tempo entire
a confeitaria da familiar e seu primeiro ex-
perimento jornalistico: uma coluna soci-
al, que comeqou a escrever na Tribuna
de Natal, cujo redator-chefe, Aluizio Al-
ves, viria a ser o governador do Estado.
Mas o que ele queria mesmo era cres-
cer. Por isso, nos tres anos seguintes se
dividiu entire o Rio de Janeiro e Sao Pau-
lo, como vendedor da Olivetti, uma mul-
tinacional italiana. Ganhou algum dinhei-
ro, mas nto se satisfez: queria ser o dono
do seu pr6prio neg6cio, tornando-se em-
presario. Voltou para Natal e abriu a Du-
plex. Mas o mercado limitado da capital
do Rio Grande do Norte era um proble-


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A primeira loja da cadeia de magazines de Romulo funcionava na esquina da avenida
President Vargas cor a rua Oswaldo Cruz, hoje ocupada pela previdencia social


ma e foi sondar novos horizontes. Final-
mente, em 1953, se fixou na cidade da
qual nao sairia mais, nela morrendo, 33
anos depois, como um de seus mais co-
nhecidos e influentes cidadaos.
Romulo alcanqou essa posicqo des-
tacada enfrentando uma corrida de obs-
ticulo e corn revezamento. Deu partida
para uma nova fase no com6rcio de Be-
16m, instalando uma rede com quatro lo-
jas elas deixavam para tris o modelo aca-
nhado e rdstico adotado a partir do p6s-
guerra, que desfigurava o passado sem
se atualizar ao present. Suas lojas nao
atrafam apenas pelas mercadorias que
ofereciam aos clients: comeqavam a
impressionar a partir das vitrines de luxo.
Os funciondrios tinham boa apresenta-
cao, cor destaque para as bonitas aten-
dentes, e o serviqo ji era personalizado,
corn cr6dito fdcil.
Al1m de vender roupas feitas e arti-
gos dom6sticos em seus magazines, que
chegaram a ter 150 funcionirios, Romu-
lo fundou a Transamazon, empresa de
transport, comprou metade das ages
de uma fibrica de confeccqes (a Stras-
sy) e era o controlador de uma nova fir-
ma de publicidade. Mas nao ficou dentro
de suas lojas: foi um dos 13 fundadores
do Clube de Diretores Lojistas, introdu-
zindo o Servigo de Proteqio ao Cr6dito
em Bel6m.
O que ele mais queria, por6m, era se
tornar dono de umjornal. Estava em con-
diq6es de comandar o neg6cio e de par-
ticipar da sua redagqo. Um ano depois
de chegar a Bel6m ele ji era um dos re-
datores da coluna social de Armando Pi-
nheiro na Folha do Norte. Corn SoCai-
te, que passou a dividir corn Pierre Bel-
trand (Ubiratan de Aguiar) e Cavaleiro
de Macedo, saiu da retaguarda para a
linha de frente do novo tipo de colunismo
social, mais preocupado com os aconte-
cimentos politicos e econ6micos do que


simplesmente com o mundanismo. Assi-
nou outras colunas ate comprar O Libe-
ral, em 1966, finalmente realizando o
maior dos seus pianos.
Mas nao foi simples nem pacifico fe-
char tumultuosamente sua cadeia de lo-
jas, num epis6dio at6 hoje nio bem expli-
cado, e comeqar a carreira como dono
de journal, formando o maior imp6rio de
comunicagqo do Parf e do norte do pais.
Apesar do veto que seus sucessores ten-
tam impor a hist6ria, um dos problems
mais s6rios que Romulo teve diante de si
foi limpar o seu passado, pondo fim a
acusac6es e suspeiqbes.
Em marco de 1960, por exemplo, o
goverador da entio Guanabara (hoje Rio
de Janeiro), o udenista Carlos Lacerda,
incluiu o nome de Romulo entire contra-
bandistas de Bel6m, numa entrevista
dada a televisao e reproduzida nos jor-
nais. Lacerda nunca provou a acusaqio,
mas ela teve grande repercussao na 6po-
ca, inclusive por citar nomes ainda mais
famosos, como o do ex-governador Mou-
ra Carvalho.
Em 1974 esse tipo de n6doa ainda
ecoava. Ela foi lembrada pelo journal A
Provincia do Pard, numa s6rie de vio-
lentos editorials, que caracterizaram um
autentico duelo verbal cor O Liberal. A
Folha do Norte, comprada por Romulo,
era uma caricature do poderoso journal de
Paulo e Jodo Maranhdo, e os dois grupos
disputavam-lhe a sucessao, investindo
numa tecnologia de ponta, a impressao
"a frio", em off-set.
Moralmente, A Provincia, que se con-
siderava representante da famflia para-
ense, se proclamou vitoriosa. Mas, de
fato, Romulo Maiorana foi quem ganhou.
Superados os maiores obsticulos, ele
conquistaria um poder sem paralelo na
hist6ria da imprensa paraense, cujos ecos
se fazem sentir at6 hoje, freqtientemente
como cacofonia do passado.


A SETEMBRO DE 2006 2QUINZENA Jornal Pessoil









CVRD multinational: qual o prego a pagar?


Em 2002, 10 cidadaos propuseram, pe-
rante ajustica do Rio de Janeiro, uma aaio
popular contra a venda da Companhia Vale
do Rio Doce, realizada cinco anos antes, em
abril de 1997. Tiveram o cuidado de pedir
celeridade processual porque um dos auto-
res ji estava cor mais de 65 anos de idade.
Mostraram tamb6m a relevancia de
uma definicio breve em funqio da nature-
za do pedido, que pretendia obrigar a ex-
estatal a reparar os danos causados ao in-
teresse piblico por sua privatizaqio ago-
dada, pelo seu valor de venda subestimado
e pelo nio cumprimento de obrigaq6es que
Ihe estavam impostas.
Passados quatro anos, a aqo continue sem
qualquer decision na 12" vara civel do Rio.
Constataram os autores que os r6us adota-
ram em conjunto uma estrat6gia para criar
um fato consumado, "tomando ineficazes
quaisquer medidasjudiciais". Para alcanqar
esse prop6sito, aproveitavan-se "da pruden-
cia natural dos. julgadores, que somente se
animam a exercer o Poder Geral de Caute-
la quando configuradas situaq6es de risco
iminente e manifesto, masque as vezes che-
gam a um ponto sem retomo, levando a co-
gitar da paradoxal tese da 'sanat6ria de nu-
lidades em homenagem a boa-fi'".
Mesmo assim, decidiram, no dia 30 do
mes passado, acrescentar i aqio inicial um
requerimento de protest, notificaqio e in-
terpelaqio para assegurar que o objetivo da
demand naio seja prejudicado ou mesmo
inviabilizado: obrigar a CVRD a recolher ao
tesouro national "expressivas parcelas pe-
cunidrias" que teria sonegado, graqas a con-
diq6es leoninas que a favoreceran na pri-
vatizaqio. Esse ressarcimento terd que ser
calculado sobre os enormes lucros liquidos
que a empresa acumulou desde 1997.
O sinal de alerta soou quando a Vale do
Rio Doce anunciou, tambem em agosto, que
apresentara uma "oferta hostile" para a aqui-
siqio de todas as aq6es ordinirias (com
direito a voto nas decis6es da empresa) da
Inco (International Nickel), do Canada, pelo
preqo a vista de 86 d6lares canadenses por
cada aqao ordiniria, ou 17,7 bilh6es de d6-
lares americanos no total, correspondents,
numa livre conversio cambial, a 38,4 bi-
lhies de reais.
Esse valor lembram os autores popu-
lares equivale a mais de 10 vezes o preqo
pago (R$ 3,38 bilh6es) para a proposta vi-
toriosa de aquisiqio do control acionirio
da CVRD pelo cons6rcio formado pelo Bra-
desco, a Bradespar e a Companhia Sidernr-
gica Nacional, na v6spera do leilio d priva-
tizaqio.
Na nota obrigat6ria de comunicaqio que
enviou a Comissio de Valores Mobilidrios, a
Vale informou que quatro bancos europeus -


Abn Amro, UBS, Credit Suisse e Santander
- dariam suporte financeiro h operacio, e que
o Banco Nacional de Desenvolvimento Eco-
n6mico e Social (BNDES) se colocou i dis-
posicio para tamb6m financial a transaCio.
O andncio sobre a maior oferta de com-
pra de uma empresa ji apresentada em toda
a hist6ria da Am6rica do Sul teve um efeito
imediato: duas agncias de classificaqio de
risco, a Moody's e a Fitch, decidiram revisar
negativamente os ratings da Vale. Isso por-
que, se a oferta da ex-estatal for aceita, sua
dfvida passari de US$ 5,9 bilh6es, em 30 de
junho, para US$ 25,6 bilh6es. Um crescimento
de mais de quatro vezes, capaz de causar
preocupaq6es a analistas mais rigorosos.
Os autores se reportam ainda a um co-
mentirio que Miriam Leitio fez em sua co-
luna de economic nojomal O Globo. Segun-
do ela, o Canada seri "o maior desafio que
a Vale ter pela frente. A empresa teri de
convencer as autoridades canadenses de que
serd um bom neg6cio para o pais. Antes de
tudo, os investidores terio de dizer se que-
rem vender para a Vale. Mesmo que os in-
vestidores prefiram vender para a Vale, as
autoridades canadenses poderdio dizer nio.
Por uma lei chamada Canadian Act, o go-
verno do pais levanta uma s6rie de quest6es
sobre a operaaio antes de aprovi-la. E pro-
mete dizer sim ou nio em 45 dias. A Vale
teri de provar que tem boas intencoes, que
esti comprando a empresa para manti-la
funcionando e investor nela".
Nao 6 exagero prever observam os
autores que, no caso de resultados negati-
vos como entrevistos pelos comentaristas
especializados, o control acionirio da
CVRD, objeto do multifirio contencioso
popular, seja transferido ao cons6rcio de
bancos compromissados para a linha de fi-
nanciamento, a menos que o principal agen-
te da political de investimentos do Govemo
Federal a institui&io financeira piblica BN-
DES conceda o apoio financeiro subsidii-
rio suficiente, negado em crises econ6micas
similares recentes (por exemplo, caso Va-
rig), fazendo real mais uma vez a conhecida
formula de que, no Brasil, "privatizam-se os
lucros e socializam-se os prejuizos".
Dizem-se constrangidos ao constatar, em
moments como esse, "a vocaqio de terra
espoliada, comuc6piado mundo, como o Bra-
sil, cujas autoridades diversamente de ou-
tros pauses, como o Canada no exemplo da
hora nao se preocupam nem precisan ser
convencidas se uma operaqio do vulto anun-
ciado 'seri um bom neg6cio para o pais"'.
Mas enquanto se compromete publica-
mente a "participar como membro da co-
munidade canadense", a partir da compra
da Inco, a maior produtora de niquel do mun-
do, a CVRD nio demonstra o mesmo cui-


dado cor suas obrigaoes no pais native,
"inclusive omitindo mais uma vez em comu-
nicados dessa natureza o fato de existir um
enorme contencioso popular" no Tribunal
Regional Federal da 1a Regiao, corn sede
em Beldm, questionando a titularidade do
control societirio da empresa. Desse con-
tencioso "pode resultar no decreto judicial
de nulidade da venda".
Os autores assinalam "o mesmo com-
portamento descuidado" perante a justiqa
carioca: nenhum dos tr6s personagens acio-
nados (a Vale, a Uniio e o entao president
Femando Henrique Cardoso) teve "a preo-
cupaqdo de informar nos autos a operacao
financeira de alto risco, que p6e em perigo
de dano irreparivel os frutos civis (lucros
liquidos), que serve de base ao objeto per-
seguido na aqio popular". Entre os quais esti
o recolhimento dos valores devidos ao fun-
do de melhoramento e desenvolvimento re-
gional a partir dos lucros lfquidos da CVRD
nos 12 Estados onde a ex-estatal atua. Cor
o beneplicito e comando do BNDES, essa
obrigacqo legal foi substituida por uma "do-
acio ridicule aviltada" de R$ 86 milhoes.
Os autores alertam ainda que a opera-
:io de compra da Inco pela Vale, se consu-
mada, al6m de frustrar os efeitos da aqio
popular e desrespeitar os direitos dos cida-
dios, feridos pela venda da estatal, "repre-
senta em si mesmo um manifesto atentado
a dignidade da Justiqa Brasileira". Mesmo
que nao consigam uma decis.o judicial an-
tes de formalizada a transacao, anunciam a
intencfo de proper uma aqio de atentado,
requerendo a declaraqio de nulidade da com-
pra da Inco pela Vale.
De imediato, pediram a intimacio dos
responsaveis pelas duas empresas, para que
eles n~o aleguem no future terem agido sem
dolo, sabendo que estdio usando "recursos
financeiros imprescindiveis para assegurar
proviso para contingencias (possiveis per-
das com a aaio popular em curso)".
Tamb6m querem a intimacaio do BN-
DES, considerando que seu president, De-
mian Fiocca, "tomou public o prop6sito de
suprir cor refinanciamento os eventuais
danos materials" decorrentes da aquisidio
da empresa canadense, "sendo certo que os
recursos a serem utilizados para tanto res-
sumam interesse p6blico". Pedem igualmen-
te a ampla divulgaqio do inteiro teor da pe-
tiqio, inclusive no Canadai,
Pode ser que os autores da aiao popular
continue aesbarrar no silenciojudicial, mas
talvez eles consigam tirar a opiniio p6blica
do estado letirgico em que o estrondoso
andncio da aquisiqio da Inco a tern mantido
desde entio, fazendo-a pensar em outras
conseqiiencias desse ato e nio s6 na consa-
graqio da CVRD como a primeira multina-
cional brasileira para valer.


Journal Pessoal 2" QUINZENA SETEMBRO DE 2006 5










Chamar grileiro de pirata


Chamar um grileiro de terras de pi-
rata fundidrio tornou-se crime no Para.
Quem usar essa expressio poderd ser
obrigado a indenizar o suposto ofendi-
do por causar-lhe dano moral por ato
ilicito. Cor base nesse entendimento,
a 3a Cimara Civel do Tribunal de Jus-
tica do Estado manteve, por maioria de
votos, no dia 13, a condenaqio que me
foi imposta no juizo singular. No ano
passado, o juiz Amilcar Guimaraes, ti-
tular da 1a vara civel de Bel6m, mas no
exercicio da 4a vara, acolheu a aaio de
indenizaqao contra mim proposta pelo
empresario Cecilio do Rego Almeida e
me condenou a pagar-lhe oito mil re-
ais, mais acr6scimos, que resultario
num valor bem maior.
Meu "crime" foi uma mat6ria que
escrevi no meu Jornal Pessoal, mais
de seis anos atris, comentando repor-
tagem de capa da revista Veja de uma
semana antes, que apontava o dono da
Construtora C. R. Almeida como "o
maior grileiro do mundo". Com base em
um titulo de terra que ningu6m jamais
viu e todos os 6rgaos piblicos negam
que exista, o empresdrio se declarava -
e continue a se declarar dono de uma
irea que poderia chegar a sete milh6es
de hectares, no vale do rio Xingu, re-
giao conhecida como "Terra do Meio",
na qual hi a maior concentraaio de
mogno da Amaz6nia (o mogno 6 o pro-
duto de maior valor da regiao). Se for-
masse um Estado, esse mega-latifindio
constituiria a 21" maior unidade da fe-
deraqio brasileira.
C. R. Almeida props a acio em Sio
Paulo. Mas como o foro era incompe-
tente, a demand foi transferida para a
comarca de Bel6m, onde o Jornal Pes-
soal ter sua sede. Durante mais de cin-
co anos a aaio foi instruida na 4a vara
civel. A juiza responsivel pelo proces-
so, Luzia do-Socorro Silva dos Santos,
se ausentou temporariamente para fa-
zer um curso no Rio de Janeiro. O juiz
Amilcar Guimaraes a substituiria por
apenas tres dias, mas, de fato, s6 assu-
miu a vara no 6ltimo dia, 17 dejunho do
ano passado, uma sexta-feira.
Nesse dia ele pediu ao cart6rio que
os autos, corn quase 400 piginas, Ihe
fossem conclusos e os levou para sua
casa. S6 os devolveu na terqa-feira, dia
21, quando a juiza substitute j estava
no exercicio da vara. Junto cor os au-
tos veio a sua sentenqa condenat6ria,
datada de quatro dias antes, como se a
tivesse lavrado no iltimo dia do seu


exercicio legal na funqgo. A farsa le-
vava a uma constataqao de igual gra-
vidade: ojuiz leu todo o volumoso pro-
cesso e elaborou sua sentence num
dnico dia, algo provavelmente in6dito
nos anais dojudicidrio.
Representei contra o magistrado,
mostrando que a sentenqa era illegal,
que o process nio estava pronto para
ser sentenciado (estava pendente infor-
ma~go da instincia superior sobre um
recurso de agravo que formulei exata-
mente contra o julgamento antecipado
da lide, que o julgador efetivo preten-
dia realizar), que os autos sequer esta-
vam numerados e que a sentenqa re-
velava a tendenciosidade e o desequi-
librio do sentenciante.
A Corregedora Geral de Justiqa
acolheu a representaqio, mas, por mai-
oria, o Conselho da Magistratura, en-
dossando voto do relator, desembar-
gador Milton Nobre, president do Tri-
bunal de Justica do Estado, decidiu nio
processar o juiz, embora ele pr6prio,
ao contestar a representaqio, tivesse
confirmado sua parcialidade, manifes-
tando "interesse pessoal" na deman-
da. Recorri em julho dessa decision,
mas o embargo de declaraqio ainda
nio foi apreciado.
No plano judicial, apelei da condena-
qio. A relatora do recurso na 3a Cama-
ra Civel, desembargadora Maria Rita
Xavier, a manteve. A revisora, desem-
bargadora S6nia Parente, pediu vistas.
Na sessao do dia 13 apresentou seu
voto, divergindo da posiqio da relatora.
Argumentou que a grilagem de terras
da C. R. Almeida no Xingu 6 fato p6bli-
co e not6rio, comprovado por diversas
mat6rias jornalisticas juntadas aos au-
tos, al6m de pronunciamentos unanimes
de 6rgios ptblicos que se manifestaram
oficialmente sobre a questao, incluindo
a Polio, incluindo a Polm oficialmente
sobre a questrras da C. R. Almeida no
Xingu ealizarnso. Ojuiz Amcia Federal,
o Minist6rio Piblico Federal e a Justica
Federal. Eu apenas aplicara ao autor da
grilagem uma expressed de uso corren-
te nas areas de confront, conforme ela
pr6pria p6de constatar quando atuou
como juiza numa dessas areas, o muni-
cipio de Paragominas.
A desembargadora-revisora disse
que a mat6ria do Jornal Pessoal es-
tava resguardada pela liberdade de ex-
pressao e de imprensa, tuteladas pela
Constituigio Federal em vigor. O texto
jornalistico expressava uma situaqio


conhecida e lamentada pelos que se
preocupam com o future da Amaz6nia,
assolada por agress6es como a devas-
ta~go da natureza, a apropriaqco ilicita
do seu patrim6nio e at6 mesmo o tra-
balho escravo.
Muito emocionada ao ler esse trecho
do seu voto, a desembargadora disse
que Castro Alves, se voltasse agora, en-
contraria um novo navio negreiro nos
caminh6es que trafegam pelas estradas
amaz6nicas carregando trabalhadores
como escravos. E manifestaria sua in-
dignadio da mesma maneira que eu, ao
escrever no Jornal Pessoal.
A desembargadora, uma das mais
antigas do TJE, salientou que a expres-
sao em si, de "pirata fundidrio", 6 ape-
nas um detalhe e irrelevant, porque ela
foi aplicada a um fato real e grave, no-
ticiado em virios outros jornais. "Por
que s6 este journal de pequena circula-
qio, que se edita aqui entire n6s, 6 pu-
nido?", indagou.
Suas judiciosas observaq6es, po-
r6m, nio tiveram eco. A desembarga-
dora Luzia Nadja Nascimento, esposa
de Manoel Santino Nascimento (que
deixou a chefia do Minist6rio Piblico
do Estado para ser secretirio de de-
fesa social do governor sem maiores
consideraq6es, apresentou logo seu
voto, acompanhando a relatora. Nem
permitiu que o president da sessao,
desembargador Geraldo Correa Lima,
fizesse as observaqoes que anunciou
que pretendia fazer, antes de passar-
lhe a palavra. A decisao da desembar-
gadora ji estava tomada.
Como havia apenas as tres desem-
bargadoras no moment em que a vota-
qio foi iniciada, em maio, os dois outros
magistrados que se encontravam na ses-
sio do dia 13 da 3' Camara Cfvel nao
puderam votar. Por 2 a 1, minha conde-
naqio foi mantida.
Esse entendimento, de que 6 ato ilf-
cito aplicar a expressao "pirata" aque-
le que 6 proclamado "o maior grileiro
do mundo". 6 exclusive da justiqa do
Pard. Cecilio do Rego Almeida tamb6m
processou a revista Veja, um procura-
dor p6blico do Estado do Pard e um ve-
reador de Altamira pelo mesmo moti-
vo, mas todos foram absolvidos pela
justiqa de Sio Paulo.
Ao inv6s de condend-los, como aqui
se fez comigo, ojuiz Gustavo Santini Te-
odoro, da 23a Vara Civel, elogiou-os por
defender o interesse p6blico. Justamente
no Estado que sofre a apropriaqio in-


tA SETEMBRO DE 2006 2QUINZENA Jornal Pesso;ll









tornou-se crime no Para


d6bita do seu patrimonio fundidrio, com
a mais escandalosa fraude de terras, a
grilagem 6 protegida e quem denuncia o
grileiro 6 punido.
A decision ndo constitui apenas um
infortinio pessoal: revela uma tendon-
cia dominant nosjulgamentos dajusti-
qa paraense, capaz de causar preocu-
paaio aos que defended o interesse
pdblico e o predominio da verdade. O
dono da Construtora C. R. Almeida foi
declarado persona non grata pelo po-
der legislative estadual exatamente pela
pirataria que tem praticado cor as ter-
ras piblicas paraenses. A Corregedoria
de Justica do Estado ji mandou bloque-
ar as matriculas dos supostos im6veis
de Cecilio de Almeida, afastando de vez
do cart6rio de registro de im6veis de
Altamira as duas tabelids responsiveis
por essas inscriq6es fraudulentas.


A justica federal, deferindo aqao
proposta pela Procuradoria Regional
da Repdblica, sustou preventivamente
qualquer pagamento que o Ibama pre-
tendesse efetuar como indenizaqao
pela incorporaqgo das "propriedades"
do empresirio na implantacao de re-
servas federais, que se superporiam a
essas ireas. E determinou tamb6m a
retirada das terras griladas de tropa
da Policia Militar, subordinada a Se-
cretaria de Defesa Social, chefiada
pelo ex-procurador Manoel Santino do
Nascimento, acusada pelo Ministdrio
Pibblico Federal de atuar como milicia
privada do empresirio.
Ha, portanto, uma investida em to-
dos os niveis do poder pdblico esta-
dual e federal no Pari para p6r firm
a esse avanqo ilicito sobre o patrim6-
nio pibico fundiirio, exceto, ao que


parece, em tendencias ainda majori-
tirias nos colegiados do Tribunal de
Justiqa do Estado.
Foi dessas instancias, alias, que sa-
iram as duas 6nicas decis6es favora-
veis a grilagem do Xingu, da lavra dos
desembargadores (agora aposenta-
dos) Joio Alberto Paiva e Maria do
C6u Cabral Duarte. Ambos. por co-
incidencia sintomrtica, tamb6m me
processaram por critical decis6es ju-
diciais favoraveis i apropriaqio ilici-
ta de terras paraenses. Num dos pro-
cessos, o desembargador Paiva con-
seguiu a minha condenaqio. Mas nto
conseguiu deter a roda da hist6ria.
Com pedras pelo caminho e pedre-
gulhos nas encostas, ela avanqa -
esperamos que no rumo da verdade
e dajustica. E em defesa do superior
interesse p6blico.


Lucio Flivio e a ponta do iceberg


Narciso Lobo
O jornalisia Lucio Flii io Pinto \em protagonizando.
no Pard, urna das mais herdicas luias pela lihberda-
de. de que se rein noticia. desde que, em 1987. to-
daj, as ports da chamada grande imprensa paraen se se fe-
charlam para ele. Para nao morrer pelo silencio, decidiu edirar
Seu tosco. Ima, bern escnto. Jornal Pessoal. O uiltmno episo-
dio de suj eimrcionante novela rem a .er corn o falo de ter
repercuTido. na n ti .leitier que edita quinzenalmenie. marina
de capu da re i Ista i ij. em 210(i0. que apontaa o empresdnrio
Cecilin do Reo Ailmeida. donoda Contrutora C. R. Almeida.
como o maior grileiro do mundo. O "crime" de Ltcio Fla 10o,
espaniado corn tdl extensao, no pais que lulu por Reforma
Agrrria, toi t haImn-lo de "pirata fundirio".
Em nora 5 opini:o public. neise final de semana. Lii-
cio Flivio de-scre\eu. com deralhes. a badalha. que \em
tra% ando na Jus[ina paraense: incomodado con o noticiai-
no de tUia e coin a repercussioo. no Para. ia JP. o em-
presario props a;ao. em S. Paulo, contra a re% i~ta, seu
reporter, um procurador public do Estado e urn vereador
de Aliamira, aldm do mencionado Jornal Pessoal. Como
era de se eperar. todos. meno.s o JP, foram absol\ idos e.
Inclusive, elogiados pelojuiz Gutiavo Santini Teodoro. da
23". \ara Cifel: o Jornal Pessoal ficou de tora porque a
iuiz con.siderou que o foro competence para julg.-lo era a
comaica de Belem. onde a nctn \le'er temI sua wede. Alli
comeauva a Vw cruI is de LIicio Fli\io.
Depoi:s de mais de quatro anos. e coin o,; autos. ape-
,ar de incompleis., crom mals de 40U paginaLs. unm jui subs-
titutE. eml apenas um dia. recentemente. emitiu sentenFa
condenando o jornilista a pagar RS 8 mil, mani acresci-


mos. por ter repercurido. em sua terra. a matenra de I/jc'.
\ale de,,tacar. no enianto. que o comportamento da Justi-
j' paraense nao foi uno. Na apelaJo,. Luuo Fkli\ li en-
connrou tozes dissonances, que nao pactuaram coIm a cu1i-
denaq3o. mas. de\ ido a mecanismos formais. a pena pei -
maneceu. Ao jornalisia, doravanre, caberi. como ultima
opc5o, recorrer ao Superior Tribunal de Juiica e a1o Su-
premo Tribunal Federal em Brasilia.
Tenho acompanhado de perto, e c que se pode falar
de proximidade. numa regiio tao asta. os percalos dec-
se companheiro para informal correlumente seus leio-
re.s. Lembro, certa ocasijo, hi dois ou trri, anos. quando
o e-sperianmos, na Ufam. para abrir uma de nosas Se-
manas de Comunlcacaio: nj itirnma hora. cancelou a parti-
cipicao para comparecer a umra das lanlas audiencias n.
Justiia paraense. Em sinrese. esta condenaaiio apenas
revela a ponra do u elery da comunicacho na Amazonia.
onde a mi'dia. no geral, silencia. diante de grades que,-
ties. de Id do a en.olvimento umbilical corn segment,
politicos e economics. E preciso. muiais \ezes, que uria
renhida dispiula eleiloral. ou outra qualquer. coloque. em
posio)es ad\ersas. podciosos locals. para que a populi-
qjo posa tomnar conhecimenmo dos meandros. e do suh-
mundo, do powder e do crime.
0 aulor. que e doutor em Ciincias da Comunica-
('io e docente do Programa de Pod-Graduaoio em So-
ciedade e Cultura na Amaz6nia e do Depar(amento de
Comunicacio Social da Unihersidade Federal do .ma-
zonas. publicou este arligo no journal 0 EItu do .do. a-
zonas. de Manaus.


Journal Pessoal 2" QUINZENA SETEMBRO DE 2006 7








CARTAS

Aniversario
Recebi, bastante comovida, a
ediq~o comemorativa dos 19
anos do Jornal Pessoal. E como
faqo sempre, li de ponta a ponta.
Ao final, fiquei relembrando da
surpresa que provocaram as pri-
meiras ediqSes do JP, nos idos
de 1987, em Bel6m. Aquela se-
quincia de reportagens descon-
certantes, inc8modas, aprofun-
dadas, ajudou seus leitores a
desvendar muitas das at6 en-
tdo obscuras relaq6es de po-
der no Estado do Pari.
Especialmente dentro das re-
daqoes de jornais, a cada nova
ediqio do JP que chegava em
nossas mios, instalava-se um
verdadeiro frisson.
Pertencente a uma gera io de
jornalistas que ao entrar na Uni-
versidade, em 1983,jA identifica-
va em voce a mais important re-
fer6ncia da imprensa paraense,
quero aqui reiterar meu contenta-
mento com a longevidade do JP.
Hoje, al6m de leitora, sou pesqui-
sadora do Jornal Pessoal com
muito orgulho. E por onde tenho
andado, apresentando os resulta-
dos de meus estudos sobre este
bravo alternative, o que ouqo sbo
palavras de incentive, afeto e ad-
mira~go, todas dirigidas a voc6 -
um home de bem, jornalista de
f6, intellectual sem par.
Nio 6 precise dizer, mas 6 bom
que se diga: por tudo o que re-
presentam, Lucio Flivio Pinto e
seu Jornal Pessoal ji tnm seus
nomes inscritos (em caixa alta) na
hist6ria da imprensa brasileira.
Socorro Veloso
Campinas- SP

Jornada
Estou enviando este e-mail
para dar os parab6ns a voce e a
sua equipe pelas belissimas edi-
cqes do Jornal Pessoal.
Sou fa e leitor assiduo dojor-
nal e em especial da Mem6ria do
Cotidiano. Gosto muito de saber
sobre os fatos e acontecimentos
antigos de nossa cidade. Certa
vez ate saf de carro no domingo a
fim de refazer trajetos procuran-
do encontrar o local exato onde
existiram certos lugares mencio-
nados em diversas edicqes do
jomal, como, por exemplo, domin-
go passado, quando tentei en-
contrar o local exato de onde fun-
cionou as J6ias Laura, hoje um
pr6dio em ruinas, como voce
mesmo mencionou.
Gostaria de sugerir que um
dia voci divulgasse e reunisse
pessoas interessadas para um


passeio como este, indo atrAs de
diversos lugares onde antiga-
mente funcionavam determinadas
lojas, confeitarias, fabrics, etc.
Espero que goste da sugestio.
Deixo aqui um forte abrago, meu e
de meu pai. dr. Jorge Loureiro do
Amaral, que tamb6m ter muito
apreco pela sua pessoa e 6 tam-
b6m assiduo leitordojomal, tendo
inclusive uma enorme coleq~o.
Mario Loureiro doAmaral.

MINHARESPOSTA
A sugestao e boa e pode ser
adotada pelos leitores corn o
mesmo interesse do Mario. Pau-
lo Duarte comandou expedi(5es
assim em Sdo Paulo, entire as de-
cadas de 20 e 40 do siculo pas-
sado, que resultaram em bons
passeios e utilissimas observa-
qtes. Quem quiser partilhd-las
pode ler as mem6rias dele, pu-
blicadas em 10 volumes (desi-
guais, mas sempre interessantes)
pela editor Hucitec.

Observaq6es
Permita-me fazeralgumas ob-
servaq6es sobre dois artigos pu-
blicados no exemplar do Jornal
Pessoal da uiltima quinzena de
agosto:
"Franciscanismo na
imprensa"
Concordo e entendo perfeita-
mente as crfticas que foram dirigi-
das ao journal O Liberal, mas, do
seu texto, na minha leitura, restou
a id6ia de que o ato falho seria
exclusividade do journal dos Mai-
orana? Imagine que nao foi esta
impressao que voce quis passar.
Como voce bem sabe, ojomal
Didrio do Pard, da famflia Barba-
Iho, usa do mesmo expediente.
Inclusive, a coluna Rep6rter 70,
do "Liberal", 6 copiada corn o
mesmo format nojomal "Didrio".
Emitem opini6es agradiveis aos
amigos e defenestra osinimigos.
Vejo agora, na campanha elei-
toral, cada um dos jornais que-
rendo divulgar informaq6es abo-
nadoras dos candidates de sua
preferincia, escondendo, conve-
nientemente, as derrapadas res-
pectivas. E tudo feito da maneira
mais escancarada. Seri que nos-
sos jornais teriam coragem de
contratar um ouvidor indepen-
dente para emitir opinioes sobre
as mat6rias que eles publicam?
De repente voce ficaria bem nes-
se papel. O que acha da id6ia?
Politicos"
Tamb6m lamento a falta de um
representante digno, com as me-
lhores qualidades de um debate-
dor, eleito pelo nosso Estado. E
uma realidade dura de constatar.
Como ainda deve estar por nas-


cer algu6m corn este perfil, acho
interessante ouvir sua opinibo
sobre os candidates paraenses
ao Congress que estio listados
no sitio da organizaqao Transpa-
rencia, dirigida pelo Sr. Cliudio
Abramo. Nao sei se voce ji co-
nhece o trabalho, mas hi hi infor-
maq6es de como esses politicos
se comportaram ao long do
mandate que esti se encerrando.
Como nenhum journal local divul-
ga esta informaqao, se voce en-
tender convenient, penso que 6
interessante falar a respeito.
Renovo meus votos de admi-
ra~io. Espero que continue ten-
do forqa para manter o nosso es-
timado Jornal Pessoal.
Cliudio Bacelar

MINHARESPOSTA
Na edicdo 373 fiz minha
mais recent critical ao partida-
rismo do Didrio do Pard, que
estd prejudicando a afirmaCdo
professional do journal. 0 leitor
encontrard outras notas no mes-
mo sentido em ediVoes anterio-
res destejornal.
Gostaria que tanto 0 Libe-
ral quanto o Didrio do Pard
considerassem a sugestdo de cri-
ar um ombudsman. Mas ndo po-
nho muita fi nessa expectativa.
Lamento que os dois jornais
didrios ndo tenham repercutido
o esforco inedito e louvdvel de
alguns sites e ONGs de apresen-
tar aficha, a biografia e o pron-
tudrio dos candidates as elei-
qfes deste ano. Mas a internet,
por permitir o acesso direto dos
interessados, jd supre ao me-
nos parcialmente essa lacuna.

ANIVERSARIO
Solidao
Sinceramente, nao consigo
entender o paraense que, sendo
realmente alfabetizado, e dese-
jando dispor de informaqao de
qualidade sobre os assuntos que
mais interessam ao Pard e AAma-
z6nia, nio leia o JP.
Nao entendo, at6 porque o JP
nio tern concorrentes. Desgraqa-
damente nao ter. O que se en-
contra nele nio se encontra em
nenhum outro 6rgbo da imprensa
paraense a menos que se trate
de reproduqio de artigos do JP.
Fico irritado quando algu6m
me pede uma c6pia de algum nti-
mero do JP. Nao dou c6pia do JP
a ninguem, e a ningu6m empres-
to meus exemplares.
Ha algum tempo, um sujeito
me procurou para pedir umas c6-
pias, pois ele pretendia usar arti-
gos seus em uma dissertaq o de
mestrado. De inicio, nem conver-
sei cor o p6ssimo. O cara me


mandou um e-mail, dizendo que
o JP 6 "unma insubstituivel fon-
te de consult, sobre assuntos de
relevant interesse para a AIma,
z6nia". Respondi dizendo con-
cordar inteiramente corn ele. Sen-
do assim, bem faria ele se, quin-
zenalmente, se dirigisse a banca
de revista mais pr6xima e com-
prasse seu exemplar. AAmaz6nia
agradeceria, penhorada.
Depois, atendendo pedido de
amigo comum, permit que o cre-
tino consultasse meus exempla-
res. Sob as minhas vistas.
Creio que a tiragem do JP 6 o
mais categorizado "vergonh6me-
tro" do Para. Se e quando o JP
comerar a rodar 50 mil exempla-
res por quinzena, isto sera a mais
forte evidencia de que, final men-
te, o paraense comeqou a ter ver-
gonha na cara.
Por mim, o JP jA teria sido
convertido num blog, ou algo
assim. Quem sabe, ele se tornaria
um sucesso national e, af, come-
qaria a ser lido pelos paraenses.
Elias Tavares

Projeto
Rodolfo Lisboa Cerveira, que
escreveu carta para o JP 375, ter
razao absolute: a proposta [para
melhor uso da Amaz6nia] nao 6
nova. A Sudam sugeriu algo simi-
lar nos anos 70 e 80, mas n~o en-
controu bastantes empresas inte-
ressadas. Deixar o agroneg6cio
cor os bancos privados 6 apenas
16gico se queremos incentivar o
silvineg6cio, pois o agroneg6cio
tern lucros suficientes para pagar
o preco de mercado para dinheiro;
tambdm nio vai desaparecer por
isto. Embora nao 6 guerra, 6 um
enfrentamento de models de de-
senvolvimento diferentes, pois
onde ter o agroneg6cio nio terdi
o silvineg6cio sem investimentos
muito maiores do que seriam ne-
cessArios hoje. Como Rodolfo lem-
brou, a drea ocupada pelo agrone-
g6cio hoje 6 uma proporqio peque-
na da Amaz6nia, embora deveria
incluir os pastos na soma, mas 6
este neg6cio o responsAvel
direto ou indiretamente -
para boa parte dos 17% desma-
tados atd hoje. Convido Rodolfo
e os outros leitores do JP a exa-
minar o artigo complete, pois
Ltcio Fldvio somente teve espa-
qo para um trecho: http:/
cienciaecultura.bvs.br/pdf/cic/
v58n3/a 18v58n3.pdf ou escrever
obter para uma fotoc6pia.
Charles R. Clement
Institute Nacional de
Pesquisas da Amaz6nia INPA
Coordenaqao de Pesquisas
em Ciencias Agron6micas
Manaus, AM


a SETEMBRO DE 2006 2 QUINZENA Jor-n;ll Pessol I









Fantasia liberal: dois anos depois


Exatamente dois anos atr6s, em 19 de
setembro de 2004, 0 Liberal reservou tres
paginas de sua edicio dominical para um
anincio que abria cor um titulo involun-
tariamente prof6tico: "Ti cheio de journal
por af que tambem parece, mas nio 6".
Ilustrando a primeira das tres piginas,
uma colagem cor a foto de uma barra-
ca de camel, vendendo produtos de
marcas suspeitas, e um exemplar de jor-
nal pendurado pelo meio. O titulo do jor-
nal nio aparecia, mas o observador nao
precisava de muito esforqo para verifi-
car que se tratava do concorrente do jor-
nal dos Maiorana, o Didrio do Pard.
A mensagem subliminar era de que
o Didrio se parece cor um journal, mas
nao o 6 de fato. Por que nao? A expli-
caio vinha nas duas paginas seguin-
tes do anincio da casa: "S6 quem 6 fi-
liado ao IVC tern n6meros confiiveis".
Somente O Liberal e o Amaz6nia Jor-
nal podiam se proclamar "os dois jor-
nais de maior tiragem da Regiio Ama-
z6nica", por serem os fnicos de Bel6m
auditados pelo IVC (na Amazonia hi
mais dois, um em Manaus e outro em
Porto Velho).
Prosseguia a peca na sua terceira pi-
gina: "O IVC 6 o mais respeitado institu-
to de verificaq~o de circulaqio do Bra-
sil. Todas as publicaq6es s6rias sio audi-
tadas por ele. E segundo o pr6prio Insti-
tuto, O Liberal e o Amaz6nia Jornal t6m
a maior tiragem da Amazonia. Aliis, O
Liberal 6 tamb6m o maiorjornal do Nor-
te/Nordeste e o 180 do pais. S6 quem tern
nuimeros verdadeiros mostra a cara no
IVC. Por isso, antes de escolher o seu


veiculo, cuidado. O que nio falta 6 noti-
cia falsa por ai".
No ano seguinte, o IVC constatou que
seu client lhe estava passando noticia fal-
sa sobre sua circula~go. Ao auditar a infor-
maiao jurada do editor de O Liberal e do
Amazdnia Jornal relatives ao primeiro
semestre de 2005, constatou que os n6me-
ros estavam aumentados de 100% at6
140%. Cobrou providencias da empresa.
Mas no segundo semestre a fraude foi man-
tida. Novamente naio houve correqo.
No mesmo dia em que o IVC enviou
seus t6cnicos para verificar a circulagio
dos doisjomais da familiar Maiorana duran-
te o primeiro trimestre deste ano, a empre-
sa se desfiliou as pressas do que at6 entao
era, para ela, o "mais respeitado institute
de verificaio de circulaFio do Brasil" (que
continue a ser at6 hoje, para todos). Nunca
antes houvera epis6dio semelhante na his-
t6ria de meio s6culo do IVC.
O que aconteceu depois desse epis6-
dio melanc6lico e grave? Simplesmente
nada. O Liberal continue se anunciando
como o maiorjornal do Norte e Nordes-
te do Brasil, o queji naio 6 (se 6 que o foi
alguma vez). Ora, se antes tinha direito a
esse titulo porque o IVC o avalizava, ago-
ra que nao 6 mais client do institute, nio
passou a merecer tamb6m o titulo que
antes aplicava ao concorrente?
Mas como ningu6m reage, deve con-
tinuar a cobrar, por essa falsa posicio de
prestigio, os preqos mais altos do merca-
do. E as agencies de publicidade devem
continuar a recomendar aos seus clien-
tes que paguem. E todos a fazer de con-
ta que a mi ficqdo 6 realidade.


O grupo Liberal faz o que quer nesta
terra porque as pessoas se submetem a
todas as suas vontades e caprichos, con-
ferindo-lhe um poder absolute, o pior de
todos porque corrompe absolutamente,
conforme adverte a sabedoria popular (sem
necessariamente tratar de dinheiro).
Na semana passada, por exemplo, ojor-
nal deu uma alfinetada no Banco da Ama-
z6nia, na coluna Rep6rter 70. O Liberal
disse que o balanco do banco foi maquiado
para elevar seu lucro, eliminando um item
oneroso no passive, a divida do fundo com-
plementar dos seus funciondrios, a Capaf,
que 6 exigivel. A critical 6 procedente. Mas
se o banco publicar o seu balanco comple-
to, a mordida serd apenas a primeira e ulti-
ma estocada? Se nio, comeqari uma nova
campanha, como hd cinco anos, pelo mes-
mo motivo? Entdio, o balanco integral foi
publicado nas piginas dojornal e o que era
s6lido desmanchou no ar.
At6 fatos elementares sao adultera-
dos pelo journal. Na edicio do filtimo do-
mingo, o marcador do journal registrava a
ediqio de nimero 31.520. O Liberal
completard 60 anos em 15 de novembro.
Se ojornal tivesse circulado todos os dias
durante 60 anos e se cada ano tivesse
sem falta 365 dias, a ediaio do 60 ani-
versirio, em 15 de novembro, seria a
21.900a. Ou seja: ojornal conta em do-
bro cada ediaio que coloca nas ruas, um
atavismo que se estendeu a circulaiao,
corn os resultados que todos ji sabem,
mas todos esquecem. Daf o preglio da
credibilidade.
Depois reclamam de ser explorados.
Merecem.


Notas ineditas
A nota que o Sindicato dos Joralistas do Pard distribuiu quando fui
agredido por Ronaldo Maiorana, dito de solidariedade, s6 n~o foi mais
ofensiva do que a agressao. Depois de uma troca azeda de palavras, pedi
que, se era para se solidarizar de uma maneira equivoca e meliflua como
aquela, era melhor o sindicato esquecer seu ex-presidente.
Agora, quando minha condenagqo foi reafirmada pelajustiqa do
Parai, agora nio em relaalo ao dono do grupo Liberal, mas ao grileiro
Cecflio do Rego Almeida, a manifestaCgo do sindicato foi confortado-
ra, incisiva, como tinha que ser no primeiro epis6dio.
JA quanto a rejeiqao, pelajufza da 4" vara cfvel, de uma das quatro
aq6es de indenizaqio propostas pelos irmaos Maiorana, esta contra
mim e o Didrio do Part, a partir da agressio do ano passado, a
manifestaqio sindical foi mais discreta, em intensidade e tamanho.
Resultado: ambas as notas permaneceram in6ditas na grande im-
prensa. O grupo Liberal, por motives 6bvios, nio as reproduziu. Tam-
b6m o Diario, por motives nlo muito 6bvios, mas dedutiveis: no
primeiro, talvez para nio promover luta alheia; no segundo, por in-
compatibilidade cor o sindicato (e nio por truculencia patronal ape-
nas, diga-se).
Esti ficando cada vez mais insalubre fazer simplesmentejornalis-
mo nesta terra. E receber solidariedade.


Principio salutar
Para que ajustiqa possa revogar liminarmente autuaqilo lavrada
pela administracbo p6blica 6 precise que o prejudicado "demonstre
de forma inequivoca" a ilegalidade do procedimento. Corn base nesse
entendimento, ojuiz Edison Moreira Grilo Jinior, da Ia vara dajustiqa
federal de Bel6m, indeferiu tutela antecipada requerida pela Sider6rgi-
ca Ibdrica contra o Ibama de Marabd.
Atrav6s de efeitos antecipados, a empresa queria ser autorizada a
usar carvio vegetal apreendido pelos t6cnicos do Ibama, por se en-
contrarem em dep6sito "em desacordo corn as normas ambientais",
antes de o produto deteriorar-se, comprometendo-se a devolver a
mesma quantidade caso a autuaqio seja confirmada. Tamb6m pleitea-
va deixar de pagar a multa aplicada at6 a decisao final sobre a deman-
da e nao ser inscrita nos cadastros de inadimplentes.
Ojuiz considerou que, em media de antecipaqao de tutela, nio
conv6m reconhecer a ilegalidade de ato administrative praticado pelo
poder ptiblico, como o auto de infraqio lavrado pelos t6cnicos do
Ibama, senio depois do process contradit6rio estabelecido durante
a instruca;o da aq~o, corn uma "demonstraqiao inequivoca" de fatos
que autorize nio aceitar a presunqio de veracidade e legitimidade dos
atos da administra~ao p6blica. Cor esse fundamento, ojuiz conside-
rou, em principio, licita a autuabo e obrigat6ria a multa aplicada.


Journal Pessoal 2< QUINZENA SETEMBRO DE 2006 9










MEMORIAL DO COTIDIANO


Arthur
A primeira apresentagqo do
pianist Arthur Moreira Lima
em Beldm, em 1949, no Tea-
tro da Paz, foi um sucesso.
Executou composiq es dificeis
de Bach, Beethoven e Cho-
pin, impressionando por sua
virtuose. E por sua idade: es-
tava, entao, corn 9 anos de ida-
de. Ja revelava o que viria ser:
talvez o maior de todos os pi-
anistas brasileiros.

Incendio
O ano de 1966 comecou mal
para a Folha do Norte, ainda
entio o maior journal do Pard
e da Amaz6nia: no inicio da
manhi de 10 de janeiro um
incendio destruiu parcialmen-
te o dep6sito da empresa, lo-
calizado num casarao antigo
em frente h sede do journal da
famflia MaranhWo, na rua Gas-
par Viana (onde 6 hoje o sin-
dicato dos estivadores). O
fogo destruiu restos de bobi-
nas de papel, os arquivos das
empresas Pesca Amaz6nia e
Jomar Variedades, equipa-
mentos de pesca e uma gran-
de balanga. Mas a aparelha-
gem de recepco telegrifica
do journal escapou. O pr6dio
seria derrubado depois. A sede
da Folha passou para O Li-
beral, comprada por Romulo
Maiorana.

Clipper
Bel6m possufa clippers espa-
lhados pela cidade. Eram edi-
ficaqbes levantadas em pra-
cas ou ruas, que serviam de
ponto de 6nibus e bares/lan-
chonetes, maiores e mais
complexes do que os antigos
quiosques. Em 1965 comeCa-
ram a ser demolidos. Eram
acusados de feios, desengonqa-
dos e se terem tornado antros
de vagabundagem. O primeiro
a ser demolido foi o da Bandei-
ra Branca, bem pr6ximo ao
Hospital Juliano Moreira, o hos-
picio, de triste mem6ria.
Depois foi a vez do mai-
or de todos, o do Largo de
Nazar6, que comecou a ser
posto abaixo em 20 de janei-
ro de 1966. As primeiras


PROPAGANDA

Para a cultural
A Grafica Falaigola Editora era mais grifica do
!que ediiora, mas ien dono. Giorgio Falangola. se
or9gulhava da boa inspirado no pai. un iialiano
que reve atuac&ao deslacudu no sector editorial do
Rio de Janeiro no inici o do 'Iculo pass.ad,. Por
isso publicava livros, decena' dele.s, "dithilicos. unc-
nicos e rrmntiaicos". que contribtianm "para a cul-
lura th Amnazonia ". Nev.\a peua, que f.lzia parie de
uina siric antiuncios produzidos emt 1964 pelal Mer-
cu'rio, de Abilio Couceiro, Falangola exibe alguns
tittulo.s do seu caidlogo de publicaodes. incluindo
Terra encharcada, romance que lornou imorial o
coronel Jarbas Passarinho (inspirado ntm episo-
dio ieridico do Jari, de Jose Jilio de Anidradel);
Lim dia qualquer. de Libero Luxrardo, que insptra-
rou o fifine: 0 pogo dos anseios perdidos, prinmei-
ra (e ultimuOa) fic-o de Curlos RocIlue: e Inicia ao
a televisao, que Pericles Leal escreven enquanto
dirigia a TV Marajoara. dos Diarios ,Associados,
jd desaparecida.


* NOSSA A .-..: "
S(:OTRIBLICAO ..



:.- : -.- .....I



H Grtica Falanaola Editra Ltda.
,i ** -


marretadas foram dadas
pelo ainda governador Jar-
bas Passarinho, vice-gover-
nador Agostinho Monteiro, o
prefeito Osvaldo Melo, o
governador eleito Alacid
Nunes, Ajax de Oliveira,
Jos6 Maria Barbosa e C16-
vis Moraes Rego. O seguin-
te foi o clipper do Largo das
Merc6s.

Roteiro
Estas eram algumas das al-
ternativas de program no-
turno em Bel6m em 1970:
Adegio. Churrascaria
na rua 28 de Setembro, pr6-
ximo a avenida Presidente
Vargas. Servia, al6m de "su-
culento churrasco ao gosto
do fregues", ri na brasa ou
a milanesa, casquinho de
mussua e de caranguejo.
Restaurant Vanja. No
4 andar do Hotel Vanja, na
Quintino Bocaidva, entire
Nazar6 e Governador Jos6
Malcher (onde esta o rec6m-
inaugurado hotel Crowne).
No t6rreo funcionava a boa-
te Carimbo, "a mais avanqa-
da de Bel6m". De fato.
Jardineira. Churrasca-
ria cor musica para dancar
na rua Pariquis, bern pr6xi-
mo A Alcindo Cacela, cor
ambiente que colocava o cli-
ente "num contato direto
cor a natureza".
Marisqueira do Luiz.
No t6rreo, na avenida Sena-
dor Lemos, perto da Praqa
Brasil, uma boate cor ar re-
frigerado e boa misica. Nos
altos, um dos melhores res-
taurantes que Bel6m jdi teve
(as melhores lagostas).
Caverna. Nessa 6poca,
tamb6m no mesmo trecho da
Senador Lemos. Comeeava
a tarde, cor drinks e chi. A
noite era uma das boates
"mais pra frente" de Bel6m,
cor servigo de bar e restau-
rante.
Pagode Chin8s. Dan-
cing, misica ao vivo, cor
vtrios cantores se revezan-
do a partir das 11 da noite, na
mais fren6tica e ecl6tica bo-
ate de Bel6m, finica, na Al-


10 SETEMBRO DE 2006 *2QUINZENA Jornal Pessoal







cindo Cacela com Pariquis,
bem ao lado da Jardineira.
Tapera Ficava logo
em seguida, na outra esqui-
na da Alcindo Cacela. Por
fora, nao parecia interessan-
te. La dentro, tinha o dono,
o popular Biriba. Na madru-
gada, a boate fervia.
A Mosa. Era a mais
nova casa noturna de entio,
sob o comando de Mosa, "a
mais conhecida animadora
das noites guajarinas". Fica-
va no circuit principal da
boemia, na Padre Eutiquio
pr6ximo h Alcindo Cacela.
Aos sibados servia uma fei-
joada das boas.
Shangri-li. Mais distan-
te, na Angostura, esquina
com a Pedro Miranda, nao
perdia, por6m, na animacqo.
Sempre tinha novas atraq6es
para seus clients, al6m de
promoroes, como concurso
de calouros. Vedetes se exi-
biam no seu palco.
Condor O Palacio dos
Bares tinha fama national,
graqas aos encantos da sua
localizaqio, na beira da bafa,
e a animaqao dos seus fre-
qiientadores, que danqavam
sem perder o gas. O bar fun-
cionava 24 horas. A orques-
tra, mantida pela casa, nio
chegava a tanto, mas vara-
va a madrugada, que sempre
era crianqa.

Zona
Em 1970, o governor decidiu
acabar na marra, manu mili-
tari, com a Zonaa do meretri-
cio", que funcionava no cen-
tro de Bel6m, principalmente
nas ruas Riachuelo e General
Gurjio. Ao reagirem, as pros-
titutas mostraram-se mais
confiantes na lei e na ordem.
Impedidas de sair de suas ca-
sas, de nelas receber visits,
inclusive de parents, enquan-
to a policia as ias despejando
dia ap6s dia, decidiram recor-
rer a um habeas corpus, im-
petrado pelo advogado Miguel
Antunes Carneiro.
Reconheciam o direito que
o governor tinha de acabar
com a prostituiqio na Area,
mas ressalvavam que a poli-
cia precisava respeitar tam-
b6m os direitos e garantias in-
dividuais, assegurados pela
ConstituiaIo. Lembravam ain-


da que essas "zonas"
eram universalmente tole-
radas pela sociedade,
como sendo "tumores de
fixaqFo", porque concen-
travam a prostituiqgo num
lugar, onde a atividade po-
dia ser controlada e fisca-
lizada, inclusive pagando
impostos e taxas, e dessa
forma impedindo que se
espraiasse pela cidade.
Mas a razao nao era ou-
vida nesses tempos. A
Zonaa" acabou para se
multiplicar. E depois voltar.

Jogral
Em 1970 a professor
Marlene Viana organizou
os Jograis do Col6gio Mo-
derno, para a leitura e de-
clamagio de poesias. Osi
jograis eram 25 alunos da
escola, dentre os quais
Helena de Ara6jo Leal
Martins, Andr6 Carrapato-
so Coelho, Maria de Na-
zar6 K6s Miranda, Juven-
cio Dias de Arruda Cama-
ra e Ant6nio Fernando
Chaves Nogueira.
Eles ainda liem poesia?

Radional
A Radional, uma filial da
multinational americana ITT,
encerrou suas operao6es te-
legrificas e telef6nicas em
Bel6m (e no pais) em 31 de
agosto de 1971. A tiltima li-
gacao foi feita as sete horas
da noite desse dia para Ma-
naus. A empresa atuou du-
rante 32 anos no Brasil e em
29 anos no Pard. Durante
todo esse period, seu ge-
rente em Bel6m foi Luiz Vi-
t6rio Bisi (talvez um recor-
de a ser registrado no Gui-
ness). A Radional, na ave-
nida Presidente Vargas, con-
corria corn a Western, ins-
talada no Boulevard Casti-
Iho Franqa. Numa 6poca de
comunicaqao restrita e pre-
ciria, tinham fama. A apo-
sentadoria de ambas foi con-
seqtiencia do funcionamen-
to da estatal Embratel, cuja
alienagqo (em sentido am-
plo) alimentou um novo ci-
clo de privatizaqio.

Avenida
A Pedro Alvares Cabral co-
mecou a ter forma de via de


....'.9......
' .4.. *.'~


ir'~ '. 4 .-I
.44 ,.C


..
.


FOTOGRAFIA

Ilui (esaparecido

Foi na Festa da Chave dte 1971. no dia 11 de
agosto, que sunmiu o buslo tie Rui Barbostc do
Montuinielo erguido em sua homenagenm.
iiumna dlas pro(ias, coIl senl ironic, quei' cOll-
poe'l o conjunto do Largo da Triidade. Os
esludates da Faculdade de Direito ~6 deram
pelo sumit) s ao sair da fiesta. Queni levou.
ninirgue'im vi. Esta foro ioi batida logo depois
do desaparecinmento. 0 misterio complelou 35
anos. Coin a reinaugtgraato do pr;dio da
OAB, que substiruint a traditional Faculdtde
de Direito, rum nov'o busto podia ser eticomeit-
dado e colocado no devido lugat:


trifego em 1971. A draga
Parand, da Companhia Bra-
sileira de Dragagem, contra-
tada pela administragao N6-
lio Lobato para fazer o ser-
vico, retirou 68 mil metros
ctibicos de lama do fundo da
bacia do porto de Bel6m, en-
tre os armaz6ns 8 e 11. Esse


material serviu para aterrar
o pantano que constitufa a
avenida, ate entao intransi-
tivel, al6m de aprofundar o
canal de navegaaio nesse
trecho. A Pedro Alvares
Cabral deveria ser o inicio de
uma avenida Perimetral con-
tornando toda a cidade.


Journal Pessoal 2" QUINZENA SETEMBRO DE 2006


4


v..

'r'"u







POS OES
A 6nica manifestaqio de apoio
institutional que recebi em re-
pddio a confirmacio da minha
condenacio perante a justiga
paraense, pelo crime de cha-
mar o grileiro de terras de pi-
rata fundiArio, veio da Socie-
dade Brasileira para o Pro-
gresso da Ciencia, a mais re-
presentativa entidade dos cien-
tistas do pais. A nota enfitica
da SBPC me trouxe conforto.
Aqui, a deputada Araceli
Lemos, do PSOL, apresentou
uma moqio de protest como
president da Comissio de Di-
reitos e Defesa do Consumidor
da Assembl6ia Legislativa do
Estado. Tamb6m a manifesta-
qio pessoal, cor o mesmo tom
incisive, do reitor da Universi-
dade Federal do Pard, Alex Fi-
dza de Melo. E dezenas de
mensagens de pessoas fisicas,
dotadas de inteligencia privile-
giada e senso exato de indigna-
qio: amigos, conhecidos e pes-
soas que nio conheqo me en-
viaram e-mails ou os mandaram
para sites e blogs do mundo vir-
tual, apoiando ojornalismo que
pratico hi 40 anos.
As ausencias sentidas e a
omissio do poder pdblico mos-
tram quem efetivamente esti ao
meu lado, disposto a assumir essa
causa, e quem esti contra ou
prefer nao arriscar sua fama e
bem viver, como os omissos da
ilha da fantasia retratados em O
Jardim dos Finzi-Contini.

NOVO LIVRO
Ja esti nas bancas e livrarias
meu livro mais recent, O
Jornalismo na Linha de
Tiro. Tem um pouco do pri-
meiro volume, o prometido
segundo volume e alguns
acr6scimos e atualizaq6es.
Apesar de volumoso, comr
mais de 500 pdginas, custa
apenas 30 reais, o mesmo pre-
go do anterior, com 300 pigi-
nas. Graqas ao apoio de ami-
gos de f6, pude baratear o
preqo para que os comprado-
res do livro anterior (apresen-
tado como primeiro volume)
nio se sintam prejudicados e
para que mais leitores possam
ter acesso a moments rele-
vantes da hist6ria recent do
Pard. Entre os documents


Genealogia jornalistica
S 0 home alcanqa a imortalidade quando more. Os
Sgrandes homes. que tem consciencia desse paradoxo, i-
vem e trabalham corn a ista no horizonte infinite. numa
perspective hist6rica. Nao precisam que lhe cunfirmemn o
que eles sabem: seu fazer muda o mundo e antecipa o futu-
ro, mesmoque sejam incompreendidos, ignorados. maltra-
tados, espancados ou assassinados.
Os homes comuns se imortalizam nos filhos, sementes
novas que prosseguirao a avenrura de viver quando a drvo-
re que as gerou li\er tombado. O home comum senate
que subsistira quando seu filho continue o que fazia, mais e
melhor, ou estende sua marca a outros campos do saber.
do trabalho. da arte. O filho, antes lembrado em funqao do
pai, sera agora o portal para a memdria do pai. que se foi
Cidudio Augusto de Sa Leal, um dos mais importantes
jornalistas do Para. embora exterormente nio desse valor
a essas convenqoes, deixa\a seus interlocutors mais inti-
mos perceberem que, por tris de seu ceticismo, fazia sua
aposta de future no filho. Claudio, mais conhecido pelo nome
da mae, La Rocque, talvez para prevenir identidade pr6-
pria diante do pai famoso, rambem seguiu o jornalismo. Era
brilhante. Mas nao ficou s6 nojornalismo: incursionou pe-
las acres.
Mesmo sendo um rebelde, um maldito. um bad boy.
como hoje se diz, podia ter feito muilto mais e ser mals
duradouro. Mas seu maior immigo parecia ser ele memlno.
Nenhum dos desafetos que acumulou ao long da sua car-
reira. inadvertidamente, sem culpa ou em funyio de seus
Satos deliberados podia Ihe ter feito tantos males quanto ele
fez. minando seu potential e desfazendo cor uma mao o
que a outra construfa. Morreu hd duas semanas, aos 51
anos, como aquele que podia ter sido muito mais por um
lado, se nao dissipasse tanto talent, e causado muito me-
nos por outro, nto fora sua forma atribulada de viver.
Acabou a linhagem na qual Sa Leal fugidiamenre pen-
j sava quando encara'a o filho promissor? A resposta Iicari
Scorn Tales, o filho inico de La Rocque, sobre quem o pa
lanqava os mesmos olhares de que era objeto e eram os
Smelhores que tinha.
[. F
""""-w i A-'S ^ -" *** -;i-B'"s~:w'.^tn vscd K ad


que introduzi agora esti a car-
ta que escrevi a Romulo Mai-
orana quando do nosso rom-
pimento, em 1986, e a H61io
Gueiros, antes e depois de ele


ser governador do Pard
(1987-1991).
Pretendo usar o livro como
abre-alas para debates a res-
peito do seu conteddo nos lu-
gares que se dispuserem a
abrigar o seu lanqamento.
Pode ser um bom moment
para avaliaq9es critics e re-
visao de mitos is vezes apre-
sentados como verdades.

ANIMAAO
Biratan Porto e equipe realiza-
ram uma faqanha com o DVD
Cade o verde que estava
aqui?, uma animaqio grdifica
colorida corn duragio de 12
minutes. Merece ser exibida a
todas as crianqas e permitir que
o produto seja bisado.


LIBERDADE
O escritor Alvaro Lins
contou que certa feita
recebeu em seu apartamento
num hotel de Marselha, na
costa francesa, um exemplar
de umjornal local que tinha
o seguinte distico na primeira
pagina: "os fatos sio
sagrados; as opini6es sio
livres",
Ha melhor definiaio para
liberdade de imprensa? Nio
conheqo. A primeira mission
da imprensa 6 registrar os
fatos, aquilo que realmente
esta acontecendo. A
segunda, 6 atrair opini6es
que abranjam o espectro
mental da sociedade: o que
ela acha e espera dos fatos,
nio como uma unidade, mas
como uma pluralidade de
id6ias, interpreta96es e
expectativas.
Na nossa constituicio,
como em todas as cartas
magnas democrdticas, a
imprensa 6 livre para
publicar todos os fatos (ou
seja: aquelas informaq6es
que resisted a qualquer
contradita ou desmentido) e
expressar todas as opini6es.
Entao por que 6 processado
e condenado ojornalista que
public fatos (informagies
nio contestadas e muito
menos desmentidas) e
veicula suas opini6es?
Logo, no Para nao hi
liberdade de imprensa. E
por isso, hi o abuso do dono
da imprensa.

OBRIGADO
Meu muito obrigado aos
amigos que mandaram
mensagens de parab6ns pelo
meu aniversArio.





Editor:
Lucio Flavio Pinto
Ediq~o de Arte:
L. A. de Faria Pinlo
Contato:
Tv.Benjamin Constant 845/203'
66 053-040
Fones:
(091) 3241-7626
E-mail:
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12 SETEMBRO DE 2006 2 QUINZENA Jornal PIesso;l




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