Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00301


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Full Text







ornial Pessoal
A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO
SETEMBRO DE 2006 1-QUINZENA N 375 ANO XX R$ 3,00


JP: UT;OP[i
DE 19 ANOSPAGINAS/7

DECMSAO IRA
AO 20 T-'Y,;: l'' PAGINA 8
PAGINA 8


"NOVO PARA"


L r .- -


Miragem onerosa


Os tucanos, que ja governaram o Para por oito anos seguidos, querem ficar no poder por mais
quatro anos ou mais. Dizem que e para criar o "novo Para", a terra do desenvolvimento. Os
resultados sociais desse process mostram, porem, que o Estado ficou mais pobre. E as
perspectives ndo sao boas. Por que, entko o PSDB e forte?


O que 6 o "novo Para", ao qual
os tucanos tanto se referem
como o passaporte para a
quarta vit6ria seguida na dis-
puta pelo control do Estado? O "novo
Pard" 6 um produto que realmente tem
uma apar6ncia melhor do que os anteri-
ores. Parece melhor. Proclama, com
mais int, sidade, que 6 o melhor. Usa
arguments convincentes. Mas estA
melhor de fato?
O "novo Pard" tem obras ffsicas de
impressionar, ao menos a quem nao 6
dado a andlises comparativas mais perti-


nentes. No entanto, nesse cendrio me-
lhor preparado, em condiq6es de servir
de decoraqio convincente, encena-se um
drama miserivel. O personagem padrao
esti em desacordo com o decor. Dai
essa sensadio de desajuste, que o grao-
vizir do tucanato, mirando nas manifes-
taq6es exteriores do problema, classifi-
cou de "sensaqio de inseguranqa".
Esse mal-estar difuso nao estd rela-
cionado apenas h rotina da criminalida-
de, aos assaltos ou homicidios, que ji
constituem um event trivial na agenda
de qualquer um. Ele 6 provocado por um


paradox ao qual o home comum nao
quer (ou nao pode) dedicar maior aten-
qdo, talvez porque se sinta incapaz de bem
enfrenti-lo e resolv6-lo: o "novo Pari"
devia estar alegre e satisfeito por se en-
contrar em melhor situacao do que an-
tes, mas esse bafejo de riqueza, se bate
Ssua porta, nao entra em sua casa.
A cada nova mensuraqio do desen-
volvimento do "novo Pard" que os tu-
canos v6m criando, o resultado 6 o in-
verso do proclamado aos quatro ventos
por uma propaganda ficcional. Por ser
CONTINUE NA 'PAG 2


O FLO RIDA








CONTINUAFAO DACAPA
base essencial dessa miragem, ela se
alimenta de sua pr6pria anomalia. Quanto
mais precisa alardear a miragem ofici-
al, mais o governor necessita de propa-
ganda. E quanto mais a faz (enriquecen-
do quem a faz, sobretudo o grupo Libe-
ral), mais se distancia da realidade. O
resultado esti af: uma esquizofrenia re-
frataria i cura.
Diga-se, a bem da verdade, que esse
mal atingiu tamb6m o governor federal.
Nisso, o PSDB de FHC em nada se dis-
tingue do PT de Lula, que 6 o outro, hoje.
Para nio deixar que essa contradicio
se torne flagrante, Lula se descolou do
PT, mas nio conseguiu eliminar o ab-
surdo de ser punido pelo que ja nao 6,
sem que seus critics transported para
seu consciente a prevenqdo ativica, que
os impede de reconhecer que o sapo de
ontem realizou o que o principle de "tran-
santontem" nao foi capaz. Nao que o
batriquio saiba mais do que o fidalgo
(suas vontades nio podem tanto quanto
imaginam). E que os tempos s5o outros
agora. E poderio ser outros tantos da-
qui a pouco, independentemente deles.
Lula 6 um Stolypin por instinto. Ainda
nao se pode dizer qual sera o desfecho
da trag6dia casual.
Mas deixemo-la de lado para os efei-
tos do nosso Estado. O "novo Pard" nao
resisted a cada nova estatistica social que
6 divulgada. O pr6prio governor tucano
apregoa algumas, como se elas fossem
um cala-boca nos c6ticos e descrentes.
0 efeito, por6m, 6 o contririo. Embora
seja inegivel que a gestao p6blica se tor-
nou mais racional e ajustada, 6 tamb6m
evidence que essa "modernizaqio" nio
serviu A melhoria das condiq6es de vida
do povo do Pard.
Nio 6 s6 (embora seja tamb6m) uma
questio de compet6ncia dos quadros
dirigentes do PSDB paraense. E, so-
bretudo, uma conseqtincia inevitivel
do modelo (ainda vigente) de ocupa-
qao da fronteira amaz6nica. Os tuca-
nos nativos querem que haja mais so-
bras para os da casa, mas nada fazem
para que o que Ihes caibam sejam ape-
nas sobras, o residue da mecanica de
um process espoliador.
Veja-se a iltima s6rie do IDHM (In-
dice de Desenvolvimento Humano Mu-
nicipal), referente a 1991-2000 (meta-
de da d6cada sob o mando do doutor
Almir Gabriel). No IDHM geral, o Pari,
que 6 o 9 em populaqio, 6 o 16 do
pais. Ah, mas esti melhorando ou vai
melhorar, jai que o caos perdulario e es-
poliativo de Jader Barbalho ficou defi-
nitivamente para tris, proclamam os
tucanos. NMo 6 verdade. Na d6cada de
90 o Estado teve apenas o 20 melhor
desempenho, embora ocupando a 16"


posiqdo no pais. Isto significa que esti
caindo. Outros Estados, inclusive da
Amazonia, ji o passaram ou estio pas-
sando porque seu incremento no perfo-
do foi melhor.
E uma situacqo grave. No IDHM de
Educaqio nio 6 tanto assim. O Pard qua-
se conseguiu manter sua posiqao, a 16a,
com a 17a taxa de melhoria nesse indica-
dor entire 1991 e 2000. S6 caiu um tanti-
nho. Mas no IDHM de Renda experi-
mentou um declinio mais acentuado: 6 o
20 na federaqio, mas na d6cada passa-
da sua taxa de expansio foi a 23". No
indicador que o Estado apresentava me-
lhor resultado, o IDHM de Longevidade,
em 12 lugar na federagio, sua taxa foi a
19', perdendo posiq6es.


Oex-goternador Almir Gabriel
disse. numna entre\ista a T\ Boas
No\as. que adotaru urnm "poiCJqo
alti\a" em relaCao a Companhia
V\ale do Rio Doce. se for elello
no\ anmente go\ ernador do Estado. A
decisio e lou\it\el. mas tem corn
atraso fatal. A altiez mais produtiva
do medico rucano tete seu moment
Shistirico: quando a CVRD foi
pri\atizada, em 1997.
Cor a po-se de Fernando
Henrique Cardoso na preid6ncia da
republican. em 1995. o Luoernador -
beneficiario direto do Piano Real -
era de edor e credor do seu
companheiro mais afortunado de
SPSDB. Ne.sas duas condi,6es. for
sempre ou\ ido nos assuntos federal
relatives ao Para. P6de ate indicar
Sum nome para a presidencmi da Vale.
que nio % ingou porque o escolhido
declinou da honraria. por e\cewo de
rigor na auto-a\ alijao.
Os irunfos do go ernador paraense
comnecaram a se desfazer por sua
Sturnice e falta de consisitncia nas.
atitudes,, geralmente determmnada,, mais
por razes emotiu as do que por
Sracionalidade e consistencia tecnica. O
Palicio do Planalto e a C\RD
passaram a lidar ardilosamenie corn a
Sadministrayioesiadual. ora
escondendo ojogo, ora promeIendo e
S\oltando autrs.
Sao exemplos desse modo de
Sproceder o piano que a empresa
encomendou a urna equipe liderada
por seu ex-dirigente. Eliezer
; Batista, e o ziguezague em torno da
Sfibrica de cobre da Salobo Metais.
{ Aprendendo a manobrar o go erno


Isto significa que o cidadio m6dio
paraense, por ter cada vez menos renda
do que a m6dia dos brasileiros, mesmo
tendo mais acesso h educaqio formal,
nio consegue melhorar de vidajustamen-
te porque possui uma "sustentabilidade"
insuficiente. Daf cair para a economic in-
formal e, dela, para a criminalidade. Es-
pelhando suas entranhas geol6gicas, o
Pard esti se transformando numa Afri-
ca do Sul cor maioria "parda", miscige-
nada (o que atenua o mandarinato de
"brancos" como os tucanos, por falta de
contrast mais explicit cor os negros).
E este novo Pard que o eleitor majo-
ritirio visa com mais quatro anos de
PSDB no mando estadual? Se o passado
deve passar, o future nio 6 melhor.


do Esiado. os parceiros
conseguiran imobilizar Almir
Gabriel. Depois de ter-cs
manifesiado pret iamente contra a
\enda da estatal. mante.e illencio
absoluto no nomenico do polemico
leilao. Achou que a.,sim se
credenciaria umna boa
compensaflo". a e\presJ(o que
funcionou como urna nmoeda
corrente no trato entire as dua,
partes raraimente de publicoi. Ma,
a counpensao we retelou umn
autInllco contoo do paco".
Hoe a lea V e umr empresa
prit.ada ciijo poder njio guarda
paralelo corn o do Estado no equal
estlo plantadas sua,, pnrncipais
,sementes. ij gerninadai ou alnda
apenas plantadas 0 cLomportaniento
"rai\ inha'" do passado sera indcuo.
quando nao coniraproducenie. Pode
ate ter efeitos imediatos, dependcndo
do torn dos gritos e da inteniidade do
ranger de denies. NM:l ele-' nao serjio
duradouros. A aluitez persiitente ,erd
a da inteligencia. Mas quial as
perspectitas nessa area
A preie\[o de combater
problenias reais que conipromeirnum
a razao de ser do institute, o doulor
Almir Gabriel liquidou Idesp com
um golpe de sua furlia uposurmenre
biblical to sal da \ ing nca i. De la
para ca. onde \ollou a ,se alojar a
Inreligencia institucionalmente
orgamIzada do Estado"' Queni
souber onde. que de a dica. Se for
critel. ganhara como prmrio a
lanterna de Diogene.s peronagenm
um tanto mais previdente do que o
doutor Almir.


2 SETEMBRO DE 2006 IlQUINZENA Jornal Pessoal


Altivez atrasada


i~~aaxr~dC~(8uar~l~A~r~d~8rB~s~B*b*a*~~* z 31".rl. r.,-r...r*:.









Hist6ria na Amazonia clama por autor


Meus amigos, conhecidos ou sim-
plesmente interessados As vezes me
perguntam: como podem ajudar o Jor-
nal Pessoal? A resposta 6 muito sim-
ples: comprando-o. Os mais empenha-
dos na sobrevivencia desta publicaq~o
e que podem, devem comprar mais de
um exemplar e mandd-lo para quem
possa beneficiar-se da sua leitura, so-
bretudo fora de Bel6m. O local princi-
pal de venda do JP, a banca de revis-
tas, 6 freqiientado cada vez menos por
seu leitor tipico, de classes m6dia. Ad-
quiri-lo, portanto, impoe um sacrificio:
ir A banca mais pr6xima ou que estiver
no caminho.
Alguns professors reclamam que
t6m uma bitola massacrante: da casa
para a universidade ou a faculdade.
Raramente se desviam para uma ban-
ca, que se tornou tio distant quanto o
papel carbon ou a miquina de escre-
ver. Mas seri que manter um journal
como este nio compensa o sacrificio?
Estou preparado para receber uma
resposta negative. Escrevo o Jornal
Pessoal as pressas, cansado e geral-
mente tenso. Sujeito-me a cometer vi-
rios tipos de erros, alguns deles carac-
teristicos da mente estressada e do cor-
po cansado. Por nio dispor do tempo
adequado, minhas mat6rias tamb6m po-
dem encontrar-sealguns degraus abai-
xo do nfvel que poderia ter se seu tni-
co redator nio precisasse dar conta de
15 processes judiciais em andamento,
a maioria deles propostos por gente
muito poderosa.
Corn todas essas ressalvas, o JP ain-
da 6 uma leitura proveitosa. Na pior das
hip6teses, ele transmite pesquisas, lei-
turas, consultas, conversas e especula-
q es feitas a partir de temas do cotidia-
no. Alguns dos seus temas s6 aparecern
a posteriori nas outras publicaq6es.
Elas nio indicam a fonte, mas fica bem
evidence que a leitura destejornal as mo-
tivou. Dou um exemplo: a cota-parte do
ICMS, tema da edi~io anterior que boiou
em O Liberal do dia 2.
A mat6ria do journal 6 boa, mas ainda
nio cobre todos os aspects do assun-
to, que nio pude abordar porque impli-
cariam em pesquisas que nio pude fa-
zer, comprovando minha tese, por abso-
luta falta de tempo. Apesar de a nota da
edi~ao 374 ser curta, ela era tio impor-
tante que recebeu chamada na primeira
pigina. Queria chamar a atengao da
opiniao piblica para o problema.
O pauteiro de O Liberal pegou o re-
cado e o repercutiu. Esse 6 um princi-
pio sadio do jornalismo: nio interessa


quem comeqou; se o tema 6 important,
deve ser continuado at6 o melhor (ou
complete, se possivel) esclarecimento
da opiniao p6blica. Tecnicamente esse
procedimento se chama "suite". A suite
tem sido desmoralizada no jornalismo.
Ou porque se 16 cada vez menos, ou
porque a presunqio de grandeza nao
admite a preced6ncia do concorrente (ou
simplesmente de terceiros).
Nem importa citar a fonte, embora
seja outra regra de ouro do bom jorna-
lismo. Nao me causa qualquer constran-
gimento me referir a 0 Liberal, por
exemplo. Meu profissionalismo de tan-
to tempo me permit separar a emo-
5io da razio, quando necessario. O ob-
jetivo comum 6 prestar um serviqo de
interesse p6blico. Em proveito dele, cir-
cunstancialmente (e mesmo sem essa
intencqo) podemos unir forqas ou con-
correr na mesma direcao.
A definiqio da cota-parte de ICMS
dos 143 municipios paraenses 6 uma ta-
refa t6cnica, mas nao 6 s6 isso. A f6rmu-
la existe e, ao ser aplicada, resultari em
percentuais que estio acima de qualquer
questionamento. Mas hi components
mais subjetivos ou politicos. 0 cilculo do
valor adicionado pode envolver certa con-
trov6rsia, mas ao final as parties chega-
rao a um denominador comum. Se a ele
se submeterio, 6 outra questdo.
Mas hi uma dimensdo maior e mais
profunda. Para os municipios que abri-
gam "grandes projetos", que se valem
de capital intensive, alta tecnologia e
poupanqa de gastos em mdo-de-obra,
para terem condicqo de competir no
mercado international (ou nele obter
lucros mais altos), o valor adicionado
costuma ser produzido no mercado
comprador, lh fora. Os municipios pro-
dutores acabam sendo prejudicados por
esse modelo, agravado pela desonera-
qCo fiscal e tributdria.
E o caso de Barcarena. O munici-
pio ji um dos mais importantes p6los
exportadores do pais. Abriga quatro
fibricas: Albris (aluminio), Alunorte
(alumina), Pard Pigmentos e Imerys
(caulim). Ao seu movimentado porto
chegam dois minerodutos de caulim e
logo estari em funcionamento o tercei-
ro, in6dito no mundo, para transportar
auxita. Mais um pouco e (se tudo der
certo para seus promotores) estari em
funcionamento mais uma flbrica de
alumina, a da ABC, que tirard da Alu-
norte a primeira posigao no mercado
mundial desse produto.
Tudo esti em acelerada expansion
em Barcarena e assim persistiri pelos


pr6ximos anos (sem que o municipio te-
nha um piano director global do distrito
industrial, cor alto potential poluidor e
de consume de agua, entire outras de-
mandas), mas sua cota parte no ICMS
caird de 6,77 neste ano para 6,18 em
2007, embora sua populaqao deva con-
tinuar a crescer (com crescentes en-
cargos sociais para o poder piblico). A
circulaqio de dinheiro em fundio dos
efeitos do "grande projeto" sobre ren-
da e emprego compensard a sangria de
impostos? Os cilculos da Secretaria da
Fazenda do Estado responded que
nao. A sociedade, drbitro de todas as
d6vidas, confirm essa resposta?
O Pard 6 um Estado cada vez mais
silencioso, sem eco, sem repercussio.
Grande parte da responsabilidade por
essa omissao 6 da condiqio educacio-
nal, cultural, social e econ6mica da sua
populacqo, mas quem podia animar os
debates foge do centro gravitacional
das decisbes. Este journal, mesmo corn
todas as suas limitacqes, externas e in-
ternas, impostas ou pr6prias, tem se
empenhado em enfrentar a realidade.
Sua razao de ser se nutre do que apa-
rece em suas piginas. Elas captam o
que aparece de relevant em outros
lugares, procurando repercutir esse
material, e tamb6m difundem o que
acaba se manifestando em outras pu-
blicacqes. Mas, desgraqadamente, nto
6 raro que o mais caro dos seus esfor-
qos desapareqa num buraco negro de
indiferenca.
Isso acontece geralmente quando
um assunto mais frido, complex e gra-
ve ocupa a capa do JP. A edicio 373
teve um encalhe maior do que o nor-
mal e muito maior do que o desejivel
porque na primeira pagina estava um
assunto dificil, que se prolongou em
outras retrancas jornalisticas. Eu po-
dia t6-lo substituido por um tema qual-
quer eleitoral, cor alguma informaaio
mais picante e andlise provocante.
Mas prefer sacrificar a parte co-
mercial do journal para nio abrir mao
de um dos principios educativos dojor-
nalismo: fornecer ao leitor o que ele
precisa saber e nao apenas o que quer
saber, hierarquizando a ediqio pela im-
portAncia intrinseca das mat6rias e nio
pelas expectativas do leitor.
O tema de abertura da ediibo 373 6
o novo ciclo de produto eletrointensivo
do Pard: o do niquel. Como nio ha tec-
nologia para transportar pelo mar nos-
sa energia bruta, extraida dos nossos
rios, ela segue para o exterior na for-
oNTiiiiA NA PiA 4


Journal Pessoal I" QUINZENA SETEMBRODE 2006 3






CONTINUACAO DA PAG 3
ma de produtos carregados de energia,
como o aluminio, o silicio metilico, o
cobre e, agora, o niquel. Esse novo lan-
ce de transferencia de recurso natural
bruto ou semi-elaborado 6 ainda mais
audacioso porque os executives da
Companhia Vale do Rio Doce querem
aproveitar circunstancias favoraveis
existentes em urm dnico mercado, o
chines, para dar um grande salto. Se,
na subida do salto, algu6m tirar a vara
de impulso e sustentaqio, os artifices
da jogada ainda poderao se safar, le-
vando consigo dividends records.
Mas algu6m ird se esborrachar. Ganha-
ri um quilo de rocha mineralizada aque-
le que advinhar quem pagard o pato.
Nio abatido corn o silencio absolu-
to que se seguiu i edicio, quase me-
tade dela dedicada a temas centrados
na CVRD, prossegui no nfimero 374.
Se minhas mat6rias estavam mal es-
critas, se sua abordagem era incorre-
ta, se os n6meros eram insuficientes
ou qualquer outra de suas deficienci-
as, ainda assim elas podiam servir de
pauta ou entrar na agenda de perso-
nagens mais capacitados ou podero-
sos. O espantoso 6, ao menos de p6-
blico, ningu6m a tomar como mote, nin-
gu6m se sentir provocado.
Nos bastidores e nas coxias ha gen-
te que sabe o que acontece e 6 capaz
de avaliar o seu significado muito me-
Ihor do que eu. Mas por que nao se apre-
senta? Uns porque querem justamente
o inverso: sufocar o interesse pdblico,
desvia-lo ao menos dos alvos mais im-
portantes do dia. Outros, porque querem
reservar esse material para suas teses.
Alguns, por receio de se expor e sofrer
algum prejuizo. Mas corn isso o princi-
pio educativo do jornalismo, de dar o
destaque devido ao assunto que nao atrai
o puiblico (por deficiencia do piblico e
nao por irrelevfncia do assunto), vai para
o espaco. E nosso destiny colonial se-
gue para o mesmo destino.
Embora haja cavaleiros andantes
que combatem corn um esquema ex-
plicativo pronto e acabado, que pres-
cinde da realidade, do acompanhamento
dos acontecimentos, sem informaaio de
boa qualidade (apurada e checada), nao
escaparemos ao destino que escreve-
ram para n6s. Seremos Olavos Bilacs
sem licengas po6ticas: ouviremos es-
trelas cacof6nicas. Nosso nome sera
pedra, que ira pelos mares para os que
usarao essas pedras em seu beneficio,
enriquecendo ainda mais corn a nossa
pobreza cr6nica. E seremos aquele
acidente hist6rico que podia ter sido e
nao foi, como gauches intrometidos
num poema de Drummond.
E o que queremos?


Jornalismo no front:



novo livro na praga


Para assinalar os 19 anos do Jornal
Pessoal, estou lancando nas bancas e
algumas livrarias O Jornalismo na Li-
nha de Tiro. Pode ser considerado o se-
gundo volume do Guerra Amaz6nica,
publicado no ano passado, mas, a rigor,
6 um novo livro. A primeira edigio foi
tirada as pressas para que chegasse a
Nova York em tempo de circular duran-
te a solenidade de entrega do premio in-
ternacional do Comite para a Proteaio
de Jornalistas, que me foi conferido, em
outubro. O esforco acabou sendo inttil:
impresso a tiltima hora, o livro se des-
viou do seu rumo entire Bel6m e Sao
Paulo. Acabou nao embarcando para
NY. E ficou ca corn muitos erros de
impressio, por falta de revisao, e um tom
de press demasiado.
Ao me dispor a expurgar as gralhas
e garatujas, num ritmo que se tornou
lento por causa de outros afazeres, com
destaque para as demands judiciais,
propostas pelos que gostariam de me
calar (simbolicamente, ou de fato), vi
que precisava rever o conteddo geral
da obra. A essa obriga-
qio se somou o com-
promisso corn o segun-
do volume, ji anuncia-
do e ainda pendente.
Como edita-lo, em pri-
meiro lugar, sem dinhei-
ro para dar conta da ta-
refa? E como lanqar um
segundo volume sem
corrigir o anterior?
Cor a mao na mas-
sa, decidi preparar nova
massa, reescrevendo o
primeiro volume e a ele
incorporando o segun-
do tomo, agora num
inico corpo, que che-
gou a 500 piginas.
Como 6 uma obra rigo-
rosamente nova, apro-
veitei a nova onda de
marketing neo-neo-li-
beral-operario e man-
dei para o espago o tf-
tulo original, como um
astronaut sem eira
nem beira. Em seu lu-
gar coloquei o subtitu-
lo, que agora reflete
melhor o que se ira ler.
Espero que o leitor re-
leia e/ou leia. E apro-


ve, com mais satisfaqio do que por
ocasiao do primeiro ensaio.
Tenho esperanaa tamb6m de que meus
colegas jornalistas se interessem pelo re-
posit6rio de experi6ncia e encontrem nele
alguma utilidade para o exercicio dessa
nossa vital, generosa e vilipendiada pro-
fissao. Um jornalista comprometido cor
seu tempo torna-se uma fonte da hist6ria,
mas para que resista nessa missao 6 pre-
ciso enfrentar muitas situaq6es desconfor-
taveis, fortalecendo-se na adversidade.
O livro s6 se tornou possivel gracas
a ajuda de amigos, tao vitais e genero-
sos que seu anonimato mais os enobre-
ce do que Ihes deixa de fazer justiqa.
Nao sao muitos. Na verdade, sao pou-
cos, sao raros. Por isso mesmo, ocupam
um imenso espaqo em meu solit(d)ario
coraqio. E um empreendimento ao mes-
mo tempo proustiano e orwelliano. No
meio de uma feroz tormenta, mas acre-
ditando que Juliana, Livio, Angelim e
Mariana serao sementes f6rteis de fu-
turo. O future que estamos a criar e/
ou a destruir neste moment.


SETEMBRO DE 2006 I"QUINZENA Jlrnll IPesjll









Oriximina: mina por quanto tempo?


A Mineradio Rio do Norte, respon-
dendo a mat6ria publicada neste journal,
assegura que suas operaq6es no munici-
pio de Oriximinai se manterao at6 2046,
em paralelo cor a extradio da bauxita
nos dois municipios vizinhos. Informa que
os dep6sitos minerals somam 700 mi-
lh6es de toneladas. Mantida a atual es-
cala de producao, a vida titil da jazida
estaria garantida pelos pr6ximos 40 anos.
Oriximind ter 48% das ocorrencias de
bauxita. Em Terra Santa ficam 29% e
em Faro, 23%. Sem diz6-lo explicitamen-
te, a empresa sugere que iri desenvol-
ver as minas nos tr6s municipios de tal
maneira a manter sua atividade em Ori-
ximini at6 a exaustio do minerio.
Os esclarecimentos da MRN nao
me foram encaminhados, como seria de
se esperar, ji que a questio foi abor-
dada exclusivamente por este journal
(privil6gio lamentivel, diante da gravi-
dade do tema). Por isso mesmo, as in-
formao6es da mineradora foram rece-
bidas e aceitas sem qualquer questio-
namento. Mas sua manifestaibo nao 6
suficientemente clara, a ponto de po-
der encerrar o assunto.
Os 700 milh6es de toneladas referi-
dos correspondem a avaliaqio da con-
centraqdo original de bauxita ou esse
valor represent o remanescente atual,
ap6s 27 anos de extracio de mindrio, em
escala crescente, em progressio expo-
nencial nos iltimos anos? Se a primeira
hip6tese 6 a correta, seria obrigat6rio
deduzir que Oriximind ter tanta bauxita
quanto no inicio da operaqio da MRN,
em 1979. Se os 700 milh6es devem ser


Ao long dos s'us. 60 anos. encer-
rado, em 1985. meu pal tanto acumu-
lou qualidades como as, dissipou. Dos
scus scie filhos. nenhum temn sido mais
fiel a essa heranca quanto o quarto. Luiz
e umn desenhisua de inao cheia. De suas
qualidades dd pro\ as neste journal. Ilus-
trouu e diagram iou com)1( se dizia anta-
nho a matoria das 375 edtioes. exceto
um1as duzias das quais foi e\cluido por
ciso c internas. intelnsa e curs,. como
lem que ser entire pessoas que se que-
rem bern e se admiram.
Operirio das leiras. tenho dificulda-
de para lidar corn os artisias, esses co-
metaus imprex isi' eis. Quando renho im-
peto de dar razio prtiica a autorniria
reptblica de Platio. corando a garganta


descontados do que ji foi retirado, 6 pre-
ciso ter os valores absolutos para saber
quanto realmente resta de mindrio em
Oriximini. O municipio, segundo a Rio
do Norte, tem quase metade desse total
ou apenas do que sobrou? Se esta se-
gunda 6 a hip6tese verdadeira, entao a
empresa, mesmo continuando a ter sua
base em Oriximind, logo nao estard mais
lavrando no municipio. O min6rio, dentro
de pouco tempo, vird apenas de Faro e
Terra Santa.
Qualquer que seja a resposta correta
para essas dtvidas, elas nao pretendem
criar uma pol6mica estiril nem simples-
mente causar embaraqos a empresa. A
question 6 muito mais profunda do que a
mineradora parece disposta a admitir. A
Rio do Norte multiplicou por quatro a
escala do projeto que a Sudam aprovou,
30 anos atris. Foi cor base nesses pa-
rfmetros que a Superintend6ncia do De-
senvolvimento da Amaz6nia deferiu a
colaboraqio financeira do governor fede-
ral ao empreendimento, transferindo-lhe
recursos resultantes da rentncia fiscal da
Uniao. Ou seja: poupanca national.
O contencioso estabelecido entire a
mineradora e a Receita Federal sobre
os incentives fiscais utilizados pela
MRN levou a aplicaibo de uma multa
no valor de 405 milh6es de reais, por
conta da negligencia sobre essa incor-
poraaio de dinheiro plblico ao patrim6-
nio de uma empresa privada. Se proce-
de a argumentaqio de que a empresa
esti obrigada a informar o tesouro na-
cional sobre decisoes que dizem respei-
to a essa colaboraao do poder p6blico,



Obrigado, Luiz

do artista deste journal, lembro-me do que
Mar% dizia para nnimizar as intempe-
ran'as do poem Heinrich Heine. Artista
e feiro de outro barro. P6-lo a perder
Implicaria empobrecer a \ida. Respire
fund. conie ate mil. made o cidadjo
para aquele lugar de rima rica e prossi-
ga. O espetaculo nimo pode parar.
Depots de 1' anos. ete e o prnmeiro
registro sobie a presence do Luis Ant6-
nio de Faria Pinto nesta publicaaiio. Ela
perderia grande part da pouca torqa que
ern se nao contasse corn a marca % isual
do Luiz. No JP. ele equivale ao que Da-
'id Le ine representou para a New Yirk
Review ou Books. guardadas a, devidas
proporoC6es, 6 claro. Mas este pequeno
journal e pouca coisa para Luiz: ele devia


. tao ou mais impositiva 6 a obrigacao de
ajustar o seu procedimento aos interes-
ses da coletividade.
Quando recebeu dinheiro do erdrio
para implantar seu projeto, a MRN tinha
um determinado piano de lavra. Com as
novas pesquisas e a incorporacbo da ja-
zida que era de Daniel Ludwig e a Alcoa
adquiriu, esse piano mudou, o que, natu-
ralmente, havia de acontecer. Mas a
mudanqa nao se comunicou com as poli-
ticas e as necessidades piblicas.
Evidentemente, a exaustio das minas
ter um significado especifico para cada
um dos municipios que ter min6rio. Ori-
ximina foi e sera sempre o que mais influ-
encia sofreu e sofrerd corn a presence (e
a ausencia) da Rio do Norte. Hoje, sua
dependencia dessa atividade 6 tal que a
exaustio do min6rio Ihe causard uma cha-
ga profunda se o process nio for anteci-
pado por medidas que assegurem um subs-
tituto econ6mico. A receita tributiria da
exploraaio mineral, que cessara mesmo
se a empresa continuar a operar a partir
de Porto Trombetas quando s6 houver la-
vra em Terra Santa e Faro, teri que fi-
nanciar a recomposiqio do municipio
quando a vida util dajazida chegar ao fim.
O recomendivel e que essas ques-
toes sejam apreciadas agora, diante de
informaq6es precisas e detalhadas, que
levem a um piano de aqio cor abran-
gencia sobre os tres municipios. Afinal. a
inica que transcende os limits intermu-
nicipais 6 a Mineraqao Rio do Norte.
Esse poder precisa ser desconcentrado
para que os beneficios se distribuam. E o
que nio esti acontecendo agora.


estar espalhando sua arte por outilos
luoares. Iniehzniene. poremi. o lu-,.-
res para exercer o jornalismo e am cs-
quinhaarnm basunme por aqum. PJra o
LUIz e para outro' artliss comno ee.
por diferenles montl\o. todo,. coniu-
do. sem grandeza. Perde o leitor corn
esse empobrecilncn[o.
Comro fao a linha Humphre\ Bo-
gart. durio are a primeira Iicgrima. quc-
ro apro,.eitar esta edicao lei, 'a pir.i
agradecer ao LUIZ por nlo tcr deer-
dado. Do journal que junto-s tazemns e
dos ideas que parlilharnos. Ess ffr'-
lernidade ncio e apenas acerod de ta-
milia. exceto ,e considelrarmlos Lue a
comunidade da utopia no, lga a ,dos
numa familiar unimersal.


Jornal Pessoal .* 1 QUINZENA SETEMBRO DE 2006 5











A utopia do jornalismo:


Com esta ediq~o, o Jornal Pessoal
complete 19 anos de vida. O n6mero nao
6 redondo, mas a data ter um significa-
do especial: este journal se tornou mais
velho do que a publicaq~o na qual se ins-
pirou, de long o melhorjornal verdadei-
ramente alternative que j, circulou. O .
F Stone's Weekly comeqou em janeiro
de 1953, em plena guerra fria e de mac-
carthismo, e terminou em dezembro de
1971, sob o governor Nixon, sobrevivente
da 6poca anterior. O IFW era escrito in-
tegralmente, em Washington, por Isidore
Feinstein Stone, um filho de imigrantes
russos que se tornaria mais conhecido
como Izzy Stone.
Ele tinha 45 anos de idade e 26 de
jornalismo quando decidiu fazer seu pr6-
prio caminho, depois de transitar por pu-
blicaaqes que iam do centro a esquerda.
Ja era um professional respeitado: 5.300
pessoas, dentre as quais o fisico Albert
Einstein, o fil6sofo Bertrand Russell e
Eleanor Roosevelt (vidva do president
Franklin Delano Roosevelt, morto oito
anos antes), se dispuseram a pagar ante-
cipadamente cinco d6lares por uma assi-
.natura annual (cor 48 ediq6es) da nova
newsletter.
Mas nio foi uma aq~o de caridade.
Fizeram, na verdade, um excelente ne-
g6cio. Durante quase 19 anos o I. F
Stone's Weekly registrou a outra his-
t6ria dos Estados Unidos e do mundo.
Nio s6 era a hist6ria nio-oficial como
seu conteido n~o aparecia em nenhu-
ma outra publicaqio, mesmo as de es-
querda, mais identificadas cor as po-
siq6es de Stone. O que distinguia o seu
jornalzinho dos demais era sua capa-
cidade de encontrar todos os fatos elu-
cidativos das quest6es abordadas, en-
quanto os outros se restringiam a ape-
nas alguns desses dados, substituindo-
os ou suprindo-os cor conceitos de
valor, id6ias, opini6es.
Quando suspended a circulagqo do
seu journal, depois de ver-se obrigado a
torni-lo quinzenal, por causa de um en-
farte que sofreu, Stone podia se orgu-
lhar de ter 66 mil assinantes espalhados
pelos EUA e os cinco continents. Qua-
renta assinaturas, todas pagas, natural-
mente, iam para a Casa Branca, a sede
do executive, e o Capit6lio, a casa do
parlamento. Mesmo os que nao gosta-
vam dele viam-se obrigados a 1&-lo se
quisessem ter informaq6es confiaveis e
abordagens elucidativas.
Algumas das fontes nio eram nada
inacessiveis. Mas quem 16 balanqos de


empresas, relat6rios, estatisticas, pres-
taoqes de contas, leis, decretos, portari-
as, ac6rdaos, estudos cientificos? Em pri-
meiro lugar, 6 precise ter disposiqio
para ler. Em seguida, saber ler, supe-
rando c6digos e linguagens cifradas que
bloqueiam o acesso. Depois, entender
plenamente o que leu, situando o assun-
to em seu context e correlacionando-o
a temas afins. E, no caso de quem quer
comunicar o que sabe a terceiros, ser
capaz de fazer-se entender, expressan-
do-se com clareza.
Como era jornalista, Stone nunca se
preocupou em seguir as regras de nor-
malizaqao e mesmo alguns procedimen-
tos metodol6gicos correntes no mundo
acad6mico. Os intelectuais universitari-
os o liam muito, mas pouco o citavam.
Os leitores fi6is de Izzy s6 se deram conta
integralmente da apropriaqio na~o confes-
sada de seus textos por terceiros quando
eles foram reunidos em livros, permitin-
do uma visao de conjunto de sua obra
(sempre em progresso.
Sua capacidade de obter, organizer
e divulgar informaq6es era notAvel, sem
paralelo entire os que, na mesma 6poca,
produziram textos para divulgaqio pi-
blica imediata. Por isso, consulti-lo era
indispensivel ou inevitavel para
quem quisesse saber o que estava acon-
tecendo na mesma hora-em que estava
acontecendo. Certamente muitos outros
analisaram melhor virios dos temas
abordados por Stone, mas ji entdo A dis-
tancia dos fatos.
A capacidade de perceber a novi-
dade exatamente quando ela aparece
6 a principal qualidade dos jornalistas
melhor aparelhados. Entender o novo
e contextualizi-lo 6 uma virtude rara
mesmo entire os melhores jornalistas.
Por causa de sua intelig6ncia privilegi-
ada e excepcional capacidade de tra-
balho, I. F. Stone tinha das duas quali-
dades em abundincia.
Ainda assim, 6 triste verificar que,
menos de 20 anos depois de sua morte,
aos 82 anos de uma vida fecunda, seu
nome 6 cada vez menos lembrado. O
melhor livro escrito sobre ele ainda 6 a
biografia de Robert C. Cottrell, publica-
da em 1992 (e at6 hoje sem traduqio no
Brasil). E um trabalho de alto nfvel, es-
pecialmente por acolher ojornalista corn
generosidade, mas tamb6m com rigor, no
geralmente preconceituoso mundo aca-
d6mico. Cottrell mostra que a produq~o
jornalistica de Izzy resisted a mais exigen-
te das leituras universitirias, sem se des-


manchar no patois dos intelectuais de
carreira.
A falha do livro esta justamente no
outro lado dos seus m6ritos: dar menos
atengao ao modus operandi do jornalis-
ta no seu universe professional. Um apro-
fundamento nas piginas do 1. E Stone's
Weekly e no seu m6todo de investigaEqio
teriam efeitos enriquecedores sobre os
jornalistas em atividade, cada vez mais
limitados no seu horizonte intellectual. No
Google, ao que parece sua principal fon-
te de pesquisa, as entradas referentes a
Stone sio de uma pobreza lamentivel.
O Google e sites semelhantes fornecem
informaqio, mas nao cultural. Uma das
chagas dos nossos tempos 6 a incultura
glamourizada. Ficou ficil dar boa enca-
dernaqao a imbecis.
De 1971 a 1989, quando morreu, jd
sem sua trincheira solitdria, Stone es-
palhou textos preciosos por virias ou-
tras publicaq6es, especialmente o New
York Review of Books. Sem a bitola
da informaqio em conta-gotas e da fita
m6trica da escrita, que se tornaram
dogmas nos manuais de redaqio em
vigor nas principals reda~ges, esses
artigos eram um convite ao raciocfnio
em profundidade, sem a gaseificapqo
ligeira do jornalismo cor enfisema
mental. Nessas iltimas d6cadas o in-
telectual que havia em Stone se liber-
tou das amarras do cotidiano, sem nunca


SETEMBRO DE 2006 I(QUINZENA journal Peessoul










ha 19 anos, uma meta


se desprender, por6m, do seu terreno
fundamental: os fatos. Em raros jorna-
listas essa combinaAio foi melhor.
Lembro-me bem dos efeitos tonifican-
tes das primeiras leituras de Stone. Elas
me davam arguments para os duelos
verbais, mas tamb6m me orientavam nas
minhas pr6prias investigaq6es e anilises.
Forneciam um m6todo de trabalho sem
que o autor tivesse qualquer intengqo pe-
dag6gica. NMo 6 no manual que se apren-
de o melhor jornalismo. Quem sai atras
desse objetivo nos cursos de comunica-
9io vai se frustrar, depois de rodar na
quadratura do positivismo.
O progressive esquecimento de I. F.
Stone significa que ele envelheceu? Du-
vido. A verdade tern que ser buscada do
outro lado da pista: a vida intellectual 6
que se empobreceu e os intelectuais se
encolheram em seus tug6rios. O intelec-
tual publico morreu, proclamou Jacobby.
Fileiras deles se movimentam pelos cor-
redores das universidades e trabalham
em seus escaninhos.
Mas nao os obriguem a deixar suas
tocas refrigeradas, apascentadas pela
desobrigaqio de responder aos desafios
do dia a dia. O que eles querem 6 produ-
zir grandes dissertaq6es, profundas teses,
brilhantes insights, percucientes appro-
achs. Tudo pelo mundo virtual. A reali-
dade passou a ser circunstancia menor,
sem m6rito, sem fascinio.


Numa regiao como a Amazonia, o
cotidiano clama pela mente anti-fog
mental dos intelectuais. Ha muitas mu-
danqas, terrivelmente ripidas, descon-
certantemente desafiadoras. Necessita-
se de um raciocinio capaz de costurar
todos os fios soltos, estabelecer as co-
nex6es possiveis, dissipar as brumas
enganosas, as miragens que desviam a
compreensdo, que fantasiam. Mas os
muros das universidades sdo altos, es-
tio cheios de hera, foram eletrificados.
E o intellectual sumiu dos bares, das ruas,
das pragas, que jd nao 6 mais do povo
(e o condor bateu asas).
Digo tudo isso a prop6sito dos 19 anos
deste Jornal Pessoal nio para associi-
lo a newsletter de I. F. Stone, num para-
lelismo desmedido, injustificadamente
pretensioso. A referencia pretend ape-
nas mostrar que o impossivel existe. Se
nio 6 possivel produzir umjornal da mes-
ma qualidade, 6 proveitoso te-lo em con-
ta. O possivel s6 6 impossivel porque nio
estamos em condiq6es de realizi-lo, mas
algu6m ji o conseguiu ou conseguira.
Conv6m nio desistir. Melhor manter
aquecida a utopia.
O desejivel era ter uma publicaqio
coletiva, cor meios para chegar aos lei-
tores e recursos para alcanqar os fatos,
abrindo a avenida da informaqaio ao mi-
ximo. Temos essa publicacqo? A existen-
cia deste journal responded que nio. Ele
faz muito menos do que devia. Faz, alias,
um itimo do que devia. Mas o que faz
revela que os que podem nio fazem nerm
o que esti ao seu alcance. A desinfor-
macio, cor tantas fontes de acesso, 6
abissal. O comum dos cidaddos faz o que
nio sabe o que significa e o que sabe
ter pouca significancia para o fazer que
decide. A hist6ria passa ao largo ou nos
atropela. Estamos condenados a nao v6-
la ou a ser-lhe a primeira vitima.
Ao long dos tiltimos tempos uma
provocaqio cada vez mais dificil de en-
carar 6 a de colocar um assunto grave
na capa deste journal. Invariavelmente o
resultado 6 uma queda na vendagem. A
teimosia nessa pritica 6 indicio de ma-
soquismo? Nio: e compromisso corn o
principio educativo dojornalismo. Nos-
so produto tern que vender, mas seu con-
te2do nio pode ser definido apenas pela
necessidade de venda. Hi um momen-
to em que precisamos destacar aquilo
que o leitor tem que saber, nio apenas
o que ele quer saber. S6 assim se for-
ma opiniio ptblica. O problema 6: o lei-
tor ainda 6 suscetivel a essa pedagogia?


Ele esti disposto a se interessar pelo que,
desde logo, nao Ihe interessa?
E nesse moment que surge o agent
cultural, o intellectual piblico. Surge, em
tese; devia surgir e nio aparece, na reali-
dade. Ha uma divis6ria de incultura sepa-
rando o comunicante do comunicado, ojor-
nalista do leitor, o intellectual do cidadio.
Enquanto o indice de analfabetismo
caiu bastante no pais, o de analfabetismo
funcional cresceu assustadoramente. As
pessoas cada vez mais sabem ler. Mas
nio entendem o que e6em. Ou entendem
completamente ao contrario do que esti
dito. O analfabetismo aberto estai nas
ruas. O analfabetismo funcional esti nas
escolas, inclusive nesses ninhos de rato
em que se transformaram as faculdades
amebas. Uma lamina invisivel se inter-
p6e entire o professor e o aluno, isso quan-
do o mestre tern o que dizer ao seu disci-
pulo. O teatro do absurdo desceu do pal-
co para a plat6ia.
E terrivel um quadro cultural dessa
qualidade numa regiao que sofre trans-
formaq6es radicals como a nossa. Mais
do que em qualquer outra, 6 aqui que 6
mais sentida a necessidade do oficio da
intelig6ncia, dotada de capacidade de re-
aqgo imediata ao novo desafiador, desar-
ticulador. Mas quando as novas situaq~es
se estabelecem, sendo despejadas na
selva pelos "grandes projetos", a falta de
quem traduza para a sociedade os c6di-
gos trazidos pelo novo personagem pro-
voca um vicuo de intelig6ncia, que gera
incompreensao, conflito, desgaste, perda
de identidade, subdesenvolvimento (ou
qualquer outro conceito equipartvel).
Nossos sonhos de nao nos tornarmos
colonia se desmancham no ar.
Este journal ter procurado fazer a sua
parte, mas constata, depois de 19 anos,
que o saldo, se existe, 6 magro, insufici-
ente para ajudar a reverter a onda que
desaba sobre o litoral da nossa hist6ria.
Resta-lhe, ao menos, olhar para tris e
constatar que se as batalhas nao foram
vencidos, ao menos se batalhou e bata-
lha-se. Nao pouco. Ao contririo de mui-
tos outros, em melhores condiq6es ou mais
bem aparelhados, buscou-se o combat,
ao inv6s de se acomodar a sombra de
um emprego, atris de uma desculpa es-
farrapada, como aquelas mais comuns
("nao vou mais a banca", "estava viajan-
do", "nao tive tempo", etc.).
Se a hist6ria destes tempos dificeis e
fascinantes perguntar, o Jornal Pesso-
al continuari a responder: present!
Mesmo que ja tenha ido.


Journal Pessoal 1I QUINZENA SETEMBRO DE 2006









Segundo turn?


A tres semanas da eleiqio, das tr6s
pesquisas sobre intenqio de voto regis-
tradas no TRE por 6rgaos da imprensa
local, apenas uma a da TV Liberal -
foi divulgada. O Didrio do Pari, que
encomendou duas, nao publicou nenhu-
ma. O Pard deve ser um dos Estados da
federagio que menos sondou a intenaio
do eleitorado. Nao surpreende o desinte-
resse da populaqao, em contrast cor a
disseminaqio de muitos e frequente-
mente desbaratados boatos.
Como o grupo Liberal ter seus pr6-
prios candidates e age cada vez mais
atrelado a esses compromissos, a pes-
quisa do Ibope que divulgou foi recebida
corn ceticismo e at6 com desateniao. Foi
justamente por ler sem atencio a pes-
quisa que o deputado federal Jader Bar-
balho, o principal desafeto dos Maiora-
na, levou o PMDB a cometer um erro
primirio: ajuizou aqao contra a TV Libe-
ral por ter omitido a margem de erro da
pesquisa para induzir o entendimento de
que o candidate do PSDB, Almir Gabri-
el, deveri vencer no primeiro turno.
A margem de erro foi publicada, mas
de uma tal maneira que s6 os mais aten-
tos devem t6-la considerado. O Ibope aler-
tou que se a eleiqao fosse hoje, com base
na pesquisa, "nao seria possivel afirmar
se haveria ou nao segundo turno, ji que o
percentual de votos vilidos de Almir Ga-
briel nao supera a margem de erro amos-
tral da pesquisa, nao possibilitando afirmar
se ele venceria ou nio no primeiro turno.
Almir Gabriel tem 52% dos votos vilidos,
enquanto Ana J6lia ter 29%".
Parece mais forte a tendencia de a
dispute entire o ex-governador, que tenta
um novo mandate pela terceira vez, e a
senadora Ana Julia, vi mesmo para o
segundo turno. Mas, ao contririo do en-
tendimento corrente, Almir teria muito
mais vantage no segundo confront, a
crer-se na pesquisa do Ibope: 57% dos
eleitores acreditam que o tucano sera
eleito novamente governador, enquanto
15% apostam em Ana Jilia, embora, na
hora de votar (e nao mais de apenas dar
palpite), haja maior aproximaaio entire os
dois: Almir Gabriel tem 55% e Ana Jilia,
37% das preferencias.
Mas ainda 6 uma proporgao tio van-
tajosa que s6 uma hip6tese poderia evi-
tar uma vit6ria ji previamente anunciada
dos tucanos para, pelo menos, mais qua-
tro anos no PalAcio dos Despachos da
rodovia Augusto Montenegro: Lula ven-
cer no 1 turno para a presidencia, pro-
vocando uma drnstica reduqao no indice
de reaqFo a candidate petista e ao mes-
mo tempo uma mais intense exposiqao
do seu nome.
Os n6imeros apurados pelo Ibope re-
velam que o candidate do PSDB 6 cita-


do espontaneamente por 27% dos entre-
vistados, enquanto apenas 10% mencio-
nam Ana Jtlia. Mas 45% dos entrevista-
dos afirmam espontaneamente que ain-
da nao sabem em quem votarao para
governador.
Isto significa que se Lula, reeleito,
aparecer cor mais constancia ao lado
de sua correligiondria, poderi suprir essa
insufici&ncia. E que na pergunta estimu-
lada de votos, Almir Gabriel ter 46%,
enquanto Ana Julia possui 26%. Ou seja:
a opqio por ela ter boas probabilidades
de crescer. Ainda mais se Lula, vitorioso
logo de said, aplainar resistencias e pre-
vencqes contra a imagem de um candi-
dato petista. Alem de liderar as intenq6es
de voto, Almir enfrenta a menor taxa de
rejeiqio, de 19%. Mas a de Ana Jilia 6
apenas um pouco maior, chegando a 23%,
enquanto a dos demais candidates varia
entire 25% e 30%.
A vantage, para quem conta cor a
miquina para se deslocar pelo Estado e
praticar o clientelismo, 6 que os indices
de rejeicio sao maiores entire os eleito-
res de Bel6m do que a media encontra-
da no Estado. Mas na capital a rejeiqao
de Ana (28%) 6 menor do que a de Al-
mir Gabriel (31%). Isto quer dizer que se
a principal dispute alcancar o 2 turno,
numa conjuntura em que as duas miqui-
nas p6blicas (federal e estadual) pode-
rio servir aos seus candidates, corn a
reeleidio de Lula confirmada, a perspec-
tiva se tornarni desfavorivel a Almir Ga-
briel. Daf o empenho (ainda que cuida-
doso) do grupo Liberal em esconder al-
guns aspects essenciais da pesquisa. A
vit6ria dos tucanos lhe 6 mais vital do que
ao pr6prio PSDB.
Sem um terreno mais s6lido de sus-
tentaiao, as informaq6es giram pelo ar em
busca de credibilidade. Assegura-se, por
exemplo, que ojornal dos Barbalho ocul-
tou as duas pesquisas do Vox Populi por-
que os resultados eram desfavoriveis aos
interesses e expectativas do dono da em-
presa. Nao 6 precise fazer pesquisa para
verificar que a candidatura do primo, Jos6
Priante, 6 uma decepqio. O candidate do
PMDB ao governor do Estado nao conse-
guiu at6 agora se apresentar como um
pretendente a ser levado a sdrio. Sua ima-
gem nao imp6e respeito, sua propaganda
6 amorfa e seu desempenho esti aqu6m
de campanhas anteriores.
Como sempre circulou muito pelo in-
terior e conseguia verbas para os muni-
cipios, imaginava-se que o deputado Pri-
ante se tornasse um pleiteante com po-
der efetivo de chegar ao 2 turno. Mas
se nao houver uma novidade s6bita e ra-
dical, seu perfil esti mais para a reedi-
qao do "fen6meno Moreno": candidate a
prefeito de Bel6m, Fernando Velasco deu


a Sahid Xerfan, seu adversirio, uma elei-
qio consagradora, cor 78% dos votos
v~lidos. O iltimo esp6cime dessa estra-
nha estirpe peemedebista foi Rubens
Nazazeano de Brito, que, ao final da cam-
panha, mais parecia locutor de program
eleitoral do que candidate.
O novo fracasso pode, desta vez,
respingar sobre o autor dessas feitiqa-
rias, o ex-governador e ex-ministro Ja-
der Barbalho. De tanto manobrar situ-
aqces e candidates em beneficio pr6-
prio, compartilhado ou exclusive, desta
vez ele pode ter criado sarna para se
coqar definitivamente.
Um dos boatos alimentado pela ocul-
taqio das pesquisas do Vox Populi 6 de
que Jader nao 6 mais o campeao absolu-
to de votos para a Camara Federal e que
sua ex-esposa, Elcione, esti ameacada
de ficar de fora da nova bancada do
PMDB do Pari, que deverA ter quatro
ou, no miximo, cinco integrantes. Impos-
sivel? Aparentemente. Mas o sil6ncio
comprometedor assinalaria que o absur-
do comeeou a se tornar razo6vel. De
qualquer maneira, cresce a sensaqio de
que os 300 mil votos da iltima eleiqio
serao coisa do passado.
A eleiqio deste ano poderd ser o si-
nal vermelho para o cli dos Barbalho.
Eles estio perdendo politicamente e tam-
b6m empresarialmente. Todo esforqo de
dar credibilidade ao Didrio do Pari, pro-
fissionalizando-o e dando-lhe condic6es
de concorrer em igualdade de condiq6es
cor O Liberal, esti send minado pelo
comprometimento partidfrio, um vicio ao
qual a empresa parece condenada. Isso,
no moment mais oportuno para uma
concorrencia para valer cor os veiculos
da familiar Maiorana.
Se para o grupo Liberal a vit6ria de
Almir 6 o trunfo vital para enfrentar situ-
a6oes cada vez mais dificeis (sem abun-
dante verba official a empresa pode nao
dar conta de seus compromissos econ6-
mico-financeiros), para os veiculos dos
Barbalho a esperanga esta sendo colo-
cada na vit6ria do PT.
0 Didrio se empenha em todas as
suas edicqes em torcer pela decisao em
Brasilia no 1 turno, sem a qual as pos-
sibilidades de uma vit6ria no Para se
tornarao remotas. A senadora Ana J6-
lia Carepa, fustigada ultimamente pelo
grupo Liberal, depois de uma mal-su-
cedida tentative de compor interesses,
talvez se tenha convencido de que as
simpatias manifestas em seu favor eram
apenas superficiais. Elas tamb6m sio
da boca para fora em relaqao a Almir
Gabriel, mas o ex-governador preferiu
seguir, em relaqlo ao grupo Liberal, o
caminho de Ana Jdlia e de todos os po-
liticos admitidos nos gabinetes da em-
presa como mal necessirio. Quando
deixam de ser necessarios, tornam-se
apenas males. E, por isso mesmo, sao
abandonados.


SETEMBRO DE 2006 IhQUINZENA Jornal Pessoal








CARTAS

Amaz6nida
Em primeiro lugar, uma inda-
gaqgo. Por que s6 os "verdadei-
ros amaz6nidas" podem refletir
ou se ocupar da proposta dos
pesquisadores do Inpa? Esti se
querendo retroagir aos tempos
primitives, aonde somente uns
poucos escolhidos teriam direito
as benesses do c6u? A verdade
pende apenas para um lado de-
terminado? Nfo creio que este
seja o caminho a seguir. No en-
tanto, 6 o que se sugere quanto
ao texto reproduzido em resume
no Jornal Pessoal n. 373, primei-
ra quinzena de agosto, sob o ti-
tulo "Como ser amazonida: a cul-
tura da flloresta". No fundo nio
hi nenhum dado novo no traba-
Iho apresentado, pois os temas
ali alinhados jd foram exaustiva-
mente debatidos desde tempos,
diga-se, imemoriais, mas que nun-
ca se chegou a enquadri-los num
projeto real para implant.-lo de
forma resoluta na Amaz6nia. A
novidade fica por conta da exclu-
slo do agroneg6cio dos recur-
sos oficiais a serem alocados
para tal fim. Diz, tamb6m, o docu-
mento: "E a tinica proposta que
tem escalas geogrifica e econ6-
mica necessfrias para enfrentar
o agroneg6cio (grifei) hoje em
franca expansio". E uma guerra
declarada! Nem uma Ong dessas
mais raivosas seria tao dispara-
tada. Hi mais implicaq6es no tex-
to, por6m prefiro interromper os
comentirios porque o espaqo
nio 6 adequado.
Finalizo, esclarecendo que
nao hi possibilidade de a soja in-
vadir a Amaz6nia de forma preda-
t6ria como anunciam com suas
trombetas alguns precipitados,
ela vem ocupando ireas jA traba-
lhadas e invasivas, e que nao re-
presenta perigo algum ao univer-
so amaz6nico. Segue um dado t6c-
nico. Segundo o pesquisador Rui
de Souza Chaves: "o bioma ama-
z6nico 6 constitufdo de 418,44 mi-
lh6es de hectares, enquanto a
6rea ocupada de grios (arroz, fei-
jio, milho e soja) corresponde a
1,15 milhao de hectares. Ou seja,
0,27% da Area total".
Rodolfo Lisboa Cerveira

MINHARESPOSTA
Sd urma duvida, para ajudar
no debate. NJo se entende por
amazonida apenas quem nasceu
ou mora na regido. E aquele, na-
tivo on ndo, que pensa sobre a
regido, quer entendI-la e parti-
cipar da sua histdria.


Cidade
Voltei a Beldm esta semana.
Uma triste paisagem que sempre
vem ao meu encontro 6 o cres-


center ntmero de ambulantes na
cidade. Assunto inclusive trata-
do por voc6, mais especificamen-
te na Presidente Vargas. Possui-
mos condiq6es favoriveis ao
crescimento dessa forma de co-
merciar. A legislaqdo municipal,
que trata deste assunto, que foi
em grande parte formatada na
administration anterior, 6 bastan-
te benevolente cor esta situa-
cio. Juntamente com isso conta-
mos cor outros elements cau-
sadores dessa situaqao: baixa es-
colaridade da populaqio, por isso
desemprego e baixa renda.
Longe dos tempos em que ti-
nhamos somente aquele cachor-
ro quente nas esquinas, hoje po-
demos tomar caf6, almoqar ejan-
tar nas calqadas de Bel6m. Al6m
de garqons que podem Ihe trazer
uma empada, ou at6 um pastel
com suco a qualquer hora do dia.
Diante desta situaqio o que
poderfamos falar do ambiente de
neg6cios de Bel6m? Verifico em
outras cidades, mesmo nos cen-
tros comerciais (os sempre deca-
dentes centros de cidades maio-
res), restaurants em que as pes-
soas sentam para comer seus
PF's. Aqui, fizemos uma verda-
deira seledio natural. Comida? S6
cara. Nio vemos restaurants
baratos em Bel6m. A informalida-
de da conta desta faixa da popu-
laqio. Qual empreendedor se ha-
bilita a abrir restaurants para
este mercado?
Voc6 anda muito por Bel6m e
ja deve ter visto. Na Rui Barbo-
sa, quase esquina cor a Boaven-
tura da Silva, em frente A Amazo-
nia Celular, instalou-se uma am-
bulante. Inicialmente vendia san-
duiches. Agora, passe por li as
12:00 hs. As pessoas sentadas
em banquinhos, corn o prato so-
bre as m5os! Triste ver nossa ci-
dade neste rumo.
Lorenzo Ciuffi


Referencia
Seja qual for o desfecho de
sua luta brava e solitaria no front
do verdadeirojornalismo, voc6 j
6 um referencial, de intelig6ncia.
de reflexio, de busca da verda-
de, nesta que 6 a terra que mais
carece deste bem. A consciencia
desta sua condiiao de referenci-
al se tornou mais clara para mim,
certo dia, quando algu6m abriu
perto de mim, de manhazinha, um
joral. Nio foi alguma reportagem
esclarecedora de algum fato obs-
curo do nosso Estado (e nao con-
sigo esperar que as grandes fo-
lhas do Par6 o faqam.) Foi o chei-
ro da tinta de impressio, que me
remeteu aos anos 70 e 30, quan-
do diariamente meu pai cumpria
seu ritual de ler o journal. Corn
pouco estudo, ele tinha livros e
mais livros nas estantes de casa,
para dar aos filhos o que ele pr6-


prio nao pudera ter na vida. Em
assunto de leitura, 6ramos com-
panheiros. E eu gostava de jor-
nal, da sensaqio de que, lendo,
me aproximava do mundo, me
humanizava, sentindo-me parte
de uma comunidade: das pesso-
as que possuiam cultural. Suas
apariq6es nas chamadas do seu
program de entrevistas sempre
me causavam a sensaqao de ver
uma pessoa cuja mente fervilha-
va cor um conhecimento fora do
comum. E sei que isto 6 verdade
verdadeira.
Desenhista, ji adolescent,
gostava do jeito do seu irmio,
Luis Pinto, chargista de O Libe-
ral, para conferir volumes aos ros-
tos dos caricaturados. E me ins-
pirava nele. Pena, mas eu nio ti-
nha tanta atenqio para os gran-
des temas amaz6nicos como ti-
nha para os temas culturais. Mas
certamente osjorais fizeram par-
te da minha vida, e vejo que voce
participou disto, sendo um dos
esteios que direcionou o jorna-
lismo no Para, influenciando, tal-
vez voce nem saiba o quanto, as
cabeqas de tantosjovens da mes-
ma 6poca.
Um acontecimento passado
na metade dos anos 80 me faz re-
parar algumas coincid6ncias
curiosas, que parecem fugir do
assunto, mas sempre me remetem
ao context de nossa regiio, e
da luta para torna-la melhor para
viver. Em 1986, meu pai fora ope-
rado de um tumor, mas, um ano
depois, retorara, eja exigia nova
cirurgia. Lembro da ang6stia em
esperar pela data, at6 que, no dia
marcado, ele abriu ajanelado lado
(6, ainda existiam "janelas late-
rais", agora extintas pela ocupa-
qao espremida da cidade) e se
deparou cor algo no minimo in-
comum: no c6u, duas nuvens for-
mavam uma cruz! Dois fiapos de
nuvens, acho que cirros, muito
altos, nio afetados pelas corren-
tes de ar, que permaneceram ali
por varios minutes, tempo sufi-
ciente para que ele os fotogra-
fasse, e ainda temos as fotos.
Era uma cruz mesmo e, nao
importam as explicaqoes meteo-
rol6gicas, ele interpretou aquilo
como um bom pressigio. De fato,
a cirurgia foi feita corn sucesso,
mas nao na mesma data. Naquele
dia, o m6dico adiou a cirurgia,
pois havia sido assassinado um
grande amigo dele, Paulo Fonte-
les. Pode parecer exagero, mas as
vezes me pergunto se haveria, no
inconsciente coletivo, um poder
tal que materializasse no ar a de-
sesperanga, o terror, a dor de to-
dos quantos viviam na Amaz6-
nia, dor levada ao climax naquele
assassinate horrendo, odioso.
Quando li pela primeira vez
que esse triste epis6dio foi o pon-
to de partida para a criaqio do
Jornal Pessoal, logo lembrei da


hist6ria da cruz no c6u. Porque
as perguntas nunca satisfatoria-
mente respondidas, lanqadas aos
paraenses, pelo JP, slo decisi-
vas para a Amaz6nia. Porque
aprendi que a dor de uma familiar
esti inserida em um context re-
gional, e 6 neste que precisamos
prestar atenqio, se quisermos
solucionar algumas de nossas
anglistias. Seja qual for o desti-
no da Amaz6nia, seu nomeja esti
inscrito entire aqueles que con-
tribuiram para essas solug6es.
Artur Dias


Aniversario
0 Journal Pessoal complete
neste mes 19 anos de imprensa
altemativa na Amaz6nia. Impren-
sa independent, insubordinada,
complex, necessfria para a de-
mocratizaqio da comunicaiao na
regiao, esta dilacerada pelo cli-
entelismo politico que lhe imp6e
um atraso colonial perverse. Este
"pequeno"jornalzinho 6 a pedra
no caminho da omissao e da con-
veniencia dos que insisted em
fazer da Amaz6nia apenas a gran-
de mat6ria-prima do mundo.
As temriticas abordadas pelo
nanico sio quest6es publicas da
estrutura social-politica da re-
giio. Lticio Flivio Pinto. durante
todos esses anos, tem possibili-
tado ao seu leitor uma compre-
ensao ampla dos problems es-
truturais que afligem a Amaz6nia
e afetam diretamente seu povo,
em sua maioria, pobre, carente,
sem um projeto definido capaz de
enfrentar um poder que o man-
t6m sempre colonizado.
Esse modo independent de
fazer jornalismo provocou urma
enxurrada de processes na justi-
qa paraense. O motivo dispensa
comentirios, pois ojomalista tem
relatado nas ediqoes do nanico a
via crucis que enfrenta. Uma ten-
tativa de por firm sua priiticajor-
nalistica, alicerqada na critical sem
concess6es aos interesses da
propaganda do "toma-l6-da-ci".
Ao que tudo indica, os pro-
cessos movidos contra o JP na
justiqa paraense s6 contribuem
para ofuscar ainda mais os prin-
cipais acontecimentos de natu-
reza public na Amaz6nia. Con-
tra tudo isso, o JP diz nao desde
o seu primeiro numero.
Certamente o alternative,
ao long de sua trajet6ria, nao
trouxe nenhum ganho econnmi-
co para Ltcio Flivio Pinto. E
nem poderia, pois o seu maior
lucro 6 o social, e, nesse caso,
6 a Hist6ria do jornalismo na
Amaz6nia sua maior recompen-
sa. Tal tarefa exige coragem,
espirito de luta, 6tica. Parab6ns,
Luicio Flivio Pinto!
Clia Trindade Amorim
Jornalista, mestre e douto-
randa da PUC/SP.


Journal l'PCSa *0 I QUINZENA SETEMBRO D 2006









MEMORIAL DO COTIDIANO
..4MDu- ...... ............................. ..... ................. ..... ............. ... .....


Leilao
O "s6lido e confortivel pala-
cete" na travessa Padre Eutf-
quio, 915 (antiga Sdo Mateus),
"ap6s a praqa Batista Cam-
pos", que serviu de residen-
cia a Elias Tavares Viana, foi
a leilio depois da morte do
muito conhecido advogado e
professor. O leilio alcancou
tamb6m o terreno ao lado
(com nove metros de frente
por 70 metros de funds) e sua
importante e rara biblioteca
jurfdica e literiria".
A Agencia Freitas, respon-
sivel pelo leilio, anunciava,
com sua linguagem pr6pria:
"volumes artisticamente enca-
dernados em Portugal e Brasil
- Conjunto de escrit6rio, corn
6 estantes de madeira de lei e
cristais biselados Carteira
cor tampa de cristal Cadei-
ra de rodfzio Cadeiras de re-
pouso que acondicionaram a
biblioteca literdria, corn 3.400
volumes 12 estantes envi-
draqadas que acondicionam a
bibliotecajurfdica e pedag6gi-
ca, composta de inimeros vo-
lumes ColeqFes completes
do 'Fon-Fon' e outras revistas
conhecidas Quadros a 61eo
- Pratos de adorno Vasos de
prata el6trica Mdquina de
escrever Underwood".
Deve ter sido 6timo.

Trem
As margens da avenida Tito
Franco (atual Almirante Bar-
roso) funcionavam, em qua-
dras continues, o 26 Batalh~o
de Caqadores (2 Batalhio de
Infantaria de Selva de hoje), o
hospital da Aeroniutica, o asi-
lo da mendicidade (asilo Dom
Macedo Costa), o asilo de ali-
enados (Hospicio Juliano Mo-
reira) e outros estabelecimen-
tos. Pois nem diante deles o
trem da Estrada de Ferro de
Braganqa, conhecido como
"Litorina", reduzia a velocida-
de, que os observadores con-
sideravam excessive. As ve-
zes havia acidentes e atrope-
lamentos,comoem 1955, quan-
do foi morta a sogra de um fun-
ciondrio da Aeroniutica, colhi-
da sobre o trilho.


Patrim6nios
JA na reserve como coronel do
Ex6rcito, Jarbas Gonqalves
Passarinho tomou posse no
governor do Estado em 15 de
junho de 1964. Antes de com-
pletar o prazo legal de 60 dias,
enviou sua declaraqio de bens
ao Tribunal de Contas. Seu
patrim6nio era entao formado
por uma camionete Rural-Wi-
Ilys, comprada em 1963; 150
aq6es nominais da Petrobris;
uma aqio da Assembl6ia Pa-
raense; uma aqio do Clube do
Remo; uma aaio do Pard Clu-
be; dinheiro depositado no
Banco do Brasil e no Banco
Com6rcio e Indistria da Am6-
rica do Sul (a soma dava pou-
co mais da metade do preqo
do carro).
Sua esposa, Ruth, corn
quem casara em comunhao de
bens, tinha um patrim6nio mai-
or: uma casa residential na
Bris de Aguiar, cedida por adi-
antamento de legitima e manti-
da em usufruto por seu pai, Le-
6nidas Castro (onde seria levan-
tado pr6dio cor seu nome),
construida em 1946; e um apar-
tamento em Copacabana, no
Rio de Janeiro, comprado tam-
bdm pelo pai, em 1957.
Ji os bens do engenheiro
Fernando Jos6 de Leio Gui-
lhon, director do Departamen-
to de Estradas de Rodagem (e
governador a partir de 1971),
eram, em 1964: um autom6-
vel Volkswagen sedan, modelo
do mesmo ano; terreno do lo-
teamento Jardim de Hesp6ri-
des, na praia de Sio Francis-
co, em Mosqueiro, comprado
em 1958, a prazo; e uma acqo
do Clube do Remo. Sua espo-
sa, Norma, nao possufa bens.
Ambos se tornariam mais
poderosos depois. Nenhum
enriqueceu.

Venda
Epoca boa, quando ainda nao
se precisava de marketing e
outras t6cnicas sofisticadas de
venda. Em julho de 1964 a
Folha do Norte conclamava
seus assinantes a fazerem "a
fineza de virem pagar o segun-
do semestre do ano em curso,


que esti a vencer-se". A mon-
tanha ainda ia a Maom6.

Casal
Os jovens Marena e Vicente
Salles ficaram noivos em 15
de julho de 1964. Ela era na
epoca, a mais talentosa violi-
nista com raizes no Pari.
Embora nascida no Rio de
Janeiro, era filha do paraense
Marcos Salles, tamb6m violi-
nista, e sobrinha de Camerino
Salles, igualmente violinist.
No mesmo mes em que noi-
vou, apresentou-se como so-
lista no Teatro Municipal da
entio Guanabara, interpretan-
do Haendel, Brahms, Mozart
e Alexander Levy.
Ji Vicente se firmava
como escritor, historiador e
critic musical. "O Solitario
do Rancho Fundo", sobre o
poeta Ant6nio Tavernard, era
seu mais destacado trabalho.
Marena e Vicente casariam,
formariam famflia, teriam
dois filhos misicos e acumu-
lariam um apreciavel acer-
vo cultural, tornando-se um
dos mais bonitos e ativos
casais desta terra.

Estrada
Dois avioes de carga C-130
da Forqa A6rea dos Estados
Unidos fizeram 24 viagens
entire Beldm e Marabi, de
dezembro de 1965 ajaneiro de
1966, para montar a frente de
serviqo que iria abrir a estra-
da ligando a capital paraense
do vale do rio Tocantins a ro-
dovia Bel6m-Brasilia (na dpo-
ca, BR-14). A USAF cedeu
homes e miquinas da base
do Panama dentro da "Ope-
radio Amizade". A nova es-
trada, que depois seria conhe-
cida como PA-70 e agora 6 a
BR-222, fazia parte dos pro-
gramas da Alianqa para o Pro-
gresso, que forneceria gene-
ros alimenticios para os traba-
lhadores da frente em valor
equivalent a 50% da folha de
pagamento, sob a responsabi-
lidade do DER.
Constitufam a carga trans-
portada por via area tres tra-
tores D-7, uma motonivelado-


ra, uma caqamba basculante,
umjipe, 200 tambores de 61eo,
30 tambores de gasoline e 10
toneladas de comida america-
na (muy tristemente famosa).
Nessa 6poca a presence ame-
ricana era tio forte que em
Bel6m havia um consul, um
adido cultural, um coordena-
dor da "Alianqa" e um coor-
denador do USIS, o servico de
informac6es dos EUA.
Um avio C-47, da Comis-
sio Mista Militar Brasil-Esta-
dos Unidos, foi deslocado do
Rio de Janeiro para levar os
jornalistas atd Marabi, mas
um dos motors entrou em
pane e teve que voltar a Be-
16m. Os jornalistas acabaram
indo num dos cargueiros.
O goverador do Pari era
o coronel Jarbas Passarinho,
que subiu ao poder corn o mo-
vimento military de 1964. A cons-
truqio da estrada foi interrom-
pida. Nio uma s6 vez, alias.

Musica
O I Festival da Mtisica Para-
ense foi realizado hi 39 anos,
exatamente em 6 de setem-
bro de 1967, abrilhantado cor
a presenca de Chico Buarque
de Holanda, que jd estourara
na praqa. Dentre as 25 mdsi-
cas classificadas, havia duas
do atual governador, Simao
Jatene, na 6poca exclusive
personagem do mundo artisti-
co, como compositor, instru-
mentista e cantor: eram "Meu
Regato", em parceria com
Raimundo Gondim, e "Unifi-
cac o", com Dennys. Quem
mais conseguiu classificar
misicas foram Paulo Andr6 e
Ruy Barata, Marily Velho (por
onde andard a excelente pia-
nista?), Joao de Jesus Paes
Loureiro, De Campos Ribeiro
e Jos6 Maria Vilar Ferreira.
A final, com arquibancadas
lotadas, foi no Gindsio Serra
Freire, do Clube do Remo.
Chico teve que ser conduzido
at6 o palco, no meio da qua-
dra, e devidamente apresen-
tado ao violko. Estava um
pouco al6m da octanagem
adequada. Mas deu seu reca-
do. E que recado.


4 n SETEMBRO DE 2006 I'QUINZENA lornal Pessoal








Aviago1 .
A Paraense Transportes A6reos TARZ UA ItA AtMLVA VAI'Ao s
era a maior empresa privada com JYOUK USTAI CrTA CUOMH
sede na Amazonia quando foi obri- I RIPTO~E IoTARoZAHllO
gada a encerrar suas atividades .
pelo governor federal, em 1970,
ap6s 18 anos de funcionamento. A I.
decisdo foi tomada depois que um
avido Hirondelle da companhia caiu
quando se preparava para aterris- I EMO 0r
sar no aeroporto de Bel6m, matan- lFii
do a maioria dos seus ocupantes.
A frota da PTA era ent.o compost i
por quatro Hirondelles, dois DC-4
e dois DC-3.
A empresa tinha uma divida de .
6,3 milh6es de cruzeiros novos, equi-
valente a 10 milh6es de d6lares,
contraidajunto ao Eximbankjusta-
mente para a aquisiqoo dos turbom-
lices holandeses, os maiores e mais
modernos aparelhos da frota. Mas
a operaqdo desses jatos-h6lices,
com duas turbines, se mostrou de- C! i
ficit~ria. Sem capital, a Paraense IALA ALRAdL .. Po il
n~io honrou o compromisso, que o UE (ite0 In POLVOROSA
governor federal quitou. Mas lhe deu
motives, juntamente com o aciden- I
te, para fechar a empresa, cujas li- ia .
nhas eram cobiqadas por concor- M O
renters mais fortes. t
Na 6poca a divida equivalia ao :
que a PTA pagou de impostos ao
governor e de salirios durante o ano. -
de 1969, aos seus 800 empregados
que tinham as melhores m6dias de 6,8-FEIRA (DEPOIS DE AMANHA) ATE' 2.-FEIRA, no OLIMPIA!
vencimentos da region.


AMANHA AMANHA AMANHA PROPAGANDA

a Dois cineinas
Em 15 de ago.sto (eriado paraen'se por
contla da sinuldada adesrdo indelpend tncia)
de 1947. quase 60 anos arads. a Cinema
Hoderno coLtemorou seu 9' anivers 'rio corn
S 0ta~A O S 'Q Qrmna progranmaido especial de filnces.
/ -' con forne eret a pratica nessas oucasides nas
/salas de exaibijdo. 0 Moderno. ficata na
-., M prua(a Jiusto Chermont. Demolido. em seu
'-i". l';iGE ,* 4 '1jgl~ l Z lu.gar esti hole o parquee de divers(3es de
N. -,* iNazart, que fiunciona mais intensamenit
na*idulranme o Cirio. Sem o mesmilo encanlt Jo
St 4. escurinho na sala ide cinema.
Um tipico carlaz de epoca atllcitat. em
1945. o "estupendo" Tarzan contra o
m, undo, no Olimnpia, corm a idula imbativel:
Johnny Weissmdler e Maureen O'Sullivan (a
--, Jane). Esse incrivel Tarzan salua da ponte
do Brooklin, escala arranha-cCus e pce um
Scitrco em polvorosa,. corn direino a acenlto
agudo.
... .- ,Em homenagem aos 70 anos de Pedro
AMANHA AMANHA -- AMANHA veriano.


Jornal Pessoal I QUINZENA SETEMBRO DE 2006









COLECAO
Exemplares antigos deste
journal, que estao no encalhe,
continuam a disposicio das
bibliotecas e arquivos que por
eles se interessarem. E s6
entrar em contato. Os dados
estio no expediente.

SINONIMO
A propaganda do PT esti
dizendo que Lula 6 sin6nimo
de brasileiro. Na parte que me
toca, declare que nao passed
procuracio a Luiz Inicio.

CORRE AO
Lucas Figueiredo e nao
Eurico, como saiu na edicio
anterior 6 o autor do Minis-
terio do Silencio, livro edita-
do pela Record, que merece
ser lido. Um jornalista que se
firmou como pesquisador.

CAPITAL
O que valoriza este journal
6 saber que alguns dos seus
inimigos o leem, mesmo sem
ler suas pr6prias publicaq6es.
S6 depois que comentei na
edicio anterior a manifesta-
qio do engenheiro Luiz Car-
los Rodrigues em favor da
transfer8ncia da capital para
Salinas 6 que O Liberal des-
cobriu que a carta saiu em
suas piginas. Publicada no
journal dos Maiorana no dia 14
e aqui comentada no JP que
foi hs bancas no dia 23, final-
mente foi repercutida pelo jor-
nalio no domingo, 27.
A suite do tema, como de
praxe na casa, limitou-se a um
plebiscite superficialmente
opinativo e como se a id6ia s6
tivesse surgido agora. O Li-
beral provavelmente quer re-
aquecer a campanha, mas lhe
falta energia para produzir
uma boa id6ia, como a "51".

TURISMO
O president da Bel6m
"Convention & Visitors Bu-
reau, Orlando Rodrigues, pre-
viu que o faturamento do tu-
rismo no Pard crescera 150%
quando o centro de conven-
q6es do Hangar for inaugura-
do. Nio se conhece a base
cstatisti.'a da projeLio (os nd-


MONOTONIA
Para Edmilson Rodrigues a campanha para a prefeitura de
Bel6m comecou mais cedo. Embora esteja na dispute para o
governor do Estado pelo PSOL, o dado mais important da sua
estrat6gia est6 no resultado da pesquisa do Ibope em Bel6m,
na qual Almir Gabriel ter 35% dos votos, Ana Jdlia, 27%, e o
ex-alcaide, 20%.
Qualquer que seja o resultado desta eleiqdo, nem Almir e
nem Ana Jdlia se apresentardo para a dispute municipal de
2008. Duciomar devera estar desgastado para a reeleicao. Qual,
entHo, o candidate mais forte? Ora, Edmilson, que poderd ten-
tar pela terceira vez ocupar o Palacio Ant6nio Lemos. Contra
quem? Ora, Simio Jatene, apostam os tucanos.
Isso nio 6 political: 6 gangorra. Ou outra imagem pior. Como
ndo merecemos Parsigada, acabaremos tendo que ir para a
tonga da milonga do kabulete.

SENADO
Na pesquisa do Ibope, apenas 25% das pessoas consultadas sabiam em quem votar para o
Senado. Corn 75% dos eleitores desinformados ou desinteressados, nao surpreende que seja
acirrada a dispute entire o tucano Mario Couto e o peemedebista Luiz Otivio Campos.
Mas nem por isso merecemos a alternative.




MANOEL (*1947 +2006)
A Folha do Norte mantinha uma seqio ("Os paraenses que vencem no sul") que
era, ao mesmo tempo, um espaqo do orgulho native e o reposit6rio do sentiment de
inferioridade dos bugres. Mesmo quando havia inveja do sucesso da nova celebridade,
prevalecia o orgulho. Nio 6ramos tio inferiores quanto pensdvamos. O santareno
Manoel Jos6 de Faria Campos merecia aparecer na prestigiosa seq.o da folha dos
MaranhWo. Ou pelo menos em O Jonial de Santardm, talvez na coluna de Wilson
Fona. Manoel ainda pegou os rescaldos do inc8ndio da capital federal, a bela cidade
do Rio de Janeiro, que percorriamos a p6 da nossa base, em Copacabana, a plagas
distantes do Catete ou do Flamengo. Estudou, trabalhou, venceu. E convenceu,
formando um amplo circulo de amigos. Sua trajet6ria foi interrompida por um cancer
impiedoso, que antecipou seu fim, no dia 3, is v6speras de completar 59 anos.
"Manelio", primo ao velho estilo, deixou uma saudade do tamanho da nossa terra.


meros do nosso turismo cos-
tumam ser precarios), mas ela
pode resultar de um racioci-
nio de 16gica formal abstrata:
se o centro, atualmente em
obras, vai custar tio caro, seu
resultado sera fenomenal.
Ainda mais porque dificil-
mente, como de regra acon-
tece nos projetos do arquiteto
Paulo Chaves, o orqamento
serd mantido. Os 74 milh6es
de reais nio parecem incluir
a refrigeracao e os equipa-
mentos do centro. O custo fi-


nal poderd bater em algo pr6-
ximo de R$ 100 milhies.
Sera interessante relacionar
o Hangar ao centro de conven-
q6es que a Universidade Fede-
ral do Pard comegard a cons-
truir no campus do Guamd.
Belem, que esta realmente des-
falcada dessa ferramenta, fun-
damental para o principal tipo
de turismo praticado na cidade,
o de neg6cios e events, pode-
rd ter agora dois centros de con-
vencqes. E a possibilidade de
comparar as duas obras.


Editor:
Lucio FIAvio Pinto
Ediqio de Arte:
L. A de Faria Pinio
Contato:
Tv Benjamin Conslani 845.203'
66 053-040
Fones:
(091) 3241-7626
E-mail:
jornal@amazon com br




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