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ornal Pessoal A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO AGOSTO DE 2006 21QUINZENA N 374 ANO XIX R$ 3,00 A IMPRENSA FR:A.NaCA ^... PAGINA J E A CO TA- r. PATES PAGINAS 8 CVRD A multi brasileira Nunca uma empresa brasileira ousou tanto e conquistou tanto quanto a Vale do Rio Doce. Ela esta prestes a se tornar a segunda maior mineradora do planet. Mas, se o seujogo perigoso nao der certo, quem pagara a conta? 0 Para, que fornecera cada vez mais riquezas nesse tabuleiro, deveria se interessar por ele. manifestou hd duas semanas a disposicgo de gastar at6 18 bilh6es de d6lares, em dinhei- ro vivo, a vista, pela compra da empre- sa canadense Inco, a maior produtora de niquel do mundo. A CVRD nao exis- te, hoje, nesse mercado. Nao produz ain- da uma tnica grama de niquel. Com o lance, ocupari o lugar que atualmente 6 da Inco e pulard para a segunda posi- cao entire as maiores mineradoras do pla- neta. Seu valor patrimonial passard de 60 bilhoes para 77 bilh6es de d6lares, superando a Rio Tinto, cujo valor de mercado 6 de US$ 73 milh6es, e a An- glo American (US$ 66 bilh6es), que na iltima semana tamb6m entrou na mira, segundo noticidrio londrino. A sua fren- te s6 estari a BHP Billiton, avaliada em US$ 135 bilh6es. O que a Vale quer gastar com a Inco represent mais do que o PIB do Parn. A soma das riquezas do Estado, segundo seu iltimo calculo, nao vai muito al6m de 30 bilh6es mas de reais. O PIB da CVRD ji 6 quatro vezes maior, embora um terco de sua receita tenha sua ori- gem no Pari, que 6 apenas o 11 em PIB, o 20 em desenvolvimento human e o 220 em PIB per capital do Brasil, em- bora o 90 em populagio e o 2 em exten- sio. Tamb6m 6 o 2 em mineraqdo, mas nos pr6ximos anos deixard Minas Gerais para tras. Nos dltimos quatro anos, a Compa- nhia Vale do Rio Doce, que 6 a empre- sa privada que mais invested no pais, concluiu 16 novos projetos. Cinco de- les, dos maiores, estavam no Pard: ampliou as produq6es de bauxita no CONTINUAii NA Pi CONTINUAAO DACAPA Trombetas, de alumina naAlunorte (em duas etapas sucessivas, com a expan- sao 3 e parte da expansao 4 e 5) e de min6rio de ferro em Carajas, al6m de comeqar sua primeira mina de cobre, a do Sossego, em Carajas. Nos pr6ximos cinco anos a CVRD in- vestird 14 bilh6es de d6lares (o equiva- lente ao PIB do Pard) em 34 novos pro- jetos, dos quais 16 se localizam no Para (numericamente, de um terqo, a propor- gao do Estado passard para quase meta- de do total de projetos; em valor, ird mui- to al6m). O rol desses projetos em terri- t6rio paraense 6 de impressionar: a arremataqCo, ji neste ano, da expansao da Alunorte para 4,2 milhoes de toneladas de alumina, consolidando- a como a maior empresa do mundo no setor, e a nova ampliagao (em 2008), com as unidades 6 e 7, para 6,5 mi- lhoes de toneladas; a expansio da produqio de min6rio de ferro em Carajas para 85 milhoes (neste ano) e 100 milh6es de toneladas (em 2007), equiparando-a ao Sistema Sul; o inicio da plant hidrometalkrgica de cobre de Carajas, que podera viabili- zar o maior empreendimento desse mi- n6rio, o do Salobo, emperrado por pro- blemas t6cnicos; a entrada em producgo da mina de bauxita de Paragominas (no pr6ximo ano), com 5,4 milhoes de toneladas, sua expansio (em 2008) para 10 milhoes e o novo crescimento (em 2009) para 15 mi- lhoes de toneladas, tornando-a de tama- nho pr6ximo A mina do Trombetas; os projetos de cobre de Carajas que entrarto em producao: o 118, o Salobo I e o Alemao (em 2009) e o Salobo II (em 2011), que colocarao o Brasil entire os quatro maiores produ- tores internacionais; a fabrica de alumina da ABC, em sociedade com os chineses, do porte da Alunorte, em 2009; a expansao da Albras para alumi- nio, igualmente em 2009; e os projetos de niquel do Onqa Puma (embora ainda ndo aprovado pelo Con- selho de Administraqgo da empresa) e do Vermelho, ambos em 2008. As duas minas paraenses, somadas as canadenses da Inco, farao com que a produq~o desse metal pela Vale alcance 402 mil toneladas anuais de concentra- do, muito mais do que a da segunda colo- cada, a Noriesk Nickel, cor 265 mil to- neladas. A CVRD, que ja 6 a primeira em min6rio de ferro, devera se tornar a 2a em bauxita e a 3a em alumina. Tera peso jamais alcanqado por qualquer ou- tra empresa brasileira no mercado inter- nacional. Seri, de fato, a dnica multina- cional brasileira. A audacia e a agressividade que t6m marcado o desempenho mais recent da Vale produzirao efeitos nao s6 sobre a economic internal da empresa, mas do pr6prio pais e dos Estados nos quais sua presenqa 6 mais forte, sobretudo o Para. Se a oferta de compra hostile for aceita pelos acionistas da Inco, o niquel, que nao integra a receita da ex-estatal, pas- sara a ser sua segunda maior fonte de faturamento, chegando a 20% do total, enquanto o percentual do min6rio de ferro baixard de 74% para 56%. Cairto percentualmente o aluminio (de 11% para 8%) e a logistica (de 9% para 7%), enquanto a presenqa do cobre se acen- tuard (de 3% para 5%). A Asia continuard a ser o principal destiny dos produtos da Vale depois desse lance de compra (passard de 29% para 30%), mas a Am6rica do Norte, ingres- sando no raio de aqo da empresa, tera crescimento exponencial, indo de 10% para 17%, enquanto o mercado brasileiro se reduzird (de 27% para 20%). A Euro- pa permanecera como o segundo destino, mas em retragqo (de 28% para 25%). A Am6rica do Norte (devido ao Ca- nada) sera a segunda regido de maior presenqa da Vale (que hoje 6 nula e podera representar no future 27% de sua receita), com um significativo des- locamento do Brasil (que responded por 98% da geragao de produtos e poderi ficar cor 60%). Esse incremento quase febril da Vale do Rio Doce devia ser acompanhado de perto pelas autoridades brasileiras e, na media do possivel (e tamb6m do impos- sfvel de hoje), pelo Para. Afinal, sao as riquezas fisicas do Estado que estdo sen- do transferidas para o exterior, em esca- la aceleradamente crescente, numa teia de interesses que escapa por complete at6 ao conhecimento do Estado. Esse encadeamento, que multiplicard o endi- vidamento da Vale, ird at6 financiadores internacionais, criando uma fonte de in- seguranqa em potential. Se as iniciativas da atual diretoria da CVRD derem certo, a empresa dard um salto excepcional, invejavel, como nenhu- ma outra conseguiu no Brasil. Nao quer dizer que seus "parceiros", conscientes ou compuls6rios, a acompanhardo nessa trajet6ria de sucesso, restando-lhes, tal- vez, apenas as sobras dessas conquistas. Mas, e se o lance ousado der errado? A Companhia Vale do Rio Doce pode estar apostando fichas em demasia numa s6 casa, a da China. E um jogo compli- cado e perigoso, mesmo para uma multi- nacional, ainda ne6fita, como a brasilei- ra. De qualquer maneira, conv6m nao fi- car a distdncia do tabuleiro. A Vale, por enquanto, joga s6. E ganha sempre sozi- nha. Mas, e se perder? PESQUISA Os instintos de Jader Barbalho estao falhando. Foi por provocacqo dele que o PMDB representou ao TRE contra o grupo Liberal, por nao publicar a mar- gem de erro da primeira pesquisa do Ibope, que, sem essa ressalva, garan- tia a vit6ria de Almir Gabriel para o governor do Estado jd no primeiro tur- no. Na verdade, o indice foi publica- do. Claro que sem qualquer destaque, para permitir a indudao sutil dojornal extra-oficial, considerando como defi- nido integralmente um resultado que ainda admite (justamente pela margem de erro) a realizaqdo do segundo tur- no. E o 2 turno 6 tudo que o PSDB nao quer, ainda mais se Lula se reele- ger de imediato. O PMDB retirou a representagio no dia seguinte, retratando-se do erro crasso. Mas O Liberal aproveitou o vacilo para tonitroar valentia e gran- deza no Rep6rter 70, cor o mesmo rigor e limpidez da mat6ria da semana anterior sobre a pesquisa do Ibope. As verses costumam prevalecer sobre os fatos na political. Agora, os substituem. "MENAS", DOUTOR Almir Gabriel promete investor 4,2 bi- lhWes de reais em quatro anos se o povo Ihe conferir mais um mandate de governador. Depois de "arrumar a casa" no primeiro quatrienio e criar in- fraestrutura no segundo, vai dar prio- ridade ao social. O setor receberd R$ 1,9 bilhao. Se por prioridade entende- se metade mais um, pelo menos, das duas, uma: ou haverd "menas" priori- dade, ou ha "menas" aritm6tica. TRABALHO Os assessores especiais do gover- nador agora, finalmente, estao tra- balhando (embora continue-se a nao saber quantos somam, certamente mais do que o milhar). A Casa Civil vive a mandd-los para o interior, com varias diarias, "a serviqo do Gover- no do Estado". Nio 6, evidentemen- te, para fazer campanha em favor do candidate da situaqco. 2 AGOSTO DE 2006 *2QUINZENA Jornal Pessoal Os principios da moralidade e interesse public em causa O principio da moralidade, invocado pelo procurador regional, prevaleceu na decis~o do Tribunal Regional Eleitoral pela impugnagio da candidatura de Arthur Tourinho Neto a deputado estadual pelo PMDB. O pedido de impugnadio se ba- seou em parecer do Tribunal de Contas da Uniio, que constatou atos de improbi- dade do atual president do Paissandu quando exerceu o cargo de superinten- dente da extinta Sudam. A defesa de Tourinho alegou que ele contestou a de- cisao do TCU, atrav6s de recurso pro- posto perante o Supremo Tribunal Fede- ral, antes do registro da sua candida- tura. A simula numero um do STF asse- guraria, assim, sua elegibilidade. Mas o procurador regional eleitoral Jos6 Augusto Torres Potiguar conclamou osjufzes do TRE a dar prioridade ao prin- cipio da moralidade, considerando o fato de que Tourinho foi condenado adminis- trativamente a ressarcir os cofres pdbli- cos federais. Lembrou que esse princi- pio levou a prisio (pela Policia Federal) e afastamento do cargo (pelo Conselho Nacional de Justiqa) o president do Tri- bunal de Justiqa de Rondonia, desembar- gador Sebastido Teixeira Chaves, envol- vido com uma quadrilha que desviava di- nheiro pdblico. A questdo deverd ser reapreciada pelo Tribunal Superior Eleitoral, mas ela ji motiva uma reflexdo sobre os principios que, contidos ou nao na estrita norma le- gal, devem ser considerados quando de um julgamento. O procurador se referiu a um principio que 6 muito mais moral e 6ti- co do que propriamente legal, o da mora- lidade. E frequente ver decision judicial que, circunscrita ao texto da lei, ipsis litteris, nio pune a imoralidade porque o ato ques- tionado nio chegou a ser plenamente ca- racterizado como illegal. Em boa media exatamente por isso, um dos motes da political militant 6 o "rouba, mas faz". Hd circunstancias outras que tamb6m permitem ao dilapidador do erdrio sair inc6lume de alguma acusaqgo ou denin- cia e ainda prosseguir na carreira pti- blica em geral ou political, em particular. As condenacqes dos tribunais de contas, por exemplo, serdo in6cuas se nao fo- rem seguidas de den6ncias formuladas pelo Minist6rio Ptblico, que nao pode ser, por6m, o MP junto a esses tribunais ad- ministrativos. Falta a estes iltimos o em- basamento da legalidade, por n5o serem instinciasjudiciais. A contumicia dos delitos e a ino- cuidade da sua apuraqao administrati- va, sempre ajudando o crime, podem ter servido de inspiraqCo ao procura- dor federal para argtiir o principio da moralidade como fundamento dojulga- mento, ao menos em tese, sem exami- nar o caso especifico para o qual foi lembrada sua aplicacao. Ha outro principio que tamb6m pre- cisa ser considerado quando agents do poder ptblico sao chamados a decidir ou despachar nas demands: o interes- se pdblico. E um dos principios de mai- or relevancia, principalmente porque to- dos esses agents sao servidores do p6blico, da sociedade (embora raros se lembrem cotidianamente dessa circuns- tfncia essencial). Mesmo uma entidade sem a previsao legal para tanto tamb6m 6, informalmen- te, ou pelo direito consuetudinario, repre- sentante da sociedade. E o caso da im- prensa. Quando age a servico dos inte- resses piblicos, ela tem tanta legitimida- de institutional quanto os entes do poder ppblico, regulamentados na Constituiqao ou nas leis de hierarquia inferior. Como integrante da imprensa, o jor- nalista 6 um auditor do povo. Em nome do leitor, que 6 o povo em uma de suas dimens6es civis especificas, ele exerce sua funqao, cobrando explicacqes, indo atris das informaqbes verdadeiras, ques- tionando os servidores ptblicos (e tam- b6m os agents privados) sobre suas ati- vidades, avaliando e criticando. Depois de mais de 40 anos ininter- ruptos como jornalista, 6 assim que me sinto. A funcao nao 6 simples nem 6 de sua natureza ser um mar de rosas, mui- tissimo pelo contrdrio, como est2o se en- carregando de ressaltar os criminosos. Respondo atualmente a 15 processes na justiqa por ser fiel e rigoroso na aplica- cao dos meus compromissos de oficio. Em todos esses 15 processes, como em 17 outros que ji prescreveram, me co- loquei ao lado do interesse pdblico. Em nove deles a motivaqCo das aq6es fo- ram as dentincias que fiz sobre grilagem de terras plblicas e dilapidaqao dos re- cursos naturais do Estado na Terra do Meio, uma das areas mais ricas do Pari, no vale do rio Xingu. Das nove acqes penais e civeis - com essa ordem de pretexto, resta uma ainda ativa. Ela foi proposta em 2000 pelo desembargador (atualmente apo- sentado) Joao Alberto Paiva, cobrando- me indenizacao por alegado dano moral que ele diz que sofreu por causa de um artigo publicado nestejornal no mesmo ano. O desembargador deu uma senten- qa favorivel ao grupo C. R. Almeida, reconhecido e apontado, em todas as esferas competentes do poder pdblico, como autor da maior grilagem de terras do pais e do mundo. No artigo, critiquei a decisao. Argu- mentei que o desembargador devia ter- se acautelado antes de conceder a medi- dajudicial pleiteada pela empresa. A de- manda envolvia uma area que podia ter entire 5 e 7 milh6es de hectares, com for- tes evidencias dejamais ter sido desmem- brada do patrim6nio ptblico para o domf- nio particular, apesar de alguns documen- tos apresentados em defesa dessa trans- fer8ncia. Observei que o desembargador podia ter ouvido previamente o represen- tante do Minist6rio Pdblico antes de sen- tenciar liminarmente, dado o relevant interesse publico no litigio. Nao disse que o desembargador re- cebeu dinheiro da empresa, foi parcial ou deliberou de mi-f6. Simplesmente, como agora fez o procurador Potiguar najustica eleitoral, critiquei a decision por achar que o principio do interesse pibli- co evidence e grave foi ignorado pelo julgador. Mas ele decidiu representar contra mim ao MP, que aceitou a repre- senta~go e fez a dentncia, movendo a agqo desde entao. O process engordou corn a instru- cao processual, na qual foram minhas testemunhas tres procuradores pdblicos que se destacaram no desempenho de sua missao, dois deles colegas do doutor Po- tiguar no Minist6rio P6blico Federal. Os autos estavam prontos para ser senten- ciados, ap6s seis anos, pelajuiza da 1 l1 Vara Civel de Bel6m. Mas a doutora Maria do Carmo Aradjo e Silva foi pro- movida ao desembargo no m6s passado. Devido a essa ascensao "e o acdmulo de serviqos" na vara, que at6 entao presi- dia, a magistrada devolveu o process ao cart6rio, sem qualquer decisao. Depois do desembargador Paiva, a desembargadora Maria do C6u Cabral Duarte, que tamb6m ji se aposentou (an- tes dos expuls6rios 70 anos), ajuizou ou- tras aq9es civil e penal, ao mesmo tempo em que o pr6prio Cecilio do Rego Almei- da e o madeireiro Wandeir dos Reis Cos- CONTINUA N PAG 4 Jornal Pessoal 2 QUINZENA AGOSTO DE 2006 I Onde, cara-pilida Por qual Estado o candidate a senador Mirio Couto tem andado? Seguramente, nao 6 pelo Pard. Na sua primeira apari- qdo na propaganda eleitoral gratuita, o pre- sidente da Assembl6ia Legislativa garan- tiu que, ao contrario do que foi obrigado a fazer quando saiu do Maraj6, os morado- res do interior do Pard nio precisam mais deixar suas families e seus locais de nas- cimento para estudar em Bel6m ou outras cidades maiores. Ha escolas para todos nos 143 municipios paraenses. A frase colide frontalmente cor a realidade. O governor Jatene ter sido um desastre na questio. A situaqbo 6 tdo grave que nem mesmo o aliado incondi- cional do PSDB e do governor, o journal dos Maiorana, consegue mais segurar a realidade. A edicio de O Liberal do dia 15 publicou tres mat6rias numa inica pigina retratando o caos da educacao: 0 Para disparado Bel6m pode e deve se manter como capital do Pard? De vez em quan- do essa pergunta emerge na agenda es- tadual, mas submerge antes que sejam reunidos dados suficientes para respon- d&-la. O engenheiro civil Luiz Carlos Rodrigues voltou A velha e candente ques- tao em artigo em O Liberal do dia 14. Ele acha que a capital deve ser transfe- rida e reapresenta a localizaqio ideal para uma certa corrente: Salinas. O crit6rio do engenheiro 6 o geol6gi- co. Bel6m esti entire aquelas cidades po- tencialmente ameacadas pela elevaq~o do nivel do mar, como conseqiitncia do aquecimento global. O sitio no qual ela foi localizada, ao nivel do mar (predomi- nantemente entire as cotas 6 e 8), 6 for- mado por lama, sedimentos carregados pelos rios do estuario do Pard e do Ama- zonas. A baixa declividade compromete o saneamento e a drenagem das aguas pluviais. O solo prejudice os adensamen- tos humans. Todos esses fatores dio causa a problems urbanos e ao encare- cimento dos custos das obras e serviqos pdblicos (e dos neg6cios particulares). pais de alunos reagindo contra a decision da Seduc de fechar a Escola Tiradentes II, em Bel6m; protest contra a falta de transport escolar na zona rural de San- ta Barbara, na regio metropolitan; e greve por tempo indeterminado dos pro- fessores de Sao Domingos do Araguaia. Isso tudo s6 num dia. Em outra ediq~o, o leitor Hugo Ant6- nio Ferrari protestou contra a concentra- qio de services, inclusive educacionais, em Santar6m, obrigando os habitantes dos outros municipios do Oeste do Pard (corn destaque para Obidos, terra do leitor) a se deslocar para continuar os estudos. Nao foi sem motive que Simao Jatene, embora cor relutincia e tardiamente, teve que deslocar a entourage para-familiar da Secretaria da Educaq~o. Algum deles deve estar redigindo os pronunciamentos do novo "senador do governador". Como vtrias pessoas de bom senso, o engenheiro duvida que as novas obras programadas pela prefeitura de Bel6m para a bacia da Estrada Nova vao se aco- modar no orqamento apresentado. Mas o problema nio 6 apenas de subavalia- qao estrat6gica (ou ticita): 6 tamb6m de viabilidade e mesmo de necessidade. A tarefa essencial seria refrear o cresci- mento da cidade, ao inv6s de continuar a expandi-lo, contra as condiq6es fisicas desfavordveis. Nao 6 fdcil firmar uma posiqBo sobre tema t5o complex e controversy. Mas a pior attitude 6 continuar a ignord-lo ou abordi-lo de forma primiria, os dois pro- cedimentos mais comuns. E precise cri- ar uma secretaria ou um 6rgio executi- vo (ou recriar o Idesp) para tratar da gestao territorial do Estado, colocando-a acima do varejo clientelistico da political e al6m do empiricismo doutrindrio da abordagem opinidtica. Qualquer que seja a posicao, 6 inques- tionivel uma coisa: o molde institutional jt nao di conta da realidade espacial e demogrdfica do Pard. CONTINUA;AO DA PAG 3 ta, designado fiel deposittrio de madeira (sobretudo mogno) apreendida na area grilada. Os dois desembargadores foram os unicos, at6 agora, que deram senten- cas favoriveis no segundo grau da justi- qa estadual aos grileiros. Mas a grilagem ji comega a ser des- feita najustiga federal, para onde as ques- t6es foram transferidas, em virtude do interesse da Uniio. O residue pr6-grila- gem subsiste na justica estadual, mas, espero, nio por muito tempo e nem como tendencia majoritaria. Abre-se o caminho para a elucidacao da verdade e a garan- tia de que prevalecert, com ela, o inte- resse dos brasileiros, dos amaz6nidas e dos paraenses. Apesar dos maus juizes, felizmente vencidos nessa hist6ria. Bob Thaves ja tinha 48 anos quando co- mecou a escrever as tiras de Frank & Ernest em quadrinhos. O sucesso foi imediato. Du- rante 34 anos elas deliciaram quem aprecia essa forma de expressed. Era veiculada em 1.300jornais quando, no dia 1, o criador da dupla morreu, na Calif6rnia, nos Estados Unidos, aos 81 anos. As hist6rias de Frank & Ernest podem ser lidas com prazer e provei- to em qualquer lugar do planet, em qualquer 6poca. Embora ferinas, ir6nicas e mordazes, nao sao datadas. Por isso se universalizaram, sem evaporar na abstraqio aqucarada. Di- vertiam e enlevavam, quando esse era o pro- p6sito. Mas feriam, se necessArio. A seqio paulista da Ordem dos Advoga- dos do Brasil se sentiu ultrajada por uma das tiras antol6gicas da dupla mais constant e duradoura dos quadrinhos diArios. Frank, con- templando a imagem-simbolo dajustiqa (uma mulher, com venda nos olhos, empunhando cor uma das maos uma balanga e cor a outra uma espada), diz para Ernest: "Eu nio me importaria de a Justica ser cega, se os caes-guias nao fossem todos advogados". Tudo que algu6m podia querer dizer con- tra o corporativismo da categoria (na verda- de, uma quase-classe, como Lukics reco- nheceria), estava nessa frase curta, lapidar. Os enunciados legais comeqam bem e vio maravilhosamente at6 a primeira virgula, quando abrem espaqo para atalhos e desvaos, muito bem explorados pelos profissionais do direito. Daf a presunqio popular de que me- Ihor do que cumprir a lei 6 ter um bom advo- gado para tangencid-la ou remediar sua ofen- sa. O que 6 uma variaqio do que Brecht es- creveu para um dos seus personagens de te- atro: ao inv6s de assaltar um banco, devia fundar o seu. Ganharia mais dinheiro. Claro que nao 6 sempre nem exatamente assim. Mas 6 assim muitas vezes e mais ou menos assim na maioria delas. Os artists, series medi6nicos (para quem acredita) ou ex- pressies do inconsciente coletivo, dizem por n6s o que somos incapazes de expressar, in- terpretando o que "esta no ar", A espera de revelaqao ou traduqao. Nosso mundo seria mais rotineiro e linear sem eles. Por isso mes- mo, insuportivel de viver. Numa forma de arte considerada menor, Bob Thaves nos deu, pelos traqos e falas de Frank & Ernest, uma alternative de bom humor sem a qual a vida se torna sem sal, comandada por gente incapaz de rir superiormente, como o diri- gente da OAB-SP, que queria levar a criatu- ra (e nio o criador) ao banco dos r6us por ofensa a nobre classes dos advogados. O humor 6 a prova dos nove da sanidade, tanto de pessoas quanto de sociedades, insti- tuiq6es e paises. Leitores de primeira hora de Thaves, nio deixaremos de lembrar que ele nos deu, atrav6s de sua tira didria, duran- te tres d6cadas, essa preciosa liq~o. A AGOSTO DE 2006 *2QUINZENA Jornal Pessoal Franciscanismo na imprensa Se O Liberal acha que realmente 6 exemplar a atuaqao do chefe do Minis- tdrio Pdblico Federal no Pard, Jos6 Au- gusto Torres Potiguar, devia entrevisti- lo, fazer reportagens sobre sua atuagao ou ouvir o que dizem a respeito pessoas abalizadas. Repetir notas hagiogrificas no Rep6rter 70, com pouca ou nenhuma informagTo, carregadas de adjetivos de exaltaqao, acaba criando um halo de sus- peiqao sobre o procurador da Repdblica. Ao inv6s de contribuir para aperfeicoar o process eleitoral, pode comprometer a atuadao do MPE Nio que a imprensa nao deva apoiar e destacar a atuaqao de servidores p6- blicos exemplares. O problema 6 que o grupo Liberal tem candidates na eleicao. Tamb6m essa posiqao nao 6 original nem merece condenaqgo em si. Outros 6r- gaos da imprensa tamb6m tomam parti- do, no mundo inteiro. Aqueles que me- recem credibilidade e respeito, por6m, assume com clareza uma posiq~o edi- torial. Dizem, no espaqo adequado, que 6 exatamente o editorial, a quem ap6i- am e porque o ap6iam. 0 Liberal exerce sua prefer6ncia dentro do noticiario, de forma implicita, as vezes subliminar. Sugere ao leitor que esti simplesmente exercendo o jornalis- mo. Manipula, portanto, quem o 1l. Induz a votar a partir da premissa de que os candidates favorecidos no noticidrio, su- postamente isento, sdo os melhores. De que o material dojomal traduz a realida- de, captando a opiniao pdblica (quando a cria, ao dar-lhe letra de forma viciada). Nenhum espaco se ajusta melhor a esses prop6sitos manipuladores do que as colunas sociais ou as colunas em ge- ral, especialmente as ndo assinadas, como o Rep6rter 70. Elas estdo a um pass do noticiario e a outro pass do editorial, nio sendo exatamente nem uma coisa nem outra, mas ambas, de forma difusa. Pa- recem estar transmitindo uma informa- Cao, mas essa 6 apenas a cobertura, o glace. Por baixo, vai a opiniao, a suges- tao, a induqCo. Devia ser escrita corn a Celeridade processual O Didrio da Justica do dia 16 rese- nhou 43 despachos da mais nova desem- bargadora do Tribunal de Justiqa do Es- tado, doutora Maria do Carmo Silva Ara- 6jo, ainda como titular da 11a vara civel de Bel6m. Em 17 atos a magistrada deu andamento aos processes sob sua res- ponsabilidade. Mas devolveu ao cart6rio 26 outros processes, "em virtude de mi- nha ascensio ao desembargo e o acu- mulo de serviqos". Entre os processes que retoraram ao cart6rio da 11 vara ha uma excecao de incompetencia de 1995, tr6s aq6es de 1996, uma reivindicat6ria de 1997, qua- tro outras aq6es de 1998, cinco de 1999 e duas do ano 2000 todas, portanto, do s6culo e do mil6nio passados. O Diario da Justiqa ji publicou ou- tros despachos da magistrada desde a sua promocqo e ainda poderd abrigar mais alguns at6 sua posse. O montante dos processes devolvidos para serem repassados ao seu substitute deverd al- cancar algumas dezenas, o que signifi- ca mais tempo at6 a definiqao das de- mandas, virias delas mais antigas do que as apontadas no DJ do dia 16. A situaqio se repete tanto no primeiro grau quanto no segundo grau dejurisdi- qCo. Lembro-me de um desembargador que devolveu mais de 300 processes ao se aposentar compulsoriamente. Havia Jornal Pessoal *2 QUINZENA AGOSTO DE 2006 aq6es velhissimas dependendo nao de uma sentenqa, mas apenas de um des- pacho interlocut6rio. Esse acervo negative, evidente- mente, nem sempre e nao na maio- ria dos casos deve-se a lentidio ou desidia do julgador, mas, como lem- brou a mais nova desembargadora do TJE (a 22' mulher num colegiado de 30 integrantes), ao "ac6mulo de ser- viqos". Como, por6m, um dos princi- pios bisicos da justiqa 6 a celeridade processual, sempre que houver promo- qao de um magistrado, implicando na remoq~o da funqCo que desempenha- va, a direcqo do tribunal devia desig- nar juizes assistentes para ajudd-lo a limpar a pauta de serviqos, pelo me- nos desonerando-a das demands mais antigas. A promoqao nio se efetivaria enquanto nao fosse dado cabo dos pro- cessos corn digamos mais de tres anos de ajuizamento. Freqtientemente o julgador se desli- ga do process quando ele esti em vias de ser sentenciando, obrigando seu subs- tituto a um demorado esforgo de conhe- cimento e dominio da mat6ria acumula- da para poder decidi-la adequadamen- te. Com isso acarretando demora e an- glistia para as parties, que teimam em rechaqar o brocardo muito popular de que "quem tem juizo nao vai ajuizo". seriedade, a honestidade, o equilibrio e o discernimento que estio em falta no "70". Talvez por causa desse toma-li-di-ci, ojudiciario paraense, ao distribuir recen- temente (por m6todo pretensamente sa- lom6nico) tres medalhas para o grupo Li- beral e outras tres para o grupo RBA, es- colheu apenas colunistas. Como se em nenhum dos dois veiculos houvesse rep6r- teres, virios de boa qualidade, alguns que ji produziram mat6rias importantes exa- tamente sobre ojudiciario, especialmente o combat dado a grilagem de terras, um dos males cronicos do Estado. A honraria parece concebida menos para servir ao poder, enquanto instituiqao, do que a quem o comanda, objeto de atenc6es e desvelos da imprensa em geral e dos colunistas em particular. Nao olimpicamente. Daf esse festival de confetes e ser- pentinas verbais, emblemiticas e numis- miticas entire o poder estabelecido e a imprensa afluente. O interesse p6blico pede passage e vai em frente e ao largo. Virginal. POLITICOS JA li e reli algumas vezes a list com os 648 candidates que dispuram cargos nesta eleiqio: 6 para a numca vaga de governador. 5 para o tambem tnico lugar de senador. 173 para as 17 cadeiras do Estado na Chimara Federal e 464 para as 41 vagas na Assembl6ia Legislativa (a dispute mais concorrida). Confesso que ain- da nao consegui eliniinar o risco a que estou sujeito: de anular alguma (ou al- gumas) das opCqes, se quiser votar conscience. como pede a propaganda do Tribunal Superior Eleiroral. Desde que o pais volrou a ser de- mocrtrico. nunca mais mandamos um representante capaz de iravar um debate de respeilo no Senado. 0 que mais tinha essa possibilidade - e tamb6m o que chegou mais long caiu r6pido e saiu pela porta dos funds, para nunca mais voltar. Foi Jader Barbalho, agora pedindo pate- ticamente um lugar que Ihe esil ga- ranrido. o de depulado federal (ao inv6s de "o grande lider". tornou-se apenas "maLs um" politico). Ele. como todos os demais, a mai- oriajd tendo aparecido de ptblico com algemas, fazem-nos senrir saudades de Jarbas Passarinho e Aloysio Chaves. O que dii uma media do deserto de homes da temporada eleiroral. Lula, o ego William Bonner me deu uma felici- dade que ha muito tempo nao tinha di- ante de um aparelho de televisao. Inve- jei-o na entrevista cor o president Lula para o Jornal Nacional. Eu nao conse- guiria sustentar ajusta pressao que ele exerceu sobre o ensaboado entrevista- do, perguntando quase tudo que gosta- riamos que perguntasse ao mais lidimo representante do povo que ja chegou A presidencia da Repdblica. A entrevista nao devia ter sido feita no Palacio daAlvorada. Como os demais que o antecederam, Lula tinha que ir ao estidio da TV Globo. N~o 6 improvavel que o apresentador do program de mai- or audiencia da television brasileira tenha recebido recados e instruqbes. Mas, pe- sados os pr6s e medidos os contras, con- sideradas todas as circunstancias, seu desempenho foi um dos melhores mo- mentos dojornalismo televisado do pafs. Bonner acuou Lula, como umjornalis- ta deve acuar um poderoso arisco e ma- treiro. Sem grosserias e inconveniencias, ele foi duro na media certa do respeito sem subserviencia. Cortou o entrevistado quando ele ameaqava desviar o assunto, replicou respostas e colocou-o numa ca- deira igual, mas inc6moda, ao trata-lo sem- pre de candidateo", numa saudavel pre- sunqao de que tudo que falar 6 relative, sujeito a confirmaao. Nao deixou que a mulher, Fatima Bernardes, contemporizas- se ou passasse a outro tema menos can- dente do que a corrupcao. Interesse public A Secretaria de Educaq~o vai pagar mais de 2,5 milh6es de reais para que a Fadesp (Fundaqio de Amparo e Desen- volvimento da Pesquisa) realize um curso de capacitaao de professors que atuam na educaqio de jovens e adults no ensi- no fundamental do Estado. O ato de dis- pensa de licitaqioja foi baixado. Mas nao sera um curso de valor suficientemente elevado para recomendar pelo menos a expediqio de carta-convite para outras instituiq6es semelhantes ou correlatas? O Tribunal de Contas do Estado esta convocando Sydney Jorge Rosa para prestar contas de tres convenios que as- sinou, em 1999 (dois) e 2004, com a Se- cretaria de Planejamento e cor a Co- sanpa. Rosa 6, agora, vice-presidente da Federaqao das Inddstrias. E suplente de senador na chapa de Mario Couto. E foi anunciado como um dos coordenadores da campanha eleitoral de Almir Gabriel ao governor do Estado. Lula nao falou sobre seus pianos, 6 verdade. Mas como podemos levar a s6rio o que promete sem um entendi- mento preliminary sobre o principio da credibilidade, que 6 pressuposto? Willi- am Bonner deu aos telespectadores a oportunidade de constatar que falta ao president uma condiqao do lider: res- peitar a pr6pria lideranqa. Mais uma vez Lula transferiu a res- ponsabilidade pelos problems aos su- bordinados, como se nenhum deles, quando compete erro grave, cumpre suas ordens, sempre norteadas pelo primado da exacio. O president 6 um chefe que esconde a mao quando a pedra atirada quebra a vidraqa. Em seu governor nao ha cadeia de comando. Logo, o coman- dante 6 um bufao, um fantoche. Lula tamb6m nao tem qualquer com- promisso cor a fidelidade aos fatos. A hist6ria jamais se consolida em sua boca. Ele a reelabora tantas vezes quantas forem necessarias e conforme os enredos mais disparatados, desde que se preserve sempre, como o lider perfeito, impoluto, imaculado. E inca- paz de admitir o erro pessoal. As im- perfeiq6es sao sempre abstratas; os maus feitos, de terceiros. O grande guia segue em frente como se tivesse diante de si apenas o espe- Iho. Um Narciso de origem humilde e nobres predicados, mas um Narciso. Para ele, tudo que nao 6 espelho vira detalhe. N6s, inclusive. Outro coordenador de campanha dos tucanos 6 o padre Eloi Wayth de Souza. Recentemente, foi beneficiado cor 24 mil reais pela Sectam, em nome de uma al- tissonante Associaqao da Miseric6rdia Divina Assistencial e Educacional, que preside (conforme Jornal Pessoal 371). O TCE parece interessado em sepa- rar o joio do trigo nessas planta6es de dinheiro pdblico, reconhecendo as insti- tuiq6es de filantropia de verdade daque- las que praticam a muito disseminada pi- lantropia. E o que ecoou o Rep6rter 70, de O Liberal, na edigqo do dia 11. * E a Igreja cat6lica local, esta aceitando o envolvimento de seus pastores com apo- litica partiddria? A salutar proibiqo, que pre- vine essa outra praga de maus condutores de ovelhas desgarradas, foi revogada? Alias, dom Carlos Verzeletti esta sen- do chamado para explicar-se sobre dois convenios que assinou com o Estado na condiCio de bispo auxiliar. A CONCORRENCIA O grupo Yamada 6 o maior anunciante particular do Estado. Nos veiculos das Organizag6es Romulo Maiorana, empanturradas de propaganda official, o grupo fica em segundo lugar, perdendo apenas para o governor. Ainda assim, nao teve direito a nenhuma cortesia pelos seus 56 anos de funcionamento, na pr6pria data do aniversario. 0 Didrio do Pard, sagazmente, brindou a corporaqao cor um anincio institutional de pagina inteira, talvez pressentindo as brancas nuvens do concorrente sobre o dia festive do rico anunciante. No domingo seguinte, mesmo atrasado, O Liberal tratou de suprir a falha: mimoseou os Yamada com uma mat6ria laudat6ria. Como toda emenda, pior do que o soneto. Alias, parece que o nome de Marcia Yamada foi expurgado dos veiculos do grupo Liberal. Talvez seja em funqo de assinar uma coluna semanal no journal dos Barbalho. FUNDO FECHADO O governor criou, no dia 11, o Fundo de Investimento e Combate A Pobre- za no Estado do Para. Seu objetivo 6 "viabilizar a populaqao acesso a ni- veis dignos de subsistencia visando a melhoria da qualidade de vida". O Fi- cop (que sigla!) sera gerido pelo Co- mit6 de Gestdo e Avaliacqo, cor 10 integrantes. S6 dois deles serio re- presentantes da sociedade civil, ain- da assim designados por livre arbitrio do governador, que sera o president do comit6. O executive ficara ainda com cinco lugares. Os outros integran- tes do poder p6blico serao os repre- sentantes do judiciario, do legislative e do Minist6rio Publico. Se nao matar a fome de comida do paraense, o novo fundo dard sua contribuiqco para matar a fome de poder do governor. DROGA Se a policia queria um argumen- to em favor da gravidade do trafico de drogas em Bel6m, os traficantes jA o forneceram: a cocaine esta sen- do refinada in situ. Sinal de que a demand j compensa o investimen- to e o risco. Se esperar por mais um sinal, ele pode vir cor o barulho da casa desabando. 6 AGOSTO DE 2006 *2QUINZENA Jornal Pessoal Rondonia: o future perdido No inicio da d6cada de 60 os longos rios demandando na dire.co de Manaus e Beldm deixaram de ser os dnicos ca- minhos de entrada e said de Rond6- nia. A BR-29 (hoje BR-364) comegou a rasgar a floresta de leste para oeste, permitindo a ligaqgo por terra entire Porto Velho e Cuiabd e daf para Bra- silia e Sao Paulo. O caminho estreito e precario que o marechal Rondon abri- ra meio s6culo antes para as linhas te- legrificas era a esperanca de liberta- qao dos rondonienses da submissao em- pobrecedora As duas principals metr6- poles amaz6nicas. Os portos de Ma- naus e Bel6m, pagando pouco pelos produtos do entao territ6rio federal (ini- cialmente Guapord) e cobrando caro pelas mercadorias reembarcadas na sua direq o, exauriam suas riquezas, que ainda eram poucas. Em contato direto e mais rdpido corn Sao Paulo, o centro mais rico do pafs, Rond6nia poderia, enfim, "se emancipar de dois dos intrincados impostos dos por- tos de Manaus e de Beldm, e, mais ain- da, das taxas e lucros que oneram os despachos daquelas pracas. Uma me- nor distdncia a separar o Territ6rio dos centros mais industrializados do pafs, onde o capital 6 mais human e menos espoliativo, evitard que continue os atuais investimentos subdesenvolvidos oriundos da regiao norte, na desorgani- zada exploraq~o da cassiterita, ou na cotaqao, bem mais baixa que as do mer- cado, para os outros produtos". Era o que esperava ou desejava - Geraldo Brocchi. Essas palavras, ele as escreveu como preficio A monografia Possibilidades Economicas de Rond6- nia, de Jos6 Augusto da Silva Reis, pu- blicada em 1964 pela SPVEA (Superin- tenddncia do Piano de Valorizacgo Eco- n6mica da Amaz6nia, antecessora da Sudam), em 1964. Ele era amazonense de origem, como a maioria dos rondoni- enses que estavam ali quando o territ6- rio foi criado, em 1943, desmembrando- se do Amazonas. Era tamb6m um dos melhores intelectuais nativos, ji entdo morando no Rio de Janeiro, onde esta- va a sede da Se9qo de Documentaqao e Rela96es Pliblicas da SPVEA, res- ponsdvel pela publicaqao. A monografia condensava um estu- do, em tres volumes, que a SPVEA en- comendara dois anos antes a uma equi- pe da qual Reis participou. O documen- to seria apresentado na 1V Reuniao dos Governadores dos Territ6rios Federais, em Manaus, em 1962. Mas a reuniao ficou apenas na promessa. Como na promessa tamb6m ficou Rondonia, que tinha tudo para ser o Es- tado mais desenvolvido da Amazonia e agora ji se empenha para nao ser mais Amazonia, tal a sua descaracterizaqgo e empobrecimento. Essa crise prolon- gada se manifesta de forma virulenta neste moment, quando suas instituiq6es, podres por dentro, desmoronam com a revelagqo da rede de corrupqdo monta- da por seus chefes. Estive muitas vezes em Rond6nia en- tre 1971 e 1978. De 1l para cd, apenas tres vezes. Chegava ao aeroporto de Porto Velho como se estivesse em casa. Tinha interlocutores freqtientes, alguns preciosos, como o capitdo Silvio Faria, o home que mais conhecia as terras do Estado nascente. E que s6 sabia con- versar se tivesse papel A mao, no qual traqava croquis de cada um dos confli- tos fundidrios aos quais se referia, com absolute intimidade. Rond6nia tinha terra boa, riquezas naturais variadas, gente disposta ao tra- balho e menos desigualdades (inclusive fundiArias) do que qualquer outro Esta- do da Amaz6nia. Por que nao deu cer- to? Essa 6 uma pergunta que devia ser feita conseqiientemente agora, atrds de respostas convincentes e urgentes. Quem se interessar, pode entrar na roda. Rond6nia merece sair do atual estado de lama moral e de devastaqio de ri- quezas. Para poder ainda ter future, dentro da Amaz6nia, se possivel. As mestras, corn carinho Os ex-alunos se dividiam. Lns di- ziam que a melhor era Maria Anunci- ada. Outros. que era a sua irm,. Pau- la. Mas uns e outros estavam de acor- do num ponto: as duas eram grande mestras. Suas aulas nAo apenas ins- truiam: eram fonie de genuino prazer intelectual. Pertenciam a uma 6poca da pedagogia na qual ati para ser pro- fessor de ensino fundamental era pre- ciso submeter-se a prova de titulos e documents, a teste de qualificaqao e defender uma dissertnao, em muitos casos verdadeiras teses de doutora- mento (do que a s6rie de publicaqies 'organizada por Josd Maria Bassalo nio deixa duv ida). S Paula. a mais nova, foi-se primei- ro. Neste ms, foi a vez de Maria SAnunciada Ramos Chaves, As vdspe- Sras de Fazer 91 anos de idade. Esteve Iticida ati recentemente. Nio faz mui- to tempo a vi pela tilima ver. em seu lindo casarbo, na esquinada Rui Barbo- sa cor a Boaventura da Silva. A Em- bratel, vizinha expansionista, ainda era estatal quando tentou chegar ati o can- to, para comprar o im6vel e o demolir. Helmut Mesche, entao superintenden- te, agradece ao acaso nio ter havido a transaago. Seria um crime de lesa-cul- tura p6r abaixo aquela construcao. AlijA funcionou umaescola, levanta- da pelo pai das duas professors. que tambem mandou construir a vila de ca- sas de estilo europeu nos funds (na ver- dade, na outra rua, a Quintino Bocaii- va). para que as futuras herdeiras pudes- sem viver de rendas, Lalvez na premoni- iio da dedicacgo missionaria e plena delas ao magistr&io e da pr6pria fuga- cidade da exisrtncia do pal. Mas ambas sempre trabalharam e garantiram o sus- tento digno. Anunciada como autentica empresaria do ensino, em associaqio. no Coldgio Moderno. O casarao guardava paz. cultura e historia no seu amplo territorio. ocupa- do por velhas estantes de madeira re- pletas de li ros. sempre exemplarmen- te limpas. Ja algumas vezes neste journal repeti a proposal de que a prefeitura de- sapropnasse o im6\el, deixando-o em usufruto a suas ocupanies, com a obri- gaco apenas de que elas atendessem a consultas. quando pertinentes, e o compronnisso de preservar tudo exala- mente como estava. O local se trans- formaria num cenrro de culmura sem pre- cisar de qualquer outro investimento. Agora que o belo casario perdeu suas zelosas e (verdadeiramente) noiavels ocupanmes, a melhor homenagem que se pode presrar As suas fecundas memdri- as 6 continuar o que elas sempre tizeram ali: oculdivoda intelig6ncia. Jornal Pessoal 2 QUINZENA AGOSTO DE 2006 7 Jornalismo premiado A formagao academica melhoraria ainda mais a qualificaPao dos jornalis- tas, um dos aspects positives da exi- gencia do diploma de nivel superior, fei- ta a partir de 1969, se os profissionais pudessem cursar qualquer faculdade e nao apenas comunicag~o social. A pas- sagem pela Universidade aprimorou os jornalistas em todas as parties do mundo em que nao houve a vinculagao a um tinico curso. Permitiu-lhes combinar o rigor dos m6todos cientificos e da ob- servacao sistemitica com a criativida- de do exercicio do jornalismo na linha de frente, em contato com os fatos. Eles sao o ponto de partida e o ponto de che- gada dos jornalistas. O principio investi- gativo especifico da profissao 6 nunca se desviar dos fatos. Um dos reflexos desse ganho de qua- lidade esti nos livros de reportagem que tem sido publicados recentemente. Eles nao sao mais apenas uma reuniao de material queji saiu na imprensa peri6di- ca, mas um produto original. Nao s6 novo como tambdm denso, capaz de servir de referencia a outros trabalhos intelectu- ais. E o que se pode ver pelos livros que receberam o Pr6mio Jabuti deste ano, todos de alto nivel. Com toda justiqa, o primeiro premio ficou cor Operagao Araguaia, de Tais Morais e Eumano Silva, que revelaram os arquivos secrets oficiais sobre a guer- rilha organizada pelo Partido Comunista do Brasil no que, depois, ficaria conheci- do como "Bico do Papagaio", uma area entire o Pard e Goids (atual Tocantins) marcada pelos conflitos de terra. Al6m de penetrar nos arquivos das Forcas Ar- madas, at6 entao inacessiveis (cuja exis- tencia era negada pelo governor os dois rep6rteres conseguiram aduzir suas ob- Cota-parte Os prefeitos de Barcarena, Paraua- pebas, Canad dos Carajis, Paragominas e Santa Maria das Barreiras impugna- ram os indices de participag~o que a Se- cretaria da Fazenda do Estado fixou pro- visoriamente. Nao concordam corn as raz6es t6cnicas apresentadas pela se- cretaria para justificar a redugao das cotas a que tem direito no fundo de par- ticipaCao do Estado, alegando erros nas bases informativas do governor. No caso de Barcarena, que 6 o mais grave, por estar entire os de maior recei- ta do Para, o indice de participacgo foi reduzido pela Sefa de 6,77% neste ano para 6,16% em 2007, porque o acr6sci- mo em valor adicionado do municipio foi de 14,59% entire 2004 e 2005, inferior ao servaq6es e outras informaq6es obtidas em pesquisa pr6pria, que enriqueceu muito sua reconstituicao da guerrilha. O livro foi editado cor primor pela Gera- Cao Editorial, que se tomou a melhor edi- tora dejornalismo. O 2 pr8mio foi para a impressionan- te dentncia de Frederico Vasconcelos sobre a corrupqao na justica, Juizes no banco dos reus. 0 paraense Luiz Maklouf Carvalho, novamente premia- do, ficou cor o 3 lugar, graqas a Jd vi essefilme Reportagem (e polemicas) sobre Lula e o PT, tamb6m da Gera- q~o Editorial, que document seu acom- panhamento critic da trajet6ria de Lula durante 20 anos (1984-2005). O mate- rial nao deixa d6vida: os desvios 6ticos, morais e politicos do maior lider popular do Brasil comecaram hi muito tempo. Um deles, que pode ter dado causa aos demais, 6 nao admitir a critical. E, por derivagio, s6 admitir a lisonja e a baju- lacao, o que Maklouf nunca lhe deu, muito pelo contrdrio. S6 lamento nao haver lugar para Mi- nisterio do silencio, o excelente livro de Eurico Figueiredo, de pesquisa tao ou mais s6lida do que os anteriores, enve- redando por uma seara pioneira na re- velagqo do mundo das sombras (e, em geral, da ineficacia) do serviCo secret brasileiro, velho de 70 anos. No acervo desse servigo ht poucas contribuiq6es realmente positivas para o pais, marcan- tes. A mais eficiente dessas organiza- 9oes parece ser a mais professional e a que ainda continue menos conhecida de todas: a do Minist6rio das Relacqes Ex- teriores. Eurico, que abriu sendas ainda A espera de novas incurs6es, certamen- te continuard a responder is quest6es que ele mesmo suscitou. incremento m6dio do Estado no period, que foi de 18,38%. Em fungao da discre- pancia, o percentual teria que baixar, ar- gumenta a secretaria, contestada pela prefeitura. Paragominas experimentou situaao semelhante e seu indice caiu de 1,54 para 1,47. As impugnaq6es foram rejeitadas. Mas a discussed deveri prosseguir em outras instancias. Como se trata de uma questdo de grande relevancia, a discus- sao devia se tornar pfiblica. Se a Sefa comprovar que tem razdo, os municipi- os que se julgam prejudicados poderao aprender que exportar matdrias primas e produtos semi-manufaturados signi- fica crescer sem se desenvolver. O re- sultado 6 o rebaixamento, CARTAS Venho acompanhando corn muito interes- se e certo estarrecimento a luta insana trava- da por voce na tentative de barrar as vanta- gens que o poder constituido acena para os seus truculentos algozes, sejam eles extemos ou nativos. Em qualquer hip6tese, eles sao reconhecidos como os lidimos (?) represen- tantes da elite brasileira, justificando deste modo, a primazia no tratamento, mas que tem a nossa total reprovaqao, para nao dizer repugnancia. 0 seu 61timo relate (JP n. 371, pAg. 05) sobre o avesso comportamento de certo magistrado (regularmente argiido por seus pares); a assumida, clara e objetiva cor- respondencia do leitor Elias Tavares (JP n. 370, p6g. 09), e as noticias dos jorais acerca dos processes judiciais inconclusos de politicos paraenses tuca- nos envolvidos at6 a medula com a malver- sagqo de recursos p6blicos inclua-se o superfaturamento da Estaqco das Docas - que jazem nos escaninhos dos Tribunais desde os anos de 1998/2000/2002, dao-nos conta de como funciona um dos trip da tal repdblica democrAtica (com minisculas, mesmo), idealizada no albores do iluminis- mo e, hoje, em iminente process de desinte- graqao. Neste pais de muito caraval e ne- nhuma seriedade certamente ainda teremos uma norma para punir sumariamente facino- ras de todas as coloraqoes, mormente 6que- les incrustados na cipula dos tres poderes Rodolfo Lisboa Cerveira *........................................................................* Prezado Ltcio Flivio Pinto Apesar de a palavra "prezado" parecer superficialmente mero formalismo ortogrA- fico, ressalto que o termo indica minha con- sideraq o e respeito pelo seu arduo traba- Ihojomalistico em defesa de nossa maravi- Ihosa regido natal, a Amaz6nia. Meu nome 6 Edmar Bentes, sou paraense, nascido em Bel6m e, por circunstAncias da vida, resido atualmente na cidade do Rio de Janeiro, onde trabalho como Arquiteto na Petrobris S.A. Ao long dos iltimos meses tenho ten- tado acompanhar as ediq6es do Jornal Pes- soal, atrav6s do esforqo de cooperaq~o de um amigo de BelIm que envia de vez em quando os exemplares para mim. Infelizmen- te, nao tenho conseguido acompanhar as edicqes ininterruptamente, de modo que desejo saber se seria possivel efetuar uma "assinatura" do JP, para que eu receba os exemplares no Rio de Janeiro. Reafirmo meus votos de parab6ns pela perseveranqa e dedicaqao aos temas rele- vantes da Amaz6nia Brasileira. Muito que- rida por n6s e outros mais, por6m desgra- qadamente surrupiada pelas minorias que a controlam economicamente, vivendo nela ou nao, e vilipendiada por aqueles outros tantos que s6 a conhecem como o maior "pedaqo do mapa" do Brasil. Edmar Bentes Como o Jornal Pessoal, infelizmente, nao tem assinaturas, por motives ji referi- dos, peqo ao amigo do Edmar que regulari- ze as remessas, mantendo a periodicidade em dia. O leitor merece. 8 AGOSTO DE 2006 *2-QUINZENA Jornal Pessoal DE MEMORIAL Os nobres t6cnicos na epoca ditatorial David Carmichael era um dos t6cnicos americanos a serviqo de Daniel Ludwig no Jari Aqui ele aparece, quase 30 anos atrds, num tanque da Segunda Guerra Mundial, adap- tado, no pr6prio projeto, para puxar toras de madeira. O miliondrio americano, como mui- ta gente entdo (e at6 hoje), pensava que a Amaz6nia era uma planicie mon6tona. Mas era muito movimentado o terreno no qual co- meqou a plantar as mudas de gmelina arbo- rea, a drvore trazida da Asia para produzir mais celulose e mais cedo do que as esp6ci- es convencionais, pinho e eucalipto. Ludwig imaginava que ia surpreender os concorren- tes, conquistando um lugar para o seu produto. Nas declividades, o tanque modificado fa- zia o arraste das arvores abatidas, que nao podiam ser carregadas manualmente. O prin- cipal destino delas seria alimentar a fornalha da usina de energia, transportada desde o Japao. Mas logo os t6cnicos depararam corn outro problema: a gmelina precisava de bons solos para se desenvolver adequadamente. Havia apenas manchas de boa argila na- quele conjunto arenoso, nao tao extensas e continues para abrigar o plantio homogeneo, que deveria se estender por 100 mil hecta- res, substituindo a mata native. Foi precise nao s6 suspender o plantio da esp6cie asidti- ca, mas tamb6m erradicar o que jd estava no chao. Outra ma surpresa: a gmelina era como uma praga, dificil de eliminar. Muitos t6cnicos trabalhavam na descoberta e solu9ao dos problems cor dedicaqao inte- gral e honestidade. Era o caso de Carmichael. Junto corn alguns outros, pressionou a direqao da empresa para que eu pudesse voltar A drea e ver o que eles estavam fazendo. Podia critical o projeto, mas achava que eu reconheceria o esforqo que estavam fazendo para acertar, sem objetivos escusos ou movidos apenas por inte- resses comerciais. Na primeira viagem depois da proibicao e nas seguintes, andei para todos os lados e fiz as perguntas que queria aos meus acompanhantes, como Carmichael. Eles tam- bem faziam perguntas porque nao concorda- vam com todas as ordens recebidas, nem parti- lhavam todos os objetivos da empresa. Mesmo alguns t6cnicos de nivel mais elevado, exer- cendo funqres de confianqa, nao escamotea- vam os fatos, quando pressionados a falar. Mas para isso era precise sair da sede da empresa, onde pesava a autoridade do dono e seus porta-vozes. Numa das expediqces, cir- culei desde a alvorada atd o meio da tarde com Charles Briscoe pelos plantios. Quando vol- tamos a Monte Dourado, os restaurants j es- tavam fechados. Ele me convidou entao a acom- panh6-lo no almoro. A principio achei que nio me queria em sua casa. S6 descobri que o motive era outro quando sua esposa chegou com um grande copo de iogurte. "Aquilo" era nosso almo9o. Mesmo muito maior do que eu, Briscoe pareceu satisfeito. Depois de engolir o iogurte, meu est6mago ainda reclamava. Por mi educaqao e inadaptagio ao meio, nos acostumamos a comer muito. Os estran- geiros, talvez por sentir as restrigqes do clima quente e dmido, se preservam, ao menos no almoqo. Lembro de um quadro na sala de re- fei6es de uma das casas da Vila Americana, em Fordlandia, que dizia, em ingles: quando estiver comendo, lembre-se que voltarA a tra- balhar. Sempre lembro da divisa. Mas esque- go de considerd-la quando sento a mesa. De- pois de deixar Briscoe, tratei de arranjar algo mais s6lido para comer na cozinha do hotel, que, como tudo em Monte Dourado na 6poca de Ludwig, era de propriedade da companhia (at6 os postos de gasoline, que abasteciam de graqa os carros registrados). Excelente era tamb6m um dos gerentes da fibrica de caulim da Cadam, um canaden- se cujo nome no moment nao record. Ele s6 aceitava conversar depois que atravessavamos o rio Jari, deixando o distrito industrial de Mun- guba e indo ocupar uma nistica mesa num dos bares da vila, do outro lado. "Aqui temos liber- dade", ele suspirava, enquanto virava um copo de cerveja depois do outro. Circulando pelas palafitas, falava cor todas as pessoas. Na fi- brica, era sisudo e calado. Ao long do regime military, aprendi a res- peitar os t6cnicos de nfvel m6dio e superior, da camada intermedidria. Eram mais abertos, mais sinceros e, na maioria das vezes, mais competentes do que os chefes. Uma vez pre- servada a sua identidade, dispunham-se a re- velar fatos graves, furando o control dos su- periores e o v6u de censura imposto a partir de cima, tanto nas engrenagens do govemo quanto das empresas. Mostraram-se um dos avaliza- dores da liberdade de imprensa e dos compro- missos mais nobres do serviqo ptblico. Per- maneciam anonimos, mas satisfeitos. David Carmichael, no reino do ditatori- al Daniel Keith Ludwig, era um deles. Por onde andard? Os mais iguais A escalada de viol8ncia no Brasil amea- 9a "nao apenas o cotidiano civilizado a que todos os cidadaos tem direito", mas "a pr6- pria sobrevivencia da sociedade democriti- ca". E o que diz a nota official das principals organizaq6es da imprensa brasileira, em re- aqio ao seqiiestro dejornalista em Sao Paulo como instrument de chantagem. A escala- da, a partir do epis6dio envolvendo a TV Glo- bo, vitima do PCC, se nao for logo barrada, pode escapar a qualquer control. Por isso, veiculos espalhados pelo pais reproduziram o manifesto, subscrito pe- Jornal Pessoal .2 QUINZENA AGOSTO DE 2006 las entidades patronais do jornalismo. In- clusive as emissoras do grupo Liberal, em Belem, indiferentes a circunstdncia acu- sat6ria de que um dos seus proprietarios, Ronaldo Maiorana, agrediu covardemen- te este jornalista, em janeiro do ano pas- sado, alegando nao ter gostado do que aqui foi escrito, reagindo cor os punhos. A es- calada da viol8ncia das organizaq6es cri- minosas, como diz a nota, publicada na primeira pAgina de O Liberal do dia 16, 6 funqao da impunidade, que enfraquece o respeito a lei. Se gente supostamente civilizada se acha no direito de combater id6ias e informaqaes cor a violencia fisica, praticada sem qualquer pu- dor em ambiente plblico, cor a cobertura de guarda-costas, o que nao se acharao no direito de fazeros profissionais do crime? 0 mau exem- plo, quando vem de cima, se multiplica como uma ameba agressiva num ambiente sadio. O grupo Liberal nao ter legitimidade para reclamar da violencia, que s6 d6i e deve ser lamentada com estardalha9o quan- do 6 em si ou em seus iguais, sempre "mais iguais" do que os demais. MEMORIADO COTIDIANO TV: antes e agora O DiBrio Oficial do Estado de 22 de junho de 1978 publicou ato atrav6s do qual o Conselho Deliberativo da Funtelpa (Fun- daaio de Telecomunicaboes do Pard) homologou a indicaqgo de uma comissao de alto nivel, no- meada pelo governador Aloysio Chaves, considerando a TV Li- beral vencedora de uma licita- 9ao p6blica para a exploragao do Sistema Integrado Estadual de Televisdo no Pard. Esse sistema permitiria levar o sinal da emissora vencedora inicialmente a seis municipios paraenses: Castanhal, Capane- ma, Braganqa, Salin6polis, Abae- tetuba e Cametd. Depois a trans- missdo alcanqaria todo o interior do Estado. Ajustificativa era de que, al6m de proporcionar lazer e entretenimento, a programaqao de televised fixaria o habitante ao seu local de moradia. A outra empresa que se apre- sentou a concorrencia foi a TV Marajoara, dos Didrios e Emisso- ras Associados (ji extinta). A co- missao de avaliaqao das propos- tas era integrada por t6cnicos do Minist6rio das Comunicaqoes e do governor estadual. Mas seu pare- cer teve que ser submetido ao Conselho Deliberativo da Funtel- pa para produzir efeitos. Quase 20 anos depois, ao in- v6s de promover uma nova con- correncia pdblica, como fez Aloy- sio Chaves, o governador Almir Gabriel simplesmente entregou o serviqo, ji complete, a TV Libe- ral. Tangenciou a imposiqao le- gal, substituindo a forma apropri- ada, que 6 o contrato, com acesso a todos os interessados, por uma emenda de p6 quebrado para o caso, o conv8nio. E passou a pa- gar (a principio, 300 mil reais por mes) A emissora da familiar Maio- rana pelo uso da rede de transmis- sdo de imagens da Funtelpa, intei- ramente a serviqo da programaqao commercial da Rede Globo de Tele- visao, da qual a TV Liberal 6 afili- ada. A programaq~ o da TV Cultu- ra, que integra a rede ptblica, nao commercial, foi ignorada. Chamam a isso de padrao tu- cano de seriedade. Political O chefe de policia do Esta- do, major Valdemar Alexandrino Chaves, determinou, atrav6s de portaria, os locais nos quais "po- derdo ser realizados comicios e reunites political legais" durante o ano de 1953, selecionados pelo delegado da Ordem Politica e So- cial, Moacir Santiago. E uma au- tentica geografia political da cida- de e alguns dos seus pontos de maior convergencia humana. No Reduto, seria na praqa Ma- galhaes; em Nazar6, no largo da Reden~io (ou do Redondo), seguin- do-se: Cidade Velha (praqa do Car- mo), Central (largo da Trindade), Sao Braz (praqa do Operirio), Pe- dreira (cruzamento da avenida Pe- dro Miranda corn a travessa Lo- mas Valentinas), Marco (boule- vard Doutor Freitas), Jurunas (cru- zamento da travessa dos Jurunas com Timbiras), Tel6grafo Sem Fio (praqa Centendrio), Santa Isabel e Guami (cruzamento da avenida Jos6 Bonifdcio corn a Baro de Iga- rap6-Miri), Cremaqao/Condor (pra- ca Princesa Isabel), Marambaia (praqa do Cruzeiro), Sacramenta (avenida SenadorLemos corn bou- levard Doutor Freitas) e Umarizal (praqa Camilo Salgado). Criangas Comentario publicado na se- gqo "Vozes da rua", da Folha do Norte, provavelmente escrito por Paulo Maranhdo, em setembro de 1957, refletindo uma mudanca de hibito na cidade: "A residencia em apartamen- tos 6 uma reclusio prejudicial as criancas. Raras sao estas que acusam boa sadde, depois de al- guns anos encerradas nessas gai- olas douradas, onde sao como os passaros cativos de Olavo Bilac. Morar em apartamento 6 o luxo da hora present. Os pais sa- crificam os filhos ao seu esno- bismo, A imitaqao do que se pas- sa na capital do pais [ainda o Rio de Janeiro], que nao deve ser tomada por modelo em muitas coisas. Mas no Rio ha os jardins pliblicos, as praias vizinhas onde as criancas vao recrear-se. En- tre n6s, os logradouros sio luga- res perigosos sem graca e sem amenidade, entregues ao Deus dard. Quanto a praias e brisa ma- rinha estao distantes de n6s. Por felicidade desses peque- nos series engaiolados nos corti- qos elegantes da Presidente Var- gas, o coragqo generoso das re- ligiosas Dorot6ias do Col6gio Santo Antonio acolhe, maternal- mente, aquelas avezitas cativas no belo e amplo parque de re- creio do Col6gio [que nao mais existe, como poucas continual a ser as oppCes de lazer para cri- ancas], onde 6 um espeticulo de encantar ver os pequeninos en- tregues aos mais variados brin- quedos da sua idade". Centro "M6veis novos, colchdo de mola e muita dgua e luz" eram os atrativos anunciados em 1958 pelo Amazonia Hotel, que fica- va na rua 6 de Almeida, "a dez passes do Edificio Paldcio do Rddio e dos Correios e Tel6gra- fos". O centro nervoso da cida- de de entdo. V60 A partir da data cabalistica de 1 de abril de 1959, duas ve- zes por semana, o passageiro da Paraense Transpores Adreos embarcava em Bel6m a meia- 4 n AGOSTO DE 2006 *2QUINZENA Jornal Pessoal BOOT 0 TH & CIA. (LONDRES) Ltda. em nome de seus representados THE BOOTH STEAMSHIP COMPANY LIMITED de Liverpool, e por si proprios Sadidam com sincere prazer a co- mitentes e amigos, almejando-lhes, com vivo empenho, multas pros- peridades no ANO NOVO Para, I de Janeiro de 1948 PROPAGANDA As empress inglesas Algudm hd de imaginar, hoje, um antincio de fim de ano de urma empresa inglesa veiculado atraves da imprensa do Pard, saudando os nativos? Pois no alvorecer de 1948 a Booth, de Londres, em nome de seus representa- dos de Liverpool, e em seu prdprio nome, programou esse anuncio para o primeiro dia do novo ano, saudan- do, "corn sincere prazer", seus "comitentes e amigos". A navegaqdo de cabotagem national e international era intense no porto de Belem, onde cargas e passagei- ros desciam ou eram reembarcados no rumo do interior da grande bacia amaz6nica. A navegaado era parte vital da vida da cidade, uma realidade que mudou muito - tanto para melhor como para pior, sem que se tenha feito um balanqo adequado sobre os prds e os contras. noite e amanhecia no aeroporto Santos Dumont, no Rio de Ja- neiro. Em tese, pronto para apro- veitar o dia inteiro, depois de um sono de seis horas a bordo. Na- turalmente, se assim o permitis- se o quadrimotor Douglas Sky- master. O aviio era para ser "mestre do c6u", mas, na ver- sio bandalha para o portugues do sonoro "isciimaster", acabou sendo "cai e mata". Contrabando Bons neg6cios fizeram os ar- rematantes das mercadorias le- vadas a leillo pela Guarda-Mo- ria da Alfandega em agosto de 1960. Era grande o ntimero de pessoas presents, mas o repre- sentante da Importadora Bel6m conseguiu por bom preqo, em dois lotes, 710 sacas de cimento. As duas caixas de uisque "Que- en Anne" ficaram corn o comer- ciante Ant6nio Severino. Industrias Circulava por Bel6m, em 1963, a informaiao de que "ar- gutos capitaes da industria" de Sio Paulo estavam interessados em comprar empresas "genui- namente regionais" que contro- lavam os principals neg6cios do Parn. As mais tradicionais eram: Jorge Corria S/A (proprietArio da Palmeira, de biscoitos e mas- sas), Martins Jorge S/A (Fibri- ca Perseveranqa de fiaqao e te- celagem de juta e algodlo), Tau- rus do Brasil (manufatura de sa- b6es e 6leos), Bel6m Comerci- al e Industrial (beneficiamento de couros). Tamb6m estavam sendo visadas firmas mais no- vas, como a Companhia Para- ense de Alimentaqao culturala e industrializaqio de cacau) e Companhia TUxtil Paraense ique jcabara de encomendar miquinas modern, para tabrt- car tecidos populareoi. Como ji eLtaJ a em igor a politicade incentii os fiscaisque I\ Q\ a delocar o phlo economi- co para o Nordest e o None. a noiicia parecia ler fundamento. Nlas njo tinha Hotel Joaquim Gonal e-s dei\ou a dire~jo do Grande Hotel em 1963. depois de IrS janos jdmi- nistrando-o como nunca anles. restabelecendo o prestigio do "velho estabelecimento da Pra- aa da Rep6blica, que se trans- formou, graqas a ele, no centro de convergencia do mundo so- cial de Bel6m", segundo a Fo- lha do Norte. Indo desempenhar a mesma funq~o "em outra me- tr6pole", Joaquim Gonaalves "deixa a marca da sua aus-n- cia nos que aprenderam a esti- mi-lo e admird-lo", dizia a nota FOTOGRAFIA A gare demolida 0 antigo iermnnal da Esirada de Fern) de Bragaiiia em Belem nio tra nenihrmna Estactdo da Lu, a clharmosu replica paulistana da Ilairim inglesa, mas iio in'rtecia o destino ailargo que o Depariamento de Estrada idc Ro- dagemn Ihe rescrvou no primeiro governo de Alacid Nu- nes, unia esprcie de Barberini seim nobiliarquia de Be- lem (ou un hIIto da artjuietura?). A estadlo de iren.% de Sdo Braz foi demolida e cin scu lugar sirgin a dt'senxa- bida rodovidria. hoje mal-acomodada no tlgar por fll- at de visdo de quem a concebeu ao nIenos i'riso pris- pectiva. Essa Jfto da garee" foi rirada nu pouco alntes da demoli io, em setemrbro de 1968. de despedida. Foi o canto de cis- ne do belo hotel. Politico Emjunho de 1963, a Associa- qo dos Cabos Eleitorais do Pari, presidida pelo professor Azevedo Maia, convidou "seus associados, estudantes, classes operirias, o povo em geral e especialmente as crianqas" para receber o tamb6m professor Gilberto Mestrinho, "este grande lider e construtor da nova Amaz6nia". O entdo gover- nador amazonense visitaria a in- s6lita associaqao em sua sede pro- vis6ria, na praqa Brasil. Mestri- nho tinha um pd no Amazonas e outro no Pard. Hoje, tamb6m em Brasilia e no Rio de Janeiro. Pedro: cinema Para quem nasceu logo depois da Segunda Guerra Mundial e formou sua consci8ncia numa cidade como Bel6m, foi uma graga contar cor a critical didria de cinema de Pedro Veriano. Freqien- tadores assiduos da sala escurinha, como todas as criancas e ado- lescentes dos anos 50 (e seus pais), tinhamos na segqo, mantida cor pontualidade impar, uma fonte de informaq es rica. Cor o tempo, fomos nos distanciando das opinions do critic, sem nunca deixar de admirar sua fidelidade ao cinema e o empenho em divul- g.-lo, al6m da espartana discipline na produqao da coluna. Nao apenas se via muito cinema como entretenimento: o que a tela exibia era uma referencia para as grandes questoes da vida. Daf procurarmos com sofreguiddo, todos os dias, co- lunas como as de Ely Azeredo, Antonio Moniz Vianna, Jos6 Lino Grtinewald e virios outros mais ou menos bissextos. Sem perder o contato com Pedro Veriano em Bel6m. Fiquei muito feliz cor a iniciativa dos parents e amigos de reunir uma seleqao de artigos de Pedro em livro, registrando tamb6m o papel pioneiro e decisive que ele teve ao long de d6cadas na projeaao de bons filmes e formacao de audit6rios habilitados a valorizar o cinema. S6 falta agora abrir-se uma janela permanent a partir da qual Pedro Veriano volte a nos ajudar a manter o encanto pela magia cinematogrifica. Sua participaq~o eventual ndo faz justiqa a sua inapag.vel jovialida- de quando se trata da s6tima arte. Jornal Pessoal 2. QUINZENA AGOSTO DE 2006 11 ALBRAS A Albris, a maior ind6stria de aluminio do pais, instalada em Barcarena, sob o comando da Companhia Vale do Rio Doce, decidiu distribuir como dividen- dos aos acionistas metade do lucro liquid obtido no ano pas- sado, de 245 milh6es de reais (sem incluir a reserve legal, de R$ 13 milh6es). A outra meta- de foi para reinvestimento, in- dicando a disposiqio da empre- sa nipo-brasileira de continuar sua expansao. O president da empresa ganha 130% a mais do que a maior remuneracio bisica paga aos empregados (os de- mais diretores, 100%). Na vi- zinha Alunorte, esse percentu- al 6 de 70%. Mas quem paga o president da Albrds 6 a Fun- daqao Vale do Rio Doce, corn dinheiro que a pr6pria Albris Ihe repassa. Para a remunera- ,ao variivel da diretoria, foram reservados 1,1 milhio de reais. BICO DO PAPAGAIO O Institute Interamericano de Cooperaqao para a Agricultu- ra, o IICA, receberd at6 o dia 14 de setembro, em sua sede, em Brasflia, propostas para a "implementaqao de F6rum de Desenvolvimento Integrado e Sustentivel na Mesorregiao do Vale do Bico do Papagaio", entire Tocantins, Pard e Mara- nhio. Essa regiao, que ji ser- viu de cenirio para a guerrilha do Araguaia, continue a ser uma das mais tensas da Ama- z6nia Legal por causa de cons- tantes conflitos fundidrios. SAO PEDRO A fAbrica de cimento do grupo Joao Santos em Itaituba, a maior do Estado, teve, em 2005, seu primeiro ano de ple- na produq~o. Conseguiu colo- car no mercado todo cimento que produziu, faturando mais de 43 milh6es de reais. Mas fe- chou o exercicio com prejuizo de R$ 1,8 milhao. A explica- Cao: o verao foi excepcional- mente seco e o inverno, tre- mendamente molhado, inclusi- ve na area de influ8ncia da companhia, "prejudicando, con- seqUientemente, as vendas e o escoamento de sua produ2io". Ora o rio Tapaj6s transbordou, Mestre Cala Estivamos na segunda metade da d6cada de 60. Cliudio Sa Leal, director de redaqCo de A Provincia do Pard, me con- voca ao seu aquario e me encarrega de uma missao diffcil: dar uma nova forma A coluna do Mestre Cala. Leal diz que ela 6 andrquica, parecida demais cor seu autor. Quer que seja "mo- dernizada". Saio do gabinete, sento-me diante de Moacir Ca- landrini e repasso integralmente o que ouvi. Cali, por sua vez, ouve atento o moleque imberbe, n.o muda de tom e me entre- ga as laudas escritas: Pega, taf a coluna. E assim foi durante virios dias. Como ainda nao havia com- putador, para poder dar cumprimento A determinaqgo superior, emendava em cima das linhas escritas, do lado, atris. Ia e voltava. Logo estava diante de uma carta enigmitica, como aquelas que o Herd6lio Maltez e o Alberto Queiroz concebiam ou reproduziam em suas muito lidas piginas dominicais em A Provincia e Folha do Norte. Ao fim e ao cabo (conforme Isaac Pais), reapresentei-me ao chefe e entreguei os pontos: Mestre Cald 6 um Garrincha do texto. Impossivel marca-lo. Devolvi a missio. Calandrini voltou ao seu estilo inconfun- divel e eu, sem ter a obrigaqao de bloquear suas firulas, agora podia me dedicar a 18-las. Ganhamos todos. Mestre Cali era a pura traduqao do futebol paraense: meio andrquico, irracional, cheio de banzos, mas cor marca pr6pria. Era um Otelo indigena, sem a amplitude do autor do Penalty, a apaixonante (ao menos para minhas expectativas da 6poca) pagina de O Globo, periodicamente transformada em almana- ques (eu tinha todos, mas algu6m se apropriou deles). Havia catimba e ginga no que escrevia, firulas as vezes improdutivas. Mas havia certo encanto nas molecagens, nas "gaitadas". Nao A toa, Calandrini virou Mestre Cala. Marcou 6poca. Impossivel nao se submeter A sua simpatia. Talvez tenha sido para este journal o iltimo texto que ele escreveu para ser publicado. Saiu aqui, na seqao de cartas da edigqo 372. O estilo alegre, moleque, vivaz, nao sugeria que o autor pudesse vir a morrer nos pr6ximos anos. Nao deixava perceber qualquer sinal de debilidade. Mas Cald se foi para outra, duas semanas depois, em Brasilia, como se manteve ao long de oito d6cadas nesta: imarcivel, como diria aquele notivel ex-ministro do Trabalho, o Ant6nio Ma- gri (pero gordo). Magri mesmo era Cald, elegant no seu traje de uma esfuziante alegria carnavalesca, abrindo alas para a bonomia. Nasafi~ ora ficou muito seco, dificultan- do a navegaCqo. Original, pelo menos, a explicagAo 6. RETRATO Dos 102 candidates que fize- ram o concurso para ingres- sar na carreira no Minist6rio P6blico do Estado, apenas 28 passaram. A maior nota final foi 5,38. As mulheres tiveram ligeira vantage sobre os ho- mens: 15 a 13. CINEMA A prefeitura jA pagou 40 mil reais em alugu6is ao grupo Severiano Ribeiro e gastou outro tanto de dinheiro na re- forma do pr6dio, mas at6 ago- ra o Cinema Olimpia perma- nece fechado, quatro meses depois do anincio de sua transformagio em centro mu- nicipal de audiovisual ou coi- sa semelhante. O modus ope- randi do "espaqo" depois de sua "repaginaqao" (como di- zem os "designers") ainda nao foi definido. Masji foram con- sumidos 10% do tempo de vi- gencia contratual cor a em- presa privada. Os progn6sticos mais rea- listas estio se confirmando, cessada a euforia inicial. FORA MAIOR O pastor Josu6 Bengtson era candidate a reeleicao como deputado federal pelo PTB at6 estourar o escandalo das sanguessugas, no qual foi um dos envolvidos. Logo, nao foi por ter cumprido sua missao que renunciou a candidatura e a pr6pria carreira parlamentar, conforme anunciou na semana passada, chorando diante de dois mil fi6is do seu rebanho. Na verdade, foi renunciado, se permitem a flexao sanguessuga. MARCA Algumas pessoas slo bem- sucedidas apesar de sua hist6ria de malfeitos. Pode at6 ser uma li~io de pessima moral. Mas s6 aparentemente. Para que nem tudo seja permitido, o criador carimba esses malfeitores no ato da criaqao. E s6 olhar para eles e chegar a uma conclusao automitica: esse 6 bandido, nio um mocinho. O carter ruim que escondem cor seus maneirismos, a face exibe. Se o leitor ter ddvida, encare diretamente os cidadios que estao aparecendo no horirio eleitoral (dito) gratuito. CAUSA A Igreja do Evangelho Quadrandular, de Josu6 Bengtson e Martinho Carmona, dois de seus expoentes, ter, no Para, 38 superintendents e 2.100 pastores. Et pour cause. Editor: Lucio Flavio Pinto Edigio de Arte: L. A. de Faria Pinio Contato: Tv.Benjamin ConsLanl 845/203/ 66.053-040 Fones: (091) 3241-7626 E-mail: pornal@amazon.com.br |
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