Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00299


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Full Text



ORIXII

FICAR
3m1al Pessoal
SEJA A
A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO AME A
AGOSTO DE 2006 1"QUINZENA No 373 ANO XIX R$ 3,00


(


NIQUEL DE CARAJAS



Minas de US$ 2,3 bi

Esse e o incrivel valor do investimento da CVRD em dois projetos de niquel no sul do Para. E do
tamanho do orgamento annual do governor do Estado, mais de 90% dele gasto com o custeio da
maquina pDblica. Mas esses mastodontes minerals, que se espraiam pela provincia de Carajas,
uma das maiores do planet, se engasgam com um "mosquito": o licenciamento ambiental.


A Companhia Vale do Rio Doce
planeja investor 1,2 bilhaio de
d6lares (quase 2,5 bilh6es de
reais) na mina de nfquel do
Vermelho, em Carajds. Mas s6 no mes
passado, depois de dois anos de tramita-
qgo pela burocracia official, conseguiu ob-
ter licenqa pr6via para comecar a implan-
tar o projeto. O director de planejamento e
gestio da companhia, Gabriel Stoliar, re-
clamou da demora, que poderia compro-
meter o cronograma da Vale, interessada
em colocar em operaqdo o niquel do Ver-
melho antes do vizinho projeto do Onqa


Puma, tambem seu, para o qual prev6 in-
vestimento do mesmo tamanho, ou US$
1,1 bilhio. Provavelmente os dois sairio
ao mesmo tempo, entire 2008 e 2009, co-
locando o Brasil entire os cinco maiores
produtores mundiais de niquel.
As critics, feitas durante a apresen-
taqdo dos resultados da CVRD no pri-
meiro semestre, obrigaram o represen-
tante da empresa em Bel6m, Eugenio
Victorasso, a procurar atenuar a reper-
cussdo negative das declaragqes de Sto-
liar junto ao governor do Estado. As rela-
q6es entire as duas parties, que nunca fo-


ram exatamente risonhas e francas, ame-
aqam azedar ainda mais se Almir Gabri-
el for eleito successor do tambem tucano
Simio Jatene. O ex-quase-futuro-de-
novo-governador foi durissimo nas criti-
cas a maior empresa em atuagio no Pard
(no qual fatura mais do que o pr6prio
governor) durante um encontro realizado
na sede da Federaqlo das Indtistrias,
duas semanas atras.
Retificando de certa forma o director,
Victorasso explicou que a demora por ele
referida no process de licenciamento nio
CONTINUiA iPAG


AINA VAI
NO BUHAGO.'
PAGINA 3
iMAZON IDA:
FLORESTA
PAGNAS 4/6







CONTINUAiAO DACAPA
se devia a qual-
quer impericia
ou falta de apoio
da Secretaria de
Ciencia, Tecno-
logia e Meio
SpAmbiente, mas
ais exig6ncias da
pr6pria legisla-
ido. Ela impose
um rito mais len-
to devido a cer-
tas exigancias, que precisariam ser apri-
moradas. A Sectam tratou de ressaltar
6 parceira da Vale, desempenhando seu
papel de forma "correta e competente.
Ndo faltam motives para a compa-
nhia reclamar da demora. O mercado
do niquel, usado na produqho de aqo
inoxidfivel, esti muito aquecido pela de-
manda da China. E precise aproveitar
essa conjuntura international para au-
mentar a rentabilidade do empreendi-
mento. Mas se a burocracia p6blica
afeta o andamento regular e desejivel
do licenciamento ambiental, com exi-
gpncias is vezes marcadas pelo preci-
osismo, parcel ponderivel de culpa
cabe t pr6pria CVRD.
Os representantes do Minist6rio Pi-
blico que atuaram no licenciamento no
Conselho Estadual do Meio Ambiente,
Raimundo Moraes e Bezaziel Alvaren-
ga, observaram, em seu parecer sobre o
EIA-Rima (estudo e relat6rio de impac-
to ambiental) do niquel do Vermelho, "as
profundas defici~ncias desses estudos
apresentados, especialmente nos aspec-
tos relatives aos riscos sobre a sadde
humana e sobre a higidez do meio ambi-
ente natural e social".
Um projeto de mais de um bilhio de
d6lares pode apresentar deficiencias des-
se nfvel na avaliaqio do seu impact
ambiental na regidio onde vai funcionar?
Se realmente procedem as restriqies
opostas pelos dois promotores, algumas
das quais at6 rudimentares, a CVRD age
corn negligencia ao contratar consulto-
res para elaborar esses estudos de im-
pacto ecol6gico e human. A empresa
precise responder rapidamente e con-
vincentemente a essas critics se qui-
ser merecer considera~io. Por causa de
tais falhas, os promotores desaconselha-
ram o licenciamento do projeto, alegan-
do que o EIA-Rima nio demonstrou a
viabilidade ambiental para a operaqlo da
mina de niquel do Vermelho.
Algumas das deficiencias apontadas
devem-se mais in6rcia do poder p6bli-
co do que i impericia da empresa priva-
da, chamada a suprir uma missdo de go-
verno ignorada ou descurada. Em certa
media os representantes do Minist6rio
P6blico querem que a companhia chame


para si responsabilidades da administra-
alo p6blica, o que nio ter previsio em
qualquer norma legal, mas pode ser en-
quadrado dentre as responsabilidades so-
ciais de uma empresa privada, sobretudo
em irea pioneira, como a de Canad dos
Carajis, onde se localiza ajazida.
Virias lacunas indicadas no parecer
do MP nio dizem respeito diretamente
ao impact ecol6gico, mas influirao so-
bre a vida humana, a ser considerada
quando os efeitos do projeto forem de-
sencadeados. Alguns estudos exigidos
serao necessarios para fundamental po-
liticas piblicas de sadde, educaqio, mo-
radia, absor9io de imigraqio ou seguran-
ga publica. Podem at6 nio ter estrita pre-
visao legal, mas num projeto de mais de
US$ 1 bilhao nao constituem luxo. Muito
pelo contririo.
Outros dados solicitados, por6m, di-
zem respeito ao process produtivo. Os
promotores afirmaram em seu parecer,
por exemplo, que "sio enormes os ricos
dos efluentes industrials gasosos, lfquidos
e s6lidos a serem gerados, a exemplo dos
impacts: da emissdo permanent de ne-
voa icida e outros gases decorrentes da
ffbrica de icido sulftirico, da barragem
e da bacia de rejeitos sobre o solo e as
iguas superficiais e subterraneas e da
torta s6lida resultante do process indus-
trial, seu dep6sito e tratamento final".
Hi realmente lacunas dessa gravida-
de no EIA-Rima? Se tais aspects nio
foram adequadamente contemplados nos
estudos, a empresa deve ser cobrada corn
rigor. Um procedimento exemplar pode
ter efeito demonstrative para o future,
inibindo licenciamentos ambientais feitos
apenas para cumprir uma formalidade,
como acontece corn certa freqiiencia.
Embora algumas considera95es do
parecer possam sugerir excess de ri-
gor (nio aplicado ao outro projeto de
niquel, do Onca Puma, licenciado ante-
riormente pela canadense Canico, an-
tes de sua aquisiqdo pela CVRD, no ano
passado), na verdade elas simplesmen-
te aplicam a uma regido pioneira nor-
mas da legislaqio corrente, incluindo a
Constituiqio do pafs, que parecem nao
ter vig6ncia na fronteira amaz6nica, por
causa do seu pioneirismo.
Ji 6 hora de definir uma visio de con-
junto sobre a provincia mineral de Cara-
jis, uma das mais importantes do plane-
ta, enquanto hi min6rio, cuja explorayio
precisa ser regulamentada satisfatoria-
mente. Dez minas de ferro, mangan6s,
cobre e niquel se distribuem por quatro
municipios e as autoridades agem como
se cada um deles fosse um pafs, cor
fronteiras rigidas e soberanias excluden-
tes. Nio hf um planejamento integrador,
capaz de tirar o mfximo beneficio em
conjunto desses empreendimentos eco-


n6micos. De dar-lhes sinergia, como diz
o jargio t6cnico.
S6 a pr6pria CVRD tern uma visio
global desses projetos. Os que ji estao
em atividade representam investimento
realizado de quase 5 bilh6es de d6lares.
Os que ainda estao em fase de implan-
tagio somam mais de US$ 3 bilh6es. No
ano passado a receita dos projetos de
ferro, manganes e cobre se aproxima-
ram de US$ 2 bilhoes. Cor o pleno fun-
cionamento das minas, esse valor dupli-
card. Quanto desses recursos conside-
riveis ficari na pr6pria regiao, benefi-
ciando-a de forma duradoura e naio ape-
nas e residualmente durante a safra
dos min6rios, encurtada pela escala enor-
me da produqio?
Pouco, se defender da iniciativa pr6-
pria da empresa. Menos do que o possf-
vel, se a tarefa ficar entregue ao gover-
no, despreparado para cumprir sua mis-
sio numa regiio desarticulada e deses-
truturada pelo impact desses "grandes
projetos", como eles sio (mal) conheci-
Sdos. A intervencio dos dois promotores
no process de licenciamento pode ter
tamb6m suas falhas e excesses, mas cum-
pre a funqio de provocar o debate.
Mais do que um debate academico,
esti em causa a sorte da natureza e das
pessoas nesses locais, o que provavel-
mente levou os dois representantes a
advertir, em seu parecer, que "o nlo
atendimento sem justificativa da presen-
te recomendaqio important na respon-
sabilizadio e no ajuizamento das medi-
dasjudiciais civis e criminals, visando a
resguardar os bens ora tutelados, inclu-
sive, cor a propositura de apropriada
agao civil p6blica por improbidade ad-
ministrativa, consistent no ilicito de re-
tardar ou deixar de praticar, indevida-
mente, ato de oficio".
A advertencia dirige-se tanto a Vale
do Rio Doce quanto a Sectam, chama-
das a cumprir suas distintas responsabili-
dades, hs vezes ignoradas na formaaio
de "parcerias". Em Carajds, elas apre-
sentam resultado desigual, favore-
cendo muito mais a empresa
privada do que os cida-
dios dos quais o po-
der p6blico 6 o re-
presentante.
No Par i,
em tese.


2 AGOSTO DE 2006 I,'QUINZENA Jornal Pessol1








0 minerio estai acabando.


0 que fazer em Oriximina?


No dia 13 de agosto de 1979 o navio
Cape Race desatracou de Porto Trom-
betas, em Oriximind, levando 21 mil to-
neladas de bauxita extraida da mina da
serra do Saraci, a 30 quil6metros de dis-
tancia da margem do rio. Navegou por
mais 100 quil6metros no Trombetas, en-
trou no rio Amazonas e mil quil6metros
depois chegou ao Oceano Atlantico, em
jornada para o Canada, que era o princi-
pal client. Foi esse, 27 anos atris, o pri-
meiro embarque feito pela Mineraqio Rio
do Norte, individualmente a maior pro-
dutora do min6rio de aluminio do mundo.
No mes passado o navio Lily saiu do
Trombetas corn exatamente o dobro da
carga (42 mil toneladas), destinada h Alu-
norte, em Barcarena, a maior refinadora
de alumina do mundo e agora a maior
client do min6rio (60% dele se destinam
ao mercado interno, abastecendo a Alu-
norte e a Alumar, em Sao Luis do Mara-
nhao). Foi o 5.000 embarque feito no
porto privativo da MRN. Mas enquanto
as quatro mil primeiras viagens s6 foram
completadas em 2003, depois de 16 anos
de operacio, as mil iltimas foram reali-
zadas em menos de tres anos.
Quando o navio canadense atendeu a
primeira encomenda da Alcan, a capaci-
dade de producio da Rio do Norte era
de 3,3 milh6es de toneladas. No ano pas-
sado, a empresa produziu 17,2 milhoes
de toneladas. Em 27 anos de atividade,
comercializou mais de 200 milhoes de
toneladas. Mais de um terqo desse volu-
me foi vendido nos iltimos cinco anos.
Quando decidiu implantar seu projeto,
asjazidas de bauxita do Trombetas deviam
durar 120 anos. Corn o incremento da ex-
tracio em escala quase seis vezes superi-


or ao tamanho de viabilidade econ6mica,
talvez esses dep6sitos nao durem mais do
que uma d6cada. Eles certamente ji esta-
riam entrando na faixa de exaustdo se em
1992 a MRN nao tivesse adquirido (por 17
milh6es de d6lares) as jazidas vizinhas da
Alcoa, cor 200 milh6es de toneladas.
Essa transaqgo arrematou os dificeis
entendimentos que permitiram o ingres-
so na sociedade da multinational ameri-
cana, a maior do segment de aluminio
no mundo, at6 entao rechaqada (sobre-
tudo pela Alcan, sua concorrente direta,
embora surgida do seu desdobramento),
juntamente cor sua parceira, a Billiton.
As duas multinacionais compraram en-
tao mais de 22% das aq6es da MRN.
Mas se a vida itil dajazida ainda pode
perdurar por um period entire 10 e 20
anos, certamente a parte do dep6sito lo-
calizada em Oriximind devera estar na
sua fase final. A pr6xima area de lavra
ficari apenas no municipio vizinho de
Terra Santa.
Esse fato sera traumitico para Ori-
ximind, mas at6 agora nem as autorida-
des locais e nem a populaqgo parecem
atentar para essa circunstancia tao pr6-
xima. O municipio esta entire os seis de
maior receita tributiria e de royalties no
Pari. Esse crescimento acentuado se
deveu a bauxita, mas a mineraqio tam-
b6m sufocou todas as outras atividades
econ6micas. Oriximini se tornou intei-
ramente dependent da monocultura do
min6rio, que 6 efemera e, no caso da
bauxita, durari bem menos do que inici-
almente se previa, por causa do notivel
incremento da producqo.
Esse crescimento visou tender a ines-
perada e enorme demand por alumina,


Rota do cobre

A mina de cobre do Sossego, em Carajis, a primeira da Amaz6nia, inaugurada
exatamente dois anos atris, fechou o ano passado cor uma produqco quase com-
pleta de concentrado de cobre, de 398 mil toneladas, proporcionando a Vale do Rio
Doce o apreciivel faturamento de 391 milh6es de d6lares.
A partir do segundo semestre de 2007, al6m de vender o seu produto no merca-
do international, Sossego vai fornecer 10 mil toneladas do seu concentrado para
os experiments de uma usina semi-industrial que a CVRD esta construindo, ao
custo de US$ 58 milh6es, para testar uma nova tecnologia para o cobre metilico.
Devido is caracteristicas especificas do min6rio de Carajis, o process para a
obtenqgo do catodo (de valor maior) vai ser hidrometal6rgico e ndo pirometalurgi-
co, que 6 o conventional. Se os resultados da usina durante dois anos de funciona-
mento forem positives, o valor da produqio das quatro minas de cobre de Carajis
aumentari bastante. Poderd bater na conta de dois bilhbes de d6lares.


um dos bens naturals do qual a China nio
6 auto-suficiente, muito pelo contrario. Por
causa da necessidade chinesa de bauxita
e alumina, os bens intermediarios para a
transformaqdo do metal, houve uma cor-
rida mundial. A Alunorte acaba de anteci-
par a entrada em operagio de suas unida-
des 4 e 5, passando a produzir 4,2 milh6es
de toneladas de alumina e assumindo a
lideranca mundial do setor.
Ao seu lado, comeca a tomar forma
a refinaria da ABC, uma associaqio da
Companhia Vale do Rio Doce cor a chi-
nesa Chalco, que poderd chegar acima
de sete milh6es de toneladas anuais, o
limited alcaniavel tamb6m para a Alunor-
te. Se houver essa progressao, o p6lo de
Barcarena sera responsavel por um ter-
9o da alumina produzida no planet.
Mas para Oriximini, o que restarA
quando a inica tarefa remanescente da
mineradao sera tapar os buracos abertos
para a extraqao da bauxita? O que fario
os habitantes nativos e os milhares de
pessoas que correram para a sede muni-
cipal, quase triplicando sua populacio em
tres d6cadas (de 18 mil para 52 mil habi-
tantes)? E para o Pari, quando essa si-
tuaqao chegar a escala estadual?
Carajas, que quando comeqou a pro-
duzir, em 1984, tinha como horizonte
maximo visualizivel a escala de 25 mi-
lhoes de toneladas de min6rio de ferro (e
por isso alcanqaria 400 anos de produ-
cao continue), ja chegou em 85 milhses
de toneladas e alcanaard 100 milh6es de
toneladas antes de terminar esta d6cada
(reduzindo sua perspective a nio mais do
que um s6culo).
A mina de manganes do Azul, a maior
do pais, que em 1985 produzia 200 mil to-
neladas, bateu em 2,2 milh6es de tonela-
das no ano passado ou 11 vezes mais
em 20 anos, praticamente dobrando a cada
dois anos. JA 6 considerada uma das mais
importantes minas de manganes em ope-
racao no mundo. Em Serra do Navio, no
Amapi, que ocupou posijao similar entire
as d6cadas de 50 e 70, a producgo mixi-
ma foi de um milhao de toneladas. Antes
de vencer a concessao federal de meio
s6culo para a exploraqao mineral, nao ha-
via mais manganes lavrivel na regiao. Fi-
caram os buracos e muitos problems.
Esse final se repetira. E o pior 6 que
ninguem sequer esta fazendo as pergun-
tas essenciais para decifrar o problema,
quando a hora ji 6 de encontrar uma
maneira de resolve-los.


Jornal IPessoal I QUINZENA AGOSTO DE 2006








0 Oriente: ao lado


A iniciativa, desta vez, foi in6dita: an-
tes de comeear a sua implantaqio, a
ABC ja produziu um andncio de meia
p4gina na imprensa local. A publicidade
coincidiu nio por acaso, evidentemen-
te cor o inicio, no dia 3, das audienci-
as pdblicas para o licenciamento da fd-
brica, que pretend entrar em operaqo
dentro de tres anos, produzindo 1,8 mi-
lhao de toneladas de alumina, o produto
intermedidrio entire a bauxita e o alumi-
nio metilico. Na fase final, poderi che-
gar a 7,4 milh6es de toneladas, o que a
colocaria A frente da Alunorte, atual li-
der mundial de alumina.
A refinaria result de uma sociedade
entire a Companhia Vale do Rio Doce e a
chinesa Chalco. O neg6cio parecia ter
perdido forqa, mas voltou ao centro dos
interesses dos s6cios com a perspective
de tender a insatisfeita demand da

A
MODERNO- Fo

ATRASADO pela
de u
Co16E
Geralmente a producao das dos pi
empresas que trabalham a em se
c6u aberto na Amaz6nia di- sarela
minui no primeiro trimestre frequi
do ano por causa das fortes corte
chuvas que caem no perfo- ciam
do. Foi o que aconteceu com cia de
a CVRD em Carajas. Mas ma de
a pequena redugao tamb6m nao e:
teve um outro component A
neste ano: a ferrovia pela bel, q
qual escoa a produgo mine- ment
ral da serra at6 o porto de parae
Ponta da Madeira, em Sdo cia t6
Luis do Maranhao, ficou in- quest
terditada por alguns dias pe- motiv
los indios Guajajara, um fe- dequa
n6meno ciclico na faixa da da su
estrada, que ter quase 900 nar a
quil6metros de extensao. ternat
A empresa compensou cqo d
essa alteraqdo no trimestre qco m
seguinte, tanto que fechou o O'
primeiro semestre de 2006 antes
produzindo 11% mais min6- por m
rio (38,5 milh6es de tonela- da. C
das) do que no mesmo peri- cretir
odo de 2005. Chegard ao re- carta
corde de 85 milh6es de to- rer ur
neladas no final do exercicio nha a
e se prepare para outro re- que o
corde em 2007: 100 milh6es Co
de toneladas. Na d6cada pas- rezem
sada essa era a soma dos sis- teqa e
temas norte e sul da CVRD. e amii


China por alumfnio. A ABC ficard situa-
da ao lado de outra refinaria de alumina,
a Alunorte (tamb6m controlada pela
CVRD), ji a maior empresa do setor, com
4,2 milh6es de toneladas (e ampliaqco ji
em andamento para 6,2 milh6es de tone-
ladas em 2008, a custa de um investimen-
to total de 846 milh6es de d6lares).
Seu suprimento de bauxita vird da
mina de Paragominas, que comegard a
operar no pr6ximo ano, na escala de 5,4
milh6es de toneladas de min6rio, em ime-
diata ampliaqo para 10 milh6es de tone-
ladas, com investimento somado, nas duas
etapas, de US$ 548 milh6es. A ABC fi-
card cor quase um terqo da producao
de Paragominas, que ter jazidas mais
volumosas do que as do Trombetas, as
dnicas atualmente em atividade.
A China vai ficar bem aqui ao lado,
onde o Japao ji esta.

passarela
)i a prefeitura quem, oito anos atris, decidiu
necessidade e oportunidade da construcgo
na passarela para pedestres em frente ao
:io Lauro Sodr6 (o antigo liceu de oficios
rimeiros republicanss, agora transformado
de do Tribunal de Justiqa do Estado. A pas-
apresentava problems. Um deles era o
ente assalto aos pedestres, atenuado pelo
de arvores que impediam a visao e favore-
o ass6dio. Outro problema era a inexisten-
acesso para deficientes fisicos. O proble-
*ixou de existir porque tamb6m a passarela
xiste mais.
sentenqa de morte nao foi dada pela Ct-
iue apenas, a sua maneira, deu cumpri-
o a um pedido da direqo do judicidrio
nse, abstraindo para tanto sua competen-
cnica e legal especifica (ji virias vezes
ionada, alias, embora por outra ordem de
a9qes, devido A sua naturezajuridica ina-
tda e funcionamento distinto, o transito,
a razao de ser, o transporte. Ao conde-
permanencia da passarela sem uma al-
iva de pelo menos igual eficicia, a dire-
o TJE condenou tamb6m a administra-
unicipal a "dar um jeito".
"jeito" 6 a faixa de pedestres, que j havia
da passarela e 6 um retrocesso t6cnico,
ais que esta faixa esteja mais bem servi-
omo bem lembrou o ex-delegado e ex-se-
io de seguranqa public, Mario Malato, em
publicada em O Liberal do dia 8, se ocor-
n acidente fatal, que, espera-se, nao ve-
acontecer, a emenda se mostrard pior do
soneto, obra de mi inspiracqo.
nclui Malato sua carta pedindo a todos que
"para que nenhum atropelamento fatal acon-
que as ligrimas e o desespero dos parents
gos da vitima n~o pesem nunca na conscien-
ningu6m, se 6 que isso ainda existe".


OS TAMANHOS
A Companhia Vale do Rio Doce e
as suas empresas controladas (Al-
bras, Alunorte e Pard Pigmentos) e a
coligada (Mineracio Rio do Norte)
investiram mais de um bilhdo de d6-
lares nos primeiros seis meses deste
ano no Parn. E quatro vezes mais do
que o que o governor do Estado deve-
ri investor ao long de todo este ano.
Em aqoes sociais e ambientais, a em-
presa aplicou mais US$ 43 milh6es.
A CVRD ter 28 mil empregados
contingente 26% maior do que o do
ano passado), o que 6 tamb6m quase
quatro vezes o total do funcionalismo
p6blico estadual, s6 que a menos.
As duas entidades, portanto, nao
podem se ignorar, mesmo que divir-
jam, e devam mesmo divergir, quan-
do seus objetivos nio coincidam. O
contencioso, por6m, deve ter um de-
nominador comum: o interesse ptibli-
co. O litigio nao pode continuar a ter
por base idiossincrasias pessoais e
interesses ocultos, que costumam ser
a origem das crises peri6dicas entire
as duas parties.
Mais uma, cor as mesmas cau-
sas de sempre, se avizinha. Vai sobrar
cara feia e fala grossa. Mas faltari
intelig6ncia e discernimento. E resul-
tados concretos.



NOVIDADE NO FRONT
Uma experi8ncia nova no rela-
cionamento entire um projeto de en-
clave, que se fecha ao mundo ex-
terior pr6ximo, e a comunidade ao
redor comeqou neste ano. E a Agen-
cia de Desenvolvimento Economi-
co e Social, sediada em Canaa dos
Carajis, municipio que se tornard
um dos principals p6los da provin-
cia mineral de Carajis, produzindo
cobre, ouro e niquel.
O objetivo da agencia 6 "contri-
buir para o aumento da riqueza e a
melhoria do bem-estar social, por
meio do desenvolvimento sustenta-
do", atrav6s da geraqio de empre-
go e renda, sintonizada cor as de-
mais political municipais, empresa-
riais e da comunidade. A agencia ji
conta corn 68 associados, entire eles,
a Prefeitura Municipal de Canaa dos
Carajis, a Camara de Vereadores e
a pr6pria CVRD.
E precise acompanhi-la desde o
inicio para verificar se esti livre dos
tradicionais males de origem desse
tipo de entidade e se nao se desvia-
ri da funqdo, dissociando a ret6rica
da realidade.

AGOSTO DE 2006 !PQUINZENA Jornal Pessoal










Quando a Companhia Vale do Rio
Doce, ji privatizada, fez o descruzamen-
to de ages (alienando as que possufa
na Companhia Siderdrgica Nacional, por
exemplo) para se afastar de algumas ati-
vidades paralelas nas quais estava en-
volvida, como a produqao de celulose e
a siderurgia, seus dirigentes justificaram
a iniciativa dizendo que a empresa iria
se concentrar na sua traditional especi-
alizaqio, a mineraqio. Fazendo eco a
essa declaragio, em nome da socieda-
de civil, o governor devia ter providenci-
ado a separaiao das atividades de lo-
gfstica, que deram i empresa monopoli-
os e oligop6lios poderosos, das produti-
vas. Mas se calou.
A ret6rica do compromisso, por6m,
estA sendo rompida agora cor a Ferro
Gusa de Carajas. A CVRD ter 78% das
ao6es da mais nova das seis siderirgicas
do distrito industrial de Marabd, enquan-
to a Nucor, uma das grandes siderdrgi-
cas dos Estados Unidos, que compra mi-
n6rio de ferro da Vale, ficou cor 28%.


A propaganda eleitoral por emissoras
de ridio e televisao esti no ar e nenhuma
pesquisa de opiniio foi publicada pela im-
prensa. Talvez o Pard seja o 6nico Estado
da federaqao que ainda nao realizou son-
dagens pr6-eleitorais. Como explicar esse
fato intrigante (em todos os sentidos)?
Uma das explicay6es esta na in6rcia
da populaqgo. Ela podia pressionar os in-
teressados ou envolvidos a quebrar esse
autentico pacto do silencio. Afora a abu-
lia do paraense, qual a razio do desinte-
resse (ao menos para efeito externo) das
empresas jornalisticas e de outras vias
de expressio da sociedade?
A meu ver, o silencio titico result
de um acerto entire as elites political e


A Celpa registrou lucro liquid de 54
milhoes de reais no primeiro semestre do
ano, resultado quase 15% maior do que
o alcangado em igual period do ano pas-
sado, quando a empresa lucrou R$ 467
milh6es. De uma receita bruta de R$ 695
milh6es, a concessionfria de energia do
Pard pulou para R$ 791 milh6es nos pri-
meiros seis meses deste ano. No mesmo
period, a receita liquida evoluiu 12%,
para R$ 513 milh6es.
Esse desempenho da Celpa contribuiu
decisivamente para o seu controlador, o
grupo Rede, transformar um prejuizo de
R$ 23 milhbes no primeiro semestre de


E uma relagio contriria ao que diziam
os diretores da ex-estatal, de que a compa-
nhia s6 entraria se entrasse minoritari-
amente na irea sidenirgica, para estimular
seus clients de mindrio de ferro. O excep-
cional preqo da gusa deve ter servido de
estimulo para arendosa contradig~o. A Ferro
Gusa de Carajis completou seu primeiro
semestre de atividades produzindo 69 mil
toneladas. Um sinal de alerta para os con-
correntes, reais ou potenciais, que tamb6m
dependem do min6rio de Carajis.
A grande novidade ambiental desse
empreendimento 6 a de que seus dois al-
tos-fornos sio alimentados por carvio
proveniente de florestas pr6prias e nio
de desmatamento de mata native. A Vale
diz que disp6e de 34 mil hectares ja plan-
tados de eucalipto em uma frea total de
81 mil hectares, que Ihe garantirio a auto-
suficiencia em carvio vegetal. Se for
assim, chegando por Oltimo, saird na fren-
te das outras 12 usinas ji em funciona-
mento na area da ferrovia de Carajis.
Uma boa noticia a checar.


econ6micas, quase uma conspiraqao.
Como todas elas usam e abusam da ma-
nipulaqio da opiniio pdblica, usando
mdtodos de marketing e propaganda
(cor o cimento da verba explicit ou
"nio-contabilizada"), preferem esperar
o moment de p6r para funcionar a seu
favor essas engrenagens para s6 entao
medir o resultado.
Por isso fazem tantas pesquisas qua-
litativas (como ficou evidence na pri-
meira prestaqio de contas parcial dos
partidos) para consume interno, mas
sem dividir esse conhecimento cor o
distinto p6blico. Se puderem, o induzi-
rao para votar. No cabresto, como se
dizia antigamente.


2005 em um lucro liquido de R$ 41 mi-
lhoes no primeiro semestre de 2006. A
receita bruta do conglomerado cresceu
pouco mais de 13%, chegando a R$ 2,2
bilh6es, enquanto a receita liquida foi a
R$ 1,5 bilhao.
E o Pari, generoso, contribuindo para
o enriquecimento alheio. Desde o inicio do
mrs paga uma tarifa 7,2% mais cara (o
valor 6 mais do que o dobro da infladio do
periodo. E, al6m disso, a sua empresa de
energia 6 a camped em acidentes de tra-
balho de todo o setor no pais, cor 210
deles apontados no ano passado, record
desde a privatizaqlo da Celpa.


Gusa em alta


Jornail Pesso:il QUINZENA AGOSTO DE 2006 I


CAULIM

O mercado mundial de caulim, ao con-
tririo do que acontece cor outros mind-
rios, deve estar mesmo muito ruim. Des-
de que comeqou a operar, a Pard Pig-
mentos, empresa controlada pela CVRD,
atrav6s do grupo Caemi, corn sede em
Barcarena,ji acumulou prejuizo de qua-
se 237 milh6es de reais. No exercicio do
ano passado o vermelho foi menos forte,
alcanqando R$ 9,5 milhoes. Mas mante-
ve a sdrie desfavorivel.
Ja a Cadam (Caulim da Amaz6nia),
que funciona em Monte Dourado, na drea
do Projeto Jari, tamb6m absorvida pela
Vale do Rio Doce corn a compra da Ca-
emi, teve prejuizo ainda maior em 2005,
de 30 milh6es de reais. Mas como dis-
punha atd entdo de um lucro de R$ 69
milh6es, p6de absorver o deficit, embora
tendo que reduzir o lucro acumulado para
R$ R$ 39 milhoes.


*ILUMINADOS
O candidate Almir Gabriel esti pre-
parando corn sua assessoria um piano
para executar se for eleito novamente
governador do Estado. A enfase seri
dada a firea social (nenhuma novidade,
entretanto, em relagio ao discurso de
campanha de Simao Jatene) e o con-
trole sera exercido por um conselho, in-
tegrado por representantes da capital e
do interior (algo semelhante foi anunci-
ado por Jader Barbalho em seu primei-
ro governor, de 1983 a 1987; o Conselho
de Desenvolvimento do Estado se reu-
niu uma uinica vez). Mas tudo estL sen-
do gestado em dtero fechado. Exata-
mente como faziam os governor milita-
res com seus "projetos de impacto, s6
revelados quando ji eram fatos consu-
mados. A sociedade podia aceitar ou
rejeitar, mas nio opinava.
E o modo de governor dos iluminados.


PARTIDARISMO
0 Didrio do Pard publicou corn des-
taque a impugnagio do PMDB a partici-
paaio do PFL edo PP na coligaioo "Uniio
pelo Pard", mas simplesmente ignorou o
parecer do Minist6rio Piblico Eleitoral, re-
jeitando o pedido. Mais uma vez ojornal
da famulia Barbalho sacrifice ojomalismo
pela polftica. Para o bem de todos, inclusi-
ve da empresa, convinha separar os dois
pianos. Pode, sem deixar de ser o journal
de Jader Barbalho, nao chegar a ser o
seu partido ou meta-partido.
Convenhamos, pordm: do outro lado
do balcio, O Liberal nio ajuda nada a
causa. Muito pelo contrario.


Silencio electoral


Energia para fora








Com ser amaznida:

Como ser amazonida:


Adilson Freitas Dias reagiu ao meu
artigo "Eu sou amaz6nida. E
voce?", publicado na edicao
anterior deste journal, com a
seguinte mensagem:


hi muito me faqo sem obter
uma resposta que me conven-
qa. Perdoe-me pela ignoran-
cia da minha pergunta, mas qual seria
uma via de desenvolvimento para a Ama-
zOnia, considerando a 16gica capitalist
hoje posta, sem por em risco nossa rica
biodiversidade? Como seria a culturala
da floresta"? Ela daria conta de tender
aos anseios dos amazonidas?
Sou economist e freqilentemente me
faqo essa provocaqao, sinto-me meio que
obrigado a saber a resposta, sobretudo
depois que conheci Santar6m, onde pas-
sei vinte dias pesquisando o Arranjo Pro-
dutivo Local de graos. Visitei virios seg-
mentos do setor (produtores, sindicatos
e ONGs e etc.), e por fim participei de
um semindrio na FIT (Faculdades Inte-
gradas do Tapaj6s) em que o tema prin-
cipal era a soja. A16m da visivel divisao
entire os que sao favorfveis e contririos
a cultural da soja, o que vi foi a crenca de
um povo que de fato acredita que a soja
6 o "ouro verde" capaz de promover o
tao esperado desenvolvimento.
Isso ficou evidence durante o referido
semindrio, em que nio faltaram discursos,
at6 cor um certo rancor contra os "urba-
n6ides" (como denominava o Prof. Alui-
sio Leal aos moradores da capital), credi-
tando aos sucessivos governor estaduais
o descaso cor a regiao do Baixo Amazo-
nas. Neste dia s6 ficou faltando mesmo a
execuqio do hino do Estado do Tapaj6s.
Por outro lado, nas conversas cor pesso-
as ligadas aos stores contrarios A soja,
percebi que as argumentaq6es nao con-
seguem avanqar al6m das quest6es liga-
das ao meio ambiente.
Devo salientar que nio tenho opiniao
formada sobre o assunto, nao por covar-
dia, mas por ser incompetent mesmo para
arriscar um palpite. Angustia-me nao per-
ceber entire os contrarios a apresentacao
de uma altemativa viivel e detalhada de
desenvolvimento que poderia substituir esse
novo ciclo econ6mico da regiao. Falo de
uma proposta que possa levar a cada ca-
boclo da regiao as benesses do sistema, que
gostemos ou nao, 6 o que vige. Nao me
refiro a id6ias que visam manter, o ribeiri-
nho, o pequeno agricultor, o caboclo, ou
quem quer que seja, em cultures de subsis-
tencia, que subsistem inclusive a mis6ria.


Nao sei se estou falando bobagens, mas
na avaliaq~o que faqo, apontar os erros
dos caminhos por n6s escolhidos e/ou im-
postos a Amaz6nia, 6 relativamente ficil,
pois os resultados ji estao af. O desafio 6
antev&-los e proper altemativas, e, a meu
ver, sao poucos os que tem essa capaci-
dade. Como ji lhe escrevi certa vez, sou
um leitor e admirador de seus trabalhos e
percebo em voc6 essa capacidade e por
isso, gostaria de compartilhar essa provo-
caCao. Sendo bem pontual: como seria a
culturala da floresta" para a regiao de San-
tar6m? Como dizer hquele povo, que voce
conhece tio bem, nao s6 por ser santare-
no, mas por ser um dos maiores conhece-
dores da Amaz6nia, que esse novo ciclo
de crescimento econ6mico que vive a re-
giao nao se traduziri em desenvolvimento
no long prazo, sem lhes apresentar nada
em troca?

Tambim por e-mail, enviei a seguinte
resposta a Adilson:
A culturala da floresta" 6 um projeto.
N~o se tornou realidade em nenhum lugar
do mundo em nenhum moment. Somos
homo agricolas. Mas a Finlandia vive de
sua floresta. E um uso monovalente, mas
intense. Logo, a culturala da floresta" 6 uma
utopia. Mas o conhecimento atual ji nos
permit ter certeza de que destruf-la 6 uma
estupidez. Onde existe a floresta tropical
densa, o melhor investimento 6 mant&-la.
0 que nao significa imobilizi-la.
Ja escrevi defendendo um "modo ci-
entifico" de ocupaq~o. A partir de um es-
boco de zoneamento econ6mico-ecol6-
gico, em escala operacional e com infor-
maq6es confiiveis, o poder p6blico exe-
cutaria sobre esse desenho projetos de
conhecimento. Turmas de graduaqao e
p6s-graduaqao em engenharia florestal,
por exemplo, iriam ser mandadas para
campi no mato, nas areas de floresta
national, para estudar e fazer. Acabari-
am corn a melanc6lica dicotomia de que
"quem sabe, faz; quem nao sabe, ensi-
na". Receberiam recursos (verba, base
de apoio, equipamentos, supervisors, ori-
entadores) para comandar projetos de
manejo florestal, de uso inteligente de in-
formaq6es gen6ticas, etc., aplicando todo
conhecimento disponivel nessas emprei-
tadas. Mas conectados aos centros de
vanguard em cada uma dessas especi-
alidades no mundo, que tamb6m poderi-
am participar dos projetos em regime de
convenio ou acordo de cooperacao.
Os moradores locais seriam integrados
a esses projetos, seja os dos graduandos e
p6s-graduandos, seja nos projetos que es-
ses pr6prios moradores formularem. Ou-
tros seriam consultores remunerados. Ou-


tros ainda mao-de-obra qualificada em fun-
cio de seu saber especifico.
Utopia? Sim, mas exeqiiivel, desde que
haja disposigio para isso. Primeiro lugar em
dinheiro, para valer. Em gente. Em equipa-
mentos. E numa nova visao da Amaz6nia.
A tarefa seria produzir informaqao operati-
va, de intervenqao, de participacio. Cada
m6dulo do zoneamento receberia informa-
qio para se orientar e devolveria nova in-
formacio para reformular o conhecimento
existente. Esse process atrairia investimen-
tos extemos a esses projetos, mas ajusta-
dos a eles. O zoneamento nao seria uma
brincadeira digital ou uma enganacio, mas
uma ferramenta de aqio.
Infelizmente nao vou poder aprofun-
dar agora, embora ji tenha tratado bas-
tante do tema no JP. Infelizmente, tenho
que participar da preparacio de uma peca
para me defender amanha em um dos
muitos incidents nos 15 processes judi-
ciais a que respond. Mis6rias de dizer a
verdade na Amaz6nia. Ou pelo menos
busca-la. Mas, beirando os 60 anos, hai
quatro d6cadas andando pela Amaz6nia
e tentando entende-la, digo-lhe que essa
onda de soja dentro da floresta 6 insen-
satez. Os santarenos, se refletirem, ve-
rao que ji surfaram nessa onda e deram
numa praia dura, quando acreditaram no
ouro, najuta, no gado, no arroz, etc. Nosso
future melhor depend de mantermos a
arvore em p6, gregAria, produtiva, em si-
nergia, estudando-a corn o miximo de
recursos e prioridades, e colocando esse
saber para funcionar. Obrigado por seu
interesse. Voltaremos a conversar.

Por feliz coincidencia, na mesma
ipoca saiu, na revista Ciencia e Cultu-
ra, da Sociedade Brasileira para o Pro-
gresso da Ciencia (SBPC), um artigo (A
Floresta Amaz6nica e o future do Bra-
sil), no qual Charles Clement, e Niro
Higuchi, pesquisadores do Inpa (Insti-
tuto Nacional de Pesquisas da Amaz6-
nia), de Manaus, tratam exatamente da
questdo provocada pelo leitor. A parte
final desse artigo, que aqui reproduzo,
com algumas simplificafoes para o lei-
tor de journal, e uma proposta concrete
de aproveitamento racional da floresta
amazonica em beneficio de todos. Me-
rece ser incorporada is reflexes dos
verdadeiros amaz6nidas.
A visao que apresentamos neste arti-
go 6 de uma Amaz6nia desenvolvida corn
base na floresta, corn ind6strias madei-
reiras usando tecnologia de ponta para
produzir produtos acabados para o mer-
cado international e national e usando
madeira oriunda de florestas manejadas,
enriquecidas e certificadas. Quanta flo-


6 AGOSTO DE 2006 IQUINZENA Journal Pessoal











a cultural da floresta


resta seri necessiria? As estimativas de
irea e volume apresentadas na FRA 2005
incluem florestas primirias densas, ma-
nejadas, capoeiras e cerrados. Propomos
uma irea de floresta amaz6nica igual a
250 milh6es de hectares, cor uma md-
dia de 250 m'/ha (10% commercial como
razoivel e conservador.
Com este pressuposto, o estoque atual
de madeira commercial na Amaz6nia 6 de
6,25 bilh6es de m3, que daria para tender
os mercados de madeira tropical (interna-
cional = 52 milh6es m3/ano e national = 20
milh6es m3) durante 87 anos, movimentan-
do US$ 22 bilh6es por ano. Isso 6 tempo
suficiente para desenvolver um modelo
econ6mico baseado na floresta se usar-
mos o tempo apropriadamente e o de-
senvolvimento pagard sua pr6pria conta
ap6s uma d6cada.
Para comerar, num espaco de 10 anos,
teremos que inverter a reladio aproveita-
mento e desperdicio, passando de 30%
versus 70% para 70% versus 30% e, prin-
cipalmente, colocar no mercado nio ape-
nas 10 m3/ha e sim 50 m3/ha de madeira
em tora. Isso pode ser conseguido usando
os estudos de tecnologia de madeiraji re-
alizados pelos laborat6rios da antiga Su-
perintend&ncia de Desenvolvimento da
Amaz6nia, em Santar6m, do Instituto Na-
cional de Pesquisas da Amaz6nia, em
Manaus, da Fundatao Tecnol6gica do
Acre, em Rio Branco, do Ibama, em Bra-
sflia, e do Instituto de Pesquisas Tecnol6-
gicas, em Sio Paulo.
Depois de resgatar essas informacoes
sobre esp6cies menos conhecidas no mer-
cado, mas abundantes na floresta ama-
z6nica, o pass seguinte 6 introduzi-las
no mercado, o que seria mais ficil no
future porque o Brasil seria o principal
fornecedor.
Essa visio oferece a possibilidade de
gerar riqueza suficiente para pagar sala-
rios justos e gerar dividends nas bolsas
de valores, bem como garantir o ciclo hi-
drol6gico e, conseqientemente, a chuva
no Sudeste do Brasil. No entanto, essa
visio somente pode ser alcancada se to-
dos os minist6rios do governor federal,
todos os estados da Amaz6nia e todos os
estados do Sudeste trabalharem juntos
porque a floresta ji esti bastante frag-
mentada. A seguir, listamos algumas das
mudanqas nas political p6blicas que acre-
ditamos necessirias em nfvel federal, as
quais, logicamente, necessitam ter refle-
xo no ambito estadual.
Morat6ria ao desmatamento O
MMA [Ministdrio do Meio Ambiente]
expandiri a morat6ria com o apoio da
Presidencia da Rep6blica, do Minist6rio
de Justiqa (Policia Federal), do Minist6-


rio da Fazenda (Receita Federal, Policia
Rodovidria Federal), e do Minist6rio de
Defesa (Servico de Proteaio da Ama-
z8nia Sipam). Somente a madeira cer-
tificada estard isenta da morat6ria, o que
funcionard como estimulo para que as
empresas do setor busquem a certifica-
qio. Esta aqio 6 essencial para permitir
que outras ages tenham o tempo neces-
sirio para serem viabilizadas.
Zoneamento econ6mico-ecol6gi-
co da Amaz6nia Legal Os Minist6rios
de Integraaio Regional, Agricultura, Pe-
cuaria e Abastecimento e MMA combi-
narao para convencer os Estados a ex-
pandir a Area destinada a floresta em to-
das as dreas originalmente florestadas. De
preferencia, todas essas areas deverio ser
garantidas, pois o alvo 6 250 milh6es de
hectares. Adicionalmente, ecossistemas
especialmente critics para a conserva-
gio da biodiversidade amaz6nica serio
identificados para serem transformados em
unidades de conservacio.
O objetivo 6 criar um mosaico corn
pelo menos 35% em unidades de con-
servacio (existem 32% em dreas prote-
gidas hoje, algumas das quais sio flores-
tas nacionais), 50% em florestas mane-
jadas privadas, e o resto em agriculture e
pecuaria intensive. Esse mosaico deveri
manter 80-85% da floresta, superando o
minimo de 70% necessario para manter
o ciclo hidrol6gico.
RegularizagSo fundiaria 0 Minis-
t6rio da Justiqa assumiri a supervisor mi-
nuciosa dos cart6rios da Amaz6nia Le-
gal para evitar grilagem de terras pibli-
cas e protecio aos direitos de proprieda-
de na regido, tanto para particulares, como
para as florestas de produFio, as unida-
des de conservacao, as terras indigenas
e as outras terras piblicas. Titulaqio re-
gular seri essencial para garantir empr6s-
timos bancarios e de agencies de fomen-
to, e certificaqio. Todos os minist6rios
precisam apoiar as garantias de proprie-
dade ap6s a regularizaqio, pois florestas
precisam ser consideradas terras produ-
tivas e nio podem ser invadidas como
aconteceu no Rio Grande de Sul em fe-
vereiro de 2006.
Investimentos na induistria flores-
tal Os Minist6rios de Desenvolvimento,
Ind6stria e Com6rcio Exterior (Suframa),
da Integracio Regional (Sudam), da Fa-
zenda (BNDES, BASA) direcionario seus
investimentos na Amaz6nia para a ativida-
de florestal, eliminando investimentos no
agroneg6cio (que poderd captar financia-
mento na rede banciria privada); deverio
manter os investimentos na pesca e aqiii-
cultura (fonte de proteina para a maioria
da populaiao amaz6nida).


Os investimentos se concentrario na
atualizagio tecnol6gica de empresas exis-
tentes, na viabilizacio de novos empreen-
dimentos com tecnologias avanCadas (es-
pecialmente a abertura de filiais de em-
presas do setor florestal cor tecnologias
modernas e flibricas atualmente localiza-
das fora da Amaz6nia), na criagao de ar-
ranjos produtivos locais (como o p6lo mo-
veleiro que a Suframa esti criando no
Amazonas), e no adensamento da cadeia
produtiva florestal em geral.
Tecnologias de ponta A incorpora-
gio de tecnologias de ponta na inddstria flo-
restal 6 essencial para o sucesso dessa vi-
sao, pois os europeus, japoneses e norte-
americanos pagardo bem para produtos bem
feitos corn madeira nobre, e at6 os chineses
pagario bem para produtos bem feitos cor
madeira nobre ou comum. Um exemplo a
ser seguido 6 da empresa Ikea, a maior va-
rejista do setor florestal nos pauses desen-
volvidos. A Ikea comercializa m6veis e ou-
tros produtos feitos de madeira certificada,
cor cada m6vel numa caixa pequena pre-
parado para ser montado em casa.
Produzir m6veis montiveis como esses
requer alta tecnologia e qualificaaio da
mio-de-obra e logicamente a mio-de-
obra precisa ser bem paga. Tecnologias de
ponta tamb6m reduzirio o desperdicio de
madeira, aumentando a eficiencia das fi-
bricas, reduzindo a geragio de dejetos, e
melhorando a razio custo/beneficio da ope-
raqio. Tecnologias de ponta incluem equi-
pamentos, t6cnicas e desenho industrial e
commercial. A Fundaiao Centro de Anali-
ses, Pesquisa e Inovadio Tecnol6gica (Fu-
capi, Suframa) em Manaus oferece orien-
tagio e capacitadio na identification e de-
senvolvimento dessas tecnologias.
Investimentos em producio flo-
restal Seguir rigorosamente o que consta
na legislaqio florestal 6 o primeiro pass
em diretao a sustentabilidade do manejo
florestal. Os sistemas clhssicos de silvi-
cultura tropical (malaio uniform desen-
volvido em Malisia na dpoca colonial -,
bosque abrigado e seletivo), utilizados em
manejo de florestas tropicais do mundo
todo, nao produziram os resultados espe-
rados. Na Amaz6nia, o sistema mais usa-
do 6 o seletivo.
Propomos um modelo misto, utilizando
o sistema seletivo com faixas de enrique-
cimento com esp6cies valiosas e conheci-
das do ponto de vista silvicultural, como
cedrorana e castanha do Brasil. Dessa
forma, seri possivel aumentar o volume
commercial por unidade de drea no primei-
ro ciclo de corte. Do ponto de vista flo-
restal e econ6mico, os ciclos subseqtien-
tes serdo mais seguros por conta da dis-
CONTINUA NA PAG 8


Journal Pessoal i` QUINZENA AGOSTO DE 2006 7







CONTINUAAO DA PAG 2
ponibilidade de mais especies comerciais
introduzidas no primeiro ciclo.
Certificaglo Existem diversos tipos
de certificagFo que poderiam ser 6teis nes-
sa perspective, especialmente a certifica-
rio de produgio sustentivel e a de quali-
dade (ISO). Para que essa visio gere be-
neficios na Amaz6nia, components soci-
ais e laborais precisam ser incluidos como
parties fundamentals dos processes de cer-
tificacio, para que o Brasil e a Amazonia
possam desenvolver-se no sentido mais
complete da palavra. Uma outra vantage
da certificacio 6 que ela exige fiscalizagio
continue e independent, o que, teoricamen-
te, reduz as oportunidades para o tipo de
corrupgio que tern encharcado os projetos
de manejo florestal na Amaz6nia.
Pesquisa e desenvolvimento Mui-
tas das tecnologias e praticas necessirias
para implementar essa visio ji existem,
mas outras precisario ser geradas nas ins-
tituic6es de ensino e pesquisa na Amaz6-
nia e no Brasil. Os minist6rios de Ciencia
e Tecnologia, da Agricultura e da Educa-
9io possuem mecanismos para incentivar
P&D na Amazonia. As Embrapas da
Amaz6nia, o Inpa e as universidades fe-
derais e estaduais incrementarao suas
pesquisas florestais para recuperar areas
degradadas por meio de projetos de silvi-
cultura, bem como incrementarao suas
pesquisas em enriquecimento de florestas
em p6. Novas tecnologias de processa-
mento e novos desenhos de produtos e
processes serao de fundamental importan-
cia para garantir qualidade e atrair com-
pradores nos paises desenvolvidos.
Educaglo A educagio sobre a Ama-
z6nia 6 deficiente no pais e na pr6pria re-


giio, particularmente em assuntos que en-
sinam a hist6ria, as tradiq6es, os estilos de
vida, os alimentos dos amaz6nidas, quase
ao ponto de fazer crer que esses brasilei-
ros nio existem. A educaqio ambiental 6
igualmente pobre. Se a Amaz6nia espera
se desenvolver corn base na floresta, como
na visio que aqui se apresenta, o MEC e
as secretaries estaduais de Educaaio pre-
cisam revisar as grades curriculares de pri-
meiro grau i universidade para refletir a
nova base da economic regional atual-
mente a agriculture conventional 6 consi-
derada a base da economic brasileira e
permeia as grades curriculares.
A visio apresentada 6 factivel e contri-
buiri para o desenvolvimento da Amaz6nia
cor a floresta em p6, embora gradualmen-
te a floresta deva ser transformada em ter-
mos de sua densidade econ6mica, mas man-
tendo a maior parte de sua biodiversidade.
E a inica proposta que tern as escalas geo-
grifica e econ6mica necessarias para en-
frentar o agroneg6cio, hoje em franca ex-
pansio. Deixard espaqo abundante para as
outras id6ias sobre o uso da biodiversidade e
das florestas, como a bioprospeccio, os pro-
jetos de manejo comunitirio e a estocagem
de carbon para tender os compromissos
brasileiros frente ao Protocolo de Kyoto.
A visio contribuiri para garantir o ciclo
hidrol6gico que abastece a regiio agricola
do Sudeste do Brasil, bem como os princi-
pais centros urbanos do pais. A principal
questao 6 a vontade political em fazer as
mudanqas necessarias de forma complete
e ripida. Sabemos que essa vontade nio
vird de um s6 minist6rio tera de vir da
pr6xima geracio de Getilios e Juscelinos,
apoiada em todos as ag6ncias dos gover-
nos federal e estaduais.


Advogados
As operacoes policiais de combat ao crime organizado, que age desembaragada-
mente mesmo dentro das penitenciirias, chegou ao elo menos visivel e mais dificil de
desatar da engrenagem: o advogado. Valendo-se de suas imunidades e privil6gios fun-
cionais, maus advogados tornaram-se integrantes ativos dessas quadrilhas, muito mais
do que representantes legais de clients corn direito a mais ampla defesa possivel.
Diante da avolumacio desses casos de desvio professional, o problema deixou de
ser uma prerrogativa da corporacio: passou a interessar a sociedade como um todo.
Sem violar a relevant fungio dos advogados, de cuja presenqa ativa em juizo e
fora dele depend a realizaqio dajustiga, 6 precise eliminar a bolha multissecular
de favorecimentos no Brasil, um pafs ainda prejudicado pelo espirito bacharelesco do
passado, que uma elite insensivel h realidade atual busca manter.
O uso de crachis de visitantes 6 um desrespeito aos advogados quando eles
ingressam na sede de 6rgios piblicos? Submet&-los a revista na entrada de peniten-
cidrias tamb6m 6 exigencia que os desmoraliza?
Ao inv6s de defender sem qualquer reserve a manutenqio de procedimentos dos
quais se serve pessoas inescrupulosas para praticar delitos, os advogados deviam se
conscientizar de que sio profissionais como todos os demais, corn sua profissio reconhe-
cida e regulamentada. Podem e devem se ajustar as normas de oficio, desde que nio
interfiram na sua liberdade de agir em defesa dos seus constituintes. Quem se posiciona
em sentido contririo, mesmo sem essa intenqcio, contribui para agravar a image da
categoria, ao inves preservi-la do desgaste que atualmente ela estA sofrendo.
Pelo mesmo principio, os economists podem reivindicar seu lugar no Minist6rio
da Fazenda e os m6dicos no Minist6rio da Sadde. E assim por diante. O diante
significando, na verdade, para trns.


o TRAF CO E AS

EXECU OES

A policia nega que uma sucessao
de execug6es praticadas na perife-
ria de Bel6m result de uma compe-
tigio entire traficantes de droga. Fal-
taria o elo que explicaria esses cri-
mes: estarem ligados ao com6rcio da
droga, especialmente maconha e co-
caina. De fato, os diversos homicidi-
os registrados nas iltimas semanas
n~o chegam a caracterizar uma re-
lagio de neg6cio. Todos, por6m, en-
volveram o uso de drogas.
A conclusio 6bvia 6 que o con-
sumo em Bel6m e arredores esta em
expansao. Se cresce a demand, a
oferta tern que acompanhi-la. E o
que esti havendo: fornecedores in-
dividuais de "baseados" e "petecas",
mas tamb6m redes de comercializa-
Cio. 0 problema parece ter cresci-
do muito mais do que a capacidade
das autoridades para debeli-lo. Ou
a disposiqdo para tanto.
Outro sintoma da gravidade da si-
tuaq~o: qualquer desavenqa 6 resol-
vida pela forma mais trigica e dire-
ta, a execugio das pessoas que dto
causa aos problems (ou sio tidas
como responsiveis por eles). A vida
vale pouco ou simplesmente nada
vale nesse circuit marginal. O que
ja seria o suficiente para uma aten-
aio e um esforqo redobrados da po-
licia. Antes que se configurem aque-
las condiq6es formais s6 a partir das
quais os chamados canais compe-
tentes se movimentam. Em geral,
tardiamente.


ECONOMISTA-MOR
Armando Mendes decidiu ser
simpless, sucinto e s6brio", como Sio
Paulo, ao agradecer o recebimento do
titulo de "personalidade econ6mica do
ano", no final do mis passado, em Vi-
t6ria, no Espirito Santo: em meia d6-
zia de linhas de seu brevissimo dis-
curso, disse que combateu o bom
combat, completou o percurso e
guardou a f6. Fez porjustificar o pre-
mio corn o qual foi distinguido pelo
Conselho Federal de Economia, por
contribuir "para o desenvolvimento da
ciencia econ6mica e da profissio de
economist" no Brasil. Em 2004 a
honra foi para Reinaldo Gonqalves e
no ano passado ficou cor Jouo Paulo
de Almeida Magalhies, o que da uma
media da relevfncia do intellectual
paraense. Depois de d6cadas de bom
combat, continue a combater.

AGOSTO DE 2006 IQUINZENA journal Pessoal









Noticias do Libano


De Beirute a Jerusalem, do joralista
Thomas L.Freedman, de 1989, 6 um dos
livros mais impressionantesja escritos so-
bre uma guerra. Relata a loucura em Bei-
rute, submetida a guerra civil e aos ata-
ques de Israel desde 1975, na temporada
que Freedman assistiu e da qual partici-
pou, a partir de 1979. Ao fim de cinco anos
acompanhando de perto os acontecimen-
tos, sua conclusao 6 de que "nao hd, de
fato, cura para os males do Libano, so-
mente curativos paliativos sobre um cor-
po politico minado por um cancer".
O diagn6stico sobre a origem desse
cancer sempre provoca discusses apai-
xonadas, mas o relato do correspondent
do New York Times (ji de volta aos Esta-
dos Unidos) nao deixa divida sobre o avan-
Co da doenqa. Haveri quem nao aceite o
tom distanciado e levemente ir6nico do
texto, que pode ter desviado o autor do
cerne de algumas quest6es. Mas nao era
essa a sua intenqio. Ele quis mostrar o
irracionalismo, atrav6s da reconstituiqao
de uma cidade na qual muitas mortes nao
tem como ser explicadas (porque nao tnm


mesmo uma causa), pontes tern places
advertindo tanques a ali nao estacionar,
cidadaos sofisticados praticam seu golf
ao lado de locais bombardeados, como se
tudo isso constituisse uma "caixa de Skin-
ner" ao vivo, o home de volta a um pri-
mitivo estado de natureza hobbesiano,
Como o ser human sobrevive nesse
caos, que o ameaqa permanentemente de
morte, sem que possa supor quando, de
onde e em que circunstancias ela se lhe
apresentard. Freedman conta uma hist6-
ria que exemplifica a perfeicgo esse pro-
cesso seletivo que assegura a sobreviven-
cia humana em circunstancias assim tao
desfavornveis.
Uma mae e sua filha estavam em um
apartamento localizado na parte occidental
de Beirute, sob bombardeio da artilharia
israelense. Encolhidas no meio do aparta-
mento para evitar os tiros e os estilhados
que eles provocavam, viram um pequeno
rato cinzento sair de uma tabua solta do
piso. Esqueceram tudo, os tiros, os v6os
rasantes dos avioes militares, as luzes si-
nalizadoras da mira das armas e sairam a


caca do roedor. "Posso suportar um bom-
bardeio, mas nao agiUento um rato dentro
de casa", explicou Ihsan Hijazi.
Mesmo no conforto da distancia des-
ses acontecimentos atrozes, freqijentemen-
te acionamos mecanismos de despite
como esse para suportarmos a carga que
desaba sobre a nossa consciencia. Mas na
segunda-feira retrasada, cumprindo meu
ritual de leitura inicial dos jorais, no ba-
nheiro, ao deparar corn a foto do bebd mor-
to pelos canhres de Israel, dentro de sua
casa, dormindo, o mecanismo de proteqao
entrou em colapso. Amassei o jomal e o
joguei o mais long que pude. Esmurrei a
desgastada porta do banheiro, de folha de
compensado, e chorei atd me acalmar e
retomar os procedimentos de inicio de uma
semana de trabalho "normal", na guerra nao-
declarada de Belmr do Pard.
Nao ha razao que explique a morte
brutal daquela crianca da fotografia. Is-
rael perdera essa guerra, mesmo que a
ganhe, se provocou pelo mundo inteiro
reaqces como a de um pacato morador
da distant Beldm do Para.


ONTEM


Posicoes invertidas


Noticia publicada em 0 Liberal
de 12 de agosto de 1990:
Odeputado federal Luis [Luiz] Ina-
cio Lula da Silva, do Partido dos
Trabalhadores (PT), chegou as
18h30 de ontem ao aeroporto de Bel6m,
acompanhado por um grupo de assesso-
res. Eles vieram de Macapi, no aviio
fretado PT-LMS, e foram recebidos corn
festas pelos militants do PT, que ocupa-
vam todas as dreas do aeroporto, por-
tando bandeiras das seis legends que
comp6em a Frente Novo Pard (PT,
PSDB, PDT, PSB, PC do B e PCB). Lula
foi recebido no hangar do aeroporto pe-
los candidates a cargos majoritarios pela
Frente Novo Para Almir Gabriel
(PSDB), candidate ao governor do Esta-
do; Raul Meireles, PT, a vice-governa-
dor; e Ademir Andrade (PSB), ao Sena-
do Federal. Em seguida, o deputado fe-
deral concede entrevista a imprensa por
cerca de meia hora.
As ruas pr6ximas ao aeroporto esta-
vam repletas de veiculos, enfeitados corn
cartazes e bandeiras. Os veiculos fize-
ram parte da carreata que percorreu as
ruas de Bel6m. A carreata fez uma pa-
rada na avenida Governador Jos6 Mal-
cher, na esquina da avenida generalissi-


mo Deodoro, onde Lula inaugurou o co-
mite eleitoral da Frente Novo Pard. De-
pois, a carreata s6 parou na praca do
Operirio, em Sao Braz, para o comicio
de Lula, cor a participaqio dos candi-
datos na Frente As pr6ximas eleicqes.
Alianaa political
Durante a entrevista coletiva, Lula
disse que sua visit a Belrn visa, exclu-
sivamente, apoiar "de modo irrestrito" a
Frente Novo Para. O deputado federal
anunciou ainda que em breve outros po-
liticos de esquerda virao a Bel6m, como
Leonel Brizola (PDT), Mario Covas
(PSDB) e Roberto Freire (PCB). De
acordo cor Lula, a vinda desses politi-
cos vai contribuir para o crescimento das
candidaturas de Almir Gabriel e Ademir
Andrade.
No Para, foi feita uma alianqa entire
seis partidos para former a Frente Novo
Pard e isso, segundo Lula, vem aconte-
cendo em quase todos os Estados. Em
sua opiniao, a alianga political proporcio-
nard A esquerda a conquista do governor
do Estado. O deputado federal disse ain-
da que as alianqas estao sendo feitas
conforme as peculiaridades political de
cada regiao e ressaltou que essa pratica
consolida o que ocorreu no segundo tur-
no das eleiqces presidenciais [do ano


anterior], quando a esquerda se uniu.
Lula falou ainda sobre a campanha elei-
toral em Bel6m e afirmou que "se as acu-
sac6es que estao sendo feitas a Jader
Barbalho sao verdadeiras, se configuram
em um atentado aos bons costumes".
Almir Gabriel estd em terceiro lugar
nas pesquisas, mas isso nao preocupa o
deputado federal. Segundo Lula, uma
pesquisa divulgada agora nao represent
o resultado final: "Nao estou preocupado
com a pesquisa agora". Ele acrescentou
ainda ser essa "a melhor militancia cons-
tituida no Pard". De acordo cor Lula,
"mais sincere do que a pesquisa eleitoral
6 o trabalho da militancia political .
(Almir Gabriel ficou em terceiro lu-
gar tambdm na votaqdo para o gover-
no. Jader Barbalho derrotou Sahid
Xerfan, o candidate do entdo gover-
nador Helio Gueiros e do grupo Libe-
ral. Ademir Andrade conseguiu se ele-
ger senador. Hoje, Gueiros e Jader
estdo novamente no mesmo partido, o
PMDB. Jader e da coordenaqdo da
campanha presidential de Lula. Guei-
ros e o grupo Liberal estdo novamen-
te desavindos. Almir Gabriel d o can-
didato ndo declarado do journal, que
h6 tres eleiCqes ap6ia os tucanos.
Tudo muda. Para nada nudar)


Journal Pessoal 1 QUINZENA AGOSTO DE 2006 9









MEMORIAL DO COTIDIANO


Na Belem

de 1952

A Aeronorte fazia dois
v6os semanais entire
Bel6m e Sto Luis do
Maranhao por duas rotas.
A do litoral fazia escalas
em Braganqa, Carutapera,
Turiassu e Cururupu,
saindo de Bel6m is 11
horas da manhi de
domingo. As 6 horas da
manhi de sibado, pelo
Tocantins, o v6o parava
em Maraba, Imperatriz,
Tocantin6polis, Grajali,
Barra do Corda, Pedreiras
e Bacabal.


Parece ate que houve
involuaio de l1 pra ci em
matdria de comunicaq6es
areas.

A Casa Grelo comecava o
ano promovendo ur show
noturno para seus clients
cor os "maiores c8micos do
Norte", Casquinho e Pixixi,
mais Digma Brasil, a
"bomba at6mica do samba",
al6m de outros integrantes
do "cast" regional.
*0
Quem fosse ao consult6rio
do dr. Candido Pereira, entire
8 e 11,30 horas, na travessa
Padre Eutiquio (ou em sua
residencia, na rua Manuel
Barata), era tratado das


vI SEMANA DO TRlNSITO
I II I 25 DE SETEMBRO


VEJI-O

COMO j

AfMIGO!


I U.adr que 0 CG,.do ,e Trs,. 'c .a
*t.n O.0,,, ,I .a. I.. 1,..
'fr0 ol no.r ar a 'i r a b5o .por aa l
J n' o I0r h.a ngr" a Cldo
M" j Famben, a .de .3ho ap lo r3 o

o- "nu..n jaj po-a IwJa a a .am.. .
- -* 1... .lo pug 0
0"'~ ann' in Ogag


It L
$


COVIInNO DCO ISTND DO PAPA
DELEGICIA
ESTADUAL DE TRHSITO
SINDICAT O DAS EMPRCSAS D TRANSPORT COLETIVO
SINDICATO DAS EMPRISAS DE TRANSPORT COLETIVO


mol6stias dos aparelhos
digestive e respirat6rio, e de
sifilis, como destacava em
seu antncio dejornal. O que
nao faltava era demand.
*0
O doutor Honorato Neves
comunicava, atrav6s de nota
na imprensa, que retornara
de sua viagem "ao sul",
reassumindo a sua Clinica de
Doenqas Aldrgicas, em seu
consult6rio, na avenida
Portugal, nos altos da Casa
Corcovado, das 3 as 6 da
tarde (cor os telefones 1794
e 1475). Avisava tamb6m
que adquirira "aparelhagem
especializada para o
tratamento da alergia
respiorat6ria-asthma, rhinite


PROPAGANDA

Guarda

de

trAnsito
Este era o guard
de trinsito de Be-
lem em 1968,
quando se come-
morou mais urna
semana do transi-
to, corn a nada de-
sinteressada cola-
boraqao do Sindi-
cato das Empresas
de Transport Co-
letivo. Um auten-
tico military na
aparencia, corn
capacete e tudo,
muito diferente do
perfil atual. Mas a
custa de muito
suor, dado o tra-
je, inadequado
para o clima. Era
melhor ou pior?
Qualquer que
seja a resposta, a
rela~do de amor
entire o guard e o
motorist sempre
existiu na pro-
paganda.


e rhino sinusite, por meio de
vacinas", que prepare no Rio
de Janeiro.
*
O arquiteto e engenheiro
civil Feliciano Seixas
apregoava que ji se achava
instalado, em sua nova
residencia, no apartamento
301 do rec6m-inaugurado
edificio Manuel Pinto da
Silva, "onde continue a
disposicao de todos". Morou
no pr6dio que concebeu e
ajudou a construir.
*
H6lia Charone mandava um
recado aos alunos: reabriu
seu curso de piano,
lecionando em sua
resid&ncia, na avenida Gentil
Bittencourt, 434.
*
O "alegre grupo"
Pastorinhas de Bel6m fazia
sucesso em suas exibiq6es
no Salio de Atos do Col6gio
do Carmo, em comemoragio
ao dia de reis.

Ant6nio Jorge da Cunha,
resident na rua do Una, foi
a Central de Policia queixar-
se contra um morador da rua
de Bel]m cor a Manoel
Evaristo, no Curro Velho,
"por ter o mesmo nove
cabeqas de gado soltos na
rua e muitas vezes a cerca
da casa do queixoso ter
sido danificada".

Quem quisesse se prevenir
contra o inverno e suas
conseqtiincia, podia comprar
sombrinhas e guarda-chuvas
na "Paris Londres", elegant
loja de Verbicaro & Bastos,
na Praga Visconde do Rio
Branco. Havia sombrinhas
de todos os tipos: em
algodao, rayon, tafeti, seda
pura e nylon, cor cabos de
couro, madeira, plistico e
prata. E as capas: de
chantung, double-face,
gabardine, borracha, nylon e
plistica para homes,
senhoras e crianqas das
afamadas marcas Metros
Argentina, Feld Saragossy e
Renner. A loja dispunha


10 AGOSTO DE 2006 IPQUINZENA Jornal Pessoal











































ainda de agsalhos, casacos,
manteaux e su6ter de li e
malha, cobertores e
mosquiteiros para cama e
rede. S6 se molhava quem
queria. Ou, naturalmente,
nao tinha dinheiro para se
prevenir na "Paris Londres".
*0
"Baraina" publicava um
soneto, dedicado ao "meu
prezado amigo, estimado
industrial Hilirio Ferreira",
proclamando que guarand
para valer, daquele que
"acende do prazer a alegre
chama", s6 o Leao de
Portugal e o Soberano de
Bel6m. Que, recordista,
continue a ser produzido na
Cidade Velha.
*
Guilherme Maia Lassance
Cunha era a fnica pessoa
autorizada pela Folha do
Norte, ojornal de maior
circulaqio em Bel6m na
6poca, a receber "o valor da
assinatura dos nossos
jornais". Os interessados,
"quer na renovaqio quer na
tomada inicial de
assinaturas", podiam sem
susto "dar Aquele senhor as


FOTOGRAFIA

Jornalistas ao guaranA
Inicio da decada de 60. Metade da redacao do
journal A Provincia do Pard confraterniza com
copos do Guara-Suco, o guaranc que estava em
todas, uma bebida ndo exatamente da preferencia
de jornalistas. No sentido hordrio, a partir da
ponta, o colunista (ainda ndo social, mas de uma
pdgina dominical sobre mulheres) Edwaldo
Martins (quase um menino), o editor Elddio
Malato Ribeiro, a todo-poderosa gerente Ruth
Sampaio, o colunista Cunha Coimbra, o secretdrio
Carlos Gomes Lopes, o director (da TV Marajoara)
e colunista Roberto Jares Martins, a chefa
administrative Terezinha Siqueira (e, atrds, o
marido e reporter policial Hordcio Siqueira, antes
de tambim se tornar advogado) e o reporter
policial Carlos Flexa. Dizia-se que A Provincia
era uma familiar e realmente era, com todos os
problems que uma familiar tdo grande pode ter
Era bor trabalhar ali. E aprender. Dos nove
personagens, apenas quatro continuam vivos. Os
demais, que se forami demasiadamente cedo, sdo
agora memdria e saudade.


prezadas ordens", garantia
uma nota da Folha.

O Departamento Municipal
de Agriculture Feiras-


Livres comercializava os
produtos da regiao da
Estrada de Ferro de
Braganqa na Feira de
Batista Campos, o local


traditional, e em mais tres
postos de venda: na
Bandeira Branca, na Pedro
Miranda e no Guama, entire
Silva Castro e Pedreirinha
do Guami.
*
O Hotel Coelho, de J.
Garcia, pontificava na
Praca Maranhdo (onde 6
hoje o "buraco da
Palmeira"), cor "boa
refeicio, menu
variadissimo, asseio
absolute e preqos
m6dicos".
*
Pontos de encontro eram a
Sorveteria Americana, na
rua 28 de Setembro, e a
Confeitaria Americana, na
esquina da Quintino
Bocaidiva cor a Braz de
Aguiar. Estabelecimentos
de Joaquim F. Moura.
0
Ja o El Marroco oferecia, a
partir das 11 e meia, um
"aperitivo musical", cor o
famoso trio El Marroco,
sob a direqao do professor
Manoel Godinho e o grande
acordeonista Helv6cio
Magalhles, o "Manga".


lornal Pessoal I QLJINZENA AGOSTO GE 2006 11


11


.lornal Pessoal 1 QUINZENA AGOSTO DE 2006









"SEU" LUIS
Nao era incomum abandonar
uma jornada noturna deixan-
do Luis Faria em plena agita-
qio, na madrugada bo6mia, e
reencontri-lo circunspeto e
alinhado na abertura dos tra-
balhos no f6rum de Bel6m,
pouco tempo depois, como se
tivesse passado a noite em
sono celeste. Raras pessoas
souberam usufruir os prazeres
da "esticada" sem comprome-
ter os rigores do servico, que
exerceu cor pontualidade bri-
tfnica durante 56 anos, como
secretirio-geral do Tribunal de
Justiqa do Estado.
Ainda manteve essa inve-
jivel dualidade operosa duran-
te alguns anos depois da apo-
sentadoria, a que se subme-
teu, por fim, mas nio sem re-
lutancia, em 1990. Mas o reti-
ro que o avanqar dos anos e a
inexistencia de compromisso
certo Ihe impuseram mostrou-
se mais fatal do que o peso
dos 87 anos, corn os quais en-
cerrou sua jubilosa mission
nesta terra, no dia 27.
"Seu" Luis, como logo exi-
gia ser chamado, afastando
qualquer veleidade de doutor
no tratamento que lhe era
dado, ainda tinha muita ener-
gia para star e hist6ria para
contar. E uma pena que, em
funqio da circunstancia da
sua atividade professional, nao
tenha aproveitado sua cr6ni-
ca semanal (primeiro na Fo-
lha do Norte e, por 61timo,
em O Liberal) para relatar
suas jornadas sem hora cer-
ta para acabar e a hist6ria
paralela que acompanhou e
fez, muito mais saborosa e
rica do que o registry official.
As esticadas com ele eram
longas, alias, porque era difi-
cil nao se encantar cor seus
causess". Vai reconta-los,
agora, em outra dimensdo,
sern nunca perder a elegfn-
cia e a verve.

HOME DE

TEATRO
Luiz Otivio Barata, que mor-
reu no m6s passado, em Sio
Paulo, foi sempre um home
de vanguard no teatro pa-
raense. Conseguiu atraves-


sar do pioneirismo intelectu-
alizado do Norte Teatro Es-
cola, das d6cadas de 50 e 60,
sob a inspiragqo de Maria
Sylvia Nunes, para as expe-
riencias mais densas dos
anos seguintes, de muito
chumbo (e derretido), nem
todas caracterizadas pela
consciencia do que 6 uma
vanguard. No avancar das
ousadias, acabou se sentin-
do isolado e, radical como
era, foi isolar-se de vez em
So Paulo, onde morreu.
Num tal exflio deve ter po-
dido contemplar a pr6pria
obra, ampla e diversificada, in-
quieta e provocadora, natura-
lista e ao mesmo tempo cere-
bral, daquele distanciamento
critico que ele impunha tan-
to a si quanto aos seus criti-
cos sem muita receptivida-
de externa. Deve ter ficado
satisfeito, mesmo pedindo a
conta antes do tempo.


BICICLETAS
Ja esti na hora de a prefeitu-
ra comeqar a plaquear bici-
cletas. A multiplicaqao delas
e a contribuiaoo crescente que
vem dando aos acidentes de
rua exigem um control ofici-
al urgente. Nao se pode mais
tolerar ciclistas na contramio,
ignorando regras minimas de
urbanidade e da legislaqio do
transito. Para atrair as pesso-
as, a prefeitura cobraria um
preqo de custo pelas places.
Os ciclistas regularizados con-
correriam a um sorteio men-
sal de bicicletas (que podiam
ser conseguidas gratuitamen-
tejunto aos fabricantes, ou por
preqo mais barato do que de
mercado). As places seriam
fabricadas por encomenda,
segundo a iniciativa dos inte-
ressados. Quem pagasse adi-
antado receberia numeraqao
de memorizaqo mais facil e
suas iniciais gravadas.
Sera que esse esquema
nao funcionava?

CASA
Cincinato Palmas Azevedo
mandou uma carta a direcio
da Companhia Vale do Rio
Doce, no Rio de Janeiro, pe-
dindo para ajudd-lo a quitar


divida de sua casa com a Co-
hab. Como era de se esperar,
um mes depois a empresa res-
pondeu. Lamentou nlo poder
tender a solicitagqo, por nio
possuir "dotaqio orqamenti-
ria prevista para esta aCio".
Mas deu uma boa noticia ao
mutuirio: ji repassara ao go-
verno "verba necessdria para
constructio de casa no Esta-
do do Pari".
O repasse ji chegou mes-
mo? Pode-se mandar os sem-
teto tratar do assunto na Co-
hab?

CCHF
No dia 28 o Centro Civico
Honorato Filgueiras, o famo-
so CCHF, o grnmio estudantil
do Col6gio Estadual Paes de
Carvalho, completari 60 anos.
Podia ser a oportunidade de
fazer uma convocaqio geral
para os antigos cepeceanos se
juntarem aos atuais alunos
numa festa comemorativa. E
refletir um pouco sobre os ru-
mos da outrora respeitada ins-
tituiq~o pdblica de ensino,
matriz dos lideres politicos do
Estado (de Jarbas Passarinho
a Jader Barbalho) e da elite
em geral, funqao que deixou
de desempenhar faz tempo.
Por que?

ANTROPOLOGO
O antrop6logo Roberto Car-
doso de Oliveira, que morreu
no dia 21, em Brasilia, aos 78
anos, mostrou para quem
quisesse saber que, na fric-
qao inter6tnica compuls6ria,
nossos indios nao se integral
a sociedade de classes, mas
uma vez iniciado o processo
civilizat6rio", perdem a iden-
tidade 6tnica original. Viram
parias, que nao se reacomo-
dam ao mundo antigo e nao
se acomodam no mundo novo.
Estao condenados a perambu-
lar entire ambos os universes,
corn crises internal profundas,
nem sempre refletidas exteri-
ormente.
Seu estudo sobre os Tere-
na de Mato Grosso 6 um dos
melhores e mais generosos da
bibliografia antropol6gica bra-
sileira. Merecia um obituirio
melhor do que Ihe foi reser-
vado na imprensa.


I
PREDIO
O sobraddo que abrigou a
sede das J6ias Laura, refe-
rido na Mem6ria do Cotidia-
no como em ruinas, ji esti
pronto para vir abaixo (se 6
que neste moment ji n~o foi
demolido). Ele e a casa vizi-
nha, na avenida Gentil Bit-
tencourt, foram cercados por
tapume no mesmo dia em
que este journal foi is ruas.
Logo, em seu lugar subird
mais um edificio de aparta-
mentos. Em Bel6m, as ca-
madas da hist6ria nao se su-
perp6em: se excluem.

COLE/AO
Estou me desfazendo de
exemplares de encalhe des-
te journal. Bibliotecas e ar-
quivos interessados numa
coleqao dos ndmeros dispo-
niveis podem entrar em con-
tato com Iraci Pinto pelo te-
lefone 32417626 para rece-
ber a doagdo.

CORRE(AO
Selma Braga, candidate a
Miss Imprensa do Pard em
1964 (ver Mem6ria do Co-
tidiano, ediado anterior), e
apenas a hom6nima da cen-
sora federal, de uma geradao
bem posterior. Trata-se da
esposa de Nelson Chaves,
conselheiro do Tribunal de
Contas do Estado, na flor da
juventude dourada.
Quem organizou o livro
Cartas do Exilio, cor a cor-
respondencia entire Jilio Mes-
quita Filho e sua esposa, Ma-
rina, nio foi Ruy Mesquita, o
filho, e sim Ruy Mesquita Fi-
lho, Ruyzito, o neto. O livro
merece ser lido.




Editor:
Lucio Flavio Pinto
Edigio de Arte:
L. A. de Faria Pinto
Contato:
Tv.Benjamin Constant 845/203/
66 053-040
Fones:
(0911 3241-7626
E-mail:
)ornal@amazon com bt




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