Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00298


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Full Text






ornal


A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO
JUNHO DE 2006* 2'QUINZENA N" 370 ANO XIX R$ 3,00


Pessoal


ELEI AO


10 turno?


Se Simbo Jatene fosse o candidate, provavelmente o PSDB poderia decidir no primeiro turn.
Com Almir Gabriel, essa possibilidade e menor. Num 20 turno, Lula podera ajudar ainda mais o
candidate do PT, se garantir logo a presidencia. Desde que o candidate nao seja tao pesado.


C om Simao Jatene como candidate
a reeleicio, as probabilidades de
uma decision favorivel ao PSDB
ji no primeiro turno para o governor do
Estado eram maiores do que com Almir
Gabriel. As pesquisas indicavam
claramente essa tendencia. Mesmo
assim, Jatene acabou desistindo de tentar
o segundo mandate. Segundo a versto
tucana dos fatos, Almir Gabriel foi o
primeiro a se convencer de que,
contrariando todas as expectativas, seu
successor sairia da dispute:
Se 6 para dar a vit6ria para o Jader
Barbalho, eu sou candidate teria dito o


ex-governador aos mais chegados, em
dezembro do ano passado. Se vencer, ele
seri o primeiro politico eleito tres vezes
para o governor do Estado.
Para que essa vit6ria ocorra, por6m, a
coligagio situacionista "Uniio pelo Pard"
vai precisar trabalhar muito mais, sem
contar cor uma definiqao no primeiro
turno. Nas pesquisas nio registradas (e,
por isso, nunca reveladas publicamente),
a diferenqa de Almir para Jader 6 bem
menor do que a de Jatene.
Se o deputado federal do PMDB fosse
mesmo candidate ao governor, o 2 turno
seria certo, com a candidatura de Ana


Jdlia Carepa pelo PT e do ex-prefeito
Edmilson Rodrigues pelo PSOL. Mas
Jader Barbalho desistiu de vez dessa
cartada? Essa era a principal pergunta
que se podia fazer no domingo (24),
quando esta mat6ria foi escrita, ainda sem
a definiqao das convencqes sobre as
candidaturas.
Em tese, a melhor alternative seria a
unilo de forgas do PT corn o PMDB
numa chapa 6nica para o governor. Mas
ela nao 6 apenas temeraria
operacionalmente, diante das
desconfianqas e hostilidades mituas entire
os dois partidos e seus militants: a


CONTINUE NA PAG 2


O PARA PAROU: E O .
QUER A SUA I MP f- e :: ", ?
PAGINA 3
EU SOU AMAZONIDA.
E VOCE?
PAGINA 6


Decisao em






CONTINUAAO DACAPA

possibilidade de uma vit6ria mais folgada
de Almir Gabriel no primeiro turno
aumentaria, com um confront polarizado,
mais favorivel aos tucanos, que
centralizariam sua linguagem na
anticorrupgo.
A opco das oposiq6es deveri ser por
um maior ndmero de chapas, apostando
nessa titica para conseguir levar a
dispute para o 20 turno. Nesse context
surgiram as especula96es em torno do
deputado federal Jos6 Priante para o
governor pelo PMDB. Ele tem todas as
vantagens e desvantagens de sua
associaqio a Jader, tanto pelo laqo de
parentesco (6 primo do ex-ministro) como
pelos perfis politicos assemelhados. Mas
um bom apoio invisivel do governor
federal poderia destacar as vantagens e
obscurecer um pouco as desvantagens.
A principal destas, como na hip6tese de
Jader, 6 perder o foro especial nos muitos
processes instaurados contra ele na
justiqa, especialmente por desvio de
recursos piblicos e enriquecimento ilicito.
Essa poderia ser a mesma providencia
para aumentar o poder de fogo do ex-
prefeito de Bel6m, que deverd contar corn
uma boa ajuda do PT, mesmo que
informal. Com estrutura de apoio para
percorrer o Estado, Edmilson poderia ir
al6m da faixa de 10%, talvez acima das
expectativas de Priante. Se essas
previs6es se confirmarem e Ana Jdlia for
a candidate, haveri 2 turno. Na hip6tese
de Lula resolver logo sua parada sem
problema, o president da repdblica
estard em condiq6es de reforcar a
candidatura do seu partido no Para.


equilibrando a situaqio em relaqao ao
PSDB.
Esse quadro mostra que a desistencia
de Jatene complicou a vida dos seus
correligionarios. Uma complicacao
enfatizada pelos sinais dados pelajustiga
eleitoral, ao autuar e multar alguns dos
principals candidates da "Uniao pelo
Pari" pela prdtica de propaganda illegal.
A comeqar por Almir Gabriel, intimado a
pagar 53 mil reais (de cuja decisdo
apelou).
Se dependesse do Minist6rio Pdblico
Federal, Jatene nio estaria no cargo de
governador e Almir nao poderia ser
candidate. O MPF sustenta, em
processes que ainda tramitam no Tribunal
Superior Eleitoral, o uso illegal da miquina
pdblica pelos tucanos na eleiqao de 2002.
O PSDB tem conseguido se livrar dessas
acusaqCes (da quais ji liberou o ex-
governador), mas as primeiras iniciativas
dajustiqa e do pr6prio MPF sugerem que
eles endurecerdo ainda mais suas
posiq6es na eleiqao deste ano. Uma
atuacao mais aberta de Jatene em favor
do seu candidate poderi ter mais
conseqUincias desagraddveis do que
quatro anos atrds. O efeito dessa situaq~o
sera o agravamento das tenses durante
a campanha eleitoral, corn discursos mais
incisivos e uma estrat6gia mais agressiva.
Em 2002 o PSDB era governor em Beldm
e em Brasilia, onde agora 6 o PT quem
d as cartas. 0 Partido dos Trabalhadores
esti muito mais desgastado agora do que
entdo, mas num Brasil ainda tao pobre a
maquina do Estado nao pode ser
subestimada, mesmo com as promessas
do judiciario de exercer maior control


sobre as irregularidades e atuar com
imparcialidade.
A divida que fica 6 justamente esta: a
campanha eleitoral deste ano sera
diferente das anteriores?
P6S-ESCRITO Nio quis
reescrever este artigo quando, no final
de s~bado, para surpresa de muitos, foi
confirmada a candidatura do deputado
estadual Mario Cardoso ao governor do
Estado, pelo PT. Segundo a version official,
a direqio national do partido preferiu
recuar da imposicqo do nome da
senadora Ana Jilia Carepa, cor muito
mais densidade eleitoral, para nio rachar
a base petista no Estado. A militincia
optou por Cardoso no mes passado. Ele
foi o 6inico dos prd-candidatos que
confirmou o desejo de participar da
principal dispute eleitoral, enquanto os
outros desistiram, exatamente num
moment de dificuldades para o partido.
A explicagio, por6m, esti muito long
de ser convincente. Entre os motives nio
revelados poderia estar um outro tipo de
composiqao de bastidores cor o PMDB.
A distancia desses bastidores 6 impossivel
saber qual, mas uma das hip6teses seria
a candidatura de Jader Barbalho. O
deputado federal estaria mesmo disposto
a enfrentar todos os riscos e ir para a
revanche com Almir Gabriel, que o
derrotou em 1998? Teoricamente, essa
seria a explicaqio para o PT aceitar o
nome de Mario Cardoso, que ter
remotissimas possibilidades de vit6ria:
carregar em Jader no 2 turno. Brasilia
ficaria ao lado dele, cor todos os tipos
de promessas e presses que a miquina
official possibility.


Sem novidade


Quando era um dos "luas-pretas" de
Jader Barbalho na campanha eleitoral de
1982, dizia-se do economist Simio Jate-
ne que ele era o Oziel Carneiro da es-
querda. Ambos tinham dificuldade em to-
mar uma decision e sofriam de uma ten-
dencia natural para o retraimento, para
viver em circuit fechado, junto a uma
confraria por eles mesmos formada. Do
lado politico contrario, essas caracteristi-
cas tomaram dificil eleger Oziel, candida-
to do partido do governor federal (e mili-
tar), o PDS. Essa seria uma das causes
da primeira eleiqio de Jader para o go-
verno. Oziel Carneiro assumiria um hon-
roso e respeitivel exflio a partir daf. Nun-
ca mais voltaria political.
Jatene assumiu a estrat6gica Secreta-
ria de Planejamento do Estado, dando
adeus A vida boemia e as atividades aca-
demicas. Ficaria atW o final do mandate
de Jader, mantendo amigos, cultivando sim-


patia, cumprindo ordens e organizando a
retaguarda. Foi tao eficiente nessas fun-
5qes que acompanharia o chefe no Minis-
t6rio da Reforma e do Desenvolvimento
Agrdrio da administration Jos6 Sarey. No
moment seguinte, do Minist6rio da Pre-
videncia Social, seus caminhos se dissoci-
ariam de Jader. Mas sem brigas ou rom-
pimentos. Sem qualquer palavra de acri-
m6nia e critica.
A trilha seria a mesma de Almir Gabri-
el, que tamb6m cumpriu em silencio o rito
de passage da prefeitura de Bel6m, car-
go bi6nico, de nomeaqio do governador,
para sua primeira eleiqbo, a de senador, pa-
trocinada por Jader.
O grupo, que depois assumiria sua iden-
tidade no PSDB, tinha um projeto de poder
e, como troco, de Estado. A primeira tare-
fa era chegar ao control do governor, usan-
do o maximo de persuasao e evitando os
conflitos. Uma vez assentados no coman-


do do executive, os tucanos se dedicaram
a perpetuar-se, fazendo e desfazendo ali-
anqas, lembrando ou esquecendo o passa-
do, conform as circunstincias. Os prop6-
sitos de inova~io e mudanca foram se di-
luindo, mas a capacidade de fazer political
se aprimorou, ainda que ao velho estilo pa-
raense, sempre bipolar, plebiscitario: o gru-
po que sobe usa todos os m6todos para se
manter em cima e o de baixo consider
legitimos todos os golpes para derrubi-lo.
Se 6 verdadeira a versio corrente entire os
tucanos de que prevaleceu na decislo do
governador sua tendencia natural de retra-
imento e hesitaqao, coerente cor o seu
passado, fazendo-o desistir de uma reelei-
.io muito provdvel ji no 1 turno, a imedi-
ata apresentaqao da candidatura do ex-
govemador Almir Gabriel confirm que o
PSDB ter um projeto de poder muito agu-
qado, mas seu piano de "novo Pard" existe
apenas para fins de propaganda.


2 JUNHO DE 2006 /IQUINZENA Jornal Pessoll


IIII~.YYYIIY~~YI"~I"~-1~C- -~ -~--CII_*IIIMIIWIUI-VCI









0 Para parou: e o que


quer a sua imprensa?


Com meus pr6prios olhos eu nunca
tinha visto um encalhe tao grande de
jornais quanto na segunda-feira da
semana passada. Dezenas de
exemplares de domingo se acumulavam
em frente banca do Alvino, na Praqa
da Reptiblica, uma das que registra maior
movimento na cidade. Se aquela era a
sobra, a venda nao devia ter chegado a
20% da remessa. A maior quantidade
remanescente era de O Liberal, mas
havia tambdm muitos exemplares do
Dicrio do Pardi e do Amaz6nia Jornal.
O fenomeno, por6m, nao 6 s6 dos
grandes jornais diirios. Este mindsculo
peri6dico tamb6m o enfrenta. E nao 6 s6
uma caracteristica de Bel6m ou do Brasil:
ter dimensaio mundial. Hoje se 16 muito
menos journal do que muitos anos atras.
Outro dia coloquei a vista sobre um
registro da tiragem do New York Times
em 1937, ji sob o comando de A. H.
Sulzberger: 750 mil exemplares. Setenta
anos depois, o mais poderoso journal do
mundo tira menos de 900 mil exemplares.
A Folia de S. Paulo, o journal de maior
circulacio do Brasil, coloca nas ruas
menos da metade do que imprimia uma
d6cada e meia atris.
At6 certa media, o fato 6 natural e
inevitivel. Ha muitas outras midias,
algumas de apelo instantaneo, como a
internet. O p6blico cativo de journal
impresso foi retalhado. Um dos grandes
desafios 6 atrair para ele novos clients,
que se desacostumam cada vez mais de
leituras mais complexes do que os
espasmos lingtUsticos na rede da web. A
imprensa escrita terd que se acostumar
a um piblico mais restrito, mais seleto e
mais exigente. Para mante-lo, por6m,
teri que Ihe oferecer algo que ele nao
encontrari em veiculos mais apressados
e superficiais: a explicagio, o sentido dos
fatos. Produto que s6 profissionais mais
qualificados podem criar.
Quem vai as bancas (e esse 6 um
contingent que encolhe cada vez mais)
ou recebe em casa (e no escrit6rio) seu
exemplar nao quer apenas boa aparencia.
Nesse quesito, os didrios paraenses nao
tem muito a destoar do padrao
international, cor destaque para O
Liberal, que pode ser exibido em
qualquer capital. Mas exibiqio 6 uma
coisa: demonstraqgo 6 outra. Uma vez
atraido pelo journal de boa aparencia, o
que 6 que o leitor encontra nele? Pouca


coisa de novo, de consistent, de
diferenciado.
Era de se esperar que o Didrio do
Pard, posto em segundo plano pelo
recent investimento industrial do
concorrente, desse o troco pela via da
qualidade de conteido. Mas isso nao
aconteceu. Houve at6 o contririo: as
mat6rias do journal sio burocriticas,
oriundas de press-release ou de
coberturas previamente agendadas, corn
data certa para acontecer e bitola prd-
moldada. Apenas se salva o material de
agencia, sobretudo as colunas assinadas.
Em matdria de conteido, o Didrio
continue atris de O Liberal. 0 que
result em nao aproveitar uma onda que
lhe seria inteiramente favorivel, por forqa
das contradiq6es e erros do concorrente,
se se dispusesse a investor mais em
pessoal e a profissionalizar sua diregio.
0 Didrio esti diante de um cavalo
selado que apareceu a frente de A
Provincia do Pard quando a Folha do
Norte, lider inconteste do mercado,
entrou, na d6cada de 60, em uma crise
que a conduziria h morte, na d6cada
seguinte. Mas, ao inv6s de se expandir e
ousar, ojornal dos Diirios Associados se
encolheu. O Didrio tenta nao cair nesse
erro, mas Ihe falta autonomia e
competencia para seguir o caminho
correto.
Essas limitaq6es se escancaram
quando ojornal anunciou que comegaria
a publicar pesquisas eleitorais
encomendadas ao Instituto Vox Populi,
de Minas Gerais, e nao cumpriu a
promessa nem se explicou junto ao
distinto piblico. Ao inv6s de agir como
6rgao da imprensa, se comportou como
partido politico. Certamente os resultados
da apura.io desfavoreciam o dono da
empresa, deputado Jader Barbalho. Ou
pelos ndmeros em si ou por algum erro
na formulaiao da pesquisa.
A attitude errada do journal contribuiu
para que o povo paraense continue a ser
o inico do Brasil ao qual nio foram
oferecidas pesquisas pr6-eleitorais.
Parece at6 que o Estado regrediu
ddcadas, a uma 6poca em que nao havia
essa ferramenta de informaqao. O
contrast 6 ainda mais brutal porque
muitas sondagens sao feitas para
consume interno, para orientar os
contendores e, obviamente, manipular o
eleitor. A pesquisa Vox Populi do Didrio
era a 6nica registrada no Tribunal


Regional Eleitoral. Logo, estava sendo
aplicada para ser divulgada. A divulgagio,
nas pAginas do journal, ocorreria dois
domingos atris.
De qualquer maneira, ao Didrio ainda
restaria a esfarrapada desculpa de ser
um journal de politico, representando
informalmente o PMDB (e essa 6,
justamente, a matriz de seus equivocos).
Mas e quanto a 0 Liberal, que seria uma
empresa realmente professional, embora
familiar?
Nenhum professional deve guardar
d6vidas, mesmo que as mantenha em seu
interior, de que o investimento (de 10
milh6es de euros, segundo a 6ltima
information) numa sofisticada miquina
de impressao nio resultou de uma
adequada anilise sobre a sua
oportunidade ou conveni6ncia. A tiragem
de jornais nao evolui ou esti em queda
pelos quatro cantos do planet, agravada
em alguns lugares menos preparados
para enfrentar essa situaqio, como o
Pard. Em Bel6m, que consome 90% dos
jornais da familia Maiorana, o mercado
publicitirio nio ter condiqoes de
suportar o custo de capital aplicado no
investimento e de custeio dessa rotativa.
O papel 6 muito mais caro, assim como
a tinta, onerando o preqo cobrado do
anunciante, que jd 6 um dos maiores do
Brasil.
Qual, entio, a said? Ela se exibia na
ediqao do iltimo domingo de O Liberal:
oito anincios de 3/4 de pigina cada
um do governor do Estado, com uma
mensagem forcada para alcanqar seu
objetivo: reforqar o caixa de uma empresa
cor problems evidentes de liquidez. E,
contrapartida, o que devia ser um journal
professional se tornou um 6rgao extra-
oficial de partido, tao ou mais
comprometido cor o PSDB quanto o
Didrio em relaaio ao PMDB?
Quanto ao leitor, que espera mais do
que boa aparencia, que vi atris da peqa
de Nelson Rodrigues (aquela do Otto
Lara Resende: "Bonitinha, mas
ordiniria").
Ou se queixe ao bispo, se estiver mais
atento ao rebanho do que o seu
antecessor. Ajulgar pela imprensa, houve
uma ligeira mas decisive mudanca
no legado de beleza do Pard: nao 6 quem
vem ao Pard que pdra; a paralisia, por
forqa de sua elite, cor destaque para a
elite formadora de opiniao, 6 do pr6prio
Pard.


Jornal Pessoal 10 QUINZENA JUNHO DE 2006 3









0 rastro oculto do poder


Duas semanas depois de cumular o
deputado federal Jader Barbalho de
atencqes, na festa realizada no luxuoso
Waldorf Astoria, em Nova York, para
receber o titulo de empresario do ano no
mercado brasileiro-americano, o
president da Companhia Vale do Rio
Doce, Roger Agnelli, passou algumas
horas em Bel6m para cuidar do "outro
lado". Foi ao gabinete de despachos do
governador Simao Jatene e posou
sorridente ao lado do principal executive
do grupo Liberal, Romulo Maiorana
Junior.
Agnelli comanda a maior empresa
privada brasileira, a que mais export, a
que mais contribui com d61ares para o
pais e a que mais distribuiu dividends
no mundo no ano passado. Esti
acostumado a freqiientar personalidades
de importincia international e a tratar
de temas complexes. Mas como quase
um terqo do que sua corporaqao produz
sai do Pari, ve-se obrigado a descer ao
r6s-do-chao da political paraense.
E um jogo que exige alta dose de
habilidade e paciencia, mas nao menor
capacidade de fingimento. As deferencias
a Jader Barbalho (que se fez acompanhar


do filho, responsivel pelo seu journal
diario) nao foram especiais por conta do
curriculo (e do prontuirio) do ex-ministro,
a personalidade political mais controversy
e atacada no pais nos 6ltimos anos,
mesmo nao sendo estrela de primeira
grandeza nesse universe.
O ex-governador 6 atualmente figure
decorative nas atividades explicitas do
Congress, das quais, por estrat6gia
pr6pria, pouco participa. Mas 6 expoente
nas tratativas de gabinete, nas
articulaq6es de bastidores e na
interlocuqco com o president Luiz Inicio
Lula da Silva. E reconhecido por todos
como um dos melhores negociadores do
parlamento (ainda que nio se deva inquirir
pelos resultados desse talento.
O destaque dado a Jader Barbalho
imediatamente desencadeou um boato no
Pard: o ex-ministro teria conseguido o
compromisso da CVRD de apoio a sua
campanha eleitoral, qualquer que seja seu
fim (reeleigdo, o senado ou o governor do
Estado). At6 um valor, de 30 milh6es de
reais, foi apontado como o resultado
desse acordo. O boato foi desmentido e
desacreditado, mas sua semeadura foi
f6rtil. As ausencias em NY do governador


Jatene e do empresario Rominho, que
simplesmente ignoraram os convites, foi
sintomitica.
A boataria precisava de uma resposta
imediata e ela foi dada pelo deslocamento
(em jatinho, naturalmente) de Agnelli a
Bel6m, em meio a uma agenda tio
carregada e a uma mal disfarqada mi-
vontade pelo Pard. Do que foi tratado nos
dois encontros nada foi revelado, mas
parece evidence que o governador e o
empresario das comunicaq6es ficaram
satisfeitos. Romulo Jr. permitiu que uma
boa foto saisse na terceira pigina de O
Liberal, sinal de que tamb6m foi tratado
cor toda deferencia possivel.
Que instrument a CVRD maneja
para agradar ao mesmo tempo a gregos
e troianos, tucanos, papagaios e araras?
Eis ai a melhor pista a seguir, nos rastos
tao pequenos de uma corporacqo tio
grande, para saber o que 6 feito para
manter ou mudar o comando do poder
no Para, corn tal sagacidade que tudo
muda para tudo continuar como est6, os
que saem e os que entram bem
aquinhoados, enquanto o Estado segue ao
vai-da-valsa. Crescendo a todo vapor,
como rabo de cavalo.


Lacuna e carencia


A cadeia produtiva do setor mineral
no Para chega ao ponto de maior
absorqao de energia e depois volta, corn
efeito multiplicador para tras e nao para
frente. Foi o que aconteceu no caso do
min6rio de ferro, continuou no alumfnio,
esti se repetindo em relaqao ao cobre e
se desenha na perspective do niquel. O
marco limitador no aluminio 6 o lingote.
Depois da Albris, os investimentos estao
sendo feitos em bauxita e alumina. A
cadeia do ferro nio foi al6m da gusa. O
cobre nao iri al6m do catodo. E mesmo
quando se consider a adiqio de niquel a
cesta de mat6ria-prima, nio hi nenhuma
consideraqio por aqos especiais.
No entanto, comeqam a surgir os
primeiros ensaios de diversificaqao dessa
trajet6ria. Ji foram anunciados ou estio
em curso projetos para a fabricaqAo de
ago, embora em transformaqao
elementary. No entanto, o que antes era
um fator de atraq~o, agora 6 uma
limitacqo: a energia. Quando a hidrel6trica


de Tucuruf comeqou a funcionar, em
1984, o Pard devia ter estimulado o
surgimento de pequenas usinas de aqo
corn reduqio direta a base de energia
el6trica.
Ao inv6s disso, foram instaladas usina
de gusa com carvao vegetal, o que
significou andar para tris e dilapidar um
recurso nobre (a madeira) num produto
de baixo valor agregado. Cor a
valorizaqao excepcional dos preqos das
commodities, esse setor passou a
acumular grande volume de capital e a
atrair novos investidores. E o moment
que estamos vivenciando. Mas como nao
ha mais energia farta, nem firme, nem
com preqo seguro, os empreendedores
recorrem ao que esti mais A mao: a
floresta. Ou a floresta native, pilhada
ilegalmente, ou a floresta plantada,
tamb6m onerosa.
Essa nao 6 uma boa solucao. Acarreta
muitos problems e noo tern perspective.
O governor devia dar o ar da sua graga


nessa hist6ria e definir uma political
energ6tica compativel com o present e
o future, desestimulando a producao de
carvo vegetal e criando alternatives
energ6ticas mais proveitosas, como o gas
e mesmo a hidreletricidade, cor outra
definiqao tecnol6gica.
Como o governor se omite, o mercado
se define individualmente, cada grupo
escolhendo sua alternative e a colocando
em pritica, independentemente das
conveniencias e interesses coletivos. O
future, portanto, dificilmente seri melhor
do que o present.


Political
Como quase nio ha ideas nas
campanhas eleitorais paraenses. a
gangorra do sobe-e-desce de
candidates virou uma autuntica biruta.
O jogo de carnas acaba ficando no
primeiro movimento: o do
embaralhamento. No qual coerencia
6 palavra proibida.


4 JUNHO DE 2006 IQUINZENA Jornal Pessoal


~;9~R~P~a~P~~~~~~"""sar~"c~~~"""~'~









Ameaga international:



quem ter medo dela?


A FederagIo da Agricultura e
Pecuaria do Estado do Pard acusou o
governor federal de se submeter a pressao
do capital estrangeiro, interessado em
"engessar economicamente" a
Amaz6nia, com o objetivo de manter a
regiao "como reserve estrat6gica para o
future suprimento de suas necessidades
de matdrias-primas".
O 6rgio de representaqgo dos
produtores rurais esti vendo fantasmas
ao meio-dia, nio a realidade. A
sempiterna cobica international ter sido
um fantoche, um Judas ou um habeas
corpus preventive para as elites locais,
que transferem suas responsabilidades e
culpas para fora dos limits territoriais da
regiio e do pais.
E sempre mais ficil atribuir sua
incompet6ncia a um hipot6tico
manietamento imposto a partir de fora do
que admitir a pr6pria culpa e procurar
corrigi-la.
Obviamente, as grandes potancias e
corporaq6es estio de olho na Amazonia.
Nio s6 de olho: muitas delas j firmaram
o p6 na regiio. Essas, nio estio nem um
pouco interessadas em congeld-la para,
dessa forma, guardi-la para o future.
Querem 6 que sua produqdo se
incremente, o que esti ocorrendo. Nesse
ponto, o clamor da Faepa s6 contribui
para aumentar sua satisfagqo.
Por causa da extrario intensivissima,
as reserves de Carajfs, previstas
inicialmente para durar 400 anos, nao
chegario a 100. A fabulosa mina de ouro
do igarap6 Bahia, querompeu o dominio
secular da mina de Morro Velho, em
Minas Gerais, no passou dos primeiros
10 anos. O manganes de Carajis tem
seus anos contados com essa escala
incrivel, de dois milh6es de toneladas ao
ano. O ritmo da produqio de bauxita 6
tal que logo teremos quatro minas em
atividade avassaladora (hoje, apenas uma
esti em operaqgo), dobrando a produqco
atual, que coloca o Pari no terceiro lugar
mundial.
O Pard garante 15% do aluminio
primario consumido pelo Jap.o e 15% do
min6rio de ferro que alimenta os altos-
fornos japoneses. Logo estard
respondendo por uns 10% da demand
de ferro da insaciivel China. Por um
tergo da alumina do mundo. Algo
equivalent em caulim para revestimento


de pap6is especiais. Uns 5% do cobre
consumido internacionalmente. E por ai
em diante.
As grandes corporaq6es querem que
esses valiosos bens minerals fiquem
dormindo no subsolo? Ora, essa 6 uma
conversa para boi dormir.
O mundo quer uma tr6gua para que a
biodiversidade amaz6nica, incomparivel
no planet, possa ser melhor estudada. E
o que pretend a indistria farmaceutica,
uma das mais poderosas do mundo dos
neg6cios (mas, enquanto isso, vai se
apossando de informaq6es e
conhecimentos). N6s, ao inv6s de reagir
primitivamente, destruindo essa
biodiversidade, que, para existir, depend
da floresta native (s6 assim ela nao se
internacionalizard, segundo essa 6tica
caolha), deviamos estar fazendo a mesma
coisa.
Ou seja: investindo maciaamente em
pesquisa (o que implica melhorar
notavelmente a qualificaqio humana)
para tirar proveito maior desse patrim6nio
gen6tico centrado na maior massa
vegetal da Terra (ainda). Mas preferimos
pensar rasteiro e de imediato, fazendo o
jogo de terceiros mais espertos (e
ferozes). A ret6rica pode ser de cio-cio
de fogo (como diziamos, quando
moleques), mas o raciocinio 6 infantil,
induzido pelojogo do mercado. Nao honra
nossa intelig6ncia.
O tom incisive do document que a
Faepa encaminhou ao "Sul" foi motivado
por reportagem do "Fantistico", da TV
Globo, veiculada no dia 11, contra os
sojeiros de Santar6m. Mas se a Globo
entra na onda do Greenpeace, 6 legitimo
deduzir que nossa federacio acoberta
uma multinational, a Cargill, e imigrantes
empenhados em substituir a diversificada
floresta native por uma unica plant
ex6tica, nessa troca cometendo um
insofismivel crime de lesa-matemitica,
ji que o bem introduzido vale muito
menos do que o potential do bem
eliminado.
Pela 16gica da Faepa, nto interessa a
aritm6tica: o que importa 6 produzir cada
vez mais mat6ria-prima, gerando renda
e emprego, ainda que vendendo barato o
almoco para comprar caro o jantar e
desfalcando a dispensa, eliminando o
almoxarifado. Acaba por servir aos
interesses daqueles que diz combater: os


compradores das mat6rias-primas
amaz6nicas (vendidas, em regra, como
mat6rias primas, insumos bisicos e semi-
elaborados, de baixo valor relative).
A questio essencial, por6m, nio 6 de
saber quem manipula quem e qual o
interesse oculto, seguindo no rastro das
inumeriveis teorias conspirativas, que
dissipam energies e desviam o raciocinio
correto. O fundamental 6 obrigar os
atores e contendores a colocar suas
cartas na mesa, impondo-lhes um jogo
aberto, leal, em beneficio do pais e da
regi~o. Quem quiser fraudar serd
afastado desse jogo.
Para criar esse process
demonstrative, durante o qual a verdade
acaba se revelando, 6 precise que os
brasileiros (e os amaz6nidas) saibam
tanto ou mais sobre a Amaz6nia quanto
os estrangeiros. Nio 6 essa a situadio
atual. Nem poderia ser diferente, corn o
ridicule investimento que o governor
brasileiro faz em ciencia e tecnologia na
Amaz6nia (1% do orqamento national, o
menor dentre os paises emergentes).
Como esse investimento tem retorno
mais lento do que um plantio de soja,
muitos empresarios, bons na ret6rica e
sofriveis na sua aplicacio, nio Ihe dao a
atenqao devida, que deveria ser ainda
maior porque numa regiio de fronteira
como a Amaz6nia. Dai, talvez, o encanto
da federacgo patronal da agriculture corn
o zoneamento ecol6gico-econ6mico do
governor do Estado. Al6m de ser tamb6m
para ingl6s ver, esse zoneamento,
tecnicamente, teve como ponto de partida
um nfvel tecnol6gico que a cartografia
brasileira alcanqou meio seculo atrds, corn
o primeiro mapa do pais ao milion6simo.
E verdade que o governor federal 6
autoritirio, arrogante, presunqoso e auto-
suficiente quando trata de Amaz6nia.
Mas nao 6 menos verdadeiro que o
zoneamento da administration Jatene foi
atropelado por Brasilia porque se move
com a velocidade de uma pocdonemis
expansa, nossa muito zen tartaruga,
quando caminha em terra. O fundamento
te6rico do document de virulento
protest da Faepa guard semelhanqa
com essa comparacio. E vai al6m,
incorporando a lenda do Curupira, nao por
sagacidade, mas pela inversio real dos
p6s: quando caminha buscando o future,
anda para tris.


Journal Pessoal QUINZENA JUNHO DE 2006 5








Eu sou amazonida. E voce?


Em 1984 voltei de uma temporada de
estudos nos Estados Unidos disposto a
fazer o mais critico acompanhamento
possivel da construaio da hidrel6trica de
Tucuruf, a quarta maior do mundo, que
estava na sua fase final, antes do enchi-
mento do reservat6rio. Escrevia todos os
dias sobre o tema na coluna de opiniio
que assinava em O Liberal. A Eletro-
norte, responsivel pela obra, nio supor-
tando a cobranqa didria, se comprome-
teu a me avisar em tempo de estar em
Tucuruf para o inicio da formagio do lago
artificial, o segundo maior do pais. Mas
naio cumpriu a palavra.
Informado por outra fonte de que a
i6tima adufa se fechara, fretei um tixi-
adreo em Bel6m e voei imediatamente
para Tucuruf. Um engenheiro da Eletro-
norte ji me esperava no aeroporto (ope-
rado pela empresa, que tudo controlava)
quando o aviao aterrissou. Mandei tocar
direto para a usina. De um ponto eleva-
do divisei a paisagem: o Tocantins aju-
sante ji sem o suprimento da agua de
montante e a enorme estrutura de con-
creto segurando aquele riozao, com mais
de dois mil quil6metros de extensio, o 25
maior rio do planet. Ali, o home esta-
va desafiando a natureza. Estancara o
movimento natural daquelas Aguas pela
primeira vez em milh6es de anos.
O choro, mais forte do que eu, veio
sem control. Ao meu lado, o engenheiro
Washington nao sabia o que fazer. Por
que eu chorava? Porque ali, naquele mo-
mento, diante de uma incrivel obra do
home, ao mesmo tempo maravilhosa e
diab6lica, eu senti um outro rio pujante a
fluir pelas minhas veias de caboclo das
margens alvas do belo Tapaj6s. Uma das
minhas fontes vitais, a agua (mas nio uma
fgua qualquer: aquela igua cristalina e
refrescante da minha infancia feliz), es-
tava irremediavelmente tocada e alte-
rada pela mio do home, humana
miquina, deus ex-machina.
Foi um dos moments mais fortes e
reveladores da minha vida. Refeito do
choro, mirei o engenheiro da Eletronorte
e ordenei: siga-me! E foi um tal de subir
e descer escadas de adufas, dezenas,
centenas, at6 que Washington, menos
preparado para a tarefa hercilea, bateu
lona: "Juro que todas sio iguais, nao pre-
cisamos examini-las por inteiro".


Eu sabia disso, claro. Mas queria apla-
car a minha fdria de caboclo, ludibriado
pela grande empresa, como de regra, vi-
tima de sua agressao supostamente bem
intencionada. Comeqivamos o ciclo das
grandes hidrel6tricas. Os riosjamais vol-
tariam a ser os mesmos. A partir daquele
moment, deixariam de ser caminhos
naturais, abrigo aquoso dos nossos mer-
gulhos, cimplice dos amores quejuramos
como botos na fimbria das areas sem
igual das nossas praias.
Vivi situaqao semelhante, em outro
context, no meu querido Tapaj6s. Duas
semanas atris, ao deparar cor fotos
areas produzidas pelo Greenpeace so-
bre Areas de floresta que os plantios de
soja substituiram, senti a mesma dor no
coraqao. Como estava apenas virtual-
mente no centrio e nio de corpo pre-
sente, como em Tucuruf desta vez nao
chorei. Mas talvez tenha sido pior. A li-
grima alivia, consola, acalma. Sem ela,
estamos entregues ao pleno dominio da
consci6ncia. E a lucidez d6i muito na
Amaz6nia, sangra no Para, aniquila no
Tapaj6s.
Neste exato instant, a discussio so-
bre o significado da substituiqio da flo-
resta amaz6nica por novos cultivos, em-
bora necessiria, nio 6 o que mais impor-
ta. Ela teri que vir e logo. Mas no im-
pacto da instantaneidade, o que conta 6
a dor. Aquela paisagem, antes dominada
por frvores de copas gigantes e com ra-
izes de anio, e agora reduto de rasteira
vegetacao homog6nea, de plant ex6ti-
ca, fere a alma, quebra a unidade, rasga
a identidade, 6 pura e bestial viol6ncia,
como diriam nossos antepassados portu-
gueses.
Amaz6nidas, somos filhos da agua e
da floresta. Temos 12% da agua doce
superficial da Terra e um terqo de suas
florestas tropicais remanescentes, que
sdo as mais ricas em biodiversidade des-
ta nossa Gaia. Agua e floresta se forma-
ram e nos antecederam desde milh6es
de anos atris. Hi uns oito mil anos os
primeiros descendentes do Homo Sapi-
ens se estabeleceram as margens des-
ses cicl6picos cursos d'igua e a sombra
dessas irvores sem igual.
Durante 7.500 anos a esp6cie huma-
na conviveu cor os elements naturais
num cenirio de harmonia (o "paraiso
perdido" que Euclides da Cunha procu-


rou no s6culo XX). Nos ltimos 500 anos
esse organismo harm6nico, formado por
homes, arvores e agua, se ter desinte-
grado. Nos 6ltimos 50 anos desse meio
mil6nio o process de destruidio dos ele-
mentos naturais foi avassalador. Nunca
o descendente do Homo Sapiens, ao lon-
go de uma trajet6ria de 20 mil anos, des-
truiu tanta floresta quanto na Amaz6nia
neste iltimo meio s6culo. E nunca des-
perdiqou tanta agua, seja ela em si como
em suas extens6es utilitArias, especial-
mente na forma de energia.
Quem disse que precisa ser assim?
Quem determinou que nao pode ser de
outra maneira senio assim? Quem apu-
rou que desta maneira, substituindo o rei-
no da floresta por novas priticas agrico-
las e supostamente silviculturais, nos de-
senvolveremos e seremos felizes?
Nio fui eu, 6 claro. Eu nio aprisiona-
ria um rio de dois mil quil6metros por uma
barrage de 75 metros de altura para
faz&-lo refluir sobre suas Aguas 200 qui-
16metros; submergindo 2.850 quil6metros
quadrados, cobertos, sobretudo, por ve-
getacio, corn o acdmulo de mais de 50
trilh6es de litros de agua, para transmitir
energia por centenas de quil6metros at6
grandes consumidores, que pagam uma
tarifa inferior a de custo (e, ainda assim,
relativamente cara em comparaqao ao
que seria viivel por outro caminho de
engenharia e outros padres de gestio
no serviqo piblico).
Caboclo do Tapaj6s, eu nio mandaria
derrubar arvores de 50 metros de altura,
congregadas num mutualismo sem para-
lelo, uma na dependencia e na comple-
mentaridade da outra processo que mal-
mente comeqamos a conhecer, cor um
sentido que ainda nem somos capazes de
divisar), para em seu lugar fincar plants
de uma complexidade fisiol6gica, gen6ti-
ca e biol6gica em geral que guard, em
relaqio a floresta, ordem de grandeza de
uma gota de fgua em relacio ao ocea-
no.
Ficaremos mais ricos e mais desen-
volvidos com essas novas cultures? Du-
vi-de-o-d6, como diziamos antes de s6
repetirmos a sintaxe da TV Globo. Mas,
se ficarmos, nio seri a gente amaz6nica
a beneficiada. Desapareceremos en-
quanto series amaz6nicos, filhos da flo-


CONTINUA NA PA 7


6 JUNHO DE 2006 IoQUINZENA Jornal Pessoll







CONTINUAFAO DA PAG. 6

resta e da agua, iltimos dos moicanos
em uma cultural que nao 6 o produto da
mecanica de sempre: do desmatamento.
Por que nio podemos erguer a cultu-
ra da floresta, no como uma etiqueta
abstrata nem como um present de deu-
ses internacionais (mesmo que sejam
guerreiros da paz verde), mas como uma
opqio inteligente do Homo Sapiens do
s6culo XXI? Por que nlo podemos con-
tinuar tentando comandar a nossa vida,
pelos nossos padres, conforme o nosso
sentido?
Uma avaliacgo simples, mas nem por
isso destituida de significado, calculou em
1,6 trilhio de d6lares o valor dos min6ri-
os depositados no subsolo amaz6nico.
Pelo padrao de exploracgo de origem mi-
neral, 6 riqueza capaz de garantir essa
renda durante mais de 500 anos. Mas a
biodiversidade 6 calculada, por esses
mesmos analistas, em US$ 4 trilh6es.
Por que, entio, nio dar uma tr6gua
na expansao das frentes econ6micas para
prepararmos uma exploracao racional e
permanent desse tesouro produzido pela
natureza amaz6nica? Por que vender o
lauto almor o para ter o magrojantar? Por
que nio tr6s boas refeiSes diirias, sem
exaurir a dispensa?
Dois anos atras quase chorei tamb6m
ao ver as fotos de manchas de barro e


produto quimico drenando para o Tapa-
j6s por seus afluentes e igarap6s, san-
grados a partir dos garimpos de ouro. Ha
meio s6culo eles surgiram no alto rio,
acima de Itaituba, como a redendio de
Santar6m. Garimpeiros enriquecidos apa-
receram na cidade a comprar terrenos e
casas, a montar neg6cios, a gastar a rodo.
O que sobreviveu dessas vtrias ondas de
"bamburros"? A soja 6 esse novo ouro?
E n6s, somos o qua?
Eu sou o caboclo que chora seu rio
aprisionado e sua floresta derrubada.
Chora, se indigna, reage e escreve um
texto como este, pedindo aos novos bwa-
nas que cheguem-se a n6s, sejam mais
um de n6s, mas como n6s, que somos
amaz6nidas.
E o que 6 ser amazonida? Foi o que
um valente advogado paranaense (futu-
ro president da Funai) me perguntou em
1990, quando participavamos, em Paris,
da sessio do Tribunal Permanente dos
Povos dedicada i Amaz6nia. "Somos to-
dos brasileiros. Nio existe esse neg6cio
de amaz6nida", insistiu o advogado, que
se aproximou de mim, aflito, quando usei
essa expresso na minha exposiqdo aos
membros do tribunal. Ele temia que eu
estivesse sugerindo (ou propondo direta-
mente) que 6ramos um pais dentro do
pais.
E nio somos mesmo? Somos, sim.
Primeiro porque somos o Brasil tardio, a


tiltima regiio que se tornou brasileira no
Imp6rio (e, ao tentar se integrar, durante
a Cabanagem, foi reprimida brutalmente
pelo governor do Rio de Janeiro). E que
permaneceu B parte at6 o advento da
Replblica, como se fosse um anexo na-
cional. E, segundo, porque somos uma
regiao dominada pela floresta num pals
de bandeirantes, quase sin6nimo de pre-
ador de gente e predador de mata. So-
mos a iltima possibilidade de civilizaqdo
florestal. Nio s6 no pafs, 6 bom acres-
centar: na hist6ria do genero human.
Queremos o Brasil aqui conosco, par-
tilhando nossa rica hist6ria, tao ou mais
exuberante do que a de qualquer outra
regiio do pafs. Mas queremos que os
brasileiros, reconhecendo nossa condiqio
de amaz6nidas, queiram ser amaz6nidas
como n6s, ao inv6s de combater esse
nosso ethos.
Prometemos ser tamb6m bons brasi-
leiros, fazendo a fusio que criard um
novo e glorioso capitulo na hist6ria da
humanidade, sem rios violentados e ar-
vores desbastadas.
Um Brasil verdadeiramente amaz6-
nida e uma Amazonia genuinamente bra-
sileira.
Por que nio a utopia em Santar6m?
E em Bel6m, Manaus, Rio Branco, Por-
to Velho, Juruti? Sem utopia, a Amaz6nia
serd uma sucessao de fotos lancinantes
na parede. E como elas doem!


Brasil

Tornou-se comum osjorais publicarem fotos de
cadiveres cercados por curiosos, muitos deles
crianqas. Os assassinatos em lugares piblicos se
tornaram freqtientes, especialmente na periferia da
cidade. As pessoas posam para o fot6grafo, fazem
galhofa, se divertem. O cadaver 6 um detalhe perdido
no cenario. A morte perde o seu impact. A vida vale
pouco, ou nada.
Assim, nio me surpreendeu a pilhagem sofrida pelo
cadaver de um pedestre imprudente ou alcoolizado,
que morreu ao ser atropelado por uma motocicleta na
avenida Almirante Barroso. A morte perdeu sua
solenidade. O home desconhecido ficou estendido no
asfaltado sem seus pertences e a miquina de
fotografia que carregava. Se nio se respeita a vida,
por que respeitar a morte?
Este 6 um Brasil que a cada dia se mutila, se fere,
se mata. Nio 6 mais o pafs do future. Alias, ja naio era
mais quando Stefan Zweig, autor da frase, se suicidou,
em Petr6polis, meio s6culo atras.


Journal Pessoal P QUINZENA ]UNHO DE 2006 7


Contradigfio

A Corregedoria de Justiia do Estado rem, como nunca.
combatido a grilagem de terras no Pard. O cerco esti sendo
feito a partir dos cart6rios, onde litulos falsos ou irrealmenre
dimensionados recebem o carimbo de legalidade. Mas parece
que os profilIiricos atos da correiqio judicial nao estlo sendo
observados pelos colegiados do tribunal, nos quais algumas
decisOes acabam favorecendo os mesmos grileiros e punindo
os que. como a Corregedoria, os combatem.

Livro bomn
A Visio fez a melhor promorqo de livros dos iltimos tempos.
Bons titulos foram ,endidos a 10, 5 e 3 reais. Uma promoqo e
boa quando os clients realmente tm \antagem e a empresa
n~o sofre prejuizo. Se der um lucro, de qualquer tamanho, vale
a pena. E muito melhor do que deixar os livros de
transformar-m em ponia de estoque. corroendo o capital fixo.
A divulgaqco e o gesto cativante para o consumidor.
principalmente aquele que tern consciEncia da pechincha, sio
ganhos adicionais de valor de prestigio. Para livrarias, 6 o
melhor marketing. Para quem gosta de livros. uma
oportunidade just. Tomara que o Pio repita a iniciativa. E os
concorrenres o Lmitem, indo aldm dos descontos con\ encionais.









Correio do Para:




histo6ria gloriosa


Todos conhecem o esplendor da belle
epoque, quando a dinheirama da
exploraqio da borracha, entire o final do
s6culo XIX e as duas primeiras d6cadas
*do s6culo seguinte, financiou uma vida
exuberante nas duas maiores capitals da
Amazonia, Bel6m e Manaus. Mas raros
trataram dos neg6cios escusos e dos
esquemas ilicitos que drenaram boa parte
dessa renda para poucos bolsos. Uma das
fontes excepcionais dessa hist6ria nio
official esti nas 619 ediq6es do Correio
do Pard, o journal que Bento Tenreiro
Aranha 1II escreveu, as vezes quase
sozinho, entire 1892 e 1894.
A coleqio desse journal esti
praticamente complete, em microfilmes,
na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.
Consultando-a, o historiador Vicente
Salles (que completari 75 fecundos anos
em novembro) garantiu que a saga desse
pequeno e bravo peri6dico fosse
transmitida aos leitores de hoje. Numa
s6rie de artigos, originalmente publicados
em A Provincia do Pard e depois
reunidos em Marxismo, Socialismo e os
Militantes Excluidos (Editora Paka-
Tatu, 171 piginas, 2001), ele mostra o
combat que Tenreiro Aranha deu is
concessoes feitas pela administracao
p6blica a particulares, atrav6s de
contratos leoninos em favor do
concessiondrio, que enriquecia
rapidamente. O president da provincia
(o governador na fase imperial), Jos6
Coelho da Gama e Abreu, o bario de



Cultura
Custard pouco mais de meio milh5o
de reais, durante cinco meses, a
seguranqa armada e nao desarmada
para a X Feira Pan-Amaz6nica do
Livro, que sera realizada no Hangar. A
Secult tamb6m pagard quase 500 mil
reais pelos serviqos de engenharia para
a instalaqao do sistema de climatizacao
do Centro de Convenq6es da Jdlio
C6sar. Seri ambiente de montanha.


Maraj6, concede o monop6lio do serviqo
de agua ao americano Edmund
Crompton, que o transferiu A Companhia
das Aguas do Gram-Para, da qual, por
mero acaso, naturalmente, era o barao o
principal acionista.
Quando o Correio denunciou o
"contrato das aguas", o imp6rio fora
substitufdo pela repiblica, mas para
Gama e Abreu (hoje nome de rua) isso
nada significou: ele era intendente
(prefeito) de Bel6m. Nem se preocupou
em contestar as seguidas mat6rias
escritas por Tenreiro Aranha, o terceiro
de uma genealogia com participaFio
important nas hist6rias do Pard e do
Amazonas (seu av6 instalou a provincia
do Rio Negro, sendo seu primeiro
presidente: "A resposta, silenciosa e
eficiente, foi dada via tribunais. O
jornalista foi processado pelo 'crime de
inj6ria impressa'", informa Vicente
Salles, acrescentando:
"A questio se limitou as pdginas do
Correio Paraense, forcado a tratar do
assunto durante virios meses, com
extensas mat6rias. Esti claro que ajustica
6 dos poderosos, dos que fazem as leis, e
Bento Aranha sentiu o peso da lei.
Lamentavelmente, a questio desvia o
journal do interesse coletivo, empenhando-
se ele na defesa da pr6pria pele".
Bento Aranha foi condenado a nove
meses de prisao e a pagar 800 mil r6is de
multa, a pena maxima prevista no artigo
319 do C6digo Penal entio vigente, nao


pelo crime de subversao, mas pelo de
injiria, pela justica estadual. Teve que
abandonar o seu journal e se refugiar cor
amigos, no interior do Estado. A tradiaio
no Pard era mais de empastelamento de
jorais e perseguicqo ajornalistas do que
de apreqo pela liberdade de expressao e
de imprensa.
O pr6priojornalista, embora pioneiro
da causa republican no Pard
(considerava-se o mais velho republican
no Estado), nio ignorava a ameaga que
pesava sobre sua atividade, mesmo sob
o regime republican pelo qual lutara
durante mais de duas d6cadas. Escreveu
no nimero sete do seu journal, cor sua
linguagem clara e direta:
"Os tribunais de justiga foram
constituidos por vendilh6es, que mediante
qualquer preqo e a quem mais vantage
Ihes ofereqa, vendem a consciencia,
deturpam a justiqa, violam o direito e
manifestam ostensivo desprezo a lei!".
Vicente Salles lamenta a falta de
atenqio dos historiadores para esse
journall de idWias", aquele que "se op6s
mais vigorosamente ao status quo". Mas
nao tem d6vida: "Certamente, os dois
anos de sua existencia contam a hist6ria
tumultuada dos primeiros tempos da
Repiblica no Brasil e no Pari".
Uma hist6ria perseguida e escondida,
mas que pulsa a espera de quem a
descubra e a reapresente aos que devem
aprend&la melhor, se nio quiserem ser
esmagados pelos d6spotas de sempre.


R JUNHO DE 2006 I-QUINZENA Journal Pessoal


Perdio
Pe9o novamente perddo aos leitores por mais uma ediqio sacrificada
deste journal. Os motives dessa limitaq~o, todos ji sabem. Estou sendo
processado, dentre outros motives, por dizer que fui espancadc, quando o
agressor declara, alto e bom som, inclusive em juizo, que fui "apenas"
agredido. Sou acusado mesmo quando nem uso a expressao "espancado",
que e sinonimo de "agredido", atW mesmo do ponto de vistajuridico.
Surrealismo da pior esp6cie, que me impede de melhor informar meus
leitores e tornou minha vida um inferno.







CARTAS


Azedume


Juiz


Finalmente, voc6 conseguiu tocar no
assunto Belo Monte sem o azedume de
costume (JP n 369, pig. 3). Ave! Quan-
to a mat6ria sobre o m6dico, escritor e
diplomat Guimaraes Rosa (pig. 9), em
que pese a importfincia de sua produqao
literiria, sempre incensada por seus apo-
logistas, cabe-lhe, na minha modest opi-
niao, o pecado de ter elitizado a lingua-
gem matuta das "Gerais". Portanto, esti
coerente com a sua afirmaqAo no JP sob


MINHA RESPOSTA


Infelizmente, o azedume que o leitor diz
que desta vez, felizmente, faltou em mini no
trato de Belo Monte, sobrou-lhe diante de
Guimnares Rosa. Certamente James Joyce
jamais conseguiria prosear em portugues,
mas se aventurar na lingua de Shakespeare
nuncafoi umn desafio impossivel para o nosso
Rosa. Quemn quiser tirar as dividas, bastar6
ler a correspondencia dele corn os tradutores
dos seus livros, competentes no caso do


enfoque, quando diz: "O escritor nio
existe sem o sertanejo, mas 6 verdade
que o traiu". Para encerrar, gostei da
comparaqio cor James Joyce, porque
ambos conseguiram ser esquecidos pela
maioria dos leitores mortais. Da para
imaginar Joyce dominando o nosso ver-
niculo e Guimaraes Rosa "proseando
mineiramente" na lfngua inglesa. A hu-
manidade nio merece tamanho castigo.
Rodolfo Lisboa Cerveira



alemdo e (bern menos) do italiano, e
desastroso em matnria de lingua inglesa. Ndo
conheci ningudm mais intimo de linguas
estrangeiras quanto o mineiro de
Cordisburgo. Se Joyce e Guimardes Rosa
sdo castigos para Cerveira, para outros
leitores sdo presents da inteligencia. Como
dizia o poeta da nuisica, "o que dd pra rir
dc pra chorar, questao s6 de peso e de
medida ".


MEMORIAL


0 "clown" do futebol


Norman Percival Joseph Davies
fez 6poca no futebol paraense
como "Cacetio". Aqui ele
aparece num jog;o cor o grande rival, o
Clube do Remo, em estidio lotado, em
1957, quase meio s6culo atris. O
imigrante de Barbados era capaz de
jogadas de craque, seguidas de lances
de peladeiro. Lembro de um jogo, nessa


6poca, contra o grande Botafogo de
Garrincha, Didi, Nilton Santos.
"Cacetio" disparou um torpedo em
plena corrida. Depois, acertou a
bandeirinha de escanteio no lugar da
bola. Por diferentes motives, ria-se
muito nesses jogos. O futebol era a
alegria do povo. E nio era por
marketing.


Estou chocado cor as
manifestaq6es dos desembargadores
sobre a conduta do juiz Amilcar
Bezerra (JP 368). Mais chocado ainda
corn os adjetivos que ele Ihe atribui.
Entio o jornalista 6 que 6
"hip6crita" e "covarde"... Sei naio...
Daqui de onde estou vendo a
coisa, ojuiz faria mais justiga se
pronunciasse esses adjetivos aos
berros! diante do espelho.
De acordo cor a desembargadora
Rita Xavier, o tal juiz costuma se servir
de "..termos ofensivos as parties,
terms grosseiros...". A
desembargadora Eliana Abufaiad
tamb6m disse que ji reportou sobre o
"...modo desrespeitoso como o juiz se
dirigia a parte." Cor tudo isso, a
conclusion geral 6 de que o cidadao 6
um bom juiz, "corajoso, honest,
capacitado, destemido e competente.
Nio estou entendendo nada! Se o
juiz costuma se dirigir a qualquer das
parties de modo "grosseiro",
"ofensivo" ou "desrespeitoso", para
mirm s6 h duas hip6teses:
1) Ele 6 mal educado, deselegante
e desbocado. Logo, 6 um
despreparado para a funqio de julgar.
Nao hi como considerA-lo
"capacitado" ou competentte.
Por si, ele ji 6 um desrespeito a
elevada e nobre funqio que exerce.
2) Ele nao consegue controlar suas
pr6prias emoq6es. Neste caso, nio tem
equilibrio, atributo essencial a
funaio dejulgar. Indo direto ao
ponto: 6 um desequilibrado.
Em qualquer dos dois casos, o
cidadao nio ter condicqes
de serjuiz. Nio hi
como nem porque
mant6-lo em tal funqio.
Insisto em dizer: o Judiciirio
brasileiro necessita ser totalmente
reestruturado. O modo como se recruta
e selecionajuiz tern que
ser revisto e aperfeiqoado. A
ausencia de control externo favorece
o corporativismo que, somado a
vitaliciedade no cargo, result na
formaqgo de uma casta
acima de tudo e de todos.
Elias Tavares


Journal Pessoal iP QUINZENA jUNHO DE 2006 9









MEMORIAL DO COTIDIANO


Subversivos
O Conselho Permanente
de Justica do Ex6rcito, em
setembro de 1964, se consi-
derou incompetent para pro-
cessar as pessoas press e
indiciadas como subversivas
no Para. Examinando as mais
de 500 folhas dos autos do in-
querito aberto no Comando
.lilitar da Amaz6nia, em Be-
16m, os integrantes do conse-
lho nio encontraram "provas
ou indicios de que a subver-
sao viesse sendo tentada me-
diante ajuda estrangeira", con-
forme o enquadramento feito
no inqu6rito. Admitiam que a
subversio pudesse ser encon-
trada "em outras figures cri-
minais", tamb6m previstas na
Lei de Seguranca Nacional.
Nesse caso, como a compe-
tencia para apreciar a mat6-
ria era da justica comum, os
processes derivados dos c6-
lebres IPMs (Inqu6ritos Poli-
ciais Militares) foram remeti-
dos ao Tribunal de Justica do
Estado.
Os acusados de praticar
"delitos contra o regime poli-
tico e a ordem social vigente
no pais" eram Benedito Mon-
teiro, Francisco Xavier
Cayres, Miguel Gomes Bran-
dao, Benedito Pereira da Ser-
ra (ji entao falecido), Elimar
Trein, Hon6rio Francisco da
Silva e Sousa, Carlos de Sa
Pereira, Sandoval de Queiroz
Barbosa, Armindo Barroso de
Carvalho, Adelino Cerqueira,
Raimundo da Costa Jinkings,
Rui Guilherme Barata, Zaca-
rias Fernandes da Silva, Ma-
rio de Assis Gonqalves de
Souza, Benedito Teixeira de
Amorim, Raimundo Cavalei-
ro de Macedo, Manoel Faus-
to Bulcio Cardoso, Cldo Ber-
nardo Macambira Braga, Wil-
son da Silveira, Itair Silva, Joio
Luiz Barreiros de Aradjo,
Humberto Lopes, Raimundo


Francisco Pereira e Philadel-
pho Machado da Cunha.
Apesar de indiciados, nio
tiveram sua culpabilidade
comprovada pelo relator do
inqu6rito Wilson da Silveira,
Itair Silva, Elimar Trein, C16o
Bernardo, Benedito Amorim,
Francisco Cayres e Raimun-
do Pereira.

Predio
O Edificio Banna era "a
obra imobiliaria do moment
em Bel6m". Isso, em 1964.
Na avenida Independencia
(hoje, Magalhies Barata),
cor 17 andares, 153 aparta-
mentos de cinco tipos diferen-
tes, o tdrreo com 32 lojas, "in-
clusive galeria commercial um
sub-solo, e garage com 80
vagas para carros (insuficien-
tes, evidentemente, para todos
os futures moradores). Proje-
to e construcio de Alcyr Mei-
ra, incorpora:io de Adel Slei-
man Banna. A venda, com fi-
nanciamento de 50 meses,
"sem reajuste de preco", era
feita pela carteira imobiliaria
dos escrit6rios Nilson Men-
donca e Carlos Alcantarino.

Livros
Cor o patrocinio do Lions
Clube de Bel6m, a Livraria
Vit6ria instalou, em setembro
de 1964, uma banca de revis-
ta na esquina da avenida Pre-
sidente Vargas cor a Manoel
Barata, exclusivamente para
vender livros de bolso das
Edioqes de Ouro. Parte da
receita seria destinada as
obras sociais do Lions. Os li-
vros seriam vendidos exata-
mente pelo preco de catalo-
go, segundo a Vit6ria, e nio
cor acr6scimo de 10% ou
20%, como era a regra.

Terreiros
A policia civil passou em
1964 a cadastrar e controlar


os terreiros de macumba,
atrav6s da Federaqio Espiri-
ta e Umbandista, criada um
pouco antes. Os primeiros ter-
reiros registrados foram: Nos-
sa Senhora da Conceiqio, na
rua Perebebuf, na Pedreira,
que funcionava apenas hs sex-
tas-feiras, entire 21 horas e
uma da madrugada; Santa
Barbara, na rua Vileta, no
Marco, que funcionava de 2a
a 6a feira, entire 8 e 18 horas;
Rompe-Mato, na Munduru-
cus; Branco Ogum, na Tava-
res Bastos; e Nag6 Nossa
Senhora da Batalha, na Eze-
riel de Matos. Nenhum des-
ses terreiros usava atabaques.

Tuna
Ren6e Carrapatoso Coe-
lho era "a campeonissima
cruzmaltina, grande valor da
aquatica tunante" em 1968,
quando a Tuna foi bicamped
infanto-juvenil de natacio pa-
raense. Renee tinha alguns
records na sua conta e era
uma competidora de padrdo
national. Seu irmio, Andre,
tamb6m ganhou competiq6es
e marcou records. Outros
atletas de destaque: a atual
senadora Ana Jl6ia Carepa (e
seus irmios Artur, Luiz Rober-
to e Joio Carlos), o atual rei-
tor da UFPA Alex Fi6za de
Melo (e seu irmio Andre),
Ge6rgia Teixeira, Rosana
Maiorana (a mais velha dos
sete irmios), Joio Carlos Bra-
ga, Ary Chaves Braga (e Al-
cir).
A Tuna era poderosa e era
uma familia.

Ex-cabeludos
A policia comeeou em
1969 a "Operaqio Navalha",
uma campanha contra cabe-
ludos, raspando as cabeqas de
Alberto Batista e Pedro Am6-
rico de Souza. Os dois inte-
grantes da "Juventude Trans-


viada" apreciavam baseados
de maconha, tranqiiilamente,
em plena manhi, na esquina
da avenida Almirante Barro-
so cor a Travessa Curuzu.
Safram carecas da Central.

Liberal
Em 20 de marco de 1980,
Romulo Maiorana registrou,
"em poucas linhas" do "Re-
p6rter 70, em O Liberal:
"O Grupo LIBERAL em
tempo de aquisigio de novos
equipamentos para os seus
tres veiculos, mantendo-os
'up-to-date' com a evolu5io
t6cnica de journal, radio e TV,
No biro os n6meros de pes-
quisas falam da nossa posigio
no mercado. ***** De papel,
por exemplo, em fevereiro, O
LIBERAL utilizou 320 tone-
ladas. A Provincia, 70, e o
Estado do Pari, 35. *****
Anote-se que o consume de
papel de O LIBERAL repre-
senta quase o dobro do que
usam, reunidos, todos os jor-
nais editados de Fortalexa at6
o Acre, conforme dados ofi-
ciais fornecidos mensalmente
para n6s. ***** Na leitura de
jornais em Bel6m, o Ibope de
fevereiro registra 43,2% para
O LIBERAL, 8,8% para a
Provincia e 6,0% para o Es-
tado. ***** Entre os telespec-
tadores, os n6meros do Ibope
do mes passado mostram a
TV Liberal com piques de
audiencia em 62,0% entire 18
e 20 horas, contra 9,7% do
Canal 2 e 3,9 do Canal 4.
***** Na faixa de 20 as 22
horas a quente do horario
nobre a audiencia da TV
Liberal soma 70,8%. ****
Passando para o ridio, os ni-
meros do Ibope em fevereiro
apresentam a Radio Liberal,
este mes, na ponta, cor
10,29%, contra 9,4% da Ra-


CONTINUA NA PAG II


JUNHO DE 2006 IoQUINZENA Jornal Pessoal







dio Marajoara. As duas bri-
gam, mes a mes, pelo primei-
ro lugar. Em terceiro, vem a
R6dio Guajard, cor 1,54%.
***** O resultado e que o
Grupo LIBERAL, para man-
ter sempre seu padrao de qua-
lidade e dar suporte aos indi-
ces acima mencionados, fe-
chou a aquisigao de uma mo-
derna mdquina Metroliner,
corn capacidade de imprimir
96 piginas de uma s6 vez a
uma velocidade de 60 miljor-
nais por hora, e, tamb6m, de
um milhao e meio de d6lares
em equipamentos da mais
avanqada tecnologia da radi-
odifusao para aprimoramento
da TV e implantaqFo do novo
parque transmissor de ondas
m6dias e tropicais da Radio
Liberal. ***** Os gazeteiros
estao felizes. A partir do pr6-
ximo sdbado eles terao, a meia
noite, a ediqio de O LIBE-
RAL de domingo".
Na abertura destas "em
poucas linhas", a seguinte
nota: "L6cio Flivio Pinto vai
lanqar, dia 3 de maio, o 'Jor-
nal da Terra', impresso nas
oficinas de O LIBERAL. Nio
serd vendido nas bancas, pra-
ticamente, diz o L6cio, porque
as bancas de Bel6m sio ce-
mit6rios dejornais, ao contri-
rio do que acontece nas ou-
tras capitals".
Quem nao atenta para o
passado esti condenado a re-
peti-lo. Mas como farsa, ad-
vertiu o fil6sofo alemio.


PROPAGANDA




'







C. u "



.. .. j.. ,

rIc PA A. "



VOT F





ote em quem morece o seu vcte
'(. er .

ADfRIANO GONCALVES
PARA DEPUTADO FEDERAL


Campanha ha
40 anos

Na eleiiao de
1962, o anti-baratista
Adriano Gonaalves
(da Coligaaio
Democratica
Paraense) era
candidate a Camara
Federal. Numa
dispute ainda sem
marqueteiros. Mas j
cor alguns cuidados
no an6ncio.


FOTOGRAFIA


Juscelino aqui

O president Juscelino
Kubitscheck em visit a
Bel6m, na segunda metade da
decada de 50. Ao seu lado, o
governador Magalhies
Barata, que morreria um
pouco depois, ainda no
exercicio do mandate, de
cancer. Na cobertura
jornalistica, Mario Couto (ji
falecido) e Moacir Clandrini,
o Mestre Cala, ainda l6pido e
fagueiro.


Journal Pessoal /' QUINZENA JUNHO DE 2006 11







DOCUMENT


Amazonia parade

Escrevi este texto, em outubro de podendo permitir tanto o carregamento de
1973, para o semandrio Opinido, edi- min6rio como de carga geral.
tado no Rio de Janeiro. A censura ndo A soluCqo hidrovi6ria abriria caminho
deixou a material sair. Publico-a pela para a exploragqo de uma area riquissima
primeira vez, mais de 30 anos depois, ao sul do Estado, mas de acesso at6 aqui
por achar que ela apresenta alguns corn- diffcil pela intrafegabilidade de certos tre-
ponentes importantes da hist6ria recent chos do Tocantins. E afastaria fantasmas
da Amaz6nia, decisivos ate hoje: o po- cada vez mais reals que anuviam o future,
der decis6rio autoritdrio de Brasilia at6 algum tempo considerado promissor, da
sobre a Amazonia; a 16gica dos gran- "metr6pole da Amaz6nia". A construgqo
des projetos de enclave; a tentative de do sistema de estradas na Amaz6nia elimi-
.'ado e resistOncia internal; o despre- nou a dependencia que os outros Estados
paro das elites para enfrentar os desa- amaz6nicos tinham do entreposto comer-
fios que lhe sdo impostos; o carter de cial tradicionalmente representado por Be-
vanguarda das questdes-chave na re- 16m. Em decorrencia disso, a cidade dei-
gido; a falta de um projeto end6geno xou de ser tamb6m o centro administrative
de desenvolvimento, que interpreted as amaz6nico. Cor evidence exagero, Felis-
aspiraqoes locais e maximize o rendi- berto Camargo alertou para a possibilida-
mento de suas riquezas. Aldm disso, rei- de de o Pard se transformar numa colonia
vindicaCdes entdo apresentadas conti- do Maranhio.
nuam hoje inatendidas e problems que Na epistola especial que distribui por
deviam e podiam ser evitados, se ocasio doCfrio, amaiorfestareligiosada
consumaram. Parece ate que estamos Amazonia, no segundo domingo de outu-
condenados a quadratura do circulo. bro, o arcebispo Alberto Ramos abando-
Espero que esse olhar para trds aju- nou os temas religiosos e celestiais para
de a ver melhor o que estd a frente. lamentar "o amargor da decad6ncia" de
Em circunstancias normais, a media Bel6m: "A fatalidade hidrogrifica vincula-
seria recebida corn discursos euf6ricos da va toda a rede do vale a nossa metr6pole.
bancada amaz6nica no Congresso, mere- Agora, estradas rasgam as florestas, vindo
ceria editorials ufanistas nosjomais e men- quebrar o belgmcentrismo, assim como as
sagens de agradecimento dos governado- aeronaves, libertas nos c6us nublados da
res. Mas a decisao tomada na semana pas- Amaz6nia, eliminam escalas tradicionais".
sada pelo Ministro das Minas e Energia, A indignaqio metaf6rica do arcebispo,
Dias Leite, de implantar em Bel6m a mai- trio ao seu gosto, aponta mais inimigos:
or usina de alumfnio do Brasil, para trans- "Sobe do sul a mar6-montante da pata do
former em metal a bauxita do rio Trombe- boi, devastando seringais e castanhais, e,
tas, foi recebida quase corn frieza na capi- muitas vezes, espezinhando direitos huma-
tal paraense. Ojornal A Provincia do Pard nos". E a questio crucial: "Nao temos o
dedicou-lhe apenas um titulo de pigina in- direito de extrair, nem de beneficiary, nem
terna, no qual se exibia o estado de espirito de exportar nossos min6rios, que a liberali-
reinante: "Usina de alumfnio vem; porto de dade divina tao generosamente encravou
escoamento vai". no amago de nossas glebas". A descriqio
Para os paraenses, ganhar uma usina das perdas 6 completada, numa contabili-
de aluminio nao compensa a perda do por- dade bem provinciana: "Ja perdemos o
to de escoamento do ferro da Serra dos Comando Militar da Amaz6nia (transferi-
Carajis, a ser construido em Itaqui, no do para Manaus) e nossos navios estao
Maranhaio. Vozes como a do engenheiro sendo vendidos como sucata, enquanto
Felisberto Camargo e do arcebispo de Be- mais da metade de nosso territ6rio subtrai-
16m, dom Alberto Ramos, ji classificaram se ajurisdicio estadual".
essa perda como "mais uma manifestagqo Embora o arcebispo ache que nem tudo
de colonialismo intemo". A construqgo do esta perdido, sua catilinaria ter uma su-
porto em territ6rio paraense, a 90 quil6me- gestiva pergunta "ja estamos caindo, se-
tros de Bel6m, teria a funqio nao apenas nhora?" cuja resposta, provavelmente a
de manter no Pari os beneficios de uma falta de um element secular indicador, 6
riqueza localizada dentro de seus limits, transferida para as atribuiq6es da padroei-
mas muitos efeitos paralelos: o atual porto ra dos paraenses, Nossa Senhora de Na-
de Bel6m, vitimado por um assoreamento zar6. Menos crentes em intervenq6es divi-
progressivo, que reduziu o calado do seu nas, deputados e senadores da Amaz6nia
inico canal de acesso a profundidades va- decidiram, na semana passada, iniciar um
riando entire 9 e 7 metros, esta condenado "esforqo conjunto" nas duas casas legisla-
para as grandes embarcaq6es. O porto da tivas para foraar o Minist6rio das Minas e
ponta da Tijoca seria a solugqo oportuna, Energia a rever sua decisao de construir


uma ferrovia que leve o min6rio para o
Maranhdo. Aldm das bancadas do Pard,
Amapo, Amazonas, Acre, Rond6nia e Ro-
raima, ha o apoio ticito de Goids, que seria
beneficiado cor a construqio da hidrovia.
Um grupo de 13 dos mais influentes em-
presarios paraenses tamb6m comecou a
percorrer os ministdrios das Minas e Ener-
gia, Indistria e Com6rcio, Transportes, Pla-
nejamento e Interior, entregando um subs-
tancioso document que rrostra a vanta-
gem da opFio fluvial atrav6s do Pard.
Prevendo discusses, o ministry Dias
Leite afirmou logo que nao mudard de de-
cisio. Ele disse em Brasilia que o governor
ji gastou cinco milh6es de d6lares corn
equipes de alto nfvel, que estudaram as duas
alternatives. Dessas equipes participaram
t6cnicos da United States Steel, da Com-
panhia Vale do Rio Doce e de firmas espe-
cializadas em levantamentos desse tipo.
"Interesses locals nao vio afetar estudos
em que estio em jogo interesses nacio-
nais", disse Dias Leite.
Ele acha que nio esti prejudicando nin-
gu6m e argument cor a viagem que fard
no dia 3 de novembro ao Japao, onde tra-
tard da exploraqgo dajazida do Trombetas
(1). "Para se ter uma id6ia da importancia
desse empreendimento disse ele basta
dizer que a producao annual de alumfnio no
Brasil 6, hoje, de 60 mil toneladas, e a me-
nor produCio estimada para Oriximind serd
10 vezes maior", Corn essa decision, o mi-
nistro espera satisfazer os paraenses, mas
6 dificil que o consiga. Comentando o anin-
cio, um deputado observou que a usina vai
ser instalada em Bel6m porque Sio Luiz
fica muito long da mina.
(1) A bauxita do Trombetas deve-
ria ser explorada originariamente pela
Mineraqdo Rio do Norte, da qual a com-
panhia canadense Alcan era a princi-
pal acionista. Mas em junho do ano
passado, tres meses depois de conseguir
a aprovaqdo da Sudanm para o seu pro-
jeto, de 255 milhoes de d6lares, o maior
de todos ate entdo, a Rio do Norte pa-
ralisou as suas atividades. Argumentou
que a retracdo do mercado diminuira
substancialmente a procura do produ-
to, tendo como conseqiiuncia imediata
a baixa do prego. A oferta de mais bau-
xita complicaria a situadio. Quando
aprovou o projeto, numa de suas ses-
soes mais polemicas, a Sudam conside-
rou o empreendimento "bastante estd-
vel devido a garantia de suprimento de
minerios e sua colocaqio no mercado
extenmo". Um ano e meio depois o mer-
cado jd parece curado.

Journal Pessoal
Editor: Lucio FIlvio Pinto
Edigio de Arte: L. A de Faria Pinio
Produgio: Angelim Pinlo
Contato: Tv Benamin Constant 845.203'66 053-
040 Fones: (091) 3241-7626
E-mail: ornal@amazon corn tr




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