Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00297


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ornal
A AGENDA AMAZOF


\NIC


CORE DE CARA.
GANHO DE VALOI

Pessoa JORNALISMO
A F I LJCIO Fl AVIO PINTO INDISPENSAVEL


JUNHO DE 2006 1IQUINZENA N 369 ANO XIX R$ 3,00


AINA
PGINA 3


PAGINA 4


MULTINATIONAL


Alcoa aqui:


boa noticia?


A multinational americana esta mesmo disposta a refazer sua hist6ria na Amazonia? E o que
anunciam seus representantes, prometendo um projeto diferente para o aproveitamento da
jazida de bauxita de Juruti. Ha motives para acreditar?


tora mundial de aluminio, corn
faturamento annual de 25 bilh6es
de d6lares, fincou sua bandeira
no Pard, comprando a jazida de bauxita
que pertencia ao miliondrio americano
Daniel Ludwig. O valor da transaq~o nun-
ca foi divulgado oficialmente (falou-se
entao em 50 milh6es de d6lares), mas se
o governor brasileiro tivesse segurado a
transfer6ncia por mais um mes os direitos
de Ludwig caducariam e ajazida retoma-
ria gratuitamente ao patrim6nio piblico.
At6 1988 a Alcoa permaneceu senta-
da sobre aquele que era o terceiro maior
dep6sito de bauxita do Estado (e do pais).
Em 1988 a nova constituiq~o estabele-


ceu que o direito minerario nao exercido
no prazo de um ano caducaria e que a
concessdo outorgada a uma empresa
estrangeira seria nacionalizada em qua-
tro anos se nao produzisse.
A Alcoa tratou de mostrar suas car-
tas. Primeiro, protocolou um projeto con-
vencional, com investimento previsto de
437 milh6es de d6lares, para produzir qua-
tro milh6es de toneladas de min6rio numa
primeira etapa. No ano seguinte mudou
tudo: a escala j era de apenas um milhio
de toneladas e o investimento se reduzira
a US$ 70 milhoes. Nio inclufa mais a fer-
rovia (o transport de bauxita seria por
caminhio), a vila residential fora substi-
tuida por um acampamento e os empre-


gados diretos por funcionarios terceiriza-
dos da Construtora Camargo Corria, que
seria contratada como empreiteira (um
pouco antes o generoso governor federal
autorizara a Camargo a aplicar US$ 200
milh6es do lucro obtido na construqco da
hidrel6trica de Tucuruf na compra de par-
ticipagdo minoritdria naAlumar, a fibrica
de alumina e aluminio que a Alcoa, em
cons6rcio com a Shell, finalizava em Sdo
Luis do Maranhio).
Corn essa dimensio, a Alcoa nao es-
tava implantando uma mina de bauxita: a
rigor, ia fazer garimpagem de bauxita, a
primeira cor essas caracteristicas na
hist6ria da mineracqo. A ironia dos criti-
CONTINUA NA PAG 2







CONTINUACAO DACAPA
cos tinha sua razao de ser: o verdadeiro
objetivo da Alcoa era forcar seu ingres-
so na Mineraqao Rio do Norte, entio a
6nica produtora de bauxita da regido (hoje,
dentre as maiores do mundo, cor mais
de 17 milh6es de toneladas anuais).
A canadense Alcan, concorrente di-
reta no mercado international, vetava a
participaqio da multinational americana
(embora dela tenha se originado), attitude
que repetiria anos depois contra a norue-
guesa Norsk Hydro, perdendo de novo a
parada. Mas, al6m de contar cor o apoio
de outra s6cia da MRN, a Billiton (tam-
b6m Shell), a Alcoa colocava na mesa
um argument de forqa: se desenvolves-
se a mina vizinha a da Rio do Norte, po-
dia forcar os precos para baixo e com-
prometer o equilibrio econ6mico-financei-
ro da empresa, que vivia na 6poca um
moment delicado. Moral da hist6ria: a
Alcoa entrou para a sociedade (6 a ter-
ceira maior cotista) e sua mina pr6pria
nunca saiu do papel. Acabou incorpora-
da ao ativo da MRN, uma associaqgo de
multinacionais sob o control da Compa-
nhia Vale do Rio Doce.
Em agosto de 1989, quando fui ao
Hilton ver a empresa americana apresen-
tar o seu garimpo de bauxita, a impres-
sio que me ficou do epis6dio foi a pior
possivel. Conforme diziam testemunhos
de cr6dito, a Alcoa integrava o grupo das
corporaq6es marcantemente predadoras,
capaz de atropelar tudo que encontrasse
pelo caminho at6 alcanqar seu objetivo.
Na 6poca, ainda havia a esperanqa
de se estabelecer um setor integrado de
aluminio no Para, ou pelo menos atenuar
o modelo selvagem que estava sendo
posto em pratica. O cartel teria que se
sujeitar as excepcionais condiq6es do
Estado, cor seu potential de energia de
fonte hidrica, sua reserve de bauxita (a
terceira maior do mundo), mio-de-obra
relativamente barata e tolerincia a ativi-
dade poluidora. O Pard era um dos me-
lhores locais do planet para produzir alu-
minio e ainda 6. E se os mais importan-
tes produtores acabariam tendo que vir
para ca, podia-se impor-lhes algumas re-
gras que nos fossem mais favoriveis.
Mas nada disso aconteceria. E nio pela
ausencia de condiqes objetivas para uma
political de melhores resultados. O p6lo de
Barcarena, sem a plant de alumina da
Alunorte, cuja implantaqio foi retardada,
estava desequilibrado. A bauxita do Trom-
betas, na menos onerosa das altemativas,
navegava 1.700 quil6metros at6 a ilha de
Sio Luis. Cada duas toneladas de min6rio
eram convertidas em uma tonelada de alu-
mina (passando de US$ 50 para US$ 90/
100) e entao o produto voltava da capital
maranhense por 700 quil6metros para ser
transformado em metal na Albris.


Nessa navegaq~o irracional, o Pard
perdeu um bilhao de d6lares at6 a inau-
guragio da Alunorte, uma d6cada depois
do que estava previsto (e a Alunorte de-
via sair na frente da Albris justamente
para acumular alumina para a etapa se-
guinte do beneficiamento).
A Alcoa que reencontrei na semana
passada no mesmo Hilton nao parecia ter
mais nada cor esse passado ruim. Pela
primeira vez tive contato cor a c6pula de
uma multinational que vem a regiio quan-
do seu empreendimento ainda nio foi im-
plantado. Os quatro membros do conse-
Iho de administrator (dois homes e duas
mulheres), baseados em Nova York, fo-
ram acompanhados pelo president da
Alcoa Am6rica Latina, Franklin Feder, um
americano resident no Brasil que fala o
portugues sem qualquer sotaque.
Os executives chegaram discretamen-
te a Bel6m, ouviram cinco representantes
da sociedade civil e foram a Juruti com a
mesma intenqio: sentir o pulso (e, talvez,
o coraqdo) dos moradores locais. Nio
mais, por6m, como bwanas autoritirios ou
pirates arrependidos dispostos a purgar a
conscience mauvaise. Empresirios prag-
mfticos, evidentemente, mas cor sensi-
bilidade para um lance novo do jogo: o
custo social e ambiental da empreitada.
Os conselheiros da Alcoa ouviram al-
gumas palavras duras e critics diretas.
Ao inv6s de rechaqar as expresses, pa-
receram sinceramente interessados em
compreende-las, captando o conteido de
verdade que elas eventualmente possam
ter. Claro que nio irio reverter o que ja
estd em andamento simplesmente por
causa de tais arguments, por mais s61i-
dos que sejam.
Mas desta vez uma multinational (ou
uma empresa foranea, do outland, para
incluir na classificacao corporaq6es na-
cionais tio ou ainda mais estranhas a
Amaz6nia e freqtientemente hostis a
ela) parece disposta a incluir um element
novo a equalio de viabilizaqgo do seu
projeto: a aceitacgo da sociedade (al6m
da compatibilidade do seu neg6cio corn o
meio ambiente).
O moment mais important do en-
contro dos conselheiros da Alcoa corn
seus interlocutores da sociedade civil foi
quando o lider do grupo, Henry Schacht,
perguntou o que realmente os paraenses
querem: se satisfazem apenas cor mais
um projeto de mineraqco de bauxita, que
pode vir a gerar 400 milh6es de d6lares
como receita annual, depois de um inves-
timento de valor equivalent? Querem
uma plant de alumina (investimento ao
redor de US$ 800 milh6es)? Ou preten-
dem mesmo 6 uma metaldrgica de alu-
minio (mais de US$ 1,5 bilhao)?
A Alcoa, aparentemente, consider
satisfat6ria qualquer uma das tres alter-


nativas, cada uma delas associada a di-
ferentes condicqes ex6genas (energia,
mio-de-obra, etc.), mas que pode ser
ajustada a estrat6gia mundial da empre-
sa. Se estimulada, por6m, pode ir at6 o
final da escala de transformaqao do mi-
n6rio.
Esse final 6 o lingoteamento? No
moment, 6. O maximo que se consegue
6 reservar alguns dias de producao de
aluminio liquido da Albris para as fibri-
cas de cabos e de metal da Alubar, ao
lado, em Barcarena (cuja demand re-
presenta 3% da producio). Diz a verda-
de econ6mica que a partir daf 6 inviAvel
manufaturar aluminio na Amaz6nia, pela
distancia dos grandes mercados. E?
Quem ja o demonstrou, em defesa ou no
ataque a essa "verdade"?
Uma grande contribuidio que a Al-
coa poderd dar ao Pari, em particular, e
SAmaz6nia, em geral, 6 demonstrar essa
equaqao. Para um trabalho intelectual-
mente competent e moralmente hones-
to, contari cor o apoio das pessoas de
boa vontade, se elas forem chamadas ao
long da construcao da nova verdade (por
isso mesmo, ji sem aspas).
Evidentemente, aAlcoa nao 6 uma ins-
tituicao de benemerencia nem uma agan-
cia de desenvolvimento. Mas se seu dis-
curso de desenvolvimento sustentdvel nlio
6 apenas uma etiqueta de neg6cio e se o
gesto inovador de seu board nio 6 uma
inventive jogada de marketing, a empre-
sa se reinstala na Amaz6nia cor uma nova
postura e num moment fecundo.
Nio em virtude do nivel da represen-
taqio da sociedade. O governor cresceu
do period 1981/89 para ca, mas, bem
pesadas as coisas, parece ter sido apenas
para atualizar o descompasso. Na interlo-
cudao official, a Alcoa (como qualquer ou-
tra empresa) nao encontra seguranca,
confiabilidade, determinaqdo e conheci-
mento de causa. O EIA-Rima do garim-
po de bauxita do Trombetas foi apresen-
tado a Secretaria de Satide, que tinha um
departamento minusculamente instalado
para dar conta da tarefa. Hoje, ha uma
secretaria mais t6cnica, mas o meio am-
biente continue a ser o rabo da fila da Sec-
tam (Secretaria de Ciencia, Tecnologia e
Meio Ambiente). A mineraqio 6 tamb6m
o residue no titulo da Seicom (Secretaria
de Inddstria, Com6rcio e Mineracio). E
uma estrutura inversamente proporcional,
do lado do control institutional, a das
grandes empresas que aqui v6m se insta-
lar. O gato cuida do leio.
Isso 6 ruim. Mas nio sera desastroso
se empresas conscientes de sua efetiva
responsabilidade social a assumirem nio
para atirar confetes sobre a massa nem
para comprar conivencias. Uma empre-
sa de padrao mundial como a Alcoa (e,
dentre n6s, a Companhia Vale do Rio


2 JUNHO DE 2006 ItQUINZENA Jornal Pessoil








Cobre de Carajas: agora, metalurgia


Todas as pessoas interessadas na
economic mineral acompanham cor in-
teresse a evoluqio do projeto da Salobo
Metais. Sera a primeira fabrica de cato-
do de cobre de Carajis, que jd tern uma
mineradora funcionando ha dois anos,
mas apenas concentrando o min6rio. O
que parecia uma desvantagem em rela-
qio a jazida da Salobo pode acabar se
tornando um avanqo.
Seu min6rio 6 mais duro e cont6m uma
proporgio inusitada de fl6or para o pa-
drio international. A Onica maneira de
explorer essa mina, que 6 a maior de to-
das as cinco j avaliadas em Carajds, se-
ria atrav6s da metalurgia. A simples con-


centragqo, como a que a Companhia Vale
do Rio Doce faz no caso do Sossego, 6
inviavel. Mas para chegar a placa foi ne-
cessirio desenvolver uma tecnologia nova,
substituindo a pirometalurgia pela hidro-
metalurgia. O teste commercial para valer
dessa tecnologia sera na mina da Salobo.
O president da CVRD, Roger Ag-
nelli, confirmou que a metal6rgica entra-
rA em funcionamento no pr6ximo ano,
durante sua mete6rica passage por
Bel6m para falar com o governador e
visitar os dois jornais diarios, provavel-
mente procurando aparar arestas, que se
afiam sobretudo em 6pocas eleitorais.
Uma vez que o teste d6 bom resultado,


sera precise incrementar as presses
para que o ciclo do cobre no Pard nio
repita o do aluminio, que parou no metal
basico e deu um pass apenas simb6lico
na transformaqgo seguinte (3% da pro-
ducio da Albras 6 beneficiada pela Alu-
bar em Barcarena).
A hist6ria do cobre (como a do niquel)
vai ser tio ou mais important do que a
do aluminio. Mas s6 o fato de que esses
dois valiosos produtos minerals assumam
essa dimensdo ji seria bastante para ti-
rar os paraenses do torpor e mobiliz~-los
para entrar nessa hist6ria. Nio a escre-
vendo, virardo nota de p6 de pigina em
seus dominios.


- I .. .. *o.t- ';; A '- .*. 7 -;-. i .1 ",..'L; .lg ha i I-C : ?Lt. A. Tn *. .l.CC HSW.i.il ..- -^ '


CONTINUA;AO DAPAG.2
Doce e a Petrobras), tem que exercer
sua funqgo pedag6gica, educativa, cultu-
ral. Nao simplesmente patrocinando
events, mas formando consciencias, ino-
vando em saber, ousando em posturas.
Para produzir aluminio em Juruti (de
US$ 100, por quatro toneladas de bauxi-
ta, que levam ao aluminio, para 12 vezes
esse valor por tonelada de metal resul-
tante da transformaqgo da mat6ria), a
Alcoa precisard de muita energia. O mais
ficil (embora nao o mais decent e jus-
to) para a empresa 6 entrar na socieda-
de para a construqdo da hidrel6trica de
Belo Monte, conforme o mais do que cri-
ticavel projeto concebido para o rio Xin-
gu pela Eletronorte.
Nao ha o que fazer sendo incorporar-
se a esse esquema conventional, ja tes-
tado em seus efeitos nocivos? Os "bar-
rageiros" insisted que naio. Mas, entdo,
por que nio inverter o sentido do apro-
veitamento do rio, caminhando de mon-
tante para jusante (e nao o contrario,
como tem sido feito na Amaz6nia), se essa
6 a regra da experiencia international? E
por que construir barragern de alta queda
se ja hi tecnologia para hidrel6tricas de
baixa queda, que, mesmo produzindo gran-
de quantidade de energia, nao inundam
areas maiores e nao necessitam de eleva-
da declividade, a onerar os custos?
As usinas precisam se ajustar a geo-
grafia amaz6nica. Se a Alcoa se conven-
cer disso e contribuir para o convencimen-
to geral, realizando de fato am projeto ino-
vador, inteligente, ajustado a natureza e ao
seu habitante, podera transformar o seu
capitulo amaz6nico em referencia para
uma nova hist6ria nos tr6picos. O desa-
fio 6 enorme, mas o resultado sera alta-
mente compensador. Com uma vantage
sem paralelo: sera unico.

Journal Pessoal 1 QUINZENA JUNHO DE 2006


Elei wo: surpresa


antes do dia 30?


At6 o dia 30, quando os partidos rea- tucanos ficario sem seus principals can-
lizario suas convencoes para escolher os didatos e sem nomes a altura para subs-
candidatos a eleicio de outubro, muita tituf-los.
coisa ainda podera acontecer na political Nesse caso, o deputado federal Jader
paraense. A principal seria a cassaqio Barbalho podera ser mesmo o candidate
do governador Simdo Jatene, da vice-go- ao governor, confirmando a expectativa
vernadora Val6ria Pires Franco e do ex- que criou corn suas apariqoes no horirio
governador Almir Gabriel, pr6-candidato reservado aos partidos politicos? S6 as-
tucano a voltar ao governor. sim ele seria capaz de mudar sua estrat6-
A hip6tese continue a ser submetida gia, que parece ter o objetivo de garantir
a teste ha quase tres anos: desde a apre- um lugar de destaque na composicqo corn
sentaqao do recurso contra a diploma- o PT. Sem outro nome de peso, o PMDB
qao de Jatene e Val6ria, estendendo-se a poderia, no maximo, reivindicar o lugar de
outros politicos do PSDB e aliados, o pro- vice-governador (seriao ex-vice-governa-
cesso entra e sai de pauta sem ser sub- dor Hildegardo Nunes?) e a vaga para o
metido a julgamento perante o Tribunal Senado, para o pr6prio Jader.
Superior Eleitoral. Isso, se o Partido dos Trabalhadores
O parecer do Minist6rio Piblico Fe- decidir substituir mesmo o deputado esta-
deral 6 favoravel A cassaqgo. O relator dual Mario Cardoso, de fraco peso eleito-
anterior, ministry Barros Monteiro, tam- ral, pela senadoraAna Jilia Carepa,jaicon-
b6m endossou a providencia. Mas os in- vidada. Nas pr6vias, Ana Jllia 6 a inica
cidentes processuais se repetiram tanto que se aproxima dos nomes de Almir Ga-
que ele completou seu prazo de dois anos briel e Jader Barbalho. Ja o ex-ministro s6
e saiu do TSE. Seu substitute, Jos6 Del- nao assume explicitamente a candidatura
gado, ja tem o novo voto, mas na semana ao governor por seu indice de rejeiqio, o
passada, cor mais um pedido de vista, o mais alto de todos. Sem o concorrente mais
julgamento foi adiado. Deve voltar a pau- forte, entretanto, a ponderacqo muda.
ta nesta semana. Havera decisdo? Se a definiqgo da pendencia no TSE
Corn seguranqa, ningu6m sabe dizer. for pela cassacio e ela acontecer antes
Mas 6 inegavel a forqa dos tucanos nos do dia 30, as convenqoes terio um des-
bastidores. Ela ter sido suficiente para dobramento. Se nio houver novidades at6
procrastinar a tramitacqo. Mas sera tam- li, o rumo sera o atual, no sentido de um
b6m capaz de reverter a tendencia deli- confront direto entire a tropa dos tuca-
neada pela cassaqgo? Se nao for, havera nos, muito bem fortalecida, e a alianqa
uma mudanqa radical nas expectativas PT/PMDB, mais explicit do que inicial-
sobre a dispute majoritaria no Estado. Os mente se esperava.









A sociedade precisa urgente


Carlos Augusto, Matheus
Pamplona, Thays Nascimento e
Ticiane Rodrigues, estudantes de
jornalismo, apareceram no mes
passado cor suas perguntas e
inquietag6es. Mas a entrevista
que Ihes dei nao foi simplesmente
mais uma: ficou com uma tal
carga emotiva que, ao receber a
transcrikao da conversa, achei que
talvez o leitor possa tirar proveito
do que foi dito. Como eu tirei -
e, espero, os quatro tamb6m.
Lembrando de algumas entire
vistas ja feitas, percebemos
que o senhor sempre se re-
fere a im-prensa como "a
grande imprensa". O que o senhor
tem a nos dizer sobra a imprensa no
Estado do Para?
Acho que a grande questao que se
coloca na imprensa 6 que ela nao esti
acompanhando o que acontece na sua
pr6pria area de jurisdicao, de trabalho,
que 6 a Amaz6nia. A Amaz6nia 6 um dos
lugares mais interessantes do mundo,
hoje. Ha um interesse international pela
Amaz6nia. Mas para saber o que esti
acontecendo na Amaz6nia 6 precise fa-
zer um investimento muito grande na qua-
lificaqio do pessoal e tamb6m no seu
deslocamento. Quem fica preso em Be-
16m dificilmente sabe o que esti aconte-
cendo no Para, para nao falar na Ama-
z6nia. Isso significa que voce ter que
viajar bastante para o interior, conhecer
os projetos econ6micos, que estao insta-
lados em virios lugares, e tamb6m ter
conexao externa, porque boa parte des-
ses projetos ter matriz no estrangeiro. E
precise ter fontes la fora, voce precisa
estar conectado cor os centros de van-
guardas da informacao e do conhecimen-
to, e isso nao acontece.
Os dois jornais didrios preferem in-
vestir sempre em miquinas, na melhoria
formal da publicaqao, a t6cnica. Agora
mesmo O Liberal e Didrio do Pard
est~o anunciando melhoramentos na parte
grifica, enquanto invested pouquissimo,
quando invested, no pessoal. Acho que
a desqualificaqao que esti acontecendo
e essa busca de economic de investimen-
to, isso 6 tao grande que a cobertura dos
grandes assuntos do Pard e da Amaz6-
nia 6 feita por ag6ncias do Sul e nao pe-
los pr6priosjornais locais.
E cada vez mais raro voce ver o pre-
sidente da Reptiblica ir para um lugar de


inauguraqio no interior, por exemplo, e
os jornais locais estarem cobrindo. Eles
preferem receber o material das agCnci-
as, porque cobrir no lugar significa gas-
tar dinheiro. E o que esti acontecendo 6
que a agenda da hist6ria na Amaz6nia
esti deslocada da agenda da imprensa.
As mat6rias publicadas nao tocam nas
quest6es essenciais da regiao ou do Es-
tado e com isso noo informal o cidadao.
A conseqiincia mais grave desse
despreparo 6 que esti desaparecendo a
opinion ptblica no Pard. Noticias gravis-
simas, fatos extremamente relevantes
sao revelados e n5o provocam reaqdo al-
guma. As vezes ji nem 6 porque a infor-
macao nao estava disponivel e a opiniao
piblica nao estava alertada para a rele-
vancia daquela informaqao, mas porque
nao hi atengdo e interesse a respeito. O
que result 6 que a regiao vai se tornan-
do cada vez mais como area colonial, ou
seja, ela nio 6 dona da sua hist6ria.

Por que o Jornal Pessoal nao vi-
rou uma empresa, ja que teve essa
oportunidade?E o senhor apresenta
algo contra a publicidade?
Eu comecei o Jornal Pessoal em
1987. Eu ji tinha 21 anos dejornalismo.
Eu nio comecei nojornalismo fazendo o
Journal Pessoal. Eu comecei na grande
imprensa local, no Rio, em Sao Paulo.
Quando voltei de Sao Paulo para Bel6m,
vinha com um projeto. O projeto era fa-
zer com que umjornal, aquele no qual eu
trabalhava, O Estado de S. Paulo, re-
velasse os fatos verdadeiros da Amaz6-
nia. Um journal que tratasse a Amaz6nia
sem o vi6s do exotismo, de procurar a
onca no meio da rua, cobra que engoliu
uma crianqa, que tratasse a Amazonia
com seriedade, com a competencia que
a Amaz6nia requer. Entdo, eu voltei para
instalar a primeira sucursal regional de
0 Estado de S. Paulo que seria respon-
sivel pelo tom das mat6rias dojoral. N6s
produzirfamos as mat6rias do tamanho
certo, determinadas de cima para baixo
por Sio Paulo, mas Sao Paulo nao me-
xeria mais nas mat6rias.
Era um projeto no qual eu apostava.
Durante a 6poca da ditadura, O Estado
de S. Paulo enfrentou a censura e, de
certa forma, ganhou varias vezes e per-
deu muitas, mas enfrentou a censura.
Criou uma resistencia a censura e uma
rede de informaqSo que seria melhor at6
do que a do pr6prio governor, em certa
media. O Estaddo foi nesse period a
melhor fonte de informaqao sobre a
Amazonia. Cor o fim da censura, iria


ser ainda melhor. Por isso eu voltei. E
durante virios anos apostei no projeto de
uma grande imprensa s6ria sobre a Ama-
zonia, que nao fosse sensacionalista e
ex6tica. Mas cheguei a conclusao, em
1988, que essa meta era impossivel.
Antes eu tinha passado por virias
experiencias alternatives, mesmo estan-
do na grande imprensa: trabalhei no Opi-
nido, no Movimento, no Versus, Rep6r-
ter, todas as publicaqoes importantes a
imprensa alternative brasileira nesse pe-
riodo. Infelizmente nenhum desses pro-
jetos foi duradouro. Alguns poderiam at6
ter sido se nao tivessem o azar de en-
frentar a censura, como foi o caso do
Opinido, que foi, pelos menos ao meu
ver, ojornal alternative mais important
do Brasil.
Ai eu fiz um journal alternative, o Ban-
deira 3, com a participaqCo de muitos
jornalistas, quando eu voltei de sio Pau-
lo. Tinha equipe, aceitava publicidade, era
um journal semanal que ia para a rua, um
esquema de grande imprensa e estrutura
pequena. E durou s6 sete ndmeros. De
experiencia em experiencia, cheguei ao
tamanho minimo. E qual era o tamanho
minimo? 0 journal de uma s6 pessoa. E
para esse joral valer a pena, decidi nao
publicar an6ncios porque, na experi6ncia
do Bandeira 3, as agencies de publici-
dade nao programavam o journal porque
havia uma rejeiqio cultural-ideol6gica a
uma imprensa alternative. A experiencia
fez com que eu abandonasse a publici-
dade, nao porque eu seja contra a publi-
cidade. A imprensa conventional, eviden-
temente, nao vive sem publicidade.
Quando o journal s6 circulava entire
assinantes e tinha 1.200 assinantes, para
eu atende-los bem teria que montar uma
estrutura e para suporti-la s6 a venda
avulsa nio era suficiente. Precisava ter
publicidade. O que fiz? Extingui as assi-
naturas, dispensei as pessoas que traba-
lhavam comigo e fiquei no tamanho mi-
nimo. E uma opqgo deliberada pela po-
breza. Porque se eu crescer eu vou per-
der aquilo que caracteriza o Jornal Pes-
soal, que 6 sua total independencia. Essa
filosofia nao vale para a grande impren-
sa. Porque se eu quisesse ganhar dinhei-
ro, eu crescia. Mas quando eu comeqas-
se a crescer, eu deixaria de fazer aquilo
que 6 o Jornal Pessoal. Por isso ele tem
esse tamanho.

Por que o Jornal Pessoal 6 a pe-
dra no sapato?
Porque ele incomoda, 6 umjornal pe-
queno, pobre, sem nenhum atrativo da


4 JUNHO DE 2006 I'QUINZENA Jornal Pessoal









de jornalistas.


Mas de quais?


imprensa modern, cor foto, mas ele
incomoda. Por que?. Porque ele 6 um
journal extremamente rigoroso. Eu nio
public nada daquilo que eu nio conside-
re relevant, important e grave, indepen-
dentemente de quem prejudique ou quem
favoreqa, e tamb6m das minhas relaq6es
pessoais. Eu perdi muito amigo por cau-
sa do Jornal Pessoal. As minhas rela-
q6es foram se encurtando cada vez mais.
Ele 6 uma pedra no sapato porque as
pessoas sabem que eu vou abordar aque-
les assuntos que ningu6m quer abordar,
As vezes as pessoas tnm medo, nao que-
rem ser incomodadas, e vou abordar de
tal maneira que 6 dificil responder. En-
tio, ji 6 um estigma que tenho.
Sou uma pessoa que s6 escreve so-
bre alquilo que pode provar. Algumas
pessoas nio entendem isso, me mandam
dossies. Nio public dossies: eu apuro
dossies. Dossie para mim 6 roteiro, nio
6 um ponto final: 6 um ponto de partida.
As vezes me mandam um dossi6 e eu
levo meses cor ele, porque eu tenho que
checar, conversar. Eu nio pego o papel
pelo papel, eu vou As pessoas. A pedra
no sapato 6 isso: sabe-se que aquele as-
sunto grave vai ser tratado corn serieda-
de e se tiver alguma coisa errada, vai apa-
recer. Sou da filosofia que quem for podre
que se quebre. Vamos fazer o teste de
consistencia. Se eu estiver errado eu cor-
rijo, plblico errata, dou direito de respos-
ta, nio ter problema. Ter gente que nao
admite erros, mas eu admito todos os er-
ros que cometer. Mas tamb6m vou publi-
car todos os erros graves de que souber.

Qual o objetivo de todas essas
critics, ja que a maioria leva a mais
processes?
O principal objetivo do Jornal Pes-
soal 6 colocar na agenda do cidadio os
assuntos mais relevantes para ele deci-
dir: os fatos. Ha determinadas coisas so-
bre as quais nio adianta embromar. Voc6
pode discordar do Jornal Pessoal e ter
uma opinito totalmente contriria a ele,
mas o fundamental sao as informaq6es,
se elas sao verdadeiras. Isso 6 que 6 o
essencial. O que eu quero colocar na
agenda do cidadao 6 essa informa~ao.

Nao pensa em desistir do Jornal
Pessoal, ja que, como o senhor falou,
nao vive dele e tambem devido to-
dos os processes que responded?
Em determinados moments, faqo
determinadas mat6rias perigosas. Em
todos esses moments, quando estou es-
crevendo eu nio penso, eu estou na so-


freguidio da informaqao, 6
uma coisa que todojornalista
tem. Ele nao 6 dono do que
escreve, 6 a compulsao da in-
formaqao que o domina, 6 o
diabo que toma conta da gen-
te. O diabo 6 criativo nesse
aspect, porque esti sempre
na heresia. Quando o journal
sai, eu pego o exemplar e digo
para mim mesmo: "P6, eu
sou um louco, como eu fiz isso? Isso
vai me dar uma bronca desgragada".
Mas estd feito.Tinha que ser feito. Jor-
nalismo 6 isso. E por isso que a profissio
ter um component de vocaaio forte.
Dificilmente voc6 sera um bom jornalis-
ta se nao tiver vocaqao.

O que levou o senhor a optar por
jornalismo?
Meu pai fez journal, foi jornalista em
Santar6m. Desde que entrei na escola,
eu faqo journal, e eu decidi entrar nessa
profissao por acaso, quando tinha 16 anos
e resolvi entrar na redacao de A Provin-
cia do Pard. Nao tinha programado
nada. Acabou, no outro dia, saindo o arti-
go que escrevi sobre o fim da 2' Guerra
Mundial na primeira pagina dojornal. Foi
um tipico caso de vocacao. Nunca tive
problema de vocaq~o: quando pensei em
trabalhar, foi de repente, por acidente, e
li estava eu no lugar em que queria es-
tar. E ji tem 40 anos.

Entdo, nfo e formado em jornalismo?
Sou formado pela Escola de Sociolo-
gia e Politica de Sio Paulo, mas sempre
fui jornalista. Fazia jornalismo amador,
tive um journal chamado Combate. Eu
fazia em mime6grafo, naquela 6poca era
o dltimo grito de tecnologia. O que acon-
teceu foi o seguinte: eu entrei na Provin-
cia cor 16 anos. Nessa 6poca nio era
obrigat6rio o curso de comunicaqao, eu
era estudante secundarista. Quando che-
gou a 6poca da faculdade, eu pensei muito
e disse: "Nao, eu ndo vou fazer jorna-
lismo, porque eu ndo concordo corn a
forma de ensinarem jornalismo". En-
tao decidi fazer sociologia, porque eu ja
tinha o meu registro professional garanti-
do. Foi uma decisdo correta. O curso de
sociologia fez por mim o que o curso de
jornalismo jamais faria. Essa conscien-
cia critical que eu tenho eu devo ao bom
curso de sociologia que eu fiz.

O que o senhor acha se tivesse
sido ao contrArio, o senhor ter agre-
dido Ronaldo Maiorana. Acha que a


pena seria a mesma, apenas multa e
trabalho comunitArio?
Dificilmente eu sairia dali. Ele sem-
pre esti cor guarda-costas. Eu teria
apanhado muito, talvez tivessem me ma-
tado. Eu nunca andei cor guarda-cos-
tas. A hist6ria 6 ir6nica: quando eu fui
ameaqado de morte, uma das vezes, e a
vez em que eu fiquei realmente cor
medo, o Romulo pai soube atrav6s do di-
retor de redacqo atrav6s do qual eu en-
trei nojornalismo, Cljudio Augusto de Si
Leal. Ligaram para o Si Leal, 1i na re-
daq~o de O Liberal, do qual ele era dire-
tor de redaqio, e disseram: "Leal, faz a
manchete de amanhd: Lucio Fldvio
Pinto assassinado".
O Romulo, avisado pelo Leal, me li-
gou na hora: "Estou te mandando dois
seguranhas". Recusei. Argumentei que
seguranqa nio iria me impedir de ser
morto: seguranca 6 para matar o assas-
sino. Ele insistiu "Mas, ndo podes ficar
aiparado, tens familiar Eu disse: "NWo
vou ficar parade, vou me defender
muito melhor sem seguranCa". E me
defend. Liguei para o governador, que
era o Jader Barbalho, porque eu sabia de
onde 6 que estava vindo. E se resolve o
problema.
Nunca andei armado, nunca tive se-
guranqa. A minha rotina 6 normal por-
que, primeiro, eu nao tenho o que temer,
eu tenho 40 anos de profissio, e na mi-
nha vida eu nao cometi um ato de erra-
do, eu nunca me apropriei de dinheiro, eu
nunca fui desleal nem cor meus inimi-
gos. Recebo informagqes contra os Mai-
orana, que se eu usasse ia ser muito diff-
cil, mas eu nao uso. Porque se trata de
assunto privado e eu nio quero saber da
vida privada deles.
A minha seguranqa 6 o fato de que
eu sou decent, eu nunca andei cor ban-
dido, nunca roubei dinheiro piblico, eu
sou uma pessoa cor uma vida limpa.
Pol6mica, mas limpa. As vezes at6 se
assacou algo contra mim, mas eu entro
no debate para esclarecer. E ai quem
for podre que se quebre. Tenho orgulho
CONTINUE NA PAC8


Jornal Pessoal 1f QUINZENA JUNHO DE 2006 5







CONTINUAfAO DA PAG. 7
de dizer que consegui ganhar essas bri-
gas, at6 porque a iltima palavra foi a
minha. Nao foi a filtima palavra porque
s6 eu quero falar, foi porque a pessoa
desistiu, eu fui desmontando todos os ar-
gumentos. Por esse prisma, nao tenho
medo de ningu6m.
Eu sou uma pessoa pacata, nao faqo
mal a ningu6m. Mas nio pise no meu calo,
porque af eu defend a minha dignidade
em qualquer situagio. Se fosse o inver-
so? Eu at6 hoje nao entrei cor nenhuma
aqco contra eles, porque eu tenho pudor
at6, eu nao quero o dinheiro deles. Eu j
fui condenado quatro vezes, mas eu re-
corro, eu vou at6 o fim, e nenhuma delas
prevaleceu. Entao eu nao temo nada. At6
onde essa coisa vai? Ber, eu queria que
esse neg6cio parasse, porque eu nao
agiiento mais, mas eu nao sou o autor da
falta, eu s6 estou me defendendo. Auto-
res sio eles. Entao sao eles que vdo ter
quer decidir.

O senhor nunca elogia?
Eu elogio bastante, mas nao sem me-
didas. Eu me lembro uma vez que eu
encontrei com o advogado Paulo C6sar
de Oliveira no meio da rua, af ele me dis-
se isso: "Ltcio em vez de critical, voce
tern que elogiar as pessoas de vez em
quando". Ai eu peguei um exemplar do
journal, a gente estava do lado da banca, e
motrei para ele: "Olha, eu estou elogi-
ando a tua sobrinha", que 6 a Dina
Oliveira. Eu elogio, sim. Ha pessoas que
s6 ganharam elogio de mim at6 hoje,
mesmo quando eu divirjo delas. Por
exemplo, eu nunca critiquei o Haroldo
Maranhao. NMo porque eu fosse amigo
dele, porque eu gostasse dele: 6 porque 6
um grande escritor. Publiquei um livro
dele (Querido Ivan) que ningu6m que-
ria publicar, porque o livro era maravi-
lhoso. Entao 6 assim: eu sou critico, pro-
curo ser rigoroso, mas nao me causa ne-
nhum problema eu elogiar as pessoas.
Apareceu um sujeito que disse: "Faqa
um prefdcio para mim". Eu perguntei:
"Posso escrever o que eu achar do li-
vro?" Ele concordou. Ai eu esculhambei
cor o livro. E ele publicou o que eu es-
crevi contra o livro no pr6prio livro.

O que tem a falar sobre os cursos
de comunicacio, tanto da federal
quanto das universidades particula-
res?
Eu dei aula no curso de comunicacdo
da UFPA durante sete anos. Tenho uma
experiencia de fora e de dentro. Sempre
achei que nao deve ser privativo de pes-
soa diplomada por curso de comunica-
cio o exercicio dejornalismo, mas tenho
um exemplo definitive: os dois maiores
rep6rteres da hist6ria da imprensa mun-


dial, Bob Woodward e Carl Bernstein.
Um 6 jornalista formado, o outro nio, o
outro era tenente da marinha. Se estives-
se no Brasil, o tenente da marinha, o Bob
Woodward, que 6 o melhor dos dois, nao
seria jornalista. Olha s6 o reporter que
famos perder. O Raimundo Rodrigues
Pereira, que 6 um dos melhores jornalis-
tas brasileiros, era fisico nuclear.
Em todos os pauses ocidentais, nao
existe isso de ser privativo do curso de
comunicaqao o exercicio do jornalismo.
E por que metade dos jornalistas dos Es-
tados Unidos 6 formada em cursos de
jornalismo? Porque os cursos sao bons.
Metade dos jornalistas tem o diploma de
jornalista, a outra metade nio. E forma-
da em medicine, fisica, etc. O compo-
nente de vocacao 6 tao grande que se
voce fizer isso, voce corta uma boa par-
te da formacio de quadros no jornalis-
mo. Por isso 6 que todo jornalista devia
comerar como reporter policial, porque
nio tem press-release de cadaver. Acho
que o jornalismo esti se atrofiando por-
que ele tem pouco contato com a reali-
dade, ele esti reduzindo a realidade A
virtualidade. Fico escandalizado com jor-
nalista que tem fonte que ele nem co-
nhece pessoalmente. Ele conhece a fon-
te por e-mails. Isso 6 um absurdo. Mas
nao 6 porque eu seja um purista, um sau-
dosista. E porque o jornalismo 6 o ins-
tinto da realidade.
Ojornalista que anda, que circula, que
viaja, que conhece gente, que ve muitos
acontecimentos, ele tem um crit6rio de
sele~ao e andlise que nenhum outro pro-
fissional equivalent tem, nem cientista
politico, nem soci6logo, nem psic6logo.
Nenhum professional tem esse senso da
realidade que tem o jornalista, porque o
jornalista conversa com o governador,
hoje, e amanhd conversa com o morador
da baixada. Hoje ele cobre uma grande
solenidade com a elite da terra, no dia
seguinte 6 o massacre de Eldorado dos
Carajis. Entao, esse jornalista tem um
universe de fatos que nenhum outro pro-
fissional consegue ter.
Eu posso chegar num pais e falar
com o president da repiblica. Voce
pode ter muito dinheiro, mas voce nao
consegue. E o que 6 que permit isso?
E o jornalismo. O jornalismo 6 uma pro-
fissdo especial, nao porque 6 melhor,
nao, 6 porque 6 diferente. E se o jorna-
lista sai da rua ele passa a ser um pro-
fissional como qualquer outro. E uma po-
breza, 6 um acanhamento de visao voce
trabalhar apenas com os meios virtuais.
Eles sao complementos, sao secundari-
os. O que voce tem que desenvolver sio
seus instintos: visao, percepqao, mem6-
ria. 0 patrim6nio do jornalista 6 a mali-
cia. As vezes os jornalistas tem uma vi-
sao primiria dessa malicia. A malicia au-


toriza o jornalista a relativizar as coisas,
a ir al6m das palavras, das aparencias.
Ele ter essa qualidade da informaaio
que nenhum outro ter. Entio, eu acho
que o empobrecimento esti sendo nes-
se sentido: os jornalistas estao ficando
muito a distancia da realidade.

O senhor acha que o seu trabalho
6 mais reconhecido hi fora? E que
isso se deve ao interesse deles na
Amaz6nia?
Infelizmente. La fora, as pessoas tem
mais consciencia do que 6 a Amaz6nia
do que aqui dentro. Porque somos uma
regiio colonial, e o colonizado pensa pela
cabeqa do colonizador, 6 um raciocinio
mim6tico. N6s somos eternos macacos
porque n6s imitamos a consciencia que
vem de fora. No caso da agressao, uns
quatro ou cincos dias depois eu recebi
um telefonema do director do Centro de
Estudos Latino-Americanos da Univer-
sidade de Harvard, Biorn Mayburi-Lewis,
filho de um dos maiores antrop6logos do
mundo. N6s nos conhecemos indireta-
mente, atrav6s de amigos comuns, e eu
conheci o pai dele, e, Gainesville, na F16-
rida. Ele me ligou pra dizer o seguinte:
"Ltcio, eu estou aqui em Harvard,
estamos lhe oferecendo pra voce vir
pra cd, se voce quiser ficar aqui um
mes, dois meses, um ano, o tempo que
for precise. Nds estamos Ihe dando
uma bolsa". Infelizmente eu nio pude
aceitar. Tamb6m recebi um telefonema
do Centro dos Estudos Latino-america-
no da Universidade da Fl6rida, que 6 o
terceiro mais important dos EUA em
Amaz6nia, feito pela Marianne Schmink
e o Charles Wood. Eles fizeram isso nio
s6 nem principalmente por amizade: 6
porque eles valorizam a boa informaqio
sobre a Amaz6nia. O interesse funda-
mental 6 sobre a Amaz6nia, e por pesso-
as que tem uma informagao diferencia-
da, fruto da observaqao direta. Esta 6
valiosa. E o jornalismo ter isso, desde
que o jornalismo seja rigoroso.
Muita gente entra no jomalismo ji que-
rendo fazer grandes comentarios, grandes
anilises. Nio 6 a hora. Quando eu come-
cei a fazer o Jornal Pessoal, eu ji tinha
21 anos na profissao, nio era iniciante.
Tinha passado por alguns dos mais impor-
tantes jornais e revistas brasileiros. Tra-
balhei em Veja, Isto E, Estaddo, Correio
da Manhd. Renunciei a essa grande im-
prensa, na qual aprendi tanto, sabendo que
o que me esperava era ruim. Sabia pelo
que ia passar, mas nio sabia que seria tao
ruim. E sabia que o meu trabalho ia ser
mais valorizado 1I fora do que aqui den-
tro, e mais daqui a 15 anos do que hoje. E
isso 6 tenivel, para ojornalismo isso 6 muito
ruim, porque voce nao vive do amanhi,
voce vive do agora, ja.


6 JUNHO DE 2006 IQUINZENA Jornal Pesso:ll






CONTINUAAO DA PAG 8
Eu tive a melhor bolsa e as melhores
condicqes de trabalho da minha vida na
Universidade da Fl6rida em Gainesville.
E eu estava 1i para escrever um livro
contra um dos grandes her6is dos Esta-
dos Unidos da 6poca, o Daniel Ludwig.
E nunca ningu6m me perguntou o que eu
estava escrevendo, se eu estava falando
mal do Ludwig. Nunca ningu6m me pe-
diu pra olhar. Tive liberdade total e uma
condiqio de vida confortdvel, graqas A
bolsa. Ninguem me aborrecia. Eu nao ti-
nha que lidar cor gente de baixo nivel, a
me perseguir e agredir. Nada me impe-
dia de produzir aquilo que eu acho ne-
cessario para a minha regiio, sem per-
der todo o meu tempo a me defender de
gente mediocre, mas poderosa, que, no
final, serd poeira no tempo.

Queriamos que o senhor deixas-
se uma mensagem para os futures
jornalistas.
Toda vez que eu comerava uma aula
no curso de comunicacqo, eu dizia para
as novas turmas o seguinte: Mois6s re-
cebeu um decilogo, que continha dez re-
gras. Eu nio quero que voces tenham dez
regras, dez compromissos, dez principi-
os, nio. Escolham um principio. Por
exemplo: jamais escreverei mat6ria paga.
E um principio. Ou entio: jamais escre-
verei sobre aquilo que nio entendi. Ja-
mais passarei em frente uma mat6ria que
eu nio sei explicar. Nunca passe em
frente o que voce nao entendeu. Tercei-
ro: nunca traia uma fonte, jamais traia uma
fonte, jamais perca uma fonte.
Podem ser varios principios, mas
pode ser apenas um, e esse principio,
como o pr6prio nome diz, 6 um pressu-
posto, nunca pense duas vezes, faqa-o.
Perguntaram uma vez para o Mill6r se
era dificil ser honest. Ele responded:
"Nio, nao ter concorrEncia". Entio, nao
interessa se vale ou nio vale a pena: 6 o
seu principio e voce nunca vai trair esse
principio. E no jornalismo tem um com-
ponente de vocacqo, que 6 um compo-
nente que a gente precisa considerar,
fazendo uma pergunta pra si mesmo: eu
quero jornalismo, pra qua? Pra apare-
cer na televisio? Pra ser rico? Nao.
Voc6 vai fazer jornalismo para esclare-
cer a opinido piblica, voce quer former
a opiniio p6blica, entao, ai vale a pena.
Se voce ter outros interesses, e pode
ter, mas que nio incluem esse, desista
do jornalismo. N6s estamos precisando
dejornalistas preocupados em informal
a sociedade, e nio em jornalistas em se
servir do oficio para enriquecer, para ti-
rar proveito pessoal. Entio a mensagem
6 essa: faqa jornalismo para valer, para
a opiniio p6blica. Seja apenas jornalis-
ta, sem adjetivos.

Jornal Pessoal 1o QUINZENA JUNHO DE 2006


Zeno, o imortal


Em 1965 eu fazia, sozinho, O Corn-
bate. Era umjornal quinzenal, que circu-
lava principalmente no Clube de Jovens
da Par6quia da Trindade, ao lado de casa.
Batia os textos no stencil, juntava uma
resma de papel e levava tudo para o Curso
de Letras da Universidade Federal do
Pard, no "largo do ferro de engomar" (ofi-
cialmente, Praqa Coaracy Nunes). Corn
a aprovaqo do director, c6nego Apio Cam-
pos, e a gentil colaboraqio do "seu" Alon-
so, ojornal rodava no mime6grafo, entio
um aliado up-to-date da imprensa alter-
nativa.
Alem da turma que se reunia nos si-
bados a tarde e domingos de manhd no
salio paroquial, atrds da igreja, alguns
outros leitores recebiam seu exemplar em
mios, entregue pelo diretor-editor-rep6r-
ter-continuo-distribuidor da publicaq o.
Certa vez, me chamaram de dentro do
cercado que constituia a terrasse do
Grande Hotel, onde 6 hoje o Hilton. Zeno
Veloso, que estava acompanhado de Ali
Jezini, cor aquele seujeito de sempre de
pedir mandando, me intimou a ouvi-lo:
Ha muito seu nome no journal me
disse, enquanto apontava para o expedi-
ente de O Combate e para uma mat6ria
que tamb6m estava assinada.
Zeno e Ali eram meus idolos, embora
nio o soubessem: jovens (apenas alguns
anos mais velhos do que eu), bem apre-
sentados, na fronteira entire o intellectual
e o play-boy, apontados como "muito li-
dos", de esquerda, irreverentes e cdusti-
cos. Levei a serio a observacqo: nao as-
sinei mais nenhuma mat6ria nas poucas
ediqbes dojornal.
Zeno provavelmente nio portou sua
sensata observaclo para uso pr6prio,
como eu viria a perceber depois. Mas
esse "detalhe" nio vem ao caso.
Ele tinha autoridade para
cobrar modstia


de outrem, como entao se dizia. Vimo-
nos pouco desde entio, mas sempre cru-
zavamos em ambientes supostamente
marcados pela cultural, pela atividade in-
telectual. Subitamente, graqas aos seus
talents e ao patronato do governador
Aloysio Chaves, ele se tornou politico,
votado em lugares nos quais at6 entio
era um ilustre desconhecido, como ao
long da Transamaz6nica.
No parlamento tinha moments de
Carlos Lacerda imediatamente sucedidos
por encarnaq6es de Pedro Lara, um fol-
cl6rico e destrambelhado personagem da
televised. Era dificil discernir onde ter-
minava o brilhante bacharel e comeqava
o clown, ou vice-versa. Zeno parecia se
divertir cor esse vaudeville. Mas logo
a political se estreitou e ele preferiu divi-
dir o tempo entire o estudo s6rio do direi-
to e a funcqo cartorial.
Em seus bons moments, conseguiu
ser, de fato, o jurista que muitos se de-
claram nas colunas sociais paraenses.
Seu livro Controle jurisdicional de
constitucionalidade 6 diditico, claro e
profundo, algo raro na literature tecnica.
Bastaria esse livro para garantir a pere-
nidade de Zeno como referencia juridi-
ca. Mas ele ter uma obra maior, ainda
que irregular.
Quarenta anos atris, quando ele me
chamou com sua ordem, eu jamais podia
prever que um dia Zeno concorreria a
um lugar na Academia Paraense de Le-
tras (vencer seria mera conseqtiincia da
decis~o anterior, dada sua pertindcia).
Mas ai esti ele, entronizado na imortali-
dade decorative do silogeu. Quem ganhou
mesmo foi a academia. Zeno ji era ven-
cedor. E sempre ao seu modo, suhjeito
aquelas mudanqas bruscas e imprevisi-
veis, como no c6u e na political.


d







DOCUMENT

A censura vista por dentro


Pelos males terriveis da autocensura, muito disseminada
atualmente nas redaqces brasileiras, pode-se medir o mal ain-
da maior da censura official. Uma vez eliminados os direitos e
as garantias individuals prdprias dos regimes democrdticos, o
Estado comeqa por simplesmente vetar o que ndo Ihe agrada
no material da imprensa. Se ndo encontra resistencia, se a rea-
qdo e debil, ou, ainda, se a truculencia do poder discriciond-
rio elimina as resistencias, o pass seguinte e consagrar a meia-
verdade, muito mais eficiente do que o veto pura e simples,
absolute (como ainda persiste em Cuba, por exemplo).
Sem o anteparo da dec&ncia e da dignidade, a malicia
cria o cinismo e dai o censor se torna o alterego do jornalis-
ta. Sente-se no direito ndo s6 de controlar tudo que sai, mas
tambdm de manipular o que pode ser publicado. A realidade
passa a defender da vontade do Torquemada.
Nos meus arquivos encontrei dois exemplares das ordens
que a Censura enviava aos drgdos da imprensa em Belem. 0
index vinha pronto de Brasilia. Em 1974, no document nui-
mero 1, a Policia Federal em Belem se limitava a xerocopiar a
listagem dos vetos e simplesmente repassd-la a imprensa. Urn


ano depois, jd sem a preocupaCdo de esconder a origem das
ordens, o rol era novamente datilografado e posto num oficio
regularmente caracterizado.
Percebia-se urna razdo de Estado em certas proibigoes, de
natureza ideol6gica e political. Mas ndo em vdrias delas, em-
penhadas em impedir referkncias a atos de corrupcdo e inter-
ferir nos hdbitos e costumes da populado. 0 andtema origi-
nado de Brasilia acabaria servindo para informar os jorna-
listas situados fora do circulo concentrico do poder Algumas
vezes eles eram proibidos de fazer referencia a assuntos que
simplesmente ignoravam. 0 enunciado da proibiCdo passava
a ser a inica coisa que ficavam conhecendo.
Quem, hoje, ler esses dois documentos dificilmente se dei-
xard convencer de que esse e umn ntodo aceitdvel de corrigir
as distordoes do process politico. A anomalia segue uma tal
espiral que logo a eventual boa intenago na origem terd re-
sultado num monstro sem control. E essa a trajetdria de sem-
pre das ditaduras, mesmo quando comegam como un regime
de profilaxia. Acabaram se especializando numa das mais
maleficas atividades humans: o corte de cabeCas.


Noticias proibidas em 1974:
1. ACOES desenvolvidas pelos
6rgios de Seguranqa, para pre-
venir e reprimir ATIVIDADES c/Segu-
ranga Nacional.
2. PRISAO, morte, atentado, decla-
racgo, manifesto, viagem ou informaqio
relative a SUBVERSIVOS, CASSA-
DOS, BANIDOS ou ASILADOS.
3. INFORMACOES e manifestaqoes
s/atuaqdo de: DOM HELDER CAMA-
RA, Padre Jos6 Comblin, Padre Francisco
Jentel. E qualquer tipo de manifestaqio
dos Bispos da CNBB, quando significar
ataque ao Governo.
4. MANIFESTACOES realizadas no
EXTERIOR c/o Brasil, a exemplo do que
ocorreu na B61gica.
5. Noticias sobre TORTURAS de
press, GREVES de fome e instalaqces
carcerdrias (ref. press politicos).
6. ATIVIDADES referentes a TE-
RORISMO e SUBVERSAO, principal-
mente quando houver citacSo a JUSTI-
QAMENTO de agents de Orgaos de
Seguranca.
7. QUALOUER tipo de noticias s/
SEQUESTROS (mesmo de crianqas), a
nao ser quando por autorizaq~o expres-
sa do DPF [Departamento de Policia
Federal].
8. ESTOURO de aparelhos e resis-
tencia armada.
9. TRAMITACAO de "AUTOS" con-
tra subversivos e terrorists, em qualquer
fase de inqu6rito ou process. E, em es-
pecial, publicadio de nomes de autorida-
des civis e militares, encarregadas de in-
vestigaqao, IPM ou Conselho de Justiqa.
10. CRITICA direta e indireta s/atu-
aqao do SISTEMA DE CENSURA e


atuaqao dos CENSORES, em qualquer
setor de trabalho.
11. TRANSACOES realizadas pelo
governor do DISTRITO FEDERAL con-
cernente a troca de terrenos da SHIS por
aptos. da ENCOL.
12. NOTICIAS ALARMISTAS so-
bre derrame de c6dulas falsas.
13. DECISAO da Censura de proibir
a peqa Calabar [de Chico Buarque de
Holanda e Ruy Guerra], o disco e o fil-
me do mesmo nome, seja mat6ria paga,
critica ou comentirio ou ainda, qualquer
tipo de divulgaqao.
14. ESPECULACAO alarmista e
sensacionalista s/condiq6es de vida e tra-
balho nas regi6es NORTE e NORDES-
TE e a exploracqo negative s/situaqao
dos indios brasileiros e atuaqao da FU-
NAI.
15. EXPLORACAO sensacionalista
focalizando menores abandonados.
16. NOTICIAS alarmistas e provo-
cativas s/ atuacqo das policies CIVIL e
MILITAR, desacreditando a organizacao
policial.
17. CRITICAS contestat6rias ao regi-
me, governor e aos 6rgaos de seguranqa.
18. TRATAMENTO "jocoso, ofensi-
vo, desrespeitoso, debochado" as autori-
dades constituidas e aos simbolos da PR-
tria.
19. NOTICIAS sensacionalistas corn
o emprego de palavras CHULAS, ou
exploracao de escAndalos s/aberraq6es
SEXUAIS, temas porogrAficos, er6ticos,
bem como fotografias obscenas.
20. EXPLORACAO de crimes, ce-
nas escabrosas, acidentes, calamidades,
exibindo fotos de mutilaqio e cenas cons-
trangedoras.


21. NOTICIAS sobre APREENSAO
de revistas e livros, censura pr6via em
jornais e revistas.
22. NOTICIAS ALARMANTES
denunciando a presenqa de BOMBAS
ou outro tipo de explosive.
23. FALAR sobre o ex-sargento Ma-
noel Raimundo Soares [morto sob tor-
tural ou s/vi6va Eqlizabeth Challup Soa-
res.
24. NOTICIAS, comentarios, etc.,
referentes a TITULOS DE CIDADA-
NIA propostos em Assembl6ia Estadu-
ais ou Camaras Municipais a altas auto-
ridades do pais.
25. DIVULGACAO de mat6ria re-
lativa a concitamento a luta de classes, a
greve geral e a rebeliao, bem como h ins-
tigagqo de discriminaqio racial e social.
26. DIVULGACAO, referencia, ar-
tigo, noticia, etc., de carter ALARMIS-
TA a respeito de telefonemas anonimos,
bombas ou explosives, alarmes, incendi-
os em grandes edificios.

Senhor Redator:
Conforme radiograma recebido
do Serviqo de Imprensa do Ga-
binete da Direcao Geral do DPF, fica
proibido a divulgacqo de qualquer noticia
abaixo relacionada:
1. Mat6ria de qualquer natureza rela-
tiva a pronunciamentos de estudantes,
inclusive passeatas, deslocamentos, gre-
ve, panfletos e outras manifestac6es.
2. Mat6ria de qualquer natureza, in-
clusive traduqao, transcriiao, referencia
ou comentdrio sobre publicacao em jor-
nais e revistas estrangeiros, de mat6ria
abordando temas ofensivos ao Brasil,
suas autoridades e entidades.


8 JUNHO DE 2006 IQUINZENA Jornal Pessoal









Guimaraies Rosa: o final escolhido


"E impossivel separar minha biografia
da minha obra", confessou Joio Guima-
ries Rosa a GUnther Lorenz, em janeiro
de 1965, pouco mais de dois anos antes
de morrer. O didlogo do escritor cor o
critic alemio, durante um congress em
Genova, na Italia, constitui um dos textos
atrav6s do qual Guimardes Rosa mais lu-
zes lancou sobre si e o que escreveu. No
entanto, passados quase 40 anos do seu
desaparecimento, ele ainda nio mereceu
uma biografia a altura da sua importan-
cia. A rigor, nao hi biografia de Guima-
ries Rosa. E um atestado da imaturidade
cultural brasileira, sempre sujeita a uma
instabilidade maior que Ihe d~ causa: a ins-
tabilidade da democracia, a afetar a liber-
dade, sem a qual a criaqgo intellectual nio
6 cumulative, nio se pereniza.
H~ centenas de estudos sobre sua
obra. Boa parte dessa fortune critical 6
exegese confusa ou sup6rflua. Salva-se
um punhado de estudos originados do
entusiasmo quase fanmtico que a leitura
de Guimardes Rosa provoca. Mas nem
mesmo a invejivel oportunidade ofereci-
da neste ano, de se comemorar, de uma
s6 tacada, os 60 anos da publicaqco de
Corpo de Baile e Grande Sertdo: Ve-
redas, permitiu a quitacio dessa divida
desconcertante, desmoralizante.
Obra e vida do mineiro de Cordisbur-
go sio fontes inesgotiveis de prazer e
reflexio. No caso dele, saber se 6 ou nio
o maior escritor brasileiro de todos os
tempos nio interessa. E perda de tempo
compard-lo a Machado de Assis, geral-
mente apontado cor a mesma estatura.
Ambos se tornaram cldssicos no momen-
to em que colocaram o ponto final em
cada um de seus livros.
Machado 6 de um classicismo atem-
poral: se 1I seus livros sem surpresas at6


o fim e quando a leitura acaba tomamos
consci8ncia da grandiosidade da hist6ria,
de sua sabedoria natural, da complexida-
de dos seus personagens, da vivacidade
da trama (mesmo quando o enredo pare-
ce burocritico). Volta-se sempre para
conferir se a sensaqgo que fica sejustifi-
ca pelo desenrolar da narrative.
Guimaries Rosa 6 o classico 6nico,
sem antecedentes nem herdeiros. Mais
do que uma lingua, ele inventou um mun-
do complete. A partir do sertio geogrifi-
co, criou um sertio roseano, estruturan-
do sua forma de expressio e dando aos
causes recolhidos nas conversas cor o
povo das gerais a ossatura de tipos ide-
ais e arqu6tipos, saga e cosmologia, um
mundo que se inaugura a partir das en-
tranhas de um mundo transmitido vaga-
mente por outros povos e cultures, dis-
solvido e espalhado por muitos caminhos
de acesso.
O sertio de Guimaries Rosa, sendo
de Minas Gerais, tornou-se do mundo pela
feitiqaria do autor, graqas a sua notavel
capacidade lingiiistica, combinada com
sua erudiqlo temdtica. O 6nico clissico
do seu padrio no s6culo XX 6 o irland6s
James Joyce. Azar de Joyce por nio ter
acesso a sintaxe do portugues. Azar de
Rosa por nio manejar um notivel veicu-
lo de difusio como 6 a lingua inglesa.
"A vida deve fazer justice a obra e a
obra a vida", disse ainda Rosa a Lorenz.
E precise refazer a caminhada por seu
texto ondulante, na voragem do exerci-
cio de magia verbal, mas tamb6m ir atrfs
do que o home viveu, vivendo com ou-
tros, entire paisagens e circunstancias, e
vivendo dentro de si, desde que se p6de
isolar num quarto, ainda menino.
"Quando escrevo, repito o que vivi
antes", sugeriu Guimaries Rosa. Esse


CONTINUAAAO DA PAG. 4


3. Mat6ria de qualquer natureza re-
ferente ao livro "depoimento" de autoria
de Marcelo Caetano.
4. Mat6ria de qualquer natureza re-
ferente ao tumulto ocorrido na estaqio
MAUA, Sao Paulo, com trens.
5. Mat6ria de qualquer natureza rela-
tiva greve de fome ou insubordinaqgo de
elements press.
6. A fim de evitar informaqces ten-
denciosas que possam prejudicar dilig6n-
cias policiais, fica proibido a divulgaqlo
de mat6ria abordando fatos ilicitos prati-
cados por funcionirios de organizacio
banciria pdiblica ou privada, contra o es-
tabelecimento a [que] estiver vinculado
ou em prejuizo de terceiros.


Jornal Pessoal 1 QUINZENA JUNHO DE 2006


7. Continue proibido a divulgaqgo de
pronunciamento, manifesto, de qualquer
natureza, feito pelo ex-deputado FRAN-
CISCO PINTO ou a ele atribuido.
8. Mat6ria de qualquer natureza com
referencia a political salarial, com exce-
qco apenas para pronunciamentos dos
Ministros.
9. Noticiirio sobre alarmes denunci-
ando a presenqa de bombas ou outros ti-
pos de explosives em qualquer local pi-
blico ou privado.
10. Publicaqoes de qualquer natureza
sobre pessoal, atribuiq6es, instruqio, do-
tadio orcamentiria dos serviqos de inte-
ligencia e 6rgios do sistema de informa-
q6es do Brasil.


"viver" nio pode ser reduzido aos acon-
tecimentos, aos fatos. O escritor inven-
tou a si, recriou-se como pessoa. O es-
critor nio existe sem o sertanejo, mas e
verdade que o traiu. Rosa era cada vez
menos vaqueiro. O maneirismo de ser e
de fazer Ihe causava desapontamento,
tristeza.
Dele nasceram Riobaldo e Diadorim,
mas ao coloci-los no papel assumiu-lhes
a dupla condiqdo. Sem ambigiiidade nio
hi literature. A ambigiiidade na vida pode
ser fatal. Por isso Guimaries Rosa pre-
parou sua morte ins6lita, tres dias depois
de assumir o lugar que a Academia Bra-
sileira de Letras Ihe conferira, lugar que
adiou ocupar durante quatro anos, saben-
do o que o esperava, desejando-o e o te-
mendo.
Na j, citada conversa, Guimaraes
Rosa confidenciou que nao podia se per-
mitir "uma morte premature, pois ainda
trago dentro de mim muitas, muitissimas
hist6rias". Tinha a convicgqo de que
"cada home ter seu lugar no mundo e
no tempo que lhe 6 concedido", nunca
podendo sua tarefa ser maior "do que sua
capacidade para poder cumpri-la".
Ele, que dos seus 59 anos de vida s6
usou 20 para escrever de fato seus cinco
livros, que na verdade sio meros desdo-
bramentos de um 6nico livro, se exauriu
nessa obra, um quinteto de infinitas pos-
sibilidades de leitura? Restava-lhe, entaio,
penetrar na pr6pria alma, ou exp6-la i
curiosidade de terceiros, sujeito as reve-
laqGes indiscretas, ji que a alma 6 como
os grandes rios: na superficie, sio "muito
vivazes e claros, mas na profundeza sao
tranqiiilos e escuros como os sofrimen-
tos do homem.
Uma vez em Sio Paulo fui ao Institu-
to de Estudos Brasileiros da USP ler car-
tas do escritor que nunca foram publica-
das. O mais interessante 6 a correspon-
d6ncia com o pai. Parte considerivel das
"est6rias" que Guimaries recriou Ihe fo-
ram relatadas por Floruardo Pinto Rosa,
ele, sim, um verdadeiro home do ser-
tio. Essa matriz nio ter sido destacada,
como devia. Nio s6 por sua contribuiqao
a obra, como, na mesma media, as va-
cilaq6es do filho.
Vacilaq6es que, vistas por um afngulo,
talvez levassem, mais tarde, ao risco de
um desfecho como o de outro mineiro de
largo horizonte, Pedro Nava, com sua
morte tio arrevesada como a de Joio
Guimaries Rosa, que se fechou no escri-
t6rio de sua casa, tres dias depois de se
tomar imortal, e foi fulminado pelo violen-
to enfarte. Nio tendo tempo para sofrer,
fez o que profetizara: encantou-se.


.. .. .. .. .. .









MEMORIAL DO COTIDIANO


Fabricas
Havia operirios e operdrias (e,
naturalmente, indistrias) em
n6mero suficiente em Bel6m,
em 1948, para motivar a esco-
lha da Rainha dos Operdrios.
Inscreveram candidates para o
certame, encerrado durante
uma festa no Bosque Rodri-
gues Alves, as seguintes em-
presas: Fibrica de Calqados
Morgado, Fibrica de Calcados
Boa Fama, Fibrica de Calqa-
dos Rex, Fibrica de Calqados
Luzeiro, Fabrica de Doces Sio
Vicente, Fibrica de Cordas
Perseveranqa, Fibrica Cera-
mica da Cidade, Fibrica Ren-
da Priori, Fibrica de Cigarros
Therezita, Fibrica Progresso,
Fibrica de M6veis Confianqa,
Perfurmarias Phebo e Fibrica
de Guarani Globo.
Isolada e abandonada, Be-
16m teve que encontrar um jei-
to de sobreviver. Conseguiu.
Corn as estradas, foi integrada
ao resto do pais, mas o produ-
to da sua inventive nos tempos
dificeis foi esmagado pela in-
d6stria de fora. Como a Rai-
nha dos Operirios.

Gosto
Ir a Confeitaria Damas, na es-
quina da 28 de Setembro com
a Piedade, era um grande pas-
seio na Bel6m das ddcadas de
40 a 60. A casa se orgulhava
dos produtos de sua "pr6pria
fabricaqCo", dentre os quais os
doces finos de noiva, os biscoi-
tos e o pio de 16, que era o must
de entio. Mas, al6m de um
completeo serviqo de frios",
oferecia aos seus refinados cli-
entes variada carta de bebidas
nacionais e estrangeiras, quei-
jos, frutas verdes e secas, con-
servas, cigarros, charutos e
artigos de armarinho. Um tem-
plo do consume de bor gosto.

EleigAo
Em 1948 estavam aptos a votar
aproximadamente 65 mil eleito-
res em Bel6m, mas somente 34,5
mil (53%) realmente votaram,
cor a incrivel abstenqio de
47%. O Com6rcio era o bairro
corn mais eleitores inscritos:
13,59% do total. Vinham a se-


guir: Nazar6 (9,95%), Umarizal
(7,83%), Marco (7,79%), Curro
(6,94%), Sousa (6,54%), Inde-
pend6ncia (6,44%) e Batista
Campos (5,69%).
Bel6m ainda era uma cida-
de pequena e concentrada em
tomo do seu centro velho.

Cinema
O Cinema Nazar6 voltou a fun-
cionar, em 1956, reinaugurado
pela Empresa Sao Luiz, com
duas novidades nesse mercado
em Bel6m: a tela cinemasc6pi-
ca e o som magn6tico. Na pri-
meira semana de funcionamen-
to, o cinema exibiu um film por
dia: O Manto Sagrado, Suplicio
de uma Saudade, Aventuras de
Ali-Babi, Demntrius, o Gladia-
dor, A Fonte dos Desejos, Car-
men Jones e Principe Valente.

Indios
O tenente-coronel Jarbas Pas-
sarinho estava entire os mili-
tares que, em abril de 1963,


assistiram a palestra que o an-
trop6logo Eduardo Galvio
proferiu na sede do CPOR
(Centro de Preparaq~o de
Oficiais da Reserva). O tema
foi "A political indigenista bra-
sileira e os grupos tribais na
Amazonia". Galvio pediu dos
governantes um tratamento
mais "racional e human"
como garantia de sobreviven-
cia dos indios.

Incredulidade
Ja que o Paissandu (como seu
grande rival) nio vive uma fase
propriamente brilhante, pode-
se lembrar um dos seus mo-
mentos de maior gl6ria, quan-
do venceu o Pefiarol, do Uru-
guai, por 3 a 0, em julho de
1965. O mesmo Pefiarol que
acabara de se tornar campeio
do mundo, vencendo o Santos,
de Pel6 & Cia. Pois o presi-
dente (na 6poca) da Federa-
aio Perambucana de Futebol,
Rubens Moreira, de tio incr-


dulo com a noticia da faganha,
mandou um telegrama para o
seu colega P6ricles Guedes de
Oliveira, da federagqo paraen-
se, pedindo-lhe a gentileza de
mandar-lhe a relaqio dos no-
mes dos jogadores do time uru-
guaio na partida. Queria con-
ferir se o Pefiarol nio jogara
com reserves.

Liberdade
Nota da coluna "Informe Espe-
cial" de A Provincia do Pard
de 23 de setembro de 1966:
"Somente agora chegam a
Bel6m os detalhes do julga-
mento recent em que o Tri-
bunal Superior Militar negou
o "habeas corpus" impetra-
do pela Ordem dos Advoga-
dos do Brasil em favor dos
bachar6is paraenses Rui Ba-
rata, Raimundo Serrio Sobri-
nho e Benedito Monteiro, pre-
sos, segundo a imprensa do
sul, "a disposiqio do coronel
D6cio Fleury Chamillot, co-
mandante da 5' Companhia
de Guardas e chefe do Ser-
viqo Secreto da 8" Regiio
Military" ("Correio da Ma-
nhi", edicio de ontem). Fun-
cionou como relator da ma-
t6ria o ministry Mourio Filho,
declarando, na ocasiio dojul-
gamento, que "as quartas-fei-
ras tenho pesadelo quando
tenho que relatar 'habeas
corpus' a fim de restaurar a
liberdade ou manter na prisio
aqueles que estio press por
crimes politicos".
"Neste caso acentuou o
ministro-relator infelizmen-
te nio posso conceder a or-
dem, uma vez que as infor-
maq6es do comandante mili-
tar da Amaz6nia, general Isa-
ac Nahon, meu velho amigo
e comandado, correspondem
a verdade. Os pacientes pra-
ticaram atos contra a segu-
ranqa national".
J. o ministry Alcides Car-
neiro, que votaria a favor do
"habeas corpus", declarou,
ao se manifestar sobre o as-
sunto: "Nao vejo neste caso
nenhum motivo para conside-
rar inid6neas as informacies
do general Nahon, mas ele


10 JUNHO DE 2006 ILQUINZENA Jornal Pessoal


PROPAGANDA

Vassoura sonhadora
Como na epoca ainda ndo havia o "politicamente cor-
reto", a vassoura "Sonho de Valsa" ndo hesitava em
se proclamar, em 1948, "orgulho das Criadinhas".
Era produzida por Ribeiro & Filho, "em grande es-
cala", de todas as qualidades, na Fdbrica Luso-Bra-
sileira, localizada na rua Manoel Barata, 1377 (as
proximidades da Doca). Mas convenhamos: manejar
vassoura como um sonho de valsa e por demais exa-
gerada licenqa de marketing.

SMdame. Vaisoutr da qualidade s6 exist uwr nstl cdude 1

S"Sonho De Valsa"
A vomua oagubah dui Cridnhu.








Ribeiro E 8 Filb o




J ropricetil dI Faibrt Ltus-Braiusra dejnal It Ecmtas
Dmu do caa um p roR.pe Ano Novo
i i ii iiiir m-i i r 1111u.-.. ....-














r9


FOTOGRAFIA

0 leite batizado
0 "comando sanitdrio" da Secretaria de Saude do Esta-
do foi as ruas em fevereiro de 1961 cor um objetivo:
inspecionar o leite in natural servido a populaado de Be-
lem. Duas camionetes da secretaria interceptavam as car-
rocinhas de leite, levando-as para urn posto instalado ao
lado do Mercado de Sdo Braz. Ld, dois tecnicos faziam
exame do leite. Apenas os 25 litros carregados pela car-
rocinha da granja Estrela Brasileira eram limpos e bons.
Essa granja, localizada na avenida Conselheiro Furta-
do, 1696, era de propriedade de Albino da Costa. Jd o


produto de todas as demais


carrocinhas estava adultera-


do e cheio de impurezas (como farelo e cabelo). Era leite
produzido por estdbulos, como o Vai-Vai, Amdrico Alves e
Nazare, e granjas, como a Santo Antonio, BraganCa, San-
ta Maria e Queluz.
Uma das medidas da secretaria era forgar os produto-
res a substituir as rolhas anti-higienicas entdo usadas nas
garrafas de leite por tampas apropriadas, de metal, que
lhes serial entregues de graqa. Mas as "vacarias" urba-
nas estavam jd corn seus dias contados. Os poucos leitei-
ros conscienciosos, como o "seu" Albino (que aparece na
foto corn sua carroca), eram excecdo rarissima.


pode ter sido mal informado,
como o foi o comandante do
III Ex6rcito, a quem a policia
deu informaq6es erradas, im-
pedindo que este Tribunal
concedesse liberdade ao ex-
sargento Manuel Raimundo
Soares, o que teria evitado na
certa a sua morte".
A favor da concessao da
media solicitada pela Ordem
dos Advogados votaram, por
fim, os ministros togados Alci-
des Carneiro Murgel de Resen-
de, Orlando Ribeiro da Costa e
o ministry military Pery Bevilic-
qua. Os advogados Raul Lima
e Ivi Paixdo, representando a
Ordem, fizeram a defesa"
O HC nao saiu, numa 6po-
ca de excepqo, mas pelo me-
nos nessa 6poca a OAB do
Pard cumpria a sua funcao de
defender a liberdade de pen-
samento e de expressao, co-
locando-se ao lado dos perse-
guidos e reprimidos. Nao dos
repressores, como agora.


Romulo Maiorana era dono de O Liberal (que
na 6poca ainda era vespertino) havia dois anos
quando escreveu a seguinte nota na sua coluna,
"Norte Confidencial", sob o titulo "Meu muito
obrigado", em outubro de 1968:
"Uma garotinha de tres anos, atraida por um
brinquedo, talvez, desgarrou-se de suas acom-
panhantes e perdeu-se num magazine. Alguns
minutes depois, notada a sua falta, sobressal-
tou-se a responsivel pelo passeio, alarmaram-
se com just motivo as irmas da petiz, apelos
foram feitos visando a localizaqao da crianqa
em qualquer parte da cidade.
Dez minutes depois duas senhoras de maos
humanitarias conduziam a menina a um estddio
de television, interrompendo as compras ao meio
e pagando taxi para que ela nao ficasse choran-
do e sem rumo na rua corn a noite se aproxi-
mando.
O responsivel pelo program que estava no
ar, naquele moment, imediatamente o interrom-
peu para anunciar haver sido encontrada a ga-
rota. Fez com que os cameras focalizassem a
menina, para que seus familiares ficassem tran-
qiiilos. Ainda mais: lancou um apelo as pessoas
que porventura a conhecessem, para que tele-


fonassem a emissora, informando seu endere-
qo, pois ele pr6prio iria deixi-la em casa.
Uma senhora telefonou imediatamente ao
colunista dizendo que acabara de ver a menina
na TV. Outra largou seus afazeres ao saber do
fato. De autom6vel, foi a estaq~o, recolheu a
garota e a entregou sa e salva! Tudo isso ocor-
reu num tempo calculado de quarenta minutes,
mais ou menos. Essa imensa cadeia de solidari-
edade, admirivel em todos os sentidos, louvd-
vel pelo fundo sentido de humanitarismo que
revela, cartao postal de uma sociedade que sabe
se ajudar mutuamente, foi formada anteontem
A tarde, em Bel6m.
O registro do colunista trai a razao do fato: a
menina era sua filha Roberta, a emissora a TV
Marajoara, Canal 2, o responsivel pelo progra-
ma o humorista Alecrim, a senhora que telefo-
nou, nossa amiga de familiar, sra. Alfredo Pi-
nheiro e quem foi busci-la d. Aline Pinheiro
Martins. Falta a este colunista agradecido o
nome das duas piedosas senhoras que recolhe-
ram a menina nas Lojas Brasileiras, a cujo ge-
rente tamb6m sou grato, levando-a at6 a emis-
sora.
Obrigado, muito obrigado, amigos!"


Journal Pessoal 1 QUINZENA JUNHO DE 2006


Roberta


.1 og I I -iji 1 1 g Iml N011111w- ___ __ __ __ __ ww- WWAWA






A MARCA DE ELISA

Elisa Vianna Sa, que morreu no dia
2, aos 68 anos, parecia remanescer de
um mundo em extinqio: dos m6dicos
realmente comprometidos cor a said
piblica, corn um p6 nos hospitals e
outro nas ruas. Seu vel6rio e
sepultamento, por6m, mostraram que a
causa, se anda desprestigiada, nio esti
morta: dezenas de pessoas foram lhe
dar adeus em pleno domingo de manhd,
nas poucas horas em que seu corpo,
vindo de Sdo Paulo, esteve em
exposicao, na sede do Instituto Evandro
Chagas. Pessoas representatives de um
amplo espectro social, tocadas pelo
zelo, a energia e a dedicado de Elisa.
Pessoas que demarcavam a
trajet6ria percorrida por Elisa em uma
vida fecunda, estancada tio
abruptamente por um cancer violent,
quando comandava um novo process
em pleno curso, para consolidar o
"Barros Barreto" como hospital
universitArio. Elisa foi miltipla e sempre
marcante, uma autintica e complete
personalidade piblica, como poucas
vezes se viu na espaqosa e f6rtil zona
que vai do trato cor a saide fisica do
ser human at6 a lide political e social,
de dimensdo spiritual. Deixa sua
marca inesquecivel, imortal.



-' ,---'


SAOS LEITORES
Mais umna vez, os
processes judiciais \.
S comprometeram a
atualidade deste journal.
Ele sai muito prejudicado, '
mas espero que o leitor d
mais atenado ao esforo
/ para manter esta rota
S bandeira tremulando. \

.. -
L"" Q.- `""


Tribunal: para que?
Ha mais de seis anos o Tribunal de Contas do Estado funciona com um conselhei-
ro a menos. Essa vaga era reservada a categoria dos auditors. Uma lista foi enca-
minhada ao entao governador Almir Gabriel, em novembro de 2002, cor a inclusio
do nome de Ant6nio Erlindo Braga. O auditor tinha plena condiq~o de concorrer a
vaga. S6 depois dessa data ele completou a idade limited de 65 anos. E desde entio
vem travando uma incessante batalha judicial com o governor para que seu direito de
encerrar a carreira no posto mais alto seja respeitado. Na semana passada um man-
dado de seguranca, concedido por maioria pelo pleno do Tribunal de Justiqa do Esta-
do, confirmou liminar que Ihe garante a pretensdo.
O argument que se pode usar contra ele 6 de que logo o novo conselheiro se
aposentari, onerando o erario. No entanto, al6m de o acr6scimo nao ser nada excep-
cional, ha o direito liquido e certo de Erlindo Braga, que so pode ser obstado por um
ato de forqa do governor al6m de antipitico, autoritirio. E um jeito bem caracteris-
Stico do modo de ser da administration tucana, elitista e excludente. Alastrou-se do
executive para o legislative e se disseminou na sociedade como um todo.
Pelo que se sabe, o auditor cumpriu sempre suas funi6es, nada havendo que o
desabone ou prejudique seu direito. Mas o caso nao 6 apenas individual: se o Tribunal
de Contas funciona cor uma vaga nao preenchida ao long de mais de seis anos, por
que nio extingui-la? O raciocinio, por hip6rbole e exagero, pode levar a pergunta
seguinte: por que nao extinguir o pr6prio tribunal, tanto o TCE quanto o TCM (dos
municipios)?
E essa a mensagem subliminar da turrice tucana?


Cemiterio: Belem
Na semana passada parte do gradil do Cemit6rio da Soledade ruiu, em l6tima
instancia, por puro relaxamento da administration piblica municipal. O cemit6rio,
cor mais de 150 anos (a mesma idade das grades, importadas da Inglaterra), 6
considerado um dos mais bonitos do Brasil. Funcionou durante apenas 30 anos. Logo
o crescimento da cidade obrigou a transferencia dos sepultamentos para o Cemit6rio
de Santa Izabel, no Guami, muito mais distant. Desde entio, a prefeitura ter sido
incapaz de garantir a integridade do local, dando-lhe um uso capaz de preservi-lo.
Nio por falta de id6ias. Paula Andr6a Caluff Rodrigues sistematizou varias delas
em seu precioso livro O tempo e apedra, publicado em 2003. O projeto mais consis-
tente foi apresentado pela arquiteta Jussara Derenji, para transformar o Soledade em
cemitdrio-parque e museu a c6u aberto, evitando a constant e cada vez mais letal
depredadio sistematicamente praticada ao long das iltimas d6cadas. Cor a omis-
sdo do poder p6blico, ou por causa dela.
O livro de Paula 6 o 6nico dedicado exclusivamente ao cemit6rio, o que j garante
a importancia do seu trabalho. Mas o grupo Lider, do qual seu marido 6 um dos
donos, podia dar um pass A frente e assumir a causa do cemit6rio, adotando-o.
Assim as iddias de Paula Rodrigues podiam resultar em ages concretas e recuperar
um valioso patrim6nio da cidade, retomando inclusive sua raiz hist6rica, sem ficar
esperando pelo governor.
Do dinheiro necessario para a construqSo do cemit6rio, em 1850, apenas 10%
sairam dos cofres puiblicos. O Soledade s6 se concretizou porque grande parte dos
recursos necessarios veio de doacqo particular. De l1 para ci, nesse item, como em
quase todos, Bel6m andou para tris. Seu morador j nio se identifica corn sua cidade
e despreza seu espaqo pdblico. Seu universe vai da porta de sua casa para dentro. La
fora, o caos. E achamos que nao temos nada a ver com ele.


IILIVRO
V Continua a venda nas bancas e em algumas
livrarias meu livro, Guerra Amaz6nica (edi'go
Journal Pessoal, 300 piginas,
R$ 30,00). Espero que os leitores se
interessem por ele.
-, Poderj ajud -los a responder a muitas
dividas e questionamentos sobre a atua(go
da imprensa no Para nos 61timos anos.
~E a desfazer equivocos e mitos.


Jornal Pessoal
Editor: Lucio Flavio Pinto

Ediqao de Arte: L. A. de Faria Pinto
Contato: Tv.Benjamin Constant 845/
203/66.053-040 *
Fones: (091) 3241-7626
E-mail: jornal@amazon.com.br




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