Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00296


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ornal
A AGENDA AMAZ6
MAIO DE 2006 1 E 2 Q1


Pessoal
\IICA DE LOCIO FLAVIO PINTO
UINZENAS N 368 ANO XIX R$ 3,00


JUSITICA DO i :
VOZ COi UK/.,l : v.
PAGINA 3

SO V I. Inu j ?
PAGINA 7


POLITICAL



A alquimia do tucanato


Depois de 12 anos no comando do executive paraense, o PSDB tem o direito de promoter "um
novo Par ao Para que os tucanos deixaram ficar mais pobre? A image do novo existe
apenas na lepida e fagueira propaganda que a social-democracia utiliza no Estado.


Todos os dias, umrn milho de to-
neladas de rocha sio revolvidas
na Serra dos Carajis, 500 qui-
16metros a sudoeste de Beldm
e 400 metros acima do nivel do mar.
Depois de ligeiro tratamento, cerca de
400 mil toneladas sao depositadas no lo-
cal, por serem rejeito, e 600 mil tonela-
das do melhor mindrio de ferro do pla-
neta sao embarcadas em trens at6 o
porto da Ponta da Madeira, na ilha de
Sao Luis do Maranhdo, a 870 quil6me-
tros de distancia.
Para dar conta da demand pelo mi-
ndrio de melhor teor do mercado inter-
nacional, esse 6 o mais extenso com-
boio de trens do mundo. Neste ano ele


transportard mais de 90 milh6es de to-
neladas de carga, sobretudo min6rios e
seus derivados, corn valor superior a
tr6s bilh6es de d6lares. Navios de gran-
de tonelagem distribuirao essa carga
por muitos pauses, corn destaque para
a China e o Japao.
E quase circunstancial a provincia mi-
neral de Carajas fazer parte do territ6rio
paraense. Apesar de center uma das mai-
ores concentrac6es de minrios da Terra
e ser o destiny freqiiente de gente pode-
rosa dos quatro continents, muito interes-
sada em v-la, poucos paraenses conhe-
cem de ver esse conjunto de elevaq6es
mineralizadas de rochas velhissima. Sao
ainda mais raros aqueles que conseguem


exercer alguma influencia sobre o uso de
suas cobiqadas riquezas.
Carajas 6 o maior centro de produ-
Fio do Pard atualmente. Esti em fun-
cionamento ha mais de duas d6cadas.
Quem assistiu a said do primeiro trem
de mindrios, em 1984, jamais imagina-
ria que a ferrovia pudesse alcanqar
mais de quatro vezes a sua capacidade
de produgao de projeto e que aquela
paisagem original e bela (serras des-
cendo para os cursos d'agua por uma
encosta densamente coberta de flores-
ta) sofreria impacts tio profundos e
rdpidos. Intervalos de seis meses, na
escala atual de extracgo de mindrio,
CONTINUE NA PAG 2






CONTINUA;AO DACAPA
fazem o visitante se espantar corn as
mudanqas causadas pelo trabalho de
centenas de pessoas e dezenas de mi-
quinas gigantescas.
Esse ininterrupto trabalho de des-
monte, remoqio e aterramento, em tur-
nos de 24 horas, podia significar a re-
denqco do Estado. O preco do min6rio
dobrou em duas safras seguidas e a
produSgo vem se multiplicando acele-
radamente. A cesta de produtos tam-
b6m se diversificou. Embora o ferro
seja o carro-chefe, logo essa posiqgo
deverd ser ocupada pelo cobre, present
hi dois anos na pauta de exportaqgo
de Carajis. O manganes chegou a urn
nivel record, o dobro atingido para
escandalo dos nacionalistas, que nio
aceitavam a remessa do min6rio bruto
para os Estados Unidos em Serra do
Navio, no Amapi.
Mas na realidade parece mesmo que
Carajds nio 6 do (nem mesmo no) Pard.
O Estado continue no rabo da fila da fe-
deraCgo, cor indices de desenvolvimen-
to (e outros indicadores sociais) que es-
tio abaixo at6 da sua grandeza demo-
grifica (sem falar do seu tamanho fisi-
co, o segundo maior Estado brasileiro).
O modelo de exploracio de Carajis 6
colonial, de transfer6ncia de riqueza e
pouco efeito multiplicador interno. E
verdade. Mas podia nao ser exatamen-
te assim. Nem mesmo esti escrito que
tinha que ser mais ou menos assim.
Na semana retrasada, o president
da empresa que 6 dona dos direitos de
lavra em Carajis, da ferrovia que trans-
porta os min6rios, do porto no qual os
embarca e de quase tudo que diz res-
peito a essas atividades, foi homena-
geado em Nova York. Roger Agnelli re-
cebeu o titulo de personalidade do ano,
concedido pela Camara de Com6rcio
Brasileiro-Americana.
A faustosa solenidade foi realizada
no suntuoso hotel Waldorf Astoria. A ela
compareceram governadores e repre-
sentantes dos 12 Estados nos quais a
Companhia Vale do Rio Doce atua no
Brasil. Dentre eles, nio se fez present
o governador do Pari, o segundo mais
important no ambito da companhia, nem
ele se dignou mandar qualquer repre-
sentante ou justificar a descortesia ao
convite. Do Estado, apenas dois politi-
cos: o senador Luiz Otivio Campos e o
deputado federal Jader Fontenelle Bar-
balho, ambos do PMDB, da digamos
assim oposicqo local.
Quando governador, em dois man-
datos, Jader manteve convivencia en-
tre o amdvel e o conflituoso corn a
empresa, conforme os ambientes e as
circunstancias. A diretoria da CVRD
que deu a partida ao Projeto Ferro fi-


cou impressionada com um discurso
contundente que ele pronunciou no ci-
nema da vila residential de CarajAs. Os
executives da coligada Albris, na inau-
guraq~o da fabrica de aluminio de Bar-
carena, revelaram a mesma impressao.
Imaginavam que teriam pela frente
um governante inteligente, bem infor-
mado, combative, defensor dos interes-
ses estaduais. Iam ter que ceder mui-
tos an6is. Acabaram entregando ape-
nas uns poucos e nem sempre para
melhor desenvolver o Estado (ou con-
tra recibo). Jader Barbalho foi uma
surpresa. Muito mais frustraqdo do que
surpresa. Ao menos para o Estado. A
companhia aprendeu que os interesses
de um nao combinam com os de outro.
Almir Gabriel assumiu o governor, em
1995, nunca deixando de repetir (at6 a
elefantiase) que o passado acabara. Ele
fundaria o "novo Pard", se nao fosse -
pura e simplesmente fundar o Pari,
ponto. A CVRD roeu ossos duros nas
ante-salas do governador e teve que ou-
vir desaforos, nem todos procedentes, per-
tinentes ou sensatos. Como acontecera
cor Jader, ficou novamente impressio-
nada. Mas logo descobriu que os lideres
politicos paraenses nio primam exata-
mente pela estatura de estadistas. O dou-
tor Almir, que ameaqara se opor A priva-
tiza~io da CVRD, comandada pelo seu
bicudo correligiondrio Fernando Henrique
Cardoso, calou-se obsequiosamente a
espera de uma compensagqo.
A compensagao se materializaria
cor a instalaq.o, no Para, da fibrica
de cobre da Salobo Metais, na 6poca
investimento de US$ 2 bilh6es, tamb6m
disputado pelo Maranhao. Feliz da vida,
o governador foi a Marabi para o lan-
qamento da pedra fundamental da usi-
na, com seu brilhante nome nela inscri-
to, pouco antes de a estatal ir a leilao,
ser arrematada por preco de compa-
dre (e amigo da onqa) e lanqar ao ven-
to as palavras da v6spera. Da fabrica
ficou a placa reluzente e o doutor Al-
mir nem p6de se livrar do liquid de um
abio metaf6rico com que untou como
lacre seus libios antiprivatizacgo. A
social-democracia 6 chuva de verao nos
tr6picos. Para nao usar image mais
sonora e menos profunda.
A Vale continuou a ser, assim, o alvo
dos combatentes politicos paraenses, de
pdblico, e a destinatiria dos seus pedidos
e esmolas, nos bastidores. A empresa
continuou a molhar a mdo dos pretenden-
tes corn o troco daquilo que imaginava
ser obrigada a entregar, se aquela ima-
gem de Jader e de todos os seus ante-
cessores e sucessores nao se tivesse
mostrado nada mais do que miragem.
Como seu antecessor, o economist
Sim~o Jatene tamb6m prometeu tercar


armas cor o dragao da maldade das des-
gracas paraenses. Nao indo al6m da pri-
meira estocada, logo se credenciou h sua
pr6pria compensaqio, com destaque
para 30 mil casas populares a serem
construidas em convenio cor essa que
se tornou, no period de hegemonia do
tucanato paulista (e, agora, sob o ope-
rariado honorArio paulista, sua contra-
faqao apenas em tese), a maior empre-
sa privada do pais, a quarta mineradora
do mundo, a maior distribuidora de divi-
dendos do globo terrestre.
A ostensiva ausincia do governador
do Pardi apoteose de Roger Agnelli
em Nova York podia ter valor simb6li-
co positive, se a atual administration
estadual realmente tivesse o que apre-
sentar em oposiqio (nao em tese, mas
operative) ao "modelo" da Vale. Mas
o governador Jatene, na v6spera do
ocaso, nio tem nem f6lego para reivin-
dicar um segundo mandate. Fenece
melancolicamente diante do impeto mais
vigoroso do doutor Almir.
Diz O Liberal, a folha oficiosa do
governor (na sempre infrutifera tentati-
va de ser mais chapa branca do que o
Didrio Oficial), que o doutor Almir estd
preparando seu piano de governor (por
enquanto, de campanha eleitoral) sob
total sigilo, para que, dele, nada vaze para
a massa aparvalhada dos incr6us (como
diria Nl6son Rodrigues, o anti-unanimi-
dade). Essa forma de conceber, anun-
ciar e p6r em pritica pianos de governor
6 pr6pria dos iluminados tucanos, her-
deiros diretos da sabedoria exclusivista
dos deuses. Cor a revelaqio sibita, de
impact, imobilizam a opiniio p6blica e
se permitem agir como os donos das ti-
buas das leis. Era o que faziam os mili-
tares com seus "projetos de impacto,
como a Transamazonica.
Mas que pode o doutor Almir trazer
de novo para o Pard que ji nao fez nos
seus dois mandates anteriores e o que
realizou seu ex-secretirio e fact6tum
no quatrifnio seguinte? S6 se, aos 75
anos, o process de rejuvenescimento
devolvesse ao pr6-candidato do PSDB
os ideas que o guiavam na vida pdbli-
ca at6 aquele moment em que, por
acaso, circunstancia, sorte e talent, ele
comeqou a se tornar poderoso. Mas o
Pard retornard a esse devir para se
ajustar a visdo prospective (ou estra-
t6gica, como hoje se prefer dizer) do
doutor Almir?
Impossivel. As centenas de milh6es
de toneladas de rochas paraenses en-
tranhadas de riquezas que foram man-
dados para outros paises nao retorna-
rao nunca mais. Nao poderdo ser re-
cuperadas para ser transformadas em
ago e, do aqo, em indmeros produtos
derivados, de valor muito mais alto do


2 MAIO DEI2006 IE 20 QUINZENAS Jornal Pessoal









Justica do Para: eu acuso!


O juiz Amilcar Bezerra Guimaraes 6
o titular da 1" vara civel de Bel6m. Em
junho do ano passado ele foi designado
para substituir ajuiza Luzia Socorro dos
Santos na 4" vara entire os dias 14 e 17.
Mas nada fez nos dois primeiros dias. O
6ltimo era uma sexta-feira. Ele pediu ao
cart6rio os autos do process de indeni-
zagio por danos morais que o empreitei-
ro Cecilio do Rego Almeida props con-
tra mim, em 2000.
S6 devolveu o volumoso process,
cor 400 piginas, na terga-feira seguin-
te, 21, quando a juiza titular ji reassumi-
ra sua funqio. Junto cor os autos veio
uma sentenqa me condenando a indeni-
zar o dono da Construtora C. R. Almeida
pelo crime de aponti-lo como grileiro de
terras. Como a interinidade de Amilcar
Bezerra cessara no dia 17, ele firmou a
sentenga cor data retroagindo a esse
mesmo dia 17.
Ao prestar informaqoes a Correge-
doria Metropolitana de Justiqa, a qual
represented contra o magistrado, Amilcar
Guimaries explicou a razao da sua so-
freguidio em sentenciar o process:
"Pedi ao escrivao que me trouxesse
o process dojornalista Licio Flivio Pin-
to porque tinha interesse pessoal emjul-
gar um process por dano moral contra
jornalista ou 6rgio de imprensa. Qual-
querjornalista ou qualquer 6rgio de im-
prensa. Este interesse nasceu depois
que li uma decision do STJ afirmando que
a revista VEJA poderia chamar a ex-
prefeita de Sio Paulo, Marta Suplicy, de
'Perua'. Na ocasiao discordei da tese
do STJ por acreditar que a Liberdade
de Imprensa restringe-se a informaqio
e a critica; que esse direito terminal onde
comeqa o direito a [sic] dignidade pes-
soal de quem 6 noticia e que, portanto, o
direito h imprensa livre nio inclui a prer-
rogativa de xingar os outros, de ofender
a dignidade alheia".
Disse mais ojuiz:
"Esperei ansioso a oportunidade de
expor essa tese que, data maxima venia,
me parece das mais relevantes, post que


os juristas brasileiros e
estrangeiros ainda nio
firmaram uma doutrina
definitive sobre o assun-
to. Quando assumi a 4
vara percebi imedia-
tamente a possibilida-
de de registrar esse
pensamento juridico"
(grifo meu).
Disse o juiz acredi-
tar que a ementa da sua
sentenCa ("O direito a
liberdade de imprensa
acaba exatamente onde
comeqa a dignidade de
quem 6 noticia"), den-
tro de 20 anos, nortea-
ri "a linha de pensa-
mento dos juristas", embora desde ji la-
mente que o cr6dito de seu auto-procla-
mado pioneirismo nio serd reconhecido,
"como de costume".
Deixe-se de lado a grandiloqtiincia
do magistrado e sua infundada crenqa
na originalidade da ementa de sua sen-
tenca, ou seu pioneirismo doutrindrio
(que devolveria o direito ao individualis-
mo absolutista, velho de s6culos). Inde-
pendentemente de toda problematizaqao
possivel a partir de suas id6ias, desta-
ca-se o fato de que ele "percebeu ime-
diatamente" que a aqio de C. R. Al-
meida contra mim era a sopa no mel
para a revelaqio ao mundo juridico de
suas id6ias revolucionfrias.
Ora, o process tramitava primei-
ramente em Sio Paulo, de onde foi de-
saforado a minhas instancias, e depois em
Bel6m hi cinco anos, acumulando pi-
ginas e piginas de arguments e provas.
Eu nio estava chamando Cecilio de ve-
lho ou feio: em artigo escrito nestejornal,
provava que ele 6 um "pirata fundidrio",
tomando como ponto de partida uma re-
portagem (de capa) da revista Veja.
Se era instantanea a evid6ncia da mi-
nha culpa, por dano moral causado ao
suposto ofendido, como 6 que a justiqa
de Sao Paulo absolveu o reporter da re-


vista Veja, author da mat6ria anterior a
minha (e a qual meu texto se referia), o
advogado Carlos Lamario Correa, pro-
curador do Estado do Pari, e todas as
demais pessoas processadas pelo mes-
mo C. R. Almeida, por id6nticos motives?
A justiqa paulista nao s6 absolveu os acu-
sados como lhes elogiou o desempenho
na defesa do interesse piblico e mani-
festou sua convicqio sobre a grilagem
praticada pelo empresirio.
De todos os processados, apenas eu
fui condenado, justamente no Estado que
tem seu patrim6nio fundiirio ameaqado e
dilapidado pelo "pirata fundiirio", aponta-
do em todas as instancias p6blicas rela-
cionadas a mat6ria como o maior grilei-
ro de terras do pais, provavelmente do
mundo. S6 o juiz Amilcar Guimaries fi-
cou imediatamente convencido da minha
culpa, de rest pr6-estabelecida por seu
convencimentojdi firmado, independente-
mente das provas contidas nos autos.
Mas deixemos de lado essas e mui-
tas outras consideraq6es que a ins6lita
sentenqa motiva. Ao representar t Cor-
regedoria de Justica contra o meu al-
goz atentei apenas para as irregulari-
dades e ilegalidades que ele cometeu
na sofreguidio de demonstrar sua re-
CONTINUA NA PAG 4


CONTINUA;AO DA PAG. 2


que aquele que nos foi pago por nos-
sos min6rios. A energia embutida nos
milh6es de toneladas de aluminio tam-
b6m nio poderi ser reprocessada em
panels, laminados e outros artefatos
de metal. Essa parte da hist6ria do
Estado ji era. E enquanto se tornava
passado, o que fizeram os tucanos
al6m de falar empolado, malhar o 6b-
vio Judas da corrupqio no Pari, fazer


quinquilharias carissimas e montar ig-
rejinhas com maneiricistas altares tu-
canos para seus amigos?
O doutor Almir de Oliveira Gabri-
el, que se prepare para disputar o,ter-
ceiro mandate de governador, podia
pelo menos nos deixar uma compen-
saqao mais corp6rea do que as que a
CVRD prometeu a ele e ao seu su-
cessor e future antecessor: sonhar


com uma verdadeira novidade, capaz
de durar um pouco mais do que perfu-
me de segunda categoria. Ainda que
nio haja, dentre todas as alternatives
political disponiveis no mercado, ne-
nhuma capaz de realizar essa esperan-
9a, ao menos seria melhor se desiludir
de vez e buscar outro caminho do que
ver nova alquimia verbal no lugar do
que ela 6 na verdade: o nada.


Journal Pessoal E 22 QUINZENAS MAIO DE 2006 3






CONTINUA(AO DA PAG 3
voluciondria hermeneutica sob o cada-
ver do meu direito.
Em primeiro lugar: o process nio
estava pronto para ser sentenciado. Nem
mesmo as folhas estavam totalmente
numeradas. Quatrojuizes ji haviam pas-
sado pelo process e a president do fei-
to naquele moment nio o saneara para
sentence. Meu recurso contra ojulgamen-
to antecipado ainda estava em procedi-
mento na instancia superior, pendente de
informaqio do relator de um agravo de
instrument (concedido liminarmente,
mas final perdido por um lapso de pro-
cedimento do escrit6rio de advocacia que
me defendia).
Em segundo lugar: quando um juiz
substitute, que nio instruiu o process,
process tio volumoso (para nio dizer
complex) como aquele, o sentencia no
iltimo dia de uma interinidade, que s6 em
tese era de dois dias (na verdade, foi de
um inico dia)? Quando nada, sua sen-
tenca estaria sujeita a ser questionada por
violar o principio da vinculaqio ffsica do
juiz ao process.
Em terceiro lugar: ojuiz Amflcar Gui-
maries j nio tinha autoridade legal para
proferir a sentence no process porque
o prazo da sua designaaio como substi-
tuto na 4a vara cfvel perdera sua valida-
de no dia 17. Ele s6 devolveu os autos no
dia 21, anexando sentenqa fraudulenta-
mente datada do dia 17.
Juntei a representaiao contra ele uma
certidio do director da secretaria da 4"
vara, em exercicio, Osvaldo Ferreira, cer-
tificando que os autos do process "fo-
ram conclusos ao Juizo no dia 17.06 e
devolvidos no dia 21.06.05".
Oficiado a prestar informaq6es pela
desembargadora Carmencin Marques
Cavalcante, Corregedora Metropolitana
de Justiga, o juiz, al6m de apresentar a
sua explicaiao para a sentenca, aprovei-
tou para "falar da hipocrisia e COVAR-
DIA do reclamante [eu]. Hipocrisia por
que [sic] nio estd reclamando do fato do
fato do process ter sido julgado corn
rapidez CONTRA ELE. Se a aqio ti-
vesse sidojulgada a seu favor, esse hip6-
crita nao s6 nio teria apresentado Re-
clamaaio alguma na Corregedoria como
publicaria a decision em seu journal e me
cobriria de elogios".
Acrescentou ainda o magistrado:
"Covarde, Dr" Corregedora, porque
nao ter coragem de dizer, e arcar corn
as conseqiencias, que a sentenca foi
dada para tender a algum interesse es-
cuso. O reclamante faz crer a V. Exa,
atrav6s de suas insinuac6es, que eu pre-
variquei ao julgar a acio contra os inte-
resses dele e a favor de um poderoso
economicamente. O covarde nio teve
coragem de afirmar isto claramente. Nio


precisava. Ele sabe que bastava insinu-
ar, porque a maledicencia humana se
encarregaria do resto".
Ja acusei de ladrio ou prevaricador
gente muito mais poderosa e quem
sabe? inteligente do que o juiz Amilcar.
Nio temo quando fa9o acusagio porque
s6 acuso cor provas. E nio acuso por
futilidades: 6 sempre na defesa do inte-
resse p6blico. Acusei o empresario Ce-
cflio do Rego Almeida de grileiro corn
todas as provas que se pode juntar e que
se acham reunidas em tantos processes
ji instaurados contra ele por diversos 6r-
gios piblicos, inclusive najusti9a. Como
nio tenho prova de que o juiz deu sua
ins6lita sentenqa por prevaricadio ou
corrupqio, nio o acusei nem insinuei
nada. A reclamaFio 6 t6cnica, factual: o
sentenciante violou as normas legais e
usurpou da funqCo.
Analisando as informaq6es do juiz, a
corregedora verificou "assistir razio" a
mim,ji que o pr6prio magistrado confes-
sou seu "interesse pessoal" em proferir
a sentenqa no caso:
"No afaf de expor a sua tese", obser-
va a desembargadora Carmencin Caval-
cante, o juiz nio atentou para o que lhe
imp6e o artigo 132 do C6digo de Proces-
so Civil: "Ojuiz, titular ou substitute, que
concluir a audiencia, julgard a lide, salvo
se estiver convocado, licenciado ou afas-
tado por qualquer motive, promovido ou
aposentado, casos em que passard os
autos ao seu successor .
Ainda que essa identidade fisica "no
esteja verdadeiramente caracterizada"
no caso, "haja vista a inocorrencia de
audiencia de instrugio e julgamento",
argument a desembargadora-correge-
dora, "nio se pode negar ter ocorrido
precipitaqio do Magistrado, que respon-
dendo cumulativamente pela 4a Vara Cf-
vel apenas por quatro dias, sem conside-
rar que os Autos do agravo nem sequer
haviam sido remetidos ao Juizo agrava-
do, sentenciou em um feito no qual
nunca tinha funcionado e que por ele
foi solicitado ao Diretor de Secretaria",
caracterizando dessa forma o "interesse
pessoal" na causa (grifei).
Mas al6m dessa questio, aponta a
corregedora para o flagrante descumpri-
mento do dever legal do magistrado de
"cumprir e fazer cumprir, cor indepen-
dencia, serenidade e exatidio, as dispo-
siq6es legais e os atos de oficio", que a
Lei Organica da Magistratura Nacional
lhe imp6e:
"Ora, ao agir o Magistrado requerido
na forma como esti descrita nestes au-
tos, nao somente na exordial [minha re-
clamaiVdo], mas tamb6m, em suas infor-
maq6es, deixou de cumprir as disposi96es
legais e os atos de oficio, cor indepen-
d6ncia e exatidao, preferindo ceder a


pressao psicol6gica de seu pr6prio tem-
peramento, para expor uma tese juridica
que tinha interesse em defender, mesmo
sem ter presidido o process e sem tem-
po suficiente para examind-lo devidamen-
te, dada a exigtiidade dos dias que res-
pondeu cumulativamente pela citada 4a
Vara Civel de Bel6m".
Assim, "considerando a gravidade dos
fatos", a desembargador Carmencin Ca-
valcante entendeu "que se faz necessd-
ria a sua apuragio, devido haver nos au-
tos indicios de infringencia pelo Magis-
trado, ao Art. 35, inciso I, da LOMAN e
Art. 203, inciso I, do C6digo Judiciario
do Estado, haja vista nao ter cumprido
devidamente as disposiq6es legais, cor-
respondentes ao equilibrio que deve pos-
suir todo Magistrado". Manifestou-se a
corregedora de justiga pela instauraaio
de process administrative disciplinary
contra o juiz Amilcar Guimarfes. Por
maioria de votos, o Conselho da Magis-
tratura acolheu a sugestao.
Mas fez uma coisa que eu estranhei:
mandou apensar a minha reclamagio a
seis outras representaq6es feitas por to-
dos os diretores do Banco da Amaz6nia.
Embora todas essas demands fossem
contra o mesmo magistrado, a causa de
pedir e as suas circunstancias eram com-
pletamente distintas. Apesar de empre-
gar linguagem inconvenient, ojuiz fun-
cionou na vara da qual 6 titular, cor a
autoridade devida, em rela9io ao Basa.
A decisao que tomou tamb6m era sim-
patica: responsabilizar a instituigio pelo
prejuizo causado aos que aplicaram num
fundo que o banco Ihes oferecera, em-
bora a responsabilidade t6cnica fosse do
Banco Santos, de Edemar Cid Ferreira
(processado najustiqa e preso pela Polf-
cia Federal). O que, de certa maneira,
fez os desembargadores do Tribunal Ple-
no se concentrar nas representag6es dos
diretores do banco.
O desembargador Joao Maroja re-
presentou essa tendencia ao se colocar
ao lado do juiz, que "apenas manifestou
na realidade dos autos, no inconformis-
mo das pessoas que tiveram toda aque-
la poupanqa que aplicaram durante a
vida toda desviada para um Banco que
foi i falencia".
Ja o desembargador Eronides Sousa
Primo revelou um estado de inimo con-
tra mim, dizendo que ofendo os membros
do tribunal neste journal e que ji o ofen-
dera "numa certa ocasiao", obrigando-o
a abrir inqu6rito, no qual "fui absolvido".
O desembargador Geraldo Correa
admitiu: "nao conhe9o os autos". Ainda
assim, endossou o relat6rio apresentado:
"nao vejo nenhum sinal, nenhum indicio
de delito administrative que pudesse jus-
tificar a instauraqio do processo.
CONTINUE NA PAG 5


4 MAIO DEl'2006 IE 21 QUINZENAS Jornal Pessoal









Mem6ria de

Reencontrar Marcos Dantas, depois
de mais de 20 anos, na semana passada,
durante o seminario preparat6rio para o
congress national de engenheiros, sig-
nificou recuperar a mem6ria de um mun-
do que parece ter passado, ou acabado.
Entre o final dos anos 70 e durante os
anos 80 nos encontrAvamos pelo Brasil
afora em todo tipo de events para dis-
cutir o Brasil e a Amaz6nia. Eramos, prin-
cipalmente, jornalistas, economists, ge-
6logos, soci6logos, antrop6logos, rara-
mente pagos por essas participaq6es, mas
movidos pelo entusiasmo de mudar o pafs
pela inteligencia, em pleno period de
obscurantismo.
Nossas musas inspiradoras eram He-
lena Lastres e Maria Clara. Nio s6 por
serem belas mulheres, mas tamb6m e,
sobretudo por sua inteligencia, compe-
tencia, capacidade de trabalho e o mes-
mo idealismo de todos. No fundo, acre-
ditivamos que o regime de forqa acaba-


um mundo que passou

ria se submetendo a forga da inteligen- a admiraqio sobre a inveja, o desejo de
cia. Peregrinivamos por todos os audi- aprender sobre o de dar lives, o de fa-
t6rios e ambientes armados com essa zer sobre o de desfrutar. Eramos uns
convicqio, dispostos a nos entestar com cavaleiros andantes.
qualquer um, sem receio. Afinal, porti- Aos poucos se deu a diaspora. Den-
vamos a ferramenta mais eficaz: a capa- tre outros fatores, a democracia sob a
cidade de demonstrar a verdade. bandeira do individualism e da exclusio
Uns queriam instaurar o socialismo. parece ter contribuido muito para a
Outros, escaldados pelas decepq6es, pro- pulverizaqdo das pessoas e a diluiqio dos
curavam a social-democracia, fugindo a ideas. Muitos de n6s saimos do curso
todo risco de totalitarismo. Mas, na ver- principal dos acontecimentos, se isolan-
dade, vivendo num regime capitalist, que do, perdendo a identidade comunitiria.
nio chegivamos a renegar de todo, 6ra- Mas nio o patrim6nio que os combates
mos filhos do keynesianismo. Caminhi- travados nas d6cadas passadas constitu-
vamos sempre na direcio do pleno em- iram. Daf a festa que assinala os reen-
prego, sem precisar digladiar por nosso control, mesmo os ripidos e efemeros, a
lugar ao sol, que estaria a nossa espera, reavivar as cinzas de uma mem6ria de
se soub6ssemos tomar a direcgo certa. realizaqbes, algumas, sonhos, muitos, e a
Nossa bdssola era o dominio dos fa- sensaqdo de que integramos um mundo
tos. Seguindo essas pedras bem concre- que j nao 6, mas, talvez, ainda possa vir
tas de 16gica e raciocinio, farfamos a his- a ser. Pelo menos dentro da nossa gene-
t6ria a nossa e a dos demais. A coope- rosa lembranqa que carregaremos conos-
ra~io predominava sobre a competition, co at6 o nosso fim.


CONTINUA;AO DAPAG. 4


A desembargadora Yvone Santiago
Marinho, por considerar ojuiz "corajoso,
honest, capacitado, destemido e com-
petente", declarou, "cor todo entusias-
mo, cor toda enfase, ser contrdria a ins-
tauragio do PAD contra o eminente
magistrado".
Alguns outros desembargadores, afo-
ra os que se abstiveram de votar, rejeita-
ram as representaq6es, sem fundamental
suas posiq9es. Mas a desembargadora
Maria Rita Xavier, que votara a favor do
procedimento no Conselho da Magistra-
tura, reafirmou sua posiqio. Disse:
"Sio sete processes contra o digno
magistrado, pelo uso de terms ofensivos
as parties, terms grosseiros. Estio ape-
lando pela falta de comportamento, de
conduqdo em um process digno de um
magistrado, tanto que houve at6 uma quei-
xa-crime contra ele. Esti tramitando um
process por injiria, difamagao e callinia.
Tomei conhecimento, quando da reuniio
do Conselho, que, embora nio tenham sido
individualizadas as acusaq6es, ele chamou
de quadrilha e de corja. Quadrilha, voce
nio precisa individualizar, 6 um grupo
mesmo; entio, acho que os terms usa-
dos por ele sio muito fortes".
E acrescentou:
"Embora ele seja, reconhecidamente,
um bom juiz, mas acho que serviria de li-
qio, porque ele ji foi chamado atendio
virias vezes na Corregedoria isso cons-
tou quando da reuniio do Conselho e naio
se emendou. Ja foi recomendado a ele que
se abstivesse de usar certos terms ofensi-


vos e continuou, e por isso o meu voto, no
Conselho, pela instauraqio do process e
continue sendo, aqui, meu voto".
A desembargadora Eliana Abufaiad a
acompanhou, lembrando ter feito, pouco
tempo antes, um comunicado sobre o
"modo desrespeitoso como ojuiz se diri-
gia 5 parte". Observou que nao estava
em questio os atributos pessoais do ma-
gistrado, considerados por ela como lou-
viveis, "mas ele nio 6 parte, ele nio tern
porque manifestar a revolta dele. Ele tem
que julgar cor equilibrio e 6 o que nio
esta acontecendo. E eu, como amiga,jA
falei diversas vezes para ele e ele, real-
mente, nio atenta para isto".
A desembargadora Maria de Nazar6
dos Santos, como quase todos os seus
pares, tamb6m se ateve apenas as re-
presentag6es dos diretores do banco, ig-
norando a minha: "Realmente, acho que
o Dr. Amilcar usou palavras indevidas,
mas acho que o PAD ji 6 muito... seria
demais para uso dessas palavras, ji que
esti [em andamento uma] aqdo penal
[que e apenas dos diretores do banco,
ndo minha]. E, outra coisa, sei que nio
foi diretamente aos diretores, foi A insti-
tuigio de um modo geral".
O president do tribunal, Milton No-
bre, se manifestou contra o procedimen-
to disciplinary, nos seguintes terms, con-
forme as notas taquigraficas:
"Sou contra porque nao vi no exame,
alias, eu fiz questao, ao relatar, de mos-
trar, e fiz cor a lealdade que sempre faqo
cor os colegas. Mandei levar para a cor-


regedora, porque achei estranho no rela-
t6rio que ela fez, ela no final pedir que ins-
taurasse um process, quando ela cita um
caso anterior, em que dis 'Posto isto, ele
deve se abster...', mas nio h6 motive. E
era uma representacio, inclusive, da Or-
dem dos Advogados, estava citado. Esti
lI e eu inclusive aspeei: 'Entendemos nio
haver motives concretos que deem ense-
jo instauraqgo'.Ai chamei a minhajuiza
auxiliar e disse: 'Isto aconteceu, mas eu
tinha que relatar que nos anteriores eu
considered, para mostrar que era reitera-
da conduta'. Isso eu entendo. Mas da
mesma maneira que entendo isso, enten-
do que nio houve antes, nio hi depois, jd
que o fato era o mesmo ou 'o mesmo'
no sentido de mesmice, no sentido de iden-
tidade, e nio de igualdade, porque s6 sio
iguais ou diferentes, somos juristas e sa-
bemos disso. Por isso mesmo, sendo a
mesmice, tamb6m d6i minha manifesta-
gqo de voto contririo".
O president, de qualquer maneira,
ainda se permitiu uma observaqio presi-
dencial: "O Dr. Amilcar ji sabe, porque
eu disse para ele, que as pessoas nio tern
o direito de jogar talent fora".
Por maioria de votos, a justiqa do
Para autorizou ojuiz Amflcar Guimaries
a usar seu talent para agredir as par-
tes e usar'as quest6es postas em juizo
como ocasido para as brilhantes herme-
neuticas que urde em seu c6rebro privi-
legiado para, no future, iluminar os hori-
zontes do direito pitrio.
E assim a justica do Para.


Journal Pessoal IE 21 QUINZENAS MAIO DE 2006 5








A Santarem


de sempre


na memorial


de ontem

Era important chegar ao aeroporto
de Santar6m com a sensaqio de estar
em casa, de nio ser um estranho, mes-
mo depois de prolongadas ausencias.
At6 uns anos atris esse "estar em casa"
era garantido pelos tios Dicio e Aur6-
lio, gerentes da Panair e da Cruzeiro do
Sul, as duas principals companhias de
aviacio. Quando eles se ausentaram, o
lugar foi ocupado pelo "Rona", da Va-
rig. Mas raramente deixava de haver um
outro conhecido ou amigo a vista nas
primeiras passadas pela pista do aero-
porto. Eu rapidamente me enturmava,
relaxava. Santar6m era sempre um ca-
sulo para restaurar as energies e avivar
um certo tipo de sentiment que s6 a
terra natal proporciona.
No dia 20 voltei a Santar6m, que-
brando um jejum de quatro anos. Ain-
da nao chegara a estaaio de passagei-
ro, sempre acanhada e improvisada,
quando Ricardo, filho de Juarez e Mar-
liza, veio me abracar, herdando invo-
luntariamente o bastao dos meus tios.
JA saindo, com minha filha, Juliana, sou
chamado pelo Paulo, remanescente da
turma de motorists que sentava praga
no velho aeroporto, uma versio minds-
cula do Galeio que se demorava aos
p6s da controversy Serra Piroca e
que, hoje, 6 apenas mem6ria. Nio a
serra e sua toponfmia, 6 claro
Esti cada vez mais dificil encontrar
fisionomias conhecidas em Santar6m.
Ha uma nova onda de imigrantes, como
periodicamente essas levas (montantes
ou retirantes) se formam em funCio de
algum acontecimento de maior impac-
to (as idas e vindas nos garimpos de
ouro do Tapaj6s, principalmente). Pes-
soas de diversas origens e de distintos
objetivos, freqtentemente conflitantes.
Minha passage pela cidade durou
menos de cinco horas, mas deu para
sentir o ambiente carregado, a tensdo
criada pelo confront entire o Greenpe-
ace e os sojeiros.


* i '-


S ^...-







Seria, como se dizia na 6poca da luta
livre na area ao lado da Radio Clube,
um duelo de titas. Pretensos defenso-
res do nosso patrim6nio, do nosso de-
senvolvimento, da nossa felicidade, se
digladiando a partir de direito tio re-
cente, de legitimidade tio ef6mera: de
nos representar. Os santarenos de mais
longa hist6ria se posicionando de um
lado ou de outro, mas sob o influxo de
lideranqa alheia, sem o poder de inicia-
tiva, sem o dominio da hist6ria. Por isso
mesmo, agindo no escuro, por instinto,
emocionalmente.
Fui a Santar6m para o lanqamento
do primeiro fascifculo, que comeqou a
circular no dia 22, encartado em 0 Es-
tado do Tapaj6s, o journal didrio da ci-
dade. 0 fasciculo quinzenal se inspirou
na seqio "Mem6ria do Cotidiano", des-
te JP, mas procurando abrir uma visada
mais ampla sobre a hist6ria recent de
Santar6m e sua regido. Ha uma enorme
car6ncia de pistas para entender o pas-
sado ainda em brasa. A riqueza da his-
t6ria da terra contrast com essa terrf-
vel falta de refer6ncias, de marcos, de
limits sobre seus acontecimentos.
A iniciativa foi muito bem recebida.
Na festa de langamento, preparada corn
esmero por Miguel Oliveira, dono do jor-
nal, estavam ao mesmo lado adversiri-
os politicos e pessoas de pontos de vista
divergentes. Mas Ercio Bemerguy deu
logo o tom definitive do moment ao des-
tacar o que unia aquele grupo, reunido
num local de profundo significado emo-
cional para mim. Onde 6 atualmente o
restaurant Piracaia, era a residencia de
Dacio e Aida Campos, meus queridos
tios, quartel-general para uma legiio de


sobrinhos, motive de tantas boas e defi-
nitivas recordaq6es, que a palavra de
Ercio despertava.
As "Mem6rias de Santar6m" sio
muito mais do que o exercicio do pas-
sadismo. Conforme notou a prefeita
Maria do Carmo Martins, referendada
pelo ex-prefeito Lira Maia e enfatiza-
da por Vania Maia, que me possibilitou
parte do material de consult, sera pos-
sivel agora reconstruir importantes mo-
mentos recentes do municipio. Em tor-
no dessa leitura comum, talvez se pos-
sa valorizar um pouco mais o que os
nossos antepassados realizaram e o que
nos incumbe fazer. Quando nada, mos-
traremos a n6s e a brasileiros e es-
trangeiros que a n6s se incorporam -
que a hist6ria nao comeqa agora e o
ponto atual nao 6 o zero.
E muito significativo que o abrigo
dado ao fasciculo seja um journal que
busca a profissionalizaqio, como O Es-
tado do Tapaj6s. Ele tem o direito as
suas preferencias e opq6es. Deve faze-
las explicitamente, nos espacos devidos,
que sao aquelas seoqes editorializadas,
onde a opiniio se manifesta cor clare-
za. Mas nao pode se desligar do com-
promisso de dizer a verdade, de noticiar
os fatos e espelhar o espectro politico,
ideol6gico e cultural de sua base de atu-
agqo. Se hi lugar para as paix6es, elas
nao podem destruir o ponto mais nobre
do espaco democritico, aquele que per-
mite a exposiq~o dos fatos e a demons-
traqao da verdade.
Se as "Mem6rias de Santar6m" con-
tribuirem para esse objetivo, estario
devolvendo a terra um pouco do muito
que sua generosidade nos possibilitou
conquistar.


MAIO DEI2006 IE 2 QUINZENAS Jornal Pessoal









0 Liberal: a festa esconde o vexame


No dia 4 de maio O Liberal se des-
filiou do IVC. Foi exatamente no dia em
que uma equipe do Instituto Verificador
de Circuladio chegou a Bel6m para au-
ditar a tiragem dojornal no primeiro tri-
mestre do ano. Cinco dias depois O Li-
beral inaugurou seu novo parque grffi-
co, um dos maiores e mais sofisticados
do pais, que teria custado entire 8 e 10
milh6es de d6lares.
O investimento 6 significativo. A
Delta Publicidade, empresa que edita
o didrio da familiar Maiorana, opera hi
varios anos cor prejufzo. Seu patri-
m6nio liquido 6 negative. Seu endivi-
damento 6 crescente. Sua liquidez 6
nenhuma. Tecnicamente, esta em si-
tuaqio pr6-falimentar. Mesmo assim,
nio s6 decidiu como conseguiu fazer
a importaaio da cara impressora Man
Roland, a unica desse modelo at6 ago-
ra vendida pelo fabricante alemio na
Am6rica Latina. A impressao do jor-
nal passou a ser do melhor padrao in-
ternacional.
Graqas A nova maquina, uma Uni-
set "Full Color", cor forno secador, o
journal 6 agora todo colorido, pode usar
papel fino e encartar cadernos especi-
ais de propaganda, sem qualquer res-
trigio a inventividade dos seus criado-
res. Mas tamb6m pode imprimir quase
10% a mais dejornais do que vinha fa-
zendo cor a maquina anterior, tamb6m
Man Roland, de 13 anos (para esse tipo
de miquina, ainda em plena forma).
O problema 6 que o IVC constatou,
nas auditagens realizadas no ano pas-
sado, que a tiragem liquid (aquela efe-
tivamente paga) de O Liberal 6, em
m6dia, uma vez e meia inferior h infor-
maio jurada que o editor dojornal pres-
tou ao institute. Nos dias de semana, ao
inv6s de gravitar em torno de 35/40 mil
exemplares, a tiragem varia de 15 a 17
mil. Nos domingos, 6 menos da metade
dos quase 90 mil que ojornal dizia ven-
der ao p6blico.
Sob esse ponto de vista, por que com-
prar uma maquina mais veloz se a ante-
rior nunca foi al6m de dois ternos da sua
capacidade plena, 5 mil jornais por hora
inferior A da nova unidade, que roda 65
mil por hora? A primeira edicao impres-
sa no novo parque grafico nao consumi-
ria nem uma hora da maquina, se ela, no
dia 9 de maio, ji estivesse cor sua plena
capacidade instalada. Mas O Liberal do
dia seguinte s6 chegou ao leitor ao meio-
dia. Nos quatro dias seguintes houve atra-
so at6 maior.
Ningu6m que conhece a complexi-
dade de montar uma maquina como


essa se surpreendeu. Os convidados da
familiar Maiorana viram a Uniset em ati-
vidade apenas quatro meses depois do
inicio da montagem. Os dltimos ajustes
foram feitos quando ji havia a obriga-
rio de colocar o journal na rua. O papel
rasgava e a tinta escorria pela rotativa,
comprometendo o impact que os do-
nos do journal certamente esperavam
cor a apresentanio do novo produto.
Houve mais press e improvisadio do
que se esperava, cor os prejuizos de-
correntes desses dois fatores. Al6m
disso, persistiu a lacuna anterior: o sis-
tema de pos-impressio ainda nao 6
complete. O empacotamento e ende-
reaamento continual a ser feitos ma-
nualmente.
Mesmo assim, 6 inegavel o efeito pro-
vocado pela excelente aparencia que o
journal passou a ter. Mas sera que essa
boa impressio sera duradoura? Sera que
ela conseguird evitar a seqtiela mais pro-
funda, a da desfiliaqCo ao IVC? Sem con-
siderar outros fatores, como a manuten-
rio de um conte6do editorial deficiente,
que contrast ainda mais corn a quali-
dade da impressio dojornal, e o discuti-
vel projeto grifico adotado, bem seme-
lhante ao de O Globo, que esfriou mui-
to a movimentaqio caracteristica dojor-
nal didrio, transformando-o numa revis-
ta, o "fator IVC" poderd emergir como
um complicador.
Nio local, por enquanto. As agen-
cias de propaganda e os seus clients
optaram por ignorar as duas bombisti-
cas auditagens realizadas pelo IVC no
ano passado, que despejaram O Libe-
ral da posiaio de "o maior journal do
Norte e Nordeste", como ele se anun-
ciava (e continue a se anunciar, mas
agora sem uma sustentaq~o t6cnica),
para um patamar que nto 6 muito su-
perior ao do seu concorrente direto, o
Didrio do Pard, do deputado federal
Jader Barbalho.
Toda a campanha diferencial de O
Liberal se baseava nos boletins de au-
ditagem do IVC. Ainda nao se sabe se
o journal sempre fraudou a sua tiragem
ou a inacreditvel maquilagem se res-
tringiu a 2005. Admitindo-se a segunda
hip6tese como a mais provdvel (inclu-
sive por ser dificil acreditar que o IVC
fosse ludibriado por tanto tempo), a per-
gunta que cabe na busca de uma expli-
caao 6: por que a tiragem do dirio
dos Maiorana teve uma queda tio dris-
tica e tio r~pida? E por que a empresa
decidiu assumir risco tao pesado, sa-
bendo que a mentira inevitivel seria
descoberta, a ponto de fazer uma des-


filiaqio desonrosa, talvez a inica des-
se tipo na hist6ria de meio s6culo do
IVC, completada neste ano?
Para aquilatar a gravidade do ato co-
metido por O Liberal 6 necessario con-
siderar que o Instituto Verificador de
CirculaaFo, criado em 1957 por algumas
das principals publicaq6es jornalisticas
e agnncias de publicidade do Brasil, pu-
lou, nesse period, de 16 empresas filia-
das para 310 (agora, 309), auditando as
tiragens de quase 400 publicaq6es, en-
trejornais e revistas. NaAmaz6nia, ape-
nas doisjornais continuam cor suas ti-
ragens verificadas pelo institute: o Dia-
rio do Amazonas, de Manaus, e 0 Es-
taddo, de Porto Velho.
O IVC 6 a Onica fonte segura e con-
fiavel sobre tiragens no pais. Para ser
aceita pelo institute, a publicaiao tern
que acolher publicidade competitive a
preqos constantes de tabelas piblicas.
Durante os tries meses que dura o pro-
cesso de filiaq o, o IVC realize uma
supervisor na organization da empre-
sa, para constatar se ela esti em con-
diq6es de tender as exigancias dos
estatutos e normas do institute. Em se-
guida, uma equipe de auditors verifi-
ca os dados de circulaqio correspon-
dentes a um mes do calendirio (o mais
pr6ximo possivel) e emite um relat6rio
de auditoria. S6 depois da aprovagio e
divulgacio desse relat6rio 6 que a pu-
blicaaio sera filiada. Quem usar os
dados antes desse moment terA seu
pedido de filiagio indeferido.
A partirda divulgaaio do relat6rio ini-
cial de auditoria (chamada de auditoria
pr6via), a publicagio terai que entregar
periodicamente ao IVC, dentro dos pra-
zos previstos, a sua "informaqfo jurada",
contend dados da circulaiao liquida (efe-
tivamente paga), que, depois de conferi-
da, sera distribuida a todos os associa-
dos. Semestralmente, o IVC program e
executa as comprovaq6es da circulaaio
lfquida dos veiculos filiados, "de modo a
nio deixar nenhum period sem audito-
ria", como alerta em seu site.
Essas comprovaqces abrangem uma
vasta quantidade de documents, regis-
tros estatisticos e contibeis, que vio
desde as apurac6es industrials sobre
mat6rias primas usadas (papel e tintas,
por exemplo), produqdo, vendas, distri-
buicio gritis, exemplares nio distribu-
idos e inutilizados, distribuidio e expe-
diaio e apuraoqes de vendas. A dife-
renga maxima admitida pelo IVC entire
os dados de circulaaio apresentados
nas "informaa6es juradas do editor" e
CONTINUE NA PAGi


Journal Pessoal "E 22 QUINZENAS MAIO DE 2006 7







CONTINUA;AO DA PAG. 7
o resultado da auditoria 6 de 4%. Aci-
ma deste percentual o editor sera ad-
vertido e o seu relat6rio de auditoria
divulgado para todos os associados.
Foi o que aconteceu corn O Liberal.
Mas com o agravante de que a diferen-
9a foi de mais de 100% a at6 160%. Ou
seja: 400 vezes mais do que o limited de
variac o admitido pelo institute. Talvez
em tais proporq6es este seja o caso mais
grave ji registrado nos anais do institu-
to, corn o complicador da said que Delta
Publicidade resolve fazer, praticamen-
te fugindo de ser flagrada em nova situ-
aqio vergonhosa. E isso exatamente a
cinco dias de uma festa de inauguraqio,
cor toda pompa e circunstancia, "abri-
lhantada" pela nata do mundo official e
da sociedade "colunAvel".
Dessa toca provavelmente nao sai-
rA nenhuma reacio a forma humilhan-
te de desfiliagqo de O Liberal. Agen-
cias, anunciantes, autoridades e perso-
nalidades preferiram fazer de conta que
essa hist6ria cabulosa nio existe. Co-
erente corn esse mundo da fantasia, O
Liberal continue a se proclamar "o
maior journal do Norte e Nordeste".
Como a unica fonte capaz de confir-
mar esse titulo, o IVC, ji nao se imis-
cui na caixa de Pandora do diirio dos
Maiorana, agora a quitanda dejuntou o
circo. De bela aparencia, 6 verdade,
com uma lona de Primeiro Mundo, mas
definitivamente mambembe por dentro.
Do desdobramento da nova situa-
gio dependerA o future da empresa.
O custo operacional do journal se tor-
nou mais pesado do que antes, cor as
despesas corn mais tinta e papel mais
caro. A receita publicitAria pode nio
suportar o novo encargo. Um efeito
de contragqo ji se fez sentir: as reda-
c9es de O Liberal e do Amazonia
Hoje, o outro didrio da casa, foram
unificadas. Disso resultard mais tra-
balho sem melhor salario para os jor-
nalistas, que tentaram inutilmente re-
sistir a ordem superior.
Para cobrir o buraco nas contas, a
publicidade do governor terd que au-
mentar, o que agravard ainda mais o
oficialismo da publicacio, afetando ou-
tra das palavras de ordem da sua pro-
paganda: a credibilidade. Assim, a apa-
rencia de luxo que a boa impressio
conferiu ao journal, ao inv6s de se tor-
nar o c6digo de acesso a uma etapa
superior na escalada da publicaqio,
pode acabar sendo uma fantasia pesa-
da demais para carregar, provocando
acidentes como aqueles a que anual-
mente estu sujeito um dos simbolos cri-
ados e sustentados pela corporaqCo, da
qual 6 a expressao mais transl6cida: a
rainha das rainhas do carnaval.


DOCUMENT


0 Para nao e serio

Inicio urma nova seado na Mem6ria do Cotidiano: periodicamente voltarei a
documents e situagqes que ajudam a definir mesmo quando sem esclarecer,
nuito pelo contrdrio a historia recent do Pard, aquela que devia ser, mas
ainda ndo e. Mais do que urn Estado federativo,o Pard parece estar se tornan-
do urn estado de rendncia b intelig&ncia e a dignidade. Corn raras e honrosas
exceqoes.


m 19 de dezembro de 1997 o de-
putado federal Vic Pires Franco
props, no f6rum civel de Bel6m,
uma aqao popular, "corn expresso pedi-
do de media liminar", contra a Funda-
9qo de Telecomunicaq6es do Pard (Fun-
telpa), Francisco Cezar Nunes da Silva e
Almir Jos6 de Oliveira Gabriel, entao o
goverador do Estado. O parlamentar, "na
defesa do patrim6nio p6blico", postulava
a "declaraqgo de nulidade do contrato ad-
ministrativo, dito 'convenio', illegal e lesi-
vo ao patrim6nio estadual, firmado entire
a Funtelpa e a TV Liberal Ltda.".
Os r6us da acgo eram a Funtelpa,
"em nome da qual foi praticado o ato a
ser declarado nulo", e as duas autorida-
des citadas na inicial: Francisco Cezar,
"por ser a autoridade que praticou o ato",
como president da fundacao estadual, e
o entao governador Almir Gabriel, "por
ter autorizado, aprovado e ratificado es-
ses mesmos atos".
Dizia a aq~o popular de Vic Pires
Franco que em
23 de setem-
bro daquele
mesmo ano, de
1997, a Funtel-
pa assinou
"con v nio"
corn a TV Li-
beral, "tendo
por finalidade a
recepqdo, pela
Funtelpa, da
programaqao
local/regional
produzida pela
TV Liberal
Ltda., para
transmissao via
sat6lite para
todo o Estado
do Pard, atra-
v6s do servio
Libsat, canal de
satelite pr6prio
da TV Liberal".
A primeira
irregularidade
apontada era
que o tal "con-
venio" (sempre


citado entire aspas) "permaneceu na
clandestinidade por mais de trinta dias
e s6 foi publicado no Didrio Oficial do
Estado, de 27/10/97, por determination
do Vice-Governador do Estado, no
exercicio da Chefia do Executivo esta-
dual". Era Helio Gueiros Jdnior, que as-
sumiu o cargo quando Almir Gabriel
precisou se licenciar para tratamento
de sadde em Sao Paulo, depois de so-
frer um aneurisma.
Analisando os terms do "conv6nio",
o parlamentar do PFL observa em sua
acgo que, a partir da assinatura do docu-
mento, a Funtelpa "concede em favor de
uma emissora commercial o direito de ex-
plorar o servico de radiodifusao em sons
e imagens, originariamente na television
educativa estadual, passando a retrans-
mitir, exclusivamente, a programadio
da TV Liberal, que, por seu lado, ao utili-
zar plenamente os equipamentos e tor-
res de retransmissao da Funtelpa, amplia
o alcance de seus sinais".
O signal pr6prio
da TV Liberal atin-
gia cerca de 50 qui-
18metros em torno
de Bel6m, represen-
tando um potential
de telespectadores
de aproximadamen-
te dois milhbes de
pessoas. Corn o su-
porte da Funtelpa,
esse universe pas-
sava a ser de quase
5 milhoes de pesso-
as, corn um acr6s-
cimo de 150%, "ex-
pandindo ainda mais
a forqa commercial
da TV Liberal".
O "convenio"
isentava a TV Libe-
ral de qualquer pa-
gamento pelo uso
do sistema de trans-
missao da Funtelpa.
Ja a fundaqio, al6m
de cancelar sua pr6-
pria transmissao de
programs educati-
CONTINUA NA' PAG9


R MAIO DEI2006 I"E 2 QUINZENAS Jornal Pesso;l







CONTINUACAO DA PAG. 8
vos, "para a qual foi criada a e obteve a
concessio da Uniio", ainda teria que
pagar 200 mil reais por mes a emissora
da familia Maiorana, durante o prazo de
ajuste, que era de 1 de outubro de 1997
a 30 de setembro de 2002, valor reajus-
tado anualmente pelo IGP (Indice Geral
de Preqos), "totalizando o custo de 12 mi-
lh6es de reais aos cofres piblicos", con-
forme mostrava a adio popular de Vic
Pires Franco.
Ele pedia a declaragio da nulidade do
"convenio" porque o trato continha "vi-
cio de forma, ilegalidade do objeto e des-
vio de finalidade", cor "ostensiva afron-
ta" at6 mesmo a norma da Constituiqao
Federal (artigo 37, XXI), que imp6e a
concorrencia p6blica para a contratacio
de serviqos pelo governor.
O "vicio de forma" era decorrente do
uso do instrument de convenio, quando
a lei exigia a relaaio contratual em "todo
e qualquer ajuste entire 6rgdios ou entida-
des da Administraqio Piblica e particu-
lares, em que haja um acordo de vontade
para a formaaio de vinculo de obriga-
5qes reciprocas". Ji no convenio, "nio
ha parties, mas participes, cor objetivos
comuns e convergentes, configurando
uma cooperaqio associativa, livre de vin-
culos contratuais".
Ja o "desvio de finalidade" se con-
figura "quando o agent pratica o ato
visando a fim divers daquele previs-
to, explicita ou implicitamente, na re-
gra da competencia". No caso do "con-
venio", o desvio se manifestaria de
tres maneiras:
-A ren6ncia pela Funtelpa, at6 de for-
ma onerosa, ao direito concedido pela
Uniio de implantar retransmissoras de IV
educativa nos municipios do interior.
Por dissimular "uma condenivel
ampliadio do alcance do serviqo de radi-
odifusao de uma emissora commercial a
custa do patrim6nio p6blico".
O "travestimento" do contrato em
convenio "ter por fim objeto ilicito, mal
disfarqado". Segundo uma das cliusu-
las, a TV Liberal, como contrapartida,
cederia espaqo para a divulgaqio de
atos do governor, atrav6s de "inserq6es
de propaganda institutional, quando na
verdade representam propaganda pes-
soal, political e eleitoral do Governador
do Estado".
A opqio pelo convenio e nio pelo con-
trato, denunciava Vic, "foi a forma en-
contrada para evitar discusses acerca
da preferencia pela TV Liberal, o que nio
ocorreria em um process licitat6rio,
quando qualquer emissora geradora po-
deria disputar e veneer o certame". Ha-
veria ainda, na contrataqio, "a necessi-
dade de justificar a preferencia e a dis-
pensa de publica seleqdo".


Minerayao: onde?

O Insituto Brasilelro de Nhneracao. que completou agora 30 anos de
ida. elegeu sua nova diretora. Dos seus 23 integrantes, apenis quairo re-
presentam uma mineradora com sede no Pari. a Mineraqgo Rio do None,
que e\plora a jazida de bau\ita do Tromberas. Outros quatro ,',o da Comlpa-
nhia Vale do Rio Doce. outra emprea corn presenga no Para. mn tambm
em ouiros II Eiados brasileiro,. Considerando-se que o Pard e o segundo
minerador do pais. uma parTcipaqaodi screia demais: nmens de 10' nu1ma
hipotiese rnais rIorosa e meno. de 20f-' se considerada a C\RD.
O Pari fornece ruirnerno ao Brasil e ao mundo. mas e ignorance em mine-
rajao. Os paraense ou.em falar no a'ssunio como se as minas ersna esem
localizada' em Marie. O goerno estiadual raramene ari .lenm da rhetoric.
nesEa questo. negando corn seus aros o que proclama nos discur.so.: co1mo o
sector gera pouca receila tributTria e como falta talenio e \ontade a adnmins-
traqao public local para ir alem da mera emtraqdo de rochas, a mnneracao
e[.si no rabo da fila das preocupacqes das autoridades.
A continuar assim, s6 nos daremos conta do passado quando o Irem de
minerio der seu tilimo apilo.


Os responsiveis pelo "convenio"jus-
tificaram a escolha da TV Liberal por
ser ela a 6nica que entio possufa no Es-
tado programaaio local inteiramente
transportada via sat6lite. Mas o parla-
mentar argumentou que outras emisso-
ras podiam disputar uma concorrencia
para a mesma finalidade, "vez que a dis-
ponibilidade do sinal para transmiss~o via
sat6lite pode ser feita em at6 90 dias,
segundo previsao da Embratel". Ser qui-
sesse usar o serviqo de TV digital da
Embratel, que ji Ihe fora oferecido, para
transmitir sua pr6pria programaqio edu-
cativa, a Funtelpa gastaria 2,5 milh6es
de d6lares em cinco anos, "muito inferi-
or ao valor do 'convenio' firmado com
a TV Liberal, que alcanga a absurda
cifra de R$ 12 milh6es de reais pelo mes-
mo period, ao preco da data da assina-
tura", calculou Vic.
Uma outra irregularidade 6 que o pra-
zo do "convenio" foi fixado em 60 me-
ses, com previsio de prorrogaqio,
"quando a lei estipula que o prazo mAxi-
mo 6 de 12 meses, admitindo, por exce-
qio, a possibilidade de prorrogacao at6
60 meses cor vistas a obtenqio de pre-
go e condiq6es mais vantajosas para a
Administraqio, quando tratar-se de ser-
vico de forma continue".
Avaliava Vic Pires Franco que se ne-
nhuma vantage havia para a Funtelpa,
obrigada a ceder suas instalaq6es e equi-
pamentos para outra emissora, excluir
sua programaqio das transmissoes para
o interior do Estado e ainda a ter que
pagar 200 mil reais todo mes, valor su-
jeito a reajustes constantes, o unico be-
neficiado era o governador do Estado,
"que terdi sua disposicio um espaqo
para propaganda jamais sonhado pelos


cidadios de boa-vontade". Aldm da pr6-
pria TV Liberal, claro, que podia levar
sua programaqio para todo interior do
Pard e "ainda vai ser remunerada -
muito bem remunerada!".
Por todos os motives apresentados
em sua aqao popular, "seja pela ilegali-
dade, seja pela imoralidade", o "conve-
nio" e a attitude dos tries r6us "6 absolu-
tamente lesiva ao patrim6nio estatal,
pois obriga o Estado e seu patrim6nio
com terceiros, para celebrar ato juridi-
co que sabe ser illegal e passivel de nu-
lidade, desorganizando um servigo po-
blico de vital importancia para a popula-
qio, principalmente a interiorana, e com-
prometendo, ainda, enorme parcela de
dinheiro p6blico, capaz de comprome-
ter, capaz de comprometer a ordem fi-
nanceira do Estado do Pard".
Resumo da 6pera (bufa): o deputado
Vic Pires Franco desistiu de patrocinar
a aqio quando se reconciliou com Ro-
mulo Maiorana Junior e o grupo Libe-
ral; fez alianqa cor o PSDB, que ce-
deu a sua esposa, Val6ria Pires Franco,
o cargo de vice-governadora; a agio
continue a tramitar na 21. vara civel de
Beldm, sem decisdo; uma auditagem no
Tribunal de Contas do Estado permane-
ce A espera de decision judicial para
prosseguir; o "convenio" foi prorrogado
por Simao Jatene, que deveri devolver
ao seu antecessor (e future successor, se
os tucanos ganharem a eleiglo para go-
vernador) o "convenio" que recebeu e
renovou; uns 30 milh6es de reais ja sai-
ram dos cofres p6blicos nesse period
para que a TV Cultura fique no ar corn
o sinal da TV Liberal.
Resumo definitive da 6pera empluma-
da: o Para nio 6 s6rio.


Jornal Pessoal I'E 2 QUINZENAS MAIO DE 2006 9









MEMORIAL DO COTIDIANO
,, .. .. ,_ .,, ,* >.. '. ; ... .r ...~.," ...^ -A,,,.. .


Ipoca
Comunicado pago publicado
nas "Notas Mundanas" da
Folha do Norte de 18 de
marqo de 1952, que 6 um au-
tentico retrato de 6poca, com
virias sutilezas de costumes:
Nascimento Participaq.o
JOSE MARIA e MARIA
JOSE participam aos amigos
de seus papais, Josemar Pra-
gana Toscano e Clara Frago-
so Toscano, que estdo muito
alegres, pois Papai do C6u Ihes
mandou, no dia 10 do corren-
te, u'a maninha, para ser sua
companheira nas travessuras
e encher, cada vez mais, com
eles, de alegria, o lar de seus
queridos papais.
Ao se fazer cat6lica, hoje,
pelo Sacramento do Batismo,
que lhe sera administrado as
9 horas (antigas), na Basilica
de N. S. de Nazar6, recebert
o nome de ANA MARIA.
A mocinha corn a mamie
continuarao a ficar hospedadas,
por mais alguns dias, no quarto
n 1, da Maternidade da Santa
Casa de Miseric6rdia.

Xingu
No inicio de 1953 o Banco de
Cr6dito da Amaz6nia (atual
Banco da Amaz6nia) ajuizou
uma aq~o executive contra o
Ant6nio Inicio da Silva, dono
do seringal "Belo Horizonte",
por um d6bito de 354 mil cru-
zeiros, dinheiro que Ihe adian-
tara em junho de 1946 como
financiamento a producao de
borracha. Mas o seringalista
estava em lugar incerto e nao
sabido desde 1944, quando, a
frente de homes armados,
comandou o massacre de
centenas de indios estabele-
cidos em malocas as proxi-
midades. As malocas foram
todas incendiadas e a terra
em volta arrasada. Nesse
mesmo ano, Inicio e seu gru-
po invadiram de surpresa as
propriedades da familiar Oli-
veira Lemos, matando quase
todos os seus integrantes.
Tanta atrocidade nao impediu
o seringalista de conseguir o
dinheiro do banco.


Terra de arbitrio e de san-
gue, ontem. Tamb6m de gri-
lagem, hoje.

Advertencia
Advertencia feita pela coluna
"Vozes da Rua", da Folha do
Norte, emjulho de 1959:
"V6s, senhoras, que gos-
tais de ouvir a vossa missa na
Basilica de Nazar6, mal vem
surgindo o rosicler da aurora,
tomai cuidado convosco. La
pelo largo e duas vizinhanqas,
andam uns tarados a desejar-
vos e uns gatunos audaciosos
que nao vos cobigam os en-
cantos, mas ambicionam as
vossas bolsas".

Contrabando
Theodoro Brazio e Silva assi-
nalava, emjulho de 1959, que o
contrabando de carrots se incre-
mentava em Bel6m, adotando
um novo ardil: os contrabandis-
tas n~o estavam mais trazendo
autom6veis do ano, preferindo
models mais antigos, que pro-
vocavam menos suspeitas.


"Garantiram-me que che-
gam emplacados e alguns at6
com tales de multas pagas em
outros Estados... A fraude
esti evoluindo magnificamen-
te. E envolvendo at6 nomes
destacados na political obser-
vava o cronista da Folha do
Norte, acrescentando: "Ja se
foi o tempo em que ser con-
trabandista constitufa uma
vergonha, motivo para desa-
bafos fisicos, para pescoq6es
e at6 tiros. Hoje, talvez alguns
jd tenham at6 impresses nos
seus cartoes de visits essa
sua atividade. Fonte de uma
renda elevada, maravilhosa,
como se fosse uma criaqCo
deslumbrante de uma lampa-
da de Aladim".
Para Brazao, Bel6m, no
panorama do contrabando na-
cional, podia ser colocada "na
primeira linha, cor um desta-
que que nenhuma outra locali-
dade conseguiu expressar.
Aqui, todos, com dificeis exce-
cqes, tomam parte nessa ile-
galidade fiscal, ou trazendo o


PROPAGANDA

Cinema ecletico
A lembranqa exclusive do Olimpia e uma injustiga con-
tra outros cinemas que tambem foram importantes na
formacdo da cultural e da mentalidade de geraodes de
paraenses. Onde mais se podia ver "cinema de autor"
antes do surgimento dos "cinemas de arte" sendo no
Cine Art, na Praga Brasil? A pequena e simpatia sala
de projeaqo era tambem a que maisfilmes europeus apre-
sentava, livrando-nos do monopdlio de Hollywood e
equilibrando nosso senso das coisas. Este anuncio e
e.emnplar do, filne3t que sc podia ver no Cine A.t.


contrabando ou comprando-o,
desde o autom6vel, a miquina
de porte, o whisky, o perfume
frances, at6 o pacote miniscu-
lo de sabao caro e o pacotinho
de lamina para a barba...".

Casamento
Um autom6vel Volkswagen foi
o present que Rudolph e Dul-
ce Moller deram quando a fi-
lha do casal, Maria Ina Moller,
casou com Roberto Pingarilho,
em maio de 1961. A recepqdo
foi na mansao dos Moller, no
Largo de Nazar6, com pompa
e circunstAncia, e incluindo pra-
tos da cozinha alem5.

Terrasse
Registro feito na Folha, em
junho de 1961, por C. A. M.
(Carlos Augusto de Mendon-
qa, escritor, home pdblico,
politico e em6rito contador de
casos, ji falecido):
"Familias e viajantes do
Sul, vindos ultimamente a Be-
16m, e numerosos outros fre-
qiientadores do Grande Hotel
[demolido, em seu lugar sur-
giu o Hilton Belnm] manifes-
taram ao colunista certa es-
tranheza ao lhe ser dito pelo
garcao que ali nao se fazem
sorvetes de frutas regionais.
Dois motivosjustificam a sur-
presa: um, 6 que o atual ge-
rente tem sabido atrair para o
estabelecimento, atrav6s de
boas reforms internal, a so-
ciedade paraense, que li sa-
boreia as viandas da nossa
excelente e variada cozinha
amaz6nica; outro, 6 que as fru-
tas da terra, com seu "cachet"
original e tipico o abacaxi, o
abacate, o acaf, o taperebi, o
maracuji, o coco, a sapoti, a
manga se prestam, em sa-
bore aspect, muito melhor ao
prepare de sorvetes e refres-
cos do que os compostos quf-
micos e sint6ticos de ess6nci-
as. O Grande Hotel mesmo j
foi famoso por esses Brasis a
fora quando, at6 antes da ilti-
ma guerra, os "terrassicolas"
(gente assidua na "terrasse")
se dessedentavam do calor
vesperal com os sorvetes de


10 MAIO DEla2006 I"E 2 QUINZENAS Jornal Pessoal














7-rr r ? r

H "
.7 T ,


frutas tropicais, cujo cetro per-
tencia ao nosso vulgar e bem
sipido araq ".
Sipido (expressao que
este computador ignora) quer
dizer saboroso.

Point
Em setembro de 1963, 30 ho-
mens da policia fizeram blitz
na Marechal Hermes "visan-
do terminar com certos antros
malignos ali instalados e que
funcionam mesmo durante o
dia". Um dos objetivos da ope-
racqo era "certas casas de
tolerancia localizadas na 'ba-
cia'". Havia ordens para se-
rem vasculhados "os antros
onde a maconha impera".
Hoje, o local 6 conhecido
como "a Doca" de Souza
Franco.

Incredulidade
Ja que o Paissandu (como seu
grande rival) nao vive uma
fase propriamente brilhante,
pode-se lembrar um dos seus
moments de maior gl6ria,
quando venceu o Pefiarol, do
Uruguai, por 3 a 0, em julho
de 1965. O mesmo Pefiarol
que acabara de se tornar cam-
pedo do mundo, vencendo o


Raimundo Serrdo Sobrinho e
Benedito Monteiro, press,
segundo a imprensa do sul, "A
disposicqo do coronel D6cio
Fleury Chamillot, comandan-
te da 5" Companhia de Guar-
das e chefe do Serviqo Secre-
to da 8" Regiao Militar" ("Cor-
reio da Manhd", ediCgo de on-
tem). Funcionou como relator
da matdria o ministry Mourdo
Filho, declarando, na ocasiao
do julgamento, que "as quar-
tas-feiras tenho pesadelo
quando tenho que relatar 'ha-
beas corpus' a fim de restau-


rar a liberdade ou manter na
prisdo aqueles que estao pre-
sos por crimes politicos".
"Neste caso acentuou o
ministro-relator- infelizmen-
te nao posso conceder a or-
dem, uma vez que as informa-
c5es do comandante military da
Amazonia, general Isaac
Nahon, meu velho amigo e
comandado, correspondem A
verdade. Os pacientes prati-
caram atos contra a seguran-
qa national".
Ja o ministry Alcides Car-
neiro, que votaria a favor do


"habeas corpus", declarou, ao
se manifestar sobre o assun-
to: "Nao vejo neste caso
nenhum motivo para conside-
rar inid6neas as informaq6es
do general Nahon, mas ele
pode ter sido mal informado,
como o foi o comandante do
III Ex6rcito, a quem a policia
deu informaq6es erradas, im-
pedindo que este Tribunal con-
cedesse liberdade ao ex-sar-
gento Manuel Raimundo So-
ares, o que teria evitado na
certa a sua morte".
A favor da concessdo da
media solicitada pela Ordem
dos Advogados votaram, por
fim, os ministros togados Al-
cides Carneiro Murgel de Re-
sende, Orlando Ribeiro da
Costa e o ministry military Pery
Bevildcqua. Os advogados
Raul Lima e Ivd Paixao, re-
presentando a Ordem, fizeram
a defesa"
0 HC nao saiu, numa 6po-
ca de exceqio, mas pelo me-
nos nessa 6poca a OAB do
Pard cumpria a sua funqao de
defender a liberdade de pen-
samento e de expressed, co-
locando-se ao lado dos perse-
guidos e reprimidos. Nao dos
repressores, como agora.


Jornal Pessoal I'E 2' QUINZENAS MAIO DE 2006 11


FOTOGRAFIA

Uma cidade corn

horizonte
Belem, na metade da decada de 50 do seculo passa-
do, com seu long horizonte limpo. Nele, apenas a
primeira etapa do Manuel Pinto da Silva, a versdo
nenor do predio que seria levantado ao lado, corn
mais do dobro do tamanho, o uinico verdadeiro "arra-
nha-ceu" da cidade durante vdrios anos, uma hege-
inonia nas alturas que s6 agora, infelizmente, estd sen-
do posta em questdo. A arborizaqdo da Praqa da Re-
ptlblica se apenas se desenvolvia, num ensaio de pai-
sagismo equilibrado e de urbanismo mitigado que ndo
iria alin do ensaio.
... .... ......... ........ .








CARTUNS
Uma das melhores coisas
no novo O Liberal slo as ti-
ras de quadrinhos. J. Bosco
assina dois cartuns didrios:
"Colarinho pdo e vinho" e
"Capitao Feijdo", enquanto
Waldez 6 responsdvel pela
"Cobaia". As tr6s sio cria-
c6es de alto nivel, que nao fi-
cam nada a dever as melho-
res da imprensa national. Es-
pero que Bosco e Waldez
mantenham o padrio das pri-
meiras semanas, algo de se
admirar e louvar.

CARO LEITOR
Depois de um long perio-
do de pontualidade britinica, o
Jornal Pessoal esta atrasan-
do cada vez mais. Infelizmen-
te, todas as minhas energies
slo consumidas pelos 15 pro-
cessos que tramitam contra
mim no f6rum de Bel6m, 13
deles de responsabilidade dos
donos do grupo Liberal. A muito
custo e precariamente con-
segui tirar esta ediqio. Espero
contar com a compreensio do
carfssimo leitor. E, se possivel,
cor sua solidariedade. Na sua
melhor manifestaqlo para este
caso: ir as bancas e comprar
seu exemplar dojornal.
Espero sinceramente que
possa me livrar dessa perse-
guiq~o judicial o mais breve
que for possivel, dedicando
meu tempo A elucidac~o de
tantas quest6es relevantes que
vem se acumulando na agen-
dajornalistica. Esse 6 o princi-
pal dano provocado pelos ca-
prichos dos poderosos. Se ele
persistir por mais tempo, serei
obrigado a rever esta emprei-
tada. Sua atualidade esti seri-
amente comprometida.


Jornalista 6 mensageiro?


Para Vejajornalista 6 mensageiro. Por isso,
a revista se permitiu transmitir, com grande
estardalhaco, a mensagem que o banqueiro
Daniel Dantas mandou a Lula: de que disp6e
de documents suficientes para chantagear o
president da repdblica. Lula reagiu com "o
mais destemperado ataque verbal ji desferido
contra um 6rgdo de imprensa desde a demo-
cratizagqo". Segundo a publicacao da Editora
Abril, Lula e seus auxiliares se comportaram
como velhos selvagens: "Em vez de apurarem
o conte6do da mensagem insurgiram-se con-
tra o mensageiro".
O novo imbroglio 6 mais um desastrado
equivoco a exibir as entranhas doentes do pais.
O Brasil renunciou aos valores morais e 6ti-
cos. Esses valores costumam servir de mis-
cara para fariseus, 6 verdade. Nao por eles
em si, mas por seu mau uso, por sua deturpa-
qao, por sua desnaturaqao. Um pais nao evo-
lui sem essa base de simbolos. Se nao os cul-
tiva, cada vez mais se reduz a uma confraria
de animals irracionais, ou ra'cionais conforme
seus pr6prios interesses, que excluem o uni-
verso de terceiros.
O que mais me impression no esforqo dos
Estados Unidos para superar a crise desenca-
deada pela quebra da bolsa de Nova York, em
1929, atrav6s do grande acordo (o new deal)
de Franklin Roosevelt, foi o senso de dignida-
de que pessoas empobrecidas, famintas e sem
horizontes visiveis ainda mantiveram. A busca
do pleno emprego, com as orientacqes keyne-
sianas da equipe do governor liderada por Ho-
pkins, s6 deu certo porque os necessitados re-
jeitaram a caridade. Aceitavam o prato de sopa
como o pass inicial para conseguir um traba-
Iho decent. Nio queriam, por6m, mendigar.
Os simbolos morais e 6ticos estao sumindo
do mercado corrente de valores dos brasilei-
ros. Quem procura manter o senso de decen-
cia, dignidade, honra e respeito 6 vilipendiado
cor a etiqueta de "udenista", De fato, muitos
dos lideres das cruzadas morais da velha UDN
usavam titulos de aluguel, bandeiras de fanta-
sia, verdades cor validade apenas da boca para
fora para compensar a falta de votos. Nao sig-


nifica, entretanto, que s6 "levar vantagem" seja
o que importa.
Jornalista nio 6 menino de recados, nem
mensageiro da mensagem alheia. Cabe-lhe
trazer para a sociedade o que de relevant
circula pelas ruas, pelos gabinetes, pelos ple-
narios. Mas nio 6 um boneco, um rob6, um
mero intermedidrio. E deplorivel que na vi-
trine em que a vida se transformou, a exibir
minimos eus inflacionados pela arrogancia e
a prepotencia, o jornalista seja mais impor-
tante do que os fatos. Ele deve ser suficien-
temente professional para nao se deixar se-
duzir pela troca da funqio de coadjuvante
pelo estrelato. As vezes adquire importan-
cia e proeminencia a despeito de sua vonta-
de, mas sempre ter que procurar nao con-
duzir os acontecimentos.
Nao 6 por isso que deve carimbar e man-
dar em frente os assuntos sem verificar se a
assinatura confere, se o contedido ter consis-
tincia, se o tema 6 de interesse pdblico. Veja
tinha todo direito de tratar do produto da espi-
onagem contratada pelo banqueiro Daniel Dan-
tas, dono do grupo Opportunity, envolvido em
alguns dos mais escabrosos escandalos do
mundo financeiro national.
Mas se tinha raz6es para recear pela valida-
de dos pap6is produzidos, a revista nio podia
colocar a matdria na capa, dar-lhe o enorme
espago que ela ocupou e deixar que o provavel-
mente falso tivesse a mesma hierarquia do pro-
vavelmente verdadeiro. A esse exercicio de le-
viandade pode permitir-se uma publicaCio de
segunda linha, mas nao a quinta revista de in-
formagaes de maior tiragem do mundo.
Quando nio encontra o seu lugar, uma pu-
blicaCao jomalistica perde o lugar que ocupava
at6 se desorientar. E Veja, seguramente, per-
deu a orientaqao da seriedade, da verdade, do
jornalismo. Atribuindo-se o papel de mensagei-
ra, pode ter o triste destino dos mensageiros das
mis noticias, algumas que, al6m de serem ruins,
nao sao nem mesmo verdadeiras. Sofre a sen-
tenca de morte tanto nas mraos dos tiranos quanto
dos injuriados. Mas quem paga a primeira con-
ta ou a inica 6 o reporter.


jLIVRO
rCortinua a venda nas bancas e em algumas
lrarias meu livro, Guerra Amaz6nica (edigao
Journal Pessoal, 300 pginas,
R$ 30,00). Espero que os leitores se interessem
.' .,5 ppor ele.
S Po dra ajudA-los a responder a muitas dOvidas e
! .~ quetstionamentos sobre a atuaajo da imprensa no Para
... no ultimos anos.
S .E a desfazer equivocos e mitos.


Jornal Pessoal
Editor: Lucio Flavio Pinto

Edig~o de Arte: L. A. de Faria Pinto
Contato: Tv.Benjamin Constant 845/
203/66.053-040 *
Fones: (091) 3241-7626
E-mail: jornal@amazon.com.br

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