Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00295


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Full Text






ornal Pessoal
A AGENDA AMAZONICA DE LOCIO FLAVIO PINTO
ABRIL DE 2006 1QUINZENA N 366 ANO XIX R$ 3,00


JATEN.: CRi,,;-i ;
RESPONSABIL V2:A
PAGINA 3
A CENTRAL DA
GRILAGEMlA ^.:,_ *
PAGINA J


CVRD



Decifra-me ou te devoro

Espantosos por uma 6tica, assustadores por outra, os numeros da Companhia Vale do Rio
Doce traduzem, camuflam ou exaurem o dinamismo do Brasil. De qualquer maneira, a maior
empresa privada do pals e da America Latina nao pode mais ser ignorada. Ela pode abrir as
portas do future. Ou fecha-las de vez. No Para, em especial.


rn m dos mais s6rios de-
safios para uma empre-
sa em expansao acele-
rada 6 a conciliaqdo
entire o financiamento
dos seus investimentos, a satisfaqio das
aspiraq es de dividends dos acionis-
tas e a preservago de um s6lido ba-
lanqo financeiro", diagnostic Roger
Agnelli, na mensagem de president
cor a qual apresentou o balanqo de
2005 da maior empresa privada do Bra-
sil e do continent, a quarta maior mi-
nerz lora do mundo: a Companhia Vale
do Rio Doce. Seu valor atual de mer-
cado: 50 bilh6es de d6lares (em 2001
era de US$ 9 bilh6es)


A observaq~o 6 acurada e constitui
um guia adequado para qualquer corpo-
racao empresarial. Mas a equaqao esti
flagrantemente capenga. Uma empresa
cor o tamanho da CVRD, num pais com
a complexidade que o Brasil apresenta,
e cor os antecedentes da sua trajet6ria
de mais de 60 anos, tem outro desafio
tao s6rio quanto os tres indicados pelo
seu president: socializar os beneficios da
sua "expansao acelerada". Privatizada,
a Vale se tornou ainda mais estrat6gica
do que era como estatal. Mas descartou
virios dos seus compromissos anteriores.
Seu desempenho, a partir de 1997, 6
realmente notivel. No ano passado, foi
responsivel por 14% do superivit re-


corde de todos os tempos da balanqa
commercial do Brasil, repassando para o
tesouro national, at6 o final do exercicio,
US$ 6,3 bilh6es liquidos (de um total de
US$ 7 bilhbes que a empresa exportou).
Nos 6ltimos cinco anos, essa contribui-
qao somou US$ 20 bilh6es (m6dia de US$
4 bilh6es liquidos ao ano) para uma soma
bruta exportada de US$ 23,3 bilh6es.
Para um faturamento bruto de 35,4
bilh6es de reais, a empresa alcancou o
incrivel lucro liquido de R$ 10,4 bilh6es
(quase dois tercos a mais do que o de
2004) e distribuiu R$ 3,1 bilh6es em divi-
dendos e juros sobre o capital pr6prio, o
equivalent a R$ 2,68 por cada aqao. Em
CONTINUE NA PAG 2







CONTINUA;AO DACAPA
cinco anos, essa conta resultou em R$
11,4 bilh6es Foi a empresa que mais deu
retorno aos seus acionistas no mundo em
2005, credenciando-se a se tornar "a pri-
meira empresa controlada por acionistas
brasileiros a obter o investment grade e
a dnica no Brasil a ser reconhecida nes-
sa posiqao por tries entire as mais impor-
tantes agencies de rating do mundo".
Mas com apenas 10% desses dividen-
dos (R$ 147 milh6es em aq6es ambien-
tais e R$ 172 milh6es em aq6es sociais),
a empresa diz ter beneficiado quase tr6s
milh6es de pessoas em 12 Estados brasi-
leiros. Em alguns desses Estados, sob
essas duas rubricas, talvez tenha investi-
do mais do que os governor locais. O
desempenho merece destaque, mas nao
chega a ser uma vantage trio dignifi-
cante assim porque as administraq6es
p6blicas negligenciam suas obrigaq6es.
O president da Vale pode se orgu-
lhar de dizer, em sua mensagem, que a
participagio dos seus quase 40 mil em-
pregados nos lucros "foi a maior ji paga
na hist6ria", atingindo R$ 230 milhoes, "o
equivalent, em m6dia, a um pagamento"
adicional de 4,7 saldrios a todos os em-
pregados", ou a 18 saldrios durante o ano.
A conta do beneficio 6 uma piramide
invertida em relaqao a do faturamento:
sobra menos para muitos, enquanto para
poucos 6 canalizada a grande maioria. A
constataqio nio constitui pecado ou he-
resia: final, a CVRD 6 uma empresa
privada, voltada para o lucro. No entan-
to, ela se tornou privada herdando uma
estrutura de poder caracteristicamente
estatal. Em 55 anos, at6 1997, a Vale as-
senhoreou-se de um sistema de transpor-
te sem igual no pafs, al6m de controlar os
principals dep6sitos minerals conhecidos,
sobretudo na Amazonia, onde sua condi-
qao 6, no minimo, de oligop6lio. Tolera-
va-se tal situacio porque a empresa era
uma extensio do governor federal, quase
como uma agencia de desenvolvimento.
Essa condiqio foi pouco e, na maioria
das vezes, incorretamente questiona-
da, quando o seu control aciondrio foi
levado a leilio.
A aqio especial (chamada bond sha-
re), que ficou em poder da Uniio por
tempo limitado, e os acordos de parce-
ria cor o BNDES, sao instruments
acanhados de control social. Os Esta-
dos Unidos dificilmente aceitariam em
seu territ6rio uma empresa privada com
o porte da Vale, ajustado ao gigantismo
americano, sem impor-lhe peias mais
justas. O exemplo da ATT serve de ates-
tado, ao menos antes da era Bush. Quase
10 anos depois da privatizaqao, essa
questao permanece ao largo das consi-
deraq6es sobre o significado estrat6gi-
co da CVRD para o Brasil.


No seu balango, a empresa assegu-
ra estar "aproveitando as oportunidades
oferecidas pelo ciclo econ6mico para in-
vestir com a discipline requerida para
crescer de maneira estAvel". Assim,
procura acalmar os observadores preo-
cupados com a multiplicacgo da sua es-
cala de producao, que jd atingiu niveis
quase de uma transferencia territorial,
de uma inimaginavel remessa de rique-
za bruta para transformaqao em ultra-
mar (ja, ou para depois).
A extraqio e a exportaqao de man-
gan6s em Serra do Navio, no Amapd,
escandalizaram os brasileiros. Uma ma-
t6ria prima estrat6gica da siderurgia, en-
tio setor econ6mico de ponta na econo-
mia international, estava sendo manda-
da aos roldoes para os Estados Unidos,
sem qualquer consideragqo pelo future
desse suprimento no Brasil. A escala de
impact era de um milhio de toneladas
ao ano. Carajds export mais do que o
dobro desse min6rio. Mas nao 6 af que
estd a maior fonte de estupefacao.
A mina e a sua ferrovia foram proje-
tadas para chegar a 25 milhoes de tone-
ladas anuais. Agora em 2006 a produqio
baterd em 85 milhoes de toneladas. An-
tes de a d6cada terminar estard em 100
milh6es. A produqio total de min6rio de
ferro, somando os sistemas Sul e Norte,
passou de 230 milh6es de toneladas no
ano passado. Chegard a 300 milh6es an-
tes de a d6cada terminar. Esse era todo
o mercado interoceAnico de uma d6cada
atrds. Agora 6 quase o tamanho das com-
pras chinesas
Em 2005, a Vale comemorou recor-
des de produgio nio s6 em min6rio de
ferro, mas tamb6m em pelotas, manga-
nes, bauxita, alumina, aluminio, potdssio
e caulim. O Pard participou de sete des-
ses oito records. No Trombetas, pare-
cia que a produgio ia estancar em 6,3
milhoes de toneladas de bauxita. Em 2005
alcanqou 7 milh6es de toneladas. A Se-
cretaria de Ciencia e Tecnologia do Es-
tado j recebeu o EIA-Rima da nova fi-
brica de alumina de Barcarena, a da
ABC, uma associacqo da Vale com os
chineses. Se essa fibrica sair, Barcare-
na produzird 30% da alumina do mundo
no inicio da nova d6cada.
Montanhas de min6rios e de seus de-
rivados estlo sendo mandadas pelo oce-
ano para outros pauses. Quem jd experi-
mentou processes semelhantes, embora
em escala bem menor, tem a sensadio
de que 6 o aval do future que vai embo-
ra. A Vale diz que nio: em 2005 investiu
pouco mais de R$ 10 bilh6es, mais um
record hist6rico, sendo R$ 6,5 bilh6es
"na promogro do crescimento orginico".
Nos cinco anos anteriores acumula-
dos, o saldo dos investimentos 6 de R$
28,4 bilh6es (quase R$ 6 bilhoes a cada


ano, em m6dia), consolidando-a como "a
empresa privada que mais invested no
Brasil.". Neste ano, ird al6m: o investi-
mento programado 6 de R$ 11,8 bilh6es
(uma vez e meia todo o orcamento do
Pard), sendo R$ 1,3 bilhaio em pesquisa
e desenvolvimento (quase o dobro de
2005). A conta de investimentos em seis
anos ird para mais de R$ 40 bilh6es.
Os ndmeros assustam e impressio-
nam. Esmagado sob eles, entretanto, per-
manece um dado ceticismo: o que ficard
no pais compensara o que saird? O efei-
to multiplicador interno do investimento
compensa as perdas pela transformaqao
industrial que serd feita 1i fora? E, den-
tro do Brasil, haverd uma certa eqiiidade
entire as diversas regi6es de atuaqio da
empresa? A Vale ajudard o Brasil a se
desenvolver por inteiro ou agravard as
diferengas estruturais e perversas do
pais? Ela aproximard o Brasil do andar
de cima no mundo, ou, a long prazo,
contribuird para fechar-lhe definitivamen-
te as portas do Primeiro Mundo?
Quanto ao Pard, nio hd ddvida: a Vale
quer que o Estado se specialize como
fornecedor de mat6rias primas e semi-
elaborados. Sua produgo de min6rio de
ferro, mangan8s, caulim, bauxita, alumi-
na, aluminio, cobre e niquel serd desen-
volvida ou expandida, mas nada al6m
dessa etapa. Nao 6 de estranhar que a
empresa nao pense em montar usinas de
pelotizaq~o de ferro no territ6rio de Ca-
raj s. Mas tamb6m suprimiu do seu hori-
zonte a producio de bens sidernirgicos.
O program de produqio de places de
ago contempla US$ 2,8 bilh6es para o
Ceard e o Rio de Janeiro. At6 o Mara-
nhao ficou de lado. Isto quer dizer que a
relacio de troca do Pard estd condena-
da a ser deficitiria: o valor que receberd
seri inferior ao que precisard pagar para
adquirir os produtos transformados de
suas mercadorias. Crescerd para ficar
relativamente mais pobre.
Esse milagre invertido seri um con-
traste acusador, se realmente se conso-
lidar, mas nao interferiri no perfil cada
vez mais reluzente da CVRD. A direto-
ria da empresa apresenta ndmeros que
comprovariam a equilibrada conciliaaio
que ter feito de investimentos, dividen-
dos e solidez financeira. Essa pondera-
da condudio dos neg6cios garantiria que
a Vale se aproveitard ao maximo do ci-
clo de precos records dos seus produ-
tos no mercado international, mas nao
entrard cegamente na onda, nem se dei-
xard seduzir pelo canto de sereia, como
a da China. No entanto, um criterioso
exame do seu balanqo (cuja integra s6
aparece agora em poucos jornais, nio
sendo mais consolidada num volume,
como antes era feito) leva o observador
a perceber um vi6s financeiro que dis-


2 ABRIL DE 2006 I'QUINZENA Jornal Pesso:lI









Governador: crime de responsabilidade


O governador Simio Jatene vai con-
cluir seu mandate sem ter publicado, uma
vez sequer, o quadro de detalhamento de
pessoal do Estado. Assim, continuard a
descumprir a Lei de Responsabilidade
Fiscal e cometer crime de responsabili-
dade. Mas, ao que parece, nio sera im-
portunado. O Tribunal de Contas do Es-
tado parece nio se sentir provocado em
sua competencia e o poder legislative n~o
tomard conhecimento da grave questao.
Tanto o parlamento como ojudicidrio tmr
divulgado trimestralmente a sua folha de
pagamentos, como manda a lei. Por que
a omissao do executive, o poder dos po-
deres no regime presidencialista brasilei-
ro exacerbado?
S6 ha uma resposta: o governador nio
quer mostrar para os cidadios em geral
- e os contribuintes em particular que
provocou um inchamento ainda maior de
uma excresc6ncia do governor: a asses-
soria especial do gabinete. Essa 6 uma
imoralidade que remonta ao primeiro go-
verno de Jader Barbalho (1983-87).
Quando o atual deputado federal do
PMDB assumiu o governor, havia quatro
assessores especiais no gabinete, faceis
de identificar: Aldo Almeida, Inoc6ncio
Machado Coelho, Irawaldyr Rocha e o
general Rubens.
Jader multiplicou essa equipe. H61io
Gueiros, que o substituiu, continuou a
engorda, embora seus primeiros dias no
Paldcio Lauro Sodr6 tenham sido de-
marcados pelo combat aos marajas es-
taduais (s6 na ret6rica). Jader Barbalho
prosseguiu o feito no segundo mandate
(1991-95). Almir Gabriel, que devia ser
um oasis de seriedade, nio desfez o
acampamento: pelo contririo, juntou-lhe
mais tendas.


Todos, entretanto, publicaram o qua-
dro de detalhamento de pessoal, com os
valores distribufdos (quantidade de gente
e valor do pagamento) por cada setor da
administrator estadual, como continual
a fazer os poderes legislative e judicid-
rio. Simio Jatene acrescentou um deta-
Ihe perverse a essa tradicio ruim: man-
dou para as calendas gregas a publica-
q~o da reladio de pessoal, cor a soma
dos vencimentos.
At6 a 6ltima vez em que esses nime-
ros sairam no Diirio Ofi-
cial, ainda na administra-
qio Almir Gabriel, a
quantidade de assessores
especiais se aproximava
do milhar e seu orqa- .
mento superava o da Se-
cretaria de Agricultura,
que, segundo o primeiro "
mandatirio tucano, seria
uma de suas prioridades <
(mais uma abobrinha
nessa fecunda horta de
promessas). Certamen-
te, se todos os assesso-
res especiais resolves-
sem ir trabalhar, nao haveria espaqo su-
ficiente para abrigd-los no tal do Palicio
dos Despachos, da rodovia Augusto Mon-
tenegro, nem nos lugares para os quais
foram cedidos.
A assessoria especial, por conta da
promiscuidade na sua constituiqdo e da
irresponsabilidade na sua gestao, virou
uma bacia das almas, uma posta restan-
te no service pdblico estadual. Ha certa-
mente assessores especiais decentes e
trabalhadores, mas eles sdo a exceqgo.
O crit6rio do preenchimento das vagas
6, quando muito, politico. A sazonalidade


da permanencia e a alta rotatividade ca-
racteristica do lugar nada tim a ver com
as demands do Estado ou a competen-
cia especifica de cada assessor.
A entrada e said dependem exclusi-
vamente da vontade do governador. Ora
ele precisa mandar em frente o repre-
sentante de um compromisso que ja nio
esta em vigor, ora 6 justamente porque
firmou um novo compromisso que preci-
sa alocar o apadrinhado. Quem sai pode
estar sendo exonerado a despeito de sua
qualidade e quem entra
pode estar sendo empre-
gado apesar dela. Por
isso mesmo, pesa sobre
a cabeqa de todos os as-
sessores a pecha do fisi-
ologismo edo compadrio.
A assessoria especial vi-
rou, mal comparando,
uma esp6cie de harm do
governador. Nio porque
abrigue suas concubinas,
o que nao 6 o caso: mas
por ser o sftio das suas
conveniencias pessoais,
exercidas corn o livre ar-
bitrio de um sultio.
E em virtude desse sultanato republi-
cano, digamos assim, que o governador
Simro Jatene nio se senate obrigado a
prestar contas ao distinto p6blico. Mas o
que explica a indrcia e a inconsciencia
da sociedade, diretamente ou atrav6s de
suas instituiq6es representatives, diante
da explicita violacio da obrigadio legal?
A renincia a um direito por esta engen-
dra o abuso de direito por aquele. E as-
sim o Pard continue na sua trajet6ria de
permissividade e indiferenqa at6 o caos.
Ou, o que 6 pior, a abulia.


CONTINUA;AO DA PAG. 2


torce o triangulo perfeito desenhado
pelos n6meros.
A empresa parece estar distribuindo
mais dividends do que deveria fazer se
estivesse realmente focada numa susten-
taCio de long prazo. Por outro lado, re-
corre ao sistema financeiro mais do que
seu fluxo de caixa recomendaria. Ou seja:
paga mais aos seus acionistas e aos ban-
cos. No caso de instituicqes financeiras
nas duas pontas da linha, nao pode haver
diretriz melhor. Mas e para o pafs?
Embora a relaq~o da divida corn vri-
os indicadores financeiros e contabeis
esteja em boas margens, 6 impossivel
reprimir o impact dos valores absolutos.
Entre 2004 e 2005, por exemplo, a divida
total da Vale cresceu um bilhao de d61a-

Jornal Pessoal IQUINZENA ABRIL DE 2006


res (de 4 para 5 bilh6es), enquanto o fi-
nanciamento do fluxo de caixa se man-
teve em proporao significativa. S&o os
efeitos, bons e ruins, do gigantismo da
empresa. O povo, nesses casos, recomen-
da cautela, pois sabe muito bem que
quanto maior o gigante, maior o tombo.
No caso, falta identificar o gigante
oculto no enredo. Pode nio ser aquele
que aparece a frente do palco. Este,
todos conhecem: 6 a Valepar, o con-
s6rcio vencedor da licitaaio de 1997,
que det6m 52% das aqoes cor direito
a voto, as ordinarias. Mesmo no ndcleo
do control acionirio, porem, os inves-
tidores estrangeiros em ADR (aq6es
negociadas em Nova York) ja estdo corn
metade das aq6es em poder da Vale-


par, 26% (cor os 7% de outros estran-
geiros, chegam a 33%).
Mas quanto as aq6es preferenciais,
que nio controlam as decis6es diretas,
mas t6m preferencia no recebimento
dos dividends da companhia, esses in-
vestidores ja possuem 46%. Como os
investidores institucionais estrangeiros
no mercado local tem 16%, os estran-
geiros em geral sio maioria (62%) no
usufruto dos rendimentos da empresa.
Em conjunto, ja controlam 41% do ca-
pital total da CVRD.
Terd a capital virtual da Companhia
Vale do Rio Doce se deslocado do Rio
de Janeiro para Nova York? E a per-
gunta que fica, em busca de uma res-
posta convincente.








Justiga em julgamento


0 julgamento da desembargadora
aposentada Ana Tereza Sereni Murrie-
ta voltou ao ponto de partida, depois que
o Superior Tribunal de Justiqa anulou a
primeira instruqio. Mas o rumoroso caso
pode voltar a percorrer o mesmo cami-
nho. Antes do recesso da semana san-
ta, doisjuizes criminals ji haviam argiii-
do sua suspeiqio, por motive de foro
intimo. Quando esse mesmo motive foi
suscitado por quatro sucessivos magis-
trados, o president do Tribunal de Jus-
tica do Estado, Milton Nobre, interveio
na questio e designou o juiz Paulo Jus-
sara para funcionar no feito.
O procedimento violou o principio le-
gal dojuiz natural, ao substituir a distri-
buiqio por sorteio pela designaqio ad-
ministrativa direta do president do tri-
bunal. Com base nesse fundamento, ar-
giido pela defesa da desembargadora,
que foi indiciada por sacar indevida-
mente dinheiro de terceiros depositado
em nome dajustiqa e posto sob sua res-
ponsabilidade, o STJ anulou o proces-
so a partir da den6ncia do Minist6rio
P6blico do Estado.
O desembargador Milton Nobre pa-
recia acreditar que o tribunal superior en-


tenderia seu gesto, adotado cor base em
outra garantia legal: a celeridade proces-
sual. Os saques ilegais feitos pela desem-
bargadora, quando juiza da 1a vara civel
do f6rum de Bel6m, no valor de 1,3 mi-
lhlo de reais, remontavam a 1996. Uma
instruqao lenta favoreceria a prescriqio
dos crimes e a impunidade da autora dos
delitos. A sucessiva recusa dos juizes cri-
minais de aceitar o process conduzia
nessa diregqo. O corporativismo pare-
cia falar mais alto do que a voz rouca
das ruas, indignada com o procedimen-
to da juiza, promovida ao desembarga-
do por merecimento, quando o Minis-
t6rio P6blico ji andava em seu encalqo.
E aposentada logo em seguida, em meio
ao escandalo, com proventos superiores
a 15 mil reais por mis. Mas a omissio
provavelmente ainda era numericamente
insuficiente para caracterizar a violaqao
ao preceito da celeridade processual
quando o president do TJE interveio.
O entendimento do STJ sugere aqoda-
mento na attitude.
O espirito de corpo parece continuar
a prevalecer nos corredores forenses,
como se eles fossem um caminho invisi-
vel para a irrealidade, isolando ojudicid-


rio da sociedade. Se a busca do juiz na-
tural para o process se revelar infruti-
fera, o president do tribunal teri que
arrolar juizes do f6rum civel para uma
nova rodada de sorteio. Essa alternative
seria um dado a mais de desmoralizadio
para ajustiqa criminal, que estaria fugin-
do de suas responsabilidades.
Mesmo que finalmente umjuiz do cri-
me se consider em condicqes de assu-
mir o caso, ainda haveri uma questao a
enfrentar: a reaqdo da opiniio p6blica,
que apoiou a condenaqio da desembar-
gadora Murrieta, na hip6tese de o novo
julgador aplicar-lhe uma sentence menor
(a absolviqao 6 considerada simplesmen-
te impensivel) do que a determinada pelo
juiz Paulo Jussara.
Assim, mesmo sem essa intengao, o
judiciirio paraense criou uma prova dos
nove para si. De seu comportamento vai-
se deduzir se ele mudou para acompa-
nhar as mudanqas sociais, ou se preferiu
marcar pass, distanciando-se de sua
imagem e de sua hist6ria. Para o desem-
bargador Milton Nobre, hi um desafio
particular: nio encerrar sua presidencia
sem decidir essa questio. Uma protela-
cao enodoard sua imagem.


Violencia no Pari: ontem como hoje


Foi mais do que um bota-fora aquele
encontro com Gabriel Pimenta na casa
de Ruy Barata: na verdade, seria a 61ti-
ma vez que o verfamos vivo. Gabriel e
Ruy comemoravam o sucesso da defe-
sa dos posseiros do conflito da Fazenda
Capaz, uma area de 100 mil hectares
entire a Bel6m-Brasilia e Vila Rondon,
na entdo PA-70 (hoje, BR-222). Os pos-
seiros emboscaram e mataram o fazen-
deiro John Davis, piloto da Forqa A6rea
dos Estados Unidos na guerra da Cor6ia,
que se transformou em mission6rio e,
depois, propriet6rio rural, mas era, sobre-
tudo, madeireiro. Com o ex-coronel ame-
ricano morreram dois dos seus filhos,
Bruce e Mallory.
O conflito ocorreu em 4 de julho de
1976, exatamente quando os Estados
Unidos comemoravam o bicentendrio de
sua gloriosa independencia. Em tempos
de regime military discriciondrio, a mera
e infeliz coincidencia se transformou em
atentado politico contra o pais amigo e
ameaqa ao regime. Caso de ameaqa a
seguranqa national.
Os posseiros foram press, antecipa-
damente condenados e mantidos incomu-
niciveis, at6 que Ruy e Pimenta aceita-
ram o patrocinio. Pretora em Sio Domin-


gos do Capim, a future desembargadora
Martha Inez Antunes Lima relaxou a pri-
sao dos acusados e instruiu o process,
que resultou na absolviqio dos posseiros.
Essa combinaggo de defesa articu-
lada ejudiciario altivo quebrou a litania
da doutrina de seguranga national em
casos semelhantes, restabelecendo o prin-
cipio do contradit6rio e de uma defesa
mais ampla do que aquela at6 entao vi-
gente na pritica. Ruy e Gabriel Pimenta
tinham motives para comemorar. S6 que
ojovem advogado, de 27 anos, resolve
prosseguir, se estabelecendo em Mara-
bi, capital de uma das regi6es mais vio-
lentas da Amaz6nia, para continuar a
defender lavradores.
Nio foi long. Em 18 dejulho de 1982
foi executado friamente por um pistolei-
ro professional contratado por Jos6 Pe-
reira da N6brega, mais conhecido por
Marinheiro (que morreria, de causa na-
tural, 17 anos depois). No inicio deste mes
foi preso o fazendeiro Manoel Cardoso
Neto, o Nelito, que estava foragido havia
22 anos, acusado de ser o mandante do
crime. Irmio do ex-governador de Mi-
nas, Newton Cardoso, o truculento Neli-
to parecia ter largos costados. Preso em
Minas e recambiado para Bel6m, vai ago-


ra ser submetido ajulgamento, se o anun-
ciado realmente se concretizar.
Na mesma 6poca, mas em Sio Pau-
lo, foi preso outro fazendeiro, Marion
Lopes Pidde. Ele 6 acusado de partici-
par de uma das mais cru6is chacinas na
hist6ria recent da Amaz6nia: cinco pos-
seiros que ocupavam terras na fazenda
Calif6rnia III, que Pidde comprara cor
dinheiro de Serra Pelada, foram amarra-
dos e queimados vivos. Seus cadiveres
foram em seguida atirados no rio Itacai-
6inas, que desigua em Marabd. O crime,
apesar dessas caracteristicas, ja parecia
acobertado pela impunidade. Os outros
tres criminosos, inclusive um irmio de
Pidde, ainda estio foragidos.
A prisio desses individuos deve ser
creditada A persistencia de certas autori-
dades em cumprir seus deveres. O julga-
mento dos dois mandantes das mortes 6
uma imposiqio do foro de civilidade que
pretendemos ter. Mas, de li para ci, a mul-
tiplicaqio de crimes de igual violencia leva
a pensar que a intimidaqio estatal nao tem
sido eficaz. A situaq~o s6 fez piorar desde
entio. E a revolta jd nio 6 a mesma que
os assassinatos de duas d6cadas atris pro-
vocaram. A sociedade parece estar se
acostumando A selvageria.

ABRIL DE 2006 I"QUINZENA Jornal Pessoal





al registradora do cart6rio do 1 oficio da


nas os 6ltimos 20 anos, mas seu resulta-


0 labor dos Ayres


Sinto-me o leigo da fibula di-
ante do palacio inalcangqvel en-
quanto leio o exemplar de BioEs-
tat 4.0 (Aplicacges estatisticas
nas areas das ciWncias bioldgi-
cas e mddicas), a nova version
de um trabalho iniciado pioneira-
mente em 1998. Mas 6 impossf-
vel nao ser torado por um senti-
mento ao mesmo tempo de admi-
raaio e alegria pelo resultado da
intelig6ncia aplicada nessa em-


preitada por tres geraq6es de
Ayres: o patriarca, Manoel, seu
filho, o Jinior, e o neto, Daniel,
reforqados pela participagio de
Alex de Assis Santos.
Na primeira ediqio desse livro,
a introduqio foi assinada por um
amigo dejuventude, Jose Mircio
Ayres, o mais brilhante da nossa
geraqio, um dos nomes mais des-
tacados na produqio cientifica no


Para nas iltimas d6cadas, com re-
conhecimento intemacional a par-
tir de uma iniciativa maravilhosa
na Amaz6nia Ocidental, consoli-
dada hoje em tomo do Instituto
de Desenvolvimento Sustentavel
Mamiraui, dirigido por uma prima
de Jos6, a santarena Ana Rita Pe-
reira Alves. Morto tio prematura-
mente, o amigo dos macacos das
ilhas inundiveis do Amazonas


aparece na capa, cor o filho, no
livro que seu pai, irmaio e sobri-
nho ampliaram, atualizaram e enri-
queceram, colocando-o a servi;o
dos estudantes de gradualio e
p6s-graduaqio.
Para o trabalho dessa fami-
lia formidfvel ficar complete, os
autores agradecem a Isa, espo-
sa, mae, av6 e amiga, "pela sua
colaboraqio em todas as etapas
do labor do BioEstat".


Jornal Pessoal I"QUINZENA ABRIL DE 2006 5


Cart6rio deAltamira: central da grilagem

Em 2000, a escrevente Josafania Mar- comarca de Altamira, para carimbar, como do 6 escandaloso. A torrente de grilagens
tins, responsivel pelo cart6rio de regis- se propriedade fora, o que nao passa de se afunilou para favorecer especialmen-
tro de im6veis de Altamira, recebeu or- golpe grosseiro de apropriaioo ind6bita de te uma pessoa: o empresdrio Cecflio do
dem judicial para bloquear as matriculas bens do patrim6nio piblico. Rego Almeida.
de dois seringais, media requerida pelo As fraudes sao primarias porque os re- Por diversos prepostos, o dono da Cons-
Iterpa (Instituto de Terras) como tutela gistros que o cart6rio efetua nao tem por trutora C. R. Almeida, com sede no Para-
antecipada numa aqio de cancelamento origem um titulo de propriedade de terras na, estendeu seu dominio fraudulent so-
desses mesmos registros. Cinco anos expedido pelo poder pdblico. Os assenta- bre aproximadamente 10 milh6es de hec-
depois, a determinaaio judicial nio fora mentos comeqam referindo-se a um vago tares do riquissimo vale do rio Xingu, o
cumprida: as matriculas dos seringais "titulo hibil", que nunca aparece. A par- grande remanescente florestal na margem
Belo Horizonte e Humaita continuavam tir daf, pordm, desdobram-se cadeias do- direita do rio Amazonas em territ6rio pa-
liberadas. No livro do cart6rio, os dois miniais que dao aparencia de coisa s6ria raense. Atrav6s da Rondon Projetos Eco-
im6veis, somados, teriam uma drea de ao ardil, como se do vistoso bolo houves- 16gicos, da Amaz6nia Projetos Ecol6gicos,
mais de 410 mil hectares (quatro vezes se apenas o glace sobre o nada, o vicuo. dos filhos e do genro, o empresairio con-
maior do que a de Beldm). As grilagens cartoriais ji foram desco- trola virios seringais e fazendas que, ape-
Intimada pelojuiz corregedor dejusti- bertas e reveladas. Eugenia Silva Freitas sar de nio passarem de posses, sem titulo
qa a cumprir a ordem, a escrevente deu responded a 29 procedimentos criminals na vilido de dominio, foram registrados no li-
suajustificativa por escrito: "deixei de cum- justiga federal e a dois procedimentos ad- vro de propriedades. Pretens6es de legiti-
prir ao r. [respeittvel] despacho, por um ministrativos disciplinares najustiqa esta- maaio que, em conjunto, nio podiam ir
lapso desta escrivania". dual, um ji concluido (mas ainda depen- al6m de algumas centenas ou, no maxi-
Por lapsos semelhantes, o Cart6rio dendo de recurso em instancia superior mo, uns poucos milhares de hectares, se
Moreira, com jurisdibio sobre o maior contra a decision adotada, de cassar sua multiplicaram por centenas de milhares ou,
municfpio do planet (Altamira ocupa delegaqio) e outro em fase de instruqio. somados, virios milh6es de hectares.
quase 15% da extensio do Pard), se tor- Ningu6m ter diivida de que ela perderd o Num dos provimentos que baixou, a de-
nou uma usina de grilagens, um verda- cart6rio. Nele ji nio funciona desde 1999, sembargadora Osmarina Nery mandou
deiro paraiso para os que querem se apos- quando foi afastada de suas funq6es. De bloquear as matriculas de tres desses se-
sar facilmente (e ilegalmente) das terras fato, por6m, continue mandando. ringais (Mossor6, Forte Veneza e Caxin-
p6blicas paraenses. Em primeiro lugar, porque o cart6rio guba), feitos em nome da Amazonia Pro-
Milh6es de hectares de terras do pa- funciona na parte da frente de sua casa, jetos Ecol6gicos, que somariam 705 mil
triminio plblico se tomaram fabulosas fon- que fica nos funds. Quatro meses antes hectares, nos assentamentos do Cart6rio
tes de lucros para pessoas audaciosas e de ser afastada, Eugenia indicou para subs- Moreira. E tao falso esse domino que a
inescrupulosas. Elasji ganharam muito di- tituf-la uma pessoa de sua confianga, Josa- corregedora determinou ao cart6rio para
nheiro revendendo as dreas, extraindo ma- finia Martins, afastada somente no final do fazer as averbaq6es dos bloqueios "corn
deira nobre (especialmente o mogno, que mis passado. A corregedora de justiqa do prioridade absolute e suspensio de todos
nessa regiio do Xingu ter a sua maior interior, desembargadora Osmarina Sam- os demais services do Cart6rioat a a sua
concentraqbo), explorando min6rios ou paio Nery, determinou a substituigio de Jo- complete averbagqo nelas e, se for o caso,
oferecendo os macigos florestais como saffnia por Naidia Suely Anchieta do Nas- em todas as demais matriculas que tive-
mecanismo de compensagao da poluiglo cimento, que acumulard o cart6rio de re- rem sido delas desmembradas".
da Terra, o "seqiiestro de carbono. gistro de im6veis cor o de registro civil, do A mesma providencia serd aplicada hs
Essa silenciosa e invisivel transferen- qual 6 titular, por concurso. Josafinia res- matriculas dos seringais Belo Horizonte e
cia de riqueza, que tem nesse cart6rio o ponder tamb6m a process disciplinary ad- Humaiti, supostamente cor mais de 400
seu vdrtice, possui tamb6m a sua estrela, ministrativo, como sua madrinha. mil hectares, que a escrivi substitute Jo-
que aparece no cenirio como principal Todos os livros, pap6is e arquivos do saffnia Martins, "por um lapso", deixou
protagonista, embora, na verdade, seja Cart6rio Moreira serio transferidos para de bloquear. Lapsos semelhantes levaram
apenas uma marionete. Essa pessoa ji se seu novo local e a partir dal serao sub- o Pard a perder quase 10% do seu territ6-
torou famosa na literature sobre grilagem: metidos a uma correiqio permanent. A rio para o maior grileiro da Terra. Essa
6 Eugenia Silva Freitas. Hi anos ela usa a correiiao ordiniria, realizada pelo juiz longa e ampla imoralidade, finalmente,
f6 p6blica do seu cargo, de notaria e ofici- Jos6 Torquato de Alencar, abrangeu ape- chegou ao fim?







Reproduzo, como dossier,

material que a respeito do

meu contencioso com os

Maiorana foi inserido na

revista eletr6nica Consultor

Jurfdico. Primeiro a carta que

enviei ao site, seguida da

materia original da revista e,

finalmente, as manifesta oes

de tres leitores.


I Jornalista critical reporta-
gem publicada pela ConJur
Ojornalista Liicio Fldvio Pin-
to enviou carta a redaqio da Con-
sultor Juridico em resposta a
reportagem publicada pela revis-
ta sobre a sua briga na Justica cor a fa-
milia Maiorana, dona de 0 Liberal, ojor-
nal mais influence do Pard, e da emissora
que retransmite a programagio da Rede
Globo para a regiao.
L6cio Flavio, em sua carta, reclama
de um tempo de verbo utilizado na re-
portagem da ConJur. Al6m disso, reba-
te afirmaqres feitas pelo advogado da fa-
milia Maiorana, Roberto Lauria. Leia a
seguir as suas raz6es:

Prezada Aline,
Tomando conhecimento de sua mat6-
ria neste moment, peqo-lhe a gentileza de
divulgar no site do ConJur alguns escla-
recimentos que julgo necessdrio fazer para
melhor compreensio de seus leitores.
Minha participaqio na minha defesa em
juizo consiste em acompanhar a tramita-
rio dos processes no f6rum de Bel6m,
fazer as pesquisas necessdrias para a ela-
boraqio das minhas peas (invariavelmen-
te de defesa) e submeter minha contribui-
qio ao meu tio, Benedito Barbosa Martins,
advogado hr mais de 30 anos, tendo che-
fiado o departamentojuridico do Banco do
Brasil. A responsabilidade pelo conteido
das peas 6 dele, que ter a compet6ncia
t6cnica especifica para elabord-las e a ha-
bilitaqto professional devida. Em virtude de
sua grave doenca e de seus muitos afaze-
res, minha tarefa de campo torna-se ne-
cessiria, ji que as demands, movidas por
grupos poderosos, cor escrit6rios de ad-
vocacia a sua inteira disposiiao, constitui
um amplo front de guerrajudicial, do qual
meu tio n~o pode dar conta. Mas 6 dele a
autoria das peas.
Quanto hs contraditas do advogado do
grupo Liberal em relacio aos advogados que
se sentem intimidados de me defender, res-
salte-se que logo depois da agressio que


A polemica vista de fora


sofri, em 21 de janeiro do ano passado, 41
advogados inscritos na OAB-Pard subscre-
veram uma representaqio pedindo o afas-
tamento de Ronaldo Maiorana da Presiden-
cia da Comissio em Defesa da Liberdade
de Imprensa da seccional da Ordem, nao
s6 em virtude de seu ato criminoso (agres-
sio fisica, seguida de ameaqa de morte),
como pela incompatibilidade intrinseca corn
sua funioo de dono de uma das empresas
jornalisticas concorrentes no mercado. O
pedido foi indeferido e a situacio, comple-
tamente inusitada, se manteve.
Ofende-me, em seu texto, o trecho em
que voc& diz que Ronaldo Maiorana, dire-
tor corporativo do grupo Liberal, "teria
agredido o jornalista num restaurant do
Pari, segundo relates de L6cio Flivio".
Ora, o fato 6 concrete, nao admitindo a
condicional: a agressio aconteceu efetiva-
mente. Dela di prova o laudo do Instituto
M6dico-Legal, feito tres horas depois da
agressao, a que eu me submeti, e a pr6pria
confissio do autor, que admitiu a agres-
sio e pagou uma multa de 6,5 mil reais,
em transacao penal cor o Minist6rio P6i-
blico do Estado, autor da aqio instaurada
perante o 6 Juizado Especial de Bel6m,
para se livrar do processamento criminal.
Na transaaio penal, a vitima 6 mera es-
pectadora, substituida e, freqiientemen-
te, sufocada- pelo representante do MP.
De fato, os Maiorana (como qualquer
cidadao) podem ir diretamente h justiqa
contra o alegado autor de ofensas a si su-
postamente feitas atrav6s da imprensa. A
ordem legal nio os obriga a primeiro es-
gotara instfncia administrative. Mas como
sao proprietirios de empresasjoralisticas,
a informaqao 6 a mat6ria prima do seu ne-
g6cio e fornecem seu produto i opiniio
piblica, era natural, desejivel e moralmente
(ou eticamente) recomendivel que pres-
tassem contas h sociedade. Nada os impe-
diriam de tratar do assunto em seus vef-
culos de comunicaqio porque nenhuma das
mat6rias do "Jornal Pessoal" atravessou a
soleira de suas residencias e a estrita di-
mensao privada de suas personalidades.
O argument de seu advogado, de que
responder ao meujornal seria promover
sua venda, 6 falacioso. Em primeiro lu-
gar porque o "Jornal Pessoal" nunca ado-
tou esse tipo de promodio nem visa uma
vendagem mais ampla. Suas pr6prias ca-
racteristicas comprovam essa declara-
tio. Ojornal aceita sua condicao de pu-
blicaqio de circuladio restrita, mas 6 um
efetivo formador de opiniio, lido por to-
dos os Maiorana. Em segundo iugar,
porque os laudos de auditagem de cir-
culagqo produzidos pelo IVC sobre as
vendas de "O Liberal" no ano passado,
recentemente divulgados, mostraram que
o journal da familiar Maiorana vende, de


fato, tres vezes menos do que a empre-
sa declara. A informaaio jurada do edi-
tor ao IVC era mentirosa, conforme de-
monstrado pelas auditagens.
De fato, eu saf duas vezes de "O Libe-
ral" no curso dos 13 anos em que trabalhei
na empresa. Nas duas vezes, eu pedi de-
missio. Em ambos os casos por nao con-
cordar com veto aos meus artigos. Na pri-
meira vez, o pr6prio Romulo Maiorana, pai
do meu agressor, foi me buscar de volta.
Na segunda, nao teve essa oportunidade:
morreu um mes depois do rompimento. Mas
sua mulher, Lucid6a Maiorana, testemunha
dos fatos, me disse, no vel6rio do marido,
que ele pretendia se reconciliar comigo no-
vamente. Jd publiquei virias vezes essa in-
formaq~o. Naio fui desmentido. Nunca os
Maiorana conseguiram me desmentir. So-
bre o essencial, nem eles e ningudm mais,
em meus 40 anos de jornalismo profissio-
nal. E meu maior patrim6nio.
Os cinco artigos que escrevi na iltima
ediaio do "Jornal Pessoal" sobre o grupo
Liberal tern o que chamamos de "gancho".
Ou seja: um fato da conjuntura os motiva. O
primeiro foi sobre a posiqio daANJ de con-
siderar o contencioso entire o "Jornal Pesso-
al" e os Maiorana como "rixa pessoal". A
segunda mat6ria foi sobre a exclusao do meu
nome e de um reporter do pr6priojornal "0
Liberal" da relaqio de cinco pessoas que re-
ceberam a solidariedade da Assembl6ia Le-
gislativa em relaqio as agressoes do grileiro
Cecflio do RegoAlmeida, declarado "perso-
na non grata" ao Estado. Em tantos anos de
profissio,jamais vira uma empresajornalis-
tica sabotar seu pr6prio professional. A ter-
ceira mat6ria foi sobre os relat6rios de audi-
toria de circulacio do IVC sobre "O Libe-
ral", divulgados dias antes pelo "Diirio do
Pard". A quarta mat6ria foi sobre a campa-
nha desencadeada por "O Liberal" contra a
administration da Universidade Federal do
Pard e o ex-prefeito de Bel6m, revelando as
razoes ocultas dessa md-vontade. E a quinta
foi sobre os dados do iltimo balanco divul-
gado pela empresa, referente ao exercicio
de 2004. Sio todas quest6es de relevant
interesse piblico, baseadas em informaqbes
de fonte fidedigna, inclusive do pr6prio gru-
po Liberal. Nio 6 pelas palavras contidas nes-
sas mat6rias que temo um novo process: 6
pela desenfreada persegui~io e intimidaq o
que o grupo Liberal desencadeou contra mim.
Meu crime? Dizer verdades que desagradam
os poderoso Maiorana.
Atenciosamente,
Licio Flivio Pinto
Revista Consultor Juridico, 30 de mar-
qo de 2006

II Para entendermos a polemica,
segue a mat6ria original
Guerra de palavras


a ABRIL DE 2006 I"QUINZENA Jornlil Pessoil









(ou por quem esta por fora)


Jornalista enfrenta maior
grupo de imprensa do Para
porAline Pinheiro
Ojornalista Lticio Flivio Pinto, de Be-
16m do Pard, responded a 15 processes,
entire civeis e penais. Ao todo, ji foram
ajuizados 32 processes contra ele, mas 17
ji foram arquivados. Segundo ojoralista,
todas as aoqes foram motivadas por re-
portagens publicadas por Lucio Flivio no
seu Jornal Pessoal. L6cio Flivio cuida de
sua pr6pria defesa em todas elas. Isso por-
que, ele afirma, nio conseguiu um advo-
gado que estivesse disposto a defende-lo.
A maioria das aq6es judiciais 6 da fa-
milia Maiorana, conhecida por controlar
as Organizaq6es Maiorana, que edita ojor-
nal O Liberal, o mais traditional e de mai-
or circulaiao no estado, e cuja emissora
retransmite a programaqao da Rede Globo
de Televisio na regiio As reportagens do
journal de Licio Flavio que deram origem
As aqoes dos Maioranas se notabilizam por
falar acusar e critical a familiar.
A queda de braqo entire Licio Flivio e
os Maiorana comecou em janeiro do ano
passado, quando L6cio Flavio publicou em
seu journal um texto criticando a atua~io
political do grupo de imprensa. Alguns dias
depois da publicaqFo, Ronaldo Maiorana,
diretor-corporativo do grupo, agrediu o
jornalista num restaurant no Pard.
A partir desta primeira publicaqio, co-
meqou a enxurrada de ages. A cada re-
portagem sobre a familiar, L6cio Flivio era
intimidado em uma nova aqao. Hoje, so
13 ages movidas pelos irmios Ronaldo,
R6mulo e Rosangela Maiorana, sendo oito
penais e cinco civeis. Apenas as duas mo-
vidas por Rosfngela tiveram decision de
primeira instancia. Na civel, o pedido de
indenizadio foi negado. Na penal, Licio
Flavio foi condenado, mas recorreu ale-
gando prescribio.
Ojornalista lamenta que, durante toda
a contend, nunca foi procurado por ne-
nhum dos autores da aqio. "Nunca recebi
uma carta como resposta. Se eles quises-
sem fazer valer o seu direito de resposta,
eu publicaria a carta no journal diz.
Roberto Lauria, advogado dos Maiora-
na, defended que a carta de resposta nunca
foi enviada porque 6 um direito, e nio um
dever do lesado. "Se fiz6ssemos isso, es-
tariamos premiando ojornalista pelas suas
agress8es verbais e elevando a venda de
seujornal", acredita.
Segundo o advogado, o jornalista pa-
rece nio se con; ormar com o crescimen-
to das empresas do grupo Maiorana, onde
trabalhou durante algum tempo. Lauria
conta que Lucio Flivio saiu da empresa
depois de ter tido uma desentendimento
com R6mulo Maiorana, ji morto, pai dos
autores das aqoes.


Al1m da briga que trava com a famf-
lia Maiorana, Lucio Flhvio ainda enfren-
ta outras duas aq6es civeis. Uma delas
foi movida por uma empresa acusada de
grilagem de terra no Xingu, a CR Almei-
da, do empreiteiro paranaense Cecilio
Rego Almeida. Neste caso, ele foi con-
denado em primeira instancia a pagar in-
denizaqgo de R$ 30 mil e aguardajulga-
mento do recurso.
A outra aqio 6 do desembargador Jodo
Alberto Paiva que, segundo Ldcio Flivio,
teria proferido decisdo favorivel A grila-
gem de terras.

Causa pr6pria
Quem assina a defesa de Licio Flivio 6
seu tio, o advogado Benedito Barbosa Mar-
tins. O autor verdadeiro das peas 6 o pr6-
prio Ldcio Flavio. A assinatura do tio, que
esta com a satide debilitada, 6 uma forma de
tornar possivel a defesa, depois de uma cor-
rida a oito escrit6rios de advocacia. Segun-
do ojomalista, nenhum aceitou defend&-lo.
L6cio Flivio acredita que a recusa se
deve ao receio dos profissionais do Direi-
to do estado de sofrer eventuais represili-
as da poderosa familia que enfrenta. Por
isso, foi a luta, mergulhou em livros, estu-
dou doutrinas ejurisprudencias, e hoje j
se consider um especialista em Direito
Penal e em Lei de Imprensa. "Informaram-
me que eu fui o primeiro no estado a usar
um institute do Direito Penal que chama
Recurso Ordindrio Constitucional."
O advogado dos Maiorana, Roberto Lau-
ria, discorda das razoes apresentados por
Lucio Flivio. "Fui conselheirodaOAB para-
ense e nunca ouvi um colega reclamar de
represilia. Eu mesmo no permitiria ver as
prerrogativas de um advogado violadas". Para
Lauria, as dificuldades de Ldcio Flhvio sio
geradas por seu pr6prio comportamento.
Lticio Flivio naio desiste. Na iltima
ediqao do seu Jonial Pessoal, que tem pe-
riodicidade quinzenal, publicou cinco re-
portagens sobre a famflia Maiorana. Pelo
tom de suas palavras, pode esperar novos
processes de seus inimigos.
Revista Consultor Juridico, 21 de mar-
qo de 2006

III Manifestacqes dos leitores (to-
das no dia 31 de marqo)
Domingos Neto:
O Licio ter toda a razio de critical a
nota do Consultor Juridico, uma vez que
o site, a exemplo da ANJ, tamb6m esti di-
recionando toda a questao da briga para
uma questio meramente pessoal, como se
a finalidade do Jornal Pessoal (conhecido
por JP), e do jornalista que o edita, fosse
concorrer cor a empresajomalistica que
edita O Liberal e o outrojornaleco chama-
do Amaz6nia Jomal.


A reporter que providenciou a mat6ria
deveria ter se aprofundado nas leituras e
conhecer a hist6ria do JP e ver que ele nio
foi criado pelo Ltcio com a pretensio de
concorrer ou abalar os grandes meios de
comunicacao do Estado do Pard, e sim tbo-
somente combater e fiscalizar os agents
ptblicos e privados do Estado ou que atu-
am no Estado e na regiio amaz6nica como
um todo de acordo com seu vi6s pessoal e
abrangendo os mais diversos temas, des-
de o patrim6nio hist6rico e cultural at6 o
aproveitamento mais racional das riquezas
naturais e dos recursos ptblicos de forma
a beneficiary toda a coletividade.
Ao contrdrio do que tnm entendido es-
ses 6rgios de comunicacio (o Conjur in-
cluido), a briga do L6cio 6 contra aqueles
que se utilizam dos recursos plblicos em
beneficio de seus interesses privados.
Assim, do mesmo modo que agora esta
denunciando irregularidades do grupo dos
Maioranas e de outras empresas que tnm
apoiado o grupo politico que comanda o
Governo do Estado (PSDB), no passado
pegou no p6 do grupo politico que apoiou
o PT no comando da prefeitura de Bel6m,
assim como esteve atento aos passes do
grupo ligado ao PMDB do ex-governador
Jader Barbalho enquanto teve hegemonia
political no Estado.
Para quem acompanha o drama pessoal
destejomalista pela leitura dos seus escritos,
como eu (sem qualquer amizade pessoal,
saliento), sabe que sio verdadeiros os fatos
que elenca na sua critical aos demais meios
de comunicaqio que insisted na versio da
rixa pessoal que, se existe, certamente 6 uni-
lateral, da familiar Maiorana contra ele.
S6 desconhecendo o provincianismo
vigente nesta Capital, ou muita ingenuida-
de mesmo, para acreditar na versio do ad-
vogado dos Maioranas da plena vigencia
do principio da isonomia por essas para-
gens, com todo o poder politico e econ6-
mico de que disp6em.

Augustio:
Hoje o que se ver 6 que a imprensa vi-
rou o quarto poder neste pais, pass a
mesma situaqio, aonde a promotoria nio
tern prova ojuiz muito mesmo e decreta a
prisao de cidadio em virtude da imprensa
e dos defensores de bandidos que se auto
se chamam direitos humans que virou
profissao e cargos politicos.
Eliete Diniz (Estudante de Direito):
Quero externar meu respeito, minha
admiraqao e apoio aojornalista Ltcio
Flavio Pinto pela sua coragem e de-
terminaqio, atrav6s de seu trabalhojor-
nalistico, comprometido com a verda-
de, vem contribuindo fundamentalmen-
te para a defesa da Amaz6nia, da sua
gente, dos brasileiros.


Jornal Pessoal I"QUINZENA ABRIL DE 2006 7









Algaravia Liberal


O control de qualidade em O Libe-
ral esti bem pior do que neste Jornal
Pessoal. Se 6 que existe.
Numa mesma pigina da edicao do dia
12 o "olho" do titulo diz que a elevacqo
do nivel do mar em seis metros, por con-
ta do aquecimento global, inundaria 36%
da superficie da ilha de Maraj6. Ja o tex-
to da mat6ria, informa corretamente -
que a hip6tese 6 de dois metros. Quatro
metros mais, poderiam fazer desapare-
cer o Maraj6 inteiro, al6m de alagar par-
te considerivel de Bel6m.
Abaixo dessa mat6ria hi uma foto de
dom Angelo Rivato, identificado na le-
genda como seu successor na diocese do
Maraj6, dom Luis Azcona.
Ji o primeiro pardgrafo da mat6ria
sobre a pol6mica restauraqao da Cate-


dral da S6, colocada na pigina 3 da edi-
qFo do dia 12, merece ir para uma anto-
logia de como aprender a nao escrever
certo. Diz o cometimento:
"A Secretaria Executiva de Cultura
enviou ontem a este journal nota contes-
tando a informag~o (...) de que o secre-
tdrio-executivo de Cultura, Paulo Chaves
Fernandes, teria concedido uma entrevis-
ta coletiva a respeito do projeto de res-
tauraqao da igreja da S6, em resposta a
dendncias de furto no temple".
Ora, a tal entrevista s6 saiu em O Li-
beral. Logo, nao podia ser coletiva.
Como o journal nao sustenta a informa-
qao anterior e a ela se refere no condici-
onal, o leitor deve concluir que a entre-
vista, na verdade, nunca houve. O "mal-
entendido" pode ter resultado de uma


pritica infelizmente constant no jorna-
lismo atual: desencavar material de ar-
quivo, refundi-lo e apresentdi-lo como
sendo produto novo. Um minimo de com-
promisso cor a 6tica e a verdade devia
ter obrigado o journal a admitir que a en-
trevista coletiva ndo foi concedida, pe-
dindo desculpa por algo que O Liberal
expurgou do seu ambito: o erro.
Outro erro, na ediqao do dia 8, perpe-
trado contra a pr6pria empresa. Um co-
municado informava aos assinantes que
desejassem fazer suspensio temporiria ou
mudanqa de endereqo a "entrar em con-
tato conosco at6 quarta-feira (23/03)".
Para tanto, teriam que retornar 20 dias no
tempo. Como Maiorana parece achar que
pode at6 fazer cover, nada mais do que
um galho besta, como diz o povo.


CARTAS

AO EDITOR


Livro .....................
Venho agradecer imensa-
mente as referencias que voc6
fez sobre o meu livro A Questdo
Geopolitica da Amazonia. Da
Soberania Difusa a Soberania
Restrita. Uma opiniao isenta e
licida como a sua 6 um estimulo
para quem tanto tempo se dedi-
cou ao assunto tratado no livro,
cor o objetivo mais de apresen-
tar sistematicamente o assunto
e formular questionamentos do
que oferecer respostas a um
tema tdo complex.
Nelson de Figueiredo
Ribeiro


0 parecer ....................
Acerca do parecer emitido
pela Associagqo Nacional de
Jornais (ANJ), publicado noJP
n 364, da 1a quinzena de mar-
qo, o que se percebeu foi que o
redator do mesmo sofre daque-
le mal que acomete uma parcela
significativa da populaqao bra-
sileira, haja vista que ela 6 viti-
ma do process de degradacqo
da educacqo e, em conseqiien-
cia, do process de degradago
da informaqco. Esse mal consis-
te em uma incapacidade de re-
lacionar as coisas, os fatos, os
fen6menos, etc.
Karl Marx, em sua obra "Para
a critica da economic political do
capital", de 1859, ji alertava para


esse "distdrbio" intellectual que
vitima certas pessoas ou classes.
Assim, ele escreveu:
"A grosseria e a incompre-
ensao consistem em nao relaci-
onar, senio fortuitamente, uns
aos outros, em nao enlaqar, se-
nao como mera reflexao, ele-
mentos que se acham unidos or-
ganicamente. A noqio que flu-
tua no espirito dos economis-
tas burgueses 6 que a policia 6
mais favorAvel A produq~o que
o direito da forqa, por exemplo.
Esquecem apenas que o direito
da forqa 6 tamb6m um direito, e
que o direito do mais forte so-
brevive ainda sob outra forma
em seu "Estado de Direito"
(2000, 2, p. 29)
Dizer que a agressao sofrida
por voc8 "6 de evidence rixa pes-
soal entire ambos, nao havendo
relaqao de causa e efeito entire a
conduta do agressor e a restri-
qFo A liberdade de opiniao e crf-
tica", implica em tornar piblico
a incompetkncia daquela entida-
de quanto A falta de habilidade
para relacionar os fen6menos
que poderiam evidenciar a ver-
dade acerca do atraso econ8mi-
co, social, politico, intellectual e
hist6rico imposto pelo grupo
ORM ao Estado do Para, desde
que o mesmo ascendeu ao sta-
tus de maior grupo de comuni-
caqbes do norte do pais.
No moment em que a ANJ
emitiu aquele parecer com uma
redaqao tao inconsistent, foi
porque ela nao conseguiu rela-
cionar a tua luta cor instru-
mentos intelectuais em prol do
desenvolvimento do Para e da


Amazonia contra aqueles que
lutam apenas pelo seu pr6prio
desenvolvimento. E em nao
conseguindo fazer tal relacgo,
ela mostrou, antes, que nao
consegue relacionar o Pard e a
Amaz6nia ao restante do Bra-
sil. Esse equivoco 6 fruto de
uma percepqgo que legitima e
af estA um dos pontos altos da
tua luta uma situaqlo que co-
loca a regiao Norte numa dupla
periferia: a do Brasil e a do mun-
do globalizado.
A ANJ foi infeliz ao expedir
um document inconsistent e
intelectualmente mediocre. E a
pobreza que se encontra no
bojo daquele texto 6 a irrefuti-
vel prova de que a preocupa-
qao cor o esclarecimento da
verdade acerca da agressao fi-
sica contra voc6 no dia 21 de
janeiro do ano passado nao
passa de mero discurso por par-
te da entidade.
Se em Brasilia nao foi possi-
vel que se tivesse acesso as in-
formaqces a respeito do que
ocorre nesta parte do pais, en-
tao que a Associaqio Nacional
de Jornais optasse pelo silencio,
ao inv6s de pronunciar-se, prio-
ritariamente, A luz dos relates do
mais forte. Ao agir desse modo,
ela apenas mostrou ainda mais a
forqa e o alcance dos tentaculos
do maior "polvo" das comuni-
caqdes do norte do pafs.
A forqa e poder do grupo
ORM estao acima da forga e do
poder dos governor munici-
pais e estaduais da regiao e sao
mais fortes do que o som das
batidas do martelo da Justiqa.


E talvez a Justiqa da Amaz6nia
aja assim, tio timidamente, por-
que seus olhos nao estio ape-
nas vendados, mas ofuscados
pelo brilho dos Maioranas. Ou
talvez nao esteja cor os olhos
vendados, mas faqa questao
de assim permanecer porque
reconhece que a Lei nao 6 for-
te o suficiente perante o poder
do capital.
O que a ANJ denominou de
"rixa pessoal" eu vejo mais como
um embate duradouro e por isso
hist6rico, entire o "Golias paraen-
se" e o "Davi da Amaz6nia". Sen-
do que, ao contr6rio do que acon-
teceu nos relates biblicos, por
aqui, a vit6ria do "Davi" nao de-
pende do alcance ou da veloci-
dade com que ele gire a funda -
at6 porque a funda foi desvirtua-
da e hoje ela se apresenta sob a
forma de capital. Nessas condi-
q6es, ela nao esti mais nas mios
do "Davi", mas do "Golias".
A forqa e o poder do "Goli-
as paraense" nao repousam,
necessariamente, no seu gigan-
tismo objetivo, materializado,
mas no subjetivo. E gracas a
essa subjetividade que ele ali-
cia, afronta, subverte e desvir-
tua o Estado Democritico de
Direito e suas instituiq6es numa
das regioes mais ricas do mun-
do: a Amaz6nia. A ocorrencia
dessa subjetividade nao 6 uma
exclusividade do espaqo ama-
z6nico, pois foi por causa dela
que a ANJ gestou aquele pare-
cer. E que parecerzinho...
Ivanilson Souza
Aluno do 4" ano de Ciencias
Sociais Unama


R ABRIL DE 2006 IQUINZENA Jornal Pessoal


I









Ontem, a grande justiga do Brasil


"O Poder Judiciario nio pode exis-
tir sem o poder da lei; a vontade dojuiz
6 a vontade da lei".
Candido Motta Filho fez essa afirma-
tiva ao se manifestar no sentido de que o
Supremo Tribunal Federal concedesse,
em setembro de 1964, habeas corpus em
favor do jornalista e escritor Carlos Hei-
tor Cony. Por 7 a 2, o STF decidiu que o
articulista do Correio da Manha devia
ser processado pela Lei de Imprensa,
como queria sua defesa, e nio pela Lei
de Seguranca Nacional, como pedia o
ministry da Guerra, o general Arthur da
Costa e Silva.
Os ministros Pedro Chaves e Vilas
Boas divergiram do voto vencedor (ao
qual se filiaram, al6m do relator, Gonqal-
ves de Oliveira, os ministros Evandro Lins
e Silva, Hermes Lima, Victor Nunes Leal,
Candido Motta Filho, Luiz Galotti e La-
fayete de Andrade). Mas nao eram sim-
ples caudatirios de um governor que se
estabeleceu, cinco meses antes, derru-
bando, pela forqa, o governor anterior, que
fora legalmente eleito pelo povo.
No confront das duas posigqes, o
crit6rio da verdade era a lei. Embora o
governor dispusesse de instruments de
exceqAo (depois ampliados at6 a barbi-
rie), a Constituiqdo de 1946 ainda esta-
va em vigor. Os ministros da mais alta
corte de justiqa do pais, herdeiros do le-
gado democritico de 18 anos, o mais
extenso at6 entao na hist6ria da Repi-
blica, tinham que esgrimir e medir for-
qas em torno das regras legais e nio da
vontade pura e simples, absoluta- dos
novos donos do poder.


Podiam querer ajudi-los a cumprir
seus prop6sitos, mas apenas at6 onde
lhes permitisse a norma legal. Nao a
atropelariam, nem a ignorariam. Daf a
relevancia da frase de Candido Motta.
Apreciando um HC em favor de um pro-
fessor universitirio, acusado de amea-
qar a seguranqa national com critics
feitas ao regime dentro da sala de aula,
Motta Filho, um home conservador,
mas liberal por conviccqo, observou que
"o Juiz s6 raciocina dentro da legalida-
de. E, dentro da legalidade, sou obriga-
do a reconhecer, com muito orgulho para
mim, a liberdade de pensamento e a li-
berdade de citedra".
O ministry Pedro Chaves, embora
identificado com o governor, nao p6de
deixar de conceder o HC, ressaltando
que, assegurada a ordem legal, o ma-
gistrado nao pode ignorar o mundo, que
nem sempre se esgota nos autos: "O Juiz
6 obrigado a manifestar as suas opini-
6es a respeito dos homes e das coi-
sas". Sintomaticamente, aquele STF era
composto por homes cultos, com den-
so estofo t6cnico para administrar ajus-
tiqa. Alguns dos ministros inscreveram
seu nome na hist6ria do pais.
Manifestando, em outro julgamento,
seu acabrunhamento pelo "eclipse do Di-
reito em nossa terra", outro ministry,
Gonaalves de Oliveira, expressou seu
reconforto ao verificar que "deste Su-
premo ainda hi luz para captar e apla-
car as trevas".
Elas, infelizmente, acabariam domi-
nando. Os atos institucionais foram se
sucedendo, o ministry military que pro-


cessou Cony se tornou president e, sob
o mando da terrivel Lei de Seguranca
Nacional, Behemoth se libertou de to-
dos os escrdpulos da consci&ncia, avali-
zando a era do terror. Mas nao foi por
falta de resistencia de homes dignos,
como os que se reuniam no STF e que,
progressivamente, foram sendo margi-
nalizados e punidos.
Mas quem, como eu, p6de ler, em
1967, os tres volumes de Os IPMs e o
habeas corpus no Supremo Tribunal
Federal, organizados por Jardel Noro-
nha de Oliveira e Odal6a Martins, ja-
mais perdeu a esperanqa najustiqa como
fonte de resistencia hs iniqiiidades e ar-
bftrios. Recomendo a leitura para os que
andam descrentes dos tribunais superi-
ores brasileiros, das cortes estaduais e
dosjuizados singulares.
Eu pr6prio, num moment de profun-
do ceticismo, sujeito a ser condenado na
justiga por defender o patrim6nio piblico
paraense contra o grileiro Cecflio do Rego
Almeida, exatamente quando o emprei-
teiro do Parand (nascido em Obidos) 6
declarado persona non grata ao Esta-
do pelo poder legislative, fui rever minhas
anotaqSes de adolescent. Elas foram
feitas num volume maltratado pelo tem-
po, mas que preserve a dignidade de seu
conteddo, contrastante com a mediocri-
dade e a falta de sensibilidade de muitos
dos magistrados em atividade, inclusive
no STF e nos tribunais estaduais. O Bra-
sil, queji foi tao bem servido de notdveis
jufzes numa 6poca ruim, podera voltar a
te-los em novo moment de crise?
Que assim seja.


LEITURA


Vivemos a 6poca da "informaqao
sobre" no lugar do "conhecimento
de". Com as numerosas e cada vez
mais amplas bases de dados, muitas
pessoas se contentam em reunir in-
formacqes sobre determinado tema,
mas sem enfrentd-lo diretamente.
Podem se tornar autoridades em
Marx, por exemplo, sem ler qualquer
dos seus livros. Conseguirao enganar
muitos durante todo tempo, mas um
dia certameate a casa caira: quando
precisarem demonstrar intimidade
com o assunto do qual sabem tudo, mas
de segunda mao.
E no que penso sempre que os
cadernos de cultural da grande im-


prensa anunciam a "primeira tradugao"
de algum livro jamais publicado no Bra-
sil. Freqtientemente nem 6 precise fa-
zer pesquisa: o volume supostamente
in6dito na lingua de
Drummond estd bem ali,
na estate de uma bibli-
oteca nada exemplar.
O iltimo caso de que
me lembro foi o da gran-
de jornalista americana
Lilian Ross. A Companhia
das Letras lanqou, no fi-
nal do ano passado, o fa-
moso "Filme", que con-
t6m a s6rie de reportagens
de 1952, publicadas em


cinco ediqces sucessivas da revista
The New Yorker. Cor a s6rie, Ross,
entao com 25 anos, contribuiu para
fundar uma nova escola na imprensa,
o new journalism,
metade jornalismo
e metade literature
(nem sempre em
parties equilibradas,
6 bom ressaltar).
Na verdade, a
traduaio brasileira
existe desde 1977,
publicada pela edi-
tora Agir. Quem 16,
sabe. Quem nao 16,
pensa que sabe.


Jornal Pessoal I'QUINZENA ABRIL DE 2006 9


I









MEMORIAL DO COTIDIANO


Contrabando
0 primeiro caso de apre-
ensio de carro contrabandea-
do que a imprensa de Bel6m
registrou aconteceu em setem-
bro de 1954. Um autom6vel
Mercury foi localizado numa
serraria no furo do Maguari, em
Maracacuera. A carga, trazi-
da de Paramaribo pelo barco
Maria e que entrou em Beldm
atrav6s de Abade, em Curuqi,
era maior: havia ainda um ou-
tro autom6vel, um "Super-Bui-
ck", e 130 caixas de ufsque
Victory Club. O Ford sumiu e,
seguindo uma pista anonima, a
policia chegou a residencia do
entio superintendent da
SPVEA, o historiador (e futu-
ro governador do Amazonas)
Arthur Cezar Ferreira Reis,
que morava no nimero 2 da rua
Gama Abreu. Mas logo foi des-


feito o terrivel mal-entendido,
Reis, indignado, reafirmando
sua honra e protestando con-
tra a infamia.
Esse foi o primeiro registro,
mas as viagens com contraban-
do na rota entire Paramaribo e
Bel6m ji eram intensas, corn
carga menor. E se expandiri-
am muito pelos 10 anos seguin-
tes, envolvendo muita gente.

Navio
O navio Augusto Montene-
gro, da famosa "frota branca",
foi construido na Holanda (por
ordem do president Gettlio
Vargas, que deu nome a uma
das embarcao6es) para servir ao


SNAPP (a empresa estatal de
navegagio na Amazonia, tam-
b6m responsivel pela adminis-
traioo dos portos do Pari). Che-
gou a Bel6m as 18 horas do dia
17 dejulho de 1955. Comanda-
do pelo capitao holand6s John
Frank Wyssmuller (nada a ver
corn o Tarzan americano) e corn
13 tripulantes, o navio percorreu
em 23 dias a distancia entire
Amsterda e a capital paraense.
No Canal da Mancha, cinco
pombos-correios franceses pou-
saram na embarcaaio e vieram
corn ela at6 Bel6m, retomando
ao mesmo ponto na Europa, a
bordo do "Hilary", para poder
cumprir sua missdo.


PROPAGANDA

Choradeira

cinematografica
Ldgrimas jorravam pelo piso do "Nazare" enquanto Pa-
blito Calvo, o espanhol de 5 anos que encantou o mundo,
encarnava "Marcelino Pdo e Vinho", na melhor tradiado
dos dramalhOes da jpoca. A estreia do film foi no dia 26
de janeiro de 1958, em matinais e vesperais, que entupi-
ram o cinema de crianqas e adults. Um filme que podia
continuar a ser exibido em todas as semanas santas, sem
contra-indicaVoes.


h
,.% '- ,
"._, ....
,." j~831~t -fs ;


F FOTOGRAFIA
Carro do

contraband
0 primeiro carro contra-
bandeado a ser apreendido
pela policia e fotografado
pela imprensa de Belmn, em
1954: urn "Super-Buick"
americano. 0 veiculo e
apresentado a imprensa
pelo delegado de trinsito,
Milton Dantas.

Carapanas
Aniincio da loja Mayer
Obadia, que ficava na traves-
sa Santo Antonio, na Bel6m
insalubre de 1955:
"Mata mosca e carapana -
Tipo bomba pulverizadora ame-
ricana, a dnica que aprovou.
Devolve-se o dinheiro a quem
provar o contririo. Tem para
vender qualquer quantidade".

Comercio
No "ponto" da Alfaiataria
Pinto, na rua joao Alfredo, a
Loja Visao se estabeleceu em
agosto de 1965. Mais um gru-
po nordestino na praqa, que,
desde o ano anterior, experi-
mentava uma onda de novos
neg6cios.


10 ABRIL DE 2006 IoQUINZENA Jornal Pessoal


NAATIAIS W VESPRAIS |






Arte
O Conservat6rio de Belas
Artes do Pari, do maestro
Adelermo Matos, na rua Rui
Barbosa, oferecia, em 1956,
cursos de piano, canto acor-
deon, violino, violoncelo, vio-
lio, harm6nio, bal6, declama-
9io, cene de 6pera, arte dra-
mitica, desenho, pintura, ban-
dolin, citara infantil e mat6ri-
as musicals complementares.

Carnaval
A festa de coroaFio da
rainha do carnaval azulino de
1956 foi realizada no Palace
Teatro (o Clube do Remo ain-
da nio inaugurara sua sede).
Era exigido o traje fantasia ou
passeio, "nao sendo admitidas
como tal camisa de meia, 'sla-
ck', macac6es e similares".

Urbano
O ponto alto do "mes cruz-
maltino", da Tuna Luso Co-
mercial (depois Brasileira), em
janeiro de 1958, foi uma feijo-
ada campestre, realizada na
piscina da Granja Murtosa, de
propriedade de Ant6nio Ma-
ria Fidalgo, s6cio benem6rito
do clube. A granja ficava na
Estrada Tavares Bastos, hoje
uma urbana avenida do bairro
da Marambaia.

Clube
Em janeiro de 1958 a As-
sembl6ia Paraense comeqou
a exigir atestado m6dico dos
seus associados para freqiien-
tar a piscina na sede campes-
tre. As inspeq6es seriam rea-
lizadas por 17 m6dicos volun-
tirios, tamb6m s6cios do clu-
be. A ficha m6dica, com vali-
dade de 90 dias, seria forne-
cida gratuitamente. Para ter
acesso a piscina, o associado
apresentaria a ficha ao en-
carregado do vestiirio, que a
manteria em seu poder en-
quanto o portador permane-
cesse no banho. A autoriza-
aio se tornaria insubsistente
caso a inspeqio m6dica cons-
tatasse alguma anormalidade
"nociva a coletividade". A di-
redio da Ass.embl6ia mani-
festava a certeza de contar
com a cooperaqgo dos asso-
ciados "para o complete exi-
to da iniciativa", em benefi-
cio do "preceito fundamental
de higiene".


ANTOLOGIA

Maranhio: av6 e neto
Paulo Maranhdo, o mais important jornalista paraense, morreu em 1966, aos 94
anos. A Folha do Norte, o journal mais influence durante a maior parte da hist6ria repu-
blicana do Pard, morreu oito anos depois, em complete inanicdo. Ndo era a mais
pdlida image do poderoso didrio que enfrentara, durante quase trWs decadas, o mai-
or caudilho do Estado, o general Magalhdes Barata. Paulo Maranhao ndo teve her-
deiros no jornalismo. Mas ndo teve porque nao quis. Seu filho, Jodo, o eterno gerente
da Folha, teve dois filhos, os unicos varies da segunda geracdo dos Maranhdo, ambos
jornalistas. 0 primeiro na linha sucessdria era Ivan, o mais velho. Mas Ivan teve que
criar o Flash, semandrio que iria durar pouco mais de umna dicada. Nao havia lugar
para ele no journal dominado pelo av6. Tamb6m ndo houve espago para seu irmdo mais
novo e mais brilhante. Corn todas as vias de acesso bloqueadas, Haroldo teve que se
transferir para o Rio de Janeiro. Trocou o jornalismo, que perdeu bastante corn a
deserCdo, pela literature, que ganhou muito mais corn a nova opgdo. Corn certa frieza,
Paulo Maranhdo parece ter decidido pelo afundamento da nau que comandou coin
mdo de ferro a ve-la entregue a um novo capitdo.
Neste texto, publicado na ediqdo dominical da Folha de 5 de setembro de 1954, falan-
do na terceira pessoa, mas traido por seu inconfundivel estilo, mordaz e castiCo, Paulo
Maranhdo demarca o terreno: o seu, no vetusto journal, e o do neto, que comecava sua
carreira independent cor o seu Flash. Livre de qualquer constranginento que a assina-
tura do artigo lhe imporia, Paulo Maranhdo fala de Paulo Maranhao corn admiracdo e
autocomiseracdo. Um texto antoldgico. Ndo necessariamente correto.


Certos individuos que amam entreter con-
versa nos lugares p6blicos, escolheram, ulti-
mamente, para objeto dos seus cavacos im-
produtivos, o fato de receber prepare t6cni-
co em nossas oficinas o semandrio "Flash",
de propriedade do sr. Yvan MaranhWo.
E costume de regra fixa, por este mun-
do fora, a que ningu6m, entretanto, imputa
objetivos tendenciosos, aceitarem os gran-
des jornais, para compor, folhas peri6dicas,
ou mesmo didrias, que nio possuam insta-
laq6es adequadas.
Acontece, porem, corn referencia ao
"Flash", o caso fenomenico de ser o proprie-
tirio neto do sr. Paulo Maranhio, director das
FOLHAS. Desta particularidade occasional e
sem relevo deduz a malevolencia impiedosa
dos habituais desvirtuadores de caf6s, esqui-
nas e centros familiares de mexericaqio, que
tudo quanto aparece nas colunas do "Flash"
6, previamente, submetido ao seu conheci-
mento e toma sua chancela.
Ora, a maioridade ji emancipou o sr.
Yvan Maranhao, que prescinde de abordo-
ar-se aos cabelos brancos do av6 para con-
ceber e divulgarjuizos critics sobre pesso-
as e coisas e admitir a publicidade de con-
veniencia da sua economic privada, porque
at6 isto serve de alimento aos mal-entendi-
dos da ociosidade perverse.
Nio adota, certamente, o sr. Yvan a con-
sideraqgo do Exodo de que cada ano trans-
corrido marca uma decadencia no velho, con-
ceito de aprazivel estima entire os rapazes de
sua idade. Sobra-lhe combustivel pr6prio para
acionar o trem de vida. Bem distantes vao os
tempos em que o Criador do C6u e da Terra
falava ao povo por interm6dio dos velhos.


O director do "Flash" quer-nos pare-
cer sabe ser moqo como o av6 sabe ser
velho, cada um no circulo dos seus direi-
tos e deveres. O nosso companheiro seu
aos filhos, e conseguintemente aos netos,
exemplos de independencia que nao serdo,
por certo, esquecidos. E, ainda, graqas a
Deus, uma fonte de energia, de forqa, co-
ragem e capacidade de trabalho, fonte que
esti por desaguar e onde podem impreg-
nar-se at6 a saciedade os necessitados da-
queles sentiments. Produz o mel na sua
colmeria e, por isso, as abelhas novas o
nao exterminaram, como 6 de rigor na vida
desses insetos.
Assim tem sido, hi dilatados decenios,
o seu labor na imprensa. Esta linha de con-
duta, sem bordejos de covardia, nem silen-
cios de acomodaq6es humilhantes ou nio,
acaba de conquistar-lhe a Idurea de jorna-
lista intimorato, cor que o honrou, excep-
cionalmente, uma assembl6ia de periodis-
tas brasileiros, reunida no Parand.
Ap6s tantas lutas memordveis, nas quais
lhe usurparam de falar e locomover-se e
lhe acometeram inexoravelmente o patri-
m6nio e a vida, por que confugir h sombra
de um aolega, que, al6m do mais, 6 seu neto,
seu amigo, sangue do seu sangue e mal
ensaia as armas dos recontros profissionais,
sobrecarregando-lhe o passive de mesqui-
nhos 6dios, que ji se acumulam em torno
dos seus poucos anos?
E desconhecer, ou fingir desconhecer, a
singela moral cristai.
Imponham os malsinadores as suas
consciencias o castigo de fazerem justice
ao home que julga merece-la.


Jornal Pessoal "IQUINZENA ABRIL DE 2006 11







HOTEL
Ainda 6 incerto e nio sabido
o future do Hilton Bel6m. A
receita bruta do hotel nao
cresce, sua EBITDA (lucro
antes das despesas financei-
ras, impostos e depreciaqio)
caiu no ano passado quase
17% em reladio a 2004 e os
s6cios continuam a brigar na
justiqa pelo control do ne-
g6cio. Os brasileiros contes-
tam as despesas cor a ban-
deira international do Hilton,
em demands judiciais que
se prolongam ha anos.
A relative estabilidade do
hotel s6 se mant6m graqas a
renegociagqo do empr6stimo
de long prazo contraido com
o Banco da Amazonia. No
valor de 14 milhoes de reais
em 1999, o saldo remanes-
cente supera atualmente R$
20 milh6es, quase duas ve-
zes o capital subscrito do
Hilton e correspondent ao
faturamento bruto da em-
presa, que teve lucro liqui-
do de R$ 35 mil no ano pas-
sado. Tio nominal quanto a
sua solidez?

PERGUNTA
AAlunorte incorporou ao seu
capital, que 6 de 2,2 bilh6es
de reais, R$ 102 milh6es da
reserve de incentives fiscais
acumulada no exercicio de
2004. Como sio recursos
oriundos de beneficios con-
cedidos a empresa pela
ADA (Agencia de Desenvol-
vimento da Amazonia), a
partir de renincia fiscal da
Uniao, pergunta-se: parte
dessas reserves nio podia
ser destinada a um fundo
socioambiental, a ser gerido
por um conselho com mem-
bros indicados paritariamen-
te pela empresa como pela
comunidade?
Fica a pergunta para ser
respondida por quem de direi-
to ou de competencia.


PRIMITIVISMO
No dia 8 de marco, quase duas mil mulheres, que partici-
pavam de um f6rum sobre reform agriria, se desloca-
ram de Porto Alegre para o Horto Florestal Barba Ne-
gra, da Aracruz Celulose, em Barra do Ribeiro, a pouco
mais de 50 quil6metros de distAncia. Com fdria, em pou-
co tempo destrufram o laborat6rio com material gen6tico
acumulado em 20 anos de pesquisas e todas as mudas
existentes, muitas delas prontas para ser plantadas. No
inicio deste mis a policia gaicha indiciou 37 pessoas,
consideradas como lideres do movimento.
O motivo desse ataque 6 6bvio: center o vasto plantio
homogeneo que a Aracruz desenvolve no Rio Grande do
Sul para produzir celulose e papel. As terras podiam ser
usadas por muito mais gente do que uma inica grande
empresa e para produzir alimentos no lugar de fibra in-
dustrial, mantendo um ambiente biologicamente mais rico.
Mas realmente o ataque, que provocou prejuizo de 20
milh6es de d6lares h empresa e comprometeu a rentabi-
lidade da sua plantaq~o, permitiu a substituiaio de um
tipo de atividade por outro, ao menos numa sucesso au-
tomitica, como se as opq6es estivessem montadas nos
dois lados da gangorra da hist6ria?
Provavelmente, nao. O mais important para mim, po-
r6m, 6 outro aspect da questao: as imagens da organi-
zada mas violent invasio fizeram minha mente voltar
aos s6culos 18 e 19, aos ataques dos operirios do nas-
cente mundo industrial contra as miquinas das fabricas,
nas quais identificavam os motives de sua vida desuma-
na, brutal, selvagem.
As miquinas sobreviveram a essas depredaq6es e
os homes, mesmo os que ainda combatem esse mundo
simbolizado pela tecnologia que explore e avilta, tam-
b6m mudaram. Nio todos, como mostra o epis6dio de
Barra do Ribeiro.


0 NOME
Almir Gabriel foi passar a semana santa em Salinas con-
vencido de que sera mesmo o candidate do PSDB ao
governor do Estado. Mesmo que o acerto ainda nio te-
nha sido fechado com Simio Jatene, esse "detalhe" pa-
recia ser apenas uma questio de hora e de lugar. Almir
ja comeea a preparar o program que apresentardi aos
eleitores. Jatene, estadista no territ6rio do "Rep6rter 70",
teria jogado a toalha, sem sair do seu c6rner. Ao menos
na versio dos "almiristas". Os "jatenistas" parecem em
fase de muda. Mudos, por isso mesmo.
Brasilia, por6m, parece ter outros pianos para a du-
pla tucana do Pard e fauna acompanhante. O andar da
carruagem da cassacio pelajustiqa eleitoral seria indi-
cacqo forte desses prop6sitos. Resta verificar se esse
impulso 6 mais forte do que os freios de mro que tnm
sido usados A margem do Tribunal Superior Eleitoral,
bem ao lado ou um pouco distant, em encontros infor-
mais e acertos de bastidores.


IPMs
No precioso livro que organi-
zaram em 1967 (publicado pela
editor Sugestoes Literirias,
de Sio Paulo), Jardel Noro-
nha de Oliveira e Odal6a Mar-
tins divulgaram a relaqio dos
Inqu6ritos Policiais Militares
(os IPMs de 1964) e dos ofi-
ciais encarregados, com os
respectivos locais onde se
processaram. Na drea do Co-
mando Militar da Amaz6nia
e da 8' Oitava Regiao Mili-
tar, os dois mais notiveis res-
ponsaveis por esses inqu6ri-
tos foram o entio tenente-
coronel de artilharia Jarbas
Gonqalves Passarinho, que
tratou da SPVEA (extinta em
1966, sendo substituida pela
Sudam), e o major de artilha-
riaAlacid da Silva Nunes (sua
responsabilidade nao 6 indi-
cada, mas ele investigou a
subversio estudantil).
Anos depois, no meio de
um tiroteio de perguntas des-
feridas contra ele porjorna-
listas, que o cercavam por
todos os lados, o ji senador
se virou, com bonomia, e re-
agiu com uma de suas fra-
ses de efeito:
N6s deviamos ter con-
tratadojornalistas para condu-
zir os IPMs.
No meio da ofensiva, re-
truquei de bate-pronto:
E nao teriam precisqo o
torturar ningu6m.
O pano foi baixado. ?


Jornal Pessoal,-
Editor: Lucio Flavio Pinto
Edil9o de Arte: L. A de Fana Pnro.l
Produrio: Angelim Pinlo I
Contato: Tv.Benlamin Conslant 845,203;6 M6-
040 Fones: (091) 3241-7626 l)
E-mail: Iornal@amazon corn br 1f


*' ii


LACUNA

Caiu um forro no
Palicio Ant6nio
Lemos, sede da
prefeitura de Bel6m.
Mais um motivo para
o prefeito Duciomar
Costa continuar a ndo
aparecer por li.




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