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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00294

Full Text






ornal Pessoal
A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO
MARC(O DE 2006 2- QUINZENA N 365 ANO XIX R$ 3,00
SOLUS, TOTUS, UNUS


"- "- ia / HM.l. UEWA E[0 11i


Jatene de novo no pareo?

0 governador, que parecia ter renunciado a reeleicao, pode estar se interessando de novo por ela. Se
isso for verdade, Almir Gabriel deixara de ser o candidate do PSDB ao governor do Estado? Antes de
tergar armas corn seus adversarios, os tucanos podem se engalfinhar entire si, apesar das aparencias em
contrario. 0 cenario politico, alijs, vive mais de aparencias do que de realidades.


O PT se juntard ao PMDB nas
pr6ximas eleicqes. Querendo,
Jader Barbalho poderi ser o
candidate ao governor do Es-
tado, cor as benqios de Lula. Se nio
for, terd o apoio dos petistas para arris-
car a volta ao Senado. Seu lugar poderi,
entio, ser preenchido pelo ex-senador
Ademir Andrade, do PSB, pelo deputado
estadual Mario Cardoso, do pr6prio PT,
ou por Hildegardo Nunes, filho do ex-
governador Alacid Nunes, agora no
PMDB. Ja o senador Luiz Otivio Cam-
pos, tamb6m um peemedebista tardio,
poderi contar corn o respaldo da coliga-
gio para garantir sua imunidade como
deputado federal. Ou nio sera ele o aza-


rdo, que emergird como o candidate de
todos os oposicionistas ao governor?
Essa ampla frente political, mais pa-
recida a um desconexo Exdrcito Bran-
caleone (eternizado no filme do italiano
Mirio Moniccelli), tera diante de si a po-
derosa miquina do PSDB estadual. De-
pois das hesitaq6es e recuos de sempre,
Simio Jatene parece ter finalmente con-
cordado em disputar a reeleicio. Seu
maior problema imediato, por6m, nao se-
rao os adversarios, mas o correligionirio
Almir Gabriel. O ex-governador quer
voltar ao cargo e acha que Jatene, por
ser mais jovem, pode esperar por outros
quatro anos, reserve de tempo que falta
a Almir. Se for contrariado, ele, que tem


mais forca no partido e na alianqa, pode-
ra criar problems.
Nio insol6veis, contudo: Jatene pode-
ri reprisar a chapa, cor a pefelista Va-
16ria Pires Franco novamente como vice-
governadora, e deixar o Senado para seu
antecessor, assegurando-lhe o clima mais
favorivel do Planalto Central para o cul-
tivo de orquideas, sua paixao nunca ple-
namente realizada. O secretirio especi-
al S6rgio Ledo, estrategicamente coloca-
do no PFL como um cavalo de Tr6ia, se-
ria o peao para as alternatives menos
desejadas, podendo, em iltimo caso, as-
segurar uma posigio para o grupo Jate-
ne na arena political.
CONTINUE NA PAG 2


EM ALUMINA, SOMOS
OS MAIORES DO MUNDO
PAGINA 5
A ALEGORIA DO PORTO
QUE NUNCA TEVE FIM
PAGINA 9






CONTINUA;AO DACAPA
Essa andlise da situagdo pr6-eleito-
ral no Pard corresponde realmente aos
fatos? Sim e nao. Ela esta em muitas
bocas e cabeqas, circulando fluente-
mente nos bastidores. Mas pode nio
passar de mera especulacao, em alguns
pontos flagrantemente imponderivel,
quando nao impossivel. Cada um pode
montar seu esquema explicativo quase
a vontade, mexendo as peas aqui arro-
ladas ouintroduzindo novos personagens
e situacqes. O campo 6 f6rtil para rece-
ber o plantio de qualquer boato ou con-
jectura. Sua fecundidade result da ca-
rencia quase total de informacges con-
cretas, de dados efetivamente checados.
Por que esse vicuo? Porque a im-
prensa regular nao esta cumprindo seu
papel de auditora do poder em nome da
sociedade. Osjornais diirios escondem
mais do que revelam, sonegam mais do
que aplicam. Nenhum deles repassa para
a opiniio ptiblica tudo que sabe. Cada
um fez sua opqio political, em funqio
de interesses pr6prios, e sufoca a infor-
maaio para tender os compromissos.
O mais grave, por6m, 6 que sabem pou-
co, ao menos osjornalistas propriamen-
te ditos. E sabem pouco nao s6 porque
6 dificil saber a verdade entire tantos
bales de ensaio colocados no ar, mas
tamb6m por um dado inquietante: nio
se empenham em saber mais. Os do-
nos, que sabem muitissimo mais, nao
socializam seu conhecimento. Pelo con-
tririo: usam-no como ferramenta ou
arma para tender seus interesses
pessoais, que, quase sempre, se confun-
dem com o neg6cio.
As paginas dos jornais sio de uma
monotonia e sensaboria irritantes. Pare-
ce que os grupos politicos nio estao em
intense atividade nos bastidores, no mo-
vimento de conquistar adesoes, atrair sim-
patias e oferecer vantagens, que vai de-
finir as chapas a serem apresentadas para
a dispute dos cargos eletivos, em outu-
bro. Resta aos interessados, que nao par-
ticipam diretamente dessejogo, interpre-
tar a partir do minimo de informaq6es
disponiveis. Ir al6m exigiria penetrar nos
bandos politicos corn verdadeiro poder, o
que 6 desaconselhivel para a sa6de ao
menos a moral ainda que constitua um
mal necessirio nas democracies.
As flutuaqges conjunturais nessejogo
de bastidores parecem apontar um dado
novo: o governador Simro Jatene reexa-
mina a possibilidade descartada at6
recentemente da reeleiqio, que jA re-
jeitou, mas em tese, nunca concretamen-
te, categoricamente. Se dependesse de
sua vontade pessoal, Jatene voltaria h
sombra do poder, onde sua personalida-
de est6 mais bem acomodada. Mas ji
nao pode se permitir essas veleidades, a


menos que renuncie de vez ao centro do
poder, o que nao parece ser o caso.
Um element de novidade 6 o lento
e discrete de desligamento da adminis-
tracio estadual de todos os parents e
afins do governador nao concursados.
O movimento possibility virias interpre-
tapqes, mas uma delas, talvez a mais
ponderivel, 6 de que Jatene nio quer
expor um flanco sensivel aos ataques dos
adversirios. Mesmo que a retirada es-
trat6gica possa ser apresentada como
uma admissdo implicita das dendncias
de nepotismo feitos pelo PT, que che-
gou ao questionamento judicial, o fato
concrete sera a ausencia dos parents
antes de comecar oficialmente a cam-
panha eleitoral.
Ponto pacifico parece ser a sua per-
manencia no governor at6 o final do seu
mandate, em qualquer hip6tese. Por esse
motivo, nao sera candidate ao Senado.
At6 podia ser, se Val6ria Pires Franco
tamb6m se desincompatibilizasse para
concorrer a outro cargo que nio o de
vice-governadora. Essa hip6tese pode-
ria nem mais existir se PSDB e PFL ji
tivessem definido pelo menos a chapa
majoritiria da coligaqgo. Jatene e Val6-
ria, nessa circunstancia, poderiam acer-
tar que ambos deixariam seus cargos atu-
ais. Nos iltimos meses, o governor seria
exercido pelo president da Assembl6ia
Legislative. O deputado Mirio Couto
aceitaria desempenhar esse papel, sa-
crificando sua pretensdo de se eleger
deputado federal? Se ele nao aceitar,
quem poder6 substituf-lo na tarefa? Ou,
nio havendo deputados em condic6es
de fazer o sacrificio, porque tamb6m
serdo candidates, a missdo sera trans-
ferida ao president do Tribunal de Jus-
tiqa do Estado, desembargador Milton
Nobre, que esti bem afinado com Si-
mao Jatene?
Sio perguntas sem respostas p6blicas,
ao menos por enquanto. Esse silencio
talvez indique que o PSDB ainda nio sabe
se pode contar com o PFL para qualquer
alternative. Mesmo porque o pr6prio
PSDB nio fechou a sua proposta de cha-
pa. Tudo sugeria que Almir Gabriel seria
sagrado cabeca de chapa diante da ina-
petencia de Jatene. Essa falta de vonta-
de ou determinaqao foi o c6digo criado
pelo ex-governador para vestir o meido,
a chuteira (botina, seria sua melhor defi-
niqio), a caneleira, o calgio e a camisa
- e se colocar A beira do gramado para
oficializar sua entrada no jogo. Porque
informalmente Almir Gabriel ji dispute a
candidatura ha muito tempo. A grave
doenca da esposa nio chegou a abalar
essa disposiqao, nem mesmo a idade e
os problems de satide do pr6prio ex-go-
vernador, que sobreviveu a um aneuris-
ma no primeiro mandate.


Hoje, ele 6 o nome mais forte e pre-
ferido dentro do PSDB e aliados, exce-
to pelo grupo de Jatene, que acabou por
se former, a despeito dos esforqos do
governador (nem sempre levados tilti-
ma conseqtiincia) para reforqar os ele-
mentos de ligaqio e solidariedade entire
ele e Almir, a quem deve sua eleicio em
2002. Se a hesitaqao de Jatene se pro-
longar por mais algum tempo, sua hipo-
t6tica candidatura a reeleiFio se torna-
rA favas contadas. A mecanica eleitoral
ji estard num ponto tao avancado que
uma cisao, como a que atualmente sera
criada pelo afastamento do nome de
Almir Gabriel, podera colocar em risco
uma vit6ria que a coligaaio situacio-
nista da como praticamente certa. En-
tre outros motives, pela falta, na oposi-
qFo, de nomes h altura dos candidates
tucanos e, sobretudo, de sua rnmquina
de fazer votos cor recursos piblicos
(ou de outra fonte).
A imposiqio da verticalizaiao na elei-
Fio deste ano ofereceu a justificativa
formal para uma situaqao de fato que PT
e PMDB ja viviam. Mas essa alianqa ain-
da 6 encabulada: os petistas nao querem
assumi-la, ainda que querendo usd-la.
Jader Barbalho 6 o inico candidate po-
tencial que aparece nas pesquisas nio
registradas sobre a preferencia do elei-
torado para o governor do Pard. Mas ele
nio vai al6m da sua proporFio hist6rica,
que gravita em torno de um quarto ou, na
melhor das hip6teses, um terqo dos vo-
tos validos do Estado. Significa dizer que
ele tem boas possibilidades de ir para o
2 turno, mas chance minima de ganhar
nessa nova eleiqgo. A rejeiaio ao seu
nome ainda supera a legiio dos que vo-
tam nele, apesar de sua ficha suja em
mat6ria de corrupqio. Ele estd muito
exposto a uma nova derrota para os tu-
canos, corn a qual podera dar adeus a
political de mando para valer no Pard.
Seus n6meros, porem, ainda o qua-
lificam como o maior cabo electoral
para o governor, al6m de ser o nome
mais forte para o Senado. Isso quer
dizer que se aceitar trabalhar para um
outro candidate, seu peso influird na
decisdo. Para quem quer ou aceitard
trabalhar o deputado federal do
PMDB? Teoricamente, pode ser para
Hildegardo Nunes, que pertence ao seu
partido e tern sido uma de suas compa-
nhias mais constantes na autentica
campanha governista que tern empre-
endido pelo interior do Estado.
O PT aceitara que Hildegardo seja o
cabeqa de chapa em uma alianqa for-
mal cor o PMDB ou continuard preso
aos seus principios de sempre ser o abre-
alas, mesmo que para a derrota previsf-
vel? A resposta dependeri, em grande
media, da orientaqio de Brasilia, a par-


2 MAR.O DE 2006 *2 QUINZENA JornaIl Pessoal








"0 Liberal": agora, de volta a realidade?


A Delta Publicidade, empresa res-
ponsAvel por O Liberal, mant6m com-
pleto silencio sobre a manipulaqio da
tiragem do journal, constatada nos dois
relat6rios de auditoria produzidos pelo
IVC no ano passado e divulgados hi
tres semanas pelo Didrio do Pard. A
fraude 6 escandalosa, jamais registrada
corn essas proporqces na hist6ria da
imprensa brasileira (e talvez mundial):
a "informaio jurada" do editor dojor-
nal ao Instituto Verificador de Circu-
laqio aumentava (na situacio menos
grave) em 50% ou at6 tr6s vezes a cir-
culaqio liquida realmente paga dojor-
nal da familiar Maiorana. A diferenqa
entire a quantidade dejornais que eram
impressos e o volume de vendas efe-
tivas superou, no primeiro semestre de
2005, 50 mil exemplares. Explicaqio
dada pela empresa: esses jornais eram
distribufdos como "cortesias", que so-
mavam mais do que o total de exem-
plares comprados pelo piblico.
Revelada a conclusio da audita-
gem, o diretor-geral IVC, Ricardo
Costa, se limitou a fazer uma notifi-
caqio extrajudicial do Didrio do
Pard, indicando que podia processar
o journal por divulgar sem autorizaqao
o conteddo de relat6rios que circulam
apenas entire associados da instituiqio.
Mas nio negou a veracidade das in-
formaqdes publicadas pelo journal do
deputado federal Jader Barbalho ao
long de cinco dias e reproduzidas em
outros veiculos de divulgagio. Um de-
les foi o site especializado Comuni-
que-se, que repercutiu o assunto. O
IVC teve a possibilidade de desmas-
carar uma possivel fraude nos relat6-
rios por parte do journal concorrente de
O Liberal. Mas nio o fez. Dessa
maneira, acabou confirmando, por via
indireta, que os dados realmente sio
verdadeiros: ojornal lider de mercado


no Part mentiu grosseiramente sobre
a sua circulaqio paga real.
Segundo a pr6pria fonte, a question
ji foi submetida ao comit6 editorial do
IVC. Sempre que a discrepincia en-
tre a "informaiao jurada do editor" e
os n6meros auditados pelo IVC exce-
de 4%, esse 6 o procedimento padrio
do institute. Comprovada a fraude, o
responsivel pode ser punido, indepen-
dentemente da apuraclo sobre o va-
zamento de uma informagio de natu-
reza reservada, como sio os relat6ri-
os da organizaqio.
Ja nio parece haver mais ddvida
de que os documents foram repassa-
dos ao Didrio do Pard por uma em-
presa jornalistica com sede no Nor-
deste talvez em Recife, mas, com
maior probabilidade, em Salvador. Os
jornais dessas duas praqas, os de mai-
or tiragem na regiio, sentiam-se cada
vez mais incomodados com a propa-
ganda de O Liberal, de ser o maior
journal do Norte e Nordeste do Brasil.
Usando esse titulo, ojornal dos Mai-
orana nio apenas obscurecia a ima-
gem dos confrades nordestinos: pre-
judicava tamb6m o seu faturamento,
ja que teriam circulacio bem inferior
ao do maiorjornal do Norte e Nordeste
do pais. Um dos crit6rios para a defi-
niqio do valor da centimetragem de
publicidade nos jornais e dos progra-
mas de midia das empresas e suas
agencies de propaganda 6 o "custo por
mil". O preqo do anincio de um journal
pode ser maior se di mais retorno do
que o anunciante consegue em outro
journal de tiragem inferior. Por esse cri-
t6rio, a partir da auditagem do IVC, 6
evidence que as tabelas de precos de
0 Liberal estio superdimensionadas.
Esses preqos terio que cair a par-
tir de agora? E a conseqtiencia 16gi-
ca, mas nio foi ainda o que aconte-


ceu. Tanto as empresas quanto suas
ag6ncias tratam da questio cor ex-
tremo cuidado, receando represilias
caso tentem impor um novo padrio
de relacionamento commercial corn o
diirio da familiar Maiorana. Mas as
agencies e empresas de fora pode-
rio nao ter a mesma cautela. Certa-
mente aguardarao pela arbitragem fi-
nal do comit6 editorial do IVC para
definir seus pianos de mfdia, corn ple-
no embasamento t6cnico. Mas se o
conteddo dos relat6rios revelado em
primeira mao pelo Didrio do Pard
estd correto, essa decision 6 apenas
uma questio de tempo.
Como mant6m absolute e constran-
gedor silencio sobre questio de tanta
gravidade como essa, o grupo Liberal
provavelmente nio tomard qualquer
iniciativa para rever sua tabela de pre-
qos, ajustando-a espontaneamente a
realidade de fato e nio ao faz-de-con-
ta quem ter sido o seu procedimento.
Mas o dia a dia iri impondo novas ini-
ciativas. As empresas que encartam
propaganda no journal nio deverio mais
aceitar que aos domingos tenham que
pagar por 100 mil ou 90 mil exempla-
res, como vinham fazendo. O numero
real esti abaixo de 40% desse valor.
Continuario a aceitar a ficcio, que
lhes 6 tremendamente onerosa?
Quaisquer que venham a ser os
desdobramentos dessa novela de ma
extraaio moral, uma coisa pode ser
considerada como certa: acabaram-se
os andncios que proclamavam as gi-
gantescas tiragens do journal cor base
em boletins do IVC. Por que o institu-
to manteve silencio sobre essa panto-
mima por tanto tempo, a serem con-
firmados seus relat6rios, 6 o mistdrio.
Mais um nessa seqiuencia, que jai tem
tantos capitulos percorridos. A hist6-
ria durard mais quanto tempo?


CONTINUAFAO DAPAG.2


tir da profundidade do entendimento que
o president Lula tem mantido com Ja-
der Barbalho. Mas os petistas paraen-
ses mandaram dizer ao PT federal que
nio aceitam imposiqio de cima para
baixo, mesmo que tenham se acostuma-
do a engolir sapos (iguaria nada estra-
nha ao cardipio de Jader).
Tamb6m em tese, uma coligadio ofi-
cial cor o PMDB poderi acentuar ain-
da mais o desgaste do PT diante das
novas acusaqces de corrupqio que seus
adversarios certamente irio apresen-
tar. O partido optari por um perfil mais


a esquerda, menos suscetivel a essa mdi
evidencia dos iltimos tempos, que a
companhia de Jader Barbalho iri re-
forcar? Nesse caso, tonificari ou en-
fraquecerA sua forqa eleitoral? Voltard
novamente a condiaio de mero figu-
rante na dispute ao principal cargo,
como em tempos passados?
A media que se buscam respostas
a essas perguntas, a uma distancia que
impossibilita colher informaq5es diretas
dos atores nesse enredo (embora esse
distanciamento preserve o est6mago),
chega-se a uma conclusao desanimado-


ra: a alternfincia nas peas colocadas no
xadrez nao modificar6 o resultado da
partida. Mal servido de liderangas, que
nao t6m programs, apenas interesses,
o Pard continuard, pelos pr6ximos anos,
na march batida que o distancia dos
seus sonhos de grandeza, da concilia-
qio entire o potential de desenvolvimento
e a realidade de um desenvolvimento que
Ihe chega como restos do banquet, mi-
galhas de caridade, um ganho pingado
nas mios de poucos, que sio sempre os
mesmos, em posiqdes invertidas. Aque-
les fatidicos 10%.


Jornal Pessoal 2QUINZENA MARO DE 2006 1











Esquizofrenia liberal


No dia 8 de fevereiro o Jornal Naci-
onal, da TV Globo, retransmitido em Be-
16m pela TV Liberal, exibiu imagens pro-
duzidas pela sua afiliada mostrando que
a Auto Escola Modelo, de Bel6m, parti-
cipava de um esquema fraudulent para
fazer a mudanca de categoria da car-
teira national de habilitaq~o, sem que o
motorist precisasse, como manda a lei,
se submeter aos cursos obrigat6rios de
direqgo defensive e de primeiros socor-
ros. Esse esquema funcionava dentro do
pr6prio Detran. Comprovada a denin-
cia, a escola foi descredenciada.
Um mes e meio depois, o proprieti-
rio do Centro de Formaqio de Conduto-
res Auto Escola Modelo e seu filho se
vingaram da reportagem atacando o ci-
negrafista Jorge Laudimar, da TV Li-
beral, espancando-o dentro do estacio-
namento do Departamento Estadual de


Transito, ao lado estidio de futebol Man-
gueirao. Depois de dar socos e ponta-
p6s no professional, rasgando-lhe a ca-
misa, pai e filho o advertiram para ele e
sua familiar tomarem cuidado porque
poderiam at6 morrer. E foram embora
sem ser impedidos ou sequer incomo-
dados, embora o estacionamento se en-
contrasse lotado naquela ocasiao, inclu-
sive com vigilantes que fazem a segu-
ranca no local. O cinegrafista nao rece-
beu qualquer tipo de ajuda e precisou
chamar a policia.
Nao sei o que fez ou pensou o cole-
ga quando fui agredido, em situaqao bas-
tante parecida, por Ronaldo Maiorana,
que 6 seu patrao, como um dos proprie-
tarios da TV Liberal. Mas presto-lhe
total e irrestrita solidariedade, nao s6 em
virtude da agressao covarde, como por
nao ter dtvida alguma de que se trata


de atentado A liberdade de imprensa. O
grupo Liberal, que neste caso aparece
como vitima, esqueceu completamente,
ao noticiar o fato, de que 6 algoz no meu
caso. Procede como vitima corn argu-
mento que se recusa a aceitar quando 6
o autor da mesmissima agressao. Quan-
do sofre, trata-se de violaqgo h liberda-
de de imprensa. Quando causa o sofri-
mento, 6 simples "rixa pessoal".
Assim procedendo, o grupo parece
criar sua versio pr6pria do brocardo
jurfdico segundo o qual o que nio esti
nos autos nto estd no mundo. Da mes-
ma forma, quando nao noticia um fato
ou quando sabota um personagem, o
grupo Liberal parece acreditar que tan-
to um quanto outro nio existem. O caso
6 clinic, mas o paciente nio se dd con-
ta de sua condiqdo patol6gica, Fica
muito mal na foto.


Cobertura caolha


A noticia sobre a agressdo de Jorge
Laudimar foi publicada discretamente
na ediqao do dia seguinte, 25, de O Li-
beral, e no caderno de policia (quan-
do, por se tratar de crime de imprensa,
contra um funcionario da empresa, de-
via ter said nos dois primeiros cader-
nos, em "Atualidades" ou no "Painel").
A expressao "cinegrafista" aparece 12
vezes no texto, mas nenhuma vez 6
dado o nome do agredido.
Na abertura da mat6ria, Jorge, um an-
tigo funcionirio da TV, que nela comeqou
como continue, 6 apontado como "um re-
p6rter cinematogrdfico da Televisao Li-
beral, que trabalha para o Nicleo da Rede
Globo, no Pard". E permaneceu an6nimo
at6 o fim, em situaqio pior do que a do
agressor, que pelo menos 6 tratado pelo
seu primeiro nome, MArio. No dia seguin-
te o assunto foi esquecido e nao voltou
mais As edic6es dojornal.
Tudo muito estranho, embora coeren-
te com a postura editorial tibia do grupo
Liberal, quando uma questao mais pole-
mica envolve seus servidores. Como de-
nunciou este journal na sua edicqo passa-
da, O Liberal suprimiu o nome de um dos
seus mais antigos e conhecidos rep6rte-
res, Carlos Mendes, da relagqo de cinco
pessoas que receberam a solidariedade da
Assembl6ia Legislativa do Estado em re-
laqio aos ataques do grileiro Cecilio do
Rego Almeida, declarado, pelos deputa-
dos, persona non grata ao Para.
No caso de Jorge Ludimar, tao explici-
tamente deixado de lado, o journal parece
preocupado em ressaltar que a TV nao 6


responsdvel pela acusaao veiculada no
Journal Nacional contra a auto-escola, ji
que o cinegrafista "trabalha para o Ni-
cleo da Rede Globo, no Pard". Recente-
mente a TV Globo interveio nojomalismo
da sua afiliada, mandando um novojoma-
lista Alvaro Borges, para chefiar ojorna-
lismo em lugar de Emanoel Vilaqa, hd mui-
tos anos no cargo e cuja atuaqao vinha
desagradando crescentemente a Globo. A
emissora tamb6m dissociou completa-
mente sua coberturajomalistica no
Estado da pauta da sua afilia-
da, comoji fizera na Bahia
em relaao A emissora do
senador Ant6nio Carlos
Magalhaes.
O inusitado noticidrio
de O Liberal sobre a
agressao do cinegrafista
tem alguma coisa a ver
com essas mudanqas?
Ji a cobertura na pr6-
pria TV Liberal foi mais
ampla e incisiva. A mat6-
ria exibida no Bom Dia,
Pard e na primeira edi-
q~o do Jornal Liberal at6
procurou situar o fato
num context mais amplo.
Reproduziu levantamento feito pela Fede-
ragSo Nacional dos Joralistas, com base
em informaq6es do sindicato local, mos-
trando que o Pard foi, no ano passado, o
segundo Estado que mais registrou agres-
sfes a joralistas. Junto com Tocantins,
teve seis ocorrfncias desse tipo. Sao Paulo
liderou a estatistica, com 12 casos.


NesseW
total de seis
agress6es em 2005 esti incluido o meu
caso. Evidentemente, esse detalhe foi
omitido pela emissora, que tamb6m nio
disse que seu proprietario, Ronaldo Mai-
orana, contribuiu para colocar o Pard
nesse desonroso segundo lugar national.
Informaqio nao 6 o forte do grupo Libe-
ral. Ele a agride.


4 MARCO DE 2006 *2QUINZENA Jornal Pessoal








Para ter agora a maior fibrica



de alumina do mundo. E daf?


A Alunorte, instalada a 50 quil6me-
tros de Bel6m, em Barcarena, se tornou,
na semana passada, a maior empresa de
alumina (o principal insumo do aluminio)
no mundo. Para que a sua capacidade
de producio se elevasse de 2,5 milh6es
para 4,4 milh6es de toneladas por ano, a
empresa precisou investor 2 bilh6es de
reais em tres anos. Nos pr6ximos dois
anos serao aplicados mais R$ 2,2 bilh6es,
que colocario a Alunorte num patamar
que at6 alguns anos atris nem podia ser
imaginado: quase 6,3 milh6es de tonela-
das anuais de alumina.
A empresa entrou em operaqio, em
1995, cor capacidade para 1,1 milhio de
toneladas. Em 13 anos, teri ampliado
quase seis vezes esse tamanho. Em 2008
o investimento nela realizado terd ultra-
passado 2,7 bilh6es de d6lares (acima de
R$ 6 bilh6es, na melhor alternative de
cimbio). A justificar essa faqanha, os
precos sem igual alcanqados no merca-
do international pela alumina, que mais
do que duplicaram em relaqio a d6cada
de 80, na qual a Alunorte parecia morta
ou em sono pesado.
Se a empresa chinesa Chalco manti-
ver o prop6sito ji anunciado (mas ago-
ra em banho-maria, em virtude da inter-
venaio do governor chines) de implantar
em Barcarena uma fdibrica do tamanho
da Alunorte, no final da d6cada o Pari,
sozinho, poder6 ser respons.vel por 30%
da alumina do mundo. Nao hi impedi-
mento imediato a essa perspective. Os
chineses, principals responsiveis por
essa profunda mudanqa no setor, conti-
nuario a expandir sua producao de alu-
minio metilico, mas o suprimento inter-
no de alumina nao acompanhard essa
demand. Terio que recorrer a impor-
taq6es pesadas e a associaoqes empre-
sariais no exterior.
Ningu6m podia sequer imaginar a atu-
al situaqio quando, no final da d6cada de
70, os projetos da Alunorte e da Albris
foram definidos, depois de intensas ne-
gociaq6es entire o Brasil e o Jap.o. As
duas fibricas deram partida juntas, mas
enquanto a plant de alumfnio continuou
a tomar forma, a de alumina foi congela-
da. A principal causa da paralisacgo da
Alunorte foi uma manobra de dumping
da Alcoa: a multinational americana se
comprometeu a fornecer alumina A Al-
bris por um preqo inferior ao que a Alu-
norte poderia conseguir. Cor uma con-
juntura international desfavorivel, a

Journal Pessoal *2-QUINZENA MARCO DE 2006


Companhia Vale do Rio Doce, principal
controladora do empreendimento, prefe-
riu adid-lo para um moment melhor.
Durante uma ddcada a Albris impor-
tou alumina do exterior enquanto a algu-
mas dezenas de quilometros passavam
grandes navios carregando bauxita do
Trombetas para o exterior. Por causa
dessa relaqio commercial, o pais sofreu
uma perda de divisas de quase 2 bilh6es
de d6lares nesse period cor a importa-
Fio de pelo menos oito milhoes de tone-
ladas de alumina. E mais do que o valor
atual daAlunorte.
Em 1991, quando foi decidida a sua
retomada, a Alunorte nada mais seria do
que uma fornecedora cativa da Albris.
A irma do aluminio ficaria cor mais de
dois terqos da producqo de alumina, que
transformaria em metal. Hoje, 80% do
que a Alunorte produz 6 vendido para o
exterior. NMo 6 s6 porque o preqo che-
gou a um patamar excepcional, acima de
300 d6lares: 6 tamb6m porque a produ-
qio da Albrfs estagnou em 450 mil tone-
ladas, enquanto a da Alunorte disparou.
Foi um deslocamento natural e inevi-
tivel? E o que proclama a CVRD, ji
antecipando que poderi levar alumina do
Part at6 Moqambique, Angola, Congo ou
Arabia Saudita, onde a transformard em
metal. No entanto, a inibiqio da Vale em
ir al6m do lingote de alumfnio 6 contras-
tante com sua desenvoltura em outras
areas, sobretudo no setor siderdrgico.
Mesmo quando ndo participa diretamen-
te do neg6cio, o incentive, induzindo no-
vos investidores. Agora, de fato, um dos
impasses da Albris 6 a falta de energia
abundante e barata, como a metalurgia
requer. Mas, anteriormente, havia um
fator de igual peso: o desinteresse dos
acionistas da empresa, tanto a Vale quan-
to os japoneses (que trm 49% do capital
da empresa). O que interessava era man-
dar lingote para o Japao e a Europa.
Contra a aspiraqio dos que queriam
um efeito para frente, o que ter havido
no p6lo industrial de Barcarena 6 um
efeito para tris: producao de alumina e
de bauxita em escala crescente, enquan-
to a producao de aluminio marca pass.
Apenas um pass foi dado na direFao
do maior beneficiamento do lingote, mas
de dimensio bem acanhada. Uns pou-
cos dias de produqio da Albris aten-
dem toda necessidade do grupo argen-
tino estabelecido em Barcarena para
beneficiary aluminio liquid.


At6 hoje permanece a espera de me-
Ihor discussio o component energ6tico
desse marcar-de-passo. Os porta-vozes
da Albris alegam que a energia de Tu-
curuf acabou saindo mais cara do que se
esperava. Por isso, o subsidio tarifario
teve que ser mantido. Do tamanho de
centenas de milh6es de d6lares (talvez
at6 US$ 2 bilh6es), foi esse subsidio que
assegurou o custo da energia numa pro-
poraio suportivel pela plant de alumfi-
nio, mas onerando seu custo financeiro
(que pesou durante 20 anos sobre a Al-
bris, enquanto a Alunorte dele deu conta
em metade do prazo).
Alguns anos atris o engenheiro Elie-
zer Batista disse que se nio tivesse havi-
do corrupcao na construaio da hidrel6-
trica de Tucuruf, o subsidio nao seria ne-
cess6rio. Mas como o orqamento da usi-
na disparou alem do tolerivel em uma
obra pioneira desse porte, numa regiio
de fronteira como a Amaz6nia, foi preci-
so compensar na ponta da linha. Esse
grave argumentojamais foi considerado
na devida conta. Permanece como um
tabu nessa hist6ria.
Com a fome de commodities da Chi-
na (mas tamb6m de outros pauses asia-
ticos, da Europa e mesmo dos Estados
Unidos), os preqos dispararam e, como
conseqtiuncia, os produtores de mat6ri-
as primas e semielaborados entraram
numa febre de produiao para aumentar
seus lucros liquidos em proporqiao nun-
ca prevista. Os investimentos sio real-
mente pesados, de impressionar. O que
impression tanto ou mais 6 o volu-
me de dividends que essas empresas
estAo distribuindo aos seus acionistas, a
comeqar pela CVRD.
At6 parece que essa condicio de
mercado 6 um reino da fantasia, uma
bolha de ilusio que amanhi poderi es-
tourar. Se realmente nao houver susten-
taqio estrutural dos precos, logo o pen-
dulo voltard ao control dos comprado-
res famintos e enormes. Antes que isso
ocorra, os acionistas dos vendedores
(dentre os quais hi muitos que tamb6m
sao compradores) estao tratando de en-
tesourar os fantisticos dividends que
suas empresas Ihes estao destinando. O
que chama a atencio 6 que, enquanto isso
acontece, grande parte do capital de giro
e proporaio substantial dos investimen-
tos estao sendo financiados junto a rede
banciria, na qual aparecem agents que
CONTINUE NA PAG 6









Belo Monte: um tema posto a mesa aberta


Ji esti na hora de uma instituii.o de
categoria institutional e respeito social (a
Universidade Federal do Pard ou o Mu-
seu Goeldi, por exemplo)juntar num mes-
mo ambiente os que sio contra, os que
sio a favor e os que sio responsAveis
pela hidrel6trica de Belo Monte, fazen-
do-os discutir a exaustao, diante de mo-
deradores e auditors tecnicamente cre-
denciados, para que ajustem seus ndme-
ros e corrijam seus erros. S6 assim se
estabeleceri uma linguagem comum,
baseada em fatos e nio em especula6es,
para tratar a s6rio de um empreendimento
de tal custo e impact, antes que ele seja
licenciado ambientalmente e possa dar
inicio is obras civis, se 6 que isso real-
mente 6 do interesse do pais.
A falta desse arbitramento, ap6s o
qual seria emitido um document subs-
crito pelas parties, cor o compromisso
de nio mais contraditi-lo o que se v6 6
uma discussion sem fim e sem conseqii-
encias priticas, que continuard a deixar
a opiniio piblica zonza, sem um conhe-
cimento satisfat6rio a respeito de ques-
tio tio controversy. Suficientemente po-
l8mica para gerar um convencimento
pr6vio: nio estai amadurecida o sufici-
ente para que a obra possa ser execu-
tada. A decisbo da justiqa federal de
suspender o licenciamento da obra, no
dia 28, o comprova.
Nio hi dlivida que o caminho critic
do projeto foi recolo-
cado no seu devido
ponto de partida: o
Ibama (Instituto Bra-
sileiro do Meio Am-
biente e dos Recur-
sos Naturais Reno-
vAveis) divulgou os
terms de referencia
para a elaboraaio do
EIA-Rima, que bali-
zari o licenciamento
da obra. No percur-
so anterior, o carro
foi colocado adiante
dos bois. Mas nada


assegura que a partir desse realinha-
mento, o percurso serai seguido com ri-
gor 16gico e t6cnico.
A press dos possiveis executores e
beneficiirios da usina, que raramente se
disp6em a prestar os esclarecimentos
cobrados por quem possui autoridade
para fazer questionamentos de fundo, ali-
menta as suspeitas. VWrias delas sio in-
fundadas, mas se justificam pelo proce-
dimento autoritdrio de representantes do
governo.ou das empresas interessadas.
Um diilogo a s6rio, para valer, poderia
colocar as coisas a limpo, a partir de uma
several prova dos nove. A ocasiio propi-
cia para esse encontro 6 a atual.
Nao estou entire os que simplesmente
nao querem hidrel6tricas na Amazonia.
Nio consider sensato descartar na re-
giio a energia de fonte hidrdulica. Mas
nao me deixo fascinar pelo discurso dos
que a querem como premissa, ignorando
seu impact sobre a natureza e as pes-
soas. Por principio, o aproveitamento
energ6tico dos rios amaz6nicos devia ser
de baixa queda para respeitar as condi-
9qes naturals da regiio. Todo represa-
mento para armazenar igua e faze-la
seguir uma queda acentuada at6 os ge-
radores 6 violent agressao a geografia
e i sociedade. Deve ser meticulosamen-
te ponderada e avaliada at6 que se prove
ser a melhor alternative. Nenhum barra-
geiro se permitiu at6 hoje essa pedago-


gia do verdadeiro convencimento. Dai o
choque corn os que estio mais atentos
ao espaqo da obra, numa perspective
menos bitolada daquele que s6 esti inte-
ressado em gerar energia, na quantidade
maxima possivel.
Os defensores da hidrel6trica de
Belo Monte, para realmente serem le-
vados a s6rio, precisam acabar corn essa
litania de que a usina, sozinha, serd ca-
paz de produzir 11 mil megawatts com
um reservat6rio quase inexistente, de
400 quil6metros quadrados, gracas ao
aproveitamento de uma queda d'igua
natural, de 92 metros, corn um dos me-
nores investimentos por MW instalado
do pais e do mundo.
O questionamento dos critics elimi-
nou tal hidrel6trica do universe das pos-
sibilidades. Ela ficaria quase um semes-
tre parada, por falta de fgua, e a energia
firme que podia gerar durante o ano nao
compensaria o investimento. Nem mes-
mo asseguraria a continuidade do seu
funcionamento, exigindo novos barramen-
tos a montante do Xingu. A Eletronorte
ji reduziu essa potincia a bem menos da
metade e separou o encargo da geracio
do da distribuicio de energia para que o
orqamento da obra adquira um valor acei-
tivel. O custo da distribuiiao ji estava
em 40% do custo da geracio, um ele-
mento complicador para venderr" a obra.
Quem manteve o discurso anterior
esti fora da rea-
lidade. Quem es-
elo Monte tiver disposto a
fazer Belo Mon-
te, enfrentando os
s6lidos argumen-
/ tos contririos,
S teri que colocar
suas cartas na
r mesa. Para que
f esse moment se
(realize, esti fal-
A e tando o promoter
desse encontro.
SQuem se apre-
senta?


CONTINUA;AO DA PAG. S


tamb6m atuam do outro lado do balcio,
como produtores de mat6rias primas e
insumos bisicos. Faturam assim, e mui-
tissimo, nas duas pontas da linha.
Em qualquer centrio, quem menos se
beneficia sao exatamente os que tnm
participaqlo decisive na implantaqao des-
ses projetos. O Estado, que ajudou a de-
finir o perfil financeiro de empreendimen-
tos como a Alunorte, num moment em
que o redito era baixo, agora ficam corn


o residue dessa abundincia. E tanto in-
centivo e beneficio que o valor dos im-
postos e equivalentes 6 baixo, mesmo
comparativamente a receita liquid.
Tamb6m os funcionArios dessas em-
presas tornadas altamente rentiveis tmr
discreta participation em seus resultados.
O investimento de R$ 2 bilh6es na ex-
pansio da Alunorte criou 410 empregos
pr6prios e 450 contratados. Cada empre-
go saiu por quase R$ 2,5 milh6es. Corn


tal custo, 6 evidence nio ser essa a ma-
neira adequada de enfrentar o problema
mais grave da regiao: a falta de empre-
go. O setor sidero-minero-metalurgico,
como seu nome t6cnico esti a indicar, 6
um reino ex6tico e estranho, que esti
al6m da capacidade de retencio e mes-
mo de compreensio da regiio. Estai con-
cretamente fincado nela, mas, na verda-
de, como uma miragem daquilo que nio
6: uma fonte de progress.


6 MARCO DE 2006 2QUINZENA Jorlnal IPCsso;I








A farsa de Brasilia: papeis invertidos


Os petistas que chegaram ao alto do
poder republican no Brasil parecem ter-
se imaginado donos de uma capa maigica
semelhante a de Harry Potter. Bastaria
coloci-la sobre o corpo para ficarem in-
visiveis. A bandeira desses aleg6ricos
petistas era o estandarte da 6tica, da
moral, dajustiCa, do progress. Ela seria
o habeas corpus preventive para todo tipo
de perdas e danos. Podiam sujar as mios;
elas se limpariam automaticamente: pe-
gariam na lama para acabar com toda
imundicie. Podiam andar nas piores com-
panhias que nio importava: eram apenas
companheiros de travessia; uma vez do
outro lado, podiam descarti-los. E assim
o PT transitaria pelas vielas do poder at6,
chegando ao cume, de li empreender a
grande transformacio do Brasil, que se
tornaria um pafs rico,justo, igualitirio. O
lugar dos sonhos de geraqSes testadas
na oposiqao.
Nio foram poucos os que amanhe-
ceram corn esses elevados e nobres pro-
p6sitos em 1 de janeiro de 2003. Quan-
tos sobreviveram aos testes de consis-
tincia e confirmaqio a que foram sub-
metidos desde entao? Os compromissos,
que atravessaram os anos em que o PT
foi apenas oposiio, se deterioraram
quando o partido assumiu o control da
maior e mais ca6tica empresa do Brasil,
que 6 o governor federal. Verificou-se que
lideranqas ate entao consideradas como
pilastras do PT eram nio s6 ocas como,
por dentro de estruturas vazias, estavam
contaminadas pelos mesmos apetites e
interesses que o partido detectara nos ou-
tros grupos do poder, os velhos e novos
poderosos de sempre. Delibios, Silvios e
quetais, tidos como expresses de algu-
ma coisa, nao eram mais do que inter-
medidrios, atravessadores, meninos de
recado. Alguns ingenuos, outros vorazes.
Todos sem grandeza.
Nem tudo do PT se reduz a eles, 6
claro. O partido conta com figures de
expressio e respeito, al6m de uma mili-
tancia devotada (embora nem sempre
capaz de evitar ser apenas um element
de manobra, uma massa maleivel). So-
qobraram ainda restos de um program
que propunha uma alternative aos maus-
feitos de sempre da elite brasileira, arro-
gante e insensivel. Mas sio os rescaldos
do incendio. O essencial ja queimou, vi-
rou cinza, o cento levou.
O partido, que chegou ao comando do
governor federal com um verdadeiro ho-
mem do povo a sua frente, compromis-
sado em ser a voz de suas origens e tudo
fazer em proveito delas, hoje ocupa uma
posiqio melanc6lica e triste. A elite, que


ignora as suscetibilidades quando seus
interesses estao em jogo, quer a todo
custo manter a political econ6mica, que o
paulista Luiz Inacio Lula da Silva da Sil-
va herdou do paulista Fernando Henri-
que Cardoso. Mas o maior cumpridor do
receituario acaba de sair do governor. A
mesma elite que admite apenas mudan-
9as cosm6ticas nessa tabua das leis dos
ganhos financeiros imoderados (como a
reduaio apenas gradual de juros de agi-
otagem), como tambem desejava o mi-
nistro Ant6nio Palocci, comandou o seu
bota-fora da pasta da Fazenda.
Maluquice? Nio: hist6ria. Palocci
parecia incapaz de impor ordem e decen-
cia h sua "turma" de Ribeirio Preto,
como se ela representasse origens obs-
curas e escusas das quais nao podia se
descolar. No entanto, o mesmo Palocci
era considerado um primor de honesti-
dade, dec6ncia e competencia na guard
da chave do cofre do tesouro national.
Talvez o melhor ministry da Fazenda de
todos os tempos, arriscou o lider do PSDB
no Senado, o amazonense Arthur Virgflio
Neto. Mas era capaz de cobrar um "men-
salio" de 50 mil reais de uma empresa
de coleta de lixo em Ribeirio Preto.
Como conciliar essas duas faces, do
m6dico e do monstro? Seria, mal compa-
rando, 6 claro, como se um ladrio de
galinha tivesse o coraaio (ou o c6rebro)
de um ladrao de casaca.
A elite se permit acomodar essa con-
tradiqio: enquanto fustiga o roubo das
galinhas, da sua aprovaqio ao control
das manadas de elefantes. Todas as lici-
tacqes e contratagoes da "turma de Ri-
beirio Preto" sio viciadas, imorais. To-
dos os atos do Minist6rio da Fazenda sio
sacrossantos, acima de qualquer suspei-
ta. Como pode ser perfeita, ao ligar corn
bilh6es, uma pessoa incorreta no trato
corn milhares?
Resposta para esse paradoxo ningu6m
encontrard nos 6rgios da grande impren-
sa, que expressam os interesses da elite
econ6mica. Alias, a rigor, nio de toda eli-
te econ6mica: daquela que mais tern ga-
nhado no governor Lula, os donos de ban-
cos. seus associados, extens6es e parcei-
ros. Se pudessem, esses senhores hono-
raveis teriam mantido Ant6nio Palocci no
orat6rio. A complicacio foi causada pelos
caseiros,jardineiros, motorists e garqons.
Eles, que em sua maioria votaram em Lula
e dele muito esperavam, colocaram a ca-
pital federal de cabeqa para baixo (ou pon-
ta-cabeCa, como dizem os paulistas).
Nunca gostei de Brasilia, cidade que
conheci em seu alvorecer. Sempre me
senti incomodado por sua discriminaaio


explicit: 6 a cidade que mais discrimina
dentre todas que conheci no mundo, mes-
mo em pauses racistas, como a Africa do
Sul. Brasilia nao segrega cor, mas bolso,
status. Ha o universe da gente bem, que
conta na vida, e o dos "sans-coulotte",
que vivem como se estivessem numa
6poca anterior a Revoluqio Francesa.
Ningu6m percebe que pelo Piano Piloto
tamb6m transitam caseiros, jardineiros,
motorists e garcons. Todos eles sao ho-
mens invisiveis, como os invisfveis parias
da India. Por isso, a gente fina fala e se
comporta corn se tais cidadios nio tives-
ser olhos, ouvidos e bocas. Comporta-
se sem o minimo de pudor e respeito ao
outro vizinho neutro.
No epis6dio Collor, esses VIPs rece-
beram o primeiro impact da descober-
ta: a ral6 existed, vive, age. Mas Collor
caiu e tudo voltou ao de antes. Agora nio
6 s6 um motorist que fala e desmascara
um bacana: sio varios outros integrantes
dessa nao-classe, desse "lumpen". E gen-
te simples, mas nio burra; humilde, mas
nio ingenua. Gente que de tanto ouvir e
ver, aprendeu os modos e meios dos muito
ricos ou muito poderosos. Conhece-os
bem. Fala deles, portanto, corn pleno co-
nhecimento de causa. Daf a forma con-
vincente de se expressar do caseiro Fran-
cenildo Costa, o guardiio da Bastilha de
Ribeirio Preto encravada em Brasilia.
Nada prova que ele tomou a iniciati-
va de denunciar o ministry da Fazenda
por inducio da oposiqio, manipulado por
ela. E fora de duivida que o PSDB apro-
veitou ao miximo a oportunidade, lide-
rando os demais partidos contrdrios a
Lula. Mas todos receberam o prato fei-
to. Ainda que tivesse havido malicia e
conspiraqio na origem do gesto do ca-
seiro, o que at6 agora nio esti demons-
trado, o mais important foi a forma pela
qual o governor se defended.
Corn todos os meios licitos a sua dis-
posiqio, o governor recorreu a baixaria, a
ilegalidade, para tentar desmoralizar o
acusador e, nao o conseguindo, destruf-
lo. Mas a quebra illegal do sigilo bancario
de Francenildo, a pressio da Policia Fe-
deral, que o transformou de testemunha
em indiciado, o emudecimento forcado e
precipitado de um cidadio comum, todos
esses atos acabaram por revelar aquilo a
que se reduziu o governor de Lula e o PT
no poder: uma depravadio de suas ori-
gens, um desvirtuamento de seus com-
promissos; o "outro", que 6 o contririo.
O pai dos pobres no papel de demiurgo
dos pobres. Um Fausto sem grandeza.
Uma trag6dia a procura de um autor de-
cente: o Brasil.


Journal Pessoal *2QQUINZENA MARCO DE 2006 7









.- 4 .. op
N.o s. r. .u o, ';. -fi'to r l , *n '.,
S- -. "
r- ...i. -


Nosso rico literal


As regimes tropicais 6midas ocupam
menos de um quarto de toda superficie
terrestre do planet, mas so responsi-
veis por metade da agua doce, particular
e solutos descarregados nos oceanos. As
zonas costeiras dessas regi6es represen-
tam uma concentraqio ainda maior de
vida. Hoje elas sio vistas como a maior
reserve de alimentos, al6m de biodiversi-
dade, para o home. A zona costeira do
Para, que comeca na Ponta de Tubario,
no Maranhio (que escoa boa parte das
riquezas minerals paraenses), e vai at6 o
Cabo Orange, no Amapi, cor 2,5 mil qui-
16metros de extensio, tem um marco es-
pecial: o rio Amazonas.
Drenando cursos d'agua que se es-
palham por uma drea de quase 7 milhoes
de quil6metros quadrados, em nove pai-
ses (64% da bacia no Brasil), o Amazo-
nas lanqa todos os dias no Atlfintico, em
media, 100 milhdes de litros de agua por
segundo (220 milh6es de m3 nos picos
do "inverno"), ou 16% de toda agua doce
descarregada nos oceanos da Terra. As
aguas transportam 1,2 bilhio de tonela-
das a caga ano, o equivalent a 12 vezes
a produaio de min6rio de ferro atual de
Carajis. Grande parte desses sedimen-
tos 6 levada na direqao Norte, no rumo
dos Estados Unidos, pelas correntes ma-
ritimas dominantes. Mas de 15 a 20%
dessa incrivel descarga atinge a zona
costeira, que recua at6 70 quil6metros no
continent e avanqa 330 quil6metros no
ocean.
A importincia dessa zona 6 inversa-
mente proporcional ao seu conhecimen-
to e h consci8ncia que dela ter sua pr6-


pria populag~o, que se aproxima ji de
sete milhoes de pessoas. Muitos estudos
ji foram realizados sobre essa area es-
trat6gica para a regiao e o pais, mas eles
nao estavam acessiveis ou sua dispersio
dificultava que fossem usados. Essa la-
cuna esti agora preenchida pela Biblio-
grafia da Zona Costeira AmazOnica,
minucioso inventirio de 400 piginas rea-
lizado por Pedro Walfir Souza Filho, Ed-
son Ricardo da Cunha, Maria Emilia Sa-
les e Francisco Ribeiro da Costa, lanqa-
do na quinzena passada, em Bel6m. Sao
pesquisadores do Museu Paraense Emi-
lio Goeldi, da Universidade Federal do
Para e da Petrobris, que se beneficia-
ram do program Piatam (Monitoramento
das Areas de Atuaqao da Petrobris: Po-
tenciais Impactos e Riscos Ambientais da
Ind6stria do Petr6leo e Gas no Amazo-
nas).
Criado em 200, o Piatam se limitava
a Amazonia Central, drea de produqio
petrolifera. Em boa hora se estendeu ao
litoral amaz6nico. Nele, atualmente nio
hi produqio, mas o potential 6 vasto.
AlIm disso, o Piatam nao deve se limitar
a gerar informaq es para evitar ou mini-
mizar o impact da atuaqao da estatal,
com eventuais acidentes, sobre o meio
ambiente. O program tornou-se tamb6m
uma linha de pesquisa cientifica de valor.
A partir da consolidaqio da bibliografia
existente sobre a zona costeira do Pard,
no future poderio ser elaborados mapas
de sensibilidade adequados a essa regiao
para que ela de seus bons frutos sem pre-
cisar se sujeitar a ignorancia humana. E
o que se espera.


Campeio da violencia


Levantamento preliminary feito pela
Comissio de Direitos Humanos da Fe-
deracio Nacional dos Jornalistas (Fenaj)
encontrou 64 casos de violencia contra
jornalistas registrados no ano passado no
Brasil. Seis deles foram no Pard, que
ocupou o segundo lugar no ranking na-
cional, junto com Tocantins. A soma dos
dois Estados iguala a de Sao Paulo, lider
em violencia contra jornalistas. Mas
como a populacio de Sio Paulo 6 quase
seis vezes maior do que a do Para, que,
por sua vez, ter cinco vezes mais habi-


tantes do que Tocantins, nosso Estado 6,
proporcionalmente, o lugar onde mais se
agridejornalistas. Ronaldo Maiorana, que
6 jornalista e advogado, contribuiu para
tornar a vida dos seus colegas de profis-
sio mais dificil, arriscada e violent.
Os seis casos de viol8ncia do levan-
tamento incluem duas agressoes (uma
das quais 6 a minha, cometida pelo dire-
tor do grupo Liberal), dois assediosjudi-
ciais, uma ameaqa e uma censura. Os
ndmeros definitivos serao divulgados ofi-
cialmente dentro de duas semanas.


DISTANTES
A Companhia Vale do Rio Doce
preparou uma grande festa de
inaugura5ao da fase 2 da
Alunorte, que colocou a empresa
no topo do ranking dos
produtores mundiais de alumina,
500 mil toneladas acima da
segunda colocada, uma
australiana. Mas os grandes
convidados deram "bolo". Tanto
o president Luiz Inicio Lula da
Silva quanto o governador Simio
Jatene preferiram ficar ao largo
de Barcarena, mandando apenas
representantes. Mesmo que nao
tenham tido a intenqio, o
resultado 6 que evitaram o
confront, que quase ocorreu em
Marabi. O president foi e
criticou o governor tucano. Jatene
responded no dia seguinte, a
distfncia. Haverd a possibilidade
de um "tira-teima"?
Enquanto o governador
infletia mais para o interior, o
president preferia aparecer em
Vit6ria, onde a anfitrif de
Barcarena, a CVRD, esti
implantando uma sider6rgica do
porte da que a Companhia
Siderdrgica Nacional, a CSN,
possui. Assim, praticamente
definindo uma estrategia de
long prazo: no Pard, apenas
mat6ria prima e semielaborados.
Necas de industrializaq o. S6 de
pitibiriba.

CULTURAL (CARA)
Um Estado pobre, como o
Pard, pode gastar 2,3 milh6es
de reais em um festival de
6pera e um concurso de canto?
E esse o valor que a Secretaria
de Cultura repassardi Sio
Paulo Imagemdata Marketing e
Comunicapqo, atrav6s de dois
contratos. 0 primeiro, de R$
1,9 milhoo, 6 para a realizaqdo,
produqio e montagem do V
Festival de Opera do Teatro da
Paz (recuso-me a escrever
Theatro). O segundo, de R$
402 mil, 6 para a criacio,
divulgaqio e montagem do VII
Concurso Internacional de
Canto Bidu Sayio.
Fica a pergunta a quem
estiver nela interessado: deve o
governor investor tal valor, atrav6s
de uma empresa paulista, nessas
duas iniciativas?


8 MARCO DE 2006 *2QUINZENA Jornal Pessoal








0 "caso Sotave"


uma alegoria


Em janeiro de 1988 o entao presiden-
te Jos6 Sarney autorizou a Portobris a
desapropriar o porto que a Sotave cons-
truiu, em Outeiro, na regito metropoli-
tana de Bel6m, ao lado do que devia ser
a maior fibrica de adubos quimicos da
regiao Norte, cor projeto aprovado pela
Sudam em 1976. Mas a fibrica nao che-
gou a ser concluida, o terminal capaz
de movimentar 1,2 milhio de toneladas
- ficou sem uso e a Sotave comeeou a
acumular dividas, dentre as quais avul-
tava a do Banco Mundial, de 16 milh6es
de d61ares. E a afundar. Seu terminal,
por6m, podia ser aproveitado como al-
ternativa ao porto de Bel6m, prejudica-
do pelo progressive assoreamento dos
seus canais de acesso.
O valor da desapropria.ao era alto:
correspondia a 70% do orgamento do
Pard (que, hoje, bate em 6 bilh6es de re-
ais). Provavelmente se construisse um
novo porto, no mesmo local, cor id&nti-
cas caracteristicas, a Portobris gastas-
se bem menos. Por isso, quando o pro-
curador regional da Repuiblica, Paulo
Meira, pediu a extinqio do feito ou pelo
menos a anulagco do process desde a
inicial, alegando uma sdrie de falhas, pou-
cos meses depois da decretafio da de-
sapropriaFio, seus arguments sensibili-
zaram a opiniio p6blica.
Mas se a hist6ria nio estava bem con-
tada, as parties envolvidas nao queriam
recontd-la ou exp6-la a inc6moda curio-
sidade pliblica. Depois de marchas e con-
tra-marchas, conforme iam e vinham as
manifestaq6es contrdrias nos autos do
process, ojuiz federal Anselmo Santia-
go acabou homologando um acordo feito
entire a Portobris e a Sotave.
A empresa desistia de sua pretensio
inicial, de receber mais do dobro do va-
lor apontado na pericia judicial. Antes
que o Didrio Oficial da Uniio publicas-
se a sentenga homologat6ria, por6m,
surgia um novo adversdrio da desapro-
priagio: o entio governador Hl6io Guei-
ros. Mesmo depois da sancio judicial,
Gueiros disse que tudo faria para impe-
dir a consumafio do ato. Esgrimia du-
ras raz6es, dentre elas a contradiqco em
que cairia o governor federal, de gastar
dinheiro volumoso num porto problemi-
tico, quando cortava despesas alegando
falta de verbas.
Na edigio de ntimero 27 do Jornal
Pessoal, da Ia quinzena de outubro de
1988, registrei: "O governador n2o atenuou
sua firme posiqao nem mesmo ao ser in-
formado sobre insistentes boatos que cir-
culavam nos bastidores da negociaqao
entire a Sotave e a Portobras. A empresa


teria recebido telefonemas
de uma pessoa, nio identifi-
cada, cobrando comiss.o,
em nome do governador e
de seu chefe da Casa Civil,
para nio complicar o anda-
mento da transaqio. O au-
tor dos telefonemas tamb6m
dizia-se representante do I
procurador regional da Re- I
piblica, Paulo Meira, outra
fonte de resistencia a ope-
rario. Da mesma maneira,
mas em sentido contrdrio,
havia rumors sobre comis-
s6es em proveito dos que
estavam conduzindo a ques-
tio do lado da Portobras.
Como nenhuma dessas his-
t6rias saiu do anonimato, ali-
mentando-se de especula-
q6es e da inesgotivel des-
confianqa que hoje hi no
Brasil em relai.o a tais as-
suntos, o governador mes-
mo informado da boataria -
preferiu ignora-la, mantendo
sua posiqio: o porto da So-
tave nio serve aos interes-
ses do Pari, que seria me-
Ihor servido pela outra alternative de es-
coamento de sua produqao, atrav6s do
porto da Ponta Grossa, em Barcarena".
Passados quase 20 anos, a novela ain-
da nio chegou ao seu iltimo capitulo.
Mas recebeu seu thriller paralelo. No
final do ano passado, Sant'ana Pereira
lanqou A torre de Diaphanus (Editora
Cejup, 115 piginas). Embora anunciada
como um romance, a obra 6, na verdade,
uma novela. Ou, melhor ainda: uma ale-
goria. E a conturbada hist6ria da desa-
propriaqio do porto da Sotave, a clef,
como dizem os franceses. Personagens
reais sio apresentados cor outros no-
mes, tirados da mitologia ou inventados
cor miscaras (Faustus, Cromos, Netu-
no, Mercirio, Britannicus, Possidonius,
Gaia), certamente para prevenir a efici-
cia de qualquer ago judicial hostile.
O autor da ficqio deve ter pensado
nesse tipo de reaqao: final, al6m de es-
critor, Sant'ana Pereira 6 advogado. E
ele que representou e continue a repre-
senta a Sotave nesse explosive conten-
cioso. Se tivesse as provas documen-
tais, certamente teria produzido um li-
belo acusat6rio e as criaturas a que se
refere cor os nomes trocados estariam
em maus lenq6is ou ele, se suas pro-
vas nao fossem satisfat6rias ou o julga-
dor nao fosse corajoso, al6m de bem
preparado para dar conta de uma de-


manda desse porte, envolvendo nomes
famosos e mesmo respeitados.
A festa que o empresirio Diaphanus
promove, no primeiro capitulo do livro,
compareceram: "ex-Governador, ex-Pro-
curador da Reptblica, ex-Superintenden-
tes de Policia, alguns membros do Minis-
tdrio Ptiblico, um Juiz, alguns funcionarios
do Judicidrio, ex-Superintendente da Re-
ceita, alguns fiscais de tributes, alguns
membros da Defensoria da Uniio". To-
dos eles estariam atados .s teias visi-
veis e invisiveis da trauma urdida direta
ou indiretamente a margem da interven-
gio do governor federal no porto (no livro,
Redenyio) da Trading Urbi et Orbi Ltd.
Sob a proteao do genero ficcional, o
advogado Sant'anna Pereira avanga so-
bre o escritor, que se encolhe, para mos-
trar como os desvios da lei possibilitam
manobras dos que, hdbeis no seu mane-
jo, se valem dessas filigranas para agir
socapa. A alegoria 6 ttil tanto para os
interessados em saber porque os proces-
sos demoram tanto para transitar em jul-
gado no Brasil e porque a fachada exibi-
da por pessoas honorAveis naio 6 mais do
que fachada. O que explica at6 hoje per-
manecer ativa a questiono Sotave", pre-
cisando de uma novela para seu arrema-
te. Quem tiver a chave para decifrar
Diaphanus poderd explicar esses para-
doxos. E se escandalizar.


Journal Pessoal *2'QUINZENA MARCO DE 2006 9








MEMORIAL DO COTIDIANO
S.' *- '.-. I'. '; ." ' -.;.: '-A. .-'-" ".. ';-i -


Tempo de bondes
Todos os dias, as 11,30 da manhi, pontualmente, no inicio
do mes passado,soava pela cidade o apito da Companhia do
Amazonas, depois rebatizada de Amazon River. Era sinal
de que suspenderia suas atividades para o almoco, como
fariam os demais moradores de Bel6m, em sua maioria. Mas
tamb6m o burro conhecido por "Cidade Velha". Nesse ho-
ririo, o animal sempre estava nos arredores da estaqio ma-
triz da Companhia Urbana, concessionAria dos primeiros
bondes de tracio animal na capital paraense, pequenos car-
ros, cor quatro bancos apenas (por isso eram conhecidos
como "caixinhas de f6sforos"). Faziam a linha entire a esta-
eqo e o Curro Velho (hoje fundaqio cultural), conduzindo os
marchantes e empregados do matadouro.


"Cidade Velha" preferia se alimentar da grama native,
que vicejava em toda frea em torno da estaiao, localizada
onde, em seguida, seria construida a igreja de Sio Raimun-
do Nonato, no bairro poeticamente chamado de Sio Jo0o do
Bruno, agora nio menos poeticamente ainda, felizmente -
Tel6grafo-sem-Fio.
Enquanto os outros burros usados no transport urban
comiam raqio balanceada (milho, capim, alfafa e farelo),
"Cidade Velha" preferia o mato que crescia livremente, sem
enfrentar o servigo de carpina, limpeza e asfaltamento que
a prefeitura viria a fazer, mudando a fisionomia da frea.
Com o apito soando, o burro seguia movimento inverso ao
dos humans: parava de comer e se dirigia lentamente A
estaqio para receber o bonde que Ihe cabia puxar.
A primeira viagem do "bondinho do Curro" era exatamen-
te ao meio-dia e a ela o burro nunca faltou. Graqas a tal pon-
tualidade, nessa linha nio havia cobrador: o pr6prio boleeiro
deixava a boldia, onde conduzia a viagem, com o carro em
movimento, atava as r6deas a manivela do travio, e fazia a
cobranqa da passage, enquanto o burro seguia, ji sem seu
condutor e sem problema algum, fazendo a sua parte.
Talvez por esse hfbito, "Cidade Velha" continuasse a resis-
tir ao desgaste do tempo, deixando de seguir na diregio dos
outros animals. Levados para a "invernada" que a companhia
de transport mantinha no ainda ermo bairro da Sacramenta,
cercado de mato por todos os lados, eles raramente voltavam
desse "sanat6rio", Eram enterrados ali mesmo, onde o resto de
suas carcaqas deve servir de testemunhas desses tempos pri-
mitivos, mas tio pr6ximos. Deles deu conta Jilio Colares, em
longa e bem humorada cronica publicada pela Fo/ha do Nor-
te, em janeiro de 1948. Excepcionalmente boa.


PROPAGANDA
0 leite puro
Ainda na serie "porque BeleM nunca teve bacia lei-
teira", mais um capitulo: o leite que Manoel Pinto da
Silva (ele mesmo, o construtor do maior arranha-ceu
da cidade) trazia da sua fazenda Santo Amaro para
vender a populaado no terreo do seu edificio, prome-
tendo que esse, sim, era puro. Nao durou muito, como
os outros. Nao dura ate hoje.


agora

A POPULACAO
DE BELEM
PODE BEBER...













...leite purol


Proveniente da Fazenda Agropastoril SANTO
AMARO, de Manoel Pinto da Silva S. A.
DiAriamente, das 8 As 11 horas e das 16 As 19
horas (antigas), no aadar terreo do Edificio Ma-
noel Pinto da Silva.
14768


Bife
Quase toda grande
cidade brasileira, ex-
pressando uma das
prefer&ncias nacio-
nais, ter seu restau-
rante Bife de Ouro.
O de Bel6m funcio-
nava no t6rreo do
Edificio Piedade, na
avenida Presidente
Vargas. Atd setem-
bro de 1960, quando
anunciou que ia se
mudar para novas
instalai6es, "em ta-
manho reduzido, po-
rem ainda mais aper-
feiqoado". Voltaria a
funcionar em 30
dias, "antes das fes-
tas nazarenas". S6
naio antecipava duas
informaCoes essen-
ciais: quando e onde.
Detalhes, claro. Afi-
nal, como logo se ve-
ria, o bife ji nio era
de ouro.


10 MARCO DE 2006 *2,QUINZENA Jornal Pessoal


Elegantes
As dez mais elegantes de Beldm fo-
ram escolhidas pela primeira vez em
1955, por Affonso Ramirez, colunis-
ta social da Folha do Norte. A sele-
cqo era feita atrav6s de "inqu6rito si-
giloso" junto a "personalidades da
alta sociedade", que apontavam -
atrav6s de cartas os 10 nomes de
sua prefer6ncia, excluindo as senho-
ritas. As 10 mais de 1956 foram
(conforme o tratamento da 6poca nas
colunas sociais): sra. dr. Deusdedith
Moura Ribeiro, nascida Maria Euni-
ce Cerqueira Dantas; sra. dr. Diler-
mando Menescal, nascida Maria de
Nazard Martins Caldeira; sra. dr.
Herm6genes Conduru (Lea Ribeiro
Velho); sra. dr. Gelmirez Gomes (Ce-
lina Cruz Lima); sra. Alberto Pinhei-
ro (Alice da Silva Tavares); sra. dr.
Laur6nio Teixeira da Costa (Maria
de Betania Cardoso de Oliveira);
Otivio Cardoso (Conceiqio de Sou-
za Castro); sra. dr. Waldemar Cha-
ves (Mariinha Pires Teixeira); sra. dr.
Jos6 Reis Ferreira (Zaira Mota de
Borborema); e sra. Nicolau da Cos-
ta (Edith Veloso Vidal).
































Agua
Nota da coluna "Pelos 4
Cantos da Cidade", da Folha
Vespertina, em 1963:
"Uma das conseqiiencias
da min distribuigio de 6gua em
nossa capital 6 o uso de bom-
bas eldtricas, em casas resi-
denciais, que puxam o liquid
da rua. Na Cidade Velha, por
exemplo, quem nao tenha um
desses aparelhos sofre com a
falta do precioso Ifquido. Fis-
calizacio eficiente evitaria
essa inc6moda situaq.o".

Pelotao
Emjaneiro de 1965 fez seu
ddbut o "Pelotio de Choque",
criado pelo general Ferreira
Coelho, secretdirio de seguran-
qa pliblica do primeiro gover-
no estadual p6s-64, o do coro-
nel Jarbas Passarinho. O pe-
lotio da Guarda Civil, com a
missio de agir nas ruas, foi cha-
mado para impedir que "play-
boys" penetrassem ji de ma-
drugada, na festa de carnaval
promovida na sede da AABB
(Associaq o Atl6tica Banco do
Brasil), na avenida Governador
Jos6 Malcher, bem em frente
onde agora funciona o restau-
rante "La em casa".
Os "vagabundos sociais",
como a imprensa os denomi-
nara, eram um dos problems
da cidade, ao menos segundo
a pr6pria imprensa, que fazia
uma campanha intense contra
os "jovens desguiados". Tres
deles (dois de 20 anos e um


de 19) foram press por nio
terem conseguido fugir, como
os demais, quando o pelotio
chegou e deu o seu choque,
que viria a ser inconfundivel.
O agrupamento foi disperse
pela "reaqo violent" da po-
licia, segundo o registro da
Folha do Norte, enquanto os
tres,justamente "os mais atin-
gidos", nao puderam fugir "e
foram press e atirados ao
Pdtio Central", de onde s6
sairam pela manhi, depois de
identificados e fichados. Um
novo confront e ainda mais
violent ocorreu ao final de
uma festa da Orquestra Or-
lando Pereira, no Autom6vel
Clube, quando os "desviados
filhinhos de papai" trocaram
sopapos cor os policiais e, em
desvantagem, muitos mais fo-
ram press ou acabaram no
Pronto Socorro Municipal.
Eram novos tempos. De
novo. Quantos "vagabundos
sociais", hoje respeitiveis


CARTA
Hoje pela manhn assist, no
Bom dia Para, reportagem em que
o cenegrafista da TV Liberal so-
freu agress8es dos donos da
auto-escola envolvidos nas de-
ntincias de fraude no Detran.
Na reportagem foi dito que,
em outras palavras, houve a ten-
tativa de calar a liberdade de im-
prensa. Como seri a reaqio da
ANJ e do Sindicato dos Jornalis-


de famflia, nao o sentiram
no couro?

Luta
Quem nio se lembra das
temporadas de luta-livre ao ar
livre, cor a participaqio de
"astros internacionais", nem
to astros assim e muito me-
nos internacionais? A de 1969
teve 12 deles, que se agredi-
ram (ou fingiam se agredir)
numa longa noitada no estddio
da Curuzu. O mais pesado,
cor 147 quilos, era o "Homem
Montanha", que lutaria em du-
pla, no genero "luta australia-
na", cor o "Conde Romano",
de 115 quilos, contra "Tigre
Paraguaio" (102 quilos) e "El
Toro" (115 quilos), dito cam-
peao argentino, no espetdculo
de encerramento. Quem pro-
videnciasse o queijo estaria
cor a sobremesa garantida,
pois marmelada era o que nao
faltava para compor o cenirio.
O pliblico adorava. E vibrava.


tas (ji que foi um funcionirio da
ORM)?
Serf que o cinegrafista vai ter
o mesmo tratamento que voce,
quando agredido por um dos reis
da quitanda (onde voce foi infe-
lizmente totalmente ignorado)?
Seria possivel, no pr6ximo
n6mero do JP, abordar sobre a
agressdo sofrida por voce e esse
recent fato ocorrido cor o cine-
grafista da TV Liberal?
Emerson Marcondes


FOTOGRAFIA

Nosso

cinema

de arte
Em 6 de janeiro de 1967 o
Cine-Clube da Associacdo
Paraense dos Criticos de Ci-
nema realizou, no Olimpia,
duas sessoes de "Viridiana",
do espanhol Luis Buiiuel,
inaugurando o seu Cinema
de Arte. Foi uml sucesso mai-
or do que podia imaginar o
mais otinista dos organiza-
dores da exibicdo. Duas ses-
soes quase lotadas no atW re-
centemente mais antigo cine-
ma en atividade continue no
pais e mais unma no "lrace-
ma", corn lotaCdo "extra-
normal". No registry foto-
grcfico que A Provincia do
Pard fez de unla das sessies
no "Olmnpia", pode-se ver,
na terceira fila, o casual mais
cinemaniaco do Pard (e tal-
vez do Brasil), Pedro e Lu-
zia Miranda Alvares, e o (en-
tdo) padre Carlos Coimbra.
Na nota que dedicou ao
assunto, logo depois das pri-
mieiras exibiVioes de "Viridia-
na" (de impact bem buiiue-
liano) e antes de sua reapre-
sentac'do, comn in prometido
"cine-forum ", Pedro Veriano
anunciou que o Cine-Clube
da APCC estava aberto aos
futures s6cios: "Quemn qui-
ser fazer a sua inscric(o,
procure Isidoro Alves, nas
'Folhas' (das 16,00 its 19,00
horas), Lticio Flavio Pinto,
em 'A Provincia do Par6', ou
Rafael Costa, na Escola de
Teatro da UP". Alertava
para procurarem logo os in-
digitados, "pois a sessdo
inaugural, sibado, serc fei-
ta na base do cartao de sd-
cio (mis de novembro), va-
lendo como ingresso. E aten-
qdo: cada sdcio tern o direi-
to de levar para as sessoes
unm acompanhante"
Feito na cara e na cora-
gem, o Cinema de Arte foi
um acontecimento cultural
em Belcm e se manteve por
long tempo, semn precisar
do sempre tentador e peri-
goso subsidio ptiblico. Md-
rito, sobretudo, de Pedro
Veriano.


Journal Pessoal 2QUINZENA MARCO DE 2006 4








Mineradora responded


Um dos aspects dos balancos das
grandes empresas instaladas no Pari,
quase todas controladas pela Companhia
Vale do Rio Doce ou a ela associadas,
quando nio sendo unicamente a ex-es-
tatal, 6 a quantidade de dinheiro que eles
estio repassando aos acionistas na for-
ma de dividends. Esse resultado se deve
tanto ao elevado nivel de precos alcan-
9ados por seus produtos no mercado in-
ternacional como pelo enorme incremento
na produgio. Apesar desse desempenho
excepcional, pode ser timida a adoqgo de
uma political de long prazo, prevenida
contra um novo ciclo de baixa de precos,
caracteristico, sobretudo, na economic
mineral. O fluxo de caixa corn recursos
pr6prios e aplicados nos investimentos nio
guard uma rela~io proporcional com a
distribuiFio de dividends.
Faqo novamente essa observaFio em
relacio a Alunorte, como, na edidio an-
terior, fizera para corn a Mineradio Rio
do Norte. De imediato a assessoria de
imprensa da MRN enviou uma carta para
o journal O Estado do Tapaj6s, em San-
tar6m, onde meu artigo foi reproduzido.
Garante a empresa, uma das maiores pro-
dutoras de bauxita do mundo, que "tern
capacidade de geraaio de caixa future
oriundo de suas operac6es e ter acesso
a linhas de cr6dito", mas que seu nivel
de endividamento "esti adequado para
suas atividades".
Assegura ainda a empresa, estabele-
cida em Oriximind, no Oeste do Pari,
que, quando reduziu seu capital, "nio
adentrou na parcel dos incentives fis-
cais", embora a Receita Federal enten-
da o contrdrio, o que provocou uma ques-
tao, pendente de julgamento na justiqa
federal. A Rio do Norte sustenta, por6m,
que os incentives por ela utilizados "fo-
ram aqueles provenientes de isenaio ou
redudio do imposto de renda".
Informa ainda a assessoria que a MRN,
ao long de sua hist6ria, "investiu o equiva-
lente a mais de R$ 2 bilh6es em moderni-
zaqio e ampliaqio de suas instalaq6es, ge-
rando mais empregos, divisas e impostos.
Deste montante, cerca de R$ 360 milh6es
foram provenientes de isen~io ou reduqTo
de imposto de renda. Mais de R$ 1,6 bilhio
foram financiados cor recursos pr6prios e
financiamentos bancirios". Aldm disso, a


empresa "sempre investiu em educaqio,
satide, seguranqa, preservadio ambiental
e programs sociais na regiaio, em mon-
tante que passa de R$ 0,7 bilhio, ao lon-
go da hist6ria da companhia. Nesse perf-
odo foram recolhidos aproximadamente R$
1,3 bilhio de impostos".
Quanto ao Refis, o program federal
de refinanciamento das dividas das em-
presas privadas, a assessoria diz que a
mineradora s6 o perderia "se deixasse
de pagar a autuaqio, no caso de perder
a aaio judicial. Como a companhia ji
depositoujudicialmente o valor da autua-
cio, nio existe esse risco".
No caso de perda da agio, reconhe-
ce ser "possivel que a MRN contabili-
ze um prejufzo contAbil, com efeitos na
distribuicio de dividendss, mas que,
em terms de fluxo de caixa, "nio ha-
veria impacts, considerando que a
companhia ji depositou judicialmente o
valor em discussion .
Informa ainda a assessoria que a re-
serva legal constitufda da MRN "foi so-
mente de R$ 6,8 milh6es, porque cor este
valor essa reserve atingiu o limited legal
de 20% do capital".
Acolhidas as ressalvas da Mineradio
Rio do Norte, observa-se que elas nio
alteram o conte6do essencial da mat6ria
deste journal. A legalidade da reduqho do
capital foi contestada pela Receita Fe-
deral corn raz6es substanciais, que serdo
apreciadas pela justica. Continue parti-
lhando esse entendimento: no minimo,
uma empresa incentivada pelo tesouro
national devia prestar-lhe contas antes
de reduzir seu capital, por alegado ex-
cesso de capital, ainda mais na propor-
gio feita pela empresa, de 30%.
Espera-se que realmente as finanqas
da MRN estejam firmes, garantindo-lhe
auto-sustentaqio. Aguardo seu desem-
penho em conjunturas internacionais des-
favoriveis para confirmar essa confian-
ga. Quanto ao Refis, a empresa apenas
repetiu o que este journal disse com ou-
tras palavras. A diferenqa de fundo, po-
r6m, nio 6 coberta apenas cor acertos
formais. O tempo dird quem ter razio,
se, antes, como seria desejivel, um de-
bate mais aberto e profundo nio for tra-
vado diante do arbitro final dessas ques-
toes: a opinioo piblica.


SILENCIO

PARLAMENTAR
A hist6ria contemporanea do
poder legislative no Pard 6 um
buraco negro. Quem a
acompanha nao ter
informaaqes para saber o que
realmente acontece. E quem,
no future, quiser saber o que
aconteceu, nio ter6 como
resgatar o tempo que passou.
Se defender da direcio da
Assembl6ia Legislativa, o poder
continuard a ser,
simbolicamente, um buraco do
tatu.
Quem meter a mro nesse
buraco atris de informaqbes,
estard se expondo ao risco de
uma decepqio. Ha muito tempo
o legislative paraense nao
public os seus anais, a mais
important referencia das suas
atividades. Isso jai ruim, mas
nao e o mais grave: notas
taquigrificas do que 6
apresentado nas sess6es
constituem atualmente um
document altamente sigiloso,
independentemente do seu
conteido. Se qualquer deputado
quiser saber o que disse um
colega, terd que conseguir sua
autorizaiao para ter acesso ao
que ele disse. Sem a express
autorizaaio do autor, nada 6
revelado. Virios parlamentares
tiveram o desprazer de bater em
porta que se Ihes nao abriu,
privando-se dessa maneira de
receber as notas taquigraficas
desejadas.
0 procedimento 6 um
desserviqo a sociedade, pondo
em xeque a proclamada
condiaio do parlamento, de
"casa do povo". E viola as
normas do regimento interno
da pr6pria Assembl6ia
Legislative. Esti mais do que
na hora de os deputados se
reconciliarem cor sua razio
de ser, antes que o povo seja--
induzido a pensar que essa
razao simplesmente inexiste.,
..'i


LIVRO
SContrliua a .erind rnas biencjs e en, .alqumas lirarias meu livro,
Guerra 4ma ij'nic lediC Jorn.rl Pe':-cal 300 pgirias R$ 30,00).
Esperro que ''., leIlore:, irie reresseim pri ele
,ft Podera aluda-,lri a re..pc.ridr i miujiias du'.idj: i questionamento
j aobti a adiu ,:.:, dj iinpreria rn, P.ra noc, ulliiTu'.c dr s.
. I: d de',lad.:r eui.,),:o: e rrnoli-


.7


Jornal Pessoal.
Editor: Lucio Flavio Pinto -
Edig o de Arte: L A ae Fara Pint~o [
Produqao: Argelm Pilno -- I
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040 *Fones: 10911 3241-7626 i
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