Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00292


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Full Text






ornal Pessoal
A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO
FEVEREIRO DE 2006 1 QUINZENA N9 362 ANO XIX R$ 3,00
SOLUS, TOTUS, UNUS


CVRD



Grandeza fora do Para

A Companhia Vale do Rio Doce esta comemorando grandezas sem paralelo
na sua historia e na do pals. 0 Para contribui bastante para esses numeros records.
Mas se beneficia pouco dessas realizag6es. Por qua?


Em cinco anos, entire 2001 e 2005,
a Companhia Vale do Rio Doce
investiu no Brasil mais de 28
bilh6es de reais (o equivalent
a 10,5 bilh6es de d6lares). Nenhuma
empresa privada investiu tanto quanto ela
nesse perfodo. A escala 6 progressive: em
2004 e no ano passado a CVRD foi bi-
campei em aplicaqio de capital particu-
lar no pais. A terceira conquista sucessi-
va jA esta garantida: a empresa pretend
chegar a quase R$ 12 bilh6es de investi-
mento em 2006, fechando a conta, nos
seis anos do novo s6culo, em R$ 40 bi-
lhoes. E um record hist6rico.
Nos filtimos cinco anos a companhia
distribuiu o equivalent a 4,4 bilh6es de
d6lares em dividends. O ganho dos aci-
onistas foi de 200% nesse period (de


40% ao ano), sem igual entire as grandes
mineradoras internacionais. Significa que
quem tinha US$ 1.000 em aq6es em 2001,
ter hoje US$ 3 mil. Nem os bancos con-
seguiram marca igual.
Motivos, por isso, nio faltaram para a
campanha promocional que a empresa pro-
move em escala national. Uma das peas
proclama que a CVRD, al6m de ser "a em-
presa privada que mais invested no desenvol-
vimento brasileiro", 6 tamb6m a que mais
export, a que mais ger divisas e a que mais
contribui para o saldo da balanca commercial
brasileira, recordista de todos os tempos em
2005. Cor suas atividades de mineraqao,
metalurgia, siderurgia, reflorestamento e lo-
gistica, a empresa gera 137 mil empregos
diretos e beneficia, com seus programs
sociais, mais de 3 milh6es de pessoas.


Essa clientele equivale a quase me-
tade da populacqo paraense. S6 o que a
Vale programou para investor neste ano,
R$ 12 bilhaes, ultrapassa, cor ampla fol-
ga, a receita bruta do Pari. O Estado
deveri faturar em torno de R$ 7 bilh6es,
mas s6 uns 10% serdo destinados a in-
vestimento (pouco mais de 5% da ca-
pacidade de investimento da CVRD).
Nos iltimos quatro anos, as aplicac6es
de capital da administragqo piblica es-
tadual nao chegaram a R$ 3 bilh6es,
apenas um quarto do que a Vale investi-
ri somente em 2006.
A empresa, portanto, 6 bem maior do
que o segundo Estado no qual mais in-
veste no Brasil. O Pari tem importan-
cia ainda maior na estrat6gia da Vale,
CONTINUE NA PAG2


ELEI(6ES: CANDIDATES
ESCONDEM AS CARTAS
PAGINA 3

0 LIBERAL: NUMEROUS
REVELAM DIFICULDADE
PAGINA 5







CONTINUA;AO DACAPA
c ...u.. .. ....
por sua funcio eminentemente expor-
tadora. Das entranhas paraenses safram
min6rios e seus derivados que permiti-
ram a Vale faturar quase UU$ 3,5 bi-
Ih6es no ano passado. Esse dinheiro re-
presenta dois terqos a mais do que o
Estado arrecadou em 2005.
Essa privilegiada posiqao, que levou o
Para a contribuir cor 4% para o saldo
liquid de divisas do Brasil no ano passa-
do, em volume jamais alcanqado anterior-
mente pelo pais, somente atrav6s da
CVRD, sera expandida nos pr6ximos anos.
Em 2006 o Sistema Norte de produq~o
crescerd de 70 milh6es para 85 milh6es
de toneladas (investimento de US$ 330
milh6es) e logo chegar. a 100 milh6es de
toneladas de min6rio de ferro, uma escala
impensivel poucos anos atris.
Maior produtora mundial de mindrio de
ferro, a CVRD espera superar neste ano
264 milh6es de toneladas contra pouco
mais de 233 milhoes em 2005. Metade
desses 31 milh6es de toneladas adicionais
serao obtidos em Carajis. Mas, ao con-
tririo do que ocorre cor o Sistema Sul,
quase a totalidade do min6rio de Carajis
ira para o exterior, o que consolida a posi-
cBo do Sistema Norte como o p6lo de ex-
portag o por excelencia da empresa. Para
2007 a previsao 6 de 300 milh6es de tone-
ladas produzidas nos dois sistemas.
A viabilidade de projeto de Carajis
nao ia al6m de 25 milh6es de toneladas.
Na escala atual, o tempo de vida 6til en-
curtara para um quarto do previsto inici-
almente. Em menos de um s6culo a me-
lhor mina de min6rio de ferro do planet,
com um teor de hematita pura que muito
a aproxima do produto seguinte na esca-
la de concentragao, a do ferro-gusa (o
teor passa de 65% para pouco mais de
90% de pureza), estard exaurida.
A expansio sera ainda mais c6lere no
caso da alumina, o produto que result
da lavagem quimica do min6rio de bauxi-
ta te que em seguida, graqas a uma enor-
me carga el6trica, se transform em alu-
minio metilico). A Alunorte comegou a
funcionar uma d6cada atras com 1,1 mi-
lhao de toneladas. Neste ano passari a
4,2 milh6es de toneladas anuais, consoli-
dando-se como a maior fabrica do mun-
do. Dentro de dois anos batera pr6ximo
de 7 milh6es de toneladas. Se, ao seu
lado, surgir uma outra fabrica, a ABC,
em parceria cor os chineses, do mesmo
tamanho, o Pard responderd por um ter-
qo da alumina produzida no mundo, in-
cluindo a produqgo da Cadam no Jari,
tamb6m sob o control da CVRD.
Prev6-se que o president Lula ird a
Barcarena no pr6ximo mes para a inau-
gurag~o da segunda fase e o langamento
da terceira fase, que consumiri US$ 846
milh6es at6 2008, elevando a capacidade


de refino da Alunorte para 6,8 milhaes
de toneladas de alumina.
Esse poderoso centro industrial sera
abastecido de alumina extrafda da mina
de Paragominas, cor capacidade de pro-
duqao quatro milhoes de toneladas, que
logo sera duplicada. O mindrio seguiri
para a flbrica atrav6s de um mineroduto
com 244 quil6metros de extensdo, o pri-
meiro no genero a transportar bauxita.
Custard US$ 325 milh6es.
Se o Sistema Norte de min6rio de fer-
ro ficari equiparAvel ao Sistema Sul,
que o antecedeu de tres d6cadas, a tra-
jet6ria da CVRD pela trilha dos nao-fer-
rosos segue inteiramente pelo Para.
Depois do primeiro projeto de cobre, o
do Sossego, que agora atinge sua plena
capacidade, a mina seguinte, a do 118,
comegari a ser desenvolvida neste ano.
Ao custo inicial de R$ 247 milh6es, a
empresa tamb6m dara partida em 2006
ao primeiro projeto de niquel da Ama-
z6nia, o do Vermelho, e com um investi-
mento semelhante, de R$ 255 milh6es,
implantarA simultaneamente um outro, o
do Onqa Puma, que incorporou quando
assumiu, no mis passado, o control da
mineradora canadense Canico, com um
lance de aquisiqCo hostile.
As perspectives desses empreendimen-
tos nao podiam ser tio promissoras quanto
agora: os precos dos metais chegaram a
valores nunca antes registrados no merca-
do intemacional, assegurando uma renta-
bilidade que nio estava prevista nos cilcu-
los originals. O tiltimo reajuste dos precos
do min6rio de ferro foi de nada menos do
que 70%. Para este ano 6 esperado um
aumento entire 20% e 25%. A tonelada de
cobre esti acima de US$ 4,7 mil. A do alu-
minio ultrapassou o patamar de US$ 2,5
mil, que nbo alcancava havia 17 anos. O
ouro, que sera produzido em Carajas como
subproduto do cobre, em escala final supe-
rior A da melhor produqao de Serra Pelada,
chegou a US$ 560 a onda (28,35 gramas),
mas se preve que chegue ao maior preqo
em 25 anos, US$ 568,10.
Os ganhos se manterao excepcionais
pelo menos por mais alguns anos, at6 que
um perfodo de queda se verifique, como
6 a regra nesses processes ciclicos. Mas
os beneficios podiam ser bem maiores se
ao Pard nao fosse imposta a "vocaqco"
de produzir apenas mat6rias primas
(como os min6rios) e insumos basicos
(como alumina, aluminio, concentrado e
catodo de cobre e niquel).
No portfolio de investimentos, a
CVRD nao preve um pass al6m do fer-
ro-gusa no setor de ferrosos dentro do
Pard. Al6m-divisas, a empresa vai expan-
dir ou criar capacidade produtiva em pe-
lotas de min6rio e chapas de ago, embo-
ra continue a declarar que nao competi-
ri com seus clients siderirgicos. Quan-


to aos nio-ferrosos, o miximo que se
permit 6 a transformaqio do metal, seja
com bauxita quanto com cobre e niquel.
Em siderurgia, a Vale dari andamen-
to neste ano a investimento em valor
equivalent a US$ 4,6 bilh6es na Usina
Siderdrgica do Ceari, Companhia Side-
rdrgica do Atlantico e Siderirgica do
Maranhio, esta dltima ainda sob questi-
onamento por sua problemdtica localiza-
cio na ilha de Sio Luis. Tres novas usi-
nas de pelotizacio estio em curso entire
Minas Gerais e Espirito Santo, com in-
vestimento de US$ 369 milh6es. A pelo-
tizadora de Sio Luis esti sendo expandi-
da, ao custo de US$ 6 milhoes neste ano.
Mais 15 milh6es de toneladas anuais de
pelotas serio produzidas a partir de 2008.
A empresa faz essa restriq~o de es-
pecializagio econ6mica por mi-vontade
cong6nita para cor o Estado? Idiossin-
crasias a parte, seu argument 6 de que
a distancia do Pard e as circunstfncias
do mercado desfavorecem a atividade
industrial, de elaboraqao de produtos fi-
nais. A Vale ter um vagio de dados t6c-
nicos e informaqoes economicas para
usar e pode atW ter razdo. O problema,
por6m, 6 que nio encontra oponente a
altura. Freqiientemente, nem mesmo ter
interlocuqdo. E como se lidasse com um
ser primirio, malmente desenvolvido,
capaz de arreganhos e ameacas, mas nao
de diilogo a altura. Esse ser rudimentar
6 o Estado do Pard.
Com sua linguagem cifrada, repleta
de frases de efeito, os governor tucanos
limitam-se, como os anteriores, a estre-
buchar em determinados moments, ati-
qando um fogo em relagco ao qual nao
mostram capacidade de manejo. Logo o
jogo se extingue e vira cinza. Falta a esse
interlocutor massa critical. Nio 6 de ad-
mirar num governor que reprime a critical
internal e desdenha o acompanhamento
externo, sufocando-o com propaganda &
marketing. De tudo que ter dito em 10
anos sobre verticalizaqio da produqao,
internalizaqao de efeitos, multiplicaqao de
renda e emprego, o que, de fato, resultou
de significativo, capaz de modificar o
rumo que o Pard esti tomando, de es-
tagnar como enclave primirio? Nada.
O crescimento do Estado reluz no
cenirio da federaqio, com a intensidade
e o brilho de um fogo de artificio, ou como
na imagem do poeta Vinicius de Moraes:
intense enquanto brilha; mas efemero.
Depois, viri o escuro da realidade num
Pari condenado a vender produtos (even-
tualmente cor precos melhores) que te-
rao seus efeitos multiplicados nao na ter-
ra do vendedor, mas na terra do compra-
dor. Cor outros adereqos, 6 esse o en-
redo da velha hist6ria do colonialismo. A
n6s restando o papel que nos querem
impor: de colonizados.


FEVEREIRO DE 2006 IQUINZENA Jornal Pessoal









Eleigio: ainda na fase do jogo escondido


Quem se informa sobre a corrida elei-
toral atrav6s da imprensa pode achar que
"o movimento esta parade", conforme
apregoava quem, anos atrds, entendia de
bastidores (no s6 entendia como o fre-
qtientava como personagem de desta-
que). Mas, na verdade, o movimento esta
movimentado. Assim mesmo: primitiva-
mente pleonistico. S6 que nao emerge
no noticidrio dos jornais.
Os contendores estio comeqando a
se definir, mas seguindo o rito dos grupos
que divergem em tudo que seria secun-
dirio, menos no que devia ser essencial:
os programs. Para eles, programs nio
sio mais do que reunido de frases e, es-
tas, adereqo de uma propaganda em eter-
no carnaval. Cada um apresenta o seu,
mas todos os programs tim um ponto
em comum: nio farao qualquer modifi-
cadio essencial no perfil do Pard. Afora
isso, tudo mais ainda esta sujeito is mis
condiq6es do tempo e a acertos de oca-
siio. Prazo para tal, ainda existe.
No grupo mais forte, o dos tucanos, hi
uma nebulosa a ser dissipada: a composi-
aio da chapa para o governor. O nome
mais forte para a cabega de chapa, o go-
vernador Simao Jatene, ji disse que acei-
ta ceder seu lugar na dispute para a ree-
leicio se o antecessor, Almir Gabriel, qui-
ser voltar ao poder. Independentemente
de saber se esse compromisso resisted hs
ultimas conseqiincias, ainda nio se tern
certeza da reciproca: se o ex-governador
Almir Gabriel arregaqard as mangas (que
deviam estar postas na tranqiiilidade do
cultivo de orquideas) e fari campanha pelo
seu successor (e future antecessor, se a
ciranda tucana der certo).
Se Jatene acabar optando pela candi-
datura ao Senado, sua vice, Val6ria Pires
Franco, ji se comprometeu a completar o
mandate, exercendo o governor pelos l6ti-
mos nove meses. Nesse caso, o compa-
nheiro de chapa de Jatene seria seu secre-
tario especial de gestio, S6rgio Leio, que
se filiou em tempo oportuno ao PFL de Va-
l6ria e de seu marido e president do parti-
do, o deputado federal Vic Pires Franco.
Se Jatene nio for mesmo candidate,
o PFL consider compromisso firmado
que Valiria seja a companheira de cha-
pa de Almir Gabriel. Ela continuaria como
vice-governadora, tendo apenas o cuida-
do de nio assumir o governor nas ausen-
cias do titular para assim evitar a incom-
patibilizacgo. Seu marido poderia dispu-
tar o mesmo cargo que ocupa atualmen-
te. S6rgio Leio ficaria de fora. Corn uma
compensaaio qualquer dourada.
Tudo seria perfeito se nio houvesse
uma caracteristica nos tres mandates


sucessivos de governadores tucanos
(dois cor Almir e um cor Jatene): o
vice nunca foi o mesmo. Primeiro foi
H6lio Gueiros Jdnior, escolhido por Al-
mir porque atrairia votos na faixa domi-
nada pelo pai, entio prefeito de Bel6m.
Na interinidade de Almir, que se afas-
tou para cuidar da sadde, Helinho se in-
compatibilizou cor o titular. Acabou
abandonando a political (ou vice-versa),
depois de fazer companhia ao pai numa
suplencia ao Senado que fez agua.
Embora de forma menos traumitica,
o fen8meno se repetiu com Hildegardo
Nunes (hoje no PMDB), porque ele n5o
seguiu as determinaq6es do chefe, muito
afeito a dar ordens. Valdria Pires Franco
coloca em cheque essa escrita: spbrevi-
verA no cargo para um segundo mandate
ao lado de um tucano?
Porta-vozes da coligacio situacionis-
ta responded que a "Uniao pelo Pari"
esti afinada. Da boca para fora, sem
d6vida. Mas nio nas conversas reserva-
das. Um grupo do PSDB continue a tra-
balhar pela nova candidatura de Jatene,
achando que ainda pode convenc6-lo. Se
o fizer, nio serd por raz6es explicitas.
Na entrevista que concede ao pro-
grama Sem Censura, da TV Cultura, o
governador se declarou disposto a acei-
tar qualquer outro candidate (e nio ape-
nas Almir Gabriel), desde que tenha ga-
rantias da continuidade do projeto da
dita social-democracia para o Pari.
Como esse program comeqou corn
Almir Gabriel, ele preenche essa exi-
g6ncia. Logo, se nio for o candidate,
os motives para coloci-lo de lado te-
rio que ser de outra natureza.
Quando faltam de fato programs,
essa natureza 6 ficil de perceber: o exer-
cicio do poder para usufruto pessoal e de
grupo. Os grupos que se formam em tor-
no do chefe se encorpam e se tornam
mais famintos. O poder, por isso, fica
pequeno demais para ser repartido por
todos, os que ji o exerciam e os novos
inquilinos. As cisbes sio inevitiveis.
Apesar dos remendos, hi rachaduras
no bunker tucano. Alguns dos novos ocu-
pantes do governor andaram lanqando pe-
dras sobre o passado. Nem sempre por
atrito cor os antecessores: 6 que preci-
savam mostrar serviqo ao novo chefe, com
esse comportamento provocando colis6es,
discretas, mas penetrantes, cor o antigo
chefe. Hi ciumadas em jogo. Dai perma-
necer a expectativa de que Simio Jatene
ainda saia candidate. Alguns de seus alia-
dos respirario aliviados da conting6ncia
de reencontrar Almir Gabriel cor o chi-
cote do poder nas mios.


Jader Barbalho saird pelo lado opos-
to? Esta 6 uma novela ainda mais mis-
teriosa. Se as sondagens preliminares fo-
rem uma correta antecipaaio da reali-
dade, o lider do PMDB nio seri adver-
sario h altura do candidate tucano, seja
ele Jatene ou Almir. Desde que, natu-
ralmente, a said de Jatene do governor
nio mine a sua base official de apoio.
Apesar de todas as declaraqoes favo-
rAveis a vice-governadora, que vem ten-
do desempenho destacado no seu car-
go, observa-se um certo halo de insegu-
ranqa nesse aspect, o que responderia
pela permanincia de Jatene no cargo,
em favor de uma sucessao dentro do
PSDB, sem maiores ameaqas.
Os n6meros das pesquisas desacon-
selham Jader Barbalho a se arriscar a
uma segunda derrota na dispute pelo
governor. O risco 6 muito alto, embora
a impossibilidade da vit6ria esteja rela-
tivizada pelo que ainda pode acontecer
at6 o dia da eleilio. No entanto, o
PMDB nao resistiri a mais uma absti-
nencia em eleiqio majoritiria ou a
uma derrota veiat6ria.
O comportamento do ex-ministro tem
a desenvoltura de um candidate ao go-
verno, mas seu objetivo pode ser o de
um guardador de lugar (para um candi-
dato cor menor indice de rejeiqdo do que
ele), caso suas tratativas cor o PT nao
Ihe assegurem um calor official do mes-
mo porte do que o governor do Estado
proporciona ao candidate situacionista.
A opqio do PT 6 mais clara: se 6
para disputar corn alguma margem de
possibilidades o 1 turno, sua escolha
recairA sobre a senadora Ana Jilia Ca-
repa, que sempre se mostra refratiria
ao sacrificio, mas terminal por se sub-
meter a ele, transformando-o em usu-
fruto. No entanto, desta vez Ana Jilia
estara mais suscetivel a golpes abaixo
da linha da cintura, como se diz na lin-
guagem do boxe (onde agora o antigo
sexo franco tamb6m pontifica). Preci-
sard de um calor de maior intensidade,
o que acrescentari mais riscos de quei-
madura d sua candidatura.
O PT pode tamb6m escolher um can-
didato figurative, mas menos suscetivel
as baixarias de praxe nas campanhas
eleitorais, se realmente houver um acor-
do s6lido cor o PMDB. Mas essa soli-
dez, se eventualmente existir, nao 6 ain-
da visivel. Ou talvez nio o seja nunca.
Olhando para as piginas de journal, de
qualquer maneira, v6-se pouco. As coi-
sas acontecem por detrAs dos bastido-
res, a distincia do legitimo interesse da
opiniio p6blica.


Jornal Pessoal IPQUINZENA FEVEREIRO DE 2006 3









Assassinato de Dorothy um ano depois: duvidas


Um ano depois, os principals acusa-
dos de participar do assassinate da mis-
sioniria americana naturalizada brasi-
leira- Dorothy Stang, consumado no dia
12 de fevereiro de 2005, em Anapu, no
Para, estlo press e foram julgados ou
aguardam julgamento. Ha ainda boatos
em curso sobre a omissdo da investiga-
gqo policial a respeito de um ou mais
mandantes, mas sem comprovaqCo fac-
tual nas suspeitas. O crime realmente nao
ficou impune, mesmo sem o deslocamento
do feito para ajustiqa federal, como pre-
tendiam os aliados da freira, descrentes
da eficicia do judicidrio paraense.
A justiqa, desta vez, foi mais c6lere e
decidida do que o executive. O governor
federal prometeu criar um escrit6rio lo-
cal e fazer ministros e seus subordinados
circular permanentemente pela area, res-
pondendo as demands da sua popula-
qao. O compromisso nio passou de so-
nho num dia de verio, mais uma vez. Por
isso mesmo, quando os enviados de Bra-
silia chegam ao vale do Xingu, hoje uma
irea corn o nervo exposto, sio recebidos
com indiferenqa ou hostilidade. Ainda nao
provaram diferir dos tecnoburocratas do
passado, cujo interesse pelas agruras do
sertdo sempre se mostrou intermitente.
Esse 6 o grande desafio do poder cen-
tral: aproximar-se da periferia, abando-
nada, desprezada e desconhecida. As
ferramentas e t6cnicas de acompanha-
mento a distancia se sofisticaram tanto
que permitem ao monitor dos fatos, usan-
do o sat6lite como a extensio do olho e
os computadorescomo o prolongamento
da cabeca, estar em dia com os aconte-
cimentos. Mas sem que isso signifique
compreensao da realidade. Menos ainda
participaqio na hist6ria.


Nao ha divida que o sertao tem seu
"rebatimento" (como dizem os t6cnicos
em seu patois acad6mico) no centro das
decisoes e que nessas instancias ha tan-
to a solidariedade em estado de espirito
como o empenho em acertar entire t6cni-
cos e dirigentes. Mas a complexidade da
vida real jamais sera inteiramente exau-
rida pela sua reconstituiq~o intellectual, por
mais que esta se express atrav6s de
imagens de satl6ite em tempo real e ou-
tras criaq6es do process virtual de co-
nhecimento, que costumam causar im-
pacto. No campo, os pap6is se confun-
dem, os models sio contraditados e a
dinimica escapa ao esquematismo de
variAveis em exame laboratorial.


Em terms mais simples, isto quer di-
zer que hi uma distancia considerivel
entire os esquemas analiticos e explicati-
vos de Brasilia e a realidade em Anapu.
A presence constant do poder pdblico,
seja com sua face de control e pressao
como pelo prisma de produtor de id6ias,
6 vital para que as coisas tenham conse-
qtincia e evoluam.
O brutal assassinate da irmi Dorothy
mobilizou muito mais do que se ela tivesse
continuado a agir e pregar em vida, o que 6
uma constatacao lamentivel, embora ine-
vitivel, a atestar o desperdicio human na
fronteira. Mesmo o impact da sua execu-
qio, por6m, n~o foi suficiente para quebrar
a barreira que isola a Amaz6nia do restan-
te do pais. Cabe perguntar tamb6m se o
que a missioniria queria realizar represen-
taria, se pudesse ser levado as suas ultimas
conseqiencias, algo muito melhor do que o
receituirio federal de desenvolvimento sus-
tent~vel, regional ou que qualquer outro ad-
jetivo a ele acrescido.
O forte da atuadio de Dorothy Stang
era seu comprometimento integral e deci-
dido com a causa dos desassistidos ou mar-
ginalizados pelo "sistema". Ainda assim,
essa militancia nio significava que ajusta
causa era tamb6m vidvel, que podia "pe-
gar". Ou ao menos ainda nio chegara ao
moment de demonstrar essa viabilidade.
Agora que a lideranqa do process foi vio-
lentamente eliminada, o que resta dele?
Descobrir o legado, submete-lo a teste
de consistencia e experimenti-lo 6 o que
se devia fazer antes de consagra-lo ou
rejeiti-lo. Na Amaz6nia, por6m, esse mo-
mento raramente chega. Sua hist6ria 6
descontinua. E essas interrupq6es geral-
mente sio traumiticas, como o triste des-
tino da missiondria parece confirmar.


FALHA
Por falha na cola-
gem, o texto da "an-
tologia" ficou inteligi-
vel: minha apresenta-
qio comeqou no se-
gundo paragrafo e o
texto de Cavaleiro de
Macedo s6 ter con-
tinuidade na segunda
parte da mat6ria. Se-
guindo esse roteiro o
nobre leitor decifra-
ra o enigma. Espero
que jA o tenha feito.
Mil desculpas: mais
uma sabotage do
computador.


CARTAS
As duas cartas abaixoforam enviadas ao site
Observatorio da Imprensa a prop6sito do meu
artigo "A vil agressdo, um ano depois",
reproduzido na revista eletronica de Sdo Paulo.
Jornalista de verdade
Acompanho este triste epis6dio na Amazonia
"chic" desde o inicio. Lamentavel que noto, em meio
a toda a classes m6dia paraense, miniscula e ame-
drontada que 6 dos poderosos locais, que assentem
por medo e identificacqo cor os agressores. A clas-
se menos instruida de Bel6m fica entire O Liberal e
o Didrio do Para, extremamente parecidos em sua
origem, todos sabem em Bel6m. Parab6ns Licio
Flivio pela coragem. O senhor parece o inico jor-
nalista de verdade que li de Bel6m. Que listima para
os paraenses, o senhor parecer o fnico. Ha talent
demais por af, mas acredito que o medo 6 muito maior.


Um dia um amigo frances nto foi Voltaire ap6s
adorar conhecer o Brasil, relatou-me com franque-
za a sua conclusao sobre o nosso paradoxo como
pais, bem exemplificado no Pard, igual, do Oiapoque
ao Chuf: "Au Br6sil, la culpe est toujours a la victi-
me!" (No Brasil, a culpa 6 sempre da vitima!)
Marcelo Monteiro, Rio de Janeiro-RJ -
Paraense de coragao

Salvos do abismo
Luicio, sou leitor do JP e sei, em parte, as difi-
culdades que voc6 enfrenta para manter esse peri-
6dico onde temos realmente um dos poucos meios
de boa informaqao ejornalismo. Gostaria de agra-
decer pelas mat6rias e por nos tirar do abismo da
desinformacio que impera em grande parte da mf-
dia brasileira. Seja forte como sempre foi, pois os
bons se mantem e os outros fazem seu pr6prio firm.
Saul Rassy, Belim-PA Fisioterapeuta


4 FEVEREIRO DE 2006 I"QUINZENA Jornal Pessoal









0 Liberal: o contrast nas contas do balanco


A reportagem de capa da edigio an-
terior sobre o investimento que o grupo
Liberal faz em seu novo parque grifico
provocou varias mensagens de leitores,
que manifestaram sua surpresa e admi-
raqio corn a capacidade empresarial da
corporaqio. A surpresa 6 partilhada por
este journal, a partir da anilise da situa-
cao econ6mico-financeira da empresa,
espelhada por suas contas.
Pelo balango de 2004, a Delta Publici-
dade era uma empresa em estado pr6-fa-
limentar. Seu patrim6nio liquido pratica-
mente deixara de existir. O prejuizo acu-
mulado, de R$ 15,4 milh6es, absorvera a
totalidade das reserves feitas para reava-
liaCo do ativo (de R$ 15,1 milhbes), e ain-
da desbastara cerca de R$ 300 mil do ca-
pital social (de R$ 657 mil). Como conse-
qiiencia, o saldo do patrim6nio liquido da
empresa responsivel pelo journal O Libe-
ral era de apenas R$ 336 mil, ou seja,
pouco mais da metade do capital social.
Na pritica, ao final de 2004 a empresa
nao pertencia mais aos controladores e sim
aos credores, com destaque para o go-
verno, a quem a Delta Publicidade devia,
de impostos nio recolhidos e parcelados,
nada menos do que R$ 26 milh6es (o equi-
valente a 30,3% do patrim6nio total, de R$
85,7 milh6es). A outros credores externos,
a Delta devia mais R$ 13,2 milh6es (15,4%
do seu patrim6nio). Os dois pesados en-
cargos somavam R$ 39,2 milh6es, repre-
sentando quase metade (ou 45,7%) de todo
o patrim6nio da empresa.
O quadro s6 nio era pior porque o res-
tante do endividamento, de R$ 46,1 milhoes


(53,8% do patrim6nio total), fora contraido
junto a "pessoas ligadas", ou seja,junto aos
pr6prios controladores. Curiosamente, es-
ses principals credores eram, tamb6m, os
principals devedores da empresa. As divi-
das dos controladores para corn sua pr6-
pria empresa eram de R$ 32,6 milh6es.
Os tr6s d6bitos registrados no balan-
co (de R$ 26 milh6es, R$ 13,2 milh6es e
R$ 46,1 milh6es) somavam R$ 85,3 mi-
lhWes. Isto significa que dos R$ 85,7 mi-
lhoes que constituiam em 2004 o patri-
m6nio administrado por Delta Publicida-
de, dona do maiorjornal do Norte do pafs,
R$ 85,3 milh6es ou 99,5% do total dos
seus ativos pertenciam a credores.
A situaq~o parece ainda mais preo-
cupante por dois fatores. Em primeiro
lugar, porque a empresa vem acumulan-
do prejuizo de ano para ano. Em segun-
do lugar, at6 como efeito dessa repeti-
Cao, pela tendencia nio no sentido da
recuperagio, mas do agravamento do
problema de descapitalizadio da empre-
sa. O prejuizo de 2004 (de R$ 15,4 mi-
lhoes) foi maior do que o de 2003 (R$
14,8 milh6es), em terms nominais, sem
corretio. Se essa tendencia nao for mo-
dificada, a empresa caminhard para uma
crise profunda. A nio ser, 6 claro, que o
balanqo nio reflita de forma alguma sua
verdadeira satde econ8mico-financeira.
Mas se os ndmeros espelham a reali-
dade, a pergunta que cabe fazer 6: como
Delta Publicidade suportari o pesado in-
vestimento industrial que esta realizan-
do? De que forma essa aplicacio de ca-
pital se tornou viivel? Esse investimento


modificard a tendencia que a empresa
seguiu nos iltimos anos?
Por enquanto, corn base nos dados dis-
poniveis, 6 possivel fazer essas e virias
outras perguntas. Mas nao respond6-las.
Se novas informac6es nao surgirem, inclu-
sive corn as contas do joral O Liberal do
exercicio de 2005, capazes de mudar o pa-
norama atual, ojeito serd esperar pela adio
desse ator decisive na hist6ria humana.
A realidade contibil de Delta Publici-
dade 6 surpreendente diante do poder da
empresa, mas esses ntimeros constam do
balanqo encerrado em 31 de dezembro
de 2004, apresentado a seguir de forma
resumida, corn os valores de referencia
do exercicio anterior:
Em R$ 1.000
Especifica5Aio 2003 2004
ATIVO
I Ativo circulante 21.512 28.833
Disponivel I1.685 20.705
Clients 3.292 2.542
Esto ues 2.655 821
Outras contas 3.880 4.765
II Realizivel a long prazo 27.267 32.568
Crdditos de pessoas ligadas 27.267 32.568
III Permanente 29.881 24.298
Investimentos 110 110
Imobilizado 29.771 24 188
Total do Ativo (1 +11 + 1II) 78.660 85.699
PASSIVE
S- Passivo circulante 16.072 13.246
Forecedores 2.915 3.451
Instituiq6es financeiras 10.482 4.984
Impostos e contribuiGes 1.291 1.183
Salarios e honorarios a pagar 1.111 1.196
Outras contas 273 2.345
IRPJ a recolher
CSSL a recolher 87
II Exigivel a long prazo 60.740 72.117
Parcelamento de impostos federal 25.016 25.970
Debitos de pessoas ligadas 35.724 46.147
III Patrim6onio liquid 1.848 336
Capital social 657 657
Reserves de reavaliaqio 16.004 15.071
Lucros/prejuizos acumulados (14.813 (15.392)
Total do Passivo (I + II + II) 78.660 85.699


Nova macrodrenagem


O projeto "Portal da Amaz6nia", que a pre-
feitura de Bel6m anunciou na semana passa-
da, ter prop6sito audacioso e inovador: fazer
uma cidade que sempre foi saqueada na sua
orla conquistar nova terra. Ao inv6s de desa-
propriar e remanejar os portos que foram se
instalando irregular ou ilegalmente no litoral da
cidade pelo lado do Guami, a prefeitura vai
criar uma nova avenida, com seis quil6metros
de extensio por 70 metros de largura, desde o
Mangal das Garcas at6 o campus da Universi-
dade Federal do Para, atrav6s de aterro lanCa-
do sobre o rio, por tris dos terminals. Eles, que
usurparam essa imensajanela para o rio, ago-
ra ficario a seco. Um tardio mas necesslrio
- ajuste de contas da populacio prejudicada.
A proposta do projeto 6 salutar, mas, a rigor,
nio ha projeto. Ha uma intencio, que 6 boa,
mas ainda nio hi como debate-la em profun-


Jornal Pessoal I"QUINZENA FEVEREIRO DE 2006


didade (ou entio os documents estdio por ser
apresentados ao distinto ptblico). E isso 6 ne-
cessario, urgentemente necessfrio. Ao mesmo
tempo que lancou o "Portal da Amaz6nia", a
prefeituraja estabeleceu abril como a data para
o inicio das obras e definiu seu oraamento em
125 milh6es de d6lares. Como o "portal" 6 ape-
nas parte de uma obra maior, a macrodrena-
gem da Estrada Nova, anunciada na adminis-
traaio H6lio Gueiros, jA 6 muito dinheiro envol-
vido. E muito mais ainda em perspective.
Por enquanto, a verba nio existe. Vai de-
pender do parecer que o governor federal de-
verd dar a respeito no pr6ximo m6s. Justamen-
te por isso, espera-se que a PMB convoque
urgentemente audiencias ptblicas para a dis-
cussio do seu projeto. S6 assim mostrari sua
disposiqdo de provar que sua boa intenqbo 6
mais do que pontap6 inicial.


BORRACHA: FORA

DO MERCADO
Os produtores esperam que
logo o preqo da borracha
natural bata todos os
records, chegando a dois
mil d6lares a tonelada. E o
mais elevado valor desde
que a Amaz6nia perdeu o
monop6lio da produqio, hi
um s6culo. Hoje a regiio
nio existe no mercado
international. A China,
absorvendo 30% de toda
demand, ji 6 o maior
consumidor mundial. No
Brasil, as expanses dos
cultivos de seringueiras
acontecem principalmente
em Sao Paulo.








Contratos florestais: ate quando possiveis?


A noite do dia 1, entire 19 e 23 horas,
foi gasta pelos senadores em discusses
acaloradas, embora em geral bizantinas,
para, no final, por 39 a 14, cor uma abs-
tengio, aprovar a lei que permitird ao
governor fazer concess6es a particulares
para a exploraqao de florestas p6blicas
na Amaz6nia. Referendada pela CAma-
ra dos Deputados, a lei foi confirmada e
remetida h sanqo do president da Re-
pdblica para ser posta em execugao.
Novidade que sera assumida por um 6r-
gio novo, ao menos no nome: o Serviqo
Florestal (que, em remote passado recen-
te, atendeu pela designaqgo de ma me-
m6ria de IBDF Instituto Brasileiro do
Desenvolvimento Florestal).
Na verdade, o desenvolvimento nao
veio, mas a floresta vai-se a passes lar-
gos. Serd incompativel que caminhem de
bragos dados, o desenvolvimento reque-
rido e o florestal que Ihe 6 premissa ou
condicio? No novo ensaio, que desta vez
seria para valer, finalmente se estaria
comecando a substituir a cultural do des-
matamento pela cultural da floresta, com-
promisso de campanha de Luiz Indcio da
Silva que tinha como refer6ncia a "flo-
restania" acreana e, agora, ter como
base o imponderaivel.
Mas haveria como comegar quase do
marco zero? O Brasil ter um terqo das
florestas tropicais remanescentes da Ter-
ra, mas nosso pais 6 um detalhe na pro-
duqio florestal mundial. As florestas tro-
picais guardam a maior fonte de biodi-
versidade do planet, mas os brasileiros
em geral e os amazonicos em particular
(que raramente conseguem ser amaz6-
nidas de verdade) dominam pouco essa
diversidade. Como conseqiiencia, pouco
proveito tiram dela. Em tal situaqdo, o
ponto de partida nio ter que ser exata-
mente o desconhecido?
No melhor moment do melanc6li-
co debate parlamentar, o senador gadi-


EDUCA AO RUIM
O Pard 6 o campeio brasileiro de re-
petincia na I" s6rie do ensino fundamen-
tal: mais da metade (54% 6 a proporqio
exata) das criancas cor 6 anos nio pas-
saram de s6rie no seu primeiro ano es-
colar. Apenas tr6s outros Estados fica-
ram acima da metade das repetencias
em 2004: Bahia (52,9%) e Piauf
(51.6%). O menor indice de repetencia
6 o de Sio Paulo, cor 4,6%. O fato 6
muito preocupante pelos prejuizos que
poderA causar a uma crianqa que inicia
sua vida escolar com insucesso.


cho Pedro Simon, contririo ao projeto,
foi desconcertantemente sincere: "Nao
entendo mais nada. Nao entendo o que
esti acontecendo. Nio entendo que
apaixonados pela Amaz6nia estejam tio
tranquilos, defendendo com tanta con-
vicqio este projeto". Voltando-se para
seus pares nesse moment de d6vida
primal, indagou-lhes: "Qual o estudo
que o Congresso brasileiro ter feito
sobre a Amaz6nia?".
Diante do sil6ncio ou das respostas
insatisfat6rias, Simon, lidimo representan-
te de um Estado praticamente j sem flo-
restas, por nio as ter tido ou hav&-las di-
zimado, props que a votaq~o da lei de
concess6es florestais fosse adiada. Por
quanto tempo, nio precisou. Talvez pelo
tempo necessario para que a razio de
tanta ang6stia cognitiva desaparega: a
pr6pria floresta, 6 claro.
Ha d6cadas vem-se adiando enca-
rar de frente e conseqtientemente a
questio. Tres d6cadas atris, quando a
necessidade de dar um fim mais nobre,
inteligente e produtivo as florestas este-
ve em foco, o debate foi sepultado sob
perplexidade identica a do nobre sena-
dor Pedro Simon porque se temia que
as "florestas regionais de rendimento",
o conceito entio em uso, fossem nada
mais do que contratos de risco, propos-
tos pelo nefando F. SchmiUthssen. Se-
melhantemente aos contratos petrolife-
ros, que foram propostos pela adminis-
traqio Geisel, eles levariam B desnacio-
nalizaqio de um recurso natural valioso
e estrat6gico para o pais.
Os contratos de risco florestais nio
safram e os contratos petroliferos nio
foram o biombo maquinado pelas mul-
tinacionais, por motives distintos dos
que entio alimentavam os temores na-
cionalistas. A floresta continue inteira-
mente nossa, a despeito da ameaca dos
malaios, mas cada vez menores. A


O Pard apresenta outro indice gra-
ve, segundo levantamento realizado pelo
IBGE: 6 o s6timo Estado brasileiro com
mais crianqas de 6 anos fora da esco-
la: esse indice 6 de 18,6%, id6ntico ao
do Rio Grande do Sul, que, estranha-
mente (tornou-se padrio educational
quando Leonel Brizola o governor, na
d6cada de 60 do s6culo passado), estA
tamb6m em situacio ruim. Piores do
que o Pard, nesse aspect, encontram-
se Rond6nia (32,8%), Amapi, Amazo-
nas, Acre, Tocantins e Roraima.


auto-suficiencia brasileira em petr6leo
foi alcancada, a par da diversificaqao
das fontes de suprimento. Nem por isso
somos a potencia mundial em que ima-
ginivamos nos transformar quando a
faqanha fosse realizada. Pelo contra-
rio: caimos da 8" para a 10" posiqio num
indicador, o do PIB, incapaz de medir
adequadamente o desenvolvimento. Em
outros indices mais sensiveis caimos
pelas tabelas.
Mesmo sem entrar no imago da con-
troversia que se armou sobre os contra-
tos de concessio (ou de privatizaqido, na
interpretagio mais rude), de forma simi-
lar h dos contratos de risco, parece que a
attitude national 6 exatamente aquela a
que chegou o senador gaucho no auge
do process reflexo da camara alta: na
divida, 6 melhor nio arriscar. Na divi-
da, continue a apropriaqio ilicita da ter-
ra, o seu uso perdul6rio (e por vezes cri-
minoso), a destruicio florestal.
E procedente a desconfianca de que
qualquer forma de parceria entire a ad-
ministraqio piblica e o capital privado na
exploralio de florestas se reduza i ex-
peri6ncia desastrada da Maldsia ou ao
format completamente ex6tico de gran-
des produtores de madeira, como a Fin-
lfndia, que nao cabe na realidade brasi-
leira. Mas qual o outro parimetro? Aqui,
a tarefa 6 mesmo de fundaiao (bastan-
te) e invenqio (alguma), cor o mAximo
de cautelas possivel. Enquanto hi floresta
para ser experimentada.
Mesmo porque hi sempre o risco de,
como nos contratos de risco, a melhor
alternative para todos os que querem
continuar a reduzir a Amaz6nia, ao final
de cada temporada de fogo, seja deixar
como esti para ver como 6 que fica.
Todos sabem como ficar6 a floresta: re-
duzida a cinzas e a usos menos nobres
do que 6 possivel ao menos tentar, expe-
rimentando o novo. Para valer.


O Pard encontra-se tambem em
ma situaqio na proporqio de crian-
cas no ensino fundamental, que 6 ape-
nas o 18 do Brasil, corn 23% (Rio
Grande do Norte 6 o lider, cor
42,1%). O Pard nio esti bem em
outro quadro, o das crianqas de 6 anos
na pr6-escola: elas representam ape-
nas 58,4% do total, colocando o Parai
em 130 lugar no pais. No Distrito Fe-
deral, Estado lider, esse indice 6 de
78,2%. Em Sio Paulo, 2 colocado, 6
de 73,8%.


6 FEVEREIRO DE 2006 IlQUINZENA Journal Pessoal







ANTOLOGIA


Um dia de tragedia na imprensa do Pard


Foi inuito triste o dia 11 de abril de
1950 na hist6ria da imprensa paraense:
Paulo Albuquerque Maranhdo, dono e
o principal redator da Folha do Norte, :
entdo com 78 anos de idade, caminlava
para o seu local de trabalho quando foi r>'
surpreendido por algu6n que derramou i-
sobre a sua cabega unia vasilha cheia
de excremento humnano. Nem a idade ne.
o concerto da vitima, o maior jornalistai
que o Pard jd teve, foram considerados \
pelo autor do inusitado e nojento aten-
tado. Na ocasido, a maior vitima dos vi-
rulentos artigos que Paulo Maranhdo es-
crevia era o coronel Magalhdes Barata,
que por duas vezes fora interventor no
Estado e sofreria, naquele mesmo ano,
sua maior derrota eleitoral, perdendo o
governor para outro official do Exercito,
o marechal Zacharias de Assuimppdo.
No dia seguinte, Paulo Maranhio res-
ponsabilizou Barata pela molecagen vil,
embora o senator estivesse no Rio de
Janeiro. 0 autor intellectual do ato teria sido o future de-
putado estadual Armnando Corr&a, a partir desse moment
rebatizado na Folha coin o apelido de Armando "Trampa"
(o mesimo que excremento). Mas os fatos nunca foram sufi-
cientemente apurados, tal a virulencia da dispute political
entire baratistas e anti-baratistas. Umia reconstitui(do mais
detalhada do episddio s6 tornaria conhecida 37 anos de-
pois: ainda que pela via ficcional, o neto de Paulo Mara-
nhlo, Haroldo, deu urn precioso testemunho sobre aqueles
dias de 6dio e violencia (sempre sujeitos a refluxo no Grdo-
Pard) em Rio de raivas, ium de seus grades romances.
Trata-se de um tfpico roman h cl6f, no qual personagens
reais sao camuflados pela inesgotivel inventive do autor. Paulo
Maranhio aparece como Palma Cavalio, embora nessa nova
configuragio haja tamb6m components do pai de Haroldo,
Jolio Maranhao, o eterno gerente da Folha (que, no livro, 6 o
Folharal). Coronel Cagarraios Palicio 6 a mascara de Barata,
enquanto Ebr6ia mal esconde Dalila Ohana, com quem o te-
nente de 1930 viveu os 6ltimos 21 anos, em regime de concubi-
nato. Inoc6ncio Liberal 6 Armando Corr6a e o doutor Clotirio


provavelmente 6 o senador Lameira Bittencourt, seu amigo
mais intimo.
A reconstituiico de Haroldo Maranhdo esta muito lon-
ge de ser passional. Ele exime Barata de culpa pelo aten-
tado. Na segunda parte da narrative, Haroldo se coloca
na perspective do maior caudilho da political paraense,
inimigo mortal do av6, em nome de queni muitas violencias
foram cometidas, coin ou sem o seu conhecimento, mas sem-
pre para agradd-lo on livrd-lo daqueles que Ihe eram in-
cOmodos. Comn o saber intimo que possuia da cena para-
ense, Haroldo tambein registrar um instantaneo field dos usos
e costumes da terra, alguns ainda em vigor, inclusive os
incivilizados, como as agressdes a jornalistas critics.
Para a informanodo dos mais novos, assim como em ho-
menagem o grande Haroldo Maranhdo, que morreu emi
julho de 2004, aos 77 anos, reproduzo parte dos dois ca-
pitulos que tratam do triste episcdio de 1950. Tambden lem-
bro a figure dostoievskiana de Paulo Maranlhdo, cujo fa-
lecimento, aos 94 anos, em 1966, completard 40 anos no
prdximo dia 15 de mnaro. Conven avivar a memnria.


N aqueles tempos, merda nio era
insulto abstrato mas artefato
ofensivo, feito o que lanqaram na
cara de Palma Cavalio, que aceitou a
merda de animo inteiro, como de p6 teria
ficado se em vez de bosta Ihe tivessem
vazado i faca o baixo venture, ou Ihe es-
patifado o peito a balas de aqo. Uma bom-
ba que Ihe explodisse as visceras, nem
piscar piscaria. Olharia nos olhos o ma-
tador e quando fossem seguri-lo para nio
cair j seria um morto.
Palma Cavalao corn os dedos atirou
fora o exagero da bosta, abundante aque-
la toda merda de nenhuma precisao, que


dois punhados teriam causado igual es-
trago, humilhando-lhe a cara, que 6 o que
quiseram, humilhar-lhe a cara. Nao sabi-
am e nio souberam que o orgulho nio
sobrou. Nio sujaram a alma do velho, que
foi o que se quis, melar de merda a alma
de Palma Cavalao, o agravo seguindo-o
pelo resto de vida. Merda assim endure-
ce como barro, seca, empedra, grudada,
soldada na pele da alma, fede anos, fe-
dor de alma nao se lava a sabonete. Pal-
ma Cavalao sem press e sem raiva li-
vrou-se do grosso do excremento. Havia
desembarcado do autom6vel, chegou a
"dar tres, quatro passes, quando o insulto


o atingiu. Parou. Outros apressariam a
fuga, de medo nio, de vergonha da pasta
escorrendo devagar. Nao mostrou o mi-
nimo sinal da ira fechada na garganta.
Conhecia os costumes, Botou a merda
de banda e seguiu.
Meteu a chave da porta e horroriza-
da a mulher gritou: "Palma! Que foi
isso?" "Merda, mulher. Nio enxergas?
Nio sentes o cheiro? Merda".
A mulher preparava-lhe um peixe.
Acabara de enfiar no forno uma pesca-
da-amarela depois de lambuza-la de mo-
lhos. Dona Pomp6ia entrou em choque.
CONTINUE NA PAG 8


Journal Pessoal I'QUINZENA FEVEREIRO DE 2006 7






CONTINUAAO DA PAG. 7
Quando que podia imaginar estrago as-
sim? Nao entendia, como poderia enten-
der? Pensou um disparate: "O Palma nem
vai quererjantar! Jurard que 6 bacu, que
bacu come merda. Ora, bacu, bacu nio
me entra em casa. Mas 6 home de en-
casquetar absurdos. E bacu, mulher, 6 o
que vai dizer. S6 por causa da merda dele
af". Dona Pomp6ia acionava provid6nci-
as. Puxou o marido pelo palet6 e trouxe-
o para dentro, que curiosos aproximavam-
se. "Palma, passa pra dentro". E jA veio
de balde d'agua e cor o primeiro pano
que pegou. Tirou-lhe o palet6 e fez a fa-
xina grossa. Mas o cheiro teimava, pare-
ce que havia invadido os poros, a raiz dos
cabelos, para sempre. Trouxe Agua de
Alfazema da Phebo, esfregou-lhe o len-
qo ensopado no rosto, conseguindo re-
sultado hibrido, de fragrancia de mistura
cor fedor. "Agora vem, Palma, vem co-
mer teu peixe. Eu te prepare um refres-
co de murici que mandei buscar em For-
taleza". "0 mulher, e achas que posso
ter vontade de comer? Vou 6 tomar ou-
tro banho, que tu me transformaste num
sache de bosta e patchuli". Dona Pom-
p6ia baixou os olhos, nao conseguindo
afastar o pensamento da humilhaqco im-
posta ao velho. "Espera af". Tivera uma
idWia. Foi ao petisqueiro, onde guardava
de um tudo. Pegou o vidro de copaiba,
sempre a mao. Uma garrafa de Guarand
Sorbilis. Um resto de mamona cor ca-
romelano. Um vidro de Quina Lydia. Um
de Capivarol. O Especifico Pessoa. O
Oleo de Mutamba. O Antiphlogestine. O
Xarope Bromil. O Fluxo Sedantina. O
Elixir de Nogueira. Um pacote de sebo-
de-holanda. E as suas providenciais Pi-
lulas Aloicas. Veio cor a braqada de fras-
cos e a poncheira da gengibirra. Paulo
Cavaldo. Palma Cavalao calado assistia
as diligencias da mulher, que se sentou
despejando o conteddo dos vidros na pon-
cheira. "Pronto, Palma. Vou te esfregar
este preparado meu. Nao ficard nem lem-
branca do que te fizeram. No fim, passo-
te uma camada de Creme Rugol". En-
quanto esfregava o marido cor estopa,
Dona Pomp6ia deixava livre correr a sua
raiva. Ah, se eu pegasse aquele corno
manso, nao largava mais, esganava, es-
ganava, que ele morreria roxinho-roxinho.
"Que 6 que tu achas que fez?". "Ora,
ora, Pomp6ia, ora, ora. 0 Cagarraios!
Quem pode ter sido? E o executor nao
foi outro senao o Inoc6ncio Liberal, vazi-
Iha muito ordindria". "E o que tu vais fa-
zer? Nao queres que eu telefone para o
advogado do Folharal? Para tomar pro-
videncias?" "Advogado??? S6 na tua
cabeqa de bacu. Nao 6 assunto para ba-
charel. Queres que a cidade ria de mim?
Na policia, o inquirito seria presidido por
quem? Pelo Inoc6ncio Liberal". Palma


Cavalao deu fortes passadas na sala:
"Vou contar o que houve pelo Folharal!"
"Vais escrever sobre isso? Contar o que
houve? Tudo?" "Vou. Tintim por tintim.
E vou batizar novamente o Inocencio Li-
beral. De hoje em diante sera Inoc6ncio
Liberal Bosta. Cem anos depois de mor-
to sera Inocencio Liberal Bosta. A mer-
da que ele me mandou atirar ji sumiu. Ja
o nome dele sera Inoc6ncio Liberal Bos-
ta. Se a familiar botar nojazigo Inocencio
Liberal ningudm sabera quem foi. Se de-
sejarem eternizar-lhe o nome terao que
mandar gravar no marmore Inoc6ncio
Liberal Bosta".

Odelegado Inocencio Liberal en-
trou pilido, um cadaver, no gabi-
nete do coronel Cagarraios Pa-
lacio. Erasto Brilhantina rosnou para Dr.
Pardinho: "Esse um entra inteiro e saira
aos pedacos". "E", Pardinho concordou,
"o home esta uma fera. Tu sabes que
grito quebra vidraqa? Qualquer dia ra-
cham os vidros das janelas af dentro. O
berro do home nao 6 berro, 6 choice .
"Dr. Liberal. Mandei chama-lo para
saber o que exatamente fizeram cor o
Palma Cavalao". "E, coronel, mandei dar-
Ihe uma li~go. Um banho de fezes". "Mas
o senhor? Foi capaz de uma mis6ria des-
sas?! O senhor 6 um porco. Porco imun-
do! Ouviu? Reaja, diga um ai, que eu
quero emporcalhar esta mao aqui na sua
cara. Cara cinica. O senhor 6 o individuo
mais sujo queja conheci at6 hoje, o mais
sujo. Um bandido. O senhor 6 um bandi-
do. E al6m do mais, covarde!" "Coronel,
o Palma Cavalao insult o senhor, insulta
a honra de Dona Ebr6ia." "Agora Ihe
pergunto: foi o senhor que fez o servio?
Pessoalmente? Foi? Foi o senhor?" "Nao,
coronel. Foi pessoa minha, de confian-
qa". "Pois nem precisava dizer que eu
sabia. O senhor era e 6 incapaz de um
gesto de bravura. O senhor 6 um cagao.
Ouviu? Um cagao. Deve estar cor as
calqas mijadas. Um covardaqo. Saia da
minha frente. Ja. Rua!"
A campainha soou. Dr. Pardinho me-
teu o focinho de paca e escutou a ordem
rouca: "Me chame o Dr. Clotirio!" Dr.
Pardinho correu para o telefone como se
corresse para acudir a mae engasgada
com um osso de galinha. Em cinco minu-
tos entrava o Dr. Clotario."Dr. Clotario.
Essa imundicie do Dr. Inocencio Liberal
cor o Palma Cavalao. Acabei de bota-
lo para fora. Miserivel. Que me diz?"
"Coronel Cagarraios: o caso foi grave e
lamentavel. Lamentivel. Mas esta feito.
A agressao foi estipida e ningu6m apro-
vard semelhante papel". "E o que vamos
fazer?" "Coronel: infelizmente nao ha o
que fazer. Como o sr. iria admitir publi-
camente que o seu delegado de policia
foi o autor intellectual do atentado? Me-


Ihor o govemo ignorar". "Ignorar, dr. Clo-
tario? Como posso ignorar um fato pibli-
co?" "E, coronel. O caminho 6 esse mes-
mo. Ignorar. Fazer vista grossa".
O coronel Cagarraios Palacio amas-
sou a brasa do charuto no tampo da mesa.
Os beigos eram estreita fitilha e haviam
sumido no interior da boca como se su-
gados. Olhava sem ver. Deu alguns pas-
sos pela sala cor dificuldade, como se
entire as coxas houvesse uma trava. Le-
vantou a cabeqa, empinou o peiro de pom-
ba, curto, sem cintura, como se tivesse
dois, tres, quatro lenq6is enrolados no
corpo, mimia obesa e de p6. Falou cal-
mo, ronco quase inaudivel: "Pode retirar-
se, dr. Clotirio".
ATO PORCO DE UM
GOVERNOR PORCO
Na primeira pAgina do Folharal abri-
am-se quatro colunas em que Palma
Cavaldo responsabilizava o coronel Ca-
garraios Palacio pelo atentado. Em
casa, o coronel falou r mulher: "Assu-
mo a responsabilidade, Ebr6ia". "Mas,
bern, nao foi voc6! Voc6 nao autorizou
uma coisa dessas". "Verdade. Mas nao
desautorizo meus amigos. O Dr. Ino-
cencio Liberal obrou mal mas agiu na
qualidade de meu amigo. Sou amigo dos
meus amigos. Pronto. Esti acabado.
Nao se fala mais nisso".
Dona Ebr6ia quis acrescentar qual-
quer palavra, chegou a abrir a boca, mas
ficou no gesto. Sentia-se uma recruta
subjugada pelo comandante, que quando
mandava fazia se obedecer. Nao tolera-
va que o contrariassem. Nem ela.
Cagarraios Palicio raramente mostra-
va o canino de ouro. A cara era cara dia
e noite carregada. Temiam os amigos que
a qualquer moment arguas rompessem
no c6u. O mais chegado amigo era Dr.
Clotario. Jamais o tratou por outra for-
ma, mesmo que estivessem os dois e mais
ningu6m numa sala trancada. "Dr. Clo-
tdrio". Nao admitia intimidades, ningu6m
atreveu-se a toca-lo no braco em gesto
amistoso, ningu6m. Gostava por6m de ter
os mais pr6ximos para almoqar. Um dia,
parece que o sol se derretera e lavas
recobriam a cidade. Os term6metros es-
touraram. Dos paralelepipedos elevava-
se um halito de fogo, de mil dragdes. Ao
descer a escada para a sala de almoco,
percebeu que os comensais costumei-
ros haviam tirado o palet6 e afrouxado
a gravata. Ele descia em mangas de
camisa mas retornou ao quarto. P6s gra-
vata e palet6 e sentou-se a mesa de ros-
to amarrado. Geral foi a debandada na
busca aos palet6s. No dia seguinte des-
ceu como na v6spera, em mangas de
camisa e a todos encontrou de palet6.
Sentou-se, respirou fundo: "Agora, os
senhores podem tirar os palet6s".


FEVEREIRO DE 2006 IlQUINZENA Journal Pessoal








Amazonia: a utopia aqui e agora, ja!


O recurso natural mais valioso da
Amazonia 6 a sua floresta, que repre-
senta um terqo de toda floresta tropical
da Terra. Essa 6 uma verdade que a ci-
encia ji confirmou. No entanto, a ca-
racteristica mais marcante do process
de ocupaqio da Amaz6nia 6 a destrui-
aio da sua floresta. Em apenas meio
s6culo, a cobertura vegetal native per-
deu uma area de 700 mil quil6metros
quadrados, o equivalent a quase tres
vezes a extensio de Sao Paulo, o mais
rico Estado da Federaqio, com um ter-
go do PIB brasileiro. Nao hi nada igual
na hist6ria do Homo Sapiens. Qualquer
que venha a ser o resultado final da in-
corporaiao econ6mica da maior fron-
teira de recursos naturais do planet,
essa marca ji 6 definitive: nunca houve
tanta destruicao florestal.
Quando, entire o final da d6cada de
50 e o inicio dos anos 60 do s6culo pas-
sado, a rodovia a Bel6m-Brasilia uniu por
terra, pela primeira vez, a Amazonia ao
Brasil (que antes s6 se relacionavam por
via maritima e pelo ar), a alteraqio da
floresta original da regiio nio chegara
ainda a 1% da sua superficie. O home
se limitara hs margens dos rios navegi-
veis e a uma ou outra incursio ao interi-
or. Vivia do que os rios Ihe forneciam e
da coleta e extracio de alguns bens de
valor econ6mico, o mais important dos
quais seria a seiva da seringueira, trans-
formada em borracha.
Na segunda metade do s6culo XX a
Amaz6nia permanecia basicamente a
mesma que fascinara Euclides da Cunha
50 anos antes: a p6gina do Genesis que
Deus se permitira nio escrever, transfe-
rindo essa tarefa ao home, element
secundario na paisagem dominant. O
home, por6m, naio conseguia se tornar
um criador genuine dessa 6ltima pigina
da criacio: era um intruso.
Passado todo um s6culo, essa intru-
sio s6 fez se agravar. Entre as d6cadas
de 80 e 90 o home destruiu 20 mil qui-
16metros quadrados de floresta a cada
ano, em m6dia. Em 1987 bateu o recor-
de mundial de desmatamento em todos
os tempos: foram 80 mil km2 de floresta
densa e mais 120 mil km2 de outros tipos
de cobertura vegetal, segundo um ainda
polemico levantamento que o Inpe (Ins-
tituto Nacional de Pesquisas Espaciais)
realizou na 6poca.
O que a consciencia regional, nacio-
nal e international se questionam 6 so-
bre a base de sustentaqgo de ura atitu-
de t~o irracional como essa por tempo ji
tio prolongado (embora restrito ba am-
plitude da hist6ria humana). O agent do


process atua para exaurir o recurso mais
valioso que esti a sua disposiqgo. Nio
se trata apenas de p6r a perder um bern
de valor econ6mico, que pode gerar um
excepcional volume de receita. Essa pri-
tica significa tamb6m ferir gravemente a
capacidade de sobrevivincia da pr6pria
Amazonia e comprometer o papel que ela
desempenha no equilibrio da Terra.
Sem sua maciqa capa florestal, a re-
giio ficara exposta as intemp6ries, como
a lixiviaqao e compactaqio do solo, e a
transformar6es agressivas, como a dra-
mitica redudio de seu exuberante volu-
me de agua (sobre cujo alcance teve-se
um ensaio com a seca do ano passado),
num ciclo de conseqiiuncias para tris
catastr6ficas de verdade. Por outro lado,
deixard de haver a aqio ben6fica da vasta
floresta pan-amazonica (de tamanho
equivalent aos Estados Unidos e i Eu-
ropa Ocidental), de absorver parte da
poluiqio mundial.
As funq6es econ6mica e ambiental
que a Amaz6nia pode desempenhar nio
sio excludentes, ao contrdrio da visio
distorcida que alguns stores da opiniio
piblica tentam difundir. O "conservacio-
nismo"ji nio pode ser apresentado como
um entrave a producio de mercadorias.
Determinaiqes de proteqio a Terra, aca-
tadas em protocolos internacionais, cria-
ram um mercado nao-convencional tao
vasto quanto aquele pelo qual circulam
produtos tradicionais. A escala de trans-
formacio de determinado recurso natu-
ral depend do grau de informacio deti-
da por quem a ele ter acesso. O focinho
de uma cascavel pode ser modelo para
um missil teleguiado pelo calor. Uma cas-
cavel vale "x". O missil, um milhao de
"x". Quem sabe pouco mata a cascavel.
Quem sabe muito, a estuda e transfor-
ma, sem destruf-la.
A diferenqa, portanto, esti no saber.
O saber nio cai das arvores pronto, como
no sistema extrativo, do home coletor.
O saber 6 uma construcio. A constru-
qio do saber na Amazonia ainda 6 uma
obra apenas iniciada. O acervo que jA se
ter, insuficiente mas ainda assim expres-
sivo, colide cor o "modelo" de ocupa-
aio da regiio. O que a ciencia diz, o pio-
neiro nio ouve. Por fazer ouvidos de
mercador ou por desinforma~io, despre-
paro, ignora sugest6es e recomendaqoes.
O cientista se tornou a carpideira nessa
funesta cerim6nia de destruiqio do bem
mais nobre da Amaz6nia: vive a chorar e
lamentar que nio se tenha podido fazer
isso e aquilo, com o qual todos sairiam
ganhando, e se faca diferentemente. Em
long prazo, o que se faz 6 um crime de


lesa-humanidade. Mas em curto prazo
todos estaremos mortos, retruca o pio-
neiro, imaginando-se deus ex-machina do
pragmatismo, de um conhecimento que
cabe na cabega de um f6sforo.
Qual, entio, a said? Fazer mais ci-
encia. Nio ciencia para ficar circunscri-
ta ao local que a produz, nem aos livros
dos seus autores, aos seus curriculos
Lattes. A ciencia tem que ir para as fren-
tes nas quais se faz necessdria e nelas
plantar sua boa semente (e se a semente
nio for boa, nio 6 boa a ciencia que se
faz). Ou se promove uma revolucio ci-
entifica na Amaz6nia ou, amanhi, nao
haverd Amaz6nia seja para a ciencia
como para os amaz6nidas e todos mais.
E precise multiplicar os investimen-
tos em ciencia na regiao. Mas nio s6 isso.
E necessario former pessoal qualificado
na pr6pria regiio, invertendo o fluxo do
conhecimento. Boas verbas e boa estru-
tura fisica podem abrigar os centros do
saber que se encontram fora da regiao,
que sio vitais para ela, sem provocar a
migraqio de c6rebros. Esses centros -
de biotecnologia, engenharia gen6tica, flo-
restas, iguas, commodities, etc nio fi-
cariam confinados em campi centrais.
Eles seriam deslocados para os lugares
que constituem seu objeto de estudo ou
seu laborat6rio de aplicaqio. Nao ape-
nas especializariam e atuariam na p6s-
graduaqio: tamb6m graduariam estudan-
tes, para que sua formaaio ocorresse em
contato cor o alvo de seu trabalho. Mas
esse process nao pode acontecer em
condioqes precirias: o "iltimo grito" em
ciencia e tecnologia seria dado na Ama-
z6nia, em equipamentos e em pessoal.
Todo esse esforqo sendo orientado pela
construqio e implantaqao do zoneamen-
to ecol6gico-econ6mico, nao como um
jogo virtual, manobrado em computado-
res postados na retaguarda, mas na linha
de frente da hist6ria.
Utopia? Certamente. Mas a Amaz6-
nia 6 um dos poucos lugares do mundo
em que a utopia pode se tornar realidade
em pouco tempo. Afinal, 6 onde a utopia
esti sendo destruida a cada verao, entire
desmatamentos e queimadas. Nio 6 onde
a 6ltima pigina do Genesis.esta virando
grafismo de mau gosto? Portanto, mios
a obra. Ji!

(Este artigo foi escrito para o
journal que acaba de circular no
campus da Universidade Federal
do Pard anunciando, para 2007,
a prdxima reuniio annual da
Sociedade Brasileira para o
Progresso da CiOncia SBPC.)


Jornal Pessoal IQUINZENA FEVEREIRO DE 2006 9









MEMORIA DO COTIDIANO


Belem em 1967


Jari
Bel6m viu, com grande
curiosidade, passar pelo
porto 100 burros trazidos de
Fortaleza, no Ceard, cor
destino ao rio Jari. Nessa
6poca a propriedade de
Armando Teixeira era
transferida ao control do
miliondrio americano Daniel
Keith Ludwig, que ali
comegaria a executar o seu
Projeto Jari. Os animals
foram acompanhados por
seus tratadores, que
tamb6m traziam grande
quantidade de forragem.
Mas logo os burros, que
deviam ser usados no
transport de castanha,
seringa e outros produtos
extrativos, se tornariam
defasados.
Junto cor os burros
vieram tamb6m alguns
cavalos. A principio, os
curiosos imaginaram que
essa carga seria para um
acougue da Praqa Brasil, o
6nico que abatia e servia
caree de cavalo aos seus
clients.


Navegagao
A Booth Line programava, no final do ano, a
saida de Bel6m de dois dos seus navios (o "Cle-
ment" e o "Crispin") na linha cor a Europa e
de outros tres ("Valiente", "Athaualpa" e "Ve-
ras") na linha corn a Am6rica do Norte. Em
antincio na imprensa, avisava Bs pessoas inte-
ressadas em ir a bordo que "deverio obter li-
cenqa privia da Guarda-Moria", advertindo que
"aos Armadores, Comandantes, Tripulaqio,
Agentes ou prepostos nao cabem quaisquer da-
nos, acidente ou incident a bordo oriundos des-
sas visitss.
A Booth, que atendia em prddio pr6prio,
na subida da avenida Presidente Vargas, es-
trategicamente pr6ximo do porto (demolido
para que em seu lugar surgisse um pr6dio
modernoso), aceitava "cargas em conheci-
mentos diretos cor baldeaqio para portos
das rep6blicas sul-americanas, para portos


do Mediterraneo, Africa, India, Australia.
Nova Zelindia e outros pauses".
Engragado: Bel6m parecia mais cosmo-
polita do que hoje.

Loide
Ja a Cia. de Navegaqio LLoyd Brasileiro
oferecia os serviqos de dois dos seus navi-
os de Passageiros: o "Anna Nery", que de
Bel6m seguiria para o Sul (Fortaleza, Reci-
fe, Salvador e Rio de Janeiro) e o "Prince-
sa Isabel", tamb6m no mesmo rumo, duas
semanas depois. Os seus navios de carga
eram o "Barao do Amazonas" (para Ma-
naus), "Cidade de Bel6m" (Sio Luis, For-
taleza, Recife, Salvador, Rio de Janeiro,
Santos, ParanaguA e Antonina), "Bario do
Rio Branco", "Rio Mossor6", "Rio Jaguari-
be", "Rio Tocantins" e "Rio Iguassu", to-
dos seguindo para Manaus.


PROPAGANDA

A moda masculine
Antincio de 1955 da Duplex Publicidade (de Romulo Maiorana),
anunciando a instalacgo em Bel6m das Lojas Seta, rede de confec-
q6es masculinas origindria do Nordeste, que chegaria a ter tres
lojas em Bel6m, sendo um dos pontos da moda atW a d6cada de 80.


I PARA OMENS
Rue Conselheiro Joio Alfredo, n. 68.
1. 34.581)


Porto
A Companhia das Docas
do Pard adquiria na
Alemanha nove
guindastes, que seriam
instalados nos armaz6ns 11
e 12 do cais de Bel6m, no
qual atuavam apenas tres
guindastes. Corn isso, a
CDP pensou em demolir os
armazens 1, 2 e 3, "cor a
finalidade de urbanizar
aquela Area, onde seriam
feitos jardins e outras
obras de embelezamento".
Mas as obras s6 seriam
executadas "se for
constatado que a
capacidade dos armaz6ns
11 e 12 venha a compensar
a demoli io". Ela se
tornaria inevitdvel, todavia,
"com a construqio do novo
porto, em Icoaraci".
A questio estd
novamente na pauta.


Sauna
O "Hidroterdpico", na
Generalissimo Deodoro,
oferecia tratamento
para emagrecer atrav6s
de sauna e ducha, cor
instalac6es equipadas
para os dois sexos, em
dependencias
"completamente
isoladas". 0 sector
feminine estava sob a
orientalio da dra.
Marina Lemos. Dois
professors, Vania
Bibas e Augusto
Rodrigues, davam aulas
de gindstica feminine.
O setor masculine
obedecia ao comando
dos m6dicos
Guilherme Chaves e
Amilton Santos. Havia
ainda, diariamente,
bal6, jud6, karate e
"alteres".


10 FEVEREIRO DE 2006 IQUINZENA Jornal Plessoal













































Orquideas
Em 1967 as orquideas ainda ndo haviam chegado ao poder,
mas a Sociedade Paraense de Orquid6filos era muito orga-
nizada et pour cause, talvez. A nova diretoria que tomou
posse nesse ano tinha Guido Pabst como patrono e Luis de


Mendonga e Silva como
president de honra. A di-
retoria executive era co-
mandada por LUcio Salga-
' do Vieira, tendo ainda H&-
lio Marinho de Azevedo,
Carmem Mergulhio, Jiro
Hiroguchi e Camilo Nasser
como seus integrantes. O
pintor Roberto de La Roque
Soares era o desenhista e
Roger Arl6 o fot6grafo. O
Conselho Tdcnico reunia
Dalcy Albuquerque e Paulo
Cavalcante, dentre outros.


Hirondelle
Cor todos os seus 52
assentos ocupados por
convidados, o "Hirondelle", o
primeiro turbodlice da
Paraense Transportes Adreos,
fez, em novembro, seu v6o
inaugural, sobrevoando
Beldm e adjacencias. O
atrativo do aviio eram suas
amplas janelas e suas asas
altas, que permitiam uma
visao panoramica aos seus
passageiros. As primeiras
linhas do "andorinha" (em
frances, hirondelle, batismo
dado por Oswaldo Mendes)
seriam Belm-Santardm-
Manaus e Beldm-Sao
Paulo.


LIVRO
Continue venda nas bancas e em algumas livrarias meu livro, Guerr
Amaz6nica (ediao Jornal Pessoal, 300 piginas, R$ 30,00). Espero que
os leitores se interessem por ele. Poder ajudd-los a responder a
muitas duvidas e questionamentos sobre a atuaajo da imprensa no --.
Para nos ultimos anos. E a desfazer equivocos e mitos. "
*


FOTOGRAFIA

Antes do

shopping
A rua mas na verdade ave-
nida Padre Eutiquio ainda
se permitia, naquele 1960 que
jdi vai long, ter palmeiras im-
periais, como essas duas, no
fundo de cena da muito apre-
ciada Mesbla, a maior loja de
departamentos da epoca, que
desapareceu para em seu lu-
gar surgir o Shopping Igua-
temi. Revendedora Ford, a
Mesbla mandou publicar a
foto dos caminhoes que ia
vender a clients como Forca
e Luz, Coca-Cola, Pepsi-
Cola, Ocrim do Brasil, Esso
Brasileira de Petr6leo, Cons-
trutora Gualo, Rodofranc,
Conama, Para Industrial e
outras firms, a maioria de-
las jd extintas. Conio a pro-
pria Mesbla, alicis, que afun-
dou Inuma hist6ria confusa e
desonrosa do seu proprietd-
rio. A mnemnria dela, porem,
continue viva. E boa.


Jornal Pessoal I'QUINZENA FEVEREIRO DE 2006 1


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Livros as mancheias


E cor enorme tristeza que vejo as
semanas comecarem e acabarem sem
que consiga dar cabo de tantos livros
que se avolumam a cabeceira. Para
partilhar o prazer da leitura com meus
companheiros de viagem, mando-lhes
estas dicas, enquanto me falta tempo
para as resenhas necessirias dos se-
guintes livros:
O segundo volume dos Ensaios
Reunidos, de Otto Maria Carpeaux, pu-
blicados entire 1946 e 1971 (UniverCida-
de/Top Books). O vienense Carpeaux,
com tres meses de Brasil, ji lia, falava e
escrevia em portugues. Tornou-se um
clissico na lingua. E o maior jornalista
cultural de toda hist6ria da imprensa bra-
sileira. Pena que a reuniao do que espa-
lhou porjornais e revistas s6 saia em por-
tugues. E um acontecimento de signifi-
cacao international. Foi um dos homes
mais cultos de sua 6poca.
A Modinha no Grdo-Pard, livro
de Vicente Salles, em ediqio primorosa
da Secretaria de Cultura e do Instituto
de Artes do Pard. Um estudo de f6lego e
inventive sobre a ambientagqo e a recri-
ac~o da modinha em terras amaz6nicas.
Praticamente inaugura essa vertente.
Cr6nica de duas cidades: Be-
lem e Manaus, outro primoroso traba-
lho editorial da Secult, di passage a
Benedito Nunes e Milton Hatoum, duas
das melhores cabecas da regiio. O li-
vro aparece em moment propfcio a
reflexes sobre a trajet6ria e os desti-
nos das duas metr6poles amaz6nicas.
Vistas aqui cor amor, mas sem paixao
ou preconceitos.
Velho Pedro vai para casa, lindo
livro de poesia de Pedro Galvdo, em ca-
prichada segunda ediq~o do autor, 20 anos
depois da primeira. O poeta, penetrando
na alma de seu pai, atravessa tamb6m a


alma da cidade, que ambos amaram e
o filho ainda ama. De modo singelo e com
uma intimidade que faz desse livro um
dos moments mais altos a que versos
em portugu8s ji elevaram uma cidade.
Por estas rimas, Bel6m se equipara a Sao
Luis, de Ferreira Gullar.
Sapos e Estrelas, cr6nicas reunidas
de Machado Coelho, um escritor de apu-
rado acento na cultural francesa e senso
critic refinado, que merece sair dos limi-
tes paroquiais, em edicao patrocinada por
sua familiar para reavivar-lhe a mem6ria.
Podiam aproveitar os herdeiros e reeditar
Minhas canoes de Verlaine, que saf-
ram em 1951, cor capa de Peter Paul
Hilbert e introdug~o de Francisco Paulo
Mendes, o saudosissimo "Chiquinho". t
uma preciosidade, de 67 paginas. O resul-
tado do trabalho de Machado Coelho pode
ser confrontado corn o original. Como todo
tradutor consciente, ele fez uma edicao de
bilingiie dos versos sonoros e langorosos
do poeta frances.
Batuque. A pr6pria famflia de Bru-
no Menezes se encarregou de mais
uma edic~o, a s6tima e melhor, deste
livro singular na literature brasileira.
Jorge de Lima que desculpe, mas este
Batuque 6 melhor do que Essa nega,
Fulo. Um registro complete de uma
cultural que se diluiu, cor seus acentos
er6ticos, sensuais, afetivos. Edic~o em
bom moment para os vestibulandos,
mas oportuna para todos.
A questao geopolitica da Ama-
zdnia (Da soberania difusa i sobe-
rania restrita) 6 um alentado estudo
(de 537 piginas) de Nelson Ribeiro, que
sai como o volume 64 das Ediq6es do
Senado Federal. Cor pesquisa meticu-
losa e rigorosa, bem ao estilo do ex-
ministro da Reforma Agrdria, 6 fonte
de refernncia sobre o tema.


NOVO MINISTRY NO STF
Os colegas de Enrique Ricardo Lewan-
dowski na Escola de Sociologia e,Politica
de Sao Paulo, entire o fim da d6cada de 60
e os primeiros anos 70 do s6culo passado,
jamais podiam imaginar que ele um dia che-
garia a ministry do Supremo Tribunal Fe-
deral. Tamb6m nio passava pela cabeqa
daqueles jovens que o professor Fernan-
do Henrique Cardoso seria president da
Repdblica e em dois mandates segui-
dos, pela primeira vez na hist6ria do pafs.
Mas todos sabiam que Ricardo teria uma
carreira vitoriosa, assim como a ambiqio
levaria muito long o future FHC.
No infcio do mes Ricardo Lewando-
wski foi indicado pelo president Lula para
substituir o ex-ministro Carlos Velloso no
STE Antes de assumir o cargo, o novo
ministry ainda seri sabatinado pelo Sena-
do, mas ningu6m que conhece o persona-
gem duvida de sua aprovagao. Ja nos ban-
cos da Sociologia, que frequentava ao
mesmo tempo em que cursava Direito em
Sao Bernardo do Campo futurea base polf-
tica de Lula), Ricardo foi um aluno aplica-
do, s6rio, inteligente e com objetivos bem
definidos. Fiel is origens do pai, um indus-
trial polon8s, era uma pessoa disciplinada.
Observava todas as regras, enquanto n6s,
mais coerentes com o espirito da contesta-
qo, as pdnhamos em ddvida. No minimo.
Um ano mais velho do que eu, Ricar-
do foi um excelente colega e um compa-
nheiro aberto is brincadeiras, quando nos
reunfamos para as famosas "festas da So-
ciologia", uma das quais realizada no si-
tio da famflia dele, nos arredores de Sao
.Paulo. Quando nos formamos, nossos
caminhos se separaram. Ao saber que ele
galgara o Tribunal de Justica de Sao Pau-
lo, jovem e conceituado desembargador,
planejei uma visit de reencontro para Ihe
manifestar minha satisfaqio e orgulho
com sua vit6ria.
Mas essa visit se foi adiando e acabei
por esquec8-la, at6 dias atris, quando a
noticia de sua designaqdo para o STF ocu-
pou espagos na imprensa national. Fiquei
feliz, mais uma vez, com a nova conquista
do antigo colega. Lula, final, fez uma es-
colha acertada na mais alta corte dajusti-
ga brasileira. A indicaqao de Ricardo de-
veri servir de contraponto aos desacertos
do atual president do Supremo, Nelson
Jobim. E contribuir para distanciar a corte
das interfer8ncias political, inclusive as que
vinham sendo ensaiadas no (e pelo) go-
vero Lula. Que assim seja, am6m.

.; jo rnal;.i" 'Ppessoal 1-L"
Editor:Jl.pFIdv .."to..
o do Art,0I A. de Fari Pnio
S.PraodviJo:'Angelin'fPtnto:
CoWttOT.WeBojasnin Gonosant 6403/66 053.
i PtO4O Foram'9) 324,6ao9
'-'-- *";" E-mali: Jomalaanazon oom.br


JORNALISMO
Duas mat6rias safram na mesma pigina de O Liberal sobre a
interdiq~o da ferrovia de Carajis por 200 indios Guajajara, do
Maranhdo. Em meia pigina, antincio da Companhia Vale do Rio Doce
esclarecendo que o ato nio era contra ela e sim contra a Funasa e a
Funai. Em cima, em espaco muito menor, uma mat6ria dojornal. S6
que a mat6ria reproduzia exatamente o texto do andncio da Vale e
nada mais.
Antincio faturado, o journal, em mat6ria de Funasa e indios, parece
s6 se interessar por assuntos paraenses. O motivo, ji foi provado:
porque a Fundaq~o Nacional de Sadde tem a dirigi-la algu6m indicado
pelo deputado federal Jader Barbalho. Esta circunstincia pode at6
agravar a gestdo da Funasa da questdo indigena no Estado, mas os
outros exemplos revelam que o problema 6 muito mais amplo e antigo.
Isto, por6m, sdo literalmente outros 500.




Full Text
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